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Projeto de Pesquisa –

suas funções e partes constitutivas 1


José D’Assunção Barros2

Resumo
O artigo propõe-se a discutir, de modo didático, aspectos introdutórios
relacionados à elaboração de um Projeto de Pesquisa. Discutem-se os motivos
e razões para a utilização deste recurso de planejamento de pesquisa que é
o Projeto, e as partes que o constituem. O texto remete a um livro mais
aprofundado publicado pelo autor, e apresenta este livro como referência
única devido à singularidade do artigo, que é a de apresentar-se como
convite para que o leitor procure esta obra para maiores aprofundamentos.

Palavras-chave: projeto, pesquisa, metodologia, teoria, planejamento.

Abstract
The article proposes to discuss, in a didactic way, introductory aspects
pertinent to the elaboration of a Research Project. They are discussed the
motives and reasons for the utilization of this resource of research planning,
that is the Project, and they are discussed also the parts that constitute a
Project. The text refers to a book more developed that was published by
the author, and presents this books as reference, in order to attend to its
singularity, that is to invite the reader to search this work for more deep
approach.

Keywords: project, research, methodology, theory, planning.

1 Para que escrever um Projeto de ser construídos a cada momento pelo próprio
Pesquisa? pesquisador. Até mesmo a escolha do lugar a
ser alcançado ou visitado não é mera questão
Iniciar uma Pesquisa, em qualquer campo de apontar o dedo para um ponto do mapa,
do conhecimento humano, é partir para uma pois este lugar deve ser, também ele, construído
viagem instigante e desafiadora. Mas trata-se, a partir da imaginação e da criatividade do
decerto, de uma viagem diferente, onde já não investigador.
se pode contar com um caminho preexistente Delimitado o tema, o problema a ser inves-
que bastará ser percorrido após a decisão de tigado, e os objetivos a serem atingidos, o
partir. Se qualquer viagem traz consigo uma pesquisador deverá em seguida produzir ou
sensação de novidade e de confronto com o des- constituir os seus próprios materiais – pois
conhecido, a viagem do conhecimento depara- não os encontrará prontos em uma agência
se adicionalmente com a inédita realidade de de viagens ou em uma loja de artigos apro-
que a estrada e o percurso da Pesquisa devem priados para a ocasião – e isto inclui desde

1
O artigo aqui apresentado sintetiza o capítulo inicial de um livro publicado pelo autor: BARROS, José D’Assunção, O Projeto de Pesquisa em História
(Petrópolis: Vozes, 2008, 4ª edição).
2
Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor visitante da Universidade Federal de Juiz de Fora (Juiz de Fora) e
Professor Titular da Universidade Severino Sombra (USS) de Vassouras (Brasil). E-mail: jose.assun@globo.com
educação, ciência e tecnologia

os instrumentos necessários à empreitada até os os capítulos de sua dissertação, à medida que


modos de utilizá-los. É assim que, se qualquer vai levantando e analisando os seus materiais
viagem necessita de um cuidadoso plane- (como na História ou na Sociologia), ou à
jamento – de um roteiro que estabeleça as medida que vai realizando os seus experimen-
etapas a serem cumpridas e que administre os tos (neste último caso, considerando ciências
recursos e o tempo disponível – mais ainda a como a Física ou a Química). Se ele passa a ela-
viagem da Pesquisa Científica necessitará borar o seu Projeto, a contragosto, é porque
deste instrumento de planejamento, que neste se acha obrigado a isto institucionalmente, uma
caso também será um instrumento de elabora- vez que deverá defendê-lo a certa altura do seu
ção dos próprios materiais de que se servirá curso em um evento que nas universidades
o viajante na sua aventura em busca da cons- brasileiras chama-se “exame de qualificação”.
trução do conhecimento. Este é o papel do Já com relação ao pesquisador que par-
Projeto na Pesquisa Científica. ticipa de um Programa de Pós-Graduação em
O Projeto de Pesquisa deve ser, natural- nível de Doutorado, este, na maior parte dos
mente, um instrumento flexível, pronto a ser casos, já deve ter elaborado o seu Projeto antes
ele mesmo reconstruído ao longo do próprio de ter ingressado no Programa – e neste caso
percurso empreendido pelo pesquisador. Se o Projeto terá assumido para ele, para além
o conhecimento é produto da permanente do papel de uma exigência institucional, a
interação entre o pesquisador e o seu objeto função de uma “carta de intenções” a partir
de estudo, como tende a ser considerado nos da qual ele procurou convencer a banca exa-
dias de hoje, as mudanças de direção podem minadora de que era um candidato interes-
ocorrer com alguma freqüência, à medida que sante para o Programa.
esta interação se processa e modifica não apenas Por outro lado, para além dos ambientes
o objeto de estudo, mas o próprio estudioso. acadêmicos e universitários, com freqüência
Ao se deparar com novas fontes, ao ima- uma pesquisa é proposta pelo seu executante
para ser financiada por organizações nacionais
ginar novas hipóteses, ao se confrontar com as
e internacionais, por institutos e órgãos de
inevitáveis dificuldades, ao produzir novos
fomento à pesquisa, e também por empresas
vislumbres de rumos possíveis, ou ao amadu-
da caráter privado ou estatal. Os professores
recer no decorrer do próprio processo de pes-
que atuam nos meios universitários também
quisa, o investigador deverá estar preparado
devem, na maior parte das vezes, registrar as
para lidar com mudanças, para abandonar pesquisas que estão realizando como parte
roteiros, para antecipar ou retardar etapas, para de suas atividades docentes. Em todos estes
se desfazer de um instrumento de pesquisa casos, a elaboração do Projeto de Pesquisa
em favor do outro, para repensar as esquema- se apresenta novamente como uma exigência
tizações teóricas que até ali haviam orientado necessária, e a incapacidade de atender a esta
o seu pensamento. Neste sentido, todo Projeto exigência de maneira minimamente satis-
é provisório, sujeito a mutações, inacabado. fatória pode implicar perda de oportunida-
Diante deste caráter provisório e inaca- des profissionais importantes.
bado do Projeto, o pesquisador iniciante freqüen- Em que pesem estes aspectos institu-
temente se vê tentado a supor que elaborar cionais de que se pode ver revestido, um Pro-
um Projeto é mera perda de tempo, e que me- jeto de Pesquisa é na verdade muito mais do
lhor seria iniciar logo a pesquisa. Da mesma que isto. Assim, contrariamente à falsa idéia de
forma, o estudioso que acaba de ingressar em que o Projeto é meramente uma exigência for-
um Programa de Mestrado, o estudante que mal e burocrática, ou de que se constitui apenas
está em vias de elaborar a sua Monografia de naquele recurso necessário para a Instituição
final de curso ou de pós-graduação, ou o alu- selecionar candidatos a pesquisadores ou ava-
no envolvido em uma pesquisa de Iniciação liar o seu desempenho, o estudioso mais ama-
Científica, não raro se põem a perguntar se durecido sabe que o Projeto é efetivamente
não seria mais adequado começar já a escrever uma necessidade da própria pesquisa. Sem o

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LIBERATO
Projeto, ele sabe que a sua viagem se transfor- Certamente que a principal função de um
mará em uma caminhada a ermo, que os re- Projeto de Pesquisa é a de apresentar a sua
cursos em pouco tempo estarão esgotados por responsabilidade social – considerando que
falta de planejamento, e que os próprios ins- o Projeto é também um elo entre o Pesquisa-
trumentos necessários para iniciar a viagem, dor e a sociedade que o acolhe, seja no que
para dar um passo depois do outro, sequer se refere àqueles que possibilitarão a pro-
chegarão a ser elaborados. Ademais, sempre é dução e desenvolvimento da pesquisa en-
bom ressaltar que uma das principais finalida- quanto base de apoio ou mesmo como objeto
des do Projeto, além de visar a definição pre- de análise, para o caso das Ciências Sociais e
cisa do que será pesquisado, é registrar do por- Humanas, seja no que se refere à própria socie-
quê e do para que realizar a pesquisa (isto é, a dade para a qual se direcionam os resultados
sua responsabilidade social), o que, via de re- da Pesquisa. O Projeto, naturalmente, é registro
gra, conforme veremos, deverá ser esclareci- de uma relevância social e acadêmica, de um
do em um item bastante específico do Proje- compromisso com a sociedade e a comunidade
to que é a ‘Justificativa’. científica. Reconhecendo esta dimensão fun-
Retomando a questão de que o Projeto damental de um Projeto de Pesquisa, estare-
corresponde à própria constituição dos mate- mos, em seguida, considerando aquelas funções
riais e rumos a serem trilhados pela Pesquisa, do Projeto que se relacionam mais diretamente
sem o Projeto, o pesquisador mais experiente com o próprio planejamento e desenvolvimento
sabe que não existe sequer um caminho, uma da Pesquisa.
vez que este deve ser construído gradualmente No esquema proposto, encontraremos
a partir de materiais elaborados pelo próprio as já mencionadas funções formais ou buro-
pesquisador – sendo a elaboração do Projeto cráticas, que os pesquisadores iniciantes con-
simultaneamente o primeiro passo da cami- fundem com a única razão de ser do Projeto,
nhada e o primeiro instrumento necessário mas também as funções operacionais, que são
para se pôr a caminho. O Projeto de Pesquisa, inerentes à própria realização de uma Pes-
desta maneira, mostra-se a este pesquisador quisa em si mesma. Assim, se o Projeto é uma
precisamente um ganho de tempo, um agili- “carta de intenções” (1) onde o pesquisador
zador da pesquisa, um eficaz roteiro direcio- exibe a sua proposta investigativa para uma
nador, um esquema prévio para a construção instituição acadêmica ou científica, e se ele é
dos materiais e técnicas que serão necessários um “item curricular” nas instituições de Pós-
para alcançar os objetivos pretendidos. Graduação (2), o Projeto é também um pode-
O “Quadro 1” procura resumir algumas das roso instrumento que cumpre as funções de
principais funções de um Projeto de Pesquisa. “direcionador da pesquisa” (3).

Quadro 1 – Funções do Projeto de Pesquisa

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educação, ciência e tecnologia

Neste último particular, o pesquisador Alguns destes diálogos, em se tratando


que pretenda iniciar sem um Projeto a sua das pesquisas de Pós-Graduação, encontram
viagem de construção do conhecimento, cedo precisamente o seu lugar nos momentos em
perceberá que o próprio tema lhe parece fugir que o pesquisador expõe o seu Projeto a pro-
constantemente. Facilmente o pesquisador pode fessores e colegas nos vários seminários que
se pôr a perder em uma floresta temática, que habitualmente constituem parte dos itens curri-
lhe oferece mil direções e possibilidades, até culares de um curso de Mestrado ou de Dou-
que perceba que, dentro de um tema mais torado. O próprio “Exame de Qualificação” é
amplo, é preciso recortar, criar um problema, precisamente um momento maior nesta rede
estabelecer uma direção, e que o Projeto vai permanente de diálogos – um momento algo
lhe permitir precisamente a efetivação destes ritualizado em que o pesquisador apresenta
múltiplos recortes que tornarão a sua pesquisa o seu trabalho a alguns professores para receber
possível, viável e relevante. críticas e sugestões que o ajudarão a aperfeiçoar
Esta constituição gradual e sistemática o seu trabalho e a encontrar novos caminhos.
de um objeto de pesquisa não necessita apenas O Projeto cumpre, desta forma, oferecer
de uma direção e de um recorte delimitador, o “retrato de uma pesquisa em andamento”
mas também de um planejamento. Aqui, o (7). Neste momento, em se tratando de uma
Projeto vem trazer outra contribuição, uma pesquisa que visa a elaboração de uma Dis-
vez que em uma de suas instâncias ele se sertação de Mestrado, é lícito chamar o pro-
constitui em um “roteiro de trabalho” ou em jeto de “Projeto de Dissertação” (ao invés de
um instrumento de planejamento (4) sem o “Projeto de Pesquisa”, expressão que impli-
qual o pesquisador desperdiçaria os seus recur- caria uma investigação que ainda está por se
sos, perdendo-se em uma investigação não realizar ou que, no máximo, anunciaria pro-
sistematizada para ficar a meio caminho dos cedimentos ainda exploratórios). No caso
objetivos que sequer chegou a explicitar de de um “Projeto de Dissertação”, que o estu-
maneira mais clara para si mesmo. dante de mestrado apresenta já na metade do
Sobretudo, o Projeto é um eficaz “ins- seu curso, a Pesquisa já deve se encontrar
trumento para elaboração de idéias” e para em estágio mais avançado e definido, e daí a
auto-esclarecimento de quem o produz (5). pertinência desta mudança de designação.
Ao elaborar um quadro teórico ou ao pensar Deve-se mencionar ainda que, neste e
metodologias, ao construir hipóteses e fixar em outros casos, é aconselhável, ou mesmo
objetivos, ao empreender uma revisão biblio- imprescindível, acrescentar ao Projeto um
gráfica que colocará o pesquisador diante da “Plano de Capítulos”, no qual devem estar
literatura já existente sobre o assunto, o Pro- sumariados, de modo sintético e preliminar,
jeto vai gradualmente esclarecendo aquele os capítulos pretendidos para o texto final da
que o produz, dando-lhe elementos para Dissertação de Mestrado ou Tese. Em tempo:
articular melhor as suas idéias e confrontá- este “plano de capítulos” é também provisório,
las com o que já foi feito naquele campo de sujeito a mudanças e redefinições, e as próprias
conhecimento. sugestões recebidas pela banca examinadora
Mais ainda, o Projeto permite que a pes- podem contribuir para este redirecionamento
quisa em andamento seja exposta aos olhares que poderá conduzir a uma nova organiza-
de outros pesquisadores, sejam professores ção de capítulos.
e profissionais mais experientes, que incluem
o orientador da dissertação ou da tese, sejam
2 As partes de um Projeto de Pesquisa
os colegas de mesmo nível, também capazes
de contribuir significativamente para uma pes- Conforme pudemos ver, o Projeto cum-
quisa que, sabe-se muito bem, nunca é um pre múltiplas funções e finalidades no trabalho
trabalho exclusivamente individual. O Projeto de Pesquisa. Ele procura antecipar algumas
torna-se, desta maneira, um instrumento para perguntas fundamentais relacionadas à Pes-
o “diálogo científico e acadêmico” (6). quisa proposta, tanto no sentido de dar uma

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LIBERATO
satisfação a terceiros (quando for o caso) como delimitações, bem como integrar recortes simul-
no sentido de promover um auto-esclarecimento tâneos que podem remeter a um tempo, a um
para o próprio pesquisador e um delineamento espaço, a um problema investigado. Por ora,
preciso do recorte temático, de cada etapa, de de uma maneira um tanto simplificada, dire-
cada instrumento, de cada técnica a ser abordada. mos que é precisamente aqui que o pesqui-
Assim, ele responde de antemão às seguintes sador deve esclarecer ao seu leitor qual é o
perguntas relacionadas à pesquisa proposta: objeto de sua investigação ou da sua realiza-
O que se pretende fazer? Por que fazer? Para ção científica.
que fazer? A partir de que fundamentos? Com “Por que fazer?” é uma pergunta impor-
o que fazer? Como fazer? Com que materiais? tante, que interessa particularmente àqueles
A partir de que diálogos? Quando fazer? que irão decidir se o seu projeto deve prosse-
guir, se deve ser financiado, se pode ser aceito
Cada uma destas perguntas remete, em
em um programa de pesquisa ou de Pós-
princípio, a uma parte específica do Projeto
Graduação. O capítulo do Projeto que busca
– a uma espécie de compartimento redacional
esclarecer isto, de forma bem convincente e
onde o pesquisador procura esclarecer de ma- argumentativa, denomina-se, habitualmente,
neira clara e precisa, para os outros ou para ‘Justificativa’ (2). Não raro, também acrescen-
si mesmo, as várias instâncias que devem ta-se a esta denominação as palavras ‘relevân-
alicerçar o seu trabalho (Quadro 2). cia’ ou ‘viabilidade’, que no fundo não são mais
“O que fazer?”, por exemplo, é uma per- do que aspectos específicos de uma ‘justifi-
gunta que se busca esclarecer logo de princípio, cativa’ no seu sentido mais amplo.
na “Introdução” do Projeto e, eventualmente, “Para que fazer?” vincula-se ao estabele-
em um capítulo denominado ‘Delimitação cimento de objetivos a atingir – dando origem
Temática’ (1) ou ‘Exposição do Problema’ (estes a um capítulo bastante conciso que se refere
nomes variam muito, de instituição a institui- às finalidades a serem alcançadas, freqüen-
ção, e não devem ser tomados como parâmetros temente enunciadas em ordem numérica e da
absolutos). Veremos mais adiante que a res- maneira mais simples possível. Este capítulo
posta a esta pergunta deve sofrer sucessivas recebe, normalmente, o título de “Objetivos” (3).

Quadro 2 – As partes de um Projeto de Pesquisa

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educação, ciência e tecnologia

“A partir de que fundamentos?” remete sobre os quais irá trabalhar – materiais que não
a todo um conjunto de possibilidades teóricas são propriamente aparelhos e ferramentas, mas
ou mesmo de visões de mundo que, pelo sim a matéria-prima que sofrerá a intervenção
menos em parte, o pesquisador já deve trazer das ferramentas e instrumentais diversos.
consigo ao iniciar a sua viagem produtora de No caso da História, para dar o exemplo
conhecimento. O capítulo que busca concentrar de uma das ciências humanas, esta espécie
a referência a estes aspectos fundamentais, de matéria-prima fundamental da qual preci-
verdadeiros alicerces mentais que nortearão sará partir o historiador que empreende a sua
as ações e as escolhas feitas pelo pesquisador, viagem ao passado é a “fonte” ou o “docu-
denomina-se “Quadro Teórico” (4). Trata-se mento histórico”. É conveniente dissertar sobre
aqui, de definir desde as filiações mais amplas, as “fontes” que serão utilizadas, antes de dis-
até os conceitos, expressões e categorias que correr sobre as metodologias que serão utili-
serão utilizados na elaboração reflexiva e na zadas para constituí-las em um corpus docu-
sua exposição de resultados. mental definido e para interpretá-las. Daí ser
“Com o que fazer?” e “Como fazer?” são bastante comum a designação ‘Fontes e
indagações que reenviam respectivamente aos Metodologia’ em um Projeto de História
instrumentos e às técnicas de pesquisa. De (equivalente a ‘Materiais e Metodologia’ em
fato, um “instrumento” é aquilo com o que se projetos experimentais vinculados ao campo
faz, e remete aos recursos de natureza material das ciências exatas).
ou mesmo abstrata que serão empregados Deve-se acrescentar que a Metodologia,
como verdadeiras ferramentas para a pesquisa. para muito além do mero registro dos materiais
Neste caso, são ‘instrumentos’ um cronômetro e e técnicas, deve apresentar essencialmente a
uma balança, um tubo de ensaio (para o caso caracterização da abordagem que a pesquisa
de pesquisas nas áreas das ciências exatas e pretende utilizar em seu desenvolvimento,
biológicas) mas também um formulário, um considerando o problema e seus objetivos.
questionário, ou mesmo um gráfico que se Neste sentido, a Metodologia pressupõe todo
elabora para acondicionar os dados colhidos um referencial ontológico, epistemológico do
e prepará-los para a interpretação. pesquisador.
Já uma ‘técnica’ remete ao modo de rea- “A partir de que diálogos?” é a pergunta
lizar algo, e abrange procedimentos como as que situa uma Pesquisa em uma rede de intertex-
coletas de informações, as entrevistas, as ma- tualidades com outros autores. Dito de outra
neiras sistematizadas de empreender obser- forma, indaga-se aqui pelos “interlocutores”
vações, e também as análises de conteúdo, as da reflexão a ser realizada. Dificilmente uma
análises estatísticas, ou outras metodologias pesquisa científica parte do “ponto zero” (se é
destinadas à interpretação dos dados que foram que já existiu alguma que o tenha feito na his-
coletados ou captados. Enfim, as “técnicas” tória do conhecimento humano). Nem que seja
podem se referir tanto à coleta de dados e à para contestar radicalmente os autores prece-
constituição de documentação, como também dentes que já se debruçaram sobre o mesmo
às análises destes dados e destas fontes. problema, o pesquisador precisa inserir a sua
Os instrumentos e técnicas são habitual- reflexão em um diálogo implícito ou explícito
mente acondicionados em um capítulo bastante com a literatura e com o conhecimento já
importante do Projeto, e que se denomina existente. Mais comum é que, além das even-
“Metodologia” (5), “Métodos e Técnicas”, tuais contestações e correções a autores prece-
“Procedimentos Metodológicos”, ou algo do dentes, o pesquisador também encontre autores
gênero. Também é utilizada, talvez de ma- e obras que lhe servirão como pontos de apoio,
neira ainda mais apropriada, a designação como alavancas para se impulsionar para mais
“Materiais e Metodologia” (“Fontes e Metodo- adiante, como inspiração para novos rumos e
logia”, por exemplo, para o caso da História). abordagens.
É uma designação interessante quando o pesquisa- É neste sentido que, em um Projeto de
dor precisa descrever também os materiais Pesquisa, não pode faltar o que se poderia

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LIBERATO
chamar de uma “Revisão Bibliográfica”. Alguns Isto seria exaustivo, quando não impossível.
modelos de Projeto atribuem um capítulo es- Algumas obras podem apenas ser referen-
pecial a este levantamento crítico, no qual o ciadas no compartimento final do Projeto, a
pesquisador irá apresentar e discutir algumas “Bibliografia” ou “Referências Bibliográficas”
das obras preexistentes que serão reapropriadas (8). Outras obras, consideradas pouco impor-
no seu trabalho, seja sob a forma de assimilação tantes para a pesquisa, sequer precisam apa-
ou de confronto. Mas, por outro lado, o já recer. O que não pode faltar são as fontes mais
mencionado “Quadro Teórico”, que vimos ser diretas, que no caso de uma pesquisa
aquele capítulo em que o pesquisador expõe historiográfica, por exemplo, são os chamados
o seu referencial teórico e os conceitos de que “documentos” ou “fontes históricas”. Estas
irá se valer, pode também incluir como item a “fontes primárias”, aliás, devem aparecer se-
revisão bibliográfica, já que, de algum modo, paradas da “bibliografia geral”, precedendo-a.
esta revisão também representa uma base de Ou seja, no caso dos projetos de História o
teoria da qual partirá o pesquisador para ela- capítulo “Bibliografia” deve ser organizado
borar as suas próprias reflexões. em dois itens distintos, um relativo à docu-
O importante é que este item (ou o seu mentação de época ou mais diretamente assi-
conteúdo) esteja efetivamente presente, em- milada como material primário pertinente ao
bora sem repetições. Portanto, se foi destacado problema examinado, e outro relacionado às
um capítulo especial para a “Revisão Biblio- obras de autores vários que refletiram sobre
gráfica” (que muitas vezes aparece logo de- o mesmo tema, e que constituem o diálogo
pois da “Introdução” ou a da “Delimitação intertextual estabelecido pela Pesquisa.
Temática”) as obras ali mencionadas não de- “Quando fazer?” é a pergunta que re-
vem ser rediscutidas no “Quadro Teórico”. É mete à temporalidade relacionada à duração
possível também discutir algumas obras na “Re- da pesquisa, ao planejamento das suas várias
visão Bibliográfica”, mais diretamente ligadas etapas. Toda pesquisa deve ser proposta em
ao tema, e deixar para o “Quadro Teórico” a relação a um intervalo de tempo definido,
discussão de outras que se referem mais pro- mesmo que passível de renovação. Freqüen-
priamente a instrumentais teóricos que serão temente, ela será realizada por etapas, e se
utilizados, a conceitos importantes para a abranger um período relativamente amplo
pesquisa, a categorias e abordagens. (um ano ou mais) será necessário dar à Insti-
Quando o Projeto de Pesquisa delimita tuição satisfações periódicas a respeito do
um capítulo especial para a “Revisão Biblio- andamento da Pesquisa, o que poderá ser feito
gráfica”, logo depois da apresentação do tema com a utilização de um tipo de texto que é
e da definição da problemática, esta oportu- chamado “Relatório de Pesquisa”.
nidade deve ser aproveitada para apresentar Com relação ao Projeto, as várias etapas
as lacunas existentes no conhecimento sobre previstas, as várias atividades que serão reali-
o assunto que será abordado. Tornar claras zadas, os diferentes trabalhos que integrarão
as lacunas bibliográficas relativas ao enfoque a pesquisa – tudo isto precisa ser referenciado
proposto, por sinal, é um excelente elo de em um “Cronograma de Pesquisa”, normal-
ligação para o item “Justificativa”, que pode mente sob a forma de um quadro ou tabela
principiar precisamente ressaltando que, dadas que expõe de maneira instantânea a relação
as lacunas ainda existentes neste ou naquele entre o conjunto de ações previstas e o tempo
aspecto, o Projeto proposto torna-se extrema- previsto para serem realizadas. O Cronograma
mente relevante, já que poderá contribuir de é um instrumento não apenas para o controle
alguma maneira para suprí-las. Com isto, o da Instituição, mas principalmente para o auto-
pesquisador já parte com um excelente argu- controle do pesquisador no que se refere ao
mento a favor da necessidade de a sua pes- andamento do seu trabalho. Ele não é, natural-
quisa ser empreendida. mente, uma tábua sagrada e implacável, mas é
Não é necessário, por outro lado, discutir uma orientação importante para a realização do
toda a bibliografia que existe sobre o assunto. trabalho.

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educação, ciência e tecnologia

Será oportuno mencionar um capítulo informações. Este tipo de pesquisa é em di-


recorrente em Projetos que é aquele que se versas ocasiões requerido por empresas que
relaciona às “Hipóteses” e que, normalmente, precisam se manter informadas para definir
vem situado após o “Quadro Teórico” e antes suas linhas de ação. Pode-se, por exemplo,
do capítulo relacionado à “Metodo-logia”. De encomendar uma “pesquisa de mercado”, ou
certo modo, as hipóteses constituem o verda- ainda uma “pesquisa de tendências” que vise
deiro cerne da pesquisa do tipo “tese”. Vere- acompanhar um processo eleitoral com tal
mos adiante que uma hipótese corres-ponde ou qual finalidade. Pode-se visar o levanta-
a uma resposta (ou possibilidade de respos- mento do perfil de determinado grupo de con-
ta) que se relaciona ao problema formulado. sumidores, ou empreender uma pesquisa des-
Dependendo da intencionalidade da Pesqui- critiva que busque levantar as características
sa, seu problema e objetivos, pode-se ainda de determinada localidade. Neste caso, se o
recorrer ao uso de ‘Questões Norteadoras de Projeto de Pesquisa do qual estamos falando
Pesquisa’ em substituição às Hipóteses, o que, não é um projeto problematizado no mode-
naturalmente, também implica diferenciação lo de tese, obviamente não tem sentido um
de procedimentos de coleta e análise dos da- capítulo relativo a “Hipóteses”.
dos ou informações. Em linhas gerais, as partes acima des-
Retomando o esclarecimento relacio- critas compõem a totalidade do Projeto de
nado à função de hipóteses em certos tipos Pesquisa, podendo ainda ser incluído um ca-
de pesquisa, deve-se ressaltar que uma hipó- pítulo relacionado a “Recursos” para o caso
tese representa uma direção que se imprime de serem requeridos a determinada instituição
à Pesquisa, mesmo que seja abandonada no financiamentos diversos, equipamentos, pas-
decorrer do processo de investigação em favor sagens, e também a contratação de pessoal
de outra. Ao mesmo tempo em que deve estar técnico. O capítulo “Recursos”, que pode abran-
intimamente relacionada ao “Quadro Teórico”, ger um plano de custos da pesquisa e uma
as hipóteses também contribuem para definir exposição de suas necessidades materiais,
a “Metodologia” que será empregada. Desta for- estaria respondendo a uma nova pergunta:
ma, as hipóteses preenchem um certo espaço “Quanto vai custar?”.
entre a teoria e a metodologia de um Projeto Pode-se dar, ainda, que para além dos
de Pesquisa, razão por que se prefere recursos econômicos e materiais seja necessá-
localizá-la entre estes dois capítulos. rio planejar diversificados recursos humanos.
De certo modo, é somente quando se Neste caso, estaremos falando de uma pes-
consegue elaborar uma ou mais hipóteses de quisa que não será empreendida por uma só
trabalho que a Pesquisa começa a tomar a pessoa, mas por uma equipe que poderá ser
forma requerida a uma Dissertação de coordenada pelo autor do Projeto. Trata-se,
Mestrado ou a uma Tese de Doutorado. Caso neste caso, de planificar a contribuição e atua-
contrário, tem-se apenas um trabalho descri- ção de todos os participantes, e de indicar
tivo, que pode ser adequado a uma Monografia eventualmente entidades que estejam atuando
ou a um Livro que se proponha a desenvolver em conjugação com o Projeto. Em uma pala-
determinado assunto, mas que não corresponde vra, trata-se de responder às perguntas “Quem
propriamente ao modelo de tese. Uma tese vai fazer?” e “O que cada um vai fazer?”.
não é uma reflexão livre, descritiva ou ensaís- Estes últimos aspectos, naturalmente,
tica, mas sim uma reflexão sistematizada e fogem ao caso dos Projetos de Dissertação
orientada por um determinado problema. ou de Tese, que implicam, necessariamente,
Por outro lado, vale lembrar que nem trabalhos individuais. Quanto aos demais as-
toda Pesquisa corresponde necessariamente pectos, correspondem ao tipo de conteúdo
a um modelo de Tese, e pode se dar que o que deve aparecer em qualquer espécie de
objetivo do pesquisador seja apenas o de le- Projeto ao qual se queira dar um tratamento
vantar determinado conjunto de dados ou de minimamente profissional. Para sintetizar o

74
LIBERATO
que já foi dito, o quadro 3 procura relacionar Outro ponto que se mostra oportuno
as várias perguntas que se faz a um Projeto esclarecer é a distinção entre o Projeto e a Pes-
com os seus capítulos correspondentes. quisa propriamente dita, ou ainda entre o Proje-
to e a própria Tese ou Monografia que registrará
os resultados da pesquisa. Um projeto é uma
proposta de realizar algo, é um roteiro, um
instrumento de planejamento. Sua linguagem,
ou pelo menos sua intenção, está associada a
um tempo verbal no futuro. Já a Tese, a Mono-
grafia ou qualquer outro tipo de texto no qual
o pesquisador registra o resultado de sua pes-
quisa e a sua reflexão, corresponde um tra-
balho já realizado e concluído. É a Tese, ou a
Monografia, o que poderá se transformar
eventualmente em livro, não o Projeto. Em
vista disto, a linguagem da tese refere-se a
uma pesquisa já realizada, enquanto a do Pro-
jeto refere-se a uma Pesquisa por se realizar.
Quadro 3 – Perguntas de um projeto e capítulos correspondentes
Desta maneira, se em algumas ocasiões
Por outro lado, embora os vários tipos de é possível aproveitar para o texto da Tese ou
conteúdo atrás descritos marquem uma pre- Monografia trechos que haviam sido escritos
sença quase certa, deve ficar claro que não existe originalmente para o seu Projeto de Pesquisa
um parâmetro oficial e único de Projeto de (um quadro teórico ou metodológico, uma
Pesquisa no que tange à sua ordem e definição revisão bibliográfica) deve-se ter o cuidado
de capítulos. Partindo do modelo proposto, de adaptar a linguagem do ‘futuro ainda não
o pesquisador pode considerar adequado su- realizado’ que aparece no Projeto para a lin-
primir ou acrescentar capítulos, reunir duas guagem do ‘passado já realizado’, da pes-
seções em uma única, modificar a ordem de quisa já concluída exposta na Tese.
Por fim, acrescentaremos que o modelo
apresentação dos capítulos propostos, e assim
de Projeto de Pesquisa atrás discutido, em
por diante – desde que isto faça algum sentido
suas instâncias fundamentais, pode ser utili-
para a sua pesquisa ou que atenda a um padrão
zado de maneira eficaz para a maioria dos
qualquer de lógica proposto pelo próprio campos de conhecimento, sejam os perten-
autor do projeto. De igual maneira, um tipo centes ao universo das ciências humanas, sejam
de pesquisa ou um campo de conhecimento os pertencentes ao universo das ciências exatas
específico pode exigir a abertura de um capí- e biológicas.
tulo que não seria necessário, ou mesmo perti-
Referência
nente, em outro. Enfim, qualquer modelo de
Projeto proposto em uma obra de Metodologia
Científica não é mais que isto: um modelo, BARROS, José D’Assunção. O Projeto de
pronto para ser alterado e adaptado de acor- Pesquisa em História. 4. ed. Petrópolis: Vozes,
do com as necessidades. 2008.

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