Vous êtes sur la page 1sur 187

ANÁLISE TRANSACIONAL

EM PSICOTERAPIA

Eric Berne
ÍNDICE

Apresentação da Edição Brasileira......................................................................................... 3


Prefácio................................................................................................................................... 6
Agradecimentos...................................................................................................................... 8
Introdução............................................................................................................................... 9
1. CONSIDERAÇÕES GERAIS.......................................................................................... 12

PARTE I
Psiquiatria da Análise Individual e Estrutural

2. A ESTRUTURA DA PERSONALIDADE...................................................................... 17
3. A FUNÇÃO DA PERSONALIDADE............................................................................. 23
4. PSICOPATOLOGIA........................................................................................................ 28
5. PATOGÊNESE ................................................................................................................ 34
6. SINTOMATOLOGIA ...................................................................................................... 40
7. DIAGNÓSTICO............................................................................................................... 46

PARTE II
Psiquiatria Social e Análise Transacional

8. RELAÇÃO SOCIAL........................................................................................................ 57
9. ANÁLISE DE TRANSAÇÕES ....................................................................................... 63
10. ANÁLISE DE JOGOS ................................................................................................... 69
11. ANÁLISE DE ARGUMENTOS.................................................................................... 82
12. ANÁLISE DE RELAÇÕES ........................................................................................... 91

PARTE III
Psicoterapia

13. TERAPIA DAS PSICOSES FUNCIONAIS.................................................................. 97


14. TERAPIA DAS NEUROSES....................................................................................... 107
15. TERAPIA DE GRUPO ................................................................................................ 116

PARTE IV
Fronteiras da Análise Transacional

16. ESTRUTURAS MAIS REFINADAS DA PERSONALIDADE ................................. 135


17. ANÁLISE ESTRUTURAL AVANÇADA .................................................................. 141
18. TERAPIA DE CASAMENTOS................................................................................... 149
19. ANÁLISE DE REGRESSÃO ...................................................................................... 159
20. CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS E TÉCNICAS ........................................................ 165

Apêndice - UM CASO CONCLUÍDO, COM ACOMPANHAMENTO ("FOLLOW-UP")


POSTERIOR ...................................................................................................................... 176

2
Apresentação da Edição Brasileira

Apresentar hoje em dia Eric Berne ao público brasileiro é algo que me parece
anacrônico por ser ele um nome sobejamente conhecido.
Quando, em 1973, num congresso internacional, ouvi falar pela primeira vez de
"Análise Transacional" (A.T.), tive a impressão de tratar-se de tratar-se de uma
"americanada", ou seja, algo que fazia parte do estilo "Como fazer bons negócios" ou
"Como fazer amigos" ... ou psicologia banal para grande consumo. Chamar o Superego
freudiano de Ego “Pai”, o Ego de “Adulto” e o Id ou Es de “Crianças”, não me pareceu, na
época, digno de nota.
Apesar disso, como sempre fui um curioso dos novos rumos das psicoterapias e um
revoltado contra o posicionamento do psicanalista ortodoxo, alvo silencioso e impessoal da
transferência do paciente, decidi criar na época um grupo de estudos sobre a obra berniana,
que começava a infiltrar-se no Brasil. Mais tarde, após estudos mais aprofundados, sob a
orientação de colegas argentinos e americanos que haviam sido alunos de Berne,
transformei meus preconceitos em admiração pelo trabalho do autor.
A A.T. humanizava profundamente a comunicação terapeuta-paciente, colocados
num plano de igualdade. Dava muita ênfase à comunicação, criando os interessantes
conceitos de transações, posições existenciais e jogos psicológicos, que evitam a verdadeira
intimidade. Os conceitos de "Estados de Ego", apesar de filhos do berço psicanalítico,
transformam-se de conceitos abstratos em realidades visíveis e palpáveis, como expressões
de sentimentos ligados ao aqui e agora ou aí e então. Através dos estados do Ego flui a
energia psíquica dentro da pessoa, como também na comunicação interpessoal.
A vivacidade de Berne e seu fino humor judaico tornam o estudo de um assunto às
vezes árido e difícil como a psicopatologia, uma leitura amena e cheia de graça, fácil de ser
compreendida não somente por especialistas como também por seus pacientes.
Berne faz com que seus próprios assistentes dentro do hospital psiquiátrico usem
com seus clientes uma terminologia coloquial e simples, pois geralmente psicológico não é
doença e o comportamento inadequado e improdutivo deve e pode ser explicado a esses
pacientes.
O psiquiatra deixa de ser o clínico que põe linhas divisórias claras entre saúde e
doença mental e o psicanalista abandona sua posição sofisticada e hiperculturalizada.
Essa comparação banalizada é freqüentemente mal-entendida em ambientes
psiquiátricos e psicanalíticos e daí a A.T. criticada como simplista, quando na realidade é
uma forma simples de enfrentar a terrível complexidade da problemática humana.
Um grande mestre faz com que a matéria a estudar pareça fácil, tornando-a clara ao
estudante. Nesse sentido, Berne foi sem dúvida um grande mestre, pois sua Escola cresceu,
e de São Francisco expandiu-se para o mundo, principalmente após sua morte prematura,
em 1970.

3
Como seu construto teórico e suas técnicas ativas, a A.T. é hoje mais uma
ferramenta para a saúde mental e a psicoterapia. Versões dos livros de Berne para o
português são necessárias e bem-vindas, numa época em que já tanta gente estuda e se trata
pela linha do genial canadense.

São Paulo, outubro de 1984


Livio Tulio Pincherle

4
IN MEMORIAM

Patris Mei David


Medicinae Doctor et Chirurgiae Magister
Atque Pauperibus Medicus

Montreal, Canadá, 1882-1921

5
PREFÁCIO

Este livro expõe os contornos de um sistema unificado de psiquiatria individual e


social, conforme os ensinamentos colhidos durante os últimos cinco anos no Seminário de
Terapia de Grupo do Hospital Mount Zion de São Francisco, na Conferência de Psiquiatria
Social em São Francisco e, mais recentemente, no Hospital Estadual de Atascadero e no
Instituto de Neuropsiquiatria Langley Porter. Esta abordagem atualmente está sendo usada
por terapeutas e assistentes sociais nas atividades com grupos em vários contextos
institucionais e também na prática particular, para trabalhar com quase todos os tipos de
distúrbio mental, emocional e caracteriológico. O interesse crescente que ela desperta e a
disseminação mais ampla de seus princípios indicam a necessidade deste livro, pois tem
sido cada vez mais difícil atender aos pedidos de conferências, separatas e correspondência.
O autor teve o privilégio de visitar hospitais psiquiátricos em aproximadamente 30
países diferentes da Europa, Ásia, África e das ilhas do Atlântico e do Pacífico,
encontrando a oportunidade de testar os princípios da análise estrutural em vários contextos
raciais e culturais. A precisão e o valor desses princípios vêm-se revelando adequados, sob
condições de trabalho particularmente rigorosas, e que necessitaram da colaboração de
intérpretes para tratar de pessoas de mentalidade muito exótica.
Já que a análise estrutural é uma teoria mais geral do que a psicanálise ortodoxa, o
leitor será mais honesto para consigo mesmo e para como o autor, se resistir, inicialmente
pelo menos, à tentação compreensível de tentar adequar a primeira à última. Se o processo
fosse inverso, como deveria ser, descobrir-se-ia que a psicanálise se coloca facilmente, em
termos metodológicos, como um aspecto altamente especializado de análise estrutural. Por
exemplo, a análise transacional, aspecto social da análise estrutural, revela vários tipos
diferentes de "transações cruzadas". Os fenômenos variados de transferência são quase
todos agrupados em apenas um desses tipos, chamado aqui de "Transação Cruzada Tipo I".
No texto, haverá outros exemplos da relação entre a psicanálise e a análise estrutural.

SEMÂNTICA

Mais adiante, o termo análise transacional será empregado para designar o sistema
total, incluída a análise estrutural. Em determinados contextos, este termo será usado em
seu sentido mais escrito, significando a análise de transações simples.
Psiquiatria Social é expressão que denota o estudo dos aspectos psiquiátricos de
transações específicas ou conjuntos de transações que ocorrem entre dois ou mais
indivíduos em especial, num dado momento e lugar. A epidemiologia psiquiátrica
comparativa, ou a comparação dos problemas psiquiátricos de vários grupos sociológicos,
culturais ou nacionais, que às vezes também chamada "psiquiatria social", pode
adequadamente, e talvez melhor e de modo mais preciso, ser denominada pelo termo
"psiquiatria comparativa". (Este problema de nomenclatura foi abordado pelo autor em

6
1956, que faz referência ao uso anterior da expressão "psiquiatria comparativa", por Yap,
em 1951.)
O pronome ele freqüentemente se refere a seres humanos em geral, de qualquer
sexo. É, num contexto técnico, significa "é regularmente, enquanto ocorrer a experiência do
autor".
Parece ser significa "parece ser pra mim, a partir das observações repetidas, mas
ainda não o suficiente para que eu tenha certeza". As pessoas reais serão designadas por
"adulto", "pai" e "criança". Quando estas palavras aparecem com letra inicial maiúscula,
como Adulto, Pai e Criança, indicarão estados do ego, e não pessoas. Os adjetivos
correspondentes são "parental",* "adulto" e "infantil", ou "de criança", às vezes com letra
maiúscula, às vezes não, de acordo com o contexto.
Psicanálise e seus cognatos são palavras utilizadas neste livro para indicar o que é
conhecido como psicanálise "ortodoxa", isto é, a resolução de conflitos infantis através do
uso sistemático da associação livre, trabalhando com fenômenos de transferência e
resistência, conforme os princípios de Freud. Convém, lembrar, de qualquer maneira, que
depois de 15 anos, o movimento psicanalítico e o autor oficialmente se separaram (nos
termos mais amigáveis), há alguns anos atrás, e que dos psicanalistas ortodoxos,
aproximando-se mais dos pontos de vista de Federn (1952) e seu discípulo Edoardo Weiss
(1950).

*
Deve-se usar o termo "parental" (como adjetivo correspondente a "Pai"), significando tão-somente
"referente ao Pai", sem qualquer sentido que envolva a noção de paternal. (NT)

7
AGRADECIMENTOS

Agradeço, primeiramente, a todos os que, em São Francisco, me encorajavam com o


seu interesse pela análise transacional, nos estágios iniciais: Dr. R. J. Starrels, que seguiu
seu desenvolvimento quase que ab initio; Dr. Martin Steiner, que organizou os primeiros
seminários no Hospital Mount Zion; e Eugênia Prescott, do Departamento de Saúde de São
Francisco, que organizou o primeiro seminário noturno. Sou particularmente grato aos que
me convidaram ou permitiram que eu colocasse minhas idéias antes do julgamento crítico
de seus assistentes e que eu as demonstrasse na prática clínica: Dr. Norman Reider, do
Hospital Mount Zion; Dr. Donald Shaskan, da "Veterans Administration Mental Hygiene
Clinic"; Dr. M. Robert Harris, do Instituto de Neuropsiquiatria Langley Porter; e Drs.
Reginald Rood e Visctor Arcadi, do Hospital Estadual de Atascadero.
Os desdobramentos mais dinâmicos acorreram nos seminários de Psiquiatria Social
de São Francisco. Foi muito gratificante encontrar pessoas presentes aos seminários,
semana após semana, durante meses e mesmo por anos até o final, apesar de
freqüentemente terem de viajar longas distâncias e, em muitos casos, com considerável
sacrifício de cronogramas de trabalho. As pessoas que contribuíram regularmente com suas
críticas e adendos, e/ou aplicaram a análise estrutural e transacional em seus próprios
grupos ou casos individuais, relatando-me os resultados, foram as mais úteis na definição
das formulações.
Entre elas incluem-se: Viola Litt, secretária dos seminários; Barbara Rosenfeld, que
dedicou muitas horas semanais à análise transacional e contribuiu com muitas idéias úteis;
Harold E. Dent; Dr. Franklin Ernest; Margaret Frings; Dr. Gordon Gritter; Dr. John Ryan;
Myra Schapps; e Claude Steiner. Também sou grato aos que têm contribuído ou assistido
com bastante regularidade à Conferência Clínica da Península de Monterey sobre
Psiquiatria (para prestigiar uma experiência semanal agradável, informal e esclarecedora,
com um título formal): Dr. Bruno Klopfer, Dr. David Kupfer, Dr. Herbert Wiensenfeld e
enfermeira Anita Wiggins. Esta poderia ser ampliada para incluir os que assistiram aos
seminários vez ou outra, e que, por suas perguntas e observações, estimularam a reflexão
posterior. Também apreciei as oportunidades oferecidas por todos os diretores de programa
de todos os encontros para os quais fui convidado a falar. E agradeço ao que se dispuseram
a atuar como observadores em grupos de terapia, pois, graças a eles, pude determinar se
minha versão do que acontecia era apenas fantasia minha ou se alcançava um certo
consenso real. Acima de tudo, agradeço aos pacientes, que me revelaram as estruturas de
suas personalidades e me ofereceram o ensejo de elaborar os princípios da análise
transacional.
Finalmente, devo agradecer aos que, de modo direto, muito me ajudaram a escrever
este livro. Aos aproximadamente cem clínicos que o leram cuidadosamente e me deram
sugestões; a minha esposa, por me manter num ritmo regular e por sua paciência em
suportar as muitas noites que passei em meu escritório; e a Allen Williams, por seus
serviços conscienciosos e inteligentes como secretária.
Carmel-by-the Sea, California
Abril de 1960

8
INTRODUÇÃO

Um estado do ego pode ser descrito fenomenologicamente como um sistema


coerente de sentimentos relacionados a um dado sujeito e operacionalmente como um
conjunto de padrões coerentes de comportamento; ou, ainda, do ponto de vista pragmático,
como um sistema de sentimentos que motiva um conjunto de padrões de comportamento
afins. Penfield (1) demonstrou que em indivíduos epiléticos as memórias se conservam em
sua forma natural como estados do ego. Através da estimulação elétrica direta do córtex
temporal, exposto de qualquer lado, ele conseguiu evocar esses fenômenos.
"O sujeito sente de novo a emoção que a situação nele produziu originalmente e está
ciente das mesmas interpretações, verdadeiras ou falsas, que ele próprio dera à experiência
na primeira ocasião em que ocorrera. Assim, a recordação evocada não constitui uma
reprodução fotográfica das cenas e eventos do passado. É uma reprodução do que o
paciente viu, ouviu, sentiu e compreendeu". Ele observou, mais tarde, que tais evocações
eram diferenciadas e "não se confundiam com outras experiências semelhantes".
Posteriormente, ele demonstrou que dois estados diferentes do ego podem ocupar a
consciência simultaneamente, como entidades psicológicas distintas, uma das outras. Em
um caso de tal revivescimento "forçado" sob estímulo elétrico, o paciente gritou que estava
ouvindo pessoas rirem. O próprio paciente, entretanto, "não se sente inclinado a rir diante
do gracejo, seja ele qual for. De algum modo, ele estava duplamente consciente de duas
situações simultâneas. Sua exclamação mostrou sua imediata compreensão da
incongruência das duas experiências - uma no presente, a outra forçada em sua consciência,
a partir do passado". Ou seja, o paciente estava ciente de que estava na sala de operação e
endereçava sua exclamação ao médico, mas, ao mesmo tempo, quando tal memória é
forçada na sua consciência, "parece-lhe ser uma experiência presente". Somente depois de
concluída a experiência ele consegue reconhecê-la como uma memória vívida do passado.
Tal memória é "tão clara como se tivesse ocorrido 30 segundos após a experiência
original".
No momento do estimulo, o paciente "é, ele próprio, tanto ator como espectador".
Penfield, Jasper e Roberts (2,3) enfatizam a diferença entre o revivescimento de tais
memórias completas, isto é, o despertar de um completo estado do ego, e os fenômenos,
isolados que ocorrem sobre estimulação do córtex visual e auditivo, ou a memória de
conversa e palavras. Eles salientam que o registro temporal envolve importantes elementos
físicos, como a compreensão do significado da experiência e a emoção que ela pode ter
despertado. Penfield, entretanto, não usa o termo "estado do ego".
Kubie, (1) em seus comentários sobre esses experimentos, observa que o sujeito é, a
um só tempo, o observador e o observado e que tanto o reservatório arquipalial como o
neopalial são atingidos.* "A lembrança é essencialmente total, envolvendo muito mais do

*
Em neuroanatomia, entende-se "reservatório arquipalial" como a memória para fatos antigos e "reservatório
neopalial" como memória para fatos recentes “. A experiência de Penfield, narrada no trecho, refere-se ao
revivescimento de fatos antigos como se ocorressem no presente. (Nota do revisor técnico)

9
que ele é conscientemente capaz de recapitular, aproximando-se da totalidade de lembrança
que às vezes se pode obter com pacientes sob hipnose".
O passado é tão iminente e vívido quanto o presente. O que se evoca é uma
recordação específica de uma experiência específica. A memória verbal ou neopalial parece
servir como uma memória cinematográfica que cobre as memórias sensoriais ou "viscerais"
das mesmas experiências. O que Kubie quer dizer é que os eventos são vivenciados
simultaneamente sob duas formas, "arquipalial" e "neopalial". É oportuno observarmos a
colocação de Cobb, no mesmo simpósio, (4) a de que "o estudo das emoções é, atualmente,
uma ocupação médica legítima", que ele relaciona com a fisiologia do "arquicórtex".
É fato conhecido dos psicólogos, isto é, dos estudiosos da mente, qualquer que seja
a sua formação, que se podem reter estados do ego completos, permanentemente. Federn
(5) foi um dos primeiros a salientarem, no campo psiquiátrico, o que Penfield mais tarde
demonstrou em seus famosos experimentos neurocirúrgicos - que a realidade psicológica se
baseia em estados do ego completos e diferenciados. Ele observa que o termo "estado do
ego" encontrou resistência quando introduzido. Era mais fácil para as pessoas continuarem
a pensar em termos conceituais ortodoxos do que mudar para uma abordagem
fenomenológica.
Weiss, (6) principal seguidor de Federn, tem esclarecido e sistematizado a
psicologia do ego deste último. Weiss descreve estado do ego como "a realidade
verdadeiramente revivescida de um ego mental corporal, com os conteúdos do período
vivido". Neste sentido, Federn fala dos "estados do ego do dia-a-dia". Weiss ressalta
exatamente o que Penfield provou: que os estados do ego dos primeiros níveis de idade
permanecem latentes dentro da personalidade. Isso já foi muito bem estabelecido
clinicamente pelo fato de que tais estados do ego "podem sofrer nova catexia* diretamente
sob condições especiais; por exemplo, na hipnose, nos sonhos e na psicose". Ele também
observa que "dois ou mais estados do ego podem lutar para manter uma integração e podem
conscientemente existir a um só tempo". A repressão de memórias ou conflitos traumáticos
é possível, em muitos casos segundo Federn, apenas através da repressão de todo o estado
do ego pertinente a eles. Os primeiros estados do ego mantêm-se preservados num estado
potencial, aguardando nova catexia. Além disso, ao falar de catexia de estados do ego,
Federn diz que é a própria catexia que é vivida como sentimento do ego. Isso se relaciona
ao problema do que constitui "o eu".
Weiss fala do "estado do ego infantil residual da pessoa adulta, que geralmente
permanece em catexia, mas, em qualquer evento, sofre facilmente outra catexia", um tipo
de "ego infantil". Por outro lado, há outro tipo de influência que ele chama de "presença
psíquica". É "a imagem mental de outro ego", às vezes um ego parental que afeta as
emoções e o comportamento do indivíduo. Ele descreve várias situações em que (a) o
estado do ego infantil residual, (b) o estado do ego atual, ou (c) a presença psíquica,
respectivamente, podem determinar a resposta do indivíduo.
Mais recentemente, Chandler e Hartman, (7) trabalhando com LSD-25,
demonstraram a impressionante semelhança entre a reativação farmacológica de estados

*
Berne usa "catexia" para denominar o potencial energético dos estados do ego. A maior ou menor catexia de
um estado do ego determina sua maior ou menor dominância sobre as atitudes e comportamentos de cada
indivíduo. Pode-se, assim, falar de "labilidade de catexia". (Nota do revisor técnico)

10
arcaicos do ego e o que esse obtém através de estimulação elétrica do córtex, embora, como
Penfield, eles não utilizem o termo “estado do ego”. Eles descrevem a mesma experiência
simultânea de dois estados do ego - um orientado para a realidade atual externa e
psicológica, o outro "revivendo" (mais do que relembrado) cenas datadas de até antes do
primeiro ano de vida - "com grande nitidez de cores e outros detalhes, e o paciente se sente
de volta à situação e vivencia os afetos em toda a intensidade original".
Há outros autores cujo trabalho também se relaciona com o assunto "estados do
ego", mas as observações mencionadas servirão para voltar a atenção do leitor para esse
fenômeno.
As análises estrutural e transacional, temas desta obra, baseiam-se unicamente em
observação clínica e experiência com pacientes, deixando de lado as idéias preconcebidas.
Sob estas condições, o estudo dos estados do ego completos emergiu como abordagem
"natural" para a psicologia e a psicoterapia. Mas, conforme lembrou Federn, já que a
maioria dos terapeutas está treinada a pensar e trabalhar em termos conceituais ortodoxos, a
abordagem naturalista nem sempre é totalmente explorada. Ao buscar na literatura
confirmação para as descobertas da análise estrutural e transacional, o autor ficou satisfeito
ao descobrir, ou redescobrir, que estava seguindo os passos de dois mais notáveis de seus
mestres (Penfield e Federn). A pertinência dos extratos aqui reunidos ficará evidente no
curso do texto que se segue.

REFERÊNCIAS

1. Penfield, W.,"Memory Mechanisms", Arch. Neurol. & Psychiat. 67:178-198,1952, com discussão de
L. S. Kubie et al.
2. Penfield, W. & Jasper, H., Epilepsy and the Functional Anatomy of the Human Brain. Little, Brown &
Company, Boston, 1954, Cap. XI.
3. Penfield, W. & Roberts, L., Speech and Brain - Mechanisms. Princeton University Press, Princeton,
1959.
4. Cobb, S., "On the Nature and Locus Of Mind", Ref. 1, 172-177.
5. Federn, P., Ego Psychology and the Psychoses. Basic Books, Nova York, 1952.
6. Weiss, Edoardo, Principles of Psychodynamics. Grune & Stratton, Nova York, 1950.
7. Chandler, A. L. & Hartman, M. A., "Lysergic Acid Diethylamide (LSD-25) as a Facilitating Agent in
Psychotherapy". A. M. A. Arch Gen. Psychiat. 2: 286-299, 1960.

11
1.
CONSIDERAÇÕES GERAIS

1. A BASE LÓGICA

As análises estrutural e transacional oferecem uma teoria sistemática e consistente


da personalidade e da dinâmica social derivada de experiência clínica, e uma forma
dinâmica e racional de terapia que é facilmente compreendida pela grande maioria de
pacientes psiquiátricos e, naturalmente, adaptada a eles.
As psicoterapias convencionais podem ser divididas basicamente em duas classes:
as que envolvem sugestão, confiança e outras funções "parentais"; e as abordagens
"racionais", fundadas em confrontação e interpretação, tais como a terapia não-diretiva e a
psicanálise. As abordagens “parentais” têm o defeito de negligenciar ou anular as fantasias
arcaicas do paciente, de maneira que, no final das contas, o terapeuta, com muita
freqüência, perde o controle da situação e se vê surpreso ou desapontado com o resultado
final do caso. As abordagens racionais destinam-se a estabelecer controles internos; com os
métodos usuais, isto pode levar muito tempo e, neste intervalo, não só o paciente mas
também seus colegas e pessoas intimamente ligadas a ele ficam expostos aos resultados de
seu comportamento imprudente. Se o paciente tiver filhos pequenos, o período prolongado
de tratamento pode influir de modo decisivo no desenvolvimento do caráter dos filhos.
A abordagem estrutural-transacional ajuda a superar estas dificuldades. Tendendo a
aumentar rapidamente a capacidade do paciente de tolerar e controlar suas ansiedades e
circunscrever seu ato impulsivo, ela apresenta muitas das vantagens da terapia "parental".
Ao mesmo tempo, por proporcionar ao terapeuta o conhecimento total dos elementos
arcaicos da personalidade do paciente, ela não perde nenhum valor da terapia racional. Esta
abordagem tem-se mostrado particularmente válida em certos casos em que é notoriamente
difícil a aplicação eficaz das terapias convencionais. Estes casos incluem os psicopatas de
vários tipos; esquizofrênicos latentes, intermitentes ou limítrofes, maníaco-depressivos; e
adultos mentalmente retardados.
Do ponto de vista educacional, as análises estrutural e transacional são mais fáceis
de ensinar, com bons resultados, do que muitas abordagens clínicas. Os princípios poder ser
assimilados em dez semanas e, com um ano de supervisão, qualquer clínico ou pesquisador
bem qualificado pode tornar-se bastante competente na teoria e na prática de tais métodos.
O treinamento psicanalítico formal pode suscitar, pelo menos no inicio, uma forte
resistência aos princípios da análise estrutural, a menos que o indivíduo tenha um interesse
especial na psicologia do ego.
A auto-avaliação neste sistema está livre de algumas das dificuldades da
autopsicanálise, tornando relativamente fácil, para quem a pratica, detectar e controlar
elementos arcaicos ou prejudiciais em suas próprias respostas.

12
2. PROCEDIMENTO

Tanto no trabalho individual como no de grupo, este método avança por estágios
claramente definíveis e que, pelo menos esquematicamente, se sucedem uns aos outros, de
modo que terapeuta e paciente podem, a qualquer momento, estabelecer a posição
terapêutica com uma certa precisão: isto é, o que já conseguiram e qual poderá ser o
próximo passo.
A análise estrutural, que precede a transacional, ocupa-se da identificação e da
análise dos estados do ego. A meta deste procedimento é estabelecer a predominância de
estados do ego que avaliam a realidade e libertá-los da contaminação de elementos arcaicos
e estranhos. Feito isto, o paciente pode proceder à análise transacional: primeiro, a análise
de transações simples, depois a análise de séries estereotipadas de transações e, finalmente
a análise de operações complexas longas que, freqüentemente, envolvem várias pessoas e,
em geral baseiam-se em fantasias bastante elaboradas. Um exemplo é a fantasia de
salvadora, desenvolvida pela mulher que se casa com um alcoólatra após o outro. A meta
desta fase é o controle social: isto é, o controle da própria tendência do indivíduo de
manipular outras pessoas de modo destrutivo ou imprevidente, e de sua tendência a
responder sem discernimento ou opção às manipulações de outrem.
No decorrer dessas operações terapêuticas, os estados arcaicos do ego,
traumaticamente fixados, foram identificados, mas não resolvidos. Ao final deste programa,
o indivíduo estará numa situação particularmente favorável, por causa do predomínio da
avaliação da realidade, para tentar a resolução das distorções e conflitos arcaicos. A
experiência mostra que tal seqüência não é essencial ao sucesso terapêutico do método, e a
decisão de empregá-lo ou não se torna um problema de julgamento clínico e de liberdade
circunstancial.

3. A LINGUAGEM

Embora a exposição teórica seja complexa, a aplicação das análises estrutural e


transacional exige um vocabulário esotérico de apenas seis palavras. Exteropsique,
neopsique e arqueopsique são vistos como órgãos psíquicos que se manifestam
fenomenologicamente como estados do ego exteropsíquico (identificativo), neopsíquico (de
processamento de dados) e arqueopsíquico (ex. regressivo). Na linguagem coloquial,
referimo-nos a estes tipos de estados do ego como Pai, Adulto e Criança, respectivamente.
Estes três substantivos formam a terminologia da análise estrutural. Os problemas
metodológicos envolvidos na passagem de órgãos a fenômenos e a substantivos não são
relevantes nas aplicações práticas.
Certos conjuntos de manobras sociais parecem combinar tanto as funções
defensivas quanto as gratificantes. Tais manobras são comumente chamadas passatempos e
jogos. Alguns deles, que proporcionam, de imediato, ganhos primários e secundários,

13
tendem a tornar-se lugar-comum; o jogo de "PTA",* por exemplo, prevalece nos E.U.A.,
onde os pais se reúnem em festas ou encontros de grupo. Outras operações mais complexas
baseiam-se num extensivo plano de vida inconsciente que se chama argumento, como
evocação dos argumentos teatrais, que são derivativos intuitivos desses dramas
psicológicos. Estes três termos - "passatempo", "jogo" e "argumento" - formam o
vocabulário da análise transacional.
Demonstraremos que o Pai, Adulto e Criança não são conceitos como Superego,
Ego, Id, ou como construtos jungianos, mas realidades fenomenológicas; enquanto
passatempos, jogos e argumentos não são abstrações, mas realidades sociais operacionais.
Uma vez compreendidos os significados psicológico, social e clínico desses seis termos, o
analista transacional, seja ele médico, psicólogo, cientista social ou assistente social, estará
em condições de usá-los como instrumentos terapêuticos de pesquisa ou clínicos, de acordo
com suas oportunidades e qualificações.

NOTAS

É impossível fazer uma classificação rígida das psicoterapias, devido à flexibilidade


de todos os terapeutas experientes. A divisão em tipos "parental" e "racional" corresponde,
grosseiramente, ao esquema dado em 1943 por Giles W. Thomas, (1) que baseou sua
classificação na de Merrill Moore (1942). K. E. Appel (2) divide a psicoterapia em
"Abordagens Psicológicas Sintomáticas ou Diretas", incluindo hipnose, sugestão e
persuasão moral (Dubois), persuasão (Déjerine), autoridade, direção e vontade; e
"Abordagens que envolvem Reorganização da Personalidade", incluindo a psicobiologia
(A. Meyer), o "estudo da personalidade", a psicanálise e suas modificações, e a terapia do
"crescimento dinâmico" às quais atualmente acrescentaríamos a terapia não-diretiva
(Rogers). Estas duas divisões correspondem, novamente de maneira aproximada, às
abordagens "parental" e "racional", respectivamente. Um terceiro tipo, que é uma categoria
especial, é a ludoterapia, para crianças, que às vezes, pode ser nem parental nem racional,
mas "infantil".
A possibilidade de ensino e de aprendizagem do presente sistema é ilustrada pelo
fato de que os estudiosos da análise transacional agora a estão aplicando em terapia
individual e de grupo numa variedade de ambientes, com pacientes psiquiátricos em geral,
assim como com as várias categorias especiais que serão descritas ou mencionada no texto.
(Mais recentemente, ela está sendo usada por enfermeiras psiquiátricas, funcionários do
governo encarregados de vigiar delinqüentes em liberdade condicional, clérigos e pessoal
do Exército da Marinha.)
Com relação à auto análise, o comentário existente é de que "o problema com a
auto-análise é a contratransferência". (Há, pelo menos, meia dúzia de psiquiatras cada um

*
PTA = Psychotherapy for Transactional Analysis, um jogo psicológico que os pais adotam com freqüência
em reuniões sociais. (Nota do revisor técnico)

14
dos quais reconhecerá modestamente que deu origem, a este aforismo). Esta dificuldade
pode ser manipulada com bastante eficácia pelo procedimento estrutural.
Quanto ao vocabulário, "neopsíquico" e "arqueopsíquico" encontram-se no
"Dicionário, Psiquiátrico", de Hinsie & Shatzky; (3) "arquipalium" e "neopalium" são, por
sua vez, termos neurológicos bem estabelecidos pelo uso. (4)

REFERÊNCIAS

1. Thomas, G. W. "Group Psychotherapy: A Review of the Recent Literature". Psychosom - Med, 5:


166-180, 1943.
2. Appel, K. E. "Psychiatric Therapy". In Personality and Behavior Disorders. (Ed. By J. M. Hunt)
Ronald Press Company, Nova York, 1944, pp.1107-1163.
3. Hinsie, L. E. & Shatzky, J. Psychiatric Dictionrary. Oxford University Press, Nova York, 1940.
4. Tilney, F. & Riley, H. A. The Form and Functions of the Central Nervous System. Paul B. Hoeber,
Nova York, 1928.

15
PRIMEIRA PARTE

PSIQUIATRIA DA ANÁLISE
INDIVIUAL E ESTRUTURAL

16
2.
A ESTRUTURA DA PERSONALIDADE

Mrs. Primus, jovem dona-de-casa, foi enviada por seu médico de família, para uma
entrevista de diagnóstico. Depois de permanecer sentada, ela começou a rir. Um momento
mais tarde, parou, olhou friamente o médico, depois desviou de novo os olhos e, outras vez,
voltou a rir. Esta seqüência repetiu-se três vezes ou quatro vezes. Então, um tanto
repentinamente, ela parou de rir baixo, ficou em pé, ereta, diante de sua cadeira, puxou a
saia para baixo e virou a cabeça para a direita. Após observar esta nova atitude por um
curto período de tempo, o psiquiatra perguntou-lhe se ela estava ouvindo vozes. Ela
concordou com a cabeça sem virá-la, e continuou a ouvir. O psiquiatra interrompeu-a
novamente para lhe perguntar qual era a sua idade. Seu tom de voz cuidadosamente
calculado, conseguiu prender a atenção da paciente. Ela virou-se para encará-lo, dominou-
se e respondeu a sua pergunta.
Em seguida, ela respondeu a uma série de outras questões pertinentes, de modo
conciso e objetivo. Dentro de pouco tempo, houve informações suficientes para permitir
uma tentativa de diagnóstico de esquizofrenia aguda e para possibilitar que o psiquiatra
concatenasse alguns dos fatores precipitantes e alguns dos aspectos gerais de seus
antecedentes recentes. Depois disso, não foi feita mais nenhuma pergunta, durante certo
tempo, e ela logo voltou a cair em seu estado inicial. O ciclo de risinhos, olhadelas furtivas
e atenção meticulosa às suas alucinações repetiu-se, até que lhe foi perguntado de quem
eram as vozes e o que lhe estavam dizendo.
Ela respondeu que parecia ser a voz de um homem e que ele a chamava de nomes
horrorosos, palavras que ela nunca tinha ouvido antes. Então, a conversa voltou-se para sua
família. Ela descreveu seu pai como um homem maravilhoso, marido atencioso, pai
adorável, querido na comunidade, e assim por diante. Mas logo veio à tona que ele bebia
bastante e era diferente nestes momentos. Usava linguagem baixa. O psiquiatra perguntou a
natureza dessa linguagem. Então ocorreu à paciente que ela o tinha ouvido usar alguns dos
mesmos termos insultuosos que a voz da alucinação estava usando.
Esta paciente exibiu, com bastante evidência, três diferentes estados do ego. Estes
foram identificados pelas diferenças em sua postura, maneiras, expressões faciais e outras
características físicas. O primeiro, caracterizou-se pelo acanhamento, acompanhamento de
risadinhas, reminiscentes de uma menininha de determina idade; o segundo foi a postura
meticulosamente íntegra, como a de uma colegial quase que surpreendida em algum pecado
sexual; no terceiro, ela conseguiu responder a perguntas como mulher adulta que era, e foi
capaz de demonstrar que neste estado sua compreensão, memória e capacidade de pensar de
maneira lógica estavam intactas.
Os dois primeiros estados do ego possuíam uma qualidade arcaica, já que ambos
tinham sido apropriados a algum estágio anterior de sua experiência. Mas eram
inadequados à realidade atual da entrevista. No terceiro, ela mostrou considerável
habilidade em ordenar e processar idéias e percepções relativas a sua situação imediata: o

17
que pode ser facilmente entendido como funcionamento "adulto", algo de que uma criança,
nem uma colegial sexualmente agitada seriam capazes. O processo de "dominar-se",
ativado pelo tom responsável do psiquiatra, representava a transição dos estados do ego
arcaicos a este estado do ego adulto.
O termo "estado do ego" pretende tão-somente designar estados da mente e seus
padrões afins de comportamento tal como estes ocorrem na natureza, e evita, num primeiro
momento, o uso de conceitos como "instintos", "cultura", "superego", "animus", e assim
por diante. A análise estrutural apenas admite que tais estados do ego podem ser
classificados e esclarecidos, e que, no caso de pacientes psiquiátricos, este procedimento "é
bom".
Na busca de um quadro de referência para a classificação, descobriu-se que o
material clínico evidenciou a hipótese de que os estados do ego infantis existem como
relíquias no adulto e que, sob certas circunstâncias, eles podem ser revividos. Como já
observamos na introdução, este fenômeno tem sido relatado repetidamente em conexão
com sonhos, hipnose, psicose, intoxicantes farmacológicos e estimulação elétrica direta do
córtex temporal. Mas a suposição de que tais relíquias podem exibir uma atividade
espontânea também no estado normal de vigília.

O que realmente acontecia era que os pacientes podiam ser observados ou se


observarem, passando de um estado mental e de um padrão de conduta a outro. De modo
característico, havia um estado do ego qualificado por uma avaliação da realidade e um
reconhecimento racional razoavelmente adequados (processos secundário) e outro
distinguido por pensamento autista, medos arcaicos e expectativas (processo primário). O
primeiro correspondia ao modo de funcionamento usual de adultos responsáveis, enquanto
o segundo se assemelhava à maneira como crianças pequenas de várias idades assumiam
seus interesses. Isto levou à suposição da existência de dois órgãos psíquicos, uma
neopsique e uma arqueopsique. Pareceu apropriado e aceitável à generalidade dos
indivíduos interessados chamar as manifestações fenomenológicas e operacionais desses
dois órgãos de Adulto e Criança, respectivamente.
A Crianças de Mrs. Primus manifestava-se de duas formas diferentes. A que
predominava na ausência dos estímulos era a menina "má" (sensual). Seria difícil conceber

18
que Mrs. Primus, neste estado, assumisse as responsabilidades de uma mulher
sensualmente madura. A semelhança de seu comportamento com o de uma menina era tão
impressionante que este estado do ego poderia ser classificado como arcaico. Num certo
ponto, uma voz percebida como proveniente do exterior a fazia voltar a ser pequena, e ela
desviava-se para o estado do ego de "boa" menininha (íntegra). Os critérios anteriores
permitiram classificar este estado também como arcaico. A diferença entre os dois estados
do ego que a "má" menina era indulgente em sua expressão mais ou menos autônoma, mas
fazendo o que lhe ocorria naturalmente, enquanto a "boa" menina procurava adaptar-se ao
fato de que estava sendo punida. Ambos os estados, o natural e o adaptado, eram
manifestações arqueopsíquicas e, portanto, aspectos da Criança de Mrs. Primus.
A intervenção do terapeuta provocou uma mudança para um sistema diferente. Não
apenas seu comportamento, capacidade de resposta, senso de realidade e modo de pensar,
mas também sua postura, expressão facial, voz e tônus muscular, adquiriam um padrão
mais familiar na medida em que o estado do ego adulto da dona-de-casa responsável era
reativado. Este desvio, que ocorreu repetidamente durante a entrevista, constituía uma
breve remissão da psicose. Daí ser possível entender a psicose como um desvio de energia
psíquica, ou, para usar o termo comumente aceito, uma catexia do sistema Adulto para o
sistema Criança. E também descrever remissão como uma inversão do desvio.
A derivação da voz alucinada, com suas obscenidades "não familiares", teria sido
evidente para qualquer observador preparado, em vista da mudança que ela provocou no
comportamento da paciente. Restava apenas confirmar a hipótese, e este foi o propósito de
se dirigir a discussão para a sua família. Como já observamos, a voz estava usando a
linguagem do pai da paciente, para muita surpresa sua. Esta voz pertencia à exteropsique ou
sistema parental. Não era a "voz de seu Superego", mas a voz de uma pessoa real. Isto
enfatiza o ponto de que Pai, Adulto e Criança representam pessoas reais que existem agora
ou que já existiram, e que têm nomes legais e identidades cívicas. No caso de Mrs. Primus,
o Pai não se manifestou como um estado do ego, mas apenas como uma voz alucinada. No
início, é recomendável concentrar as atenções na diagnose e diferenciação do Adulto e da
Criança; a consideração do Pai pode ser beneficamente adiada em termos de trabalho
clínico.
Dois outros casos ilustram bem a atividade do Pai. Mr. Segundo, que foi o primeiro
paciente que estimulou a evolução da análise estrutural, contou a seguinte história:
Um menino de oito anos, que passava férias no rancho vestindo roupa de vaqueiro,
ajudou o peão a desarrear um cavalo. Quando eles terminaram, o peão lhe disse: "Não sou
realmente um vaqueiro. Sou apenas um menino".
E depois, acrescentou: "É exatamente assim que me sinto. Não sou, na verdade, um
advogado. Sou apenas um garotinho". Mr. Segundo era um advogado criminalista bem-
sucedido, de alta reputação, que edificou sua família decentemente, fazia um trabalho
comunitário útil e era socialmente popular. Mas, no tratamento, ele freqüentemente assumia
a atitude de menino. Às vezes, durante a entrevista, perguntava: "Você está falando como o
advogado ou o garoto?" Quando ele não estava em seu escritório ou no tribunal, o
menininho era bastante hábil para reassumir o comando. Ele ia para uma cabana nas
montanhas, longe de sua família, onde tinha um suprimento de uísque, morfina, fotos

19
pornográficas e armas. Lá, ele cedia às suas fantasias de criança, fantasias que ele tinha tido
pequeno, e exercia tipos de atividade sexual comumente rotuladas "infantis".
Mais tarde, depois que ele esclareceu, até certo ponto, o que nele era Adulto e o que
era Criança (pois realmente era advogado às vezes e nem sempre um menininho), Mr.
Segundo introduziu seu Pai na situação. Isto é, depois que suas atividades e sentimentos
tinham sido separados nas duas primeiras categorias, havia certos estados residuais que não
se adequavam a nenhuma das duas. Estes tinham uma qualidade especial que lembrava o
modo como ele via seus pais. Foi necessária a instituição de uma terceira categoria que, em
teste posterior, se revelou de grande validade clínica. Estes estados do ego careciam de
qualidade autônoma tanto do Adulto quanto da Criança. Parecia que eles tinham sido
introduzidos de fora e apresentavam um ressaibo de imitação.
Foi possível identificar a manifestação individualizada de três diferentes aspectos
seus no fato de ele manipular dinheiro. A Criança, avarenta ao extremo, tinha pouquíssimos
recursos para assegurar uma prosperidade que se media em centavos; apesar do risco para
um homem de sua posição, neste estado ele chegava a roubar chicletes e outras coisas sem
valor em armazéns, exatamente como fizera quando criança. O Adulto manipulava grandes
somas como a perícia, previsão e sucesso de um banqueiro, e estava disposto a gastar
dinheiro para fazer mais dinheiro. Mas um outro lado seu tinha fantasias de se desfazer do
dinheiro para o bem da comunidade. Ele descendia de família devota e filantrópica e
realmente doava grandes somas para caridade com a mesma benevolência de seu pai.
Quando diminuía o entusiasmo filantrópico, a Criança assumia a situação, com
ressentimentos vingativos em relação a seus beneficiários, seguida pelo Adulto, que se
perguntava por que diabos ele queria arriscar suas economias por razões sentimentais.
Um dos aspectos mais difíceis da análise estrutural, na prática, é fazer o paciente
(ou estudioso) ver que a Criança, Adulto e Pai não são idéias de fácil manejo ou
neologismo interessantes, mas se referem a fenômenos baseados em realidades concretas. O
caso de Mr. Segundo demonstra este ponto com bastante clareza. A entidade que roubava
goma de mascar não foi chamada Criança por conveniência, ou porque as crianças sempre
roubam, mas porque ele próprio roubara goma de mascar quando criança, com a mesma
atitude alegre e usando a mesma técnica. O Adulto foi chamado Adulto não porque estava
desempenhando o papel de um adulto, imitando o comportamento de um homem grande,
mas porque exibia provas de realidade de alta eficiência em suas operações legais e
financeiras. O Pai não foi chamado Pai porque é tradicional dos filantrópicos serem
"paternalistas" ou "materialistas", mas porque o paciente realmente imitava o
comportamento e estado de espírito de seu próprio pai em suas atividades filantrópicas.
No caso de Mr. Troy, um esquizofrênico compensado que se submetera a
tratamento com eletrochoque depois de sofrer um colapso durante um combate naval, o
estado parental estava tão bem estabelecido que o Adulto e a Criança raramente se
mostravam. Na verdade, inicialmente ele era incapaz de compreender a idéia da Criança.
Mantinha uma atitude crítica uniforme na maior parte de seus relacionamentos. As
manifestações infantis dos outros, que davam mostras de ingenuidade, charme, vivacidade
ou bobagens, provocavam nele uma reação de desdém, reprovação e punição. No grupo de
terapia que freqüentava, ele se caracterizava por sua atitude de "Matem os pequenos
bastardos". Era igualmente severo para consigo mesmo. Seu objetivo, no jargão do grupo,
parecia ser "evitar que sua própria Criança se intrometesse onde não fosse chamada". Esta é

20
uma atitude comum em pacientes que passaram por tratamento com choque elétrico. Eles
parecem culpar a Criança (talvez corretamente) pela "surra" que receberam, o Pai entra em
alta catexia e, freqüentemente, com a ajuda do Adulto, reprime severamente a maioria das
manifestações infantis.
Havia algumas exceções curiosas para a atitude de desaprovação de Mr. Troy. Em
razão de irregularidades heterossexuais e do álcool, ele se comportava como um pai
sabichão complacente, e não como tirano, distribuindo com liberdade a todas as jovens e
homens das redondezas o benefício de sua experiência. Seus conselhos, entretanto, eram
prejudiciais e baseavam-se em preconceitos banais que ele era bastante incapaz de corrigir,
mesmo que seu erro ficasse demonstrado várias vezes. Não foi surpresa saber que, quando
criança, ele tinha sido desdenhado e castigado por seu pai por eventuais exibições de
ingenuidade, charme, euforia e frivolidade, e que ouviria histórias de excessos sexuais e
alcoólicos. Assim, seu estado do ego parental, fixado como capa protetora, reproduzia, de
algum modo, as atitudes de seu pai. Este Pai fixado não admitia tolerância em relação às
atividades do Adulto e da Criança, a não ser dentro dos limites nos quais o pai de Mr. Troy
podia manipular.
A observação de tais personalidades fixadas é instrutiva. O Pai constante, visto em
pessoas como Mr. Troy; o Adulto constante, encontrado em cientistas objetivos e sérios; e a
Criança constante freqüentemente exemplificam de maneira satisfatória algumas das
características superficiais destes três tipos de estados do ego.
Alguns profissionais ganham a vida através da exibição pública de um estado do
ego constante: os clérigos, com Pai; os diagnosticadores, com o Adulto; e os palhaços, com
a Criança.*
Os casos apresentados até agora demonstram a base teórica da análise estrutural,
que contém três absolutos pragmáticos e três hipóteses gerais. "Absoluto pragmático"
significa uma condição para a qual não tenha havido nenhuma exceção.
1- Que todo indivíduo foi criança um dia.
2- Que todo ser humano, com um funcionamento suficientemente bom do tecido
cerebral, é potencialmente capaz de uma adequada avaliação de realidade.
3- Que todo indivíduo que sobrevive até a idade adulta teve pais ou alguém in loco
parentis.
As hipóteses correspondentes são:
Que os vestígios da infância sobrevivem na vida posterior como estados do ego
completos (relíquias arqueopsíquicas).
1- Que a avaliação da realidade é função de estados do ego distintos e não de
"capacidade" isolada (funcionamento neopsíquico).
2- Que o comando pode ser assumido pelo completo estado do ego de um
indivíduo exterior, segundo se percebe (funcionamento exteropsíquico).
*
(As histórias de casos apresentados neste livro são fragmentárias. Aspectos distintos do mesmo caso são
usados em diferentes momentos, para ilustrar pontos específicos. As referências a cada paciente individual
foram coletadas no "Índice de Pacientes", que anexamos para a conveniência de leitores que queiram seguir
um caso específico através do texto.)

21
Em resumo, a estrutura da personalidade é encarada como compreendendo três
órgãos: a exteropsique, a neopsique e a arqueopsique, conforme mostra na Figura 1A. Estes
se manifestam fenomenológica e operacionalmente como três tipos de estados do ego
chamados Pai, Adulto e Criança, respectivamente, conforme a Figura 1B.

NOTAS

Termos psicanalíticos como "processo primário", "processo secundário" e "testes de


realidade" estão mais concisamente elucidados em An Outline of Psychoanalysis, de Freud.
(1) A relação das alucinações com os conteúdos mentais arcaicos, especificamente
"imagens primárias", tem sido discutida pelo autor. (2)
Os casos de Mrs. Primus e Mr. Segundo foram relatados em obra anterior. (3)
Já que eu tive vários advogados em minha prática clínica recente, devo enfatizar
que, em face de tentativas de identificação, Mr. Segundo não é um deles. Na vida real, ele
permanece em anonimato seguro, em outra profissão, a quase 5.000 quilômetros de meu
consultório.

REFERÊNCIAS

1. Freud, S. An Outline of Psychoanalysis. W. W. Norton & Company, Nova York, 1949.


2. Berne, E. "Primal Images and Primal Judgment". Psychiat. Quart. 29:634-658, 1955.
3. Berne, E. ""ego States in Psychotherapy". Amer. J. Psychother. 11:293-309, 1957.

22
3.
A FUNÇÃO DA PERSONALIDADE

1. REAÇÃO A ESTÍMULOS

Assim como vários órgãos do cérebro e do corpo, também os diferentes sistemas da


personalidade reagem diferentemente a estímulos. A exteropsique é criteriosa de um modo
imitativo e busca fortalecer conjuntos de padrões emprestados. A neopsique ocupa-se
sobretudo da transformação de estímulos em peças de informação e do processamento e
arquivo dessa informação com base na experiência prévia. A arqueopsique tende a reagir de
maneira mais brusca, baseada no pensamento pré-lógico e em percepções pouco
diferenciadas ou distorcidas. Na verdade, cada um desses aspectos percebe o ambiente de
forma diversa, de acordo com sua função, e, portanto, reage a um conjunto diferente de
estímulos. Um exemplo bastante simplificado, porém ilustrativo, é a reação das pessoas
diante das histórias populares sobre defraudadores. Estas provocam uma reação Parental,
moralista, em apenas alguns indivíduos. Em maior número de pessoas, desperta um
interesse mais concreto, Adulto, a respeito de como se realizou a fraude. Talvez a reação
mais comum seja o pensamento ingênuo e infantil, embora usualmente não expresso: "Seria
interessante fazer isso”. Na linguagem da análise transacional, o Pai, que critica o fato, joga
o papel de Desonra; o Adulto, o de Fiscal; e a Criança quer jogar o de Polícia e Ladrões.
Os três aspectos também reagem entre si. O Pai pode ficar excitado (isto é, aflito)
com as fantasias da Criança, e a Criança pode ser extremamente sensível a estímulos
inibitórios do Pai. Esta relação é, comumente, uma réplica da relação original criança-pai
que o indivíduo vivenciou.

2. O FLUXO DA CATEXIA

Mrs. Tettar, uma dona-de-casa de 22 anos, foi encaminhada para o tratamento no


intenso estado de agitação que a acometeu após o nascimento de seu segundo filho. Uma de
suas manifestações mais freqüentes durante as seções terapêuticas eram os seus resmungos
compulsórios. Perguntava com freqüência ao terapeuta o que fazer a respeito da saída de
sua empregada, ou se deveria internar-se num hospital. Logo foi possível mostrar-lhe que,
embora superficialmente suas perguntas representassem uma busca Adulta de informação,
em outro nível elas constituíam uma tentativa de sua Criança de manipular o terapeuta de
algum modo. A paciente respondeu expressando ressentimento para com sua mãe por tê-la
mimado. Deu exemplo de como ela pedia à mãe que fizesse as coisas por ela, mesmo
podendo tê-las feito sem a ajuda de ninguém. Achava que sua mãe não deveria continuar
assim.

23
À medida que este problema foi trabalhado durante a sessão, a atitude da paciente
foi modificando-se gradualmente. Relaxou-se a tensão de seu rosto, sua voz ficou mais
segura e, em vez de se lamuriar, tornou-se sociável e mostrou-se alegre e comunicativa, tal
como convinha a sua idade, segundo afirmou. Mas, quando ia saindo pela porta, ao final da
sessão, em companhia do terapeuta, recaiu no seu estado mental anterior e recomeçou suas
queixas. Então, de repente, virou-se, sorriu alegremente e disse: "Lá vou eu outra vez!"
Tais desvios no estado do ego, que podem ser prontamente observados tanto em
pessoas sadias como em pacientes, podem ser explicados através do conceito de energia
psíquica, ou catexia, com base no princípio de que, num dado momento, aquele estado do
ego que é catexizado de um certo modo terá o poder executivo ou de comando. Num
primeiro momento, será suficiente falar simplesmente de "fluxo da catexia". Os dados
fornecidos a respeito de Mrs. Tettar podem ser explicados, neste sentido, dizendo-se que ela
chegou com uma Criança em alta catexia; esta catexia gradualmente fluiu da Criança para
Adulto, até que o Adulto assumiu o comando, mas, na hora em que ela saiu, a catexia foi
drenada à Criança, e, quando ela conseguiu conter-se, fluiu abruptamente de volta para o
Adulto. Os ciclos de comportamento e atitude de Mrs. Primus também podem ser
explicados de modo semelhante.

3. FRONTEIRAS DO EGO

Quando se diz que a catexia flui da Criança para o Adulto e vice-versa, neste
conceito ou metáfora está implícito que existe algum tipo de fronteira entre os dois estados
do ego. Embora esta implicação talvez possa ser pensada em termos neurológicos, ainda
não temos a possibilidade de sua verificação fisiológica, de modo que nos restringiremos a
considerar os fenômenos psicológicos.
Em seu estado pré-psicótico e durante as remissões que ocorriam no decorrer da
terapia, Mrs. Tettar estava ciente de certas obsessões, fobias e compulsões que eram
distônicas do ego. Em tais ocasiões, sua obsessão por limpeza, seu modo de sujeira e
compulsões de lavar as mãos um certo número de vezes seguidas geralmente eram
percebidas por ela como se não fizesse parte do seu "eu real". Neste tipo de raciocínio, sua
mente dividia-se em dois sistemas: "Eu real" e "Eu não real". O "Eu real" era capaz de
avaliar a realidade com relação a sujeira e limpeza; o "Eu não real" não. O "Eu real"
conhecia coisas sobre higiene (sobretudo se considerávamos que seu marido trabalhava em
saúde pública) que uma criança seria incapaz de avaliar, enquanto o "Eu não real" era
guiado pelo pensamento mágico característico de uma criança em determinada fase
específica de desenvolvimento. Assim, o "Eu real" era tipicamente Adulto e o "Eu não real"
era caracteristicamente Criança.
A visão da própria Mrs. Tettar desses dois aspectos diferentes de sua personalidade
trazia implícita a existência de uma fronteira entre eles, já que, em sua mente, certas formas
de comportamento e sentimento pertenciam a um sistema que ela percebia como seu eu real
e outras formas pertenciam a um sistema que estava fora deste. A multiplicação desses
relatos justifica a suposição de que cada estado do ego é um tipo de entidade diferenciada,

24
de alguma forma, do resto dos conteúdos psíquicos, inclusive de outros estados do ego que
existiram há muitos anos ou há poucos momentos, ou que estão simultaneamente ativos. A
maneira mais conveniente e provavelmente mais correta de se dizer isto é falar de cada
estado do ego como possuidor de uma fronteira que o separa de outros do ego. Portanto,
podemos considerar um conjunto de círculos um bom modo de representar a estrutura da
personalidade conforme aparece na Figura 1B.

4. O PROBLEMA DO EU

Ao considerarmos o fato de Mrs. Tettar lavar as mãos como distônico do ego,


pretendemos nos referir especificamente ao ego Adulto. Pois, em seu estado psicótico
inicial, quando o "Eu real" de Mrs. Tettar era a Criança, o fato de ela lavar as mãos tornava-
se sintônico do ego: ou seja, nessas ocasiões ela aceitava suas próprias racionalizações
artificiais para este comportamento, e isto era de esperar, uma vez que as próprias
racionalizações vinham da Criança. Em seu estado neurótico, estas razões eram ouvidas
pelo Adulto, que discordava, enquanto, em seu estado psicótico, elas eram ouvidas pela
mesma personalidade que as elaborara. Em outras palavras, o fato de Mrs. Tettar lavar as
mãos era distônico do ego Adulto e sintônico do ego Criança, de modo que para ela
percebê-lo, num dado momento, como distônico ou sintônico, dependia de qual fosse seu
"Eu real" naquele momento.
O problema agora gira em torno do que determina o "Eu real". Evidentemente, isto
não depende do poder de comando, já que quando ela estava lavando as mãos ou
procurando pequenas sujeiras de modo relutante, em sua condição não-psicótica, sua
Criança comandava, mas o Adulto ainda era vivido como "Eu real".
A compreensão clínica nesta área pode ser obtida pela postulação de três estados de
catexia: atado, desatado e livre. É possível a analogia com um macaco numa árvore. Se ele
fica inativo, sua posição elevada somente lhe dá energia potencial. Se ele cai, sua energia
potencial transforma-se em energia cinética. Mas, sendo um ser vivo, ele pode saltar e,
então, deve-se levar em conta um terceiro componente, a energia muscular, a fim de
compreender como ele chega ao chão. Enquanto permanece inativo, a energia física está
atada, digamos assim, em sua posição. Ao cair, esta energia pe desatada e, quando ele pula,
adiciona, um terceiro componente pela livre escolha. Juntas, a energia cinética e a muscular
poderiam ser chamadas de energia ativa. A catexia atada, então, corresponde à energia
potencial, a catexia desatada à energia cinética e a catexia livre, à energia muscular: e a
catexia desatada e a livre juntas compõem o que chamamos de catexia ativa.
As fronteiras do ego são concebidas como semipermeáveis em quase todas as
condições. Elas são relativamente impermeáveis para a catexia atada e desatada, enquanto a
catexia livre pode passar, com relativa facilidade, de um estado do ego para outro.
Podemos, assim, resumir a situação psicológica da seguinte maneira: (a) o estado do
ego em que predomina a catexia livre é percebido como o Eu; ou, como diz Federn, (1) "é a
própria catexia que é vivenciada como sentimento do ego"; (b) o poder de comando é
absorvido por esse estado em que a soma líquida da catexia desatada e da livre (catexia

25
ativa) é maior num dado momento. Estes dois princípios são ilustrados pelo caso de Mrs.
Tettar, em seus três diferentes estados clínicos.
1. No estado sadio, seu "antigo eu", a Criança, contém apenas catexia atada e é,
portanto, latente, enquanto o Adulto está carregado com catexia livre e, assim, é vivido
como seu "Eu real". O adulto também tem o poder de comando, já que contém a maior
soma de catexia ativa (desatada mais livre).
2. Em seu estado neurótico de lavar as mãos, a catexia livre ainda reside no
Adulto, ao passo que a criança contém catexia desatada. Esta catexia desatada predomina
quantitativamente sobre a catexia ativa do Adulto. A Criança, portanto, detém o poder de
comando, embora o Adulto ainda seja vivenciado como "Eu real".
3. Em seu estado psicótico, a criança contém catexia desatada e também a catexia
livre que está sendo drenada do Adulto. Isso deixa o Adulto relativamente vazio de catexia
ativa. Logo, a criança tanto detém o poder de comando como é vivida como o "Eu real".

5. DESLOCAMENTO DO ESTADO DO EGO

Os deslocamentos do estado do ego em tal sistema dependem de três fatores: das


forças atuantes em cada estado; da permeabilidade das fronteiras entre os estados do ego; e
da capacidade de catexia de cada ego. É o equilíbrio quantitativo entre esses três que
determina a condição clínica do paciente e, também, indica os procedimentos terapêuticos
(ou os procedimentos corruptivos exploradores). No caso de Mrs. Tettar, a terapia foi
planejada de modo a trabalhar estes três fatores, um após o outro.
Primeiramente, o terapeuta tentou ativar o Adulto, como no caso de Mrs. Primus,
enfatizando a avaliação da realidade. Supôs-se que a neopsique, enquanto sistema, estivesse
intacta; o problema era aumentar sua catexia ativa (isto é, a desatada mais livre). Os
aspectos de transferência e sociais desempenharam seu papel nesta mobilização. Em
segundo lugar, o terapeuta tentou esclarecer e fortalecer a fronteira entre o Adulto e a
Criança, a fim de "capturar" esta catexia aumentada do Adulto. Em terceiro, ele tentou
aumentar a capacidade de catexia da Criança, tanto absoluta como relativamente, por meio
da resolução de conflitos infantis, de modo a fazer com que a criança estivesse menos apta
a tornar-se ativa em momentos inoportunos e de uma forma não saudável. As técnicas reais
usadas não são pertinentes a esta discussão, cujo propósito é apenas ilustrar a importância
do estudo dos fatores que influenciam os deslocamentos do estado do ego. Os princípios
envolvidos com freqüência são reconhecidos de modo intuitivo pelos próprios pacientes;
este aspecto particular será discutido mais tarde.
Neste ponto, devem ficar claras duas distinções que comumente causam dificuldade.
O Pai pode funcionar ou como estados do ego ativo ou como influência. No caso de Mr.
Troy, o Pai era tanto o que comandava quanto o "Eu real", e funcionava como um estado do
ego ativo. Isto significa que ele se comportava como Pai. Por outro lado, quando Mrs.
Primus abaixou a barra de sua saia, seu estado do ego ativo era o de uma criança submissa,
enquanto o Pai, na forma de vozes alucinadas, atuava apenas como uma influência. Ela não

26
se comportava como pai, mas sim como o pai teria gostado que ela fizesse. Assim, quando
o Pai é mencionado, devemos distinguir entre estado do ego ativo ou influência Parental.
É a influência Parental que determina se a Criança adaptada ou a Criança natural é
ativa em um dado momento. A Criança adaptada é um estado do ego arcaico que está sob
influência Parental, enquanto a Criança natural é um estado do ego arcaico que esta livre de
tal influência ou tenta libertar-se dela. É a diferença, por exemplo, entre uma criança
obediente e uma criança que tem acesso de raiva. Novamente, é preciso deixar claro o que
se pretende dizer como o estado Criança.

NOTAS

As discussões de Freud sobre "energia psíquica" e catexia (Besetzungsenergie) estão


entre suas mais obscuras discussões. Algumas das dificuldades talvez se devam a seus
tradutores. (2) Colby (3) tem tentado resolver alguns desses problemas. O caminho mais
simples é aceitar totalmente o conceito de catexia e tentar correlacioná-lo com suas próprias
observações.

REFERÊNCIAS

1. Weiss, Edoardo, loc. Cit., p.37


2. Por ex., Freud, S., An Outline of Psychoanalysis, loc. cit., p.44 ss.
3. Colby, K. M., Energy & Structure in Psychoanalysis, Ronald Press, Nova York, 1956.

27
4.
PSICOPATOLOGIA

A análise estrutural torna possível a sistematização de uma patologia geral para


distúrbios psiquiátricos. A patologia refere-se às reações de organismos vivos a doenças. O
estudo de entidades nosológicas específicas e de mecanismos de defesa particulares
pertence ao campo da patologia especial. No momento, estamos interessados em reações
mais gerais, que envolvam toda a organização psíquica ou que sejam comuns a amplas
categorias de distúrbios.
A patologia estrutural ocupa-se das anomalias da estrutura psíquica, sendo as duas
mais comuns a exclusão e a contaminação. A patologia funcional refere-se à instabilidade
de catexia e à permeabilidade das fronteiras do ego.

1. EXCLUSÃO

A exclusão manifesta-se por uma atitude estereotipada, possível de previsão, que é


imperturbavelmente mantida por tanto tempo quanto possível, em face de qualquer situação
ameaçadora. O Pai constante, o Adulto constante e a Criança constante, todos resultam
primariamente da exclusão defensiva dos outros dois aspectos complementares, em cada
caso. Os ganhos transacionais secundários tendem a reforçar a exclusão.
O Pai excludente é classicamente encontrado em esquizofrênicos "compensados" e,
nestes casos, a exclusão constitui a principal defesa contra a confusa atividade
arqueopsíquica. Tais pessoas têm a maior dificuldade para reconhecer a existência da
Criança, uma vez que o objeto da exclusão é controlar e negar esse aspecto. A estabilidade
de tal exclusão foi demonstrada por Mr. Troy, por um período de seis anos em terapia de
grupo, após ter recebido alta num hospital naval. A estrutura de seu Pai altamente
catexizado já foi descrita. O Adulto e a Criança só emergiam sob as circunstâncias mais
favoráveis.
Quando os procedimentos se tornavam um seguro lugar-comum, o Pai de Mr. Troy
relaxava o suficiente para o Adulto fazer uma tímida exibição. Então ele era capaz de
discutir, de modo honesto, a temperatura, as notícias, as horas e as ironias de seus assuntos
pessoais. Seu jeito era agradável e seguramente trivial. (1) Dizia que estava com calor, que
os negros eram boas pessoas, mas que era necessário vigiá-los, que ninguém tinha
aprendido nada desde a última guerra e que sempre que ele resolvia lavar o seu carro
chovia. Às vezes, como o Boeotian Oread, ele conseguia dizer algo mais, neste estado do
ego, ou repetia vigorosamente as últimas palavras que lhe diziam, por exemplo: "Ter de
vigiá-los"; "última guerra"; "chove". Mas, no momento em que uma controvérsia o

28
amedrontava, o Adulto como catexia fraca se retratava diante do dogmatismo hostil do Pai,
e este retomava o seu lugar.
Por outro lado, quando o terapeuta falava, ele respondia com complacência,
inclinando-se respeitosamente e numa postura diferencial. Esta era a Criança adaptada,
comportando-se do modo como devia, sob a vigilância observadora do Pai alerta. Mas, se o
terapeuta ameaçasse a hegemonia Parental, com uma atitude indulgente para com qualquer
de seus pecadinhos infantis (não-sexuais, mas impetuosos), a Criança era rapidamente
excluídas dos procedimentos, e o Pai assumia imediatamente a sua política do "chega de
bobagem e matem o pequeno bastardo". O grupo estava bastante convencido de que o Pai
Troy tinha realmente tentado fazer isso uma ocasião, querendo atirar a Criança Troy de um
penhasco, a menos que tivesse sido a Criança exasperada que tivesse tentado eliminar o Pai.
Em todo o processo, ele demonstrava a fraca (desatada) catexia de seu Adulto e Criança e a
força catastrófica do Pai em seu estado "compensado". Tal personalidade está representada
na Figura 2A, que foi desenhada na lousa para proveito de Mr. Troy numa fase apropriada
de seu tratamento, mais ou menos na época em que ele começou a distinguir as crianças
reais, usando o gênero "ele" ou "ela", em lugar de se referir aos bebês de seu ambiente
indiscriminadamente como "ele".*

A personalidade de Mr. Quint ilustra outro tipo de estrutura. Como cientista social,
ele se saía muito bem com projetos experimentais e com máquinas de calcular. Por um
lado, ele estava destituído do encanto, da espontaneidade e do humor característicos da
criança sadia e, por outro, ele era incapaz de tomar partido, com a convicção ou indignação
que é encontrada em pais sadios. A hipótese sem valor era seu instrumento favorito; em
festas, ele era incapaz de compartilhar do divertimento, e, em momentos de necessidade,
ele não conseguia nem agir como pai de sua esposa, nem oferecer e seus alunos uma
influência paternal. Por apresentar um Adulto excludente, ele funcionava quase que
somente como planejador, coletor de informação e processador de dados, construindo uma
reputação bem merecida como elemento de qualidades superiores nesses assuntos. Este

*
Em inglês it, pronome pessoal neutro, na 3ª pessoa do singular. (NT)

29
Adulto era seu "eu real", e ele tinha um sério compromisso com o processamento de dados
como meio de ganhar a vida.
Assim, em quase todas as situações, ele conseguia manter a Criança e o Pai sob o
domínio cruel da intelectualização. Infelizmente, a exclusão falhava em suas atividades
sexuais, porque aí os aspectos excluídos ficavam tão altamente carregados com catexia
desatada que o Adulto perdia o controle. O resultado era que "ele" (isto é, o Adulto, que
ainda era o seu "eu real") sentia-se caótico e desamparado na batalha subseqüente entre a
Criança e o Pai ativados. Este fato torna clara a função defensiva da exclusão. Como ele
descobriu, para seu desespero, o relaxamento em favor da Criança terminava em
comportamento impulsivo, e qualquer tolerância para com as atitudes parentais desaguava
em autocensura e depressão. A estrutura da personalidade do Dr. Quint está representada na
Figura 2B.
A Criança excludente, conforme aparece na Figura 2C, é com mais freqüência
observada socialmente em personalidades impulsivas narcisistas, como certos tipos de
prostitutas de "alta classe" e, clinicamente, em alguns tipos de esquizofrenia ativa, em que
tanto os estados do ego racionais (Adulto) e de julgamento ou de nutrição (Pai) estão
afastados. Em muitos casos, pode haver fracas exibições do Adulto ou do Pai, mas
facilmente eles se dissipam diante de ameaças e se reinstala a Criança sedutora ou confusa.
São as prostitutas e os esquizofrênicos "inteligentes" e "cooperadores". Em outros
momentos, pode haver manifestações surpreendentes de perspicácia "natural" e moralidade
básica, mas elas são essencialmente infantis por natureza, se comparadas com o
comportamento de crianças reais, ou como os estudos de Piaget (2,3) mostrarão.
O problema clínico apresentado por tais exclusões patológicas demonstra tanto a
função como a natureza do estado do ego soberano. As tentavas de se comunicar com os
aspectos excluídos são frustradas pela resposta idiossincrática do Pai, Adulto ou Criança
defensivos: religiosidade, intelectualização, ou lisonja, pseudocomplacência, por exemplo.
A característica operacional dessas personalidades é que, sob condições ordinárias, todas as
suas respostas manifestadas originam-se de um único sistema. Os outros dois sistemas estão
desautorizados. Por muito tempo foi impossível chegar ao Adulto ou à Criança de Mr.
Troy, ou o Pai e à Criança de Dr. Quint. O desespero dos homens que tentam apelar para a
moralidade ou racionalidade de mulheres impulsivas narcisistas é um exemplo notável das
dificuldades criadas pelos fenômenos de exclusão.
Convém enfatizar que os estados do ego excludentes não são papéis. A questão de
papeis será discutida mais tarde.

2. CONTAMINAÇÃO

A contaminação assume a configuração de certos tipos de lesão. Por um lado, e de


ilusões, por outro. O diagrama da Figura 3A representa a estrutura de uma lesão. O que se
nota é que parte do Pai penetra no Adulto e se inclui nas fronteiras do ego Adulto.

30
O filho de um missionário tentou provar que toda dança é pecaminosa, referindo-se
às condições de uma ilha do Pacífico onde seu pai tinha estado em 1890. Às vezes ele era
capaz de reconhecer que esta conclusão do ego Adulto sintônico, que ele vivenciava e
defendia como se fosse racional, era, na realidade, uma lesão Parental. Depois do
tratamento, esta, juntamente com outras lesões, foi relegada ao Pai por meio de um
realinhamento das fronteiras do ego Adulto, conforme mostra a Figura 3B. Na prática, isto
significa que, sob circunstâncias ordinárias, ele era capaz de discutir sobre dança e
atividades afins, racionalmente, com a filha adolescente e com a esposa, mas, sob certos
tipos de tensão, o Adulto era destruído e o Pai reassumia, reinstalando, assim, a sua
intransigência. Quando o Adulto era reativado, ele era capaz de olhar objetivamente o que
tinha acontecido. E, na medida em que o Adulto se fortalecia, os vociferantes episódios
Parentais tornavam-se cada vez menos freqüentes. Mas o pré-requisito para isso foi a
descontaminação terapêutica original do Adulto, isto é, diferença entre as Figuras 3A e 3B.
Uma mulher tinha a impressão de que estava sendo espionada no banheiro. Sua
condição clínica permitia detectar uma ilusão, mas por acaso havia uma prova de que isto
ocorrera realmente. Entretanto, o material de sua infância oferecia uma base para o
diagnóstico da ilusão, embora a mulher insistisse em citar uma evidência lógica para provar
que havia um ninho de espiões em seu quintal.
A estrutura de sua ilusão está representada na Figura 3C. aqui houve uma
contaminação do Adulto pela Criança. No curso do tratamento, ela percebeu em outras
conexões que havia um aspecto arcaico de sua personalidade que não era sintônico do ego
Adulto. Deste modo a existência da Criança nela estava estabelecida. Mais tarde, ele era
capaz de perceber a natureza arcaica de suas provas concernentes aos espiões. Assim, seu
Adulto podia ser descontaminado e seu sistema ilusório relegado à Criança. Depois do
realinhamento dos limites de seu ego Adulto, como mostra a Figura 3D, as ilusões não
continuaram sintônicas do ego Adulto por muito tempo. A partir deste ponto, apenas se o
Adulto fosse desautorizado, as ilusões poderiam reaparecer como tais. Mas, com o
crescente esclarecimento e fortalecimento do ego Adulto, os seus limites tornaram-se cada
vez mais firmemente estabelecidos e mais difíceis de romper. Assim, ela era capaz de
resistir a quantidades crescentes de tensão e seus intervalos lúcidos foram aumentando
gradualmente.
A Figura 3E representa uma dupla contaminação e a Figura 3F, o resultado, após
tratamento. A julgar por esses diagramas, parece que o Adulto está contraído depois do
tratamento, mas convém lembrar que a situação, na realidade, assemelha-se mais a um
diagrama tridimensional. As contaminações não são subtraídas do Adulto, mas deslocadas.
Metaforicamente, é como tirar as partes cheias de musgo de um navio, de modo que depois
fique menos difícil dirigi-lo.
O diagnóstico de uma contaminação simples exige o reconhecimento de quatro
áreas da personalidade, enquanto o da dupla envolve cinco, como indicam as flechas na
Figura 3G. Um item originado da Área P é reconhecido pelo Adulto um produto Parental,
enquanto um proveniente da Área C é percebido como produto da Criança. Os itens que
procedem das Áreas PA, A e AC, no entanto, são todos vivenciados como tais. É aqui que o
terapeuta executa o seu serviço, corrigindo o diagnóstico errado do paciente e ajudando-o a
alcançar a descontaminação e o realinhamento de fronteiras. As técnicas, mecanismos,

31
problemas e precauções terapêuticas envolvidas na mudança da situação representada na
Figura 3E para a representada na Figura 3F serão discutidos em momento oportuno.

3. PATOLOGIA FUNCIONAL

Existem alguns pacientes que podem ou teimar na manutenção de um estado do ego


ou desviar-se de um para outro, oportuna e rapidamente. Mrs. Sachs, por exemplo, era
socialmente célebre, de um lado, por apegar-se obstinadamente a certos preconceitos raciais
e familiares a qualquer custo e, de outro, pelo fato de, na vida conjugal, lamentar-se, acusar
e reprimir o marido por agressão passiva com a mesma insistência, até conseguir o que
queria. Às vezes, depois que esta Criança obstinada teimava com tal intensidade por três ou
quatro noites, ela ficava com enxaqueca.
Em tratamento, a situação era bastante diferente. Uma palavra do terapeuta poderia
transformá-la de fanática indignada em Criança queixosa e outra poderia mantê-la, por
pouco tempo e transitoriamente, como Adulto racional, capaz de avaliar o seu
comportamento anterior com considerável grau de objetividade. Mas um deslize de sua
parte possivelmente provocaria o ressurgimento do Pai hostil e arrogante ou da Criança
nadando em sua própria miséria. É como se houvesse uma baixa viscosidade no fluxo entre
a catexia atada e a desatada em cada estado, e a catexia livre também era lábil. Assim, em

32
tratamento, o Eu real costumava desviar-se rapidamente de um para outro estado do ego, e
cada um deles poderia ser carregado e descarregado com considerável facilidade. Mas sua
vida exterior demonstrava também que cada estado do ego era capaz de reter a carga ativa e
manter o poder de comando durante um longo período em circunstâncias especiais, o que
evidenciou a existência de fronteiras do ego bastante firmes. Portanto, parece possível falar-
se de labilidade de catexia sem defeito nas fronteiras do ego, em certas personalidades. Na
verdade, essas qualidades, se organizadas de maneira adequada, pode, formar a base para
um funcionamento altamente eficaz e adaptável. O tipo complementar com boas fronteiras
do ego e catexia lenta também existe; trata-se de pessoas que demoram para começar ou
parar de jogar, pensar ou moralizar.
A permeabilidade das fronteiras do ego, também tem seus dois pólos. O mecanismo
de exclusão só está disponível para as pessoas que têm fronteiras de ego rígidas. Assim,
alguns esquizofrênicos têm dificuldade em "compensar" ou em conservar sua
compensação. As pessoas astênicas, que perdem identidade, que deslizam de um estado
para outro sem muita intensidade, têm fronteiras frouxas do ego. A Criança e o Pai, embora
sejam ambos fracos, penetram ou irrompem os limites do ego do Adulto, com um pouco de
dificuldade, e o eu real desvia-se sob pequenas tensões. Mrs. Sachs tinha uma Criança
desleixada, mas absolutamente, desordenada. Em pessoas com limites frouxos do ego, a
personalidade dá a impressão de ser relaxada.

REFERÊNCIAS

1. Cf. Harrington, A. The Revelations of Dr. Modesto. Alfred A. Knopf, Nova York, 1955. Esta é uma
daquelas sátiras curiosas que podem ser levadas a sério com bastante facilidade. Trata do "centralismo", um método
comum de lidar com pessoas.
2. Piaget, J., The Construcion of Reality in the Child, basic Books, Nova York, 1954.
3. Piaget, J., The Moral Judgement of the Child. Harcourt Brace & Company, Nova York, 1932.

33
5.
PATOGÊNESE

A vida somática pode ser concebida como um continuum em que o estado geral do
corpo se modifica de momento a momento, de acordo com os princípios de fluidez e
homeostase biológicas. Clinicamente, entretanto, é mais conveniente considerar os efeitos
dos vários estímulos e sistemas especiais e isolar os períodos do continuum.
A vida psíquica seria um continuum semelhante, consubstanciado em um único
estado do ego que se modifica, de momento a momento, de modo abrupto ou maleável.
Aqui, novamente, os clínicos em geral acham útil considerar sistemas e períodos especiais.
Os períodos psicológicos naturais são delineados pela natureza, com erupções de atividade
intercalada entre períodos de relativo descanso, Comumente, a psique recebe durante o dia
o bombardeio de estímulos internos e externos, nem todos eles passíveis de "assimilação"
de uma só vez. O período de sono subseqüente oferece a oportunidade para esta
assimilação. Assim, um dia pode ser convenientemente tomado como "unidade do ego". A
partir deste ponto de vista, a função dos sonhos é assimilar as experiências do dia anterior.
O novo dia, então, começa com um estado do ego relativamente arejado, e o processo se
repete. Se algo é insuscetível de "assimilação", os sonhos tendem a tornarem-se repetitivos
e o ego desperto começa a estagnar.* Este conceito é bastante familiar.
A gênesis das personalidades patológicas pode ser ilustrada por uma metáfora
simples. As experiências de cada dia, uma unidade do ego, são comparáveis ao simples
arremesso de uma moeda, que é polida durante a noite. Uma vida idealizada, livre de
traumas, consistiria, então; da superposição de tais moedas em uma pilha cada qual
carregando a marca da mesma personalidade, mas uma um pouco diferente das outras, e
todas colocadas de modo que toda a coluna ficasse reta e perfeita como na Figura 4A. Um
estado traumático do ego, no entanto, seria como uma moeda deformada, que inclinaria a
coluna a partir do ponto onde se encontra, independente de quão perfeitas fossem todas as
moedas subseqüentes, como na Figura 4A. Se houvesse estados do ego com trauma
periódico, todos da mesma direção, até correr o risco de cair, como na Figura 4C. Se os
traumas fossem de naturezas diferentes, então, a pilha formaria um ziguezague em
determinados pontos, de tempos em tempos, e, por acaso, poderia terminar apontando
verticalmente outra vez, mas com uma instabilidade inerente, como na Figura 4D. Em
qualquer caso, as inclinações teriam um efeito algébrico aditivo na mudança do equilíbrio e
da direção da coluna.
Traduzindo esta metáfora em termos clínicos, um trauma anterior poderia desviar a
pilha da linha vertical; um posterior poderia desviá-la mais ainda; e um traumatismo
subseqüente poderia levá-la a uma instabilidade cada vez maior, mesmo que a moeda do
topo em alguns casos pudesse não revelar as inclinações subjacentes. O importante é que, a
fim de corrigir a situação, seria necessário retificar apenas uma ou duas moedas.

*
Depois que publicamos isto, apareceu o trabalho de Dement sobre privação de sonho. (4)

34
É evidente que, quanto mais embaixo estiver a moeda inclinada, maior será o efeito
sobre a estabilidade final. Neste ponto, seria possível falar de diferentes tipos de moedas: os
pennies da infância, os níqueis do período latente, os quarters da adolescência e os dólares
de prata da maturidade. Aqui, um penny inclinado poderia eventualmente fazer com que
milhares de dólares de prata caíssem no caos. Este penny inclinado simboliza o que se
referiu acima como sendo Criança. A Criança é o estado do ego inclinado que se fixou e
mudou a direção de toda a porção subseqüente do continuum. Mais especificamente, ela ou
é uma única unidade do ego grosseiramente retorcida (uma verdadeira moeda falsa), ou
uma série de unidades do ego levemente inclinadas (um conjunto de "pennies" originários
de uma matriz defeituosa). No caso da neurose traumática, a Criança é aquele estado do ego
confuso que foi fixado no dia X do mês Y do ano Z, da infância do paciente. No caso das
psiconeuroses, é o estado do ego enfermo que retorna dia após dia, sob condições adversas
semelhantes, do mês A para o mês B do ano C, na infância do paciente. Em qualquer
indivíduo, o número de estados do ego arcaico patológico fixados (ou séries de estados do
ego): um ou dois, e, em casos raros, talvez três. Deixamos a exploração que fizemos da
metáfora das moedas, que se presta a muitos outros casos além dos mencionados, a critério
do leitor.
Uma integrante da família Hept ensinou perversões sexuais a seu neto desde se 39º
até seu 42º mês. Toda manhã ele se deitava na cama com ela, em estado de expectativa e
excitação, estado este que a avó o tinha instruído a dissimular, caso entrasse alguém no
quarto, e a esperar que sua mãe saísse de casa para o trabalho. Este estado do ego complexo
se fazia seguir por um estado de abandono sexual. Um dia o sedutor e amante ficou
audacioso que fez uma tentativa com sua mãe, quando ela se enxugava após o banho. O
fato confirmou a crescente suspeita que antes surgiria tão grotesca e fantasiosa à mãe que
ela se julgara louca. Seu horror foi tão grande que o garotinho caiu em estagnação. Todo o
seu estado de ego, altamente carregado, tornou-se fixo e desintegrou-se do resto da
personalidade. Neste sentido, tal momento épico marcou o nascimento da sua Criança.

35
Aqui, o trauma decisivo não foi a sedução, mas a reação da mãe. Quando a
personalidade do menino foi analisada, mais tarde, nos componentes Pai, Adulto e Criança,
a Criança, que se manifestava, às vezes, tanto fenomenológica como socialmente, consistia
de um estado do ego que reproduzia, em catexia total, todos os momentos presentes no
quarto da avó. Era o estado do ego Criança real entre 38 e 41 meses de idade que um dia
realmente existira. Embora o próprio menino tivesse desaparecido irrevogavelmente como
um fenômeno único no universo, seu estado do ego persistia imutável, para ressurgir, com
pleno vigor, em certas ocasiões. Seu Pai reagia a seu próprio comportamento infantil e ao
comportamento semelhante de outras pessoas, com a atitude específica de horror
manifestada por sua mãe no banheiro (Figura 5A). Faltou oportunidade para observar se a
Criança fora excluída do Adulto, assim como o Pai, o resultaria em neurose traumática
(Figura 5B), ou se certos elementos da Criança eram sintônicos do ego Adulto por
contaminação, o que constituiria neste caso uma perversão carregada de arrependimento
(Figura 5C). Se tivesse sido a própria mãe a seduzi-lo, então algum elemento da Criança
poderia vir a ser não somente sintônico do ego Adulto mas também sintônico do ego Pai,
formando uma perversão "psicopata" (Figura 5D). Por outro lado, se o episódio com a mãe
não tivesse ocorrido, o paciente sofreria provavelmente apenas um acréscimo do leve
traumatismo diário, o que resultaria numa psiconeurose.

Miss Ogden seduzida por seu avô, com seis anos de idade, depois que seu Pai
Edípico tinha sido fixado. Este Pai, no entanto, foi desautorizado durante o evento, de modo
que ela coopera com a sedução, até certo ponto. Ela escondeu o segredo de sua mãe, porque
já previa a ausência de compreensão da parte dela. O elemento sexual do estado do ego
daquele dia ficou excluído (do Adulto), enquanto o elemento segredo permanecia, como se
fosse, no momento, sintônico do ego Adulto. Quando o estado do ego completo, isto é, sua
Criança total, se manifestava em sonhos, ressurgia, com poucas variações, o estado do ego
real de uma menininha real que existira às 15 horas de 12 de outubro de 1954, a hora da
sedução. Em vigília, ela era rigorosamente assexuada, não usava maquilagem e vestia-se
com a austeridade de uma freira. Sendo o seu segredo patológico sintônico do ego Adulto,

36
no entanto, ela o racionalizou. E, já sua mãe era reservada, ele era também sintônico do ego
Pai; assim, o segredo de Miss Ogden não só era patológico mas também "psicopático". Em
certa ocasião, ela contou uma longa história sobre uma antiga colega de classe, de uma
escola situada a 4.800km de distância, mas referiu-se a ela como "esta pessoa" e recusou-se
a divulgar seu primeiro nome ou mesmo a mencionar seu sexo inicialmente, porque
"eventualmente ela poderia ser vista e então se saberia quem ela era". De qualquer forma, a
paciente acrescentou: "Minha mãe me ensinou a nunca mencionar nomes, e eu acho que
não se deve fazê-lo."
A estrutura de uma neurose de caráter é semelhante à de uma "psicopatia", e até
aqui as evidências indicam que a distinção entre ambas é estabelecida provavelmente pelo
ambiente social. Um cacique das ilhas Fiji que, há um século, comia pessoas, batia em suas
esposas ou fazia seus servos comerem vidro moído para ofendê-los, parece ter sido visto
por seus contemporâneos como um mau caráter, mas não um "psicopata" criminal. (1)
Atualmente, os governos coloniais chamam freqüentemente seus assessores psiquiátricos
para consultas, em casos de conduta bárbara de seus súditos.
Na verdade, a análise estrutural leva a algumas conclusões surpreendentes sobre
pessoas "normais", que estão, entretanto, de acordo com o julgamento clínico competente.
Em termos estruturais, uma pessoa "feliz" é aquela em que os aspectos importantes do Pai,
do Adulto e da Criança são todos sintônicos entre si.
Um jovem médico com problemas conjugais sentia-se feliz em seu trabalho. Seu pai
também era médico, respeitado por sua mãe, de modo que seu Pai, sem conflito interno,
aprovara sua carreira. Seu Adulto estava satisfeito, porque ele era interessado e competente
em sua especialidade e gostava de fazer um bom trabalho. A curiosidade sexual de sua
Criança era bem sublimada e bem gratificada em sua própria prática. Portanto, o Pai, o
Adulto e a Criança, todos se respeitavam e cada um recebia satisfação apropriada em sua
profissão. Mas, como pais e crianças nem sempre concordam em tudo, às vezes ele ficava
bastante infeliz quando estava fora do consultório. A moral é que se pode definir uma
pessoa feliz, mas ninguém pode ser feliz o tempo todo.
É desconcertante, no entanto, ter de reconhecer que a mesma análise se aplica aos
"criminosos saudáveis" dos campos de concentração. O mito de que estas pessoas seriam
fundamentalmente espíritos torturados é confortante, mas alguns observadores bem
qualificados acham que a suposição é infundida. (2) A seguinte anedota ilustra a estrutura
da personalidade "feliz" levada a sua conclusão lógica:
Um jovem chegou à sua casa um dia e disse à mãe: "Estou tão feliz! Acabo de ser
promovido!" A mãe o congratulou e, quando abriu a garrafa de vinho que estava guardando
para esta ocasião, ela perguntou qual era a nova colocação dele.
"Esta manhã", disse o jovem, "eu era apenas um guarda no campo de concentração,
mas esta noite serei o novo comandante!"
"Muito bem, meu filho", disse sua mãe. "Veja como o eduquei!"
Neste caso, como no caso do jovem médico, o Pai, o Adulto e a Criança estavam,
todos interessados e gratificados por sua carreira, de modo que ele encontrou os requisitos
para a "felicidade". Ele preencheu as ambições de sua mãe em relação a ele com
racionalização patriótica, enquanto obtinha a satisfação para seu sadismo arcaico. À luz

37
desse fato, não é de surpreender que, na vida real, muitas dessas pessoas possam apreciar
boa música e literatura em suas horas de lazer. Este exemplo desagradável suscita algumas
questões sérias sobre certas atitudes ingênuas acerca da relação entre a felicidade, a virtude
e a utilidade, incluindo o aspecto grego da "boa mão-de-obra". (3) Também é uma
ilustração eficaz para as pessoas que querem saber "como educar seus filhos", mas não
podem especificar claramente para que elas querem educá-las. Não basta o desejo de educá-
las a fim de que sejam "felizes".
Outro tipo de personalidade "normal" pode ser descrito estruturalmente: o da pessoa
"bem organizada". Nesses termos, bem organizada é a pessoa que tem fronteiras do ego
bastante definidas, mas não impermeáveis. Ela pode estar sujeita a graves conflitos
internos, mas é capaz de distinguir Pai, Adulto e Criança, de maneira que cada um seja
capaz de funcionar de um modo relativamente estável. (Distinção é um termo mais
saudável e menos categórico que exclusão).
Um professor escocês, com excelente histórico profissional, bebeu um quarto de
litro de uísque quase todas as noites durante 30 anos, embora toda manhã chegasse à escola
na hora certa e trabalhasse bem. Ele era capaz de segregar seu Adulto completamente
durante o dia de trabalho, de modo que o fato de ele beber permaneceu mais ou menos
secreto através de gerações de alunos afáveis. Em casa, o Adulto era desautorizado e sua
Criança assumia enquanto bebia. Seu Pai permaneceu com catexia fraca através de todos
esses anos, mas, durante uma certa fase de sua vida, este aspecto assumiu o comando de
maneira tão absoluta quanto a Criança se acostumara a fazer. Durante este período ele não
bebeu uma única gota, até ninguém sabe quando. Mas tornou-se um terror para seus alunos,
porque eles agora se confrontavam não com o Adulto, mas com o seu Pai. Por causa da
desaprovação do Pai em relação ao fato de ele beber, este homem não foi feliz durante seus
anos de uísque, mas era bem organizado.
O conceito de "maturidade" tem uma conotação especial na análise estrutural. Desde
que se admita que todas as pessoas, em bom estado clínico, têm um Adulto completamente
formado, não se pode falar em "pessoa imatura". Há pessoas cuja Criança tem o poder de
comando, de modo que seu comportamento é o de um indivíduo que ainda não alcançou a
maturidade; mas, desautorizado ou não, o Adulto em tais indivíduos pode ser
desenvolvidos através de intervenções terapêuticas, e então seu comportamento torna-se
"maduro", como no caso de Mrs. Primus. Assim, o comportamento pode ser "imaturo", mas
um indivíduo (possivelmente bloqueado por um defeito orgânico de desenvolvimento)
jamais o será. Um rádio desligado não pode tocar, entretanto, a sua potencialidade é total e
esta pode ser ativada ligando-se a tomada. Não é correto para um paciente supor, pelo fato
de não haver música no consultório durante a entrevista, que o médico não tenha rádio ou
que possua apenas um rádio quebrado. Na experiência do autor, não somente os neuróticos
têm um Adulto bem formado, mas também cada pessoa com problema mental, cada
esquizofrênico crônico e cada psicopata "imaturo". O problema não está no fato de a pessoa
"ser" imatura, mas sim em que é difícil encontrar um modo de fazer com que o Adulto
fique "ligado".
Por causa da infeliz semântica das palavras "maduro" e "imaturo" neste país,* a
melhor política é cancelá-las do vocabulário clínico. Atualmente, apenas os biólogos as

*
O autor refere-se aos E.U.A. (NT)

38
usam de uma forma Adulta objetiva: no restante da população, o Pai parece ter preenchido
esses termos para aumentar seu próprio vocabulário.

REFERÊNCIAS

1. Derrick, R. A., A History of Fiji. Printing & Stationery Dept., Suva, 2ª ed. Ver., 1950.
2. Cohen, Elie, A., Human Behavior in the Concetration Camp. W.W. Norton & Company, Nova York,
1953.
3. Verifique o que Platão, Aristóteles e Kant dizem da felicidade, passim.
4. Dement, W., "The Effect os Dream Deprivation", Science 131: 1705-1707, 1960.

39
6.
SINTOMATOLOGIA

Mais uma vez é desejável que tenhamos, de início, uma visão geral do assunto, a
fim de compreendermos melhor os fenômenos especiais neste campo. Os diagramas
estruturais, que são necessariamente desenhados em duas dimensões, representariam
melhor a situação se fossem tridimensionais; ou mesmo, para que pudessem tornar-se
clinicamente inteligíveis, tivessem quatro dimensões. Entretanto, há aspectos suficientes
para nos fazer pensar em duas dimensões.
O Pai foi colocado no topo e a Criança embaixo, intuitivamente. Esta intuição teve
boas origens morais. O Pai é o guia das aspirações éticas e voracidades empíricas; e a
Criança é o purgatório, e, às vezes, um inferno, para as tendências arcaicas. Este é um
modo de pensar que surgiu naturalmente em todas as épocas e nações. Freud prefaciou seu
livro sobre interpretação de sonhos com uma citação retirada de Virgílio: “Se eu não posso
curvar os deuses do céu, deslocarei o inferno”.
Esta hierarquia moral é reforçada por seu significado clínico. O Pai é o membro
mais fraco, o Adulto é desautorizado com menor facilidade e a Criança parece quase
infatigável. Sob a influência do álcool, por exemplo, o Pai é o primeiro a ser anestesiado, de
modo permitir que a Criança, reprimida ou inibida, passe a expressar-se de maneira mais
flutuante ou livre, suscetível de levar socialmente a crescentes satisfações ou insatisfações.
Em seguida vai o Adulto, e assim as técnicas sociais e os julgamentos objetivos da
realidade física começam a desvanecer-se. É somente com a dose mais forte que a Criança
desvencilhada, confundida por sua própria liberdade, começa a surgir conforme o
inconsciente intervém. O ditado segundo o qual as pessoas revelam seu verdadeiro eu
quando estão bebendo significa que a Criança adaptada, que ouve os ditames do Pai e do
Adulto, dá lugar à Criança natural, à medida que os níveis superiores de funcionamento vão
desaparecendo. Após o efeito da anestesia, a ordem pode, com maior ou menor clareza, ser
invertida, de acordo com o princípio de ortriogênese de Federn. (1)
Admitindo-se certas complexibilidade e idiossincrasias, a situação é semelhante no
adormecer. O ser moral da vigília dá lugar, no estado hipnótico, a um sonhador amoral, mas
prático. Em vez de pensar no que ele deveria fazer ética, prática e prazerosamente, o
sonhador começa a pensar no que gostaria de fazer, sem se importar com problemas morais,
mas mantendo sua imaginação próxima a realidades possíveis. Quando vem o sono, não
somente a ética e a proibição mas também o mundo objetivo da realidade com suas
possibilidades físicas e sociais limitadas caem no esquecimento, de modo que a Criança
fica relativamente livre para prosseguir no seu caminho mágico de sonhos. Na verdade,
certas relíquias do funcionamento do Pai e do Adulto podem estar evidentes mesmo antes
da elaboração secundária, (2) mas sua ocorrência não viola o princípio hierárquico. Elas se
devem à presença, na própria criança, de influências parentais arcaicas e da consciência da
realidade. Isto era o que diferencia formalmente o fenômeno do estado do ego Criança do
conceito Id. A Criança significa um estado da mente organizado que existe ou realmente já

40
existiu, enquanto Freud descreve o Id como “um caos, um caldeirão fervente de excitação,
sem organização e sem vontade unificada”. (3)
Sintomas são exibições de um único estado do ego definido ativo ou excluído,
embora eles possam resultar de conflitos, combinações, contaminações entre diferentes
estados do ego. A primeira tarefa sintomática na análise estrutural, portanto, é decidir qual
estado do ego está realmente exibindo o sintoma. Em alguns casos, isto é simples, em
outros, é necessário um alto grau de perspicácia e de experiência em diagnósticos. A atitude
irritável de Mr. Troy com relação à impetuosidade imitava a de seu pai, e era claramente
Parental. O pedantismo do Dr. Quint e a mania de fazer segredo de Miss Ogden requerem
um estudo mais cuidadoso. O resultado da desautorização do Pai de Mr. Troy foi o
comportamento de beber muito e de impulsão, ambos manifestados da Criança, como o
eram os acessos de raiva do Dr. Quint, e a ansiedade somática de Miss Ogden em face de
uma ameaça. Isto significa que certos aspectos “caracteriológicos” em cada caso eram
exibições de um estado do ego, enquanto certas manifestações “sintomáticas” eram
exibições de outro.
Tendo em mente estes princípios, deveria ser possível analisar os sintomas
psiquiátricos em termos estruturais, incluindo os que exigem a atividade simultânea de dois
estados do ego.
Alucinações são geralmente exibições do Pai, conforme exemplificam as vozes
ouvidas por Mrs. Primus. Dois dos tipos mais comuns de alucinações são palavras obscena
e a determinação fatal. Tanto a acusação “você é um homossexual” como a ordem “você
deve matá-lo!” podem seguramente ser vistas como memórias revividas e não distorcidas
de elocuções parentais.
Enquanto a voz em si emana do Pai, a audiência provém da Criança e, às vezes,
também do Adulto contaminado. Em estados de confusão, tanto os que significam o início
de um episódio de esquizofrenia aguda ou um pânico homossexual, quanto os provocados
por tóxicos, o Adulto é desautorizado e a Criança, amedrontada, fica sozinha para ouvir.
Em algumas condições paranóides, o Adulto ativo, mas contaminado, concorda com a
Criança que a voz realmente está lá. Nos casos mais raros, onde a voz é a da Criança, é
novamente o Adulto contaminado que concorda que a voz lá está realmente.
Isso pode ser esclarecido pela Figura 6A, em que existem somente três estados do
ego, mas quatro regiões. Se o “Eu real”, em um dado momento, é o Adulto, então as vozes
que emanam ou da Criança ou do Pai podem ser percebidas como vindas de fora da
personalidade, caso elas sejam processadas pela área contaminada. O teste de realidade
nesta região é falho, porque a área é vivenciada como pertencente ao Adulto, enquanto, na
realidade, é uma intromissão da Criança irreal. Com o auxílio topológico adequado, esta é
uma situação bastante plausível, do ponto de vista neurológico. Se as verbalizações forem
processadas pela área clara do Adulto, então elas serão percebidas não como alucinações,
mas como “a voz da consciência” ou como “recordações infantis”, e serão reconhecidas
como fenômenos internos. Nesta hipótese, alguma outra coisa será processada pela área
falha, resultando em algum outro tipo de psicopatologia.
Ilusões são, geralmente, exibições da criança, mas elas surgem da área contaminada
da Figura 6A, contida dentro do limite do ego Adulto. Portanto, elas são sintônicas do ego
Adulto, e isto significa que o teste de realidade não pode ocorrer, a menos e até que a

41
fronteira entre o Adulto e a Criança possa ser realinhada, como na Figura 6B, caso em que
as ilusões se tornam distônicas do ego Adulto e não serão por muito tempo mais
vivenciadas como ilusões, e sim como idéias estranhas, enquanto o Adulto ainda permanece
como “Eu real”. O Adulto, então, com efeito, diz: “Parte de mim pensa que é assim, mas eu
acho que seja assim”. Mas, se o Adulto ficasse desautorizado e a Criança tornar-se o “Eu
real”, novamente o indivíduo dirá: “Eu acho que é realmente assim”, uma vez que a idéia
não é agora sintônica com o “Eu real”. No caso de Mr. Troy, cujo era o “Eu real”, os
derivativos do que eu tinha sido ilusões durante seu estado psicótico (porque, então, a
Criança era o “Eu real”) eram veementemente repudiados de um modo parental típico,
como “idéias tolas e imbecis”, com sua implicação paternal usual de “mate o pequeno
bastardo que tem maus pensamentos”.
Os limites do ego parecem funcionar como membranas complexas de
permeabilidade altamente seletiva. Lesões dos limites entre o Adulto e a Criança podem dar
origem a qualquer grupo especial de sintomas, os quais podem ser chamados “sintomas de
fronteira”: sentimento de irrealidade, estranheza, despersonalização, jamais vu, déjà vu, e
seus análogos, como o famigerado déjá raconté. Sua malignidade, como a de outros
sintomas, depende da distribuição da catexia livre. Se o Adulto for o “Eu real, esta série de
sintomas pertence, pelo menos pela duração, à “psicopatologia da vida cotidiana”; se a
Criança for o “Eu real”, ela se torna parte do arranjo psicótico. Em qualquer caso, são
patognomônicos de lesões de fronteira, que variam desde leves e benignas até malignas e
intratáveis.
O paciente que ouve cuidadosamente o médico e depois diz: “Mas por que eu
deveria ouvi-lo, já que você não existe?” – está manifestando uma extrema perda do senso
de realidade. Aqui, o da fronteira do ego Adulto-Criança. Portanto, o processamento de
dados neopsíquicos, que ainda pode ser eficiente, não pode influenciar a Criança.

A Criança trata o Adulto como se este não existisse e o sentimento de irrealidade do


mundo exterior é um derivativo secundário desta situação. Esta hipótese é provada em tais
casos, se descobre que o paciente como uma criança real corta sua comunicação com as
pessoas que o rodeiam. Agora, o Adulto ouve e compreende perfeitamente bem o que o
médico diz, mas a Criança não é influenciada pela informação obtida pelo Adulto e,

42
portanto, se sente justificada ao dizer que não existe tal informação, isto é, que o médico
não existe. Portanto, os apelos à razão em tais casos, embora bem recebidos pelo Adulto,
geralmente não podem alterar a opinião da Criança, que se isolou.
Curiosamente, a estrutura do alheamento é idêntica à do insight. Aqui, o mundo
externo perde seu significado anterior, devido à exclusão da Criança pelo Adulto. O
processamento de dados arcaicos da Criança é interrompido e o Adulto sente a perda como
uma alienação. Assim, como sentimentos de irrealidade, a Criança é o “Eu real”, e com
sentimentos de alheamento o “Eu real” é Adulto; os dois tipos de sentimentos se devem a
uma esclerose funcional da fronteira intermediária. O insight, no processo de psicoterapia,
surge quando Adulto é descontaminado e se restabelece o limite adequado entre ele e a
Criança. Então, tanto o alheamento quanto o insight baseiam-se num reforço da fronteira
Adulto-Criança, com o Adulto como “Eu real”, mas no primeiro caso o reforço é patológico
e no último, é o restabelecimento de processos normais. (O insight pode referir-se à
fronteira Pai-Adulto, mas não nos ateremos a esta hipótese por ora.)
A exclusão da Criança no alheamento foi demonstrada por Mr. Ennat, um biólogo
de 24 anos, solteiro. Ele se queixava de que um dia, quando estava caçando, subitamente
tudo lhe pareceu sem sentido, e continuou assim desde então. Ele prosseguia na
engrenagem de sua rotina diária sem qualquer incentivo ou gratificação conscientes. Seu
Adulto buscava explicação e alívio por meios intelectuais. Ele começou a especular sobre
as origens do universo, da vida e de si mesmo em termos filosóficos. Sua escolha da
profissão, naturalmente, desde o início se dirigia para a resposta a essas questões, e parecia
ter sido motivada pela curiosidade sexual infantil. Aparentemente, sua vida monástica tinha
provocado um emaranhado de tensão sexual na Criança. A sexualidade da Criança se
orientava em torno do sadismo, e esta não era uma situação saudável. Ao mesmo tempo, a
raiva da Criança contra seu pai crescia em intensidade. Sua solução para ambas as tensões
era a exclusão da Criança, e por ela Mr. Ennat estava pagando um preço penoso.
Embora sentisse que para ele nada tinha sentido (isto é, para seu Adulto), era
evidente que a Criança ainda se encontrava repleta, atribuindo significado ao que o
rodeava. De tempos em tempos, quando alguém do grupo lhe fazia uma pergunta sobre seus
sentimentos, ele batia o pulso violentamente na coxa e gritava: “Eu não sei por que me
sinto assim!” Ele (isto é, seu “Eu real” Adulto) não estava consciente de que estava batendo
o pulso na coxa, e expressou grande e convincente surpresa quando isto lhe foi apontado. A
pesquisa indicava que seu gesto era uma relíquia relacionada com suas aventuras durante o
primeiro treino de toalete. Assim, enquanto o Adulto não via sentido no que ocorria ao seu
redor, a sua Criança achava os mesmos eventos plenos de significado. O sentimento de
alheamento se devia ao fato de que não havia nenhuma comunicação entre a arqueopsique e
o neopsique.
Na despersonalização, os estímulos somáticos podem ser processados de um modo
verdadeiro, mas distorcido, pela Criança confusa. Estas distorções, no entanto, são
incompreensíveis para o Adulto, porque elas permanecem distônicas do ego Adulto. Se elas
se tornam sintônicas do ego Adulto, então são transformadas de sentimentos de
despersonalização em ilusões de mudança corporal, o que significa que o Adulto ajuda a
Criança através da racionalização das supostas mudanças. Os protestos contra os
“sentimentos” são manifestações Adultas, enquanto as “ilusões” são exibições da Criança.
A imagem somática distorcida não é um fenômeno novo, mas permanece oculto desde a

43
infância, até que uma lesão da fronteira Adulto-Criança do ego permitia que ela escoe para
dentro da área neopsíquica, onde causa confusão. A demonstração desta hipótese está em
encontrar, na fase precursora, a indicação de uma pequena ruptura cujos efeitos se
localizam permanente ou temporariamente pelas medidas defensivas.
Os sintomas examinados até agora – alucinações, ilusões e sintomas de fronteiras –
são todos caráter esquizóide. Na hipomania há uma exclusão do Pai pela Criança com a
cooperação de um Adulto contaminado, de modo que o julgamento neopsíquico, embora
enfraquecido, ainda tem influência. Se surgir a mania, então o Adulto, assim como o Pai,
tem seu poder aumentado pela Criança hipercatexizada, que, assim, tem um campo claro
para sua própria atividade frenética. A exclusão, no entanto, é como um espelho unilateral:
o Pai ultrajado, mas temporariamente incapacitado, pode observar tudo que está ocorrendo.
A Criança leva vantagem com o desamparo do Pai, mas está bem ciente de que está sendo
observada. Daí as ilusões de referência e registro. Se chegar o dia do ajuste de contas, este
poderá ser terrível. Depois que a criança estiver exausta, o Pai pode tornar-se igualmente
hipercatexizado e exigir sua revanche.
Não há contradição entre os aspectos estruturais da psicose maníaco-depressiva e a
teoria psicanalítica. (4) A psicanálise lida com mecanismos genéticos, enquanto a análise
estrutural se relaciona com a catexia de precipitados antropomórficos: as relíquias do bebê
que um dia existiu realmente, numa luta com as relíquias dos pais que também existiram
concretamente um dia. A luta aqui é descrita em termos antropomórficos justamente por
conservar a sua qualidade pessoal: não é uma batalha entre forças conceituais abstratas, e
sim uma réplica das brigas reais da infância pela sobrevivência entre pessoas reais. Pelo
menos este é o modo como o paciente a vivencia.
Os sintomas neuróticos, como os psicóticos, são exibições de um único estado do
ego definido, embora eles possam resultar de conversão é uma exibição da Criança, que é
excluída do Adulto por uma forma seletiva especial de exclusão conhecida como repressão.
Isto pode capacitar o Adulto a iniciar sua atividade com um duplo estado de ânimo. A
terapia consiste em derrubar a barreira de modo que a Criança e o terapeuta possam
conversar na presença do Adulto ativo. Se o terapeuta se deixar seduzir pela Criança e
desautorizar o Adulto pelo uso de drogas e hipnose, poderá passar uma hora divertida junto
com o paciente, mas o resultado terapêutico dependerá da atitude definitiva do Adulto e do
Pai em relação a este procedimento, que, por sua vez, depende da habilidade do terapeuta.
As desordens de caráter e as psicopatias são manifestações da Criança.
Estruturalmente, ambas têm a cooperação do Adulto. A presença ou a ausência de remorso
é que mostram se o Pai está em conflito ou de acordo. As neuroses de impulso, que podem
envolver transações aparentemente semelhantes e ter os mesmo efeitos sociais, são
estruturalmente diferentes, sendo erupções da Criança sem a cooperação nem do Adulto
nem do Pai.

REFERÊNCIAS

1. Federn, P., loc. cit.

44
2. Freud, S. The Interpretation of Dreams. MacMillan Company, Nova York, 4.ª edição, 1945, p. 389 ss.
3. Idem. New Introductory Lectures on Psycho-Analysis. W. W. Norton & Company, Nova York, 1933,
p. 104.
4. Fenichel, O. The Psychoanalytic Theory of Neurosis, W. W. Norton & Company, Nova York, 1945,
Cap. XVII.

45
7.
DIAGNÓSTICO

1. PREDISPOSICÕES PARA A APRENDIZAGEM

Embora Mr. Ennat, o jovem biólogo, batesse seu pulso sobre a coxa três ou quatro
vezes durante cada encontro de grupo, o terapeuta deixou que este fenômeno passasse
despercebido por várias semanas. Despercebido, isto é, por seu Adulto, que pode ter estado
preocupado com o conteúdo do que Mr. Ennat estava falando; ou talvez o gesto lhe
parecesse tão característico de Mr. Ennat que fora descuidadamente negligenciado como
um “hábito” ou uma irrelevância, uma mera trivialidade na Gestalt da sua personalidade
contínua. Mas, evidentemente, a Criança do terapeuta estava mais alerta, em certas
ocasiões, depois que Mr. Ennat repetira o gesto, gritando, em resposta a uma questão de
algum membro do grupo: “Eu não sei por que faço isso!” O doutor perguntou: “Você
alguma vez molhou a cama quando era pequeno?” Mr. Ennat chocou-se com a pergunta, e
respondeu que sim. O doutor perguntou se seus pais alguma vez tinham dito algo a respeito.
Mr. Ennat confirmou, dizendo que eles costumavam pergunta-lhe vergonhosamente por que
o fazia.
“E o que você dizia?” – perguntou o doutor.
Eu costumava dizer: “Eu não sei por que faço isso!” – respondeu Mr. Ennat,
batendo em sua coxa. Foi neste ponto que Mr. Ennat ficou surpreso ao verificar que
habitualmente batia na coxa desde que viera para o grupo.
Esta anedota ilustra a tarefa do terapeuta ao diagnosticar estados do ego. Seu Adulto
deveria ter notado rapidamente, e geralmente o fazia, erupções ocultas de outros estados do
ego latentes em gestos e entonações desnecessários e geralmente inconscientes. Este tipo de
alerta fazia parte de seu equipamento profissional como diagnosticador. Conseqüentemente
o levou a perceber que os gestos de Mr. Ennat representavam uma atividade espasmódica
da parte Criança do terapeuta, intuitiva e subconscientemente (1) – e não deliberada e
consciente como seu Adulto – foi capaz de perceber adequadamente as conexões instintivas
do gesto (2) e sua origem na infância de Mr. Ennat.
A diagnose de estados do ego é uma questão de acuidade de observação mais
sensibilidade intuitiva. A primeira é passível de aprendizagem, enquanto a última apenas
pode ser cultivada. A habilidade para este tipo de diagnose, no entanto, não depende nem
de treinamento profissional nem de nível intelectual, mas sim de fatores psicodinâmicos. Os
que não têm medo de saber, mesmo quando não sabem como sabem, terão sucesso,
enquanto as pessoas que têm medo de cognição sem insight (2) o farão mal.
Mr. Dix, cujo Q.I. na Escala Bellevue-Wechsler foi entre 85 e 90 em dois testes
espaçados de um ano, tornou-se particularmente habilidoso e acurado em diagnosticar os
estados do ego de seus companheiros pacientes. Recém-chegados ao grupo inicialmente

46
tendiam a tratá-lo e de um modo protetor, devido à sua aparente ingenuidade e à sua
inaptidão e limitações verbais. Esta atitude tendeu a ser substituída por piedade e
consideração quando eles descobriram que Mr. Dix não só era limitado em inteligência,
mas também ainda um pouco confuso por sua esquizofrenia, em regressão. Entretanto, com
o conhecimento posterior, havia a mudança radical para uma atitude respeitosa, ao se
impressionarem com a perspicácia de Mr. Dix em diagnosticar corretamente o que eles
estavam fazendo no grupo. Logo eles pararam de tratá-lo como um frágil artigo de vidro e
não hesitaram por muito tempo em discutir com ele como se fosse um ser humano comum.
Acredita-se que a falta de insight para diagnosticar, após uma exposição adequada, deriva
de resistências e não de incapacidade.
O Dr. Endicott era um médico clínico inteligente e cheio de sucesso que sofria
sintomas somáticos. No grupo, ele tendia a assumir o papel de co-terapeuta, empregando a
terminologia padrão e a teoria psicológica que aprendera na Escola de Medicina. Ele
discutiu a sarcasticamente. Nada que o grupo pudesse fazer o levaria a examinar-se com
mais cuidado. Quanto maior a pressão dos outros membros menos bem-educados, mais
polissilábicas eram suas réplicas. Uma ocasião, ele sucumbiu ante a pressão dessas pessoas
“inferiores” e saiu da sala. Quando retornou, duas sessões depois, ele ainda era seu Eu
antigo. Ele precisava ser parental de uma forma médica pseudo-adulta, a fim de excluir sua
Criança amedrontada. (Seu pai também tendia a ser arrogante.) Em resumo, ele exibia o
mesmo tipo de resistência contra a análise estrutural de Mr. Troy, mas detinha armas mais
poderosas.
Infelizmente, o terapeuta foi incapaz de jogar seu jogo intelectual de “Psiquiatria”,
que poderia ter feito Dr. Endicott sentir-se temporariamente mais seguro. Já que seu colega
relutava em levá-lo a sério, ele tinha de ser sacrificado pela segurança dos outros membros,
cuja força os tornou intoleráveis para ele. Ele se recusou a admitir a terapia individual, que
poderia ter sido usada no intuito de prepará-lo para assumir seu lugar no grupo. Por fim, ele
se retirou da psicoterapia e imediatamente procurou obter um tratamento cirúrgico. Do
ponto de vista intelectual, ele era perfeitamente competente para compreender a análise
estrutural, mas preferiu sacrificar suas vísceras em lugar de suas resistências. Esta foi uma
das primeiras falhas da análise puramente estrutural, antes do surgimento da análise
transacional.
Mr. Dix e Dr. Endicott representam casos extremos. Em geral, é a atitude da
Criança para com o terapeuta ou o professor – e para com os primeiros terapeutas ou
professores (o que é, em parte, conhecido sob o termo “transferência” em linguagem
psicanalista) – que determina a capacidade limite de diagnóstico do paciente ou aluno,
sendo iguais às outras resistências. Os pacientes que passaram anteriormente por
psicanálise ou terapia psicanalítica assumem prontamente a análise estrutural com
habilidosa manipulação. Certos tipos de médicos como o Dr. Endicott ou de psicólogos
como o Dr. Quint, que têm razões para se defender contra qualquer tipo de psiquiatria
analítica, não atuam bem. Mas médicos e psicólogos clínicos que disponham de recursos
psicodinâmicos para se interessarem atuam muito bem como pacientes, pois estão
acostumados a pensar em termos diagnósticos e psicológicos.
Os mais interessantes são os estudantes que tiveram psicanálise pessoal ou
treinamento psicanalítico. Por razões existenciais, ou pelo fato de eles terem se
comprometido com a abordagem psicanalítica; ou porque talvez sintam que suas carreiras

47
dependem da ortodoxia psicanalítica; ou por causa das assim chamadas “necessidades de
dependência”, mas facilmente encontradas por estarem bem com seus grupos psicanalíticos
locais, às vezes lhes é muito difícil voltar seus poderes de diagnóstico para observação de
estados do ego totais, e não para manifestações isoladas do superego, ego, id ou consciência
e inconsciente. Neste sentido, a psicanálise pode ser considerada um obstáculo para a
análise transacional. (E também para a terapia de grupo, já que hoje não existem dúvidas de
que aí a análise transacional é o método a escolher. Poucos psicanalistas ortodoxos
defendem a possibilidade de psicanalisar, no sentido formal da palavra, um grupo ou um
individuo num grupo. Na verdade, é exatamente este motivo que leva muitos deles a
encararem o que os terapeutas de grupo têm a dizer com alguns ceticismos.(3) Entretanto, é
fácil compreender a dificuldade que alguns terapeutas psicanalíticos jovens sentem em
tocar o quadro de referência que usam ao lidar com pacientes individuais por um quadro
novo, quando se confrontam com um grupo). É claro que para residentes de primeiro ano
aprendizes, é bastante confuso, algumas vezes, tentar aprender dois sistemas ao mesmo
tempo.

2. CRITÉRIOS DE DIAGNÓTICO

As características do estado do ego Parental podem ser estudadas em encontros de


psicoterapia orientados pela análise estrutural (PTA), tanto num auditório de escola como
num canto da sala de visitas, durante um coquetel. As características do Adulto são vistas
com mais clareza num encontro científico. As da Criança podem ser observadas na escola
maternal ou através da leitura dos trabalhos de Piaget.(4)
Os estados do ego manifestam-se clinicamente de duas formas: ou como estados da
mente coerente completamente catexizados, vivenciados como “Eu real”; ou como
penetrações, geralmente ocultas ou inconscientes, na atividade do “Eu real” atual. Um
exemplo da primeira é o estado do ego Parental de Mr. Ennat, que constituía uma
penetração inconsciente da Criança em estado do ego Adulto. Contaminações representam
inclusões padronizadas de um estado do ego em outro, como no caso do filho de
missionário cujo Pai penetrou em seu Adulto; ou, em terminologia funcional, cujo ego
neopsíquico foi contaminado por um estado do ego exteropsíquico; como outra alternativa,
poder-se-ia postular um mecanismo neurofisiológico que respondesse pelos fenômenos
observados.
Já que determinado estado do ego compreende o comportamento e a experiência
total do indivíduo num dado momento, um estado do ego ativo puro de um tipo ou de outro
exercia uma influência características em cada um e em todos os elementos do
comportamento e da experiência. De modo semelhante, a penetração de um único elemento
ou de um conjunto de elementos de um estado do ego latente em um ativo deveria carregar
as características do estado do ego que penetra. São estas características que formam os
critérios de diagnósticos entre estados do ego e agora deve estar claro que elas são
suscetíveis de manifestações em qualquer ato, atitude ou modo de viver. Portanto, os
critérios de diagnósticos podem ser procurados em qualquer campo do comportamento
involuntário, voluntário ou social, ou ainda detectados por introspecção em qualquer

48
experiência. O terapeuta se preocupa, em primeiro lugar, com os aspectos
comportamentais, uma vez que os experimentais lhe são inacessíveis até que o paciente
tenha sido educado. Na prática, ele lida principalmente com o paciente que está sentado ou
deitado, de modo que a conduta e a postura não estão de imediato disponíveis como
indicadores.
Conduta – A severa rigidez parental, às vezes com o dedo em riste, e a graciosa
flexão de pescoço da mãe logo se tornaram familiares como atitudes Parentais. A
concentração circunspecta, freqüentemente com os lábios franzidos ou as narinas levemente
dilatadas, são tipicamente de Adulto. A inclinação da cabeça, significando timidez, ou o
sorriso que acompanha essa atitude e a transforma em delicadeza são manifestações da
Criança. Também pertencem à Criança os sinais de aversão e a fisionomia de mau humor,
que o aborrecimento do Pai pode transformar em uma risada relutante e desgostosa. A
referência a experiências com os pais, estudantes e crianças pequenas revelará outras
atitudes características pertinentes a cada tipo de estado do ego. Um exercício interessante e
instrutivo é examinar o texto e especialmente as fotogravuras de um livro de Darwin sobre
expressão emocional, (5) com a análise estrutural em mente.
Gestos – A origem exteropsíquica do gesto proibitivo é estabelecida quando seu
protótipo pode ser localizado entre as figuras parentais na história do paciente. O gesto
referencial é geralmente visto como autônomo do Adulto, seja ele um profissional
conversando com um colega ou cliente, um chefe instruindo um trabalhador, ou um
professor atendendo a um aluno. O gesto de desprezo, quando pragmaticamente
inapropriado, é uma manifestação da Criança. As variações não muito sutis podem ser
facilmente diagnosticadas por intuição. O gesto indicativo, por exemplo, às vezes
acompanha ou uma exortação feita pelo Pai ou uma acusação queixosa feita pela Criança
apelando como que a uma figura Parental.
Voz – É comum as pessoas apresentarem duas vozes, cada qual com uma entonação
diferente, embora no trabalho individual ou de grupo uma ou outra possam ser reprimidas
durante longos períodos. Por exemplo, alguém que se apresenta no grupo como
“pobrezinho de mim” pode deixar de revelar durante muitos meses a voz oculta da ira
Parental (talvez a voz de uma mãe alcoólatra); ou talvez seja necessária uma forte tensão
em grupo para que a voz de “trabalhador sensato” de determinado paciente falhe, para ser
substituída pela voz de sua Criança amedrontada. Entretanto, as pessoas em casa podem
estar bastante habituadas à dicotomia da entonação. Também não é muito raro encontrar
indivíduos que tenham três vozes diferentes. Assim, no grupo, pode-se, literalmente,
encontrar a voz do Pai, a do Adulto e a da Criança, todas vindas do mesmo indivíduo.
Quando a voz muda, em geral não é difícil detectar outras evidências da mudança de estado
do ego. Isto é mais dramaticamente ilustrado quando o “pobrezinho de mim” é subitamente
substituído pelo fac-símile de sua mãe ou avó enraivecida.
Vocabulário – o terapeuta pode funcionar como um inteligente conhecedor de
lingüística no país onde reside: pelo menos inteligente o suficiente para distinguir certas
palavras e frases características, que são patognomônicas de cada estado do ego. O exemplo
mais pertinente no E.U.A. é a distinção entre childish, que é invariavelmente uma palavra
parental, e child-like, que é uma palavra Adulta se usada espontaneamente, como em geral
o é por psicólogos do desenvolvimento e biólogos. Ela pode ser pseudo-Adulta, no entanto,
quando empregada por pacientes empenhados no jogo chamado “Psiquiatria”.

49
As palavras parentais típicas são: bonitinho, filhinho, desobediente, baixo, vulgar,
odioso, ridículo e muitos de seus sinônimos. As palavras Adultas são: destruidor, apto,
parcimonioso, desejável. Juramentos, exclamações e apelidos são geralmente manifestações
da Criança. Os substantivos e verbos são intrinsecamente Adultos, desde que se refiram,
sem prejuízo, distorção ou exagero, à realidade objetiva, mas podem ser empregados
também pelo Pai ou pela Criança, para atingirem seus próprios objetivos.
A diagnose da palavra “bom” é um exercício simples e gratificante de intuição.
Com um B maiúsculo implícito, ela é Parental. Quando sua aplicação é realisticamente
defensável, é Adulta. Quando denota uma gratificação instintiva, e é na essência uma
exclamação, ela vem da Criança, sendo, então, um sinônimo educado de algo como
“Mmmmm!”. Ela é um indicador especialmente comum de contaminação e de prejuízos
Parentais não expressos que são racionalizados como Adultos. Isto é, a palavra é dita como
se tivesse b minúsculo, mas a confrontação pode revelar que fenomenologicamente ela
carregava um B maiúsculo. A pessoa que a verbaliza pode ficar zangada, defensiva ou
ansiosa diante da confrontação, ou dispor de uma evidência, na melhor das hipóteses,
inconsistente e falha.
Um fenômeno interessante é o uso do advérbio sentimental hiperbólico que, por
alguma razão ainda não muito clara (para o autor), ocorre com mais proeminência entre
pessoas com fantasias abertamente sádicas. Um paciente interrompia ocasionalmente seu
“relato matutino” pra frisar, com lágrimas sentimentais na voz: “Mas eu sou tão
tremendamente feliz!” ou “Sou maravilhosamente popular agora!”. Quando o terapeuta
inquiriu: “Quem lhe perguntou se você é popular agora?”, ele respondeu: “Ninguém. Mas
este é um ponto interessante. Quem me perguntou? Deve ter sido meu Pai”. Seus pais, de
fato, tinham-lhe ensinado a ser sentimentalmente agradecido por suas graças, a pensar quão
feliz era, em comparação como os armênios morrendo de fome, o menino que andava de
muletas e assim por diante. Em outras épocas, em lugar de interromper sua fluência como
que para responder a uma pergunta proveniente de um questionador inaudível, sua Criança
deixava escapar uma palavra “no caso de alguém (isto é, seu Pai) poder estar ouvindo”,
embora nenhuma pergunta não ouvida houvesse. Ele poderia dizer: “A mulher estava
enormemente agradecida – quero dizer, ela estava realmente bastante grata”. Aqui a
Criança deixou escapar a palavra “enormemente” e o Adulto corrigiu a hipérbole
espontaneamente, já que sua vida profissional ele não era dado a exageros. (Um de seus
primeiros sonhos era conseguir tocar uma enorme mangueira de incêndio para que pudesse
sentir “o grande jato”.)
As categorias e exemplos acima são oferecidos meramente como ilustrações. Há um
número muito grande de padrões de comportamento acessíveis aos ser humano.
Antropólogos têm compilado longas listas de atitudes.(6) Os que se dedicam ao estudo dos
gestos estimam que se podem produzir aproximadamente 700 mil gestos elementares
distintos, por diferentes combinações musculares.(7) Há uma quantidade de variações em
timbre, altura, intensidade e alcance de vocalização suficiente para ocupar a atenção de
escolas inteiras de alunos e professores. Os problemas de vocabulário são tão complexos
que são divididos entre várias disciplinas. E existem apenas quatro categorias dos quase
inumeráveis tipos de indicadores disponíveis ao diagnosticador estrutural. O único método
prático para o pesquisador sério é a observação: observar pais agindo dentro de sua
capacidade como pais; adultos agindo em sua capacidade como processadores de dados e

50
cidadãos compenetrados e responsáveis; e criança agindo como crianças: mamando, no
berço, na escola maternal, no banheiro, na cozinha, na sala de aula e no pátio. Depois de
cultivar, o seu poder de observação de intuição, o terapeuta poderá aplicar o que tiver
aprendido, para o benefício clínico de seus pacientes.

3. O DIAGNÓSTICO COMPLETO – UM RESUMO

A discussão heurística da análise estrutural chega agora a uma conclusão. Antes de


passar para o campo da psiquiatria social, é aconselhável sumarizarmos e reafirmarmos
alguns dos princípios envolvidos.
Há três tipos de estados do ego: Pai, Adulto e Criança, que são manifestações dos
órgãos psíquicos correspondentes – exteropsique, neopsique, e arqueopsique - ou neles
residem. As propriedades significativas desses órgãos são as seguintes:
1. Poder de comando: cada um dá origem a seus próprios padrões
idiossincrático de comportamento organizado, o que traz para dentro do campo da
psicofisiologia e da psicopatologia e, no final das contas, da neurofisiologia.
2. Adaptabilidade: cada um é capaz de adaptar suas responsabilidades
comportamentais à situação social imediata em que o próprio indivíduo se encontra, e isto
os mantém no reino das ciências “sociais”.
3. Fluidez biológica: neste sentido, as respostas são modificadas como
resultado do crescimento natural e de experiências prévias, o que levanta questões
históricas que são do âmbito da psicanálise.
4. Mentalidade: sob este aspecto, eles mediam os fenômenos da experiência e,
portanto, são do interesse da psicologia, particularmente da psicologia introspectiva,
fenomenológica, estrutural e existencial.
O diagnóstico completo de um estado do ego exige que os quatro aspectos acima
referidos estejam disponíveis para consideração, e a validade final de tal diagnóstico só será
estabelecida quando todos eles tiverem sido correlacionados. A diagnose tende a obedecer
clinicamente à ordem fornecida.
A. Um estado do ego Parental é um conjunto de sentimentos, atitudes, padrões de
conduta que se parecem com os de uma figura parental. A diagnose geralmente é feita, em
primeiro lugar, a partir da experiência clínica baseada na observação de condutas, gestos,
vozes, vocabulário e outras características. Esta é a diagnose comportamental. Ela é
corroborada se o conjunto específico de padrões se revelar especialmente apto a vir à tona
em resposta a um comportamento infantil de alguma outra pessoa do ambiente. Esta é a
diagnose social ou operacional. Em seguida, ela é outra vez confirmada se o indivíduo
puder identificar exatamente a figura parental que ofereceu o protótipo para o seu
comportamento. Esta é a diagnose histórica. Finalmente, a diagnose ganha reforço ainda
maior se o indivíduo puder revivenciar, com total intensidade e pouca dispersão, o

51
momento ou época em que assimilou o estado do ego parental. Esta é a diagnose
fenomenológica.
O Pai é tipicamente exibido de uma entre duas formas. O Pai prejudicial manifesta-
se como um conjunto de atitudes ou parâmetros não-racionais e aparentemente arbitrários,
em geral proibitivos por natureza, que podem ser sintônicos ou distônicos da cultura local.
Se eles forem culturalmente sintônicos, há uma tendência a aceitá-los sem ceticismo como
racionais ou pelo menos justificáveis. O Pai nutritivo, por sua vez, com freqüência se
mostra como simpatia por outro indivíduo, e novamente pode ser ou culturalmente
sintônico ou culturalmente distônico. O estado do ego parental deve ser distinguido da
influência parental. Tal influência se manifesta quando o indivíduo exibe uma atitude de
condescendência infantil.
A função do pai é conservar energia e diminuir a ansiedade, por permitir a tomada
de certas decisões “automáticas” e relativamente inabaláveis. É particularmente eficaz se as
decisões forem sintônicas com a cultura local.
B. O estado do ego Adulto caracteriza-se por um conjunto autônomo de
sentimentos, atitudes e padrões de comportamento adequados à realidade atual. Já que o
adulto ainda é o menos bem compreendido dos três tipos de estado do ego, ele se configura
de modo mais caracterizado, na prática clínica, como o estado residual resultante da
segregação de todos os elementos detectáveis do Pai e da Criança. Ou pode a inda ser mais
formalmente considerado como o derivativo de um modelo de neopsique. Podemos
especificar este modelo da seguinte forma:
A neopsique é, em parte, um computador de probabilidades autoprogramado,
destinado a controlar os estímulos ao lidar com o ambiente externo. Caracteriza-se
especialmente pelo fato de seu estado de energia em cada época ser determinado por quão
estreitamente as probabilidades computadas correspondem aos resultados reais. Este estado
de energia é conhecido como descarga ou sobrecarga. (Ex. Uma luz verde, experimentada
com prazer, satisfação ou admiração; ou uma luz vermelha, vivida como “frustração”,
desapontamento ou indignação). Esta característica, sob variadas condições de
probabilidade, leva em conta, de modo descritivo, o “instinto do poder” e a observação do
esforço que visa às qualidades tais como responsabilidade, fidedignidade, sinceridade e
coragem. Cada uma dessas quatro qualidades pode ser suficientemente reduzida a uma
simples declaração de probabilidade.
De acordo com os quatro níveis de diagnóstico, nota-se que o adulto é organizado,
adaptável, inteligente e vivenciado como uma relação objetiva com o ambiente externo
baseado numa evolução autônoma da realidade. Em cada caso individual, devem ser feitas
as concessões cabíveis, tendo em vista as oportunidades de aprendizagem passadas. O
Adulto de uma pessoa muito jovem ou de um camponês pode fazer julgamentos muito
diferentes dos de um trabalhador profissionalmente treinado. O critério não é a exatidão dos
julgamentos, nem a aceitação das reações (que depende da cultura local do observador),
mas a qualidade do processamento e dados e o uso que determinado indivíduo em particular
faz dos dados disponíveis.
C. O estado do ego da criança é um conjunto de sentimentos, atitudes e padrões de
comportamento que são relíquias da própria infância do indivíduo. Novamente, a diagnose
comportamental em geral é feita de início, com base em experiências clínicas. A diagnose

52
social surge se este particular de padrões tiver grande probabilidade de ser eliciado pelo
comportamento de alguém com características parentais. Se o diagnóstico for certo, será
corroborado historicamente por memórias de sentimentos semelhantes e comportamentos
do começo da infância do indivíduo. A confirmação fenomenológica decisiva, por sua vez,
surgirá quando o indivíduo puder revivescer o estado do ego total em sua plena intensidade
e com pouca dispersão, o que acontece mais efetiva e dramaticamente se ele puder, no
estado de vigília, reviver um momento traumático ou uma época de fixação, possibilitando
tanto a ele próprio como ao terapeuta o sentimento de convicção de que se trata de um
passo crítico no processo terapêutico.
A criança se reveste de uma das seguintes formas. A criança adaptada, que se
manifesta por um comportamento inferencialmente sob o domínio da influência paternal,
caracterizado por atitudes de condescendência ou retraimento . E a criança natural, que se
expressa sob formas autônomas de comportamento, como rebeldia ou auto indulgência.
Diferencia-se do adulto autônomo pela preponderância de processos mentais e pelo
diferente tipo de experimentação da realidade. A função própria da criança “sadia” é
motivar o processamento de dados e a programação do adulto, de modo a obter a maior
quantidade de gratificação por si mesma.
Neste ponto o leitor consciente certamente terá levantado muitas dúvidas acerca e
problemas e possibilidades relativas a estágios do ego que não podem ser trabalhados pela
análise estrutural de primeira ordem. Esperamos esclarecer algumas delas no curso desta
obra, ao examinarmos a análise as segunda e terceira ordem.

NOTAS

A intuição a respeito de Mr. Ennat e o fato de ele molhar a cama constituíam uma
imagem do ego, um claro quadro de um estado do ego da infância. Na maioria dos casos
(inicialmente, pelo menos) o terapeuta deverá contentar-se com um símbolo do ego menos
elucidativo (“Ele parece um cachorrinho que foi surpreendido sujando o tapete”) ou com
um simples modelo do ego descritivo (“Ele é um jovem tenso, movido pela culpa e
anualmente frustrado”). (8) Fica claro que modelo do ego é produto do adulto observador,
enquanto a imagem do ego se relaciona com um aspecto especial de sua criança. (9)
Eu preferiria interpretar a similaridade entre os resultados dos dois testes de
inteligência de Mr. Dix da seguinte forma. O psicólogo David Kupfer é um aplicador de
testes capacitado. Ele foi capaz de provocar uma recatexia do Adulto de Mr. Dix durante o
período de teste, mesmo quando Mr. Dix estava num estado de confusão esquizofrênica.
Quando ocorreu uma nova catexia com o Adulto ele funcionou otimamente, de forma
independente da “condição” de Mr. Dix.
Portanto, ele atuava tão bem durante seu período esquizofrênico como quando se
recuperava, uma vez que seu Adulto estava estruturalmente intacto em todas as ocasiões. O
fato de o adulto funcionar ou não em determinada situação dependia de seu estado de
catexia.

53
Mr. Dix apresentou-se pessoalmente na Conferência de Psiquiatria da Clínica da
Península Monterey, depois de terminado seu tratamento. Os presentes estavam de acordo
com o psicólogo, no sentido de que (1) o seu “Q. I” se situava abaixo da média; com o
terapeuta, no sentido de que (2) Mr. Dix tinha, recentemente, estado esquizofrênico e que
(3) agora se recuperava de modo satisfatório; e com o próprio paciente, no sentido de que
(4) a sua recuperação “se devia à” terapia e que tinha uma boa compreensão da estrutura de
sua personalidade. Mr. Dix anteriormente se tratara com dois outros terapeutas sem
experimentar qualquer melhora. Os outros tinham tentado um tipo diferente de abordagem
“parental”, enquanto o autor se ativera de modo firme à análise estrutural. Apesar de tentar
proteger ou exortar a criança esquizofrênica confusa, ele se concentrara em tentar
descontaminar e provocar uma nova catexia no Adulto intacto do paciente.
Dois anos de interrompido o tratamento. O Adulto de Mr. Dix ainda refém de
comando, está assumindo a dianteira social e ocupacionalmente e usando a inteligência, em
seu nível ótimo anterior, como técnico em engenharia autorizado pelo governo federal.
Mais recentemente, Myra Schapps, do Auxílio à Criança Retardada em São
Francisco, demonstrou que a análise transacional pode ser compreendida e aplicada com
eficácia por adultos com “Q. Is”.que variam de 60 a 80. Formou-se um grupo do Sheltered
Workshop com o intuito de tornar tais pessoas capazes de obter e manter empregos. No
final do primeiro ano, 91% dos membros do grupo tinham alcançado seu objetivo e
estavam, deliberada e corretamente, tendo um bom “controle social” na situação de
emprego, assim como a capacidade de analisar suas transações nos encontros de grupo. (10)
Existe uma vasta literatura a respeito das relações entre computadores e a função
cerebral, que o leitor interessado pode facilmente encontrar nos trabalhos de N. Wiener e
W. R. Ashby, Cf. Ref.(11). Poe “estado de energia” da neopsique entendem-se
manifestações tais como o fenômeno Zeigarnik. (12)
A relação entre estados de ego e a persona de Jung, que também é uma realidade
comportamental, social e histórica (e é fenomenologicamente distinta do role-playing),
continua a ser estudada e esclarecida. Como uma atitude ad hoc, a persona se diferencia
também da identidade mais autônoma de Erikson. As diferenças entre persona, papel e
identidade parecem depender das relações entre o estado do ego executivo e o meio
ambiente, e até agora parecem ser problemas tanto transacionais como estruturais; talvez
girando em torno da distinção entre adaptação em geral e condescendência em particular.
Atualmente, aparece mais apropriado tratar “o adolescente” como um problema
estrutural e não como uma entidade separada ou estado do ego sui generis.
A atitude do Dr. Endicott ilustra a distinção entre papéis e estados do ego. Ele
estava jogando o papel de um adulto, mas seu estado do ego era o de um pai (seu pai). Ele
adotou o papel de um co-terapeuta médico, mas o fenômeno significativo era a sua
arrogância. Portanto, referimo-nos a ele como um pseudo-adulto Parental.
As posturas, gestos, metáforas e hábitos de fala têm sido um importante objeto de
estudo, desde o início da psicanálise. S.S. Feldman recentemente coletou e discutiu muitos
exemplos clínicos fascinantes do uso de clichês, fraseologia estereotipada, interjeições,
gestos e outros maneirismos. (13) Há uma interessante discussão das diferenças entre
childish e child-like em Modern English Usage, de Fowler.

54
REFERÊNCIAS

1. Berne, E., “Concerning the nature of diagnosis”. Internat. Record of Med. 1965: 283-292, 1952.
2. Idem, “Primal Images and Primal Judment”. Loc. Cit.
3. Idem, “’Psychoanalytic’ vs. ‘Dynamic’ GroupnTherapy”. Internat. Jnl. Group Psychother. 10:98-
103.
4. Piaget, J.loc.cit.
5. Darwin, C., Expression of the Emotions in Man and Animals. D. Appleton & Company, Nova
York, 1886.
6. Hall, E., T., “The Antropology of Manners”. Scientific American 192: 84-90, 1955.
7. Pei, M., The Story of Language. J.B. Lippincott Company, Nova York, 1949.
8. Berne, E., “Intuition V: The Ego Image”. Psychiat. Quart. 31: 611-627, 1957.
9. Berne, E., “Intuition VI: The Psychodynamics of Intuition”. Psychiat. Quart.
10. Schapps, M.R., Reaching Out to the Mentally Retarded. Lido durante o 86º Congresso Anual da
Conferência sobre Bem-Estar Social, São Francisco, 26 de maio de 1959. 91% é uma cifra posterior à citada em seu artigo
(63%).
11. Jeffress, L. A., org., Cerebral Mechanisms in Behavior, The Hixon Symposium. John Wiley &
Sons, Nova York, 1951.
12. Zeigarnik, B., “Über das Behalten von erledigten und unerledigten Handlunger”. Psychologishe
Forschung 9: 1-86, 1927. Discutido extensamente por K. Lewin, Field Theory in Social Science, Harper & Brothers, Nova
York, 1951.
13. Feldman, S.S., Mannerirms of Speech and Gestures in Everyday Life. Internacional Universities
Press, Nova York, 1959.

55
SEGUNDA PARTE

PSIQUIATRIA SOCIAL
E
ANÁLISE TRANSACIONAL

56
8.
RELAÇÃO SOCIAL

1. UMA TEORIA DO CONTATO SOCIAL

A capacidade da psique humana de manter estados do ego coerentes parece


depender de um fluxo mutável de estímulos sensoriais. Esta observação constitui a base
psicobiológica da psiquiatria social. Em termos estruturais, estes estímulos são necessários,
a fim de assegurar a integridade da arqueopsique. Se o fluxo é interrompido ou cai na
monotonia, observa-se que a neopsique se torna desorganizada (“O pensamento do
indivíduo é enfraquecido”); isto expõe a atividade arqueopsíquica subjacente (“Ele mostra
respostas emocionais infantis.”), e, finalmente, a função arqueopsíquica também se
desorganiza (“Ele sofre de alucinações.”) (1) Este é o experimento de privação sensorial.
O trabalho de Spitz (2) vai um pouco além. Ele demonstra que a privação sensorial
no bebê pode provocar não só mudanças psíquicas, mas também deterioração orgânica. Isso
mostra quão vital é a manutenção do ambiente sensorial. Além disso, surge um novo fator
específico: as formas mais essenciais e efetivas de estímulo sensorial são proporcionadas
por manipulação social e intimidade física. Daí Spitz falar de “privação emocional” em
lugar de “privação sensorial”.
A intolerância a longos períodos de aborrecimento ou isolamento faz surgir o
conceito de fome de estímulos, especialmente da espécie de estímulos oferecidos pela
intimidade física. Esta fome de estímulos tem uma relação paralela, em muitos aspectos,
biológica, psicológica e socialmente, com o apetite alimentar. Expressões como má
nutrição, saciedade, gourmet, glutão, maníaco, ascético, arte culinária e bom cozinheiro são
facilmente transferidas do campo da alimentação para seus análogos no campo da sensação.
Comer demais tem seu paralelo em superestimulação, que pode causar dificuldades no
fluxo da psique com estímulos rápidos demais para poderem ser manipulados
confortavelmente. Em ambas as esferas, sob condições comuns em que existam amplos
suprimentos e possa haver um menu diversificado à disposição, as mudanças serão bastante
influenciadas pelas idiossincrasias individuais.
A questão das determinantes constitucionais das escolhas de estímulos não é
recente. As idiossincrasias que são do interesse imediato do psiquiatra social baseiam-se em
experiências arcaicas, em julgamentos neopsíquicos e, particularmente com relação à
intimidade física, em prejuízos exteropsíquicos. Estas idiossincrasias introduzem
quantidades variáveis de cuidado, prudência e desvio na situação, de modo que apenas sob
circunstâncias especiais, o indivíduo fará um movimento direto em direção às formas mais
apreciáveis de estímulos proporcionados pelas relações físicas. Na maior parte das vezes
ele se conformará com o que puder obter. Ele aprende a lidar com formas mais sutis e
mesmo mais simbólicas de manipulação, até que o aceno de cabeça mais simples de
reconhecimento possa ser útil a seus propósitos em alguma medida, embora o desejo
original de contato físico possa permanecer irredutível. Conforme aumentam as

57
complexidades, cada pessoa se torna cada vez mais individual em sua busca, e são essas
diferenças que emprestam variedade ao trato social.
A fome de estímulos, com sua sublimação de primeira ordem a convertê-la em fome
de reconhecimento, é tão penetrante que os símbolos de reconhecimento tornam-se
altamente recompensados e podem ser trocados em todas as reuniões entre pessoas. Retraí-
los deliberadamente constitui uma forma de comportamento errado chamado grosseria, e a
repetição de grosserias é considerada uma justificativa para a imposição social ou mesmo
para sanções físicas. As formas espontâneas de reconhecimento, como um sorriso alegre,
são recebidas com mais agrado. Outros gestos, como o assobio, a mesura e o aperto de
mão, tendem a se ritualizar. Nos EUA, há uma sucessão de expressões verbais, cujos
degraus, em sentido ascendente, implicam reconhecimento crescente e proporcionam
gratificação cada vez maior. O ritual pode ser resumido tipicamente da seguinte forma: (a)
“Alô!” (b) “Como vai?” (c) “Você acha que está muito quente? (d) “Quais as novidades?”
(e) “Mais alguma novidade?” As implicações são: (a) Há mais alguém aqui; (b) Há alguém
com sentimentos; (c) Há alguém com sentimentos e sensações; (d) Há alguém com
sentimentos, sensações e personalidade; (e) Alguém com sentimentos, personalidade e em
quem eu tenha mais do que um interesse passageiro.
Grande parte da estrutura lingüística, social e cultural gira em torno da questão do
simples reconhecimento: pronomes especiais, inflexões, gestos, posturas, presentes e
oferendas visam mostrar reconhecimento de status e pessoa. A carta de uma fã de cinema é
um dos nossos produtos autóctones. Ela possibilita que a recognição seja despersonalizada
e quantificada numa máquina de somar, e a diferença entre uma resposta impressa,
mimeografada, fotográfica e pessoal é algo como a diferença entre os vários degraus do
ritual de saudação descrito acima. A natureza insatisfatória de tal recognição mecânica
evidencia-se no fato de muitos atores preferirem o teatro vivo aos filmes, apesar de um
considerável sacrifício financeiro. Este é um exemplo dramático da validade ampliada do
princípio de Spitz.

2. A ESTRUTURAÇÃO DO TEMPO

A simples recognição, no entanto, não é suficiente, uma vez, que, terminados os


rituais, a tensão e a ansiedade começam a aparecer. O problema real da relação social é o
que acontece depois dos rituais. Portanto, é possível falarmos não somente de fome de
estímulos e fome social, mas também de fome estrutural. O problema cotidiano do ser
humano é a estrutura de suas horas de vigília. Se elas não forem estruturadas por ele, como
tendem a ser na infância, então ele é impelido a encontrar ou estabelecer uma estrutura
independente, hora após hora.
O método mais comum, conveniente, confortável e utilitário de estruturação do
tempo é o que se desenvolve através de um projeto destinado a lidar com o material
fornecido pela realidade externa: o que é em geral conhecido como trabalho. Tal projeto é
tecnicamente chamado de atividade; o termo “trabalho” é inadequado porque uma teoria

58
geral de psiquiatria social deve reconhecer que o intercurso social também é uma forma
social de trabalho.
Interessamo-nos aqui, por atividades, apenas na medida em que elas ofereçam uma
matriz de recognição e outras formas mais complexas de comunicação social.
O problema social específico toma a forma de (1) como estruturar o tempo, (2) aqui
e agora, (3) com o maior proveito possível, com base (4) nas pessoas e (5) nas
idiossincrasias de outras pessoas e (6) nas potencialidades estimadas das situações
imediatas e eventuais. O projeto coloca-se na obtenção do máximo de satisfações
permissíveis.
O aspecto operacional da estruturação do tempo pode ser denominado
programação. A programação é suprida por três fontes: material, social e individual. A
programação material surge das vissitudes encontradas ao lidar com a realidade externa, e
não nos interessa aqui. Já nos referimos à programação social ao discutirmos os rituais de
saudação. Ela se estende até o que se pode chamar de passatempos, que em geral, assumem
a configuração de discussões semi-ritualísticas de lugares-comuns como o tempo, as
propriedades, os eventos atuais ou os assuntos de família.
Na medida em que as pessoas de tornam menos cuidadosas, cada vez mais se
insinua a programação individual, de modo que os “incidentes” começam a ocorrer. Estes
incidentes superficialmente parecem acidentais, e podem ser assim descritos pelas partes
interessadas, mas um exame cuidadoso revela que elas tendem a seguir padrões definidos
que são sensíveis à escolha e classificação, e que a seqüência está, na verdade, circunscrita
por regras e normas não mencionadas. Estas regras permanecem latentes sempre que as
amenidades, ou hostilidades, se desenrolem de acordo com elas, mas manifestam-se se for
feito um movimento ilegal, provocando um grito simbólico de Traição! Tais seqüências,
que em contraste com os passatempos, se baseiam mais na programação individual do que
na social, podem ser chamadas de jogos. A vida em família e a vida conjugal podem,
durante anos, centrar-se em variações do mesmo jogo.
Passatempos e jogos são substitutos do viver real da real intimidade. Por isso, eles
podem ser vistos como compromissos preliminares e não como uniões; na verdade. São
formas mordazes de jogo.
Quando a programação individual, geralmente instintiva, torna-se mais intensa,
tanto os padrões sociais como as restrições ulteriores começam a diminuir. Esta condição
pode ser chamada de crasis, o que significa um entrelaçamento genuíno de personalidades;
ou, mais coloquialmente, podemos denominá-la intimidade.
Assim, é possível afirmar que o contato social, esteja ou não engastado numa matriz
de atividade, assume duas formas: jogo e intimidade. Até agora, a maior parte de todo
intercurso social se apresenta na forma de jogo.

3. RELAÇÃO SOCIAL

59
As manifestações da relação social são chamadas transações. Estas ocorrem
especificamente em cadeias: um estímulo transacional procedente de X faz emergir uma
resposta transacional de Y; esta resposta torna-se um estímulo para X; e a resposta de X,
por sua vez, torna-se um novo estímulo para Y. A AnáliseTransacional ocupa-se da análise
de tais cadeias, e , particularmente, de sua programação. Pode-se demonstrar que, uma vez
iniciada uma cadeia, a seqüência resultante é altamente previsível, se forem conhecidas as
características do Pai, Adulto e Criança de cada uma das partes envolvidas. Em certos
casos, como mostraremos mais tarde, o contrário também é possível: dados o estímulo
transacional e a resposta transacional iniciais, não apenas a seqüência seguinte mas também
algumas das características do Pai, Adulto e Criança de cada uma das partes envolvidas
serão inferíveis com um considerável grau de confiança.
Enquanto à análise transacional, qualquer tipo de intercurso social é acessível, o
grupo de terapia transacional se destina especialmente a eliciar a máxima quantidade de
informação relativa à programação idiossincrática de cada paciente, uma vez que sua
programação está estreitamente ligada à sua sintomatologia e também, salvo acidentes,
determina seu destino social. As características de tal grupo são as seguintes:
1 – Desde que inexista qualquer atividade formal e procedimento estabelecido, não
há nenhuma fonte de estruturação para o intervalo de tempo. Portanto, toda programação é
restrita a uma interação entre aquela fornecida pela cultura e a determinada por
condicionamento especial prévio do indivíduo.
2 – O compromisso é apenas parcial, e é possível que ocorra o alheamento de uma
dada resposta ou a retirada de um paciente do grupo, sem sanções. As responsabilidades
raramente serão tão sérias ou tão permanentes como as envolvidas em atividades como a
construção de uma ponte ou em intimidades tais como a fecundação.
Nesses dois aspectos, o grupo assemelha-se a um grupamento social comparável a
um coquetel, mas distingui-se pelos dois critérios a seguir:
3 – Existe um compromisso definitivo com uma estrutura de grupo definida. O
terapeuta está de um lado e os pacientes de outro, e isto é irreversível. Os pacientes pagam
o terapeuta ou obedecem às regras de sua clínica, mas o terapeuta nunca paga os pacientes.
(Pelo menos não enquanto terapeuta.)
4 – A população do grupo não é de escolha do paciente, embora ele possa, às vezes,
ter o privilégio de selecionar ou rejeitar membros da população de candidatos.
Dos dois últimos pontos de vista, o grupo de terapia assemelha-se a muitos grupos
de atividades que têm um programa feito, tais como instituições de negócio ou
educacionais, mas deles se diferencia pelos dois primeiros critérios.

NOTAS

Fome de estrutura. Os experimentalistas afirmam de modo bastante explícito que


não é a privação sensorial quantitativa que causa a desorganização, mas algum defeito de

60
estruturação, uma “monotonia” que origina “tédio”. (1) A ilustração clássica é oferecida
pelos esforços de Robinson Crusoé no sentido de sanar sua confusão verbal na estruturação
do tempo e lugar em sua ilha solitária. (3) Crusoé exemplifica intensamente não apenas a
fome de estrutura, mas também a fome social. A precisão de seu retrato fictício é mostrada
de modo impressionante pelas experiências de isolamentos forçados na vida real: Baron
Trenk durante seus dez anos em Magdeburg, Casanova durante seu confinamento em
Veneza, e Jonh Bunyan durante seus 12 anos na cadeia municipal de Bedford. A drenagem
catética* da neopsique causada por privação de estímulo, social e de estrutura pode ser
demonstrada através da comparação de pacientes de bons hospitais estaduais com os de
hospitais ruins. A sugestionabilidade arcaica resultante de tais privações aparentemente tem
provado ser uma das mais poderosas armas disponíveis a líderes governamentais cruéis no
trato com seus adversários políticos de personalidade intransigente.
Jogo. Jogar não significa, necessariamente, “brincar”. Na realidade, muitos jogos
humanos, como esclarece Huizinga, (4) são acompanhados por genuína intensidade
emocional. Isso pode ser observado em qualquer pátio de colégio ou sala de jogos. O ponto
essencial do jogo social, no caso de seres humanos, não está no fato de as emoções serem
espúrias, mas na construção de que elas são reguladas, uma vez que se impõem sanções a
manifestações emocionais ilegítimas. Portanto, o jogo pode até ser muitíssimo perigoso,
mas as conseqüências sociais só serão sérias se as regras forem atropeladas.
Para uma discussão do acordo “Isto é jogo”, veja Bateson et al.(5) Em seres
humanos, o acordo consciente “Isto é jogo” freqüentemente oculta um pacto inconsciente
“Isto não é jogo”. Uma variante dele é a verdade dita em forma de gracejos, pelos quais a
pessoa que fala se exime de responsabilidades, uma vez que sorriu quando se expressou. De
forma similar, o pacto consciente “Isto não é um jogo” (ex. o contrato de casamento) pode
esconder um contrato encoberto ou inconsciente do tipo “Isto é um jogo”. Bom exemplo
disto é o jogo da “Mulher Frígida”, com sua seqüência complexa, porém ordenada de
provocações e recriminações mútuas. O contrato manifesto implica uma união sexual séria,
mas o contrato encoberto diz: “Não leve a sério minhas promessas sexuais”. O mesmo se
aplica ao jogo do “Devedor”, ocasionalmente deflagrado por certos tipos de pacientes
psiquiátricos quando se trata de questões de dinheiro. Jackson e Weakland (6) fornecem um
relatório textual do que, a partir do ponto de vista atual, configura o jogo sinistro chamado
“Laço Duplo”, desempenhado por famílias “esquizofrênicas”.
É interessante notar que as descobertas da pesquisa psicológica moderna e as idéias
expressas neste capítulo. Embora atingidas através de um caminho bastante diverso, são
semelhantes a algumas das reflexões de Kiekegaard sobre o tédio (7) (1843). Além disso, o
controle social, meta comportamental da análise transacional, resulta exatamente do tipo de
isolamento opcional que Kierkegaard parece ter em mente, quando discute relações tais
como amizade, casamento e negócios. A idéia de um isolamento superficial mas
significativo se opõe à pressão para o “estar junto”, que age em ambos os lados, atualmente.
Na posição extrema, seria possível dizer que poderiam existir pequenas discórdias, mas sem
guerras, caso as pessoas não se reunissem em grupos. Esta não é uma solução prática, mas é
um bom ponto de partida para as reflexões sobre guerra e paz.

*
Refere-se ao esvaziamento da catexia da neopsique (estado do ego Adulto). (Nota do revisor técnico)

61
REFERÊNCIAS

1. Heron, W., “The Pathology of Boredom”. Scientific American 196: 52-56, Janeiro de 1957.
2. Spitz, R., “Hospitalism, Genesis of Psychiatric Conditions in Early Childhood”. Psychoanallytic Study
of the Child. 1: 53-74, 1945.
3. Berne, E., “The Psychological Structure of Space with some Remarks on Robinson Crusoe”.
Psychoanalytic Quart. 25: 549-567, 1956.
4. Huizinga, J., Homo Ludens. Beacon Press, Boston, 1955.
5. Bateson, G. et al, “The Message ‘This is Plaay’”. Transaction of Second Conference on Group
Processes. Josiah Macy, Jr. Foudation, Nova York, 1956.
6. Weakland, J. H. & Jackson, D. D., “Observations on a Schizophrenic Episode”. Arch. Neur. & Psych.
79: 554-574, 1958.
7. Kierkegaard, S., A Kierkegaard Anthology, org. R. Bretall. Princeton University Press, Princeton, 1947,
pp.22 ss.

62
9.
ANÁLISE DE TRANSAÇÕES

1. INTRODUÇÃO

A análise estrutural propriamente dita ocupa-se do domínio (mas não


necessariamente da resolução) de conflitos internos, através do diagnóstico dos estados do
ego, descontaminação, trabalho de fronteiras e estabilização, de modo que o Adulto possa
manter o controle da personalidade em situações de tensão. Uma vez obtido o máximo
proveito terapêutico apenas através da análise estrutural, existem três possibilidades de
escolha: o fim da terapia como tentativa ou permanentemente, a psicanálise ou a análise
transacional. A interrupção da terapia como tentativa foi experimentada, por acordo mútuo,
no caso de Mr. Segundo. A psicanálise, em termos estruturais, consiste em livrar a Criança
de sua confusão e em resolver os conflitos existentes entre ela e o Pai. O objetivo da análise
transacional é o controle social, em que o Adulto retém o poder de comando na relação
com outras pessoas que podem estar, consciente ou inconscientemente, tentando ativar a
Criança ou o Pai do paciente. Isso não significa que apenas o Adulto seja ativo em
situações sociais simplesmente, mas que é ele quem decide quando liberar a Criança ou o
Pai e quando retomar o poder de comando. Assim, um paciente poderia pensar: “Nesta
festa, ao contrário do que aconteceu no jantar formal da noite passada, tenho condições de
beber algumas doses e de me divertir um pouco”. Mais tarde, ele pensaria: “Agora, estou
começando a perder o controle, então seria melhor eu para de beber e me acalmar, embora
eles estejam tentando encorajar minhas palhaçadas”.
A análise transacional realiza-se de modo mais satisfatório na terapia de grupos; ou,
em outras palavras, poderíamos dizer que o propósito natural dos grupos de terapia é a
análise transacional. (1) Por outro lado, a análise estrutural, que constitui um pré-requisito
da análise transacional, também pode ser aplicada na terapia de grupo, e não só na
individual. Geralmente é aconselhável, no entanto, manter duas ou três sessões individuais
preliminares. A finalidade das sessões individuais anteriores à terapia de grupo, além de
questões de rotina tais como o estudo da história do paciente, é introduzir o paciente à
análise estrutural.
Depois da análise transacional propriamente dita, passa-se para a análise de jogos e,
em seguida, para a análise de argumentos. A primeira funciona como um pré-requisito sem
o qual as duas podem degenerar em uma espécie de passatempo, em lugar de serem usadas
como procedimentos terapêuticos racionais. A análise de jogos é necessária para atingir o
controle social. A análise de argumentos, cujo objetivo seria o chamado “controle do
projeto de vida”, é tão complexa que este estágio nem chega a ser atingido em muitos
grupos de terapia, embora o controle social seja possível sem ela. Em situações especiais,
tais como o aconselhamento e a terapia de grupos de casais, pode-se indicar um
procedimento especial, denominado “análise de relações”. Em geral costuma-se omitir a
análise formal de relações, mas todo terapeuta de grupo., a fim de tornar-se capaz de dar o

63
máximo de si, deveria compreender claramente este procedimento e ter alguma experiência
em sua aplicação.

2. ANÁLISE TRANSACIONAL

Neste ponto, consideraremos um grupo de donas-de-casa, entre 30 e 40 anos de


idade, cada uma com um ou dois filhos que participavam de reuniões semanais de uma hora
e meia no consultório de seu psiquiatra, o Dr. Q. Ao final de 18 meses, Daphne, Lily e
Rosita, que integravam o grupo desde o início, eram os seus elementos mais experientes,
enquanto que Hyacinth, Holly, Camélia e Cicel, que se uniram ao grupo nesta ordem, ainda
não tinham adquirido tal nível de sofisticação. A figura 7 mostra o diagrama da disposição
e a esquematização comum deste grupo.
Um dia, Camellia, seguindo uma seqüência prévia de pensamento, anunciou que
tinha dito a seu marido que nunca mais manteria relações sexuais com ele e que ele poderia
procurar outra mulher. Rosita perguntou com curiosidade: “Por que você fez isso?” Em
resposta, Camellia rompeu em lágrimas e replicou: “Foi tão difícil e agora você me critica”.
Existem aqui, duas transações que podem se representadas pelos diagramas das
Figuras 8A e 8B. Estas personalidades das duas mulheres, em sua representação estrutural,
compreendem Pai, Adulto e Criança. O primeiro estímulo transacional é a afirmação de
Camellia sobre o que dissera a seu marido. Ela fez este relato em seu Adulto, com o qual o
grupo estava familiarizado. Por sua vez, esta afirmação foi recebida por uma Rosita Adulta,
que, em sua resposta (“Por que você fez isso?”) evidencia um interesse maduro e racional
pelo caso. Como se mostra na Figura 8A, o estímulo transacional foi de Adulto para
Adulto, e também o foi a resposta transacional. Se as coisas tivessem continuado neste
nível, a conversa poderia ter prosseguido com calma.
A pergunta de Rosita (“Por que você fez isso?”) constituía, então, um novo estímulo
transacional e pretendia ser um adulto falando com outro. A resposta de Camellia, no
entanto, não foi de um adulto para outro, mas de uma Criança respondendo a um pai crítico.
A má percepção de Camellia do estado do ego de Rosita, e o desvio em seu próprio estado
do ego, resultaram numa transação cruzada e interromperam a conversa, que agora tinha de
começar novamente. Isso está representado na figura 8B.
Este tipo particular de transação cruzada, em que o estímulo se dirige ao Adulto,
enquanto a resposta tem origem na Criança é, provavelmente, a causa mais freqüente de
desentendimentos em situações conjugais e de trabalho, bem como na vida social.
Clinicamente, ela é definida pela clássica reação de transferência. Na verdade, podemos
dizer que esta espécie de transação cruzada constitui o principal problema da técnica
psicanalítica.
A recíproca ocorre quando um estímulo se dirige ao Adulto e o Pai é quem
responde. Assim, qualquer pessoa que fizesse a Mr. Troy uma pergunta racional, esperando
uma resposta sensata, poderia ficar desconcertada, ao se ver tratada com base num conjunto
de preconceitos dogmáticos, ao ver tratada com base num conjunto de preconceitos

64
dogmáticos e mal-formulados, como se não passasse de uma criança retardada necessitando
correção. Esta situação está representada na Figura 8C. (O mesmo diagrama pode ser
usado, mutatis mutandis, para representar uma reação de contratransferência).

Notar-se-á que, neste esquema, enquanto os vetores não se cruzam, a conversa


transcorre regularmente, como uma série de transações complementares. Mas, assim que
ocorrer uma transação cruzada, alguém se atrapalha e a relação complementar termina. No
caso de Camellia e Rosita, por exemplo, Rosita não consegue dizer mais nada depois que
Camellia rompe em lágrimas. Holly, no entanto, começou, de imediato, a confortar
Camellia e a justificar sua atitude, exatamente como falaria a uma criança ofendida. Uma
versão livre de sua reação seria: “Não chore; querida, tudo ficará bem,. Todos a amamos e
aquela mulher estúpida não quis dizer isso”. Camellia respondeu a esta atitude com
“autopiedade” e gratidão. Estas transações estão representadas na Figura 8D. Uma vez que
a Criança de Camellia agora tenta obter uma resposta parental – exatamente do tipo que
Holly lhe dá – o eventual comentário clínico de Rosita: “Este caso de amor poderia
continuar para sempre!” é tecnicamente correto. Estas transações mútuas Pai-Criança
continuariam, se não tivessem sido interrompidas de fora, até que Holly ou Camellia se
cansassem delas e mudassem seu estado do ego, provocando o surgimento de outra
transação cruzada que poderia pôr fim à relação complementar.
Da maneira como ocorreu, a transação terminou com a intervenção de Rosita, que
causou o colapso do Pai de Holly e a ativação de sua Criança machucada e amedrontada.
Neste estado, ela não era mais interessante para Camellia, que se isolou num silêncio
obstinado. Agora foi a vez do terapeuta intervir. Ele avaliou a situação com cuidado e foi
capaz de levar todas de volta a um nível Adulto, de modo que pudesse prosseguir com a
análise mencionada acima. Durante esta fase, suas próprias transações com o grupo
retornaram ao nível original representado na Figura 8A.

65
A intervenção do Dr. Q. visou, em última análise, estabelecer o controle social.
Rosita, a mais sofisticada do grupo, já adquiriu este controle em grande escala, conforme
demonstrou com o seu silêncio quando Camellia começou a protestar e choramingar; mas
Holly, que era uma novata, imediatamente respondeu às propostas da Criança de Camellia.
Rosita tinha a compreensão clara e racional do objetivo do grupo como experiência de
aprendizagem. Ela sabia que Camellia nada aprenderia sendo confortada e que Holly
também não ganharia nada por confortá-la. Do mesmo modo, os outros elementos
experientes do grupo, Daphne e Lily, permaneceram em silêncio, porque sabiam que aquela
era a única coisa a fazer; enquanto as duas outras novatas, Hyacinth e Cicely ficaram
quietas porque não sabiam assumir qualquer outra atitude.

Importante é ressaltar que este tipo de coisa sempre acontecia com Camellia.
Segundo ela afirmou, as pessoas nunca a compreendiam bem e a criticavam; mas, na
verdade, era ela quem costumava não compreender as pessoas e criticá-las, Rosita percebeu
corretamente que sua própria atitude não tinha sido de crítica a Camellia e que, pelo
contrário, era esta que a tinha criticado, de modo implícito, com o seu choro. Ela reteve o
controle Adulto da situação, ao não se permitir envolver de modo inconveniente no papel
parental de confortar Camellia ou se justificar diante dela. Seu Adulto foi reforçado pelo
conhecimento de que sucumbir seria desvirtuar o objetivo terapêutico das reuniões.
Camellia demonstrara, mais de uma vez, que era muito hábil em despertar compaixão e
desculpas nas outras. As mais experientes do grupo ganhavam, agora, a consciência de que
estavam sendo manipuladas no sentido de dar a Camellia algo a que ela não tinha direito, e

66
assumiram, assim, o firme propósito de torná-la consciente do que ela estava fazendo. A
forma mais eficaz de atingir este objetivo era se recusarem em face das exigências dela.
Elas também se conscientizavam, cada vez mais, de quão ansiosamente Holly
vislumbrava as oportunidades de ser parental. Assim, Camellia e Holly se contemplavam
em certas tendências, tendências estas que, nos dois casos, provocavam uma discórdia
conjugal. Holly estava prestes a conseguir o divórcio porque seu marido a explorava, e
Camellia enfrentava problemas porque seu marido não a compreendia e a criticava. A
análise transacional deste episódio pelo Dr. Q. foi, portanto, pertinente. No decorrer de
repetidas análises de situações semelhantes, estas duas senhoras foram se tornando
conscientes das atitudes que tendiam a assumir e aos poucos crescia a sua capacidade de
controlar tais tendências, tanto no grupo como em casa, o que trouxe benefícios
correspondentes a suas situações instrutiva e convincente para as outras novatas, enquanto
os elementos experientes foram adquirindo compreensão e perícia no controle social, na
medida em que cada incidente servia para fortalecer o seu Adulto. Assim, a análise
transacional da relação entre duas integrantes do grupo beneficiou todas as outras, e estes
benefícios tiveram resultado muito antes de qualquer uma delas estar pronta para tentar
livrar a Criança da confusão ou resolver conflitos subjacentes.

NOTAS

É muito difícil apresentar e acompanhar efetivamente os procedimentos dos grupos


de terapia. A utilização de um diagrama de disposição é sempre necessária e a lousa é um
requisito essencial para tais discussões. Se dispensarmos o diagrama de disposição, é
possível que ninguém note sua falta, mas, estando ele à disposição, logo observaremos que
todos os presentes o consultam com freqüência durante a discussão, o que demonstra
suficientemente a sua utilidade. Além disso, se proporciona a resposta automática a
inumeráveis perguntas a respeito da situação física do grupo, possibilitando a economia de
tempo.
O grupo acima descrito possuiu 15 elementos durante seus 18 meses de existência,
com um recorde global de freqüência de 95%. Duas de suas integrantes eram anômalas.
Uma foi transferida para outro grupo após uma sessão. Outra era alcoólatra e a única que
não tinha filhos: foi a primeira alcoólatra com quem o autor tentou a análise transacional.
Revelou-se incapaz de suportar a ansiedade surgida quando as suas companheiras de grupo
se recusaram a participar de seu jogo “Alcoólatra”. (Veja Cap. 10.) Depois que elas
rejeitaram com firmeza seus pretextos e fizeram uma observação depreciativa sobre ela,
não voltou mais; e internou-se voluntariamente, para tratamento num hospital, pela quarta
vez.
Quatro integrantes, duas delas em condição pós-psicótica, mudaram-se para outras
cidades, todas com muita melhora. Outra se afastara temporariamente do grupo, bastante
satisfeita. Outra ainda, Verônica, sentiu-se beneficiada o suficiente para empreender uma
tentativa sistemática de melhorar o seu casamento, transferindo-se para um grupo de casais
junto com o marido. As sete restantes achavam que estavam empregando muito bem o seu

67
tempo, dinheiro e esforço, e conseguiram ver melhora em si mesmas e umas nas outras.
Destas 13, quatro já vinham de experiências anteriores de terapia com uma ou mais
abordagens psicoterápicas, e foram capazes de avaliar, com maior clareza, os resultados
obtidos através da análise transacional. Comparando-os com os que tinham conseguido com
sua terapia anterior. Suas observações espontâneas confirmaram a própria experiência do
autor.

REFERÊNCIAS

1. Berne, E. “Transactional Analysis: A New Effective Method of Group Therapy”. Amer. Jnl.
Psychother. 12: 735-743, 1958.

68
10.
ANÁLISE DE JOGOS

1. PASSATEMPOS

A parte mais importante do intercurso social é formada de relações. Este fato obtém
confirmação especialmente em grupos de psicoterapia onde se proíbem ou inibem tanto a
atividade como a intimidade. As relações são de dois tipos: passatempos e jogos. Defini-se
passatempo como um compromisso em que as transações são diretas. Quando se introduz
dissimulação na situação, o passatempo torna-se um jogo.
Com pessoas felizes e bem organizadas, com especial capacidade de divertimento,
um passatempo pode ser realizado pelo que tem de interesse e trazer suas próprias
satisfações. Com outras, particularmente as neuróticas, ele significa exatamente o que diz a
palavra, um modo de passar (isto é, estruturar) o tempo: até que se consiga conhecer melhor
as pessoas, até que esta hora tenha passado e, numa escala maior, até a hora de dormir, até
as férias, até o início de carisma, salvação ou morte. Existencialmente, um passatempo é
uma forma de repelir a culpa, o desespero ou a intimidade, um instrumento fornecido pela
natureza ou pela cultura para aliviar o desespero passivo. Falando com maior otimismo, na
melhor das hipóteses, ele é algo cuja finalidade se esgota em si mesmo e, no mínimo, serve
como um meio de travar conhecimento na esperança de conseguir intimidade com outro ser
humano. Em qualquer caso, cada participante o utiliza de modo oportunista, para obter os
ganhos primários e secundários que puder através dele.
Os passatempos em grupos de psicoterapia são geralmente Parentais ou Adultos,
uma vez que sua função é fugir do problema que envolve a Criança. Os dois passatempos
mais comuns em tais grupos são variações do “PTA” (Psicoterapia por Análise
Transacional) e da “Psiquiatria”. A forma projetiva do “PTA” é um passatempo Parental.
Seu tema é a delinqüência, na acepção geral do termo, e pode lidar com delinqüentes
juvenis, maridos delinqüentes, esposas delinqüentes, homens de negócios delinqüentes,
autoridades delinqüentes ou celebridades delinqüentes. O “PTA” introjetivo é Adulto e lida
com as delinqüências socialmente aceitáveis das próprias pessoas. “Por que não consigo ser
boa mãe, pai, empregador, trabalhador, amigo, anfitriã?” O lema da forma projetiva é “Não
é terrível?”, o da forma introjetiva é “Eu também!”
“Psiquiatria” é passatempo Adulto ou, pelo menos, pseudo-Adulto. Em sua forma
projetiva, é coloquialmente conhecido como “Eis aqui o que você está fazendo”, e, em sua
forma introjetiva, é chamado “Por que eu faço isso?”. Em grupos de análise transacional, os
intelectuais podem representar “Que parte de mim disse isso?”, mas um grupo mais
experiente logo o abandona, quando se tornar evidente que está se estendendo demais num
passatempo dispersivo após a fase de aprendizagem da análise estrutural.
Alguns grupos são inclusive mais cautelosos e se limitam a fazer variações de
“Conversas Curtas” como “Conversa Fútil” como “General Motors” (comparar carros) e

69
“Quem ganhou” (ambos “Conversa de Homem”); “Quitanda”, “Cozinha”, e “Guarda-
Roupa” (todos conversa de Mulher); “Como é que” (se faz algo), “Quanto” (custa?), “Você
já esteve?” (em algum lugar nostálgico), “Você conhece” (isso ou aquilo) ? “ O que foi
feito” (do bom velho Joe), “Manhã Seguinte” *(que ressaca!) e “Coquetel” (Eu sei preparar
melhor).
Os passatempos propriamente ditos pertencem à fase inicial da terapia de grupo,
mas, se o grupo não for conduzido de modo adequado, o processo corre o risco de nunca
ultrapassar este estágio. O significado dos passatempos é claramente percebido por
elementos experientes do grupo, que logo conseguem reconhecer que podem recorrer a eles
em três tipos de situações: por ocasião da chegada de um novo membro, quando o grupo
está evitando alguma coisa, ou quando o líder está ausente. No último caso, se o grupo
continua a se reunir com o terapeuta assistente ou observador, enquanto o titular não está
presente, seus integrantes, quando de sua volta, poderão afirmar: “Tudo o que fizemos na
sua ausência foi jogar “PTA” e “Psiquiatria”, e, mais do que nunca, pudemos ver que perda
de tempo é isto”. Até um grupo de mães, que pode, inicial e compreensivelmente, ter
grande dificuldade em abandonar o “PTA”, eventualmente poderá vir a ter a mesma reação.
(1)
Entretanto, os passatempos têm realmente uma função, a de servir, no início do
grupo de terapia, como matriz inócua para tentativas de excursão da Criança. Eles
proporcionam um período preliminar de observação sem compromisso, durante o qual os
participantes podem unir-se uns aos outros, antes de começarem os jogos. Muitas pessoas
são gratas a este período de experiência porque desde que a Criança esteja comprometida
em um jogo, ela deve assumir as conseqüências. Alguns grupos, no entanto, suprimem a
fase de passatempo e se lançam diretamente aos jogos. Isto pode acontecer em especial
quando um elemento audacioso dá o passo inicial de seu jogo, sem um exame preliminar
dos jogadores. Tal imprudência geralmente arrasta os outros elementos. Este tipo de
ousadia não é, necessariamente, questão de agressividade, mas pode surgir a partir da
impulsividade da Criança, da deterioração do Adulto ou do Pai. É, na essência, um sinal de
falta de adaptação. Outros elementos presentes podem ser mais agressivos, mas também
mais fleumáticos, sensatos ou disciplinados.
Os passatempos podem deixar o grupo mais descontraído em momentos de tensão,
mas, do ponto de vista analítico, eles são de pouco valor, Podem ajudar a esclarecer para os
pacientes as propriedades do Pai e do Adulto, mas a tarefa principal do terapeuta, quando
eles ocorrem, é suprimi-los logo que as condições o permitam, de modo a permitir que os
elementos do grupo empreendam seus jogos. A banalidade dos passatempos é mostrada nas
Figuras 9A e 9B.
I. “PTA”, Tipo Projetivo.
Holly: Não haveria toda esta delinqüência, não fossem todos estes lares desfeitos.
Magnólia: Não é só isso. Mesmo nas boas famílias, atualmente não se ensinam bons
modos aos filhos como antes.
II. “Psiquiatria”, Tipo Introjetivo.
Daisy: Para mim, pintura tem de simbolizar uma mancha.
Íris: No meu caso, seria como tentar agradar meu Pai.

70
2. JOGOS

O jogo mais comum entre casais é coloquialmente chamado “Se Não Fosse Você” e
nós o usaremos para ilustrar as características dos jogos em geral.
Mrs. Dodakiss queixava-se pelo fato de seu marido não permitir que ela se
dedicasse a qualquer atividade social ou desportiva. À medida que ela foi obtendo melhora
com o tratamento, seu marido ficou menos seguro de si mesmo e afastou suas proibições. A
paciente , então, sentiu-se livre para ampliar o âmbito de sua atividades. Por causa de sua
adolescência “carente”, ela sempre desejara ter aulas de natação e dança. Depois de
inscrever-se em seus cursos, ela ficou surpresa e temerosa ao descobrir que tinha fobia de
piscinas como de pistas de dança, e precisou abandonar os dois projetos.

Esta exposição esclarece, em parte, a estrutura do casamento de Mrs. Dodakiss. Ela


escolhera para marido um homem que lhe proporcionaria o máximo de ganhos primários e
secundários. Devemos lembrar que Freud (2) nos descreve o modo como uma doença pode
proporcionar três tipos possíveis de ganho: o paranósico externo (primário), o paranósico
interno (primário) e o epinósico (secundário). Este conceito pode abranger os ganhos

71
derivados de relações pessoais. Quando Mrs. Dodakiss escolheu um autocrata para marido,
o ganho primário externo era o fato de ele a ajudar a evitar suas fobias; o ganho interno era
que ela poderia... etc.”. e isto era não só gratificante, mas também a ajudava a manipular as
culpas e ansiedades; os ganhos secundários se situam nas vantagens materiais decorrentes
de sua atitude: seu ressentimento “justificável” lhe proporcionava força no controle da vida
sexual como marido e de outros aspectos de seu casamento, e arrancava as concessões e os
presentes com que ele procurava compensá-la por sua severidade.
Mas, já que no momento estamos interessados em psiquiatria social, a vantagem
mais relevante pertence a um tipo que se distingue dos outros três: o ganho social. A
pergunta cuja resposta descreve o ganho social é a seguinte: Como a situação contribui para
a estruturação do tempo do indivíduo? Mr. Dodakiss estabeleceu seu jogo seduzindo o
marido (se é que ele necessitava de sedução) a impor proibições. Além de servir aos
propósitos já mencionados, estas proibições supriam um reservatório de ressentimentos
sempre renovado. A qualquer momento que faltasse o que fazer ou a intimidade se visse
ameaçada, este ressentimento fornecia um modo substituto de preencher o tempo com o
jogo “Se Não Fosse Você” e seus intermináveis ataques e contra-ataques. Além disso, Mrs.
Dodakiss obtinha uma posição privilegiada em seu círculo social feminino, pois ela sempre
podia participar das conversas com um sentido de gratificação e realização, jogando o
passatempo derivativo “Se Não Fosse Ele”. Assim, sua relação conjugal não apenas lhe
proporcionava proteção, controle e gratificação (os ganhos freudianos), mas também o
privilégio de jogar “Se Não Fosse Você” e “Se Não Fosse Ele”. Como importante
subproduto, a educação emocional dos filhos dos Dodakiss incluía um importante curso
intensivo de aprendizagem desses jogos, de modo que toda a família se dedicava a esta
ocupação com muita habilidade e freqüência.
Um quinto tipo de vantagem é o ganho biológico, decorrente do simples fato de as
partes se estimularem umas às outras de alguma forma, removendo o seu isolamento,
independentemente da forma ou do conteúdo do estímulo.
As vantagens que Mr. Dodakiss obtinha a partir desta situação podem apenas ser
imaginados, já que ele passou por tratamento; os parceiros do sexo masculino, neste jogo,
geralmente não são do tipo dos que buscam soluções na psiquiatria. Da experiência com
casamentos semelhantes, no entanto, podemos supor que seu ganho primário interno fosse
sádico ou contrafóbico; seu ganho externo primário, o mesmo que o de sua esposa, ou seja,
evitar intimidade sexual sem perda da auto-estima, provocando rejeição; seu ganho
secundário era a liberdade para ir caçar; e seu ganho social era o passatempo “Ninguém
compreende as mulheres”.
A análise transacional de jogos é muito instrutiva para as pessoas interessadas. As
transações são de três tipos: complementares, cruzadas e ulteriores. As transações
complementares de uma relação bem estruturada e as transações cruzadas de uma relação
pobremente estruturada já foram discutidas. Num passatempo, as transações são
complementares; portanto, nesta situação a relação é bem estruturada, relativamente
simples e pode continuar indefinidamente, enquanto for bem motivada por gratificações.
Num jogo, relação também é bem estruturada, sem cruzamentos, mas as transações são
ulteriores e ocorrem em dois níveis simultaneamente, o social e o psicológico. A análise do
“Se Não Fosse Você” é mostrada na Figura 9C. No nível social, o paradigma é o seguinte:

72
Marido (M): Você fica em casa e toma conta dela.
Esposa (E): Se não fosse você, eu poderia estar-me divertindo.
Aqui, o estímulo transacional é de Pai para Criança e a resposta é de Criança para
Pai.
No nível psicológico (o contrato conjugal ulterior), a situação é bastante diferente:
M: Você sempre deve estar em casa quando eu chegar. Tenho pavor de abandono.
E: Eu farei isso, se você me ajudar a evitar as situações fóbicas.
Aqui, tanto o estímulo como a resposta são de Criança para Criança. Em nenhum
nível existe cruzamento, de modo que o jogo pode continuar indefinidamente, enquanto
estiver bem motivado. Portanto, podemos definir transacionalmente um jogo como um
conjunto de transações ulteriores. Descritivamente, jogo é um conjunto repetitivo de
transações, com freqüência enfadonhas, superficialmente plausíveis, com uma motivação
oculta; ou, de forma mais coloquial, uma série de lances com uma cilada ou “truque”.
O jogo mais comum em reuniões e grupos de todos os tipos, incluindo grupos de
psicoterapia, é “Por Que Você Não...? Sim. Mas...”.
Hyacinth: Meu marido nunca constrói nada certo.
Camellia: Por que ele não faz um curso de carpintaria?
Hyacinth: Sim, mas ele não tem tempo.
Rosita: Por que você não lhe compra algumas ferramentas boas?
Hyacinth: Sim, mas ele não sabe como usá-las.
Holly: Por que vocês não contratam um carpinteiro?
Hyacinth: Sim, mas seria dispendioso demais.
Íris: Por que você, então, não aceita o que ele faz do modo como ele faz?
Hyacinth: Sim, mas tudo poderia desmoronar.
“Por que você não...? Sim, mas...” pode ser jogado por qualquer integrante do
grupo. Um jogador, que é “ele”, apresenta um problema. Os outros apresentam soluções,
cada qual com “Por que você não...?” A cada uma delas, “ele” objeta com um “Sim,
mas...” Um bom jogador pode prolongar este jogo com o grupo indefinidamente, até que
todos os seus membros desistam e, conseqüentemente, “ele” ganha. Hyacinth, por exemplo,
recusou mais de 12 soluções, antes que Rosita e o terapeuta interrompessem o jogo.
Já que todas as soluções, salvo raras exceções, são rejeitadas, fica evidente que este
jogo deve servir a alguma finalidade oculta. O "truque" em "Por que você não... Sim,
mas..." é que ele não é jogo por seu propósito ostensivo (um Adulto que busca informação
ou soluções), mas para proporcionar segurança e gratificar a Criança. Numa transcrição, a
coisa pode parecer Adulta, mas, ao vivo, é possível observar que "ele" se apresenta como
uma Criança incapaz de enfrentar a situação: conseqüentemente, os outros se transformam
em Pais sábios, ansiosos por dispensar seus conhecimentos em benefício do desamparado.
E isto é exatamente o que "ele" quer, uma vez que seu objetivo é confundir esses Pais, um
após o outro. A análise deste jogo é mostrada na Figura 9D. O jogo pode ter

73
prosseguimento porque, ao nível social, tanto o estímulo como as respostas são de Adulto
para Adulto, e, ao nível psicológico, eles também são complementares: o estímulo de Pai
para Criança ("Por que você não..."), arrancando uma resposta de Criança para Pai ("Sim,
mas..."). O nível psicológico pode ser inconsciente para ambas as partes.
Diante destas interpretações, é instrutivo prosseguir com o jogo de Hyacinth.
Hyacinth: Sim, mas tudo poderia desmoronar.
Terapeuta: O que todas vocês pensam sobre isso?
Rosita: Aqui estamos nós, novamente, jogando "Por que Você Não... Sim, Mas..."
Aposto que você pensaria que saberíamos mais coisas desta vez.
Terapeuta: Alguém sugeriu algo em que você ainda não tinha pensado por si só?
Hyacinth: Não. Na verdade, já tentei quase tudo que elas sugeriram. Comprei
algumas ferramentas para meu marido, e ele fez um curso de carpintaria.
Terapeuta: O interessante é que Hyacinth disse que ele não tinha tempo de fazer o
curso.
Hyacinth: Bem, enquanto estávamos conversando, eu não percebi o que estávamos
fazendo, mas agora vejo que estávamos jogando "Por Que Você Não... Sim, Mas"
novamente. Então, acho que ainda estou tentando provar que nenhum Pai pode me dizer
nada.
Terapeuta: E ainda você me pede para hipnotizar você ou lhe dar uma injeção
hipnótica.
Hyacinth: Você, sim. Mas ninguém mais vai me dizer o que fazer.
O ganho social (estruturação do tempo) deste jogo foi claramente indicado por Mrs.
Tredick, que se queixava de eritrofobia. Como é comum acontecer, Mrs. Tredick poderia
mudar de papel em jogar como sendo "ele" quando como sendo um dos sábios, e isto foi
discutido com ela numa sessão individual.
Dr. Q.: Por que é que você participa deste jogo, se sabe que ele é uma farsa?
Mrs. T.: Se estou conversando com uma pessoa, tenho de ficar pensando em coisas
para dizer. Se não fizer assim, fico vermelha. Exceto no escuro.
Dr.Q.: Por que você não cora no escuro?
Mrs. T.: Para quê, se ninguém pode ver a gente?
Dr. Q.: Qualquer hora falaremos sobre isso. Seria uma experiência interessante, se
você parasse de jogar "Por Que Você Não..." no grupo. Todos poderíamos aprender algo.
Mrs. T.: Mas não posso suportar uma pausa na conversa. Eu sei disso e meu marido
também. Ele sempre me diz isso.
Dr. Q.: Você quer dizer que, se seu Adulto não tiver uma ocupação, sua Criança
aproveita a chance para entrar em cena e torná-la embaraçada?
Mrs. T.: É isso. Assim, se puder ficar dando sugestões a alguém ou fazer com que
me façam sugestões, então me sinto bem. Fico protegida. Sabe, o enrubecimento agora já

74
não me aborrece tanto. Enquanto consigo manter o Adulto no controle, posso adiar o
embaraço e, quando isto ocorre, não fico em pânico como antes.
Aqui, Mrs. Tredick indica com bastante clareza que teme enfrentar um período de
tempo não-estruturado. Sua Criança, embaraçada e sexualmente excitada, previne-se contra
chamar a atenção sobre si, enquanto o Adulto puder ficar ocupado numa situação social, e
um jogo oferece uma estrutura apropriada para o funcionamento do Adulto. Mas o jogo
deve ser adequadamente motivado a fim de mantê-la interessada. Sua escolha deste jogo
particular sofre a influência do princípio da economia: ele proporciona os maiores ganhos
internos e externos relacionados com os conflitos da Criança a respeito da passividade
física. Mas Tredick podia desempenhar, com igual entusiasmo, tanto o papel da astuta
Criança de uma outra pessoa; ou melhor, que não consegue fazê-lo, já que nenhuma
sugestão jamais será aceita pela Criança e o Pai nunca terá sucesso. O lema deste jogo é:
"Não se apavore, o Pai nunca vence". Em última análise, recorre-se uma atitude bissexual
ambivalente em relação aos pais reais do início da infância.
Outros jogos comuns são "Desastrados", "Alcoólatra", "Perna de Pau", "Tumulto",
"Não é Horrível?", "Você me Meteu Nisso", "Lá Vou Eu Novamente" e "Briguem Vocês
Dois". Os jogos são escolhidos (ou, freqüentemente, colocados pelos próprios pacientes).
de modo a apresentar a veemência convincente tecnicamente desejável e terapeuticamente
eficaz. Descritivamente, cada jogo é análogo a uma competição programada, como o
xadrez ou o futebol. White dá o primeiro lance, soa o apito, e East dá o chute inicial, a bola
entra em jogo etc., cada um encontrando seus análogos, nos primeiros lances, nos jogos
sociais. O estímulo de X dá seu segundo lance estereotipado. Após determinado número de
lances, o jogo termina com um desfecho, equivalente ao xeque-mate ou ao gol. Portanto,
um jogo não é uma atitude nem um passatempo, mas um conjunto de transações
complementares exploratórias dirigidas para uma meta final.
"Desastrado" nos fornece a oportunidade convincente, mas perigosa, de ver o que
acontece se um jogo é interrompido. Neste jogo, a pessoa em questão, "ele", quebra coisas,
derrama coisas e faz confusões de vários tipos, e, toda vez, diz: "Sinto muito!". Os lances
numa situação típica são os seguintes:
1. White derrama um coquetel no vestido da anfitriã.
2. Black reage, inicialmente, com raiva, mas percebe (a maior parte das vezes
apenas vagamente) que, se demonstrar sua raiva, White sairá ganhando. Black, portanto,
controla-se e isto lhe dá a ilusão de estar vencendo.
3. White diz: “Sinto muito”.
4. Black resmunga um perdão, reforçando a sua própria ilusão de ter vencido.
Depois de queimar a toalha da mesa com seu cigarro, de enfiar a perna da cadeira na
cortina de renda e de derramar molho no tapete, a Criança de White está animada porque
deu vazão a sua agressão anal e foi perdoada, enquanto Black deu uma gratificante
demonstração de resignado autocontrole. Assim, ambos lucram com uma situação infeliz, e
Black não estará, necessariamente, ansioso por terminar a amizade com White, o agressor,
sempre vence, de qualquer modo. Se Black demonstrar raiva, White poderá continuar
aproveitando suas oportunidades. É apenas nestes jogos da vida que uma pessoa pode
ganhar sempre, aconteça o que acontecer. "Antidesastrado" é jogado por uma pessoa audaz

75
e experiente, da seguinte forma:
1. White esmaga o chocalho do bebê com o salto do sapato.
2. Black, que esperava por isso, simplesmente fica na expectativa.
3. White, um tanto desconcertado pela postura de Black, diz "sinto muito!"
4. Black diz: "Você pode derramar um coquetel no vestido de minha esposa,
queimar a toalha da mesa, rasgar a cortina e deixar cair molho no tapete, como fez da
última vez, mas, por favor, não me diga "Sinto muito!".
5. Agora que a hostilidade anal de White foi exposta publicamente, tanto os ganhos
primários internos procedentes da confusão "socialmente aceitável" como o ganho primário
externo de ser perdoado saíram de sua perspectiva. O problema agora está em saber se
haverá uma explosão imediata de raiva de White com uma batida de porta ou coisa pior, ou
se ele se controlará e deixará a revanche para outra oportunidade. Em qualquer dos casos,
Black agora fez um inimigo e White corre o risco de um distúrbio, possivelmente sério, de
economia psíquica.
A partir deste ponto se verá que, enquanto a descrição de um jogo é remanescente
dos humoristas ingleses, (3) os jogos aqui discutidos são de natureza séria. Sua função
dinâmica é preservar o equilíbrio psíquico, e sua frustração leva ou à raiva ou a um estado
que, em análise transacional, é chamado desespero. (Este é clinicamente diferenciável de
depressão, e é semelhante ao desespero existencial.)
"Alcoólatra" é complicado, porque, em sua forma clássica, é um jogo em que
participam quatro pessoas, todas elas obtendo tanto ganhos primários quanto secundários.
Em sua forma completa, o jogo exige um perseguidor, um salvador, um trouxa mudo e a
pessoa em questão, "ele". O perseguidor pertence, em geral, ai sexo oposto ao "dele",
tipicamente a esposa, e o salvador, do mesmo sexo, é quase sempre um médico. O troxa é
uma pessoa mais ou menos indiferente tanto libidinosos como agressivos. Estes papéis
podem ser condensados em um jogo com três pessoas ou duas, e é possível também o
intercâmbio de personagens. Várias associações estabelecem regras para este jogo e
definem os papéis em seus documentos. Para ser "ele", a pessoa toma um drinque antes do
café da manhã etc... Para ser um salvador, a pessoa acredita num Poder Superior, e assim
por diante.
O fato de as pessoas participantes de determinado jogo poderem, potencialmente,
jogar qualquer dos papéis deste jogo explica o sucesso das associações de recuperação. Tais
organizações podem ter muito sucesso em fazer o indivíduo parar de beber, mas não o
curam do fato de jogar o jogo do "Alcoólatra". O que acontece com o indivíduo
aparentemente é a sua transferência para o papel de salvador, neste jogo particular, depois
que abandona o papel "ele" (personagem principal do jogo). Sabe-se que, no caso de
escassez de pessoas para salvar, os que tiverem sido "curados" poderão sofrer uma recaída,
(4) o que, na linguagem da análise de jogos, significa que eles regridem a seus papéis
originais de "ele" no jogo alcoólatra. Ex-alcoólatras tornam-se melhores salvadores do que
pessoas que não bebem, porque eles conhecem melhor as regras do jogo e têm mais
experiência em sua aplicação. O jogo é chamado aqui de "Alcoólatras" e não de
"Alcoolismo", porque, em certos casos, pode ser jogado sem a garrafa. Isto é, existem
certas pessoas que não são viciadas em álcool e jogam essencialmente o mesmo jogo,

76
manipulado por quatro pessoas.
Em geral há consenso de que as associações recuperadoras (especialmente a dos
Alcoólicos Anônimos) proporcionam melhores chances para a pessoa parar de beber do que
outras abordagens, inclusive os grupos de psicoterapia. Ao que parece, os alcoólatras não se
sentem atraídos pelos grupos de psicoterapia, e não é muito difícil encontrar a razão disto.
Se tivermos em mente que o objetivo básico de um grupo é ajudar o indivíduo a estruturar o
seu tempo de modo que ele obtenha o máximo de ganhos possível, é fácil compreender que
cada pessoa selecionará os grupos que lhe parecerem mais adequados deste ponto de vista,
grupos que inicialmente lhe prometam as melhores oportunidades para jogar seu jogo
altamente motivado. Se o indivíduo for frustrado nesta busca, ele se afastará do grupo.
Assim, os pacientes costumam permanecer em grupos de terapia se ali eles podem jogar
seus jogos favoritos ou visualizar uma oportunidade de aprender jogos "melhores"; do
contrário, eles se afastam. Um alcoólatra não acha fácil colocar o seu jogo particular num
grupo de neuróticos ou psicóticos comuns, e, já que sua capacidade para tolerar frustração é
notoriamente baixa, ele logo do "alcoólatra".
Com base neste princípio, o alcoólatra só continuará num grupo geral sob duas
condições: ou o terapeuta está ciente de que o Alcoólatra está manipulando o grupo com
sucesso, sendo que neste caso o paciente não obterá nenhum benefício terapêutico; ou o
terapeuta é habilidoso o bastante para ajudar o alcoólatra a tolerar suas frustrações, até que
os conflitos subjacentes possam ser atingidos. Uma terceira possibilidade de êxito se abre
se houver um grupo constituído apenas de pessoas que estejam jogando, todas, o jogo do
alcoólatra.
Uma das perguntas mais freqüentes a surgirem depois que os pacientes aprendem o
controle social e desistem de seus jogos principais é: "O que eu faço em lugar disso?", isto
é, "Como estruturo meu tempo agora?" Com o tempo, a vis medicatrix naturae cuidará
deste problema, permitindo à Criança retornar à cena sob alguma outra forma de expressão
mais natural e construtiva do que a do jogo original, para surpresa e satisfação do paciente.
Isto não significa que o controle social seja uma cura, mas, em casos favoráveis, ele
proporciona uma melhora significativa. Certamente, seria desaconselhável para o terapeuta
ser tão apaixonado a ponto de tentar fornecer novos jogos para antigos pacientes; ele deve
aderir ao lema de Ambroise Paré: "Eu trato dele, mas é Deus quem o cura". Este é o
prefácio para a proposta de que alguns alcoólatras "curados" tendem a ser um tanto neutros
em termos sociais. Isto se deve a que é difícil para eles resolver "O que fazer em lugar de
beber". Já que, na maioria dos casos, eles estão livres para buscar um novo jogo, e,
portanto, acham difícil se engajar com as pessoas sem que seja ao seu modo.
"Perna de Pau" é um jogo importante em psicoterapia, especialmente porque ele se
torna cada vez mais sintônico culturalmente. É o equivalente existencial da declaração legal
de insanidade, que não passa de uma versão profissional de "Perna de Pau". Como a
psicanálise de fobias, também a análise transacional é uma terapia de ação só que com
maior eficácia; mais cedo ou mais tarde, chega-se a um ponto em que o paciente precisa
realmente pegar o metrô, atravessar a ponte ou tomar o elevador; a terapia não pode
continuar por muito tempo, antes que tal confrontação seja feita. Para a análise transacional,
é preferível que isto aconteça o mais cedo possível, e às vezes ela adota a seguinte posição:
"Faça primeiro o que for necessário e poderemos analisar o problema depois". O paciente
pode responder com algum equivalente psiquiátrico, do tipo "O que você espera de um

77
homem com uma perna de pau?", assim como: "Mas eu não consigo, eu sou neurótico".
Na verdade, tudo o que o terapeuta pede é que o presente use o que aprendeu
quando estiver bom. Muitos neuróticos mantêm a ilusão de que devem esperar até o "fim"
do tratamento, como se fossem receber alguma espécie de diploma que lhes permitisse só a
partir de então começar a viver no mundo, e um dos deveres do terapeuta é combater este
tipo de inércia, se é que podemos usar este termo para exprimir esta postura. As pessoas
acostumadas a ler artigos psiquiátricos populares ou técnicos podem jogar uma versão mais
sofisticada de "Perna de Pau", dizendo: "Mas, se eu fizer isso, então não serei capaz de
analisar", referindo-se ao problema de se decidir a atuar.
Com freqüência, é necessário um estudo clínico bastante aprofundado para
determinar se um paciente de fato não está pronto, ou se está jogando "Perna de Pau". Em
qualquer dos casos, o terapeuta só deveria ser o anti- "Perna de Pau" sob certas condições:
não mais do que uma vez a cada três meses, com o mesmo paciente; apenas quando ele
tiver a certeza de que o paciente seguirá sua sugestão; e somente se a sugestão for feita
como um Adulto, e não como um Pai. Em muitos casos, o paciente entenderá isso como
Parental, mas o importante é que a qualidade Adulta da abordagem esteja clara para o
próprio terapeuta e para os outros membros do grupo, se houver outros.
Tipos especiais de "Perna de Pau" se revelam particularmente habilidosos para
provocar uma contratransferência Parental em terapeutas influenciáveis: o paciente que
alega ter inteligência limitada apela para o esnobismo dos terapeutas; o paciente que alega
ter saúde delicada, pode apelar para sua simpatia ou insegurança; e o que alega pertencer a
um grupo racial minoritário, pode apelar para seus preconceitos. Ilustramos a inconsciência
deste jogo, assim como de suas implicações sociológicas contemporâneas, com o seguinte
caso:
Mr. Segundo se orgulhava de ter conseguido a absolvição de um de seus clientes,
lançando mão do recurso de pedir o depoimento de um psiquiatra na defesa. Seu cliente
estava sendo acusado de haver faltado seriamente com seus deveres. O psiquiatra
testemunhara que o homem era legalmente são, mas que provinha de um lar desfeito e só
havia cometido a transgressão por amor à sua esposa, porque ele precisava muitíssimo dela.
Seu testemunho foi tão convincente, juntamente com os argumentos de Mr. Segundo, que o
júri absolveu o homem.
Em análise transacional, a confiabilidade é encarada como uma qualidade social
inerente ao Adulto. Portanto, espera-se que o paciente seja confiável dentro dos limites em
que seu Adulto é capaz de funcionar num dado momento. Esta é a base lógica para o
terapeuta ser o anti- "Perna de Pau", quando indicado, e os pacientes compreendem isto. Se
o terapeuta for prudente, não deverão surgir dificuldades nesta manobra. Na experiência do
autor, nenhum paciente desistiu do tratamento, sendo lesado, ou se envolveu numa situação
de transferência caótica por causa do anti- "Perna de Pau". Em termos estruturais, esta
posição baseia-se na premissa de que a Criança pode aprender a partir da experiência;
portanto, deve-se encorajar o indivíduo primeiro a viver bem no mundo. Esta premissa,
juntamente com a que afirma que todos os adultos, independente do seu grau de
perturbação ou deterioração funcional, têm um Adulto completamente formado que, sob
condições adequadas, pode ser catexizado, é mais otimista e, na prática, também parece
mais produtiva do que as visões convencionais.

78
Dentre os outros jogos especificamente mencionados, o "Tumulto", com suas vozes
altas e batidas de porta, é, classicamente, uma defesa contra as ameaças sexuais, entre pai e
filha ou marido e esposa, por exemplo. Freqüentemente ele é a fase final do jogo de
provocação-rejeição-projeção de "Mulher Frígida" ("Tudo O Que lhe Interessa é Sexo").
"Não É Horrível?" é jogado, com seriedade e dedicação, apenas pelos solitários adeptos da
cirurgia. "Você me Meteu Nisso" é um jogo manipulado por duas pessoas, que se relaciona
com dinheiro, sexo ou crime, entre um ingênuo (Você) e o personagem principal, e o
vencedor ostensivo é o agent provocateur. No primeiro, o "Eu" é, tipicamente, um homem,
e no segundo, o "Eu" é, tipicamente, uma mulher. "Agora briguem vocês" é uma abertura
essencialmente feminina para um jogo que pode ser jogado com qualquer grau de
seriedade, desde um gracejo de coquetel até um homicídio.
É evidente que os jogos podem ser classificados de várias maneiras.
Nosologicamente, "Desastrado" é obsessivo, "Você me Meteu Nisso" é paranóide, "Lá Vou
Eu Novamente" é depressivo. Em termos de zona, "Alcoólatra" é oral, "Desastrado" é anal,
"Agora Briguem Vocês" é fálico. São ainda classificáveis de acordo com as principais
defesas usadas, o número de jogadores ou os "contragolpes". Exatamente como um maço
de cartas, um par de dados ou uma bola podem ser usados em vários jogos diferentes,
também o podem o tempo, o dinheiro, as palavras, as piadas, as partes do corpo e outros
"contragolpes".
Os jogos diferem das operações, as quais pertencem à esfera da intimidade. Um
jogo, por definição, envolve necessariamente um lance ou um "truque", através de uma
transação ulterior. Uma operação é uma transação direta, apenas algo que alguém faz
socialmente, como pedir segurança e obtê-la. Ela só se torna jogo, se o indivíduo se
apresenta como se estivesse fazendo alguma outra coisa, ainda que na realidade seu
objetivo fosse obter segurança, ou se, depois de pedi-la, a rejeita, a fim de fazer com que a
outra pessoa fique desconcertada de algum modo.
A análise de jogos não só tem função racional, como também apresenta um
interesse vital para os procedimentos sérios da psicoterapia individual ou de grupo. Os
jogos não devem ser corrompidos por propósitos hedonóstocos e precisam ser manipulados
com perfeita correção, pois o prazer evidente que eles proporcionam a muitos dos
participantes é um prêmio que o terapeuta consciencioso deveria agradecer e não um
assunto sobre o qual se deva polemizar.

NOTAS

Freqüentemente me solicitam uma lista de jogos. Já que é necessário um longo


período de observação para se chegar a um nome apropriado e aos lances essenciais, e para
que as motivações de um jogo se tornem claras, é difícil satisfazer este pedido. O estudo
dos jogos ainda se encontra num estágio de acumulação e fluidez. É comum descobrirmos
que dois jogos que, à primeira vista, parecem diferentes, são os mesmos, quando lhes
extraímos a essência; e jogos aparentemente semelhantes ou idênticos também podem
revelar-se às vezes, bastante diversos na essência. As inter-relações dos vários jogos são

79
ainda de mais difícil esclarecimento. Nem as questões básicas, como por exemplo, se certa
variedade de jogos é um acompanhamento necessário de determinado argumento, ainda não
estão satisfatoriamente verificadas. Por enquanto, apenas o argumento do plano de vida
conhecido comumente como "Chapeuzinho Vermelho" foi estudado sob este aspecto e,
como se poderia esperar, todas as mulheres envolvidas jogam "Agora Briguem Vocês",
assim como dois ou três jogos. Mas outros tipos de mulheres também jogam "Agora
Briguem Vocês". De qualquer maneira, seria necessário um outro livro para descrever de
modo adequado todos os jogos até agora conhecidos. A lista que elaboramos a seguir,
somada às já mencionadas, é, portanto, parcial e provisória.
1 - "Faça Algo Por Mim" ("Perna de Pau" com obstinação anal)
2 - "Atormentar" ("Agora que compliquei tanto a vida, já posso desistir").
3 - "Sou inocente" (O que nega com tranqüilidade)
4 - "Você me Meteu Nisso" (O que nega com frieza)
5 - "O Jogo da Bolsa de Valores" ("Veja, ganhei um ponto... Não pensei que
estivesse sendo provocativo"). Aqui surge a questão das variações. Algumas mulheres
apontam defeitos na conformação de seus seios.
6 - "Violação" (“Você quer dizer que eu seduzi você; você me violou e eu estou-me
queixando"). Aqui surge a questão dos estágios. Em sua forma socialmente mais aceitável,
os ganhos decorrem da sedução em si, e o desprezo significa simplesmente que o jogo já
terminou. Este é o primeiro estágio. No segundo estágio de "Violação", mais malicioso, a
sedução é secundária em relação ao triunfo real, que é obtido a partir do desprezo. Em sua
forma mais maligna, o terceiro estágio, que pode terminar em escândalo, homicídio, os
ganhos advêm do fato de a pessoa ter sido realmente "violada".
7 - "Agora Peguei o FDP" (Às vezes é uma variação de "Devedor" ou "Credor"). É
uma questão de dureza. Seu significado como jogo "Credor" é óbvio. Como jogo sério do
"Devedor" os ganhos derivam da "justificação", se o credor exceder os limites estabelecidos
pelo devedor para a cobrança. ("Agência de cobrança, sim. Mas eu me vingarei dele por ter
contado a meu patrão".).
O artigo de S.S. Feldman sobre a "Interpretação Vazia" (5) é uma excelente
descrição de um jogo de "Psiquiatria", em que ora o analista, ora a pessoa que está sendo
analisada, dá o passo inicial. Em análise transacional, o terapeuta ou o paciente elege o
elemento arcaico nessas transações e, em lugar de seguir o Dr. Feldman na busca da
"interpretação verdadeira" do conteúdo, buscariam as origens genéticas do jogo em si, no
início da história do analista ou das pessoas analisadas.
Pode não ser cientificamente correto chamarmos os dois níveis de uma transação
ulterior de "social" e "psicológico", mas estes são os termos mais exatos, claros e
convenientes de que dispomos, sem apelar a Liddell & Scott para nos fornecer
neologismos.
A desintegração de grupos de Alcoólatras Anônimos, quando não havia mais
alcoólatras a recuperar, foi um fenômeno que observei há muitos anos. (6) Embora o Dr.
Hendrick Lindt, cuja experiência neste assunto é mais do que a minha, tenha-me contado
em particular que fizera a mesma constatação, a conclusão não é absoluta e a questão, ainda

80
está em aberto.
Historicamente, o jogo mais complexo que já existiu é "Cortesão", magnificamente
descrito por Stendhal em The Charterhouse of Parma.
O ganho biológico aponta na direção do trabalho de Spitz, sobre bebês
emocionalmente carentes, experiências de privação e os estudos recentes do masoquismo
como uma faute de mieux. Comumente, em seminários, chama-se isso de "golpear". Assim,
um ritual de cumprimento pode ser descrito como um "ritual de dois golpes", "um ritual de
três golpes" etc...

REFERÊNCIAS

1. Berne, E. Starrels, R.J.& Trinchero, A. "Leadership Hunger in a Therapy Group". Arch. Gen. Apychiat. 2: 75-
80, 1960.
2. Freud, S., "Fragment of an Analysis of a Case of Hysteria". Collected papers. Vol. III.
3. Potter, Stephen, Lifemanship, Henry Holt &Company, Nova York, 1950. Também, do mesmo autor, Theory
and Practice of Gamesmanship.
4. Berne, E., A Layman`s Guide Psychiatry and Psychoanalysis. Simon & Schuster, Nova York, 1957.
5. Feldman, S.S., "Blanket Interpretation". Psychoanal. Quart. 17: 205-216, 1958.

6. Berne, E., The Mind in Action. Simon & Shuster, Nova York, 1947.

81
11.
ANÁLISE DE ARGUMENTOS

Os jogos parecem ser segmentos de conjuntos mais amplos e complexos de


transações, chamados argumentos. Os argumentos pertencem à espera dos fenômenos de
transferência, isto é, são derivativos, ou, mais precisamente, adaptações, de reações e
experiências infantis. Mas um argumento não diz respeito a uma mera reação de
transferência ou a uma situação de transferência, (1) freqüentemente dividido em atos,
exatamente como os argumentos teatrais, que são derivativos artísticos desses dramas
primários da infância. Operacionalmente, um argumento é um conjunto complexo de
transações, periódicas por natureza, mas não necessariamente recorrentes, uma vez que um
desempenho completo poderia exigir toda uma vida.
Um argumento trágico comum é aquele que se baseia na fantasia de salvadora de
uma mulher que se casa com um alcoólatra após outro. O rompimento deste argumento,
assim como o rompimento de um jogo, leva ao desespero. Já que o argumento busca uma
cura mágica do marido alcoólatra, e isto não é plausível, resulta num divórcio de pais
alcoólatras, de modo que as origens infantis do argumento são facilmente detectáveis.
Um argumento prático e construtivo, por outro lado, pode conduzir a uma grande
felicidade, se as outras pessoas que estão na jogada forem bem escolhidas e
desempenharem seus papéis satisfatoriamente.
Na prática da análise de argumento, o material transacional (intragrupal e social ou
extragrupal) é coletado até que se torne clara, para o paciente, a natureza de seu argumento.
Os argumentos neuróticos e psicopáticos são quase sempre trágicos, e seguem os
aristotélicos de dramaturgia com notável felicidade: há prólogo, clímax e catástrofe, com
suas origens históricas, de modo que o controle do destino do indivíduo possa ser desviado
desde a Criança até o Adulto, desde o inconsciente arqueo-psíquico até a consciência
neopsíquica. No grupo, logo é possível observar o paciente tentando sentir, através de jogos
e passatempos, as potencialidades dos outros membros para tomarem parte de seu
argumento, e assim primeiramente ele age como um diretor da distribuição de papéis e,
depois, como protagonista.
Para ser eficiente na análise de argumentos, o terapeuta deve ter uma estrutura
conceitual mais organizada do que a que ele acha necessária para se comunicar com o
paciente. Inicialmente, não existe nenhuma palavra específica em psicanálise para as
experiências originais das quais derivam as reações de transferências. Em análise de
argumento, o drama familiar que primeiro é jogado com uma conclusão insatisfatória nos
primeiros anos de vida é chamado protocolo. Este é, classicamente, uma versão arcaica do
drama de Édipo e é reprimido mais tarde. Sua precipitação reaparece como o argumento
propriamente dito, que é um derivativo pré-consciente do protocolo. Em qualquer situação
social dada, entretanto, o argumento propriamente dito deve ser ajustado de acordo com as
realidades possíveis. Este ajuste é tecnicamente denominado adaptação - a adaptação que
o paciente de fato tenta jogar na vida real, manipulando as pessoas à sua volta. Na prática, o

82
protocolo, o argumento e a adaptação, todos se enquadram no termo "argumento". Esta é a
única das três palavras que realmente é usada no grupo, uma vez que ela se ajusta ao
objetivo intencional e é a mais significativa para a maioria dos pacientes.
Na busca de caracteres que se adaptem aos papéis exigidos por seu argumento, o
paciente percebe os outros membros do grupo através da sua própria forma idiossincrática
de ver, geralmente com considerável perspicácia intuitiva. Isto é, ele tende a escolher as
pessoas certas para desempenhar os papéis de mãe, pai, irmão e quaisquer outros de que
necessita. Quando seu elenco está completo, ele prossegue, tentando extrair das pessoas
escolhidas para cada papel as respostas adequadas. No caso de inexistirem pessoas
suficientes no grupo, alguém terá de desempenhar um papel duplo. Se houver elementos
demais, vários deles poderão ser escolhidos, representando pessoas que desempenham
papéis menores no protocolo e cuja presença é facultativa ou não essencial. Mas o
indivíduo pode optar por ignorar as pessoas sem nenhuma função em sua adaptação.
A motivação para o comportamento do paciente é a sua necessidade de recapitular
ou aumentar os ganhos da experiência original. Ou ele busca realizar a repetição da
catástrofe original, como na clássica compulsão de repetição; ou ele pode tentar conseguir
um final mais feliz. Uma vez que o objetivo da análise de argumento é "encerrar o
espetáculo e colocar outro em cena", não é muito importante estabelecer qual dessas
alternativas se aplica, ou escolher os conflitos nesta área. Por exemplo: considera-se
irrelevante determinar se a mulher que falhou em salvar seu pai alcoólatra está tentando ter
sucesso onde falhou antes; ou se sua atitude é ambivalente. O importante é livrá-la da
compulsão de reviver a situação e introduzi-la em algum outro caminho. Isto se aplica a
qualquer argumento comprovadamente negativo.
Mrs. Catters ilustra como surgem, na prática, os problemas da análise de
argumentos. Por muito tempo, ela foi improdutiva no divã. Sua principal defesa era uma
forma intencional de falar que isolava a Criança, de modo a fornecer poucas indicações que
esclarecessem de alguma maneira a sua sintomatologia. Quando ela foi introduzida num
grupo de terapia, no entanto, ela entrou em ação quase que imediatamente. Teve
participação ativa em "O Que Fazer Com Cônjugues Delinqüentes?" (passatempo que
pertence à família "PTA"). Também participou de um jogo animado, "Briguem Vocês
Dois", observando com muito prazer os argumentos que conseguiu iniciar com sucesso
entre alguns dos homens. E, quando o grupo jogou "Não é Horrível", ela riu muito ao
relatar vários episódios sangrentos ocorridos a amigos e conhecidos seus. Deste modo,
aconteceu que poucas semanas de terapia de grupo forneceram mais informações sobre ela
do que os muitos meses de divã. Mas, sendo os argumentos tão complexos e repletos de
idiossincrasias como são, é impossível adequar a análise de argumentos apenas à terapia de
grupo, e ainda faltava encontrar uma oportunidade em suas sessões individuais para
elucidar o que tinha sido estudado até então.
Depois de algum tempo, numa dessas sessões ela se queixou de que não conseguia
defender-se contra a agressividade masculina. O terapeuta opinou, com base em material
anterior, que uma razão poderia ser que ela ficava tão zangada diante de homens em geral
que temia avançar na relação, mesmo que fosse um pouquinho, pelo risco de se
surpreender, indo além do que queria. Ela respondeu que era difícil acreditar que pudesse
ficar zangada diante dos homens. Mas continuou a relatar fantasias da morte de seu marido,
que era piloto de avião a jato: um dia ele poderia sofrer um acidente ou brigar por causa de

83
outra mulher e ser trazido para casa fatalmente ensangüentado e ferido e, assim, ela se
tornaria uma figura romântica entre seus amigos, a viúva trágica.
Então, Mr. Catters lembrou-se de quão profundamente ferida e zangada, de fato
enlouquecida, ela ficara, quando criança, depois do aniversário do seu irmãozinho, a quem
seus pais pareciam preferir. Sua zanga se dirigia especialmente contra o pai, e ela pensava:
"Papai merece ser morto por alguém e, se isto acontecesse, seria um castigo para mamãe".
Ela imaginava que a morte dele também lhe daria uma posição especial entre seus
coleguinhas. A imagem de seu pai morrendo era acompanhada por um riso típico de prazer.
Havia outras complicações irrelevantes para esta discussão. Em sua forma mais
simples, o protocolo era o seguinte: seus desejos de morte contra o pai realizam-se sem
qualquer iniciativa da parte dela. A cena do leito de morte oferece seu tipo peculiar de
prazer. Isto se repete quando ela dá a notícia a sua mãe e observa a dor desta. Então, ela se
torna uma figura romântica para seus companheiros.
Este drama se repetia em suas fantasias sobre o marido, mas parecia faltar um
elemento: a mãe aterrada. Por isso o terapeuta perguntou-lhe se sua sogra também fazia
parte destas fantasias. E ela confirmou, dizendo que, depois da cena do leito de morte,
realmente ela sempre se via indo anunciar o desenlace fatal à sogra.
Este protocolo contém seis papéis principais: o da própria pessoa, o objeto de amor
masculino, a sogra, a rival, o agressor e o auditório; e poderia ser dividido nos mesmos atos
e cenas. A escolha que ela fizera em relação ao marido tinha sido parcialmente motivada
por sua necessidade mórbida de ciúme, ou, na linguagem em questão, por sua necessidade
de distribuir os papéis de seu argumento.
Notar-se-á que os ganhos proporcionados pelo argumento duplicam os ganhos
decorrentes do protocolo. O ganho primário interno centraliza-se em torno da pessoa que ri
morbidamente diante da cena do leito de morte; o ganho primário externo localiza-se no
fato de ficar livre do horrível objeto de amor e, simultaneamente, conseguir vingança em
relação à figura da mãe. Os ganhos secundários vêm da herança e os sociais, do papel
trágico que ela pode desempenhar na comunidade.
A adaptação deste argumento no comportamento evidente de Mrs. Catters no grupo
manifestou-se através de seus três jogos: "Marido Delinqüente PTA” (Cena 1, o Ciúme);
"Briguem Vocês" (Cena 2, a Agressão); e "Não é Horrível?" (Cena 3, o Leito de Morte).
Revendo seu comportamento no divã, o hábito de "dar notícias quando algo saísse errado
(Cena 4, a Notícia) e as longas discussões a respeito de como parecer charmosa em festas
(Cena 5, A Trenodia Romântica) agora faziam parte de seu argumento. Depois que tudo foi
trabalhado durante um bom tempo (embora não exatamente na seqüência ordenada
apresentada aqui), a paciente compreendeu, com bastante clareza, a natureza de um
argumento e pôde ver como ela passara a maior parte de sua vida lutando por conservar esta
espécie particular de drama em curso. Ao passo que antes ela se conduzira sem qualquer
escolha, por uma compulsão arcaica inconsciente, ela agora se encontrava em condições de
exercer controle social sobre grande parte de seu comportamento com as pessoas.
Contudo, embora seu Adulto tivesse uma nova compreensão do significado de suas
ações e relações, as tramas em si persistiam. Mas sua posição melhorou não apenas em
termos sociais, mas também terapeuticamente, uma vez que agora estava mais claro tanto
para a paciente como para o terapeuta o tipo de tramas com que tinham de trabalhar. A

84
sexualização da morte, que fez com que se tornasse um hobby para ela visitar cemitérios,
não era mais do que um fenômeno isolado, mas poderia ser manejado com a compreensão
crescente do modo como ele se ajustou ao seu destino total; e isto aconteceu também, com
outras características e sintomas.
Este é um argumento que não é atípico de um neurótico, embora possa parecer
mórbido para quem não está costumado a trabalhar com tais dramas arcaicos. O que
relatamos a seguir constitui a representação real de um argumento cujo protocolo nunca
ficou completamente esclarecido, em razão de dificuldades técnicas.
Mr. Kinz, solteiro, de 25 anos, foi à Nova York para se divertir num fim de semana.
Chegou nas primeiras horas da manhã, cansado e um tanto nervoso, de modo que ele
próprio se medicou com barbitúricos e álcool e foi em busca de um bar aberto àquela hora.
Lá, no bar, ele começou a conversar com alguns homens mal-encarados, e julgou que eles
podiam encontrar-lhe uma garota. Mostrou-lhes que tinha apenas dez dólares, mas eles
disseram que seria suficiente. Convidaram-no a entrar num carro e o levaram para um lugar
ermo, perto de um rio. Durante a conversa, ele contou que trazia consigo uma faca de caça,
e um deles pediu para vê-la. Alguns minutos mais tarde, eles pararam o carro. O homem
que estava no banco de trás agarrou o pescoço de Mr. Kinz, enquanto o outro colocou a
lâmina da faca em sua garganta. Eles exigiam dinheiro e, com alguma dificuldade, Mr.
Kinz conseguiu tirar a carteira do bolso. Então, eles o soltaram e foram embora, acenando
um até logo amigável. Mr. Kinz enxugou o sangue da garganta e procurou um policial.
Mas, contou-lhe o caso de tal modo, e sua aparência, naquele momento, estava tão
desrespeitável, que a polícia não se impressionou. Eles anotaram alguns detalhes e, então, o
dispensaram com indiferença.
Depois de denunciar o roubo, Mr. Kinz tomou o café da manhã, em seguida, sem se
importar com a aparência, apresentou-se na porta da empresa de seu pai. O porteiro não o
conheceu e, com as sobrancelhas erguidas, mandou um empregado anunciá-lo. Seu pai o
recebeu na biblioteca, onde estava sentado com alguns sócios bem-sucedidos e negociantes
conservadores. Mr. Kinz não se preocupou em explicar sua aparência e, quando o pai o
questionou, disse, de modo casual, que quase lhe tinham cortado a garganta. O pai deixou-o
usar sua sala no andar superior e emprestou-lhe algumas roupas limpas. Mr. Kinz limpou-se
todo, desceu e agradeceu educadamente ao pai e seus amigos, e continuou andando, à
procura de mais divertimento.
É interessante notar que os dois bandidos não mostraram nem o mais leve sinal de
preocupação com a possibilidade de Mr. Kinz dar um alarme realmente perigoso, ou então
ficar enfurecido ou perder a cabeça. Ainda quando contava a história, Mr. Kinz primeiro
negou que tivesse provocado o assalto ou que algumas de suas ações precedentes tinham
sido de certo modo incomuns. Aparentemente, o que mais lhe interessava era fazer uma
espécie de teste com seu pai, ou seja, saber se e como ele o rejeitaria, ao procurá-lo na
empresa.
É evidente que Mr. Kinz escolheu bem o seu elenco. Não é fácil encontrar na vida
real homens dispostos a cortar a garganta de outros por dez dólares. Ele não somente os
isentou de culpa como lhes forneceu uma arma real para assassiná-lo, enquanto estava
procurando uma mulher sexualmente disponível. O protocolo para esta parte do argumento
não é conhecido. Mas o último ato era mais familiar. Mr. Kinz fora uma criança precoce e,

85
uma vez, quando era pequeno, entrara bruscamente numa sala, onde seu pai estava sentado
com alguns amigos, para lhes mostrar sua habilidade mais recente. Os homens não se
impressionaram, e ele, nunca esqueceu a depressão experimentada naquela ocasião. De
qualquer forma, Mr. Kinz fez de uma seqüência particular uma espécie de ofício: ser
derrubado violentamente por causa de uma mulher e, então, apresentar-se para seu pai. Ele
se expôs, intencionalmente, às mais perigosas situações sexuais possíveis. De tempos em
tempos, quando seu Adulto estava no controle, ele era um moço gentil, amável, agradável e
tímido.
Depois de alguma experiência, é possível adquirir considerável perspicácia de
diagnóstico em análise de argumento. O exemplo a seguir ilustra a visão telescópica de
todo um argumento em poucos segundos.

Mrs. Sayers, uma dona-de-casa de 30 anos, estava sentada num sofá, com Mrs.
Catters entre ela e uma mesa de canto, como mostra a Figura 10. Era um grupo de
principiantes, e Mrs. Sayers tinha acabado de levar um bom tempo relatando seus
problemas com o marido. A atenção agora tinha-se voltado para Mr. Troy. No meio de uma
conversa entre Mrs. Catters e Mr. Troy, Mrs. Sayers atravessou seu braço diante de Mrs.
Catters para alcançar um cinzeiro sobre a mesa de canto. Quando ela voltava o braço,
perdeu o equilíbrio e quase caiu do sofá. Recuperou-se a tempo, riu em tom de súplica,
murmurou "Desculpem-me!", e voltou a sentar-se para fumar. Nesse momento, Mrs.
Catters desviou a atenção de Mr. Troy o suficiente para murmurar: "Perdoe-me!"
De modo descritivo, este desempenho pode ser dividido nos seguintes passos:
1. Enquanto outras pessoas estão conversando, eu decido fumar.
2. A fim de não perturbar a pessoa ao meu lado, pego meu próprio cinzeiro.

86
3. Quase caio.
4. Recupero-me em tempo, rio e me justifico.
5. Alguém se justifica também, mas eu não respondo.
6. Torno a sentar e fecho-me em meus próprios pensamentos.
Uma visão mais subjetiva interpreta este incidente como uma seqüência de
transações, algumas autísticas, algumas evidentes.
1. As outras pessoas me ignoram, então eu finjo me afastar.
2. Mostro ostensivamente quão tímida sou.
3. Como de costume, eu faço bem isso.
4. Tendo mostrado quão tola sou, recupero-me e me justifico.
5. Estou tão confusa em minha inépcia, que faço com que outra pessoa se sinta
preocupada.
6. Agora eu realmente me afasto.
O patético desta situação é o pequeno lucro externo. Tudo o que Mrs. Sayers tem
para ficar agradecida, como resultado de seus esforços, é o fato de Mrs. Catters ter
murmurado "Perdoe-me!", e esta é a história da vida de Mrs. Sayers - uma pessoa atraente e
conscienciosa fazendo muito esforço para conseguir "trocados" psicológicos. E
freqüentemente seu esforço era vão. Nem todo mundo seria tão educado como Mrs. Catters;
envolvidas, outrossim, numa conversa, algumas pessoas poderiam nem ao menos dar a
Mrs. Sayers um mero reconhecimento trivial.
Seu argumento, neste caso adaptado, dentro de poucos segundos, por um
mecanismo de integração notavelmente eficiente a uma situação especial dentro do grupo,
tinha sido desempenhado em vários períodos de tempo, variando desde um momento até
vários anos, tanto no casamento como no trabalho de Mrs. Sayers, resultando em diversas
separações de seu marido e em perdas de um emprego após outro. O drama original baseia-
se nas primeiras experiências. A primeira experiência traumática, o protocolo, não foi
restabelecida dentro do âmbito limitado de seu tratamento, mas as versões posteriores, ou
palimpsestos, podem ser reconstruídas a partir de sua história.
1. Já que meus irmãos atraem mais atenção do que eu, finjo-me afastar da vida
familiar.
2. Mas, de tempos em tempos, eu tento obter algum reconhecimento, demonstrando
ostensivamente estar de acordo com minha mãe alcoólatra, que afirma que não sou nada
importante.
3. Por causa da minha grosseria, mamãe me despreza. A combinação é quase
desastrosa.
4. Meu pai, ineficaz mas adorável, salva-me do desastre. Penso como devo parecer
tola a minha mãe e meus irmãos. Por causa disso, e do meu prazer em conseguir atenção, eu
rio. Então, eu pareço ter sido exigente e agressiva demais, e peço desculpas.
5. O que eu realmente quero é que eles mostrem que estão sentidos por sua

87
negligência. Mas, se eles o fazem, não suporto agradar-lhes por duas razões: em primeiro
lugar, faz-me sentir exigente, como acima; e, em segundo lugar, se estou esperando por
isso, posso-me desapontar. Assim, se eles me mostram isso, o fato se registra como
gratificante, mas eu finjo não tomar conhecimento dele.
6. Em qualquer caso, a situação toda é tão insatisfatória que agora eu realmente me
afasto.
Há pelo menos três diferentes palimpsestos primários neste argumento: oral, pré-
edípico e edípico. A versão edípica é mais ou menos esta: "Como é chato ser menina! Só
posso obter poucas satisfações disponíveis e então me retirar e lamber minhas feridas". Não
foi difícil ver esta versão sendo desempenhada mais ou menos todo ano com o marido
desdenhoso que ela mesma escolheu e em sua vida profissional, onde era ocasionalmente
necessário haver alguma leve distorção paranóide, a fim de fazer as pessoas que
trabalhavam com ela adequarem aos papéis exigidos por seu argumento.
O que surpreende é o quanto este incidente simples e aparentemente inocente
revelou, quando os rápidos desvios de atitude foram isolados e analisados. A dramaturgia
deste pequeno teatro caleidoscópio em seis atos é essencialmente trágica: apesar da emoção
conseguida, ela termina numa trenodia infeliz*, e reflete a qualidade de vida de Mrs. Sayers.
A história enfatizou e explicou o caráter autista das transações e tornou clara a análise
estrutural: a Criança saudosa que é empurrada por um Pai intrapsíquico e salva pelo outro;
a quebra momentânea de Adulto que premia o comportamento dela; e o lapso decisivo na
fantasia arcaica.
Com base na análise transacional, na análise dos jogos e na análise de argumento, é
possível estabelecer uma teoria dinâmica do convívio social, cujos complementos foram
anteriormente colocados na teoria biológica e existencial. Em qualquer grupo social,
incluindo o caso limite de duas pessoas, o indivíduo lutará para se engajar em transações
adequadas a seus jogos favoritos; ele lutará para jogar jogos que se relacionem com o seu
argumento; e lutará para jogar o maior ganho primário de cada relacionamento.
Coloquialmente, ele escolherá ou selecionará companheiros que lhe prometam proporcionar
os maiores ganhos primários: para relações casuais, pessoas que, no mínimo, participarão
em transações favoráveis; para relações mais estáveis, pessoas que jogarão os mesmos
jogos, para relações íntimas, pessoas que tenham condições de preencher os papéis do
argumento dele.
Desde que a influência dominante na convivência social é o argumento e desde que
este surge e se adapta a partir de um protocolo baseado nas primeiras experiências do
indivíduo com seus pais, aquelas experiências do indivíduo com os pais são os principais
determinantes de todos os relacionamentos e de toda escolha de companheiros. Esta é uma
afirmação mais geral do que a teoria da transferência familiar que nos vem em mente,
porque se aplica a qualquer relacionamento em qualquer agrupamento social; isto é, a
qualquer transação ou série de transações não completamente estruturada pela realidade
externa. É útil porque está sujeita a comprovação por qualquer observador qualificado em
qualquer lugar. Este teste não requer nem um período prolongado de preparação, nem uma
situação incomum.

*
Ode fúnebre

88
Apesar de inicialmente todo ser humano encarar o mundo como escravo de seu
argumento, a grande esperança e o grande valor da raça humana residem no fato de o
Adulto poder ficar insatisfeito com tais lutas, quando elas não valham a pena.

NOTAS

Alguns dos argumentos que vêm possibilitando um estudo adequado têm


encontrado, até agora, protótipos temerosos na literatura grega; enquanto o argumento
comum conhecido como "Chapeuzinho Vermelho" é uma adaptação da vida moderna real
que, implicitamente, segue certas versões da lenda popular.
As cenas intermediárias do argumento de Mrs. Sayers são uma boa ilustração do
conceito de masoquismo de Berliner. (1) Quando Mrs. Sayers retornou mais tarde para
tratamento, ela retinha uma memória vívida desta interpretação.
A qualidade necessária para o observador que deseja testar esta teoria da relação é o
treino clínico, ou, no mínimo, a aptidão clínica. O observador que prescindir desta
qualificação se depara com uma situação negativa não mais significativa do que a de um
indivíduo não treinado no uso do telescópio astronômico que falha na descoberta de uma
nave espacial, ou a de uma pessoa que não tenha treino no uso do microscópio eletrônico,
ao falhar no registro de genes. Na verdade, em geral é necessário mais treino, cuidado e
esforço para se observar claramente os fenômenos clínicos do que para se usar quaisquer
desses instrumentos de modo adequado.
O padrão de dignidade distingue-se da integridade pessoal ou do preconceito moral
e é visto como um fenômeno Adulto, em lugar de Parental, por causa de sua universalidade
histórica e geográfica, seu desenvolvimento aparentemente autônomo e suas relações com
as estimativas de probabilidade de comportamento.
Dentre todas as colocações da literatura referentes à neurose de transferência, as de
Glover (2) aproximam-se de argumento. Por exemplo: "a história do desenvolvimento do
paciente, que conduz à neurose infantil, é reinterpretada na sessão de análise - o paciente
joga o papel de ator-diretor, utilizando-se (como uma criança numa escola maternal) de
toda a propriedade teatral que a sala analítica contém, e, em primeiro lugar, e
principalmente, do próprio terapeuta. (3) Mas Glover fala apenas do que ocorre na sala do
psicanalista.

REFERÊNCIAS

1. Berliner, B., "The Role of Object Relation in Moral Masochism". Psychoanalytic Quart. XXVII: 38-56, 1958,
e outros.
2. Glover, E., The Technique of Psycho-Analysis. International Universities Press, Nova York, 1955, Caps. VII
& VII.

89
3. Hinsie, L.E., & Shatzky, J. Loc. cit. citado com base em "Neurose de Transferência".

90
12.
ANÁLISE DE RELAÇÕES

A análise de relações é usada sobretudo no estudo das relações conjugais e ligações


de vários tipos. Nessas situações, podem-se conseguir algumas previsões e confirmações
úteis e convincentes. Na prática, entretanto, deve ser empregada reservada e
criteriosamente, porque ela facilmente pode representar para o paciente uma intrusão
injustificada em sua autonomia de decisão. Mas, como "dever de casa" para o estudante ou
terapeuta, constitui um exercício válido para o estabelecimento de uma distinção mais clara
entre os três estados do ego.
No caso de Mr. Kinz, a análise de relações revelou-se uma intervenção
especialmente indicada quando ele estava no processo de formação de uma nova ligação
que prometia terminar até mesmo mais desastrosamente do que de costume. Por causa de
sua tendência a representar seu argumento perigoso repetidas vezes, julgou-se aconselhável,
de tempos em tempos, sacrificar a rigidez técnica na tentativa de impedir o que seria uma
tragédia iminente. Parecia melhor, por exemplo, ter um paciente vivo, com uma relação
terapêutica levemente prejudicada, do que um paciente morto sacrificado na causa de uma
terapia asséptica. A situação era análoga à do cirurgião que tem de abandonar a incisão
inicial de uma simples operação de apendicite, a fim de fazer uma massagem direta no
coração de um paciente superanestesiado. A relação entre Mr, Kinz e o terapeuta era
suficientemente clara para que os pavores externos pudessem ser distinguidos das tentativas
sinistras de atrair a proteção parental do terapeuta. Neste caso, Mr. Kinz não estava
alimentando a ligação com o objetivo de alarmar o terapeuta. Ele tinha outro jogo em
mente, que fazia com que ele negligenciasse as possibilidades mais sérias.
Pela descrição de Mr. Kinz, a jovem em questão, Miss Ullif, ao que parece não
estava clinicamente muito distante do suicídio, e, já que Mr. Kinz, em razão de sua séria
depressão subjacente e de seu sentimento de futilidade, era um bom candidato a sugestões
nesta direção, o caso iminente tinha um prognóstico nitidamente doentio. Mr. Kinz, no
entanto, via isso à sua maneira usual, como algo que poderia levar ao casamento; uma vez
mais era "o que lhe convinha", e o problema era abordado com base nisso. A esta altura,
ele tinha uma boa compreensão de análise estrutural e a hora parecia propícia para ele
começar a adquirir alguma medida de controle social, aplicando o que sabia. Também
estava começando a tomar ciência de que as relações entre as pessoas não são acidentais ou
amorfas, mas apresentam motivação e estruturas definidas que determinam seus rumos e
funções.
Dois diagramas estruturais foram elaborados no quadro negro, como se vê na Figura
11a, um representando Mr. Kinz e o outro, Miss Ullif. As características do Pai, Adulto e
Criança de Mr. Kinz eram familiares tanto para ele como para o terapeuta, e o paciente foi
encorajado, naquele momento, a fazer uma descrição livre de Miss Ullif. Seus
pensamentos, condensados em um parágrafo, surgiram na seguinte direção:
Onde quer que ela fosse, os homens a perseguiam, e, embora possa parecer bastante

91
estranho, não com propósitos sexuais, mas a fim de cuidar dela. Eles foram juntos ao
Carnegie Hall. Na metade do concerto, ela disse que estava cansada demais para continuar
a ouvir. Por sua vez, ele estava justamente começando a se interessar por boa música e não
compreendeu bem o fato. Ela sempre está precisando de dinheiro e provavelmente gostaria
de um homem rico, mas não desejaria saber de onde vinha seu dinheiro. Ela é confusa. Foi
a um psiquiatra, mas desistiu, porque ele era frio demais. Queria ser música. Mr. Kinz,
como seu pai, interessava-se mais por negócios e achava que as mulheres também deveriam
ser mais práticas. Ela também queria ser pintora. Ele olhou para alguns dos quadros que ela
tinha pintado e sentiu que eles mostravam a confusão dela, e lhe disse isto, diante do que
ela se ressentiu. Ela não suporta críticas. É tão sensível que, de tempos em tempos, se
tranca no quarto por alguns dias e fica longe de todas as pessoas. Ela esperava que ele
compreendesse isso, mas ele lhe disse que não se achava em condições de suportar.
Neste ponto, foi possível instaurar a análise, fazendo questões suplementares,
quando conveniente. O diagrama do quadro negro foi alterado da forma da Figura 11A para
a Figura 11B. A Figura 11B representa a relação, teoricamente perfeita e inexistente, em
que cada aspecto de uma pessoa tem uma relação complementar com cada aspecto da
outra, de modo a permitir a ocorrência de transações satisfatórias em todos os nove vetores
possíveis em ambas às direções. Se, por exemplo, o Pai de Kinz dirige um estímulo
transacional à Criança de Ullif, esta última dará uma resposta satisfatória e vice-versa. Isto
significa, na verdade, que todas as transações entre as duas pessoas serão complementares.
O primeiro vetor que se investigou foi Pai de Kinz - Criança de Ullif. Ao discutir
sobre seu Pai, algumas vezes Mr. Kinz não foi preciso o bastante e mencionou atitudes que
pertenciam mais a seu Adulto ou a sua Criança. Estes descuidos foram cuidadosamente
esclarecidos e enfatizou-se a necessidade de examinar um aspecto de cada vez. Não se
poderia permitir que nenhuma confusão ficasse de fora, sob pena de se desvirtuar o
propósito de uma análise de relação definida.
Quando esta dificuldade foi abordada, emergiu o fato de que Mr. Kinz via Miss
Ullif como uma espécie de criatura abandonada, um objeto sem dono que necessitava de
proteção. Mr. Kinz era famoso por sua generosidade Parental; na verdade, muitas das
situações embaraçosas em que se envolvera tinham sido provocadas por esta sua atitude.
Miss Ullif, por sua vez, era bastante receptiva a relações deste tipo. Concluiu-se, portanto,
que o vetor Pai de Kinz - Criança de Ullif era conjuntivo. Mas havia uma exceção digna de
ser levada em conta: quando ela se isolava, o Pai dele se sentia frustrado, porque, então, ele
não podia tomar conta dela. Por conseguinte, em termos globais, havia ali elementos
disjuntivos e antipáticos. O primeiro passo na estruturação da Figura 11C, a análise real da
relação, foi o de conservar o vetor P de Kinz - C de UllifIII, como na Figura 11B, marcando-
o, porém com uma barra.
O material disponível para o estudo do vetor Pai de Kinz - Adulto de UlliII envolvia,
principalmente, o desejo de Miss Ullif de ser pintora. Do ponto de vista Parental, Mr. Kinz
não simpatizava com isso, imitando a atitude de seu pai a esse respeito. Conseqüentemente,
P de Kinz - A de Ullif foi apagado do diagrama da relação. Kinz P-Ulli PI não era
promissor e também foi apagado; os dois amigos revelavam pouca tendência a praticar
virtudes juntos, ou a cuidar juntos de outras pessoas.
O vetor Adulto de Kinz - Criança de UllifVI centrava-se em torno do modo de vida

92
de Miss Ullif. Em termos racionais, ele criticava o desleixo doméstico dela, seus hábitos
alimentares pobres, seu isolamento, sua intolerância à crítica, e ela se ressentia com isto.
Portanto, A de Kinz - C de Ullif foi eliminado como disjuntivo. Adulto de Kinz - Adulto de
Ullif não era melhor. Ela se interessava pelas artes, ele por negócios e aviação, e não
conseguiam conversar por muito tempo com muito entusiasmo a respeito dos projetos de
cada um. Adulto de Kinz - Pai de UllifIV era neutro, porque ela não mostrava atividade
Parental perceptível na relação; não lhe oferecia nenhum conselho maternal nem lhe dava
apoio em seus empreendimentos.

Criança de Kinz - Pai de UllifVII também foi eliminado pela mesma razão. Ela não
tentava protegê-lo em sua negligência nem o censurava por elas; tampouco mostrava
qualquer inclinação para discuti-las de modo racional, o que também eliminou Criança de
Kinz - Adulto de UllifVII. Restou apenas a combinação Criança de Kinz - Criança de Ullif
para ser estabelecida. O argumento de Mr. Kinz já foi descrito e, do ponto de vista da
mulher, ele exige seduzi-la e depois abandoná-la de alguma maneira violenta
desagradavelmente e que envolva uma terceira pessoa. Por outro lado, o jogo de Miss Ullif
parecia tender a explorar e seduzir o homem repetidas vezes e, em seguida, no caso, fortes
conflitos com relação a qual deles iria seduzir, explorar e abandonar o outro, a relação C de
Kinz - C de UllifIX tem pouco valor representativo de uma relação viável.
O resultado final desta análise foi que restou apenas um vetor conjuntivo, a relação
P de Kinz - C de UllifIII, como demonstra a Figura 11C. Mr. Kinz constatou que a relação

93
não era promissora e rompeu com ela.
A relação de Mrs. Catters com uma de suas amigas, Mrs. Beth também foi
analisada, por motivos que não vêm ao caso no momento. Traçou-se novamente as Figuras
11A e 11B, nos momentos apropriados, e o resultado final aparece na Figura 11D, com os
vetores enumerados por algarismos romanos, na mesma ordem anterior.
Estas duas cuidavam uma da outra em caso de doença e se animavam em caso de
depressão, de modo que Pai de Catters - Criança de BethIII e Pai de Beth - Criança de
CattersVII eram relações complementares e conjuntivas. Elas também trocavam conceitos e
conselhos Parentais relacionados a vários projetos práticos, satisfazendo as necessidades de
Pai de Catters - Adulto de BethII e Pai de Beth - Adulto de CattersIV. As discussões
racionais dos mesmos problemas foram mutuamente satisfatórias para Adulto de Catters -
Adulto de BethV. Depois de freqüentarem festas juntas, começavam a deliciar-se com
cochichos de conteúdos morais e maliciosos, Pai de Catters - Pai de BethI e Criança de
Catters - Criança de BethIX, respectivamente. Suas discussões surgiam quando uma delas
tentava justificar-se perante a outra por algum ato impulsivo; esta relação se traduzia nos
vetores Adulto de Catters - Criança de BethVI e Adulto de Beth - Criança de CattersVIII, uma
vez que a censura Parental recíproca (P → CIII, VII) é que era responsável pelas
dificuldades. Portanto, eliminou-se Adulto de Catters - Criança de BethVI e Adulto de Beth
- Criança de CattersVIII.
Neste caso, a relação tinha ema estrutura excepcionalmente estável, com sete dos
nove vetores conjuntivos. A história e as vicissitudes de sua amizade longa e feliz
confirmaram os resultados da análise.
O relato apresentado acima representa o tipo mais elementar de análise de relações e
uma forma mais avançada de análise só seria tentada com um paciente em raras ocasiões. É
fácil constatar que existem fatores adicionais qualitativos e quantitativos a serem
considerados numa abordagem mais profunda. Em termos qualitativos, há, no mínimo,
quatro possibilidades numa "relação": algumas pessoas sentem-se "bem" juntas; algumas
sentem prazer em brigar ou discutir entre si; algumas não se podem suportar; e algumas não
têm absolutamente nada a se dizer. Estas possibilidades podem ser caracterizadas,
respectivamente, como simpatia, antagonismo, antipatia e indiferença, e são facilmente
compreendidas a partir do ponto de vista da análise de jogos. Representam, nesta ordem,
jogos conjuntivos, jogos conflitivos ou papéis irreconciliáveis (freqüentemente idênticos)
no mesmo jogo, e jogos que não são relevantes uns em relação aos outros. Uma análise
qualitativa levaria uma consideração à natureza dos vetores. A Figura 12 A é um exemplo
de análise qualitativa; aí, as qualidades são representadas por sinais convencionais:
simpatia, por uma linha forte, antagonismo por uma linha em ziguezague, antipatia, por
uma linha obstruída, e indiferença, por uma linha fina.
O aspecto qualitativo diz respeito à intensidade de cada vetor, e isso também pode
ser representado em um diagrama. Neste caso, seria aconselhável o uso de linhas duplas,
uma vez que os vetores poderiam diferir completamente em força: ex., Pai de Catters -
Criança de Beth era mais forte do que a Criança de Beth - Pai de Catters. Quando Mrs. Beth
ficava doente, ela não sentia tanta necessidade de atenção de Mrs. Catters quanto esta tinha
necessidade de cuidar dela, como mostra a Figura 12B.
Uma terceira complicação refere-se à quantidade material disponível. A análise de

94
um casamento de longa duração exige contínua vigilância e reavaliação, à medida que a
terapia evolui.

Estas dificuldades, no entanto, em geral só são significativas de um ponto de vista


acadêmico. A partir deste prisma, a análise de relações pode parecer interminável e
indeterminada e, portanto, de valor questionável. Mas na prática o tipo simples de análise
encontrado nos casos de Mr. Kinz e Mrs. Catters é surpreendentemente informativo, e
constitui um instrumento valioso de previsão e confirmação, com uma segurança
retrospectiva da ordem de 80 a 90%. Tanto o que ocorre em várias ocasiões no decorrer de
uma "relação" como seu resultado final podem ser previstos com considerável segurança,
com base neste procedimento. Uma vez que na realidade não existe o que se chama
"relação" no sentido popular e estático da palavra, mas apenas certas influências
predominantes que variam de tempos em tempos entre nove vetores possíveis, é necessário
fazermos a análise de relações, se o objetivo e compreender a sua viabilidade.

95
TERCEIRA PARTE

PSICOTERAPIA

96
13.
TERAPIA DAS PSICOSES FUNCIONAIS

1. PSICOSES ATIVAS

As psicoses funcionais incluem todas aquelas condições comumente diagnosticadas


como maníaco-depressivas e esquizofrênicas. Para fins terapêuticos, entretanto, elas não
são classificadas como entidades nosológicas diferentes, mas como estados estruturais.
Neste sentido, as psicoses existem em duas formas: ativa e latente. As psicoses latentes
recebem vários nomes: psicoses compensadas, psicoses de remissão, esquizofrenias de
ambulatório e personalidades pré-psicóticas ou limítrofes. Às vezes, as personalidades
esquizóides se enquadram nesta classificação.
Existe uma psicose ativa quando a Criança tem o poder de comando e também é
vivenciada como "Eu real", enquanto o Adulto é desautorizado. Em casos de desordem de
caráter, psicopatia e paranóia, o Adulto é totalmente contaminado pela Criança e coopera
com ela, mas não é desautorizado, de modo que a execução, se não a motivação, está sujeita
a uma avaliação da realidade de tipo limitado. O mesmo se aplica a hipomania e à
depressão leve. Qualquer uma destas condições pode progredir até uma psicose ativa. A
situação do Pai varia e é um forte determinante da forma específica de psicose. Nas
condições cíclicas maníaco-depressivas, por exemplo, o Pai, em forte catexia é
primeiramente excluído por uma criança triunfante, (1) e, mais tarde, volta a despertar com
toda a sua força.
A interrupção de uma psicose ativa pode ser definida como o restabelecimento do
Adulto como poder de comando e como "Eu real". Quando se consegue isso, o diagnóstico
muda para psicose latente, que exige uma abordagem terapêutica diferente. Este processo já
foi ilustrado nos casos de Mrs. Primus e Mrs. Tettar. Mr. Troy introduz uma complicação
porque, embora clinicamente sua psicose fosse latente, não estava, de acordo com a
definição, interrompida; seria melhor chamar essa psicose de compensada em vez de
latente, já que no caso dele, era o Pai, e não o Adulto, que tinha o controle e era vivido
como "Eu real". A distinção é importante porque mesmo que a psicose fosse latente, ela
não deveria ser trabalhada como tal. Para se tratar uma psicose latente é necessário que se
tenha o Adulto funcionando como aliado terapêutico. Tal aliado não estava disponível no
caso de Mr. Troy. Durante muito tempo, portanto, o único recurso foi o de apoiar o Pai
dominador e nada se podia fazer, de modo sistemático, pela Criança, que estava "trancada
no guarda-roupa". Passaram-se vários anos até que o Adulto se tornou ativo o suficiente
para auxiliar a Criança frustrada a sair da confusão, em face dos protestos do Pai.
Embora as "pequenas curas" descritas nos casos de Mrs. Primus e Mrs. Tettar não
tenham tido muito valor clínico por serem instáveis demais, elas exemplificam, no entanto,
os princípios envolvidos no tratamento de psicoses ativas. Estes princípios são
determinados por equilíbrios catéticos.

97
A psicose depende da retenção do domínio da catexia pela Criança. Enquanto
prevalecer esta situação, é difícil atingir o Adulto, pois tudo o que for dito é primeiramente
processado pela Criança. A situação é bastante análoga à de se ter de chegar até um Adulto
mandando mensagens através de um menino confuso. Na melhor das hipóteses, o resultado
dependerá do fato de a criança ser hostil ou favorável ao remetente e não ajuda em nada a
objetividade das mensagens, pois a criança pode estar confusa demais para compreender a
situação, razão pela qual as psicoses tóxicas agudas raramente são acessíveis à psicoterapia.
O paciente (ou seja, a Criança, naquele momento) simplesmente não pode ser atingido.
Esta analogia enfatiza, novamente, que a consideração pragmática básica é a
realidade social e fenomenológica dos estados do ego e também fornece duas regras
terapêuticas iniciais: (1) A psicoterapia deve ser iniciada somente durante os períodos de
confusão mínima; (2) Não se deve fazer nenhum movimento terapêutico ativo, e deve-se
lhe dar tempo para fazê-lo. Todos os bons terapeutas conhecem estar regras tanto
intuitivamente como a partir da experiência clínica, mas a sua base lógica torna-se um
pouco mais clara em termos estruturais. As aparentes exceções, como dos casos de Risen,
(2) mais atestam do que contradizem esses princípios gerais, e convém que os
procedimentos excepcionais sejam empregados por especialistas. (3) A razão de se sentar
com o paciente por longos períodos em atitude tranqüilizadora, como fazia Fromm-
Reichmann, (4) é compreensível quando consideradas estas regras. Também se torna
evidente o motivo pelo qual é aconselhável a mudança de terapeuta se o paciente for
incapaz de relaxar sua atitude hostil para com determinado indivíduo. Devido à agudeza de
percepção pessoal da criança, é possível que seja melhor considerar os casos em que, por
alguma razão, o paciente provavelmente seja justificado. O terapeuta não precisa se sentir
embaraçado com isto, já que não se pode esperar que uma pessoa seja capaz de ganhar a
amizade de todos os meninos ou meninas do mundo.
Depois dos períodos de atividade, a catexia ativa (isto é, desatada + livre) da
Criança tende a esgotar-se, deixando o Adulto relativamente mais acessível. Se você der,
inicialmente, a certo tipo de criança a oportunidade de livrar-se de seus problemas, ela fica
mais disposta a levar sua mensagem de modo correto. Se primeiro você lhe permite chorar,
ela pode, então, tornar-se sua amiga, e não apenas levar mensagens, mas, até mesmo, levar
você até seus adultos, diretamente. Na verdade, se você tomar a iniciativa na hora certa, ela
pode permitir ser deixada de lado. E, ser agradável com uma criança é, com freqüência,
uma boa forma de atrair a tenção de seus adultos, se você deseja falar com eles de adulto
para adulto, especialmente quando o assunto for a própria criança deles. Estas
considerações indicam uma terceira regra para o tratamento das psicoses ativas. (3) Deixe
primeiro a Criança agir à sua maneira. E (4) o avanço inicial até o Adulto dever ser feito em
linguagem Adulta, bem compassada, firme e compreensível. A catexia da Criança está,
agora, relativamente esgotada e a catexia do Adulto está sendo adequadamente reativada;
assim, com um pouco de sorte, se pode restabelecer a dominação do Adulto. Cada vez que
isto acontece, há um efeito cumulativo. Mas o resultado último dependerá de como a
Criança vê todo o procedimento. E, se as influências externas continuam a pressioná-la,
então as dificuldades podem tornar-se insuperáveis. Portanto, em muitos casos, seria
aconselhável que as pessoas do ambiente do paciente se submetessem a terapia, e a terapia
de grupo pode constituir o meio de se conseguir isto.
Até agora vimos as generalidades que se incluem nas fases iniciais da psicoterapia

98
de psicoses agudas, e as idiossincrasias devem ser trabalhadas à medida que surgirem. Se
estas regras parecem banais é por serem justas, e a análise estrutural pouco pode ter
contribuído para que se chegasse a esta fase, além de ter fornecido uma forma mais clara de
falar a respeito.
As idiossincrasias, naturalmente, são inumeráveis e apresentam graus variados de
dificuldade. Mrs. Primus não poderia ir além do primeiro estágio, porque foi impossível
continuar o tratamento durante a entrevista de diagnóstico. Nada lhe foi dito durante a fase
de aproximação mais confusa, porque a paciente poderia ter percebido o motivo disto ou
seja, a rejeição, o que talvez aumentasse a sua confusão. O terapeuta não falou até que (1)
ela teve a oportunidade de se dominar na presença das vozes; foi-lhe dado tempo (2) para
que o observasse, antes de ele dizer qualquer coisa, e a primeira pergunta dele, a respeito
das vozes, foi dirigida à Criança dela, dando-lhe alguns indícios da atitude dele; apenas
depois de dar à Criança de Mrs. Primus a oportunidade de avaliá-lo e (3) expressar-se, ele
tentou falar a seu Adulto; quando ele o fez, (4) foi de modo firme e objetivo, calculado para
atrair a atenção do Adulto, perturbando o menos possível a Criança.
A idiossincrasia de Mrs. Tettar era o fato de ela ser incapaz de tolerar o término de
uma entrevista. A solução foi (3) confortar e tranqüilizar a Criança nesse momento, e então
mencionar a questão no início de uma entrevista, (1) depois que seu Adulto se tornará
suficientemente bem restabelecido, de modo a poder manter o controle durante a primeira
metade de cada sessão. Seu progresso já tinha atingido um meio termo que lhe permitia
lidar com este problema.
Outras idiossincrasias também podem ser trabalhadas segundo essas regras. Se a
paciente ataca de surpresa o terapeuta com um punhado de fezes, este pode apenas
esquivar-se e então (2) deixá-la ver como se sente diante da situação. Se ele não consegue
agradá-la, ou se ela não simpatiza com ele, é melhor que ele abandone o caso. Se a criança
insiste para ambos se sentarem no chão, antes que o terapeuta possa falar ao Adulto, então
pode ser melhor (3) ele concordar com a Criança e, depois, (4) falar ao Adulto e não à
Criança. Isso significa que o terapeuta não tenta "analisar" porque a Criança quer que seja
desta forma, pois ainda não existe nenhum (1) Adulto ativo para auxiliar esta análise; mas
se de qualquer maneira o terapeuta articula um tipo de análise, esta só pode ser mencionada
como se ele falasse de um algo normal e comum. Ele pode comentar (em tom não-Parental)
que o fato de se sentarem no chão lhe parece estranho, ou que ele, por sua vez, pegará uma
almofada e, se a paciente quiser, poderá pegar outra. Entretanto, se o terapeuta disser: "Eu
também gosto de me sentar no chão", ele estará jogando com a Criança; e se disser:
"Sentemo-nos em almofadas", estará falando como um pai para a Criança, com grande
probabilidade de ser semelhante a um dos próprios pais da paciente. E, nos dois últimos
casos, haverá o distanciamento de seu objetivo se este for chegar até o Adulto.
Enquanto é relativamente simples explicar a técnica de restabelecimento do Adulto,
o aspecto teórico oferece maiores dificuldades. A abordagem mais conveniente, neste
ponto, é afirmar que, numa psicose ativa, o Adulto está sem catexia como se dormisse, mas
pode ser recatexizado através de estímulos sensoriais e sociais adequados. A estimulação
seletiva mais apropriada à neo-psique é uma questão ou observação firme e objetiva, que é
calculada para evitar a estimulação simultânea de qualquer dos outros dois sistemas.

99
2. PSICOSES LATENTES

Como tudo que é latente, a psicose latente não existe, só se pode dizer que existe.
Diz-se que existe uma psicose latente quando se pode deduzir que a capacidade de
contenção da Criança está defeituosa. Dependendo das condições de fronteira, ou haverá
áreas de atividade patológica onde o Adulto está fortemente contaminado, ou explosões,
quando o Adulto está temporariamente desautorizado, ou ainda ambas as coisas. O
tratamento das psicoses latentes envolve dois objetivos e constitui um dos testes mais
difíceis de habilidade terapêutica no campo da psiquiatria. Primeiramente, a fronteira entre
o Adulto e a Criança dever ser realinhada e fortalecida. Este é um problema para a análise
estrutural. Se o Pai está em alta catexia, como em conduções maníaco-depressivas, então, o
terapeuta e, mais tarde, o Adulto do paciente, têm a tarefa adicional de atuar como escudo
entre a Criança e o Pai, nos momentos em que um está sendo intransigente com o outro. O
segundo objetivo é a tarefa psicanalítica de tirar a Criança da confusão.
No caso de Mr. Segundo, o Pai tinha relativamente pequena influência, porque seu
pai morrera quando ele era muito novo e suas relações com outros homens tinham-se
desenvolvido pouco, enquanto sua mãe era astênica e quase não lhe dava atenção, de modo
que as influências extero psíquicas eram fracas. Na verdade, com algumas exceções, o Pai
de Mr. Segundo era muito artificial e fictício. Qualquer catexia em seu sistema
exteropsíquico centrava-se sobretudo em torno de imagens de propriedade e dinheiro. Seu
tratamento, portanto, apontava quase que exclusivamente para a relação entre o Adulto e a
Criança. As primeiras três tarefas que foram executadas com êxito, porque seu Adulto
estava com boa catexia em circunstâncias normais, foram (a) descontaminar o Adulto, (b)
esclarecer e (c) fortalecer sua fronteira com a Criança.
Quando ele dizia ou fazia algo desatinado demais ou muito abaixo de sua
capacidade intelectual, era-lhe sugerido que esta era uma atitude um tanto infantil (não
"pueril") para uma pessoa com suas qualidades. Por exemplo, a idéia de que o
Departamento de Narcóticos o desculparia por guardar consigo a morfina que alguns de
seus clientes tinham deixado com ele era, a princípio, sintônica do ego Adulto, mas não foi
difícil confrontá-lo com o conhecimento que ele próprio tinha das leis, quando tentou
racionalizá-la. Ele também procurou justificar o fato de ter ingerido uma dose ocasional da
droga, dando exemplos de como ele era mentalmente sadio; para ele, isto significa que não
havia o menor perigo de se viciar. Novamente, com tato e no momento oportuno, ele foi
levado a ver como esta prática lhe era prejudicial.
O processo de descontaminação está ilustrado na Figura 13. A Figura 13A
representa seu estado inicial em relação à morfina em que certas idéias arcaicas, que na
realidade pertencem à Criança, estão incluídas dentro da fronteira do ego Adulto e são,
portanto, racionalizadas e percebidas como o Adulto. A Figura 13B representa a situação
depois da descontaminação, em que a área sombreada não existe mais. Isto significa que as
idéias a respeito da morfina são, agora, distônicas do ego Adulto, em vez de sintônicas
tanto da Criança como do Adulto.
A descontaminação propriamente dita pára neste ponto. Uma vez que o Adulto
compreenda claramente a situação, deixa-se que ele tome sua própria decisão da melhor

100
forma que puder, a respeito de guardar ou não e tomar ou não a morfina. O ganho
terapêutico primário consiste apenas no fato de que, se ele decide fazer uma coisa ou outra,
deve fazê-lo sabendo que sua posição é racionalmente insustentável. Ele pode continuar
tentando enganar as autoridades, mas não conseguirá enganar a si mesmo durante muito
tempo. Isso faz com que lhe seja mais difícil prosseguir, mas talvez o resultado mais
importante seja a sua preparação para as fases subseqüentes. (Transacionalmente, sua
pseudo-estupidez era parte de um jogo, mas este aspecto foi propositalmente negligenciado,
como acontece com todos os psicóticos latentes, durante a fase estrutural inicial do
tratamento.)

Depois que se descontaminaram tantas áreas quanto possível, o Adulto de Mr.


Segundo era capaz de avaliar, com muito maior clareza, muitas de suas ações passadas. A
fase seguinte buscou esclarecer e fortalecer a fronteira entre o Adulto e a Criança. Neste
caso, procurou-se promover "discussões" separadas com cada um deles. Encorajando a
Criança a falar, o terapeuta a ouvia como um Adulto compreensivo e psicodinamicamente
treinado: isto é, alguém que compreendia as necessidades orais. Quando falava o Adulto de
Mr. Segundo, o terapeuta o ouvia como um experiente observador da sociedade: isto é,
alguém que conhecia as leis sobre narcóticos. Todas as transações cruzadas intercorrentes
foram analisadas em pouco tempo.
Por exemplo, o terapeuta perguntou à Criança: "Como você se sente me contando
tudo isso?". O paciente respondeu: "Sinto-me como se estivesse dizendo a você que fosse
embora e não me aborrecesse". E acrescentou, em seguida: "Na verdade, não quero dizer
isso!" O terapeuta perguntou quem dissera esta última frase e o paciente respondeu: "Nós
dois!", referindo-se ao Adulto e à Criança. O terapeuta, então, perguntou ao Adulto se ele
realmente acreditava que ele, terapeuta, o abandonaria, porque a Criança tinha dito: "Não
me amole!" Naturalmente Mr. Segundo, "na verdade", não acreditava. Ele só acreditava
nisto quando havia uma nova contaminação momentânea do Adulto pela Criança, que
estava tomada de pânico em razão da própria ousadia e subitamente via o terapeuta como
um Pai crítico, em lugar de encará-lo como um Adulto objetivo. A fronteira Adulto-Criança
do paciente não pôde resistir ao súbito surgimento da ansiedade e cedeu por um breve
instante. A discussão que se seguiu ajudou-o a reforçar a fronteira ainda fraca. A situação
pode ser esclarecida com a consulta das Figuras 14, A, B e C. Não havia nenhuma
necessidade de o terapeuta desenhá-las para o paciente, uma vez que, na ocasião, este já

101
estava bastante acostumado a este tipo de análise e era capaz de fazê-la mentalmente de
modo bastante adequado.
A atividade é um aspecto essencial da análise estrutural. O Adulto assemelha-se a
um músculo, que se fortalece com o exercício. Uma vez bem encaminhadas as fases
preliminares de descontaminação e esclarecimento, espera-se que o paciente exercite o
controle Adulto. Ele deve aprender a manter o Adulto no comando das ações por períodos
relativamente longos. A Criança está disposta a cooperar, até certo ponto, por três razões:
em primeiro lugar, pelos ganhos da realidade, que ela aprende a apreciar; em segundo
lugar, porque se lhe permite trabalhar à sua maneira, sob circunstâncias mais ou menos
destrutivas; e, em terceiro lugar, porque ela tem a liberdade de falar com o terapeuta se tiver
qualquer objeção a fazer. O que o Adulto adquire não é um domínio exclusivo, mas a
faculdade de exercê-lo, cada vez maior. É ele, e não a Criança, quem decide, com a
eficiência crescente, quando a Criança tem de assumir.

Assim, não se exige que o Adulto e a Criança cedam às exigências Parentais do


terapeuta, mas tão-somente que cumpram os compromissos voluntários do próprio Adulto.
O terapeuta não está tentando conter o paciente; isto não lhe compete; é uma questão

102
Parental, algo para um padre ou uma mãe fazer. Ele está interessado em tornar o paciente
capaz de manter o seu próprio compromisso Adulto; circunscrever os seus excessos, dentro
dos limites economicamente possíveis, procurando ajudar o paciente a fazê-lo por meio de
suas técnicas profissionais. É uma questão Adulta; o Adulto do paciente e o Adulto do
terapeuta concordam em trabalhar juntos nesta questão, sem "intimidades" ou
"cumplicidade" sentimental de um em relação ao outro; talvez, melhor dizendo, com um
"desapego" cheio de dignidade. Ambos estão cientes de que o terapeuta é um terapeuta e
não um chefe de pessoal nem um professor de jardim de infância. Esta objetividade é
necessária, se se deseja eliminar a barreira principal, o jogo "Perna de Pau". ("O que espera
de um homem com uma perna de pau? O que se espera de um neurótico?". Mr. Segundo
revelava-se particularmente inclinado a fazer este jogo, já que um de seus deveres
profissionais era ajudar os seus clientes a jogá-lo, alegando insanidade, quando preciso). Se
necessário, o terapeuta deve lembrar ao paciente que ele não é "um neurótico", mas um
indivíduo com uma Criança confusa e com catexia fraca, por outro, e que seu objetivo,
neste estágio, é fortalecer aquele Adulto e aumentar sua destreza, através de repetidos
exercícios.
São esses exercícios que fortalecem a fronteira, agora tornada clara, entre o Adulto e
a Criança. No caso de Mr. Segundo, eles se limitaram inicialmente a questões pequenas e
relativamente fáceis. Mr. Segundo logo se saiu tão bem que foi capaz de adiar as atividades
intensas e potencialmente negativas de sua Criança, até que essas atividades puderam ser
liberadas sob condições relativamente inócuas. Sua vida profissional e social durante a
semana foi organizada; a Criança surgia a cada dois fins de semana mais ou menos, quando
Mr. Segundo se retirava para seu chalé na montanha para "pescar". Assim, domava-se a
Criança, mas sem frustrá-la, insultá-la ou abusar dela, enquanto o Adulto era fortalecido por
suas experiências de realidade progressivamente aperfeiçoadas: mais horas de trabalho,
maior eficiência, mais satisfação profissional, maior número de causas ganhas, menor
embaraço, melhora na vida social e familiar e redução do temor racional da ruína.
Simultaneamente, a Criança temia cada vez menos a perda de processos e outras
ocorrências desagradáveis, e ela, também, parecia aprender a partir da realidade, exercendo
uma pressão decrescente sobre o Adulto. Exatamente como numa situação real entre um
adulto e uma criança, quando o adulto pode demonstrar que ele é capaz de cuidar melhor de
suas coisas se ficar sozinho para fazê-lo à sua própria maneira, a relação entre eles ficou
mais bem definida e talvez mais distante, mas melhorou.
A esta altura, a meta da análise estrutural tinha sido atingida. Havia, então três
caminhos abertos à escolha do paciente: parar o tratamento, continuar coma análise
transacional num grupo de terapia ou submeter-se a psicanálise. Ele escolheu a primeira
solução. Ausentou-se por dois anos, durante os quais se envolveu numa situação cada vez
mais complexa. Arranjou um sócio advogado e sua mulher teve outro filho. Suas
indulgências tornaram-se menos freqüentes, mas a sua necessidade ocasional de comportar-
se indulgentemente começou a preocupá-lo cada vez mais, de modo que ele acabou
retornando para um tratamento psicanalítico. A resolução genética dos conflitos orais exigia
que a Criança falasse livremente ao Adulto e ao terapeuta, e seu tipo de comunicação já
tinha sido estabelecido. Portanto, a análise estrutural a que se submetera previamente
deixava-o seguro.
Do ponto de vista prático, o tratamento anterior desviou a ruína em perspectiva que

103
muito provavelmente teria tomado conta do paciente durante as fases preliminares de
psicanálise ortodoxa, se esta tivesse sido o procedimento inicial. Do modo como se operou,
a experiência psicanalítica foi um luxo e não uma necessidade, e as indicações eram de que
o paciente poderia ter continuado a viver indefinidamente uma vida relativamente feliz,
apenas com os frutos da análise estrutural.
A terapia das psicoses latentes, portanto, tem dois objetivos. A cura pragmática
consiste em estabilizar a dominação do Adulto, de modo que as exibições da Criança só
ocorrem em situações sob um esquizóide ou personalidade limítrofe num "esquizofrênico
de fins de semana", na pior das hipóteses. A cura, no sentido psicanalítico, equivale a
acabar com a confusão da Criança e resolver seus conflitos internos e seus conflitos com o
Adulto e o Pai.
O diagnóstico estatístico do caso de Mr. Segundo não influencia a abordagem
terapêutica, que é baseada apenas em considerações estruturais. Era terapeuticamente
irrelevante diagnosticá-lo como um esquizofrênico limítrofe, um depressivo suicida latente,
um neurótico impulsivo, um viciado ou um psicopata. O importante era a diagnose
estrutural: um Pai com catexia fraca e mal organizada, e, portanto, mais ou menos
ineficiente; um Adulto com fronteiras mal definidas e catexia levemente enfraquecida, de
modo que tanto sua contaminação como sua desautorização ocorriam com facilidade; e uma
Criança com capacidade de retenção falha.
Esta diagnose tornou claras as indicações terapêuticas. Era tarde demais para se
fazer algo significativo com relação à exteropsique. O Adulto poderia ser fortalecido
através do trabalho com as fronteiras e a relativa capacidade de retenção da Criança poderia
ser aumentada, em última análise, pela libertação da sua confusão e pela resolução dos
conflitos infantis. O prognóstico ótimo também estava claro; já que não havia esperança de
adquirir um Pai adequado, o Adulto sempre teria que se entender com a Criança, sem
grande ajuda da exteropsique. Portanto, o equilíbrio seria sempre mais precário do que em
indivíduos mais afortunados, cujos pais tenham tido o bom senso de não morrer antes que
os filhos chegassem à adolescência. Mr. Segundo estava totalmente ciente desta dificuldade
e sabia que em todos os momentos ele contaria quase que apenas consigo mesmo, não só no
sentido existencial mas também do ponto de vista psicológico. Esta consciência foi um
incentivo adicional valioso, em seu caso particular, para fortalecer o Adulto.
A situação era diferente no caso de Mr. Disset que nos procurou porque não
conseguia encontrar emprego em seu campo de trabalho. Ele sabia que os possíveis
empregadores tinham algo contra ele, porque ele era honesto ao preencher os formulários
exigidos, relatando sua história clínica. Ele queria que o psiquiatra fizesse algo a respeito,
como, por exemplo, interceder junto aos empregadores. Mr. Disset apresentava estigmas
característicos de um esquizofrênico de ambulatório: extremidades frias, úmidas e azuladas;
olhos baixos; postura e andar encurvados; dificuldade de expressar-se, gestos pesados,
preocupação e reação de sobressalto, quando lhe dirigiam a palavra. Sua incapacidade para
empregar-se era tão evidente à primeira vista que o empregador mais inexperiente e
caridoso poderia até ser bondoso com ele, mas jamais lhe daria trabalho.
O psiquiatra ouviu-o pacientemente durante duas sessões, mas, na terceira, expôs
com franqueza o seu modo de ver a situação, não tanto com o intuito de convencer o
paciente, como a fim de esclarecer o seu relato e sua própria consciência. Evidentemente,

104
Mr. Disset precisava de algo que o terapeuta tinha a oferecer, porque decidiu continuar o
tratamento, mesmo sem concordar com a formulação do terapeuta, uma vez que pelo menos
deu a entender que manteria sua atitude inicial de encarar o problema como algo puramente
administrativo.
Mr. Disset foi introduzido num tipo especial de grupo em que o terapeuta adotava
uma atitude mais Parental do que Adulta. Através de vários procedimentos oportunistas,
como a apelação à Administração dos Veteranos de Guerra quando estava seguro do êxito,
o terapeuta tentou compensar o sentimento de abandono que Mr. Disset vivenciara nas
mãos de seus próprios pais; ele também confrontou a atitude depreciativa do Pai interno
com a dos pais reais. Fazendo tudo isto com a devida atenção para as desconhecidas
possibilidades de masoquismo, complexo de culpa e rebeldia do Pai interno e o pai real de
Mr. Disset quisessem uma revanche quando este estivesse fora da situação terapêutica, o
terapeuta conseguiu ganhar a confiança da Criança. Isto é, foi capaz de demonstrar que era
um pai muito mais poderoso e benevolente do que o Pai de Mr. Disset. Na medida em que
diminuía a ansiedade da Criança, o Adulto tornava-se relativamente mais forte, até que se
atingiu o ponto em que foram possíveis algumas tentativas de abordar este aspecto da
personalidade do paciente.
A esta altura, o fato de Mr. Disset simplesmente não parecer recomendável ao
trabalho veio à tona com mais firmeza e o processo de descontaminação foi iniciado com
cautela. Essencialmente, o paciente precisava compreender que não eram as outras pessoas
que tinham de mudar sua atitude em relação ao internamento em hospitais, mas, sim, que
era ele próprio quem deveria mudar o seu modo de provocar as respostas das pessoas. O
grupo estava numa situação excelente para investigar e experimentar o que fora analisado.
Os outros elementos eram francos e simpáticos, e bastante firmes para fornecerem ajuda,
sem serem ameaçadores. Além disso, era uma a oportunidade para que eles aprendessem a
distinguir entre serem úteis e de uma forma Adulta e serem ameaçadores de um modo
Parental. Estavam no mesmo nível e todos puderam aprender ao mesmo tempo, sobretudo o
hiperparental Mr. Troy. Mais uma vez, numa fase apropriada, Mr. Disset era instruído a
diferenciar as reações de seu Pai, de seu Adulto e de sua Criança, respectivamente, em
relação ao que o terapeuta e os outros lhe diziam. (Novamente este grupo de psicóticos
latentes sem experiência desejou, deliberadamente, fazer jogos tais como "Perna de Pau" e
"Por que Você Não... Sim, Mas” ...)
Outra abordagem, que às vezes é indicada com tais pacientes, foi usada no caso de
Miss Hockett. Ela passou a fazer parte de um grupo onde o terapeuta funcionava
analiticamente como Adulto e evitava intervenções Parentais. Ao mesmo tempo, ela se
submetia individualmente ao acompanhamento de um assistente social treinado em análise
estrutural e que atuava como Pai. Deste modo, ela conseguiu acalmar suas ansiedades no
grupo, através da análise de jogos elaborada pelo assistente social e, além disso, podia
contar com o jogo que fazia com o assistente social para conquistar a simpatia de todos, ao
submetê-lo à análise do grupo. Assim, sua Criança era assegurada e cuidada por um
indivíduo, enquanto seu Adulto estava sendo descontaminado e fortalecido por outro. O
terapeuta e o assistente social realizavam breves reuniões vez ou outra, ou quando surgia
um problema agudo, mas, já que ambos tinham uma idéia bastante clara da divisão de
trabalho entre eles, nenhum dos dois sentia a necessidade de fazer esta reavaliação a cada
problema que surgisse ou com maior freqüência, pois isto tenderia a perturbar o andamento

105
da terapia cooperativa, oferecendo à criança a oportunidade tentadora de deflagrar um jogo
manejado por três participantes. Assim, evitando jogos deste tipo e forçando Miss Hochett
a participar de dois jogos separados com dois participantes apenas, foi muito mais fácil
controlar a situação e seu progresso foi gratificante para ela mesma, para o grupo e para
seus terapeutas, enquanto ela permaneceu no grupo.
Infelizmente é difícil oferecer algo mais do que algumas sugestões gerais a respeito
de como lidar com pessoas que são, por definição, o coletivo e individual. Mas, através da
aplicação assídua e inteligente dos princípios acima expostos, o terapeuta acrescentará,
continuamente, ao seu conhecimento, a maneira de abordar tais problemas, e,
eventualmente, chegará à conclusão de que não existem pacientes entediantes, mas apenas
terapeutas entediados, situação que pode ser aliviada, desde que se obedeça a um programa
terapêutico bem planejado, com metas claramente formuladas, ainda que modestas, e
instrumentos adequados para conseguí-las. É possível que haja horas cansativas, e até
mesmo semanas enfadonhas, durante períodos em que se recomenda muita paciência, mas
não haverá mais meses e anos de aborrecimento.

NOTAS

Mr. Segundo não era viciado em morfina, este aspecto de seu problema é escolhido
como ilustração, principalmente porque os fatores de realidade não oferecem complicações
e são quase que auto-evidentes.

REFERÊNCIAS

1. Levin, B., The Psychoanalysis of Elation. W.W. Norton & Company, Nova York, 1950.
2. Rosen, J., Direct Analysis. Grune & Stratton, Nova York, 1953.
3. Sechehaye, M. A., Symbolic Realization. Internacional Universities Press, Nova York, 1951.
4. Fromm-Reichmann, F., Principles of Intensive Psychoterapy. University of Chicago Press, 1950.

106
14.
TERAPIA DAS NEUROSES

Há quatro metas possíveis na psicoterapia das neuroses, Estas podem ser designadas
em linguagem convencional, como (1) controle sintomático, (2) alívio sintomático, (3) cura
transferencial, (4) cura psicanalítica. Estas metas podem ser estabelecidas em termos
estruturais, e os processos terapêuticos são ilustrados pelos seguintes exemplos:
1. O controle sintomático e social foi o que conseguiu, com extraordinária rapidez,
Mrs. Enatosky, uma dona-de-casa de 34 anos. Sua queixa principal era a "depressão" que
sentia subitamente, durava dois ou três dias e desaparecia, também repentinamente. A
depressão era particularmente amedrontadora, porque a paciente não sabia como tinha
começado. Surgira há 15 anos, depois que sua mãe adoecera. Inicialmente, ela tentava
livrar-se da depressão através da bebida, o que resultou em vários episódios alucinatórios,
após bebedeiras prolongadas. Então, ela aderiu aos Alcoólicos Anônimos e não vinha
bebendo nada a sete anos. Durante este período, procurou tratamento e encontrou um
psiquiatra, cujas prescrições foram a hipnose, o Zen-budismo e exercícios de ioga. Passados
três ou quatro anos, a paciente se tornou tão habilidosa na última técnica que foi apontada
como guru na sociedade local. Nesta época, ela começou a ter dúvidas a respeito da
eficácia dessas formas de tratamento, e procurou a ajuda do Dr. Q., por recomendação de
uma conhecida, que era assistente social.
Ela também se queixava de insegurança periódica para caminhar, que ela descrevia
como "flutuar". Além disso, não sabia o que fazer a respeito das dificuldades enfrentadas
com seu filho de 13 anos. Ele era desobediente e ela manipulava o problema através de
"princípios de saúde mental" sobre os quais ela tinha lido, mas enquanto estava
"pronunciando" as palavras e pensava o que deveria dizer "no fundo" ela sabia que queria
forçá-lo a obedecer e sentia que ele percebia isso; mas achava que seu marido aprovaria
mais a sua atitude se ela o fizesse de modo "sensível". Quando falhava nos
"pronunciamentos", ela ficava deprimida e, então, o filho se mostrava mais obediente (em
relação aos estudos, por exemplo). Ela fazia outras coisas para ganhar a aprovação do
marido, como comprar as roupas provocantes que ele parecia apreciar e, quando ele não
correspondia, ela se sentia triste e rebelde.
Mrs. Enatosky disse várias coisas espontaneamente em sua segunda entrevista, que
tornou mais fácil introduzi-la à análise estrutural. Algumas dessas coisas provavelmente
eram baseadas na experiência terapêutica anterior e algumas eram intuitivas. "Como uma
menininha, eu quero a aprovação de meu marido, embora eu me rebele contra o que tenho
de fazer para obtê-la. Acho que é assim que eu costumava me sentir em relação a meu pai.
Quando meus pais se separaram, pensei: ‘Eu poderia tê-lo retido’. Eu me dedicava muito a
ele". "Algo adulto em mim me fazia ver que eu estava agindo como uma menininha". Foi-
lhe sugerido que ela poderia soltar a menininha, pelo menos durante as entrevistas, em
lugar de tentar aprisioná-la dentro de si. Esta era uma idéia nova para ela, já que era
contrária ao que lhe aconselhava o terapeuta anterior, e isto a assombrou e intrigou.
"Parece-me ousadia. Apesar de eu gostar de crianças. Mas eu sei que não posso viver de

107
acordo com as expectativas de meu pai".
Em relação a sua atitude dissimulada para com o filho, ela comentou: "É exatamente
como minha mãe me tratava; ela tentava me forçar a fazer as coisas".
Com essas e outras declarações espontâneas, não houve dificuldade em traçar um
diagrama estrutural: a mãe que ela imita; a parte adulta dela; a menininha que quer
aprovação e a menininha que se rebela. Na terceira entrevista, foi fácil passar para o
vocabulário usual, que era mais conveniente; estas instâncias então representavam o Pai, o
Adulto, a Criança obediente e a Criança rebelde respectivamente.
Quando ela discutiu o sintoma relativo ao caminhar, Dr. Q. salientou: "É a
menininha também" (diagnóstico comportamental). Ela respondeu: "Caramba! É verdade:
uma criança anda desse jeito. Quando você disse isso, pude ver uma criancinha. Você sabe
como as crianças andam, tropeçam e se levantam. É duro acreditar, mas isto faz sentido
para mim. Quando você disse isso, senti que não queria caminhar: uma menininha chorona
que prefere rastejar ou se sentar. Agora estou contente. Eles empurram a gente pelo ombro
direito e a gente se sente ultrajada e quer chorar. Sabe, eu ainda tenho dores no ombro. Que
sensação terrível! Minha mãe trabalhava quando eu era pequena e eu não queria passar o
dia na creche, negava-me a caminhar e eles me forçavam. E ainda faço o mesmo com meu
próprio filho. Não gosto que ele me desobedeça e, ao mesmo tempo, penso: ‘Eu não
desaprovo. Sei como ele se sente!’ É, na verdade, minha mãe desaprovando. É esta a parte
Parental? Isso tudo me assusta um pouco".
Deste modo, estabeleceu-se a realidade do Pai, do Adulto e da Criança, como
estados do ego reais (realidade fenomenológica). Quando ela disse estar assustada com tudo
isso, o Dr. Q. relembrou que seu tratamento místico e a hipnose tinham contaminado seu
Adulto e preocupou-se em assegurar que nada havia nada de misterioso no que estavam
conversando. Enfatizou a derivação de Pai, Adulto e Criança, provinda de suas experiências
reais na primeira infância (realidade histórica) e discutiu a ativação seletiva de cada
entidade, explicando-lhe a relação com acontecimentos diários de fácil compreensão.
Explicou, então, como o Adulto poderia manter o controle da Criança, em vez de ser
meramente confundido por ela, e, também, como o Adulto tinha de servir de mediador
entre o Pai e a Criança a fim de evitar depressões. Tudo isso foi comentado bastante
detalhadamente.
Ela iniciou a quarta entrevista dizendo: "Esta semana me senti feliz pela primeira
vez em 15 anos. Experimentei o que você me sugeriu e ainda posso sentir a depressão
tentando me dominar e também a sensação engraçada enquanto ando, mas posso manipular
essas coisas e elas não me incomodam mais, mesmo quando sei que estão presentes". A
esta altura, foram formulados os jogos que ela fazia com o marido e com o filho, de forma
preliminar. Com o marido, a seqüência era esta: ela se submete de modo sedutor, ele reage
com indiferença, ela se desaponta e se deprime, ele, então, tenta remediar a situação. Com o
filho, dava-se o seguinte: ela usa um raciocínio sedutor, ele reage com indiferença, ela se
desaponta e se deprime, e ele, então, remedia a situação, obedecendo-a afinal. Apesar de o
terapeuta ter omitido este ponto naquele momento, ambos eram jogos familiares sado-
masoquistas, nos quais, como de costume, as duas partes têm ganhos primários e
secundários. No jogo de obediência, por exemplo, um ganho primário interno para o filho
era que ele alterava sua mãe e um ganho primário externo era o de evitar cumprir as tarefas

108
escolares; em segundo lugar, ele freqüentemente conseguia ganhar vantagens materiais
quando a obedecia. Foi-lhe explicado que, neste caso, valeria a pena tentar abordagem
Adulto-Adulto, em vez da relação Pai-Criança, isto é, boas razões em lugar de razões
agradáveis e sedutoras.
Estes são alguns exemplos dos problemas trabalhados e de como se lidou com eles.
Por causa de sua aptidão evidente para a análise estrutural e transacional julgou-se que ela
já estava pronta para participar de um grupo de terapia relativamente experiente, após
apenas cinco entrevistas individuais.
Na terceira reunião de grupo, ela comentou como se sentia bem, depois de ter
sofrido tanto durante 15 anos. Atribuiu isso ao fato de estar aprendendo a exercitar o
controle Adulto sobre seus sintomas e relações. Também contou que seu filho estava se
comportando e se sentindo muito melhor e como eles estavam se relacionando bem. Havia
vários profissionais no grupo e um deles lhe perguntou: "Há quanto tempo você vem ao Dr.
Q.? Dr. Q. sorriu diante da pergunta e Mrs. Enatosky pensou que ele estivesse rindo dela.
Dr. Q. explicou cuidadosamente que não estava rindo dela, mas sim porque ele sabia o que
seus colegas pensariam quando ela respondesse à pergunta. Esta explicação a satisfez e ela
respondeu: "Estou vindo aqui há um mês". O terapeuta se permitira sorrir por razões que
diziam respeito aos outros pacientes, e não a Mrs. Enatosky, e sua auto-indulgência teve
êxito, pois influenciou a esperada reação de ceticismo dos pacientes que eram
psicoterapeutas profissionais e principiantes em análise transacional. Esta atitude levou a
uma curiosidade mais séria a respeito das possibilidades deste tipo de análise.
Muito poucos pacientes revelam a capacidade de compreender e avaliar os
princípios do controle sintomático e social tão rapidamente como Mrs. Enatosky e seu caso
foi escolhido pelo dramático valor ilustrativo que apresenta. Já que sua Criança tinha sido
profundamente traumatizada, este era apenas o começo da terapia e muitas dificuldades
teriam de ser enfrentadas mais tarde. Mas a fase inicial promoveu um alto grau de
esperança e compreensão terapeuticamente valioso e serviu para estabelecer uma relação de
trabalho satisfatória entre o terapeuta, de um lado, e o Adulto e a Criança da paciente, do
outro. Também iniciou o processo de colocar o terapeuta no lugar dos pais originais, o que
se considerou desejável em vista dos elementos esquizóides da Criança. Mais importante
talvez tenha sido o fato de a paciente continuar o tratamento sentindo-se muito melhor do
que se sentia originalmente, e as coisas se tornaram mais fáceis para seu filho durante um
período decisivo de desenvolvimento. Graças à habilidade por ela demonstrada de exercitar
o controle social durante o período de sua terapia, a vida tornou-se mais feliz, não só para
ela, mas também para os outros membros da família.
O fortalecimento posterior do controle sintomático e social neste caso e os passos
dados para libertar a Criança de Mrs. Enatosky da confusão em que se encontrava estão
descritos no Apêndice, no final do livro.
2. O alívio sintomático foi obtido, através da análise estrutural, por Mrs. Eikos,
dona-de-casa de 30 anos que recorrera a diversos especialistas, durante alguns anos de
tratamento, por sentir dores que sempre suspeitava serem baseadas em mudanças orgânicas.
Apenas quando tudo falhou ela resolveu procurar um psiquiatra. Desde o início, suspeitou-
se que a fase inicial seria crítica, já que seu casamento vinha sendo mantido, de forma
precária, somente graças a sua negligência em relação a certos defeitos óbvios no

109
comportamento do marido.
A análise estrutural desta situação foi a seguinte: o comportamento neurótico do
marido de Mrs. Eikos era altamente atrativo para a sua Criança, pois lhe proporcionava
grandes ganhos primários e secundários. Do ponto de vista do Adulto, entretanto, era uma
coisa ultrajante. Mas, através da contaminação, a Criança de Mrs. Eikos impedia que o
Adulto protestasse; ela dava todo o tipo de desculpas para que o marido fazia. A
descontaminação poderia ser uma ameaça a seu casamento, porque um Adulto autônomo
não toleraria por muito tempo o comportamento do cônjuge, se este não mudasse. Além
disso, se ela parasse com o jogo que constituía um dos seus principais laços matrimoniais,
sua Criança sentiria a privação como profundamente desesperadora. Tais perigos foram
apontados para ela em três diferentes ocasiões, sempre de um modo claramente inteligível
para ela naquele momento. Em todas as vezes, ela reafirmou a sua determinação de
continuar a terapia. Estes testes de motivação não só esclareciam as responsabilidades do
terapeuta e da paciente, respectivamente, mas também iniciavam o fortalecimento do
Adulto, fazendo com que a decisão fosse dela, com base numa avaliação realista da
situação de tratamento. Os aspectos de transferência deste procedimento, isto é, as reações
da Criança diante das formulações do terapeuta, foram deixadas de lado para serem
trabalhados no momento oportuno. À medida que ela foi-se tornando capaz de sentir e
expressar a raiva e o desapontamento do Adulto autônomo em relação ao comportamento
do marido, as dores foram gradualmente desaparecendo.
Este alívio sintomático não resultou de uma expressão de indignação cega e banal,
baseada no axioma "expressar hostilidade é bom", mas foi cuidadosamente planejado. O
próprio Adulto da paciente era capaz de avaliar a exatidão e a utilidade dos passos
preparatórios. Além de ser agradecida pelo efeito terapêutico, ela também estava em
condições de compreender seus três principais aspectos estruturais. Primeiramente, o fato
de ter surgido desapontamento e ressentimento significou que o Adulto, agora, estava
descontaminado até certo ponto e que ela era capaz de testar e exercitar a sua autonomia,
recém-descoberta, em outras situações. Em segundo lugar, agora que seu Adulto estava
disponível como aliado terapêutico, o tratamento podia continuar em um nível diferente. O
primeiro obstáculo estava seguramente derrubado, e seu casamento sobreviveu a ele. Ela
pôde ver que estava realmente numa situação melhor do que a anterior para assegurar sua
estabilidade familiar com base em alicerces mais firmes, se ela quisesse, e isto lhe deu nova
coragem. Em terceiro lugar, o próprio ressentimento era suspeito, já que nele havia alguns
elementos de ambivalência infantil e que ela tinha selecionado Mr. Eikos para ser seu
marido, dentre vários candidatos, estando claro, a esta altura, que sua Criança tinha
encorajado ocultamente seu comportamento. Por todos estes motivos, sua expressão de
"hostilidade" não era simplesmente aceita como "boa", mas foi encarada de modo crítico
tanto pelo terapeuta como pelo paciente.
Neste ponto a Criança, privada de algum dos ganhos que obtivera anteriormente
com o seu casamento, começou a voltar sua atenção para o terapeuta. Ela tentou manipulá-
lo, como o tinha feito antes com várias figuras parentais, incluindo alguns amigos de seu
pai e um terapeuta anterior. A análise deste jogo a desconcertou e suas produções tornaram-
se menos suaves. Foi possível, então analisar alguns dos jogos familiares de sua infância,
assim como outros jogos conjugais atuais. Na medida em que sua Criança começou a
experimentar uma catexia cada vez mais desatada, o argumento da paciente apareceu e suas

110
entrevistas tornaram-se progressivamente mais turbulentas. Enquanto isso, O Adulto se
fortalecia em suas atividades fora do consultório, ainda que, às vezes, ele fosse
completamente desautorizado durante as sessões terapêuticas. Como ela já não realizava os
jogos conjugais, A Criança do marido tornou-se confusa, ansiosa e deprimida, e ele também
procurou tratamento (com outro terapeuta).
Ela começou a levar sua vida com mais energia, satisfação e serenidade, não só no
interesse de seus três filhos mas também em seu próprio benefício. Agora ela já estava
preparada para interromper o tratamento, sob as seguintes condições: as mudanças de
estados do ego eram acompanhadas por alterações no tônus de sua musculatura íntima e no
esqueleto. Em seu estado do ego Adulto, ela agora estava livre de sintomas. Se sua Criança
surgisse, os sintomas voltavam, mas com menor rigidez. Através da prática do controle
social e da oposição do Adulto a jogos incipientes em sua vida familiar e social, ela foi
capaz de anular um controle quase voluntário sobre a ocorrência dos sintomas. Como um
tipo de prêmio, seu casamento melhorou, na opinião de todas as pessoas que a rodeavam.
Neste caso, o alívio sintomático precedeu o controle sintomático. A resolução
parcial de seu argumento, envolvendo até certo ponto a libertação da Criança da confusão,
aliviou permanentemente a gravidade de alguns sintomas, deixando o restante sujeito à
opção do Adulto.
Às vezes, pode-se proporcionar alívio sintomático de outro modo, ensinando-se o
paciente a aprimorar seu jogo. Na verdade, a principal motivação que leva a Criança do
neurótico ao consultório de um psiquiatra geralmente é esta: a Criança quer que o terapeuta
lhe ensine a realizar seu jogo com mais êxito. Assim, se as motivações para a busca de
terapia forem analisadas estruturalmente, em geral elas apresentarão a seguinte disposição:
Parental - supõe-se que a pessoa esteja bem para apoiar seus filhos, fazer o serviço de casa
etc.; Adulto - a pessoa ficaria mais feliz e mais eficiente se a Criança pudesse aprimorar
seus jogos, isto é, extrair maiores ganhos primários e secundários das transações arcaicas
com outras pessoas. Uma variante deste último é a esperança de que o terapeuta esteja
disposto a jogar quando ninguém mais está, dando assim, à Criança, certo grau de
satisfação. Um paciente muito sarcástico expressou a diferença entre as motivações da
Criança e as do Adulto para iniciar uma terapia, perguntando a outro paciente: "Você veio
aqui para se divertir ou para que o divirtam?".* Isso poderia ser dito de outro modo, através
do conteúdo do conhecido epigrama: "O neurótico faz tratamento para aprender como ser
um neurótico melhor".
O trabalho dos conselheiros matrimoniais constitui uma forma comum de oferecer
alívio sintomático por meio da aprendizagem. O que parecem lições sobre abstratos como
"casamento" e "natureza humana" são, freqüentemente, um modo de ensinar como obter
mais satisfações através dos jogos matrimoniais do tipo "Mulher Frígida", "Orçamento" e
"Saúde Mental".
Mr. Protus era um exemplo de pessoa que obtém alívio sintomático através de
ensinamentos. Dedicava-se ao jogo do pijama, como dizia ele, e queria dar um grande
golpe. Mas sua ansiedade social se manifestava sintomaticamente durante seu trabalho
como vendedor e diminuía sua eficiência. Veio tratar-se com o objetivo expresso de ganhar
mais dinheiro. Por várias razões, sua meta foi aceita pelo terapeuta. Depois de um longo
*
No inglês esta frase compõe um trocadilho: “Did you come for a treat or for a treatment?” (NT)

111
período, estabeleceu-se o controle sintomático e social, que permitiu a Mr. Protus melhorar
o seu jogo de vendas. Sua ineficiência, seu desperdício de energia e explosões sintomáticas
durante o trabalho diário decorriam, em parte, de um conflito Parental bastante profundo
(pai versus mãe), que envolvia violência, de modo que sua Criança sempre evitava dar
realmente o grande golpe. Logo o Adulto percebeu o que devia controlar e conseguiu fazê-
lo durante suas horas de trabalho. Além disso, a análise do jogo de vendas que ele fazia,
tornou-o mais corajoso e habilidoso para trabalhar com a Criança de seus clientes e para
manter o seu Adulto atento contra as tentativas dos clientes de manipular sua própria
Criança. Como resultado, ele não deu um golpe, mas, sim, começou a ganhar mais dinheiro.
Entretanto, como nunca se analisou a raiva de sua Criança, ele ainda permanecia um
"neurótico noturno e de fins de semana". Mas a limitada meta original fora atingida e
diminuíram os sintomas decorrentes de sua incapacidade de obter satisfação suficiente para
a Criança porque seu jogo era malfeito.
A fim de que o leitor possa fazer uma boa avaliação desta técnica, devemos
esclarecer que este exemplo representa a síntese de dois casos semelhantes: Mr. Protus1,
que iniciou o tratamento especificamente com o objetivo de aumentar o seu poder
aquisitivo, e nunca admitiria que a terapia tivesse algo a ver com o aumento de seus ganhos
financeiros, embora os seus colegas do grupo de terapia estivessem convencidos disto; e
Mr. Protus2, que procurou o consultório por razões mais convencionais e aumentou suas
finanças como um subproduto da análise de jogos, atribuindo ao tratamento sua melhora na
manipulação de seus contatos comerciais. Os altos e baixos, as compulsões e os impulsos
dos jogadores são particularmente amenizáveis através de tratamento orientado pela análise
de jogos. O jogador de baralho que aprende a lidar melhor com a Criança dos outros, a
resistir à manipulação de sua própria Criança e a conter os próprios impulsos leva vantagem
à mesa. Em particular, os inumeráveis ardis executados por profissionais para enfraquecer o
Adulto e apelar para a Criança perdem a sua eficácia. O resultado é o maior êxito e alívio
de sintomas durante o jogo, proporcionado pela análise de jogos. E o interesse técnico deste
fenômeno é justificável, uma vez que os efeitos terapêuticos não são esotéricos e podem ser
medidos pela simples aritmética.
3. Cura transferencial significa, em termos estruturais, a substituição do pai original
pelo terapeuta e, em termos transacionais, que o terapeuta ou permite que o paciente
reassuma com ele um jogo que fora interrompido na infância pela morte prematura ou
abandono do pai original, ou mesmo oferece-se para realizar o jogo de uma forma mais
benigna do que a usada com o pai.
Mrs. Sachs, a senhora que sofria de enxaqueca e que tinha catexia lábil, mencionada
no Capítulo 4, foi tratada por algum tempo de acordo com estes princípios. A transferência
ativa baseou-se no fato de que seus pais, especialmente a mãe, tratavam-na muito mal
quando ela era pequena. Tinham o costuma de envergonhá-la brutalmente sempre que ela
não conseguia controlar suas necessidades fisiológicas. Uma das lembranças mais
desagradáveis que ela tinha relacionava-se com um tio seu, muito querido, que a pegou no
colo um dia para fazer-lhe carinho e, mesmo depois, de ela ter urinado em seus braços,
continuou com ela no colo; diante disso, sua mãe disse: "Como pode segurá-la quando ela
está nessa condição de sujeira?". Depois que ela relatou isso, o quadro do tratamento
tornou-se mais claro. O terapeuta tinha apenas de responder com amabilidade quando ela
relatava coisas que a envergonhassem. Ele precisou demonstrar esta atitude várias vezes.

112
Depois de um tempo, ficou evidente que ela estava "urinando" verbalmente e, mais tarde,
"defecando" sobre ele, para ver se ele a "mandaria embora", como sua mãe, ou "continuaria
com ela no colo", como seu tio. Enquanto o terapeuta respondeu de modo adequado, as
coisas tornaram-se mais fáceis para ela. Mais tarde, quando ele começou a fazer
interpretações, voltaram as dificuldades. Mesmo a intervenção verbal mais cuidadosa servia
para mudar a situação do jogo tio-sobrinha para o de mãe-filha. O primeiro era um jogo-
teste permissivo e o segundo, de provocação e contraprovocação.
Neste caso, a cura transferencial ocorreu quando ela se convenceu de que o
terapeuta faria o papel do tio, uma de suas figuras parentais originais. Mesmo quando ela o
percebia como mãe, a Criança achava mais conveniente e menos aterrorizante realizar o
jogo mãe-filha com o terapeuta do que com o marido, de modo que, embora o tratamento
agora se tornasse turbulento, as coisas ainda iam melhor na parte externa (aqui o pai não
entrava ativamente na situação). O terapeuta, por um lado, permitia-lhe que reassumisse o
jogo que tinha sido interrompido com a morte do tio, e, por outro, continuar o jogo mãe-
filha de uma forma mais benigna. Em ambos os casos, a Criança obtinha satisfação
suficiente para sentir certo alívio e, além disso, experimentava mais liberdade em relação às
proibições Parentais do que tivera nas situações originais.
Uma paciente reproduziu nitidamente sua cura transferencial no seguinte sonho:
"Enquanto eu estava tomando banho, você levou embora minhas roupas e só me deixou um
roupão. Mas, de algum modo, senti-me melhor". Ela decifrou seu sonho da seguinte
maneira: "Você tinha tirado de mim todos os meus jogo de fantasia neste tratamento, mas o
que você me deu em troca era melhor". Com isto, ela queria dizer que o terapeuta era mais
benevolente do que seus próprios pais. O roupão, naturalmente, representa o jogo que
restou, o que ela está jogando com o terapeuta.
4. Cura psicanalítica significa, em termos estruturais, a libertação da Criança de
suas confusões, tendo como aliado terapêutico um Adulto bastante descontaminado. A
terapia pode ser vista como uma espécie de batalha envolvendo quatro personalidades: O
Pai, O Adulto e a Criança do paciente, com o terapeuta funcionando como Adulto auxiliar.
Na prática, esta concepção tem um significado prognóstico simples, mas importante, e, até
mesmo, decisivo. Como em qualquer batalha, o número de elementos é crítico. Se o
terapeuta estiver sozinho, enfrentando um entente cordiale de todos os três aspectos do
paciente, as chances de sucesso são de três contra um. Isso ocorre freqüentemente com os
psicopatas na psicanálise. Se o Adulto do paciente puder ser descontaminado pela análise
estrutural preliminar e incluído como um aliado terapêutico, então serão dois Adultos
contra um Pai e uma Criança, e as probabilidades de sucesso são as mesmas.
Se o terapeuta puder apelar não somente para um Adulto descontaminado. mas
também para a Criança do paciente, então serão três contra o Pai, com uma probabilidade
correspondente de sucesso. Com neuróticos, no sentido geral do termo, o Pai é o principal
inimigo. Ocasionalmente, com esquizofrênicos, a disposição de forças ótima é Pai, Adulto e
terapeuta contra a Criança e, neste caso, o terapeuta deve apelar para o Pai do paciente e
não para a sua Criança. Do ponto de vista estrutural, a terapia com eletrochoque parece ser,
com efeito, este apelo, com o resultado de que tanto o Pai como o Adulto do paciente
estarão decididos a evitar que a Criança volte a colocar os três em tal situação desagradável
com esses aparelhos de tortura. Mr. troy era um excelente exemplo desta atitude, que ele
manteve ativa e verbalmente por mais de sete anos, reprimido de forma drástica, tanto ex

113
cathedra como racionalmente, qualquer exibição da Criança. O momento da verdade
chegou quando ele começou a ver as crianças reais em seu ambiente como personalidades
individuais, com seus próprios direitos.
A psicanálise baseia-se na associação livre, com suspensão da censura. Isto
significa, em primeira instância, que a Criança falará livremente, sem interferência nem do
Pai nem do Adulto. Na prática, entretanto, especialmente no início, a criança pode ser
preterida e freqüentemente é o Pai quem fala livremente, sem a interferência do Adulto.
Portanto, pode ser necessária alguma habilidade técnica para fazer sair a criança e desviar o
Pai. Mas, nesta situação, enquanto a Criança está falando, tanto o Pai como o Adulto estão
ouvindo e estão cientes do que está ocorrendo. Isso diferencia a psicanálise de métodos
como a hipnose e a narcoanálise, em que o Pai, e geralmente também o Adulto, são
temporariamente desautorizados. Quando a Adulto reassume o seu posto, o terapeuta lhe
conta o que a Criança disse. Este procedimento não é tão convincente ou eficaz como o que
permite ao Adulto funcionar o tempo todo, e aí se situa a superioridade da psicanálise. Na
hipnose, a mãe e a governanta são metaforicamente mandadas para fora da sala e mais tarde
o terapeuta lhes conta o que a criança disse. Em psicanálise, a Criança fala na presença
delas e elas ouvem em primeira não. A análise de regressão, que será discutida mais tarde,
tem esta vantagem, enquanto, ao mesmo tempo, apela mais diretamente à Criança. A
recente aplicação terapêutica da droga LSD-25 parece-nos prometer algo semelhante neste
sentido.(1)
O uso da análise estrutural para descontaminar o Adulto como preparação para o
tratamento psicanalítico já foi mencionado no caso de Mrs. Eikos; e está claro como a
análise transacional, a análise de jogos e a análise de argumentos serviram de base para o
subseqüente trabalho psicanalítico com Mrs. Catters. O desenrolar do argumento é a
substância do processo psicanalítico. A transferência não é simplesmente um conjunto de
reações inter-relacionadas, uma neurose de transferência, mas um drama transferencial
dinamicamente progressivo, que contém, geralmente, todos os elementos e subdivisões de
uma tragédia grega. Assim, como foi mencionado antes, Édipo ganha a vida, na análise de
argumento, não apenas como uma personagem típica mas também como uma personagem
que avança, inexoravelmente, para um destino pré-determinado.

NOTAS

É evidente que uma nota adequada a este capítulo envolveria muito da vasta
literatura sobre psicoterapia. Encontra-se uma lista selecionada no livro de Chicago,
Osychoanalytic Therapy. (2) A descrição, dada por Alexander, da "experiência emocional
corretiva" esclarece ainda mais o caso de Mrs. Sachs e, melhor ainda, o de Mrs. Eikos. Em
termos estruturais, o princípio de Alexander é psicanalítico, pois seu objetivo é tirar a
Criança da confusão para, em linguagem da análise de argumentos, "acabar com a
representação e colocar outra em cena". Como Alexander se expressa, "o velho padrão era
uma tentativa de adaptação da criança em relação ao comportamento parental... A atitude
objetiva e compreensiva do terapeuta permite ao paciente... encarar o antigo problema de
uma nova maneira... Enquanto o paciente continua a atuar de acordo com os padrões

114
superados, a reação do terapeuta conforma-se estritamente à situação terapêutica atual"
(pp.66 e 67). Em termos transacionais, isto significa que quando a Criança do paciente tenta
provocar o Pai do terapeuta, ela se confronta, pelo contrário, com o Adulto do terapeuta. O
efeito terapêutico nasce do desarranjo causado por esta transação cruzada. Em termos de
análise de jogos, a Criança do paciente é freada pela recusa do terapeuta em jogar. Isto é
bem ilustrado pelo caso de Jean Valjean (pp. 68-70).
Fenichel (3) fornece uma discussão técnica do conceito de "melhora transferencial",
com bibliografia.

REFERÊNCIAS

1. Chandler, A. L. & Hartman, M. S. "Lysergic Acid Diethylamide. (LSD-25) as a Facilitating Agent in


Psychotherapy". loc. cit.
2. Alexander, Franz, & French, T. M., Psychotherapy Therapy, Ronald Press Company, Nova York, 1946.
3. Fenichel, O. loc,cit., p.559 e seguintes.

115
15.
TERAPIA DE GRUPO

1. OBJETIVOS

Propomos a análise transacional como método de terapia, por se tratar de uma


abordagem racional e natural derivada da própria situação de grupo. Ela não se baseia no
conceito de "GRUPO" como entidade metafísica ou enteléquia, nem no uso oportunista de
técnicas que não tenham sido originalmente idealizadas para a situação de grupo.
O objetivo da análise transacional em terapia de grupo é conduzir cada paciente
através das etapas sucessivas da análise transacional propriamente dita, da análise
estrutural, da análise de argumentos, até que ele obtenha o controle social. A consecução
desta meta pode ser aferida por meio da observação das mudanças observadas não apenas
nas respostas do próprio paciente mas também, de forma independente, nos
comportamentos das pessoas que lhes são íntimas, sem que elas se tenham submetido à
psicoterapia, como nos casos do filho de Mrs. Enatosky e do marido de Mrs. Dodakiss.
Pode ainda ser comprovada e exercitada através do controle das respostas do paciente em
face das tentativas cotidianas de manipulação praticadas por outras pessoas, como nas
situações de compra e nas transações comerciais ilustradas por Mr. Protus. Supõe-se, em
geral de maneira correta, que os progressos resultantes nas experiências sociais levarão a
uma diminuição das distorções e ansiedades arcaicas, com certo alívio de sintomas,
prognosticável, controlável e inteligível tanto para o paciente quanto para o terapeuta. Em
situações terapêuticas mais intensivas, a análise transacional constitui também uma
preparação útil para a terapia psicanalítica, sendo concomitante com ela.

2. MÉTODOS

Em quase todas as etapas é possível, apropriado e aparentemente aconselhável que o


paciente esteja a par do que já conseguiu, do que está tentando conseguir e, quando estiver
suficientemente educado, do que deseja obter no futuro. Assim, em quase todas as etapas,
há um entendimento pleno entre o paciente e o terapeuta com relação à situação terapêutica.
O paciente é tão bem informado a respeito dos fatores específicos em estudo quanto um
terapeuta aprendiz que se encontre no mesmo estágio de aprendizagem, e a experiência
mostra que ele é capaz de compreendê-los, mesmo quando tenha uma "inteligência"
limitada (de acordo com escalas psicométricas), já que todos os passos são bem
documentados com situações clínicas em que ele próprio esteve ou está envolvido.
Com pacientes que começam a terapia ao mesmo tempo, pode-se realizar todo o
processo em grupo. Os eventuais retardatários, no entanto, precisam de certa preparação em

116
sessões individuais que lhes permitam compreender, até certo ponto, o que está ocorrendo
no grupo no momento em que nele ingressar. Em geral, parece bastar, como bagagem
preparatória, um rápido contato clínico com a análise estrutural, mesmo para o paciente ser
introduzido num grupo muito avançado. Mas se o paciente tiver a oportunidade de testar o
terapeuta e se entrosar com ele de modo a obter alguma segurança sobre a maneira como o
seu jogo será manipulado, isto poderá ajudá-lo a superar a ansiedade de suas primeiras
experiências no grupo. Por outro lado, se ele for excessivamente cauteloso em seu
relacionamento com o terapeuta, em razão de traumas passados, talvez seja mais
conveniente adiar a sua entrada, até que tenha vencido as inibições iniciais.
Passando a fazer parte do grupo, o paciente sujeita-se, sob os devidos cuidados do
terapeuta, aos vários procedimentos analíticos, cujas técnicas foram descritas nos capítulos
anteriores. Ao mesmo tempo, o terapeuta pode empregar quando considerar oportunas,
técnicas emprestadas, tais como interpretações e manobras psicanalíticas, conforme são
usadas comumente. Deste modo, a análise transacional não pretende substituir a terapia
psicodinâmica (1) de grupo, mas oferece uma matriz básica, dentro da qual se podem
encaixar outras operações terapêuticas, de acordo com as inclinações de terapeuta. Ela não
constitui um substituto exclusivo do conhecido arsenal psicoterápico, e sim uma importante
contribuição neste setor.

3. O INÍCIO DE UM GRUPO

Esta seção e a seguinte que tratam da seleção de pacientes, são empíricas, e o


material se baseia em repetidas e extensas discussões em torno da enorme variedade de
grupos com diferentes terapeutas grupais, provenientes de diferentes linhas terapêuticas.
Estas idéias têm sido ampla e criticamente discutidas nos Seminários de Psiquiatria Social
de São Francisco, e os princípios estabelecidos representam, na maioria dos casos, o
consenso majoritário, comprovado pela experiência clínica atual. Primeiramente,
descobriu-se a conveniência de o terapeuta ocupar pelo menos uma sessão longa, (de duas
horas ou mais) discutindo o grupo em formação, antes de dar os primeiros passos práticos.
Os tópicos a seguir foram considerados os mais irrefutáveis e relevantes:
1. Discussão dos aspectos organizacionais da situação terapêutica: procura-se
analisar o modo como o terapeuta os vê, como os pacientes parecem vê-los a partir de seu
ponto de vista e como o interpretam o que participam da discussão. A questão da
"autoridade" é apresentada em todos os seus elementos, da maneira mais completa possível,
através da elaboração de um "diagrama de autoridade". Este quadro começa com os
pacientes e desenvolve-se até a sua conclusão lógica, que pode desembocar no presidente
dos Estados Unidos ou, em última instância, nos eleitores. Discutem-se as supostas
fantasias de cada indivíduo em cada escalão, na medida em que se relacionem com o
esquema. Se o projeto estiver sendo patrocinado por algum estabelecimento que receba
fundos federais, por exemplo, a cadeia poderá estender-se desde os pacientes, seus parentes
e médicos, passando pelo terapeuta, seu supervisor, a diretoria do órgão público, o comitê
governamental, até chegar à Secretaria da Saúde e Bem-Estar Social e ao presidente dos
Estados Unidos. Pode-se atribuir a cada indivíduo ou instituição deste encadeamento, um

117
conjunto de suposições sobre o que poderia ser "bom" e o que poderia ser "mau" no âmbito
do projeto terapêutico. O terapeuta está consciente ou pré-conscientemente cônscio destas
suposições, e a possível influência destas sobre seu comportamento é comentada.
Assim, é bastante concebível que, ocorrendo algo dentro do grupo de terapia, isto
possa vir a perturbar qualquer dos indivíduos pertencentes à cadeia, a ponto de causar não
apenas uma ansiedade local, mas até mesmo interesse nacional. A Administração dos
Veteranos de Guerra, por exemplo, é particularmente suscetível a tais influências remotas, e
tem consciência disso, sendo que cada uma delas constitui uma inibição potencial da
liberdade terapêutica. As Fundações, Universidades e outras entidades oficiais interessadas,
também devem ser consideradas com relação aos planos e interesses privados do terapeuta,
como também quanto ao bem-estar dos pais. Os grupos privados geralmente são menos
contaminados por tais influências. Como muitos terapeutas sabem que os pacientes
trabalham em repartições públicas têm escrito ao Governador de Estado ou ao Presidente
do País, o interesse em dar uma conclusão lógica a este tipo de análise é apenas acadêmico.
2. Discussão das metas de terapia. Freqüentemente, até o terapeuta fica surpreso
com a sua dificuldade em estabelecer com precisão o que realmente está tentando fazer. Ou
seja, em saber o que ele pretende curar nos pacientes, que mudanças ele está tentando
efetuar no comportamento deles e como ele e os pacientes podem aferir quando esses
objetivos foram ou não alcançados. Com relação a este ponto, as metas, mal-definidas,
exatas ou puramente conceituais, são vigorosamente contestadas, numa tentativa de
substituí-las por fórmulas operacionais. Por curioso que pareça, os psiquiatras, apesar de
sua formação médica, são em geral tão confusos neste sentido quanto os terapeutas não-
médicos e, às vezes, é necessário equilibrar-se o fio embotado do sentimentalismo através
da crítica construtiva.
3. A análise transacional realiza-se a partir das próprias motivações e fantasias do
terapeuta com relação ao grupo em perspectiva. Inicialmente, como é natural, ele
apresentará sua formulação Adulta. A partir disso, os elementos Parentais são, então,
cuidadosamente dissecados, adicionando-se o que se apresentar espontaneamente.
Finalmente, o terapeuta estabelece e discute as motivações de sua Criança, das quais ele
tenha consciência. São revistos todos os seus jogos, tanto os autônomos quanto os
aprendidos, e discutem-se os seus possíveis efeitos sobre os futuros pacientes. Assim, o
terapeuta principiante pode ter uma atitude de "conselheiro", uma tendência a jogar "Por
Que Você Não... Sim, Mas", ou pode ter aprendido a praticar psicoterapia de acordo com as
regras do Professor K, ou terapia de grupos segundo as regras de Mr. Y.
4. Discute-se a seleção de pacientes, atentando-se, principalmente, para as atitudes
autísticas, fóbicas ou depreciativas por parte do terapeuta.
Não é fácil para o terapeuta executar um exame rigoroso de seu projeto com total
isenção. A situação é amenizada pelo fato de o grupo ainda não estar formado, de modo que
nada que o terapeuta diz representa um compromisso ou um fait accompli, e tudo está
aberto a discussões futuras. Na prática, sabe-se que a maioria dos terapeutas acolhe tal
investigação inicial e a julgam útil quando se confrontam com os pacientes.

118
4.SELEÇÃO DE PACIENTES

A atitude convencional para com a seleção de pacientes resume-se na seguinte


fórmula geral: "Os critérios para seleção são Bons". Apalavra "bom" é escrita com a letra
maiúscula porque esta suposição está implícita e quase nunca é questionada; raramente os
terapeutas principiantes a colocam em dúvida. Num exame cuidadoso de seu significado,
entretanto, esta afirmação se inverte: "Os critérios para seleção raramente são bons". Em
geral, eles se reduzem aos preconceitos pessoais do terapeuta e, como tal, podem ser
legitimamente aplicados até que ele adquira maior segurança, mude sua atitude ou aprenda
mais; mas é preferível considerá-las sintomas de inadequação profissional.
Como a análise transacional tem sido adequadamente testada com grupos de
neuróticos, pessoas com desordens de caráter, psicóticos recorrentes, casos limítrofes,
psicopatas sexuais, casais, pais de filhos perturbados e retardados mentais, pode-se
empreender com segurança a formação de grupos especializados em cada uma dessas
classes de indivíduo. Mas a análise transacional também tem se mostrado eficaz com
grupos a que chamaríamos ecléticos, por incluírem uma variedade heterogênea de pacientes
enquadrados nas primeiras cinco categorias, independente de idade, gravidade de sintomas,
experiência psiquiátrica, classe social ou inteligência; portanto, tal grupo não-homogênio
pode ser encarado como uma iniciativa viável na prática. O método ainda não foi
suficientemente experimentado com grupos de psicóticos agudos, alcoólatras, viciados em
narcóticos, presidiários e outros casos mais especializados, mas não existe motivo para
hesitar em relação a uma tentativa de aplicá-lo com tais pacientes (já existem grupos-
pilotos bem estabelecidos para todas essas classes, em vários serviços públicos, e o método
também está sendo testado com pacientes "psicossomáticos").
Em geral, o comportamento de um paciente num grupo não pode ser fidedignamente
prognosticado a partir de seu comportamento no dia-a-dia ou em entrevistas individuais.
Um retardado depressivo não continuará necessariamente retardado no grupo, nem um
paranóico alucinado introduzirá suas alucinações no grupo como fator perturbador não
manipulável. A única forma de se ter certeza disso num dado caso, é fazer uma tentativa.
A análise transacional é uma abordagem particularmente fecunda para se lidar com
dois problemas bastante discutidos em encontros científicos e na literatura:
1. O "problema" do "monopolizador" será manipulado com extraordinária
competência por um grupo familiarizado com a análise de jogos;
2. Em tal grupo, o silêncio transforma-se de um "problema" a ser resolvido em um
fenômeno a ser investigado. A questão aqui não se constitui de Interact verborum gratia
verborum, mas sim de uma "interação".
Quanto menos critérios de seleção o terapeuta tiver, mais ele pode aprender. Em
geral estes critérios significam: "Só quero pacientes que façam os jogos que me agradem e
que não me dêem trabalho". Ao convidar pacientes "inadequados" a participarem de seus
grupos, o terapeuta pode aprender novos jogos. Na pior das hipóteses, os critérios podem
basear-se numa mera atitude depreciativa do terapeuta.
A seleção de um grupo particular para um paciente específico oferece, no entanto,
critérios que podem ser racionalmente recorrentes ou com psicóticos, depois de um

119
tratamento com choque, pode ser contra-indicada, pelo menos no início, uma abordagem
Adulta puramente analítica por parte do terapeuta. Tais pacientes podem ser colocados num
tipo especial de grupo, em que o terapeuta prefere trabalhar primeiramente como Pai e não
como Adulto. Até agora, este é o único critério racional que se tem mostrado aplicável a
grupos transacionais.

5. A ETAPA INICIAL

Forneceremos agora dois exemplos clínicos, um para ilustrar a fase introdutória da


análise transacional e o outro para demonstrar o estabelecimento do controle social.

Dr. Q. foi convidado como consultor em um hospital estatal onde todos os


aproximadamente mil pacientes se submetiam a terapia de grupo. Várias abordagens eram
utilizadas pelos diferentes terapeutas: a moralística, a analítica, a reminiscente, a de
"interação", a "de apoio", a da "cadeira quente" e a ab-reativa. Muitos dos pacientes eram
psicopatas sexuais, e o objetivo era reabilitá-los para lhes dar alta com segurança. Um dos

120
primeiros passos do Dr, Q. foi participar de uma reunião de grupo, realizada em uma hora
conveniente para ele. Havia mais ou menos 20 pacientes no grupo, nenhum deles conhecido
seu. Eles já tinham reunido seis vezes antes e este encontro fora planejado para durar uma
hora. O objetivo inicial do Dr. Q. era simplesmente tomar contato com o procedimento
geral seguido no hospital, observar a disposição física e a atitude dos pacientes em geral e
procurar saber o que estes achavam do programa de terapia de grupo, a fim de avaliar em
que medida poderia contribuir com seus serviços. Na Figura 15 reproduzimos o diagrama
de disposição desta reunião.
O Dr. Z., terapeuta regular do grupo, apresentou o Dr. Q. como consultor e, em
seguida, passou-lhe inesperadamente a direção do grupo, dizendo que, como o Dr. Q. tinha
mais conhecimento a respeito da terapia de grupo, ele deixaria o grupo a cargo do recém-
chegado. Então, o Dr. Q. disse que estava lá para auxiliar a execução do programa de
terapia de grupo e que provavelmente obteria maior sucesso em seu objetivo se tivesse
alguma idéia do que os pacientes pensavam do tratamento.
Os pacientes reagiram com grande entusiasmo e vários deles disseram que a terapia
era a melhor coisa que já tinham feito, que pela primeira vez eles sabiam o que significava
viver, que antes cada um tinha vivido num pequeno mundo privado, pensando que todos
estavam contra eles, ou que ninguém se interessava por ninguém, enquanto agora eles
sabiam que quando se chegava a conhecer as pessoas, se poderia gostar delas e ser aceito
por elas; e outras afirmações que mostravam satisfação. Também fizeram algumas queixas
contra procedimentos e terapeutas de grupos específicos, com o mesmo vigor com que
tinham feito os comentários específicos anteriores. Dr. Q. ouviu-os, em silêncio, durante
aproximadamente 20 minutos.
Mr. Um ressaltava que aprendera a olhar para si mesmo e para sua vida de modo
objetivo e que até tinha escrito sua autobiografia, para que pudesse pensar nisso com mais
clareza. "Algumas coisas que escrevi têm sentido, outras me parecem tolice", foi o que ele
resumiu a respeito. Depois que os pacientes discutiram este assunto em termos gerais por
alguns minutos, Dr. Q. perguntou a Mr. Um:
"O que você quis dizer quando afirmou que parte de sua autobiografia tem sentido e
que parte dela lhe parece tolice?"
"Bem, respondeu Mr. Um, parte dela parecia correta e outra parte se parecia com
coisas que a gente faz quando criança. Eu costumava desligar o velocímetro do carro de
meu pai quando o usava, para que ele não ficasse sabendo o que eu tinha feito. Isso é
traquinagem de criança. É assim que meu pai costumava fazer com que eu me sentisse: uma
criança. Mesmo depois de me tornar adulto".
"Eu costumava me sentir da mesma forma", disse um outro elemento do grupo, Mr.
Dois. "Mesmo depois que eu próprio passei a me sustentar financeiramente, quando entrava
em casa e via meu velho sentado lá, sentia-me como criança de novo".
Os demais integrantes do grupo começaram, então, a preencher o tempo jogando
uma partida vívida de "Eu também". Vários deles descreveram suas dificuldades em sentir-
se adultos na presença dos pais, que, de algum modo, às vezes os faziam sentir-se como
crianças. Com o homem mais velho, isto se deu em forma de reminiscências, mas com os
mais jovens, era mais imediato. O mais jovem do grupo, Mr. Três, que contava apenas 21
anos de idade, introduziu uma variante, quando disse que, com ele, isto acontecia com

121
relação à sua mãe e, também neste caso, houve alguns "Eu Também".
Embora o Dr. Q. tenha entrado na sala sem qualquer idéia de introduzir a estrutura
conceitual entre os pacientes, ele sentiu que esta era uma oportunidade boa demais para se
deixar passar. Foi até o quadro-negro e desenhou três círculos separados, como mostra a
Figura 16A.

"Parece-me que vocês estão falando de três coisas diferentes aqui", disse o
terapeuta. "Exatamente como estes círculos. Um é a criança que vocês sentem ser em casa,
um é o adulto que vocês querem ser e o terceiro corresponde a seus pais, que os fazem
sentir-se como crianças".
"É exatamente assim", concordou Mr. Um.
"Há muito de verdade nisso", disse Mr. Dois. "Lembro-me que uma vez, quando eu
era menino..." E relatou uma longa história a respeito de sua infância. Dr. Q. teve a
impressão de que ele "cavava um material significativo no passado" e de que o grupo
estava acostumado a fazer este jogo de "arqueologia" sob a liderança do Dr. Z., seu
terapeuta regular. Depois de ouvir durante alguns minutos, ele interrompeu:

122
"Já que vou ficar com este grupo só por uma vez, seria melhor que nos ativéssemos
a saber como vocês se sentem diante disso, em lugar de entrarmos em detalhes", explicou o
Dr. Q.
"O engraçado é que, mesmo depois de estar vivendo sua própria vida como adulto,
às vezes você age como criança", disse Mr. Quatro.
"Foi isso que nos trouxe aqui da primeira vez", disse Mr. Cinco.
"Comigo - disse Mr. Seis - acontece que, mesmo quando estou longe de casa, ajo da
forma como eu sei que eles querem que eu aja".
"A mim me parece algo assim", ressaltou, desenhando no quadro-negro a Figura
16B, o diagrama estrutural. "Parece que vocês carregam dentro de si esta criança, em algum
lugar, mesmo sendo adulto e que, de vez em quando, esta criança se expõe".
"A pessoa pode nem saber que ela está ali, durante anos", disse Mr. Quatro, com
bastante sensibilidade. "E, então, um dia, pumba! Lá está ela".
"E quando seus pais não estão por perto", continuou Dr. Q., "alguns de vocês
parecem carregá-los dentro de si também, para onde quer que se dirijam, e isso tem algo a
ver com a maneira como vocês agem, conforme já observou um de vocês. Então, se os três
círculos juntos forem considerados sua personalidade, o círculo superior poderia ser sua
mãe ou o pai que vocês carregam com vocês em suas mentes, o do meio poderia ser o
menininho que surge quando vocês vão para casa ou que escapa de algum jeito e os coloca
em situação difícil. Mas, há muito de bom nele, e ele é uma boa criança para se ter por
perto, não havendo motivo para que o chamem de "pueril" nem para que tentem se livrar
dela. O que devem fazer é tentar compreendê-lo, como vocês queriam que seus pais os
compreendessem, quando vocês eram de fato crianças como ele".
"Parece-me bastante razoável", disse Mr. Seis.
"Bem”, disse Dr. Q., "creio que não temos mais tempo agora. Acho que descobri o
que queria saber. Há algo que você gostaria de lhes dizer, Dr. Z.?"
Dr. Z. negou com a cabeça.
"Agradeço a todos vocês por terem vindo", disse Dr. Q., "Espero vê-los
novamente".
"Nós é que lhe agradecemos", disseram os homens ao sair.
O Dr. Z. e o Dr. Q., então, retiraram-se para a sala de conferências, onde o Dr. Q.
faria uma palestra sobre a sua abordagem da terapia de grupo. Primeiramente, ele pediu ao
Dr. Z. que informasse o pessoal a respeito da reunião que tinham acabado de realizar.
Depois de o Dr. Z. fazer uma rápida síntese, que incluía as queixas dos membros do grupo
de terapia, Dr. Q. perguntou:
"Você se importaria se eu acrescentasse mais alguns detalhes?"
"Absolutamente", disse Dr. Z.
Então, Dr. Q. relatou tudo o que ocorrera, de maneira muito mais detalhada,
exatamente como descrevemos acima. Ao terminar, perguntou ao Dr. Z.:
"O que eu contei foi uma cópia fiel do que realmente aconteceu, ou você acha que

123
parte seja produto de minha fantasia?"
"Foi exatamente isto o que aconteceu", disse Dr. Z.
A primeira objeção proveio do Dr. A.
"Você deve ter usado com eles sugestões inconscientes".
"Neste caso, temos Dr. Z., um observador qualificado, para responder a esta
dúvida", disse Dr, B., outro membro do grupo.
Dr. Z. negou com a cabeça. "A mim não me pareceu que ele tivesse feito isso".
"Eles, certamente, lhe entregaram, de bandeja, o que você queria", salientou Dr. C.,
que havia lido um artigo sobre análise estrutural elementar.
"Não acho que tenha sido por causa de sugestões inconscientes", disse Dr. Q. Minha
experiência mostra que, se você ouvir cuidadosamente qualquer paciente ou grupo de
pacientes, durante a primeira hora ou em qualquer outro momento, quase que
invariavelmente você reparará que eles mencionarão algo sobre duas maneiras de pensar,
dois estados de mente ou duas formas de comportamento, uma das quais os está intrigando,
preocupando ou em conflito com a outra. Este, no meu modo de ver, é o aspecto que ocorre
com mais regularidade em todas as entrevistas psiquiátricas, com uma grande variedade de
pacientes, e é uma das poucas coisas, se não é única, que eles têm em comum. Além disso,
os próprios pacientes, de uma forma ou de outra, se referirão a um desses sistemas como
sendo infantil, em geral com uma desaprovação implícita.
"De qualquer modo, não há necessidade de discutirmos se eu lhes transmiti
sugestões inconscientes ou não. Para mim, isto é irrelevante. O importante é observar que
se eu lhes dei sugestões inconscientes, outros terapeutas também o fazem. Em minha
linguagem, todo terapeuta, sabendo ou não, ensina a seus pacientes como ele quer que seja
feita a terapia de grupo. O problema, então, coloca-se na questão de saber se uma maneira
de proceder é melhor do que a outra, e eu acho que a minha tem dado os melhores
resultados até agora, e não apenas comigo. De fato eu os restringi um pouco quando eles
quiseram atuar do modo como estavam habituados com o Dr. Z., falando, com detalhes, a
respeito de incidentes da infância. Neste caso, eu lhes disse explicitamente o que não fazer,
mas disse muito pouco a respeito do que fazer. Eles apenas fizeram o que surgiu
naturalmente".
O que parece curioso é que sempre que o Dr. Q. participava de um novo grupo
neste hospital, como em outros lugares, palavras como "infantil", "imaturo", "brincar" e
"realizar jogos", apareciam regularmente mais do que uma vez, durante a reunião.

6. CONTROLE SOCIAL

O próximo exemplo ilustra o estabelecimento do controle social, particularmente em


relação a "jogos familiares". É um relato da nonagésima reunião de um grupo de mães de
crianças com problemas que tinham iniciado suas atividades 21 meses antes, quando a
assistente social da Seção Infantil da Clínica Psiquiátrica Externa, de um grande hospital

124
metropolitano, selecionou oito mulheres que, segundo ela achava, tirariam proveito de uma
psicoterapia de grupo. Esta assistente social tinha orientação psicanalítica e pouco ou
nenhum contato com a análise estrutural, que, de qualquer modo, ainda nesta época, se
encontrava num estado embrionário; ela também não tinha experiência em terapia de grupo.
Não lhe foi oferecido nenhum critério de seleção e o terapeuta aceitou, sem objeções ou
entrevistas preliminares, todas as pacientes por ela escolhidas. Durante a existência do
grupo, participaram, como observadores, alguns estudantes de terapia de grupo, sendo
quatro assistentes sociais experientes, um psicólogo social e um psiquiatra. O grupo se
reunia regularmente em volta de uma mesa e o quadro-negro era livremente utilizado
quando necessário.
O plano terapêutico erigiu-se em torno das seguintes fases: análise estrutural,
análise transacional, análise de jogos, controle social. Desta nonagésima reunião
participaram quatro pacientes que pertenciam ao grupo desde o início e uma que começou a
freqüentá-lo 5 meses depois. Em suma:
1. Mrs. Esmeralda, uma senhora de 30 anos, que tinha tido algumas entrevistas
prévias com uma assistente social psicanalítica, mas não se submetia a terapia individual
desde que entrara no grupo.
2. Mrs. Garnet, de 40 anos, que estava em tratamento individual com outro terapeuta
durante todo o processo.
3. Mrs. Lazuli, de 45 anos, nas mesmas condições que a anterior.
4. Mrs. Spinel, de 35 anos, que não tinha se submetido a nenhum tratamento
anterior.
5. Mrs. Amber, de 40 anos, a última a ingressar, e que também não tinha tido
nenhuma experiência prévia.
Todas as cinco viviam com seus maridos, e os filhos apresentavam vários tipos de
problemas de conduta como beligerância, isolamento e destrutividade, com sintomas como
insônia, fobia e, no caso de Mrs. Amber, asma. Durante todo o período de tratamento,
nenhuma das pacientes foi examinada individualmente pelo terapeuta de grupo, e nenhuma
solicitou entrevistas individuais, embora não houvesse qualquer proibição expressa neste
sentido.
Como era de esperar, nas primeiras semanas, elas dedicaram-se a jogar "PTA".
Entretanto, tão logo começaram a captar os princípios da análise transacional,
compreenderam a perda de tempo que significavam aqueles jogos e se concentraram em
analisar as transações surgidas no grupo. Quando havia algum acontecimento importante
em casa de uma delas e se sentia necessidade de trazer o problema para o grupo, elas
também o analisavam transacionalmente e passavam pouco tempo jogando "Por Que Você
Não? Sim, Mas", com o que estavam acostumadas no início. Isto é, em lugar de fazerem
sugestões redundantes quando alguma trazia um problema pessoal, elas preferiam analisar
as origens e motivações estruturais dos estímulos e respostas envolvidos no incidente.
O diagrama de disposição desta reunião é mostrado na Figura 16C. O relato original
foi ditado pelo terapeuta depois de uma discussão, na presença da observadora,
imediatamente após o término da sessão. A versão que ora apresentamos foi condensada e
eliminaram-se os detalhes irrelevantes, no intuito de ressaltarmos os pontos que mais nos

125
importam neste momento. Segundo a observadora, ela representa muito bem o que
aconteceu, sem ocorrer a influência de eventuais distorções por parte do terapeuta. O grupo
agora está numa fase mais avançada, mas, pelo fato de esta reunião em especial ter servido
para a consecução de metas mais modestas, o terapeuta estava mas ativo do que de costume
na ocasião.
Posição das pacientes da esquerda para a direita: Lazuli, Mrs. Y (observadora),
Spinel, Garnet. Esmeralda, Amber, Dr. Q. (terapeuta).
Esmeralda: Estou aborrecida desde sexta-feira. Comprei uma mesa e, quando
cheguei em casa, estava insatisfeita. Pensei que, com o que tinha aprendido aqui, seria
capaz de comprar o que realmente desejava, em vez de aceitar o que o vendedor queria me
vender. O Adulto sabia o que queria, mas a Criança não conseguiu resistir ao vencedor.
Q.: É o trabalho do vendedor. Ele é profissional em passar por cima do adulto e
apelar para a Criança do freguês. Se não fosse bom nisso, não continuaria no emprego por
muito tempo. Sendo bom, ele aprende todos os métodos para conseguir que a Criança faça
o que ele quer.
Lazuli: Fico envergonhada de não comprar nada depois de ocupar o tempo dos
vendedores.
Q.: Bem, o ponto fraco de sua Criança é um dos que as outras pessoas costumam
usar para levar vantagem, como você já sabe. Vocês todas têm aprendido muito aqui, e só
precisam usar mais este conhecimento fora daqui. Fazer compras é uma boa situação para
começarem. Ninguém neste grupo deveria comprar qualquer coisa à força, vocês deveriam
ser capazes de comprar o que realmente querem. Vocês terão de manter o seu Adulto com o
controle total, sabendo que o vendedor é um profissional treinado, que tenta atingir sua
Criança. Mas vocês também deverão conhecer suas próprias limitações. Se vocês souberem
que seu Adulto resistirá ao vendedor apenas por dez minutos, então, ao final de dez
minutos, se não tiverem se decidido a respeito da compra, devem se retirar da loja, em lugar
de correrem o risco de deixar sua Criança tomar conta da situação. De qualquer modo,
vocês sempre vão poder voltar à loja em outra ocasião. Se vocês fizerem isso, podem
recuperar seu investimento no tratamento, o que é um bom modo de saber que a terapia as
está favorecendo. Mas o ponto central é que vocês devem aplicar mais seus conhecimentos.
Não basta falar e eu acho que vocês estão prontas para avançar neste sentido.
Esmeralda (que inicialmente era uma mulher tímida e confusa raramente falava no
grupo): minha filha Bea está ficando deprimida e eu acho que é porque, na semana passada,
ela me disse: "Mamãe, Brenda e eu notamos que você e papai não estão mais brigando e
achamos que algo está errado". Acho que, desde que mudei meu jogo, meu marido e eu não
jogamos mais. "Tumulto". As crianças sentem falta e, quando não o fazemos, ficam
desapontadas. Preciso ajudar minha filha neste sentido.
Q.: Você quer dizer que o argumento dela exige que os pais briguem?
Esmeralda: Sim. Não era um argumento construtivo, mas era cômodo para ela, sem
surpresas, e agora que ela já não o possui, não sabe o que fazer.
Q.: Exatamente como observamos aqui, quando o argumento de alguém é
interrompido, a pessoa se sente confusa e deprimida e, talvez, até um pouco zangada.

126
Esmeralda: Sim, eu acho que é isso e penso que posso ajudá-la de algum modo, a
encontrar um argumento mais construtivo.
Lazuli: Você sabe que eu notei que preciso brigar com meu filho e então me queixar
dele a meu marido ou então brigar com meu marido e me queixar com meu filho. É o que
tenho tido que fazer depois que as coisas melhoraram.
Q.: Talvez algum dia possamos descobrir porque sua Criança tem de causar
problemas quando as coisas andam bem. Enquanto isso, o que você está descrevendo é um
argumento maleável, em que existem três partes: uma que é "ela", você; outra que é a
pessoa com quem você briga; e outra que é a pessoa a quem você se queixa. Estas duas
partes mantêm um intercâmbio. Acho que talvez a terceira parte também participe deste
intercâmbio. Provavelmente Mrs. Lazuli às vezes joga um dos outros papéis, em lugar de
ser "ela". Talvez ela desempenhe o papel da pessoa para quem as outras reclamam, ou a da
pessoa de quem alguém se queixa. Em outras palavras, talvez este seja um argumento para
toda a família e qualquer um de seus membros pode jogar qualquer dos papéis, e é nisso
que consiste grande parte de sua vida familiar. Acho que Mrs. Lazuli deveria observar
mais, para ver se isto está ocorrendo.
Amber: Tenho de brigar com alguém para me inte-brigar. É por isso que brigo com
minha filha.
Q. (rindo): Estou contente com o fato de você admitir, finalmente, que gosta de
brigar.
Amber: Tenho que brigar com alguém para me manter interessada.
Q.: Algo semelhante a Mrs. Lazuli?
Até este momento, Mrs. Amber se limitara, no grupo, a disputar com as outras e, em
seguida, defender-se contra as acusações do grupo de que ela era beliciosa. Foi
particularmente incisiva ao defender a origem exclusivamente alérgica da asma de sua
filha. Neste ponto, através de um direcionamento cuidadoso e interrogando-a com tato,
pudemos fazer surgir o processo de suas brigas com a filha, e este, segundo ficou
estabelecido para Mrs. Amber e para o grupo, correspondia ao argumento da menina,
analisado da seguinte maneira:
Primeiramente, a menina se torna hiperativa, o que incomoda a mãe, que briga com
ela. Quando a mãe está suficientemente irritada, a menina sofre um ataque de asma. Isto
deixa a mãe ainda mais zangada. Depois disso, a mãe fica preocupada consigo mesma, com
remorso, e se desculpa com a filha. Este é o final do argumento, e, então, o ataque começa
seu processo normal, até a recuperação.
Q.: Há vários pontos aqui a serem analisados para que Mrs. Amber possa testar se
este processo realmente constitui um argumento. Se isto acontece, caso ela deixasse de
seguir o argumento de sua filha, a menina ficaria ansiosa; e esta é a melhor forma de
descobrir. Por exemplo, que eu aconteceria à filha de Mrs. Amber não tivesse se irritado
diante de sua hiperatividade, mas recebido o fato de alguma outra forma?
Amber: Em outras palavras, eu deveria ignorar isso.
Esmeralda: Não é isso que ele quer dizer, mas sim que você não faça o que o
argumento dela pede.

127
Q.: Exatamente. Você pode ignorar ou continuar agindo assim, ou encorajar tudo
isso, o que lhe convier mais, desde que não seja o que ela espere. Outro ponto que você
pode experimentar é não ficar zangada quando ela tem asma, e, um terceiro ponto, é não se
sentir arrependida se ficar zangada, ou, no mínimo, não deixar transparecer isto. Se se tratar
de um argumento e você o interromper, ou ela ficará deprimida porque não pode ir adiante
ou tentará redobrar seus esforços, ficando mais hiperativa ou tendo um ataque de asma mais
sério, ou ainda, na melhor das hipóteses, ela poderá, simplesmente, conter-se e pensar nisso
e, então, você terá, realmente, avançado bastante.
Esmeralda: Mas não adianta fazer isso uma vez. Você tem de fazê-lo. de modo
diferente, repetidas vezes, até que ela compreenda que você não vai jogar à maneira dela.
Spinel: Já não faço mais o jogo de meu filho, e funciona também. Ele outro dia me
disse: "Vou brincar de Dalton, o fora-da-lei", pegou seus revólveres e amarrou um lenço no
rosto. Em lugar de fazer um tumulto como costumava fazer, eu apenas ignorei isso e,
finalmente, ele jogou o lenço no chão e saiu.
Q.: É um bom exemplo de como funciona um jogo. O Adulto do filho de Mrs.
Spinel diz: "Vou brincar de Dalton", mas o que sua Criança realmente quer é jogar
"Tumulto". Quando ela se nega a jogar "Tumulto", ele também desiste da brincadeira.
(Em termos transacionais, esta era uma Mrs. Spinel bastante diferente da que,
durante todo um ano, insistira desesperadamente em receber conselhos de como manipular
seu filho "delinqüente".)
Q.: Mrs. Garnet, você não falou muito até gora.
Garnet: Meu marido parece-me muito com uma criança e, até agora, tenho jogado
com isso.
Q.: E talvez mais. Talvez às vezes você até mesmo o provoque a ser assim. É
provável que isto aconteça, se este é o jogo que vocês dois realizam. Se você e ele estão
jogando "Lar", você deve precisar disso tanto quanto ele.
Garnet: Eu sempre quebrava seus ovos quentes numa xícara, mas depois eu decidi
parar de fazer o jogo de mãe com ele e não quebrei mais os ovos. Ele ficou muito nervoso e
isto me deixou com raiva. Foi a primeira vez que percebi que fico com raiva de entrar em
seu jogo. Agora, cada vez mais me recuso a fazer o papel de mãe e ele fica cada vez mais
perturbado e minha raiva parece aumentar.
Spinel: Você parece ter descoberto alguma coisa, também.
Q.: Mas seria melhor que pensássemos a respeito disso. Se o argumento dele for
desfeito, isto o deprimirá, e ele pode querer ir embora, a menos que tenha outra escolha.
Talvez você não devesse pressioná-lo tanto.
Garnet: Bem, ele tem escolha porque ele costumava vir à clínica para se tratar e
sabe que sempre pode voltar.
Q.: Então, se ele tem uma alternativa que não seja abandonar o lar, pode ser bastante
seguro para você recusar-se a jogar com ele. Sabem, esta sessão é particularmente
interessante para mim, e é por isso que estou falando mais do que de costume. Agora, todas
vocês aprenderam exatamente o que eu lhes queria ensinar. Sabem algo sobre o Pai, o

128
Adulto e a Criança em cada uma de vocês e podem diferenciá-los e ver alguns dos jogos
que vocês realizam em casa: os mesmos jogos que vocês têm observado entre vocês
mesmas aqui no grupo. E, como Mrs. Esmeralda nos mostrou hoje, toda a família está
envolvida nestes jogos e, se uma pessoa pára de jogá-los, isto arrasa todas as outras,
inclusive os filhos. Então, agora, pela primeira vez, há algum proveito em falarmos sobre
seus filhos, porque passamos a saber do que estamos falando, quais são as questões
concretas e como podemos falar sobre eles de um modo que nos forneça certa
compreensão. Como vocês podem ver, é bastante diferente da maneira como vocês falavam
deles no início. Podem-se lembrar de que, quando faltei há alguns meses e vocês se
encontraram sem mim nesta sessão, vocês voltaram a jogar "PTA" para preencher o tempo
e concluírem que era uma perda de tempo.
Spinel: Sabe, agora eu acho que meu marido poderia estar disposto a vir à clínica
também. Seria possível?
Q.: Você quer dizer que devemos transformar este grupo num grupo de casais, com
maridos e esposas participando juntos?
Lazuli: Meu marido viria também, se fosse possível.
Q.: Bem, se vocês fizerem com que seus maridos entrem em contato com a
assistente social, poderemos ver isso.
Lazuli: Meu marido não faria isto. Eu teria de fazê-lo por ele.
Q.: Ah! Bem, se alguém quer fazer algo neste sentido, deve falar com ela, de
qualquer modo.

Discussão pós-grupo

Presentes: Mrs. Y., observadora; Q., terapeuta.


Y.: Você falou mais do que de costume.
Q.: Eu estava realmente entusiasmado com esta reunião. É a culminância do
trabalho de 21 meses. E acho que o grupo de terapia pode ter sido a causa principal disto;
embora duas delas estejam em terapia individual, a orientação é bastante diferente.
Y.: Elas parecem ter realmente adquirido algum conhecimento técnico bastante
preciso e parecem estar aplicando isto até certo ponto. Mas o que mais me impressiona é o
entusiasmo delas depois de deixarem a sala. Eu as ouvi dizer isto no bar e algumas até se
manifestaram neste sentido para a assistente social. Estou surpresa com o modo como Mrs.
Amber reagiu. Sei que você teve dúvidas a respeito de se ela agüentaria aquilo. Já Mrs.
Lazuli parece estar querendo manter seu relacionamento com o marido.
Q.: Sim, isso vai ser trabalhoso para nós. Até agora, ela aceitou tudo como normal,
mas quando começarmos a falar que ela o mima e protege demais, temo que isso a
balançará. Ela joga dois tipos de "Lar"; um, onde sou seu pai, e outro, em que seu marido é
um garoto.
Y.: Uma coisa desejaria saber é se a mudança no comportamento delas está

129
realmente influenciando os filhos - mas há tantas variáveis que não me parece bom entrar
neste aspecto.
Q.: Deixe que alguma outra pessoa se preocupe com isso, se quiser. O fato de
algumas delas nos dizerem que isto acontece, deve bastar-nos, neste estágio do processo.

7. PROGRESSOS POSTERIORES

Através do protocolo fica evidente que estas mulheres (com exceção de Mrs.
Amber, que ingressou tarde no grupo) têm uma idéia bastante clara de como agem em
diversas situações e do que tentam conseguir com a terapia de grupo. Em alguns casos,
nota-se o controle social da dinâmica diária e familiar. Clinicamente, houve uma
diminuição da fuga fóbica, maior integração com o mundo que as cerca e diminuição da
incidência de sintomas através do controle (e não da fuga) dos envolvimentos sociais. Os
padrões de conduta eram mais flexíveis. Antes, tinha havido uma progressão inexorável,
irreconhecível e estereotipada em direção a um desfecho improdutivo e pouco desejável
com a precipitação de sintomas clínicos relacionados com sua mútua inadequação com os
familiares (jogos). Mas agora este processo poderia ser freado de maneira consciente e
graças ao conhecimento prévio dos possíveis desenlaces: ou logo nos primeiros lances ou
em qualquer ponto crítico subseqüente, como foi sugerido no caso do relacionamento de
Mrs. Amber com sua filha. O Adulto foi tratado como um tipo de músculo que se fortalecia
com exercício. Seu progresso justificava esta atitude. À medida que o tratamento avançava,
o Adulto tornava-se cada vez mais capaz de controlar a Criança e de intervir não apenas em
relações externas, mas também em conflitos entre a Criança interior e o Pai interior. Os
efeitos terapêuticos da melhora das experiências sociais sobre a Criança e sobre o Adulto
não devem ser subestimados. Ao mesmo tempo, houve melhora social e sintomática entre
as pessoas íntimas dos pacientes, inclusive os filhos que eram seu interesse primordial ao
iniciarem o tratamento.
Mesmo que estas melhoras não fossem consideradas extraordinárias em si, em
vistas das circunstâncias, eram de grande interesse para o terapeuta, pois significavam que
ele tinha atingido suas metas iniciais, com a possibilidade de predição, precisão,
inteligibilidade e controle; e particularmente porque era capaz de compartilhar isto tudo
com suas pacientes, passo a passo.
Na nonagésima primeira sessão, as próprias pacientes, sem qualquer sugestão
partida do terapeuta, começavam a transferir a ênfase do estudo de ganhos externos
(primários, secundários, sociais e biológicos) para o estudo de ganhos internos.
Garnet: Notei, outro dia, que eu estava feliz e cantando enquanto lavava a banheira
e, subitamente, me surgiu o seguinte pensamento: "E se meu filho fosse assassinado?"
Parei e me perguntei porque eu tinha pensado isso e, então, achei que não podia suportar
estar feliz e precisava estragar esta sensação. Então, meditei um pouco e vi que tinha feito a
mesma coisa muitas vezes antes e que este era de fato problema meu. Nunca pensara nisto
antes.

130
Lazuli: Faço isso também.
As outras pacientes entraram, então, na discussão e a atenção de todo o grupo
desviou-se de suas projeções e preocupações anteriores para um interesse real por sua
própria psicodinâmica individual. Jogos e argumentos como os apresentados por Mrs.
Lazuli e Mrs. Garnet eram encarados, agora, de outro ponto de vista. Em lugar de enxergá-
los como operações sociais dirigidas a obter o máximo de ganhos externos, elas poderiam
investigá-los como tentativas de lidar com conflitos internos em busca de ganhos internos,
as suas funções de conseguir satisfações sexuais ocultas, tranqüilidade e defesas assumiram
a dianteira. (O que popularmente se costuma denominar "defesas" ou "operações de
segurança" têm a função; igualmente significativa, de prover e eliciar a satisfação de
instintos. Se não, as pessoas raramente conversariam entre si, uma vez que, na maioria dos
casos, a melhor "defesa" é permanecer em silêncio.) O conhecimento e a experiência que
estas mulheres adquiriram no grupo, durante as primeiras noventa reuniões, não apenas
atingiram o seu objetivo terapêutico próprio mas também as prepararam para este novo
empreendimento.
Embora um terapeuta de grupo "psicanalítico" pudesse nesta altura sentir o desejo (e
poderia senti-lo também ao ler este relato) de agir segundo as linhas convencionais, a
experiência do autor é de que esta não é a abordagem mais profícua, mesmo neste estágio.
Portanto, a terapia subseqüente consistiu de análise transacional avançada, com especial
atenção para os seguintes pontos:
1. O surgimento de mais jogos em cada caso, que na superfície parecem diferir entre
si, mas depois se constata possuírem a essência similar específica de cada paciente.
2. O fato de um jogo que a princípio a paciente admite fazer ocasionalmente, logo
aparecer como algo que ela faz quase que de maneira contínua, com as mesmas pessoas,
durante todos os dias.
3. A relação de pertinência desse jogo com um argumento real e de longo prazo,
com todos os três aspectos de protocolo, argumento propriamente dito e adaptação.
4. A análise estrutural de segunda ordem (ver capítulo 16).
Por exemplo, o jogo sutil que Mrs. Amber fazia no grupo não foi percebido por
muito tempo, mas, uma vez reconhecido, logo tornou-se evidente que ela realizava
repetidas vezes durante toda a reunião, e não foi difícil para as outras mães imaginarem o
efeito disto numa menina de 12 anos, como a filha de Mrs. Amber. O jogo era "Beco sem
Saída", e poderia ser assim resumido: "Bem, respondi a suas perguntas e já que vocês
ficaram em silêncio, não há mais nada que vocês possam dizer". Ela fazia este jogo de
tantas maneiras diferentes que durante muito tempo conseguiu esconder o elemento
comum, que era deixar sua interlocutora muda. Estabeleceu-se a relação deste jogo com um
protocolo edípico: ele e seu pai contra sua mãe, ou ela contra os pais, para obter autoridade
sobre a irmã. Logo foi possível o esclarecimento estrutural deste problema para seu
"Professor", o componente Adulto astuto (de segunda ordem) de sua Criança. Neste caso,
era um Professor jesuíta ou talmúdico, um doutor em sofismas e casuística.

131
8. A SAÍDA

A saída de um grupo de terapia (ou de qualquer outro grupo) depende do


desenvolvimento dos jogos do indivíduo. Houve sete elementos que saíram do Grupo de
Mães porque, por várias razões, seus jogos não se realizavam satisfatoriamente e elas não
puderam tolerar a ansiedade resultante disso. Este fenômeno pode ser ilustrado por dois
exemplos simples.
Mrs. Hay, uma paciente clínica experiente, queria jogar "Psiquiatria" com o
psiquiatra, usando o restante do grupo como tema. O terapeuta, sem saber naquela ocasião
o que estava acontecendo, negou-se a fazer o que ela queria e, então, ela alegou que não
podia pagar uma babá para cuidar dos filhos no horário da terapia e disse que ia sair do
grupo. Nunca mais se teve notícias dela.
Mrs. Vahv era uma mulher intransigente que tentou jogar: "Não é Horrível"? Ela era
psicologicamente uma linchadora do Pai e uma punidora de crianças. Retirou-se do grupo
de modo radical, quando este se recusou a fazer seu jogo.

NOTAS

Já expressei meus agradecimentos ao pessoal do Hospital Estadual de Atascadero


por ter sido convidado a participar de seu programa de comunidade terapêutica. A
observadora, durante a nonagésima reunião do grupo de mães, foi Miss Elza Zisovich,
então pertencente à Clínica de Orientação para Adultos em São Francisco. A observadora,
durante a última fase, foi Miss Barbara Rosenfeld, do Serviço Social do Condado de Contra
Costa.
Os aspectos físicos da terapia de grupo não se relacionam com o tema que tratamos
aqui, mas podem ser rapidamente mencionados. Nos últimos dois anos o grupo de Mães
tem se reunido num círculo pequeno, sem mesa, e as transações talvez sejam mais diretas
do que quando se encontravam nas condições anteriores. O tamanho ótimo para um grupo
de psicoterapia foi estabelecido empiricamente como sendo dez integrantes, por Trigant
Burrow, o primeiro psicoterapeuta de grupo dinâmico, em 1928. (2) Atualmente, muitos
terapeutas parecem preferir grupos com oito componentes e alguns até mesmo reduziram
este número para seis. Para um grupo de oito pessoas, uma sessão de uma hora é um pouco
curta, e de duas horas é desnecessariamente longa. Tenho discutido estes problemas com
maior amplitude em outras obras minhas. (3)
Durante seus primeiros quatro anos de existência, entraram 17 mulheres e sete delas
desistiram sem obter ganhos em termos de insight, o que corresponde a um número menor
do que o esperado. (4)
Bach, um dos mais notáveis e criativos autores sobre terapia de grupo, observou,
independentemente, alguns dos principais aspectos relativos a jogos de terapia, há alguns
anos. Ele enfatiza, em especial, o rendimento em termos de gratificações, mais do que a

132
função defensiva do que ele chama de "operações preparadas". O que ele denomina
"operações preparadas" corresponde estreitamente ao que chamamos de "compromissos".
(5)

REFERÊNCIAS

1. BERNE, e., "Psychoanalytic' versus ' Dynamic' Group Therapy". Internat. J. Group Psychother. X: 98-103,
1960.

2. Burrow, T., "The basis of Group-Analysis". Brit, J. Med. Psychol. VIII: 198-206, 1928.
3. Berne, E., "Principles of Group Psychotherapy". Indian J. Neurol. & Psychiat. 4: 119-137, 1953.
4. Idem, "Group Attendance: Clinical& Theoretical Considerations". Internat J. Group Psychoter. V: 392-403,
1955.
5. Bach, G. R., Intensive Group Psychotherapy. Ronald Press Company, Nova York, 1954.

133
QUARTA PARTE

FRONTEIRAS DA ANÁLISE TRANSACIONAL

(Convém que o leitor adie a leitura desta parte do livro até dominar totalmente o
material precedente.)

134
16.
ESTRUTURAS MAIS REFINADAS DA PERSONALIDADE

É bastante possível que a estrutura da personalidade descrita até agora possa ser
adequada para o período de duração de uma terapia, assim como serviu ao autor durante a
primeira fase da formulação clínica destas idéias. O observador de curiosidade acima da
média, entretanto, depois de dominar a aplicação clínica da análise transacional elementar,
começará a notar complexidades que indicam a necessidade de uma elaboração posterior.
Mr. DeuterA, um paciente de 23 anos, relatou o seguinte sonho: "Sonhei que era um
menininhoC que chupava o polegar, embora me sentisse velho demais para fazê-lo, e estava
preocupado com o que minha mãe diria se me viesse. Sabe, eu sempre me senti culpadoP
por enganá-la".
Está evidente que é o AdultoA quem relata o sonho, a CriançaC que aparece nele, e o
P
Pai crítico que o faz sentir-se culpado por enganar a mãe. O sonho em si apresenta um
problema estrutural solucionável através da observação das crianças da vida real.
Um garoto começou a chupar o dedo depois do nascimento de sua irmãzinha,
quando ele tinha quatro anos. A mãe de Aaron disse que ele chupara o dedo até os dois
anos, mas desistira do hábito, até que surgiu em cena o novo bebê. O próprio Aaron achava
que estava errado e se julgava grandinho demais para fazer isso, mas, sempre que as coisas
não lhe fossem propícias, ele chupava o dedo. A irmã agora tinha três anos e, quando tudo
estava bem, as duas crianças brincavam juntas de modo amigável. Aaron ensinava à menina
como construir coisas com blocos e também fazer alguns jogos. Se ela ficasse saliente e
descuidada, ele dizia: "Você não deve fazer isso. Tem de colocar as coisas onde você as
pegou" etc... A mãe contava tudo isso às visitas e, quando elas iam cumprimentar as
crianças na sala de brinquedos, geralmente encontravam Aaron em um desses três estados:
ou arisco e manhoso, ou brincando com a irmã, ou ralhando com ela in loco parentis.
Não é fácil diagnosticar estes três estados de Aaron como Criança, Adulto ou Pai,
respectivamente. Na verdade, a menina também exibia uma tricotomia semelhante, talvez
em imitação ao irmão, empregando para o papel de Pai os elogios que a mãe fazia a
respeito de Aaron.
Observando-se as crianças em geral, pode-se notar a distinção do funcionamento
neopsíquico e arqueopsíquico numa tenra idade, quando o seio da mãe ou a mamadeira
começam a ser tratados como objetos distintos, com uma realidade externa própria. Mais
tarde, o papel de Pai começa a aparecer nelas, em imitação ou aliança com os pais reais.
Aaron exibia as qualidades infantis apropriadas a sua idade: uma atitude protetora
em relação à irmãzinha; astúcia no trato com as pessoas e coisas, juntamente com reações
várias que em sua maneira usual disponível de lidar com prazer e frustração; e, além disso,
um fenômeno regressivo - a retomada de um modo de reação arcaico anteriormente
abandonado - chupar o dedo. Estas classes de comportamento tornam possível traçar um
diagrama estrutural para esta criança, como a Figura 17A: o estado do ego Parental que

135
Aaron mantinha quando se comportava in loco parentis; um estado do ego Adulto que
mediava sua manipulação de blocos, jogos e pessoas, juntamente com reações emocionais
adequadas a sua idade; e um estado do ego de Criança, em que ele regredia a formas
anteriormente abandonadas de comportamento. Era o pai que o fazia sentir-se perturbado
quando estava chupando o dedo, e o Adulto que, examinando esta conduta, achava que algo
estava fora de lugar. Em síntese, a estrutura de sua personalidade era semelhante à de um
adulto. Aaron se assemelhava, em muitos aspectos, com o modo como Mr. Deuter se via
em alguns de seus sonhos.
O que tinha acontecido com Mr. Deuter era o seguinte: quando ele estava na
situação e no estado de mente representado por seu sonho, aproximadamente com seis anos
de idade, sua irmã mais velha entrara subitamente no quarto para lhe dizer que sua mãe
tinha sido ferida num acidente. Esta estrutura psicológica global se fixara traumaticamente.
Assim, quando a Criança dele começou a m anifestar-se anos mais tarde, geralmente em
situações em que ele fora surpreendido fazendo algo errado, era toda a estrutura psicológica
que estava sendo revivida. Para representar isso num diagrama estrutural, não apenas o
impulso de chupar o dedo, mas também o sentimento de culpa e a avaliação objetiva devem
ser incluídos como parte da Criança que aparecia no sonho. O estado da mente em que ele
relatou o sonho constitui o Adulto, e o pai está representado por seus atuais sentimentos de
culpa em relação a todos os meios que ele empregou para enganar sua mãe. Na figura 17B,
portanto, a Criança reproduz a Figua 17A, estrutura de personalidade completa de uma
criança com a atitude regressiva de chupar o dedo, enquanto o Adulto e o Pai de Mrs.
Deuter podem ser representados do modo usual.
Isto significa que, numa análise detalhada, vê-se que "a Criança" consiste de um Pai
arcaico, um Adulto arcaico e uma Criança ainda mais arcaica. No momento, "a Criança"
estava traumaticamente fixada, ela já compreendia uma personalidade completa com todos
os três elementos. Clinicamente, em muitos casos, é suficiente tratar a Criança como se
fosse uma entidade indiferenciada, mas, em indicações especiais, talvez seja aconselhável
fazer uma análise mais detalhada deste aspecto. Esta estrutura interna é o que
decisivamente diferencia a Criança fenomenológica do Id psicanalítico conceitualizado e
não estruturado. A Figura 17B pode ser chamada de análise estrutural de segunda ordem.
Em casos raros, é possível, até mesmo, a realização de uma análise estrutural de
terceira ordem. A criança real que está chupando o dedo, com dois ou três anos de idade,
talvez já tenha um Pai primitivo (a vocação de um estado do ego Parental) e um Adulto, e,
às vezes, ela pode também regredir a um estado do ego que representa, digamos, um trauma
de desmame mais primitivo. Encontramos, assim, (Figura 17C) a Criança3 (trauma de
desmame) presente na Criança2 (atitude regressiva de chupar o dedo), que é o aspecto
arcaico da Criança1 (a de seis anos). Esta é a situação bem conhecida que é simbolicamente
representada pela lata de fermento em pó que mostra, no rótulo, o desenho de uma menina
que tem outra lata igual há outra menina, com outra lata menos, e assim ad infinitum.* A
Figura 17C representa uma análise de terceira ordem de tal seqüência de desenvolvimento.
Voltando agora ao Adulto, parece que, em muitos casos, certas qualidades infantis
se integram ao estado de ego Adulto de uma maneira diferente do processo de

*
Berne usa esse exemplo para referir-se aos estados de ego dentro dos estados de ego. (nota do revisor
técnico)

136
contaminação. O mecanismo desta "integração" ainda não foi elucidado, mas pode-se
observar que determinadas pessoas, quando funcionando qua Adulto, têm um encanto e
uma simpatia que são reminiscências dessas características exibidas por crianças. Junto
com isso, aparecem certos sentimentos de responsabilidade em relação ao resto da
humanidade que podem ser expressos pelo termo clássico pathos. Por outro lado, há
qualidades morais que são universalmente esperadas de pessoas que assumem
responsabilidades adultas, atributos como coragem, sinceridade, lealdade e fidedignidade, e
que não correspondem a meros preconceitos locais, mas a um ethos de alcance mundial.
Neste sentido, podemos dizer que o adulto contém aspectos éticos e infantis, mas esta
continua a ser a área mais obscura da análise estrutural, de modo que é impossível, no
presente momento, esclarecê-la clinicamente.

Entretanto, para fins acadêmicos e a fim de explicar certos fenômenos clínicos, seria

137
conveniente subdividir o Adulto em três áreas. Transacionalmente, isto significa que
qualquer delas que funcionasse como Adulto deveria exibir, em termos ideais, três tipos de
tendências: atratividade e simpatia pessoais, processamento de dados objetivo e
responsabilidade ética, representando, respectivamente, os elementos arqueopsíquicos,
neopsíquicos e exteropsíquicos, "integrados" no estado do ego neopsíquico, talvez como
"influências", do modo descrito no Capítulo 20. Esta pessoa "integrada" é charmosa etc... e
corajosa etc., em seu estado Adulto, quaisquer que sejam as qualidades que ela tenha ou
não em seus estados do ego de Criança ou de Pai. A pessoa "não-integrada" pode reverter-
se em charmosa e achar que deveria ser corajosa.
Mr. troy é um bom exemplo da estrutura mais refinada do Pai. Seu pai, como outros
seres humanos, exibia todos os três tipos de comportamento: exteropsíquico, neopsíquico e
arqueopsíquico; e Mr. Troy, em seu estado do ego Parental costumeiro, imitava estes
comportamentos. Como seu pai, ele exibia reações violentas e irracionais, especialmente
com relação a crianças. Além disso, ele mostrava uma perspicácia superficial ao lidar com
"mulheres", que também copiava do comportamento do pai. (Era diferente, por exemplo, de
sua complacência pueril e ansiosa na presença de "senhoras".) E, com certo tipo de
mulheres, ele se permitia um tipo de atitude irônica e sádica como a que levara sua mãe a
divorciar-se do pai. De modo idêntico, no grupo, Magnólia exibia a mesma intolerância
"tradicional" de sua mãe, um "conhecimento superior" de gramática e dicção como a de sua
mãe e sua petulância, também. Os outros membros do grupo reagiam a estas manifestações
com considerável irritação. Eles percebiam claramente que não era Magnólia, mas a mãe
dela, quem estava lá com eles, pondo, como costumavam dizer, um "limite" nas atuações.
Eles não queriam "pais" no grupo. Quando a "verdadeira Magnólia", ou seja, seu adulto e
sua Criança, emergiu no decorrer da terapia, era bastante diferente e foi bem recebida.
Estes detalhes estão representados na Figura 17E, em que mostramos com uma
explicação mais completa tanto o corte "horizontal" interno do Pai na Criança, Adulto e
Pai2, como a separação "vertical" das influências paternal e maternal. O Pai2 , o "Pai dentro
do Pai”, significa, naturalmente, a influência dos avós defensores das atitudes "tradicionais"
da família, que podem envolver qualquer coisa, desde a virtude no vício, até um orgulho
social, militar, comercial ou estóico. Uma análise de terceira ordem, como a da Figura 17F,
subdividiria o Pai2 em Criança, Adulto e Pai, este último representando os bisavós.
Com um bom material genealógico, a estrutura mais refinada do Pai poderia
retroceder ainda mais no passado, seria possível chegarmos ao primeiro ancestral do
homem.
A Figura G representa uma análise estrutural de segunda ordem. Se tal digrama for
construído passo a passo, no decorrer de uma terapia prolongada e com base no material
clínico, o paciente pode ficar totalmente equipado para enfrentá-lo à altura e compreender o
significado pessoal de cada região. Uma análise estrutural assim avançada talvez seja
aconselhável ao lidar com problemas de caráter. São de especial interesse a parte Criança
do Pai e a Parte Adulto da Criança.
Um outro exemplo mostrará como pode emergir, numa situação clínica, uma
estrutura de segunda ordem. Uma mulher de 25 anos, Miss Zoyan, descreveu um período
desesperador de sua vida, aos dez anos de idade. Pertencia a uma família muito devota e,
nesta época, ela começou a pensar obsessivamente se Jesus tinha pênis. Quando estes

138
pensamentos ocorriam, ela se dizia: "Você não deve pensar nessas coisas. É pecado". Ela,
então, buscava fazer alguma coisa para "ocupar a mente", tal como construir uma casa de
bonecas. Miss Zoyan contou esta história no grupo com considerável objetividade, e, em
seguida, acrescentou: "Devo dizer que não me orgulho de mim por ter tido tais
pensamentos, mas, na época, eles apareciam com muita força, apesar de meus esforços para
controlá-los".
A análise estrutural desta passagem pode ser compreendida através de uma consulta
à Figura 17B. A mulher de 25 anos, que participava do grupo e relatara estes
acontecimentos de modo objetivo, estava falando de seu estado do ego Adulto,
representado pelo círculo do meio, A. A apologia séria, mas não desprezível, que ela coloca
no final, implicava um Pai de primeira ordem, alerta, porém não muito severo, representado
pelo círculo superior, P, e se refletia na qualidade real de seus julgamentos Parentais atuais,
quando os exibia. O que ela estava descrevendo era um completo estado do ego da
infância, representado por todo o círculo inferior, C1. Esta é a análise estrutural de primeira
ordem.
Seu estado mental na idade de 10 anos, do modo como ela o relatou, compreendia
três componentes. Inicialmente, havia o elemento arcaico, que forçava sua entrada na
consciência, e isto está representado pela Criança de segunda ordem, C2. C2 sofria a
oposição do Pai de segunda ordem (P, no círculo inferior), com a advertência: "Você não
deve pensar nestas coisas", que, historicamente, mostrou ser a voz internalizada de sua mãe.
O conflito foi resolvido oportunamente pelo Adulto de segunda ordem (A no círculo
inferior), ao ocupar-se de atividades outras. Esta é a análise estrutural de segunda ordem.
Ela era capaz de relembrar e relatar estas coisas porque seu Adulto de primeira
ordem estava em alta catexia e seu Pai de primeira ordem estava relativamente apagado. Os
outros membros do grupo não conseguiam lembrar ou relatar tais conflitos da infância, por
causa da pressão persistente em seus pais de primeira ordem e da catexia relativamente
pobre de seus Adultos de primeira ordem.
Restava, no caso de Miss Zoyan, resolver o enigma da Criança de segunda ordem,
C2. Algumas das indicações eram as seguintes: durante seu quarto ou quinto ano de vida,
disseram-lhe que Jesus era um homem que vivera há muito tempo. O objetivo desta
informação era religioso-histórico, mas o Adulto (de terceira ordem) inquisidor de quatro
anos recebeu-a anatomicamente, em toda a sua inocência. Quando ela tentou discutir suas
conclusões, ainda em toda a sua inocência de quatro anos se fixou e reapareceu como um
corpo estranho e blasfemo (C2) na mente da menina de dez anos. O completo estado do ego
dos dez anos (C1), por sua vez, funcionava como a Criança na mulher adulta.

NOTAS

Este capítulo tenta simplesmente ilustrar fenômenos cuja demonstração clínica


consistente exigia um volume completo.
O material clínico sobre Mr. Deuter foi modificado para que ficasse mais claro. Dr.

139
Robert Wald, do Instituto de Neuropsiquiatria Langley Porter tem avançado algumas idéias
interessantes e originais sobre este tipo de sonho.
O problema da luta de fermento em pó é colocado por Korzybski como o problema
do mapa, que corresponde, estruturalmente, ao exemplo presente. Um mapa ideal conteria o
mapa do mapa, e assim por diante, como discutido pelo lógico Josiah Roice. (1)
O id foi descrito por Freud como "um caos, uma caldeira de excitação fervente (...)
não tem nenhuma organização e nenhuma vontade unificada (...) as leis da lógica (...) não
condizem com os processos do id. Não há nada no id que possa ser comparado à negação".
(2) Uma vez que o estado do ego Criança reproduz o estado do ego da criança real, a
diferença torna-se imediatamente aparente. Uma criança tem organização, vontade
unificada, lógica e, certamente, negação. Também, diferentemente do id, a criança tem
noção de bem e de mal. Tem surgido considerável confusão a respeito, em razão do uso
generalizado e inadequado da palavra "id" pelos próprios psicanalistas.
As características do Pai, do Adulto e da Criança, na criança real, correspondem
exatamente ao que Piaget discute em alguns de seus estudos bem conhecidos (3,4,5) A
vocação do Adulto na Criança é assunto de um dos trabalhos mais interessantes de Spitz.
(6) O trabalho de Melanie Klein (7) e de sua escola sobre "os primeiros estágios do
superego" trata extensamente do que aqui chamamos de "a vocação do Pai".
A estrutura de segunda ordem do Adulto suscita problemas semelhantes aos que se
relacionam com o "ego autônomo", e tais problemas ainda não foram absolutamente
resolvidos. Esta nossa posição atual baseia-se em considerações tanto antropológicas
quanto clínicas, quais sejam: as pessoas são as mesmas em todo o mundo. Seria arriscado
discutir problemas tais como "satisfações autônomas" no atual estágio limitado de
conhecimento. É possível demonstrar, no entanto, que a descrição formal de neopsique, que
já demos, como um computador de probabilidade parcialmente autoprogramável, com
características específicas de feedback, resultaria numa "busca de fidedignidade", num
sistema de processamento de dados "imparcial" com sinais especiais representando um
"instinto de dominação". A programação "primária" deste sistema poderia ser arranjada de
modo a variar entre fontes internas ("arcaicas") e fatores paramétricos externos,
representando, respectivamente, as influências da arqueopsique e da exteropsique.

REFERÊNCIAS

1. Korzybski, A., Science and Sanity. Science Press Company, Lancaster, Pa., 1941, p. 751.
2. Freud, S., New Introductory Lectures on Psychoanalysis, loc. cit., p. 140ss.
3. Piaget. J., The Moral Judmente of the Child, loc. cit.
4. Piaget, J., The Construction of reality in the Child, loc. cit.
5. Piaget, J., Play, Dreams and Imitation in Childhood. W. W. Norton & Company, Nova York, 1951.
6. Spitz, René A., No and Yes. Internacional Universities Press, Nova York, 1957.
7. Klein, Melanie, The Psycho-Analysis of Children. Hogarth Press, Londres, 1949. Grove Press, NovaYork,
1960.

140
17.
ANÁLISE ESTRUTURAL AVANÇADA

A análise estrutural avançada é particularmente útil no tratamento de desordens de


caráter e da psicopatia. Devido a sua complexidade, não trataremos apresentar sua
aplicação sistemática em um único caso. Em vez disso, ofereceremos alguns exemplos de
características especiais, a fim de ilustrar algumas de suas possibilidades.

1. ANÁLISE DA ESTRUTURA PARENTAL

Já descrevemos o estado do ego Parental de Mr. Troy, que reproduzia a atitude de


seu pai em relação ao ambiente. Isto incluía uma atitude beligerante para com as crianças
(Pai dentro do Pai, transmitido pelo avô paterno); um conjunto de preposições mal provadas
sobre as mulheres e seu comportamento (Adulto no Pai, transmitido pelo pai); e uma
atitude arrojada em relação à promiscuidade (Criança no Pai, derivada da atitude e
comportamento do pai). No estado Parental que Mr. troy conservava dentro do grupo, ele
reproduzia as atitudes de todo os três aspectos de seu pai, como está ilustrado na Figura
18A.
Na época em que procurou o Dr. Q., Mr. Troy funcionava bem como Adulto
autônomo em seu trabalho noturno como porteiro de um salão de dança público. Ele
gostava deste trabalho porque se harmonizava com todos os três aspectos de sua
personalidade e, nesta situação, ele ficava livre de conflitos. Seu próprio Adulto podia
manipular os problemas materiais, sua Criança gostava da atmosfera turbulenta e não havia
nada que pudesse ser reprovado pelo Pai; na verdade, a criança em seu Pai encorajava a
vida viciosa que o ambiente propiciava.
Entretanto, alguns dos clientes logo descobriram que Mr. Troy reagia a caçoadas.
Nestas ocasiões, ele passava de seu estado do ego Adulto para o Parental, defendendo-se
contra a raiva que elas provocavam em sua Criança. Quando estava perturbado, para
sermos mais exatos, sua jovialidade desaparecia e ele se tornava pomposamente severo,
dizendo algo como: "Eu não tenho de escutar este tipo de absurdo infantil. Sumam!" Era a
reprodução de uma atitude de censura de seu pai, derivada de seu avô.
O caso de Mr. Troy ilustra a estrutura de certos tipos de ofensas de caráter como de
certos tipos de comportamento psicopático. A reação característica de desaprovação
intransigente com a qual ele manipulava uma grande variedade de situações
desconfortáveis era, na verdade, dirigida contra sua própria Criança e provinha do aspecto
Parental de seu Pai. Esta era a origem estrutural de sua defesa de caráter. Quanto ao lado
psicopático, o interesse de sua própria Criança na vida viciosa era não apenas permitido,
mas realmente encorajada pela Criança de seu Pai. Não era por descuido parental que ele
podia jogar com as mulheres; durante sua adolescência, seu pai realmente lhe tinha dado

141
demonstrações nesta área e tinha discutido com ele a este respeito. No jargão estrutural, a
questão não se resumia a "uma lacuna de seu Pai", semelhante ao que Johnson e seus
colegas (1) chamam de "lacuna de superego", mas tratava-se de uma provocação parental
"inconsciente" positiva.

Seu pai tinha-lhe "ensinado" outros jogos, tais como os baseados em


irresponsabilidade financeira, mas a Criança de Mr. Troy os rejeitara porque, neste aspecto,
o lado correspondente à Mãe de seu estado do ego Pai ainda era afetivo. Mas, em razão de
seu próprio comportamento, ela abdicara como Pai no campo das relações homem-mulher e
também magoara tanto a Criança de Mr. Troy, que ele revelava um interesse especial em
explorar as mulheres. Sua promiscuidade, portanto, se baseava em três fatores estruturais:
uma criança com um interesse idiossincrático, encorajamento do Pai Parental e uma lacuna
na Mãe Parental. Isto está representado na Figura 18B.
A transmissão de "psicopatias" culturais ilustra dramaticamente os princípios da
análise estrutural avançada. O roubo entre os ciganos, a caça a cabeças no Amazonas, a
pirataria em Barbary Coast, a criminalidade na Máfia e os risinhos maliciosos entre certas
classes de países civilizados têm, provavelmente todos, a mesma estrutura da
promiscuidade de Mr. Troy, de acordo com a evidência encontrada nos livros populares. É
o que se resume no epigrama: "Para fazer uma dama, começa-se com a avó", isto é, com o
Pai do pai.
O canibalismo e a crueldade entre os fijianos é um bom exemplo para estudo, pois a
história de Fiji é bem documentada. (2) A crueldade dos caciques fijianos foi transmitida de
geração a geração não apenas porque ela não sofria proibição parental, mas também porque
as atividades dos ancestrais dos caciques realmente estimulavam, através de exemplos, esta
exibição da Criança não-adaptada. Quando os caciques se converteram ao Cristianismo, o

142
Pai interno foi substituído por uma autoridade Parental externa. Inicialmente, havia
explosões esporádicas de crueldade, mas agora, passadas algumas gerações, os fijianos
estão entre as pessoas mais bondosas e mais sensivelmente educadas da face da terra. O pai
interno de um jovem fijiano contemporâneo inclui um Pai de segunda e mesmo de terceira
ordem que proíbe crueldades, onde centenas de anos atrás, antes das conversões lotu,
incluía uma subordem indefinida de Crianças que se glorificavam com tais atividades. O
incrível transtorno psíquico que pode ocorrer quando um Pai interno é substituído por uma
nova influência exteropsíquica é definido, de uma forma bonita, Margaret Mead em seu
persistente estudo sobre os habitantes da ilha Manus. (3) A compreensão de tais mudanças
históricas e culturais facilita a compreensão estrutural da mulher que segue os passos de sua
mãe mexeriqueira e promíscua, e do assassino profissional cuja mãe defende
agressivamente seu comportamento criminoso quando ele é levado a julgamento.
O caso das irmãs Triss ilustra a situação estrutural em famílias onde os irmãos se
portam diferentemente. De todos os fatores envolvidos em tais conclusões, a posição
estrutural é a que pode ser expressa de forma mais convincente, sucinta e precisa, embora
deixe muitas questões sem resposta. Quando esclarecem outros fatores eles geralmente
podem adequar-se com bastante clareza à análise estrutural.
O avô Triss ficou rido quando já era maduro, e logo assumiu o papel de um
patriarca ditatorial que exigia completa submissão de seu clã, usando o poder do dinheiro
como sanção para dar força à suas exigências. Todos o obedeciam, exceto um genro que se
rebelou, sem êxito, durante muitos e muitos anos e, finalmente, abandonou a mulher, com
duas filhas, Alice e Beta, de oito e quatro anos, respectivamente. A mãe era tão submissa à
vontade do avô que deixou de usar o nome de casada por ordem dele, e registrou as duas
meninas com o sobrenome Triss.
Mrs. Triss, entretanto, tentou escapar da rigidez do avô: na adolescência, ela era
uma homossexual enrustida, aberração de sua Criança que o Avô Triss fora inclinado a
tratar indulgentemente, enquanto ela o obedeceu em outros aspectos. Ela aparentemente
suspendeu estas atividades depois que se casou, com exceção de algum jogo sexual com a
menina mais velha.
Depois de um ou dois anos, quando Alice tinha nove anos, ela ficou mais cautelosa,
em face da compreensão crescente da menina do que estava ocorrendo, e, daí em diante,
desistiu de atividades sedutoras. A presença de Alice também protegia Beta de tornar-se o
objeto de tais atenções da mãe.
Alice tornou-se uma homossexual fixada. Nos anos futuros, o principal obstáculo
para sua felicidade era o medo de que seu pai divorciado descobrisse o que ela era, e, por
esta razão, ela nunca o visitou, muito embora ele morasse a pequena distância de seu
apartamento, em Greenwich Village. Como sua mãe, ela era submissa em muitos outros
aspectos. Embora ela se entregasse, de alguma forma, à vida boêmia com os amigos, ela era
correta e comportada na presença de pessoas mais velhas.
Betty, por outro lado, apesar de heterossexual, estava em revolta ativa contra os
padrões de classe média de sua mãe e de seu avô, e era vista por eles como atrevida e
irrevogavelmente corrupta. Ela tinha o mesmo sentimento de culpa, em relação à mãe, que
Alice tinha para com o pai.
Estes dois resultados diferentes no caso de pessoas com os pais reais idênticos não

143
foram difíceis de compreender do ponto de vista estrutural. A posição e os sentimentos de
culpa de Alice, com relação a sexo, eram determinados pela Criança da mãe e pelo Pai do
pai, enquanto sua atitude social seguia o Pai da mãe. A atitude social de Betty e a culpa
resultante desta atitude eram influenciadas pela Criança do pai e pelo Pai da mãe, enquanto
sua sexualidade provinha do Pai do pai. Isto pode parecer mais simples do que soa a nossos
ouvidos. A estrutura Parental está mostrada na Figura 19A.
Por causa da atitude do avô Triss, Mrs. Triss não tinha nenhuma proteção Parental
contra seus impulsos homossexuais. Portanto, sua Criança era livre para dedicar-se a estas
atividades e seduziu a Criança de Alice. O aspecto de pai do pai da Alice fazia com que ela
se sentisse culpada, mas não o suficiente para desistir. Isto está representado na Figura 19B.
Já que Alice era a filha preferida da mãe, ela sentia a influência da forte proibição Parental
de sua mãe contra o comportamento impudico e procurava satisfazer os desejos do Avô
Triss em atividades outras que não a sexual.
Betty era a preferida do pai. Se ela, de algum modo, sentia as possibilidades de
satisfação homossexual no lar, sua Criança a adaptava à influência do pai, e ela resistia a
estas possibilidades. Mas a própria Criança rebelde de seu pai, que o fizera abandonar o clã,
também seduzia Betty a rebelar-se contra os princípios e valores do clã. Esta rebeldia, no
entanto, tornou difícil para ela enfrentar a desaprovação da mãe, herdada do Avô Triss via
Pai da mãe. Isto está representado na Figura 19C.

2. ANÁLISE DA ESTRUTURA DA CRIANÇA

A Criança operacional, observada clinicamente entre pacientes externos ou na


prática privada, manifesta-se de quatro diferentes maneiras.
1. Pode assumir a forma de uma atitude caracteriológica. É muito comum uma
receptividade ingênua e maravilhada conhecida vulgarmente como "O Camponês" ou
"Caramba! Você sabe tudo, professor!". Neste estado, o paciente faz perguntas e dá a
impressão de se extasiar diante da virtuosidade e da onisciência do terapeuta. Uma
manifestação semelhante é a afetação indefesa conhecida como "Pobrezinho de mim".
2. Pode haver intromissões breves e episódicas da Criança na atividade do Adulto,
como quando Mr. Ennat interrompia suas discussões judiciosas com os golpes que dava
com o pulso.
3. A Criança pode estar ativa com o Adulto, e exibir-se através de gestos e inflexões
de voz inconscientes. O movimento de um único grupo de músculos faciais, mesmo que
não seja por mais do que poucos milímetros, pode ser suficiente para denotar este tipo de
atividade.
4. A Criança pode estar observando passo a passo a progressão de um jogo sem
nunca se mostrar abertamente, a menos que algo de errado aconteça. Se isto acontecer,
pode haver uma única observação astuta, suscetível de passar facilmente despercebida.
Logo daremos um exemplo deste fenômeno revelador. Nos três primeiros casos, a Criança
exibe-se como uma totalidade integrada, de modo que suas estruturas não são de fácil

144
detecção. Este quarto caso é uma manifestação de segunda ordem, que é uma exibição de
um único aspecto na Criança, comumente conhecido como "O Professor".

Mrs. Quatry era uma paciente experiente, Já tinha passado por três terapeutas e
conseguido manejar a todos como queria, antes de terminar o tratamento com eles. Ela
cooperava com o Dr. Q., mas às vezes dizia: "Sou burra. Não consigo entender". Dr. Q.
suspeitava que seu Adulto estivesse entorpecido por contaminação, mas não acreditava que
sua Criança fosse tão estúpida quanto ela pretendia aparentar e achava que ela estava
realizando um jogo cuja origem e motivação ainda não estavam claras.
Após algum tempo de tratamento semanal, ela relatou um sonho, falou um pouco e,
como era de costume, ficou à espera de algum comentário de Dr. Q. Este a encorajou,
dizendo: "É interessante". Mrs. Quatry olhou-o com desaprovação e afirmou: "Esperava
que você dissesse mais do que isso. Você deveria me dizer que o sonho tem um significado
sexual".
Em outra ocasião, ela contou um incidente doméstico, evidentemente na expectativa
de que o Dr. Q. lhe dissesse que ela estava certa e seu marido, errado. Dr. Q. lhe perguntou
o que aconteceria se ele lhe dissesse isto: "Ah! Assim eu me sentiria melhor", disse ela. "E
se eu dissesse que seu marido estava certo e você errada?", perguntou ele. "Ah! Isso eu já
sabia!", respondeu ela.
Era evidente observar o andamento de seus jogos com considerável cuidado era uma
característica de Mrs. Quatry. Quando ela se zangou com o Dr. Q. pelo fato de ele
manipular "erradamente" seu sonho, ela estava desempenhando a função de um professor
ou supervisor psiquiátrico, uma posição notável para alguém que insistia constantemente
em se dizer a pessoa mais burra ou estúpida do grupo. A discussão do incidente doméstico

145
mostrou a mesma avaliação astuta do que estava ocorrendo. Ela antes já se mostrara a
certos psicoterapeutas experientes como uma pessoa que queria obter certo "respaldo
terapêutico" para seus argumentos domésticos, e, agora, tentava envolver Dr. Q. no mesmo
jogo com três participantes, em que aparecia seu marido. Mas, como ela deu a entender
com toda clareza, alguma parte de sua personalidade sabia que era este o seu objetivo.
Este tipo de astúcia ao avaliar e manipular relações pessoais é um aspecto
importante no crescimento da personalidade da criança, e faz parte de seu funcionamento
neopsíquico, uma vez que requer um processamento de dados sensível e objetivo baseado
na experiência. Por esta razão, talvez seja correto diagnosticá-lo como proveniente do
Adulto na Criança. Este aspecto, às vezes, tem uma acuidade desconcertante e destruidora,
como mostram as anedotas sobre crianças. Depois de três ou quatro exibições, o grupo
geralmente acha que "O Professor" seja um nome apropriado para este aspecto da
personalidade. É verdade, como diz Erikson, (4) que um analista infantil não é uma criança
que pratica psicanálise, mas também é verdade que há muito para se aprender do psiquiatra
na criança, aquele que observa nossos esforços "terapêuticos" e responde com o insight
mais agudo. Como ressaltou Ferenzi, (5) perde-se grande parte dessas capacidades através
da educação.
Em pacientes hospitalizados cujos Pais e Adultos de primeira ordem tenham sido
desautorizados a ponto de torná-los abertamente psicóticos, a estrutura mais refinada da
Criança é mais facilmente observável. Nos hospitais, encontram-se pessoas que estão, outra
vez, suportando as agonias de mórbidos estados do ego primitivos: o tormento de sentir que
suas mentes podem ser lidas, que não podem esconder as hostilidades secretas e confusões
sexuais do olhar penetrante de pais severos e intuitivos, e que todas as suas palavras serão
marcadas e desenvolvidas para elas. Ou a agonia de sentir sua própria iniqüidade de modo
tão agudo em face de privações e tirania, que a única solução é uma autodegradação. E, se o
tirano pudesse ser eliminado, quem poderia conter a arrogância selvagem de uma criança
pequena que possui o mundo todo? E, deste modo, a Criança, que vê seus pais não
distorcidos, mas apenas como uma fantasia primitiva com alto estado de catexia a ponto de
aparecerem diante dela com uma claridade quase eidética, torna-se o que os adultos
chamam de paranóide, depressivo ou maníaco. O observador atento que adianta suas
próprias fantasias e julgamentos primitivos (6) pode ver aqueles pais com tanta clareza
quanto o paciente. Assim, em muitos pacientes psicóticos, o Pai arcaico de segunda ordem,
o Pai na Criança, torna-se visível, embora indecifrável.
A célebre intuição sobre pessoas, atribuída aos esquizofrênicos, é uma manifestação
do mesmo Professor, o Adulto na Criança, que foi exibido no caso de Mrs. Quatry. E esta
manifestação pode assumir forma idêntica: o psicoterapeuta benevolente "aceito" talvez
ouça de um esquizofrênico que praticou um erro terapêutico e que deveria conduzir o
tratamento de outro modo. Seja este comentário feito através de insinuações ou gestos ou
por palavras imperativas, o terapeuta experiente o ouvirá com sério interesse, e,
freqüentemente, achará que fez uma "descoberta". O princípio fundamental que leva a
descobertas da psicanálise, por exemplo, foi enunciado a Freud por sua primeira paciente
clássica Frau Emmy Von N., que apontava o dedo repetidas vezes para ele e gritava: "Fique
quieto - não fale - não me toque!" As impressões que estas palavras causam ao terapeuta
podem ser julgadas pela freqüência com que ele as inclui em seu relatório de caso. (7) A
paciente, mais tarde, explicou que tinha medo de ser interrompida enquanto formulava o

146
seu pensamento porque isto tornaria as coisas mais confusas e piores. Nesta época,
portanto, o Adulto na criança de Frau Emmy Von N. era um técnico melhor que Freud, e
qualquer pessoa tão competente assim merece o título de "Professor".
A Criança na Criança, quando se desnuda pela psicose, se manifesta pela
intensidade arcaica de suas reações diante das próprias fantasias. Esta intensidade pode
parecer inadequada ao observador ingênuo, mas se justifica pela intensidade das fantasia
primitivas e, deste modo, não é imprópria, O sabor destas fantasias foi muito bem
reconhecido por Breuer e Freud, que as chamavam de imagens "plásticas". (7)

NOTAS

Jonhson e Szurek (1) falam de "sedução inconsciente” por parte dos pais, que
resulta numa "lacuna de superego" na criança. A análise estrutural diferencia, em termos
transacionais, entre "sedução inconsciente" (na promiscuidade), como no caso de Mr. Troy,
sanção passiva (na rebelião), como no caso de Betty Triss, e sedução ativa (na
homossexualidade), como no caso de Alice Triss. A análise estrutural de segunda ordem do
Pai possibilita uma afirmação etiológica precisa. Faz distinção também entre influências
paternal e maternal e fornece um quadro sistemático que permite seguir uma pista até os
avós e as atividades infantis dos pais reais. Szurek (8) amplia os conceitos de Jonhson com
uma variedade de material clínico que reforça suas conclusões. O que oferecemos aqui é
uma abrangente colocação teórica que auxilia na generalização de tais descobertas com
maior clareza e eficiência. A análise estrutural também proporciona um quadro de
referências útil para a generalização dos resultados de Fisher e Mandell (9) e outros.
Na prática, a solução para o caso de Mrs. Quatry foi fazer com que ela e seu marido
freqüentassem um grupo de casais. Aí ela tentou novamente conseguir apoio, descrevendo a
"má conduta" do marido. Este é o jogo mais comum em grupos de casais, e é chamado de
"Tribunal". Estando os outros membros do grupo já familiarizados com este jogo, eles se
negaram a jogar com ela, encorajando-a, ao contrário, a analisá-lo, o que ela fez com certo
sucesso. Depois de algum tempo, ela nunca mais realizou este jogo. A chave, naturalmente,
era a posição depressiva: "Eu soube este tempo todo que quem estava errada era eu", e o
jogo do "Tribunal" foi uma tentativa de afastar a depressão, fazendo com que as pessoas lhe
dissessem várias vezes que de fato era o marido quem estava errado. Mas, com a recusa dos
outros membros do grupo a jogar, foi possível desviar o foco de cena doméstica para a sua
depressão infantil.
A situação estrutural em si foi observada desde o início por Breuer e Freud (1895).
Em "Observação I" (Miss Anna O.), Breuer ressalta: "Havia dois estados de consciência
inteiramente separados, que se alternavam freqüente e espontaneamente, afastando-se cada
vez mais durante o curso de dança. Em um deles, ela conhecia seu ambiente, era triste e
ansiosa, mas relativamente normal; no outro, ela se alucinava e era impertinente. Nesta
"segunda condição", ela não conseguia falar absolutamente nada, até que se lembrou de um
verso da escola maternal. Breuer mais tarde notou a persistência do Adulto, mesmo nas
profundezas da psicose. "Mas independente de quanto se distinguiam os dois estados, o

147
segundo não apenas se mesclava com o primeiro, mas como a própria paciente dizia com
bastante freqüência durante seus piores estados, "havia num pedacinho de meu cérebro, um
observador agudo e silencioso, que atentava para essas loucuras".
Assim, as duas "condições", "estados", ou "estados de consciência" (como os chama
o tradutor de Breuer) em "Observação I", eram respectivamente um estado do ego "normal"
e um estado do ego "infantil", ou, como são chamados aqui, uma série de Adulto e uma
série de Criança, e a primeira se manteria quieta e observaria a última. Em "Observação II"
(Emmy Von N.), o próprio estado do ego psicótico se dividia, de modo que, enquanto ela
estava falando sobre as fantasias plásticas primárias, poderia simultaneamente instruir
Freud na arte da psicoterapia, que era uma atividade da porção Adulta da Criança
desmascarada. Por razões que eram completamente convincentes na ocasião, a atenção de
Freud desviava-se das considerações estruturais para a área psicodinâmica, e isto
eventualmente resultava num esquema estrutural conceitual e não clínico.
Atualmente, a ênfase sobre a situação da Ilhas Fiji deslocou-se de fatores religiosos
para aspectos racionais e econômicos, conforme evidenciam recentes distúrbios (dezembro
de 1959).

REFERÊNCIAS

1. Jonhson, A. M., &Szurek, S.A.,"The Genesis of Anti-social Acting out in Children and Adults".
Psychoanalytic Quart. 21: 323-343, 1952.
2. derrick, R. A., A History of Fiji, loc. cit.
3. Mead, Margaret, New Lives for Old. Wllian Morrow &Company, Nova York, 1956.
4. Erikson. Erik, H., Childhood & Society. W.W.Norton & Company, Nova York, 1950.
5. Fenichel, Otto, Psychoanalytic Theory of Neurosis, loc. cit., p. 229.
6. Berne, Eric, "Primal Images and Primal Judgments", loc. cit.
7. Breuer, J. & Freud. S., Studies in Hysteria.Nervous and Mental Disease Monographs, Nova York, 1950, pp.
14-76 (trad. de A.A.Brill).
8. Szurek, S. A., "Concerning the Sexual Disorders of Parents and Their Children". J. Nerv. & Ment. Dis. 120:
369-378. 1954.
9. Fisher, S & Mandell, D., "Communication of Neurotic Patterns over Two and Three Generations".
Psychiatry. 19: 41-46, 1956.

148
18.
TERAPIA DE CASAMENTOS

1. INDICAÇÕES

Em geral se considera pouco aconselhável o tratamento simultâneo de um casal.


Diante de tais condições, é extremamente difícil para o terapeuta evitar intervenções que
podem, com poucas distorções, ser exploradas em prejuízo da relação terapêutica, ou, no
mínimo, torná-la desordenadamente complexa. Tanto que o êxito do tratamento nesses
casos é considerado um acontecimento incomum o suficiente para ser relatado na literatura.
(1) Em nossa linguagem, se ambos os cônjuges estão em tratamento com o mesmo
terapeuta, é difícil para ele evitar envolver-se num jogo de três participantes. Se houver dois
terapeutas, é muito mais simples resistir às tentativas de realizar um jogo a quatro.
O "aconselhamento conjugal", distinto da terapia, estabelece-se desde o início com
casais incapazes de jogar sozinhos e que necessitam de um terceiro jogador. O conselheiro,
no nível social, pode funcionar como um mestre, dizendo ao casal como realizar melhor
seus jogos, ou pode desempenhar as funções de um árbitro. No nível psicológico, ele tende
a se tornar um terceiro componente do próprio casamento, geralmente numa função
Parental.
Assim, entre os terapeutas há uma forte tendência a evitar a terapia e o
aconselhamento conjugal, porque estas dificuldades são reconhecidas e denunciadas de
uma forma ou de outra, e tornam estes procedimentos pouco simpáticos e muitos clínicos
conscienciosos e sensíveis. O comum é dizer-se ao casal que a terapia destina-se a tratar
indivíduos e não situações ou relações.
A terapia de grupo convencional com casais em geral enfrenta as mesmas objeções,
porque ela quase sempre assume a forma de jogos com muitos participantes, alguns dos
quais serão descritos aqui. Por esta razão, enquanto não dispunha da análise de jogos, o
autor aderiu à política conservadora tanto em terapia individual como grupal, abrindo uma
ou outra exceção experimental. Estas experiências nem sempre tiveram um final feliz e seu
desenvolvimento não pôde ser acompanhado ou controlado com precisão e inteligibilidade
adequadas. Quando os princípios da análise transacional estavam suficientemente claros,
tentou-se fazer uma experiência-piloto para testar a sua utilidade na situação conjugal.
Formou-se então um "grupo" integrado por um único casal. E os resultados foram tão
gratificantes, tanto do ponto de vista terapêutico como do cientifico, que se decidiu formar
um grupo de casais na verdadeira acepção da palavra.
O número de casais mais conveniente para esse projeto parece ser quatro. É
arriscado formar um grupo com dois casais, porque para a análise de jogos é desejável uma
audiência "não selecionada" de personalidades divergentes e os casais tendem a reagir de
maneira semelhante diante de muitas situações. Assim, quase sempre, um grupo de dois
casais apresenta as mesmas dificuldades que um grupo com dois elementos. Três casais é
um número quase que igualmente arriscado, porquanto, quando um deles está ausente, o

149
terapeuta se vê na situação desconfortável de ter de trabalhar com apenas dois casais. Cinco
casais formam uma população muito grande para um trabalho adequado.
Tal grupo conjugal composto por quatro casais constitui a experiência mais
estimulante de toda a carreira psiquiátrica do autor. Em parte, porque os jogos entre casais
já são realizados há muito tempo e são, portanto, desempenhados com bastante
sensibilidade e confiança, tornando-se rapidamente evidentes e facilmente observados e
compreendidos pelos outros elementos do grupo. E, em parte, devido à verdadeira
intimidade sempre presente entre eles, ao contrário do que acontece nos grupos comuns, em
que esta intimidade leva tempo para ser estabelecida, se é que se consegue fazê-lo. Nada é
tão edificante e comovedor para o observador como a expressão de amor real e profundo
entre dois seres humanos, especialmente quando existem outras pessoas no grupo que
também se emocionam. Falando retoricamente, todos os que sofreram a perda de confiança
na bondade essencial das pessoas deveriam participar deste tipo de grupo. E, às vezes, são
as pessoas mais doentes que mostram as almas mais belas. Dentre os participantes que
compartilhavam dos sentimentos do terapeuta neste sentido, dois deles descreveram o
grupo de casais como "a maior invenção desde o advento da roda".
Não existe um critério ideal para a seleção de um advento deste tipo. Até agora a
experiência demonstra que os casais que procuram a terapia compõem quatro classes
significativas:
1. Pessoas que não têm compreensão mútua, mas não querem se divorciar. Isto
significa que são pessoas cujos jogos são destrutivos, ou não estão sendo realizados de
maneira satisfatória, ou estão sendo abandonados, ou estão começando a cansá-las.
2. Pessoas que sofrem do que se poderia chamar de "uma quebra de argumento".
Um casamento pode desenvolver-se de modo feliz durante anos, até que um cônjuge faça
uma ligação "impulsiva" extraconjugal. A conseqüência significativa não é a turbulência
doméstica subseqüente - que não constitui necessariamente um problema psiquiátrico - mas
um acesso psicopatológico, no geral semelhante ao ciúme obsessivo, freqüentemente com
um sabor homossexual chocante para ambas as partes. Como o incidente é elaborado em
fantasias e sonhos dentro do drama de um casamento a três, torna-se manifesto que
constitui um argumento que sempre esteve presente, mas de modo latente, nas mentes dos
dois cônjuges durante todo o casamento.
3. pessoas recentemente divorciadas que estão dispostas a aceitar uma reconciliação.
Neste caso, o grupo preenche exatamente a função implícita nas leis que exigem um longo
período de espera entre o pedido e a decretação final do divórcio.
Em termos gerais, o prognóstico destes três tipos de casos não é ruim. A perspectiva
do quarto é pior.
4. Casais em que um ou ambos os cônjuges entram no grupo como parte de um jogo
de "Vejam como Eu Tenho-me Esforçado", tentando explorar o terapeuta pela
complacência com seu jogo de "Psiquiatria", de modo que possam prosseguir com o
processo de divórcio com a "consciência tranqüila".
Esta forma de terapia está ainda num estágio inicial, de infância, pelo menos no que
concerne à análise transacional. Dos oito casais que integram o grupo, um já se divorciou;
neste e num outro caso, o resultado final não é conhecido. Nenhum dos outros seis se

150
divorciou (segundo se constatou por um acompanhamento posterior de dois anos).

2. A ESTRUTURA DO CASAMENTO

Quando o grupo começou, pelo menos um cônjuge de cada casal estava


familiarizado com a análise transacional. Todos os participantes entendiam que se tratava
de uma experiência, e que nem as metas nem os procedimentos poderiam ser estabelecidos
a priori. As coisas correram tão bem, no entanto, que, na terceira reunião, já se podiam
precisar as dificuldades conjugais em termos transacionais gerais e estabelecer metas. Logo
ficou esclarecida a natureza do contrato matrimonial, de um modo que foi confirmado
várias vezes, na medida em que novos casais foram-se integrando ao grupo.
A estrutura do casamento pode ser descrita de três diferentes pontos de vista (isto é,
o casamento americano e canadense, o mariage d'inclination):
1. O contrato formal realiza-se entre dois Adultos, e implica na cerimônia nupcial,
durante a qual os parceiros prometem respeito e fidelidade um ao outro em várias situações.
A evidência estatística demonstra que este contrato nem sempre é levado a sério. O
compromisso Adulto é abolido sempre que houver divórcio ou aventura extraconjugal, pois
qualquer destes eventos significa a abdicação de uma posição assumida de boa-fé, pública e
solenemente.
2. O contrato de relação é psicológico e não é firmado publicamente. Durante a
corte, existe uma tendência a que uma parte funcione como Pai e a outra como Criança.
Pode ser uma espécie de implícito acordo parasitário, ele pode ser abolido depois da lua-de-
mel, quando uma das partes talvez queira mudar o seu papel, diante do que a outra parte
reclama (o que é justificável sob tais circunstâncias): "Traição!" Se a mulher tiver dado
uma proteção maternal ao homem durante o namoro, ele aceita implicitamente, e ela
também implicitamente concorda que esta relação continuará após o casamento, e isto é
parte essencial do contrato matrimonial secreto. Se depois ela mudar sua atitude e exigir
que ele cuide dela em vez de ela cuidar dele, é provável que surjam problemas e a situação
pode ou não ser comprometedora sem ajuda externa.
3. A base essencial do casamento, entretanto, é o contrato secreto entre as duas
Crianças, o contrato do argumento. A seleção de um parceiro dentre todos os pretendentes
possíveis baseia-se nisto. Cada marido ou mulher em perspectiva está na posição de um
diretor que constitui papéis. O homem procura a estrela que melhor possa desempenhar o
papel exigido por seu argumento, e a mulher busca o melhor ator para desempenhar o papel
adaptado a seu protocolo.
Durante o período de prova, os candidatos são inicialmente divididos entre os que
dão respostas transacionais apropriadas e os que não o fazem. O campo, então, estreita-se e
o número anterior é diminuído, através da prova dos jogos. Realizam-se manobras
provocativas no intuito de revelar qual dos candidatos transacionalmente elegíveis realizará
os jogos requeridos. Dentre os candidatos elegíveis para o jogo, a escolha final recairá
sobre aquele que parecer mais provavelmente capaz de desenvolver todo o argumento; isto

151
é, os pares se atraem pela suposição intuitiva de que seus argumentos são complementares.
Reik (2) cita Freud da seguinte maneira: "Ao tomar uma decisão de importância
mínima, sempre achei vantajoso considerar todos os prós e os contras. Em questões vitais,
no entanto, como a escolha de uma companheira ou de uma profissão, a decisão deveria vir
do inconsciente... Em decisões importantes de nossa vida pessoal deveríamos ser
governados... pelas necessidades interiores profundas de nossa natureza". Num casamento
livre, a escolha é inevitavelmente governada pelas necessidades da Criança. Os exemplos
que daremos resumidamente ilustrarão algumas das manifestações clínicas e operacionais
do contrato do argumento. As ramificações deste contrato são tão complexas que é
impossível apresentá-las sistemática ou exaustivamente num espaço limitado, mas as
ilustrações servirão para esclarecer os princípios subjacentes, de modo que a terminologia,
no mínimo, se tornará mais clara. O leitor ficará, então, em condições de levar adiante suas
próprias observações e investigações a este respeito, o que lhe será muito mais conveniente
do que qualquer tentativa de provar o ponto em questão.

3. METAS TERAPÊUTICAS

As metas terapêuticas da análise transacional de casamentos emergem naturalmente


da estrutura inicial do contrato matrimonial. O objetivo é preservar o contrato formal, se
possível, permitindo, ao mesmo tempo, que cada parceiro obtenha o maior grau de
satisfação que puder sob o compromisso dos contratos de relação e argumento. Estas metas
são transmitidas aos pacientes a partir da seguinte colocação clínica:
"As relações e jogos deste casamento terão de ser opcionais em vez de compulsivos,
de modo que se possam eliminar os elementos destrutivos ou pouco construtivos. Uma vez
conseguido isto, os cônjuges podem ou não estar interessados um no outro. deverá haver
tempo para o surgimento de relações e jogos mais construtivos. Assim, cada parceiro estará
em condições de decidir racionalmente se quer ou não perpetuar o casamento. A situação se
assemelha a um divórcio psicológico dentro da estrutura do contrato formal. Como cada
cônjuge emerge de uma nova forma, oferece-se uma oportunidade para a reconciliação
psicológica, se ambos desejarem isso. Se não desejarem, a terapia pode resultar na abolição
permanente do contrato formal".
Na prática, tem-se observado que o casamento experimenta melhoras progressivas,
na medida em que se vão "desnudando" gradativamente os elementos dos argumentos e
jogos, até tornar-se possível descobrir a dificuldade sexual subjacente, em termos dos
protocolos originais. A esta altura, surge a questão: "O que fazemos agora?" "O que
fazemos em lugar disso?" Então, sobrevém uma forte tentação de recaírem nos velhos
padrões. Se um dos parceiros mantém com firmeza a posição recentemente descoberta e
não cede, o outro tende a buscar um parceiro extraconjugal que ou realizará os antigos
jogos, ou o ajudará a levar seu argumento rapidamente até o fim. Mas, se resistir a esta
tentação e o resultado for bom, como tem sido até agora, forma-se uma nova relação dentro
do casamento, "acima" dos mesmos conflitos sexuais antigos, que permanecem sem
solução, mas são manipulados de modo diferente.

152
Presume-se que, se cada parceiro se submete à psicanálise no momento crítico em
que se desmascaram estes conflitos, sua resolução resultaria numa reconciliação mais
firme, ou com o mesmo parceiro ou com outro cujo argumento complementará as novas
necessidades, menos arcaicas. Só com a análise transacional temos obtido, até agora, três
resultados: na pior das hipóteses, um casamento com considerável turbulência, ainda que
controlada de um modo muito mais satisfatório; a transgressão e a resignação de muitas
necessidades; ou, na melhor das hipóteses, a satisfação da descoberta de qualidades e
possibilidades recíprocas. Todos os três são benéficos aos filhos do casal, se existirem.

4.AMOR

O sentimento a que chamamos amor não pode ser abordado pela análise
transacional em maior profundidade do que por qualquer outro sistema psicoterapêutico, e,
se existe amor entre os dois parceiros, é bom que até o momento ele esteja além do alcance
da investigação psiquiátrica. O amor, entretanto, não seria uma condição necessária para o
casamento. ideal, da forma como este é expresso em termos estruturais e transacionais. O
casamento ideal implicaria uma união livre, com aprovação dos pais, entre duas pessoas
felizes (conforme anteriormente definido), cujo relacionamento e argumentos fossem
complementares e, em última instância, construtivos. Com base nisso, duas pessoas fiéis a
seus padrões comuns e uma à outra poderiam suplantar Abelardo e Heloísa.

5. O DESENVOLVIMENTO DE UM CASAMENTO PERTURBARDO

A típica seqüência de um casamento americano perturbado é mais comumente vista,


na prática, com as mulheres do que com os homens. O primeiro casamento, aos 16 anos,
representa uma operação de libertação da família. O casal convive por dez dias ou dez
meses e, então, há anulação ou divórcio. Se houver um filho, este é confiado a um dos
parentes da mulher, pois, de outro modo, a função libertadora do casamento seria
desvirtuada. A jovem estabelece, assim, a sua independência civil e está livre para
desenvolver seu argumento, que geralmente é frustrador e masoquista.
O segundo casamento ocorre aproximadamente cinco anos mais tarde e dura cerca
de cinco anos. É dissolvido por causa da negligência ou crueldade do marido; ele faz o que
o argumento da moça exige, mas o argumento não é bom. Ela, então, tem de trabalhar para
sustentar os novos filhos, que passam a constituir o principal interesse da vida dela.
Seu terceiro casamento, mais ou menos com trinta anos, serve para satisfazer as
necessidades materiais, mas a nostalgia de seu argumento ainda persiste até certo ponto,
deixando-a insatisfeita, de modo que ela começa a provocar o marido. Como ele é, na
realidade, uma versão mais suave do segundo marido, com as mesmas qualidades, apesar
de menos agressivo, responde a estas provocações de maneira apropriada ao argumento

153
dela como ao seu próprio argumento. Neste ponto, o argumento torna-se distônico do ego
Adulto da mulher; ela sente que algo está errado e busca tratamento, ou conjugal ou para si
mesma. O marido que, talvez pela primeira vez, expressa suas próprias necessidades por
meio de uma má conduta, pode ou não interessar-se pela terapia.
Em geral, o casal costuma chegar no tratamento da maneira como segue. A união,
no início, compara-se favoravelmente, em muitos aspectos, ao casamento ideal. A
autodeterminação é conseguida durante a lua-de-mel ou durante os contatos sexuais pré-
nupciais, assemelhando-se a um jogo de seis pessoas em que participam também os pais do
jovem casal. Ao longo deste período, o sexo é satisfatório para as duas partes, em razão dos
elementos agressivos e liberadores envolvidos neste jogo complexo. Depois que se desfez o
primeiro entusiasmo, começam a aparecer as dificuldades sexuais subjacentes. O casal,
então, começa a envolver-se num jogo manipulado a dois, que funciona como um
substitutivo para o sexo e se destina a diminuir a freqüência das temidas confrontações
sexuais, rendendo, ao mesmo tempo, ganhos ocultos para os dois parceiros. A esposa pode
jogar "Mulher Frígida"; ela chama o marido de imbecil, provoca um tumulto e
freqüentemente ambos envolvem-se num jogo financeiro.
Deste modo, a intimidade sexual ameaçadora é afastada sem que qualquer das partes
precise enfrentar as ansiedades envolvidas; enquanto isso, os ganhos internos, secundários e
sociais são conseguidos egoisticamente. As relações sexuais ocasionais trazem filhos, no
entanto. Estes são recebidos com prazer por meritórias razões, mas também servem como
uma distração bem-vinda. Ambas as partes absorvem-se bastante nas atividades
relacionadas com a educação dos filhos e isto deixa pouca oportunidade para avanços em
termos sexuais, oferecendo muitas justificativas legítimas para adiar e interromper o ato de
amor.
Entretanto, à medida que as crianças ficam mais velhas, o casal vai tendo mais
tempo livre. Reassume os jogos antigos e surgem dificuldades porque, embora joguem
papéis complementares nas mentes de cada parceiro. Estas diferenças e as leves diferenças
em seus argumentos, tornam-se cada vez mais importantes, de modo que o grito de
"Traição!" é ouvido com freqüência crescente. Quando o casal se aproxima dos 40 anos, o
fracasso de seus jogos e argumentos provoca certo desespero, o que os leva a buscar a ajuda
de um profissional.

6. EXEMPLOS CLÍNICOS

Quando alguém do grupo fazia uma pergunta a Mr. Quatry, ele respondia
prontamente. Mas, se a pergunta fosse dirigida a Mrs. Quatry, sua mulher, também era ele
quem respondia. Ela protestava contra esta situação. Dizia que o marido sempre agia como
pai e a tratava como uma criança retardada. Notou-se, porém, que, quando lhe era oferecida
a oportunidade de falar por si mesma, ela não a aproveitava. Alguém lhe perguntou o
motivo disto e ela, com seu modo característico, respondeu que era burra demais e que não
tinha entendido a questão. Ficou evidente, portanto, que esta relação se mantinha por
consentimento mútuo. Depois que o terapeuta instruiu Mr. Quatry a evitar responder no

154
lugar de sua esposa, dois fenômenos puderam ser observados: primeiro, Mrs. Quatry ficava
zangada com a omissão do marido, dizendo que ele não se importava mais com ela;
segundo, sempre que Mr. Quatry se distraía, ele voltava inadvertidamente a seu antigo
padrão, estalava os dedos e dizia: "Lá vou eu novamente!". Passado algum tempo, ele
começou achar divertido cometer esses erros e todos riam com ele, exceto Mrs. Quatry.
Ninguém achou graça, no entanto, quando se soube que, durante o ato sexual os papéis se
invertiam. Em lugar de Mr. Quatry ser o Pai e Mrs.Quatry a Criança, ele se tornava a
criança e ela o Pai, de modo que a relação sexual era insatisfatória para ambos. O problema
terapêutico consistia em estabilizar o Adulto em cada cônjuge, tanto no grupo como durante
o ato sexual.
Com os Pentys, a situação no grupo era inversa. Mrs. Penty nunca permitia que Mr.
Penty respondesse a uma pergunta por si mesmo. Ele suportava esta situação como um
mártir, mas às vezes protestava. Assim que a situação foi-se esclarecendo, no entanto,
percebeu-se que ele sofria de séria eritrofobia e tinha medo de enrubescer, ao falar,
fazendo, então, o jogo "Se Não Fosse Você". Casara-se com a tagarela e dominadora Mrs.
Penty para proteger-se contra a eritrofobia e depois, quando ela desempenhava sua função,
ele se queixava.
Os Hechts ingressaram tarde no grupo e eram incapazes de compreender a
terminologia. Em sua segunda sessão, o terapeuta disse: "Olá!", assim que se sentaram,
sobretudo para colocar Mr. Hecht à vontade. Este não respondeu ao cumprimento. Mais
tarde, na sessão, Dr. Q. chamou a atenção para o fato. Mr. Hecht respondeu que tais rituais
lhe eram insignificantes e que não acreditava neles. Mrs. Hecht, então, salientou que o
marido era sempre rude assim e lhe dava respostas curtas. Ele protestou dizendo que, se ela
lhe perguntava ou dizia alguma coisa, ele falava o suficiente e se calava. Não via vantagem
em encompridar o assunto desnecessariamente. Mrs. Hecht disse que ele sempre a deixava
embasbacada com suas respostas abruptas. Mr. Hecht contou um episódio ocorrido em seu
escritório, que ilustrou este aspecto: Uma secretária chegou ao trabalho um dia e disse
"Bom dia!" ao chefe. Este, então, respondeu: "Eu não pedi o relatório metereológico; tudo o
que quero é que você inicie o seu trabalho". Mr. Hecht achou que a colocação do chefe
fazia sentido, e disse que Mrs. Hecht tinha sido criada de modo a acreditar em todas as
mesuras. A esposa acrescentou que a vida se tornava mais agradável quando se era
educado.
Isto deu ao Dr. Q. uma oportunidade de introduzi-los à idéia de passatempos e
jogos, sobre o que vinham ouvindo o resto do grupo falar. Mrs. Hecht queria jogar
"Etiqueta" e seu marido, não. Esta era uma coisa que não ia bem em seu casamento.
Os Sptims mantinham um mariage à quatre com outro casal. Mr. Septim começou a
preocupar-se com a situação depois de aproximadamente seis meses e "arrastou" a mulher
para o grupo. Dr. Q. supôs que se tratava de um argumento comum a ambos, e que o
casamento, inconscientemente, implicasse desde o início a pretensão de envolver outro
casal.
Tanto ele como a mulher teriam escolhido um companheiro que estivesse
interessado em tal situação e conheciam, de algum modo, as potencialidades um do outro
neste sentido, antes de se casarem. Ambos negaram isto de modo incisivo e Mr. Septim
considerou a afirmação ridícula: de sua parte, ele estava pronto a romper com o outro casal

155
naquele momento. O questionamento de grupo, no entanto, logo eliciou apenas as fantasias
pertinentes de ambas as partes, mas até mesmo algumas tentativas manifestas de
manipulações ocultas na mesma direção antes do casamento. Mrs. Septim, então, admitiu
que queria viver e experimentar coisas por amor à arte, e que o mariage à quatre era o
modo de fazê-lo. O casal desistiu após a segunda sessão. O Dr. Q. forçara intencionalmente
o desfecho porque, atrapalhariam o progresso do restante do grupo. Foi uma decisão difícil,
mas o terapeuta precisava definir a sua responsabilidade, e isto pareceu o mais conveniente.

7. RESISTÊNCIAS

Em um grupo de casais, a forma favorita de resistência, empregada quase que


universalmente por elementos inexperientes, é um jogo chamado "Tribunal". O marido
conta ao grupo uma longa história a respeito das atitudes de sua esposa, na tentativa de
conseguir apoio para si como demandante. A esposa, então, faz sua defesa, e explica ao
grupo o que o marido fez para provocar o seu comportamento. No round seguinte, a mulher
pode ser a demandante e o marido o acusado. Em cada caso, espera-se que o grupo
funcione como o corpo de jurados e o terapeuta, como juiz.
Há duas maneiras de interromper este jogo. Uma é denunciá-lo, tentando se mostrar
de acordo com o demandante para depois perguntar-lhe como se sente diante disso. A
seguir, o terapeuta discorda do demandante e volta a fazer a pergunta. Já ilustramos isso no
caso de Mrs. Quatry, que se sentia melhor quando o terapeuta concordava com ela; mas, se
ele lhe dizia que ela estava errada, ela retrucava: "Eu sabia disso desde o início". Esta
técnica, no entanto, deve ser empregada com critério; em qualquer caso, não deveria ser
usada mais do que duas vezes num ano.
O outro modo é interditar o jogo, de forma bastante elegante, através de uma
manobra simples: diz-se às pessoas do grupo que podem falar tanto si mesmas, na primeira
pessoa, quanto para seus cônjuges, na segunda pessoa, mas que elas não podem usar a
terceira pessoa.
Este procedimento é proveitoso também em outro tipo de situação. Há certos casais
que nunca conversam entre si durante as reuniões de grupo. As partes dirigem-se às outras
pessoas, falando de si mesmas ou sobre o cônjuge, mas nunca conversam um com o outro.
O terapeuta estabelece um axioma moral: "Talvez fosse bom que os cônjuges conversassem
entre si ocasionalmente". A colocação deste preceito, juntamente com a interdição da
terceira pessoa, em geral resolve a situação. Se o casal hesita em fazê-lo, geralmente, o
grupo já está tão descontraído que todos os seus elementos intervêm para ajudá-lo.

NOTAS

O jogo do casamento, realizado entre as classes altas na França na primeira metade

156
do século dezenove, é descrito de maneira divertida e detalhada por Balzac. (3) Em
comparação com os modernos jogos burgueses que envolvem dois participantes, como a
"Mulher Frígida" e o "Se Não Fosse Você", o jogo parisiense, com três pessoas - o marido,
a mulher e o amante - reveste-se de uma finura aristocrática que oferece um campo muito
mais amplo ao intelecto e à imaginação. Em sua época e lugar pode não ter sido mais grave
do que os jogos pesados da atualidade e, exceto pelos aspectos bacteriológicos explorados
com reserva por Schnitzler em "La Ronde", tem uma qualidade mais estética. Balzac usa
abertamente a linguagem de jogos, daí o tom alegre que ele dá à sua obra. Fala de
"defesas", "ratoeiras", "estratégia" e "aliados". Alguns dos autores, no simpósio de
Keyserling, (4) também tratam o casamento como um jogo.
Falando-se mais seriamente, quase todas as piadas sobre casamento, desde a
primitiva "Quid est tibi ista mulier?" "Non est mulier, uxor est!" até as histórias em
quadrinhos do jornal de ontem reconhecerem os padrões antagônicos envolvidos. O curioso
é que este aspecto triste é o cômico, enquanto as relações satisfatórias quase sempre
terminam, pelo menos na Literatura, em tragédia. A felicidade real da consagração ao jogo
livre, meta ideal da terapia de casais, permanece amplamente desconhecida. Ninguém se
emociona de fato com Philemon e Baucis, e a noite de sábado do aldeão parece tão pouco
atraente è maioria das pessoas quanto um poeta escrevendo num cemitério.
Atualmente parece uma constante a existência de certa porção de patologia em todo
casamento, dividida entre casal e, talvez, compartilhada pelos filhos. Assim, quando um
parceiro está saudável, o outro não está, e vice-versa. Como a dor lombar é uma
manifestação "psicossomática" comum a esta patologia, poderíamos usá-la como
paradigma. Podemos falar de "discos inflamados". Assim, existem "casamentos de quatro
discos", "casamentos de três discos" e "casamentos de dois discos". Num "casamento de
quatro discos", um parceiro pode estar são e o outro ter "quatro discos"; ou eles podem ter
um pouco cada um da patologia, um ter "três discos" e o outro, "um disco"; ou ambos terem
"dois discos", isto é, cada um ter um grau de dor lombar, em vez de um estar bem e o outro
com dor violenta.
Se um paciente estiver e o outro não, este tende a ficar com mais distúrbios ou mais
sintomas, à medida que o primeiro melhora. Na linguagem da análise de jogos, o outro
parceiro entra num estado de desespero crescente (manifestado, por exemplo, por "mais
discos", ao ver-se provado de seus ganhos pelo cônjuge em terapia, que se recusa a fazer o
antigo jogo (sendo que a melhora do paciente se manifesta por "menos discos"). Infere-se
que, na maioria dos casos, a única esperança de se reduzir a patologia total de ambos os
parceiros é encaminhá-los juntos para a terapia. A fábula dos discos oferece uma escala
prognóstica prática para se classificar casamentos. Nesta escada, um casamento de "quatro
discos" pode sobreviver, embora seu desenvolvimento seja doloroso; o futuro de um
casamento de "cinco discos" é bastante duvidoso. Um casamento de "um" ou "dois discos"
pode ser tratável por um conselheiro não psiquiátrico, enquanto um de "três discos" deve
ser submetido a uma terapia psiquiátrica.

REFERÊNCIAS

157
1. Jackson, J. & Grotjahn, M., "Concurrent Psychotherapy of a Latent Schizophrenicc and His Wife".
Psychiatry. 22:153-160, 1959.
2. Reik, T., Listening with the Third Ear. Farrar, Straus & Company, Nova York, 1949, p. VII.
3. Balzac, H. de, The Physiology of Marriage. Edição particular, Londres, 1904.
4. Keyserling, H., The Book of Marriage. Blue Ribbon Books, Nova York, 1926.

158
19.
ANÁLISE DE REGRESSÃO

A meta final da análise transacional é o reajustamento e a reintegração estrutural.


Isto requer, em primeiro lugar, reestruturação e, em segundo, reorganização. A fase
"anatômica" da reestruturação consiste em esclarecer e definir as fronteiras do ego por
processos como o refinamento de diagnóstico e a descontaminação. A fase "fisiológica"
ocupa-se da redistribuição da catexia através de uma programada ativação seletiva dos
estados do ego específicos por meios também específicos, com o objetivo de estabelecer a
hegemonia do Adulto, através do controle da Criança. A reorganização em geral se
configura como reclamação da Criança, com correção ou substituição do Pai. Seguindo esta
fase dinâmica de reorganização, existe uma fase analítica secundária, que é uma tentativa
de livrar a Criança de sua confusão.
A situação ótima para o reajustamento e a reintegração da personalidade como um
todo exige uma postura emocional da Criança na presença do Adulto e do Pai. A
necessidade de o Adulto e o Pai estarem em plena ação durante todo o processo deprecia o
valor geral dos procedimentos psicológicos e farmacológicos de hipnose, uma vez que a
função essencial de muitos desses artifícios é liberar a Criança, desautorizando outros
aspectos da personalidade. A psicanálise supera esta deficiência através do uso da
associação livre. O inconveniente neste caso é que a Criança com freqüência se expressa
indiretamente ou com dificuldade, de modo que em grande parte o êxito depende da
capacidade de interpretação do terapeuta e da receptividade do paciente para as
interpretações especializadas.
O desenvolvimento lógico da análise transacional é um apelo direto à Criança, em
estado de vigília. O raciocínio e a experiência nos levam a crer que a Criança se expressa
com mais liberdade quando fala a outra criança. portanto, a abordagem mais próxima de
uma solução ideal para o problema terapêutico da auto-expressão é o método da análise de
regressão. A evolução deste procedimento ainda se encontra num estágio embrionário e
mais alguns anos de experiência e aprimoramento serão necessários para que se superem
algumas das dificuldades a ele inerentes, obtendo-se o máximo se seu rendimento
terapêutico.
A análise de regressão é uma técnica que é ensinada ao paciente, e um de seus pré-
requisitos é a compreensão clara da análise estrutural. Temos tido indicações de que o
relaxamento de defesas ou a transferência da catexia necessária são praticamente
inacessíveis a pacientes como o dogmático Nr. Troy, que tem de manter uma atitude
Parental, ou como o intelectual Dr. Quint, obrigado a conservar uma postura Adulta.
Algumas pessoas, no entanto, conseguem um considerável grau de labilidade com rapidez
surpreendente, e outras, que têm uma atitude especial (cuja natureza até agora não foi
compreendida), podem adaptar-se ao método imediatamente.
A base lógica para a tentativa de reviver a Criança como um estado do ego
realmente reexperimentando é epistemológica. Em síntese, a Criança é vista,

159
funcionalmente, como a manifestação de um órgão ou sistema psíquico, a arqueopsique.
Fenomenologicamente, a Criança aparece como um estado do ego distinto e integrado. Ela
se torna conhecida comportamentalmente através de signos fisiológicos, sintomáticos,
psicológicos e verbais, e, socialmente, pela qualidade de suas transações. A origem destas
manifestações pode ser confirmada historicamente se constatarmos que elas reproduzem
fenômenos manifestados durante a infância real do indivíduo. Mas a história e a descrição
do comportamento são, ambas, abordagens Adultas. O paciente e o terapeuta falam a
respeito da criança, de modo inferencial, que é chamado pelos epistemologistas
"conhecimento por descrição".
O efeito terapêutico disto é geralmente apreciável e gratificante, mas difere do que
ocorre se o próprio estado do ego arcaico é vividamente revivido na mente do paciente, em
lugar de ser inferido a partir de dados externos. Tal revivescência está aliada à "ab-reação"
de Freud, às "memórias profundas" de Kubie (1) e ao fenômeno do lobo temporal de
Penfield (2). É uma apreensão não inferencial, que constitui o "conhecimento por
relacionamento", mesmo no sentido mais estrito do termo. (1) No caso, não se trata do
Adulto falando sobre a Criança, mas da própria Criança falando.
Para compreender claramente o fenômeno, o clínico precisa considerá-lo
literalmente. É exatamente como se houvesse duas pessoas na sala com o terapeuta: um
adulto observador e uma criança patológica, só que fisicamente inseparáveis. O problema
está no modo de separá-los psicologicamente, a fim de que a Criança possa falar por si
mesma. (Para simplificar as coisas deixaremos de lado, por enquanto, a terceira parte, o
Pai.) A separação por meios artificiais, como a hipnose, prejudica o resultado final. Uma
coisa é o pediatra repetir para a mãe o que seu filho disse no consultório e outra, a mãe
ouvir tudo diretamente do menino.
Quando um estado do ego previamente sepultado é revivido com todo o seu vigor
em estado de vigília, ele se conserva permanentemente à disposição do paciente e do
terapeuta para um exame detalhado. Ocorre não somente uma "ab-reação" e uma
"regressão", mas também a possibilidade de manusear o estado do ego como uma criança
real. Pode-se tratá-lo com cuidado, e mesmo carinhosamente, até que desabroche como
uma flor, revelando todas as complexidades de sua estrutura. Pode-se transformá-lo e
manipulá-lo, até que os aspectos anteriormente não observados sejam totalmente
percebidos. Tal estado do ego ativo não é visto à maneira de Kubie, como memória, mas
como uma experiência em si, mais parecida com o fenômeno temporal de Penfield.
Iris freqüentava o grupo há vários anos, salvo interrupções ocasionais, e realizava
um excelente jogo de "Psiquiatria" em termos estruturais e transacionais. Através de
observação e inferência, ela podia diagnosticar seus próprios estados do ego e os das outras
pessoas e analisar transações. Em razão disto, abria-se para ela a oportunidade de fazer uma
terapia individual intensiva, considerada oportuna tanto pela paciente quanto pelo Dr.Q.
Suas entrevistas ocasionais anteriores tinham sido estereotipadas e um tanto enfadonhas
para ambos: Iris e o terapeuta admitiram que ela estava jogando "Psiquiatria", e que,
embora isto fosse de considerável ajuda para ela, deixava um pouco a desejar.
Para sermos mais específicos, ela jogava três variedades diferentes de "Psiquiatria":
Saúde Mental, Psicanálise e Transacional. Procurou-se afastá-la de Saúde Mental,
permitindo-lhe certa liberdade com sua "análise selvagem" e encorajando-a ativamente a

160
dedicar-se à variedade Transacional, porque esta parecia ser a mais útil em seu caso.
Depois que ela passou a ter sessões individuais com regularidade tornou-se uma
pessoa diferente. A Criança fenomenológica começou a emergir e um dia eclodiu
totalmente. Ela podia realmente sentir-se de volta a uma espécie de situação servil, e
reconheceu a enorme influência passada destes sentimentos revivenciados na determinação
de seu destino. Ela agora percebia intensamente a sua identidade dupla, como Adulto e
Criança. No dia seguinte ela relatou: "Sabe, desde ontem venho me sentindo mais aliviada
do que há anos. É como se eu estivesse saindo de uma névoa. Reconhecer a Criança é uma
coisa, mas realmente senti-la é outra. É amedrontador. O fato de eu saber que é minha
Criança, não torna isto mais cômodo para mim, mas me alivia: pelo menos eu sei de onde
vêm estes sentimentos".
Portanto, a análise de regressão é uma tentativa intencional de se transferir o estudo
da Criança de uma base inferencial para uma fenomenológica. Com um paciente
adequadamente preparado, que tenha tido bastante experiência com análise estrutural e
também certa compreensão de análise transacional e de análise de jogos, o terapeuta faz a
seguinte colocação:
"Tenho cinco anos e ainda não estou na escola. Você tem a idade que escolher, mas
menos de oito anos. Vá em frente".
Aqui, o terapeuta joga o papel de uma criança que não conhece polissílabos ou
circunlocuções. É um tipo especial de papel, uma vez que ele o conhece muito bem: ele
deve ser apenas o que era quando tinha cinco anos.
Não é fácil relatar os resultados de uma sessão de análise de regressão. A posição do
terapeuta é de catexia dividida. Ele deve ser metade Criança e metade Adulto, observando
tanto o seu próprio comportamento como o do paciente. Qualquer catexia introduzida em
sua Criança é subtraída de seu Adulto terapêutico usual, e o resultado é que isto exige
maior concentração deste Adulto para manter ambos os estados do ego ativos,
simultaneamente. O efeito correspondente é a diminuição da memória Adulta. O terapeuta
pode lidar de modo efetivo com o que ocorre na hora, mas é difícil reconstituir os eventos
depois. O uso de gravador é contra-indicado. O emprego de um gravador com crianças, em
torno de 5 ou 6 anos, rapidamente demonstrará como esse recurso influi no comportamento
delas, tirando-se a naturalidade. E, uma vez que a compreensão da análise de regressão é
ainda tão rudimentar, seria, no momento, impossível a avaliação do efeito que um gravador
teria sobre o processo.
Uma reconstrução aproximada servirá, no entanto, pelo menos para dar uma idéia
do que acontece. Mr. Wheat, cujo pai morrera quando ele tinha dois anos de idade, estava
falando, numa sessão individual, a respeito de algumas de suas atitudes Parentais com
relação a seus deslizes sexuais.
Dr. Q.: Eu tenho cinco anos e ainda não estou na escola.
Você tem a idade que escolher, mas menos do que oito anos. Vá em frente.
Mr. W.: Meu pai está morto. Onde está o seu pai?
Dr. Q.: Ele saiu. Esta tratando de doentes. É médico.
Mr. W.: Vou ser médico quando eu crescer.

161
Dr.Q.: O que significa morto?
Mr. W.: Significa que você está morto, quando um peixe ou um gato ou pássaro
morre.
Dr. Q.: Não é a mesma coisa, porque quando pessoas morrem é diferente. Há um
funeral e tudo o mais.
Mr. W.: Como você sabe?
Dr.Q.: Apenas sei. As pessoas têm um funeral e são enterradas em um cemitério.
Seu pai está no cemitério?
Mr. W.: Sim, ele também está lá em cima no céu.
Dr.Q.: Como ele pode estar no cemitério e também no céu?
Mr. W.: Bem, ele está.
Dr. Q.: Onde é o céu?
Mr. W.: Lá em cima, no firmamento.
Dr. Q.: Se ele está no céu, não pode estar no cemitério.
Mr. W.: Sim, ele pode. Algo sai dele e vai para o céu e o resto dele, eles põem no
cemitério.
Dr. Q.: Como esta parte sai dele?
Mr. W.: Sai de sua boca.
Dr. Q.: Você é engraçado. Não acredito nisso. Como você sabe que sai da sua boca?
Você ver isso?
Mr. W.: Não, mas é assim. De algum modo isto ocorre.
Dr. Q.: Se você não pode ver, como pode saber?
Mr. W.: porque minha mãe me contou: "É seu pai verdadeiro que vai para o céu e é
apenas seu corpo que deixam no cemitério".
Dr. Q.: Bem, não vejo como ele pode estar em dois lugares. O que ele faz lá em
cima, no céu?
Mr. W.: Está sentado ao lado de Jesus e nos observa. Sabe, você tem uma aparência
engraçada. Você tem um rosto muito magro.
Dr. Q.: Você é louco em acreditar que seu pai pode estar em dois lugares.
Mr. W.: Gostaria de ter um pai de verdade (choraminga). Bom, já basta.
Esta breve experiência esclarece, para o terapeuta e para o paciente, quão confusa
estava a Criança de Mr. Wheat com relação à origem, função e realidade de seu Pai. Desde
o início da terapia até este momento, todo o problema da influência do pai e das fantasias
inconscientes a seu respeito, na medida em que afetavam o comportamento de Mr. Wheat,
tinham sido alvos de interpretação e especulação. A análise de regressão realizada depois
revelou a profusão de suas fantasias e a impossibilidade de sua Criança reconciliar as
contradições a respeito da morte: seu pai anatômico sumindo sob a terra gelada, no

162
cemitério coberto de neve, e algum outro tipo de pai que saía de sua boca, sentando-se
comodamente ao lado do bendito Jesus e sentindo que sua serenidade era periodicamente
sacudida pelas ações do filho, que seria obrigado a prestar contas quando chegasse a hora e
a apresentar-se para o julgamento diante de Deus-Pai e do espírito (totalmente vestido com
roupas de antes da I Guerra Mundial) de seu próprio pai.
Na relação social normal, a Criança "programa" o Adulto, no sentido cibernético;
aqui, a situação se inverte, e o Adulto do terapeuta deve "programar" a sua Criança.
Algumas das dificuldades técnicas tornam-se aparentes mesmo no breve extrato que
apresentei. Um garoto de cinco anos, o terapeuta, seria tão persistente em manter um
assunto? É permissível o uso da palavra "louco" com um paciente, mesmo que esta seja
uma palavra natural para um menino de cinco anos? O paciente pode realmente parar de ver
o terapeuta como um pai e conversar com ele como se ele fosse outra criança? É evidente
que a análise de regressão ainda se encontra num estágio altamente experimental e só pode
ser empregada com o máximo de cuidado na seleção de casos.
O uso desta técnica em terapia de grupo também traz resultados interessantes.
Dr. Q.: Tenho cinco anos de idade e ainda não estou na escola. Cada um de vocês
tem a idade que escolher, mas abaixo de oito anos. Agora, vão em frente.
Heather: Meu avô me faz coisas ruins.
Magnólia: Não posso me lembrar de nenhum de meus parentes do sexo masculino
me fazendo coisas impróprias.
Dr. Q.: Magnólia vai à escola e usa palavras complicadas que eu não entendo. O que
é "impróprio?"
Camellia: Eu sei, porque minha mãe me disse. "Impróprio" significa você fazer algo
que não se espera de você.
Daisy: Você deve ter tido um relacionamento íntimo com sua mãe, Camellia.
Dr. Q.: Aquela senhora, a Daisy, está nos ouvindo e também usa palavras
complicadas.
Iris: Às vezes, tenho medo de jogar aqui porque sei que essa senhora, a Daisy, está-
nos observando.
Dr. Q.: Por que todas vocês vieram brincar em minha casa?
Rosita: Gosto de ir brincar na casa de meninos. Você pode ter todos os tipos de
divertimentos e fazer coisas más como minha mãe faz com alguns homens que vão visitá-
la.
E assim por diante, durante aproximadamente 20 minutos.
Depois disso, todas as participantes disseram ter sofrido algum efeito incomum
durante o episódio. Camellia tivera uma forte dor no peito, reminiscência de suas dores de
estômago anteriores; Rosita sentia-se como se estivesse flutuando; as mãos de Heather
estavam tremendo; Poppy estava chorando; Daisy sentira uma forte dor de cabeça, e disse
que tinha esta dor desde seus sete ou oito anos; Magnólia tivera taquicardia; Iris espantara-
se com as novas memórias que lhe surgiram em profusão; e Hyacinth a muito custo
conseguira conter a vontade de rir, às gargalhadas.

163
As mulheres ficaram tão impressionadas com o poder deste instrumento que,
quando Heather propôs que repetissem a experiência na sessão seguinte, todas votaram
contra e passaram-se várias semanas até que se sentissem dispostas a tentar novamente.
Neste ínterim, as que estavam em terapia individual simultânea falaram sobre muitas coisas
novas.
Escolhe-se oito anos como idade crítica para a regressão do paciente porque existem
muito poucas pessoas que se queixam de amnésia além desta idade: portanto, todos os
pacientes podem ter alguma base para prosseguir sem dispor de uma "amnésia completa"
para usar como resistência. A idade de cinco anos é escolhida como a apropriada para o
terapeuta porque ela implica em certo desenvolvimento do senso de realidade, apesar de um
limitado vocabulário pré-escolar. A limitação do vocabulário facilita perceber as pessoas
que não estão em regressão real e que revelam isso através da sofisticação verbal que
adotam. Proporciona-se-lhes, assim, um modo direto delas expressarem o que for
necessário; se elas não puderem se expressar tão claramente, então é provável que estejam
resistindo.
A análise de regressão é um tipo de psicodrama, mas parece ser mais precisa em seu
fundamento teórico e em sua técnica. (5) Tem um âmbito mais limitado e também menos
artificial, uma vez que, sem exceção, todos os participantes, inclusive o terapeuta, jogaram
seus papéis antes, com sangue, suor e lágrimas. Talvez ela se aproxime mais da "análise
direta" de Rosen, (6) particularmente no uso feito do material colhido.
Já que, até agora, esta é a fronteira mais longínqua atingida pela análise
transacional, tudo o que se conhece a respeito, por enquanto, possui caráter experimental e
qualquer colocação mais arrojada seria desaconselhável. talvez possamos obter maiores
esclarecimentos sobre o assunto através do trabalho de Chandler e Hartman, (7) com LSD-
25, que tem muito em comum com a análise de regressão e parece estar livre de algumas
das falhas de outras regressões farmacológicas.

REFERÊNCIAS

1. Kubie, L., loc. cit.


2. Penfield, W., loc.cit.
3. Runes, Dagobert D., Dictionary of Philosophy. Philosophical Library, Nova York, s.d., "Acquaintance,
Knowledge by"; "Description, Knowledge by"; "Epistemology", Parte f.
4. James, W., Psychology. Henry Holt &Company, NovaYpork, 1910, p.14.
5. Moreno, J. L., Psychodrama, Vol.1. Beacon House, Nova York, 1946.
6. Rosen, J., loc. cit.
7. Chandler, A., & Hartman, M.A., loc.cit.

164
20.
CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS E TÉCNICAS

1. TEORIA

Não se pode generalizar um sistema partindo-se de seu próprio interior. O exame


mais minucioso da Terra não revelará seu lugar no universo, enquanto o investigador não
criar a coragem de olhar para o céu. Faz-se uma generalização através da seguinte pergunta:
"Isto é um exemplo de quê?" Na moderna teoria dos números encontra-se um belo exemplo
de generalização. As propriedades e as relações dos números primos têm sido objeto do
exame intenso e persistente de alguns dos melhores intelectos dos últimos 22 séculos. O
campo ainda permanece relativamente estéril e repleto de abordagens, mesmo depois das
pesquisas originais de Eratóstenes. Recentemente, porém, encontrou-se um modo de
responder à questão: "A série de números primos é exemplo de quê?" A resposta consiste
em que existem muitas variedades possíveis e instâncias infinitas de tais "crivos
matemáticos". (1) Até para o leigo, é evidente que esta generalização da proposta de
Eratóstenes tem interessantes possibilidades de desenvolvimento teórico posterior e de
aplicação prática. Os matemáticos geralmente recebem bem tais esclarecimentos, que
alargam sua visão com a vantagem de unir, sob um mesmo conceito abrangente, áreas que
antes tinham uma difícil correlação.
Há indicações de que as análises estrutural e transacional poderiam, possivelmente,
desempenhar função semelhante. Por exemplo, já podemos notar duas vantagens nas
experiências de traduzir, para a linguagem estrutural, textos, monografias e artigos sobre as
ciências sócio-clínicas. A primeira é que esta tradução aumenta a clareza e a precisão e
pode reduzir consideravelmente o volume destas obras; e a segunda é que ela beneficia o
problema "interdisciplinar", proporcionando uma terminologia comum relevante a
disciplina até agora díspares.
Pode-se dizer que a análise estrutural é apenas a maçã da qual a psicodinâmica é a
semente. Os estudiosos conscientes descobrirão que a semente se ajusta perfeitamente à
maçã; as tentativas apressadas de forçar a maçã a penetrar na semente podem resultar
apenas na mutilação deplorável dos frutos da experiência clínica.

2. ROLE-PLAYING (DESEMPENHO DE PAPÉIS)

É preciso distinguir entre estados do ego e "papéis", a menos que o conceito de


desempenho de papéis seja reduzido a um absurdo que inclua tudo. Neste sentido,
pretendemos definir a posição da análise estrutural.
Quando um contador fala, num jantar do Rotare Club, ele pode agir do modo como

165
ele pensa que se espera que aja um contador. Isto é desempenho de papel. mas, quando ele
se concentra numa coluna de números e contas em seu escritório, ele não está
desempenhando o papel de contador: ele é um contador. Ele mantém um certo estado do
ego, aquele que é necessário para somar uma coluna de números.
Se um terapeuta joga o papel de um terapeuta, não irá muito longe com pacientes
perspicazes. Ele tem de ser um terapeuta. Se ele conclui que certo paciente necessita de
apoio Parental, ele deve liberar o seu estado do ego Parental, e não desempenhar o papel de
um pai. Um bom teste, neste sentido, consiste na tentativa de o terapeuta "expor" seu
Parentalismo na presença de um colega, com um paciente diante do qual ele não se sinta
parental. Neste caso, ele estará desempenhando em papel e um paciente sincero logo o fará
ver com maior clareza a diferença entre ser um Pai complacente e desempenhar o papel de
um pai complacente. Aliás, uma das funções dos estabelecimentos de treinamento
psicoterapêutico é separar os estudantes que querem jogar o papel de terapeutas daqueles
que querem ser terapeutas.
Um paciente pode desempenhar um papel no argumento ou no jogo de outro
paciente; mas, como indivíduo, ele não está desempenhando um papel quando é Pai,
Adulto, ou Criança; ele existe no estado do ego de uma dessas três entidades. Um paciente
no estado do ego de uma Criança pode decidir desempenhar um papel; mas, qualquer que
seja este papel, ou mesmo que ele mude de um papel para outro, seu estado do ego
permanece o de uma Criança. Ele pode até mesmo jogar o papel de um certo tipo de
criança, mas esta é apenas uma entre as escolhas possíveis do seu estado do ego Criança.
Do mesmo modo, as crianças reais que jogam "Lar" podem assumir os respectivos papéis
de Mãe, Doutor e Bebê, mas todas elas permanecem igualmente crianças enquanto estão
desempenhando esses papéis.

3. TREINAMENTO

O treinamento em análise estrutural não é tão árduo quanto o treinamento em


psicanálise, mas também é bastante duro e reclama a mesma atitude crítica em relação a
condicionamento prévio, incluindo o treinamento psicanalítico anterior. Exige-se pelo
menos um ano de seminários semanais, com prática diária, para que se adquira o necessário
tato clínico. Uma vez pediram ao autor que escrevesse um artigo de 20 minutos sobre
análise transacional e designaram para lê-lo um professor sem nenhuma experiência com
esta abordagem. Foi como ler um trabalho sobre a teoria e a prática de projetos de circuitos
para transitores diante de um grupo agressivo de fabricantes de válvulas, sem que nenhum
deles jamais houvesse visto um transistor. Como ressaltou Freud certa vez, uma coisa é ser
parafraseado: "Nunca se conhece uma mulher antes de se morar com ela", e um passeio
pelo parque com a análise transacional raramente revelará todas as suas possibilidades. O
período de treinamento relativamente curto para o analista transacional não se deve ao fato
de a análise transacional ser necessariamente mais simples ou menos importante, mas sim à
constatação de que o material emerge mais espontaneamente e de modo mais evidente do
que o que o de outros sistemas psicoterapêuticos.

166
4. SUGESTÕES TERAPÊUTICAS

1. Aconselha-se que o principiante se concentre na aprendizagem da diferenciação


entre o Adulto e a Criança. O Pai pode ser deixado de lado, até que seu reconhecimento
apareça para o principiante através do material. Faz-se o mesmo com um paciente novo.
2. O sistema deve ser introduzido muito depois do material clínico. Por exemplo, é
bom ter pelo menos três ilustrações diagnosticáveis a partir das produções do paciente. Se o
paciente não entender o primeiro exemplo, oferece-se um segundo a ele. Se este também
for recusado, pode-se suspeitar de resistência ou que o momento não seja apropriado, e não
que realmente o paciente não tenha compreendido. O terceiro exemplo é, então, mantido
em reserva, até que possa ser utilizado mais tarde para confirmar alguma outra abordagem.
3. Mais tarde é preciso confirmar o diagnóstico do Pai ou da Criança, a partir do
material histórico real. um dos pais funcionais do paciente, ou o próprio paciente na
infância, deve ter-se comportado da maneira indicada, Se não houver tal confirmação,
deve-se suspender o diagnóstico.
4. A tricotomia deve ser tomada em sentido literal. É como se cada paciente fosse
realmente três pessoas diferentes. Enquanto o terapeuta não tiver esta percepção, não estará
pronto para utilizar este sistema com eficácia. Por, exemplo, o paciente procura tratamento
por três diferentes razões: uma é que sua mãe (ou pai) o teria levado ali; outra é a
explicação racional; e a terceira, é que ele poderia ter-se apresentado como uma criança em
idade pré-escolar, talvez para ganhar balas ou coisa parecida. Também, um dos aspectos de
sua personalidade talvez pudesse resistir ao tratamento, mas os outros dois o teriam levado
à força.
Quando houver alguma dificuldade na compreensão do que se está passando durante
uma entrevista individual, pode-se esclarecer este ponto, analisando-o como se existissem
realmente, seu pai e ele próprio, como um menininho; e, do lado do paciente, uma criança,
uma governanta neutra e objetiva, babá ou pediatra e a mãe do paciente.
5. Ressaltamos, mais uma vez, que as palavras "maduro" e "imaturo" não cabem
aqui. Supõe-se que todo paciente tenha um Adulto estruturalmente completo. A questão é
como conseguir sua catexia. O rádio existe sempre: o problema é como ligá-lo.
6. O sentido pejorativo da palavra "pueril" (childish), como tem sido tomada,
também deve ser excluído. A Criança pode estar confusa ou carregada de sentimentos
destrutivos, mas as qualidades infantis são, potencialmente, os aspectos mais valiosos da
personalidade.
7. Na maioria dos casos, os exemplos dados referem-se a aspectos comportamentais
e sociais da criança, porque estas são as observações objetivas. A discussão destes casos
apenas nos esclarece intelectualmente. Para se obterem melhores resultados, é necessário
que o paciente vivencie ou reviva o próprio estado do ego da Criança fenomenológica, isto
é, seja uma vez mais o menino meio sujo ou a menina de vestido rodado, capaz de ver as
pessoas íntimas de sua infância em torno de si, com imaginação quase eidética.

167
8. Devemos lembrar que o conceito de jogos é muito preciso. Um jogo não é apenas
um hábito, uma atitude ou uma reação, mas uma seqüência específica de operações, para
cada uma das quais se espera uma resposta: primeiro lance, resposta; segundo lance,
resposta; terceiro lance, resposta; xeque-mate!
9. Pode-se levar algum tempo para ver que os jogos e passatempos não são
ocorrências ocasionais, mas ocupam o maior volume do tempo e do esforço gastos em
sociedade.
10. Ao se observar que um paciente realiza determinado jogo, tanto este como o
terapeuta deverão verificar que este jogo não é uma ocorrência fortuita, mas uma prática
quase que incessante permanente, com graus variados de intensidade.
11. A intervenção ideal é a "especulação da bolsa", que é relevante e aceitável para
todos os três aspectos da personalidade do paciente, pois os três ouvem muito bem tudo o
que é dito.
Durante um momento tenso no grupo, Mr. Hecht tirou uma barra de chocolate e deu
para sua esposa. Ambos, então, acomodaram-se em suas cadeiras e começaram a mastigar
como dois estudantes adolescentes. O Dr.Q. observou: "Agora vejo porque vocês se
casaram. Vocês são como duas pessoas abandonadas na floresta, que fogem dos pais
dominadores de quem nos falaram". Mr. Hecht acrescentou: "E comemos chocolate juntos".
Dr. Q. elaborou: "Sim. Juntos, tornam doce o chocolate". Todos riram e Mrs. Hecht disse:
"Honit soit quit mal y pense!"
A piada do Dr.Q. assemelha-se a uma especulação da bolsa. Ela agradou aos
sacarinos Pais do Hechts por causa da palavra "doce". Agradou a seus Adultos porque foi
pertinente e divertida. E atingiu pelo menos a Criança de Mrs. Hecht, pois ela captou o
sabor anal intencional do comentário, que fazia alusão à natureza de seu contrato de
argumento.
12. Depois que o principiante se adapta à terapia, há um período de entusiasmo. Em
seguida é possível que se verifique uma fase de repulsa, particularmente contra o uso da
terminologia. Este afastamento não deve provocar ansiedade ou causar resignação, pois faz
parte do processo normal de aprendizagem. Além disso, senão ocorrer esta reação, é
questionável o fato de se ter conseguido uma convicção profunda. É exatamente quando
uma nova disciplina profissional começa a tornar-se parte integrante da personalidade e se
firma um compromisso permanente que surge, temporariamente, a mais profunda
resistência. Isto parece acontecer em qualquer treinamento profissional, e é provavelmente
um fenômeno estrutural natural.

5. RESULTADOS

O leitor já se familiarizou com algumas das coisas que a análise transacional pode
fazer. Durante a prática do autor, nos últimos quatro anos, cerca de 100 pessoas a testaram
a fundo (pelo menos durante sete semanas consecutivas, às vezes por períodos tão grandes
como dois ou três anos). Vinte delas eram pré-psicóticos, psicóticos ou pós-psicóticos. Na

168
maioria dos casos, o tratamento terminava com os pacientes, suas famílias e o terapeuta,
todos se sentindo melhor. As experiências de outros terapeutas com esta forma de
tratamento são semelhantes em muitos aspectos. Os pacientes que antes tinham sido
tratados por outros psiquiatras, entrando em contato com a psicanálise ortodoxa, a terapia
psicanalítica e várias outras abordagens, foram particularmente gratificantes para o
trabalho, porque estavam muito bem preparados. Estes, de um modo geral, saíram do
tratamento muito bem, e com uma atitude muito favorável em relação à análise
transacional.
Alguns dos pacientes, especialmente os que não se utilizaram significativamente da
análise transacional, mostraram pouca mudança de atitude ou conduta. Três casos foram
fracassos diretos, pacientes cujo tratamento culminou em (voluntária) hospitalização; eram
pessoas que tinham estado hospitalizadas anteriormente.
O menos trágico e mais instrutivo destes três fracassos foi Mrs. B., a primeira
alcoólatra com quem se tentou a análise de jogos. Aparentemente ela estava melhorando,
mas, um dia, depois de duas entrevistas individuais e dez sessões de grupo semanais, ela
apareceu no grupo e pediu às pessoas que lhe dissessem o que pensavam dela. Todos
ficaram surpresos porque esta era a primeira vez que ela participava ativamente. O
terapeuta percebeu que ela agora se sentia à vontade o suficiente para começar a realizar
seu jogo. Os elementos do grupo responderam de maneira objetiva e, compreensivelmente,
lisonjeira. Mrs. B. protestou, dizendo que queria "a verdade". Obviamente ela se referia a
alguns comentários desagradáveis, mas o grupo não atendeu. Na linguagem de jogos, eles
se recusaram a representar o papel de perseguidores em seu jogo de alcoólatra. Ela foi para
casa e disse ao marido que se ela voltasse a beber ele deveria ou divorciar-se dela ou
interná-la. Ele concordou. Mrs. B. logo ficou intoxicada e o marido a levou para um
hospital. Depois que ela recebeu alta, eles se divorciaram.

6. O APARATO PSÍQUICO

Recentemente surgiu um caso em que parecia haver uma divisão em um único


estado do ego não-contaminado, condição que não poderia ser abordada com base na teoria
formulada até aqui. Ao tentar explicar essa anomalia, descobriu-se que alguns novos
elementos tinham de ser inferidos e estes mostraram-se imediatamente úteis no
esclarecimento de alguns pontos obscuros.
O paradigma clínico para introdução desses novos elementos foi Mr. Decatur, um
próspero viajante de aproximadamente 30 anos de idade que voltou para casa em alto
estado de tensão sexual, logo após uma de suas longas viagens. Depois de uma única
relação sexual satisfatória com sua mulher, ele retomou o trabalho na manhã seguinte na
cidade natal. Esta única relação servira apenas para amenizar seu saudável apetite sexual e
Mr. Decatur esperava manter outras quando voltasse para casa aquela noite. Assim, ele não
se surpreendeu ao perceber-se tendo fantasia sexuais enquanto conversava com suas
clientes do sexo feminino. Ele próprio observou que, em tais períodos, seu Adulto se
dividia em duas partes, uma sexual e outra comercial. O autor estava inclinado a concordar

169
com este diagnóstico. As fantasias sexuais pareciam estar livres de elementos pré-genitais.
Elas eram intrusas, circunspectas e se adequavam bem às possibilidades da realidade de
cada situação; em princípio, estavam à altura do critério de "objeto de interesse"
realisticamente genital e sexual, se não de amor, e baseavam-se em saudáveis pressões
biológicas instintivas. Como não houvesse nem inibições nem elementos arcaicos, só
podiam ser vistas como Adultas, livres de influências exteropsíquicas e arqueopsíquicas, e
controladas por um teste de realidade.
Enquanto estas fantasias se desenvolviam, ele continuava a manter a sua postura
usual de homem de negócios e isto também representava uma atividade Adulta. Portanto,
devemos admitir que, no sentido clínico, o Adulto de Mr. Decatur estava dividido em dois
estados mentais diferentes que funcionavam ao mesmo tempo. Ele, no entanto, observou
que, embora suas fantasias fossem interessantes e suas atividades comerciais tivessem
êxito, lhes faltava algo em intensidade. A partir desses comentários, poder-se-ia deduzir
que havia uma divisão de catexia entre os dois aspectos, de modo que nenhum deles tinha
tanta energia como teriam normalmente, se funcionassem em separado. Ele também
afirmou que o que lhe permitiu manter a atenção no trabalho, impedindo-o de absorver-se
completamente na fantasia, enquanto escutava suas clientes, era o sentimento de dever.
A discussão que se segue serve de maior proveito para as pessoas que tenham uma
base clínica sólida em análise transacional. De outra maneira, os elementos inferidos - que
são necessidades clínicas práticas - podem parecer apenas outro simples conjunto de
conceitos como os tão comuns em psicologias acadêmicas.
Falaremos agora de três instâncias: os determinantes, os organizadores e os
fenômenos. Os fenômenos já são familiares como estados do ego: Criança, Adulto e Pai. Os
organizadores também são familiares como "órgãos" psíquicos: arqueopsique, neopsique e
exteropsique. Determinantes são fatores que determinam a qualidade da organização e dos
fenômenos, isto é estabeleçam sua programação. A programação interna provém de forças
biológicas naturais do indivíduo. Estas podem influenciar qualquer um dos organizadores e,
portanto, os fenômenos resultantes. A programação de probabilidades provém do
processamento de dados autônomo, baseado na experiência passada. A programação
externa provém de cânones externos incorporados.
No caso do viajante, o fenômeno foi o estado do ego Adulto, manifestação da
neopsique. Mas havia, por um lado, um forte determinante biológico interno e, por outro
lado, um forte determinante (moral) externo. A solução de seu problema foi um estado do
ego Adulto dividido, com um segmento instintivamente determinado e o outro mantido
pelo senso de dever. O poder executivo, entretanto, permaneceu todo tempo com a
neopsique, de modo que seu comportamento foi correto e bem adequado aos potenciais de
realidade.
O próximo passo é a postura de que cada organizador tem duas funções e o ponto
essencial é a independência destas duas funções. Uma se destina a organizar os
determinantes e transformá-los em influências efetivas, e a outra a organizar os fenômenos.
(A independência das duas funções pode ser facilmente explicada com base nos equilíbrios
de catexia. O organizador com catexia mais forte assumirá o comando e os de catexia mais
fraca agirão como simples influências). Uma vez que os instintos são fenomenologicamente
arcaicos, pode-se postular logicamente que a arqueopsique organiza a programação interna.

170
Pelo fato de a neopsique tratar do processamento de dados, ela pode ser vista como o
organizador para a programação de probabilidades. E, desde que a exteropsique é o órgão
que se dedica aos estados do ego emprestados, pode-se-lhe atribuir a tarefa de organizar a
programação externa.
Estamos agora em condições de rever algumas das ambigüidades encontradas na
análise estrutural. Um estado do ego é a manifestação fenomenológica e comportamental da
atividade de um certo órgão psíquico, ou organizador. Estes mesmos órgãos têm a tarefa
independente de organizar efetivamente quaisquer determinantes que estejam mais ativos
num dado momento. Isto resulta em duas séries paralelas, com nove casos simples: Criança,
com programação interna, probabilística ou externa; Adulto, com as mesmas
possibilidades; e Pai, idem. Não trataremos de todos estes casos, mas alguns deles podem
ser comentados com proveito.
A característica da arqueopsique é o que Freud chama de processo primário; a da
neopsique, o processo secundário; e a da exteropsique, algo próximo da identificação. Daí a
tendência da Criança em relação ao processo primário; mas a programação probabilística
tenderá a interferir nisso. A tendência do Adulto, por sua vez, será o processo secundário,
mas a programação interna (instintiva) tenderá a desvirtuar esta função. E a tendência do
Pai será funcionar segundo parâmetros emprestados, mas poderá ser afetada pela
programação interna e probabilística.
Estas situações similares e algumas das que comentamos anteriormente sob a
denominação de contaminação, e sua relação com este fenômeno ainda não está clara. A
contaminação foi descrita em termos espaciais, enquanto a presente discussão se baseia no
ponto de vista funcional.
O Pai foi descrito como tendo duas atitudes: educadora (nutridora) e proibitiva.
Estas atitudes podem agora ser explicadas funcionalmente, quando antes o foram baseadas
em dados históricos. Sua explicação funcional dependerá da admissibilidade ou não do
conceito de instinto de morte. Se admitirmos o instinto de morte, ambas as atitudes podem
ser encaradas como estados do ego exteropsíquicos internamente programados: a atitude
educadora determinada pela libido e a proibitiva, pela energia do instinto de morte. Se não
admitirmos o instinto de morte, então o Pai nutritivo (educador) é ainda programado
internamente (isto é, endocrinologicamente) e o Pai proibitivo, externamente.
O Pai também foi descrito, por um lado, como uma influência ("do jeito que a
mamãe gostaria") e, por outro lado, como um estado do ego ativo ("como a mamãe").
Agora está claro que o primeiro caso se refere à programação externa (como quando o
Adulto do viajante leva adiante seu trabalho por um senso de dever), enquanto o segundo
ainda se refere a um estado do ego ativo que pode ser programado de qualquer uma das três
seguintes maneiras ou de qualquer combinação das três: "como mamãe quando me cuidava
durante minhas doenças" (interna); "como mamãe quando discutia a conta da mercearia"
(probabilística); "como mamãe quando me batia" (externa, ou interna com instinto de
morte). É evidente que isto tem relação com a estrutura de segunda ordem do Pai, descrita
do ponto de vista funcional e não fenomenológico.
A distinção entre a Criança adaptada e a Criança natural fica, agora, mais simples de
estabelecer. A Criança adaptada é um estado do ego arqueopsíquico externamente
programado, ao passo que a Criança natural é um estado do ego arqueopsíquico

171
programado internamente. A Criança precoce pode ser considerada como a Criança
programada em termos de probabilidade, para se complementar a análise, embora, na
prática, os determinantes tenham, naturalmente, em todos os casos, uma relação mais
complexa. Os exemplos dados só possuem valor como ilustrações sistemáticas do que pode
ser visto no tecido vivo.
A inferência ou conceito de programação é particularmente necessária na tentativa
de esclarecer as dificuldades encontradas em muitos casos relativos aos estados do ego
Adulto. Um exemplo de sua utilidade aqui está em distinguir entre autoridades "racionais" e
"autoritárias". Uma autoridade racional pode assumir a feição desde um ditador ou monarca
como Rei Salomão, até de um certo tipo de policial de trânsito. Exemplo comum nos
tempos modernos é o do administrador colonial inglês na Austrália. Sua maneira de encarar
as populações nativas é tipicamente a de um processador de dados estatísticos, mas sua
atitude é paternalista e suas soluções para os problemas são geralmente orientadas para os
aspectos infantis de suas mudanças. (2) Isso pode ser caracterizado como um Adulto
programado pelo Pai, representado na Figura 20A. Autoridade autoritária é o ditador,
grande ou pequeno, segundo é visto popularmente: uma pessoa cuja meta é, em primeiro
lugar, realizar sua própria vontade junto aos súditos, mas que mantém uma atitude
justificada racionalmente, de modo que sua propaganda apresenta dados estatísticos
calculados para justificar sua tirania. Uma vez que seu "Eu real" é o Pai, "ele próprio" pode
acreditar no que está dizendo. É o Pai programado pelo Adulto representado na Figura 20B.
(Para ilustrar esta análise, podemos citar a imprevisível autocracia dos imperadores
romanos programados pela Criança que tentavam realizar suas fantasia arcaicas por meio
de crueldade e abandono irrestritos, exagerados.)

Num nível mais universal, com referência à Figura 17D, o Adulto ético, "Ethos",
pode ser visto funcionalmente como o Adulto programado pelo Pai, o que significa que as
boas mães se comportam eticamente com os filhos. O Adulto sensível, "Pathos", pode ser
compreendido como Adulto programado pela Criança, no sentido de que o irmãozinho
menor chora quando o irmão mais velho está com dor.

172
O que aqui chamamos determinantes, generalizados do material clínico da análise
transacional, assemelha-se a um outro conjunto de conceitos derivado muito antes de um
material similar. Esta correspondência é gratificante, pois ela tende a sustentar a validade
de ambos os sistemas por uma série de observações independentes umas das outras. Os
conceitos de id, ego e superego tornaram-se uma espécie de jargões nas mãos dos
seguidores de Freud e, em discussões formais, é preferível aderir às formulações originais
de Freud.(3)
O id: "Contém tudo o que é herdado, que está presente no nascimento e fixado em
nossa constituição - acima de tudo, portanto, os instintos, que se originam na organização
somática e têm como primeira expressão mental o id, em formas desconhecidas para nós...
Esta porção mais antiga do aparato mental permanece a mais importante durante toda a
vida". Esta descrição serve perfeitamente para explicar não apenas a concepção popular de
"atividade do id", mas também de fatores sexuais e de comportamento maternal educador,
e, neste sentido, a atividade do id assemelha-se à "programação interna".
O ego: "Tem a tarefa de autopreservação... desempenha esta tarefa tornando-se
ciente dos estímulos vindos de fora, armazenando as experiências com tais estímulos (na
memória), evitando o excesso de estímulos (por meio de fuga), trabalhando com estímulos
moderados (através da adaptação) e, finalmente, aprendendo a causar modificações
apropriadas no mundo externo, tendo em vista o seu próprio proveito (através da
atividade)... em relação ao id, desempenha a tarefa de adquirir controle sobre as exigências
dos instintos e decidir se deve haver permissão para que obtenham satisfação, o adiamento
dessa satisfação para momentos e circunstâncias favoráveis no mundo externo, ou a
supressão total de suas excitações", Tal instrumento assemelha-se a um computador de
probabilidades autoprogramado com características especiais, que é o modelo da
programação neopsíquica.
O superego: "O longo período de infância, durante o qual o ser humano em
crescimento vive na dependência dos pais, deixa atrás de si um precipitado, que forma
dentro de seu ego um elemento especial em que esta influência parental se prolonga... A
influência dos pais naturalmente inclui não apenas as personalidades dos pais em si, mas
também as tradições racionais, nacionais e familiares, transmitidas por eles... o superego de
um indivíduo durante seu desenvolvimento recebe contribuições de sucessores posteriores e
substitutos dos pais." Na verdade, o superego é um reservatório para influências
exteropsíquicas.
E, em suma: "... o id e o superego têm uma coisa em comum: ambos representam as
influências do passado (o id, a influência da hereditariedade; o superego, essencialmente, a
influência do que é extraído de outras pessoas), enquanto que o ego é principalmente
determinado pela própria experiência do indivíduo".
Freud não levanta nenhuma questão de fenomenologia sistemática, e é aqui que a
análise estrutural pode preencher satisfatoriamente um vazio na teoria psicológica, como a
análise transacional complementa a teoria social, estabelecendo unidades elementares
(transações) e unidades amplas (jogos e argumentos) de ação social.

173
NOTAS

A análise estrutural começou a ser usada pelo autor, com certa regularidade, no
outono de 1954, depois de alguns anos de evolução preliminar. Em 1956, a necessidade de
princípios de análise transacional e de análise de jogos emergiu com clareza suficiente para
indicar um programa terapêutico sistemático e básico. Os resultados obtidos durante as
fases iniciais de setembro de 1954 a setembro de 1956 foram comentadas em outra obra (4)
e estão resumidos na tabela abaixo. Os critérios usados foram semelhantes aos
mencionados neste texto. "F" denota os fracassos, pacientes cujo tratamento terminou em
hospitalização (voluntária); "O" denota os que mostraram pouca mudança de atitude ou
comportamento. e "I", os que tiveram bastante melhora, de acordo com o consenso de
opinião disponível em cada caso. A linha "P" inclui os pré-psicóticos, psicóticos e pós-
psicóticos, e a linha "N" inclui todos os outros pacientes.

TOTAL NÚMERO PORCENTAGENS


P 23 F O I F O I
N 42 2 3 18 10 12 78
0 14 28 0 33 67

O valor de tais cifras é, na melhor das hipóteses, discutível, e, na pior, ele poderia
confundir os pacientes, o público profissional e leigo, e o terapeuta que as compila.
Discutiu-se com alguns colegas e com alguns dos próprios pacientes a questão da
elaboração de tabelas como estas para os indivíduos submetidos a tratamento mencionados
no texto e as respostas foram, quase que unanimemente, dúbias ou adversas. Os pacientes,
seus maiores interessados, estavam realmente querendo cooperar com qualquer
procedimento estimativo que o terapeuta sugerisse, mas, de um modo, geral, pareciam não
encontrar nas escalas estatísticas uma relação séria com o progresso psicoterapêutico real.
Uma senhora deu um exemplo disso: "Esta manhã observei minha máquina de lavar roupas
e ela me pareceu real. Isso me deixou feliz. Eu não via as coisas deste jeito antes de vir
aqui". A questão era: "Como você sabe o quanto isso significa para mim, e como você vai
provar isso a qualquer outra pessoa?" Os fracassos diretos são fáceis de categorizar, mas os
sucessos, pelo menos na prática privada, são de difícil quantificação objetiva.
Considerando-se um período de sete semanas como o mínimo aceitável para a
exposição de um indivíduo a tratamento, por causa do que parece ser um período biológico
natural. Geralmente as fronteiras do ego levam de 39 a 45 dias para efetuar uma mudança
de posição. Este é o período de "cristalização", (5) por exemplo, o de "acostumar-se" a uma
nova casa (para pessoas que se interessam pelo lar). Portanto, ao fazermos avaliações, é
recomendável do ponto de vista prático, levarmos a sério apenas os pacientes que
participam regularmente no mínimo sete semanas seguidas, seja qual for a freqüência das
sessões, desde que elas se realizem pelo menos uma vez por semana. Se as sessões forem
menos freqüentes do que uma vez por semana, deve-se considerar um outro período que
faça de cada encontro uma "nova experiência", quebrando a continuidade. Evidentemente,

174
esta continuidade também é quebrada se um paciente falta uma semana, durante o período
inicial.
Um número surpreendente de psicanalistas tem observado os fenômenos estruturais,
isto é, as mudanças de estados do ego, ou ouviram de pacientes algo a respeito de que
chamamos aqui Adulto e Criança. A surpresa está no fato de nenhum deles, exceto Federn e
seus discípulos, ter levado a sério este aspecto. H. Wiesenfeld mostrou-me um artigo em
que Eksrein e Wallerstein (6) enfatizam muitas destas observações, mas, no final,
abandonam a abordagem naturalística para se envolverem numa discussão técnica de
mecanismos de defesa. Embora suas conclusões sejam interessantes, elas parecem banais
em contraste com as promissoras e excitantes observações iniciais. Este artigo demonstra,
de um modo fascinante, as mudanças entre os estados de ego arqueopsíquico, neopsíquico e
exteropsíquico em crianças limítrofes e psicóticas.

REFERÊNCIAS

1. Hawkins, D. "Mathematical Sieves". Scientific American. 199: 105-112, dezembro de 1958.


2. Pacific Islands Monthly. Pacific Publications Pty., Sydney, passim.
3. Freud, S., An Outline of Psychoanalysis, loc.cit., pp.14018.
4. Berne, E., "Ego states im Psychotherapy", loc.cit.
5. Stendhal, On Love. Peter Pauper Press, Mount Vernon, Nova York, s.d.
6. Ekstein, R & Wallerstein, J., "Observations on the Psychology of Borderline and Psychotic Chidren".
Psychoanal. Study of the Child. IX, 334-369, 1954.

175
APÊNDICE

UM CASO CONCLUÍDO, COM ACOMPANHAMENTO


("FOLLOW-UP") POSTERIOR

O caso que relatamos a seguir ilustra os métodos e resultados de um processo


completo de análise estrutural e transacional. Em virtude de o uso sistemático desta
abordagem, desde o início até o fim, ter sido possível apenas com o florescimento total de
seu desenvolvimento teórico, o acompanhamento do caso é relativamente curto. Entretanto,
não se trata de um exemplo isolado e, seja por sorte ou porque a terapia realizou os seus
propósitos, agora existe um pequeno grupo de caso cujo resultado final será observado com
especial interesse através dos anos. Consiste de pacientes que acusaram uma melhora
inesperadamente rápida (pelos padrões anteriores), tanto em nível sintomático como social,
sob condições terapêuticas controladas.
Antes de abordarmos com maiores detalhes o caso de Mrs. Enatosky, o exemplo de
Mrs. Hendrix, dona-de-casa de 30 anos, merece ser brevemente considerado. Mrs Hendrix
foi vista pela primeira vez há dez anos, ocasião em que sofria de uma depressão agitada.
Ela foi tratada pelos médicos de apoio convencional ("oferecimento de suprimentos orais",
como se diz coloquialmente), durante um ano, período em que se recuperou.
Quando retornou mais tarde, ela estava pior do que estivera durante o seu episódio
inicial, com fantasias suicidas ainda mais ativas. Desta vez seu tratamento consistiu na
análise estrutural e, dentro de seis semanas, ela melhorou mais do que durante todo o ano
de sua terapia anterior; isto não apenas na opinião dela mesma e do terapeuta, mas também
de sua família e de pessoas íntimas; e esta melhora foi conseguida por um procedimento
decididamente diferente do oferecimento de "suprimentos de apoio". Depois de outras seis
semanas, ela reagia melhor do que nunca, tendo abandonado algumas de suas ambições
autistas de longa duração, em favor de viver no mundo. Ela também desistira da tendência
pouco salutar de postular sua posição ou sua infância infeliz; em lugar de brincar de "Perna
de Pau" e "Se não fosse Por Eles", ela começava a encontrar sua identidade dentro do
quadro das novas possibilidades que surgiram em sua vida familiar. Este caso é
mencionado porque oferece uma situação mais ou menos bem controlada dentro do que se
pode esperar na prática clínica; a mesma paciente com dois episódios semelhantes
claramente definidos e separados por um intervalo, tratados pelo mesmo terapeuta com
duas abordagens diferentes.
Voltemos agora A Mrs. Enatosky. Como relatamos no início do capítulo 14, esta
senhora queixava-se inicialmente de ataques súbitos de "depressão". Pode-se recordar que
ela tinha passado por hipnose e psicoterapia combinada com Zen e ioga. Ela mostrou
especial aptidão para a análise estrutural e transacional, e logo começou a exercer controle
social sobre os jogos surgidos entre ela e o marido e entre ela e o filho. O diagnóstico
formal é melhor definido como esquizo-histeria. O caso será agora revisto, sessão por
sessão, com extratos significativos.

176
1. PRIMEIRO DE ABRIL

A paciente chegou em cima da hora para a entrevista inicial. Informou que antes
tinha ido a outros terapeutas, mas, insatisfeita, consultara um clínico municipal e, após
conversar algum tempo com um assistente social, recebeu referências para procurar o Dr.Q.
O terapeuta encorajou-a a prosseguir no seu relato e, em pontos relevantes, fazia-lhe
perguntas, a fim de elucidar sua história psiquiátrica. Ela afirmou que tinha sido alcoólatra
durante dez anos e que fora curada pelos Alcoólicos Anônimos. Começara a beber a partir
da psicose de sua mãe, quando ela tinha 19 anos. Disse que suas depressões surgiram na
mesma época.
Foi discutida a natureza de seu tratamento psiquiátrico anterior. Obteve-se uma
informação demográfica preliminar, de modo a situá-la como americana, mulher de 34
anos, dona-de-casa, protestante, divorciada, de instrução secundária e cujo marido era
mecânico. Anotou-se a ocupação de seu pai, a duração de seu casamento, sua posição como
filha dentro da família em anos e meses, e a idade de seus filhos. Uma investigação dos
eventos traumáticos esclareceu que o pai dela bebia demais e que seus pais se separaram
quando ela tinha sete anos.
A história médica revelou dores de cabeça e dormência de um braço e uma perna,
mas nenhuma convulsão, alergia, afecções da pele ou outras desordens físicas com
implicações psiquiátricas comuns. Foi anotada sua idade na época de todas as suas
operações, ferimentos e doenças sérias. Sua infância foi explorada em termos de
psicopatologia geral, como andar dormindo, roer unhas, ter terrores noturnos, gaguejar,
gemer, não controlar a urina enquanto dormia, chupar o dedo e outros problemas pré-
escolares. Seu histórico escolar foi brevemente revisto. Anotaram-se também as influências
químicas, como medicamentos e exposição a substâncias tóxicas. Fez-se uma exploração
cuidadosa de seu status mental e, finalmente, pediu-se a ela que relatasse qualquer sonho de
que se lembrasse. Recentemente, ela sonhara: "Eles estavam salvando meu marido da água.
Sua cabeça estava machucada e eu comecei a gritar". Ela mencionou que freqüentemente
ouvia vozes vindas de dentro de si mesma, exortando-a com relação à saúde e, certa vez, há
dois anos, uma voz vinda de fora. Isto satisfez os requisitos para uma compilação histórica
preliminar, e a paciente teve permissão para falar do modo que lhe agradasse.
Discussão: A compilação histórica foi cuidadosamente planejada de modo que
todas as vezes a paciente parecia tomar a iniciativa. O terapeuta mostrava-se mais curioso
do que sistemático, formal e abertamente, em colher informação. Isto significa que a
paciente podia estruturar a entrevista à sua própria maneira tanto quanto possível, sem ser
requisitada a entrar num jogo de compilação histórica. Por causa da queixa de dormência, a
paciente foi encaminhada a um neurologista para exame.

2. 8 DE ABRIL

O neurologista levantou a suspeita de artrite cervical, mas não recomendou nenhum

177
tratamento específico. A paciente conduziu esta entrevista como um tipo de investigação
psicológica. Ela mencionou espontaneamente um desejo de aprovação e rebeldia "como
uma menininha", de acordo com o julgamento de alguma "parte adulta" sua. Disse que a
"menininha" parecia "ingênua". O terapeuta sugeriu que ela deixasse de lado a
"menininha", em lugar de tentar firmar-se nela. Ela respondeu que isto lhe parecia
imprudente. "Eu gosto de crianças".
"Sei que não posso satisfazer as expectativas de meu pai e me canso de tentar fazê-
lo". Isso também inclui as "expectativas" de seu marido. A paciente generalizou tais
expectativas como "expectativas parentais", uma vez que tinham o mesmo significado para
ela. Vê os dois "pais" mais importantes de sua vida como o marido e o pai. Ela é sedutora
para com o marido e reconhece que também o era com relação a seu pai. Quando seus pais
se separaram, ela pensou (tinha sete anos): "Eu poderia tê-lo segurado". Assim, ela não só
tinha conflito a submissão, mas também uma atitude de sedução para com figuras parentais.
Discussão: A atitude especial da paciente para com a análise estrutural já está
evidente. Ela própria faz a separação entre a "menininha" e a "parte adulta" e reconhece a
submissão da "menininha" em relação a certas pessoas que relaciona com seus pais. Apenas
foi necessário, portanto, reforçar esta tricotomia de um modo não-diretivo. Com muitos
outros pacientes, isso não teria sido possível até a terceira ou quarta sessão, ou talvez
mesmo mais tarde.

3. 15 DE ABRIL

Ela se ressente com as pessoas que lhe dizem o que deve fazer, especialmente
mulheres. Esta é outra reação para com os "pais". Menciona uma sensação de "flutuar". É
ressaltado que este é o modo como a menina muito pequena deve sentir-se, que isto é
novamente a Criança. Ela respondeu: "Oh! Caramba! É verdade! Quando você disse que
parecia ser uma criancinha... é difícil de acreditar, mas isso faz sentido para mim. Como diz
você, eu sinto que não quero andar: uma menininha em traje infantil para brincar... sinto-me
bem agora. Eles lhe empurram pelo ombro direito e você é ultrajado... ainda faço o mesmo
com meu próprio filho. Eu desaprovo, ao mesmo tempo em que estou pensando: 'Eu não
desaprovo, sei como ele se sente'. É realmente minha mãe desaprovando. É esta a parte Pai
que você mencionou? Temo um pouco por tudo isso".
Neste ponto foi enfatizado que não havia nenhum aspecto misterioso ou metafísico
nesses julgamentos diagnósticos.
Discussão: A paciente agora revivesceu um pouco da realidade fenomenológica da
criança e acrescentou mais coisas à realidade comportamental, social e histórica que tinha
estabelecido nas entrevistas anteriores. As indicações, portanto, são favoráveis ao
tratamento com análise transacional.

4. 22 DE ABRIL

178
"Esta semana estou feliz pela primeira vez em 15 anos. Eu não preciso procurar
muito para encontrar a Criança; posso vê-la em meu marido e em outras pessoas também.
Tenho problemas com meu filho". O jogo com seu filho foi esclarecido de modo inexato,
mas oportuno e ilustrativo, em termos de Pai (sua desaprovação e determinação), Criança
(sua sedução e mau humor, diante da resistência obstinada dele) e Adulto (sua gratificação
quando ele finalmente fazia seu trabalho). Foi sugerido que valeria a pena tentar uma
abordagem Adulta (boas razões), e não uma abordagem Parental (razões sentimentais).

5. 28 DE ABRIL

Ela relata que as coisas melhoraram com seu filho. Tentou-se a análise de regressão
para descobrir mais a respeito da Criança. Ela conta: "O gato suja o tapete e eles me
acusam e me fazem limpá-lo todo. Nego ter feito isso e gaguejo". Na discussão seguinte,
salienta que tanto os Alcoólicos Anônimos como a Igreja Anglicana exigem confissões às
"sociedades". Por esta razão ela desistira das duas coisas. No final da sessão, ela perguntou:
"É certo ser agressiva?" Resposta: "Você quer que eu lhe diga?" Ela compreende que
deveria decidir tais coisas em nível Adulto, em vez de pedir permissão Parental, e responde:
"Não, eu não quero".
Discussão: Durante esta sessão alguns dos elementos de seu argumento foram
elucidados. Posso antecipar que ela tentará repetir com o terapeuta, de alguma forma bem
adaptada, a situação do gato. A pergunta "É certo ser agressiva?" talvez seja o primeiro
passo em sua adaptação. Isso dá ao terapeuta a oportunidade de diminuir o jogo e reforçar
seu Adulto. A paciente fez tanto progresso na compreensão da análise estrutural e
transacional que já é considerada adequadamente preparada para terapia de grupo bastante
avançada. O grupo em que ela vai entrar consiste de mulheres, em sua maioria.

6. 4 DE MAIO

Um sonho. "Olho pra mim mesma e digo: não é tão mau". Ela gostou, mas este não
a deixa à vontade durante o resto da semana. Conta algumas memórias, incluindo jogo
homossexual durante a infância. "Oh! É por isso que não gosto dos Alcoólicos Anônimos.
Lá havia duas mulheres homossexuais e uma delas me chamou de sensual." Ela se queixa
de coceira vaginal. "Minha mãe e eu dormimos juntos e ela me incomodava".
Discussão: O conteúdo manifesto de seu sonho é considerado Adulto e indica a
possibilidade de um prognóstico. A experiência no grupo ativou conflitos sexuais e esta é a
primeira indicação da natureza deles.

7. 11 DE MAIO

Ela se sentiu altamente excitada ao deixar o encontro de grupo. "As coisas estão
mudando rapidamente. Por que eles me fizeram rir e corar? Em casa, as coisas estão

179
melhores. Consigo beijar meu filho agora, e minha filha, pela primeira vez, veio sentar-se
em meu colo. Não posso ser uma boa amante quando as coisas estão monótonas".
Discussão: A análise de seus jogos familiares que ressaltamos em parte no Capítulo
14, tem resultado no estabelecimento de algum controle social Adulto. É evidente que essa
melhora de controle tem sido percebida por seus filhos e, pela primeira vez em muito
tempo, eles sentem que ela pode manter sua posição e eles reagem de acordo com isso. Sua
excitação no grupo e sua afirmação de que não consegue ser boa amante quando as coisas
estão monótonas indicam que ela está envolvida num jogo sexual com o marido.
Uma experiência posterior no grupo, esta semana, mostrou com bastante clareza a
sua necessidade das figuras parentais, em alguns de seus jogos. Havia um novo paciente no
grupo, um assistente social do sexo masculino e ela se impressionou muito com sua
ocupação. Ela lhe perguntou o que esperava que eles fizessem ali. Foi ressaltando que ela
sabia mais do que ele, uma vez que aquele era o primeiro encontro dele e o terceiro dela.
Ela diz que se ressente quando as pessoas lhe dizem o que fazer, ainda que de modo
simpático, e, apesar de sua experiência, ela pede instruções ao elemento novo, porque
parece estar impressionada com sua educação: evidentemente, uma tentativa de estabelecer
o jogo. Esta interpretação atinge o lar. Ela reconhece que "seduz" um provável candidato a
ser parental em relação a ela e, depois, queixa-se disso.

8. 18 DE MAIO

Ela ficou perturbada pela análise de regressão no grupo. Isto a fez pensar em seu
medo da insanidade e em sua mãe no hospital estadual. De sua parte, falou de alguns
portões elegantes que levavam a um belo jardim. É um derivativo de sua fantasia de
infância sobre o Jardim do Éden, de antes dos cinco anos de idade. O material indica que o
jardim se adaptou aos portões do hospital estadual onde ela visitava sua mãe há muitos
anos. Esta experiência no grupo ofereceu a oportunidade para que lhe disséssemos que ela
poderia querer ser hospitalizada para, assim, livrar-se de responsabilidades.
Ela visitara sua mãe apenas uma vez, nos últimos cinco ou seis meses, e foi-lhe
sugerido que talvez fosse oportuno fazê-lo novamente. Esta sugestão foi expressa com
muita cautela, de modo a revestir-se de um caráter Adulto, e não Parental. Procurou-se
evitar qualquer insinuação de que ela fosse uma má menina por não visitar a mãe. Ela era
capaz de compreender o valor de tal visita como um exercício para sua parte Adulta e como
um meio de prevenir futuras dificuldades entre o Pai e a Criança, caso sua mãe morresse.
Ela manifestou boa receptividade à sugestão, trazendo uma informação nova. Seu marido
nunca lava os cabelos e sempre tem uma boa desculpa, que ela aceita. Há muitos meses que
ele não lava os cabelos. Ela diz que não se incomoda muito com isto. O terapeuta diz que
ela deveria estar ciente do fato, quando se casou com ele. Ela nega.

9. 25 DE MAIO

Disse que sempre teve mais medo de animais doentes do que de pessoas doentes.

180
Esta semana seu gato adoeceu,e, pela primeira vez, ela não estava com medo dele. Uma
ocasião, quando era pequena, ela apanhou do pai, e seu cachorro avançou nele. Por isso o
pai sumiu com o cachorro. Ela contou para seus filhos que a mãe tinha morrido. Sempre
que pensava na mãe, começava a beber. Uma vez lhe disseram que, quando sua mãe estava
grávida de oito meses, seu pai tentara envenená-la. Salvaram sua mãe e pensaram que ela
fosse um caso perdido, mas, então, ela se restabeleceu. A tia que lhe contou esta história
afirmara: "Sua vida tem sido uma confusão desde que você nasceu".
Discussão: A importância disso não está muito clara. É evidente, no entanto, que ela
está trabalhando alguns conflitos bastante complexos relacionados com sua mãe. O fato de
ela manter controle social com o gato doente é uma evidência de que pode ser possível que
ela visite sua mãe num futuro próximo.

10. PRIMEIRO DE JUNHO

"Francamente, o motivo pelo qual tenho medo de visitar minha mãe é porque eu
poderia ter de ficar lá". Pergunta: "Por que eu existo? Às vezes duvido de minha
existência". O casamento de seus pais fora forçado e ela sempre sentiu que era indesejável.
O terapeuta sugeriu-lhe que conseguisse uma cópia de sua certidão de nascimento.
Discussão: A paciente agora está envolvida com problemas existenciais. Sua parte
Adulta sempre foi insegura, porque a Criança implantara dúvidas sobre sua existência, seu
direito e sua forma de existir. Sua certidão de nascimento será uma evidência escrita de que
ela existe realmente e isto deve impressionar particularmente a Criança. Na medida em que
for sendo estabelecido o controle social e em que ela aprender que pode existir da maneira
que ela própria escolher, deve diminuir seu desejo de fugir para o hospital estadual.

11. 8 DE JUNHO

Ela descreve o jogo alcoólico de seu marido. Nos Alcoólicos Anônimos lhe
disseram que deveria tratá-lo bem e confortá-lo, o que a deixou doente. Tentou algo
diferente: "Um dia eu disse que chamaria a ambulância para o hospital, já que ele não
parecia capaz de cuidar de si mesmo. Então, ele se levantou e não bebeu mais". Ele disse
que apenas estava tentando ajudá-la a ficar sóbria, bebendo ele próprio. O fato veio à tona
porque ele estava bebendo muito na semana passada. Ela teve dor nos ombros e quis bater
nele, mas, em vez disso, passou-lhe um sabão.
De acordo com o relato, parece que o contrato secreto de casamento deles baseia-se,
em parte, na suposição de que ele beberá e ela funcionará como sua redentora. Este jogo foi
reforçado pelos Alcoólicos Anônimos para benefício dela. Quando ela se recusou a
continuar como redentora e, ao contrário, se converteu num elemento persecutório, o jogo
se quebrou e ele parou de beber. (Evidentemente, ele foi reinstituído em função de sua
insegurança da semana anterior.)
Este esforço lhe foi apresentado. Ela disse, inicialmente: "Isso não pode ter sido

181
parte do nosso contrato de casamento, porque nenhum dos dois bebia quando nos
conhecemos". Algum tempo mais tarde, na entrevista, ela disse subitamente: "Você sabe,
agora eu me lembro que eu sabia, quando nós nos casamos, que ele não lavava os cabelos,
mas eu não sabia que ele bebia". O terapeuta disse que o cabelo desleixado também fazia
parte do contrato de casamento. Ela pareceu cética. Então, ela pensou um minuto e disse:
"Caramba! Eu sabia que ele bebia! Quando estávamos no colégio, costumávamos beber
juntos o tempo todo".
Parece, agora, que nos primeiros anos de seu casamento, eles faziam um jogo
alcoólico flexível. Se ela bebesse, ele não o fazia e, se ele bebesse, ela ficava sóbria. Sua
relação baseava-se, originalmente, neste jogo, que eles mais tarde interromperam e devem
ter realizado um considerável esforço para esquecê-lo.
Discussão: Esta sessão ajudou à paciente a estrutura de seu casamento, e também
enfatizou o tempo e o esforço que era necessário para manter os jogos maritais e,
igualmente, a quantidade de energia na repressão deles, sem controle consciente.

12. 12 DE JULHO

Houve um intervalo de um mês para as férias de verão. A paciente voltou com um


ombro machucado. Ela estivera no hospital estadual e sua mãe a mandara embora. Isto a
deixou desesperada. Ela está com algumas ilusões olfativas. Pensa que sente cheiro de
gasolina no consultório, mas decide que é de sabonete. O fato nos conduz a uma discussão
a respeito de sua atividade mental. Durante seu recente treinamento de ioga, ela
desenvolveu fantasias quase que eidéticas. Ela veria jardins e anjos sem asas com nitidez de
cor e detalhe. Lembra-se que teve o mesmo tipo de fantasias quando criança. Também tem
visões do Cristo e de seu filho. Vê animais e flores. Na verdade, quando passeia pelos
parques gosta de conversar em segredo, mas em voz alta, com as árvores e flores. Os
desejos expressos nessas atividades são discutidos com ela. Os aspectos artísticos e
poéticos são ressaltados e ela é encorajada, portanto, a escrever e a tentar pintar com os
dedos. Ela viu sua certidão de nascimento e suas dúvidas existenciais a estão perturbando
menos.
Discussão: Esses fenômenos e as manifestações auditivas, que ela mencionou
anteriormente, não são, necessariamente, alarmantes. Eles apontam para as tendências
restitutivas infantis, relacionadas com uma relação profundamente perturbada entre ela e
seus pais. A abordagem convencional lhe daria um tratamento "de apoio" e a ajudaria a
reprimir sua psicopatologia e a viver acima dela. A análise estrutural oferece outra
possibilidade que requer certa audácia: permitir que esta Criança perturbada se expresse e
lucre a partir das experiências construtivas resultantes.

13. 13 DE JULHO

182
Ela foi até seu médico e este lhe receitou Rauwolfia* porque sua pressão sangüínea
estava alta. Ela disse ao marido que iria pintar com os dedos, ele ficou zangado e afirmou:
"Use pincéis!" Quando ela se recusou, ele começou a beber. Ela reconhece o que ocorreu
aqui como um jogo de "Tumulto" e sente-se desesperada por ter participado dele. Diz,
entretanto, que se ela não jogar "Tumulto" com ele, então ele se sentirá desesperado, e é
uma escolha difícil de fazer. Também menciona que o portão no belo jardim é muito
parecido com o portão da escola maternal diurna onde sua mãe costumava mandá-la
quando ela era pequena. Surge, agora, um novo problema: com distinguir o efeito da
psicoterapia do efeito da Rauwolfia. Ela está ansiosa para colaborar.

14. 20 DE JULHO

Ela está perdendo o interesse e sente-se cansada. Concorda que é possível que este
seja um efeito do medicamento. Revela alguns escândalos familiares que nunca mencionara
antes a ninguém e afirma que começou a beber depois destes escândalos, e não depois que
sua mãe tornou-se psicótica.
Neste encontro deu-se uma mudança decisiva. Durante suas sessões terapêuticas, a
paciente habitualmente senta-se com as pernas numa posição deselegantemente exposta.
Agora ela se queixa novamente das mulheres homossexuais do Alcoólicos Anônimos.
Reclama que os homens avançam nela. Ela não entende por quê, uma vez que não faz nada
para que isto aconteça. Ela foi advertida a respeito de sua posição desajeitada e expressou
considerável surpresa. Foi-lhe ressaltado, então, que ela deve ter-se sentado deste modo
provocativo por muitos anos e que o que ela atribui à agressividade dos outros talvez seja
decorrência de sua própria postura um tanto grosseiramente sedutora. No encontro
subseqüente de grupo, ela ficou em silêncio a maior parte do tempo e, quando questionada,
mencionou o que o doutor tinha dito e como isto a perturbara.
Discussão: Esta é uma sessão crucial. Ao preço de sacrificar as possibilidades de
uma vida familiar normal, a paciente obteve uma infinidade de ganhos primários e
secundários, jogando com seu marido e com outros homens e mulheres. O ganho externo
primário é a fuga ao intercurso sexual prazeroso. Se ela puder renunciar a esses ganhos,
poderá estar pronta para empreender uma relação marital normal, cujas satisfações lhe
trarão maior compensação por sua renúncia. Os elementos esquizóides em sua Criança
estão nítidos a partir de sua sintomatologia. Os elementos histéricos estão mais claramente
manifestados em seu jogo de "Violação", socialmente aceitável. Daí o diagnóstico de
esquizo-histeria.
No caso dela, evitou-se nomear o jogo, pois ela ainda estava crua para tolerar tal
aspereza. Ele lhe é simplesmente descrito, sem ser nomeado. Em grupos muito avançados,
no entanto, é tecnicamente conhecido como "Violação de primeiro grau". É o nome
clássico dos histéricos: exibicionismo sedutor grosseiro e "inconsciente", seguido de
protestos de surpresa e inocência ferida, quando surge uma resposta. (Como se notou
anteriormente, a "Violação de terceiro grau", a forma mais viciada, acaba no tribunal ou no
necrotério.) O problema terapêutico no momento é saber se sua preparação foi adequada e

*
Trata-se de um medicamento hipotensor. (Nota do revisor técnico)

183
se a relação entre Criança e o terapeuta foi suficientemente bem compreendida para tornar
este confronto eficaz. Num certo sentido, sua vida e a de seus filhos dependem do
julgamento do terapeuta sobre estes assuntos. Se ela decidisse se zangar e desistir do
tratamento, a psiquiatria estaria perdida para ela por longo tempo e, mais tarde, talvez, para
sempre. Se ela aceitasse isso, o efeito seria decisivo, uma vez que este jogo particular
constitui sua barreira principal para a felicidade conjugal. O terapeuta, naturalmente, não se
aventurou a trazer o assunto à baila sem uma garantia considerável de sucesso.

15. 10 DE AGOSTO

O terapeuta retorna de suas férias de duas semanas. O confronto teve sucesso. A


paciente, agora, descreve uma investida de seu pai, da época em que ela entrava na
puberdade, enquanto sua madrasta fingia dormir. Ele também molestou outras crianças, sua
madrasta costumava defendê-lo. Relaciona este "ataque" ao fato de ela própria ser sedutora.
Ela discute longamente a situação, elucidando seu sentimento de que sexo é sujo e vulgar.
Diz que sempre foi muito cuidadosa sexualmente com o marido, por causa deste
sentimento, e tenta evitar sexo com ele por esta razão. Compreende que seus jogos com ele
são uma tentativa de evitar o sexo e sente que não pode ir tão longe a ponto de gastar
daquilo que passa de um peso para ela.
Discussão: A paciente está, evidentemente, chocada com a diretividade do
terapeuta, mas está gratificada, porque isto simplifica ainda mais a estrutura de seu
casamento e indica o que poderia ser feito a respeito dele.

16. 17 DE AGOSTO
(Entrevista final)

A paciente anuncia que esta é a sua última sessão. Ela não mais teme que seu
marido pense que ela é suja ou vulgar se agir com lascívia. Ela nunca lhe perguntou se ele
achava isso, apenas supôs que ele achasse. Durante a semana, ela o abordara de um modo
diferente e ele respondeu com surpresa gratificante. Nos últimos dias ele tem voltado para
casa assoviando, pela primeira vez em muitos anos.
Ela também compreende algo mais. Sempre teve pena de si mesma e tentou
provocar simpatia e admiração porque é uma alcoólatra recuperada. Reconhece que este é
um jogo de "Perna de Pau". Sente-se pronta, neste ponto, a tentar por si mesma. Também se
sente diferente com relação a seu pai. Talvez ela tenha contribuído mais do que pensava
para a sedução. O fato de a barra de suas saias ser tão curta a chocou, mas a ajudou. “Eu
nunca admitiria que sexo me agrada. Sempre pensei que quisesse 'atenção'. Agora admito
que queria sexo". Durante a semana, ela visitou o pai, doente, num hospital, em outra
cidade. Ela foi capaz de encarar sua visita com considerável objetividade. Agora, reconhece
que se divorciou do pai. É por isso que ela é capaz de agir sexualmente com o marido. Ela
sente que a transferência se realizou através da intermediação do terapeuta, que tomou o
lugar do pai, inicialmente, mas agora ela não precisa mais dele. Ela pode falar livremente

184
com o marido sobre a repressão sexual como causadora dos seus sintomas e sobre seus
desejos sexuais em relação a ele. Ele disse que concordava com ela e que os desejos eram
recíprocos. Depois que ela colocou tudo isso, após a última visita, ela teve um sonho,
aquela noite em que era uma mulher linda, feminina e pacífica, e isto a fez sentir-se bem.
As crianças também estão diferentes: felizes, relaxadas e cooperativas.
Sua pressão sanguínea baixou e ela não tem mais coceira vaginal. O terapeuta achou
que a melhora poderia dever-se ao remédio. Ela replicou: "Não, eu não acho, eu saberia a
diferença. Já o tomei antes. O remédio me faz sentir cansada e nervosa quando faz efeito,
mas esta é uma sensação totalmente nova".
Relata que está desenhando, em vez de pintar com os dedos, faz o que quer; ela acha
que não é errado, é como aprender a viver. "Não tenho mais pena das pessoas. Sinto que
elas deveriam ser capazes de fazer isso também se agissem corretamente. Já não me sinto
inferior a todas as pessoas, embora esta sensação não tenha desaparecido completamente.
Nunca mais quero vir ao grupo. É melhor que eu gaste meu tempo com o meu marido. É
como se estivéssemos começando a namorar de novo; quando ele chega em casa
assoviando é maravilhoso. Tentarei ficar assim por três meses e, se me sentir mal,
telefonarei para você. Não me sinto mais tão neurótica: quero dizer, com sintomas
psicossomáticos, sentimento de culpa, medo de conversar sobre sexo e coisas do tipo. É um
milagre. É tudo o que posso dizer. Não posso explicar a minha sensação de estar feliz, mas
sinto que nós (você e eu) trabalhamos juntos nisso. Há mais proximidade e harmonia com
relação ao meu marido e ele até assumiu as crianças como se estivesse se tornando um
homem da casa. Eu até sinto um pouco de culpa em relação aos Alcoólicos Anônimos
porque os usei em meu jogo de "Perna de Pau".
Foi lhe perguntando diretamente se a análise estrutural e a análise de jogos tinham
ajudado e, em cada caso, ela respondeu: "Oh! Sim." E acrescentou: "Também o argumento.
Por exemplo, eu disse que meu marido não tinha nenhum senso de humor e você disse:
‘Espere um pouco, você não o conhece e ele também não a conhece, porque vocês têm feito
jogos e representado seus argumentos todo o tempo; um não sabe como o outro é
realmente’. Você estava certo, porque agora eu descobri que ele, de fato, tem senso de
humor e que não ter fazia parte do jogo. Estou interessada em minha casa e agradeço por
isso. Consigo fazer poesias novamente e expressar meu amor por meu marido. Eu estava
me reprimindo." Neste ponto a hora chegava ao fim. O terapeuta perguntou: "Gostaria de
uma xícara de café?" Ela respondeu: "Não, obrigada, acabei de tomar. Eu me contei como
me sinto, isto é tudo. Foi um grande prazer vir aqui. Gostei muito".
Discussão geral: Não há porque olhar esta melhora gratificante com ceticismo,
alarme ou com lábios franzidos, apesar da aparente escabrosidade dos extratos acima. A
própria paciente respondeu a muitas das perguntas que poderiam ocorrer a um leitor
experiente. Por exemplo, ela própria percebeu a substituição do terapeuta pelo marido, de
modo que esta não pode ser rotulada como uma cura cega.
Os dados mais impressionantes se referem a mudanças de atitude de seus filhos e ,
sobretudo, de seu marido. Tais critérios indiretos são em geral mais convincentes do que as
opiniões do terapeuta ou paciente. Há evidência de que o objetivo terapêutico original foi
sistematicamente realizado. Ela desistiu de fazer vários de seus jogos e os substituiu por
relações e intimidades diretas mais satisfatórias. Adotou roupas e comportamentos mais

185
modestos, ao mesmo tempo que parece mais atraente e satisfeita sexualmente. Podemos
oferecer uma interpretação concisa do que aconteceu em nível arcaico. Ela veio ao
terapeuta com uma fantasia temporária de ser dominada e hipnotizada, como já acontecera
com seus outros terapeutas do sexo masculino. Vagarosamente, ela teve que desistir da
fantasia, pois se confrontou com seus jogos. Além disso, a observação a respeito de sua
postura sedutora tornou clara para ela que ele não seria seduzido. Com o Adulto fortalecido,
ela foi, então, capaz de decidir abandonar suas ambições infantis e prosseguiu em negócios
adultos.
Embora em algumas opiniões em voga o andamento deste caso possa não indicar
que a melhora seja estável, é preciso apenas uma suposição para se ter uma visão mais
otimista, e esta suposição surge através da experiência, a saber: o fato de fazer jogos e jogar
através do argumento de alguém é opcional, e o Adulto forte pode renunciar a isto em favor
de experiências de realidade gratificante. Este é o aspecto funcional da análise transacional.
Alguns dias antes do fim do período de tentativa de três meses que a paciente
sugerira, ela escreveu ao terapeuta o seguinte: "Sinto-me ótima. Não tenho de tomar pílulas
e me livrei dos comprimidos para pressão sanguínea há um mês. Na semana passada
comemoramos o meu 35º aniversário. Meu marido e eu saímos sem as crianças. A água e as
árvores eram lindas. Caramba, se eu pudesse pintá-las! Vimos uma doninha enorme. Eu
nunca tinha visto uma e foi lindo observá-la, tão graciosa em seus movimentos. Meu
marido e eu estamos nos dando bem! Uma diferença da noite para o dia. Tornamo-nos mais
próximos, mais atenciosos, e eu posso ser eu mesma. Isso é o que parecia me desatinar a
maior parte do tempo. Eu sei que precisava ser educada etc. Ele ainda sobe a escada
assoviando. Isso me faz mais bem do que qualquer outra coisa. Fico satisfeita por você ter
sugerido que eu pintasse. Você não faz idéia do que isso fez por mim. Estou melhorando e
logo voltarei a pintar quadros. As crianças gostam muito e sugerem que eu exponha alguns
deles. No próximo mês vou ter aula de natação - algo que eu nunca teria sido capaz de
fazer. Agora, que a hora se aproxima, tenho um pouco de medo, mas já decidi e vou
aprender. Se eu aprender a por minha cabeça debaixo da água, só isto vai ser uma grande
emoção para mim. Meu jardim está tão lindo! Esta foi outra coisa em que você me ajudou.
Meu Deus! Agora eu vou lá no mínimo duas vezes por semana, fico lá várias horas e
ninguém coloca objeção. Sabe, eu acho que eles gostam mais de mim assim".
"Eu não pretendia me estender por este caminho, mas tinha tanta coisa para te
contar! Escreverei para você e o colocarei a par de meus progressos em natação. Amor de
todos nós, de Salinas".
Esta carta tranqüilizou o terapeuta em relação a duas coisas:
1. Que a melhora da paciente persistiu até mesmo depois de interrompida a
medicação para sua pressão sanguínea;
2. Que a melhora do marido e dos filhos da paciente persistiu mesmo depois da
interrupção da psicoterapia.
Deveríamos acrescentar que agora o marido lava os cabelos. A coisa que mais
pessimista que poderíamos dizer sobre este caso, até o momento, é que ele representa um
salto para uma vida familiar saudável. A única exigência clínica que poderia ser
legitimamente imposta à análise transacional é que ela deveria produzir resultados tão bons
ou melhores, em que os produzidos em qualquer outra abordagem psicoterapêutica, para

186
um dado investimento de tempo e de esforço. No caso de Mrs. Enatosky, houve 16
entrevistas individuais e 12 de grupo.
Nesta lógica e com objetivos de comparação, as palavras de um psicanalista de
muita experiência me vêm à memória: "O que conquistamos são apenas partes da
psicogênese: expressões de conflitos, falhas de desenvolvimento. Não eliminamos a fonte
original da neurose; apenas ajudamos a alcançar mais habilidade para transformar as
frustrações neuróticas em compensações válidas. A conexão da harmonia psíquica com
certas condições torna a imunidade inacessível. A "análise terminável e interminável", de
Freud, trouxe aos que nutrimos ambições terapêuticas ilimitadas tanto desapontamento
quanto alívio".

REFERÊNCIAS

1. Deutsch, H., "Psychoanalytic Therapy im the Light of Follow-up". J. Amer Psychoanal. Assoc. VII: 445-458,
1959.

187