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Consciência, Natureza e Crítica Social

em Hegel, Feuerbach e Marx


Consciência, Natureza e
Crítica Social em Hegel,
Feuerbach e Marx

Eduardo Ferreira Chagas


Renato Almeida de Oliveira
Diagramação: Marcelo A. S. Alves
Capa: Carole Kümmecke - https://www.behance.net/CaroleKummecke

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


CHAGAS, Eduardo Ferreira; OLIVEIRA, Renato Almeida de

Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx [recurso eletrônico] / Eduardo Ferreira
Chagas; Renato Almeida de Oliveira -- Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2019.

305 p.

ISBN - 978-85-5696-519-6

Disponível em: http://www.editorafi.org

1. Filosofia; 2. Hegel; 3. Feuerbach; 4. Marx; 5. Crítica Social; I. Título II. Série

CDD: 100
Índices para catálogo sistemático:
1. Filosofia 100
Sumário

Capítulo 1 ...................................................................................................... 9
A dialética da consciência na fenomenologia do espírito de Hegel
Eduardo Ferreira Chagas

Capítulo 2.....................................................................................................75
Natureza em Feuerbach e a crítica de Marx e Engels
Eduardo Ferreira Chagas

Capítulo 3................................................................................................... 153


Religião e trabalho em Marx
Eduardo Ferreira Chagas

Capítulo 4................................................................................................... 195


Ética, política e história em Marx
Eduardo Ferreira Chagas

Capítulo 5 .................................................................................................. 249


Secularização, estranhamento e moral religiosa em Marx
Renato Almeida de Oliveira

Capítulo 6................................................................................................... 271


Objetividade humana em Marx
Renato Almeida de Oliveira

Referências ................................................................................................ 291

Sobre os autores ....................................................................................... 305


Capítulo 1

A dialética da consciência na fenomenologia


do espírito de Hegel

Eduardo Ferreira Chagas

1.1. A Experiência da Consciência na “Introdução” à


Fenomenologia do Espírito de Hegel.

1.1.1. Crítica ao Conheciment isolado, separado, da Coisa.

Neste primeiro capítulo, apresento as seções iniciais da


Fenomenologia do Espírito, em que Hegel mostra o aparecimento e
o desenvolvimento da consciência em busca de conhecer o objeto,
que, ao fazê-lo, ela conhece também a si mesma. Hegel começa (FE,
§73) a “Introdução” (Einleitung) de sua obra, A Fenomenologia do
Espírito (Phänomenologie des Geites) (1807), argumentando que os
modernos, como, por exemplo, Descartes e Kant, pensam que a
filosofia, “antes de abordar a coisa’’, o objeto, antes de saber se algo
é verdadeiro ou falso, deva primeiro averiguar o saber, o
conhecimento (Erkenntnis) daquilo que é, as condições subjetivas do
conhecimento e seus objetos; isto é, antes de saber alguma coisa, é
necessário conhecer algo sobre o conhecer, saber o próprio saber, já
que este é tido equivocadamente como instrumento (Instrument) ou
meio (Medium) de que a filosofia dispõe para atingir a verdade das
coisas. Essa maneira de se filosofar, preocupada em pôr um acordo
sobre o saber, parece correta, segundo Hegel, pois há aqui, em
princípio, dois motivos relevantes a serem tomados em
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consideração: primeiro, existem diversos saberes e não se sabe ao


certo qual seria o mais adequado para conhecer a coisa (o objeto);
segundo, o saber não é de natureza universal, mas determinada e
limitada, e, por isso, pode haver distorções no saber, que nos levem
ao engano, ou seja, “há o risco de alcançar as nuvens do erro em vez
do céu da verdade.’’ (HEGEL, 1999, p. 53). Hegel mostra que esse
cuidado constitui, na verdade, um contra-senso, porque, em
primeiro lugar, questiona e crítica o saber, pressupondo também já
outra forma particular de saber, mediante a qual a consciência
pretende apreender a coisa, e, em segundo, pressupõe uma
separação entre a forma do saber e o seu conteúdo, ou melhor, põe
uma “nítida linha divisória’’ entre o subjetivo e o objetivo, entre o
saber (Wissen) e o objeto (Gegenstand), entre a consciência
(Bewusstsein) e a realidade (Realität). Se há aqui uma distinção
entre o para-si e o em-si, entre o saber e o objeto, e nessa distinção
está implícito que o objeto não está absorvido no saber, poder-se-ia,
então, perguntar: como estabelecer a equiparação, a relação, a
concordância, entre eles?
O que se quer é a coisa, conhecer o objeto. Nessa separação,
no entanto, Hegel deixa claro que o saber como instrumento, ao
aplicar-se sobre a coisa, a deforma, a desfigura, não a tendo em si
mesma. Como alternativa ante este fato (para se evitar a distorção
sobre a coisa), poder-se-ia tomar o saber não como instrumento,
mas como meio passivo, mediante o qual a verdade da coisa seria
obtida. Nesse caso, não se recebe também, como Hegel enfatiza, a
verdade da coisa mesma, mas apenas como é ela dada nesse meio e
por seu intermédio. Em ambas as opções, o saber, seja como
instrumento ou meio, na análise de Hegel, tem como resultado o
contrário de seu fim, que é justamente ter a coisa enquanto tal, em
si mesma. Tentar evitar a distorção da coisa pelo saber, para
contemplá-la na sua pureza e integridade, significa, no entanto,
voltar ao ponto inicial “antes desse esforço’’, tendo, pois, novamente
separados o saber (o conhecimento) e a coisa, sem ter dado com isto
nenhum passo adiante, no sentido de conhecer a coisa. “Se através
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do instrumento, o absoluto tivesse apenas, em geral, de achegar-se


a nós, como o passarinho na visgueira, sem que nada nele mudasse,
ele zombaria desse artifício, se já não estivesse e não quisesse estar
perto de nós em si e para si”. (HEGEL, 1999, p. 53). Hegel não tem
o saber como um instrumento nem como o “desvio do raio’’ sobre a
coisa, mas como o próprio raio, isto é, como Absoluto, que envolve
a unidade na diferença entre o próprio saber e a coisa. Se o Absoluto,
o todo, desses momentos não estivesse desde o início na consciência,
ele não seria conhecido.
O motivo dessa preocupação inicial era evitar o erro, o engano
(FE, §74), para se atingir um saber certo, um conhecimento seguro,
isto é, adequado à coisa. Esse temor ou medo de errar é, no entanto,
segundo Hegel, já um erro, pois ele, em vez de buscar a verdade, a
pressupõe, de fato, como dada e introduz na filosofia, que é para ele
uma ciência, a ciência filosófica do absoluto, cuja tarefa é buscar e
examinar a verdade, uma desconfiança. Hegel defende o argumento
de que se deve desconfiar dessa desconfiança em relação à ciência
filosófica, desse medo de errar, que é o medo da verdade; quer dizer,
o medo de que a verdade seja procurada, desenvolvida, e não
pressuposta imediatamente, fora do próprio processo do saber. Isto
se evidencia, por exemplo, na dúvida cartesiana, ou no medo de
errar, ou na pergunta kantiana pelo que podemos conhecer, já
pressupondo, de forma paradoxal, “muitas coisas’’, demasiadas
certezas, como a representação do saber, do conhecimento, como
instrumento ou meio e a suposição, como já observado, de que o
saber e a coisa estejam separados. Ainda assim, tais representações
filosóficas, fundadas na dúvida, no medo ou temor de errar, julgam
a si mesmas como algo real e verdadeiro. Se, porém, elas estão
separadas do Absoluto (do todo realizado), que é o verdadeiro e o
efetivo, estão elas, segundo Hegel, também fora da verdade e da
realidade.
O Absoluto (FE, §75), quer dizer, o todo ou a coisa efetivada
em sua totalidade, é para Hegel o verdadeiro, ou só o verdadeiro é o
Absoluto. Não só a ciência comum, como também qualquer tipo de
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saber que não seja Absoluto, não é o verdadeiro. O Absoluto, no


entanto, não é algo já dado imediatamente, e sim produzido e
adquirido, pois que ele é sujeito, sujeito de seu próprio
desenvolvimento. Considerando que o saber como instrumento ou
como meio, separado do Absoluto, não é o verdadeiro e o real (FE,
§76), poder-se-ia pensar que não se deva se atormenta com tal tipo
de saber, procurando dar-lhe uma resposta filosófica. A esse saber,
que tem na aparência “a impressão de esforço sério e zeloso”
(HEGEL, 1999, p. 54-55), poder-se-ia designar como inútil, já que
ele é uma espécie de fuga, de subterfúgio, para se livrar da “tarefa
fundamental’’, dos esforços que a Ciência Filosófica terá que
implementar para adquirir o Absoluto.

1.1.2. O Surgimento da Ciência Filosófica como Resultado da


Experiência da própria Consciência.

Embora o saber imediato (o conhecimento como instrumento


ou meio) seja, como expresso antes, uma “aparência oca’’, vazia, que
desaparece quando a Ciência Filosófica surge, não se deve, na
opinião de Hegel, simplesmente abandoná-lo, tampouco poupar
esforços filosóficos para mostrar que ele é “contingente’’ e
“arbitrário’’; pelo contrário, fornecer essa compreensão é tarefa
principal de sua Fenomenologia do Espírito. Vê-se que, quando a
Ciência Filosófica “entra em cena’’, desaparecem aquelas falsas
representações de uma forma de saber, de conhecimento (como
instrumento ou meio), separado do objeto, exterior à coisa. Hegel
enfatiza que tal Ciência no seu início é, todavia, também um saber
aparente, fenomênico, que precisa ainda ser desenvolvido e
atualizado em sua verdade. Ele esclarece que tanto faz dizer que a
Ciência Filosófica, ao surgir, é um saber aparente, natural, como
ressaltar que o saber imediato, natural, é a Ciência Filosófica em
aparência. Esta nasce, portanto, do saber aparente, natural,
imediato, mas tem que se libertar, aos poucos, dessa aparência,
voltando-se contra ela mesma no seu início. Mesmo sabendo que o
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saber aparente não é o saber já efetivo, verdadeiro, Hegel defende a


posição de que a Ciência Filosófica não deve nem rejeitá-lo ou jogá-
lo fora, considerando-o como um saber nulo ou vulgar, nem ver nele
nenhuma forma de saber melhor; pois, se a Ciência Filosófica atua
assim perante o saber imediato, este “recorre também para o fato
de que ele é, e afirma que, para ele, a ciência não é nada; um afirmar
seco vale exatamente tanto como qualquer outro” (HEGEL, 1999, P.
55). Na verdade, se a Ciência Filosófica nasce do saber imediato,
aparente, e deve necessariamente por ele passar, embora não deva
permanecer lá fixo, ela não é, por conseguinte, um saber totalmente
diverso dele.
A Ciência Filosófica não deve, pois, se estabelecer por meio da
negação pura e simples do saber imediato, vendo neste saber, isto é,
no seu modo deficiente e aparente de ser, a sua condição de saber
melhor. O argumento de Hegel para isto é que, se ela recusa o saber
imediato e toma a si, no seu início, como saber melhor, verdadeiro,
está ela também tomando apenas aparência, a sua forma
fenomênica, não desenvolvida, como se fosse já a Ciência em sua
totalidade. “Por essa razão, deve-se efetuar aqui a exposição do saber
que aparece [ou do saber que se manifesta, do saber fenomenal]
(HEGEL, 1999, p. 55). A Ciência Filosófica começa, sim, com a
consciência natural e o seu saber imediato, mas deve
necessariamente continuar a sua exposição fenomênica até atingir o
Absoluto, e é isto que constitui, precisamente, o objeto de Hegel na
sua Fenomenologia do Espírito. No parágrafo § 77 dessa obra, ele
evidencia, de forma clara, o conceito da Fenomenologia do Espírito:
mostra-se de imediato não a Ciência Filosófica, movendo-se em sua
forma própria, original, mas o “saber fenomênico’’, o saber imediato
que “não aparece ainda como a ciência livre, que se move em sua
forma peculiar” (HEGEL, 1999, p. 55); isto é, a Fenomenologia do
Espírito, como exposição ou aparição do espírito, mostra o caminho
da consciência (Weg des Bewusstseins), as estações (as figuras ou
experiências) que a consciência natural deve percorrer para atingir,
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pelo exame da verdade, o exame de si mesma, ou seja, pelo processo


de purificação, a autoconsciência, o Espírito Absoluto.
No início da exposição do saber fenomênico, isto é, no
primeiro momento (fase ou experiência) da consciência no exame
de si mesma, em busca de sua autoconsciência, tem-se a consciência
natural, imediata (FE, §78) (Cf. CHAGAS, 2007, p. 161). Esta tem a
si, inicialmente, como uma consciência real e verdadeira, mas, no
decorrer de sua exposição, ela perde a sua verdade e toma
consciência do seu “não-saber’’, de que seu saber é um “saber não-
real’’. Sua realização significa para ela um processo negativo (“a
perda de sua verdade’’), que leva à suprassunção (ou superação) de
si mesma. Esse processo, esse percurso, da consciência natural
(natürliche Bewusstsein) é para Hegel o caminho que leva ao
questionamento sobre a certeza e a veracidade de si mesma, isto é,
o caminho da dúvida (Zweifel) ou mesmo do desespero
(Verzweiflung), da agonia. Hegel diz que essa dúvida que a
consciência tem diante de si não é “um vacilar nessa ou naquela
suposta verdade” (HEGEL, 1999, p. 56), não é uma dúvida acidental
(zufällige Zweifel), um mero questionamento acerca de uma suposta
verdade, mas um exame de si mesma, uma dúvida que irá levá-la à
“morte’’, uma dúvida que penetra “consciente na inverdade” do seu
“saber fenomenal’’ (do seu saber que se manifesta) (HEGEL, 1999,
p. 56), o qual tem como suprema verdade um conceito ainda não
realizado, que é a certeza sensível e imediata de si. Trata-se aqui,
para Hegel, não de um ceticismo (Skeptizismus) que rejeita as
afirmações dos outros e segue apenas a sua própria convicção, isto
é, que produz tudo por si mesmo e tem o seu próprio ato como
verdadeiro, mas de um ceticismo amadurecido (refletido ou
realizado) (vollbringende Skeptizismus) que põe a dúvida sobre si
mesmo. O ceticismo dogmático, ao contrário, segue, como dito, sua
própria posição, e Hegel reconhece que este propósito é,
naturalmente, melhor do que se basear na tradição ou na autoridade
de pensamentos alheios. Hegel pensa, contudo, que a mudança do
crer no pensamento alheio, na autoridade, para o acreditar na
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própria convicção, não muda o conteúdo da opinião (crer em si ou


no outro), nem lhe confere, como quer o ceticismo dogmático, um
estatuto de verdade. Diferentemente deste, que nega qualquer
pretensão de verdade e visa pela dúvida, como o ceticismo
cartesiano, atingir verdades indubitáveis, o “ceticismo hegeliano’’
“incide sobre todo o âmbito’’ da consciência fenomênica, fazendo-a
examinar o que é a verdade, levando-a a um desespero no que tange
às suas representações, opiniões e pensamentos tidos por naturais e
verdadeiros.

1.1.3. A Consciência, por meio da Dúvida, do Desespero,


ultrapassa a si mesma.

A consciência, que empreende examinar a verdade de suas


representações, está também cheia delas e por isso deve, sem
descanso, ultrapassar a si mesma. A apresentação (ou exposição) da
consciência natural (imperfeita, imediata) (FE, §79), como não
verdadeira, não é um movimento puramente negativo, como faz
uma de suas figuras ou etapas, tal como o ceticismo antigo, comum.
Este (ou a consciência nesse momento, feita consciência cética) vê
no resultado (no processo, no movimento, no vir-a-ser) apenas o
“puro nada’’ e dele não sai. Hegel censura aqui, por exemplo, o
ceticismo na figura de Parmênides que vê a passagem, o movimento
de negação, como um puro negativo, um nada, um puro vazio, do
qual nada vem a ser. Na verdade, o nada é, diz Hegel, “um nada
determinado e tem um conteúdo” (HEGEL, 1999, p. 57). A o
contrário disto, o ceticismo comum, que tem, como vimos, o nada
como vazio e que por isso impede o seu movimento, precisa de algo,
vindo de fora, para começar e continuar o seu processo. Esse algo,
contudo, vindo de fora será novamente anulado, jogado no “abismo
do vazio’’. Assim sendo, tal ceticismo, ao abstrair ou esvaziar o nada,
não vai além disso; ele pára aqui, porque lhe falta, pelo visto, o
processo para ir adiante. Quando a consciência se dá conta de que o
nada é ao contrário sempre negação positiva de alguma coisa
16 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

(“negação determinada’’), isto é, que ele é determinado e possui um


conteúdo, efetiva ela, através do nada (da negação), a passagem (a
transição) para uma nova figura, para uma nova forma de
consciência. Hegel mostra que, através da negação, do nada, vai a
consciência realizando, por si mesma, o processo completo de seus
momentos, de suas sucessivas figuras até atingir a autoconsciência,
o Absoluto. O nada (ou a negação) não é, portanto, exterior à
aparição (ou apresentação) da consciência, isto é, ao saber
fenomenológico. Este tem, por isto, sua meta (Ziel) ou finalidade
(FE, §80) no próprio processo da consciência, que será alcançada,
quando ela encontra a si mesma (quando a consciência se torna
autoconsciência) ou, melhor, torna-se Saber Absoluto, ao qual o
saber (o conceito) corresponde ao objeto e o objeto ao saber (ao
conceito).
Esse processo da consciência em direção à sua meta final, que
é, como vimos, o Saber Absoluto ou, com outras palavras, a
identidade da diferença e a diferença da identidade entre o saber (o
conceito) e o objeto, não pode parar em nenhuma de suas etapas
intermediárias. Hegel situa aqui, entre outras, uma distinção entre
a consciência do homem (a vida humana) e o ser animal (a vida
natural), que não pode por si mesmo ir além de si, “de seu ser aí
imediato’’, a não ser pela morte, quando é arrancado para fora de si;
na vida, o animal está preso (colado) ao orgânico, em identidade
absoluta com sua natureza. A consciência pode, pelo contrário, ir
além de si mesma e, quando o limite lhe pertence, pode ela, por
conseguinte, ultrapassar a si mesma. Esse ato de ter que ultrapassar
necessariamente o limite (de ir além de si mesma) provoca à
consciência uma angústia incessante, uma “violência’’ exercida
contra si mesma, que lhe impede qualquer satisfação imediata
(limitada). Diante dessa angústia, a consciência tenta recuar, fugir
dessa verdade, e fixar-se na inércia sem pensamento; mas vem o
pensamento e perturba a sua carência de pensamento, impedindo-
lhe de permanecer na inércia. Caso ela queira sedimentar
(consolidar, apoiar) a sua inércia, a sua paz, não na carência de
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pensamento, mas, ao contrário, no sentimentalismo, “que garante


achar tudo bom a seu modo” (HEGEL, 1999, p. 57), e isto como álibi
para fugir da angústia da razão, sofre ela igualmente “violência’’,
“pressão’’, por parte da razão, “que acha algo não bom” (HEGEL,
1999, p. 57), levando-a, assim, à inquietação, ao questionamento e à
mudança.

1.1.4. A Consciência tem em si mesma um Critério de Verdade.

A exposição do saber fenomênico, isto é, o desenvolvimento


da consciência aparente-imediata é necessário (FE, §81), pois ela é,
como mostrado, solicitada sem descanso a ultrapassar-se, para
alcançar a consciência real ou verdadeira. A essa exposição parece
necessário aqui supor um critério (Massstab), um “padrão de
medida”, senão nada seria comparado, para saber se algo é
verdadeiro ou falso; quer dizer, parece pressupor uma unidade de
medida, para examinar e saber até que ponto a consciência tornou-
se real, atingiu a Ciência Filosófica e apreendeu corretamente o
objeto. Hegel nos pergunta, todavia: onde está esse “padrão de
medida” ou esse “critério de verdade”? Numa medida em geral, na
ciência, no saber, no objeto, ou na própria consciência? Como a
Ciência Filosófica (como consciência fenomênica) está apenas
surgindo, não pode ela possuir, no nível da consciência imediata,
nenhum “critério’’ acerca de si mesma e da essência da coisa, mas,
sem tal critério, ela não pode examinar a si e a coisa, impedindo,
assim, a sua caminhada rumo ao Saber Absoluto; ou seja: “sem isso,
parece que não pode ocorrer nenhum exame” (HEGEL, 1999, p. 58).
Hegel cita aqui um dilema crucial que a consciência tem que
resolver. Examinando o que ocorre nela, quando ela opera, Hegel
observa o seguinte: a) de um lado, “a consciência distingue algo de
si” (HEGEL, 1999, p. 58) (FE, §82), ou melhor, algo que é para ela,
a que ela se refere; esse ser para um outro (para a consciência) é o
saber; e b) por outro, um ser referido ao saber, mas que se distingue
dele; esse ser em-si (o objeto) se chama a verdade.
18 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Consciência Saber Ser


A consciência tem um saber, um saber do ser.
Saber= o ser para a O saber se relaciona com o
consciência; o ser a que objeto, com o ser, que é
ela se refere. em-si, verdadeiro.

O saber, tomado não como o saber da consciência, mas


referido a si mesmo, enquanto tal, é posto como algo que é em-si
(an sich) (FE, §83). Esse em-si do saber, porém, só o é, na medida
em que é para a consciência, isto é, um ser-para-nós (für uns).
Assim, Hegel diz que a verdade e a essência do saber não estão nele
mesmo, mas na consciência. Daí ele deduz que não é, pois, o saber,
mas a consciência o “padrão de medida’’, por intermédio do qual é
julgada (decidida) a validade do saber acerca do objeto. Deste modo,
a consciência, ao perguntar pelo critério da verdade (Wahrheit), pelo
“padrão de medida’’ adequado para compreender o objeto, está
investigando a si mesma e tem não externamente, mas já em si
mesma um critério de verdade; isto é, ela tem nela mesma a sua
própria medida (§84), o seu padrão, pois, é nela que incide a
aparente oposição entre o que é para-outrem (o momento do saber)
e o que é em-si (o momento da verdade), ou, melhor exprimindo, a
unidade da diferença entre o saber do objeto e o próprio objeto.
é a unidade o saber do objeto
A consciência que e
envolve o objeto.

Hegel diz que a consciência tem dois outros, um outro para


ela e dentro dela, o saber, e um outro fora dela, o objeto, o que é em-
si, o verdadeiro.
o para-si
(o para ela) = saber
A consciência tem e
o em-si
(o não para ela) = a essência, o verdadeiro.
Eduardo Ferreira Chagas | 19

A consciência estabelece, segundo Hegel, um padrão para


medir o seu saber, e se chamarmos o saber de conceito, e o
verdadeiro (ou a essência) de objeto, então, o exame da consciência
“consiste em ver se o conceito corresponde ao objeto” (HEGEL,
1999, p. 59).
O saber (o para-si) ------conceito Se o conceito
Exame corresponde ou não
ao objeto.
A essência(o em-si) -----objeto

Se chamarmos, contudo, o em-si do objeto de conceito, e o que


é para-outro (o saber), de objeto, o exame consiste, agora, em ver se
o objeto (como saber) corresponde ao seu conceito (saber) (como
ser-em-si do objeto).
A essência (o objeto em-si) conceito Se o objeto
Exame corresponde ou não
O saber (o para-si) objeto ao conceito.

Tanto faz um como o outro; ambos são o mesmo. Hegel


destaca que o importante é assegurar firmemente que os dois
momentos, o conceito (o saber) (o ser-para-um-outro) e o objeto (o
ser-em-si mesmo) incidem no interior da consciência, da
consciência fenomênica aqui analisada. Assim sendo, se a
consciência é o padrão de medida e envolve nela mesma o saber (o
ser-para-si) e o objeto (o ser-em-si), não precisamos, portanto,
trazer padrões externos de medida, nem aplicar na investigação
opiniões ou pensamentos pessoais; pelo contrário, é afastando-os
que podemos considerar a coisa tal como é em-si e para-si mesma.
Ao sabermos, agora, que o conceito e o objeto, o padrão de
medida e o que deve ser testado estão inseridos na consciência (FE,
§85), não precisamos também efetuar nenhuma comparação ou
nenhum exame fora da consciência para ver se o conceito (o saber)
corresponde ao objeto ou vice-versa, pois ela própria se encarrega
disso ao examinar a si mesma. “Aliás, somos também poupados da
fadiga da comparação entre os dois, e do exame propriamente dito.
20 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Assim, já que a consciência se examina a si mesma, também sob esse


aspecto, só nos resta o puro observar” (HEGEL, 1999, p. 59). Neste
sentido, Hegel se afasta dos velhos paradigmas, das teorias clássicas
da verdade e do conhecimento enquanto adaequatio entre o saber e
o objeto, pois, para ele, não se trata mais nem de uma posição
empirista, adequando o saber ao objeto, nem de uma posição teísta-
idealista, adaptando o objeto ao saber (adaequatio rei ad
intellectum), mas da própria consciência, na qual ambos os
momentos estão inseridos como objetos dela mesma.
Como a consciência é uma consciência de um objeto e também
de si mesma, é ela simultaneamente consciência do que é para ela
verdadeiro e consciência de seu saber dessa verdade. Uma vez que
ambos, o saber e o objeto, são para ela, é ela também a sua
comparação: é para ela que seu saber (conhecer) corresponde ou
não ao seu objeto. Vimos que a consciência elabora seu saber sobre
o objeto e, por isso, envolve em si dois momentos distintos: num, o
objeto (algo que é para ela o em-si) e noutro, o saber (o conceito do
objeto para ela). Nesta distinção, ela funda o seu exame. Quando a
consciência não encontra correspondência entre os dois momentos,
não basta, como Hegel diz, alterar seu saber para adequá-lo ao
objeto, porque, sendo saber de um objeto, não pode mudá-lo sem
também mudar o objeto. Ao mudar os dois termos, porém, o saber
e o objeto, muda-se também a própria medida, isto é, a consciência,
que é a unidade e a relação entre eles. Com essa mudança surgem
novas figuras da consciência e outras etapas no desenvolvimento de
seu saber.

1.1.5. O Novo Conceito de Experiência como Movimento


Necessário das Figuras da Consciência, estudada por uma
Ciência - a Fenomenologia do Espírito.

Hegel designa a experiência da consciência (Erfahrung des


Bewusstseins) (FE, §86) como movimento dialético (dialektische
Bewegung) que a consciência efetua em si mesma, tanto em seu
Eduardo Ferreira Chagas | 21

saber como em seu objeto, fazendo surgir para ela um novo objeto
verdadeiro. Em razão da ambigüidade do verdadeiro nessa
experiência, no entanto, torna-se necessário o movimento da
consciência, e isto constitui o aspecto científico de seu processo.
Durante sua exposição, a consciência sabe alguma coisa, isto é, ela
sabe, como vimos, que o objeto é a essência ou o em-si (o
verdadeiro); mas se o objeto é também para ela, surge assim uma
ambigüidade acerca da veracidade dele, isto é, do objeto em-si.
o em-si (o verdadeiro),
O objeto é
mas é também o em-si para a consciência (o saber do em-si).

Hegel evidencia, neste passo, que a consciência tem diante de


si dois objetos: o em-si (o objeto) e o ser-para-ela (para o saber dela)
deste em-si. Este ser-para-ela não é simplesmente uma reflexão
vazia da consciência sobre si mesma, como simples representação
do objeto, mas é o saber do objeto. Só que, com isto, o primeiro
objeto (o em-si) se altera: ele deixa de ser em-si, enquanto tal, e
passa a ser um objeto para a consciência (o para-si); só para ela é
que ele é em-si. Assim sendo, o objeto da consciência não é o puro
em-si, mas o ser-para-ela desse em-si, isto é, seu saber ou sua
reflexão sobre o objeto. Eis aqui o ponto essencial da Fenomenologia
do Espírito, de Hegel: ao fazer a experiência (Erfahrung) sobre o
objeto, a consciência está fazendo uma experiência sobre o seu
próprio saber, isto é, acerca do que ela é em-si mesma; mas a
consciência fenomênica não se dá conta da experiência que ela está
fazendo sobre si mesma, pois ela entende por experiência (FE, §87)
tão-somente a transição (exterior a ela) do objeto em-si e de sua
reflexão (saber) deste em-si para um outro objeto (resultado da
experiência), no qual a experiência foi realizada. Parece-lhe ter
passado de um objeto para outro porque encontrou, de maneira
contingente, casual e extrínseca, outro objeto que a levou à
mudança, ou, com outras palavras, parece-lhe que o saber do objeto
se tornou, por ele mesmo, outro objeto, sem perceber que é ela
22 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

mesma que faz a experiência da inverdade do seu saber (conceito)


do objeto e, por isso, passa, ao alterar o seu saber, para um outro
objeto, que a faz, como já expresso, também mudar.
Do exposto, nota-se que um novo objeto surge mediante uma
alteração necessária da consciência, isto é, por meio de um
desenrolar interno da consciência mesma, cujas etapas podem ser
estudadas cientificamente (Cf. HEGEL, 1999, p. 61).1 O
desenvolvimento da consciência fenomênica (da consciência que
aparece) ocorre, em síntese, desta maneira: cada vez que um objeto
(o em-si) se torna algo (saber) para a consciência (o para-si ou o ser-
para-a-consciência), surge um novo objeto e com ele também outra
figura da consciência, para a qual a essência do objeto é algo distinto
do que era para a figura precedente. É, precisamente, essa condição
“que conduz a série completa das figuras da consciência em sua
necessidade (HEGEL, 1999, p. 61). A consciência não sabe como
acontece, nem como surge o novo conteúdo (o novo objeto), mas o
filósofo conhece a dialética necessária que rege a série das
experiências feitas pela consciência, ou seja, ele sabe que no
movimento da consciência ocorre tanto o momento do ser-em-si
quanto o do ser-para-si, os quais não se apresentam claramente à
consciência, porque ela está imersa (inserida) na experiência. As
experiências que a consciência faz sobre si mesma abrangem, sob
um ângulo particular, o seu sistema completo, quer dizer, o âmbito
total da verdade do Espírito. Esses momentos da verdade ou do todo
são apresentados por Hegel não como momentos abstratos ou
puros, mas sim tais como surgem para a consciência, razão por que
são eles figuras (momentos) dela mesma (FE, §89). Ao caminhar
rumo à sua verdadeira existência, a consciência se despojará de sua
aparência, quer dizer, de algo estranho a ela, ao atingir um ponto (o
Saber Absoluto), em que o fenômeno é igual à essência, de modo que

1
Para a consciência imediata (natural, sensível), no entanto, tal consideração não tem sentido, e isto é
visível, como mostrado anteriormente, numa de suas etapas, como, por exemplo, no ceticismo. Este
não percebe que o nada, que provém de um saber não verdadeiro, não é um nada vazio, mas um nada
determinado, isto é, um nada do saber de que ele resulta.
Eduardo Ferreira Chagas | 23

a exposição de sua experiência coincide com a Ciência autêntica do


Espírito. Assim sendo, Hegel defende a posição de que o caminho da
consciência para a Ciência Filosófica (FE, §88) é já ele mesmo
Ciência, a Ciência da experiência da consciência, estudada pela sua
obra, a Fenomenologia do Espírito.

1.2. A Dialética da Certeza Sensível

1.2.1. A Certeza Sensível (die sinnliche gewissheit) - ou o isto ou


o visar.

Nesta seção mostro que Hegel inicia sua Fenomenologia do


Espírito (Phänomenologie des Geites) não com uma definition do
saber, nem com uma análise ou indagação acerca da consciência,
mas com a certeza sensível (sinnliche Gewissheit), porque ela é o
saber imediato (unmittelbare Wissen) do ser; quer dizer, ele
principia sua obra pelo começo, pelo início da experiência da
consciência em que primeiro se expressa o saber fenomênico, que é
a consciência natural (natürliche Bewusstsein), simples, imediata,
ou seja, a consciência sensível (sinnliche Bewusstsein), ou a
consciência enquanto certeza sensível.1 O saber sensível (sinnliche
Wissen) desta é pois, segundo Hegel, um intuir (Anschauen), uma
apreensão imediata, um saber imediato de algo (Etwas) singular,
sensível, de uma coisa existente, de um ente imediato, ou de um
objeto que está aí física ou imediatamente presente na sua
singularidade empírica, palpável (§90). Deste ponto de vista, para a
certeza sensível, a realidade pode ser extraída na primeira
1
Cf. também a Enciclopédia das Ciências Filosóficas (Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften
im Grundrisse) (1830), na qual Hegel diz no § 418: “A consciência é primeiramente imediata, sua
relação com o objeto é, portanto, aí a certeza simples, não mediatizada, do mesmo.’’ Cf. Hegel, F.
Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse) (1830). Organização de Wolfgang
Bonsiepen e Reinhard Heede. Hamburgo: Wissenschaftliche Buchgesellschaft Darmstadt, 1999,
Hauptwerke in sechs Bänden, V. 6, p. 424. De forma semelhante se lê na Propedêutica Filosófica
(philosophische Propädeutik) (1808-1813), Doutrina do Espírito, § 7, p. 92: “A consciência sensível
simples é a certeza imediata de um objeto exterior.” Cf. Hegel, F. Propedêutica Filosófica. Lisboa:
Edições 70, 1989, p. 92.
24 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

impressão, apreendida diretamente pela intuição sensível, sem


prescindir de modelos, idéias ou juízos, os quais ela rejeita. Hegel
critica2 essa pretensão da certeza sensível e explicita aqui as
contradições internas dessa consciência (e de seu saber sensível), tal
como ela própria se apresenta, sem sair dela ou sem intervir nela
uma reflexão, quer dizer, sem alterá-la com apreensões conceituais.
Para isto, Hegel põe, à semelhança do método cartesiano,
inicialmente a dúvida na sensibilidade (Sinnlichkeit), embora não se
trate aqui para ele, como centralidade, de uma apreciação teórica
dos sentidos, pois ele não duvida do visto do ver, do escutado do
ouvir, mas da dimension da verdade, da certeza da sensibilidade
enquanto verdade imediata, do modo como ela capta (conhece,
sabe) o ser do visto, do escutado, quer dizer, trata-se da dúvida
(Zweifel), do desespero (Verzweifelung), que a própria certeza
sensível experimenta em si mesma, na sua própria representação do
ser. Hegel quer mostrar que a certeza sensível, que crê ter já, diante
de si, a essência das coisas, o objeto em sua plenitude e, por isso,
acredita possuir um conteúdo de experiências concreto, rico e
seguro, ou seja, ter a posse do conhecimento mais determinado,
mais verdadeiro (exato) e mais preciso (§91), “e até [...] de riqueza
infinita, para o qual é impossível achar limites” (HEGEL, 1999, p.
63), vai se revelar, na realidade, a mais abstrata de pensamento,
ontologicamente o mais indeterminado, o mais vago e pobre dos
conhecimentos. Do seu objeto (do isto), ela só sabe, de fato, que ele
é, mas não por que é; ela sabe (sem fundamento) que ele existe, e
não pode dizer mais nada sobre isto; ela tem a certeza que ele é (ist),
existe, porque é na sua imediatidade (e isto é inteiramente limitado,
vazio, vago), e que está diante dela não como um singular que tem
“uma multidão de qualidades diversas” (HEGEL, 1999, p. 63), como
2
Ludwig Siep observa que essa “fé” na intuição sensível em torno da realidade dos objetos, defendida
por Jacobi e Schelling, ou as teorias do primado da intuição sensível para o saber e sua referência aos
objetos, Hegel as tem criticado, bem antes da Phänomenologie des Geistes, desde seu escrito de Jena,
“Fé e Saber” (Glauben und Wissen) (1802-1803). Cf. Siep, Ludwig. Der Weg der Phänomenologie des
Geistes. Ein einführender Kommentar zu Hegels “Differenzschrift” und “Phänomenologie dês Geistes”.
Frankfurt: Suhrkamp, 2000, p. 84.
Eduardo Ferreira Chagas | 25

um complexo de múltiplos predicados, de múltiplas propriedades


mediatizadas na sua imediatidade, mas sim como um ser das coisas
externas enquanto “puro isto’’ individual, como um singular
extrínseco à consciência, existente fora ou independente dela;5 e do
sujeito não consta para ela que nele haja uma complexidade de
compreensão, que seja um eu multiforme, de múltiplas relações,
mas um eu singular, sem predicados universais, portanto um eu
puro, abstrato, formal, um “puro este” passivo (um este aqui), e
nada mais, certo de um “puro isto” (um isto aqui) já dado, acabado;
e do saber, tem para ela a significação de uma simples relação
externa e imediata entre os dois termos, o objeto (Gegenstand)), a
coisa (Ding), que está ali, e o sujeito (Subjekt), o saber (Wissen), que
está aqui, não havendo entre eles uma relação mediatizada.
o eu como um “puro este’’ aqui
A consciência imediata, tem e
enquanto certeza sensível, o objeto como um “puro isto’’ aí.

Refletindo melhor sobre a experiência da certeza sensível, da


simples consciência sensível, Hegel evidencia que há nela mais que
aquilo de que ela está sensivelmente certa, que ela identifica como o
isto individual, ou seja, mais que a pura imediatidade que ela visa,
sente passivamente e toma como a sua verdade (§92). Primeiro,
porque essa certeza sensível fática, que pressupõe, “para fora do puro
ser’’ (do puro indeterminado, abstrato, do universal), aqueles dois
estes, o “este aqui’’ (o eu singular, o sujeito) e o “isto aqui” (o objeto),
não é um exemplar para a essência geral de si mesma, mas apenas um
exemplo enquanto exemplo (Beispiel als Beispiel), um exemplo no
sentido rigoroso do termo, sensível do seu visar (do seu sentir, do seu
opinar) acerca destes “estes”, da “estidade”, um modo particular de

5
Eugen Fink diz que, para Hegel, “a certeza sensível é ontologicamente primitiva. [...] Hegel
caracteriza a primitividade ontológica da certeza sensível como o saber singular do eu singular de uma
coisa singular; este eu sabe disso. [...] O conhecimento sensível é o saber singular do singular; o ser
do singular é primeiro concebido como o ‘factum brutum’ da existência pura.” Cf. Fink, Eugen. Hegel
– Phänomenologische Interpretationen der “Phänomennologie des Geites”. Frankfurt am Main: Vittorio
Klostermann, 1977, p. 63-64.
26 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

um sujeito e de um objeto de conhecimentos sensíveis. Depois, porque


há na certeza sensível muitas mediações, não notadas por ela, pois
tanto o eu (o sujeito) quanto o objeto não são, na verdade, apreendidos
imediatamente, quer dizer, estão nela, na verdade, não de modo
imediatamente dados, permanecendo iguais a si mesmos,
independentes (estranhos um ao outro), mas mediatizados,
determinados, na relação de um com o outro: o eu tem a sua certeza
pela mediação de um outro algo, precisamente pelo objeto, e este tem
simultaneamente seu ser na certeza do eu. Essas oposições entre o
imediato e a mediação, o inessencial e o essencial, o acidente e o
necessário, a aparência (Erscheinung), o exemplo (Beispiel) e a
essência (Wesen) (§93), o ser (Sein) e o saber (Wissen), o obejto
(Gegenstand), a coisa (Ding) e o conceito (Begriff) não são, segundo
Hegel, resultados exteriores de uma análise filosófica, mas se
encontram na própria dialética interna da certeza sensível “e devem
ser” tomados “na forma em que nela” se encontram (HEGEL, 1999, p.
64). De fato, ela percorre nesta etapa três momentos (ou exames):
primeiro, retém ela o objeto; em segundo, o eu (o sujeito sensível) e,
por último, o saber sensível como a verdade ou “a essência”, por
exclusão dos demais (do objeto e do eu). Quanto ao primeiro
momento, o objeto (o “isto aqui”), é ele para ela inicialmente a
essência, o em-si, o verdadeiro imediato, simples; ele é, porque é,
permanecendo o mesmo, independentemente de ser conhecido ou
não. Ao passo que o saber (o conhecimento) não é em-si, mas por meio
de um outro; o saber, que sabe o objeto, é porque o objeto é, e, por isso,
posto como o inessencial e acidental (um saber que pode ser ou não),
já que o saber não é, se o objeto não for.

1.2.2. O Lado do Objeto (o “isto aqui”) posto como Essencial.

Hegel procura deixar claro, como vimos, que, para a certeza


sensível (a simples consciência sensível), o “isto aqui”, o objeto (der
Gegenstand) é o singular (das Einzelne), o imediato (das
Unmittelbare), o fortuito (das Zufällige), o contingente (das
Eduardo Ferreira Chagas | 27

Kontingente) que, para ela, é o verdadeiro (das Wahre), o essencial


(das Wesentliche) e existe, independentemente, de ser sabido ou
não, ou seja, permanecendo o mesmo se não for conhecido pela
consciência.7 Hegel nos convida, agora, a examiná-lo
filosoficamente, para saber se ele, de fato, é esta essência que a
certeza sensível lhe confere (§94). Na verdade, não se trata aqui,
afirma Hegel, “de refletir sobre o objeto, nem indagar o que possa
ser em verdade, mas apenas de considerá-lo como a certeza sensível
o tem nela” (HEGEL, 1999, p. 64). Indagando a pretensão da certeza
sensível, poder-se-ia perguntar: o que é, pois, objeto, o “isto” (das
Dieses) no aqui-agora? (§95) Pode-se considerar o isto como real?
A certeza sensível não pode exprimir em que consiste o “isto”
singular, ou seja, não pode dizer seu objeto visado, sob pena de nele
introduzir uma intervenção, uma mediação; portanto, experimenta-
o rigorosamente em sua unicidade inefável; ela somente o visa
(Meinung), limitando-se, tal como fazia o discípulo de Heráclito,
Crátilo, a apontá-lo com o dedo, a indicá-lo, a atestá-lo no aqui e no
agora, mas sem ter acesso a ele, sem atingi-lo conceitualmente. Ela
é um mero anúncio do objeto, uma intuition sensível (sinnliche
Anschauung), como que um querer dizer a partir do ver, do ouvir,
do cheirar, do degustar, do apalpar, o que não pode dizer, a saber, o
objeto singular enquanto tal, o objeto imediato, inteiramente
desarticulado, e não como um kontinuum espaço-temporal, um
sensível articulado, com qualidades diferentes. Assim, quando ela
tenta expressar o objeto pela palavra, pela linguagem, ela se
perturba. Para ela, o objeto é, quando ela, acidentalmente, o sente
aqui e agora (hic et nunc), no tempo e no espaço; com outras
palavras, o objeto, o este em-si, é para ela inteligível na dupla forma
de seu ser, na ordem temporal-espacial, como o agora (duração, em
7
Segundo Roger Garaudy, esse momento dialético da simples consciência se aproxima, na história de
seu movimento ou de sua experiência (na história da filosofia), não só com o “dogmatismo do ser dos
materialistas franceses do século XVIII”, como também com aquela “afirmação do Ser em oposição às
aparências”, própria da filosofia de Parmênides, “que proclama o caráter ilusório do saber sensível e a
independência do Ser em relação a todo o saber”. Cf. Garaudy, Roger. Para Conhecer o Pensamento de
Hegel. Tradução de Suely Basto. Porto Alegre: L&PM, 1983, p. 48.
28 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

qualquer momento do tempo) e como o “aqui” (espaço, em qualquer


ponto do espaço).9 Mas o que é, na verdade, o ser agora (das
Jetztsein) do agora (das Jetzt)? Para isto, Hegel nos dá um exemplo:
digamos que o agora é noite (Nacht), e isto para ela é uma verdade
simples, imediata e indubitável. “Para provar a verdade dessa
certeza sensível”, basta, segundo as palavras de Hegel, “uma
experiência simples. Anotamos por escrito essa verdade; uma
verdade nada perde por ser anotada, nem tampouco porque a
conservamos”: “O agora presente, que é noite, foi conservado, isto
é, foi tratado tal como se ofereceu, como um essente” (§96) (HEGEL,
1999, p. 64-65). Mas o agora atual é passageiro, mutável, é sempre
outro, e quando ele é dia (Tag), aquela verdade da certeza sensível,
“agora é noite”, torna-se vazia e desaparece, pois o agora, que era
noite e se mostrava como existente, se revela como idêntico ao não-
existente, ao nada, ao não-ser. O agora atual não permanece no
agora em-si, embora este, no entanto, se mantenha, porque é neste
que aquele se alterna constantemente; o agora em-si se mantém,
mas nem como noite, nem como dia, e sim como um simplesmente
agora, indiferente diante da variabilidade e inessencialidade do dia
e da noite, já que é um negativo em geral (nem...nem), por não ser
nenhum dos dois (nem noite, nem dia), embora possa ser também
os dois (tanto...quanto), dia e noite.
Esse agora, que se mantém subsistindo no este, não é, como
parece, algo imediato (unmittelbar), mas mediatizado, um simples
mediatizado pela negação – nem isto (noite) nem aquilo (dia). Ele é
um “não-isto”, indiferente em ser isto ou aquilo, e, por isso, é uma
abstração, um universal (ein Allgemeines), a saber: o tempo (die

9
É interessante destacar a observação de Eugen Fink para essa dupla forma do este na concepção de
Hegel: “Aqui e agora, presente espacial e temporal, não são dois momentos separados do este, como
se poderia talvez compreender mal o discurso de Hegel da forma duplicada. O este é sempre forma
dupla; é aqui e agora. Que Hegel realize separadamente a dialética do agora e do aqui, isto não significa
um isolamento não justificado de um dos momentos. Pelo contrário. Na discussão do agora está
também em vista o aqui, e vice-versa. Quando Hegel diz, por exemplo: o agora é noite, assim é a noite
enquanto a noite sentida não a noite agora na antípoda, mas a noite aqui.” Cf. Fink, Eugen. Hegel –
Phänomenologische Interpretationen der “Phänomennologie des Geites”. Op. cit., p. 69-70.
Eduardo Ferreira Chagas | 29

Zeit). Portanto, torna-se claro que o universal é, de fato, o verdadeiro


objeto da experiência da certeza sensível, pois tanto o objeto, no
momento aqui tratado, como o eu são universais. Mostramos
(zeigen), pois, o ser sensível, o ser-aí da certeza sensível como um
“isto universal” (§97), como um ser genérico, como “ser em geral”,
expresso (ausgesprochen), em seguida, pela palavra, enunciado pela
linguagem (Sprache), que pertence à consciência e tem o poder de
converter tudo em um universal, que ultrapassa o sensível, o
imediato, a coisa singular, para qual se limita a certeza sensível. Já
que o universal é, de acordo com Hegel, a verdade da certeza
sensível, universal esse expresso pela linguagem, é esta, então, mais
verdadeira que a certeza sensível, pois, na linguagem, no dizer
(sagen), no falar (sprechen) ou no enunciar (aussprechen), se refuta
aquilo que se chama o inefável, o inacessível, o que se opina
(Meinung) imediatamente, ou seja, se desmente o visar, o opinar
(meinen), o mostrar (zeigen) ou o indicar (aufzeigen), da certeza
sensível de um ser simples, singular-imediato, puramente receptivo
e inexprimível por expressões lingüísticas, por meios idiomáticos,
tal como pensara o sofista Górgias.
Essa dialética da certeza sensível que Hegel revela para uma das
formas do “isto”, ou seja, “o agora”, o quando (tempo), se reproduz
com a outra forma dele, “o aqui” (das Hier) individual, “o aí”, o onde
(lugar). O que ocorre com “o agora”, sucede o mesmo com “o aqui”
(§98). Pode-se dizer, por exemplo: aqui (lugar) é uma árvore (ein
Baum). Quando o sujeito se desloca, sua visada não alcançará mais este
objeto, o aqui da árvore, mas um outro, ou seja, quando ele se volta, se
vira, sua verdade desaparece e se torna oposta: o aqui já não é uma
árvore, mas antes uma casa (ein Haus). Isto se dá porque o este do
aqui é, para o sujeito sensível, todas as vezes, de caso para caso, um
outro, uma vez árvore, depois casa etc. Mas o aqui, enquanto tal,
permanece no desaparecimento da árvore, da casa etc.; ele é
indiferente a tudo àquilo que nele se passar, em cada uma dessas
determinações, quanto a ser árvore ou casa. Como o agora, o aí do isto
é, pois, de novo uma simplicidade mediatizada, uma universalidade: o
30 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

espaço (der Raum). Já que o universal é, como dito, a verdade do objeto


(do isto) da certeza sensível, o que subsiste como essência desta certeza
é, portanto, “o puro ser” (§99). Mas não, como adverte Hegel,
enquanto ser imediato que ela imaginava (visava) possuir, e sim como
mediatizado, “o ser com a determinação de ser a abstração ou o puro
universal” (HEGEL, 1999, p. 65). Diante desse ser puro, universal, o
agora (tempo) e o aqui (espaço), que pareciam ser a essência da
certeza sensível, são expressões demonstrativas, gerais, vazias,
abstratas e indiferentes: um agora enquanto tempo universal (um
agora universal que é o tempo em que o agora muda
permanentemente) e um aqui como espaço universal (um espaço onde
se situam todos os pontos particulares).

1.2.3. O Lado do Eu (o “este aqui”) posto agora como Essencial.

Inicialmente, vimos a verdade da certeza sensível no objeto


visto, ouvido; agora, veremos, no âmbito dela, o momento da pessoa
singular (do “eu”), do sujeito sensível. A relação da certeza sensível
frente ao objeto estava estabelecida primeiramente, como
demonstrado, assim: o objeto era para ela o essencial, e o saber, pelo
contrário, o inessencial. Mas como o objeto se revela como um
abstrato isto, aqui e agora, como um universal, do qual a certeza
sensível nada quer saber e que é impróprio para o suporte dela, que
quer dizer e anunciar o singular, o imediato, inverte-se, então, a
relação (§100): o objeto, que deveria ser o essencial, existindo
independentemente do eu conhecê-lo ou não, é agora o inessencial,
e a certeza sensível se volta (apela) agora para o oposto, isto é, para
o saber que antes era para ela o inessencial. A certeza sensível foi,
sem dúvida, desprendida do objeto, mas, adverte Hegel, nem por
isto, ela se suprime, pois ela se desloca do objeto para o outro pólo
da relação, para o eu (Ich), para o eu sensível, para o “este aqui”.
Assim, a verdade reside no objeto enquanto objeto do eu, da sua
visada, do seu ver, do seu ouvir, pois o objeto é, porque o eu o sente
como pontual e momentaneamente anunciado, exemplificado na
Eduardo Ferreira Chagas | 31

sua certeza, quer dizer, porque o eu tem dele um saber sensível e


possui a certeza sensível dele.12
A prova (a força) da certeza sensível está agora, assegura
Hegel, no eu sensível (na certeza subjetiva), na imediatidade de seu
ver ou ouvir (§101). Hegel dá um exemplo: o aqui (o aí) é uma árvore
não porque ele seja assim em-si, enquanto tal, mas porque o eu o
experimenta, o recebe, o sente, o vê; e o “agora é dia” pelo mesmo
motivo, ou seja, o “agora é dia” não significa o ser-em-si imediato
do dia, mas seu ser para o eu. É o eu sensível que retém a certeza, a
verdade do objeto no espaço e no tempo, evitando que ela
desapareça, quando os aquis e os agoras singulares deixem de ser.
Todavia, a certeza sensível experimenta também no âmbito do eu “a
mesma dialética”, o mesmo problema de antes: um eu (um “este-
aqui”) garante um “isto aqui”, isto é, vê uma árvore e afirma-a como
o aqui, mas um outro eu vê uma casa e constata que o aqui não é
uma árvore, e sim uma casa. Ora, ambas as afirmações têm a mesma
autenticidade (quer dizer, a mesma imediatidade do ver), mas uma
dessas afirmações desaparece na outra, se perde no conflito com a
outra e, colidindo entre si, terminam por anular-se uma a outra na
pretensão da suposta verdade da sua certeza individual, já que o que
um eu sabe sensivelmente é a antítese daquilo que um outro sabe
imediatamente.13

12
Essa compreensão, que a verdade é aquilo que o homem singular experimenta, é a tese própria dos
Sofistas, particularmente a de Protágoras, que defende o homem como o centro de tudo: “O homem é
a medida de todas as coisas, para aquelas que são, na medida de seu ser, e para aquela que não são,
na medida de seu não-ser.” Cf. Platão, Teeteto, 152 a. Garaudy observa que essa inversão do objeto
para o eu, realizada pela experiência da consciência, remete também ao solipsismo, ao subjetivismo,
que resultou no idealismo subjetivo de Kant ou de Fichte. Cf. Garaudy, R. Para Conhecer o Pensamento
de Hegel. Op. cit., p. 48.
13
Se a verdade é nada mais do que aquilo que o eu experimenta, é o que é para o homem, e o que é
para um pode não ser para outro, o que é, então, a verdade? É esta a crítica de Sócrates e Platão ao
relativismo defendido pelos sofistas: “Não diz ele que as coisas são para mim tal como me parecem, e
para ti tal como lhe parecem? Ora, homem, tu és e eu também.” Cf. Platão, Teeteto, 152 a. Eugen Fink
vê, nessa segunda concepção da certeza sensível acerca do ser a partir do eu sensível, correspondência
histórica a uma forma desenvolvida do pensamento, a saber, o ceticismo (Skeptizismus): “Embora
Hegel não evoque aqui nenhuma reminiscência histórica, ele tem, sim, em vista uma forma essencial
da história da filosofia, o ceticismo. Quando o mundo imediato, ingênuo da consciência natural foi
abalado pela primeira experiência dialética, a consciência, diante da incompreensão confusa do
32 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

O eu se dissolve, pois, em diversos eus singulares,


evanescentes. Mas o que não desaparece, nessa experiência, não é,
segundo Hegel, o eu único, singular, inefável, mas o eu comum,
universal (§102), que acompanha, como dissemos, todas as
representações do eu singular, sejam elas arvore, casa etc. O ver do
eu sensível nem é o ver da árvore, nem o da casa, mas é um simples
ver que, embora mediatizado pela negação da árvore, da casa etc.,
se mantém indiferente diante do objeto: da casa, da árvore etc. Mas
quando o eu sensível diz “isto”, anuncia um “isto” único, porém o
“isto” dito, anunciado, é qualquer e todo “isto” (árvore, casa etc.) Tal
como o isto em geral (um genérico este), é o eu não este eu, mas um
eu em geral, universal. Quer dizer, quando o eu fala (spreche), diz
(sage) ou se mostra (zeige), ele só quer dizer a si unicamente.
Porém,o que foi dito, qualquer outro eu pode dizer, por isso o que se
anunciou aqui foi um eu universal.14 Por causa desta inversão da
individualidade na universalidade, a certeza sensível, ao visar o
singular, não pode exprimi-lo, dizê-lo enquanto tal, já que não
atinge aquilo a que visa. Ela “visa, de certo, um eu singular, mas não
[pode] dizer o que [visa] no agora, aqui, também não o [pode] no
eu” (HEGEL, 1999, p. 66). Quando ela diz isto aqui, isto agora ou
este eu, está dizendo o seu contrário, todos os aquis, todos os agoras
ou todos os eus em geral, isto é, está dizendo apenas universais, por
isso os singulares (o objeto e o eu) se revertem, aqui, em universais.

1.2.4. A Unidade Concreta da própria Certeza Sensível.

Veremos agora a terceira experiência da certeza sensível: como


ela constatou que tanto o seu objeto (aquilo que é sentido), como o seu

mundo, recolhe-se em si mesma.; ela consolida a certeza de seu ser não mais no essente estranho; ela
procura a certeza do ser em si mesma”. Cf. Fink, Eugen. Hegel – Phänomenologische Interpretationen
der “Phänomennologie des Geites”. Op. cit., p. 76.
14
Mais adiante na Fenomenologia do Espírito, seção VI “O Espírito”, Hegel deixa bem claro essa
posição, reafirmando que o “eu é este eu, mas é igualmente o eu universal; seu aparecer também é
imediatamente a alienação [exteriorização] e o desvanecer deste eu e, por isto, seu permanecer em
sua universalidade”. Cf. Hegel, F. PhG. Op. cit., p. 276.
Eduardo Ferreira Chagas | 33

eu (aquilo que se sente), são universais (§103) e, portanto, não podem


subsistir neles o aqui, o agora e o eu que ela visa imediatamente, recorre
ela, para salvar a imediatidade de seu saber sensível, a uma outra
perspectiva (alternativa), na qual ela tem como essência e verdade “não
mais apenas um momento seu – como ocorria nos dois casos em que
sua realidade tinha de ser primeiro o objeto oposto ao eu, e depois o eu”
(HEGEL, 1999, p. 67), mas ela mesma como essência, como
integridade, como totalidade ou unidade vivente que inclui os dois
momentos, excluindo de si toda a oposição precedente. Assim mantida
como idêntica a si mesma e como totalidade, exclui ela toda distinção,
toda diferença, conseqüentemente não lhe interessa mais um aqui (aí)
que pode ser uma coisa ou outra, isto é, um aqui como árvore, que
passa para um outro aqui que é não-árvore, nem um agora que tanto
pode ser dia como noite, nem tampouco de um outro eu que pode estar
sentindo outra coisa pelo mesmo objeto (§104). O eu da certeza sensível
afirma, “assim, o aqui como árvore, e não [se vira] de modo que o aqui
se tornaria para [ele] uma não-árvore; também não [toma] notícia de
que um outro eu veja o aqui como não-árvore, ou que eu mesmo em
outra ocasião tomasse o aqui como não-árvore, e o agora como não-
dia. [O] eu, porém, [é] um puro intuir” (HEGEL, 1999, p. 67). A certeza
sensível recusa a sair de si mesma e firme na sua intuição imediata, na
sua pura imediatidade, não compara o aqui e o agora com um outro,
ou seja, ela quer apreender o objeto em si e não o compara com outros
objetos, nem quer saber se outros eus interpretam de outra maneira;
ela permanece em-si, numa relação imediata consigo mesma, e declara,
a partir de uma pessoa singular (de um eu), pura e simplesmente isto:
o objeto de sua certeza é, existe, nas condições de um espaço e de um
tempo e tem um nome, como, por exemplo, o agora (jetzt) é dia, ou
então, neste outro, o aqui (hier) é uma árvore.
Já que a certeza sensível quer permanecer fixa em si mesma
(§105), atestando de seu objeto apenas o ser, ou seja, a existência
dele, visando, por exemplo, um agora que é dia ou um eu para o qual
é dia, Hegel nos convida a ir a seu encontro, para pedir-lhe que nos
mostre esse agora (tempo), nesse aqui (espaço), que ela afirma, para
34 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

averiguar como está constituído esse pretenso imediato que ela


indica. Vejamos, pois, que imediatidade é essa: quando a certeza
sensível indica o agora, este agora, dado a sua natureza temporal, já
era, deixou de ser; é um outro agora. “O agora, que é, é um outro
que o indicado” (§106) (HEGEL, 1999, p. 67), e, assim, vemos que a
certeza sensível mostra apenas um agora passado, que já foi, que
não é mais. O agora, ao conter em si muitos ágoras, não é, portanto,
um singular e não tem a verdade do ser; ele não é ou não possui
essência (kein Wesen). Ora, a certeza sensível visava justamente
indicar o singular, o ser, mas acaba expressando o não-ser (o nada),
o não-ser enquanto é, um ser já sido.
Hegel deixa claro que, no indicar imediato do objeto aqui e
agora da certeza sensível, já se opera, na verdade, uma mediação,
um movimento dialético (§107), que percorre os seguintes
momentos: 1º) a certeza sensível põe o agora do objeto, que é
afirmado (Thesis) por ela como um agora verdadeiro (= o agora é);
2º) ao indicar um agora que está deixando de ser, como o ser “que-
já-foi”, como um passado, um suprassumido, suprassume
(Antithesis) ela a primeira verdade e afirma uma segunda (= o agora
não-é) e 3°), porém, como o ser-passado, o ser-que-foi (gewesen) ou
o ser-suprassumido não-é, suprassume ela a negação, isto é, a sua
segunda verdade, e, negando a negação (Synthesis), volta a indicar,
com isto, a primeira afirmação, a de que o agora é.
1° afirmação (tese): o agora é (presente) = este agora como presente é negação do agora, é o agora
como passado;
2° negação (antítese): o agora não-é (passado) = este agora, porque é passado, não é (negação do
agora como não-presente ou como passado) e
3° negação da negação = nova afirmação (síntese): assim, retorna-se à imediatidade, ao agora é
(presente).

Em síntese, evidencia-se que nem o agora enquanto tal, nem


o ato de indicá-lo pela certeza sensível não são um “simples
imediato”, mas sim um círculo que tem nele vários momentos ou,
melhor dizendo, uma dialética com suas mediações, que abre
caminhos para muitos movimentos. “Põe-se este, mas é um outro
Eduardo Ferreira Chagas | 35

que é posto, ou seja, o este é suprassumido. Esse ser-outro, ou


suprassumir do primeiro, é, por sua vez, suprassumido de novo, e
assim retoma ao primeiro. No entanto, esse primeiro refletido em si
mesmo não é exatamente o mesmo que era de início, a saber, um
imediato; ao contrário, é propriamente algo em si refletido ou um
simples, que permanece no ser-outro o que ele é” (HEGEL, 1999, p.
68). Assim, o agora da certeza sensível não é um mero instante, mas
um tempo que une o “é” e o “já foi” e tem em si uma pluralidade de
agoras (eine Vielheit von Jetzten) instantâneos: o agora, como
simples dia, inclui, por exemplo, muitas horas, que contêm, por sua
vez, muitos minutos, e assim por diante. Portanto, o ato de indicar
o agora implica um movimento que exprime o que o agora é em
verdade: um resultado ou uma pluralidade de agoras reunidos e
unificados. Por conseguinte, ao indicar o agora, a certeza sensível faz
a experiência de que ele é, como dito, um universal: o tempo. Tal
como o agora, o mesmo sucede com o aqui (o aí): o aqui não é um
mero ponto único, fixo, imediato, repelente, mas uma pluralidade
de pontos, um espaço sintetizado, no qual se revelam muitos aquis,
um aqui que se decompõe, se fragmenta e tem mediações em si:
acima-abaixo, diante-atrás, esquerda-direita (§108). Quando a
certeza sensível indica o aqui, ela o anuncia como um universal, pois
ele não é, de fato, um este aqui imediato, simples, único, mas um
complexo negativo, constituído de múltiplos aquis.
Concluindo, poder-se-ia perguntar: onde está, então, a verdade
dos sentidos (die Warheit der Sinne), das coisas sensíveis? Qual é a
realidade delas? Qual é a natureza da certeza sensível? Para Hegel, a
verdade da consciência imediata enquanto certeza sensível está para
além dela.20 A dialética do ser imediato, na sua forma aqui e agora, é a
dialética da consciência ingênua, trivial, passiva, isto é, a história do
movimento ou da experiência da certeza sensível (§109). Todavia, ela

20
Pelo que vimos acerca da certeza sensível, tem razão W. Moog, ao dizer que, com ela, “não está, de
modo algum, garantida a verdade absoluta da existência das coisas singulares, individuais, concretas,
como afirma a opinião vulgar do realismo sensualista ingênuo.” Cf. Moog, W. Hegel y la Escuela
Hegeliana. Tradução de José Gaos. Madrid: Revista de Occidente, 1932, p. 157.
36 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

esquece sempre o que experimentou e recomeça de novo o mesmo


caminho ou movimento desde o princípio. A realidade das coisas
sensíveis, o ser-aí de objetos externos, determinados como coisas
efetivas, dadas, inteiramente feitas e acabadas, tem para ela verdade
absoluta. Mas quando ela diz um isto sensível – como, por exemplo, o
aqui é uma árvore, ou o agora é dia -, experimenta ela, como vimos, um
isto não como um singular imediato, mas como um universal
mediatizado pela negação; quer dizer, ela visa o isto sensível, a coisa no
seu estado atual de coisa, o objeto externo, a essência absolutamente
singular (o aqui e o agora) (§110), mas o que ela enuncia dessas coisas é,
inversamente, sempre e somente o universal, um conjunto de muitos
aquis e agoras; o universal é, pois, o sensível superado. Então, em vez de
saber algo imediato, a consciência se torna percepção e apreende, ou
percebe (wahrnehmen, nehme wahr = percebe de verdade, tomar
segundo o verdadeiro), a coisa como ela é em verdade, a saber, uma
unidade (totalidade) mediatizada de múltiplas qualidades (diversidades),
ou seja, um conjunto de propriedades coexistentes, que a nova
experiência da consciência irá revelar.

1.3. As Contradições da Percepção: O Uno e o Múltiplo no


Interior da Coisa.

1.3.1. A Percepção (die Wahrnehmung) – ou: a Coisa e a Ilusão.

A certeza sensível queria se apossar, como vimos na seção


anterior, do verdadeiro, do essencial, que era, para ela, o objeto
imediato, o algo, o “isto aí” singular, mas não conseguia, porque a
verdade dela era, no fundo, o universal, o sensível superado
(aufgehoben). Como resultado dessa experiência, desse processo
dialético da certeza sensível, a percepção (die Wahrnehmung) já tem,
segundo Hegel, como seu princípio geral e ponto de partida o
universal, tanto do lado do sujeito (do eu) quanto do objeto (do ser)
(§111º); quer dizer, a essência da percepção é, de acordo com Hegel,
Eduardo Ferreira Chagas | 37

o universal,21 e os seus momentos, o sujeito e o objeto, são agora,


ambos, também universais. Perceber é, diga-se de passagem, um
movimento que implica dois momentos: um, a consciência
percebente (das wahrnehmende Bewusstsein) (o sujeito), ou
melhor, o movimento do indicar, efetuando a síntese de um diverso,
e outro, a coisa percebida (das wahrgenommene Ding) (o objeto), ou
seja, a reunificação (a síntese) de todos os momentos do movimento
num ponto só, fixo. Embora sujeito e objeto constituam o universal
da percepção, poder-se-ia perguntar: Afinal, a percepção é, na
verdade, subjetiva ou objetiva? Hegel mostra que, numa
comparação, somente um pode ser o essencial e, assim, se estabelece
uma distinção e oposição entre eles: O essencial, o verdadeiro, deve
situar-se no objeto (o que está em conformidade com o objeto), pois
ele é o igual-a-si-mesmo, independente da reflexão do sujeito, quer
dizer, existe independentemente para-si e é indiferente a ser ou não
percebido; mas, assim, o sujeito (o percebente) é, ao contrário, o
inessencial, o variável, o inconsistente, que pode ser ou não; o sujeito
só pode ser percebente se houver o objeto para ser percebido.

1.3.2. O Momento do Objeto.

Irei tratar inicialmente do objeto: É necessário determinar mais


detalhadamente o que é esse objeto (§112º): Ele é um universal ainda
impregnado do sensível, isto é, condicionado pelo sensível,
mediatizado e posto por ele e se mostra, por conseguinte, como uma
coisa simples (einfache Ding), singular, una (uma mônada
perceptível), com suas múltiplas e diferentes propriedades sensíveis,
nas quais se perdia consciência na figura anterior, ou seja, o saber
imediato da certeza sensível. Agora, a experiência da certeza sensível
é, acredita Hegel, constituída em sua verdade, porque a percepção – à

21
Hegel designa, na Propedêutica Filosófica, op. cit., p. 93, esse universal como “uma mescla de terminações
sensíveis e do entendimento”. Do mesmo modo, na Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im
Grundrisse, op. cit., § 420, p. 425, ele enfatiza: “O objeto é, pois, uma ligação de determinações sensíveis e
de determinações de pensamento ampliadas, de relações e conexões concretas.”
38 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

qual tal experiência pertence – tem o universal articulado com as


mediações, quer dizer, ela tem a negação, a diferença ou a
multiplicidade das propriedades do objeto presentes em sua essência.
é uma singularidade (um complexo universal)
A coisa e
engloba em si uma multiplicidade de propriedades.

O objeto não é, pois, um puro singular, aqui e agora, como a


certeza sensível visava indicá-lo ou apreendê-lo aparentemente, mas
também um múltiplo de propriedades, de qualidades,
suprassumidas num universal determinado (que pode ser isto ou
aquilo, como salgado, branco...) (§113º), mas não observável
imediatamente. “Assim, o isto é posto como não isto, ou como
suprassumido; e, portanto, não como nada, e sim como um nada
determinado, ou um nada de um conteúdo, isto é, um nada disto.
Em conseqüência, ainda está presente o sensível mesmo, mas não
como devia estar na certeza imediata – como um singular visado –
e sim como universal” (HEGEL, 1999, p. 72). Esta universalidade
(Allgemeinheit) do objeto tem, segundo Hegel, uma dupla
significação: a) uma, é a universalidade enquanto totalidade das
diversidades, a multiplicidade das propriedades (Mannigfaltigkeit
der Eigenschaften) distintas e indiferentes entre si, sendo cada uma
para si e livre da outra, e b) a outra, é a universalidade enquanto
simplicidade, a unidade relacionada consigo mesma, a unidade
independente das diversidades, mas que lhes serve de meio
(medium) e engloba todas elas. As propriedades diversas são, como
dito, indiferentes uma as outras, mas coexistem sem se penetrarem
nem se afetarem, isto é, participam por meio da universalidade de
uma unidade simples sem se anularem. Esse meio universal, que
Hegel chama de coisidade (Dingheit), é o objeto sensível aqui e
agora, como uma unidade, como um conjunto simples de múltiplos
termos, suprassumidos no universal. Tal meio é ainda designado
por Hegel como um “também” (Auch) indiferente, um enquanto
(Insofern), já que, por intermédio dele, evitamos as contradições da
Eduardo Ferreira Chagas | 39

coisa e garantimos que as múltiplas propriedades coexistam com


desenvoltura num aqui simples. Hegel cita como exemplo o cristal
de sal, que é um aqui simples, a coisidade (uno, universal) e, ao
mesmo tempo, um múltiplo, pois ele é branco, e também saboroso,
e também cúbico, e também de um determinado peso, etc.
tanto à coisa, que é um singular enquanto
complexo universal,
A universalidade pertence
quanto às propriedades da coisa.

por um lado, para si livres, independentes, e vão


além da singularidade da coisa
As propriedades são e
por outro lado, pertencentes, inseparavelmente, à
singularidade da coisa, na qual perdem a
independência, a indiferença em relação à coisa.

Apresentamos, inicialmente, apenas uma determinação da


percepção, isto é, apenas o caráter positivo de sua universalidade
(§114), da universalidade como meio que envolve, numa unidade, as
múltiplas propriedades do objeto. No entanto, deve ser considerado
também, segundo Hegel, um outro aspecto: A universalidade do
objeto não é uma unidade aleatória, isto é, um simples meio que
encerra indistintamente diferentes propriedades, pois, por um lado,
tais propriedades, por serem determinadas, são diferentes,
mutuamente excludentes e se relacionam entre si como opostas e,
assim sendo, não podem estar uma ao lado da outra, reunidas numa
mesma unidade, coexistindo juntas num mesmo objeto; por outro
lado, a própria universalidade, na medida em que é uma
universalidade em si e para si, diferente e oposta aos para-outros,
não é uma unidade indiferente, mas excludente (ausschliessende
Einheit), um uno negador do múltiplo.
Esse uno simples (o universal), que se relaciona consigo
mesmo, que nega e exclui os outros, é o que Hegel designa, como
fora dito, de coisidade ou simplesmente, a coisa. Assim, está
completo o objeto verdadeiro da percepção, isto é, a coisa (§115), que
se desenvolve, a princípio, em dois momentos contraditórios: a)
40 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

como universalidade passiva e indiferente a todas as suas partes (a


universalidade envolvente, positiva), o meio ou o também que reúne
todas as determinidades da coisa (as propriedades ou “matérias
livres”, como a sapidez, a brancura, o calórico etc.), e b) como
singularidade exclusiva (o uno negativo) que nega o múltiplo e
exclui as propriedades opostas. Ambos os momentos são suprimidos
(ou superados numa síntese), quando a coisa é tomada
simultaneamente como singularidade e universalidade
(pluralidade), como multiplicidade de propriedades (a “multidão”
das diferenças) no meio da substância (do universal englobante).
Assim sendo, pode-se compreender que a universalidade sensível –
a unidade imediata do ser (do uno) e do não-ser (do múltiplo, do
negativo) – só é propriedade quando a universalidade envolvente (a
universalidade pura) e a singularidade (o uno) se distinguem entre
si e se desenvolvem nela, permanecendo, ao mesmo tempo,
entrelaçadas por ela, formando, assim, a coisa da percepção, e a
consciência é determinada como percebente (§ 116°).
com a unidade da coisa (do objeto)
A consciência percebente se defronta e
com a diversidade das qualidades da coisa.

A consciência, entendida como percebente, tem como função


somente a de apreender, captar, o objeto, ou seja, a coisa. O que
surge dessa apreensão é para ela o verdadeiro (§ 116). Hegel acredita
que o coisismo é a atitude própria dessa consciência, da consciência
comum, ingênua e dogmática: Para se ter a verdade, basta para ela
reproduzir a coisa, tomá-la tal como ela é sem alterá-la e sem
estabelecer relações com outras coisas. Assim sendo, se a coisa (o
objeto) é sempre o essencial, o verdadeiro, o não-contraditório, o
igual a si mesmo, é, então, a consciência o mutável, o inessencial e o
incorrente, e, conseqüentemente, qualquer problema que venha a
ocorrer na percepção é atribuído, portanto, não à coisa (ao objeto),
mas a uma inverdade ou contradição da consciência que não percebe
corretamente a coisa e se ilude. Eis aqui a justificativa, pela qual
Eduardo Ferreira Chagas | 41

Hegel dá ao título do segundo capítulo de sua Fenomenologia do


Espírito: “a percepção, ou a coisa e a ilusão”, sendo a coisa a verdade,
e a ilusão (die Täuschung) é a reflexão da consciência sobre a coisa.
Vejamos, pois, a experiência que a consciência faz em seu apreender
efetivo da coisa ou, como outras palavras, a experiência da coisa e
do procedimento da consciência para com ela (§ 117°): A coisa, que
a consciência capta, apresenta-se inicialmente como um puro uno,
um singular excludente (este cristal de sal), mas ela tem, nela
mesma, também a propriedade de um universal que, por isso
mesmo, ultrapassa essa singularidade. Então, a primeira apreensão
da consciência acerca da coisa não era correta, verdadeira, pois o
uno, o singular, não pode ser a sua essência objetiva. Por causa da
universalidade das propriedades, a consciência toma agora a
essência da coisa como uma comunidade (ou continuidade) de
propriedades. Como essas propriedades são, todavia, determinadas,
opondo-se e excluindo-se mutuamente, a consciência altera de novo
sua posição e passa a tomar a coisa não mais como uma comunidade
geral; quer dizer, devido à determinidade das propriedades, volta a
consciência a fazer da essência da coisa um uno excludente. Surge
aqui, todavia, um problema: A consciência vê na coisa (no objeto)
muitas propriedades que, na verdade, não se afetam mutuamente,
que são indiferentes umas as outras, que não se excluem. Por
conseguinte, não seria correto por parte da consciência apreender a
coisa nem como uma comunidade geral, que exclui as diferenças, as
determinações das propriedades, nem como um uno excludente,
que desconhece as semelhanças entre elas, mas sim como um meio
comunitário, um meio comum universal, onde as múltiplas
propriedades estão, como universalidades sensíveis, cada uma para
si, mas, enquanto determinadas, cada uma exclui as outras.
A coisa “simples” e “verdadeira” foi apreendida pela
consciência como uma multiplicidade de propriedades singulares,
sendo cada uma para si e em exclusão para as outras. Contudo,
procedendo assim, a consciência esvazia o próprio objeto da
percepção, pois propriedades tomadas cada uma para si (a brancura,
42 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

a alcalinidade, a forma cúbica deste sal etc.), que não estão mais num
suporte, num ser determinado, nem num uno e nem numa relação
com as outras, não são mais propriedades e nem são determinadas,
visto que não se excluem. Sem a diversidade das propriedades, como
seria determinado e discernível a coisa de uma outra? De fato, a
coisa, enquanto puras propriedades que se relacionam consigo
mesmas, sem unidade, é apenas, como diz Hegel, um ser sensível
em geral, privado da diferencialidade e do caráter da negatividade.
A consciência, ao ter a coisa como um ser sensível, reduzida somente
às suas propriedades, se retira da percepção e retorna novamente à
certeza sensível, à certeza imediata de sua primeira experiência.
Como o ser sensível e o visar (o designar) da consciência imediata,
natural, remetem, contudo, à percepção, como vimos, a consciência
fica girando num mesmo círculo, que, em seus momentos
particulares e em sua totalidade, se suprassume a si mesmo.

1.3.3. O Momento do Sujeito.

Hegel mostra que o círculo percorrido, acima mencionado,


nunca é o mesmo (§ 118º), pois a consciência que o apreende já vem
enriquecida com a experiência anterior (da certeza sensível). Ele
constata que, ao fazer a experiência sobre o perceber (a percepção), a
consciência dissolve o objeto e retorna a si mesma, permanecendo em
si ou refletindo sobre si mesma; quer dizer, ela vê a si mesma em seu
objeto. Com isto, ficou claro para ela que seu perceber (sua percepção)
não é uma apreensão pura e simples do objeto (do verdadeiro), tal
como ele é em si, mas uma apreensão mesclada a uma reflexão, já que
ela, ao captar um objeto, opera uma reflexão sobre si e, com isto, altera
o seu objeto. A consciência distingue, pois, a sua reflexão de seu
perceber, isto é, ela não só percebe, mas também é cônscia de sua
reflexão sobre si, como resultado de sua reflexão sobre a coisa, e se
separa da simples apreensão (da percepção). De agora em diante,
trata-se justamente de separar o que é apreensão simples (o que vem
da coisa) do que é reflexão (do que vem de nós), para deixar em estado
Eduardo Ferreira Chagas | 43

puro a percepção primeira. Essa correção é, todavia, igualmente obra


e experiência da consciência.
Vimos que a consciência quer apreender a coisa, mas acaba
fazendo a experiência das contradições desta coisa. De início, a
percepção apreende a coisa (o objeto) como una (unidade) e pretende
mantê-la nessa determinação (§ 119º). Só que, depois, surgem à
percepção também diversas propriedades (multiplicidades) que
parecem pertencer à coisa. Por exemplo, o cristal de sal, citado por
Hegel, é uno, mas encera em si uma multidão de propriedades que a
consciência percebe como coexistentes. Como essa diversidade de
propriedades pode, todavia, coexistir na unidade singular da coisa?
Como superar a contradição entre a unidade da coisa e sua
multiplicidade? Para resolver tal problema, poder-se-ia, inicialmente,
supor o seguinte: Se a coisa é una, então, devem recair na consciência
percebente (no sujeito) essas diversidades de partes, essas múltiplas
propriedades, pelas quais a coisa deixa de ser una. Sendo assim, a
realidade, a verdade essencial da coisa, não reside já nela, mas no
conteúdo do próprio perceber subjetivo. De fato, o mencionado cristal
de sal só é, pois, branco para a nossa visão, sápido somente para o
nosso paladar, asperoso e cúbico para o nosso tato etc.. É,
precisamente, a diversidade dos órgãos dos nossos sentidos que cria,
portanto, essa diversidade das qualidades da coisa; ou melhor, a
diversidade não é obra da coisa, não vem dela, mas de nós, da
consciência percebente. Esta é, agora, o meio universal, em que as
propriedades se separam e são para-si.
Diante do exposto, poder-se-ia perguntar: Se o cristal de sal é,
todavia, branco para os olhos, salgado para o paladar, cúbico e
asperoso para o tato, então, não há nenhuma certeza de verdade na
coisa sensível, e esta e suas propriedades são meramente subjetivas?
Ou ainda: Se as propriedades da coisa estão no sujeito, e não na
própria coisa, como se explicaria, tendo o sujeito somente um órgão
da visão, determinações, qualidades distintas, como o branco, o
preto, o azul, no interior de uma mesma coisa? Reparando melhor,
a consciência percebe que as qualidades (Eigenschaften) particulares
44 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

(branco, preto, azul etc.) – que são determinadas (não subjetivas),


constituídas em oposição com outras – pertencem não ao sujeito,
mas ao interior da própria coisa, pois é através delas que uma coisa
se distingue de outras (§120º). “O branco só é em oposição ao preto
etc.; e a coisa só é una justamente porque se opõe as outras. Mas não
exclui de si as outras porque seja una – já que ser uno é o universal
relacionar-se-consigo-mesmo -, e sim devido à determinidade. [...]
Posto que a propriedade é a propriedade própria da coisa, ou uma
determinidade nela mesma, a coisa possui um número de
propriedades” (HEGEL, 1999, p. 76). Na verdade, a coisa é, como
mostrado, um também: Ela é branca e também salgada, cúbica etc.
Ela é só um também, ou seja, um meio universal, no qual as
propriedades subsistem, fora uma das outras, sem se suprimirem.
Se a coisa é um também (um composto), ou seja, uma
multiplicidade de propriedades (eine Vielheit von Eigenschaften),
onde se localiza a sua unidade (Einheit)? Ou ainda: Se a diversidade
das propriedades está na coisa e não depende de suas relações com
outra coisa ou com o sujeito, nem vem do sujeito, pode-se dizer,
então, que não a diversidade, mas a unidade é produto do sujeito?
Vimos que a coisa é o subsistir de múltiplas propriedades diversas e
independentes: Ela é branca e também cúbica, salgada etc.. Cada
propriedade é, porém, determinada absolutamente e, enquanto tal,
exclui uma outra propriedade, assim, a coisa, enquanto branca, não
é cúbica, e, enquanto cúbica, não é branca nem salgada etc.. Deste
modo, a unidade da coisa consigo mesma aparece como um
momento negativo, oposto, que exclui de si a diferença, a
diversidade. Por isso, caberá à consciência a incumbência de assumir
o uno excludente, deixando nas coisas as propriedades, ou seja, de
assumir a unidade (§121º), na qual serão postas e reunificadas as
propriedades diversas da coisa; a consciência unifica através de sua
reflexão a multiplicidade das propriedades num ser-uno virtual,
num suposto uno da coisa, tomada como uma realidade física. Com
isto surge aqui um problema, uma dificuldade, pois, se a unificação
do múltiplo é introduzida pelo espírito, é obra sua, o saber do sujeito
Eduardo Ferreira Chagas | 45

sobre a coisa torna-se, por conseguinte, uma ilusão (Täuchung),


uma ficção de seu entendimento.
Comparando os dois momentos – ou seja, o que a consciência
antes assumia (a multiplicidade) e o que assume agora (a unidade)
(§122 º) -, a consciência percebente vê que faz alternadamente ora
na coisa (como no empirismo), ora em si mesma (como no
criticismo kantiano), tanto a experiência do também (da
pluralidade), dissolvido em matérias independentes uma das outras,
sem a unidade, quanto a experiência do puro uno, sem a
multiplicidade. Constata assim que não é somente ela (o seu
perceber), mas também a noção de coisa, que se apresenta de forma
dupla, contraditória: O múltiplo (a diversidade) e o uno (a unidade,
o retorno a si), possuindo, assim, nela mesma duas verdades
opostas: Ora é una, quando aparece múltipla, ora é múltipla, quando
se mostra una. No início, a consciência fazia uma divisão, uma
separação entre ela e a coisa, e tomava esta como o igual-a-si-
mesmo e a si como o desigual (§123º). Ao experimentar que nem o
empirismo nem o criticismo kantiano podiam resolver este
problema do uno e do múltiplo, ou seja, que nada resolvia atribuir à
coisa a identidade consigo mesma, a igualdade (Gleichheit) (o
verdadeiro), e a si a diferença,, o desigual (Ungleiche) (o falso), já
que ambas têm os mesmos lados (o uno e o múltiplo), admite a
consciência agora que a própria coisa, na verdade, não é um
idêntico, referido a si mesmo, mas que contém contradições nas
suas determinações, um ser duplo e diverso: Ela é não só em-si e
para-si, idêntico a si e refletida em si, mas simultaneamente para-
um-outro, dentro e fora de si. É verdade que as propriedades do sal,
por exemplo, pertencem também a um conjunto de outras coisas
brancas, cúbicas, salgadas, asperosas, de modo que, nesse cristal de
sal, cada propriedade só é determinada na relação com os seus
outros exemplos. O ser outro não pertence, todavia, `a coisa, e sim
a um outro, que se defronta com ela, perturbando a sua unidade. A
consciência percebente toma agora como essencial não a coisa, mas
a relação desta com as outras coisas, isto é, tenta relacionar a coisa
46 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

(em-si e para-si) com outras coisas (para-um-outro). Essa questão


da relação (Verhältnis) será trabalhada por Hegel, no capítulo
seguinte, sobre o entendimento, que trata do dinamismo, do
movimento, que transforma a coisa em força, força esta apreendida
por Leibniz em sua teoria sobre a mônada.
um ser em-si e para-si = una, idêntica e
A coisa é
um ser-para-outro = múltipla, diferente.

Vimos que a unidade da coisa, que é em-si e para-si, é


perturbada pela presença de outras coisas, de um outro ser que, em
princípio, não é ela, nem lhe pertence, mas a um outro, que se
confronta com ela. Mas uma coisa é igual a outra, e em cada coisa
única, singular e isolada, fora de suas relações viventes, surge, por sua
vez, o mesmo problema: Cada uma se determina em si mesma como
algo diverso não de si mesma, mas somente das outras (§124º), pois
tem nela a diferença essencial que a distingue de todas as outra. Vendo
que a coisa é uma unidade em-si e para-si, isto é, uma determinidade
simples que a constitui enquanto tal, ou seja, que faz o seu caráter
essencial e a distingue das outras – a consciência percebente toma essa
determinidade simples da coisa como o essencial e diferencia a
unidade das diversidades da coisa, ou seja, distingue a coisa de sua
relação com as outras coisas, que é, para ela, o inessencial. Quer dizer,
pela determinidade, a coisa está separada, oposta as outras coisas
(§125º), mas nessa oposição (Gegensatz) ela se mantém em si e para
si mesma. A coisa só é, no fundo, esse uno para si essente fora da
relação com as outras coisas, pois nessa relação o que se põe é antes a
conexão com o outro, e a conexão com o outro é o cessar do ser da
coisa, de sua determinidade em-si e para-si (“este cristal de sal”), isto
é, a negação de sua independência.
Fora mostrado que a determinidade era o caráter essencial
das coisa, que a diferenciava e a colocava em oposição com as outras
coisas. Mas, nesse aspecto, a coisa só é determinada, em-si e para-
si, se não estiver em relação com as outras coisas, pois estas
Eduardo Ferreira Chagas | 47

significavam a sua negação. Agora, veremos o desenvolvimento


dessa contradição, ou melhor, que a negação (a anulação) da coisa
não vem da relação com os outros de fora, mas sim dessa sua
própria determinidade essencial. A consciência percebente verifica,
pois, que a coisa, como ser em-si e para-si, se refere apenas a si
mesma e se põe, portanto, como negação absoluta de todo ser-outro,
isto é, como negação absoluta que só consigo se relaciona (§126º).
A negação, que exclui de si tudo e se refere a si, termina, entretanto,
excluindo a si mesma e, conseqüentemente, tendo a sua essência não
mais em si, e sim em um outro (na relação). De fato, a coisa se
desmorona precisamente em virtude de sua propriedade essencial,
que é a sua unidade, e com esse desmoronamento, com essa
oposição de si, a coisa se liga às suas propriedades diversas,
múltiplas, tendo, agora, sua essência em um outro. Em síntese, a
coisa possui uma determinidade essencial, que constitui o seu ser-
para-si, a sua singularidade (o essencial), porém, nessa
singularidade (unidade), tem ela ainda a diversidade, a
multiplicidade, que é também essencial, embora esta essencialidade
frente à primeira propriedade essencial deva ser inessencial (§ 127º)
Ora, postular tal distinção é puro jogo de palavras, pois o essencial
e o inessencial são negações de si, se suprassumem a si mesmo: O
essencial se torna inessencial, e o inessencial essencial.
Assim sendo, fica superado o “ultimo enquanto que” de que
se valia a percepção para apreender a coisa (o objeto), separada em
ser-para-si (o essencial) e ser-para-um-outro (o inessencial)
(§128º), porque ela é, na verdade, o oposto de si mesma: Ela é
simultaneamente ser-para-si, em-si refletido (ser-uno), enquanto é
para-um-outro, e para-outro, enquanto é para-si. Ela está, portanto,
numa unidade dialética com seu oposto: Ser-para-si e ser-para-
outro, ou seja, é, na linguagem hegeliana, a unidade da unidade e da
multiplicidade, ou a identidade da identidade e da não-identidade.
Vimos, inicialmente, que o ser sensível fora suprassumido para
dar lugar ao universal – objeto da percepção: Um universal oriundo do
sensível, por ele mediado, e, por isso, não igual a si, mas afetado por
48 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

uma contradição extrema entre a singularidade e a diversidade, o uno


e o múltiplo (as matérias livres) (§ 129º). Agora, a consciência tem de
operar uma suprassunção dessa contradição, dessa duplicação da
coisa, oriunda do universal, condicionado ao ser sensível; isto é, o
objeto tem de ser suprassumido tanto em sua determinidade, que
constitui a singularidade (o uno), quanto em sua diversidade ou
pluralidade (o múltiplo), formando, assim, uma unidade absoluta
incondicionada. Os “dois extremos, que se contradizem, não apenas
estão lado a lado, mas estão em uma unidade” (§130°) (HEGEL, 1999,
p. 79). Quando a consciência tem a relação, ou seja, ambos os
momentos do objeto num todo inseparável, numa unidade
absolutamente incondicionada, num universal que se põe a si mesmo,
não afetado por um outro externamente, ela entra, de verdade, no
rumo do entendimento (Verstand).
O resultado dessa experiência da percepção é a universalidade
liberta das distinções e determinações, a universalidade
incondicionada (unbedingte Allgemeinheit), que é objeto agora do
entendimento. Nesse caminho para o entendimento, surgem, todavia,
obstáculos por parte da percepção que se recusa em prosseguir a
dialética rumo à universalidade incondicionada que encerra sua
mediação ou reflexão em si, pois ela persiste em querer salvar,
mediante os “enquanto que” e os “também”, as contradições da
singularidade e universalidade, do ser-para-si e ser-para-outro, da
essencialidade e inessencialidade, constitutivas de seu objeto (§131º).
Só que, em vez de evitar tal oposição e superá-la num universal
incondicionado, a percepção a toma como verdadeira, é arrastada por
ela e acredita estar lidando não com abstrações puras e vazias (leere
Abstraktionen), mas com conteúdos concretos e sólidos. A relação ou
alternância constante das contradições entre o uno e o múltiplo, entre
o essencial e o inessencial, constitui a essência da vida da consciência
percebente. O entendimento, ao contrário, determina e domina essas
contradições abstratas, sintetizando-as (ou suprassumindo-as) num
universal incondicionado.
Eduardo Ferreira Chagas | 49

1.4. O defeito da lei universal do entendimento.


Força Entendimento
Fenômeno (leis múltiplas, particulares, Essência (lei única, geral, mundo
mundo sensível) supra-sensível)

Nesta última seção que trata do entendimento, que é o


terceiro capítulo complicadíssimo, árduo22, da Fenomenologia do
Espírito, identificamos indiretamente posições da ciência e da
filosofia dos séculos 17 e 18, particularmente as de Locke, Newton,
Leibniz, Kant e da filosofia romântica da natureza. Hegel apresenta
também aqui a nova experiência realizada pela consciência. Neste
momento dialético, a consciência suprassume a certeza sensível – o
nível do ver, ouvir, tocar etc. - e reúne as contradições da percepção
num universal incondicionado (unbedingte Universale) (§ 132°) que
ela toma, de agora em diante, como seu objeto verdadeiro e
essencial, objeto esse formado por uma “reflexão interna” sobre si
mesmo (o retorno a si) a partir da relação para-com-outros.
Segundo Hegel, a consciência não toma consciência disso, quer
dizer, ela não reconhece, porém, ainda a si mesma nesse objeto
refletido. Nós, filósofos, diz ele, sabemos, através de uma análise
filosófica, e a experiência da consciência irá mostrar isto, a saber,
que aquilo, de que chamamos o sentido próprio do objeto, reflete
mesmo a estrutura da consciência, ou, com outras palavras, que esse
objeto (o universal incondicionado) e a consciência são uma coisa
só, uma reflexão só, mas a consciência, como dito, não sabe disso.
Importa ver, pois, como ela examina, a seu modo, esse seu novo
objeto: o objeto (a coisa, a realidade) não posto pelos sentidos, pela
percepção, que o compreende meramente de forma externa e o tem,
do ponto de vista químico, atomístico, decomposto em muitos
objetos com suas propriedades, mas como força e jogo de forças,

22
“A dialética da força é”, diz Gadamer, “um dos tópicos da obra de Hegel, que ele mesmo comentou mais
profundamente, posto que são tópicos que não só aparecem na Fenomenologia, mas também, e com mais
amplitude de análise, na Lógica ou na Enciclopédia.” Cf. Gadamer, Hans-Georg. La Dialéctica de Hegel –
Cinco Ensayos Hermenêuticos. Tradução de Manuel Garrido. Madrid: Ediciones Cátedra, 2000, p.53.
50 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

esclarecidos pelas leis, dadas pelo entendimento; quer dizer, o objeto


como forças e jogo de forças, que exercem entre si uma ação
recíproca, que estão por trás dos fenômenos, das propriedades da
coisa, e como leis, que governam essas forças e fenômenos, leis essas
elaboradas pelo entendimento.
O novo objeto, o universal, se apresenta de modo plenamente
constituído (formulado), e a consciência se torna, agora, para si
mesma consciência concebente (entendimento) (Verstand), quer
dizer, se porta como consciência que concebe (entende) o objeto.
Nesse universal, a consciência nega e abandona aquelas dualidades,
aquelas contradições (essencial e inessencial, coisa e suas
propriedades, uno e múltiplo, sujeito e objeto, ou saber e objeto) da
consciência percebente (§134º) e põe como a mesma essência a
unidade do ser-para-si (o uno) e do ser-para-outro (o múltiplo), não
só na forma em que concernem esses momentos, um em relação ao
outro, mas também no próprio conteúdo. Consequentemente,
qualquer objeto possível tem como essência esse conteúdo de ser-
para-si e de se relacionar com-um-outro, ou seja, de ser um
universal incondicionado (unbedingt).
O objeto, ser-para-si (uno)
para o é um universal incondicionado, e
entendimento, que é o interior das coisas, ou a
unidade de: ser-para-outro ( múltiplo)

Apesar do universal incondicionado ser o objeto da


consciência concebente, emergem nele aqueles dois momentos que
se apresentavam inicialmente à percepção (§135°): o múltiplo, a
multidão das propriedades sensíveis, das diferenças ou a
multiplicidade das “matérias subsistentes” e a unidade (o uno em-si
refletido) que excluia de si toda multiplicidade, que “aniquilava” a
independência das “matérias subsistentes” (das propriedades do
objeto), que são também para-si, livres e em oposição às outras. É
evidente que esses momentos se apresentam doravante na
incondicionalidade do universal não separados um do outro, mas
Eduardo Ferreira Chagas | 51

pensados um com o outro, suprassumidos um ao outro, e o que se


põe é apenas a passagem (o “transitar”) de um para outro.

1.4.2. A Força e o Jogo de Forças.

O entendimento tem por objeto o passar constante do uno (da


unidade) para o múltiplo (a diversidade) e do múltiplo para o uno.
Esses dois momentos não estão separados, pois as “matérias
independentes” (a multiplicidade), embora sejam cada uma para si,
autônomas, estão numa unidade estreita que as subsistem, cada
uma está onde a outra está, e a unidade é, com efeito, essa
multiplicidade de matérias independentes e indiferentes (§ 136°).
Quer dizer, a diversidade, posta como independente, passa
imediatamente à unidade, e a unidade se desdobra nos
independentes, e estes voltam à unidade, e assim sucessivamente. É
precisamente esse veículo, esse processo, esse movimento,
constante de um para o outro, que aparece ao entendimento
inicialmente como uma forma objetiva, que será, para ele, a força
(die Kraft). Esta concentra, portanto, em si a matéria, isto é, as
qualidades materiais desconexas da coisa, sendo, assim, um uno
refletido em si, um meio universal, de múltiplas matérias existentes,
de unidades individuais. Com isto, Hegel se aproxima aqui de
diversos filósofos, entre outros, por exemplo, de Locke, que vê nas
qualidades a força da substância; de Leibniz, que julga impossível a
unidade na matéria isolada, passiva, tomando, pelo contrário, a
força como a verdadeira natureza das coisas; de Kant, que entende
os corpos materiais como equilíbrio de forças, a saber, de forças de
atração e repulsão (Cf. SIEP, 2000, p. 92).
movimento, do uno para o múltiplo e
Força de um para o outro
passagem, do múltiplo para o uno.

Neste capítulo da Fenomenologia, Hegel apresenta,


inicialmente, o conceito e a realidade da força. O entendimento
52 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

distingue, na concepção de Hegel, dois momentos da força: a força em


si (die Kraft an sich), a força “reprimida”, “recalcada” ou concentrada
em si mesma (a potência), que é a força propriamente dita, e a
exteriorização da força (die Äusserung der Kraft), a força como
exteriorização (o ato) das propriedades, como manifestação ou
expansão de si mesma no meio das diferenças, das matérias
independentes e distintas. Só é força propriamente dita, se ela contém
esses dois momentos, isto é, se ela manifesta ou põe para fora de si, o
que ela tem dentro de si, mas, na exteriorização, ela se conserva como
força, se mantém em si mesma, já que ela é apenas exteriorização do
que é em si e não há nada atrás dela. Esses dois momentos diferentes
– a força recalca em si e força enquanto exteriorização – é apenas uma
distinção do entendimento, do pensamento, ou conceito dele, e não a
realidade da força mesma. Na verdade, a força não é exclusivamente
um de seus momentos opostos, os quais são inseparáveis, mas a
passagem de um momento ao outro, pois tanto um quanto o outro são
ela própria. No objeto (o universal incondicionado), a força é
igualmente para si mesma o que é para-um-outro; ela tem a diferença
nela mesma, pois ela não é outra coisa que um ser-para-outro.
No objeto (o universal a força propriamente dita, em
incondiciondo), para há a força, si mesma, reprimida em si (a
o entendimento, que é um todo, uma unidade, potência) e a força como exte-
que envolve, inseparavelmente, riorização, expansão (o ato);
dois momentos, sem anular - o uno e o múltiplo;
a diferença: - o interior (interno) e o exte-
rior (externo) ou
- a identidade e a diferença.

Vimos que a força é uma só e distinta e que os momentos


distintos dela não constituem a sua realidade, mas apenas o seu
conceito. Assim, para que a força seja em sua verdade, tal como ela é,
a consciência experimenta agora deixá-la livre do conceito, operar-se
fora das determinações do pensamento, vendo-a primeiro
concentrada essencialmente em si e para si como unidade (uno);
depois, a encontra no múltiplo (nas diferenças), nos desdobramentos
dela em matérias diversas, que têm também existência própria.
Eduardo Ferreira Chagas | 53

Embora os dois momentos da força (a força recalcada sobre si e a força


como desdobramento das matérias independentes) sejam
evanescentes, superficiais, passageiros e passem constantemente um
pelo outro, eles são, no interior da unidade da força, ao mesmo tempo
independentes e diferentes, caso contrário não existiriam de fato. Se a
força não fosse, entretanto, a contradição desses dois momentos, não
seria força: Ela é a unidade contraditória de ambos os momentos; estes
momentos são diferentes e independentes, mas tal diferença e
independência se suprassumem constantemente na unidade da força.
Como resolver, então, esta contradição?
Na força há, como dito, um processo de dois momentos, “que,
sem cessar, se fazem independentes, para de novo se
suprassumirem” (HEGEL, 1999, p. 98). Este movimento se
assemelha aquele que ocorria na consciência percebente, na qual o
percebente (o sujeito) e o percebido (o objeto) apareciam como
separados, distintos (cada qual “refletido sobre si” ou “para-si”),
embora eles fossem ao mesmo tempo um só e indistintos, formando
entre eles uma unidade no ato do conhecimento. Agora, no
entendimento, tal movimento encontra-se presente nos dois
momentos da força, os quais são dois extremos para si existentes,
mas que formam também uma unidade (o termo médio entre eles)
e só existem por meio dela. Assim, esse movimento, que na
percepção se apresentava como autodestruição de conceitos
contraditórios, é aqui, no entendimento, o movimento da força, cujo
resultado se produzirá o universal incondicionado como algo não-
objetivo ou, melhor dizendo, como o interior das coisas.
A consciência concebente (o entendimento) encontra na força
uma solução para a diversidade de momentos opostos: Na verdade,
numa única força existem duas – uma solicitada (ser solicitada, ou a
própria força) e outra solicitante (o solicitar, ou o jogo de forças)
(§137°). A força enquanto tal ou refletida sobre si (solicitada) é uma
delas; a outra é constituída pela existência das diferenças ou das
“matérias” desdobradas pela própria força (a solicitante). A primeira
força (a solicitada, a força refletida sobre si) serve como meio-termo,
54 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

como o meio universal do subsistir dessas diferenças ou dessas


matérias (do jogo de força da solicitante), que se exteriorizam. Esta
exteriorização se apresenta sob a forma de uma “outra” força que se
aproxima e solicita (pois é solicitante) a solicitada (a força refletida
em si) a vir à tona. Como tal exteriorização é, contudo, necessária à
força, ela (a exteriorização), enquanto “outra” força, não pode ser
entendida como uma força exterior à primeira, vinda de fora, para
que esta se exteriorize. A exteriorização (como força) é apenas um
momento, uma manifestação da mesma força, que se nega num
momento, para se afirmar num outro como ela mesma. Não existe,
pois, uma força para-si, que existe a parte da exteriorização e isolada
do jogo de força, das outras forças. O que há, em síntese, são as
forças e o seu jogo (Cf. GADAMER, 2000, p. 54).
solicitada
A força existe como e
solicitante

Tal como a solicitante, a solicitada é também uma força e tem


os mesmos momentos que a outra, a saber, ora recalcada em si
mesma, ora desdobrada nas diferenças (§138°). “O que surge como
outro e solicita a força tanto à exteriorização quanto ao retorno a si
mesma, é ele mesmo força, como imediatamente resulta; porquanto
o outro se mostra quer como meio universal, quer como uno e ao
mesmo tempo só aparece em cada uma destas figuras como
momento evanescentes” (HEGEL, 1999, p. 99). Assim sendo, a força
ainda não saiu em geral de seu conceito, pois ela é para um outra, e
uma outra é para ela; ela só tem sua determinidade mediante a
outra, e cada qual perde também imediatamente a determinidade
que lhe foi dada, pois passa para o seu oposto. Duas forças estão aqui
presentes: embora elas tenham o mesmo conceito, elas passam de
uma para outra, de sua unidade à dualidade, e da dualidade à
unidade. A força recalcada é, por exemplo, solicitada a se tornar
solicitante, e a solicitante solicita porque é solicitada. A distinção que
se estabelece entre essas duas forças passa a ser, pois, a troca
Eduardo Ferreira Chagas | 55

imediata, recíproca, de suas determinações: Só no jogo de ambas (in


dem Spiel der beiden), na passagem de suas determinações (§139°)
é que as forças parecem apresentar-se como independentes.
Para adentrarmos mais no conceito de força, poder-se-ia
evidenciar na passagem (no intercâmbio) de suas determinações
uma dupla diferença (§140°): Primeiro, uma diferença de conteúdo,
pois uma é a força refletida sobre si, e a outra, a força como meio
das diversas matérias independentes; segundo, uma diferença de
forma, pois enquanto uma é solicitada, a outra, solicitante; aquela
passiva, esta, ativa.
quanto ao conteúdo - a força recalcada, refletida em-si
(não em-si, mas para-nós) e a força como meio universal de
Na força há múltiplas matérias independentes.
uma diferença e
quanto à forma - a força solicitada = passiva e
(não para-nós, mas em-si) a força solicitante = ativa.

Enquanto a diferença de conteúdo é uma diferença aparente,


apenas para nós, a diferença de forma entre as forças é em-si, pois
elas são, abstratamente falando, independentes, separadas e
opostas. Para a consciência esses extremos do movimento da força
nada são, porém, em si, segundo os seus lados fixos, ou seja, tais
diferenças, como as diferenças do conteúdo e da forma, são apenas
momentos evanescentes. Daí resulta que o conceito de força só é
efetivo, como Hegel ressalta, no desdobramento (na duplicação) das
duas forças, que são ambas essências em si, embora a existência de
cada uma seja um movimento que pressupõe a relação como a
outra; e já que o ser de cada uma é um ser posto mediante a outra,
esse ser tem a significação do desaparecer (§141°). Só no choque
(Anstoss), no contato de uma com a outra, é que as forças são o que
são; no contato, elas se exteriorizam, passam uma na outra e
desaparecem; quer dizer, as forças não têm nenhuma substância
própria que as mantenha enquanto tais, pois no momento em que
elas são, elas deixam de ser efetivamente. A força é efetiva
unicamente na exteriorização, que igualmente não é outra coisa que
56 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

o suprassumir de si mesma: Quando ela se realiza, deixa ela de ser


real, perde ela a sua realidade. O que subsiste na perpétua
instabilidade da força, na troca incessante de suas determinações, é,
portanto, só o pensamento desse jogo de forças, o pensamento ou o
conceito da realidade fenomênica, ou o interior das coisas (a unidade
de indiferentes, o universal incondicional), que agora aparece como
a essência em sua realidade mesma.

1.4.3. O Interior ou o Fundo das Coisas.

Como segundo momento deste capítulo, Hegel concebe a


força como o interior (das Innere) do objeto, como o interior que
movimenta o próprio jogo de forças presente no objeto. Hegel
mostra que a consciência concebente (o entendimento) apreende,
em princípio, o seu objeto, a força, a partir de dois universais: o
primeiro universal, o universal imediato, donde o entendimento
parte, é a força como “substância”, a força realçada em si,
concentrada em si mesma e subsistente, que, para ele, é um objeto
real; então, o segundo universal é um universal mediatizado pela
negação do universal imediato, ou seja, o negativo da força sensível
objetiva, que é a força em sua verdadeira essência, tal como ela é em
si e para si. Esse segundo universal, que só é objeto para o
entendimento, é o interior23 das coisas como interior, idêntico ao
conceito como conceito (§142°).
a) inicialmente, como um universal imediato: a
O entendimento força recalcada em si, refletida sobre si mesma e
tem que se mostra b) depois, como um universal negativo,
por objeto a força mediatizado: a força em si enquanto interior
das coisas, o fundo verdadeiro dela.

23
Gadamer também destaca a singularidade do entendimento frente as etapas anteriores da
consciência, como a certeza sensível e a percepção: “Uma coisa é clara a esse respeito: olhar o interior
é coisa do entendimento, e não já da percepção sensível. [...] O objeto do ‘pensar puro’ se caracteriza
obviamente pelo fato de não estar dado de modo sensível.” Cf. Gadamer, Hans-Georg. La Dialéctica
de Hegel –Cinco Ensayos Hermenêuticos. Op. cit., p. 56.
Eduardo Ferreira Chagas | 57

O entendimento não tem, entretanto, uma relação imediata


com esse interior, com essa essência verdadeira das coisas; só o tem
através de um meio-termo, de uma mediação, que é o jogo de forças
(§143°). Este meio-termo (o jogo de forças), que aproxima o
entendimento ao interior das coisas, é o “ser das forças”, que, ao se
manifestar, desaparece. O meio-termo é, para o entendimento, um
evanescente e, por isso, se chama fenômeno (Erscheinung); ele é um
ser que imediatamente é em si mesmo um não-ser, uma aparência
de ser, sem consistência e estabilidade em si mesmo. O todo, a
totalidade, dessa experiência é o universal que constitui o interior
ou, como diz Hegel, o jogo de forças (das Spiel der Kräfte) refletido
sobre si mesmo, posto agora positivamente como um objeto em-si
existente.
O jogo de forças, é o fenômeno (manifestação de nascer e perecer),
que medeia o entendimento aparência, ser que deixa de ser (não-ser).
ao interior das coisas,

O ser da certeza sensível e o da percepção têm, agora, somente


uma significação negativa (nula), pois são, aqui, apenas fenômeno
(manifestação fenomênica), que aponta, no entanto, para um
interior objetivado. O entendimento (a consciência concebente) faz
desse interior, enquanto reflexão interna das coisas, o verdadeiro e
distingue dessa reflexão interna a sua própria reflexão, sua reflexão
em si mesma.
O exterior (aquém, o fenômeno objetivo evanescente, que deixa
mundo sensível, da coisa é de ser constantemente; movimento negativo.
fenomênico)

o movimento negativo posto como positivo;


O interior (além, da coisa é a coisa refletida em si mesma, que permanece
mundo supra-sensível) internamente em si no seu desdobramento
constante (no seu fenômeno).

Isto se dá porque o entendimento concebe ainda o interior


com algo externo e oposto a ele, como consequência ou
desdobramento de um fenômeno puramente objetivo evanescente,
58 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

não estando, pois, ainda consciente de sua presença nele (no


interior), ou seja, que ele (o interior) é já um conceito seu (do
entendimento); ele lida com esse interior enquanto conceito, mas
ainda não se deu conta disso. Ou melhor: “O interior, portanto, é
para ela o conceito; mas a consciência ainda não conhece a natureza
do conceito” (HEGEL, 1999, p. 103). Esse interior é para o
entendimento o verdadeiro, o absoluto-universal, visto que ele está
livre da oposição entre a universalidade e a singularidade, entre o
uno e o múltiplo; ele é, como dito, o objeto do entendimento, objeto
em que se manifesta pela primeira vez, ainda que de modo
imperfeito, a razão (§144°). Tal interior irá se patentear aqui, no
entanto, como um além permanente sobre o aquém evanescente, ou
seja, como um mundo supra-sensível (verdadeiro), pairado acima e
para além do mundo fenomênico, sensível (aparente). Esta
concepção do entendimento de um universal dado por ele, e não de
um universal do sensível em sua alteridade, do elemento comum às
aparências do sensível, de um interior verdadeiro, absolutamente
verdadeiro, de um mundo supra-sensível como o mundo
verdadeiro, a parte e por cima do mundo sensível, percebido ou
aparente, se assemelha, de certa forma, com as concepções
platônica, cristã, galileana e newtoneana, que se caracterizam por
tomar o universal como o que permanece no que desaparece, ou
como o mais além que permanece sobre o aquém que desvanece.
Daqui em diante, veremos um silogismo que tem por extremos o
interior, ou fundo das coisas, e o entendimento, e, por intermédio, o
mundo fenomênico (§145°), pois o movimento desse silogismo irá
demonstrar as experiências, quer dizer, as ulteriores determinações
daquilo que o entendimento faz através desse meio-termo, em busca
do fundo das coisas, do interior da realidade. É também partir daqui
que surge um terceiro momento deste capítulo que diz respeito,
sobretudo, à relação entre o mundo supra-sensível (übersinnliche
Welt) e o mundo sensível (sinnliche Welt).
Entendimento Fenômeno sensível Interior supra-sensível
(extremo) (meio-termo) (extremo)
Eduardo Ferreira Chagas | 59

Para a consciência concebente (o entendimento), o interior da


coisa é um puro além (um além dela), porque ela ainda não se
reconhece nele; ele é para ela apenas o negativo do fenômeno, o
vazio (o nada) que o nega, mas representado por ela positivamente
como um universal simples (§146°). Esta maneira de se pensar
assemelha-se com a posição filosófica de alguns pensadores (como,
por exemplo, Kant), para os quais o interior (a essência) das coisas
pode ser decerto pensado, mas não conhecido; o interior é, pois,
incognoscível. Sem dúvida que desse interior, tal como ele é aqui
abordado, não pode haver nenhum conhecimento. Isto se dá, não
porque a razão, como pensa Kant, seja míope ou limitada, mas
justamente porque esse interior é posto como o “além” da
consciência ou concebido como o vazio (um vácuo), separado e
oposto ao mundo percebido, e no “além” ou no vazio nada se pode
conhecer.
um puro além,
O interior é, para o entendimento, um vazio, que não se pode conhecer;
das coisas um nada, é incognoscível.
um vácuo,

Querer conhecer o interior dessa maneira é, segundo as


palavras de Hegel, a mesma coisa que colocar um cego diante das
riquezas do mundo supra-sensível e pedir-lhe para ver o conteúdo
dela, ou então pôr um vidente no meio das puras trevas ou da pura
luz, pois tanto lá como aqui ele nada veria; quer dizer, tanto o cego
quanto o vidente não enxergariam a abundância de coisas que
estariam diante deles. Se o interior, assim pensado, é incognoscível
e, portanto, inacessível, a consciência concebente acredita que o
melhor a fazer seria abandoná-lo de vez, contentando-se apenas
com o fenômeno. Mas com esta alternativa, ela se depara com um
problema: atém-se ao fenômeno e o toma por verdadeiro, embora
saiba não ser ele o verdadeiro, ou, para preencher o vazio, o
esvaziamento das coisas objetivas, que veio a ser com o abandono
60 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

de seu interior, ela o preenche com seus próprios devaneios, sonhos


e fantasias, no intuito de disfarçar a ausência desse interior.
É necessário atentar que o interior (ou o “além” supra-
sensível) não é, para Hegel, o vazio, pois ele provém do fenômeno,
da aparência. E, embora o fenômeno não seja a verdade, ele (o
fenômeno) é a mediação do interior, pois, por meio dele (do
fenômeno), o interior se põe, se manifesta; o interior se manifesta
no fenômeno, e o fenômeno é a manifestação do interior; assim, o
fenômeno não é o fenômeno de algo oposto, diferente, do interior,
mas sim a própria essência, o conteúdo, a condição e a
implementação dele (do interior, do supra-sensível). Este é, pois, o
fenômeno posto tal como ele é em sua verdade, isto é, não uma mera
exteriorização de uma força, que se anula, que se paralisa, mas
fenômeno que é a totalidade da realidade, o fenômeno da essência,
pois a essência do fenômeno é ser fenômeno, ou seja, ser algo
evanescente, passageiro, algo que se suprassume, que deixa de ser o
que é, mas sendo; portanto, o interior (o supra-sensível) é o
fenômeno (o sensível, o percebido) como fenômeno posto, tomado
na sua plenitude. Isto não quer dizer que o interior (o supra-
sensível) seja o mundo sensível imediato ou o mundo tal como é
para a certeza sensível (para a sensibilidade) e para a percepção,
porque o fenômeno não é imediatamente o mundo do saber sensível
e do perceber com um aí existente, mas tal mundo como
suprassumido ou posto em sua plenitude, em sua totalidade, como
interior. Portanto, quando se diz que o interior (o supra-sensível)
não é o fenômeno, não se entende aqui por fenômeno o fenômeno
no seu sentido estrito (verdadeiro), mas como sinônimo de mundo
sensível na sua própria efetividade real.
O interior (o “além” supra-sensível) provém do fenômeno que é a sua condição de ser.

não é incognoscível, mas apenas do mundo sensível-


O interior o fenômeno como fenômeno, que é diferente imediato, fenomê-
(supra-sensível) o fenômeno na sua plenitude, nico, aí existente.
o fenômeno suprassumindo-se,
Eduardo Ferreira Chagas | 61

Evidenciamos que o interior das coisas era inicialmente, para


o entendimento, um universal incondicionado, um “em-si universal
ainda não-condicionado”, e o jogo de forças tinha não só uma
significação negativa (de não-ser em si), mas também positiva, qual
seja: ser o mediador entre o entendimento e o interior. Através dessa
mediação positiva, quer dizer, por meio do movimento das forças, o
interior irá, agora, neste ponto, se implementar, ganhar um
conteúdo para o entendimento (§148°). Hegel nos mostra como isto
ocorre: no jogo de forças, diz ele, aparece, como primeiro momento,
um único conteúdo, constituído pela diferença entre as forças: A
diferença de forma – força solicitada e força solicitante – e a de
conteúdo – força recalcada em si como una (o passivo) e força
desdobrada como múltipla (o ativo). Aqui ocorre apenas a troca
imediata de determinações ou a permuta absoluta entre as forças: A
solicitada se converte em solicitante, e a solicitante em solicitada.
Como essas duas diferenças são, porém, a mesma coisa, quer dizer,
a diferença de forma é o mesmo que a diferença de conteúdo,
desaparece, então, toda a diferença entre as forças particulares, as
duas diferenças se tornam uma só. Assim, não há nem força
recalcada, nem solicitante, mas uma única diferença, a diferença
enquanto tal, à qual as forças opostas estão reduzidas. Esta diferença
constante, idêntica, como um universal, como um simples, que
permanece tranquilamente no que desaparece, isto é, no jogo de
forças, que subsiste na instabilidade fenomênica, na incessante troca
de seus momentos, é o verdadeiro e constitui, precisamente, a lei do
fenômeno, da natureza ou da força da coisa. A lei não é a mudança,
mas essa diferença simples que repousa no interior como uma
imagem constante do fenômeno cambiante, sempre instável. O
interior (o mundo supra-sensível) é, precisamente, o mundo das leis
(die Welt der Gesetze) como imagem calma, tranquila, do mundo
sensível; ele é, portanto, o reino calmo das leis (Reich der Gesetze),
como algo não só para “além” do mundo fenomênico-imediato, do
mundo percebido como mudança constante, mas também presente
nele (no mundo fenomênico) (§149º).
62 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

não-implementado o universal incondicionado, sem conteúdo; mera


troca ou passagem entre as forças solicitante e
O interior soliciitada e
implementado a diferença universal, a diferença enquanto tal, que
permanece tranquila na mudança entre as forças,
que é a lei.

O fenômeno (a coisa na sua dimensão aparente e mutável)


tem o seu conteúdo naquela diferença simples, universal, que se
expressa na lei. Esta (o reino das leis ou o mundo supra-sensível) é
para o entendimento o interior ou a verdade (die Wahrheit), a
realidade (die Wirklichkeit), do fenômeno, do mundo sensível. Mas
é necessário atentar aqui para o fato de que a lei (universal) é só
uma parte dessa verdade, já que ela não preenche completamente
as diferentes leis do fenômeno. A lei (universal) está, como acima
fora dito, presente no fenômeno, mas ela não exprime a sua
totalidade, não é toda a sua presença, porque ela tem uma realidade
efetiva diferente da dele, contraposta a ele. “Portanto, resta ao
fenômeno para si um lado que não está no interior” (HEGEL, 1999,
p. 106) (na diferença), e isto se dá precisamente porque o fenômeno
ainda não atingiu, em verdade, essa diferença, ainda não está posto
completamente como fenômeno, como um ser-para-si
suprassumido (§150º). Esta debilidade, este defeito da lei, próprio
do entendimento, recai também sobre ela própria, que tem em si a
determinidade, a diferença mesma, mas, na lei geral (dada pelo
entendimento), ela só a tem de modo indeterminada, indiferente
para com os seus termos; ou, de outro modo, a lei se apresenta como
lei determinada, como uma pluralidade empírica de leis
particulares, e não com lei em geral, universal. Só que essa
multiplicidade de leis contradiz o princípio do entendimento, para o
qual o verdadeiro é uma auto-inversão, um suprassumir do
diferente, isto é, a identidade das diferenças, a unidade em si
universal. Para resolver este problema, o entendimento faz coincidir
as leis múltiplas numa só lei universal, ou seja, conduz distintas leis
à unidade de uma única lei, como a verdade do objeto, como lei que
Eduardo Ferreira Chagas | 63

deve dominar a realidade, explicar completamente todos os


fenômenos. Nessa discussão acerca da lei única, uniforme,
homogênea, dada pelo entendimento, Hegel cita, de certa forma, os
exemplos das ciências da natureza de sua época, como a doutrina da
eletricidade, a química e a mecânica modernas, os fenômenos do
magnetismo, as teorias da medicina, dentre outras. Cita, por
exemplo, aqui a lei da gravidade como lei universal dos corpos, isto
é, a lei da atração universal, que regula (reúne em si) tanto a lei da
queda dos corpos sobre a terra quanto a do movimento das esferas
celestes. A lei única, universal, se torna, no entanto, superficial,
vazia, pois, em vez de exprimir o conteúdo qualitativo das leis
particulares ou de unificar as suas determinações diversas, acaba
negando-as, não abarcando a totalidade das aparências, dos
fenômenos. Assim sendo, a lei da atração universal é apenas uma
fórmula abstrata, o conceito da lei mesma, que se põe como
existente, objetivado. Tal lei anuncia apenas que “tudo tem uma
diferença constante com o outro” ou que toda realidade é regida por
uma legalidade. Embora o entendimento pense “ter aí descoberto
uma lei universal, que exprime a universal efetividade como tal”,
mas que, na verdade, tenha encontrado apenas “o conceito da lei
mesma” (HEGEL, 1999, p. 107), isto não deixa de ter mérito, já que
se confronta com a representação vulgar, carente de pensamento,
que acredita ser a realidade não regida por leis, mas dada de forma
contingente, aleatória, e suas determinações puramente sensíveis e
imediatas.
O defeito, a mas tal diferença é indeterminada, uma
falha da lei: a lei tem, em si, a diferença, universalidade abstrata, vazia.

Um exemplo que junta, por um lado, duas leis, a lei da queda dos corpos
dessa falha: a lei da e a lei do movimento,
atração universal - mas, por outro, as suprime.

A lei geral (das allgemeine Gesetz), universal (o conceito puro


de lei), como a lei da tração universal, se opõe às leis determinadas,
visto que a primeira (a lei geral) é considerada pelo entendimento
64 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

como a essência, o verdadeiro interior das coisas, e a segunda (a


pluralidade das leis empíricas), pertencente apenas a momentos
evanescentes, à esfera do fenômeno ou da aparência sensível e
imediata da coisa. Na verdade, a lei geral não só ultrapassa as leis
determinadas, como ainda se volta contra si mesma, contrastando o
seu próprio conceito (§151º). Isto se dá porque a lei geral, tratada
aqui pelo entendimento, ao acolher em si mesma, no seu interior, as
leis determinadas, as nega, e, ao negá-las, nega a si mesma, já que
ela, abstraídas dessas determinidades, dessas diferenças, torna-se
uma unidade vazia. Na verdade, o conceito de lei, compreendido no
seu verdadeiro sentido, tal como Hegel defende, deve captar as
diferenças, que são momentos separados e independentes, e lhes dar
uma unidade simples, que é a necessidade interior da própria lei.
Na concepção de Hegel, a lei se apresenta, portanto, de duas
maneiras: a) uma, como expressão de leis particulares que são
momentos diferentes e independentes; b) outra, como forma
simples, refletida sobre si mesma, que é o aspecto necessário da lei
e que se pode, novamente, chamar de força, não aquela força
recalcada, posta pelo jogo de forças inerente ao objeto, mas a força
em geral ou o conceito de força enquanto abstração do
entendimento, que exprime a necessidade do vínculo entre os
termos, que inclui em si o que atrai e o que é atraído (§152°).
Consideremos uma lei particular, por exemplo: a) a lei geral da
eletricidade (voltagem) é a força (elétrica), a força simples das leis
particulares, das cargas elétricas positivas e negativas; b) a lei geral
da queda dos corpos, da gravidade, é a força, o simples de diferentes
grandezas, dos diversos momentos do movimento – do tempo (da
velocidade) decorrido, num espaço (numa distância) percorrido.
Nessas leis gerais pode-se evidenciar que há diferenças concretas,
leis particulares ou termos independentes entre si (carga positiva
diferente da negativa, espaço diferente de tempo etc.), termos esses
que têm essências neles mesmos, conteúdos distintos, onde um não
contém necessariamente o outro, de modo que o vínculo, a relação,
entre eles não é necessária, mas artificial (conceitual, analítica)
Eduardo Ferreira Chagas | 65

(§153°). A lei como lei, como força simples, elaborada pelo


entendimento, é, pois, indiferente de ser positiva ou negativa, de ser
espaço ou tempo; ela é única e necessária: a lei tem “de ser dessa
maneira”, ou então “tem a propriedade de se exteriorizar assim”; ela
“deve desdobrar-se assim, justamente porque deve” (HEGEL, 1999,
p. 108). Hegel chama a atenção para o fato de que a lei dada pelo
entendimento é necessária, mas sua necessidade não é aqui uma
necessidade, mas uma palavra vazia, abstrata, visto que ela é
meramente uma definição ou um conceito dele (do entendimento),
uma identidade formal ou uma essência, na qual não está contida a
existência; ou, com outras palavras, a lei como lei, necessária, não
está posta na realidade, na coisa mesma. Essa lei geral, enquanto
força simples ou diferença interna, é obra do entendimento, por isso
seu aspecto necessário não é real, exprime apenas a própria
necessidade do entendimento; a lei universal é aquela diferença
interna, a diferença inerte, puramente subjetiva, que reside somente
na linguagem, nas palavras do entendimento; uma diferença sem
diferença, uma diferença que não exprime nenhuma diferença da
coisa mesma (§154°).
Se as diferenças nada são em si, pois elas têm o mesmo
conteúdo, a mesma constituição, a saber, a diferença interior, a
diferença única da lei, dada pelo entendimento, então a diferença
como diferença de conteúdo, isto é, da realidade, da coisa, está, na
lei geral (na pura força), descartada. Assim sendo, a explicação
(Erklärung) que descreve os diversos momentos ou ciclos
constituídos da lei necessária, universal, recai não na realidade, na
coisa (no objeto), mas só no entendimento, resultando daí um
movimento analítico, puramente tautológico, formal do
entendimento consigo mesmo. Nesse movimento tautológico, o
entendimento tem a lei ausente do princípio negativo da realidade,
distinta do movimento da realidade, que, na verdade, a determina;
ou seja, ele deixa de lado, e este é o seu grande defeito, a realidade
mesma, o alternar-se enquanto tal, a coisa, e descobre somente a si
mesmo; ele nada diz acerca da coisa mesma, mas apenas persiste no
66 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

seu próprio objeto, que é a unidade tranqüila da coisa, o reino calmo


das leis universais, elaboradas por ele mesmo (§155°). Esse
movimento tautológico do entendimento é, com palavras de Hegel,
“um explicar que não somente nada explica, como também é tão
claro que, ao fazer intenção de dizer algo diferente do que já foi dito,
antes nada diz, mas apenas repete o mesmo” (HEGEL, 1999, p.
110)24. Hegel defende magistralmente que nesse formalismo, nesse
movimento tautológico do entendimento, já contém, de forma
invertida (como mundo invertido), em seu próprio objeto, na
legalidade una e unitária, na lei geral, no mundo calmo, tranqüilo,
das leis, o princípio da alteração, do alterar-se, do movimento por si
dentro de si mesmo, da mudança absoluta mesma, que lhe fazia
falta. Como? Que mudança é essa, se a lei universal é o reino calmo,
sem “mudança”, ou a diferença única sem diferença de conteúdo?
Se analisarmos melhor o processo de explicação do entendimento,
veremos que ele (o entendimento) é o contrário de si mesmo, uma
vez que ele, ao buscar a necessidade da lei, estabelece uma diferença
(a diferença do interior, a diferença única, universal, que é a lei),
que, na verdade, não é diferença nenhuma, porque é privada de
conteúdo, das determinações das leis particulares, e com isto acaba
de novo suprassumindo-a como diferença. A mudança anunciada
aqui é, precisamente, a mudança da diferença deixando de ser
diferença, ou seja, o fluxo e o refluxo da diferença que, ao ser posta
como diferença, é imediatamente abolida. Tal mudança já se
apresentava antes no jogo de forças: neste, havia, com já vimos, a
diferença entre as forças solicitada (recalcada sobre si) e solicitante
(exteriorizada). Estas diferenças, em verdade, não eram diferenças
nenhuma, e, por isso, se suprassumiam reciprocamente. Essa

24
Para exemplificar essa tautologia do explicar do entendimento, Gadamer se utiliza das leis fonéticas.
Diz ele: “a este respeito se fala das leis de mutação fonética, que ‘explicam’ a mudança dos sons dentro
da linguagem. Porém, as leis não são, naturalmente, nada distinto do que explicam. Não almejam, em
absoluto, nenhuma outra pretensão. Toda regra gramatical tem o mesmo caráter tautológico. Com
ela não se explica nada em absoluto, mas apenas se expressa meramente como uma lei que governa a
linguagem, o que, em verdade, é a vida da linguagem.” Cf. Gadamer, Hans-Georg. La Dialéctica de
Hegel –Cinco Ensayos Hermenêuticos. Op. cit., p. 61.
Eduardo Ferreira Chagas | 67

mudança e permuta da diferença, que ocorria só no fenômeno, no


jogo de forças inerente ao objeto, penetra também no reino das leis,
no mundo supra-sensível, no interior, que é objeto do
entendimento; agora, não é mais no objeto, mas no entendimento
que se experimenta o vir-a-ser, a alteração, a mudança, o
movimento que põe e imediatamente suprime a diferença.
A mudança se transferiu do objeto para o entendimento:
No objeto há o movimento do jogo Nesse movimento do jogo
(no fenômeno, de força, a mudança da de forças, a diferença é
no sensível) diferença entre as forças posta e negada imediatamente.
solicitante e solicitada.

No interior,
no reino calmo há também o movimento, Nesse reino calmo da lei,
da lei, no mundo a mudança, que é a troca, a diferença é posta e
supra-sensível (isto a permuta da diferença. abolida imediatamente.
só para o entendimento)

A inversão de mundo:
que é o aparente reino
O mundo do calmo, tranqüilo, da lei, é, na verdade, um mundo invertido:
entendimento, o interior estável, o imutável um mundo instável, mutável.
mundo supra-sensível,
mundo não-sensível,

A mudança (der Wechsel), que agora ocorre não no sensível


(no sentido meramente sensível, material), na coisa mesma, mas no
supra-sensível, no interior da coisa, é pura (reflexão dentro de si,
refletido em si), já que o conteúdo de seus momentos é idêntico. Essa
mudança, tal como o interior das coisas, é puro conceito, um
conceito do conceito do entendimento, e vem a ser para o
entendimento a lei do interior das coisas (a lei da lei) ou a lei da lei
do próprio fenômeno, que se exprime assim: as diferenças não são
diferenças nenhumas e, assim sendo, se suprassumem, ou o
homônimo (o unívoco, o que tem o mesmo nome) se repele (tem
nome diferente) e o heterônimo (o que tem nome diferente) se atrai
((tem o mesmo nome) (§156°). Essa nova lei, “sem dúvida, é
68 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

também [...] um ser interior igual-a-si mesmo; mas antes uma


igualdade-consigo-mesma da desigualdade – uma constância da
inconstância” (HEGEL, 1999, p. 111). A nova ou a segunda lei (do
entendimento) -, ao afirmar que o igual (o idêntico) a si se repele (se
torna desigual, diferente), e aquilo que é repelido se une (o desigual
se torna igual ou o dessemelhante do semelhante), ou seja, ao
afirmar a igualdade na desigualdade, e a desigualdade na igualdade
(a unidade da identidade e da diversidade) -, se opõe à primeira lei
(também do entendimento, o interior, a lei tranqüila do fenômeno),
para qual a diferença permanecia sempre igual a si mesma.
Ocorre na primeira lei,
no seu reino calmo, mudança essa que é agora a segunda lei,
tranqüilo, no interior, a lei do interior, a lei da lei.
a mudança,

Na primeira lei, a diferença permanecia constante, igual a si mesma.

Na segunda lei, a diferença não se mantém como diferença: o diferente se torna idêntico,
e o idêntico, diferente.

A primeira lei do mundo fenomênico (o reino tranqüilo das


leis, o primeiro mundo supra-sensível do sensível) transmudou-se,
pois, em seu contrário: inicialmente, tanto a lei quanto as suas
diferenças permaneciam tranquilas, iguais, constantes; agora, na
segunda lei (no segundo mundo supra-sensível), tanto a lei quanto
as suas diferenças são transversões de si, o contrário delas mesmas,
pois o igual se repele e o desigual se põe como igual. Só com esta
determinação é que a diferença, de fato, é interior, lei (mundo supra-
sensível) ou diferença mesma, efetivada, que é, precisamente, o
igual enquanto desigual e o desigual como igual a si mesmo (§157°).
Para expressar a troca, essa mudança, sobretudo essa inversão de
forças polares nas leis, como no magnetismo, na eletricidade, nos
processos dos nervos e músculos, Hegel se utiliza do princípio da
alteração, do termo inversão (Umkehrung, Verkehrung, Umschlag),
“mundo invertido” (verkehrte Welt), o mundo invertido em si, o
contrário a si, o volvido contra si, o contrário e o semelhante de si
Eduardo Ferreira Chagas | 69

mesmo.25 Neste sentido, esse segundo mundo supra-sensível é um


mundo invertido, como um espelho que troca os lados e, na verdade,
é uma inversão do mundo sensível (eine Umkehrung der
Erscheinungswelt), o inverso da lei do mundo fenomênico, do
primeiro mundo supra-sensível: enquanto o primeiro era apenas a
elevação imediata do mundo percebido ao universal (do sensível ao
inteligível, tal como a ascensão platônica do mundo da caverna ao
mundo noético da idéia permanente), privado ainda de mudanças e
alterações, o segundo mundo adquire o princípio da mudança, mas
agora como um mundo invertido. Conforme a lei deste mundo
invertido, o homônimo (o igual) da lei do mundo fenomênico se
converte através do princípio da mudança no heterônimo (no
desigual), e o desigual vem a ser o igual a si mesmo; o que, por
exemplo, na lei do fenômeno, era doce, negro, no mundo invertido
é amargo, branco (§158°). Hegel vê a lei desse mundo invertido não
só nas leis da natureza, mas também no mundo moral. Também
aqui se invertem as ordens e as ações do mundo em seu contrário.
Por exemplo, no castigo de um crime, pode ser expressa assim: o
que naquele mundo fenomênico era indigno, desprezível e
desonroso (mera vingança), neste, honra. Pois, “uma ação que no
fenômeno é crime” pode “ser no interior uma boa ação
propriamente dita (um ato mau, ter uma boa intenção), o castigo
ser castigo só no fenômeno; mas, em si ou num outro mundo, ser
benefício para o transgressor” (§159°) (HEGEL, 1999, p. 112-113).
Quer dizer: o que, no fenômeno parece ser castigo, que desonra e
destrói o homem, pode, no mundo invertido, transmudar-se em
perdão, que o salva e lhe restitui a honra.
Na visão de Hegel seria supérfluo considerar, no entanto,
esses dois mundos como dois mundos separados ou opostos: um,

25
Para Gadamer, “O mundo invertido constitui a mais árdua secção dentro do contexto geral da
história da experiência da consciência que Hegel desenhou.” Ele caracteriza “esta doutrina do mundo
invertido, que está contida no capítulo sobre ‘Força e Entendimento’, como central no edifício inteiro
da Fenomenologia do Espírito.”. Cf.Gadamer, Hans-Georg. La Dialéctica de Hegel –Cinco Ensayos
Hermenêuticos. Op. cit., p.49.
70 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

sendo o fenômeno (o mundo sensível, aparente), exterior, o mundo


como é para um outro; e o outro, o mundo invertido (o mundo
supra-sensível, verdadeiro), o interior, o mundo como é em-si. Se
assim fosse, o que parece, no mundo sensível, doce ao paladar, seria
em-si, no mundo invertido, amargo; ou o que é pólo norte no ímã
do fenômeno, seria no seu em-si supra-sensível (no seu interior)
pólo sul; ou, no sentido espiritual, uma ação que no fenômeno é
crime, seria, no interior, uma boa ação. Esta superficialidade
desdobra o mundo em dois: um deles, o mundo sensível, perceptível,
que pode ser tocado (apontado), visto, “ouvido” ou “saboreado”; o
outro, o inverso deste mundo, o mundo representado pelo
entendimento, acessível apenas pela imaginação. Na verdade, os
dois mundos são um só, quer dizer, momentos de um mesmo
mundo, pois a inversão (o mundo invertido) não se efetiva de fora,
exteriormente (em um outro mundo), mas está presente neste
mundo mesmo, como o mundo verdadeiro, que se encontra
escondido por trás do fenômeno. Por exemplo: o pólo positivo de
uma pilha, que é o interior, o em-si, a essência do pólo negativo, é o
mesmo que o pólo negativo presente na exterioridade da mesma
pilha. Do mesmo modo, o crime tem sua inversão no castigo efetivo
(na pena), que se lhe opõe, reconciliando o indivíduo transgressor,
por meio da lei, com a sociedade; mas o próprio castigo tem, como
Dostoiésvski mostra, no seu celebre romance Crime e Castigo, uma
inversão nele mesmo, porque, através da lei efetivada, o castigo se
suprassume a si mesmo, quer dizer, na lei aplicada se extingue o
movimento da individualidade contra a lei, e o da lei contra a
individualidade, e assim a coação pode ser libertação.

1.4.5. O Infinito como Unidade Dialética dos dois Mundos.

Suprimida “a representação sensível da consolidação das


diferenças num distinto elemento do subsistir” (HEGEL, 1999, p.
113), quer dizer, superada a oposição superficial, absoluta, que divide
o mundo em dois mundos distintos (o fenomênico, aparente, e o
Eduardo Ferreira Chagas | 71

essencial, oculto), tem-se agora a contradição em si mesma (§160°),


pois o mundo supra-sensível, que é o mundo invertido, é para si o
invertido, o invertido de si mesmo, isto é, é ele mesmo e o seu oposto
numa unidade. Hegel designa, precisamente, esse princípio da
inversão de algo em seu contrário, que constitui a estrutura da
realidade, como infinitude (Unendlichkeit), pois só no infinito uma
realidade é o contrário de si mesma, ou seja, já tem incluída o outro
imediatamente em si mesma; só o que é em si contrário de si
mesmo, pode realizar apenas em si o tornar de um outro. Graça ao
infinito, a lei se cumpre em si mesma como necessidade e todos os
momentos do fenômeno são acolhidos no interior. O simples, o
necessário da lei, é, portanto, o infinito, e isto quer dizer que: a) por
meio do infinito, a lei é a força simples, fracionada em si mesma, ou
a diferença mesma, na qual, como já vimos, o homônimo (o igual)
como homônimo se repele para fora de si mesmo e o heterônimo (o
desigual) enquanto heterônimo se identifica; b) através do infinito,
a lei também unifica as frações em que se divide o movimento, pois
nele as partes espaço e tempo, ou distância e velocidade, positivo e
negativo, são momentos de uma unidade, são independentes e
estão, ao mesmo tempo, unidos, e c) pelo infinito, a lei possibilita
que as frações, os termos opostos (espaço e tempo, positivo e
negativo), estejam numa relação recíproca, pondo-se e
suprassumindo-se num todo, uma vez que os dois termos, ao serem
o oposto de si ou terem o seu outro em si mesmos, constituem
apenas uma unidade (§161°).
A esse infinito simples Hegel chama de “o sangue universal”
ou “a essência” da vida, “a alma do mundo”, que não é perturbado
nem interrompido por nenhuma diferença, já que ele é todas as
diferenças e a suprassunção de todas, por isso ele “pulsa em si sem
mover-se, treme em si sem inquietar-se” (HEGEL, 1999, p. 115). O
infinito é igual-a-si mesmo, só se refere a si, já que ele inclui em si
diferenças que são tautológicas, que são e não-são diferenças
nenhumas. Esse infinito, enquanto relação consigo mesmo, é já,
todavia, uma fração, uma cisão, ou seja, ele é uma igualdade-
72 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

consigo-mesmo que inclui, no seu interior, a diferença (§162°). Na


verdade, não só o infinito, mas também os fragmentos (as frações),
produzidos pela cisão própria do infinito, são contraditórios, pois
cada um é o contrário de um outro; em cada um o outro já é
enunciado ao mesmo tempo que ele. Ou seja: cada um é, em si
mesmo, o contrário de si, e isto quer dizer que ele não é puramente
para si, uma igualdade consigo mesmo que não tenha nele diferença
nenhuma. Neste sentido, não é uma angústia para o filósofo, nem
tampouco um problema insolúvel para a filosofia, a pergunta “como
a diferença brota da unidade” ou “como o ser-outro sai do uno-
infinito”, pois o fracionamento, a diferença, já está incluído no
idêntico; o que devia ser o igual-a-si-memso já se encontra
fragmentado. O igual-a-si-mesmo (a unidade) se fraciona e, como
fração, se suprassume como ser-outro; ele é um negativo, pois tem
nele mesmo a oposição. Como o igual-a-si (a unidade) deve
fracionar-se ou tornar-se o contrário de si, então este fracionamento
é uma suprassunção tanto daquilo que ele é quanto de sua fração.
A infinitude faz, como vimos, com que tudo o que é
determinado de algum modo seja o contrário dessa determinação.
Ela é a alma do movimento dialético da consciência que desde o
começo já estava presente, embora só no momento do interior ela
venha a ser explicitada claramente; quer dizer, o fenômeno – ou o
jogo de forças – já a apresentava, mas só no entendimento é que ela
brota livremente. Quando tal infinitude é objeto para a consciência,
ou seja, é compreendida por ela como vida, como o que se inverte,
se volta sobre si mesma, então a consciência, se refletindo nesse
objeto, percebe que ela tem também a mesma estrutura de um
diferenciar que não é tal diferenciar e, assim, torna-se consciência-
de-si (autoconsciência) (§163°). Isto se dá porque: a) o processo da
explicação do entendimento acerca da coisa, que suprassume na lei
(no interior) as diferenças determinadas, pondo-as na unidade da
consciência, irá revelar a descrição do que é a própria consciência-
de-si; b) ao suprassumir as diferenças no interior (na lei geral), o
entendimento põe uma nova cisão entre a lei (o interior) e o jogo de
Eduardo Ferreira Chagas | 73

forças (o fenômeno), mas, ao mesmo tempo, não reconhece esta


diferença, porque, para ele, a força tem a mesma constituição da lei,
e c) com a suprassunção dessas diferenças, a consciência concebente
está numa relação consigo mesma, ocupando-se apenas de si
mesma, embora pareça estar lidando com outra coisa. A consciência
não é mais oposta à desaparição, mas a verdade do que desaparece,
e o que desaparece é o que permanece, é o próprio real que subsiste
em seu desaparecer, sendo, persistindo no seu torna-se
constantemente outro. Vimos também que tal consciência tinha por
objeto o infinito, dado pela segunda lei como inversão da primeira
(§164°). Quando o infinito como vida universal é objeto da
consciência, esta é, pois, a consciência da diferença enquanto
diferença imediatamente suprassumida, e, assim, torna-se para si
mesma consciência-de-si. De fato, na infinitude, no interior do
fenômeno, a consciência só faz experiência de si mesma, pois a
consciência de um outro, de um objeto, é necessariamente
consciência-de-si, ser refletido em si, consciência-de-si mesma em
seu ser-outro (§165º).
Capítulo 2

Natureza em Feuerbach
e a crítica de Marx e Engels

Eduardo Ferreira Chagas

2.1. Projeto de uma Nova Filosofia como Afirmação do Homem


em Ludwig Feuerbach.

Este capítulo não tem pretensão de exaurir todas as questões


objetivadas por Feuerbach em suas obras, nem de resolver a
complexa conexão entre sua filosofia e o Idealismo Alemão, nem
tampouco com Marx. Almejo apenas explicitar o esforço daquele
pensador na sua tentativa de resgatar o homem, o qual foi, segundo
ele, diluído pelo pensamento abstrato e pela teologia ordinária. Para
tal propósito, utilizamos os seguintes textos: Necessidade de uma
Reforma da Filosofia (1842), Teses Provisórias para uma Reforma
da Filosofia (1842) e Princípios da Filosofia do Futuro (1843).
A filosofia de Feuerbach, que ele mesmo designa como um
acontecimento novo, autônomo, tem certamente por incumbência
substituir a teologia pela "antropologia", que ponha o homem, a
essência do ser humano, no centro do universo. O homem é um ser
natural, real e sensível, e como tal deve ser apreciado pela filosofia,
que não pode reduzi-lo em sua totalidade, “da cabeça aos pés”. A
nova, a única filosofia verdadeira é, em suma, a própria asseveração
do homem pensante, dado que qualquer coisa que o homem nomeie
ou exprima, o faz sempre a sua própria essência. Assim, o nome
desta nova filosofia é antropologia.
76 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Veremos ainda que no centro da filosofia feuerbachiana há uma


“crítica materialista”, a Hegel; crítica essa que se propões
nomeadamente estabelecer duas questões: primeiro, que a filosofia
especulativa, em particular a de Hegel, não é senão uma “teologia
racional”; segundo, que a verdade recôndita na teologia consiste no
humanismo. Feuerbach não recusa a problemática da alienação
efetivada por Hegel que, no seu sentido mais geral, se encontra no
próprio processo do pensamento. Para Feuerbach, porém, a alienação
reside no homem, que é sujeito concreto de todo esse processo. Pois se
o homem aliena a sua essência na religião, dá-lhe a sua “expressão
fantástica”, isto não significa, de maneira nenhuma, que a religião seja
o fulcro do homem, mas, inversamente, que o homem é verdade da
religião. Percebe-se aqui uma transposição de cunho materialista à
filosofia hegeliana, o que faz o fundo dos textos feuerbachianos dos
anos de 1839-1843. É o que nas “Teses provisórias” afirma: só temos
que inverter a filosofia especulativa para termos a verdade revelada, a
verdade “pura e nua”. Converter, num sentido materialista, a acepção
hegeliana da conexão entre o predicado e o sujeito da alienação, da
exteriorização: tal é, à letra, a tarefa que Feuerbach se propõe. Mas,
respectivamente, ao postular um humanismo da intersubjetividade,
restrito à conexão entre o eu e o tu, negligenciou a relação social
objetiva na sua totalidade. Por isso, a propositura “materialista” de
Feuerbach, que no princípio advogava uma crítica radical à religião e
a Hegel, finda, no final das contas, numa outra religião, isto é, na
religião laica, pelo fato de ter apreendido o nexo interpessoal de forma
absoluta e exterior às relações sociais concretas.

2.1.1. Asserção de uma Nova Filosofia

Em Necessidade de uma Reforma da Filosofia (1842),


Feuerbach (1804-1872) propõe uma nova filosofia que corresponda
ao novo período histórico: isto é, uma nova filosofia como corolário
de uma banal querela de escola ou de sistema filosófico, e sim como
necessidade da humanidade. Para tal propósito, questiona-nos ele se
Eduardo Ferreira Chagas | 77

é realmente indispensável e urgente uma renovação da filosofia e,


se for necessária, como pode, como deve ela constituir-se. Para o
mesmo, essa reforma da filosofia só pode ser necessária e
verdadeira, não esteja circunscrita apenas ao âmbito filosófico, se
adequar-se à necessidade da época, da humanidade, voltada para o
futuro, como força criadora de novidade, como movimento para
frente em contraposição à conservação e ou à reação.
Todas as religiões têm surgido historicamente, e só são
depreendidas em determinados estágios e a partir de necessidades
espirituais das suas épocas correspondentes. No entanto, ressalta
Feuerbach, “o cristianismo já não corresponde nem ao homem
teórico, nem ao homem prático: já não satisfaz o espírito: nem
sequer também satisfaz o coração, porque temos outros interesses
para o nosso coração diverso da beatitude celeste e eterna”
(FEUERBACH, 1988, p. 14). Praticamente, as ideias tradicionais de
Cristianismo têm sido refutadas há muito tempo, embora de forma
inconsciente e espontânea, na vida, no pensamento dos homens, na
arte, na ciência e na indústria, pois os homens, na vida cotidiana, se
apropriam do verdadeiro, do humano, do anti-sagrado. Agora, em
decorrência de uma realidade nova, tal negação se tornou consciente
e apetecida, ao ponto de exigir uma filosofia nova, “não mais cristã”.
Esta é cabalmente diversa da “filosofia especulativa” que, ao
pretender unicamente a forma do pensamento, negligenciou a
essência própria da religião, isto é, a essência do homem.
A negação consciente do Cristianismo facilitou, segundo,
Feuerbach, a supressão dos obstáculos “ao impulso essencial da
humanidade atual”, isto é, ao impulso à liberdade. Assim como, na
prática, o homem se pôs no lugar do cristão, do mesmo modo, no
plano teórico, deve substituir o divino. Trata-se, então, de descobrir
um princípio adequado à recém-conseguida “imediatez” do homem,
pois só assim ele se emancipa da contradição, encerrada pela religião
vulgar, entre sua vida e seu pensamento. “Este princípio - diz
Feuerbach - é o ateísmo, isto é, o abandono de um Deus distinto do
homem” (FEUERBACH, 1988, p. 16). A supressão de Deus, no sentido
78 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

da “religião ordinária”, propiciou a fundação do Estado. “É a crença no


homem como o deus do homem que explica subjetivamente a
origem do Estado” (FEUERBACH, 1988, p. 17). Ao ter Deus sua
verdade no homem, segue-se que tampouco o Estado, explicado
subjetivamente, surge da fé religiosa, mas do “desaparecimento de
Deus”. O homem descrente, despojado de um Deus distinto dele,
impulsiona-se a participar nos “negócios do Estado”.
Feuerbach esboça, de modo sumário, a sua teoria do Estado:
“No Estado, os homens representam-se e completam-se uns aos
outros - o que eu não posso ou sei, outro o pode. Não existo para mim,
entregue ao acaso da força da natureza; outros existem para mim, sou
abraçado por um círculo universal, sou membro de um todo. O Estado
(verdadeiro) é o homem ilimitado, infinito, verdadeiro, completo,
divino. Só o Estado é o homem - o Estado é o homem que se
determina a si mesmo, o homem que se refere a si próprio, o homem
absoluto” (FEUERBACH, 1988, p. 17). O Estado é representado,
portanto, como unidade vivente dos homens e expressão objetiva da
consciência desta unidade. Deduz-se, daqui, que a “política tem de
converter-se em religião”, apesar de que, paradoxalmente, o ateísmo
seja, de fato, uma “conditio” desta religião. A religião, no sentido
tradicional, tende a dissolver o Estado, não a unificá-lo. Por isso, o
Estado só se tornará um instrumento absoluto para o homem,
quando houver a substituição de Deus pelo homem, ou melhor, da
teologia pela antropologia. O homem é a essência fundamental do
Estado; este é a totalidade da natureza humana.
O Estado, advogado por Feuerbach, é a “república” profana, que
surgirá a partir da dissolução do “catolicismo político”, posto pela
Reforma Protestante, a partir da destruição do “catolicismo religioso”.
Com a dissolução do Cristianismo instaura-se uma época nova, isto é,
a era do futuro, na qual o homem se reconciliará com o outro e com a
natureza, não mediante Deus, mas mediante o próprio homem. Sendo
assim, é inevitável a formulação de uma filosofia nova, distinta do tipo
já acabado da filosofia anterior, para explicitar e fundamentar essa
nova realidade, em que a descrença se pôs no lugar da fé, a política no
Eduardo Ferreira Chagas | 79

lugar da religião e da igreja, o trabalho em vez da oração e, por fim, o


ser humano concreto em substituição ao divino.

2.1.2. Crítica à Filosofia Hegeliana.

No escrito Teses Provisória para a Reforma da Filosofia


(1842), Feuerbach elabora as teses filosóficas fundamentais da sua
nova filosofia, as quais são, precisamente, opostas à filosofia de
Hegel: o que em Hegel era meramente uma automediação do
espírito, a natureza, ocupa, no entanto, em Feuerbach, o centro e se
converte em fundamento do espírito; enquanto Hegel parte de um
pensamento sem pressupostos, sem distingui-lo do seu objeto,
Feuerbach, ao contrário, parte imediatamente dos seres empíricos,
reais; enquanto Hegel inicia sua reflexão a partir da categoria mais
abstrata e mais indeterminada, o espírito, Feuerbach, ao invés,
começa com o concreto, o finito;enfim, enquanto Hegel toma o ser
em sentido abstrato, Feuerbach entende por ser somente o ser
determinado, real, efetivo.
O “Espírito absoluto” é, segundo Feuerbach, apenas o “espírito
sagrado” da teologia, que segue circulando como um “fantasma” na
filosofia hegeliana; daí que o absoluto ou o infinito desta filosofia é
simplesmente a abstração de todo o determinado, que se identifica
com o não infinito, o não humano, o não material, o não determinado
da teologia e da metafísica. A essência da filosofia do absoluto é a
essência de Deus racionalizada, realizada e atualizada, dado que as
suas propriedades essenciais são similares aos predicados do ser
divino. Pois assim como o espírito puro, a pura atividade teórica, o ser
absoluto, foi a “conditio sine qua non” da filosofia especulativa, assim
também a pura atividade espiritual - sem matéria - foi a condição
necessária da teologia . Em verdade, a filosofia hegeliana é uma
teologia logificada, isto é, uma “mística racional”1. Tanto as suas

1
Por exemplo, quando Hegel afirma que a natureza é uma realidade posta pela ideia, trata-se de uma
nova expressão especulativa da velha doutrina teológica de que a natureza foi criada por Deus.
80 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

categorias como as da teologia são determinações extraídas da


realidade humana e, destarte, autonomizadas. Feuerbach põe, de
maneira clara, a “lógica” de Hegel ao mesmo nível que a teologia: “A
essência da teologia é a essência do homem, transcendente, projetada
para fora do homem; a essência da lógica de Hegel é o pensamento
transcendente, o pensamento do homem posto fora do homem”
(FEUERBACH, 1988, p. 21).
Nesse período, Feuerbach polemiza, entre outras questões,
com o conceito de abstração contido na filosofia hegeliana. O
pensamento abstrato, diz ele, põe “ a essência da natureza fora da
natureza, a essência do homem fora do homem, a essência do
pensamento fora do ato de pensar” (FEUERBACH, 1988, p. 22).
Abstrair implica, neste aspecto, situar a natureza fora dos seres
naturais, a essência excluída da existência, a humanidade exterior
ao homem. Tendo por base estas reflexões, a filosofia hegeliana é tão
somente um exercício sistemático de sucessivas abstrações
exteriorizadas e de exteriorizações abstratas reunificadas. Por isso,
ao fazer das determinações da realidade, ou da finidade, predicados
do infinito, do conceito absoluto, a filosofia especulativa tornou-se
culpada dos mesmos erros que a teologia1.
Feuerbach critica o caráter mistificador da dialética hegeliana,
que almejava fundar a verdade do ser no pensamento abstrato, pois
para ela “o pensamento é o ser; o pensamento é o sujeito, o ser é o
predicado (...). Mas o pensamento no elemento do pensamento é
ainda algo de abstrato; por isso, realiza-se e aliena-se. Este
pensamento realizado e alienado é a natureza, o real, em geral o ser.
Mas (...) o verdadeiro real neste real é o pensamento, (...) justamente
por isso, Hegel não chegou a ser como o ser, o ser livre,
independente” (FEUERBACH, 1988, p. 30-31). O ser com que a
filosofia especulativa inicia é ser abstraído de todos os objetos, de
todas as coisas sensíveis e de toda a objetividade; esse ser que não
1
Igualmente à filosofia de Hegel, Espinosa diz que a matéria é um atributo da substância. Deste modo,
a matéria, com o predicado da substância, é a própria substância, isto é, uma matéria abstrata, uma
matéria sem matéria.
Eduardo Ferreira Chagas | 81

se distingue do pensar, isento de realidade, é um ser abstrato, porém


não é ser algum, uma vez que um ser sem qualidades, sem essência
de ser, é apenas uma representação ou invenção, meramente dita ou
pensada, do ser. Por isso, o método da dialética hegeliana que
ascende do abstrato ao concreto, ou melhor, do ideal ao real, no
âmbito do pensamento mesmo, não atinge a realidade verdadeira e
objetiva, e sim as realizações do próprio pensamento abstrato.
Em oposição à filosofia enquanto pensamento abstrato,
Feuerbach começa então por explicitar a sua filosofia, isto é, a
“filosofia do futuro”, como o inverso exato da de Hegel. Advoga ele:
“O começo da filosofia não é Deus, não é o absoluto, nem o ser como
predicado do absoluto ou da ideia - o começo da filosofia é o finito,
o determinado, real. O infinito não pode pensar-se sem o finito (...)
Por conseguinte, o primeiro não é o indeterminado, mas o
determinado, pois a qualidade determinada nada mais é do que a
qualidade real; a qualidade real precede a qualidade pensada”
(FEUERBACH, 1988, p. 23-24). A propositura precípua da
verdadeira filosofia é encerrar o infinito no finito, o universal no
objeto finito, o todo na parte, podendo, assim, alcançar o finito sem
transcender a finitude. Feuerbach, ao abordar o finito como o início
da filosofia, se contrapôs também aos teólogos e aos filósofos
especulativos que tinham convertido as determinações do real em
“predicados do infinito”. Agora, o ser real passa a ser o fundamento
único e permanente do espírito. Este perde a autonomia superior
que lhe fora conferida no curso da filosofia hegeliana; deixa de ser
sujeito, e passa a depender da natureza, como objeto dela2. De modo
que a verdadeira conexão entre o pensamento e o ser é está: “o ser
é o sujeito, o pensamento, o predicado. O pensamento provém do
ser, mas não o ser do pensamento” (FEUERBACH, 1988, p. 31). O

2
Precisamente, o segredo oculto da filosofia hegeliana e da própria religião cristã consistia em tomar
o predicado pelo sujeito, isto é, o pensamento pelo ser, atribuindo ao primeiro autonomia e
dominância sobre o segundo. Por isso, ao inverter o predicado em sujeito, e o sujeito em predicado,
tem se a “verdade desvelada”, a “verdade pura e nua”.
82 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

ser não é, pois, uma mera acepção intelectual abstraída das coisas,
mas é, ao contrário, o sentido específico e inseparável delas.
A filosofia de Feuerbach, que ele próprio caracteriza como fato
novo, tem como ponto de partida o ser real, porém a fundamental
realidade é a natureza, não a consciência, nem o pensamento, que
são derivados e secundários. Hegel, ao contrário, pensou os objetos
como predicados do pensamento, onde o ser não é tido enquanto
ser, mas como derivação da cognição, além disso, despojou o
homem de sua própria essência e quanto a esta tomou-a em forma
puramente abstrata. Feuerbach assevera que essa reflexão sobre os
atributos do homem de modo puramente abstrato, sem o homem
concreto, constitui uma especulação sem fundamento, sem
realidade. Por isso, a nova filosofia não é um princípio abstrato ou
escolástico; ao contrário, ela é a própria afirmação do homem
pensante; do homem que é e sabe que é autoconsciência da
natureza, a essência da religião, a essência dos Estados, por fim, a
essência de todas as qualidades e de todas as determinações
espirituais, sensíveis, políticas e sociais.

2.1.3 O Primado da Sensibilidade

Em Princípios da Filosofia do Futuro, publicado em julho de


1843, Feuerbach dá continuidade às “Teses Provisórias”, onde
explicita os sessenta e cinco aforismas”, os quais fundamentam a sua
nova filosofia, que é pura e simplesmente uma antropologia
filosófica, mediante a suplantação da “teologia ordinária” e da
filosofia hegeliana. A verdadeira filosofia tem como objeto exclusivo
o homem, pois quando se fala da natureza ou de Deus, sempre se
está falando só do homem. Frente à filosofia de Hegel, que concebe
o homem vivo e sensível subordinado à “Ideia Absoluta”, Feuerbach,
ao contrário, reivindica a volta ao homem real, determinado, e a
suas atividades concretas.
Nesta versão mais profunda e mais detalhada das “Teses”, há
muitas repetições. Igualmente que nas “Teses”, Feuerbach afirma: a
Eduardo Ferreira Chagas | 83

filosofia hegeliana especula sobre a existência sem tempo, sobre o


ser-aí sem duração, sobre a qualidade isenta de sensação; a filosofia
do absoluto está afetada por rasgos de transcendência; nela a
essência do pensamento é a essência absoluta; que fundamenta a
verdade do ser real; a filosofia especulativa toma as determinações
concretas do mundo como predicados do conceito absoluto; a
filosofia hegeliana é alheia ao ser real, é ato de pura abstração.
Portanto, o pensamento básico dos “princípios filosóficos” de
Feuerbach, se desenvolve em confronto com a filosofia especulativa,
em especial a de Hegel, e com a teologia trivial.
A filosofia nova não postula o ser real como algo vazio e
indeterminado, reduzido a um momento ideal do infinito - porque o
ser verdadeiro, para Hegel, é a “Ideia Absoluta” -, mas como ser
concreto, definido. Em contraste, pois, com a filosofia hegeliana, que
crê poder apreender o objeto por via puramente abstrata, Feuerbach
evidencia que o objeto é dado somente pelos sentidos, não pelo
pensamento3. Só um ser sensível é um ser verdadeiro, real e só
mediante os sentidos se revela o segredo do ser. Esta intuição sensível,
princípio de determinação dos objetos, está na reverberação
feuerbachiana, estritamente ligada às paixões, que são o sinal
revelador da existência, pois só é o que pe objeto da sensação. Neste
sentido, o pensamento sem sensação e sem paixão abole a diferença
entre ser e não-ser. Sublinha Feuerbach: “o amor é a verdadeira prova
ontológica da existência de um objeto fora da nossa cabeça - e não
existe nenhuma prova do ser exceto o amor, o sentimento em geral”
(FEUERBACH, 1988, p. 81). É no coração e no sentimento em geral
que cada homem reconhece a verdade da filosofia (nova); esta faz de
seu objeto essencial, o homem, o objeto único, universal, ou seja, faz
da antropologia a “ciência universal”, a “filosofia do futuro”.

3
Porém, Feuerbach reconhece a relevância do pensamento, pois se o suprimimos, os objetos sensíveis
não são mais que imagem e sinais mudos, isto é, sem sentidos. Mas, por outro lado, separado da
sensibilidade, o pensamento não ultrapassa a mera identidade formal entre ele e o seu objeto pensado,
permanecendo, pois em unidade “ininterrupta consigo mesmo”.
84 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

2.2. A Autonomia da Natureza.

Nesta secção pretendo destacar a tese de que a natureza para


Feuerbach é um existente autônomo e independente e possui
primazia ante o espírito. Para ele, a natureza material, que existe,
em sua diferencialidade qualitativa, independente do pensar, é
diante ao espírito o original, o fundamento não deduzível, imediato,
não criado de toda existência real, que existe e consiste por si
mesmo. Feuerbach opõe a natureza ao espírito, pois ele a entende
não como um puro outro, que só por meio do espírito foi posto como
natureza, mas, como o primeiro, a realidade objetiva, material, que
existe fora do entendimento e é dada ao homem por meio de seus
sentidos como fundamento e essência de sua vida. Trata-se, pois,
primeiro daquela essência (luz, ar água, fogo, plantas, animais etc.),
sem a qual o homem não pode nem ser pensado nem existir. A
natureza é, para Feuerbach, a pluralidade de todos os objetos e
essencias que realmente são. Sob esta condição, é possível conceber
a natureza como a garantia da exterioridade mesma, como que um
existente fora de nós, que nada sabe de si e é em si e por si mesmo;
por conseguinte, ela não deve ser vista como aquilo que ela não é,
isto é, nem como divina, nem como humana. A natureza sempre
existiu, quer dizer, ela existe por si e tem seu sentido apenas em si
mesma; ela é ela mesma, ou seja, nenhuma essência mística, pois,
por trás dela, não se esconde nenhum absoluto, nada humano, nada
divino, transcendental ou ideal.
Partindo de uma interpretation imanente dos escritos
principais de Ludwig Feuerbach, remeto a um aspecto central de sua
filosofia que fora, infelizmente, até hoje insuficientemente
investigado, a saber, a sua acepção de natureza. Tem-se aqui, em
primeiro plano, a seguinte hipótese: a reflexion de Feuerbach, que
se referre, no âmbito de sua argumentation, à autonomia da
natureza (Autonomie der Natur) (ou seja, à natureza autônoma, que
existe independentemente da consciência humana) e que procura
proporcionar-lhe valor, é para se entender como corretivo à religião
Eduardo Ferreira Chagas | 85

e à filosofia especulativa, para poder fazer assim, simultaneamente,


fronteiras a tais direções. No que tange à pesquisa acerca do
entendimento da natureza concebido por Feuerbach, devem ser
menciondos, sobretudo, os trabalhos de Werner Schuffenhauer,
Peter Cornehl, Ursula Reitemeyer, Alfred Schmidt, I. M. Jessin,
Joachim Höppner, Francesco Tomasoni, Heinz Hüsser, assim como
as contribuições (em forma de artigos) de Regina Steindl, Gerd
Haensch, Gisela Schrötter, Theodor Münz e Hermann Ley.
Reitemeyer e Cornehl (mas também Münz e Haensch) limitam-se,
em seus escritos, ao conceito de natureza do jovem Feuerbach nos
anos 30 do séc. XIX, sobretudo às obras Dissertação sobre a Razão
(Dissertatio über die Vernunft), Pensamentos sobre a Morte
(Todesgedanken), Leibniz, assim como História da Filosofia
(Geschichte der Philosophie), nas quais Feuerbach tenta superar,
ainda no âmbito de suas concepções panteístas, o dualismo entre
espírito e natureza. Enquanto Schmidt e Jessin, do mesmo modo
como Höppner, se ocupam, em seus trabalhos, com o significado da
concepção de natureza de Feuerbach para Marx, assim como com a
crítica de Marx a Feuerbach, e, por isso, recorrem, de preferência,
aos seus escritos dos anos de 1839-42, a saber, Crítica à Filosofia
Hegeliana (Kritik der Hegelschen Philosophie), Teses Provisórias
(Vorläufige Thesen), Necessidade de uma Mudança (Notwendigkeit
einer Veränderung) e Princípios (Grundsätze), tratam Tomasoni,
Ley e Hüsser o conceito de natureza de Feuerbach nos seus escritos
de maturidade, particularmente a partir de 1846 (Cf. SOUZA, 1998,
p. 55). Já que todos os trabalhos mencionados se limitam, no
entanto, meramente a uma apresentação isolada, fragmentada, ou
seja, se restringem, em primeiro lugar, a um determinado ponto na
concepção de natureza em Feuerbach, permanecendo o
desenvolvimento e as alterações desta concepção ainda a ser
investigados, tem este trabalho por objeto, primeiramente, o
conceito de natureza de Feuerbach na sua totalidade e deve
apresentar, neste sentido, uma análise mais detalhada e sistemática.
Embora a concepção de natureza de Feuerbach só se deixe mostrar,
86 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

de forma mais clara, na sua “última fase“, ela deve, não obstante, ser
tratada como um todo, como resultado da totalidade de sua filosofia.
Precisamente por isso, o presente trabalho tem por tarefa mostrar
como Feuerbach desenvolveu o seu conceito de natureza dos anos
30 do séc. XIX até os escritos de maturidade e qual funktion e
relevância pertence a ele no interior de sua filosofia.
O conceito de natureza em Feuerbach constitui uma das
questões mais difíceis de sua filosofia e não é, por conseguinte, fácil
de ser explorado; ele fora tratado, no âmbito das pesquisas sobre a
filosofia feuerbachiana, quase exclusivamente em conexão com sua
antropologia e sua crítica filosófica à religião e, em primeiro lugar,
reduzido à natureza do homem. Tendo em vista, precisamente, a
deficiência das pesquisas até então realizadas, pretendo aqui
averiguar o seguinte: que significado atribui Feuerbach, de fato, à
natureza em si, se ele próprio se referiu, em seus escritos juvenis,
apenas em geral à natureza, se se ocupou primeiro, em sua crítica à
religião, tão-somente com o gênero humano e só posteriormente
refletiu assistematicamente sobre a natureza? A princípio poder-se-
ia, então, perguntar: por que se interessa Feuerbach, como crítico
da religião, em geral pela natureza? O que ele entende por natureza
e o que ela significa para ele? Existe para ele uma natureza
independente, fora do entendimento ou da natureza humana?
Como se apresenta para ele a ilação homem-natureza, ou melhor,
como o homem se relaciona com ela? Que lugar destina Feuerbach
ao homem no interior da natureza? Como compreende ele a
diferença entre o homem e o animal? Partindo destas questões irei
aqui desenvolver e explicar o conceito de natureza em Feuerbach.
Conquanto ele não tenha empreendido, infelizmente, uma
formulação completa de sua concepção de natureza como um todo,
isto é, não tenha deixado nenhuma filosofia da natureza explícita e
acabada e também não tenha redigido nenhum escrito
pormenorizado e sistematizado acerca da natureza, há, todavia, em
sua obra, em diferentes passagens, uma abundância de aforismos,
epigramas, definitionen e reflexões filosóficas sobre a natureza.
Eduardo Ferreira Chagas | 87

Assim, o conceito de natureza de Feuerbach foi desdobrado, em sua


obra, na verdade apenas de maneira fragmentada, mas ele está,
apesar disto, no centro de sua filosofia. O desenvolvimento e a
transformação desse conceito perpassam, de certa maneira, como
fio condutor a totalidade da obra de Feuerbach, abrem um caminho
para entender a sua filosofia como crítica ao teísmo (Theismus) e ao
Idealismo (Idealismus) e nos permitem tratá-la sistematicamente.
Neste trabalho tornar-se-á evidente que a ausência de uma
sistematização, ou seja, de uma precisão ou de uma clara posição no
que se refere ao conceito de natureza em Feuerbach encontra-se
fundamentado nisto: que a pretenção principal de sua filosofia é, como
acima aludido, a crítica ao teísmo (sobretudo ao Cristianismo) e ao
Idealismo (especialmente à filosofia de Hegel), os quais são deficitários
em relação à natureza, visto que eles não só abandonaram, mas
sobretudo menosprezaram a consideração da natureza. A falta em
Feuerbach de uma reflexion decidida, explicitamente formulada sobre
a natureza, pode, conseqüentemente, ser entendida, em princípio,
como expressão da ausência de uma tematização da natureza no
teísmo e no Idealismo em geral. Acerca desta problemática deve ser
aqui estabelecido, inicialmente, a tese de que a natureza (Natur) em
Feuerbach possui o primado frente ao espírito; ela é a primeira
estrutura da existência e frente a ela se põe o entendimento como algo
“secundário”. No decorrer deste trabalho mostrar-se-á que, para ele, a
natureza material, que existe, em sua diferencialidade qualitativa, fora
e independentemente do pensar, é frente ao espírito o primeiro, o
originário. A natureza, entendida como totalidade, como unidade
orgânica, como harmonia de causas e efeitos, como pressuposto
necessário para todos os objetos, fenômenos e criaturas, plantas e
animais, inclusive para a natureza humana, fornece a Feuerbach o
fundamento de sua crítica ao teísmo e ao Idealismo; isto é, a natureza
é o motivo de sua konfrontation com ambos, os quais desconhecem
completamente a autonomia (Selbständigkeit) e a independência
(Unabhängigkeit) da natureza, porque eles a concebem ou meramente
como obra de um criador ou como puro desdobramento e
88 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

exteriorização da atividade do espírito. Em ambos os sistemas foi a


natureza tratada, portanto, não como um existente independente,
autônomo, mas deduzida apenas como uma grandeza dependente e
inconsistente em si mesma. Assim compreendido, mediante um
entendimento da natureza que se baseia nas características imanentes
a ela - imediaticidade, autonomia, regularidade universal (lei),
exercida impessoal e logicamente, necessidade, dinamicidada -
Feuerbach formulará não só sua crítica ao teísmo e ao Idealismo, como
também alicerçará, na maturidade, sua própria ética.
Embora não haja em Feuerbach nenhuma concepção uniforme,
homogênea e inequívoca da natureza, é-nos permitido constatar o
seguinte: a referência à autonomia da natureza (Selbständigkeit der
Natur) é o fundamento da crítica, ou melhor, o cerne da reaktion e
konfrontation feuerbachiana contra o teísmo e o Idealismo, que se
desdobra em três diferentes fases de desenvolvimento: 1. como
aproximação crítica ao panteísmo (identidade da natureza com Deus),
2. como recusa direta à teologia cristã e à filosofia hegeliana (a
natureza como criação de Deus ou como deduktion do espírito) e 3.
como crítica parcial à religião da natureza (antropomorfização ou
personificação da natureza). Por isso, nos concentraremos
inicialmente nos escritos de juventude dos anos 20 e 30 do século XIX,
particularmente a Dissertação sobre a Razão (Dissertation über die
Vernunft ou De Ratione una, universali und infinita) (1828), os
Pensamentos sobre a Morte e a Imortalidade (Gedanken über Tod und
Unsterblichkeit) (1830), a Introdução à Logica e Metafísica (Einleitung
in die Logik und Metaphysik) (1829-30), a História da Filosofia
Moderna (Geschichte der neueren Philosophie) (1835-36) e a
Apresentação, Desenvolvimento e Crítica da Filosofia Leibniziana
(Darstellung, Entwiclung und Kritik der Leibnizschen Philosophie)
(1837), nos quais Feuerbach trata a natureza de um ponto de vista
panteísta. Partindo de um panteísmo que se orienta sobretudo em
Giordano Bruno, Jakob Böhme e Baruch Spinoza, ele tenta, já nesse
período, restabelecer, frente à depreciação da natureza pela religião
cristã e em oposição à identidade formal de pensar e ser postulada pela
Eduardo Ferreira Chagas | 89

filosofia hegeliana, uma reconciliação entre ser e pensar, uma unidade


entre natureza (matéria) e Deus (espírito). No panteísmo ele vê, na
verdade, não só tal reconciliação, mas também a superação do
subjetivismo e da personificação de Deus (de um Deus transcendente),
e, por isso, o panteísmo sinaliza para ele a solução para os problemas
filosóficos fundamentais. Nem Cristianismo, nem Idealismo podem
solucionar adequadamente tais problemas, porque eles não têm
formulado uma relação adequada para a natureza. Assim como no
Idealismo em geral, também no Cristianismo o eu domina o mundo e
se considera como o único ser espiritual que existe; nele é redimido
apenas a pessoa, não a natureza, o mundo; centralizado no eu, na
pessoa, o Cristianismo é apenas uma religião, na qual se revela um
abandono completo da natureza, pois nele foi consumado uma
separação entre a natureza e Deus. Enquanto para o teísmo o espírito
é imaterial, não-sensível, transcendente, e Deus uma essência absoluta
que existe para si, personificada, extramundana ou estranha ao
mundo, admite, ao contrário, o panteísmo, abstraindo aqui as suas
diferentes tradições, Deus imerso na natureza; com isto, ele destaca a
unidade do mundo com Deus (com o espírito). Se a característica
essencial do teísmo é, por conseguinte, o isolamento de uma essência
do pensamento, abstraída da natureza pelo homem, existe, ao
contrário, no panteísmo Deus no interior da natureza.
Numa clara oposição à teologia monoteísta-cristã, que faz da
essência humana a origem de Deus e da natureza um produto da
creatio ex nihilo, concebe o místico Jakob Böhme a natureza (a
matéria) com inerente a Deus, inseperável dele. E Spinoza identifica
Deus com a natureza mesma (deus sive natura) e esclarece esta
como a gênese do homem; mediante à natureza (à substância
divina) ele supera, então, a contradição de Descartes entre matéria
(res extensa) e espírito (res cogitans). A aproximação de Feuerbach
a essas formas de panteísmos, concebidas por Böhme e Spinoza, foi,
contudo, superada posteriormente, nos anos de 1836-37, sobretudo
em seu escrito contra Spinoza. Em oposição ao panteísmo, no qual
a natureza e Deus foram concebidos como idênticos e a materia
90 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

tratada tão-somente como um atributo de Deus (o atributo natural-


divino da extensio), Feuerbach exige a diferença entre natureza e
Deus (aut deus aut natura). Isso significa: ele quer esclarecer nem a
natureza como algo divino, nem Deus como algo imanente à
natureza, mas, pelo contrário, a natureza autônoma sem Deus. Sob
a premissa, Deus se manifesta na natureza, o panteísmo venera a
natureza, diviniza o real, o que existe materialmente; por isso, ele é,
na verdade, uma negation da teologia, mas baseada ainda em
posições teológicas. Esta censura de Feuerbach se dirige contra
todos aqueles que vêem na natureza uma expressão de Deus ou a
encarnação de uma idéia. Em verdade, teísmo e panteísmo são, para
ele, mundos extremos, invertidos: no teísmo, a diferença entre
espírito e natureza é absolutizada, porque o homem diviniza aqui
apenas a si mesmo; no panteísmo, a natureza foi, ao invés, adorada,
pois aqui o homem projeta na natureza sua própria essência. Para
evitar tais extremos e contradições, Feuerbach vê, em princípio, na
Doutrina das Mônadas de Leibniz, uma alternativa para a unidade
entre o espírito e a matéria. Pertence à mônada espiritual a forma,
mas ela contém simultaneamente em si também a matéria, que é a
sua representação obscura. Mas enquanto Leibniz considera a
matéria meramente como uma representação escura, confusa,
Feuerbach a reconhece, pelo contrário, como o vínculo positivo que
liga o interior com o exterior, as mônadas reciprocamente.
Seguindo a primazia da natureza, que tem seu fundamento
em si mesma, e sob a consideração de sua autonomia como objeção
(Einwand) ao teísmo e ao Idealismo, investigar-se-á, na segunda
parte deste trabalho, o conceito de natureza de Feuerbach em
conexão com sua crítica ao Cristianismo e, ao mesmo tempo, em
discussão com a filosofia hegeliana, isto é, o “segundo período” de
sua concepção de natureza que envolve, especialmente, os escritos
de 1839-43, como Para a Crítica da Filosofia Hegeliana (Zur Kritik
der hegelschen Philosophie) (1839), A Essência do Cristianismo (Das
Wesen des Christentums) (1841), Teses Provisórias para uma
Reforma da Filosofia (Vorläufige Thesen zur Reform der
Eduardo Ferreira Chagas | 91

Philosophie) (1842), Necessidade de uma Reforma da Filosofia


(Notwendigkeit einer Veränderung der Philosophie) (1842) e
Princípios da Filosofia do Futuro (Grundsätze der Philosophie der
Zukunft) (1843). A palavra “natureza”, não no sentido da natureza
humana, isto é, como natureza do homem, do gênero humano, mas,
pelo contrário, no sentido da natureza, tal como ela é em si mesma,
isto é, no sentido da natureza material, aparece nas obras
mencionadas, e isto é visível na obra principal de Feuerbach, A
Essência do Cristianismo, muito raramente. Feuerbach não
desenvolve aqui nenhuma teoria da natureza, mas a apresenta
indiretamente, para defendê-la contra a atitude cristã frente a ela.
Ele deixa claro que a teologia cristã se relaciona negativamente
perante à natureza. A depreciação ou desvalorização religiosa pela
natureza tem conseqüências para o julgamento da natureza humana
por parte da teologia, pois esta condena também a dimension
natural-sensível da natureza do homem e, frente a esta, enaltece o
espírito. Este entendimento negativo do cristão para com a
natureza, torna-se, por exemplo, mui evidente não só na Doutrina
da Criação (Kreationslehre), mas também na Doutrina do Pecado
Original (Erbsündeslehre), pois esta, fundada no desdém pela
natureza, baseia-se num sentimento de culpa condicionado pela
“falha” e “fraqueza” do homem e, por isso, na negação de sua
corporalidade, de sua sensibilidade presa à natureza. Uma
confirmação para isso acha-se também nisso, a saber, que o homem
deve, de acordo com o entendimento cristão, livrar-se precisamente
de sua natureza corporal (“da natureza transgredida”) para merecer
e conseguir a “vida eterna”, sem as “tentações” e os “desejos da
carne”. Precisamente porque a natureza expressa objetividade,
necessidade, corporalidade, sensibilidade, é ela o negativo, por assim
dizer uma prova dos limites da interioridade, do sentimento
religioso, isto é, a barreira concreta que se opõe à illusion de uma
existência sobrenatural. Deste ponto de vista cristão, ela deve,
portanto, ser eliminada, negada. Feuerbach argumenta que Deus (o
todo supremo, a essência sublime), o qual a fantasia religiosa criou,
92 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

é apenas uma representation fantasmagórica do gênero humano,


uma konstruktion subjetiva do homem, abstraída de todas as
fronteiras e restrições da natureza, e a religião serve ao homem de
meio, com o qual ele tenta livrar-se da natureza.
A ausência da natureza em sua obra fundamental pode ser
esclarecida da seguinte maneira: ela resulta de sua ocupação com o
Cristianismo que ignora completamente a natureza e põe em seu
cume um Deus pessoal, que cria através do “puro pensar”’ e do
“querer” a natureza, o mundo. Em conseqüência disso, a natureza
foi considerada não enquanto tal; ela experimenta aqui, na verdade,
nenhum tratamento próprio, independente, já que não há no
Cristianismo nenhuma autonomia da natureza. O âmago do
Cristianismo não é, então, Deus na natureza, mas, pelo contrário,
Deus ilimitado, livre dela e sobre ela; o cristão experimenta, por
exemplo, a natureza, a sua necessidade e as suas leis permanentes e
contínuas, apenas como barreira insuperável que se opõe, como
vimos, a sua pretensão a uma existência imaterial, sobrenatural e
transcendente. Mas o homem sem corpo, despojado da matéria, da
natureza, é meramente, como pensa Feuerbach, uma personalidade
abstrata, um abstraktum, pois apenas a naturalidade, a natureza,
garante a essência e a existência do homem como homem, do
homem como pessoa. A reivindicação feuerbachiana de um
esclarecimento “natural”, “físico” da natureza e, do mesmo modo,
de uma conexão do homem com ela aponta para uma crítica
abrangente ao Cristianismo, para uma negation fundamental às
imaginações e fantasias da teologia cristã, na qual a natureza não
tem nenhum significado positivo. Exatamente como na teologia
cristã, que subordina a natureza ao querer e ao bel-prazer do
homem, também no Idealismo (particularmente em Hegel) a
natureza está subjugada ao espírito. Hegel acredita que o espírito
absoluto se desdobra, se objetiva na natureza, assim a natureza é
também para ele não um ser primeiro, autônomo, mas algo posto,
colocado, como que um outro ser concretizado do espírito. Enquanto
a natureza em Hegel é, então, apenas uma outra forma fenomênica
Eduardo Ferreira Chagas | 93

do espírito, uma exteriorizacão ou objetivação dele, Feuerbach a


entende, pelo contrário, não como uma “degradation” da idéia
absoluta, nem como o “alter ego” do “ego”, mas sim como natura
naturans, como o fundamento indeduzível, imediato, incriado de
toda existência real, que existe e consiste por si mesmo. Contra
Hegel insiste ele, decididamente, nesta position, isto é, na
imediaticidade da natureza e da experiência sensível do mundo, e é
mister chamar a ateção aqui para isto, a saber, que há, neste ponto,
uma convergência entre Feuerbach e Schelling. Feuerbach, o
antidotum do teísmo e do Idealismo, põe a natureza frente ao
espírito, pois ele entende por natureza não o puro outro, que só
através do espírito foi posto como natureza, mas, primeiramente, a
realidade material que existe fora e independente do entendimento
e é dada ao homem por meio de seus sentidos. Sob esta condição
pode-se conceber a natureza como garantia da exterioridade
mesma, como que um existente fora de nós, que nada sabe de si,
pois não é para si, mas só em si e por si mesmo.
Partindo desse entendimento acerca da natureza,
abordaremos, na terceira parte deste tópico, à “última fase” da
concepção de natureza em Ludwig Feuerbach, não só aos escritos
fundamentais de 1846-48, como A Essência da Religião (Das Wesen
der Religion) (1846), Complementos e Esclarecimentos para a
Essência da Religião (Ergänzungen und Erläuterungen zum Wesen
der Religion) (1846), Preleções sobre a Essência da Religião
(Vorlesungen über das Wesen der Religion) (1848), nos quais
Feuerbach, apoiando-se na religião da natureza, critica a natureza
como objeto da religião e a toma como base e fundamento do
homem e de todas as coisas, bem como aos seus escritos maduros,
como A Pergunta pela Imortalidade sob o ponto de vista da
Antropologia (Die Unsterblichkeitsfrage vom Standpunkt der
Anthropologie) (1847), A Ciência da Natureza e a Revolução (Die
Naturwissenschaft und die Revolution) (1850), O Segredo do
Sacrifício ou O Homem é aquilo que come (Das Geheimnis des Opfers
oder der Mensch ist, was ißt) (1860), Sobre Espiritualismo e
94 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Materialismo (Über Spiritualismus und Materialismus) (1866) e


Para uma Filosofia Moral (Zur Moralphilosophie) (1868), nos quais
ele tenta fundir uma relação fundamental entre filosofia e ciência da
natureza. Se em A Essência do Cristianismo (Das Wesen des
Christentums), o fundamento e também o objeto da religião era
ainda a essência moral do homem, abstraída da natureza, quer
Feuerbach agora, nesses escritos maduros, superar todo discurso
(oratio) antropológico, teleológico ou teológico em relação à
natureza, ou seja, obter a separação da mesma da reductio ad
hominem, de todos os predicados humanos. Assim, ele fez a si, por
tarefa, defender, justificar e fundamentar a autonomia da natureza
“contra os esclarecimentos e as deduções teológicas” frente a ela.
Enquanto ele avaliava a relação cristã em relação à natureza, no
todo, negativamente, porque a natureza no Cristianismo está
submetida arbitrariamente ao afeto religioso, julga ele, agora, a
religião da natureza (Naturreligion) parcialmente positiva, já que ela
tem por objeto a natureza (o deus físico) e, por isso, ela exerce uma
função importante no que diz respeito a uma percepção adequada
da natureza. Não obstante, não se trata para Feuerbach, de maneira
nenhuma, de defender a religião da natureza em si, embora ela faça
valer, de fato, a natureza, na medida em que ela põe no lugar da
humanidade a natureza. Portanto, ele não está interessado na
religião da natureza enquanto tal, mas, meramente, em sua função
estratégica para a sua argumentation contra o Cristianismo e o
Idealismo, pois ela manifesta a natureza, aponta uma indicação
decisiva para “a verdade dos sentidos”, demonstra o significado da
sensibilidade e atesta o sentimento de finitude do homem e de sua
dependência não de algo sobrenatural, mas da natureza mesma.
Apesar desta avaliação parcialmente positiva da religião da
natureza, chega Feuerbach, no entanto, à conclusão de que ela não
concebe, no fundo, a natureza real, objetiva; pelo contrário, reflete-
se também nela apenas a “verdade do homem’’, pois o homem
religioso-natural vê nela não a natureza, como ela é realmente, mas
a percebe tão-somente como objeto de sua fé, de sua veneração
Eduardo Ferreira Chagas | 95

religiosa ou de sua imaginação. Porque a natureza oferece ao


homem o que ele precisa, foi ela idolatrada como divina; a veneração
(Verehrung) ou divinização (Vergötterung) da natureza significa,
por conseguinte, a sua “antropomorfização”, isto é, a sua
“humanização” pela religião, pois o valor, que o homem põe na
natureza, é apenas o valor que ele atribui a si mesmo, à sua própria
vida. A religião da natureza tem, na verdade, por finalidade
transformar a essência não-sagrada, não-humana, da natureza
numa essência “sagrada”, “personificada”. Mas, assim como o
panteísmo, Feuerbach a critica, precisamente porque ela faz, através
dessa transformation, da natureza um Deus. Em oposição a isso, ele
não vê a natureza como algo sagrado, divino, isto é, como objeto
religioso, tal como ela aparece na religião da natureza, mas, pelo
contrário, como uma essência objetiva que existe apenas por si
mesma, independentemente do homem. Como justificativa para
este seu procedimento, pelo qual er quer livrar a natureza de todas
as considerações religiosas e antropológicas, vale a ele que a
natureza é o ente que produz tudo de si e por si e, por conseguinte,
não deve ser vista como aquilo o que ela não é, isto é, 1. nem como
divina (em forma do teísmo), 2. nem como humana (em forma do
Idealismo). A natureza, para ele, sempre existiu, quer dizer, ela
existe por si e tem seu sentido apenas em si mesma; ela é ela mesma,
ou seja, nenhuma essência mística, pois por detrás dela não se
oculta, nem se esconde nada humano, nada divino, nenhum
absolutum transcendental ou ideal. O conceito de natureza designa
tudo o que se mostra sensivelmente ao homem como fundamento e
essência de sua vida; trata-se, pois, primeiro daquela essência (luz,
ar, água, fogo, plantas, animais etc.), sem a qual o homem não pode
nem ser pensado nem existir. A natureza é, assim, a pluralidade de
todas as coisas e seres sensíveis que realmente são. Embora haja
neste ponto, como já mencionado, uma certa concordância entre
Feuerbach e Schelling, distancia-se, porém, Feuerbach de Schelling,
pois para Feuerbach a natureza é em si e por si, mas não para si; ela
é necessária e regida por leis próprias, sem espírito e sem sujeito,
96 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

isto é, o independente de toda essência humana ou divina, o


indeduzível, o que consiste por si mesmo, por assim dizer a essência
originária, primeira e última. Assim sendo, pode-se dizer que 1. por
um lado, a natureza existe per se (em si e por si) e age, em princípio,
sem intencionalidade (Absicht), sem querer (Willen) ou saber
(Wissen); ela tem seu “entendimento’’ apenas no entendimento do
homem e prova sua essencialidade mediante qualidades, conexões e
relações materiais; 2. mas, por outro lado, para fazê-la a nós
inteligível, é-nos inevitável que devamos empregar sobre ela
analogias, expressões ou conceitos, como ordem, finalidade,
sabedoria etc.. Aquilo que o homem acredita reconhecer na natureza
como “entendimento”, “espírito”, que empresta a ela uma
“teleologia”, é, portanto, apenas uma representação humana. Assim,
no que tange a todas as aproximações à natureza trata-se para
Feuerbach, meramente, de conceitos antropológicos, subjetivos,
pois, na natureza, tudo acontece sob o fundamento da necessidade
e há nela apenas forças, elementos e seres naturais, isto é, leis
naturais, às quais a existência humana está submetida. Partindo da
necessidade e das leis da natureza, Feuerbach exclui dela todos os
critérios humanos ou “efeitos de Deus” para a sua valorização e
postula, com isto, a sua autonomia. Precisamente este postulado de
Feuerbach em relação ao status da natureza oferece, na situação
presente, pontos de referências para uma resistência contra toda
exploração arbitrária e brutal da natureza a favor dos desígnios e
desejos ilimitados do homem e, ao mesmo tempo, fornece,
conseqüentemente, sugestões e contribuições para um debate
frutífero sobre a crise ecológica atual.
Tendo em vista tais posições, quer Feuerbach fundamentar
uma nova relação entre o homem e a natureza, a qual ele vê
realizada, em princípio, na dependência do homem em relação à
natureza. Nessa dependência (Abhängigkeit), ele encontra uma clara
designação para a natureza como algo não-humano e,
simultaneamente, como vínculo que liga o homem a ela. O homem
não é um ser sem necessidade, ou seja, não é só espiritual (animal
Eduardo Ferreira Chagas | 97

rationale), mas também, simultaneamente, uma essência sensível,


física, nascida, por isso ele é dependente da natureza e precisa dela
para seu nascimento, desenvolvimento e auto-sustento. Ele tem o
fundamento de sua vida não em si, mas, pelo contrário, fora de si e
está, portanto, necessariamente remetido para uma outra essência
(para a natureza). A dependência do homem da natureza faz da
natureza para ele a causa do medo e da insegurança, pois o homem
sabe que ele sem ela não pode ser. Não obstante, não se deve
esquecer que a natureza é também um sistema de leis, “um potencial
passivo”, frente ao qual o homem pode reagir através da cultura (do
desenvolvimento da ciência e da técnica), podendo ser, pois,
utilizada por ele a seu favor, embora o essencial da cultura consista
nisto, a saber, que ela também se deixe determinar pela “verdade da
natureza dos objetos”. Feuerbach vê a cultura realizada
preponderantemente nas ciências, e seu entusiasmo para ela e para
seu método tinha ele já manifestado nas suas obras, Teses
Provisórias para a Reforma da Filosofia (Vorläufigen Thesen zur
Reform der Philosophie) e Princípios da Filosofia do Futuro
(Grundsätzen der Philosophie der Zukunft), nas quais a ligação da
filosofia e da ciência da natureza representa para ele uma alternativa
à aliança (allianz) feudal da filosofia com a Teologia e possibilita
uma conexão objetiva com a natureza. Nesse empreendimento,
Feuerbach almeja que a ciência da natureza sirva de base à sua
filosofia, porque ela fornece uma contribuição para a superação
tanto das inconsistências da filosofia especulativa quanto das
inconseqüências da fantasia e da imaginação religiosa, na medida
em que ela, em seu sentido antiteológico e antimetafísico, se ocupa
não com objetos arbitrários ou fenômenos sobrenaturais, mas
exclusivamente com objetos físico-naturais, atribuindo as suas
causas imanentes à natureza. Deve-se aqui chamar a atenção para o
fato de que Feuerbach não era nenhum cientista da natureza, pois,
de acordo com ele, as ciências da natureza, como a química, a física,
a biologia, a botânica, a fisiologia etc., conhecem apenas a “história
da natureza’’, se limitam, com isto, a um elemento isolado da
98 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

natureza e não têm, em oposição à filosofia, nenhum acesso à


totalidade da natureza e da alma humana, ou seja, à essência do
homem. Embora Feuerbach esteja convencido de que o homem é
um essência natural e que sua existência, seu nascimento e sua
preservação pressuponham a natureza, parece-lhe sem sentido uma
ciência ou uma filosofia da natureza separada do homem. Para ele,
a natureza é, em princípio, não-humana, externa ao homem, que é,
no entanto, esclarecida, conhecida, na medida em que o homem se
apropria dela através de seu entendimento. Apesar destes méritos
consideráveis, que assinalam à concepção de natureza em
Feuerbach como um essencial progresso frente ao teísmo e ao
Idealismo, na medida em que ela restitui à natureza o seu valor, ela
contém, todavia, “traços especulativos”, um caráter “não-dialético”,
“passivo-contemplativo”, pois, como tornar-se-á claro na conclusão
deste trabalho, falta-lhe a dimension social, histórico-concreta.
Feuerbach considera a natureza parcial e unilateralmente, como
uma instância indiferente frente à sociedade, isolada e abstraída de
suas condições materiais, sociais e econômicas.

2.2.1. A Primazia da Natureza ante o Espírito em Ludwig


Feuerbach.

Nesta seção, pretendo destacar a tese de que a natureza para


Feuerbach é um existente autônomo e independente e possui primazia
ante o espírito. Para ele, a natureza material, que existe, em sua
diferencialidade qualitativa, independente do pensar, é diante do
espírito o original, o fundamento não deduzível, imediato, não criado,
de toda existência real, que existe fora do entendimento e é dada ao
homem, por meio de seus sentidos, como fundamento e essência de
sua vida. Trata-se, pois, primeiro daquela essência (luz, ar, água, fogo,
plantas, animais, etc.) sem a qual o homem não pode nem ser pensado
nem existir. A natureza é, para Feuerbach, a pluralidade de todos os
objetos e essências que realmente são. Sob esta condição, é possível
conceber a natureza como a garantia da exterioridade mesma, como
Eduardo Ferreira Chagas | 99

que um existente fora de nós, que nada sabe de si e é em si e por si


mesmo; por conseguinte, ela não deve ser vista como aquilo que ela
não é, isto é, nem como divina, nem como humana. A natureza sempre
existiu, quer dizer, ela existe por si e tem seu sentido apenas em si
mesma; ela é ela mesma, ou seja, nenhuma essência mística, pois, por
trás dela, não se esconde nenhum absoluto, nada humano, nada
divino, transcendente ou ideal.
Nesta seção, enfatizamos ainda a filosofia da natureza de
Ludwig Feuerbach como cerne de sua oposição ao teísmo (seja ao
cristianismo seja ao paganismo), à filosofia especulativa e ao
idealismo alemão (Fichte, Schelling e Hegel). Feuerbach recusa
tanto o teísmo quanto o idealismo e, perante ambas as posições, faz
valer a noção de que a natureza, apesar de sua mutabilidade (na
qualidade de um desenvolvimento contínuo de intervenções, de uma
justaposição de momentos evolucionais e “catastrofais”), deve ser
entendida e esclarecida como um existente autônomo,
independente, como algo eterno, não deduzível, objetivo e
necessário. A natureza é, pois, o ser primeiro, o que origina, o que
produz tudo de si, e não pode ser pensada como produzida, pois ela
existe por si e tem seu sentido tão somente em si mesma. Ademais,
ela é para Feuerbach não só o que limita, mas também a potência
(das Vermögen) que assegura ao homem a possibilidade, a condição,
de satisfazer suas necessidades múltiplas; ela é, pois, aquela essência
(luz, ar, água, fogo, plantas, animais, etc.) sem a qual o homem não
pode nem ser pensado nem existir. Natureza, assim diz ele, “é tudo
o que se mostra ao homem, abstraído das sugestões supranaturais
da crença teística, imediatamente, sensorialmente, como base e
objeto de sua vida” (FEUERBACH, 1967, p. 104). Sob esta
consideração, deve-se conceber a natureza como a garantia da
exterioridade mesma, como que um existente fora de nós que nada
sabe de si e é em si, de si e por si mesmo.
Embora a concepção de natureza de Feuerbach não seja
atomístico-mecanicista, já que, para ele, a natureza não é nenhuma
máquina, nenhuma pura res extensa, sem vida, nenhuma grandeza
100 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

lógico-matemática, isto é, nenhum universo que se movimenta


necessariamente segundo leis mecânicas, de acordo com ele,
“sensibilidade”, “vivacidade”, “vitalidade”, “fisicalidade”,
“exterioridade” são conceitos similares para a existência material da
natureza que existe real e objetivamente expressa sua existência
material mediante efeitos físicos, fenômenos naturais que existem
não apenas idealmente no entendimento, mas também constituem
para o homem efetivos sensíveis, observados sensivelmente. Assim
compreendido, mediante um entendimento da natureza que se baseia
nas características imanentes a ela - totalidade, unidade orgânica,
harmonia de causas e efeitos, movimento, “imediaticidade”,
autonomia, lei (legalidade ou regularidade), necessidade, como
pressupostos necessários para todos os objetos, fenômenos e
criaturas, plantas e animais, até mesmo para a natureza humana -,
Feuerbach critica tanto o teísmo quanto o idealismo, os quais ignoram
a autonomia (Selbständigkeit) e a independência (Unabhängigkeit) da
natureza, uma vez que eles a compreendem meramente como obra
de um criador ou como um simples ser outro do espírito na
exterioridade. Em ambas as posições, a natureza foi tratada, portanto,
não como um existente autônomo, independente, mas deduzida
apenas como uma realidade dependente e inconsistente em si mesma
(CHAGAS, 2003, p. 70).
As teses fundamentais do conceito de natureza em Feuerbach
contra o teísmo e o idealismo podem ser sintetizadas assim: a
natureza é, em primeira linha, uma verdade dada aos sentidos.
Como objeto dos sentidos (als Gegenstand der Sinne), ela não é uma
deduktion do espírito, nem criação de Deus; ou seja, ela não é um
produto nem da atividade de um eu puro, do desenvolvimento do
espírito, nem da vontade de um Deus sobrenatural, fictício, mas,
pelo contrário, é uma essência autônoma que existe
independentemente da consciência humana.
Natureza [...] é tudo o que tu vês e não provém das mãos e
dos pensamentos humanos. Ou, se quisermos penetrar na anatomia
da natureza, ela é o cerne ou a essência dos seres e das coisas, cujos
Eduardo Ferreira Chagas | 101

fenômenos, exteriorizações ou efeitos, nos quais exatamente sua


essência e existência se revelam e dos quais constam, não têm seu
fundamento em pensamentos, intenções ou decisões do querer, mas
em forças ou causas astronômicas, cósmicas, [...] químicas, físicas,
fisiológicas ou orgânicas. (FEUERBACH, 1967, p. 105). A natureza é
incriada (unerschaffen), eterna (unvergänglich), não deduzível
(nicht ableitbar); ela é em si mesma, existe apenas por si mesma e
não por meio de outra essência; a natureza é necessária
(notwendig). Porque ela é, é ela necessária, e exatamente assim
como é, isto é, correspondendo às suas próprias leis. Se, a saber,
tudo o que é, é necessariamente por meio da natureza, assim não
tem sentido aceitar um espírito ou um Deus criador que planeja para
o esclarecimento da natureza e, por fim, a natureza corresponde
apenas a si mesma. A palavra “natureza” designa, assim esclarece
Feuerbach.
O cerne de todas as forças, coisas e seres sensíveis que o
homem distingue de si como não-humanas. Entendo em geral sob
natureza, certamente como Spinoza, não um ser como o Deus
supernaturalístico, que existe e age com vontade e razão, mas como
é para Spinoza, um Deus, ou seja, um ser ao mesmo tempo
sobrenatural, transcendente, deduzido, misterioso, simples, e sim
um ser múltiplo, [...] real, perceptível com todos os sentidos.
(FEUERBACH, 1967, p. 104).
A natureza é, pois, apenas explicável, quando se reconhece
que ela não é nenhum ser abstrato, despojado de existência, mas a
unidade da diversidade das coisas que são reais, concretas; ou
melhor, ela é a multiplicidade dos entes singulares, e fora dela nada
tem existência real, a não ser pensamentos e representações.
Ante o teísmo e o idealismo, que deduzem a natureza de Deus
ou do espírito, Feuerbach argumenta o seguinte: 1) a natureza
precede o espírito e, por isso, é sua base orgânica; 2) o espírito é,
pelo contrário, um produto da natureza, pois o pensamento é
também uma funktion de um órgão natural, do cérebro humano, de
102 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

uma transferência das representações do pensamento sobre a


natureza, está em completa oposição à existência da natureza.
Ex nihilo nihil fit, do nada nada vem, isto é uma lei geral da
natureza e da razão, válida universalmente. Um mundo, criado em
oposição a esta lei fundamental, é uma contradição consigo mesmo,
uma contradição com todas as leis da natureza; é, em síntese, o
mundo invertido da teologia, em que o pensamento, ou seja, a
criança anterior à mãe, a grama ao sol. (FEUERBACH, 1969, p. 259).
Feuerbach acentua:

Se não estou louco, como posso deixar nascer seres irracionais de


um ser racional? Como pode um espírito produzir seres sem
espírito? [...] Tem-se dito frequentemente: “o mundo é
inexplicável sem um Deus”, mas o exato oposto é verdadeiro: “se
um Deus existe, é a existência de um mundo inexplicável, porque
ela é inteiramente supérflua” (FEUERBACH, 1967, p. 161-2).

À objeção teístico-idealista “como pode o homem surgir da


natureza, ou seja, o espírito matéria”, opõe Feuerbach o seguinte:

Responda-me, sobretudo, primeiro a pergunta: Como pode nascer


do espírito a matéria? Tu não achas para esta pergunta nenhuma
resposta, pelo menos racional, assim tu reconhecerás que apenas
a resposta oposta conduz a ti para o objetivo (FEUERBACH, 1971,
p. 179).

Não a dedução do espírito da natureza, mas, pelo contrário, a


deduktion da natureza do espírito é, pois, um problema insolúvel.
Para Feuerbach, é, por conseguinte, racional começar com a
natureza e só daqui passar para o homem, para o espírito.
Os argumentos, que se poderiam expor para a defesa da tese
feuerbachiana no que tange ao primado da natureza e do
nascimento do homem dela, ou seja, do esclarecimento da natureza
por ela mesma, podem ser apresentados resumidamente, assim: a
natureza não pode ser deduzida do espírito, já que ela possui uma
qualidade completamente diferente dele; mas o espírito pode ser
Eduardo Ferreira Chagas | 103

deduzido dela e esclarecido por ela, porque o homem, como criação


da natureza, é a identidade de todas as oposições, isto é, a unidade
do espiritual com o natural. O homem, no qual a natureza veio à
consciência, sabe de si, conhece a si mesmo como unidade real, viva,
do espírito e do corpo, de todas as qualidades ativas e passivas,
espirituais e sensíveis. Aqui se encontra, para Feuerbach, o cerne
verdadeiro da unidade do pensar e do ser, pois o pensamento
humano, como sujeito autônomoque não tem mais fora de si
nenhuma coisa e, por conseguinte, mais em si nenhum limite, não é
mais sujeito “finito” - não é mais o eu, ao qual se contrapõe um
objeto -, é o ser absoluto, cuja expressão teológica ou popular é a
palavra “Deus”. É, na verdade, o mesmo sujeito, o mesmo eu, como
no idealismo subjetivo - mas sem limites, o eu que já não parece
também ser eu, essência subjetiva, e, por conseguinte, também já
não se chama mais eu. (FEUERBACH, 1970, p 299).
O espírito (o eu) não é, pois, apenas sujeito para si, mas
também simultaneamente predicado de uma essência real; ou seja,
ele não é, de modo nenhum, por si mesmo enquanto tal, mas por si
como essência corporal, sensível; pela corporeidade, ele está aberto
à natureza, ao mundo, pois estar no corpo quer dizer nada mais do
que estar no mundo.
A natureza não pode ser deduzida do espírito, porque o
inferior (das Niedere, o anterior = a natureza) não pode ser
esclarecido e deduzido do superior (das Hörere, do posterior = o
espírito), mas antes, pelo contrário, o superior do inferior, como
todo desenvolvimento prova. Deduzir a natureza do espírito é, por
conseguinte, ilógico, sem sentido, pois por que se deve fazer passar
o “superior” por algo “inferior”, o komplex pelo simplex, o “perfeito”
(desenvolvido) pelo “imperfeito” (não-desenvolvido)? Feuerbach
defende o argumento de que a natureza produziu de si mesma o
homem; ou seja, ela é a essência, da qual o homem nasceu e pela
qual mantém sua existência. A natureza é o que compreende o
homem; ela é aquilo cuja aniquilação significa também a própria
aniquilação da existência humana; somente através dela consiste o
104 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

homem, somente dela depende ele em toda a sua atividade, em todos


os seus passos. Arrancar o homem da natureza significa o mesmo
que separar os olhos da luz, o pulmão do ar, o estômago dos
alimentos e querer fazer deles seres existentes por si mesmos
(FEUERBACH, 1967, p. 91).
O homem é um produto da natureza, uma obra dela; ela deve,
por isso, tratá-la e estimá-la como “sua mãe”, como a fonte de seu
ser. Já que ele deve seu nascimento e sua manutenção apenas às
forças e aos efeitos naturais, depende ele, por conseguinte, da
natureza; quer dizer, ele não é nenhum ser sem necessidade, mas
um organismo que pressupõe as determinações da natureza, água,
ar, alimento, etc.; por fim, considerar o espírito como a premissa da
natureza é sem sentido, pois não se pode indicar de onde este toma
a determinação para a matéria. Não é, portanto, o espírito a origem
e a razão de ser da matéria; pelo contrário, a natureza (a matéria)
deve ser vista como fundamento do espírito, isto é, como um
fundamento que não tem nenhum fundamento fora de si mesmo. O
espírito, a consciência, pode desenvolver-se, assim, apenas da
natureza orgânica; na verdade, ele é, no homem, o superior, pois,
por meio dele, o homem diferencia-se do animal (FEUERBACH,
1970, p. 335-6). Isto não significa, de modo nenhum, que ele seja o
primeiro de acordo com o desenvolvimento natural. O espírito, isto
é, o superior, o completo, é, ao contrário, resultado, sempre o
último, o posterior. No espírito humano, a natureza atinge o auge
de seu desenvolvimento; aí ela se torna um ser pessoal,
autoconsciente, inteligível; ou seja, homem, a natureza torna-se
espírito, toma consciência de si mesma. O homem é, pois, um ser
qualitativamente diferente de todas as outras formas de existência
na natureza (JESSIN, 1956, p. 3-41; HÖPPNER, 1960, p. 302).
Os méritos da filosofia de Feuerbach, particularmente de sua
concepção de natureza, podem ser caracterizados da seguinte
maneira: Feuerbach almeja provar que a natureza, entendida como
algo autônomo (Selbständiges), original, diante do espírito, é a base
deste e que, embora o homem esteja, pelo seu corpo,
Eduardo Ferreira Chagas | 105

indissoluvelmente ligado a ela, é ela, apesar disto, outra essência,


um ser diferente e independente dele, e que Deus não é nenhum ser
que existe por si, mas meramente uma representação fantástica da
essência humana, um projeto puramente idealizado do espírito.
Disso conclui Feuerbach que a relação Deus-homem é tão somente
uma conexão do homem consigo mesmo, e a separação de Deus do
homem é apenas uma separação do homem de si mesmo. Em vez
desta relação humano-religiosa voltada para Deus, Feuerbach quer
pôr a relação do homem para o homem, para o seu próximo e para
a natureza sem Deus (CHAGAS, 2004, p. 86-105). Para alcançar tal
propósito, o homem deve livrar-se de toda fé em forças
sobrenaturais e voltar-se apenas para si e para a natureza.
Feuerbach aspira a uma relação humana para com a natureza,
mediada pela sensibilidade (Sinnlichkeit), pela contemplação
sensível da natureza, tal como esta aparece imediatamente ao
homem. Ele quer restabelecer uma relação natural para o homem
mediante a relação imediata, sensível do amor do eu para o tu, do
singular (do indivíduo) para o gênero (para a comunidade), cuja
base vale para ele como a relação natural do homem para a mulher.
Em A Sagrada Família (Die heilige Familie) (1844), Marx
reconhece expressamente, apesar de toda a sua crítica a Feuerbach,
o significado positivo, a relevância de sua filosofia para a história da
dialética e do espírito humano:

Mas, afinal, quem revelou o mistério dos “sistemas”? Feuerbach.


Quem aniquilou a dialética dos conceitos, a guerra dos deuses, que
apenas os filósofos conhecem? Feuerbach. Quem colocou, na
verdade, “o significado do homem” - como se o homem tivesse
ainda uma outra significação a não ser a de ser homem! -, pelo
menos “o homem” no lugar dos farrapos velhos, da “consciência
de si infinita”? Feuerbach, e somente Feuerbach. Ele fez ainda
mais. Depois de muito tempo, ele aniquilou estas mesmas
categorias, que a “crítica” lança agora a si: A riqueza real das
relações humanas, o conteúdo enorme da história, a luta da
história, a luta da massa contra o espírito, etc. (MARX, 1958, p. 98)
106 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

E nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos (Ökonomisch-


philosophischen Manuskripten) (1844), ele esclarece:

Feuerbach, é o único que tem uma relação séria e crítica para com
a dialética hegeliana e realizou, neste campo, verdadeiras
descobertas; acima de tudo, foi quem superou verdadeiramente a
antiga filosofia. A grandeza da obra de Feuerbach e a silenciosa
simplicidade com que a apresenta ao mundo estão em um
surpreendente contraste com o comportamento dos outros
(MARX, 1968, p. 569).

Não se pode deixar, segundo Marx, de referendar os grandes


empreendimentos da filosofia de Feuerbach, na medida em que ela
é, em síntese:

- “a prova de que a filosofia (especulativa) nada mais é do que a


religião convertida em pensamento e realizada pelo
pensamento; deve condenar-se como uma outra forma e uma
outra maneira de existência do estranhamento do ser humano;
- a fundamentação do materialismo autêntico e da ciência real,
na medida em que Feuerbach faz da relação social “do homem
ao homem” o princípio básico da teoria; e
- oposta à negação da negação, que pretende ser o positivo
absoluto, o princípio subsistente em si e fundado
positivamente em si mesmo”. (MARX, 1968, p. 569-70)

Apesar dessas realizações de Feuerbach, principalmente no


que diz respeito a seus protestos contra o teísmo e o idealismo, não
se deve, no entanto, descuidar da crítica a sua filosofia no todo por
causa de suas “contradições”, “ilimitações” e “inconsequências”.
Em referência à filosofia de Feuerbach, Marx reconhece que,
para ela, o homem é

[...] um ser corpóreo dotado de forças naturais, vivo, real, sensível,


objetivo. ou seja, que ele tem objetivos reais, sensíveis como
objetos do seu ser, da exteriorização de sua vida, ou que pode
exteriorizar a sua própria existência só em objetos reais, sensíveis.
Ser objetivo, natural, sensível e simultaneamente ter fora de si o
Eduardo Ferreira Chagas | 107

objeto, a natureza, o sentido para um terceiro ser é a mesma coisa.


A fome é uma necessidade natural; ela precisa, portanto, de uma
natureza fora de si, de um objeto fora de si, para se satisfazer, para
se acalmar. A fome constitui a necessidade objetiva de um corpo
por um objeto exterior, indispensável à sua integração e à
expressão da própria natureza. [...] [E] o homem, como ser
objetivamente sensível, é, por conseguinte, um ser que sente e,
porque sente o seu sofrimento, um ser afetivo. A emoção intensa,
a passion [a paixão] é a força essencial [a faculdade] do homem
que se esforça energicamente para alcançar o seu objeto. (MARX,
1968, p. 578-9)

A essência humana não é, no entanto, para Marx, como o é


para Feuerbach, nenhuma essência abstrata, mas, pelo contrário,
uma essência concreta, social e histórica, isto é, uma essência que se
realiza na história pela atividade, pela práxis social. Marx pensa o
homem como um ser que se manifesta no trabalho; ele é o que ele é
pelo seu trabalho, pela sua produtividade. Correspondendo a isto,
Marx diz na Ideologia alemã (Deustche Ideologie) (1845-6):

Podem-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela


religião ou por tudo o que se queira. Mas eles próprios começam a
se diferenciar dos animais logo que começam a produzir seus
meios de vida, passo este que é condicionado por sua organisition
[organização] corporal. Na medida em que os homens produzem
seus meios de vida, produzem eles, indiretamente, sua própria
vida material. (MARX, 1969, p. 21)

Embora Feuerbach acentue, muitas vezes, que o homem é um


ser sensível, natural, o ser que se tornou social, no fundo, permanece
o homem para ele um abstraktun inerente ao indivíduo isolado, isto
é, um ser fixo, segregado, abstraído do decurso histórico, e sua
“relação social” foi concebida por ele apenas como uma relação
genérica, como uma universalidade puramente natural que se liga a
muitos indivíduos. Por conseguinte, Feuerbach não vê, e a ele isto
permanece, infelizmente, sem consideração, que o homem, além de
ser uma essência sensível, nascida da natureza, é também um
108 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

produto dele mesmo (ein Produkt des Menschen), da cultura, da


história. Do mesmo modo, ele desconhece igualmente o nascimento
e o desenvolvimento histórico da existência do homem e de sua
consciência com base na apropriação material da natureza, na
produktion submetida a determinada relação social, e o abstrai
completamente de suas relações sócio-econômicas e política, porque
ele não o entende como “ensemble”, como membro da sociedade
(Glied der Gesellschaft).
O objeto da filosofia da natureza de Ludwig Feuerbach é não
só a natureza incriada, autônoma, a prioridade, o primado da
natureza externa (das Primat der äusseren Natur), exterior (ainda
não dominada pelos homens), como também a natureza em relação
ao homem. Naturalismo e humanismo são quase um, pois,
conforme Feuerbach, o homem é um produto da natureza, um ser
mesmo da natureza.Uma filosofia da natureza sem o homem e, do
mesmo modo, uma filosofia sem natureza parecem para ele sem
sentido, um absurdo. O problema encontra-se, porém, nisso, a
saber, que ele não chegou a uma concepção materialista
consequente nem da natureza nem daquilo que diz respeito às
relações natureza-homem e homem-homem, já que ele:

- absolutiza a natureza e a concebe apenas “naturalmente”,


sensivelmente (como objeto da intuição sensível), e não, ao
mesmo tempo, histórico-socialmente (como produção da
práxis humana), e
- conceitua natureza e homem não em sua relação real, dialética.
Feuerbach exclui de facto a história da relação ao homem com
a natureza, e esta daquela. Conquanto conceba a natureza
como um objeto real e esclareça que o homem tenha surgido
dela e ela lhe seja dada pelos sentidos, ele não percebe, todavia,
que a natureza, que envolve o homem, não permanece
eternamente idêntica, sempre igual a si mesma, mas é
transformada, modificada praticamente pelo homem.
Enquanto a natureza lhe aparece, portanto, meramente como
um ser estático, imediato, Marx a depreende, pelo contrário,
como um
Eduardo Ferreira Chagas | 109

[...] produto da indústria e das condições da sociedade; e, na


verdade, no sentido de que é um produto histórico, o resultado da
atividade de toda uam série de generationen (gerações), cada uma
das quais ultrapassava a precedente, desenvolvendo sua indústria
e seu comércio, modificando sua ordem social em função da
modificação das necessidades. Mesmo os objetos da mais simples
“certeza sensível” só são dados a Feuerbach [ao homem] apenas
através do desenvolvimento social, da indústria e do intercâmbio
comercial. (MARX, 1969, p. 43)

Em Feuerbach a relação entre o homem e a natureza


permanece, ao contrário, fixa (starr), não dinâmica, pois, como
consequência de sua opposition ante o teísmo e o idealismo, ou seja,
ante toda forma de antropomorfização da natureza, ele designa a
natureza como “a essência sem essência humana”, sem “qualidades
humanas”, como a natureza sem o homem. Diz ele:

“Natureza” é para mim, tal como é o espírito, nada mais do que


uma palavra universal para a designação das essências, das coisas,
dos objetos, os quais o homem diferencia de si e de seus produtos
e resume no nome comum “natureza”, mas não é nenhuma
essência geral, personificada, mistificada, separada e abstraída das
coisas reais. (FEUERBACH, 1971, p. 4)

Ademais, Feuerbach tem “diante dos olhos”, no conceito de


“produto”, não algo social-histórico, mas apenas o que é resultado
abstrato da atividade humana, depreendido como “illusion” de uma
essência criada pelo homem, que está acima da natureza. Em
conformidade com isto, ele trata a realidade objetiva
(gegenständliche Wirklichkeit) como algo preso ao objeto; quer
dizer, ele vê apenas seu lado objetivo, mas não o subjetivo, porque
ele concebe a Aktivität do sujeito não como práxis material,
histórico-social, como atividade produtiva, mas tão somente como
contemplação, como intuição sensível (sinnliche Anschauung). Isto
expressa o conteúdo, o sentido da primeira Tese sobre Feuerbach
(Thesen über Feuerbach), mediante a qual Marx caracteriza a
carência principal de todo materialismo anterior, inclusive o de
110 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Feuerbach. Precisamente o lado ativo do sujeito, que produz o


objeto, não foi desenvolvido por Feuerbach, mas pelo idealismo de
Kant, Fichte e Hegel, embora apenas subjetivamente, como
atividade do entendimento, do eu que age, do espírito que se
desdobra para o mundo. A filosofia de Feuerbach permanece, pois,
atrás dessa práxis já desenvolvida pelo idealismo; ela não consegue
transformar a atividade prática, concebida idealmente, numa
atividade prático-crítica, real, material (LÖWITH, 1976, p. 149-50).
Para Marx, o mundo material é, ao contrário, um todo
unitário, no qual todas as formas de dualismo estão rejeitadas; esse
mundo material encontra-se também de novo na consciência, e isto
se torna tão claro sobretudo no processo de trabalho. Quanto a isto,
Hegel já tinha, na Fenomenologia do Espírito, mediante a dialética
do senhor e do servo, caracterizado o trabalho como processo que
supera a resistência da natureza, no qual o homem toma consciência
de si mesmo, de sua espiritualidade, no qual o homem toma
consciência de si mesmo, de sua espiritualidade, pois, na medida em
que o homem trabalha, ele manifesta sua própria essência e impõe
à natureza uma forma humana; assim, ele avista, no resultado de
seu trabalho, não um produto que está diante dele, mas, pelo
contrário, sua realidade tornada objetiva. Esta essência positiva do
trabalho, entendida como processo dialético de autoprodução do
homem e transformação da natureza, foi também postulada por
Marx. Trabalho é, para ele,

[...] antes de tudo, um processo entre homem e natureza [processo


de que participam o homem e a natureza], processo em que o
homem, através de sua própria ação, medeia, regula e controla seu
intercâmbio material com a natureza. Ele se defronta com a
natureza como uma de suas forças. Põem-se em movimento as
forças naturais que pertencem ao seu corpo, braços e pernas,
cabeças e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza,
imprimindo-lhes forma útil para a sua própria vida. Na medida em
que ele atua assim, através de seu movimento sobre a natureza
externa a ele e a transforma, simultaneamente transforma ele a
sua própria natureza. (MARX, 1977, p. 192)
Eduardo Ferreira Chagas | 111

Isso porque a reciprocidade entre o homem e natureza


encontra-se na atividade produtiva, no interior de uma organization
determinada socialmente, mediante a qual o homem muda a
natureza e cria algo, como também produz e modifica sua natureza
social. E é, precisamente, por intermédio deste metabolismo
material, deste intercâmbio do homem com a natureza que ocorre o
acesso a declarações sobre a origem e o desenvolvimento do homem.
Já que Feuerbach concebe abstratamente a relação do homem para
com a natureza, isto é, não conhece nenhuma relação recíproca,
dialético-dinâmica entre eles, falta a ele também o entendimento de
que “a história da natureza” (Naturgeschichte) e a “história da
humanidade” (Menschheitsgeschichte) formam unidade interna,
pois o homem, como uma parte real da natureza (o tornar da
natureza para o homem), tem uma “natureza histórica” e uma
“história natural” (MARX, 1969, p. 43).
A acepção de natureza em Feuerbach é naturalista, não
mediada pela história, pois falta a ela o sentido para a história, para
as condições concretas sociais, do homem. Na medida em que
Feuerbach considera, como visto, a relação entre o homem e a
natureza, não do ponto de vista da atividade prático-crítica, mas
apenas da perspectiva da intuição sensível, que possui ela mesma
uma base social, uma fundamentação material-econômica. Para
Marx, o homem tem, ao contrário, uma vida essencialmente prática,
produtiva, que pertence a uma forma determinada da sociedade; ele
é, como mencionado.

[...] não apenas um ser natural, mas um ser natural humano; quer
dizer, um ser existente para si mesmo, por isso, um ser genérico,
e, como tal, tem de confirmar-se e expressar-se tanto no seu ser
como no seu saber. Então, nem os objetos humanos são objetos
naturais, como eles se apresentam imediatamente, nem o sentido
humano, tal como ele é imediata e objetivamente, é sensibilidade
humana, objetividade humana. Nem a natureza objetiva, nem a
natureza subjetiva se apresenta imediatamente ao ser humano de
forma adequada. E, assim como tudo o que é natural deve ter a sua
112 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

origem, também o homem tem o seu ato de nascimento, a história,


que é, no entanto, para ele, uma [história] consciente, e por isso,
enquanto ato de gênese com consciência, é um ato de gênese que
se suprassume [se transcende a si próprio]. A história é a
verdadeira história da natureza do homem. (MARX, 1968, p. 579)

Assim, para Marx, a história é a natureza real do homem, pois


o homem, como ser social, é determinado, em princípio, não pela
natureza. A natureza tem sua existência para o homem
precisamente na história, assim como o homem encontra para o
homem, na natureza e na apropriação histórico-social dela, sua
existência e essência. A concepção de natureza em Feuerbach
encontra-se, ao contrário, não no âmbito da relação concreta do
homem para a natureza, da práxis humana, porquanto ele ignora o
conceito de trabalho como relação do homem para a natureza, do
homem para o homem. Na sociabilidade capitalista, a natureza
possui para o homem uma existência estranha, “não humana”,
porque ele mesmo se comporta aqui como uma existência estranha,
“não natural”, “inumana”, e o fundamento desta sua “inumanidade”
é a divisão forçada do trabalho ligada à propriedade privada. A
superação da “dimension” da “inumanidade” do homem, do
estranhamento da relação humana para o próximo e para a natureza
(para seu meio ambiente) não pode ser realizada, como Feuerbach
acreditara, simplesmente pela negation das illusionen religiosas,
fantásticas. A raiz real, social e política da religião é completamente
estranha a Feuerbach, por isso, é para ele o estranhamento
(Entfremdung) apenas uma forma psicológica, antropológica, da
consciência humana invertida, que duplica o mundo numa realidade
real, representada, e apresenta a natureza e o homem de uma
maneira não natural, estranha à sua natureza. Feuerbach fixa o
sentimento religioso (religöse Germüt) como algo para existente e
não vê, por conseguinte, que ele é também um produto social. A isto
se relaciona ainda o fato de que ele não compreende que a
emancipação do homem do estranhamento religioso pressupõe a
superação de sua causa e fonte, isto é, de suas condições materiais,
Eduardo Ferreira Chagas | 113

sociais e econômicas, fundadas na propriedade privada dos meios


de produção.
Enfim, deve ser, no todo, constatado o fato de que Ludwig
Feuerbach não consegue, em verdade, nem interpretar
materialmente a vida social, a história, nem esclarecer as relações
econômicas, nas quais se devem procurar os fundamentos para o
estranhamento humano. Não deve ser aqui esquecido, porém, o fato
de que ele não tinha posto para si as mesmas prioridades que tinham
Hegel e Marx. É preciso ter bem clara ainda a noção de que o
pensamento de Feuerbach não se movimenta nem no círculo do
processo da autoconsciência, como em Hegel, nem no mundo
histórico do trabalho, como em Marx; ele tem, pelo contrário, por
objeto o imediato (das Unmittelbare), ou seja, a natureza e a
sensibilidade (die Sinnlichkeit). Diante de Hegel e Marx, quer
Feuerbach conceder à natureza prioridade, requer indubitável, o não
deduzível, o elementar, o simples, do qual se eleva para o mediato e
o deduzido (Selbständigkeit) e a independência (Unabhängigkeit) da
natureza apenas pela crítica ao começo sem pressuposto, ou seja, à
“imediatidade” imediata (na forma de Deus ou do espírito), como
afirmado pelo teísmo e pelo idealismo, pois tanto um quanto o outro
se baseiam, em verdade, não na “imediatidade” dada sensivelmente
(a “imediatidade” da natureza), mas sempre num ato já refletido e
produzido pelo homem.

2.3. A Crítica de Feuerbach ao Princípio Leibniziano da


Autonomia das Mônadas como Representação da Unidade de
Espírito e Matéria.

Trata-se, nesta seção, de apresentar a recepção crítica de


Feuerbach à filosofia de Leibniz, particularmente à sua obra A
Monadologia. Embora Leibniz tenha concebido originalmente a
mônada como a unidade do espírito com a matéria, esta última
aparece em sua Monadologia apenas como uma representação
confusa, não espiritual, sem pensamento, isto é, como a pura
114 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

imperfektion ou como a negation do espírito ou da alma. Feuerbach


vê, em princípio, na Doutrina das Mônadas de Leibniz uma
alternativa para a unidade entre o espírito e a matéria. Pertence à
mônada espiritual a forma, mas ela contém simultaneamente em si
também a matéria, que é a sua representação obscura. Mas
enquanto Leibniz considera a matéria meramente como uma
representação escura, confusa, Feuerbach a reconhece, pelo
contrário, como o vínculo positivo que liga o interior com o exterior,
que conecta as mônadas reciprocamente.
Tomando como base a concepção de natureza em Feuerbach,
iremos expor, nesta seção, a reception crítica de Feuerbach à filosofia
de Leibniz, a partir de sua obra Apresentação, Desenvolvimento e
Crítica da Filosofia Leibniziana (Darstellung, Entwicklung und
Kritik der Leibnizschen Philosophie) (1837)4, que evidenciará
também como um momento importante para o desenvolvimento de
sua filosofia da natureza. Para Feuerbach, a filosofia de Leibniz
representa um progresso real na filosofia moderna (Cf.
REITEMEYER, 2013, p. 163; SERRÃO, 2000, p. 135), porque ela
apresenta uma resposta às lacunas do conceito spinoziano de
substância. Diferentemente de Spinoza, para quem a essência da
substância é a unidade (Einheit) sem a diferença (Unterschied),
Leibniz considera no interior da singularidade das substâncias (das
mônadas) (Monaden) também a pluralidade, a multiplicidade, ou

4
A obra de Feuerbach sobre Leibniz desenvolveu-se entre os anos de 1834 e 1836 e foi publicada no
ano de 1837 sob o título História da Filosofia Moderna (Geschichte der neueren Philosophie), cuja
segunda parte foi intitulada Apresentação, Desenvolvimento e Crítica da Filosofia Leibniziana
(Darstellung, Entwicklung und Kritik der Leibnizschen Philosophie). Já no Prefácio dessa obra esclarece
Feuerbach que Leibniz, embora sua filosofia contenha lacunas e falhas, representa depois de Descartes
e Spinoza uma aparição substancial no âmbito da filosofia moderna. “Nenhuma personalidade
filosófica fora Hegel (até 1839)”, como Rawidowicz escreve, em Ludwig Feuerbachs Philosophie, op.
cit., p. 57, “experimentou em Feuerbach tal apreciação, como Leibniz.” Feuerbach dedica, pois, a
Leibniz uma biografia muito elogiosa, na qual ele o descreve da seguinte maneira: “O homem
significativo, que primeiro elevou-se na Alemanha a uma filosofia independente, ativa, produtiva, foi
Gottfried Wilhelm Leibniz.“ Cf. Feuerbach, L. Darstellung, Entwicklung und Kritik der Leibnizschen
Philosophie. GW 3, org. por W. Schuffenhauer, Berlin: Akademie Verlag, 1969, p. 14. Cf. também
Tomasoni, Francesco. Ludwig Feuerbach – Entstehung, Entwicklung und Bedeutung seines Werkes.
Münster: Waxmann, 2015.
Eduardo Ferreira Chagas | 115

seja, o princípio da diferença (principium indiscernibilium), isto é, o


princípio da autoatividade (Selbsttätigkeit), do automovimento, que
se encontra no interior da substância (Substanz). “A atividade”, diz
Feuerbach, “é o princípio de sua filosofia. A atividade é, para ele, o
fundamento da individualidade, fundamento esse que considera que
há não apenas uma substância, mas substâncias; todos os seres são,
para ele, apenas distintos modos da actividade, cujo modo supremo
é o pensamento, que é a finalidade da vida” (FEUERBACH, 1969, p.
23). A ênfase de Leibniz à autoatividade (Selbsttätigkeit), isto é, à
força (Kraft), entendida como princípio interno e espiritual da
mônada, como fundamento e determinação de toda a realidade,
entende Feuerbach, como Schuffenhauer escreve, “como um
progresso decisivo para além de Spinoza” (SCHUFFENHAUER,
1978, p. 283). Este princípio espiritual da mônada não deve ser
compreendido apenas subjetivo e ideal, abstraído dos objetos, pois
nele já está contida a matéria. O motivo de Feuerbach se ocupar com
a filosofia de Leibniz encontra-se, sobretudo, na concepção de
unidade do espírito e da matéria (natureza) no interior da
substância, que lhe aparece claramente formulada na doutrina das
mônadas. Isto observa também Reitemeyer, uma vez que ela levanta
a seguinte questão: “Que vontade se expressa em Feuerbach,
quando ele decide-se contra a dialética e pelo modelo monádico? É
a vontade de penetrar a unidade imediata de espírito e matéria, que,
realizada pelo princípio da autoatividade, promete chegar à unidade
humana de espírito e corpo” (REITEMEYER, 1988, p. 59). A
importância da Monadologia (Monadologie) de Leibniz encontra-se
para Feuerbach precisamente no fato de que ela consolida
claramente a unidade de espírito (Geist) e matéria (Materie) na
própria simplicidade ou singularidade da substância. Esta unidade,
ou seja, a união da identidade da substância com a totalidade dos
indivíduos, dos singulares, que Feuerbach tinha visto primeiro no
panteísmo, vê ele agora no princípio da autoatividade da mônada.
Na obra sobre Leibniz, Darstellung, Entwicklung und Kritik der
Leibnizschen Philosophie, Feuerbach fez valer, então, em oposição
116 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

ao princípio da identidade, que ele havia expresso na sua Tese de


Doutorado, intitulada A Razão Una, Universal e Infinita (De ratione
una, universali, infinita ou Über die eine, allgemeine, unendliche
Vernunft) (Dissertation) (1828), nos Pensamentos sobre a Morte e a
Imortalidade (Gedanken über Tod und Unsterblichkeit) (1830), ou,
simplesmente, Pensamentos sobre a Morte (Todesgedanken), e no
capítulo sobre Spinoza de sua História da Filosofia Moderna
(Geschichte der neuern Philosophie) (1833), o princípio da diferença,
da distinção, da individualidade.
Feuerbach começa sua apresentação sobre Leibniz com uma
crítica ao empirismo inglês, especialmente a Locke. Este, julga
Feuerbach, “não está apto ao desenvolvimento, não precisa de
desenvolvimento” (FEUERBACH, 1969, p. 3), ou seja, ele não
representa um desenvolvimento na forma do conceito de uma
filosofia como decifração do verdadeiro sentido de uma filosofia,
porque “a possibilidade” ou o meio do desenvolvimento não é a
percepção empírica, mas a idéia, ou seja, “um objeto da meditação”.5
Feuerbach pensa aqui, inicialmente, como Leibniz, para o qual o
sensível não é o fundamento do conhecimento. Pelo contrário, o
sentido e o significado das coisas, de acordo com Leibniz,
encontram-se antes no espírito. Mas, o espírito não pode ser
comparado com uma “tábua vazia” (tábula rasa) ou uma “folha em
branco”, pois nele estão contidas também as represesntações dos
objetos. Na medida em que Locke nega a “ideia inata”, deduz ele a
ideia apenas dos sentidos. Ele entende a origem da ideia, “como toda
matéria filosófica, apenas como empirista; ele a concebe em seu
sentido literal, sensual” (FEUERBACH, 1969, p. 139). Concordando
com Leibniz, pensa Feuerbach que o sensível, em geral o composto,
é apenas o efêmero, o transitório, o “fluido” e o “processual”, pois
ele é apenas um potencial, um meio do conhecimento, mas que
verdadeiramente só pode ser concebido na esfera do pensamento.
5
A isto observa Ploetz: “A apresentação do sistema empírico e sensualista valia aqui a ele [Feuerbach]
pouco, pois a determinidade da ideia não aparecia nele suficientemente reconhecível. Cf. Ploetz, K.,
Kritik und Sinnlichkeit bei Ludwig Feuerbach. Phil. Diss., Marburg, 1991, p. 90.
Eduardo Ferreira Chagas | 117

Por isto, ele não é de maneira nenhuma a instância última, um ponto


de partida, um “primeiro imediato”, por conseguinte não é um
“fundamento suficiente, que basta à explicação.”6 O erro do
empirismo reside no fato de que ele aceita o sensível como primário
e, por conseguinte, faz do espírito, que é “o ativo” (o agente, o
activum) um secundário, um paciente (passivum). Feuerbach
acentua em suas objeções ao empirismo lockeano que “o ver e o
ouvir”, as funções mais importantes da sensibilidade em relação ao
conhecimento, não são fatos absolutos, que não possam ou não
devam ser submetidos a uma investigação, já que a possibilidade do
ver ou do ouvir é “mesmo o pensamento”. Toda percepção de um
objeto, que o homem adquire pela comparação e pelo julgamento, é
já um ato espiritual, já é pensamento. Tudo se encontra, como
Feuerbach admite, na intuição, mas para encontrá-la e vê-la, deve-
se pensar. “Os sentidos”, diz ele, “iluminam a nós o mundo, mas sua
luz não é própria, pois ela vem do sol central do espírito. A
admiração é o princípio do conhecimento; mas a admiração não
surge a partir dos sentidos, mas do espírito mediado pelos sentidos”
(FEUERBACH, 1969, p. 142). Apesar disto, Feuerbach reconhece
aqui o significado histórico do empirismo, que consiste nisto, a
saber, que ele elevou os sentidos (ou seja, a esfera ou o meio do
conhecimento) a um objeto essencial; ele libertou o homem dos
“horrores” da superstição, do “terror da morte” diante de “um
cometa” ou da “ira de Deus”. Além disto, ele proporcionou a
liberdade e a autoatividade do pensamento, quando ele as livrou das
amarras da tradition e da autoridade da fé. Mas o empirismo
“desconhece seus limites e suas barreiras, quando ele quer ser

6
A esse respeito destaca Rawidowicz: “Ainda é para Feuerbach primário o pensamento frente à
sensibilidade, apenas o pensamento é objeto de uma verdadeira filosofia. Sensibilidade e pensamento
são ainda heterogêneos, que quase se excluem. O pensamento é a absoluta indiferença frente a toda
individualidade” Cf. Rawidowicz, S. Ludwig Feuerbachs Philosophie. Ursprung und Schicksal. Berlin:
Walter de Gruyter & CO, 1964, p. 57-58. Eu gostaria, no entanto, de chamar a atenção, neste lugar,
que a concepção de Feuerbach sobre a sensibilidade (Sinnlichkeit) mudará ainda no interior de sua
interpretation sobre Leibniz, particularmente no § 19, no qual Feuerbach coloca a sensibilidade como
ponto de partida frente ao idealismo, para manifestar a realidade e concebê-la.
118 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

autônomo e fazer-se valer como filosofia” (FEUERBACH, 1969, p.


143). Na medida em que ele fez do sensível, que é o individual, o
“primeiro”" e o “original”, ele não pôde chegar ao conceito da
unidade, da essência, da substância etc.. Assim como o empirismo,
rejeita Feuerbach também o materialismo vulgar, pois este nega “o
espírito como uma atividade positiva, originária” (FEUERBACH,
1969, p. 161)7. A matéria é para o materialismo vulgar a essência do
espírito, ou seja, do objeto do pensamento, já que ele deduz seu
conteúdo apenas das coisas sensíveis, materiais. A isto objeta
Feuerbch que o espírito, a rigor, não pode ser negado ou superado,
pois, na medida em que o materialismo o nega, “ele afirma, sim,
igualmente, a verdade e a essencialidade da atividade do espírito, do
pensamento, nisso (...) ele põe o objeto do pensamento como o
objeto verdadeiro” (FEUERBACH, 1969, p. 161). Em oposição à
concepção segundo a qual o sensível vale como a essência única,
especial, Feuerbach salienta aqui, ainda inteiramente no espírito do
idealismo8, o princípio da autoatividade (Selbsttätigkeit) e da
autarquia (Autarkie) do espírito, isto é, a atividade (Tätigkeit) do
espírito como uma unidade do interior com o exterior, do
pensamento com a contemplação sensível, “do pensar e do ver”, cuja
origem ele encontra em Leibniz.
Após essa visão geral sobre a rezeption de Feuerbach da teoria
das mônadas (Monadentheorie), analiso agora os pontos essenciais
da filosofia de Leibniz. O ponto central é, tal como em Spinoza, o
conceito de substância (Begriff der Substanz), que, de acordo com
Leibniz, é “a chave” para uma “filosofia profunda”. Este conceito é,

7
Cf. também Bohlmann, Markus. “Feuerbach als Naturwissenschftlicher Materialist”. In: Der
politische Feuerbach. Org. por Katharina Schneider, Münster: Waxmann, 2013, p. 93-112.
8
Nesse contexto, deixa-se verificar ainda claramente a influência do idealismo no pensamento de
Feuerbach. Isto evidencia também Ploetz: “O movimento que se concentra o pensamento de Feuerbach
chega aqui a um ponto culminante, toda filosofia foi concebida necessariamente como subforma do
idealismo, consequentemente, trata-se apenas de diferencia em que medida ela concebe o conceito do
espírito, limitado ou ilimitado, individual ou universal. Somente o idealismo é a contemplação
originária, e mesmo universal da humanidade do mundo.” Cf. Ploetz, K., Kritik und Sinnlichkeit bei
Ludwig Feuerbach, op. cit., p. 92-93.
Eduardo Ferreira Chagas | 119

para ele, significativo, pois dele depende, em geral, o conhecimento


de Deus, da alma e da essência dos corpos. Leibniz determina, no
entanto, o conceito de substância essencialmente diferente do
conceito de Spinoza, Malebranche ou Descartes. A essência da
substância, como ele a concebe, é a atividade espiritual (geistige
Tätigkeit), ou seja, a força activa (tätige Kraft) (vis activa), que se
encontra em seu próprio interior. Disto segue que “as mudanças
naturais das mônadas nascem de um princípio interno”, “que se
pode nomear força ativa” (LEIBNIZ, 1985, p. 443).9 Leibniz define,
então, a substância (Substanz) (ou a mônada) (Monade) como uma
força ativa, que se diferencia bem de uma mera potência
(Vermögen), como fora entendido, por exemplo, na escolástica. A
potência ativa da escolástica era nada mais do que uma possibilidade
para agir, mas que precisava ainda de um estímulo externo (ou seja,
de um incentivo ou de um impulso de fora) para torna-se atividade,
acção. Em oposição a isto, a força activa contém em si uma
actividade interna (innere Tätigkeit) ou um impulso (Antrieb) e, por
isto, ela mesma se transforma em ação (Handlung), sem precisar
para isto de um outro. O conceito leibniziano de força não é, então,
uma possibilidade simples (einfache Möglichkeit) (possibilitas), pois
com ele já está colocado o impulso (ou seja, a força motriz) e a ação.
Leibniz pensa que a substância não pode ser sem atividade, pois o
que não age, o que não contém em si mesmo nenhuma força ativa,
não é substância. Mas, além da força deve-se dar ainda, segundo
Leibniz, na mônada uma outra particularidade, a saber, que ela
“deve incluir uma pluralidadee na unidade ou no simples. (...) E, por
conseguinte, deve-se dar na substância simples uma pluralidade de
momentos de determinação e relações, embora não haja partes
dela" (LEIBNIZ, 1985, p. 443).10 Essa é a natureza da substância em

9
“II. Il s’ensuit de ce que nous venons de dire, que les changemens naturels des Monades viennent
d’un principe interne“, „qu’on peut appeler force active.”
10
“Ce detail doit envelopper une multitude dans l’ unité ou dans le simple. (...) et par consequent il
faut que dans la substance simple il y ait une pluralité d’affections et de rapports quoyqu’il n’y en ait
de parties.”
120 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Leibniz, em rigor, idêntica com o conceito de força, ou melhor,


inseparável dele, que, por sua vez, não pode ser separado do
conceito da diferença. Pois, se a substância fosse apenas simples, ou
seja, apenas uma unidade, sem distinção, sem diferença, ela não
poderia tornar-se atividade. Ela é em Leibniz, como Feuerbach
enfatiza, “a individualidade”, "a singularida. Mas, com a
singularidade está colocada, ao mesmo tempo, a pluralidade"
(FEUERBACH, 1969, p. 36),11 “a multiplicidade”. Na medida em que
Leibniz designa a auto-atividade (a força do movimento, a força
motriz, ou seja, a vis motrix) como a essência da substância (ou da
mônada), e esta considerada como inseparável da pluralidade, da
multiplicidade, ele pensa, então, não mais em uma (geral, universal)
Substância, mas sim numa abundância de substâncias. Em oposição
à filosofia de Leibniz há em Spinoza, como mencionado, apenas uma
única substância, pois o conceito de singularidade, de
individualidade, é para ele compatível com o da substância, que não
contém o princípio da diferença, da distinção. Feuerbach descreve a
diferença essencial entre os dois filósofos assim: "a essência de
Spinoza é a unidade, a do Leibniz a diferença, a distinção
(distinktion). A diferença é a ele [Leibniz] a raiz, o princípio, a
essência dos seres e das coisas. Ele une imediatamente à unidade o
conceito da diferença" (FEUERBACH, 1969, p. 38). Este interesse de
Leibniz pela diferença, pela distinção, pelo individual, que fora tão
esquecido por Spinoza, pode ser explicado da seguinte forma: Se
apenas uma substância singular, isto é, Deus existisse, não seria
possível na natureza pluralidade, diversidade, multiplicidade, razão
pela qual há, em vez de uma única, várias substâncias ou mônadas.
Isso constitui uma oposição a Spinoza, que concebe tudo como
partes dependentes, não-autônomas (ou modificações) da
11
O princípio da autoatividade do espírito (Prinzip der Selbsttätigkeit des Geistes) em Leibniz
interpreta Feuerbach da seguinte maneira: um ser autoativo é, para Leibniz, não apenas um em si
mesmo, mas também um ser que se diferencia dos outros. “Sim, eu próprio sou”, diz Feuerbach,
“precisamente, apenas em diferença de outros. (...). Um singular apenas para si é impensável”. E
adiante, escreve ele: “minha atividade é apenas autoatividade, na medida em que eu a sei como minha
e posso diferenciá-la (...) de um outro”
Eduardo Ferreira Chagas | 121

substância única, divina; por isto, Leibniz se volta contra aqueles que
querem identificar seus princípios filosóficos com spinozismo, pois
pela sua teoria das mônadas como princípio da atividade e, ao
mesmo tempo, da diferença a filosofia spinoziana foi superada.
A filosofia de Leibniz diferncia-se também da filosofia
cartesiana, pois Descartes separa, no fundo, um do outro, o espírio
(o pensamento, a substância pensante) (res cogitans) e a matéria (a
extensão, a substância corpórea, física) (res extensa) e vê a essência
do espírito apenas no pensamento. Ele concebe, nisto, a matéria
meramente como uma massa extensa, como extensão
(Ausdehnung), ou seja, apenas a matéria sob forma da matemática:
grandeza, tamanho, figura, comprimento, largura, profundidade,
espessura, forma, etc.. Embora a extensão seja em Descartes uma
determinação essencial da substância extensa, corporal, física (ou da
natureza), ela é como princípio do corpo insuficiente e
demasiadamente estreita para expressar sozinha a essência da
natureza (ou seja, da natureza corpórea), porque ela é composta,
divisível e dependente. Ja que a extensão não pode ser, pois, a
essência da substância, a substância absoluta, a absolutamente
infinita e perfeita, resta, então, para analisar a outra substância, que
Descartes chama de res cogitans (Cf. KÖHLER, 2012). Mas, agora,
Leibniz modificou esta substância pensante, na medida em que ela
se refere, de acordo com ele, não só ao âmbito da consciência, como
em Descartes, mas também ao não consciente, ao número infinito
de coisas individuais, às mônadas finitas. Anteriormente, em sua
obra História da Filosofia Moderna (Geschichte der neuern
Philosophie), Feuerbach já havia criticado Descartes e Hobbes,
porque eles concebem a natureza como "um externo", como uma
massa extensa, como algo "mecânico". "Enquanto Cartesius atribui,
por conseguinte, verdade e essencialidade apenas ao conceito ou ao
pensamento claro e distinto, isto é, abstrato, na medida em que ele
qualifica o corpo, privado de toda sensibilidade, de corpo verdadeiro,
essencial, substancial, portanto faz valer apenas o espírito como (...)
cogitans, ao contrário, já aqui, Leibniz concede, então,
122 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

indiretamente às representações escuras, isto é, sensíveis, um


significado metafísico ou essencial, na medida em que ele inclui uma
qualidade sensível à essência dos corpos, [e] faz valer, assim, (...) o
espírito também como uma essência sensível" (FEUERBACH, 1969,
p. 208). Leibniz reconhece que, além dos princípios lógicos e
geométricos, tais como grandezas, totalidades e partes, figura e
posição, localização (situm) etc., devem ser tomados ainda outros
conceitos, tais como o de força, atividade, movimento, para explicar
e fundamentar a natureza (isto é, a matéria). A essência da matéria
é em Leibniz não mais, como em Descartes, apenas uma “massa
extensa” (ou seja, a extensão), concebida como uma essência fora do
espírito ou de sua atividade. Para ele, constitui a atividade (a força
ou o movimento) do espírito o princípio interior da matéria, a
essência dos corpos em geral. A substância tem forças ativas em si,
então, princípios de atividade que estão ligados com o material.
Neste sentido, Leibniz concebe a matéria (ou, num sentido geral, a
natureza) não como um outro fora do espírito existente, mas apenas
como um puro outro do espírito, como seu "alter ego", ou seja, como
outro eu do Espírito mesmo.
Mas o que é, precisamente, esta força (Kraft), que em
diferença ao cartesianismo fundamenta a natureza interior dos
corpos? O que é esta força, que, em diferença à filosofia spinoziana,
determina as essências finitas (os seres finitos) apenas como modos
(Modi) da substância e traz a matéria para o seu próprio interior?
Que função ela desempenha na filosofia de Leibniz? Ela é, como diz
Feuerbach, "nada mecânico, nada material (...), por conseguinte,
nada composto, divisível, extenso. Pelo contrário, ela é algo
indivisível, simples; ela pertence aos objetos que 'não são objetos dos
sentidos ou da imaginação sensível', (...), mas apenas do espírito,
objeto da razão; ela não é um princípio físicalista, mas ( ...) em si
mesma metafísico, espiritual" (FEUERBACH, 1969, p. 46-47).
Leibniz reconhece que a força como princípio espiritual é a essência
das substâncias simples, pois só o que é substância possui, segundo
ele, a atividade (Tätigkeit), força. A matéria (o corpo, a
Eduardo Ferreira Chagas | 123

divisibilidade, o composto), partindo desse ponto de vista, não pode


ser concebida como substância, porque ela é "puramente passiva" e
derivada. Mas o que é "puramente passivo" e derivado não pode por
si mesmo, de acordo com Leibniz, existir, razão pela qual a matéria
tem na substância simples sua consistência e seu fundamento, sua
realidade e essência. "Para Leibniz", assim comenta Reitemeyer,
"existe o externo, o material, apenas através da representação,
através do princípio interno da auto-atividade; o externo vive
apenas como interno (...). O sentido dos objetos encontra-se, para
Leibniz, apenas no espírito mesmo" (REITEMEYER, 1988, p. 62). A
substância simples é, de acordo com Leibniz, o fundamento de toda
realidade, de toda pluralidade, diversidade e diferença, pois sem
singularidade, unidade ou simplicidade não há pluralidade,
diversidade. A unidade guarda em Leibniz, como Feuerbach nota, "a
pluralidade, a força simples o divisível, a alma junto ao corpo"
(FEUERBACH, 1969, p. 48). Leibniz nomeia, precisamente, essas
substâncias simples de "mônadas" (monás = unidade indivisível
originária), "pontos metafísicos" (points metaphysiques), "formas
substanciais" (formas substantiales), ou "força originária" (vis
originalis, substancias primas), átomos verdadeiros da natureza ou,
dito com outras palavras, elementos espirituais das coisas.12 O
conteúdo da filosofia de Leibniz pode ser resumido, segundo
Feuerbach, assim: as mônadas e os corpos são diferentes, mas não
separados uns dos outros, pois, para Leibniz, os corpos (matéria)
constituem o composto das mônadas e as substâncias simples
(mônadas) a unidade dos corpos, cujo princípio interno é a
atividade; mas a atividade das mônadas, que subsiste em sua
essência imaterial, é a condição, a origem, a fonte e a essência dos
corpos, pois fica absorvida nela toda a existência e realidade. Sem a
força ativa na matéria (ou nos corpos em geral) não haveria

12
A palavra grega mônada (monás) já aparece nos pitagóricos e em Giordano Bruno. Leibniz designa,
neste lugar, as mônadas como enteléquias (Entelechie), cujo conceito provém de Aristoteles e significa
alma (Seele), porque ela desenvolve representações (Vorstellungen) a partir de suas próprias
atividades (Tätigkeiten), através das quais ela representa em si o externo, o universo (Universum).
124 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

diversidade, pluralidade qualitativa, e, com isto, as direrentes


condições dos corpos não seriam, segundo Leibniz, distinguíveis.
Assim explicitado, a mônada contém através de sua atividade "o
princípio da individuação" (Prinzip der Individuation), pois ela
fundamenta, dito com outras palavras, a individualidade
(Individualität), a particularidade (Besonderheit), dos corpos.
As mônadas são a substância da natureza, a essência dos
corpos, pois tudo o que consiste e é, é, para Leibniz, alma em sentido
metafísico e não algo em sentido físico. Somente através das
mônadas são os corpos reais, seres efetivos, porque, sem elas, eles
seriam algo puramente dissoluto, desfeito de si mesmo, algo
abnegado. Quando se diz que as almas ou mônadas são o
fundamento da natureza dos corpos, não se deve entender, todavia,
por causa disto, que seu conceito seja idêntico com a consciência,
por assim dizer apenas como um "ser-para-si" (Fürsichsein) isolado,
separado do “ser-para-outros” (Füranderessein), da matéria, da
natureza. Pertence à mônada (ou à alma) nada mais do que
atividade (Tätigkeit), espontaneidade (Spontaneität), ou seja, o
princípio de suas determinações internas. A espontaneidade é a
marca da mônada, pois ela é, como Reitemeyer escreve, “a força da
alma, para ativar suas atividades de representação, ou ela é a
potência da percepção auto-ativa" (REITEMEYER, 1988, p. 63).
Sobre isto comenta também Feuerbach: "O essencial e característico
das mônadas é, portanto, que elas ‘criem tudo a partir de suas
próprias potências’, que elas ‘tenham em si uma espontaneidade
perfeita’, por conseguinte ‘sejam as únicas causas de suas ações;
pois, como já disse corretamente Aristóteles, espontâneo, voluntário
é aquilo de onde se encontra o princípio no próprio agir’, que elas
dependam, por conseguinte, senão de Deus e de si mesmas"
(FEUERBACH, 1969, p. 51). Mas se as mônadas são dependes apenas
de si mesmas - pois seria logicamente impossível que elas como
substâncias fossem determinadas por um outro ser -, então, elas não
têm, como afirma Leibniz, nenhuma janela, através da qual
qualquer coisa possa entrar nela ou sair dela" (LEIBNIZ, 1985, p.
Eduardo Ferreira Chagas | 125

441).13 Com esta concepção monadológica da substância esbarra


Leibniz, no entanto, numa dificuldade, a saber: se cada mônada
existe para si fechada, isolada, sem relação com as outras mônadas,
como pode, então, uma mônada ser influenciada por uma outra?
Como pode ser estabelecida, então, uma relação entre as mônadas e
a matéria? Não precisam realmente as mônadas de nenhuma janela
para ver e fundamentar a realidade? A resposta para isto encontra-
se não fora, mas no interior mesmo das mônadas. De fato, as
mônadas não precisam de janelas para fora para as outras mônadas,
porque elas, apesar de sua indivisibilidade, individualidade,
singularidade e simplicidade, estão contidas em sua auto-atividade,
diversidade e pluralidade e, por isto, estao em conexão com as
outras. As mônadas representam uma totalidade (Ganzheit) que se
mostra em cada parte da matéria, da natureza, da vida. Isto expressa
Leibniz metaforicamente da seguinte forma: "Cada parte da matéria
pode ser entendida como um jardim cheio de plantas, e como um
tanque cheio de peixes. Mas cada ramo da planta, cada membro do
animal, cada gota de sua força, é um tal jardim ou um tal tanque"
(LEIBNIZ, 1985, p. 471).14 Em oposição a Hegel, que em sua História
da Filosofia (Geschichte der Philosophie) tinha visto no idealismo
leibniziano a pluralidade, a diversidade, apenas pelo lado de sua
exterioridade e não como uma atividade interna da mônada,
Feuerbach reconhece que as mônadas não excluem, de modo
nenhum, a pluralidade das modificações (Modifikationen) (isto é, as
coisas compostas, toda a realidade etc.), que devem ser encontradas
juntas em seu interior. Na mônada está já presente toda a natureza,
o mundo, a realidade, a matéria, pois ela é um “espelho vivo do
universo” (Spiegel des Universums), um microcosmo
(Mikrokósmos), ou seja, uma totalidade para si, na qual está contida
a unidade do interno (interior) com o externo (exterior).

13
“Les Monades n’ont point de fenêtres, par lesquelles quelque chose y puisse entrer ou sortir.”
14
“Chaque portion de la matiere peut être concue comme un jardin plein de plantes, et comme un
étang plein de poissons. Mais chaque goutte de ses humeurs est encor un tel jardin ou tel étang.”
126 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

É importante ressaltar que a mônada, apesar de sua unidade


e simplicidade, não exclui, de modo nenhum, a modificação ou a
mudança desta unidade e simplicidade. Pois, poder-se-ia perguntar:
de onde vem as mudanças no mundo se as mônadas são simples,
indeterminadas, indivisíveis? As mônadas são, é verdade, simples,
independentes, autônomas (autark), mas elas devem ter, como
Leibniz afirma, "algumas qualidades”, propriedades, caso contrário
elas seriam inexistentes. E se as substâncias simples não fossem
pelas suas qualidades diferentes uma das outras, não haveria
nenhum meio para se observar alguma mudança nas coisas (...); e
já que as mônadas sem qualidades seriam indistinguíveis umas das
outras, (...) assim manteria, portanto, (...) no movimento de cada
lugar sempre um conteúdo, (...) e um estado de coisas não seria
diferente de um outro" (LEIBNIZ, 1985, p. 441-43).15 Mas o que são,
então, essas qualidades das mônadas, sem as quais uma mudança
seria impossível e através das quais as mônadas se diferenciariam
umas das outras? As qualidades de uma mônada são
"autodeterminação" (Selbstbestimmungen), "exteriorização de
força" (Kraftäusserung), "ações" (Handlungen) (Aktionen), que,
como já mencionado acima, provêm não de fora, mas das mônadas
mesmo. Já que as qualidades das mônadas são determinações ideais,
imateriais, que vêm de dentro e lá permanecem, elas são nada mais
que percepções (Perzeptionen), representações (Vorstellungen). Isto
significa que a representação expressa uma determination
espiritual, ou seja, uma determinação da alma. Feuerbach escreve:
"A mônada é uma força da representação" (FEUERBACH, 1969, p.
53). E a representação, Feuerbach cita Leibniz em seguida: “‘é nada
mais do que a repräsentation (apresentação e representação) do
composto ou do externo, isto é, da pluralidade na unidade’, ou ‘a

15
“Cependant il faut que les Monades ayent quelques qualités, autrement ce ne seroient pas même des
Etres. Et si les substances simples ne differoient point par leur qualités, il n’y auroit point de moyen
de s’appercevoir d’aucun changement dans les choses, (...) et les Monades étant sans qualités seroient
indistinguables l’une de l’autre, (...) et par conssequent (...) chaque lieu ne recevroit tousjours dans le
mouvement que l’Equivalent de ce qu’il avoit eu, et un état des choses seroit indiscernable de l’autre.”
Eduardo Ferreira Chagas | 127

condição passageira que contém e representa a pluralidade na


unidade ou na substância simples’” (FEUERBACH, 1969, p. 54). Ou
também: “‘diversidade na unidade, nada mais exigido para a
representação’” (FEUERBACH, 1969, p. 54). As mônadas incluem
em si atividade, pela qual uma mudança "contínua" é realizada, e
assim elas podem passar constantemente de uma representação
para outras.
Todas as mônadas concordam nisto, a saber, que elas
representam sempre alguma coisa, e, assim, segundo Feuerbach, a
diferença entre elas consiste, nada mais, nos diferentes graus da
representação. De acordo com Leibniz, as mônadas se diferenciam
umas das outras por suas representações, para as quais ele descreve
diferentes graus, a saber: a) as mônadas inferiores ou fracas
(niederen oder blossen Monaden), que têm as representações
(perceptionen) inconscientes, confusas, escuras, como a natureza, o
composto, o matéria, os corpos etc.; b) as mônadas próximas às
inferiores (nächstniedrigeren Monaden), que estão ligadas com o
sentimento, a sensação, a memória, a lembrança, como os seres
vivios, a saber, animais, plantas, etc.; c) as mônadas reflexivas
(reflexiven Monaden), que têm autoconsciência, isto é, consciência
de suas próprias percepções (apperceptionen, Wahrnehmung), como
homem, e, finalmente, d) a mônada superior (höchste Monade),
mais elevada, que tem representações claras, perfeitas, como Deus.
Em geral pode-se dizer que a principal diferença entre as
representações na filosofia leibniziana é sua clareza (ou nitidez)
(Deutlichkeit) e sua confusão (ou obscuridade) (Dunkelheit). Então,
uma representação ou é clara (deutlich) ou confusa (konfus). Uma
representação, de acordo com o pensamento de Leibniz, é clara,
quando se pode reconhecer através delas imediatamente os objetos;
pelo contrário, ela é escura, obscura, quando ela não é suficiente
para reconhecer uma coisa representada. Será aqui tratado apenas
das representações confusas, obscuras, porque elas ocupam um
lugar especial no interior da filosofia de Leibniz. As representações
que se encontram em cada mônada finita são confusas e não claras,
128 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

na medida em que elas expressam a pluralidade e a diversidade.


Quando as mônadas incluem em si a pluralidade, a multiplicidade,
então estas representações são nada mais do que uma expressão das
mônadas e de suas relações. "As mônadas confusas contêm, pois, a
matéria mais importante e profunda, mas também a mais difícil e
complicada, da filosofia de Leibniz – a conexão da mônada com as
outras mônadas" (FEUERBACH, 1969, p. 60). Mas para entender
corretamente esse ponto, é sobretudo necessário, segundo
Feuerbach, não salientar isoladamente, para si, as diferentes
determinações das mônadas, mas, em vez disto, apreendê-las em
sua totalidade. As mônadas são não apenas diferentes, mas também
separadas umas das outras, pois cada mônada é um ser para-si, "um
mundo para si" (eine Welt für sich), uma unidade auto-suficiente. A
determinação do ser-para-si, à qual se reduz, segundo a Lógica de
Hegel, o átomo, é também uma determinação essencial da mônada.
Frente a Hegel, pensa Feuerbabch que esta determinidade do ser-
para-si "não é sua única, pois seu ser-para-si não é o ser-para-si
duro, resistente, inflexível do átomo, que é em si mesmo uma
existência externa, indiferente" (FEUERBACH, 1969, p. 60), como
ele aparece na doutrina materialista-atomista de Demócrito e
Epicuro. O ser-para-si das mônadas é, ao contrário, um ser-para-si
“pleno”, “cheio de conteúdo”, que já contém em seu interior o
exterior ou, melhor dito, a representação (repräsentation) da
pluralidade, da multiplicidade, das coisas "Esta particularidade", diz
Leibnitz, "deve incluir uma pluralidade na unidade ou no simples.
(...) E, por conseguinte, deve-se dar na substância simples de uma
pluralidade de momentos de determinação e relações, embora não
haja partes dela" (LEIBNIZ, 1985, p. 443).16 Desta maneira, a
mônada gera internamente uma possibilidade de achar em si
mesma já o ponto de partida de sua relação com a matéria (ou com
a externalidade) e, simultaneamente, com outras mônadas.

16
“Ce detail doit envelopper une multitude dans l’unité ou dans le simple. (...) Et parconsequent il faut que
dans la substance simple il y ait une pluralité d’aaffections et der rapports quoyqu’il n’y en ait de parties.”
Eduardo Ferreira Chagas | 129

O primeiro ponto de partida desta relação entre as mônadas


encontra-se nisto, a saber, que com o conceito da mônada, como já
mencionado, foi já admitida uma multiplicidade de mônadas. Sobre
isto explica Leibniz: "observamos mesmo uma pluralidade na
substância simples, de modo que achamos que o menor
pensamento, do qual nos tornamos conscientes, inclui uma
diversidade em seu objeto. Assim, todos aqueles que reconhecem
que a alma é uma substância simples, também devem reconhecer
essa pluralidade na matéria" (LEIBNIZ, 1985, p. 445).17 A mônada é,
sim, apenas uma das muitas outras mônadas, mas ela tem tudo para
o seu objeto, na medida em que ela é também uma representação do
todo (Vorstellung des Ganzes), do universo (des Universums). O
objeto da representação da mônada não é, por conseguinte, um
objeto isolado, limitado, mas a realidade toda ou, com outras
palavras, a totalidade das mônadas. Aqui é claro o argumento de
Leibniz, pois o conceito de mônada, no qual foi pressuposto,
necessariamente, a pluralidade das mônadas, contém já,
internamente, o vínculo "comum" das mônadas. A mônada possui,
como Feuerbach escreve, "relações essenciais com todas as
mônadas, e estas relações suas são, precisamente, suas
representações. ‘Representação e impulso têm todas as mônadas,
pois senão não teria uma relação com as outras coisas"
(FEUERBACH, 1969, p. 61). Esta comunidade, essa comunhão das
mônadas, precisa ainda Feuerbach, é "a representação de outras
mônadas, que pertence essencialmente a cada mônada"
(FEUERBACH, 1969, p. 61). Representações significam, então, em
Leibniz, as “relações” (rapports), as conexões reciprocas entre as
mônadas. Mas, já que as representações pressupõem objetos, pode
ser afirmado, de acordo com a interpretation de Feuerbach, que a
matéria possibilita produzir, assim, este vínculo recíproco das
mônadas, o meio (medium) ou o ponto de sua comunicação
17
“Nous experimentons nous mêmes une multitude dans la substance simple, lorsque nous trouvons
que la moindre pensée dont nous nous appercevons enveloppe une varieté dans l’objet. Ainsi tous
ceux, qui reconnoitre cette multitude dans la Monade”.
130 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

(kommunikation). Feuerbach tenta examinar, agora, a consideração


de Leibniz acerca da matéria (Materie) como representação do
espírito (ou da mônada).18 A ideia, através da qual a matéria forma
"o vínculo geral" das mônadas ou uma representação da mesma, é,
para Feuerbach, uma ideia “elevada e profunda do pensamento” da
filosofia de Leibniz. Mas esta apresentação da matéria é
problemática, pois ela aparece ao pensamento puro, "espiritual",
como um paradoxo (paradox), como também a fraseo de Spinoza
que a matéria é um atributo da substância divina. Ao teísmo vale a
matéria, pelo contrário, apenas como a determinação externa, que
está separada do espírito e, por isto, como algo puramente
"negativo", um "não-ser" (nicht-sein), que impede uma completa
"fusão" com o pensamento. Em oposição a isto vê Feuerbach, na
filosofia de Leibniz, a matéria como "a necessidade que encadeia
todas as mônadas, como o órgão da sensibilidade e irritabilidade,
como o nervo simpático que conecta o interior com o exterior"
(FEUERBACH, 1969, p. 64). Mas a matéria não é, para Leibniz,
apenas "o vínculo das mônadas" (das Band der Monaden), mas, ao
mesmo tempo, também a representação de sua respectiva limitação
(Begrenzung). Ela é em Leibniz somente uma representação das
mônadas “como elas foram representadas por cada singular"
(FEUERBACH, 1969, p. 65), por isto é ela "para nós a contemplação
dos limites da mônada" (FEUERBACH, 1969, p. 65). Pois, para uma
mônada, a representação de uma outra mônada é a representação
de seu próprio limite, de sua própria fronteira. Assim, a matéria
como limite (Grenze) da mônada singular, individual, é para Leibniz
uma representação limitada, defeituosa, imperfeita, insuficiente e
finita. Isto é: como limite, barreira, é ela para Leibniz nada mais do
que uma representação "obscura" (obscurus) e "confusa"
(confusus). Como Feuerbach ilustra, a matéria é para Leibniz, “por

18
Cf. Schuffenhauer, W. Aut Deus – Aut Natur – Zu Ludwig Feuerbchs Spinoza- und Leibniz-Bild,
op. cit., p. 285: “Em seu ‘Leibniz’ (…) giravam as investigações de Feuerbach exatamente no sentido
de sua adiante (…) citada observação sobre o motivo próprio de sua ocupação com Leibniz, sobretudo
pela pergunta do lugar da matéria na filosofia de Leibniz”.
Eduardo Ferreira Chagas | 131

conseguinte, como que uma demência da mônada, uma perturbação


da vida de sua alma. Só o espírito é claridade" (FEUERBACH, 1969,
p. 67). O espírito (der Geit) (a alma ou a mônada) é distinto, nítido
(deutlich) e claro (klar), porque ele é, para Leibniz, “‘uma imitação
de Deus’" (Nachahmung); ele é como Deus (Gott), "‘simples, mas
também infinito e inclui tudo, desde as representações confusas"
(FEUERBACH, 1969, p. 217), mas ele é limitado em comparação com
Deus, que é ato puro (actus purus).
A idéia, que concebe a matéria como representação, aparece,
de acordo com Feuerbach, aos "homens comuns", que entendem a
representação apenas como "o ideal" (das Ideale) e a matéria como
"o real" (das Reale), como "uma blasfêmia" (Blasphemie). Leibniz
entende, entretanto, por representação (Vorstellung) nada de irreal,
pois ela constitui "a vida" (das Leben), isto é, a força (die Kraft) (a
atividade) (die Tätigkeit) das mônadas, que é a fonte (die Quelle) e
o fundamento (der Grund) de toda a realidade (aller Realität). “A
vida” (das Leben) é, para Leibniz, inseparável da representação, pois
“uma vida sem representação é apenas uma vida segundo a
aparência, a própria vida é nada mais do que o princípio da
representação” (FEUERBACH, 1969, p. 68). Do mesmo modo, a
matéria é uma representação do espírito, na qual as mônadas estão
interligadas. Ela é necessária, já que ela é a fonte da pluralidade, da
multiplicidade, da diversidade, pela qual as mônadas se diferenciam;
quer dizer, a diferencialidade em relação às representações das
mônadas depende da matéria. Mas, pertence ao conceito de matéria
"nada mais que o conceito de obscuridade e de falta de liberdade,
pois a falta de liberdade está onde não há claridade de espírito"
(FEUERBACH, 1969, p. 69). A tarefa agora reside em mostrar como
as mônadas e a matéria (ou as representações confusas) se
relacionam. Para isto, Leibniz estabele a hipótese de uma "harmonia
preestabelecida" (prästabilierten Harmonie) (isto é, Deus mesmo)
como a base desta relação. "Assim deve", como ele afirma, "residir o
fundamento último das coisas numa substância necessária, (...) e
132 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

esta substância chamamos de Deus" (LEIBNIZ, 1985, p. 455-57).19


Deus (o actus purus) é para ele o terminus medius da união (unio)
recíproca das mônadas e, ao mesmo tempo, daquela entre as
mônadas e a matéria. Em relação às mônadas, Deus é, para Leibniz,
"nada mais do que o princípio de sua unidade e concordância
recíproca, a ordem que orderna as mesmas, isto é, precisamente, o
fundamento superior da ordem" (FEUERBACH, 1969, p. 136-37);
Deus une, então, "as mônadas uma com as outras"; ele concilia a
alma com um corpo, a unidade com uma diversidade, com uma
pluralidade ilimitada. Feuerbach destaca aqui um ponto fraco da
filosofia leibniziana, a saber, que as mônadas não se ligam de si e
através de si mesmas umas com as outras, porque a "harmonia
preestabelecida" (harmonia predeterminada) significa uma essência
externa, apartes, "teológica", ou seja, "extramunda"
(extramundanes) fora e acima delas. A representação de uma
assistência, de um auxílio (Beistand), de Deus (isto é, de uma
"harmonia pré-estabelecida"), fundada na doutrina da
predestinação (Prädestinationslehre), contradiz, no entanto, o
conceito de mônada como um todo absoluto, como um "automat
spirituel", como uma unidade absoluta, como uma essência (per se)
independente, autônomo, como um ser-para-si ou uma
autodeterminação, que não precisa de nenhuma junção
(Verknüpfung) externa, para consolidar a comunicação
(kommunikation) com as outras mônadas.
Da concepção de Leibniz da matéria como uma representação
do espírito forma Feuerbach, por conseguinte, uma determinação
mais ampla, a saber, que a matéria é também "a representação e
contemplação de uma essência que existe fora de mim (e, na
verdade, praeter me)" (FEUERBACH, 1969, p. 65-66). Asssim, chega
Feuerbach à convicção que a matéria é não apenas, como em
Leibniz, uma representação do espírito (Vorstellung des Geites),

19
“Et c’est ainsi que la derniere raison des choses doit être dans une substance necessaire, (...) et c’est
ce que nous appelons Dieu.”
Eduardo Ferreira Chagas | 133

uma contemplação espiritual (geistige Anschauung), por assim dizer


um outro eu ("um alter ego") do espírito, mas o outro do espírito
como um outro mesmo (ein Anderes selbst), fora do espírito; isto é,
ela é uma representação de um outro como um outro (ein Anderes
als ein Anderes). Com isto, a matéria deve ser tratada, conforme
Feuerbach, "não mais como uma representação, mas como objeto
da representação" (FEUERBACH, 1969, p. 72) e entendida não como
"demência" ou "perturbação" das mônadas, porque ela existe fora
do espírito e, ao mesmo tempo, constitui a sua realidade necessária,
externa, e o seu conteúdo. No final do § 19 da Apresentação
(Darstellung) da Filosofia de Leibniz, Feuerbach expõe sua crítica à
filosofia leibniziana, à qual ele designa como "idealismo". Feuerbach
determina o limite da mesma da seguinte forma: "A alma não é uma
substância particular e finita (...); ela é toda a verdade, essência e
realidade; pois, apenas o ser ativo é o ser real, verdadeiro, mas toda
atividade é atividade da alma, o conceito da atividade é não outro
que o conceito da alma, e vice-versa" (FEUERBACH, 1969, p. 160).
Fora da mônada (isto é, da alma) existe "ainda uma outra
substãncia, oposto a ela”, isto é, “uma substância material"
(FEUERBACH, 1969, p. 160). Na medida em que a mônada está
ligada com a matéria, consiste esssa última, no entanto, como já
demonstrado, numa atividade limitada, por conseguinte, é a matéria
restrição, limite de sua atividade. Assim, com bases nesses
argumentos, Feuerbach questiona se reside, realmente, na base do
"idealismo" de Leibniz uma síntese da contradição histórica entre
matéria e alma, entre natureza e espírito.
Antes de expor a análise questionadora de Feuerbach sobre a
filosofia de Leibniz como uma refutação do dualismo do espírito e
da natureza (matéria), faz-se necessário apresentar, neste sentido,
dois diferentes pontos de vista do idealismo sobre essa relação entre
alma e matéria: considerando o primeiro ponto de vista, o espírito
vê a natureza como um outro, como que um outro fora dele, uma
exterioridade (Äusserlichkeit). Partindo do segundo ponto de vista,
o espírito concebe a natureza como seu "alter ego" (como o outro eu
134 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

do espírito). Este último qualifica Feuerbach como ponto de vista


"poético ou antropológico" (poetischen oder antropologischen
Standpunkt), no qual há uma identificação do homem com a
natureza. "É o ponto de vista, no qual o homem não faz distinção
entre si e as coisas, aqui ele vê-se por toda parte, vê por toda parte
vida, e, na verdade, vida em sua própria maneira individual-
humana, acha por toda parte sensação" (FEUERBACH, 1969, p. 162).
A sensação (a sensibilidade) (Empfindung) nega aqui, inteiramente,
a essência, o ser, de um outro mundo; ele não dúvida, certamente,
que a realidade da natureza, por exemplo, árvores, montanhas, sol,
lua, etc., exista fora dele, mas "as árvores" são para ele "não
árvores", "os corpos não corpos", mas seres semelhantes a ele, seres
sensíveis. À sensação (à sensibilidade) é a natureza "um eco, em que
ele ouve só a si mesmo" (FEUERBACH, 1969, p. 162). Tal ponto de
vista idealista atribui sensação (sensibilidade) a todas as coisas,
porque esta (a sensibilidade) vale aqui como a realidade absoluta.
Em oposição a isto, qualifica Feuerbbach aquele primeiro ponto de
vista como ponto de vista "subjetivo-lógico" (subjektiv-logischen
Standpunkt), isto é, como o ponto de vista da crítica e da reflexion.
Trata-se para Feuerbach, em suma, de um ponto de vista subjetivo,
"onde o homem se diferencia das coisas” e entende, “em geral, essa
diferença como pensamento, este pensando como sua essência"
(FEUERBACH, 1969, p. 63). A partir desse ponto de vista, tudo se
limita ao pensamento do sujeito, e a natureza (Natur) é vista apenas
como um outro externo do espírito. Embora a natureza possa ser
reconhecida como uma existência independente, ela aparece, a
partir dessa perspectiva, segundo sua essência como algo apenas
"negativo" (Negatives) e “sem essência" (Wesenloses). Em contraste
com o segundo ponto de vista, isto é, "ao poético ou antropológico",
em que o homem se encontra em harmonia com a natureza
(Harmonie mit der Natur), caracteriza Feuerbach o primeiro, ou
seja, "o subjetivo-lógico", como o "ponto de vista da separação, da
luta, da discórida [entre espírito e matéria, entre pensamento e
natureza]; ele traz, portanto, em si mesmo a carência e a
Eduardo Ferreira Chagas | 135

necessidade de uma mediação" (FEUERBACH, 1969, p. 63).


Feuerbach acredita que essa mediação (Vermittlung) pode ser
encontrada na filosofia de Leibniz mediante o princípio da
representação. A representação confusa (konfuse), sem espírito
(geistlose), sem pensamento (gedankenlose) é, precisamente, em
Leibniz um “meio de ligação” (Verbindungsmittel) (medium
tertium) entre o espírito e a natureza ou o mundo, pois o espírito
tem já em seu interior uma representação da exterioridade
(Äusserlichkeit), da pluralidade da natureza. A representação
consolida, então, a harmonia do espírito com a natureza, pois
através dela o espírito traz para o seu interior a matéria, que, de
acordo com "o ponto de vista lógico-subjetivo", encontrava-se fora.
Na medida em que ela contém uma relação do espírito para consigo
mesmo e, simultaneamente, para os objetos externos, ela está
ligada, de maneira necessária, com a sensação (a sensibilidade), isto
é, com aquele princípio, que fundamenta a harmonia do homem
com a natureza. Isto manifesta Feuerbach assim: "A representação
é a reflexion do objeto sobre si na e dentro da reflexion do mesmo
para mim, que é a sensação, aquela [representação] é expressão,
esta [sensação] a impressão dele [do objeto]" (FEUERBACH, 1969,
p. 164). Embora a representação e a sensação (sensibilidade) não
sejam absolutamente separadas uma da outra, porque ambas são
atividades do espírito, elas se diferem, no entanto, uma da outra. "A
representação nos dá o mundo, a sensação de nós mesmos. (...)
Apenas na sensação reside a certeza da minha existência, de mim
mesmo. Em comparação com isto, a representação é o representante
do mundo exterior em nós, o espelho do universo, a repräsentation
da diversidade na unidade, o konnex (ideal) e a rapport com os
objetos” (FEUERBACH, 1969, p. 165). A representação
(repräsentation ou perzeption) como unidade do composto no
simples ("representationes in simplici") é para Leibniz a essência das
mônadas, pois nela o espírito está em harmonia consigo mesmo e
com a natureza.
136 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Leibniz concebe, entretanto, a representação não como um


atributo universal da substância em geral, já que ela é, para ele, é a
mediação do interior (interno) com o exterior (externo), que contém
toda mônada em si mesma. A mônada não espelha, não reflete, apenas
a sua determinação espiritual, interna, mas também todo o universo
(das ganze Universum). Assim visto, de acordo com a interpretation
de Feuerbach, incorre Leibniz, embora ele tenha concebido
originalmente a mônada como a unidade do espírito com a matéria,
numa separação entre alma e matéria: ambas representam em Leibniz
duas essências particulares, independentes, que se diferenciam, pois,
uma da outra, sendo uma a composta e a outra a essência simples.
Além disto, Leibniz concebe a matéria apenas como uma
representação confusa, não espiritual, sem pensamento, isto é, como a
pura imperfektion ou como a negation do espírito ou da alma, e, com
isso, ele deixa, no final, ambas essências, espírito e matéria, novamente
como duas essências separadas uma da outra. Desta forma, Leibniz
não superou, segundo Feuerbach, a separação entre espírito e matéria,
pois o vínculo entre eles é a representação, que é, por sua vez, apenas
um princípio puramente espiritual das mônadas. A conexão entre
espírito e matéria é, portanto, em Leibniz apenas aparente (scheinbar),
representada, não efetiva, sem uma idéia da realidade e do significado
da sensilidade (Sinnlichkeit). A sensualidade "tem, de fato, para ele
apenas o significado de uma barreira, de uma negação, ela é para ele
apenas a anulação ou privação da clareza e distinção da representação"
(FEUERBACH, 1969, p. 323). Assim constata Feuerbach que em
Leibniz apenas o espírito é o verdadeiro ser, a efetividade, e, com isto,
vale a sensibilidade como "irreal" (Unwirkliches), limitação
(Beschränkung), imperfeição (Unvollkommheit), como que um desvio
do espírito (Ablenkung vom Geist), razão pela qual ele concebe sua
negação (a negação da sensibilidade) como a essência das mônadas.
"Mas, precisamente, por causa desta limitação", afirma Feuerbach em
contraste com a filosofia de Leibniz, "o indivíduo ganha mais em
significado intenso, mais em valor qualitativo. (...) Só no amor tem o
indivíduo valor absoluto" (FEUERBACH, 1969, p. 328). "E em geral,
Eduardo Ferreira Chagas | 137

onde o homem abandona o ponto de vista dos sentidos, onde ele se


esquece que apenas o sentido dá-lhe coisas, seres, objetos reais, fica ele
à mercê do poder das meras palavras" (FEUERBACH, 1969, p. 286).
Se a teoria das mônadas ou o idealismo em geral tivesse razão, não
haveria, assim argumenta Feuerbach, nenhum outro ser, outra
essência, como, por exemplo, a árvore, a pedra, a estrela, fora da alma,
do espírito, e assim seria a sensibilidade ou o ser sensível pura
aparência (Schein). “Eu chego”, defende Feuerbach agora seu novo
ponto de vista, “portanto, por esta contemplação a uma nova verdade,
a verdade do ser e da essência sensíveis, verdade essa que eu vingo, de
moda algum, do ponto de vista do meu eu monástico. Tão certo é o
outro homem uma essência que existe fora de mim, tão certo é a
árvore, a pedra é uma essência que existe fora de mim" (FEUERBACH,
1969, p. 215). Não se trata mais para Feuerbach de provar para o
homem que o sensível (das Sinnliche) é apenas aparência (Schein) e o
pensamento (das Denken) é verdade (Wahrheit); que o ser sensível é
apenas um ser aparente, mas o ser racional é a essência verdadeira. Ao
contrário, verdade pertence, de acordo com Feuerbach, apenas ao
ponto de vista da sensibilidade (Sinnlichkeit), que pode dar totalidade
(Totalität) e individualidade (Individualität).
A sensibilidade é o âmbito da realidade em que as coisas se
revelam. O externo (o exterior) pressupõe o interno (o interior), mas
apenas em sua exterioridade, na sensibilidade, realiza-se o interno.
Nesta certeza imediata, ou seja, nesta verdade de um outro fora do
espírito, a saber, a vida, a natureza, e não no significado teórico dos
sentidos, não na origem dos sentidos da idéia, baseia-se, segunda
Feuerbach, a verdade da sensibilidade. Para ele, a sensibilidade está
defronte do espírito, mas isso não deve ser mal entendido, pois ele
entende sobre sensibilidade não primariamente a realidade
representada, pensada, feita, mas a realidade material, que existe fora
e independente do espírito, mas é dada ao homem em seus sentidos.
Ela é a unidade viva, existente, da materialidade (da corporeidade) e
da espiritualidade, pois ela existe tanto no homem como na natureza.
Como consequência necessária da sua crítica a Leibniz, Feuerbach
138 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

chegou a este novo ponto de vista, que não tem mais por objeto um
princípio externo ou suprasensível, como o Absoluto em Hegel, mas a
sensibilidade como unidade imediata de sujeito e objeto, isto é, a
sensibilidade como ponto de partida da negation do dualismo entre
espírito e corpo (matéria). A diferença entre corpo e alma, entre ser
sensível e não-sensível, é para Feuerbach apenas teórica, abstrata, pois
a essência de um ser não pode ser separada de sua existência, e vice-
versa; na práxis, na vida, eles estão unidos. A dor, a sensação em geral,
prova que a divisão do homem em corpo e alma, em existência e
essência, é algo que o pensamento abstrato realiza. Algo que não é
sensível, então não é real, não pode nem ser nem ser pronunciado. A
existência concreta é, portanto, unidade produzida pelo vínculo dos
sentidos, ou seja, pela sensibilidade. Com esta ênfase na sensibilidade,
situada no âmbito da vida humana prática, aponta a obra de
Feuerbach sobre Leibniz para a passagem do idealismo para o
materialismo antropológico. Daqui em diante ocorre na filosofia de
Feuerbach uma viragem que diz respeito à crítica a Hegel e ao
idealismo em geral. Nesta pesquisa, irei investigar, precisamente, esta
nova posição da sensibilidade, do mundo material, do natural, frente
ao espírito abstrato e sobrenatural da especulação, do idealismo e da
teologia e de sua importância para o desenvolvimento epistemológico
da filosofia de Feuerbach em relação à sua concepção da natureza.

2.4. Natureza em Feuerbach e a Crítica de Marx e Engels

Como cerne de sua oposição ao teísmo (seja ao Cristianismo,


seja ao paganismo), à filosofia especulativa e ao Idealismo Alemão
(Fichte, Schelling e Hegel). Feuerbach recusa tanto o teísmo quanto o
Idealismo e, frente a ambas posições, faz valer que a natureza, apesar
de sua mutabilidade (como um desenvolvimento contínuo de
intervenções, uma justa posição de momentos evolucionais e
catastrofais), deve ser entendida e esclarecida como algo eterno,
indeduzível, objetivo e necessário. A natureza é, pois, o primeiro, o
originante, o que produz tudo de si e não pode ser pensada como
Eduardo Ferreira Chagas | 139

produzida, pois ela existe por si e acha seu sentido tão-somente em si


mesma. Ademais, ela é para Feuerbach não só o que limita, mas
também a potência que assegura ao homem a possibilidade, a condição
para satisfazer as suas necessidades múltiplas. Natureza, assim diz ele,
“é tudo o que se mostra ao homem, abstraído das insinuações
supranaturais da crença teística, imediato e sensorialmente como base
e objeto de sua vida” (FEUERBACH, 1967, p. 104). Embora a concepção
de natureza de Feuerbach não seja atomístico-mecânica, já que para
ele a natureza não é nenhuma máquina, nenhuma pura “res extensa”,
sem vida, nenhuma grandeza lógico-matemática, isto é, nenhum
universo que se movimenta necessariamente segundo leis mecânicas,
são a ele “sensibilidade”, “vivacidade”, “vitalidade”, “fisicalidade”,
“exterioridade” conceitos similares para a existência material da
natureza, pois a natureza que existe real e objetivamente expressa sua
existência material através de efeitos físicos, de fenômenos naturais
que existem não apenas idealmente no entendimento, mas constituem
também para o homem efeitos sensíveis, observados sensivelmente.
As teses fundamentais do conceito de natureza em Feuerbach contra o
teísmo e o Idealismo podem ser sintetizadas assim:

1. natureza é, em primeira linha, uma verdade dada aos sentidos. Como


objeto dos sentidos, ela não é um produto nem da atividade de um eu
puro, do desenvolvimento do espíritio, nem da vontade de um Deus
sobrenatural, mas, pelo contrário, é uma essência autônoma que existe
independentemente da consciência humana.

Natureza (...) é tudo o que tu vês e não se origina das mãos e dos
pensamentos humanos. Ou, se quisermos penetrar na anatomia da
natureza, ela é o cerne ou a essência dos seres e das coisas, cujos
fenômenos, exteriorizações ou efeitos, nos quais exatamente sua
essência e existência se revelam e dos quais constam, não têm seu
fundamento em pensamentos, intenções ou decisões do querer,
mas em forças ou causas astronômicas, cósmicas, (...) químicas,
físicas, fisiológicas ou orgânicas (FEUERBACH, 1967, p. 105).

2. a natureza é incriada, eterna, não deduzível; ela é em si mesma, existe


apenas por si mesma e não por meio de uma outra essência;
140 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

3. a natureza é necessária. Porque ela é, é ela necessária, e exatamente


assim como ela é, isto é, correspondendo às suas próprias leis. Se, a
saber, tudo o que é, é necessariamente por meio da natureza, assim
não tem sentido aceitar um espírito ou um Deus criador que planeja
para o esclarecimento da natureza e, por fim,
4. a natureza corresponde apenas a si mesma. A palavra “natureza”
designa “a essência de todas as forças, coisas e seres sensíveis que o
homem distingue de si como não-humanas.” Assim, esclarece
Feuerbach:

Entendo em geral sobre natureza, certamente como Spinoza, não um


ser como o Deus supranaturalístico, que existe e age com vontade e
razão, mas que atua somente conforme a necessidade de sua
natureza; mas ela não é para mim, como é para Spinoza, um Deus,
ou seja, um ser ao mesmo tempo sobrenatural, transcendente, (...)
misterioso, simples, e sim um ser múltiplo, (...) real, perceptível com
todos os sentidos (FEUERBACH, 1967, p. 104).

A natureza é, pois, apenas explicável, quando se reconhece


que ela não é nenhum ser abstrato, despojado de existência, mas a
unidade da diversidad das coisas que são reais, concretas; ou
melhor, ela é a multiplicidade dos entes singulares, e fora dela nada
tem existência real, a não ser pensamentos e representações.
Frente ao teísmo e ao Idealismo, que deduzem a natureza de
Deus ou do espírito, Feuerbach argumenta o seguinte:

1. a natureza precede o espírito e, por isso, é a base orgânica do mesmo;


2. o espírito é, pelo contrário, um produto da natureza, também uma
funktion de um órgão natural, do cérebro humano, ou seja, uma
atividade que não está fora do corpo e dos sentidos e
3. Deus, como criador da natureza, do mundo, é, em verdade, apenas o
espírito do homem pensado universalmente.A aceitação de um Deus,
de uma criação espiritual da natureza, por assim dizer de uma
transferência das representações do pensamento sobre a natureza,
está em completa oposição à existência da natureza.

Ex nihilo nihil fi, do nada nada vem, isto é uma lei geral da natureza
e da razão, válida universalmente. Um mundo, criado em oposição
a esta lei fundamental, é uma contradição consigo mesmo, uma
Eduardo Ferreira Chagas | 141

contradição com todas as leis da natureza; é, em síntese, o mundo


invertido da teologia, em que o pensamento é anterior à matéria e
ao objeto do pensamento, ou seja, a criança anterior à mãe, a
grama ao sol (FEUERBACH, 1969, p. 259).

Feuerbach acentua:

Se não estou louco, como posso deixar nascer seres irracionais de


um ser racional? Como pode um espírito produzir seres sem
espírito? (...) Na verdade, se um Deus existe, é a existência do
mundo inexplicável, porque ela [seria] inteiramente supérflua
(FEUERBACH, 1967, p. 161-62).

À objeção teístico-idealista “como pode o homem surgir da


natureza, ou seja, o espírito da matéria” opõe Feuerbach o seguinte:

Responda-me, sobretudo, primeiro a pergunta: como pode nascer


do espírito a matéria? Tu não achas para esta pergunta nenhuma
resposta, pelo menos racional, assim tu reconhecerás que apenas
a resposta oposta conduz a ti para o objetivo (FEUERBACH, 1971,
p. 179).

Não a dedução do espírito da natureza, mas, pelo contrário, a


Deduktion da natureza do espírito, é, pois, um problema insolúvel.
Para Feuerbach, é, por conseguinte, racional começar com a
natureza e só daqui passar para o homem, para o espírito.
Os argumentos, que se poderiam expor para a defesa da tese
feuerbachiana no que tange ao primado da natureza e do
nascimento do homem dela, ou seja, do esclarecimento da natureza
por ela mesma, podem ser apresentados, resumidamente, assim:

1. a natureza não pode ser deduzida do espírito, já que ela possui uma
qualidade completamente diferente dele; mas o espírito pode ser
deduzido dela e esclarecido por ela, porque o homem, como criação da
natureza, é a identidade de todas as oposições, isto é, a unidade do
espiritual com o natural. O homem, no qual a natureza veio à
consciência, sabe de si, conhece a si mesmo como unidade real, viva,
do espírito e do corpo, de todas as qualidades ativas e passivas,
142 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

espirituais e sensíveis. Aqui se encontra, para Feuerbach, o cerne


verdadeiro da unidade do pensar e do ser, pois o pensamento humano,
como sujeito autônomo,

que não tem mais fora de si nenhuma coisa e, por conseguinte,


mais em si nenhum limite, não é mais sujeito ‘finito’ - não é mais
o eu, ao qual se contrapõe um objeto - é o ser absoluto, cuja
expressão teológica ou popular é a palavra ‘Deus’. É, na verdade, o
mesmo sujeito, o mesmo eu, como no idealismo subjetivo - mas
sem limites, o eu que já não parece também ser eu e, por
conseguinte, também já não se chama mais eu (FEUERBACH,
1970, p. 299).

O espírito (o eu) não é, pois, apenas sujeito para si, mas


também simultaneamente predicado de uma essência real; ou seja,
ele não é, de modo nenhum, por si mesmo como tal, mas por si como
essência corporal, sensível; pela corporalidade, ele está aberto à
natureza, ao mundo, pois estar no corpo quer dizer nada mais do
que estar no mundo;

2. A natureza não pode ser deduzida do espírito, porque o inferior (o


anterior = a antureza) não pode ser esclerecido e deduzido do superior
(do posterior = o espírito), mas antes, pelo contrário, o superior do
inferior, como todo desenvolvimento prova. Deduzir a natureza do
espírito é, por conseguinte, ilógico, sem sentido, pois por que se deve
fazer passar o “superior” por algo “inferior”, o komplex pelo simplex,
o “perfeito” pelo “imperfeito”? Feuerbach advoga que a natureza
produziu de si mesma o homem; ou seja, ela é a essência, da qual o
homem nasceu e pela qual mantém a sua existência. A natureza é

[...] o que compreende o homem; ela é aquilo cuja aniquilação


significa também a própria aniquilação da existência humana;
somente através dela consiste o homem, somente dela depende ele
em toda a sua atividade, em todos os seus passos. Arrancar o
homem da natureza significa o mesmo que separar os olhos da luz,
o pulmão do ar, o estômago dos alimentos e querer fazer deles
seres existentes por si mesmos (FEUERBACH, 1967, p. 91).
Eduardo Ferreira Chagas | 143

O homem é um produto da natureza, uma obra dela; ele deve,


por isso, tratá-la e estimá-la como “sua mãe”, como a fonte de seu
ser. Já que ele deve seu nascimento e sua manutenção apenas às
forças e aos efeitos naturais, depende ele, por conseguinte, da
natureza; quer dizer, ele não é nenhum ser sem necessidade, mas
um organismo que pressupõe as determinações da natureza, água,
ar, alimento etc.

3. Por fim, considerar o espírito como a premissa da natureza é sem


sentido, pois não se pode ser indicado de onde ele toma a determinação
para a matéria. Não é, portanto, o espírito a origem e a razão de ser da
matéria; pelo contrário, a natureza deve ser vista como o fundamento
do espírito, isto é, como um fundamento que não tem nenhum
fundamento fora de si mesmo. O espírito, a consciência, pode
desenvolver-se, assim, apenas da natureza orgânica; na verdade, ele é,
no homem, o superior, pois, através dele, o homem diferencia-se do
animal.21 Isto não significa, de modo nenhum, que ele seja o primeiro
de acordo com o desenvolvimento natural. O espírito, isto é, o
superior, o completo, é, ao contrário, resultado, sempre o último, o
posterior. No espírito humano, a natureza atinge o auge de seu
desenvolvimento; aí ela se torna um ser pessoal, autoconsciente,
inteligível; ou seja, no homem, a natureza toma consciência de si

21
Nos Princípios da Filosofia do Futuro, Feuerbach chama a atenção para o fato de que o homem de
nenhum modo se distingue do animal só pelo pensamento. “Sua essência toda é, pelo contrário, o que
distingue do animal.” Ele indica ainda: “O homem não é um ser particular como o animal, mas um ser
universal, por conseguinte, não é um ser limitado e cativo, mas um ser ilimitado e liver; com efeito, a
universalidade, a ilimitação e a liberdade são inseparáveis. E esta liberdade também não reside numa
faculdade particular, no querer; na verdade, da mesma maneira que esta universalidade não se situa numa
disposição especial da faculdade de pensar, na razão, esta liberdade, esta universalidade estende-se ao seu
ser total. Sem dúvida, os sentidos animais são mais apurados do que os humanos, mas apenas em relação
a coisas determinadas, necessariamente conexas com as necessidades do animal, e são mais agudos
justamente por causa desta determination, desta limitação exclusiva a algo de determinado. O homem não
tem o faro de um cão de caça, de um corvo; mas apenas porque o seu olfato pode abranger todas as espécies
de odores, por isso é um sentido livre e indiferente a respeito de odores particulares. Mas onde um sentido
se ergue sobre os limites da particularidade e de sua vinculação à necessidade, eleva-se aí a uma significação
e dignidade autônomas, teóricas: sentido universal é o entendimento, sensibilidade universal é
espiritualidade. Mesmo os sentidos inferiores, o olfato e o paladar, se elevam no homem a atos espirituais.”
Cf. L. Feuerbach, Grundsätze der Philosophie der Zukunft, GW 9, p. 335-36.
144 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

mesma. O homem é, pois, um ser qualitativamente diferente de todas


as outras formas de existência na natureza.22

Os méritos da filosofia de Feuerbach, particularmente de sua


concepção de natureza, podem ser caracterizados da seguinte
maneira:

1. Feuerbach almeja provar que a natureza, entendida como algo


autônomo, original, frente ao espírito, é a base deste e que, embora o
homem esteja, pelo seu corpo, indissoluvelmente ligado a ela, é ela,
apesar disto, uma outra essência, diferente e independente dele, e
2. que Deus não é nenhum ser que existe por si, mas meramente uma
representação fantástica da essência humana, um projeto puramente
idealizado do espírito. Disso conclui Feuerbach que a relação Deus-
homem é tão-some nte uma conexão do homem consigo mesmo, e a
separação de Deus do homem é apenas uma separação do homem de
si mesmo. Em vez desta relação humano-religiosa para Deus,
Feuerbach quer pôr a relação do homem para o homem, para o seu
próximo e para a natureza sem Deus.

Para alcançar tal propósito, o homem deve livrar-se de toda a


fé em forças sobrenaturais e voltar-se apenas para si e para a
natureza. Feuerbach aspira a uma relação humana para a natureza,
mediada pela sensibilidade, pela contemplação sensível da natureza,
tal como esta aparece imediatamente ao homem. Ele quer
restabelecer uma relação natural para o homem através da relação
sensível do amor do eu para o tu, do singular (do indivíduo) para o
gênero (para a comunidade), cuja base vale a ele como a relação
natural do homem para a mulher. Em A Sagrada Família (Die heilige
Familie) (1844), Marx reconhece expressamente, apesar de toda a
crítica a Feuerbach, o significado positivo, a relevância de sua
filosofia para a história da dialética e do espírito humano: „Mas,
afinal, quem colocou às claras o mistério ‘dos sistemas’? Feuerbach.

22
A respeito dessas teses acima levantadas, que dão primazia à natureza frente ao espírito, cf. os
trabalhos de Joachim. Höppner, Ludwig Feuerbach und seine materialistische Weltanschauung in ihrer
historischen Bedeutung für die wissenschaftliche Philosophie, Leipzig, 1960, p. 302-355, e I. M. Jessin,
Die materialistische Philosophie Ludwig Feuerbachs, Berlin, 1956, p. 3-41.
Eduardo Ferreira Chagas | 145

Quem aniquilou a dialética dos conceitos, esta guerra de deuses


conhecida apenas pelos filósofos? Feuerbach. Quem colocou, na
verdade, ‘a significação do homem’ - como se o homem tivesse ainda
uma outra significação a não ser a de ser homem! -, pelo menos ‘o
homem’ no lugar dos farrapos, da ‘consciência de si infinita’?
Feuerbach, somente Feuerbach” (MARX; ENGELS, 1958, p. 98). E
nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (Ökonomisch-
philosophischen Manuskripten) (1844), ele esclarece: „Feuerbach é
o único que tem uma relação séria e crítica para com a dialética de
Hegel e o primeiro que realizou, neste campo, verdadeiras
descobertas; acima de tudo, foi quem superou a antiga filosofia. A
magnitude da proeza de Feuerbach e a despretensiosa simplicidade
com que a apresenta ao mundo estão em impressionante contraste
com o comportamento dos outros” (MARX, 1968, p. 569). Apesar
destas realizações de Feuerbach, principalmente no que diz respeito
a seus protestos contra o deísmo e o Idealismo, não deve, no entanto,
descuidar da crítica à sua filosofia no todo por causa de suas
“contradições”, “limitações” e “inconsequências”.
Em referência à filosofia de Feuerbach, Marx reconhece que o
homem é „um ser corpóreo, dotado de forças naturais, vivo, real,
sensível, objetivo“ e isto „significa que ele tem objetos reais, sensíveis
como objetos do seu ser, ou que pode exteriorizar a própria existência
só em objetos reais, sensíveis. Ser objetivo, natural, sensível e
simultaneamente ter fora de si o objeto, a natureza, o sentido para uma
terceira pessoa, é a mesma coisa. A fome é uma necessidade natural;
portanto, [o homem] requer uma natureza fora de si, um objeto fora
de si, de maneira a satisfazer-se e a acalmar. A fome constitui a
necessidade objetiva de um corpo por um objeto exterior,
indispensável à sua integração e à expressão da própria natureza.“ E o
homem, „como ser objetivamente sensível, é, por conseguinte, um ser
que sofre e, porque sente o seu sofrimento, um ser impulsivo. A
emoção intensa, a passion [a paixão] é a força essencial [a faculdade]
do homem que se esforça energicamente para alcançar o seu objeto”
(MARX, 1968, p. 578-79). No entanto, a essência humana não é para
146 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Marx, como o é para Feuerbach, nenhuma essência abstrata, mas, pelo


contrário, uma essência concreta, condicionada socialmente e tornada
historicamente, isto é, uma essência que se realiza na história pela
atividade, pela práxis social. Marx pensa o homem como um ser que
se manifesta no trabalho; ele é o que ele é pelo seu trabalho, pela sua
produtividade. Correspondendo a isto, Marx diz na Ideologia Alemã
(Deutsche Ideologie) (1845-46): “Pode-se distinguir os homens dos
animais pela consciência, pela religião ou por tudo que se queira. Mas
eles próprios começam a se diferenciar dos animais tão logo começam
a produzir seus meios de vida, passo este que é condicionado por sua
organisation [organização] corporal. Produzindo seus meios de vida,
os homens produzem, indiretamente, sua própria vida material”
(MARX; ENGELS, 1969, p. 21). Embora Feuerbach acentue, muitas
vezes, que o homem é um ser sensível, natural, a essência tornada
social, no fundo, permanece o homem para ele um abstraktum
inerente ao indivíduo isolado, isto é, um ser fixo, segregado, abstraído
do decurso histórico, e sua „relação social“ foi concebida por ele apenas
como uma relação genérica, como uma universalidade puramente
natural que se liga a muitos indivíduos. Por conseguinte, Feuerbach
não vê, e a ele permanece, infelizmente, sem consideração, que o
homem, além de ser uma essência sensível, nascida da natureza, é
também um produto dele mesmo, da cultura, da história. Do mesmo
modo, ele desconhece também o nascimento e o desenvolvimento
histórico da existência do homem e de sua consciência com base na
apropriação material da natureza, na produktion submetida à
determinada relação social, e o abstrai completamente de suas relações
sócio-econômicas e políticas, porque ele não o entende como
„ensemble“, como membro da sociedade.
O objeto da filosofia da natureza de Ludwig Feuerbach é não
só a natureza incriada, autônoma (a prioridade, o primado da
natureza externa, exterior, ainda não dominada pelos homens),
como também a natureza em relação ao homem. Naturalismo e
humanismo são para ele quase um, pois, conforme ele, o homem é
um produto da natureza, uma essência mesma da natureza. Uma
Eduardo Ferreira Chagas | 147

filosofia da natureza sem o homem, do mesmo modo, uma filosofia


sem natureza, parece a ele sem sentido, um absurdo. No entanto, o
problema se encontra nisso, a saber, que ele não chegou a uma
concepção materialista conseqüente nem da natureza nem no que
diz respeito à relação natureza-homem e homem-homem, já que ele
1. absolutiza a natureza e a concebe apenas „naturalmente“,
sensivelmente (como objeto da contemplação sensível) e não
simultaneamente histórico-social (como produção da práxis
humana) e 2. conceitua natureza e homem não em sua relação real,
dialética. Feuerbach exclui de facto a história da relação do homem
com a natureza e esta daquela. Conquanto ele conceba a natureza
como um objeto real e esclareça que o homem tenha surgido dela e
ela seja a ele dada pelos sentidos, ele não percebe, todavia, que a
natureza, que envolve o homem, não permanece eternamente
idêntica, sempre igual a si mesma, mas é transformada, modificada
praticamente pelo homem. Enquanto a natureza aparece, portanto,
a ele meramente como um ser estático, imediata, Marx a depreende,
pelo contrário, como um „produto da indústria e das condições da
sociedade; isto, na verdade, no sentido de que é um produto
histórico, o resultado da atividade de toda uma série de generationen
[gerações], cada uma das quais alçando-se aos ombros da
precedente, desenvolvendo sua indústria e seu comércio,
modificando a ordem social de acordo com as necessidades
alteradas. Mesmo os objetos da mais simples ‘certeza sensível’“ são
dados aos homens “apenas através do desenvolvimento social, da
indústria e do intercâmbio comercial” (MARX; ENGELS, 1969, p.
43). Em Feuerbach a relação entre o homem e a natureza
permanece, ao contrária, fixa, não-dinâmica, pois como
conseqüências de sua opposition frente ao deísmo e ao Idealismo, ou
seja, a toda forma de antropomorfização da natureza, ele designa a
natureza como „a essência sem essência humana“, sem qualidades
humanas“, como a natureza sem o homem. “Natureza”, diz ele, “é
para mim (...) nada mais do que uma palavra universal para a
designação das essências, das coisas, dos objetos, os quais o homem
148 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

diferencia de si e de seus produtos e resume no nome comum


‘natureza” (FEUERBACH, 1971, p. 4). Ademais, Feuerbach tem
„diante dos olhos“ no conceito „produto“ nada social-histórico, mas
apenas o resultado abstrato da atividade humana, depreendido
como „illusion“ de uma essência criada pelo homem, que está acima
da natureza. De acordo com isto, ele trata a realidade objetiva como
algo preso ao objeto, quer dizer: ele vê apenas seu lado objetivo, mas
não o subjetivo, porque ele concebe a aktivität do sujeito não como
práxis material, histórico-social, como atividade produtiva, mas tão-
somente como intuição, como contemplação sensível. Isto expressa
também o conteúdo, o sentido da primeira Tese sobre Feuerbach
(These ad Feuerbach), mediante a qual Marx caracteriza como a
carência principal de todo o materialismo anterior, inclusive o de
Feuerbach. Precisamente o lado ativo do sujeito, que produz o
objeto, não foi desenvolvido por Feuerbach, mas pelo idealismo de
Kant, Fichte e Hegel, embora apenas subjetivamente, como
atividade do entendimento, do eu que age, do espiríto que se
desdobra para o mundo. A filosofia de Feuerbach permanece, pois,
atrás desta práxis já desenvolvida pelo Idealismo; ela não consegue
transformar a atividade prática, concebida idealmente, numa
atividade prático-crítica, real, material.
Para Marx, o mundo material é, ao contrário, um todo unitário,
no qual todas as formas de dualismo estão rejeitadas; esse mundo
material encontra-se também de novo na consciência, e isto torna
sobretudo claro no processo de trabalho. Quanto a isto, Hegel já tinha,
na Fenomenologia do Espírito (Phänomenologie des Geistes), mediante
a dialética do senhor e do servo, caracterizado o trabalho como
processo que supera a resistência da natureza, processo, no qual o
homem toma consciência de si mesmo, de sua espiritualidade, pois, na
medida em que o homem trabalha, ele manifesta sua própria essência
e impõe à natureza uma forma humana; assim, ele avista, no resultado
de seu trabalho, não um produto que está frente a ele, mas, pelo
contrário, sua própria realidade tornada objetivamente. Esta essência
positiva do trabalho, entendida como processo dialético da
Eduardo Ferreira Chagas | 149

autoprodução do homem e da mudança da natureza, foi também


postulada por Marx. Trabalho é, para ele, „um processo de que
participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com
sua própria ação, medeia, regula e controla seu intercâmbio material
como natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças.
Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas,
cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza,
imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a
natureza externa e modificando-a, simultaneamente modifica a sua
própria natureza” (MARX, 1977, p. 192). Pois a reciprocidade entre
homem e natureza se encontra na atividade produtiva, no interior de
uma organization determinada socialmente, através da qual o homem
muda a natureza e cria algo novo, como também produz e modifica sua
própria natureza social. E é, precisamente, através deste intercâmbio
entre o homem e a natureza que se dá o acesso a declarações sobre a
origem e o desenvolvimento do homem. Já que Feuerbach concebe
abstratamente a relação do homem para a natureza, isto é, não conhece
nenhuma relação recíproca, dialético-dinâmica entre eles, falta a ele
também o entendimento que „a história da natureza“ e a „história do
homem“ formam uma unidade interna, pois o homem, como uma
parte real da natureza (o tornar da natureza para o homem), tem uma
„natureza histórica“ e uma “história natural”.
A acepção de natureza em Feuerbach é naturalista, não mediada
pela história, pois falta a ela o sentido para a história, para as condições
concretas, sociais do homem. Na medida em que Feuerbach considera,
como visto, a relação entre homem e natureza não do ponto de vista
da atividade prático-crítica, mas apenas da perspectiva da
contemplação sensível, ele não percebe que por trás desta relação está
a história, a sociedade, que ela mesma possui uma base social, uma
fundamentação material-econômica. Para Marx, o homem tem, ao
contrário, uma vida essencialmente prática, produtiva, que pertence a
uma forma determinada da sociedade; ele é, como mencionado, “não
unicamente um ser natural; é um ser natural humano; quer dizer, um
ser para si mesmo, por conseguinte, um ser genérico, e, como tal, tem
150 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

de autenticar-se e expressar-se tanto no ser como no pensamento.


Então, nem os objetos humanos são objetos naturais, como eles se
apresentam diretamente, nem o sentido humano, tal como é imediata
e diretamente dado, constitui a sensibilidade humana, a objetividade
humana. Nem a natureza objetiva, nem a natureza subjetiva se
apresenta imediatamente ao ser humano numa forma adequada. E
assim como tudo o que é natural deve ter a sua origem, também o
homem tem o seu processo de gênese, a história que, no entanto, para
ele, constitui um processo consciente e que assim, enquanto ato de
origem com consciência, se transcende a si próprio. A história é a
verdadeira história da natureza do homem” (MARX, 1968, p. 579).
Assim, para Marx, a história é a natureza real do homem, pois o
homem, como ser social, foi determinado, em princípio, não da
natureza. A natureza tem sua existência para o homem precisamente
na história, assim como o homem encontra para o homem, na
natureza e na apropriação histórico-social dela, sua própria existência
e essência. A concepção de natureza em Feuerbach encontra-se, ao
contrário, não no âmbito da relação concreta do homem para a
natureza, da práxis humana, porquanto ele ignora o conceito de
trabalho como relação do homem para natureza, do homem para o
homem. Na sociabilidade capitalista, a natureza possui para o homem
uma existência estranha, não-humana, porque ele mesmo se
comporta aqui como uma existência estranha, não-natural,
„inumana“, e o fundamento desta sua „inumanidade“ é a divisão
forçada do trabalho ligada com a propriedade privada. A superação da
„dimension“ da „inumanidade“ do homem, do estranhamento da
relação humana para o próximo e para a natureza (para o seu meio
ambiente) não pode ser realizada, como Feuerbach acreditara,
simplesmente pela negation das illusionen religiosas, fantásticas. A raiz
real, social e política da religião é completamente estranha a
Feuerbach, por isso é a ele o estranhamento apenas uma forma
psicológica, antropológica da consciência humana invertida, que
duplica o mundo numa realidade real e representada, e apresenta a
natureza e o homem de uma maneira não-natural, estranha à sua
Eduardo Ferreira Chagas | 151

natureza. Feuerbach fixa o sentimento religioso como algo para si


existente e não vê, por consegüinte, que ele é também um produto
social. Com isto se relaciona ainda que ele não compreende que a
emancipação do homem do estranhamento religioso pressupõe a
superação de sua causa e fonte, isto é, de suas condições materiais,
sociais e econômicas, que estão fundadas na propriedade privada dos
meios de produção. Enfim, deve ser, no todo, constatado que Ludwig
Feuerbach não consegue, de facto, nem interpretar materialmente a
vida social, a história, nem esclarecer as relações econômicas, nas
quais se devem procurar os fundamentos para o estranhamento
humano. No entanto, não deve ser aqui esquecido que ele não tinha
colocado para si as mesmas prioridades que tinham Hegel e Marx. É
preciso ter bem claro ainda que o pensamento de Feuerbach não se
movimenta nem no círculo do processo da autoconsciência, como em
Hegel, nem no mundo histórico, como em Marx; ele tem, pelo
contrário, por objeto o imediato, ou seja, a natureza e a sensibilidade.
Frente a Hegel e Marx, quer Feuerbach conceder à natureza
prioridade, resgatar o indubitável, o indeduzível, o elementar, o
simples, do qual se eleva para o mediato e o deduzido. A partir deste
fundamento era para ele possível garantir a autonomia e a
independência da natureza apenas pela crítica ao começo sem
pressuposto, ou seja, à imediatidade imediata (na forma de Deus ou
do espírito), como afirmado pelo teísmo e pelo idealismo, pois tanto
um quanto o outro se baseiam, em verdade, não na imediaticidade
dada sensivelmente (a imediaticidade da natureza), mas sempre num
ato já refletido e produzido pelo homem.
Capítulo 3

Religião e trabalho em Marx

Eduardo Ferreira Chagas

3.1. A Fundamentação Subjetiva e Social da Religião em Ludwig


Feuerbach e Karl Marx.

O presente capítulo pretende explicitar a diferença entre as


concepções de religião em Ludwig Feuerbach e Karl Marx, no intuito
de compreender por que a religião tornou-se, novamente, uma
questão atual. Incialmente, mostrar-se-á a fundamentação subjetiva
da religião em Feuerbach, principalmente em sua obra principal, A
Essência do Cristianismo, em que ele deixa claro que o Cristianismo
coloca no seu cume um deus subjetivo, pessoal, ilimitado, que cria
através do “puro pensar” e do “querer” a natureza e o homem. Em
seguida, diferentemente das argumentações de Feuerbach,
evidenciar-se-á a fundamentação social da religião em Marx.
Embora não haja no pensamento de Marx uma elaboração
sistemática acerca da religião, há uma crítica a ela enquanto crítica
social das condições materiais de existência, que é o fundamento
dela. Para Marx, a religião, entendida especificamente como
superstição, idolatria, “ópio”, que conforma o homem e embaraça a
sua consciência, deve ser negada, mas não se trata pura e
simplesmente de um desprezo, de uma proibição ou perseguição à
religião, nem tampouco de uma negação em geral a ela, uma vez que
ela é uma questão privada e deve ser respeitada, mas de desvelar o
véu religioso presente na sociedade e no seu ordenamento político,
154 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

no Estado, que oculta a exploração e a opressão humana. A crítica à


religião como crítica da realidade social, da qual ela nasce e é
expressão ideal, contribui, de certa forma, para a emancipação social
do homem. Por último, procurar-se-á refletir sobre o lugar e a
função da religião dentro de seu contexto sócio-político-econômico,
no intuito de compreender melhor, por exemplo, o papel dela nas
diferentes crises no mundo atual.

3.1.1. A Antropomorfização de Deus na Religião Cristã segundo


Feuerbach.

Com deus (Gott) está associado um nome que o homem usa


para expressar ou a sua própria essência ou a essência da natureza.
Partindo, inicialmente, da tese, que veremos a seguir, a saber, que
deus e o homem são, no Cristianismo, idênticos, Feuerbach revela
que o segredo (Rätsel) recôndito da teologia cristã é nada mais do
que a antropologia (Anthropologie) ou, melhor dizendo, que o
conteúdo do ser infinito (in abstrato) (deus) é o ser finito (in
concreto) (o homem). No Cristianismo, o homem (Mensch) se
concentra apenas em si mesmo e faz de si uma essência absoluta e
sobrenatural, ou seja, um deus.
Assim, deus é a essência declarada, anunciada, do sujeito
como objeto absoluto. Em oposição a Hegel, que afirma, em sua
filosofia da religião, que o saber do homem acerca de deus é o saber
de deus acerca de si mesmo, postula Feuerbach, para transformar a
teologia em antropologia, o princípio oposto que reza: o
conhecimento do homem de deus é o saber do homem de si mesmo;
não foi deus que criou o homem, mas o homem quem criou deus a
sua imagem e semelhança.1 Apoiando-se em Homero, escreve
Feuerbach, os

1
No artigo Zur Beurteilung der Schrift “Das Wesen des Christentums” (1842), Feuerbach elucida da
seguinte maneira a diferença entre a filosofia de Hegel e a sua: “Minha filosofia da religião é tão pouco
uma explikation da hegeliana, [...] que ela deve ser concebida e julgada, pelo contrário, apenas como
opposition. O que, a saber, tem em Hegel o significado do secundário, do subjetivo, do formal, isso tem
Eduardo Ferreira Chagas | 155

[...] deuses são seres que só existem para e através dos homens;
por isso não velam o homem quando este dorme, mas quando os
homens dormem, dormem também os deuses, isto é, com a
consciência do homem se esvai também a existência dos deuses.
(FEUERBACH, 1967, p. 99.)

Conquanto Feuerbach conclua disso que a consciência do


homem de deus é a sua autoconsciência, chama ele mesmo atenção
para o fato de que o homem religioso não é a si imediatamente
consciente de que sua consciência de Deus é a própria consciência
de sua essência, porque a ausência dessa consciência fundamenta de
facto a essência da religião cristã. Destarte, ele designa a religião em
geral apenas como contemplação (Anschauung) “infantil”,
“fantástica” da essência humana, ou seja, como a primeira e indireta
autoconsciência do homem. Na religion, o homem não vê, porém,
em si mesmo sua essência (a humanidade, o gênero), mas fora de si
mesmo, pois sua própria essência é a ele objeto como uma outra
essência. Melhor dizendo: ele realiza nela sua essência, embora ele
não reconheça o objeto como produto de sua atividade. A intention
de Feuerbach, particularmente frente a religião, que considera seu
objeto como sobrehumano, consiste em provar que a oposição entre
o divino (sagrado) e o humano (profano) é ilusória (illusorisch),
porquanto o conteúdo da religião (cristã) é inteiramente humano.
Todas as declarações sobre deus são para ele apenas afirmações
sobre o homem, pois na medida em que deus é aquilo o que o
homem é, a saber, uma essência sensível, viva, afetuosa, podem
ambos (deus e o homem) serem reconhecidos, portanto, apenas
partindo desta essência.
A acepção antropológica de deus, isto é, a reduktion da
teologia (Theologie) em antropologia (Anthropologie) ou da essência

para mim o significado do primitivo, do objetivo, do essencial. Segundo Hegel, o sentimento, o afeto,
o coração é, por exemplo, a forma, na qual se deve submergir o conteúdo derivado da religião, com
isto ela torna-se propriedade do homem; para mim, o objeto, o conteúdo do sentimento religioso é
nada mais do que a essência do sentimento” (FEUERBACH: 1970, p. 229-230).
156 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

universal de deus na essência natural do homem é o ponto central


em torno do qual gira a obra principal de Feuerbach, A Essência do
Cristianismo (Das Wesen des Christentums). Para Feuerbach, o deus
cristão significa nada mais do que o proceder do homem frente a si
mesmo, considerado como um ser diverso dele, existente para si,
livre, então, de sua corporeidade (Leiblichkeit) e finitude
(Endlichkeit). Todas as qualidades “da essência divina são”, como
Feuerbach acentua, “determinações humanas” (FEUERBACH, 1973,
p. 49.); deus e o homem são um, pois deus não é um ser sem
determinação, despojado das qualidades humanas, porque a
negation de tais determinações significaria igualmente a
incognoscibilidade, a irreconhecibilidade e indeterminidade de deus.

Um ser sem qualidade é um ser sem objetividade, e um ser sem


objetividade é um ser nulo. Por isso, quando o homem retira de
deus todas as qualidades, é este deus para ele apenas um ser
negativo, nulo. Para o homem realmente religioso não é deus um
ser sem atributos, porque é para ele um ser certo, real.
(FEUERBACH, 1973, p. 49).

Pois o ser, que realmente é, tem uma existência qualitativa,


determinada e, por isso, finita. Esta position de Feuerbach é uma
refutação (Widerlegung) direta à concepção de deus como uma
existência universal, transcendente, isto é, como uma existência sem
qualidade, que é, todavia,

o fogo, o oxigênio, o sal da existência. Uma existência em geral,


uma existência sem qualidade, é uma existência insípida, uma
existência sem gosto. [...] Somente quando o homem perde o sabor
da religião, quando a própria religião se torna insípida, só então
torna-se também a existência de deus uma existência insípida”
(FEUERBACH, 1973, p. 51).

Por conseguinte, deus não é nenhuma ser em si, isto é,


nenhuma existência autônoma, uma vez que ele é possível só através
de determinadas qualidades, que são determinações finitas,
Eduardo Ferreira Chagas | 157

particularmente humanas. Se o homem existe, precisamente,


apenas como um ser determinado e corresponde ao critério ou à
medida da existência de deus, este é, de certo modo, para ser
concebido como uma “existência determinada”, então como uma
essência humana ou, pelo menos, como semelhante ao homem; ele
está qualitativamente determinado no homem, assim ele não tem
nenhuma outra representação a não ser humana. “Mas deus não é”,
como Rawidowicz observa, “o homem empírico, ele é, ao contrário,
‘o próprio sentimento do homem livre de todas as repugnâncias.’”
(RAWIDOWICZ, 1964, p. 95). Partindo dessa ponderação, a saber,
que os predicados atribuídos a deus, como onipotência, onisciência,
onipresença, justiça, amor, bondade, são conceitos do gênero
humano, puramente antropomorfismos, Feuerbach quer superar
não só a discórdia, ou seja, a oposição entre deus e o homem, mas
também a causa desta cisão entre ambos, isto é, a teologia mesma.
Deus não é originariamente nenhum nome próprio, nenhum
ser em si e por si, mas essencialmente uma qualidade determinada
por um outro ser; nenhum sujeito, mas predicado, nada mais do que
uma expressão do sentimento e da fantasia humana; isto é, não é o
ser de deus enquanto tal, mas a determinidade do mesmo sua
verdadeira essência. Se a “existência de deus”, para poder ser,
precisa de predicados, ela tem, separada deles, tão-somente uma
existência abstrata, isto é, ela não possui nenhuma certeza
(Gewissenheit) imediata, absoluta ou objetiva. A negation dos
predicados é simultaneamente a negação de deus, pois aquilo que
constitui uma existência (ou um sujeito), isso se encontra apenas no
predicado. Isso é mui evidente na teologia cristã, na qual os
predicados manifestam a verdade e a realidade do sujeito. A
propósito, Feuerbach destaca a diferença entre os significados do
sujeito e do objeto e nega a autonomia (Selbständigkeit) dos
predicados divinos, pois para ele tais predicados são simplesmente
qualidades humanas, adoradas, no entanto, como essências
sublimes, universais e absolutas. “Deus é o conceito da majestade, a
mais alta distinção; o sentimento religioso é o mais alto sentimento
158 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

de conveniência” (FEUERBACH, 1973, p. 58). Mas não por meio de


uma natureza puramente divina, isto é, não por si mesmo, mas
apenas através de determinações humanas pode deus, como
mostrado, ser reconhecido. Aquilo o que vale à religião como deus
ou absoluto é, então, não deus, mas o homem mesmo, concebido
como uma outra essência ou como uma essência diferente dele. A
religião não tem, por conseguinte, nenhum conteúdo aparte,
próprio ou particular; ela apenas transforma “inconsciente” as
determinações do homem em um ser autônomo, divino; todavia, ela
quer conscientemente anular esta identidade (Identität) e unidade
(Einheit) da essência divina com a humana, pois ela acredita que
deus é um ser inteiramente distinto da essência humana, porque ele,
como “ser absoluto e infinito”, contém uma abundância inesgotável
de diferentes predicados, dos quais o homem conhece apenas uma
parte. Este conceito teológico de deus é apenas uma representation
sem realidade, na verdade, representação da sensibilidade, separada
de todas as determinações do espaço e do tempo, através das quais
um ser existente deve, primeiro, necessariamente ser localizado. Se
os predicados divinos são determinações da sensibilidade humana,
poder-se-ia disso deduzir que o sujeito (=deus) destes predicados é
humano. Feuerbach nomeia duas determinações essenciais de tais
predicados: uma é universal, metafísica, como a totalidade
(Ganzheit), a infinitude (Unendlichkeit), a indeterminidade
(Unbestimmtheit), e serve à religião como um princípio absoluto; a
outra é particular, pessoal, como o amor (Liebe), a justiça
(Gerechtigkeit), a virtude (Tugend), e caracteriza a essência da
religião. Mas “a religião nada sabe de antropomorfismos: os
antropomorfismos não são para ela antropomorfismos”
(FEUERBACH, 1973, p. 63). Os predicados, os quais o homem faz a
si de deus, são já a essência de deus, pois as representações de deus
não são diferentes daquilo o que ele em si é. A teologia como
reflexion da religião assevera, ao contrário, a distinção entre deus e
o homem, asseveração essa que tem como desígnio, como visto,
apagar da consciência a unidade ou a identidade inseparável entre
Eduardo Ferreira Chagas | 159

eles; a separação de deus do homem vale para ela como oposição


entre a criatura (Kreatur), o ser finito, considerado como nada, e o
criador (Schöpfer), o ser infinito, representado como tudo, o todo.
A consideração acima mencionada, segundo a qual o homem
é nada e, consequentemente, deus é tudo, evidencia claramente que
a teologia cristã encerra em si mesma uma contemplação
meramente negativa, hostil ao homem. Em síntese, ela torna o
homem pobre, para enriquecer deus. Feuerbach afirma que ela, em
contraposição ao materialismo e ao naturalismo, não possui
nenhuma consciência do limite, por isso deus encontra-se para ela
fora das fronteiras da sensibilidade, das barreiras da legalidade da
natureza. Apenas deus, ou melhor, o ser puro é para ela o bem, pois
o homem, na medida em que está submetido à necessidade, às
carências corporais, está já corrompido e é inadequado ao bem. A
teologia cristã não percebe, porém, que o ser bom, que ela diviniza
e adora, é a própria essência boa do homem. O que ela declara sobre
deus, isso deduz ela do homem. Disso resulta que o homem é o
fundamento do deus cristão, porque deus não é deus, se a ele o
homem falta. Este pressuposto antropológico, a saber, que o homem
é a verdadeira essência de deus e, destarte, o fundamento da religião
cristã, não foi, contudo, reconhecido pela teologia cristã. A position
desta reza assim:

Deus não é o que o homem é, o homem não é o que deus é. Deus é


o ser infinito, o homem, o finito; deus é perfeito, o homem
imperfeito; deus é eterno, o homem transitório; deus é
plenipotente, o homem impotente; deus é santo, o homem é
pecador. Deus e o homem são extremos: deus é o unicamente
positivo, o âmago de todas as realidades, o homem é o unicamente
negativo, o cerne de todas as nulidades. (FEUERBACH, 1973, p. 75).

Feuerbach demostra que esta discórdia principial entre deus


e o homem, que a teologia afirma, é, na realidade, a oposição entre
o homem e sua própria essência. Para ele, a segregação de deus do
homem é nada mais do que uma obra da inteligência, do intelecto,
160 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

pois deus per se, sem corpo, “sem carne e sangue”, sem as
necessidades e os impulsos sensíveis, é um puro abstractum, um
puro res rationis, isto é, uma essência puramente pensada. A
aceitação de um deus incorporal, impessoal, infinito corrobora, pois,
apenas a infinitude do poder do pensamento. Deus é, então, a
manifestação do pensar ou o pensar mesmo, que se transforma
numa essência universal, infinita ou num êtré suprême, absoluto.
Trata-se aqui não de duas essências ou substâncias, deus e o
pensamento, mas apenas da unidade do pensar consigo mesmo,
com sua própria essência, pois que deus é aquela representação
(Vorstellung) ou ideia (Idee), que expressa a essência do
entendimento humano contemplada como totalidade (Totalität) e
perfeição (Vollkommenheit) de si mesma. Mas a essência do
pensamento, idêntica com deus, colocada como uma essência sem
antropomorfismo e afeto, não satisfaz à religião cristã, porque sua
determinação distintiva para deus é a auto-afirmação da essência
sensitiva, emocional, do homem. No âmbito da religião cristã, o
homem deseja, pois, “que deus seja, mas precisamente porque ele
quer que seu deus seja uma essência para ele, uma essência
humana.” (FEUERBACH, 1973, p. 90). Deus é para ela a perfeição
moral, o ser absolutamente sagrado, por assim dizer a essência
moral do homem, mas venerada como uma essência sobrehumana
e sobrenatural; ela põe no lugar do deus visível, sensível, um
invisível, não-sensível. Por meio dela, o homem é estranho à sua
própria essência, já que ele experimenta-se nela não como um ser
sensível-temporal, social, mas puro, atemporal e isolado.
Assim considerado, deus e todos os conteúdos transcendentes
são apenas produtos fantásticos da vontade humana, projeções
humanas. Deste ponto de vista, o homem acredita em um deus, que
é nada mais do que expressão de sua própria essência sensível,
emotiva.1 Disso não segue, todavia, que o homem se reduza à

1
Cf. para isso outrossim o escrito Preleções sobre a Essência da Religião (Vorlesungen über das Wesen
der Religion) (1848), no qual Feuerbach afirma: “Na religião, o homem não satisfaz nenhum outro ser;
ele satisfaz nela sua própria essência”. Ou ainda: “Os deuses de um povo vão até onde seus sentidos
Eduardo Ferreira Chagas | 161

sensibilidade pura, fora do espírito e do querer. Para Feuerbach,


somente três essências universais – o amor (Liebe), o espírito (mens,
Geist) e a vontade (volutas, Wille) - podem satisfazer inteiramente
o homem, porque elas trazem em si a totalidade de suas
determinações. Esta totalidade anuncia a religião cristã apenas
indireta e invertidamente, na medida em que ela, como patenteado,
faz inconscientemente das determinações humanas as qualidades
universais, abstratas de deus. Para ela, deus está, na verdade, repleto
de conteúdo, mas abstraído da vida real, pois “quanto mais vazia for
a vida, tanto mais rico, mais concreto será o deus. O esvaziamento
do mundo real e o enriquecimento da divindade é um único e
mesmo ato.” (FEUERBACH, 1973, p. 148). Porque a religião cristã vê
em deus a satisfação das necessidades internas do homem, ela retira,
então, a vida dos limites postos pela natureza e, com isto, reduz as
satisfações reais do homem a uma satisfação puramente ilusória; ela
se abstrai da natureza e se refere ao mundo e a tudo o que nele é
apenas em sua aparência, não em sua essência, porque apenas deus
constitui para ela a essência.
Essa ideia, que deriva da essência humana a essência de deus,
tem Feuerbach desenvolvido não só em A Essência do Cristianismo,
mas também em alguns pequenos escritos, como A Essência da Fé
no sentido de Lutero (Das Wesen des Glaubens im Sinne Luthers), A
Diferença entre a Divinização pagã e cristã do Homem (Der
Unterchied der heidnischen und christlichen
Menschenvergötterung), História da Filosofia Moderna (Geschichte
der neueren Philosophie) e Princípios da Filosofia do Futuro

também alcançam”. (FEUERBACH, 1967, p. 88-89). Em A Essência do Cristianismo (Das Wesen des
Christentums), ele (FEUERBACH, L. Das Wesen des Christentums. Op. cit.) escreve também: “Se as
plantas tivessem olhos, gosto e juízo - cada planta iria escolher a sua flor como a mais bela, porque o
seu gosto não iria além da sua capacidade essencial produtiva”. Esta posição crítica de Feuerbach à
imagem de deus filia-se àquela posição do pré-socrático Xenófanes, para quem deus (théos) é também
uma obra do homem. Nos Fragmentos 15 e 16 diz Xenófanes: “Os egípcios dizem que os deuses têm
nariz chato e são negros, os trácios, que eles têm olhos verdes e cabelos ruivos”. Ou mais preciso ainda:
“Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões pudessem com as mãos desenhar e criar obras
como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as
formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm” (XENOPHANES, 1968, p. 121).
162 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

(Grundsätze der Philosophie der Zukunft). Em A Essência do


Cristianismo, Feuerbach, fiel ao seu objeto de estudo, tem abstraído
da natureza, porque no Cristianismo deus “existe” sem a natureza;
o Cristianismo mesmo ignora a natureza, ou seja, põe no cume um
deus antinatural, que através de seu puro querer cria e governa o
mundo. Este escrito de Feuerbach tem por objeto deus apenas como
um ser moral, no qual a essência moral do homem se põe, nada mais
do que, absolutamente, isto é, manifesta sua essência divinizada e
objetivada espiritualmente. Por isto, para Feuerbach, a teologia
cristã é, como visto, em seu fundamento e resultado final
antropologia. O Cristianismo, que se abstrai da natureza, adora não
o sol, a lua, as estrelas, o fogo, o ar, mas as forças (vontade,
entendimento, consciência etc.) que fundamentam a essência
humana como essência divina em contraste com a natureza, por isto
Feuerbach não tem falado, em A Essência do Cristianismo, da
natureza, mas meramente da essência do homem como objeto da
religião, como princípio subjetivo ou como conteúdo verdadeiro da
representação de deus. Mais tarde, nas Preleções sobre a Essência da
Religião (Vorlesungen über das Wesen der Religion), o próprio
Feuerbach confessa que o descuido do momento da natureza como
objeto da religião e do sentimento de dependência
(Abhängigkeitsgefühls) como base da religião representa na
Essência do Cristianismo uma grande lacuna e tem dado, neste
sentido, mal-entendidos a respeito de sua filosofia.

3.1.2. A Crítica da Religião como Crítica da Realidade Social no


Pensamento de Karl Marx.

Marx não desenvolveu de maneira detida e sistemática sua


crítica à religião, considerando até um problema já amplamente
trabalhado por Feuerbach2, embora tenha dado diversos destaques
2
Cf Marx, K. Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie. Einleitung. (Para a Crítica da Filosofia Hegeliana
do Direito. Introdução) (1843-1844) In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1957, v. 1, p. 378,
na qual Marx diz: “Para a Alemanha, a crítica da religião está, no essencial, terminada”.
Eduardo Ferreira Chagas | 163

à relação entre a religião e o capitalismo, tal como fê-lo, meio século


depois, Max Weber na associação do protestantismo com o
capitalismo em sua obra Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo.3 No entanto, pode-se dizer que Marx esboçou
diferentes concepções acerca da religião, tratando dela, tal como da
ética, da filosofia, da família, da política, do direito, do Estado etc.,
como um produto das ideias, das representações teóricas, da
consciência utópica, como produção espiritual de um povo, como
uma forma social de consciência, pertencente à esfera da
superestrutura ideológica (Cf. HECKTHEUER, 1993) (como
ideologia religiosa), condicionada, pois, pela produção material, pela
estrutura econômica, a base da sociedade, e pelas relações sociais
correspondentes. Como Marx diz no Prefácio (Vorwort) à Para a
Crítica da Economia Política (Zur Kritik der politischen Ökonomie)
(1859):

A totalidade das relações de produção constitui a estrutura


econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma
superestrutura jurídica e política e à qual correspondem
determinadas formas de consciência social. O modo de produção
da vida material condiciona em geral o processo da vida social,
política e intelectual. Não é a consciência dos homens que
determina o seu ser; mas, ao contrário, é o seu ser social que
determina a sua consciência. [...] Com a transformação da base
econômica altera-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa

3
Acerca disto, cf. Löwy, Michael. “Marxismo y Religión: opio del Pueblo?”. In: La Teoria Marxista Hoy
– Problemas y Perspectivas. Buenos Aires: Editora Clacso, 2006, p. 281-296. Já Walter Benjamin vê,
de acordo com o meu parecer, diferentemente de Max Weber, o capitalismo não só condicionado pela
religião, mas também como um fenômeno essencialmente religioso. Walter Benjamin aponta quatro
traços que podem ser identificados na estrutura religiosa do capitalismo: 1) primeiro, o culto, ou seja,
o capitalismo como uma religião cultual, pois ele se expressa nos ornamentos das células bancárias;
no capitalismo, as coisas só adquirem significado na relação imediata com o culto, com os ornamentos
do papel-moeda, com a adoração às coisas, ao dinheiro etc.; 2) segundo, a duração permanente do
culto; o capitalismo é a celebração sem trégua de um culto constante à ostentação; 3) terceiro, a
culpabilidade; o capitalismo como uma condição sem saída que tem que ser aguentado pelo homem
até o fim, levando-o ao estado de esfacelamento, de desespero, de angústia; e 4) quarto, o ocultamento;
nessa religião capitalista, Deus é ocultado, para ser invocada a culpa como destino do homem, culpa
essa que é martelada constantemente em sua consciência. Sobre isto, cf. Benjamin, Walter. O
Capitalismo como Religião. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013, p.21-51.
164 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

superestrutura. Na consideração de tais transformações é


necessário sempre distinguir entre a transformação material – que
se pode comprovar de maneira cientificamente rigorosa – das
condições econômicas de produção e as formas jurídicas, políticas,
religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas
ideológicas (MARX, 1983, p. 8-9).

Mas, para Marx, como materialista e ateu convicto, a religião


ocupa uma posição especial na superestrutura, diferentemente das
demais formas ideológicas, a saber, a política, a social e a cultural,
na medida em que ela, não na sua dimensão privada, exercida por
um indivíduo particular, que só a ele diz respeito, mas na sua
dimensão social e política enquanto expressão de alheamento do
homem de seu mundo real e de conformação social com esse
mundo, corroborando para a “perpetuação” de uma dada sociedade,
deve ser suprimida positivamente. Suprimir positivamente a
religião significa, de acordo com o meu parecer, negar a religião não
na esfera privada, enquanto prática individual, mas na esfera
pública, a função social dela. O foco de Marx é a crítica ao
revestimento religioso, ou seja, a presença da religião, por exemplo,
na sociedade civil (como na religião, em que há uma cisão entre a
esfera terrena e a esfera celeste, a sociedade civil enquanto esfera do
aquém, privada, profana, está em oposição à esfera do além, do
“sagrado”, do Estado), no Estado (como um universal sagrado,
eterno, uma totalidade, um guardião protetor), no capital (a fé no
capital, visto como um grande deus, o deus-capital, o verdadeiro
deus, o único deus real e vivo, o deus implacável, o deus sinistro, que
faz e desfaz, que cria e destrói, que pode ser conhecido, visto, tocado,
cheirado, provado, um deus todo-poderoso, ilimitado, eterno,
internacional, universal, presente em todos os locais, manifestado
sob diferentes formas), no “milagre” das tecnologias, na mercadoria
(as transformações, as encarnações de uma mercadoria em outras),
no reino do dinheiro, do ouro (o dinheiro como objeto adorado,
venerado, como “a alma” do capitalismo, que move o universo e é
mercadoria milagrosa que contém em si outras mercadorias), nos
Eduardo Ferreira Chagas | 165

“princípios sagrados, eternos” do trabalho (o trabalho como


atividade sagrada, da qual deus compensa) (LAFARGUE, s/d), como
objetos de adoração, que, embora profanos, laicos, se revestem de
religiosidade, se apresentam de forma religiosa, ocultando seus
conteúdos.
Qual o significado, todavia, da religião em geral para Marx?
Penso que, do ponto de vista de Marx, a religião se expressa de cinco
maneiras: 1. como uma expressão às avessa, como um reflexo
invertido da totalidade das condições inumanas em que se encontra
o homem na sociedade capitalista e, por isto, 2. como uma
contestação, uma recusa ou como um protesto indireto contra a dor,
o sofrimento, o desamparo real, contra uma condição insatisfatória
imposta ao homem; 3. mas como um protesto impotente, como uma
impotência para combater essa condição insatisfatória, como uma
barreira, um obstáculo que impede ao homem a tomada de
consciência de sua situação inumana, para conduzir, na prática, uma
transformação da sociedade, marcada pela propriedade privada à
custa da exploração do homem pelo homem; 4. como uma
esperança na salvação não neste mundo, mas no paraíso, no além,
como uma ilusão de um outro mundo, de uma felicidade ilusória, de
um mundo imaginário, celestial, oposto ao mundo real, de
privações, de miséria, ou seja, de um mundo melhor, perfeito, como
o céu, o paraíso, no qual o homem se vê livre de uma vida
insuportável, de sua situação inumana, miserável, quer dizer, uma
ilusão necessária para suportar as dores reais advindas do mundo
do capital de exploração e desumanização, fornecendo, pois, ao
homem a religião 5. como uma explicação não verdadeira, mas
fantasiosa, mistificada da realidade, levando-o à passividade, à
consolação com a esperança da recompensa celeste, ao conformismo
e à resignação, que corrobora com o status quo e legitima as
condições inumanas existentes.
A crítica à religião é, para Marx, a premissa, a condição
preliminar, “o pressuposto de toda a crítica” (MARX, 1957, p. 378),
pois, ao criticarmo-la, estamos, na verdade, também criticando a
166 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

realidade, da qual ela nasce e que é o fundamento dela, a raiz social,


a fonte do entontecimento religioso. A religião não é autônoma,
existente para si, mas reflexo fantástico das potências exteriores,
terrestres, que adquirem formas “supraterrestres” e passam a
dominar o homem; ela é, pois, reflexo deformado, expressão
distorcida, consciência invertida (Deus fez o homem, e não o homem
quem fez Deus) de um mundo distorcido, invertido (o Estado como
fundador da sociedade civil, e não a sociedade civil como formadora
do Estado), do mundo invertido do capital, no qual o sujeito
trabalhador aparece não como sujeito, mas como dependente do
capital, e o capital, que é depende do trabalho, aparece como
sujeito). A religião não é a base, mas expressão do mundo
estranhado; e, se o homem está dividido na religião entre seu ser
genérico, seu ser universal (Deus), e seu ser singular, individual (o
homem concreto), é porque o mesmo homem já está, no mundo
real, fragmentado, mutilado entre sua vida universal, abstrata, no
Estado, e sua vida real, individual, na sociedade civil-burguesa.
A religião é um fenômeno social, como uma imagem do
mundo invertido, das reais contradições da sociedade, por exemplo,
das contradições da realidade do capital, e não é enfrentando
diretamente a religião que a desvelaremos, como fê-lo Feuerbach,
mas desvelando as suas raízes sociais, as contradições do real, que
revelaremos o seu segredo. Por isso, Marx critica, precisamente,
Feuerbach, porque este inverteu a ordem da crítica, tomando como
tarefa fundamental revelar o segredo da religião, sem revelar a sua
base material, o seu fundamento, que é a sociedade concreta, que
engendra a religião. Para compreender a religião, Marx não passa
do “reino de Deus” para o “reino dos homens”, não desce do céu à
terra, mas parte da terra, das coisas terrestres, reais, para
compreender o céu, as coisas celestes. Como diz Marx na IV Tese
sobre Feuerbach (Thesen über Feuerbach) (1845-46):

Feuerbach parte do fato do auto-estranhamento religioso, da


duplicação do mundo num mundo religioso imaginário e num
Eduardo Ferreira Chagas | 167

mundo real. Seu trabalho consiste em dissolver o mundo religioso


em seu fundamento terreno. Ele não vê que, depois de completado
esse trabalho, o principal ainda resta por fazer. Mas o fato de que
este fundamento se eleve de si mesmo e se fixe nas nuvens como
um reino autônomo, só pode ser explicado pelo auto-
dilaceramento e pela auto-contradição desse fundamento terreno.
Este deve, pois, ser primeiramente compreendido em sua
contradição e depois revolucionário praticamente, pela eliminação
da contradição. Assim, por exemplo, uma vez descoberto que a
família terrestre é o segredo da sagrada família, é a primeira que
deve ser criticada na teoria e revolucionada na prática (MARX,
1958, p. 534).

Precisamente, em A Ideologia Alemã (Die deutsche Ideologie)


(1845-46), Marx, e também Engels, mantém, de modo explícito,
uma postura anti-especulativa, opondo-se às ideias tomadas como
abstratas, autônomas, pelos neo-hegelianos (Feuerbach, Bauer e
Stirner). Marx, e também Engels, enfatiza que as ideias pertencem
a uma época, e não uma época a uma ideia determinada, ou seja,
que não se explica a práxis a partir das ideias, mas se explica as
formações ideológicas a partir da práxis material. Ao contrário do
pensamento sem pressuposto, eles partem de pressupostos reais e
inelimináveis, da produção material da vida, dos meios para
satisfazer as necessidades vitais (comer, beber, ter habitação, vestir-
se), com os quais “a produção das idéias, das representações da
consciência está [...] imediatamente entrelaçada” (MARX, 1958, p.
26). Portanto, embora as ideias, as representações, sejam
produzidas pelos homens, elas, e todas as formas de ideações, como
a religião, a moral, a filosofia e qualquer outra ideologia, não são
autônomas, independentes, desligadas das bases materiais e
temporais, dos fatos, desprovidas de pressupostos, incondicionadas,
auto-engendradas, mas são expressões ideais das circunstâncias
reais, das condições materiais de existência, extraídas do mundo
real, isto é, têm como raiz, como fonte primária, a produção e o
intercâmbio material da vida social-humana.
168 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Nesse sentido, Marx acredita que Feuerbach não resolveu, por


exemplo, o problema fundamental da religião, porque ignorou a
base social dela, não percebendo que ela não é autônoma, abstrata,
atemporal, mas um produto social, que pertence a uma determinada
forma social e que passa por transformações em diferentes períodos
históricos (MARX, 1959, p. 480).2 Isso Marx deixa claro na VII “Tese
ad Feuerbach”: “Feuerbach não vê que o próprio ‘espírito religioso’
é um produto social e que o indivíduo abstrato, que ele analisa,
pertence na realidade a uma forma social determinada” (MARX,
1958, p. 535). Marx defende que o homem produz a religião (MARX,
1957, p. 378),3 sonha com um mundo fantasioso, projeta sua
essência num ser superior, porque ele não vê, na vida real da
sociedade, as condições para o desenvolvimento de sua humanidade.
A religião é “a realização fantástica da essência humana, porque a
essência humana não possui verdadeira efetividade” (MARX, 1957,
p. 378). Portanto, para superar positivamente a religião, o seu
estranhamento, não é suficiente revelar o seu segredo, combatê-la
subjetivamente, mas é necessário transformar as condições reais de
vida que favorecem o surgimento e o desenvolvimento da religião,
das “quimeras celestes”.
Na Critica da Filosofia do Direito de Hegel - Introdução,
(Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie. Einleitung) (1843-44),

2
“Será necessária grande perspicácia para compreender que as ideias, as concepções e os conceitos
dos homens, numa palavra, a sua consciência, mudam com as alterações introduzidas nas suas
condições de vida, nas suas relações sociais, na sua existência social?” “Que demonstra a história das
ideias senão que a produção intelectual se transforma com a produção material?”.
3
Marx enfatiza: “O fundamento da crítica irreligiosa é: foi o homem quem fez a religião; a religião não
fez o homem.” Cf. também o Prefácio da Doktordissertation (Tese de Doutorado), Differenz der
demokritischen und epikureischen Naturphilosophie (Diferença entre as Filosofias da Natureza em
Demócrito e Epicuro) (1841) in: Marx/Engels, Werke (MEGA), Ergänzungsband, Erster Teil, Berlin:
Dietz Verlag, 1968, p. 262, no qual Marx, fazendo alusão à tragédia “Prometeu Agrilhoado”, de Ésquilo,
demonstra que “A profissão de fé de Prometeu: ‘Eu odeio todos os deuses; eles são meus subordinados
e deles sofro um tratamento iníquo’, é a sua própria profissão de fé, a sua própria máxima contra
todos os deuses do Céu e da Terra, que não reconhecem como divindade suprema a autoconsciência
humana.” Esse antropomorfismo da religião pode ser ilustrado com uma frase de Epicuro, citada aqui
por Marx: “‘Ímpio não é aquele que acaba com os deuses da multidão, mas aquele que atribui aos
deuses as representações da multidão.’”
Eduardo Ferreira Chagas | 169

Marx enfatiza também que é o homem quem cria a religião e que a


realidade é o fundamento dela, e não o contrário:

Mas o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O


homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado
e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do
mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria
geral deste mundo, o seu compêndio enciclopédico, a sua lógica em
forma popular, o seu point d’honneur (‘ponto de honra’) espiritual,
o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene,
a sua fundamental razão de consolação e de justificação. Ela é a
realização fantástica da essência humana, porque a essência
humana não possui realidade verdadeira. Por conseguinte, a luta
contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo, cujo
aroma espiritual é a religião (MARX, 1957, p. 378).4

Em A Questão Judaica (Zur Judenfrage) (1844) Marx mostra


que não só Feuerbach, mas também Bruno Bauer tratam do
problema da emancipação, da autonomia e da liberdade só a partir
da crítica à religião, ao Estado cristão. Contrário a essa posição, Marx
substitui a crítica ao Estado teológico, cristão, pela crítica ao Estado
profano, político, pois que a questão da emancipação humana não é
apenas uma disputa teológica, um problema estritamente religioso,
nem político-burguês, como considera Bauer, mas principalmente
humano-social. Segundo Bauer:

O Estado cristão conhece apenas privilégios. O judeu, neste Estado,


possui o privilégio de ser judeu. O Estado cristão, em razão de sua
natureza, não pode emancipar o judeu; mas o judeu, em razão de
sua essência, não pode ser emancipado. Enquanto o Estado
permanecer cristão e o judeu continuar a ser judeu, são igualmente
incapazes, aquele de conferir e este de receber a emancipação
(MARX, 1957, P. 347-348).

4
Cf. também a VI “Tese ad Feuerbach”, p. 534, na qual Marx deixa claro sua distinção em relação a
Feuerbach: “Feuerbach dissolve a essência religiosa na essência humana. Mas a essência humana não
é uma abstração inerente ao indivíduo isolado. Na sua efetividade, é o conjunto das relações sociais”.
170 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Bauer concentra sua atenção na emancipação política


exclusivamente e, por isso, se contenta em fazer a crítica à religião,
ao Estado religioso. Para lograr tal intento, pede ele a todos os
religiosos e ao Estado a abolição da religião, por ser um fator de
segregação humana. Tanto os cristãos como os judeus devem
superar o preceito teológico, que Bauer considera contrário à razão
e à natureza humana. Por isso, o Estado teológico é, para ele, menos
Estado que o Estado político, profano, já que a presença da religião
e de seus critérios na esfera pública impedem a formulação de um
bem comum, fundado na comunidade de homens livres, na
igualdade de direitos e no desfrute da liberdade. Assim como o
homem autêntico, racional e livre é aquele que supera o preceito
religioso, assim também o Estado legítimo é o Estado político, laico,
anti-religioso, que está voltado unicamente para a realização da
liberdade segundo a razão.
Nesse sentido, a suplantação da religião é, para Bauer, o
pressuposto da emancipação política, dado que o judeu deixará de
ser judeu quando o Estado não atingir mais o cumprimento de uma
dada religião e abolir, por conseguinte, todos os privilégios
religiosos, incluindo a preponderância de uma igreja privilegiada.
Com efeito, Bauer almeja que o judeu abdique ao judaísmo, que o
cristão deixe o Cristianismo e que o homem em geral renuncie à
religião, para que possam se emancipar politicamente como
cidadãos. Tendo em vista a interpretação segundo a qual o Estado
que pressupõe a religião não é ainda um Estado verdadeiro, efetivo,
uma associação de homens livres, mas uma associação de crentes5,
Bauer corrobora então a ideia de que a supressão da religião é

5
Sobre a religião como fundamento, base, do Estado, cf. também Marx, K, “Nr. 179 der Kölnischen
Zeitung” (“Editorial do Nº 179 da ‘Gazeta de Colônia’”) (1842), in: Marx/Engels, Werke (MEGA),
Berlin: Dietz Verlag, 1957, v. 1, p. 94 e 101: “um Estado ‘cristão’, que tem por fim, em vez de uma
associação livre de homens morais, uma associação de crentes, em vez da realização da liberdade, a
realização do dogma. Todos os nossos Estados europeus têm o cristianismo como base”. Precisamente,
“O Estado verdadeiramente religioso é o Estado teocrático; o soberano de tais Estados deve ou, como
no judaísmo, ser o Deus da religião, o Jeová, ou então, como no Tibete, ser o representante de Deus, o
Dalai Lama”.
Eduardo Ferreira Chagas | 171

condition sine qua non para a realização da liberdade e da autonomia


humanas, que se efetiva no Estado político. Ao contrário dessa
posição, Marx diz que tal questão é unilateral, já que não é
necessário que o indivíduo renuncie à religião para lograr sua
liberdade no plano político. É evidente que a emancipação política
constitui um colossal avanço, mas ela não é, na verdade, a forma
última da emancipação humana enquanto tal. Por isso, frisa Marx:

Devido ao fato de não formular a questão a este nível, Bauer cai em


contradições. Põe condições que não são fundadas na natureza
mesma da emancipação política. [...] Quando Bauer diz aos
adversários da emancipação judaica: ‘O seu erro foi somente supor
que o Estado cristão era o único verdadeiro e que não tinha de
submeter-se à crítica dirigida ao judaísmo’ – vemos o equívoco de
Bauer no fato de só submeter à critica o ‘Estado cristão’, e não o
‘Estado como tal’; de não analisar a relação entre emancipação
política e emancipação humana e, portanto, de colocar situações
que só se explicam pela confusão, devido às lacunas da crítica,
entre emancipação política e emancipação geral da humanidade
(MARX, 1957, p. 350-351).

Marx não parte, como Bauer, da relação entre emancipação


política e religião, mas sim entre emancipação política e
emancipação humana, tampouco busca a base da imperfeição do
Estado na religião, senão no próprio Estado político. O Estado,
mediado pela política representativa moderna, democrático-
burguesa, pode desprender-se do constrangimento religioso, sem
que o homem seja realmente livre. Por exemplo, o Estado político
moderno suprime, de forma política-burguesa, ou seja, abstrato-
formal, a propriedade privada, mas tal supressão pressupõe, ao
contrário, a existência dela no mundo real. Em princípio, ele não
admite nenhuma distinção de fortuna, de nascimento, de posição
social, de instrução ou de profissão, porque proclama a emancipação
igualitária do indivíduo perante aos direitos humano-universais, à
democracia burguesa e à soberania nacional. Mas, na verdade, longe
de suprimir as sobreditas distinções, diferenças e desigualdades, o
172 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Estado político só existe na medida em que as pressupõe. Por isso,


esse Estado atinge sua universalidade de forma abstrata, isto é,
sobre esses elementos particulares, sobre essas diferenças sociais,
configurando-se, portanto, como explicitação da vida genérica do
homem em oposição à sua vida real.
No Estado político-moderno, são declarados os direitos do
homem, como a liberdade, a propriedade, a igualdade e a segurança.
Contudo, essa liberdade, concebida como direito do homem, não se
objetiva nas relações sociais, senão no direito do indivíduo
segregado, fechado em si mesmo. A objetivação prática desse direito
constitui, por isso, o direito à propriedade privada. O direito
humano à propriedade privada é, por sua vez, o direito de usufruir
dos bens e rendimentos, sem conceder devida atenção aos outros
homens. Desse modo, o direito à igualdade torna-se meramente
uma subscrição dos dois anteriores mencionados, quer dizer, a
igualdade política não tem correspondência na igualdade real-social.
Por fim, o direito à segurança consiste na garantia outorgada pela
sociedade a cada um de seus membros para a preservação de sua
pessoa, de seus direitos e de sua propriedade. Assim, nenhum desses
supostos direitos do homem transcende a propriedade privada, o
egoísmo individual; pelo contrário, eles estão estritamente
determinados e fundamentados nos interesses pessoais, privados
dos indivíduos da sociabilidade capitalista (Cf. CHAGAS, 2006, p.
249). Marx sublinha:

Esse fato torna-se ainda mais misterioso quando observamos que


os emancipadores políticos reduzem a cidadania, a comunidade
política, a simples meio para conservar esses pretensos direitos do
homem: e que, em consequência, o cidadão é declarado servidor
do homem egoísta. A esfera em que o homem se comporta como
ser comunitário é rebaixada a uma esfera inferior, onde ele age
como ser fragmentado; e que, por fim, é o homem como burguês
[...] que é considerado como homem verdadeiro e autêntico
(MARX, 1957, p. 366).
Eduardo Ferreira Chagas | 173

Esse conflito em que o homem se vê envolto entre Estado e


sociedade civil, entre vida genérica e vida real, é similar à
contradição em que o burgeois – que leva uma vida retraída, privada
e egoísta – se encontra com o citoyen – que participa de uma vida
coletiva imaginária, despojada da vida real e dotada de uma
universalidade ilusória. Essa oposição foi deixada intacta por Bauer,
porquanto reduziu sua polêmica em torno do antagonismo entre
religião e emancipação política. Para Marx, conquanto a
emancipação política burguesa constitua um colossal avanço, ela
não é ainda, como já expresso, o télos último, a plena emancipação
humano-social. No Estado político, os indivíduos, sejam ou não
religiosos, surgem como religiosos por causa da dicotomia entre
vida individual e vida genérica, isto é, entre vida social e vida política.
A religião, como elaboração espiritual da sociedade civil, aparece
então como objetivação do estranhamento do homem em relação à
sua genericidade, porque o homem trata a vida política despojada
da vida individual, como se fosse sua verdadeira vida. Com efeito, o
Estado político é a expressão máxima dessa realidade, na qual o
homem acha-se corrompido, pedido de si mesmo; em síntese,
sujeito aos domínios e elementos inumanos inerentes à
sociabilidade do capital. Como frisa Marx:

O Estado político acabado é, pela própria essência, a vida genérica


do homem em oposição a sua vida material. [...] Onde o Estado
político já atingiu seu verdadeiro desenvolvimento, o homem leva,
não só no plano do pensamento, da consciência, mas também no
plano da realidade, uma dupla vida: uma celestial e outra terrena,
a vida na comunidade política, na qual ele se considera um ser
coletivo, e a vida na sociedade civil, em que atua como particular,
considera os outros como meios, degrada-se a si próprio como
meio e converter-se em joguete de poderes estranhos (MARX,
1957, p. 350-351).

Em O Capital, (Das Kapital) (1867) Marx faz uma analogia do


fetichismo religioso com o fetichismo da mercadoria: como no
fetichismo da religião se oculta o homem com a verdade de Deus,
174 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

assim também no fetichismo da mercadoria se oculta a realidade


que está por trás da própria mercadoria, que é o trabalho, ou o
produtor do trabalho; ou melhor, no fetichismo religioso, Deus
aparece autônomo, independente, e o homem apenas como
dependente e não como sujeito e verdade acerca da existência de
Deus; e no fetichismo da mercadoria, o produto do trabalho, a
mercadoria, aparece como se fosse autônomo, independente do seu
produtor, e o produtor, o trabalhador, aparece como dependente e
não sujeito do produto de seu próprio trabalho. Diz Marx:

Não é mais nada que determinada relação social entre os próprios


homens que aqui, para eles, assume a forma fantasmagórica de
uma relação entre coisas. Por isso, para encontrar uma analogia,
temos de nos deslocar à região nebulosa do mundo da religião.
Aqui, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida
própria, figuras autônomas, que mantêm relações entre si com os
homens. Assim no mundo das mercadorias, acontece com os
produtos da mão humana. Isso eu chamo de fetichismo, que adere
aos produtos de trabalho, tão logo são produzidos como
mercadorias, e que, por isso, é inseparável da produção de
mercadorias. Esse caráter fetichista do mundo das mercadorias
provém [...] do caráter social peculiar do trabalho que produz
mercadorias [...]. O reflexo religioso do mundo real somente pode
desaparecer, quando as circunstâncias cotidianas da vida prática
representarem para os homens relações transparentes e racionais
entre si e com a natureza” (MARX, 1962, p. 86-87).

Um texto importante de O Capital sobre o homem reificado


é, precisamente, “O Caráter Fetichista da Mercadoria e o seu
Segredo” (Der Fetischcharakter der Ware und sein Geheimnis).
Investigando o fetichismo da mercadoria, Marx observa que o
caráter “místico”, “enigmático”, da mercadoria não provém de seu
valor de uso, mas da forma do valor, do valor de troca. Assim ele
descreve o fenômeno do fetichismo da mercadoria:

O mistério da forma mercadoria consiste, portanto, simplesmente


no fato de que ela reflete aos homens as características sociais de
Eduardo Ferreira Chagas | 175

seu próprio trabalho como características objetivas dos produtos


do trabalho mesmo, como qualidades naturais sociais destas
coisas, por isso, também reflete a relação social dos produtores
com o trabalho total como uma relação social de objetos, que existe
fora deles. Por meio desses quiproquós os produtos do trabalho se
tornam mercadorias, coisas sociais, sensíveis e suprasensíveis. [...]
É apenas a relação social determinada dos próprios homens,
tomada aqui por eles como a forma fantasmagórica de uma relação
entre coisas.” “Já que os produtores somente entram em contato
social mediante a troca dos produtos de seu trabalho, também as
características especificamente sociais de seus trabalhos privados
só aparecem dentro dessa troca. [...] Por isso, aos últimos [aos
produtores], as relações sociais entre seus trabalhos privados
aparecem como o que elas são, isto é, não como relações
imediatamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos,
mas, pelo contrário, como relações reificadas entre as pessoas e
relações sociais entre as coisas” (MARX, 1962, p. 86-87).

Marx enfatiza, aqui, a condição trágica do homem no mundo


do capital, pois, no processo produtivo de mercadorias, cria-se uma
objetividade que anula os próprios homens. Marx destaca a presença
de uma objetividade sem o homem, ou de um homem esvaziado,
para o qual a realidade aparece como um mundo exterior; quer
dizer, o homem desconhece o mundo, a sua própria atividade, as
condições pelas quais se produzem a sua própria existência,
percebendo o mundo, a existência real, como fora dele, externa e
alheia a ele, e não como um produto de seu próprio trabalho, de sua
própria subjetividade, tal como o religioso que produz Deus, mas
não se vê como seu criador, mas como criatura externa e dominada
por Deus. Marx mostra ainda que, nessas condições fetichizadas, os
homens enquanto homens são abolidos e se tornam coisas vivas (de
ordem mercadológica), e os produtos de seu trabalho, as
mercadorias, aparecem como atributos de si mesmas,
autonomizadas, dotadas de um poder sobrenatural, ocultando,
assim, a sua origem, a sua fonte, isto é, o trabalho social que as
fundamenta.
176 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Já numa obra de juventude, nos Manuscritos Econômico-


Filosóficos (Ökonomisch-philosophische Manuskripte) (1844),
particularmente no capítulo sobre o “Dinheiro”, Marx falara do
fetichismo do dinheiro, comparando-o como um Deus na sociedade
capitalista, pois que a propriedade privada, a posse do dinheiro e seu
fetichismo aparecem como um Deus, como uma divindade, um
ídolo, criado, cultuado e adorado pelo próprio sistema do capital.
Marx ilustra isto com passagens literárias do Timon de Atenas, de
Shakespeare:

Ouro? Amarelo, brilhante, precioso ouro? Não, deuses:


(...) Esta quantidade de ouro bastaria para transformar o preto em
branco; o feio em belo; o falso em verdadeiro; o vil em nobre; o
velho em jovem; o covarde em valente.
(...) Este escravo amarelo
Vai unir e dissolver religiões; bendizer amaldiçoados;
Fazer adorar a lepra lívida, dar lugar aos ladrões,
Dando-lhes títulos, genuflexões e elogios
(...) Prostituta comum de todo o gênero humano, que semeias a
discórdia entre a multidão de nações. (...) (MARX, 1990, p. 563-
564).

E mais adiante:

Ó tu, doce regicida; amável agente de separação


Entre o filho e o pai! Brilhante corruptor
(...) Galanteador, sempre novo, viçoso, amado e delicado,
Cujo esplendor funde a neve sagrada
Que descansa sobre o seio de Diana, tu, deus visível,
Que tornas os impossíveis fáceis,
(...) Possam conquistar o império do mundo (MARX, 1990, p. 564).

Em Shakespeare fica clara a identificação do dinheiro com uma


divindade visível, como ser onipotente, poder absoluto, força divina,
que pode verdadeiramente criar tudo, tornar todos os desejos
humanos, todos os seus sonhos, uma realidade efetiva. O dinheiro, “o
bezerro de ouro” moderno, em virtude de suas propriedades, de poder
Eduardo Ferreira Chagas | 177

comprar tudo, de se apropriar de tudo, de ser universal e onipotente,


“o sedutor” que prostitui e inverte as qualidades humanas e se
converte na sociedade do capital num ser onipotente, num Deus
mundano, todo poderoso, honrado e adorado.
A religião é também, como expresso, ilusão6, compensação
ideal, funciona como um remédio, como um meio de evasão, de
refúgio, o ópio espiritual (geiste Opium) do povo oprimido, sofrido,
como uma espécie de má “aguardente espiritual” que serve para
ocultar e justificar uma determinada realidade (a realidade
capitalista), como uma espécie de nevoeiro, de véu sobre a
irracionalidade da realidade (da produção burguesa), entontecendo,
adormecendo, a consciência do homem, apaziguando a sua
consciência, amparando-o, aliviando-o, consolando-o de sua miséria
no mundo real, para que ele suporte e esqueça a dureza de sua
realidade degradante, levando-o, pois, “gozo celeste”, ao
conformismo e à resignação. Como diz Marx:

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de


outro, o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da
criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito
de uma situação carente de espírito. Ela é o ópio do povo (MARX,
1957, p. 378).

Marx acredita que, para libertar o homem da religião, de suas


ilusões religiosas, é necessário primeiro libertá-lo do tipo de vida que
o leva a ansiar pela religião, ou seja, é preciso mudar o mundo em
que o homem precisa de ilusões. Livrando-se das “flores
imaginárias”, pode-se colher as “flores vivas”. Neste sentido, é
fundamental não combater o efeito, mas a causa da religião, que é a
estrutura social, política e econômica da sociedade capitalista.
Enfatiza Marx:

6
Em Totem e Tabu (Totem und Tabu) (1913), O Futuro de uma Ilusão (Die Zukunft einer Illusion)
(1927) e Moisés e o Monoteísmo (Der Mann Moses und Die Monotheistiche Relgion) (1939), Freud
interpreta também a religião como ilusão, como ilusão consoladora face à dureza da vida, como “um.
sistema de ilusões plenas de desejo juntamente com um repúdio da realidade”.
178 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Assim, a tarefa da história, depois que o mundo do além da verdade


se desvaneceu, consiste em estabelecer a verdade deste mundo. É
primeira tarefa da filosofia, que está a serviço da história,
desmascarar o auto-estranhamento humano em suas formas não
santificadas, depois que ela foi desmascarada na forma sagrada.
Com isto, a crítica do céu se converte na crítica da terra, a crítica
da religião na crítica do direito, a crítica da teologia na crítica da
política (MARX, 1957, p. 379).

Afirma Marx ainda:

A crítica da religião leva à doutrina de que o homem é o ser


supremo para o homem e, consequentemente, ao imperativo
categórico de derrubar todas as relações, nas quais o homem é um
ser humilhado, escravizado, abandonado e desprezível (MARX,
1957, p. 385).

Portanto, a religião, o mundo fantástico dos deuses, existe,


porque existe um mundo irracional e injusto ao homem. Ela não é
fruto de uma revelação sobrenatural, não é produto da ignorância,
nem da invenção de impostores, de profetas, teólogos ou líderes, nem
de uma conspiração clerical, mas produto do homem oprimido,
explorado, que busca alívio, abrandamento, consolo na religião, no seu
universo imaginário, acerca de suas dores e seus sofrimentos. Assim,
a religião e suas ilusões não desaparecerão, enquanto não se
eliminarem as condições que as criam; e sem a superação dessas
condições, a felicidade será alcançada só no outro mundo e o paraíso
será sempre um paraíso celeste, e não “um paraíso real”, na terra, num
futuro histórico. Não se trata aqui de uma posição dogmática e
inflexível de Marx a favor de uma luta decidida contra toda religião, ou
de uma defesa da abolição do sentimento religioso pela força, pela
violência, ou da pretensão de transformar, por “ordem superior”, por
decreto, os crentes em ateus, como queriam, de forma sectária, os
blanquistas, os anarquistas, durante a Comuna de Paris, e alguns
bolchevistas durante a República Socialista Soviética, e estabelecer
uma sociedade ateia. Não há no pensamento de Marx o ateísmo como
Eduardo Ferreira Chagas | 179

um artigo de fé obrigatório, menos ainda “um policiamento


espiritual”, como a defesa do desdém, da injúria, do preconceito, da
intolerância, da proibição ou perseguição à religião em geral. Na
verdade, há o entendimento de que a religião deve ser uma questão
privada7 em relação ao Estado, ao espaço público e a cada indivíduo,
que deve ser livre para crer ou não, pois deve haver liberdade de
consciência e de crença para todos, bem como tolerância e respeito,
que devem ser universais, às pessoas que são crentes.8 A ênfase que se
deu aqui foi, por um lado, uma crítica a uma dada forma de sociedade
e ao seu ordenamento político, o Estado, que se apresentam, embora
laicos, de forma religiosa, ocultando suas verdadeiras funções de
exploração e opressão, e, por outro lado, uma “negação específica” da
religião, a saber, a negação da religião quando ela é utilizada em
prejuízo ao ser humano; a negação dela enquanto obscurantismo,
como superstição, idolatria, misticismo, como narcótico que mantém
o indivíduo paralisado, acomodado no seu lugar, a serviço do
capitalismo, que o explora e obstaculariza a sua consciência, e, por isto,
a crítica e a desmistificação da religião como crítica da realidade da
qual ela nasce, contribuindo, em certa medida, para a emancipação
social do homem (MARX, 1957, p. 379).9
Neste sentido, é mister afirmar, enfim, que nem toda religião
é, ou foi, estranhamento, ocultamento das contradições do real e à
serviço da exploração e da dominação; quer dizer, nem toda religião

7
Em O Socialismo e a Religião (1905), Lisboa: Edições Avante, 1984, v. 1, p. 293 e 292, Lênin
argumenta, de forma semelhante, “que a religião seja completa e incondicionalmente declarada um
assunto privado.” “A religião deve ser declarada um assunto privado (...). Exigimos que a religião seja
um assunto privado em relação ao Estado (...) O Estado não deve ter nada que ver com a religião, as
sociedades religiosas não devem estar ligadas ao poder de Estado”. Também em Sobre a Atitude do
Partido Operário em Relação à Religião. Lisboa: Edições Avante, 1984, v. 1, p. 371, Lênin defende
que “a religião é um assunto privado”.
8
Na obra O Socialismo e a Religião (1905), op. cit., v. 1, p. 292, Lênin defende que as pessoas não
devem ser perseguidas pela sua crença ou descrença, pois “Cada um deve ser absolutamente livre de
professar qualquer religião que queira ou de não aceitar nenhuma religião, isto é, de ser ateu (...)”.
9
Marx enfatiza: “A crítica da religião desiludiu o homem, para que ele pense, aja, construa a sua
efetividade como um homem sem ilusões, um homem que chegou à idade da razão, para que gravite
em volta de si mesmo, isto é, do seu sol efetivo. A religião não passa do sol ilusório que gravita em
volta do homem enquanto o homem não gravita em volta de si mesmo”
180 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

é, de uma vez para sempre, o “ópio do povo”, pois cada religião


ocupa um lugar e uma função específica dentro de seu contexto
sócio-político-econômico. Por exemplo, o Cristianismo primitivo,
cujos membros não eram chefes nem profetas, mas os banidos
socialmente, os subjugados e dispersos por Roma, os privados de
direitos, os pobres, os escravos, os perseguidos, os oprimidos e não
tinham privilégios, nem propriedades, pregavam um Evangelho da
libertação da servidão e da miséria, da supressão dos privilégios, das
diferenças de riqueza, da fraternidade e da igualdade. Tal
Cristianismo nascente queria, partindo da igualdade dos homens
perante Deus, restabelecer a igualdade civil, a igualdade entre os
membros da comunidade social-política. Portanto, o Cristianismo
primitivo, “o humilde Cristianismo dos primeiros séculos”,
despojado de propriedade privada, oferecia, pelo menos a nível
ideal, fundamentos para pôr em questão as instituições e ideias que
são comuns às formas de sociedade que se baseiam sobre os
antagonismos de classe. Embora Engels, em A Guerra dos
Camponeses Alemães (Der deutsche Bauernkrieg) (1850), chame a
atenção, é claro, para os limites dessas “antecipações comunistas”
do Cristianismo primitivo: “Os ataques contra a propriedade
privada, a reivindicação da comunidade dos bens, deviam
desagregar-se numa organização grosseira da caridade; a vaga
igualdade cristã podia, no máximo, conduzir à igualdade civil
perante à lei (...). A antecipação, pela fantasia, do comunismo era,
na realidade, uma antecipação das relações burguesas modernas”
(ENGELS, 1960, p. 346). Mais adiante, na mesma obra, Engels diz
que essas ideias foram expressas mais nitidamente só no século XVI
pelo teólogo e agitador político Thomas Münzer: “É só com Münzer
que essas ressonâncias comunistas se tornam a expressão de
aspiração de uma efetiva facção da sociedade. Só com ele é que são
formuladas com uma certa determinidade e, depois dele,
encontramo-las em todos os grandes levantamentos populares, até
que se fundem, pouco a pouco, com o movimento operário
moderno” (ENGELS, 1960, p. 346-347). A teologia de Münzer
Eduardo Ferreira Chagas | 181

expressa, na opinião de Engels, o desejo do regresso do Cristianismo


à sua origem, por isto suas ideias são antecipações, em germe, das
condições para a emancipação do homem, pois Münzer defende que,
assim como não há céu no além, não existe também inferno nem
condenação eterna e que é tarefa dos crentes realizar “o céu” na
terra, o “reino eterno de Deus” no reino temporal dos homens.10
Mas, o “reino de Deus” para ele é, precisamente, uma sociedade em
que não houvesse diferenças de classe, nem propriedade privada,
nem poder de Estado estranho, oposto aos membros da sociedade,
isto é, um mundo social novo, uma nova forma de organização social
em que todos os trabalhos e todos os bens fossem comuns e que
reinassem a liberdade e a igualdade mais plena entre os homens.

3.2. Diferença entre alienação e estranhamento nos


Manuscritos Econômicos-Filosóficos.

3.2.1. O Momento da Alienação e do Estranhamento no Interior


do Trabalho.

Nos “Manuscritos Econômico-Filosóficos”, redigidos entre


abril e agosto de 1844, Marx, ao tratar da categoria trabalho (Arbeit),
a toma como a categoria central da produção e reprodução da vida
humana, a atividade primária, necessária e natural do homem.

10
Uma exposição interessante sobre o confronto entre esses dois mundos inconciliáveis, o plano
humano (das trevas) e o plano divino (da luz), entre a cidade terrena e a cidade celeste, entre a ordem
temporal (a história) e a ordem eterna (a eternidade), se vê na análise de Giorgio Agamben acerca do
juízo processual do prefeito romano da província da Judeia, o pagão Pôncio Pilatos, que é do mundo
dos homens, contra Jesus, cujo reino não é daqui, “não é deste mundo”: “No processo que se passa
diante de Pilatos, (...) dois julgamentos e dois reinos parecem confrontar-se: o humano e o divino, o
temporal e o eterno. Com sua habitual vivacidade, Spengler expressou essa contraposição: “Quando
Jesus é levado diante de Pilatos, dois mundos estão imediata e inconciliavelmente frente a frente: o dos
fatos e o das verdades, e com tão assustadora clareza como nunca noutro lugar na história do mundo.’”
“E é o mundo dos fatos que deve julgar o da verdade, o reino temporal que deve pronunciar um
julgamento sobre o Reino eterno.” Mais adiante, diz Jesus: “O meu reino não é deste mundo (...). Se o
meu reino fosse deste mundo, os meus servos teriam combatido por mim, a fim de que eu não fosse
entregue aos judeus. Ora, meu reino não é daqui”. Pilatos pergunta a Jesus: “De onde és?”, in: Pilatos
e Jesus. São Paulo: Boitempo Editoral, 2014, p. 34, 37, 38, 42 e 44.
182 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Precisamente, o que especifica a essência de um ser vivo é a forma


como vive e como produz e reproduz sua vida. Marx assevera; “No
tipo de atividade vital reside todo o caráter de uma espécie, o seu
caráter genérico. E a atividade livre e consciente, constitui o caráter
genérico do homem” (MARX, 1975, p. 164). A atividade dos demais
animais se reduz exclusivamente ao consumo dos objetos de suas
próprias necessidades imediatas. “Sem dúvida, o animal também
produz. Faz um ninho, uma habitação; como as abelhas, os castores,
as formigas, etc. Mas só produz o que é estritamente necessário para
si ou para as suas crias; produz numa só direção (…); produz
unicamente sob a dominação da necessidade da espécie a que
pertence” (MARX, 1975, p. 164). Esta forma de atividade, frisa Marx,
mesmo a mais deslumbrante, é repetida instintiva e quase mecânica,
restrita e impulsionada de acordo com a própria estrutura orgânica
e, por isso, notada apenas a uma necessidade específica.
Ao contrário, a atividade do homem é radicalmente diversa da
dos animais, pois é livre e consciente; ela constrói um mundo
objetivo e manipula a natureza de acordo com a própria vontade
daquele. Segundo Marx, o homem “produz universalmente; (…)
produz quando se encontra livre da necessidade física e só produz
verdadeiramente na liberdade de tal necessidade; (…) reproduz toda
a natureza; (…) é livre perante o seu produto (…), sabe como
produzir de acordo com o padrão apropriado ao objeto; deste modo
(…) constrói também em conformidade com as leis da beleza”
(MARX, 1975, p. 164). Esta passagem evidencia que através do
trabalho o homem se manifesta como ser genérico, suplanta a
atividade muda dos animais, produz a sua existência, cria a
consciência de que é um ser social e, destarte, atinge a existência de
um ser universal e livre; por isso, o homem só se constitui como ser
universal e livre na medida em que é sujeito de uma atividade livre
e consciente.
O trabalho (Arbeit) como objetivação e autodesenvolvimento
humano, como automediação necessária do homem com a natureza,
constitui a esfera ontológica fundamental da existência humana, e,
Eduardo Ferreira Chagas | 183

portanto, a última base de todos os tipos e formas de atividades.


Através dele sucede uma dupla transformação: a da natureza
exterior e inorgânica e a da própria natureza do homem. Os objetos
e as forças da natureza são transmudados em meio, em objetos de
trabalho. Esses objetos, da mesma forma produtos do trabalho, são
por isso, objetos humanizados: não é simples natureza, mas
natureza humanizada. “O produto do trabalho”, salienta Marx, “ é o
trabalho que se fixou num objeto, que se transformou em coisa
física, é objetivação do trabalho. A realização do trabalho constitui
simultaneamente a sua objetivação” (MARX, 1975, p. 159). A
objetivação é uma “conditio sine qua non” da universalidade do
trabalho (Arbeit), que traz necessariamente o momento da
alienação; esta incorre, pois, no momento positivo em que o
produto, através de seu trabalho, entra em conexão com o produto
de seu trabalho e com os outros homens. Portanto, o homem só pode
assevera-se como ser genérico, mediante a atuação conjunta dos
homens e pela manifestação de todas as suas forças genéricas, o que
a princípio só pode ser feito sob a forma de alienação.
A alienação no trabalho, enquanto momento necessário da
objetivação, independente de todas as formas de sociabilidade, é a
esfera ontológica fundamental da existência humana. A alienação é
essencial para que o homem com a sua atividade objetiva, “a sua
atividade como atividade de um ser objetivo”. O objeto do trabalho
é, pois, resultante da objetivação do gênero humano, uma vez que o
homem se desdobra não apenas na consciência, intelectualmente,
mas também ativamente, na realidade concreta; por isso o homem
contempla a si não apenas nas formas que ele criou. O poder que
tem o homem de objetivar-se como alienação (positiva) de sua vida
genérica e encerra características inerentemente humanas.

3.2.1.1. O Momento do Estranhamento no Interior do Trabalho

Na obra em questão, há várias passagens referentes à situação


do trabalhador na sociedade industrial moderna. Frente ao cinismo
184 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

do “homem livre” advogado pela economia política clássica, Marx


afirma: a existência do trabalhador, no âmbito da propriedade
privada, encontra-se restrita às mesmas condições que a existência
de qualquer outra mercadoria; quando há uma extensa “divisão do
trabalho”, a atividade do trabalhador torna-se repetitiva e mecânica;
se a sociedade vier a diminuir sua riqueza, “o trabalhador e o
capitalista sofrem danos, o trabalhador sofre na sua existência
enquanto o capitalista sofre no lucro sobre sua mamona inerte”
(MARX, 1975, p. 133), porém ninguém sofre tão cruelmente com sua
declinação como os trabalhadores; mesmo se a riqueza prospera “o
resultado inevitável para o trabalhador é o trabalho excessivo e a
morte prematura, a degradação, a sujeição ao capital que se acumula
em ameaçadora oposição a ele, nova concorrência, a morte à fome
ou a mendicidade para uma parte dos trabalhadores” (MARX, 1975,
p. 105-106); “O trabalhador não tem apenas de lutar pelos meios
físicos de subsistência; deve ainda lutar para alcançar trabalho, isto
é, pela possibilidade e pelos meios de realizar a sua atividade”
(MARX, 1975, p. 103); até mesmo o singelo aumento dos salários não
se constitui como solução adequada, pelo contrário, estimula o
apetite do capitalista para manter e aumentar seus benefícios; a
“divisão do trabalho” toma o trabalhador cada vez mais dependente
de um tipo particular de trabalho, extremamente unilateral, que o
reduz espiritual e fisicamente; as máquinas, longe de mitigar seu
peso, se lhe opõem como competidoras; a acumulação e a
concentração de forças, que parecem sancionar maior
racionalização, se convertem em superprodução e findam por deixar
sem trabalho uma grande parte dos trabalhadores ou “numa
condição de penúria ou de fome”. Nestas condições o trabalho
(Arbeit) deixa de ser uma atividade livre e consciente, é agora
trabalho “pernicioso e deletério”, morto, imposto, estranho.
Na produção capitalista o homem é pura força de trabalho,
qualitativamente indiferenciável do restante dos meios de produção:
já não é identificável pela forma de seu trabalho. O produto do
trabalho separa-se do trabalhador, converte-se em objetos alheio,
Eduardo Ferreira Chagas | 185

torna-se estranho a ele. No âmbito da propriedade privada produz-


se o fenômeno geral do estranhamento, pelo qual as forças e os
produtos se subtraem ao controle e ao poder dos indivíduos,
transformam-se em forças contrapostas aos homens. O trabalho,
portanto, configura-se ontologicamente de forma estranhada; Marx
sublinha quatro conexões em que ocorre esse fenômeno: a do
trabalhador com o seu produto, do trabalhador com sua atividade
produtiva, do trabalhador com sua vida genérica e, por fim, do
trabalhador com os outros homens.
Ao analisar os nexos causais da produção burguesa, Marx
descobre que o produto, resultado da objetivação do trabalho
humano, deixa de ser para o trabalhador seu próprio ser objetivado
para ser apenas um objeto estranho que o enfrenta, o escraviza. O
objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, se lhe opõe como ser
estranho, volta-se contra o seu produtor e passa a dominá-lo. O
trabalhador plasma a sua vida no objetivo; porém agora esta não lhe
pertence, mas ao objeto (ojekt). Assim, quanto mais objetos o
trabalhador produzir tanto menos ele pode apropriar e mais se
subjuga ao domínio do seu produto; quanto “mais refinado o seu
produto, tanto mais deformado o trabalhador; quanto mais
civilizado o produto tanto mais bárbaro o trabalhador” (MARX,
1975, p. 161). O despojamento do objeto produzido, da produção dos
meios necessários à própria produção, enfim, de tudo que significa
produção pelo trabalho humano, consiste na explicitação do
estranhamento do trabalhador com o seu produto.
Na medida em que o produto é estranho ao trabalhador, a
própria atividade produtiva se toma alheia ao trabalhador; o
trabalho mesmo converte-se em atividade externa que produz
deformação e unilateralização do indivíduo. Nesta atividade
específica que é repetitiva, fatigante e negadora da essência humana,
o trabalhador “não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo,
não se sente bem, mas feliz, não desenvolve livremente as energias
físicas e mentais, mas esgora-se fisicamente e arruína o espírito”
(MARX, 1975, p. 162). Por isso, o trabalhador só pode sentir-se em
186 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

si fora do trabalho, porque neste está fora de si, afora sua realização
se patenteia nas funções puramente animais – comer, beber,
procriar, etc. Marx sublinha: o elemento humano torna-se animal e
o animal humano. Consequentemente, quando o trabalhador se
confronta com o trabalho estranhado – como um trabalho não típico
de sua espécie, não próprio de seu gênero – o seu ser genérico (tanto
no que diz respeito a sua natureza física como as suas faculdades
espirituais específicas) converte-se num ser alheio a ele próprio. De
fato, o trabalho, enquanto atividade livre e consciente, que especifica
a genericidade do homem e o distingue do animal, é negado e se
transforma em simples meio de subsistência, despojado e
contraposto aos demais seres humanos.
O que se constata com relação ao estranhamento do homem
frente ao seu produto, à sua própria atividade e à sua vida genérica,
patenteia-se também com a relação do homem com os outros
homens. Diz Marx: “quando o homem se contrapõe a si mesmo,
entra igualmente em oposição com os outros homens” (MARX, 1975,
p. 166). Este momento se evidencia, por um lado, pelo fato de que
um certo número de homens produzem para outros e por isso não
terem o controle sobre o produto do seu próprio trabalho; por outro,
pelo fato de um número reduzido de homens – os capitalistas -, que
não trabalham, se apropriarem do produto alheio. Deste modo,
pode-se dizer que tanto os trabalhadores como os capitalistas são
estranhos em frente ao outro, porém, as consequências são
diferentes: o estranhamento para o trabalhador se patenteia como
miséria, sofrimento e desumanização, enquanto para o capitalista,
como riqueza, deleite e satisfação.

3.2.2. Diferença entre Alienação e Estranhamento

Nos Manuscritos de 1844, o trabalho é postulado, como vimos,


tanto em sua acepção geral, quanto em sua concepção particular. Na
acepção geral é visto como atividade produtiva: a determinação
ontológica fundamental da humanidade, isto é, o modo realmente
Eduardo Ferreira Chagas | 187

humano de existência. Por outro lado, em sua concepção particular,


na forma da “divisão do trabalho”. Nesta última, onde a atividade
está estruturada em moldes capitalistas, o trabalho torna-se o fulcro
de todo o estranhamento. Marx salienta: “A realização do trabalho
surge de tal modo como desrealização que o trabalhador se invalida
até a morte pela fome. A objetivação revela-se de tal maneira como
perda do objeto que o trabalhador fica privado” (MARX, 1975, p.
159). O momento do estranhamento no trabalho se interpõe entre o
homem e a sua atividade, e impede que este se realize em seu
trabalho, no exercício de suas capacidades produtivas e na
apropriação humana dos produtos.
É importante ressaltar que Marx não está criticando o
trabalho enquanto tal, mas apenas uma dada forma particular do
trabalho, isto é, o momento do estranhamento num trabalho
específico, dado que a essência humana (*) se realiza no trabalho,
ou melhor dizendo, o trabalho é a própria essência do homem. É,
pois, insustentável pensar a vida humana, ou qualquer forma de
sociabilidade, sem o trabalho, sem objetivação. Como é sabido, todo
processo de objetivação traz intrínseco em si o momento da perdição
e da despossessão do objeto pelo sujeito, isto é, o produto do
trabalho lhe aparece como algo autônomo, alheio e independente de
sua atividade.
Podemos evidenciar que o homem, ao objetivar-se na cultura,
na arte, no Estado, na política ao mesmo tempo se aliena. A
alienação é, pois, um momento necessário da objetivação, ou
melhor, um momento insuperável da existência humana.
Precisamente uma das grandes dificuldades do marxismo
contemporâneo consiste em não compreender a distinção
ontológica fundamental entre objetivação, alienação e
estranhamento. A alienação, como dissemos a partir das análises de
Marx, é um momento indispensável da objetivação, enquanto que o
estranhamento corresponde a uma forma particular da objetivação
que traz intrínseco em si o momento da perdição e da despossessão
188 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

do objeto pelo sujeito, isto é, o produto do trabalho lhe aparece como


algo autônomo, alheio e independente de sua atividade.
A objetivação, nas condições em que o trabalho se torna
“exterior ao homem”, assume um “poder estranho” que enfrenta o
homem de uma “maneira hostil”. Este poder exterior – a
propriedade privada, a riqueza pródiga – é o corolário inevitável do
momento do estranhamento, da conexão exterior entre o
trabalhador e a natureza, entre o trabalhador e ele mesmo. Assim,
se o resultado desse tipo de objetivação é a produção de um “poder
hostil”, destaque o homem não pode realmente “contemplar-se num
mundo por ele criado”; subjugado a um poder exterior e despojado
do sentido de sua própria atividade, cria um mundo irreal, submete-
se a ele, e com isso restringe ainda mais a sua própria liberdade.

3.3. Crítica de Marx em Relação às outras Tematizações sobre o


Trabalho

3.3.1. Crítica à Economia Política Clássica quanto à sua Noção


Unilateral de Trabalho.

Os Manuscritos Econômico-Filosóficos registram, entre


outras questões, a polêmica de Marx com os economista clássicos;
entre eles: Smith, Ricardo, Mill, Say, Sismondi, Malthus, Lauderlade
e Skerbek. Segundo Marx, a economia política não depreende as
“interconexões do movimento histórico” da realidade social: “A
economia política – diz ele – parte do falo da propriedade privada.
Não explica. Concebe o processo material da propriedade, como ele
ocorre na realidade, em fórmulas gerais e abstratas, que em seguida
lhe servem de leis. Não compreende tais leis, isto é, não demonstra
como eles derivam da essência da propriedade privada. A economia
política não fornece qualquer explicação sobre o fundamento da
divisão do trabalho e do capital e da terra” (MARX, 1975, p. 157-158).
Expondo, ao contrário, a complexidade das relações de produção
capitalista, Marx não principia sua investigação, como fez a
Eduardo Ferreira Chagas | 189

economia política, a partir da produção em geral, a – histórica,


abstrata, mas de uma dada forma particular da produção, isto é, dos
fatos da sociabilidade burguesa, onde “O trabalhador torna-se mais
pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção
aumenta em poder e extensão. O trabalhador torna-se uma
mercadoria tanto mais barata, quanto maior número de bens
produz. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em
proporção direta a desvalorização do mundo dos mesmos. O
trabalhador não produz apenas mercadorias; produz-se também a
si mesmo e trabalhador como uma mercadoria, e justamente na
mesma proporção que produz bens” (MARX, 1975, p. 159).
Marx, porém, enaltece Smith e Ricardo por terem
reconhecido, como substância de toda riqueza, não só o trabalho
agrícola, como os Fisocratas, mas o trabalho em geral como
“essência subjetiva” da riqueza; além disso, pelo fato de terem
apreendido a propriedade privada como um produto da atividade
humana. Marx menciona, neste contexto, Engels que, em seus
Esboços de uma Crítica da Economia Política (1844), tinha
denominado Adam Smith de o Lutero economista, comparando
Lutero, que interiorizou a religião, com Smith, que suprimiu a
“objetividade externa e sem espírito” da riqueza pródiga. Todavia,
nenhum dos dois havia resgatado o homem genuíno. Tais alusões
trarão apenas de um reconhecimento aparente do homem, dado que
aqueles (principalmente Smith) só consideram o trabalhador
quando estar a trabalhar, e não como ser humano em sua totalidade.
Diz Mar: “O burlão, o ladrão, o pedinte, o desempregado, o faminto,
o miserável e o criminoso, são figuras de homens que não existem
para a economia política, mas só para outros olhos, para os do
médico, do juiz, do coveiro, do burocrata, etc” (MARX, 1975, p. 174).
Esta negligência do lado humano decorre da acepção básica da
economia política, que supõe ser a propriedade privada um atributo
essencial da natureza humana, abstraindo, assim, a condição
aviltante do trabalhador no âmbito da sociedade com base na
propriedade privada dos meios de produção.
190 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

A partir do momento em que o trabalho é considerado como


“essência subjetiva” da propriedade privada, segue-se que a “divisão
do trabalho” é apreendida como o principal motor da produção.
Considerar os economistas são o principal motor da produção.
Porém, os economistas são confusos acerca da natureza da “divisão
do trabalho”, como por exemplo: para Adam Smith, a origem da
“divisão do trabalho” é decorrência da “faculdade de troca” da
propensão que o homem tem para trocar, negociar e permutar umas
coisas por outras, pois pela troca o homem adquire o que precisa
para se manter vivo; para J. B. Say, a “divisão do trabalho” é
decorrência da permuta, pois sem ela não haveria produção; já para
Skarbek a causa que impulsiona um homem a prestar os seus
serviços a outro é o interesse próprio; para S. Mill, o comércio, como
permuta desenvolvida, é consequência da “divisão do trabalho”. A
essa altura, eles se contradizem uns aos outros, embora todos
estejam em consonância ao asseverar a conexão mútua entre a
“divisão do trabalho” e a acumulação de riqueza, bem como ao
advogar que só a propriedade livre dos “preconceitos locais e
políticos” poderia encerrar uma “divisão do trabalho” amplia e
economicamente compensadora. Para eles, em última instância, a
“divisão do trabalho”, baseado na troca, é absolutamente
indispensável à sociedade.
Contrariamente a estas posições, Marx defende que os
economistas confundem o caráter social do trabalho, indispensável
à sociedade, com a divisão imposta ao mesmo, pois pode-se postular
a superação do trabalho estranhado, precisamente, por ser possível
contrapor o caráter social do trabalho à divisão forçada do mesmo;
por conseguinte, quando a atividade deixa de ser regulada com base
na propriedade privada e não troca, ela adquire o caráter de
atividade do homem como ser genérico. Levando, pois em
consideração essas reverberações, Marx crítica severamente a
economia política, que ao reconhecer o lado exterior e produtivo do
trabalho, enquanto produtor de riqueza ocultou o estranhamento
que está na base da sociedade industrial moderna e, em geral, de
Eduardo Ferreira Chagas | 191

toda sociedade com suporte na propriedade privada dos meios de


produção.

3.3.2. Crítica a Hegel quanto à sua Acepção Abstrata de


Trabalho

Marx em “Crítica da Dialética e da Filosofia de Hegel”, último


capítulo do “Terceiro Manuscritos”, consigna que os neo-hegelianos
(Strauss, Bauer, Stirne, etc) se ocuparam tanto do conteúdo do
mundo antigo quanto do método de Hegel, e que por isso acabaram
por assumir uma posição inteiramente acrítica à sua própria fonte,
isto é, à filosofia de Hegel em geral, e à sua dialética em particular.
Em contrapartida, Feuerbach é elogiado por Marx como o único
pensador que perfilhou um procedimento sério, e certamente
crítico, frente a dialética hegeliana, e por isso foi o “verdadeiro
superador da velha filosofia”. Feuerbach efetivou um grande
empreendimento; comparou a dialética hegeliana à religião e à
teologia, pois, para ele, assim como a teologia apreende o real como
um atributo de Deus, também a filosofia especulativa toma o
determinado, o finito, como uma derivação do absoluto (ou da ideia
abstrata). Feuerbach exprime a dialética hegeliana assim Hegel
parte do infinito, do universal abstrato; em seguida dissolve o
infinito, põe o real, o sensível, finito, particular, e finalmente volta a
dissolver o positivo e restabelece a abstração, o infinito. A “negação
da negação (Aufhebung) de Hegel é, pois, para Feuerbach, somente
a antítese da filosofia consigo mesma, como a filosofia que encerra
a teologia. O juízo de Marx sobre Feuerbach, porém tem um duplo
caráter; o reconhecimento de sua virada ontológica – confronto
entre idealismo e materialismo – e, ao mesmo tempo, a constatação
de que o materialismo feuerbachioano ignora completamente as
determinações concretas da atividade humana, porque sua
investigação sobre o homem é genérica e alienação não tem
nenhuma conexão concreta com a condição do homem na atividade
produtiva.
192 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Em seguida, ao analisar a “Fenomenologia do Espírito”, Marx


aponta logo de início um duplo equívoco por parte de Hegel. O
primeiro consiste em que quando Hegel fala da riqueza, poder
estatal e fatos sociais análogo, os considera unicamente em sua
forma espiritual, em sua essência abstrata, através do pensamento
filosófico puro. “Toda a história da alienação e toda a retratação da
alienação se reduz, portanto, à história da produção do pensamento
abstrato, isto é, do pensamento absoluto, lógico, especulativo”
(MARX, 1975, p. 243). E a alienação, concebida por Hegel, é somente
a contradição entre pensamento abstrato e a realidade sensível,
porém circunscrita no pensamento mesmo. O segundo erro de
Hegel, diz Marx, consiste em que sua indubitável compreensão
profunda da contradição e da inversão das relações humanas
referem-se sempre ao homem como “autoconsciência”.
Marx vê, entretanto, na Fenomenologia de Hegel, uma grande
realização, pois Hegel concebe a “autocriação” do homem como um
processo, porque depreende a essência do trabalho e porque
evidencia o “homem objetivo” como resultado de seu próprio do
trabalho. Hegel, porém, ressalta Marx, reconhece apenas o lado
positivo do trabalho, não o seu aspecto negativo. “Para Hegel, o ser
humano, o homem, é equivalente à autoconsciência. Por
conseguinte, toda a alienação do ser humano se reduz à alienação da
autoconsciência. A alienação da autoconsciência não se considera
como expressão, refletida no saber e no pensamento, da alienação
real do ser humano. A alienação efetiva, que se revela como real é
antes (…) simples ser fenomenal da alienação da vida humana real,
da autoconsciência” (MARX, 1975, p. 247). Deste modo, como faz
notar Marx, em Hegel a superação da alienação (negativa), na esfera
da consciência, aparece como um ato puramente formal, abstrato,
que deixa, na verdade, o seu objeto persistir no mundo real. Por isso,
somente por intermédio do comunismo, enquanto reivindicações da
vida humana real como propriedade do homem, é que a propriedade
privada e sua essência subjetiva, o trabalho estranhado, poderão ser
sobrepujados.
Eduardo Ferreira Chagas | 193

3.3.3. A questão do Comunismo e da Emancipação Humana.

Na seção “Propriedade privada e Comunismo”, Terceiro


Manuscrito, Marx frisa que a conexão contraditória entre a posse ou
não da propriedade privada fundamenta-se pela antítese entre o
Capital e o trabalho; este é a essência subjetiva da propriedade
privada enquanto exclusão da propriedade, e o capital [é] o trabalho
objetivo enquanto exclusão do trabalho” (MARX, 1975, p. 189). A
propriedade privada, que é a base da produção e do consumo da
sociabilidade burguesa, constitui a expressão objetiva da realidade
humana estranhada, uma vez que a produção não se configura como
realização nem como manifestação autêntica da vida humana, mas
sim como desrealização e desumanização. Por isso, Marx advoga a
supressão da propriedade privada e de sua essência subjetiva, o
trabalho estranhado, como “conditio sine qua non” para a
emancipação de todos os sentidos e qualidades humanas.
A solução à sobredita contradição fundamenta-se no
comunismo, o qual é expressão positiva da abolição da propriedade
privada. Marx, ao tratar desta problemática, reconhece inicialmente
que Proudhon, Fourier e Saint-Simon elaboram diversas
reverberações sobre o comunismo, mas, respectivamente, com
palavras sarcásticas, rechaça-os. Por um lado, crítica o “comunismo
grosseiro e irrefletido” o qual não postula a supressão da
propriedade privada, nem tampouco do trabalho estranhado, pelo
contrário, reivindica a distribuição da propriedade privada à
comunidade. Semelhante comunismo deseja apropriar-se da
propriedade privada, só que sob forma distinta, e, além disto,
pretende suprimir qualquer forma de propriedade que não possa ser
possuída por todos, consequentemente as diferenças entre os
talentos dos indivíduos, as distintas esferas da personalidade
humana e todo o “mundo da cultura e da civilização”, são, pois,
suprimidos ao ponto de tomar os indivíduos pobres e necessitados.
Por outro lado, Marx rompe também com o comunismo “ainda de
194 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

natureza política, democrática ou despótico” que, através de uma


evolução política, pretende efetivar uma nova realidade, porém
afetada ainda pela propriedade privada e pelo trabalho estranhado.
Em relação as duas tematizações anteriores, Marx frisa que o
comunismo constitui, na verdade, um estágio de “superação positiva
da propriedade privada”, bem como da auto-alienação (alienação
negativa) humana, e, consequentemente, de apropriação da essência
humana pelo e para o homem. Este comunismo autêntico constitui
o momento necessário para que ocorra a explicitação das energias
autenticamente humanas não se trata de um mero movimento
político, restrito a uma determinada classe social – a política, de
acordo com Marx, está ligada, em maior ou menor grau, à
unilateralidade -, mas sim de uma prática social abrangente capaz
de efetivar uma intervenção e transformação global nas estruturas
das relações de produção burguesa, pois é através desta base que se
articulam as diversas esferas particulares da realidade humana,
como a família, a religião, a moral, a ciência, a arte, o Direito, o
Estado, etc., onde se explicita a vida humana estranhada.
Capítulo 4

Ética, política e história em Marx

Eduardo Ferreira Chagas

4.1. Política e Ética em Marx.

Nesta seção explicito o pensamento de Marx sobre a política e


a ética. Inicialmente, mostrarei que há no pensamento de Marx uma
determinação dupla da política, quer dizer, uma concepção positiva
e uma negativa da política. Positivamente, a política não no sentido
de uma afirmação indistinta dela, como apologia à política liberal-
burguesa, mas em dois sentidos precisos: por um lado, como uma
dimensão universal-humana, ineliminável ao homem e à sua
comunidade, pois o homem é um ser social e político, e a política é,
neste aspecto, uma atividade humana voltada para a comunidade,
para o bem comum; por outro lado, numa dimensão particular,
como na sociedade do capital, em que a política, mesmo limitada,
deve ser realizada como protesto do homem contra a vida inumana,
como instrumento, como ferramenta, para a emancipação universal
ou humano-social. Negativamente, no sentido de ressaltar os limites
de uma determinada forma de política, da política democrático-
burguesa, ou seja, as restrições da política no interior da sociedade
do capital, pois que ela não é onipotente, absoluta, que não pode
resolver as mazelas do capital sem a negação do próprio capital e de
suas formas de sustentação, como a exploração do trabalho alheio,
a propriedade privada, o Estado e democracia representativo-
burguesa. Articulado a essa crítica à política democrático-burguesa,
196 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

explicitarei, em seguida, as reflexões de Marx sobre a ética, que


muitas vezes, entre os filósofos de diversas correntes teóricas e seus
representantes, e até mesmo entre muitos marxistas, foram
ignoradas, como se Marx não tivesse deixado nenhuma contribuição
sobre essa questão. Ou seja, para muitos, não existe uma teoria ética
na obra de Marx, ou, se existe, é um problema precário, marginal
em sua obra. Então, Marx está fora das reflexões sobre a ética? Não
podemos discutir a ética no interior do pensamento de Marx? Não
há, é verdade, nos escritos de Marx nenhuma referência explícita a
uma teoria ética. Por isto, meu trabalho aqui é de interpretação e
reconstrução, a partir dos próprios princípios teóricos de Marx, de
uma teoria ética em seus escritos tanto da juventude quanto da
maturidade, pois os problemas éticos, filosóficos, não pertencem
apenas ao jovem Marx, ao “Marx filósofo”, mas à totalidade de seu
pensamento (Cf. HELLER, 1985, p. 112).1 Mas, como resultado de
minha interpretação e reconstrução, parto do princípio de que Marx
tem subjacente à sua obra uma teoria ética, que tem como referência
a igualdade, a justiça e a liberdade para todos os homens. Todo
trabalho crítico de Marx ao pensamento filosófico, político e
econômico de seu tempo visa transformar a realidade inumana do
capital a serviço de uma teoria ética, de um ideal ético, pautado na
liberdade, na igualdade e na justiça entre todos os homens.
Pretendo ainda, nessa seção, apresentar o pensamento de
Marx sobre a política e a ética. Inicialmente, explicito sobre a
política, e pode-se dizer que muitos, de uma forma ou de outra, não
compreendem, ainda hoje, o que Marx pensa sobre ela; na verdade,
desconhecem a sua análise, ou seja, a essência, a natureza, da
política para ele, cometendo, por isto, em torno dela muitas
confusões e incompreensões (CHASIN, 1992, p. 208). Em seguida,
defendo que Marx tem subjacente à sua obra uma teoria ética, que

1
“[...] a ética possui no conjunto da teoria marxista um lugar que merece exame”. E ainda: “uma ética
marxista já se” apresenta “no próprio Marx”; “a ética tem seu lugar na concepção de Marx”.
Eduardo Ferreira Chagas | 197

tem como referência a igualdade, a justiça e a liberdade para todos


os homens.
Sobre a política em Marx, há diversos trabalhos, várias
referências, desde a Tese de Doutorado (Doktordissertation) (1842)
até a Crítica Programa de Gotha (1875), que deixam visíveis a crítica
dele à política. Há, sim, diversos textos, e Marx escreveu muito sobre
política. Apesar disso, não há uma elaboração clara, sistemática,
específica e organizada sobre a política, pois o que há em Marx é
apenas um conjunto de formulações gerais, fragmentadas, acerca
dessa questão (CHASIN, 1992, p. 208).
Embora Marx não fosse um ativista político, participou
intensamente da política ao longo de sua vida. Podemos citar, entre
outros, três grandes episódios da história do século XIX, dos quais
Marx participou ativamente ou a eles assistiu e observou
atentamente, como, por exemplo, a Revolta dos Tecelões da Silésia,
em 1844, a Revolução Alemã de 1848 e a Comuna de Paris em 1871.
Em torno desses três momentos, Marx deixou vasta produção
teórica. A respeito da Revolta dos Tecelões da Silésia, escreveu um
texto ainda pouco conhecido no Brasil, intitulado As Glosas Críticas'
à margem do artigo 'O Rei da Prússia e a Reforma Social. Por um
Pussiano (1844). Sobre a Revolução Alemã de 1848, ele deixou
vários artigos que foram publicados na Nova Gazeta Renana (NGR),
no período de junho de 1848 a maio de 1849. E acerca da Comuna
de Paris de 1871, redigiu A Guerra Civil na França (1871). A esses
materiais estão conectados outros escritos importantes, como Os
Manuscritos Econômico-Filosóficos, de 1844, A Ideologia Alemã, O
Manifesto do Partido Comunista, As Lutas de Classes na França, O
18 Brumário, A Revolução e a Contra-Revolução, O Capital e o
Programa de Gotha, que constituem contribuições teóricas
significativas para se compreender as matrizes, os fundamentos do
pensamento político de Marx (CHASIN, 1992, p. 208).
Já na Crítica à Filosofia do Direito de Hegel (Kritik der
Philosophie des Rechts von Hegel) (1843), evidencia-se a posição de
Marx contra a tentativa de aperfeiçoar o Estado e a política. Aqui,
198 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Marx se contrapõe à tese central de Hegel, que apreende o Estado


como uma instância racional, perfeita, autônoma, necessária, que
possibilita a unidade da sociedade civil. Hegel concebe a sociedade
civil, tal como a família, como uma manifestação conceitual do
Estado. Deste modo, a relação entre sociedade civil e Estado se
apresenta carente de significado próprio, e assume o caráter de um
fenômeno, de um predicado da Ideia: a sociedade civil pertence à
essência do conceito racional do Estado, sendo, pois, um momento
de sua esfera ideal. Para Hegel, a família e a sociedade civil são
concebidas como esferas ideais do Estado, como esferas de sua
finitude, como sua infinitude mesma. O Estado é que se divide nelas,
quem as pressupõe, e o faz para surgir de sua idealidade como
espírito real infinito para si.
As esferas da família e da sociedade, isto é, da individualidade
e da particularidade, são, para Hegel, como vimos, momentos ideais
do Estado e constituem o seu aspecto empírico e finito. É por meio
dessas esferas, porém, família e sociedade civil, que o Estado sai de
sua idealidade e se torna uma universalidade concreta, quer dizer,
um espírito real, infinito. Por isso, os indivíduos alcançam, por um
lado, uma realidade finita e particular, por intermédio da família e
da sociedade civil, e, por outro, uma realidade universal, mediante o
Estado. Assim sendo, os interesses particular e universal do
indivíduo se conservam e persistem no âmbito dos interesses e fins
do Estado, de tal forma que o Estado não é algo de alheio ao
indivíduo, pois é nele que o indivíduo se torna plenamente livre.
Hegel concebe a conexão da família e da sociedade civil com o
Estado como determinação, resultado, produto, da Ideia, pois que a
Ideia é o demiurgo de uma realidade hierarquizada, em cujo teto
reina, imperturbavelmente, o espírito do Estado. Assim sendo, a
divisão do Estado em família e sociedade civil é ideal, quer dizer,
pertence à essência do conceito racional do Estado. Com efeito, o
procedimento usado aqui por Hegel é o seguinte: a Ideia (o Estado)
é o sujeito determinante, o princípio fundante, e o sujeito real, a
família e a sociedade civil, é predicado da Ideia. Marx inverte esta
Eduardo Ferreira Chagas | 199

posição de Hegel e faz do elemento real (a sociedade civil) o


verdadeiro sujeito, no qual o pensamento (o Estado) é tão-somente
sua manifestação. Em outros termos, se para Hegel a Ideia é o
demiurgo da realidade, para Marx, a realidade efetiva é o demiurgo
do pensamento; ou seja, Marx põe como predicado (o Estado) o que
Hegel considera sujeito e coloca como sujeito (a sociedade civil) o
que Hegel julga predicado. Quer dizer, para Marx, é o contrário: é a
sociedade civil que gera o Estado, e não o Estado que engendra a
sociedade civil; da sociedade civil, resulta o Estado, dado que este é
caracterizado pelo desenvolvimento “natural” da família e pelo
crescimento artificial da sociedade civil. Hegel faz, porém, desta
questão uma mística, uma antinomia indissolúvel. Vejamo-la:

§261. Frente às esferas do direito e do bem-estar privados, da


família e da sociedade civil burguesa, o Estado é, de uma parte,
uma necessidade externa e uma potência superior, a cuja natureza
estão subordinados e da qual dependem suas leis e seus interesses;
mas, de outra parte, é ele o fim imanente de ditas esferas e tem
suas forças na unidade de seu fim universal último e dos interesses
particulares dos indivíduos, dado que estes têm deveres para com
o Estado, na medida em que eles, ao mesmo tempo, usufruem de
direitos (§155) (HEGEL, 1999, p. 215).

Hegel mistifica a existência real ou material do Estado, porque


apreende, em vez da própria natureza de seu conteúdo, a ideia ou a
substância abstrata como determinação do Estado. Tal
determinação não é considerada a partir de seu conteúdo concreto,
mas sim como forma abstrata, lógico-metafísica. É assim que Marx
desmonta o mecanismo lógico-hegeliano, a fim de demonstrar que,
em suma, sua Filosofia do Direito é apenas um capítulo ou um mero
parênteses de sua obra anterior, a Lógica. Por isso, diz Marx que,
aqui, não estamos fazendo Filosofia do Direito, senão Lógica. Hegel
postula, com outras palavras, a perfectibilidade do Estado, que se dá,
para ele, quando o Estado se torna a esfera da universalidade, da
racionalidade e da liberdade humanas, como incorporação da
eticidade e da razão absoluta. Marx o critica, mostrando que o
200 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Estado racional é impossível, pois Estado e razão universal, Estado


e liberdade, são incompatíveis, não constituem identidades, mas
diferenças.
Logo em seguida à sua crítica sistemática à concepção
hegeliana do Estado, ou seja, à sua tese da impossibilidade do Estado
vir a ser perfeito, racional, Marx, juntamente com Arnold Ruge,
publica em janeiro de 1844 os Anais Franco-Alemães. Aqui, ele
publica dois trabalhos: A Questão Judaica e Contribuição à Crítica da
Filosofia do Direito de Hegel – Introdução (Cf. CHAGAS, 1998, p. 53-
69). No primeiro trabalho, Marx mostra a contraposição entre o
público e o privado, entre a emancipação político-civil, parcial e a
emancipação humano-social, universal. Ele evidencia diante de
Bruno Bauer que a política, ou a emancipação política, é parcial,
fragmentada, restrita, particular, pois só a emancipação humana é
universal, a universalização da própria emancipação. Vê-se aqui, de
forma mui clara, a posição de Marx a respeito da política: a política
democrático-burguesa como esfera do particular, do restrito, sendo
o social a dimensão do humano, do universal. No segundo texto,
Marx defende, tomando como base a impossibilidade do Estado vir
a ser racional, a ideia de que a emancipação (revolução) tem que ter
a participação do trabalhador, junto com os intelectuais lúcidos, ou
seja, que o trabalhador, articulado com a teoria (a filosofia), constitui
a força emancipadora da sociabilidade burguesa. Essa união entre
trabalhador e intelectual é, para Marx, a alternativa fundamental
para a suplantação da sociabilidade capitalista e, consequentemente,
para a efetivação de uma nova sociabilidade humana.
Em A Questão Judaica, (Zur Judenfrage) Marx mostra que
Bruno Bauer trata o problema da emancipação só a partir da crítica
ao Estado cristão. Contrário a essa posição, ele substitui a crítica ao
Estado cristão pela crítica ao Estado político, pois que a emancipação
humana não é um problema estritamente religioso, nem político,
como considera Bauer, mas humano-social. Segundo Bauer:
Eduardo Ferreira Chagas | 201

O Estado cristão conhece apenas privilégios. O judeu, neste Estado,


possui o privilégio de ser judeu. O Estado cristão, em razão de sua
natureza, não pode emancipar o judeu; mas o judeu, em razão de
sua essência, não pode ser emancipado. Enquanto o Estado
permanecer cristão e o judeu continuar a ser judeu, são igualmente
incapazes, aquele de conferir e este de receber a emancipação
(MARX, 1957, p. 347-348).

Bauer concentra sua atenção na emancipação política


exclusivamente e, por isso, se contenta em fazer a crítica ao Estado
religioso. Para obter tal intento, pede ele a todos os religiosos e ao
Estado a abolição da religião, por ser um fator de segregação
humana. Tanto os cristãos como os judeus devem superar o preceito
teológico, que Bauer considera contrário à razão e à natureza
humana. Por isso, o Estado teológico é, para ele, menos Estado do
que o Estado político, profano, já que a presença da religião e de seus
critérios na esfera pública impedem a formulação de um bem
comum, fundado na comunidade de homens livres, na igualdade de
direitos e na fruição da liberdade. Assim como o homem autêntico,
racional e livre é aquele que supera o preceito religioso, assim
também o Estado legítimo é o Estado político, laico, anti-religioso,
voltado unicamente para as metas da razão.
Neste sentido, a suplantação da religião é para Bauer o
pressuposto da emancipação política, dado que o judeu deixará de
ser judeu quando o Estado não atingir mais o cumprimento de uma
dada religião e abolir, por conseguinte, todos os privilégios,
incluindo a prepoderância de uma igreja privilegiada. Com efeito,
Bauer almeja que o judeu abdique do judaísmo e que o homem em
geral renuncie à religião, para que possam se emancipar
politicamente como cidadãos. Tendo em vista a interpretação
segundo a qual o Estado que pressupõe a religião não é ainda um
Estado verdadeiro, efetivo, Bauer corrobora então a ideia de que a
supressão da religião é conditio sine qua non para a efetivação do
Estado político. Ao contrário desta posição, Marx diz que tal questão
é unilateral, já que não é necessário que o indivíduo renuncie à
202 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

religião para lograr sua liberdade no plano político. É evidente que


a emancipação política constitui colossal avanço, mas ela não é, na
verdade, a forma última da emancipação humana enquanto tal. Por
isso, frisa Marx:

Devido ao fato de não formular a questão a este nível, Bauer cai em


contradições. Ele põe condições que não são fundadas na natureza
mesma da emancipação política. (...) Quando Bauer diz aos
adversários da emancipação judaica: 'O seu erro foi somente supor
que o Estado cristão era o único verdadeiro e que não tinha de
submeter-se à mesma crítica dirigida ao judaísmo' – vemos, assim,
o erro de Bauer no fato de só submeter à critica o 'Estado cristão',
e não o 'Estado como tal'; de não investigar a relação entre
emancipação política e emancipação humana e, portanto, de
colocar condições que só se explicam pela confusão acrítica entre
emancipação política e emancipação geral da humanidade (MARX,
1957, p. 350-351).

Marx não parte, como Bauer, da relação entre emancipação


política e religião, mas sim entre emancipação política e
emancipação humana, tampouco busca a base da imperfeição do
Estado na religião, senão no próprio Estado político. O Estado,
mediado pela política, pode desprender-se do constrangimento
religioso, sem que o homem seja realmente livre. Por exemplo, o
Estado político moderno suprime, de forma política, a propriedade
privada, mas tal supressão pressupõe, ao contrário, a existência
dela. Em princípio, ele não admite nenhuma distinção de fortuna,
nascimento, posição social, instrução ou profissão, porque proclama
a emancipação igualitária do indivíduo perante os direitos humano-
universais, à democracia e à soberania nacional. Na verdade, porém,
longe de suprimir as sobreditas distinções, diferenças e
desigualdades, o Estado político só existe na medida em que as
pressupõe. Por isso, esse Estado atinge sua universalidade de forma
abstrata, isto é, sobre esses elementos particulares, essas diferença
sociais, configurando-se, portanto, como explicitação da vida
genérica do homem em oposição á sua vida real.
Eduardo Ferreira Chagas | 203

No Estado político, são declarados os direitos do homem,


como a liberdade, a propriedade, a igualdade e a segurança. Essa
liberdade, contudo, concebida como direito do homem, não se
objetiva nas relações sociais, senão no direito do indivíduo
segregado, fechado em si mesmo. A objetivação prática desse direito
constitui, por isso, o direito à propriedade privada. O direito
humano à propriedade privada é, por sua vez, o direito de usufruir
dos bens e rendimentos, sem conceder a devida atenção aos outros
homens. Desse modo, o direito à igualdade torna-se meramente
uma subscrição dos dois anteriores mencionados, quer dizer, a
igualdade política não tem correspondência na igualdade social. Por
fim, o direito à segurança consiste na garantia outorgada pela
sociedade a cada um de seus membros para a preservação de sua
pessoa, de seus direitos e de sua propriedade. Assim, nenhum desses
supostos direitos do homem transcende a propriedade privada, o
egoísmo individual; pelo contrário, eles estão estritamente
determinados e fundamentados nos interesses pessoais,
mesquinhos dos indivíduos da sociabilidade capitalista (Cf.
CHAGAS, 2006, p. 249-268). Marx sublinha:

Esse fato torna-se ainda mais misterioso quando observamos que


os emancipadores políticos reduzem a cidadania, a comunidade
política, a simples meio para a conservação desses denominados
direitos do homem: e que, em consequência, o citoyen [cidadão] é
declarado servidor do homem egoísta. A esfera em que o homem
age como ser comunitário é degradada a uma esfera inferior, onde
ele age como ser fragmentado; e que, por fim, é o homem como
bourgeois [burguês] (...) que é tomado como homem verdadeiro e
autêntico (MARX, 1957, p. 366).

Esse conflito em que o homem se vê envolto entre Estado e


sociedade civil, entre vida genérica e vida real, é semelhante à
contradição em que o bourgeois – que leva uma vida retraída,
privada e egoísta – se encontra com o citoyen – que participa de uma
vida coletiva imaginária, despojada da vida real e dotada de uma
universalidade ilusória. Essa oposição foi deixada intacta por Bauer,
204 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

porquanto reduziu sua polêmica em torno do antagonismo entre


religião e emancipação política. Para Marx, conquanto a
emancipação política constitua um colossal avanço, ela não é ainda,
como já anunciamos, o télos último, a plena emancipação humano-
social. No Estado político, os indivíduos, sejam ou não religiosos,
surgem como religiosos por causa da dicotomia entre vida
individual e vida genérica, isto é, entre vida social e vida política. A
religião, como elaboração espiritual da sociedade civil, aparece, pois,
como objetivação da alienação do homem em relação à sua
genericidade, porque o homem trata a vida política despojada da
vida individual, como se fosse sua verdadeira vida. Com efeito, o
Estado político é a expressão máxima dessa realidade, na qual o
homem se acha corrompido, perdido de si mesmo; em síntese,
sujeito aos domínios e elementos inumanos inerentes à
sociabilidade do capital. Como frisa Marx:

O Estado político acabado é, pela sua própria essência, a vida


genérica do homem em oposição a sua vida material. Todos os
pressupostos da vida egoísta continuam a existir na sociedade civil
burguesa, fora da esfera do Estado, mas como qualidades da
sociedade civil. Onde o Estado político atingiu seu verdadeiro
desenvolvimento, o homem leva não só no pensamento, na
consciência, mas na realidade, na vida, uma dupla vida: uma
celestial e outra terrena, a vida na comunidade política, na qual ele
se considera um ser coletivo, e a vida na sociedade civil burguesa,
em que ele atua como homem privado, trata os outros como meios,
degrada-se a si próprio como meio e se torna joguete de poderes
estranhos (MARX, 1957, p. 354-355).

No segundo trabalho, Contribuição à Crítica da Filosofia do


Direito de Hegel – Introdução, Marx continua sua crítica ao Estado
político em sua forma hodierna, burguesa, defendendo não uma
emancipação limitada, parcial, no âmbito da democracia burguesa,
mas a necessidade de uma emancipação social no interior dessa
sociedade, e essa emancipação terá força na medida em que for a
síntese entre o trabalhador e o intelectual, ou seja, entre a
Eduardo Ferreira Chagas | 205

humanidade sofrida (a arma da crítica) e a humanidade pensante (a


crítica da arma).
Já nos Anais Franco-Alemães, Marx polemizava muito com
Arnold Ruge. Essa polêmica se intensifica, quando Ruge publica no
Jornal Avante (Vorwärts) um artigo, no qual ele defendia a noção de
que a Alemanha, por exemplo, não podia compreender
universalmente o problema do pauperismo, porque ela não era
ainda política, pois, para ele, só a política compreende a
universalidade, expressa o geral, a razão universal. No mesmo
jornal, Marx responde criticamente a Ruge com um artigo,
intitulado Glosas Críticas Marginais ao artigo 'O Rei da Prússia e a
Reforma Social. Por um Prussiano' (Kritische Randglossen zu dem
Artikel “Der König von Preussen und die Sozialreform. Von einem
Preussen) (1844), no qual ele deixa evidente vários argumentos,
teses e formulações, que nos permitem dizer que há uma concepção
negativa da política democrático-burguesa em seu pensamento: a
política burguesa é parcial, limitada. Contra Ruge, que pensava que
a Alemanha não compreendia o episódio da Silésia porque não tinha
razão política, isto é, que a causa da miséria era decorrente da falta
de política, Marx mostra que a política, assim como o Estado,
enquanto instâncias de dominação, não têm fins próprios, seus fins
não são universais, pois eles atendem aos fins da sociedade civil
burguesa (Cf. CHASIN, 1992, p. 233). Contra Ruge, Marx deixa claro
que o Estado, além de ser limitado e não ter fins próprios, não é
livre, independente, mas órgão privado, particular, instrumento de
classe para assegurar a propriedade privada e a exploração do
trabalho alheio a serviço do capital, e, por isto, ele e sua
administração são impotentes para resolver os males sociais
gerados pela sociedade civil burguesa, baseada na contradição entre
capital e trabalho.
Ruge, analisando o conteúdo da ordem do rei prussiano,
Frederico Guilherme IV, sobre a insurreição dos trabalhadores
silesianos, assinala que:
206 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

O rei e a sociedade alemã ainda não tinham se atido para a


necessidade de sua reforma, e nem sequer as insurreições da
Silésia e da Boémia produziram esse sentimento. Num país
apolítico, como a Alemanha, é impossível fazer-se compreender
que a miséria parcial dos distritos industriais constitui um assunto
geral e, menos ainda, que representa um dano para todo o mundo
civilizado. Este acontecimento tem, para a Alemanha, o mesmo
caráter que pode ter qualquer penúria local relacionada com a água
ou com a fome. Por isso, o rei o toma como falha administrativa
ou falta de caridade. (...) Além disso, a ordem do gabinete não foi
ditada sequer pelo sentimento religioso, mas é a fria expressão da
fé cristã de governar e de uma doutrina que não deixa subsistir
qualquer dificuldade diante de seu único remédio, que consiste nos
'bons sentimentos dos corações cristãos'. Pobreza e crime são dois
grandes males. Quem pode curá-los? O Estado e as autoridades?
Não, mas a união de todos os corações cristãos (MARX, 1957, p.
392-393).

Se há problemas, males sociais, fome, miséria etc., quem pode


erradicá-los? Para Ruge, tal como para muitos na atualidade, o
Estado, a política democrático-representativa, uma boa
administração seria a solução. E é exatamente isto que pensa a
“esquerda” atualmente que está no poder: trata-se apenas de uma
“má” ou “boa” política, ou de um mero problema administrativo, e
não de um problema estrutural próprio da sociedade civil burguesa.
O mal, o limite, não está no Estado burguês enquanto tal, na política
enquanto forma particular da sociedade burguesa, política essa
ligada ainda à ordem do capital, mas em medidas político-
administrativas, na política do outro partido, na política adversária.
Ruge pensava que a Alemanha, pelo fato se ser um país apolítico,
não podia conceber a miséria como um problema universal e, por
isso, tentava resolvê-lo não por via política, mas pela prática da
caridade, da beneficiência, do assistencialismo. Marx mostra contra
Ruge que a Inglaterra é um país eminentemente político,
politicamente avançado, e, apesar disto, é o país do pauperismo, e
aqui, a miséria dos trabalhadores não é parcial, local, senão
universal, não se restringe aos distritos industriais, mas se estende
Eduardo Ferreira Chagas | 207

ainda às regiões rurais. Nesse país, enquanto a burguesia entende o


pauperismo como um malogro da política, os liberais acusam os
conservadores, e estes incriminam aqueles de serem a causa da
miséria geral. Nenhuma dessas posições, todavia, vislumbra a
origem dos males sociais no âmbito da sociedade civil burguesa e de
sua organização política, baseada na política democrática e no
Estado burguês, mas tão-somente em fatores externos à sociedade
civil e ao Estado, como na escassez de recursos naturais (na
natureza), ou no próprio indivíduo, na sua falta de interesse e de
educação (no indivíduo), ou na falta de benevolência (no
sentimento), ou em falhas administrativas, burocráticas (na
administração), gestadas pelos partidos adversários; assim,
nenhuma delas aspira, realmente, a uma transformação plena,
efetiva, da sociedade.
Poder-se-ia perguntar se a política democrática e o Estado
burguês têm condições de resolver os males sociais; se eles podem
resolver a questão fundamental que é a questão do homem em
sociedade? Se eles podem acabar com a exploração do trabalho
alheio, a desigualdade e a injustiça? Para Marx, o Estado jamais
encontrará em si e na organização da sociedade o fundamento dos
males sociais, já que a sua base, a sociedade civil, e sua organização
política, o Estado (= organizador da razão política, da vontade
política), são a fonte desses males sociais. A política democrático-
liberal e o Estado não têm fins próprios, não são autônomos, pois
eles têm como meta salvaguardar os interesses particulares da
sociedade civil, cujo alicerce fundamental é a propriedade privada.
Assim, onde quer que existam partidos políticos, cada um deles
encontra a razão de todo mal, não na política democrático-burguesa,
liberal, não no Estado, mas na presença do partido adversário que
ocupa o poder estatal. Até os partidos de “oposição” ou de
“esquerda”, circunscritos na lógica do capital, procuram a causa do
mal social não na essência, na natureza, do Estado, mas em quem
está o ocupando-o, ou seja, numa forma específica de Estado, que
208 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

eles buscam substituir por outra forma de Estado. Deste ponto de


vista, diz Marx, na sua crítica à política democrático-burguesa, que:

Quando o Estado reconhece a existência de anomalias sociais,


procura encontrá-las em leis naturais que nenhum poder humano
pode enfrentar – quer na vida privada, que é dele independente,
quer na transgressão de seus fins pela administração que dele
depende (MARX, 1957, p. 401).

Todos os Estados, na análise de Marx, buscam as causas de


seus males em deficiências acidentais ou intencionais da
administração, recorrendo, por isto, a medidas burocráticas,
administrativas, ou seja, medidas paliativas, que servem
provisoriamente, mas não efetivamente, para remediar ou
solucionar os problemas sociais. O Estado, no entanto, não pode
superar a contradição entre a disposição e a boa vontade da
administração, de um lado, e seus meios e capacidades, de outro,
sem se destruir a si mesmo, dado que ele repousa sobre tal
contradição; precisando melhor, sobre a oposição entre os interesses
gerais e os particulares, sobre a cisão entre a vida pública e a privada.
A administração deve, pois, limitar-se a uma atividade formal e
negativa, já que seu poder cessa onde principiam a vida civil, a
propriedade privada, o comércio, a indústria, a exploração do
trabalho, a desigualdade, a injustiça etc.. Se o Estado quiser eliminar
a impotência de sua administração, será obrigado a acabar com a
forma atual de vida da sociedade civil, e, se almeja suprimir a vida
privada da sociedade civil, terá que abolir a si mesmo, uma vez que
ele só subsiste em função dela. O Estado, a política democrático-
representativa, na lógica do capital, não são “perfectibilizáveis”,
aperfeiçoáveis, como quer o reformismo, pois a perfeição deles
ocorre com a sua extinção, com a sua negação, com a sua dissolução.
O Estado até pode reconhecer seus limites e defeitos, mas apenas de
modo formal e contingente, corrigindo-os abstratamente, de modo
que, quando tais retificações são infrutíferas, os males sociais são
vistos como uma imperfeição natural (falhas das leis naturais), ou
Eduardo Ferreira Chagas | 209

como uma culpa dos indivíduos (da vida privada), ou como


deficiências acidentais da administração (má administração do
poder), independentemente da lógica da sociedade civil moderna e
do Estado. Desse modo, no âmbito da democracia burguesa ou nos
limites da sociedade capitalista, quanto mais poderoso é o Estado e,
portanto, mais político burguês é um país, tanto menos se buscará
no princípio da sociedade civil e de sua organização política, no
Estado e na política liberal, representativa-burguesa, o fundamento
dos males sociais. Como enfatiza Marx:

O entendimento político é precisamente entendimento político,


porque ele pensa no interior dos limites da política. Quanto mais
ele é vivo e ativo, tanto menos é capaz de conceber a natureza das
enfermidades sociais. O período clássico do entendimento político
é a Revolução Francesa. Longe de perceber no princípio do Estado
a fonte das necessidades sociais, os heróis da Revolução Francesa,
ao contrário, percebiam nas necessidades sociais a fonte dos males
políticos. Assim vê Robespierre na extrema pobreza e na extrema
riqueza apenas um obstáculo para a democracia pura. Ele deseja,
por isso, estabelecer uma frugalidade geral à espartana. O
princípio da política é a vontade. Quanto mais o espírito é
unilateral, tanto mais perfeito é o entendimento político, e tanto
mais ele crê na onipotência da vontade, tanto mais cego ele é frente
aos limites naturais e espirituais da vontade e, por conseguinte,
menos capaz é ele de descobrir a fonte das enfermidades sociais
(MARX, 1957, p. 402).

Enfim, o horizonte do pensamento político de Marx, desde a


juventude até a maturidade, se põe pela emancipação humano-
social como oposição à emancipação política, mostrando a
absurdidade de uma emancipação social com “alma política”,
embora admita uma emancipação política com alma social, no
âmbito da sociedade capitalista, como estratégia para a efetivação de
uma sociabilidade que transponha o capital, isto porque, quando se
dissolve a sociedade anterior, tem-se a emancipação social, mas,
quando se derruba o velho poder, mantendo o Estado, tem-se a
política. Quer dizer, a emancipação social situa-se na perspectiva da
210 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

totalidade, porque é um protesto do homem contra a vida inumana,


é a verdadeira comunidade do homem, a essência humana; já a
emancipação política consiste, pelo contrário, numa universalização
abstrata, que subsiste graças à oposição entre a vida genérica do
homem e a sua vida individual. Não se trata aqui, como alguns
banalmente pensam, de deixar de fazer política, de simplesmente
negá-la. Não é isto que Marx pensa. Para ele, a política tem
significado de instrumento, de ferramenta para a revolução
humano-social; ou seja, o fim dela não é a emancipação política,
exercida por uns em nome dos outros, como na democracia formal,
representativo-burguesa, mas a emancipação humana, que
compreende a extinção do Estado capitalista. Deve-se, sim, ter
partidos: deve-se, sim, fazer política, mas uma política como meio,
instrumento, que não visa a tornar perfeito o Estado burguês, mas
que se incumbirá das tarefas preparatórias para a transformação
social.2 O problema é que alguns se esquecem, intencionalmente ou
por ignorância, dos limites da política democrática, das restrições da
política no interior da sociabilidade do capital. Na ausência desses
referenciais teóricos, que nos mostram a unilateralidade da política
liberal burguesa, crê-se, ao contrário, na onipotência da política, na
vontade política, ou seja, crê-se atualmente, tais como muitos
partidos de “esquerda” pertencentes ao universo do capital, na
possibilidade pela política democrático-burguesa de resolver as
mazelas do capital, sem ultrapassar o próprio capital. Essa posição
se constitui como uma idolatria ao Estado, ou seja, a posição de que
o Estado é autônomo e deve ser o agente, o sujeito, das
transformações sociais, que recebeu, no entanto, duras críticas de
Marx no seu Programa de Gotha (Kritik des Gothaer

2
Cf. Engels, F. Introdução (1895) (Einleitung) de As Lutas de Classes na França de 1848 a 1858 (Die
Klassenkämpfe in Frankreich 1848 bis 1850), de Marx, (1850), p.519 e 520: De forma semelhante a
Marx, Engels, sem defender a democracia burguesa, destaca a importância da política, do sufrágio
universal que deve ser transformado “de meio de engodo, que foi até agora, em instrumento de
emancipação”, pois ele é também “um meio de propaganda” e “um meio inigualável para entrar em
contato com as massas populares onde elas ainda estão afastadas de nós, para obrigar todos os partidos
a defender diante do povo suas opiniões e seus atos diante de nossos ataques”.
Eduardo Ferreira Chagas | 211

Programms)(1875)3. A política, no âmbito das contradições da


sociedade burguesa, deve, na verdade, ser apenas a mediação (não
o fim) fundamental para a supressão progressiva da máquina
estatal, de instauração de um Estado provisório e transitório, como
condição prévia e necessária para a autoconstrução ou auto-
edificação do homem, ou melhor, para a realização de uma
comunidade plenamente humana, constituída de indivíduos
potencialmente livres.
Assim como a política em Marx não é uma atividade
meramente formal, abstrata, circunscrita numa cidadania irreal, a
reflexão de Marx também sobre a ética não se baseia em conceitos
abstratos, apriorísticos de ética, fora do espaço e do tempo. Marx
quer uma ética concretizada em uma situação real. Por isto, ele
pergunta pelas circunstâncias, pelas condições de possibilidades de
realização da ética no interior das sociedades históricas concretas. A
reflexão de Marx questiona, por exemplo, se a sociedade capitalista
existente está calcada em princípios éticos. É possível a
concretização da ética em sociedades particulares? Quais são as
condições materiais e intelectuais, isto é, reais existentes de
realização da igualdade, de justiça e da liberdade para todos no
interior de uma sociedade histórica concreta, como a sociedade
capitalista? Trata-se de saber se uma sociedade empírica, existente,
como a sociedade burguesa capitalista, pode estar organizada em
princípios racionais, universais e humanos, conforme os
pressupostos da igualdade, da justiça e da liberdade, exigidos por
uma ética? Para refletir sobre a ética, Marx faz referências às
condições reais existentes para ela. E a ética de Marx é uma crítica
3
Cf. Marx, K. Programa de Gotha (Kritik des Gothaer Programms) (1875), p. 28 e 26: O Partido
Operário Alemão considera “o Estado como um ser independente, que possui seus próprios
fundamentos espirituais, morais e liberais.” “A fim de preparar o caminho para a solução do problema
social, o Partido Operário Alemão exige que sejam criadas cooperativas de produção, com a ajuda do
Estado”. Assim: “A luta de classe existente é substituída por uma frase de jornalista: ‘o problema
social’, para cuja ‘solução’ ‘prepara-se o caminho. A ‘organização socialista de todo o trabalho’ não é
resultado do processo revolucionário de transformação da sociedade, mas ‘surge’ da ajuda do Estado’,
ajuda que o Estado presta às cooperativas de produção ‘criadas’ por ele e não pelos operários. Essa
fantasia de que com empréstimos do Estado pode-se construir uma nova sociedade”.
212 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

das condições de existência humana sob a forma estranha,


explorada e dominada. Antes de partir de ideias, de princípios
racionais, conceituais sobre o futuro, sobre o dever-ser, o vir-a-ser,
o que deveria ser, ou, especificamente, antes de elaborar uma
reflexão filosófica sobre a ética, Marx inverte o ponto de partida,
averiguando, primeiro, a realidade social de seu tempo, a produção
e reprodução material da sociedade moderna capitalista, quer dizer,
ele, antes de discutir a questão da eticidade, irá se referir as
condições reais existentes da igualdade, da justiça e da liberdade na
sociedade moderna burguesa.
A teoria ética de Marx pode ser explicitada em três momentos:
1) como negação da efetividade da ética na sociedade moderna,
proposta por Hegel em sua Filosofia do Direito; 2) como negação da
existência da ética na produção capitalize e 3) como alternativa,
como afirmação da ética numa nova forma de produção, numa nova
forma de sociedade, baseada no controle coletivo da produção em
prol do desenvolvimento universal do próprio homem. O primeiro
momento nega-se uma pretensa unidade na sociedade moderna
entre os seus princípios jurídicos e normativos e a sua própria
realidade social concreta, e que não se pode falar de ética só por
meios desses princípios sem vê-los efetivados na vida real concreta.
O segundo momento mostra a inexistência da ética na produção
capitalista, na medida em que a produção se dá de forma social e é
necessária à vida humana, mas que a produção capitalista pressupõe
exploração de uma classe sobre outras, a exploração do ser humano,
usando-o como meio, como instrumento para a ampliação de
capital. Em fim, o terceiro momento, na medida em que é negada a
produção desumana e não-ética da sociedade capitalista, pressupõe
a efetivação de uma produção humana, ética, digna, que tem a
humanidade e cada homem singular não como meio, mas como fim
em si mesmo, que seria para Marx a sociedade comunista
(FREITAG, 2002, p. 90).
A realidade do capital não é o melhor mundo dos mundos
possíveis, nem a substância ética realizada, como pensa Hegel. Com
Eduardo Ferreira Chagas | 213

isto, a ética de Marx é uma crítica, uma negação e uma inversão aos
propósitos da eticidade de Hegel em Princípios da Filosofia do
Direito (1821). Pois, enquanto Hegel vê, particularmente nesta obra,
a realização da ética nas instituições da sociedade moderna
burguesa, como na família, na sociedade civil e no Estado, Marx
denuncia a falta de qualquer ética (FREITAG, 2002, p. 85). Marx
nega a validade da eticidade de Hegel nos seus três momentos
fundamentais, a saber, na família, na sociedade civil e no Estado.
Enquanto Hegel tem a família como a expressão da vivência do ético
na sociedade moderna burguesa, família essa enquanto instância em
que seus membros experimentam o sentimento, o amor para com
os outros, Marx não a vê como ética, mas como uma instituição que
tem, nas sociedades concretas, históricas, uma função específica,
que é assegurar a proteção e a perpetuação, através de herança, da
propriedade privada. A sociedade moderna capitalista destrói os
laços de amor, de sentimento no interior das famílias, na medida em
que transforma seus membros, mulheres, homens e até crianças,
em instrumentos de trabalho. Marx mostra os efeitos nefastos da
maquinaria da sociedade moderna sobre a mão-de-obra feminina e
infantil (MARX; ENGELS, 1973, p. 478-479).
Também Hegel vê a sociedade civil burguesa como um
momento de efetivação da vida ética na produção de bens e no
atendimento das necessidades humanas. Contrário a Hegel, Marx
denuncia essa sociedade, tomando como responsável pela miséria
do trabalhador, que é subjugado e explorado pela produção
burguesa capitalista. Marx denuncia a falta de ética na sociedade
burguesa, mostra a imoralidade do modo de produção capitalista,
na medida em que ela, diferentemente do imperativo kantiano,
reduz a maioria dos homens em instrumento da produção de
riqueza a serviço de uma classe social particular, a própria
burguesia. O trabalhador, e o homem em geral, é reduzido, na
sociedade burguesa, a meio, a instrumento, para acumulação,
ampliação de capital para a burguesia. Na sociedade burguesa, as
leis de mercado, as leis de troca e procura são ilegítimas e imorais:
214 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

ilegítimas, porque não há nessas leis igualdade, justiça, atendendo


apenas aos interesses de uma classe social, a burguesia, e imorais,
porque transformam o trabalhador, e o homem em geral, a mero
instrumento de produção e acumulação de riqueza (FREITAG, 2002,
p. 85-86).
Hegel reconhece o trabalho e a reflexão, na sociedade civil
moderna, como dois momentos inseparáveis de transformação de
um mundo não éticos em um mundo ético. Pelo trabalho, o homem
exterioriza sua essência, se apropria dela num processo de
interiorização, refletindo o que havia realizado no objeto trabalhado.
Então, o trabalho, para Hegel, forma o homem, realiza a sua
essência. Marx irá não apenas reconhecer o trabalho no sentido
geral como a essência humana, tal como Hegel fez, mas também irá
negar, diferentemente de Hegel, a sua forma particular, estranhada
na sociedade moderna. Diferentemente de Hegel, Marx não vê o
trabalho de forma acrítica, idealista, como fonte da eticidade. Não se
trata para Marx de mostrar só o trabalho conceitual, no interior do
pensamento, mas de negar o trabalho concreto, que é estranhado, o
trabalho produtivo, inserido numa produção, cujo resultado é a
produção de bens, que são expropriados dos trabalhadores e
apropriados pelos não-produtores, pelos capitalistas. Portanto, o
trabalho, na sociedade capitalista, não é ético, fundado na realização
humana, mas não-ético, enquanto processo de estranhamento, de
exploração e desumanização do homem (FREITAG, 2002, p. 87).
Também, pelo trabalho, não se dá um processo reflexivo, de
apropriação de si pelo pensamento, da essência exteriorizada no
objeto, resultando numa autoconsciência livre. Na verdade, o
trabalho não possibilita esse autoconhecimento de si, pois o homem,
ao perder o produto de seu trabalho, ao perder o objeto, perde essa
possibilidade de se reconhecer no resultado de seu trabalho. Assim,
o que Hegel vê no trabalho como formação humana, ético, Marx vê
como injusto e negação do homem.
Também para Hegel, o Estado seria a esfera do universal e do
racional, e a sua lei expressaria a vontade geral enquanto realização
Eduardo Ferreira Chagas | 215

do bem e da justiça para todos. Marx mostra, ao contrário de Hegel,


que a constituição, que legitima a exploração econômica na
sociedade civil burguesa e o domínio político do Estado, não é
universail, e as suas leis são particulares, pois elas expressam a
vontade de classe, da classe materialmente hegemônica,
preservando os seus privilégios, contra os interesses vitais da
maioria (FREITAG, 2002, p. 86).
Ao ter negado o caráter ético das duas esferas constitutivas do
Estado, a saber, a família e a sociedade civil modernas, Marx nega
também qualquer caráter ético ao Estado democrático burguês. Este
não é uma comunidade universal, racional e livre, pois ele não
representa os interesses de todos numa comunidade produtiva, mas
os interesses particulares dos produtores, dos detentores dos meios
de produção. O Estado burguês, ao assegurar os interesses dos
produtores privados, ao garantir-lhes a circulação de seus produtos,
a expansão territorial e a colonização de novas terras; bem como ao
legitimar a troca de não equivalência entre capital e trabalho, ele não
pode ser um Estado justo, a justiça não pode imperar nesse Estado,
nem na sociedade organizada politicamente por ele; o Estado, ao
legitimar a expropriação e exploração do trabalho humano e ao
defender a propriedade privada, ele não pode ser um Estado
racional, humano, mas um Estado a serviço da não-liberdade, da
opressão, da miséria, da exploração e desumanização do ser
humano (FREITAG, 2002, p. 86).
Hegel acredita que a polícia pode preservar a sociedade. Marx
mostra a impotência da administração na resolução dos males
sociais. Ela está, na verdade, a serviço da perseguição, da
arbitrariedade e injustiça contra os não-proprietários, contra os
trabalhadores em geral.
Hegel acredita que, pelos mares, os produtores associados
num Estado podem expandir-se e garantir sua hegemonia. Essa
expansão Marx chama de imperialismo (FREITAG, 2002, p. 86).
A ética de Marx, subjacente à crítica feita à sociedade
moderna, já aparece numa de suas obras de juventude, intitulada
216 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843), quando


Marx defende a necessidade da filosofia, da teoria, da crítica, em
deixar de ser só crítica, só uma arma espiritual, força teorética, para
se transformar também em força material capaz de “derrubar todas
as relações em que o homem é um ser humilhado, reprimido,
abandonado, desprezado. Essas relações são perfeitamente descritas
por um francês que, informado de um imposto sobre cães, exclama:
“‘Pobres cães! Estão querendo tratá-los como homens’” (MARX,
1977, p. 385). Nessa época Marx acredita que a filosofia, “a crítica
das armas”, juntamente com trabalhador, “a arma da crítica, juntos,
numa unidade dialética, a teoria sendo mediada pela prática, e a
prática mediada pela teoria, poderiam promover a emancipação
universal humana.
Em A Questão Judaica (1843), Marx enfatiza que a
emancipação humana não é uma mera emancipação política, que se
restringe a mudanças formais e abstratas, sem alterar as relações
materiais da sociedade moderna, nas quais o homem não possui, de
forma efetiva, liberdade, igualdade e justiça, que são os pressuposto
éticos subjacentes à teoria de Marx.
Para que haja emancipação humana, é necessário
compreender e transformar as relações que humilham, reprimem e
alienam os homens (Cf. FREITAG, 2002, p. 82), que são as relações
produção, particularmente as relações de produção burguesa,
baseadas na contradição entre capital e trabalho. As relações
burguesas e as condições de trabalho expressam o ideal ético de
igualdade, justiça e liberdade? Para Marx, a sociedade moderna
capitalista não é uma sociedade ética, porque sua produção e
reprodução da vida está fundada no trabalho assalariado, no
trabalho abstrato. Por isto, Marx inicia uma análise profunda das
relações responsáveis pela opressão e humilhação do homem, que
são as relações de trabalho, e dessa análise surgem, primeiramente,
os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844.
Mas em A Ideologia Alemã (1845-46), Marx enfatiza os limites
da teoria, da filosofia, como o da filosofia alemã, de querer promover
Eduardo Ferreira Chagas | 217

a emancipação humana, de querer mudar o mundo inumano dos


homens, mudando só a consciência dos mesmos, sem mudar as
relações de produção, as relações matérias de vida que negam o
homem. Como afirma Marx: “Não é a consciência que determina a
vida, mas é a vida que determina a consciência”. Mas a vida não pode
ser sem a produção, sem a produção de bens, necessários à sua
conservação e reprodução, ou seja, sem os homens estabelecerem
relações de produção, relações entre si, para garantir a sua
sobrevivência. Trata-se de saber se nessas relações a ética, os ideias
da ética da igualdade, da justiça e da liberdade, estão presentes ou
ausentes.
Em O Capital (1867), Marx denuncia a condição de opressão,
mutilação e destruição física e moral do homem no âmbito da
produção capitalista, determinada pela acumulação de capital, pela
concentração de riquezas, dos meios de produção em poucas mãos
diante da pauperização e embrutecimento da maioria, e pela
desapropriação dos meios de produção da maioria (Cf. FREITAG,
2002, p. 92). Pois, para que a ética e seus ideais de igualdade, justiça
e liberdade, bem como a emancipação humano-social, sejam
efetivos, é necessário transformar essas relações desumanas da
produção capitalista (Cf. FREITAG, 2002, p. 83). No Capítulo XIII,
do Livro 1 de O Capital, intitulado “A Maquinaria e a Grande
Indústria”, Marx descreve a produção burguesa e denuncia as
condições desumanas de vida e de trabalho da classe trabalhadora,
materializadas nessa produção, o que demostra que a realidade
efetiva da sociedade burguesa, da sociedade capitalista, baseada na
contradição entre forças produtivas e relações de produção (capital
e trabalho), contradição entre as classes que detêm os meios de
produção (máquinas, ferramentas e matérias-primas) e as classes
possuidoras desses meios (o capital) e as classes desprovidas desses
meios (o trabalhador), está distante do ideal de homem universal,
onilateral, longe do ideal de humanidade, ou seja, que ela não está
orientada pela ética, pelos ideias efetivos da igualdade, da justiça e
da liberdade humanas.
218 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Para Marx, quem produz os meios de subsistência para todos,


para toda a sociedade, é o trabalhador moderno. Para ele, a
emancipação desse trabalhador só será possível com a superação das
relações materiais burguesas que o explora e o domina. E a ética de
Marx não é uma reflexão sobre a sociedade como algo fixo e imóvel,
perpetuando o seu status quo, pois, se as leis da sociedade moderna
burguesa não são leis dadas, naturais, eternas e imutáveis, mas leis
histórias, então essa sociedade é suscetível à mudança, à
transformação, impulsionada pelas suas próprias contradições.
Assim, a ausência da ética no modo de produção capitalista não é
uma determinação da natureza humana, tomada como má e
antiética, mas um fenômeno histórico, transitório, dado por uma
produção específica, marcada por relações de trabalho injustas,
desumanas, ou seja, voltada não para o homem, mas para a
produção e reprodução de capital a custa da desumanização do
próprio homem. Por isto, a superação dessa produção abre espação
para se pensar uma outra lógica da produção, um produção ética,
baseada na valorização e universalização do ser humano.
Ao rejeitar a teoria ética de Hegel, Marx nega a positividade
da ética nas esferas da família, da sociedade civil e do Estado no
âmbito da sociedade moderna capitalista. Marx nega não só a
materialização da eticidade hegeliana na sociedade moderna, mas
também em todos os modos de produção históricos, em que as
relações de trabalho existentes entre os homens são de exploração e
negação do ser humano em prol de interesses particulares. Ao negar
a validade da ética hegeliana e a presença da ética nas sociedades
historicamente existente, como nas relações de produção
capitalistas, feudais, escravistas ou asiáticas, Marx não está negando
a ética em si, enquanto tal, a existência da ética na sociedade, nas
relações de trabalho e vida humanas. Mas, para Marx a ética só seria
possível em uma sociedade, em que não houvesse o domínio de uma
classe sobre outras, em que a propriedade privada e o Estado a
serviço da dominação humana e do resguardo dessa propriedade
fossem abolidos; ou seja, para Marx, a ética só seria possível se
Eduardo Ferreira Chagas | 219

houvesse igualdade e justiça nas relações de trabalho para todos, e


que todos tivessem condições iguais de liberdade. Sem justiça,
igualdade e liberdade efetivas para todos os homens não há, para
Marx, ética. Marx constata que a produção capitalista é um
impedimento para uma sociedade ética, por isto a crítica e a negação
da ética nessa sociedade é um pressuposto necessário para criar as
condições de possibilidade de uma sociedade ética. A crítica aqui não
só no sentido teórico-subjetivo, mas também no sentido objetivo de
desvelar e denunciar a perversão e desumanização da produção e
reprodução da vida humana na sociedade capitalista, apontando
caminhos para a sua superação e promoção de uma sociedade
diferente, pautada na prioridade da humanização universal do
próprio homem. Por isto, para Marx a ética só seria possível numa
sociedade, que ele chama de sociedade comunista, se a comunidade
organizada assumisse coletivamente o controle, tanto no plano
econômico, como no político, sobre a produção e o consumo de bens
a serviço do próprio homem, uma produção que viabiliza
efetivamente a justiça, a igualdade e a liberdade humanas (Cf.
FREITAG, 2002, p. 88; MARX, 1973, p. 462).

4.2. Hegel e Marx: Crítica ao Caráter Formal-Abstrato dos


Direitos Humanos.

Embora o tema “Direitos Humanos” ou Direitos do Homem”


(Menschenrechte) apareça mui escassamente na obra hegeliana,
não se pode duvidar que Hegel o trate negativamente. Isto se dá, em
princípio, por dois motivos:

a) por um lado, os Direitos Humanos são, sim, universais, mas essa


universalidade só é possível aqui abstraindo das condições materiais,
objetivas e, por isto, eles são vazios, abstratos e formais; e
b) por outro lado, os Direitos da Humanidade (rechte der Menschheit)
estão presos ainda aos interesses privados, ao domínio arbitrário do
singular, sendo, pois, os Direitos da liberdade individual (individuellen
220 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Freiheitsrechten), que se realizam na propriedade privada, e, por isso,


se opõem à vida ética, à comunidade, ao universal concreto.

Os Direitos do Homem, enquanto reconhecimento da própria


humanidade do homem, de sua personalidade, de sua liberdade e
igualdade, são direitos inalienáveis, invioláveis e imprescritíveis, que
servem de base às relações estatais do Direito e devem ser por este
não só garantidos, protegidos, mas também promovidos e
efetivados ou positivados. E à medida que o Direito tem como
fundamento o conceito do homem enquanto uma essência livre, pois
todo singular, todo indivíduo, deve ser respeitado e tratado pelo
outro como uma essência em geral, isto é, como pessoa, ele (o
Direito) também se coloca, com isto, enquanto Direito Humano. É
precisamente aqui que se pode entender a crítica de Hegel aos
Direitos Humanos, que estão ainda ligados à pessoa enquanto
membro da sociedade civil burguesa.
No Direito positivo, civil, o homem atinge a liberdade e a
igualdade universal da pessoa Jurídica, abstraindo de sua
particularidade, de suas qualidades materiais, justamente para que
ele possa ser reconhecido como essência livre, universal e igual a
todos. É essa abstração que possibilidade a igualdade e a liberdade,
também formais, entre todos os homens. Dessa liberdade e
igualdade formais, Hegel exclui o seu fundamento natural, pois elas
resultam da universalidade abstrata da pessoa sem remetê-la a uma
origem natural, a um Estado de natureza, onde todos os homens
seriam, aparentemente, iguais e livres. A igualdade (Gleichheit) e a
liberdade (Freiheit) entre os homens decorrem da própria essência
da vontade da pessoa, que é determinada como livre e sujeito de
direito. Portanto, igualdade e liberdade não podem ser deduzidas da
natureza, pois nela os homens são, na verdade, desiguais e não
livres. Na natureza predomina a ausência do Direito, da justiça, e se
impõe a força, a violência, como resultado das desigualdades
naturais: o mais forte domina o mais fraco, o maior expulsa o
menor. Do Estado de natureza é impossível deduzir a igualdade dos
Eduardo Ferreira Chagas | 221

indivíduos, a inalienabilidade e inviolabilidade dos Direitos


Humanos, pois estes são uma conquista histórica do homem para o
homem, como se fosse uma segunda natureza, a natureza espiritual,
racional, através da qual o homem toma consciência de si mesmo,
de sua igualdade e liberdade. Embora se possa estabelecer uma
distinção entre o Direito positivo – quem tem uma validade legal e
está circunscrito na história – e os Direitos naturais – que se baseiam
no sentimentalismo, na inclinação e no livre-arbítrio -, é importante,
no entanto, frisar aqui que um está para o outro, sem se
contraporem, pois o Direito positivo é uma expressão mais alta e
mais amadurecida dos Direitos naturais.
A primeira parte dos Princípios da Filosofia do Direito
(Grundlinien der Philosophie des Rechts) (1821) trata,
precisamente, do Direito positivo, jurídico, que Hegel chama de
Direito abstrato (abstrakte Recht). Nesta parte, Hegel nos apresenta
o momento incial em que a vontade do indivíduo busca realizar na
exterioridade a sua liberdade. No Direito abstrato, a vontade, a
liberdade se revela como liberdade individual-imediata, encerrada
em si mesma. Nessa liberdade imediata, o universal é, pois,
apresentado como formal, despojado de conteúdo. Assim, tal
liberdade é a liberdade do indivíduo como pessoa, como
personalidade que, enquanto eu puramente abstrato, é tão somente
uma relação simples do eu consigo mesmo, com sua singularidade.
Mas a personalidade só começa a ser enquanto tal a partir do
momento em que

[…] o sujeito tem consciência de si, não como um eu simplesmente


concreto, […] determinado, mas sim de um eu puramente abstrato
e no qual toda a limitação e valor concretos são negados e inválidos
(HEGEL, 1999, p. 41).

Portanto, a personalidade (Persönlichkeit), enquanto eu


abstrato e livre, sem determinação e mediação social, cujo fim e
objeto é o seu próprio eu, é resultado dessa consciência de si do
sujeito, que reconhece o outro em iguais condições. A figura da
222 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

pessoa é a mais elementar referência a si mesma, refere-se à figura


formal do Direito (Recht), à capacidade jurídica do indivíduo, à sua
condição de direito, igual a si próprio, livre e consciente de si. Como
diz Hegel:

Na personalidade, encontra-se o finito de que eu, enquanto este


filho e plenamente determinado em todos os aspectos (tanto no
meu íntimo livre-arbítrio, nos meus impulsos e desejos, bem como
na minha exterior e imediata existência), sou, apesar disto, pura
relação comigo mesmo e que na finitude me conheço enquanto
aquilo que é infinito, universal e livre (HEGEL, 1999, p. 41).

Pode-se dizer que o que fundamenta o Direito abstrato, o


Direito formal, jurídico, positivo, é, precisamente, a personalidade,
que dizer, o Direito do homem ser pessoa e respeitar e tratar os
outros não como coisas, mas como pessoas. A regra jurídica do
Direito abstrato limita-se a uma negação: não ofender a
personalidade do outro e tudo que lhe é consequente. Assim sendo,
a liberdade da pessoa, no Direito abstrato, é uma abstração vazia,
pois lhe foi negado todo conteúdo, já que o Direito formal, enquanto
Direito privado, se efetiva na esfera das relações interpessoais, sem
levar, no entanto, em consideração as diferenças particulares, a base
material dessas relações entre pessoas. Essa liberdade da pessoa, no
Direito abstrato, se expressa nas seguintes formas:

a) na posse, onde a liberdade se apresenta como abstrata, como liberdade


de uma pessoa particular que só se relaciona consigo mesma;
b) no contrato, em que a liberdade de uma pessoa, enquanto possuidora
de propriedade, é mediada e reconhecida por outras pessoas, que, por
sua vez, só existem e só são vistas como proprietárias e, por fim,
c) no crime e na injustiça, em que a liberdade da pessoa rompe a
convivência com uma outra pessoa, ou seja, com a comunidade ética.

Embora a liberdade, no Direito positivo seja abstrata, a pessoa


portadora dessa liberdade se determina, no entanto, de forma finita,
particular, que se efetiva na propriedade privada (Eigentum), pois
esta é uma expressão empírica do princípio jurídico abstrato da
Eduardo Ferreira Chagas | 223

pessoa, a “esfera exterior” (äussere Sphäre) da liberdade da pessoa


ou, com outras palavras, o elemento material em que o Direito
formal da pessoa se revela. Para realizar a sua liberdade, a pessoa
precisa dominar a natureza, se apossar do mundo, das coisas que
lhes são exteriores, submetendo-as aos interesses de suas
necessidades. Precisamente, aquilo que é subjugado ao poder da
pessoa, com finalidade de satisfazer seus desejos, suas carências, é a
posse. É nesta que a vontade (Wille), a liberdade pessoal, individual,
se dirige ao mundo, se exterioriza e expressa seu ser-aí (Dasein), o
seu arbítrio, e, por isso, ela, enquanto determinação da liberdade
pessoal sobre uma coisa, tem o caráter de ser privado.
Enquanto singularidade, a pessoa se objetiva na coisa (Sache),
nega o aspecto “coisal” desta, o seu caráter de res nullus e faz dela a
sua propriedade; quer dizer, a pessoa se exterioriza na coisa, e esta
perde a condição de pura coisidade (Ding), já que ela se torna uma
coisa sua, propriedade sua. Tal exteriorização significa a abertura da
universalidade formal da pessoa à sua particularidade ma condição
de proprietário. Sem essa exteriorização (Äusserung), a pessoa
permanece circunscrita em si mesma, reclusa em sua universalidade
abstrata, e ao não sair de si, ao não se exteriorizar, ela não se torna
livre. Para Hegel, negar a possibilidade da exteriorização e da
apropriação da liberdade ou, com outras palavras, negar o Direito à
propriedade privada é desconhecer a natureza da liberdade, pois a
pessoa precisa manifestar o seu Direito numa coisa (propriedade),
em que a sua liberdade individual possa se comprovar. É neste
sentido que Hegel crítica a ideia platônica de Estado, dado que ela
contém uma injustiça para com a pessoa, ao tratá-la incapaz, por
uma lei geral, de possuir propriedade privada.
É necessário dizer que a simples apropriação da coisa não é
ainda a propriedade privada, pois esta pressupõe o reconhecimento
da posse por outras vontades. A propriedade implica, portanto, a
relação de duas pessoas em torno de uma coisa exterior. Essa
relação, pela qual a pessoa passa a ter a propriedade da coisa, é
estabelecida:
224 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

a) pela posse imediata, quando a pessoa tem a sua existência na coisa como
algo de positivo e
b) pelo uso, quando a existência da coisa é negada.

Mostramos que, para se ter a posse, urge estabelecer a relação


da vontade livre (freire Wille) da pessoa com a coisa, com a
exterioridade. Na posse, a vontade se apresenta como algo de
positivo. Não obstante, a coisa é apresentada como negativa, pois ela
é possuída e destruída pela vontade. Esse ato de possessão, de
destruição, de modificação é o que constitui o uso da coisa.
Comumente, o uso da coisa surge como a realidade da
propriedade, dado que alguém só é proprietário de algo quando faz
uso desse algo. Do contrário, quando os proprietários não fazem uso
e nem se servem da propriedade, pode-se considerá-la abandonada
e sem dono. Por conseguinte, desde o momento em que não há a
integral utilidade da coisa, não há também propriedade, porque
tudo que existe pode ser apropriado por outrem. Por isso, o
princípio fundante do Direito abstrato, positivo, consiste em
garantir e assegurar à pessoa a liberdade de possuir propriedade.
Vimos que a coisa só se torna propriedade quando é usada.
Não obstante, o uso, a utilidade e a necessidade de uma coisa
também podem ser comparados àquelas que satisfazem outras
exigências.

Esta possibilidade simples de ser definida universalmente, que


provém da particularidade da coisa com a abstração das suas
específicas qualidades, […] é ao que se chama valor da coisa […].
Como proprietário pleno da coisa, sou-o também do seu valor e do
seu uso (HEGEL, 1999, p. 70-71).

Conquanto o indivíduo seja proprietário tanto do uso da coisa


quanto de seu valor, ele pode, ainda assim, desfazer de sua
propriedade, ou abandoná-la ou transmiti-la, porquanto ela lhe é
exterior. É alienável o que está fora do homem, contudo é injusto
tratar o outro como uma coisa exterior, vendável ou comprável, pois
Eduardo Ferreira Chagas | 225

são inalienáveis, invioláveis e imprescritíveis as determinações que


constituem a sua própria pessoa, como a personalidade, a liberdade,
a moralidade etc. Mesmo sendo inalienáveis tais determinações, há
exemplos de alienação da personalidade, como a escravatura, a
propriedade corporal, a apropriação da espiritualidade etc4. Mas o
Direito a não alienação das sobreditas determinações suprime as
condições de coisidade ou de extrinsecidade que se tornam
susceptíveis de serem apropriadas por outrem, fazendo do homem
um ser moral, para o qual as substancialidades constituidoras se sua
personalidade não são algo de externo, mas sim faculdades
espirituais que lhe pertencem.
No âmbito dessa discussão entre o que é ou não alienável,
Hegel introduz a questão do contrato (Vertrag) como garantia
legitimadora do que pode ser ou não possuído. O contrato é
justamente a relação de uma vontade com uma outra, fazendo surgir
uma vontade comum acerca de algo. O contrato demonstra, então,
que a propriedade é corolário da relação entre vontades, não
havendo espaço para uma propriedade individual, isolada ou
privada do acordo comum. Sem a relação autônoma, idêntica,
consciente e livre entre os indivíduos, o contrato entre eles seria
ilegítimo. Nessa perspectiva, a posição de Hegel contra o
contratualismo se apoia na crítica, por um lado, a Kant, por ter
apreendido o casamento como um contrato, vendo-o como uma
coisa, um objeto externo a ser alienado, e não como fruto de uma
relação interna entre duas vontades livres, e, por outro, na crítica a
Hobbes, Locke e Rousseau, por terem tomado o Estado quer como
um contrato de todos com todos, quer de todos com o príncipe ou o
governo, esquecendo que a natureza do Estado não consiste em
conexões contratuais, pois do contrário, ele passaria a ser dominado
pelo arbítrio das vontades dos indivíduos, pelas relações contratuais
entre os possuidores de propriedade privada, sendo um órgão

4 Quanto à crítica de Hegel ao homem como ser natural e escravo, cf. tanto o capítulo “Senhor e Escravo”
da Fenomenologia do Espírito, quanto A Enciclopédia das Ciências Filosóficas a partir do § 430.
226 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

fragmentado em átomos sociais e políticos, deixando, assim, de ser


independente, autônomo, livre e universal.
Como já explicitamos, o contrato se dá entre duas ou mais
vontades livres e independentes. Mas, embora no contrato as vontades
sejam comuns, elas não deixam de ser particulares, situando-se no
nível das vontades interpessoais, no domínio da contingência, do
arbítrio das pessoas sobre uma coisa acidental, e, por isso, podem
diferir da vontade geral. O contrato é, pois, insuficiente pra garantir a
realização universal da liberdade, já que, nele, o Direito aparece como
o que é comum à vontade arbitrária, à vontade particular, que, ao se
impor sobre a vontade do outro, pode realizar o trânsito para a
injustiça. Nesta, a vontade particular se contrapõe à vontade universal
comum. Aquela, diferentemente desta, age contra o contrato
estabelecido e nega o Direito universal, uma vez que, nessa oposição
entre o Direito universal e a vontade arbitrária, o Direito torna-se,
então, um Direito particular. De acordo com Hegel, a injustiça,
decorrida das vontades livres, é a quebra do pacto e se configura em
três situações: no dano civil, na fraude (na impostura) e no crime (na
injustiça). O dano civil é a lesão involuntária, não intencional da
vontade do outro; ele nasce dos conflitos jurídicos entre uma vontade
particular contingente com a vontade dos outros, justamente porque
uma só e mesma coisa aparece pertencente a várias pessoas, e cada
uma delas se considera, de acordo com seus interesses particulares,
como proprietária da coisa. Por sua vez, quando a vontade arbitrária,
particular e inessencial aparece como se fosse universal, rompendo
propositadamente, a partir de seu livre-arbítrio, o contrato, ela comete
a impostura, a fraude. Por fim, o crime consiste na intenção de ferir
diretamente a vontade do outro; ele se expressa por meio de uma
vontade arbitrária, violenta e coercitiva, que nega o Direito e rompe
com o acordo, com a convivência comum entre as vontades, com a
comunidade.
Se o crime é a supressão do Direito, sem o qual não é possível a
liberdade, então, para restabelecê-lo, faz-se necessário abolir o crime,
a injustiça. Todavia, a punição ao crime, que deveria ser justa, aparece
Eduardo Ferreira Chagas | 227

aqui, no Direito formal, como uma forma de vingança da sociedade


contra o “malfeitor”, “olho por olho, dente por dente, roubo por
roubo”, é a lei de Talião que é uma forma de vingança por quem sofreu
a violência, gerando uma nova violação do Direito, sempre uma outra
injustiça, pois que a aplicação da pena está vinculada aos interesses da
vontade particular, que se opõem a uma outra. Por isso, na esfera do
Direito abstrato, a justiça é arbitrária, a liberdade é limitada e formal,
e o contrato é, por conseguinte, insuficiente. Portanto, embora o
Direito positivo formal seja uma conquista, ele não consegue evitar a
arbitrariedade das vontades particulares contingentes; ele é, na
verdade, uma manifestação ainda pobre, insuficiente, precária do
Direito individual à igualdade e à liberdade, pois nele os indivíduos,
juridicamente iguais, como singularidade referidas umas as outras
segundo a determinação universal da pessoa, não se reconhecem
como subjetividades livres, permanecendo isolados (o isolamento da
pessoa jurídica), fragmentados, fechados em si mesmos, como as
mônadas leibnizianas, sem portas e sem janelas, que não se abrem à
realidade dos outros.
É necessário chamar atenção para o fato de que Hegel reconhece
o Direito como um momento necessário à igualdade, à liberdade, à
justiça, à não-violência e à não-discriminação, mas o interpreta como
uma conquista abstrata de tudo isto. Ele não nega o Direito em si, mas
o conserva, e nessa conservação ele quer superar o lado formal e
restrito da pessoa jurídica. A garantia desse Direito está justamente, na
superação de seu abstracionismo, cuja efetivação dá-se na vida política
e pública dos indivíduos, isto é, no Estado, que não deve ser
confundido com a sociedade civil burguesa (Bürgerliche Gesellschaft).
Embora não possamos dizer que Hegel seja um simples inimigo
absoluto da liberdade individual, já que ele a toma (vide a
Fenomenologia do Espírito) como um momento necessário do
desenvolvimento da consciência, devemos, não obstante, afirmar que
ele não é um teórico do Estado democrático liberal para consagrar e
legitimar os Direitos Humanos e as liberdades fundamentais do
indivíduo, visto que, para ele, a Declaração dos Direitos do Homem
228 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

(Proklamation der Menschenrecte) é apenas uma enunciação vazia da


liberdade, da igualdade e do Direito do homem. Pois, os Direitos à
sobrevivência, como a comida, a bebida, a subsistência, a moradia etc.,
e, por outro, não vão além do Direito positivo, que é a defesa jurídica
da propriedade privada. Assim, se o pobre, o miserável, o faminto,
para não morrer de inanição, tiver que usufruir de um alimento de
outro, isto será considerado pelo Direito positivo – embora a vida lhe
seja um Direito – como uma violação à propriedade privada, como um
roubo, como uma ação criminosa de um “bandido”, uma ação injusta
que deve ser punida severamente. Por isto, com relação ao problema
da busca dos meios de subsistência, dos Direitos ao trabalho, à vida, os
Direitos Humanos não passam de uma abstração, e, neste sentido, que
Hegel acredita, portanto, que, sem a presença de um Estado universal,
tais Direitos permanecem no formalismo, sem chegar a nenhuma
consistência para a sua postulação e efetivação.
Marx, ao rever Os Princípios da Filosofia do Direito de Hegel,
se contrapõe à tese central de Hegel, que apreende o Estado como
uma instância autônoma, necessária, que possibilita a unidade da
sociedade civil. Hegel concebe a sociedade, tal como a família, como
uma manifestação conceitual do Estado. Deste modo, a relação entre
sociedade civil e Estado se apresenta carente de significado próprio,
e assume o caráter de um fenômeno, de um predicado da Ideia: a
sociedade civil pertence à essência do conceito racional do Estado, é,
pois, um momento de sua esfera Ideal. Quer dizer, Hegel concebe a
conexão da sociedade civil com o Estado como uma determinação,
um resultado, um produto da Ideia, pois que Ideia é o demiurgo de
uma realidade hierarquizada, em cujo teto reina,
imperturbavelmente, o espírito do Estado. Com efeito, o
procedimento usado aqui por Hegel é o seguinte: a Ideia (o Estado)
é o sujeito, o princípio fundante. Marx inverte esta posição de Hegel
e faz do elemento real (a sociedade civil) o verdadeiro sujeito, no
qual o processo de pensamento (o Estado) é tão somente sua
manifestação. Em outros termos, se para Hegel a Ideia é o demiurgo
da realidade, para Marx a realidade efetiva é o demiurgo do
Eduardo Ferreira Chagas | 229

pensamento; ou seja, Marx põe como predicado (o Estado) o que


Hegel considera sujeito e coloca como sujeito (a sociedade civil) o
que Hegel julga predicado. Quer dizer, para Marx, é o contrário: é a
sociedade civil que gera o Estado, e não o Estado que engendra a
sociedade civil; da sociedade civil resulta o Estado, dado que este é
caracterizado pelo desenvolvimento “natural” da família e pelo
crescimento artificial da sociedade civil.
Hegel mistifica a existência real ou material do Estado, porque
apreende, em vez da própria natureza de seu conteúdo, a ideia ou a
substância abstrata como determinação do Estado. Ele postula, com
outras palavras, a perfectibilidade do Estado, que se dá, para ele,
quando o Estado se torna a esfera da universalidade, da
racionalidade e da liberdade humana, enquanto incorporação finita
da eticidade e da razão absoluta. Marx o critica, mostrando que o
Estado racional é impossível, pois Estado e razão universal, Estado
e liberdade são incompatíveis, não constituem identidades, mas
diferenças, ou seja, que o Estado, enquanto expressão da
sociabilidade burguesa, não é um Estado racional, ético, universal,
mas uma manifestação política da propriedade privada. O Estado
político moderno suprime, de forma política, a propriedade privada,
mas tal supressão pressupõe, ao contrário, a existência dela. Em
princípio, ele não admite nenhuma distinção de fortuna, de
nascimento, de posição social ou de profissão, porque proclama a
emancipação igualitária do indivíduo perante os Direitos Humanos
universais, à democracia e à soberania nacional. Mas, na verdade,
longe de suprimir as sobreditas distinções, diferenças e
desigualdades, o Estado político só existe à medida que as pressupõe.
Por isso, esse Estado atinge sua universalidade de forma abstrata;
isto é, sobre esses elementos particulares, sobre essas diferenças
sócias, configurando-se, portanto, como explicação da vida genérica
do homem em oposição à sua vida real.
Em conflito em que o homem se vê envolto entre Estado (o
público) e sociedade civil (o privado), entre vida genérica e vida real,
é similar à contradição em que o burguês (burgeois) – que leva uma
230 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

vida retraída, privada e egoísta – se encontra como cidadão


(cytoyen) – que participa de uma vida coletiva imaginária, despojada
da vida real e dotada de uma universalidade ilusória. Essa oposição
foi deixada intacta, por exemplo, pelo neo-hegeliano Bruno Bauer,
portanto reduziu sua polêmica em torno do antagonismo entre
religião e emancipação política. Em A Questão Judaica (Zur
Judenfrage), Marx mostra que Bruno Bauer trata o problema da
emancipação só a partir da crítica ao Estado cristão. Contrário a essa
posição, ele substitui a crítica ao Estado cristão pela crítica ao Estado
política, pois que a questão da emancipação humana não é um
problema estritamente religioso, nem político, como considera
Bauer, mas humano social. Segundo Bauer

O Estado cristão, de acordo com sua essência, não pode emancipar


o judeu; mas o judeu, em razão de sua natureza, não pode ser
emancipado. Enquanto o Estado permanecer cristão e o judeu
continuar a ser judeu, são igualmente incapazes, aquele de conferir
e este de receber a emancipação (MARX, 1977, p. 347).

Bauer concentra sua atenção na emancipação política


exclusivamente e, por isso, se contenta em fazer a crítica ao Estado
religioso. Para lograr tal intento, pede ele a todos os religiosos e ao
Estado a abolição da religião, por ser um fator de segregação
humana. Tanto os cristãos como os judeus devem superar o preceito
teológico, que Bauer considera contrário à razão e à natureza
humana. Por isso, o Estado teológico é, para ele, menos Estado que
o Estado político, profano, já que a presença da religião e de seus
critérios na esfera pública impedem a formulação de um bem
comum, fundado na comunidade de homens livres, na igualdade de
direitos e no desfrute da liberdade. Assim como o homem autêntico,
racional e livre é aquele que supera o preceito religioso, assim
também o Estado legítimo é o Estado político, laico, antirreligioso,
que está voltado unicamente para as metas da razão.
Neste sentido, a suplantação da religião é para Bauer o
pressuposto da emancipação política, dado que o judeu deixará de ser
Eduardo Ferreira Chagas | 231

judeu quando o Estado não atingir mais o cumprimento de uma dada


religião e abolir, por conseguinte, todos os privilégios, incluindo a
preponderância de uma igreja privilegiada. Com efeito, Bauer almeja
que o judeu abdique ao judaísmo e que o homem em geral renuncie à
religião, para que possam se emancipar politicamente como cidadãos.
Tendo em vista a interpretação segundo a qual o Estado que pressupõe
a religião não é ainda um Estado verdadeiro, efetivo, Bauer corrobora
então a ideia de que a supressão da religião é condition sine qua non
para efetivação do Estado político. Ao contrário desta posição, Marx
diz que tal questão é unilateral, já que não é necessário que o indivíduo
renuncie à religião para lograr sua liberdade no plano político. Por isso,
frisa Marx:

Devido ao fato de não formular a questão a este nível, Bauer cai em


contradições. Põe condições que não são fundadas na natureza
mesma da emancipação política. […] Quando Bauer diz aos
adversários da emancipação judaica: “O seu erro foi somente supor
que o Estado cristão era o único verdadeiro e que não tinha de
submeter-se à mesma crítica dirigida ao judaísmo” –, vemos o
equívoco de Bauer no fato de só submeter à crítica o “Estado
cristão”, e não o “Estado como tal”; de não analisar a relação entre
emancipação política e emancipação humana e, portanto, de pôr
condições que só se explicam pela confusão, devido às lacunas da
crítica entre emancipação política e emancipação geral da
humanidade (MARX, 1977, p. 350-351).

Marx evidencia frente a Bauer que a política democrática


burguesa, ou a emancipação política dentro da ordem do capital, é
fragmentada, restrita, particular, pois só a emancipação humana é
universal, a universalização da própria emancipação. Para Marx,
conquanto a emancipação política constitua um colossal avanço, ela
não é o télos últimos da emancipação humana social. Ele não parte
como Bauer, da relação entre emancipação política e religião, mas
sim entre emancipação política e emancipação humana, tampouco
busca o fulcro da imperfeição do Estado, mediado pela política, pode
desprender-se do constrangimento religioso, sem que o homem seja
232 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

realmente livre. Por exemplo, o homem liberta-se da religião, ao


removê-la do Direito público para o Direito privado; no entanto, esse
deslocamento, que constitui a efetivação da emancipação política,
não é ainda a plena emancipação humana. De fato, o Estado político,
o Estado laico, não precisa da religião para sua consumação política
pelo contrário, pode até dispensá-la, porque o suporte humano
realiza-se nele de maneira profana. Por outro lado, o Estado cristão,
que é ainda teológico, é tão somente o não-Estado, uma vez que
precisa da religião para firmar-se enquanto Estado.
Marx explica as determinações do Estado cristão frente ao
Estado político da seguinte maneira:

No chamado Estado cristão, o que prevalece não é o homem, mas a


alienação. O único homem que conta, o rei, é um ser especificamente
diferente dos outros homens, um ser ainda religioso e diretamente
ligados ao Céu e a Deus. As relações que aqui dominam são ainda
marcadas pela fé. O espírito religioso não se encontra ainda
verdadeiramente secularizado (MARX, 1977, p. 360).

Ao contrário do Estado cristão, o suporte do Estado político


não é o Cristianismo em si, mas a base humana dele. Os membros
do Estado político, conquanto não sejam cristão, surgem como
religiosos, por causa da dicotomia entre vida individual e vida
genérica, isto é, entre vida social e vida política. A religião, como
elaboração espiritual da sociedade civil, aparece então como
objetivação da alienação do homem em relação à sua genericidade,
porque o homem trara a vida política despojada da vida individual,
como se fosse sua verdadeira vida. Com efeito, o Estado político é a
expressão máxima dessa realidade, na qual o homem acha-se
corrompido, perdido de si mesmo; em síntese, sujeito aos domínios
e elementos inumanos inerentes à sociabilidade do capital.
Marx crítica veementemente a cisão baueriana segundo a qual
o judeu só poderá emancipar-se politicamente quando renunciar ao
Judaísmo. Consoante Bauer, diz Marx, se o judeu alcançar a
emancipação política sem deixar de ser judeu, ele não poderá, pois,
Eduardo Ferreira Chagas | 233

exigir e lograr os Direitos universais do homem. Do mesmo modo, o


cristão enquanto tal não poderá obter os Direitos gerais do homem
porque, para adquiri-los, será necessário que ambos sacrifiquem os
respectivos preceitos religiosos. Marx salienta que semelhante posição
é equivoca, dado que a Declaração dos Direitos do Homem, tal como
tem sido concebida na América do Norte e na França, reconhece
explicitamente o privilégio da fé e a liberdade de culto religioso.
Embora tenha o “ser do homem” não como uma qualidade banal,
trivial ou desprezível, mas como um ser supremo para o homem, ou
seja, não como um ser abstrato, situado fora do mundo, mas como o
próprio mundo do homem, Marx, tal como Hegel, crítica severamente
o caráter abstrato do homem defendido pela Proclamação do Direitos
do Homem (Menschenrectsproklamatione), Nessa crítica, ele aponta
para a diferença entre os direitos do homem (droits de l’homme) e os
do cidadão (droits du citoyen) Os direitos Humanos, isolados dos
Direitos do Cidadão, aparecem como expressão da cisão entre a
realidade das desigualdades dos indivíduos na sociedade civil e a ilusão
de uma comunidade no Estado. Esta diversidade, assegura Marx, é
oriunda da própria natureza da emancipação política, isto é, da
conexão entre Estado político e sociedade civil, pois os doits de
l’homme, distintamente dos droits du citoyen, constituem apenas uma
expressão dos Direitos dos proprietários dos meios de produção, ou
seja, dos Direitos do homem bourgeois, do homem enquanto membro
atômico da sociedade civil burguesa, do homem egoísta, privado,
separado do gênero humano, de sua comunidade (Germeinschaft),
entregue a si próprio, ao seu interesse privado. Nos Direitos do
Homem:

[…] o homem está longe de ser considerado […] como um ser


genérico; pelo contrário, a própria vida genérica – a […] sociedade
– surge como sistema que é externo ao indivíduo, como uma
limitação da sua independência original. O único laço que os une é
a necessidade natural, a carência e o interesse privado, a
preservação de sua propriedade e de sua pessoa egoísta (MARX,
1977, p. 366).
234 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

No Estado político são declarados os Direitos do Homem,


como, entre outros, a liberdade, a propriedade, a igualdade e a
segurança. Contudo, essa liberdade, concebida como Direito do
Homem, não se plasma nas relações sociais, senão no Direitos do
indivíduo segregado, fechado em si mesmo. A objetivação prática
desse Direito constitui, por isso, o Direito à propriedade privada, isto
é, o Direito do indivíduo de ser proprietário privado
(Privateigentümer). Marx crítica esse caráter burguês do “homem
universal” evocado pela Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, da qual todos os Direitos remetem ao caráter inalienável
da propriedade privada. Pois, o Direito Humano à propriedade
privada é por sua vez, o Direito de usufruir do bens e rendimentos,
sem conceder devida atenção aos outros homens, excluindo,
portanto, o dever de solidariedade social. Desse modo, o Direito à
igualdade torna-se meramente uma subscrição dos dois anteriores
mencionados. Por fim, o Direito à segurança consiste na garantia
outorgada pela sociedade a casa um de seus membros para
preservação de sua pessoa, de seus direitos e de sua propriedade.
Assim, nenhum desses supostos Direitos do Homem transcende o
egoísmo individual; pelo contrário, eles estão estritamente
determinados e fundamentados nos interesses mesquinhos dos
indivíduos da sociabilidade capitalista. Marx sublinha:

Esse fato torna-se ainda mais incompreensível quando observamos


que os emancipadores políticos reduzem a cidadania, a comunidade
politica, a simples meio para conservar esses chamados direitos do
homem; e que, por consequência, o citoyen é declarado com servo do
‘homem’ egoísta. A esfera em que o homem age como ser genérico é
rebaixada a uma esfera inferior, onde ele atua como bourgeois e não
o homem como citoyem que é considerado como homem verdadeiro
e autêntico (MARX, 1977, p. 366).

A tese de Marx é que os Direitos do Homem têm seu


fundamento (Fundamentum) na sociedade burguesa (Bürgerliche
Gesellschaft) e que circulam, como vimos, em torno dos Direitos à
Eduardo Ferreira Chagas | 235

igualdade (Gleichheit), à liberdade (freitheit), à apropriação privada


da propriedade (Eigentum) pelo trabalho e ao Bentham (o princípio
da utilidade individual), os quais não podem estar dissociados de sua
base material, ou seja, do dinheiro, que precisa do reconhecimento
universal desses Direitos para legitimar a troca entre capital e
trabalho enquanto “troca de equivalentes”. Mas essa “troca de
equivalentes” produz, na realidade, contradições, pois a referência
universal dos Direitos Humanos à liberdade e à igualdade dos
indivíduos é anulada na esfera da produção, onde os indivíduos,
embora na aparência sejam vendedores livres de sua própria força de
trabalho, são forçados a trabalhar de forma excedente, a criar mais
valor do que o salário que recebem, valor esse que é apropriado pelo
capital que só valoriza a si mesmo. Assim, os Direitos inalienáveis do
Homem se revelam como um discurso completamente abstrato-
formal, como o qual se pode mascarar a exploração, a suposta
igualdade dos socialmente desiguais, e se a desigualdade social, a
extrema necessidade e a miséria comprometem a própria igualdade e
a liberdade entre os homens, isto significa, na verdade, uma ausência
de Direito no âmbito da sociedade capitalista.
Poder-se-ia dizer ainda que a Declaração dos Direitos Humanos,
ao considerar a sociedade civil moderna como algo exterior ao ser
humano, como limitação de sua original autonomia, suprime a
unidade substancial entre a sociedade civil e o Estado político.
Diversamente da sociedade civil hodiena, e antiga sociedade possuía
uma determinação diretamente política. Nela, os elementos da vida
civil, como a propriedade, a família e os diversos tipos de trabalho,
eram considerados outrossim elementos da vida politica. Porém, a
partir da efetivação da sociedade industrial moderna, o caráter político
dessa sociedade é suprimido, tornando-a oposta à esfera do Estado.
Marx frisa que essa contradição se efetiva na oposição do homem
como ser genérico abstrato e como ser concreto particular. Desse
modo, a emancipação humana, em sua totalidade, só será possível
quando o homem, na vida cotidiana, se tornar um ser genérico
concreto e converter a sua força material numa força emancipadora.
236 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Enfim, o horizonte do pensamento político de Marx desde a


juventude até à maturidade, se põe pela emancipação humano-
social como antítese à emancipação política, mostrando que é
racional falar de uma emancipação politica com “alma social”,
embora seja absurdo defender uma emancipação social com “alma
politica”, com a política da democracia burguesa (MARX, 1997, p.
392). Pois, quando se dissolve a sociedade anterior, tem-se
emancipação social, mas quando se derruba o velho poder,
mantendo o Estado burguês, tem-se a politica no seu sentido
restrito. Quer dizer, a emancipação social situa-se na perspectiva da
totalidade, porquanto é um protesto do homem contra a vida
inumana, é a verdadeira comunidade do homem, a essência humana
já a emancipação politica no Estado democrático burguês consiste,
pelo contrário, numa universalização abstrata, que subsiste graças à
oposição entre a vida genérica do homem e a sua vida individual.
Não se trata aqui, como muitos pensam, de deixar de fazer politica,
de simplesmente negá-la. Não é isto que Marx pensa. Para ele, a
politica tem significado de instrumento de ferramenta para a
revolução humano social; ou seja, o fim dela não é a emancipação
politica, exercida por uns em nome dos outros, mas a emancipação
humana, que compreende a extinção do Estado burguês. Deve-se,
sim, ter partidos: deve-se, sim, fazer politica, mas uma politica
enquanto meio, enquanto instrumento, que não visa a
perfectibilização do Estado, mas que se incumbirá das tarefas
preparatórias para a transformação social. O problema é que, ao
defender tal posição, alguns se esquecem dos limites da política
democrática, das restrições da política no interior da sociabilidade
do capital. Na ausência desses referenciais teóricos, que nos
mostram a unilateralidade da política, crê-se, ao contrário, na
onipotência da política, na vontade política, ou seja, crê-se na
possibilidade pela política democrático burguesa de resolver as
mazelas do capital. A política deve, na verdade, ser apenas a
mediação (não o fim) fundamental para o processo de supressão
progressiva da máquina estatal, de instauração de um Estado
Eduardo Ferreira Chagas | 237

provisório e transitório, como condição prévia e necessária para a


autoconstrução ou auto-edificação do homem, ou melhor, para a
realização de uma comunidade plenamente humana, constituída de
indivíduos potencialmente livres.

4.3. Marx e a Questão da História sob dois Enfoques: Evolução


e Repetição.

Esta seção não pretende, de modo algum, constituir uma


apresentação exaustiva da teoria marxista da história. Temos
apenas a intenção de explicar, a partir do livro As Formas da
História, de C. Lefort, alguns elementos configuradores da temática
em questão. Sem, no entanto, cairmos em esquemas simplistas e
toscos que a grande maioria de autores apresentam. Nosso escopo
é, ao contrário, mostrar que MARX atribui uma acepção
diversificada à história, quer seja em suas análises sobre as
sociedades pré-capitalistas, quer seja sobre a sociedade burguesa.
A afirmativa de que as formações asiática, antiga, feudal e
burguesa representam etapas de progressão não implica, contudo,
numa concepção unilateral e singela da história, nem resulta na
acepção primária de que toda história é progresso. Apenas
reconhece, isto sim, que cada uma destas formações cada vez mais
se fasta, em aspectos cruciais, da situação primitiva do homem. Às
diversas rupturas ocorridas no interior das sociedades comunais
não correspondem, para MARX, etapas de uma história sucessiva,
pois não somente o modo de produção asiático coexistiu em todos
os demais, como também não há referência de que o modo antigo
de produção tivesse evoluído deste.
Antes de principiarmos a exposição propriamente dita,
convém esclarecer alguns pontos quanto ao método.
Primeiramente, este trabalho não entra no debate quanto à relação
entre o “jovem” e o “velho” MARX – em que sentido eles se chocam
ou coincidem, e qual representa o “verdadeiro” MARX. De modo
geral, não nos ocuparemos dessas questões, nem examinaremos o
238 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

desenvolvimento da concepção materialista da história. Em segundo


lugar, trataremos apenas da própria teoria da história de K. MARX,
e não de interpretações posteriores. Por conseguinte, não
pretendemos exaurir todas as questões referentes a essa teoria.
Almejamos apenas delinear algumas reflexões básicas em torno do
assunto ora em questão.

4.3.1. Acepção Marxista da Dualidade Histórica nos Modos de


Produção Pré-Capitalistas.

A formação sobre as periodizações ou divisões históricas


encontra-se no prefácio da Crítica à Economia Política, da qual os
Grundrisse constituem esboços preliminares. Nesta obra, MARX
consagra um capítulo sobre as formações pré-capitalistas, e
investiga as determinações específicas de cada uma dentre essas
formações, evidenciando o grau de similitude ou de oposição delas
em relação à sociedade industrial moderna. As formações pré-
capitalista, diz MARX, não erigem meras fases históricas
patenteadas empiricamente no tempo mas formam uma totalidade
complexa, cuja especificidade é explicitada a partir da instauração
do modo de produção burguês. Mediante esta configuração
histórica, determinada pela dicotomia entre trabalho e capital, é
possível apreender os elementos constituidores dos modos de
produção asiático, antigo e feudal.
Na comunidade tribal, a conexão do indivíduo com as
condições objetivas de seu trabalho é lograda pela propriedade5. Esta
é para ele a conditio sine qua non de seu trabalho, pois, só no
momento em que participa da comunidade é que trabalha. “Cada
indivíduo – assevera Marx – só detém o estatuto de proprietário ou

5 O conceito de propriedade não deve ser depreendido a partir de uma dada forma particular, como,
por exemplo, a da propriedade privada. Propriedade, como advoga Marx, “significa nada mais do que
a atitude do homem ao encarar suas condições naturais de produção como lhe pertencendo, como pré-
requisitos naturais de si mesmo, que constituíram, assim, prologamentos de seu próprio corpo”.
MARX, As Formações pré-capitalista, p. 85.
Eduardo Ferreira Chagas | 239

de possuidor enquanto membro da comunidade” (LEFORT, 1979, p.


215). Daí que a propriedade, na qual o indivíduo participa enquanto
membro, não pertence a ele isoladamente mas à coletividade. Nesse
primeiro período, frisa MARX, o indivíduo, agrupado em
comunidade tribal, vive da caça, da pesca, da cria de gado e, nos
estágios mais desenvolvidos, da agricultura. Ele não está, pois,
segregado das condições objetivas para a execução do trabalho,
porque possui o grande laboratório, o arsenal que fornece ao mesmo
tempo os materiais, os meios de trabalho e a residência, que é
precisamente, a terra, quer seja na forma de pequena propriedade
do solo, quer seja na forma de propriedade coletiva. Em ambos os
casos, porém, o indivíduo é proprietário das condições objetivas de
seu trabalho e da atividade produtora e reprodutora dos meios
necessários à sua vida. Segundo LEFORT, a propositura precípua de
MARX, aqui é explicitar, a partir dessa configuração societária, a
gênese dos modos de produção asiático, antigo e feudal, nos quais
se assentam rasgos complexos e específicos.
O modo de produção asiático emerge, por sua vez, como
corolário das alterações sucedidas no protótipo primitivo, cuja
fundamentação é a ausência da propriedade da terra. A
decomposição da comunidade natural se efetiva, pois, no momento
em que as pequenas comunidades são incorporadas a um órgão
superior. Dentro desse contexto, patenteia-se formas de poder
centralizador, que MARX designa de “despotismo oriental”. Este
poder centralizador, que é o poder do déspota, não está sobreposto
à sociedade, ao contrário, seu advento encerra uma forma de
comunidade superior em relação à precedente. “A partir daí –
sublinha LEFORT – estamos às voltas com uma formação – o
despotismo oriental – na qual as comunas e seus membros [estão]
privados da propriedade da terra e junto com elas [se tornam] a
propriedade do soberano (figura real e imaginária); trata-se, em
certo sentido, de uma escravidão generalizada” (LEFORT, 1979, p.
216). Porém, semelhante escravidão, adverte, distingue-se da forma
instaurada nas sociedades da Antiguidade, porque não há de forma
240 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

explícita a diferença entre o escravo e o indivíduo livre, nem


tampouco o indivíduo se encontra truncado de sua comunidade,
uma vez que subsiste como membro dela.
O que especifica, antes de tudo, o modo de produção asiático,
como já assinalamos, é a ausência da propriedade particular do solo.
Este é, na verdade, propriedade comunitária e quem trabalha nele tem
apenas a posse – e não a propriedade – do arado enquanto condição e
meio de produção; destarte, a terra é considerado propriedade
coletiva. Por esse fato, a comunidade preserva uma força de coesão
essencial, capaz de resistir às lutas mais sangrentas. MARX acrescenta
que a unidade dessa sociabilidade é auferida pela auto-suficiência da
manufatura e da agricultura, a qual contém rodas as determinações
para a produção e reprodução de excedentes no âmbito dela própria,
recalcitrando, assim, à desintegração e à evolução econômica mais
intensamente que as outras formações precedentes.
A segunda formação social investigada por MARX é o modo
de produção antigo, que é engendrado em decorrência, mormente,
da ampliação do número de proprietários, da invasão de novas
terras por meio da guerra, da utilização de uma mão-de-obra de
escravos, do desenvolvimento de atividades comerciais e artesanais
e da exploração independente do solo. A história dessa constituição
social, segundo MARX, configura-se a partir das alterações
substanciais, históricas, locais, etc., dado que a mesma resulta “ de
uma vida histórica mais movimentada, de um concurso de
fatalidades e de transformações sobrevindas no seio das tribos
primitivas” (LEFORT, 1979, p. 217). Em decorrência de tais
vicissitudes, a comunidade não mas pressupõe imediatamente a
terra como a sua base central, mas a cidade ou, melhor dizendo, o
Estado. Neste, o indivíduo6 não se comporta como um acidente
puramente natural, mas sim como um proprietário livre e

6 O indivíduo enquanto trabalhador é, para MARX, um produto histórico, pois, por estar vinculado
naturalmente à terra, não tem o estatuto de trabalhador, e sim de proprietário das condições objetivas
de seu trabalho.
Eduardo Ferreira Chagas | 241

independente das cadeias naturais; adstrito, portanto, a todos os


outros por um nexo de reciprocidade.
O surgimento das pequenas explorações agrícolas, a rigor
independentes dos colonos é semicolonos, marca, precisamente, o
prenúncio da desagregação do modo de produção antigo e da
manifestação das premissas do modo de produção feudal. “Se a
Antiguidade origina-se da cidade com seu pequeno território – salienta
MARX -, a Idade Média tem o campo como ponto de partida” (MARX,
apud LEFORT, 1979, p. 116). O estágio medieval é determinado,
essencialmente, pelo desenvolvimento das relações sociais de produção
circunscrito à terra e pela preponderância da grande propriedade
fundamentada na espoliação dos camponeses, que dependem
pessoalmente dos proprietários, porquanto o principal meio de
produção, a terra, não pertence aos produtores diretos, camponeses e
artesãos, mas aos senhores feudais; consequentemente, a posse destes
sobre ela constitui o substrato do regime feudal na Idade Média.
Após analisar o caráter específico desses modos de produção,
MARX designa duas particulares similares entre eles: primeiro, a
apropriação das condições naturais do trabalho, da terra, apropriação
que não é o resultado do trabalho, mas sua condição; segundo, a
relação do indivíduo à terra é mediatizada pela existência natural dele
com membro da comuna. Simultaneamente, MARX atribui através de
tais modos de produção duas interpretações à história: uma evolutiva,
regida pelo desenvolvimento das forças produtivas, e uma repetitiva,
erigida pela inalteração da organização social.
Segundo LEFORT, esta primeira interpretação marxiana da
história, fundamentada pela autonomia das forças produtivas,
contrapõe-se à acepção, também de MARX, segundo a qual a
produção pré-capitalistaestá subordinada às determinações sócio-
naturais da comunidade. Para MARX, assegura LEFORT, “as
condições primitivas da produção não [podem] ser produtos ou
resultados da produção tanto quanto, aliás – e se trata da mesma
coisa – a reprodução de seres humanos, cujo número [aumenta]
pelo processo natual dos sexos” (LEFORT, 1979, p. 221). Tais
242 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

“condições primitivas” não cessam de ser determinantes, enquanto


se processa o desenvolvimento das forças produtivas. Este,
entretanto, altera apenas o arranjo no interior das relações sociais,
não a forma genuína da comunidade.
Considerando o esquema da história evolutiva, LEFORT
adverte que a destruição ora lenta, ora abrupta, do estabelecimento
humano, designa apenas o indício de uma contradição inexequível
entre os indivíduos e sua base real, isto é, a terra. “A mudança – frisa
ele – não poderia fazer com que os homens se percebam destacados
da terra e desligados uns dos outros (mesmo quando se opõem como
senhores e escravos)” (LEFORT, 1979, p. 223). De qualquer maneira
que se efetue a destruição do estabelecimento humano, que seja pelo
digladiamento entre comunidades estrangeiras, quer seja por erosão
das instituições, a forma própria da existência humana é convertida.
Todavia, há, entre as formações pré-capitalistas, uma que põe a
MARX uma determinação particular, levando-o a desenvolver o
esquema de uma história repetitiva. De fato, o modo de produção
asiático inverteu não apenas a ideia de uma continuidade do
processo histórico, como também a da inelutabilidade da vicissitude
social, conforme o protótipo da história evolutiva.7
Com efeito, estas reverberações permitem a MARX distinguir,
como foi supracitado, dois esquemas históricos: um fundamentado
pela mudança constante no modo de produção; outro caracterizado
pela imobilidade da estrutura sócio-econômica. Por isso, MARX
reconhece que o processo de decomposição do estabelecimento
humano confronta-se com a resistência quase insuperável de uma
estrutura social, como, por exemplo, a da sociedade asiática. Na
verdade, diz LEFORT, MARX “concede um tempo histórico
endógeno, tempo de uma reprodução das relações sociais impressas
em sua forma que opõe a um tempo exógeno, tempo do surgimento
dos acontecimentos que levariam necessariamente de roldão todo

7 As sociedades asiáticas, frisa MARX, ocultaram sua própria história, pois nem as convulsões sociais,
nem as coerções, nem o desenvolvimento das forças produtivas, foram susceptíveis para decompô-las.
Eduardo Ferreira Chagas | 243

edifício estabelecido” (LEFORT, 1979, p. 225). Sendo assim, MARX,


ao analisar os fenômenos das sociedades pré-capitalistas, é instigado
a refletir a história sob dois aspectos: repetição e evolução.

4.3.2. Ambiguidade da História da Sociabilidade Burguesa.

No âmbito do feudalismo surgem as condições para um saldo


qualitativo no desenvolvimento das forças produtivas, mormente
dom o aparecimento da produção mecanizada. A partir desta
inaugura-se uma acepção da história inteiramente nova,
fundamentada pelo antagonismo entre meios de produção e
trabalho assalariado, entre capital e trabalhador livre. MARX, ao
perquirir a gênese deste sistema de produção, reintroduz a distinção
entre os dois tipos de história, a saber: repetitivo e evolutivo.
Precisamente, nos capítulos XVI, XVII E XVIII do Primeiro
Livro de O Capital, referentes, respectivamente, à cooperação, à
manufatura e à grande indústria, MARX explicita o caráter
revolucionário do modo de produção burguês em oposição a todos
os modos de produção precedentes, que eram conservadores. A
cooperação capitalista, evidencia MARX, em sua primeira fase, teve
como escopo suprimir a diferença qualitativa entre os trabalhos
individuais, instituindo, assim, um trabalho social médio como,
conditio sine qua non da universalização do mercado. Este
empobrecimento do trabalhador a simples força de trabalho e
inteiramente despojado de seus meios de produção dissolvei
definitivamente a forma social na qual se travavam relações de
dependência e os trabalhadores permaneciam combinados com seus
meios de produção.
A cooperação capitalista, segundo MARX, distingue-se de
todas as antigas formas de cooperação, bem como dos tipos de
produção fundados sobre a pequena propriedade independente,
uma vez que estas fundamentam-se na “propriedade comum das
condições de produção e no fato de que cada indivíduo adere ainda
à sua tribo ou à comunidade tão fortemente como uma abelha a seu
244 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

enxame. Ambos diferenciam-se da cooperação capitalista”8. Nesse


confronto, a forma capitalista pressupõe, ao contrário, desde o
princípio, o trabalhador livre, que vende a sua única mercadoria, a
força de trabalho, ao capitalista em troca de meios de subsistência
para o consumo imediato.
A cooperação, fundamentada na divisão social do trabalho,
assume sua forma clássica na manufatura. Como característica
específica do processo de produção capitalista, a manufatura
origina-se de modo duplo: de um lado, ela parte – menciona MARX
– da combinação de ofícios autônomos de diferentes espécies, que
não são despidos de sua autonomia e tornados unilaterais até o
ponto em que constituem apenas operações parciais que se
complementam mutuamente no processo de produção de uma
cínica e mesma espécie, decompõe o mesmo ofício individual em
suas diversas operações particulares e as isola e as torna autônomas
até o ponto em que cada uma delas torna-se função exclusiva de um
trabalhador específico.9 Qualquer que seja seu ponto particular de
partida, ela produz, de fato, a virtuosidade do trabalhador detalhista,
ao reproduzir dentro da oficina, a diferenciação naturalmente
desenvolvida dos ofícios, mas por outro, reduz a atividade do
trabalhador a uma função parcial e sua força de trabalho se
transmuda por toda vida em órgão dessa função parcial.
Mas tão logo as diversas operações de um processo de trabalho
se dissociam e cada operação parcial adquire na mão do indivíduo
parcial a forma mais adequada, torna-se necessárias modificações nas
ferramentas anteriormente utilizadas. Nomeadamente, a cooperação
simples, por exemplo, converte-se em manufutura capitalista
propriamente dita, na qual se explicita a decomposição, ou dissolução
da atividade humana, separando-a dos seus meios de produção. Nesta,
frisa MARX, não só a atividade é seccionada e repartida entre diversos
indivíduos, como também o próprio indivíduo é mutilado e

8 MARX. O Capital. Vol. I, Livro Primeiro, Tomo 1, p. 265.


9 Ibidem, p. 268.
Eduardo Ferreira Chagas | 245

metamorfoseado em “motor automático” de operações mecânicas.


Esse empobrecimento das potencialidades intelectivas do indivíduo é
condicionado, contraditoriamente, pelo enriquecimento do capital
enquanto força produtiva. Portanto, a manufatura não só aumenta a
riqueza do capitalista, à custa da espoliação da força de trabalho, como
também trunca o próprio indivíduo.
Na manufatura, a operacionalização do processo social de
produção é puramente subjetivo. Com o advento da Revolução
Industrial no século XVIII, e com a crescente produção mecanizada,10
na primeira década do século XIX, o princípio subjetivo da produção
é substituído por um princípio objetivo. MARX assevera “Na
manufatura, trabalhadores precisam, individualmente ou em grupo,
executar cada processo parcial específico com sua ferramenta
manual. Embora o trabalhador seja adequado ao processo, também
o processo é adequado antes ao trabalho. Esse princípio subjetivo da
divisão é suprimido na produção mecanizada”.11 A partir desta
forma de produção surge, por sua vez, um organismo de produção
completamente objetivo, impessoal, inumano, no qual o
trabalhador, além de perder a sua habilidade, despoja-se do
existente coletivo que anteriormente estava aglomerado, e a divisão
social do trabalho passa a obedecer às necessidades cegas do
desenvolvimento tecnológico. Neste sentido, não é mais a produção
que se acopla às aptidões subjetivas do indivíduo, mas é este que se
acomoda aos fatores objetivos do processo produtivo.
O princípio objetivo da divisão social do trabalho é, destarte,
ao mesmo tempo gerador de uma transmudação contínua do modo
de produção e de uma interação recíproca entre as diversas
atividades que fazem surgir a unidade do trabalho social,
fundamental para o desenvolvimento da produção mecanizada. Esta
descrição do modo de produção fundado sobre a grande indústria

10 MARX, em O Capital, polemizado com John Stuart Mill, salienta que a utilização da maquinaria –
sistema de máquinas – não teve como finalidade aliviar a labuta diária do ser humano, mas sim
baratear o custo da mercadoria e encurtar o tempo da jornada de trabalho.
11 MARX. O Capital. Vol. II, Livro Primeiro, Tomo 2. p.13
246 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

tem como suporte a revolução constante do modo de produção e de


todas as instituições, uma vez que a indústria não considera nunca
como definitivo o modo capitalista de produção e reprodução social.
Poder-se-ia, então, asseverar que aqui há, de uma maneira geral,
uma asserção da história regida pela lógica da revolução, que MARX
a explicita como percurso evolutivo que vai das formas simples a
formas cada vez mais complexas. Por outro lado, podemos
assegurar também que MARX, na verdade, concebe uma imagem
contraditória à sociabilidade burguesa, porque tal sociabilidade
anuncia a dissolução de todas as formas tradicionais de produção e
reprodução, mas, simultaneamente, refugia-se em modelos do
passado ou deixa-se enfeitiçar pelos espíritos dos mortos.
Ao diligenciar a lógica interna da sociabilidade burguesa,
MARX evidencia que a natureza específica dela reside no fato de que
as relações de produção entre as pessoas não são estabelecidas
apenas pelas coisas, mas através de coisas. É, precisamente, isto que
consagra às relações de produção entre as pessoas uma forma
reificada e gesta o feticismo da mercadoria. A retificação das relações
de produção entre as pessoas, que é complementada pela
personificação das coisas, garante à dita sociedade maior
durabilidade e estabilidade. Por isso, para MARX, a história que aí se
desenvolve acha-se regida pela lógica da repetição.
A acepção da história sob o esquema da repetição se
fundamenta, como vimos, a partir das determinações fundantes da
sociabilidade capitalista, as quais mascaram as relações sociais entre
os homens e a realidade, atribuindo-lhes um caráter coisal,
destituindo-as de seu aspecto histórico. LEFORT, a partir desta
análise, salienta que o processo de coisificação das relações de
produção “enraiza (…) a mistificação na movimentação da formação
do capital, mostra como ela se engendra e se condensa em cada um
dos seus momentos, de sorte que a história ou a gênese das relações
sociais se acha inteiramente oculta e que estas relações são, em sua
própria realidade, destacadas dos homens vivos, não mais seu
produto, mas um mecanismo que detém o princípio de sua
Eduardo Ferreira Chagas | 247

repetição” (LEFORT, 1979, p. 234-235). É assim, portanto, que o


processo capitalista mascara o caráter histórico e humano da vida
social, transformando o homem em elemento passivo, em
espectador de um drama que se renova continuamente e no qual os
únicos entes realmente ativos são as coisas inertes; quer dizer, tanto
os objetos do trabalho humano como o próprio homem tornam-se
coisas, a ponto destas aparecem como entidades autônomas
sobrepostas à realidade humana.
Munidos dessa sumária exposição das grandes linhas deste
trabalho, podemos concluir afirmando que tanto nas obras de
juventude quanto nas de maturidade, MARX formula uma acepção
dual da história da sociabilidade burguesa, ora rejeitando o esquema
evolucionista, ora restabelecendo-o. MARX afirma, por exemplo, que a
instauração desta sociedade consente em apreender as determinações
inerentes à estrutura de todas as sociedades precedentes, que profere
a chave delas tal como anatomia do homem concede a do macaco, mas,
por outro, diz que as categorias fundantes dela só têm substancialidade
dentro de seus limites. Além disso, acrescenta que a história dessa
sociabilidade se plasma a partir da dissolução de todas s formas
tradicionais de produção e representação porém, respectivamente, a
mesma dissimula o seu próprio desenvolvimento histórico,
refugiando-se nos arquétipos do passado, com intuito de eternizar sua
própria constituição. Neste sentido, podemos assegurar que MARX
depreende o curso da história como uma sucessão ao mesmo tempo
contínua e descontínua, na qual os fatores de estagnação e vicissitude
entram em contradição recíproca.
Capítulo 5

Secularização, estranhamento
e moral religiosa em Marx

Renato Almeida de Oliveira

5.1. Marx e a Secularização.

Em 1842, Moses Hess, fundador e articulador da Gazeta


Renana, em carta ao seu amigo Berthold Auerbach, afirma: “Pode se
preparar para conhecer o maior – e talvez o único verdadeiro –
filósofo da atual geração [...] Imagine Rousseau, Voltaire, D’Holbach,
Lassing, Heine e Hegel reunidos numa única e mesma pessoa – e
estou dizendo reunidos, e não justapostos –, e terá o doutor Marx”
(HESS apud ATTALI, 2007, p. 55). Essas palavras de Moses Hess
mostram que Marx sintetiza, em seu pensamento, mesmo ainda na
juventude, o espírito da filosofia moderna. E, de fato, Marx esboçava
em seus escritos que estava imbuído das questões que constituíam
o pensamento moderno ocidental, a saber, a ideia da liberdade ou
emancipação humana, do ordenamento racional do Estado e da
sociedade, da revolução como condição de superação das
contradições sociais e concebia que a existência humana se molda
pela ação histórica, concreta, dos indivíduos, e não pela ação ou
capricho de um Espírito ou da Providência Divina. Desse modo, não
é forçoso afirmar que a crítica moderna, seja da religião, do Estado
absolutista, do Ancien Regime, da visão cristã do homem e da
natureza etc., encontrou eco no pensamento de Marx, permitindo-o
lançar as bases da sua crítica à política, à sociedade civil burguesa e
250 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

aos complexos que compõem essa mesma sociedade, dentre eles, a


religião.
Marx viveu numa época onde a religião tinha uma forte
influência sobre o Estado e sobre a vida dos cidadãos. No entanto,
na cidade onde nasceu, Trier, localizada na região da Renania,
próximo à divisa entre a Alemanha e a França, havia uma forte
influência dos ideais franceses advindos da Revolução de 1789. Esses
ideais chegaram a Trier quando a cidade foi anexada ao território
francês durante a era napoleônica (1799-1815). Com isso, os
habitantes de Trier passaram a ter contato com os ideias iluministas,
que causaram um choque com suas ideias religiosas. Porém, em
1815, com o fim da era napoleônica, Trier foi novamente anexada à
Prússia e teve início um novo período de repressão.
Após a revolução de 1789, a França havia se constituído em
uma nação moderna, politicamente emancipada, enquanto a
Alemanha, na época chamada de Sacro Império Romano-Germânico
(o que evidencia sua forte ligação com a religião cristã) era ainda um
aglomerado de principados divididos e rivais. Os mais poderosos
desses principados eram a Prússia e a Áustria. Esse contexto de
tensão entre o conservadorismo do Estado prussiano (que passara a
governar a cidade de Trier) e os ideais revolucionários introduzidos
em Trier pelos franceses, propiciou a Marx desenvolver um senso
crítico quanto à relação entre Estado e religião, bem como uma ideia
de emancipação, especialmente por ele fazer parte da comunidade
judaica, a qual sofria inúmeras sanções do Estado prussiano cristão.
“Os judeus de Trier foram submetidos a um edito prussiano de 1812,
que efetivamente os proibiu de ocuparem cargos públicos ou
exercerem profissões liberais” (WHEEN, 2001, p. 18).
Quando era estudante de filosofia em Berlim, Marx aguçou
os ideais iluministas da separação entre Estado e religião e de
efetivação da liberdade humana. Foi em Berlim que ele teve contato
com a filosofia de Hegel e, a partir dessa filosofia, despertou para a
ideia de que é a razão quem governa o mundo. Em seus Princípios
da Filosofia do Direito (1820), Hegel procurou mostrar o caráter
Renato Almeida de Oliveira | 251

racional da efetividade, ou seja, expor que o mundo real, a sociedade,


o Estado, estão em conformidade com o desenvolvimento do
Espírito na história, são, portanto, conduzidos pelo progresso da
racionalidade. Desse modo, o Estado, o direito, são, em última
análise, a realização da universalidade e da liberdade humana.
O Estado Prussiano, porém, apropriou-se da filosofia
hegeliana, tornando-a o seu pensamento oficial. E de fato, a filosofia
do Estado de Hegel acabava por legitimar o status quo da política
prussiana, tendo em vista Hegel ter concebido o Estado, a
efetividade real, como a unidade imediata entre essência e
existência, como o ápice do desenvolvimento do Espírito absoluto.
O encontro com a filosofia hegeliana, que inicialmente
desperta Marx para o aspecto racional da realidade, logo se converte
em material para sua crítica da política e da sociedade burguesa.
Essa “reviravolta” no modo de ver a filosofia de Hegel foi
entusiasmada pelo pensamento jovem hegeliano de esquerda, para
o qual

[...] o Estado prussiano em nada se identifica com o estado ideal e


racional sonhado por Hegel na Prússia. Para eles, a causa essencial
disso é o caráter todo-poderoso da religião, que entrava o
desenvolvimento da liberdade [...] Segundo eles, é preciso antes de
mais nada libertar o homem e o estado do controle da religião
(ATTALI, 2007, p. 37).

Marx foi, portanto, influenciado pelos jovens hegelianos de


esquerda, os quais procuravam subverter a filosofia de Hegel,
mostrando seu caráter racional e revolucionário. Esse caráter
revolucionário atribuído à filosofia de Hegel pelos jovens hegelianos
causa uma fratura no pensamento do século XIX e abre espaço para
um novo pensamento, ganha espaço uma filosofia crítica, anti-
dogmática, anti-metafísica, anti-religiosa. Inicia-se uma luta contra
o caráter absoluto, autoritário do Estado e contra a influência
religiosa. Marx se apropriará desse novo espírito crítico, que
acentuará os seus ideais modernos de uma sociedade secularizada,
252 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

emancipada. Nesse sentido, o desenrolar da filosofia do jovem Marx


o conduzirá a uma progressiva ideia de secularização da sociedade e
da política, até então perpassados pelos valores cristãos. A partir de
então, trata-se de libertar o homem e dar-lhe autonomia, ou nas
palavras assiduamente usadas por Marx, efetivar a emancipação
humana.
Essa ideia acompanhará Marx ao longo dos seus escritos. Em
sua tese de doutorado sobre as filosofias da natureza dos filósofos
gregos Demócrito e Epicuro, Marx recorre à figura de Prometeu,
exaltando-o por ter dado aos homens o fogo da liberdade, rompendo
com as determinações divinas. A filosofia que está a favor da
liberdade humana deve fazer sua a profissão de fé de Prometeu:

A filosofia não o dissimula. A profissão de fé de Prometeu: Eu odeio


todos os deuses; eles são meus subordinados e deles sofro um
tratamento iníquo, é a sua profissão de fé, a sua máxima contra
todos os deuses do Céu e da Terra que não reconhecem como
divindade suprema a consciência que o homem tem de si. Nem
deve haver outra. (MARX, 1976, p. 14. Grifos do autor).

É evidente, nesta passagem, como Marx, ao escrever sua tese


de doutoramento, era um entusiasta da liberdade humana. Ao
recorrer à Prometeu e ao afirmar que a consciência que o homem
tem de si deve ser a divindade suprema, Marx dá um destaque à
relação entre religião e liberdade. O homem livre é aquele que é
senhor de si, que se autodetermina, que é autônomo, emancipado.
A religião, por sua vez, professa a existência de um ser superior ao
homem no qual esse homem encontra sua plena realização e
liberdade. Nesse sentido, a religião nega a autoderterminação
humana, ficando a humanidade à mercê das vontades e caprichos
da “Providência Divina”.
Percebemos, por conseguinte, a postura crítica de Marx frente
à religião. Marx não admite que os homens estejam submissos a
qualquer forma de divindade ou que sua liberdade seja condicionada
pelos deuses. A humanidade deve ser continuamente livre das
Renato Almeida de Oliveira | 253

amarras religiosas. Como forma de tornar tal ideia evidente, Marx


cita a resposta de Prometeu ao mensageiro dos Deuses, Hermes:
“Por uma servidão semelhante à tua, fixa-o definitivamente, eu não
trocaria a minha infelicidade. Prefiro, creio-o, estar preso a esta
rocha do que ver-me fiel mensageiro de Zeus, pai dos Deuses!”
(MARX, 1976, p. 14. Grifos do autor). Como destaca Oliveira (1997,
p. 29) a esse respeito, não é outra a expectativa de Marx a não ser a
de “garantir argumentativamente o caráter prometêico da filosofia
que, arrancando o homem da servidão a outros deuses que não a
sua autoconsciência, pode conduzi-lo à liberdade almejada”.
Podemos afirmar que, Marx, em sua tese de doutorado, reflete o que,
na introdução do nosso trabalho, denominados de secularização
subjetiva, ou seja, o processo de afastamento dos indivíduos de uma
relação com o divino.
As temáticas da liberdade humana, da emancipação, do
afastamento entre religião e política, que marcam o processo de
secularização na modernidade, continuarão presentes nos escritos
posteriores de Marx. Em 1842, Marx assume o cargo de redator-
chefe da Gazeta Renana. À frente desse periódico, ele publica uma
série de artigos que versam sobre o tema da liberdade, mais
especificamente da liberdade de imprensa, e sobre o caráter
absolutista, autoritário, do Estado prussiano. Como salienta Lukács
(2007, p. 133), a proposta de Marx na Gazeta Renana era “unificar
todos os elementos progressistas alemães, essa tentativa de
concentrar todas as forças livres na luta contra o absolutismo”.
No entanto, dentre os artigos publicados nessa época, um
merece destaque, por tratar de uma questão central para a
secularização moderna, a relação entre religião e Estado. Após ser
atacado pelo editor-chefe, Karl Henrich Hermes, da Gazeta de
Colônia, um periódico cristão, defensor do Estado prussiano e de sua
política, no número 179, em 28 de junho de 1842, no qual Hermes
afirmava que a censura do Estado prussiano deveria agir mais
energicamente no sentido de proibir os críticos da Gazeta Renana de
emitirem opiniões contra o Estado e contra a religião por meio da
254 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

imprensa, Marx redige um editorial, publicado em 10 de julho de


1842, no número 191, da Gazeta Renana, no qual, ao polemizar com
o ponto de vista de Hermes, deixa explícita sua defesa do Estado
secular, laico.
No referido editorial, Marx cita as ideias de Hermes:

A religião é o fundamento do Estado, tal como é a condição


indispensável de qualquer agrupamento social que não vise
unicamente um fim superficial!
Prova: mesmo sob a sua forma mais grosseira, o fetichismo pueril,
ela eleva em certa medida o homem acima dos desejos dos
sentidos, os quais, se ele se deixa dominar exclusivamente por eles,
o precipitam para o nível do animal e o tornam incapaz de realizar
qualquer desígnio superior (MARX, 1976, p. 22-23).

Vê-se, nessas palavras, uma forte defesa da religião. E Hermes


ainda defende que nas civilizações mais desenvolvidas da história
humana que atingiram uma importância histórica superior, a
elevação da vida política coincidia com o crescimento do sentido
religioso. Desse modo, religião e política devem estar unidas em prol
do desenvolvimento das sociedades humanas. A decadência política
de um povo está diretamente ligada à sua decadência religiosa (Cf.
MARX, 1976, p. 23). Portanto, o Estado, sua polícia, deve velar pela
religião.
Marx passa, então, a polemizar com as noções do editor da
Gazeta de Colônia. Inicialmente ele afirma que “é na exata inversão
da afirmação do autor que se obtém a verdade; ele pôs a história de
cabeça para baixo”. E acrescenta: “Não foi a ruína das religiões
antigas que provocou a queda dos Estados da Antiguidade, mas a
queda dos Estados da Antiguidade que provocou a ruína das
religiões antigas” (MARX, 1976, p. 23-24). Marx desmascara a
pretensão de Hermes em legitimar o Estado cristão, de justificar que
a finalidade do Estado é “em vez de uma associação livre de seres
morais, uma associação de crentes, em vez da realização da
liberdade, a realização do dogma (MARX, 1976, p. 28).
Renato Almeida de Oliveira | 255

Marx defende, aos moldes do Estado francês, a partir dos


princípios iluministas da Revolução Francesa, o Estado laico,
mostrando que em um tal Estado não são os membros de uma
religião específica que detêm o privilégio jurídico-constitucional,
mas todos os homens entendidos como cidadãos, como membros
desse Estado, o qual deve educar esses mesmos membros para uma
vida racional. Conforme Marx:

Ora a verdadeira educação “pública” do estado reside, pelo


contrário, na existência racional e pública do estado; é o próprio
Estado que educa os seus membros, fazendo deles verdadeiros
membros do Estado, transformando os objetivos individuais em
objetivos gerais, o instinto grosseiro em inclinação moral, a
independência natural em liberdade intelectual, fazendo que o
indivíduo se desenvolva na vida do conjunto e que o conjunto viva
no espírito do indivíduo (MARX, 1976, p. 30).

Um Estado religioso, pensa Marx ao criticar Karl Hermes, que


defendia que toda a educação deveria repousar na base do
cristianismo, transforma os homens livres em um rebanho (Cf.
MARX, 1976, p. 30).
Podemos entender, portanto, que o ideal de Marx na Gazeta
Renana era o desmascaramento do caráter autoritário, absolutista,
religioso, do Estado. Conforme salienta Lukács (2007, p. 138),

Marx contrapõe a esta odiosa realidade alemã a racionalidade do


Estado, do direito e da lei, ou seja, a racionalidade que estas
instâncias adquirem quando a lei é expressão consciente da
vontade popular, quando é criada com e pela vontade do povo.
Neste sentido, a crítica de Marx se volta, sobretudo, contra os
privilégios feudais dos estamentos. Marx mostra que, em todas as
questões da vida estatal e social, o absolutismo régio, bem como os
estamentos feudais, representavam tão-somente uma odiosa
caricatura reacionária do Estado e da sociedade. Além de serem em
todos os sentidos um empecilho ao desenvolvimento dos homens,
de sua liberdade e de sua civilização.
256 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

No bojo da crítica da relação entre Estado e religião, ou, mais


exatamente, da separação entre Estado e religião, como expusemos
no embate de Marx com Karl Hermes e que caracteriza o que
denominamos de secularização objetiva, Marx tece novas
considerações a esse respeito, agora travando um embate teórico
com Bruno Bauer1 no texto Sobre a Questão Judaica (1843).
O pensamento de Bauer é tipicamente moderno no que
concerne a questão da relação entre Estado e religião. Para ele, a
religião é o empecilho principal que impede os indivíduos de
alcançarem sua emancipação. Enquanto permanecerem religiosos,
os homens serão incapazes de efetivar a sua emancipação. E Bauer
vai além, afirmando que o Estado que conserva a religião em seu
seio não pode ser um Estado livre. Marx esclarece a esse respeito o
pensamento de Bauer:

Principalmente o judeu alemão se defronta, de modo geral, com a


falta de emancipação política e com o pronunciado caráter cristão
do estado. Contudo, nos termos de Bauer, a questão judaica possui
um significado universal, independente das condições
especificamente alemãs. Ela constitui a pergunta pela relação entre
religião e Estado, pela contradição entre o envolvimento religioso e
a emancipação política. A emancipação em relação à religião é
colocada como condição tanto ao judeu que quer ser politicamente
emancipado quanto ao estado que deve emancipar e ser ele próprio
emancipado (MARX, 2010, p. 35. Grifos do autor).

Bauer, portanto, exige, para que se realize a emancipação


política, que o homem renuncie à religião. Só assim ele pode tornar-
se um cidadão. Por sua vez, o Estado precisa abolir a influência
religiosa se quiser ser um estado verdadeiro.
Marx reconhece os avanços da perspectiva da emancipação
política. Ela representa um avanço (a forma final da emancipação

1
O debate com Bauer exposto em Sobre a Questão Judaica será retomado em outros aspectos no 2º e
no 3º capítulos. Aqui nos interessam apenas as considerações de Marx sobre a relação entre Estado e
religião no sentido da realização da emancipação política moderna como expressão do movimento de
secularização.
Renato Almeida de Oliveira | 257

humana na sociedade moderna) por meio da transformação do


Estado religioso em Estado político, negando as formas escravista e
feudal de exploração e desigualdade. No entanto, Marx estava ciente
que em diversos Estados modernos a emancipação política havia
sido realizada sem que os indivíduos tivessem que abandonar suas
religiões, como no caso dos Estados da América do Norte. Para
alcançarmos a integral liberdade humana, é preciso dar um passo
atrás e polemizar não apenas a relação entre Estado e religião, mas
a relação da religião com a vida secular dos indivíduos na sociedade.
Aqui Marx dá uma guinada na questão da secularização. É preciso
analisar as condições da sociedade secular para entendermos a
religião e o seu vigor.

Em consequência, explicamos o envolvimento religioso dos


cidadãos livres a partir do seu envolvimento secular. Não
afirmamos que eles devam primeiro suprimir sua limitação
religiosa para depois suprimir suas limitações seculares.
Afirmamos, isto sim, que eles suprimem sua limitação religiosa no
momento em que suprimem suas barreiras seculares (MARX,
2010, p. 38).

Marx, portanto, abre uma nova perspectiva para pensarmos


o processo de secularização. Ao introduzir a ideia de emancipação
humana, ele lança as bases para pensarmos a realização da
verdadeira e integral libertação do homem. É importante destacar
que essa superação do sentido da emancipação política não
representa, para Marx, uma negação das suas conquistas, mas uma
“radicalização” do processo emancipatório moderno. Marx entende
que as conquistas da modernidade, da emancipação política, não
encontram condições reais, materiais, sociais, favoráveis à sua
efetivação. Assim, o homem politicamente emancipado o é apenas
num plano abstrato, nas condições fictícias, ilusórias, do estado
burguês. A busca pela emancipação humana representaria a
constituição das condições para a realização integral do homem
mediante a abolição da dicotomia entre o homem real e o cidadão
258 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

abstrato, é o retorno do homem a si mesmo, “a redução do mundo


humano e suas relações ao próprio homem” (MARX, 2010, p. 54.
Grifos do autor). Nesse sentido, podemos afirmar, do ponto de vista
da emancipação humana, que esta representa a autêntica realização
da secularização, pois representa, efetivamente, o retorno do
homem a si, sua autodeterminação, através da superação das
condições políticas (o Estado religioso e absoluto) e sociais que
impediam tal realização.

5.2. Estranhamento e Crítica à Moral Religiosa.

O problema humano do estranhamento se põe como questão


primordial a ser discutida e Marx dá cabo a essa discussão em suas
obras. É a forma mercantil, burguesa, de existência que caracteriza
o estranhamento humano, tanto na consciência quanto no mundo
material. No estranhamento os objetos se sobrepõem aos homens,
tornando-se superiores a ele. Ou seja, a coisa inanimada, produto do
trabalho humano, das relações humanas, constitui um poder
objetivo. É o inumano determinando o humano, na medida em que
o homem não consegue dominar o produto social do seu trabalho e
das suas relações em geral.
Essa condição humana, em sua estrutura fundamental, não se
manifesta aos indivíduos de modo imediato. Por isso que, a
imediaticidade empírica pode nos levar, muitas vezes, a certas
confusões, limitações teóricas, conceituais, ao analisarmos um
determinado objeto ou fenômeno. Sob esse ponto de vista, as
condições parecem se naturalizar e os homens passam a se
relacionar, a vivenciar a realidade fenomênica com certa
familiaridade, sem se questionarem sobre as causas, as condições,
os elementos, que estão imbricados nessa realidade. No caso da
religião, o que ocorre é que o fenômeno religioso passa a povoar o
cotidiano das pessoas, penetrando nas consciências dos indivíduos,
naturalizando-se e dominando-os.
Renato Almeida de Oliveira | 259

Ao contrário dessa abordagem, descemos às condições


estruturais do mundo social, onde a religião encontra sua base de
sustentação. Essa descida foi possível com a problematização do
estranhamento humano no trabalho e na política. Com a teoria do
estranhamento Marx sintetiza os aspectos econômicos (produção
material, trabalho) e políticos que fazem do homem um ser fora de
si, esvaziado, fragmentado, submisso. Desse modo, o
estranhamento mostra-se como uma categoria histórica que reflete
as relações ideológicas existentes, “relações operantes como poderes
estranhos que, em lugar de serem dominados pelos homens, o
dominam e sufocam em sua humanidade essencial” (ASTRADA,
1968, p. 47).
O estranhamento, por conseguinte, é o momento em que os
produtos da ação humana se tornam alheios, isolados, hostis aos
próprios homens, seus produtores, do mesmo modo em que a
própria atividade figura-se estranha ao trabalhador, isolando-o,
como conseqüência, da natureza a partir da qual produz, e dos
demais homens, com quem se relaciona no ato da produção e
usufruto dos produtos, por isso que o estranhamento aparece como
uma insuficiência no reconhecimento de si mesmo, por parte do ser
humano, e no reconhecimento do ser social. De uma maneira geral,
na tradição marxista, ele refere-se “à não oportunidade do homem
ter acesso aos produtos de sua atividade; ao fato destes produtos
submeterem o próprio ser humano ao seu controle e à
impossibilidade de, em função destes obstáculos, os homens se
reconhecerem mutuamente enquanto produtores da história”
(RANIERI, 2000, p. 5).
O estranhamento impede o homem de compreender o
significado onto-genético de sua própria existência, isto é, a sua
constituição como ato que depende exclusivamente de si, como
auto-constituição. Isso abre espaço para a entrada do elemento
místico, religioso, em sua consciência. Assim, nossa época, marcada
pelo estranhamento, é a época da consciência mítico-religiosa,
mesmo que o homem viva em um mundo secularizado,
260 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

cientificizado, tecnificado. É a consciência própria do mundo


humano fragmentado, dividido. Nesse sentido, o fenômeno religioso
encontra o seu suporte, o essencial da sua força, no mundo social e
político. É a ação dos homens, no modo próprio da existência social,
que a põe em ação.
O estranhamento sócio-político do homem gera, por sua vez,
o estranhamento religioso, que se caracteriza pela mistificação da
existência, fazendo das produções materiais e espirituais dos seres
humanos, uma potência ideológica, uma força independente da vida
social, que exerce domínio sobre os homens. O estranhamento
religioso é, desse modo, a representação, a expressão, do impiedoso
modo desumano ao qual a vida social se resume, a saber, a
expropriação e exploração do trabalho e a sujeição política. Este,
podemos dizer, é o aspecto exterior do estranhamento religioso, que
se exprime numa espécie de legitimação da condição social do
homem, na medida de uma naturalização das relações sociais
postas. Contudo, a mistificação gerada pelo estranhamento religioso
tem um aspecto interior, ela gera uma espécie de submissão
espiritual, uma moralidade, um conformismo, uma aceitação, um
sentimento de impotência, cuja atitude é a resignação e o voltar o
olhar para o “céu” em clamor à Providência à favor dos que sofrem
as agruras mundanas. “A religião não justifica somente a opressão;
também oferece a compensação ideal” (VERRET, 1975, p. 77). Assim,
o homem transfere para uma dimensão espiritual a condição de
superação de sua opressão, substituindo a luta social, pela luta
interior, a revolta, pela aceitação da “vontade divina”, pensando ser
necessária uma transformação de si próprio ao invés de uma
transformação das condições sócio-políticas. A condição humana do
homem se converte numa condição mítico-religiosa, negando,
assim, sua humanidade. As suas ações passam a se justificar pela
ordem e vontade divina. É o que Marx, por exemplo, em A Sagrada
Família, salienta quando analisa o fato da educação da personagem
Renato Almeida de Oliveira | 261

Chourineur e da conversão da personagem Flor de Maria, ambas do


folhetim/romance Les Mystères de Paris (1842)2, de Eugène Sue.
No caso de Chourineur, que, como relata Marx, era
originalmente açougueiro e por diversas fatalidades transformou-se
em um assassino, mas que foi posteriormente educado moralmente
por Rodolfo, outra personagem do romance, que após uma briga
conquista o respeito de Chourineur. Rodolfo reconhece, no entanto,
que Chourineur tinha um coração e honra, sendo possível de ser
moralmente educado. Com a educação dada por Rodolfo,
Chourineur torna-se melhor, convertendo-se em um ente moral.
Marx relata, ainda, que Rodolfo, satisfeito com a moralidade de
Chourineur, “o envia à África, a fim de que sirva de exemplo vivo e
saudável do que é “arrependimento” ao mundo infiel”. E continua
Marx afirmando que a partir de então, Chourineur “já não
representará mais sua própria natureza humana, mas sim um
dogma cristão” (MARX, 2003, p. 188).
A educação moral de Chourineur parecia ter-lhe restituído a
sua humanidade. No entanto, como frisa Marx, essa humanidade
fora substituída pela submissão, pela devoção, cristã à divindade, na
obra de Eugene Sue representada pelo Príncipe Rodolfo. Escreve
Marx:

Chourineur aperfeiçoou sua cultura moral a tal ponto que sua


atitude canina ante Rodolfo se reveste, conscientemente... de uma
forma civilizada. Ele diz a Germain, depois de o ter salvado de um
perigo mortal: Tenho um protetor que é para mim o mesmo que
Deus é para os sacerdotes... a gente tem de se prostrar de joelhos
diante dele. E em pensamentos ele se prostra de joelhos diante de
seu Deus. O senhor Rodolfo [prossegue ele, dirigindo-se a
Germain] vos protege. Eu digo senhor, mas deveria dizer
magnânimo senhor. Em todo caso tenho o hábito de chamá-lo de
senhor Rodolfo e ele permite que eu assim o faça...

2
Folhetim de autoria de Eugene Sue e publicado entre os anos de 1842 e 1844 nos jornais de Paris e
que tinha um enorme público de leitores e admiradores. Les Mystères de Paris foi analisado por Marx
em sua obra A Sagrada Família (1844) sob o ponto de vista da moral burguesa-cristã que dominava o
ambiente social parisiense.
262 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Chourineur termina com dignidade sua carreira de puro


dévouement, de buldoguismo moral, deixando-se esfaquear em
defesa de seu magnânimo senhor ao fim. No preciso instante em
que o Esqueleto ameaça o príncipe com seu punhal, Chourineur
detém o braço do assassino. Esqueleto o atravessa de um só golpe.
Chourineur, já moribundo, ainda diz a Rodolfo: Eu tinha razão em
dizer que um pedaço de terra [um buldogue] como eu poderia ser
útil, por vezes, a um grande e magnânimo senhor como vós. A essa
manifestação canina, que resume em um epigrama toda a carreira
vital de um Chourineur, ele acrescenta o bilhete posto em sua boca:
Nós estamos quites, senhor Rodolfo. Vós dissestes que eu tinha
coração e honra (MARX, 2003, p. 188).

Fica claro como Marx observa que a moral cristã, o


pensamento religioso, submete o homem à divindade (ou à ideia de
divindade), fazendo-o dócio ante o mundo, um exemplo de
comportamento correto, pois justifica, não questiona, as condições
da sua vida material.
Quanto à conversão de Flor de Maria, prostituta que será
levanda à “redenção” pela aceitação da vontade divina. Marx mostra
que, na medida em que aceita a vida cristã, Flor de Maria nega sua
condição humana e se rende à consciência do pecado, ou seja, da
inferioridade ante à divindade.
Quando Marx relata a vida de Flor de Maria, seguindo o
roteiro de Eugene Sue, em uma taverna entre criminosos que a
tomavam na condição de moça-dama e serva da patroa da taverna,
ele destaca o caráter da nobreza e da beleza humana que aflorava
dos atos da personagem. “Em toda sua terna delicadeza, Fleur de
Marie não demora a dar provas de valor, energia, otimismo e caráter
flexível, qualidades que apenas podem ser explicadas pelo
desdobramento de sua natureza humana dentro de uma situação
desumanizada” (MARX, 2003, p. 191).
Contudo, sua condição de vida degradante, desumanizada,
será justificada pela presença do elemento religioso, quando na obra
de Sue, Flor de Maria conhece o padre Laporte. Expõe Marx (2003,
p. 194):
Renato Almeida de Oliveira | 263

O padre Laporte não perde tempo e logo se coloca em uma postura


sobrenatural. Suas primeiras palavras são as seguintes: A
misericórdia de Deus é inesgotável, minha querida filha! Ele a
demonstrou para contigo ao não te abandonar em meio a
provações das mais dolorosas... O homem generoso que te salvou
pôs em prática essas palavras da Escritura: [percebamos bem: as
palavras da Escritura, não um objetivo humano!] o Senhor está
sempre perto daqueles que o invocam; ele haverá de realizar os
desejos daqueles que o invocam; ele haverá de escutar seus gritos
e os salvará... o Senhor haverá de completar sua obra.

Ironicamente Marx salienta que o sermão do padre tinha um


“teor maligno” para Flor de Maria, mas que a moça não havia
compreendido tal teor. Maligno porque tirava da personagem o
caráter humano do seu comportamento e do seu pensamento e dava
um sentido religioso a tudo, até mesmo na admiração que Flor de
Maria tinha pela natureza: “O padre já logrou transformar a alegria
imediatamente ingênua de Marie, sugerida pelas belezas da
natureza, em uma admiração religiosa. A natureza já se
transformou, para ela, em objeto de devoção, em uma natureza
cristianizada, rebaixada à criação” (MARX, 2003, p. 195).
Portanto, a influência que a religião passa a exercer sobre a
personagem de Flor de Maria na obra Les Mystères de Paris
expressa, na perspectiva marxiana, o estranhamento religioso, que
separa o sagrado, o divino, do humano, sobrepondo aquele com
relação a este. É a ideia que, por exemplo, Feuerbach tem da
alienação religiosa. Porém, é interessante frisar que esse
estranhamento religioso, em Marx, não ocorre desvinculado do
estranhamento sócio-político. A “conversão” da personagem fora
motivada pelo incômodo que sua vida “pecaminosa”, inumana,
causava em si. Porém, salienta Marx no seu comentário à obra de
Eugene Sue, o pensamento religioso mistifica a vida humana,
impedindo os indivíduos de enxergarem como a religião ganha vigor
com as agruras da vida humana:
264 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Na indulgência que recebe, Marie não deve ver a atitude natural e


evidente em si mesma, de um outro ser humano aparentado dela,
mas sim uma caridade e uma condescendência derramadas do alto,
sobre-humanas, sobrenaturais; ela deve ver na transigência humana
a caridade divina. Deve elevar transcendentalmente todas as relações
humanas e naturais a relações com Deus (MARX, 2003, p. 196).

A análise da conversão de Flor de Maria revela uma forte


crítica de Marx à moral religiosa como forma de estranhamento
humano e reflete como ele entende que a liberdade humana deve
ocorre por um enfrentamento das condições materiais do
estranhamento e por uma ação autônoma dos indivíduos, e não por
uma dádiva divina. No momento em que Flor de Maria se converte
ao cristianismo, ela torna-se serva da consciência do pecado,
estranha de si sua condição humana, o que, em Marx, terá como
consequência uma agudização do seu estranhamento secular.

A partir desse momento, Maria se converte na serva da consciência


do pecado. Enquanto na situação mais desditosa ela soube fazer de
si uma individualidade humana amável e conservar seu ser
humano, seu verdadeiro ser, em meio à humilhação extrema,
agora a sujeira da sociedade com a qual entrou em contato
exteriormente se converte em seu ser mais íntimo e considera o
ato de atormentar-se a si mesma, em todas as horas e de uma
maneira hipocondríaca, com essa sujeira, como um dever, como a
missão de sua vida, que o próprio Deus traçou para ela, como o fim
em si de sua existência (MARX, 2003, p. 197-198).

Podemos afirmar que, com o estranhamento religioso, ocorre


uma espécie de ciclo de estranhamentos. Por um lado, o
estranhamento religioso é forjado pelo estranhamento sócio-político;
por outro lado, na medida em que o homem transfere para uma
dimensão espiritual, religiosa, a condição da sua existência, aceitando
a “vontade divina” como motor da sua vida, esse estranhamento
religioso passa, por seu turno, a fomentar o estranhamento sócio-
político. O ser humano, desse modo, encontra-se preso dentro desse
Renato Almeida de Oliveira | 265

ciclo fazendo com que a realidade figure para ele como algo
cristalizado, intransponível, tendo apenas que se acomodar ala.
A análise que Marx empreende sobre o estranhamento lhe
permite entrever como o mundo material exerce um domínio, quase
místico (ou mesmo místico, em alguns casos) sobre os homens. Ao
invés de dominar livremente o mundo, de exercer sua autonomia, o
homem encontra-se submetido à realidade material e às leis abstratas.
O estranhamento, nesse sentido, concretiza uma inversão de domínios.
As representações, enquanto projeções do mundo externo, portanto,
como reflexo da realidade material humana, se convertem em formas
ideológicas que dominam o seu criador, o homem. A religião é uma
dessas formas ideológicas, produto da ação humana no mundo
estranhado. Por isso, é importante compreendermos e desvelar como
ocorre o estranhamento da vida humana, pois entendemos que o
estranhamento humano ocorre, para Marx, como foi destacado, em
duas vertentes: a social e a política. Essas duas formas de
estranhamento podem ser consideradas como os determinantes
histórico-genéticos das demais formas de estranhamento. Nesse
sentido, descemos à estrutura básica da sociedade burguesa, revelamos
o seu segredo “místico”, o qual é também o segredo do vigor e da
persistência da religião em nossa sociedade, haja vista a fé religiosa
nascer da impotência humana ante o mundo estranhado, do mesmo
modo que a crença dos homens primitivos nos deuses nasceu da sua
impotência frente ao mundo natural. Por isso afirmamos que o homem
contemporâneo aflorou um sentimento de medo, de desamparo, de
incompreensão da sua situação no mundo, que fomentam seus
sentimentos religiosos, sentimentos esses que, em uma espécie de
contra senso, representam um desejo de superação do mundo
estranhado, pois as religiões, na imagem de Deus, procuram dar ao
homem a sensação de uma reconciliação consigo mesmo, tendo em
vista que seu mundo material o dilacera.
A afirmação de Marx que “a religião é o grito da criatura
oprimida” e a “alma de um mundo sem alma”, ganha corpo com a
tematização do estranhamento. Quando Marx escreveu essas
266 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

palavras, estava em meio a um embate teórico com a filosofia alemã,


notadamente com o pensamento de Hegel e dos neohegelianos. Uma
adequada abordagem do tema da religião, de um ponto de vista
marxiano, deve levar em consideração o estranhamento humano
que se consolidou na sociedade moderna. Por isso que, tendo a ideia
de estranhamento como ponto arquimédico.
Na medida em que o homem se aliena, se objetiva, em formas
exteriores mediante seu trabalho, ele cria uma realidade humanizada
da qual pode se apropriar. Este é o curso normal do processo de
autoconstituição humana. Todavia, entre o ato de se objetivar e o ato
de se apropriar, algo se interpôs. Para Marx, o que se interpõe nesse
processo genuinamente humano, é a ordem organizativa da produção
material, ou seja, as condições nas quais o produtor encontra-se no
conjunto das relações da produção mercantil burguesa. A
compreensão, por parte de Marx, dessa interposição, leva-o a ter uma
posição mais realista, mais efetiva, do “mundo do homem”, em
comparação com Feuerbach, por exemplo, para quem esse “mundo do
homem” se restringe à relação entre o Eu e o Tu que traz ao homem a
sua consciência genérica. Contudo, essa consciência ainda carece de
uma base concreta para além da objetividade natural. Essa base
concreta Marx a encontra no âmbito da produção e reprodução
material dos homens na história. O estranhamento humano deve ser
analisado nesse âmbito, daí Marx se debruçar sobre o pensamento da
Economia Política, pois nela ele encontra a base real de explicação da
história humana e suas dimensões.
Qual a posição do homem como produtor do mundo material
nas relações de produção mercantil? A resposta a essa questão
conduziu Marx à formulação de sua teoria do estranhamento. O
mundo da produção, ou seja, do trabalho humano, na ordem social
burguesa, reduz o trabalhador a uma mera mercadoria, a mais vil
das mercadorias, que precisa ser consumida, apropriada, por um
estranho como condição de sobrevivência daquele que é possuidor
unicamente da sua força de trabalho. Nessa condição, quando mais
riqueza produz, quanto mais de si põe nos objetos, mais pobre, mais
Renato Almeida de Oliveira | 267

submisso encontra-se o trabalhador. E o mundo por ele criado, a


riqueza material, não lhe pertence. A realidade figura-lhe como uma
realidade estranha, autônoma, a ele. Assim,

O que surge imediatamente é que diferentemente de Feuerbach,


para quem o problema da alienação se identifica com o problema
da consciência religiosa, Marx já não toma por centro da sua
reflexão a consciência alienada [estranhada], mas o trabalho
alienado [estranhado], de modo que o terreno para onde a crítica
é levada já não é o da religião, mas o da economia política... (SÈVE,
1975, p. 18).

A problematização do estranhamento humano no trabalho


permitiu a Marx compreender que sobre as condições do trabalho na
sociedade burguesa se assentam as diversas formas de
estranhamento, dentre elas, as formas das relações políticas, tendo em
vista que no mundo efetivo, o estranhamento se manifesta na relação
prática entre os homens. O mundo da sociedade civil, onde os
indivíduos estranhados se relacionam, aparece como o mundo do
conflito, da disputa generalizada, da desigualdade estrutural. O Estado
que se erige dessa sociedade cumpre o papel de legitimador desse
status social, essa situação generalizada de conflito entre interesses
egoístas. Essa legitimação ele a faz na forma jurídica dos direitos
humanos, os quais põem os indivíduos na esfera estatal onde se vêem
como cidadãos, porém, uma cidadania apenas formal, enquanto na
vida efetiva esses mesmos indivíduos se determinam como bourgeois.
O estranhamento político traz, nesse sentido, a mesma
característica do estranhamento religioso, qual seja, a dualidade da
existência humana, o desdobramento da vida humana em duas
facetas, entre a sua vida entregue ao jogo das relações mercantis na
sociedade civil e a sua vida ilusória como um cidadão abstrato no
seio de uma comunidade fictícia. Assim, a laicização da vida do
homem moderno não significou sua plena secularização. Como diz
Marx, “o espírito religioso não pode ser secularizado realmente, pois
o que é ele próprio senão a forma não secular de um estágio do
268 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

desenvolvimento do espírito humano?” (MARX, 2010, p. 45). Não


houve, portanto, uma total e completa abolição do espírito religioso.
Ao contrário, o que se pode observar, na verdade, é uma realização
desse espírito, na medida em que os padrões, as práticas, do modo
de vida religioso, se efetivarem no cotidiano laico dos indivíduos. A
emancipação do homem moderno significou, em última análise, a
sacralização da sua vida, isto é, “ele pode abstrair-se da religião,
porque nele o fundo humano da religião se realizou de modo
profano” (GARAUDY, 1962, p. 116).
O estranhamento, portanto, é a chave de leitura que permite
a Marx pensar as duas dimensões fundamentais da vida humana,
entre elas a religião e sua moralidade. A ideia de estranhamento
consente que Marx volte ao tema da religião, problematizando a
perda de si do homem e a consequente inversão entre o humano e
o divino, porém, com uma reflexão assentada em elementos
concretos. Do que se remata que a religião, em última análise, não
passa de um produto da relação entre os homens. Porém, ela só pode
ser fruto dessas relações porque as mesmas são estranhadas e esse
estranhamento constitui o seu processo de formação. Ou seja, a
religião é o reflexo de um mundo absurdo.
Tendo visto que a religião representa o sintoma de uma
insuficiência secular, uma sociedade que conserva em seu seio a
religião, mesmo que na esfera privada dos indivíduos, conserva,
assim, o estranhamento. A existência da religião na sociedade nada
mais representa do que a evidência da dualidade contraditória, do
esvaziamento, da perda de sentido, que caracteriza a vida do homem
no mundo burguês. Contudo, é importante destacar, o sistema do
capital convive em perfeita harmonia com a religião, especialmente
com as de cunho intimista, como as que ganham destaque hoje
(Nova Era, Renovação Carismática Católica, entre outras). E mais
ainda, convive perfeitamente com aquelas formadas no seio do
neopentecostalismo, que procuram se adequar à lógica
mercadológica, empresarial, lucrativa, do sistema. Como romper
com essa lógica? Como fazer o homem retornar a si? Como realizar
Renato Almeida de Oliveira | 269

a verdadeira emancipação humana? Essas são questões


fundamentais no contexto da problemática contemporânea sobre o
fenômeno religioso. Não apenas porque a religião fomenta, legitima,
justifica, em muitos aspectos, a lógica do sistema, mas porque a sua
existência reflete um caráter desumano da sociedade. A relação
entre trabalho, política e religião cria uma espécie de ciclo de
estranhamento, no qual o estranhamento no trabalho e na política
são as raízes da religião, porém esta, impregna a vida humana,
legitimando, justificando, as formas profanas de estranhamento,
fazendo com que os indivíduos tenham uma vida religiosa mesmo
vivendo em um mundo secularizado. Nesse mundo, o homem foi
corrompido, foi perdido de si mesmo, foi colocado sob
condicionamentos desumanos, o que equivale a dizer que o ser
humano está longe de viver em plena liberdade, igualdade,
dignidade, enfim, como um verdadeiro ser genérico, autônomo. Ele
está submisso aos valores, aos princípios da moral religiosa, que o
torna escravo de um mundo místico que nada mais faz que o
subjugar. O mundo por ele criado, produzido, surge-lhe não apenas
como uma entidade exterior, mas como entidade que se põe diante
dele como ameaça à sua existência, como opressão ou como simples
ato de objetividade que se lhe opõe como ser hostil.
É nesse sentido que criticamos a religião e sua moralidade. O
seu modo de existência hoje, suas preleções, suas crenças e dogmas,
seus princípios e valores, ou seja, todo o conjunto de suas atuais
determinações precisam ser postos em questão, se quisermos
manter, de uma forma profícua, as conquistas da secularização, ou
melhor, se pretendermos realizar, efetivamente e de modo radical,
as promissões da era secular, pois a existência da religião, ou do
espírito religioso, demonstra que o homem ainda não atingiu sua
verdadeira existência.
Capítulo 6

Objetividade humana em Marx

Renato Almeida de Oliveira

6.1. A Objetividade Humana em Marx.

Não há dúvidas de que o homem é um ser objetivo. A


objetividade é a determinação que o torna um ser de carências,
impulsos, necessidades, paixões e que o situa num contexto natural
e social determinado. Tal categoria não diz respeito ao homem como
mera autoconsciência ou puro cogito, mas como ser concreto.
Conforme Lima Vaz, é a objetividade que permite ao homem fazer a
experiência da sua situação de finitude na realidade concreta. (LIMA
VAZ, 1992, p. 9).
No tocante a essa categoria, podemos considerar o homem em
duas dimensões específicas:

1) Físico-biológica: é a dimensão das funções apetitivas, das tendências,


dos desejos e impulsos. É o homem como pura corporalidade;
2) Sócio-cultural ou intencional: é a dimensão do homem situado numa
particularidade histórica, com base na qual produz sua própria
existência mediante o trabalho, na relação com os demais indivíduos.

Ambas as dimensões constituem o que Marx denomina de


objetividade humana. Para ele, o homem é um ser de carências,
desejos, necessidades, as quais o movem em direção à sua auto-
realização, que é atingida mediante o trabalho, possibilitando-lhe,
além da satisfação das necessidades, um desenvolvimento individual
272 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

e social. Contudo, para alcançarmos o que Marx compreende pela


categoria objetividade, devemos ter em mente a influência que
determinou a formulação dessa categoria em sua filosofia. Tal
influência foi o materialismo antropológico de Ludwig Feuerbach.
Para Feuerbach, o homem é essencialmente sensibilidade
(Sinnlichkeit). Desde sua crítica religiosa, ele desenvolve uma
concepção antropológica, cujo cerne encontra-se na obra A Essência
do Cristianismo (1841) e é desenvolvido posteriormente em suas
obras de maturidade. Em A Essência do Cristianismo, Feuerbach
desvela a verdadeira essência de Deus. Este nada mais é do que a
essência humana elevada ao universal, alienada em um ser
fantástico, sobre-humano. Tal pensamento pode ser resumido no
seguinte parágrafo do capítulo 2, intitulado A essência da religião em
geral, da referida obra de 1841:

E aqui vale sem qualquer restrição o princípio: o objeto do homem


nada mais é que a sua própria essência objetivada. Como o homem
pensar, como for intencionado, assim é o seu Deus: quanto valor
tem o homem, tanto valor e não mais tem o seu Deus. A consciência
de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo, o
conhecimento de Deus o conhecimento que o homem tem de si
mesmo. Pelo Deus conheces o homem e vice-versa pelo homem
conheces o seu Deus; ambos são a mesma coisa. O que é Deus para
o homem é o seu espírito, sua alma, seu coração, isto é também o
seu Deus: Deus é a intimidade revelada, o pronunciamento do Eu
do homem; a religião é uma revelação solene das preciosidades
ocultas do homem, a confissão dos seus mais íntimos
pensamentos, a manifestação pública dos seus segredos de amor.
(FEUERBACH, 1997, p. 55-56).

Anos depois, em 1846, em A Essência da Religião e entre os


anos de 1848-49 em suas Preleções sobre a Essência da Religião,
ministradas a convite de alguns estudantes da Universidade de
Heidelberg, Feuerbach revisa A Essência do Cristianismo, pois
percebe na mesma um sério limite, uma falha; nesta obra,
Feuerbach não considera devidamente a natureza e dá um excessivo
Renato Almeida de Oliveira | 273

tratamento à essência do homem. Consoante ele, essa falha deu


margem a diversos mal-entendidos. O principal deles foi ter julgado
que a essência humana surgisse do nada, sem nada pressupor à sua
existência. Feuerbach reconhece nessas obras posteriores “que o
homem não se faz por si mesmo, que ele é um ser dependente,
surgido, logo tendo fora de si o fundamento de sua existência.”
(FEUERBACH, 1989, p. 26). Qual é o fundamento que a existência
humana pressupõe? A resposta é “a natureza”, com a qual ele deve
relacionar-se, necessariamente, e fora da qual não podem ser
pensadas a sua existência e a sua essência.
Com essas formulações, Feuerbach delineia uma filosofia
rigorosamente materialista do homem. Este constitui-se na relação
com o mundo objetivo, porque ele é um ser objetivo. Marx
reconhece o mérito da filosofia feuerbachiana, principalmente
porque rompe com a tradição filosófica idealista do seu tempo1 e
assume, em partes, os elementos do materialismo de Feuerbach na
formulação do seu conceito de objetividade humana.
Em Marx, a determinação objetiva do homem se expressa:

1) nas forças naturais, objetivas, forças vitais: tais forças são as pulsões,
as possibilidades e capacidades que o homem possui para superar
qualquer determinidade;
2) no sofrimento, na dependência, na limitação diante da realidade. Isso
porque os objetos do seu desejo, os objetos essenciais que confirmam
sua existência lhes são exteriores.

Nesse sentido, Marx afirma:

Que o homem é um ser corpóreo, dotado de forças naturais, vivo,


efetivo, objetivo, sensível significa que ele tem objetos efetivos,
sensíveis como objeto de seu ser, de sua manifestação de vida
(Lebensäusserung), ou que ele pode somente manifestar (äussern)
sua vida em objetos sensíveis efetivos (wirkliche sinnliche

1
“Feuerbach é o único que tem para com a dialética hegeliana um comportamento sério, crítico, e [o
único] que fez verdadeiras descobertas nesse domínio, [ele é] em geral o verdadeiro triunfador
(Überwinder) da velha filosofia.” Cf. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Op. cit. p. 117.
274 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Gegenstände). É idêntico: ser (Sein) objetivo, natural, sensível e ao


mesmo tempo ter fora de si objeto, natureza, sentido, ou ser objeto
mesmo, natureza, sentido para um terceiro. (2004, p. 127).

A fome é um bom exemplo que revela a objetividade humana.


Ela é uma carência que o homem possui naturalmente e que para
ser satisfeita necessita de um objeto fora de si. Do mesmo modo que
a planta (um ser natural objetivo) necessita do sol para manter sua
existência, e assim torna-o um objeto para si e torna-se um objeto
para ele, confirmando sua força essencial de vida, “a fome é uma
carência confessada de meu corpo por um objeto existente
(seienden) fora dele, indispensável à sua integração e externação
essencial.” (MARX, 2004, p. 127).
Ser objetivo, portanto, é possuir fora de si os objetos
essenciais da existência, e por serem exteriores, são objetos do
desejo. Nesse sentido, o homem faz parte da essência da natureza e
como tal é um ser natural. Ao contrário, todo ser que não possui um
objeto fora de si, do qual dependa sua existência, não é um ser
objetivo e, consoante Marx, um ser não-objetivo é um não-ser, pois,
sendo assim, tal ser seria um ser único, vivendo isolado e solitário.
Mas não existe tal ser, porque a partir do momento que algo existe,
ele existe somente enquanto ser-para-outro, ou seja, existe como
outra efetividade que não o objeto exterior. Marx explica:

Um ser que não é objeto de outro ser, supõe, pois, que não existe
nenhum ser objetivo. Tão logo eu tenho um objeto, este objeto tem
a mim como objeto. Mas um ser não objetivo é um ser não efetivo,
não sensível, apenas pensado, isto é, apenas imaginado, um ser da
abstração. (MARX, 2004, p. 128).

Marx rompe, desse modo, com a antropologia hegeliana, para


a qual a verdadeira essência humana é o espírito (Geist); toda a
realidade humana nada mais é do que a objetivação do espírito e,
portanto, o homem é um ser do pensamento. O fato que revela a
essencialidade humana no espírito é a consciência-de-si. Quer dizer
que, em Hegel, tudo é manifestação do espírito. Por exemplo,
Renato Almeida de Oliveira | 275

segundo Marx, Hegel concebe a riqueza e o poder do Estado como


meras formas do pensamento, como estranhamento do pensar
puro, especulativo. (MARX, 2004, p. 121). Porém, a filosofia
hegeliana tem seus méritos e é sobre o aspecto positivo dessa
filosofia que Marx expõe sua crítica ao materialismo contemplativo
de Feuerbach.
O mérito da filosofia hegeliana, como exposta na
Fenomenologia do Espírito (1807) e nas obras posteriores, foi ter
concebido o aspecto positivo do trabalho a partir da dialética da
negatividade enquanto princípio motor e gerador da totalidade do
real. Para Hegel, como expomos anteriormente, a existência
humana não é um mero estar-aí, mas um processo que se realiza
mediante a objetivação da essência do homem. Nessa orientação, o
homem é resultado de seu próprio trabalho.2 Aqui Marx introduz no
seu conceito de objetividade humana um elemento novo. O homem
é um ser objetivo, porém um ser objetivo humano, ou seja, ele não é
um mero contemplador do mundo, um mero ser-aí natural, mas age
sobre este mundo, modifica-o, constrói novas realidades, produz
cultura, engendra relações, cria a realidade sócio-histórica. Quer
dizer que

o homem não é apenas um ser natural, mas um ser natural


humano, isto é, ser existente para si mesmo (für sich selbst

2
“Para Hegel, o trabalho é um vínculo, uma relação, e, sob esse aspecto, seu lugar no ser espiritual
que é o homem é a ‘consciência’. Pois esta é a relação vivida, presente enquanto tal, do sujeito com o
objeto que o nega, que o irrita e, desse modo, o mobiliza. Relação prática, ativa, o trabalho é então, já
que toda atividade é negatividade, uma negação dele mesmo, da diferença, nele, do sujeito e do objeto,
pelo momento imediatamente atuante que comporta, momento do sujeito ávido de restabelecer em
seu seio a identidade a si constitutiva do espírito, isto é, de suprimir a relação consciencial da qual é o
portador. Mas, como o trabalho é a negação, pelo sujeito, de um objeto que não lhe é indiferente [...],
um tal ser do objeto negado, que é em si o próprio ser do sujeito que nega ou que age, tem
necessariamente por sentido reagir a este, resistir-lhe; o trabalho é exatamente um agir refreado. No
entanto, o objeto que constitui assim um obstáculo, uma objeção ao sujeito que trabalha, este objeto
é, sempre por seu sentido, afirmado por ele como seu Outro, portanto em si submetido a esse sujeito
que o afirma, e assim cabe-lhe exprimir tal sujeito em sua própria objetividade; no objeto que ele
trabalha e que é sua objetivação, o sujeito tende essencialmente a objetivar-se como sujeito.” Cf.
BOURGEOIS, Bernard. Hegel: os atos do espírito. Tradução de Paulo Neves. São Leopoldo- RS: Editora
Unisinos, 2004. (Coleção Idéias, v. 14). p. 77.
276 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

seiendes Wesen), por isso, ser genérico, que, enquanto tal, tem de
atuar e confirmar-se tanto em seu ser quanto em seu saber.
Conseqüentemente, nem os objetos humanos são objetos naturais
assim como estes se oferecem imediatamente, nem o sentido
humano, tal como é imediata e objetivamente, é sensibilidade
humana, objetividade humana. A natureza não está, nem objetiva
nem subjetivamente, imediatamente disponível ao ser humano de
modo adequado. (MARX, 2004, p.128).

Dois elementos dessa passagem requerem algumas


considerações e revelam a centralidade do trabalho na existência
objetiva humana. O primeiro é o fato de o homem “ter de atuar e
confirmar-se.” Esse fato revela o caráter processual de sua
existência, o seu fazer-se essencial. Pelo trabalho, o homem vai além
da mera naturalidade do seu existir; ele transforma o mundo físico
que o circunda e transforma-se, criando sempre um novo homem,
distinto do que era antes. Isso revela a sua abertura fundamental ao
novo, ao diferente, à sua autogênese. O segundo é o fato de a
natureza não estar disponível de modo adequado ao homem. Para
satisfazer suas carências, ele tem que modificá-la e adequá-la às suas
necessidades imediatas, o que ocorre por meio do trabalho. É no ato
do trabalho, portanto, que o homem humaniza a natureza e cria uma
realidade para si, sua própria história.
Nesse aspecto, Marx vai além das considerações de Feuerbach
no tocante à objetividade humana. Sua crítica ao materialismo
antropológico feuerbachiano, exposta nas 11 Teses sobre Feuerbach
(1845) e em A Ideologia Alemã (1845-46) traz à tona a lacuna desse
materialismo, que foi ter considerado o objeto, a realidade (e
podemos incluir o homem) como pura contemplação, isto é, como
intuição. (MARX, 2007, p. 533). Nesse sentido, o homem surge como
ser passivo diante do mundo. Nessa ótica, o materialismo
feuerbachiano desconsidera o aspecto ativo da existência humana,
ou seja, a atividade humana sensível. Tal postura, em não conceber
o sensível como atividade, o máximo a que se chega é à
“contemplação dos indivíduos singulares e da sociedade burguesa.”
Renato Almeida de Oliveira | 277

(MARX, 2007, p. 535) Portanto, o homem, embora sendo objetivo,


não é um ser submetido ao joguete das forças naturais. Esse foi o
erro do materialismo grotesco, o que resulta num falseamento da
realidade social.
Destaco que o homem, para Marx, não é um ser passivo, mas,
ao contrário, ser ativo, prático, e sua atividade essencial é o trabalho
(atividade humana sensível). Contudo, essa atividade deve ser
compreendida como práxis, ou seja, como uma totalidade que
envolve os vários momentos da existência, e não apenas a prática
utilitária, o produzir algo. É nesse sentido que a atividade humana
distingue-se da atividade meramente animal. A resposta do homem
às suas carências é qualitativamente mais desenvolvida do que a do
animal. Por isso que o homem é capaz de criar, além dos objetos,
novas necessidades, tornando a sua existência cada vez mais
evoluída. Nessa perspectiva, Marx supera a unilateralidade tanto do
materialismo quanto do idealismo. O primeiro afirma que o homem
é um ser diretamente ligado à natureza, preso às determinações
desta; o segundo atribui à razão autonomia absoluta ante a
objetividade humana, dando primazia ao espírito.3

6.1.1. Necessidades e Capitalismo: o Estranhamento da


Objetividade Humana

Expus acima que a categoria da objetividade humana está


relacionada ao conceito de sensibilidade, às carências individuais.
São essas carências que impulsionam o homem à realização de sua
atividade vital. Contudo, na ordem social burguesa, os desejos
humanos tornam-se apetites patológicos; suas verdadeiras
necessidades deixam de figurar-lhes como essenciais, enquanto as
3
“Enquanto o idealismo isolava os significados da realidade material, e os transformava em realidade
autônoma, do outro lado o positivismo materialista despojava a realidade de significados. Com isto se
levou a termo a obra de mistificação, pois a realidade podia ser considerada tanto mais real quanto
mais perfeitamente dela fossem eliminados o homem e os significados humanos.” Cf. KOSIK, Karel.
Dialética do concreto. Tradução de Célia Neves e Alderico Toríbio. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
1976. p. 242.
278 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

falsas carências, forjadas pelo sistema, aparecem-lhes como


primordiais. Marx afirma que

luz, ar etc., a mais elementar limpeza animal cessam de ser, para o


homem, uma carência. A imundície, esta corrupção, o
apodrecimento do homem, o fluxo de esgoto (isto compreendido à
risca) da civilização torna-se para ele um elemento vital. (MARX,
2004, p. 140).

Nesta condição, o homem embrutece seus sentidos, o gosto, o


sentimento estético, os valores morais, em suma, toda a
sensibilidade essencialmente humana, interessando-lhe unicamente
a posse imediata dos objetos. As necessidades humanas, portanto,
são reduzidas a necessidades animais, imediatas, carências forjadas,
com a única finalidade de auto-reprodução do capital. No
capitalismo “cada homem especula sobre como criar no outro uma
nova carência, a fim de forçá-lo a um novo sacrifício, colocá-lo em
nova sujeição e induzi-lo a um novo modo de fruição e, por isso, de
ruína econômica.” (MARX, 2004, p. 139). O único interesse que faz
um homem relacionar-se com outro é o interesse do lucro, do roubo
e da satisfação do seu próprio egoísmo. É com esse intuito que o
burguês recorre às carências não-naturais, forja falsas necessidades,
artificiais.4 Cada produto novo surge como um novo meio de engano
e exploração. Tudo isso, porém, é encoberto por um falso discurso
da liberdade e igualdade. Ser livre significa poder ter acesso ao
máximo de mercadorias e todos têm as mesmas oportunidades
desse acesso; ser homem é sinônimo de ser consumidor. Consumo,
eis o sentido da vida para o capital; um consumo desenfreado, a
posse medida pelo estranhamento dos sentidos, motivada pelo
interesse do ter. O burguês surge, portanto, como

4
Destaco aqui o modo crítico como Marx aborda a questão do homem. Enquanto a Antropologia
tradicional, comumente, trabalha sempre de modo positivo as necessidades humanas e admite uma
essência fixa no indivíduo, Marx considera o homem imerso no conjunto das relações sociais, nos
conflitos, portanto, nas relações históricas, mediante as quais sua essência molda-se constantemente.
Portanto, não apenas o aspecto positivo das carências humanas é considerado por Marx, mas o modo
estranhado como essas carências se manifestam no capitalismo.
Renato Almeida de Oliveira | 279

a figura efetiva de Mefistófeles5, que encanta com uma falsa


beleza e proporciona prazer em troca da “alma”, do trabalhador.6
Desse modo,

não há eunuco que adule mais infamemente o seu déspota e


procure exasperar por nenhum meio mais infame a sua embotada
aptidão para o prazer (Genussfähigkeit), de forma a obter
ilicitamente um favor, do que o eunuco da indústria, o produtor,
para captar fraudulentamente para si centavos em prata, atrair
para fora dos bolsos do vizinho cristãmente amado os pássaros de
ouro (cada produto é uma isca com a qual se quer atrair para junto
de si a essência do outro, o seu dinheiro; cada carência efetiva ou
possível é uma fraqueza que apresentará a armadilha à mosca –
exploração universal da essência humana comunitária). (MARX,
2004, p. 139-140).

A propriedade privada torna o homem um ser unilateral, de


modo que o mundo, os objetos, só passam a pertencer-lhe, só
satisfazem-lhe na medida em que “é por nós imediatamente

5
Personagem do romance Fausto, de Goethe. Representa o demônio, o qual faz diversas promessas de
felicidade a Fausto em troca de sua alma. Eis as palavras de Mefistófeles a Fausto: “Deixa pois de te embalar
nessa tristeza que, como um abutre, devora a tua vida. Por muito má que seja a companhia em que estejas,
poderás sentir que és homem com os homens; [...] Em tal estado de espírito podes ariscar-te; compromete-
te, e verás nestes dias tudo o que a minha arte pode conseguir como prazer. Dar-te-ei o que nenhum homem
pôde sequer entrever ainda. [...] Uma tal empresa nada tem que me espante, posso oferecer-te tais tesouros;
sim, meu bom amigo, chegou também o tempo em que poderemos divertir-nos em completa segurança
[...] Não te é marcado nenhum limite, nenhuma finalidade. Se te agradar experimentar um pouco de tudo,
apanhar em vôo o que vier, faz como entenderes.” GOETHE. Fausto. São Paulo: Otto Pierre Editores. 1980.
p. 68-72. (Coleção Os Grandes Clássicos).
6
É importante ressaltar que essa concepção extremamente negativa que Marx expõe da ordem social
burguesa é um modo de expressar o caráter desumano dessa forma de sociedade e a sua postura
legitimadora do capital. No entanto, sabe-se que, historicamente, houve no capitalismo um
desenvolvimento extraordinário das ciências e das artes de um modo geral. Marx não nega este aspecto
positivo do desenvolvimento social, técnico, espiritual do capitalismo. Sua crítica, porém, reside no fato
desses importantes elementos cultivados no sistema da propriedade privada não poderem ser apropriados
por todos, principalmente pelos setores menos abastados da sociedade. Ademais, esses novos componentes
não criam apenas condições de benefício social ao homem; eles criam também novos mecanismos de poder,
mediante a relação entre saber e poder, cuja finalidade é produzir “verdades” universais, dogmas que
legitimam a dominação do homem através de práticas políticas e econômicas imanentes ao capitalismo.
Sob este aspecto, é conveniente observar como a perspectiva marxiana aproxima-se das considerações de
Foucault em a Microfísica do Poder. (FOUCAULT, 2007, p. 4 – 45).
280 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

possuído, comido, bebido, trazido em nosso corpo, habitado por nós


etc., enfim, usado.” (MARX, 2004, p. 108).
Na sociedade moderna, fundada em tal propriedade, a qual se
constitui dos produtos expropriados do trabalho alheio, ou nas
palavras de Jean-Baptiste Say, citadas por Marx, do roubo e da
fraude7, a existência humana perde sua dignidade e rebaixa-se a
uma condição mais ínfima do que a vida animal. Nessa ordem social,
o dinheiro torna-se o alvo e o termo de toda a vida. Tal “carência”
não faz parte da natureza humana, mas é “a verdadeira carência
produzida pela economia nacional e a única carência que ela
produz.” (MARX, 2004, p. 139). O dinheiro torna-se o deus visível
do homem, ao qual este sacrifica-se para conseguir sua
sobrevivência; é a ele que jovens se prostituem e que os homens, em
geral, abdicam de seus valores; tudo como se fosse a forma mais
natural de vida. O dinheiro assume a posição de bem maior. Para
demonstrar o poder “divino” dessa entidade sobre a vida humana,
Marx transcreve nos Manuscritos, mais especificamente no capítulo
intitulado Dinheiro, um trecho da obra Timon de Atenas, de
Shakespeare, a qual cito integralmente como se encontra no texto
marxiano:

Ouro? Ouro amarelo, brilhante, precioso ouro?


Não, deuses, não sou homem que faça orações inconseqüentes!
Esta quantidade de ouro bastaria para transformar o preto em
branco;
o feio em belo; o falso em verdadeiro; o vil em nobre;
o velho em jovem; o covarde em valente.
Isto vai subornar vossos sacerdotes
e vossos servidores afastando-o de vós; vai tirar o travesseiro
de debaixo da cabeça do homem mais robusto; este
escravo amarelo vai unir e dissolver religiões,
bendizer amaldiçoados, fazer adorar
a lepra lívida, dar lugar aos ladrões, fazendo-os

7
SAY, Jean-Baptiste. Traité d’économie potitique, ou simple exposition de la manière dont se forment,
se distribuent et se consomment les richesses. Tomo 2. In. MARX, Karl. Manuscritos econômico-
filosóficos. Op. cit. p. 39.
Renato Almeida de Oliveira | 281

sentar no meio dos senadores com títulos,


genuflexões e elogios; é isto que decide a viúva
inconsolável a casar-se novamente
e que perfuma e embalsama, como um dia de abril,
aquela perante a qual integrariam a garganta, o hospital
e as ulceras em pessoa. Vamos! Poeira maldita,
prostituta comum de todo gênero humano,
que semeia a discórdia entre a multidão de nações.8

O dinheiro é, na sociedade capitalista, a expressão essencial


da vida humana; o poder do homem é o poder do seu dinheiro, as
suas qualidades são as qualidades deste. “E tudo aquilo que tu não
podes, pode o teu dinheiro [...]; ele é a verdadeira capacidade
(Vermögen)” humana (MARX, 2004, p. 232). É por meio dele que os
insociáveis associam-se; é ele quem faz homens tornarem-se bestas-
feras assassinas, como também torna as coisas mais essenciais,
como os sentimentos, em meras mercadorias.
Todo esse estranhamento é resultado da própria essência do
capital, cujo interesse principal é a sua auto-reprodução, isto é, o
lucro. Este é a motivação de todos os investimentos, inclusive da
própria empregabilidade do trabalhador. Não importa saber se o
interesse particular da burguesia choca-se com o interesse social; a
única meta é o ganho. Novamente, citando Say, Marx expõe que,
“para o capitalista, a aplicação mais útil do capital é aquela que lhe
rende, com igual segurança, o maior ganho. Esta aplicação não é
sempre a mais útil para a sociedade.”9 É em vista dos seus ganhos,
e não do bem público, coletivo, que o capital regula o trabalho e as
relações sociais, dirigindo-os, segundo seus planos e especulações, à
obtenção do lucro máximo. Nesse sentido, Marx se reporta a uma
passagem de Adam Smith em A Riqueza das Nações:

8
SHAKESPEARE, William. Timão de Atenas. Ato IV, cena III. In. MARX, Karl. Manuscritos econômico-
filosóficos. Op. cit. p. 158.
9
SAY, Jean-Baptiste. Traité d’économie potitique, ou simple exposition de la manière dont se forment,
se distribuent et se consomment les richesses. In. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Op.
cit. p. 46.
282 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

O interesse desta classe [comerciantes] não tem, portanto [...] a


mesma ligação com o interesse geral da sociedade. O interesse
particular daqueles que exploram um ramo do comércio ou da
manufatura é, em certo sentido, sempre diferente do interesse do
público e, freqüentemente, até mesmo contraposto a ele de
maneira hostil. O interesse do comerciante é sempre o de ampliar
o mercado e limitar a concorrência dos vendedores... Esta é uma
classe de gente cujo interesse jamais será exatamente o mesmo que
o da sociedade, de gente que tem em geral um interesse, o de
enganar e de sobrecarregar o público.10

Veja-se que Marx se vale dos economistas políticos clássicos


para fundamentar suas formulações críticas sobre o estranhamento
da objetividade humana no capitalismo. Contudo, ele também tece
críticas a esses economistas, especificamente no caso do aviltamento
das carências humanas; essa crítica dirige-se em particular a David
Ricardo. Conforme Marx, Ricardo valorizou em demasia a produção,
o consumo, as leis econômicas, em detrimento do homem. “Para
Ricardo, os homens são nada; o produto é tudo.”11.
O capitalismo é, nesse ínterim, totalmente indiferente às reais
necessidades humanas, utilizando-se destas apenas para extrair do
miserável trabalhador suntuosos ganhos mediante a prostituição, a
bebedeira, o consumo desenfreado, os empréstimos a juros e muitas
outras práticas danosas aos trabalhadores, que, somente mediante
elas, o permitirão o acesso aos produtos resultantes do seu trabalho.

10
SMITH, Adam. Recherches sur la nature et les causes de la richese des nations. Tomo 2. In. MARX,
Karl. Manucristos econômico-filosóficos. Op. cit. p. 46-47.
11
A tradução brasileiro de Jesus Ranieri, dos Manuscritos econômico-filosóficos, traz, em francês, os
trechos lidos por Marx, os quais o filósofo faz referência em seu escrito. No caso dessa referência a
Ricardo, Marx leu uma passagem do livro de Eugène Buret, intitulado De la misere des classes
laborieuses en Angleterre et en France; de la nature de la misere, de son existence, de ses effets, de ses
causes, et des l’insuffisance des moyens propres a en affranchir les sociètes. Transcrevemos aqui a
passagem como encontra-se no texto de Buret: “L’expression la plus complete, la plus exagérée de
cette économie politique, que nous appellerions volontiers absolue se trouve dans les ouvrages de M.
Ricardo, l’ingénieux métaphysicien du formage (Rend of Land). Ici toute tendance sociale a disparu.
Les nations NE sont plus que des ateliers de production; - l’homme une machine à consommer et à
produire, et la vie humaine un capital. – Tout se pèse ou se calcule, et les lois économiques régissent
fatalement le monde.” In. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Op. cit. p. 56. nota 41.
Renato Almeida de Oliveira | 283

Nos textos Propriedade Privada e Trabalho e Propriedade


Privada e Comunismo, que também compõem o conjunto dos
Manuscritos de 1844, Marx continua a apresentar o estranhamento
da objetividade humana. Ademais, é explicitado o verdadeiro sentido
das carências humanas. Em Propriedade Privada e Trabalho são
discutidas duas questões fundamentais:

a) O trabalho como essência de toda riqueza socialmente produzida


(caráter positivo do trabalho);
b) A propriedade privada como expropriação do trabalho humano, isto é,
como roubo12 (aspecto negativo do trabalho).

Os economistas clássicos, conforme Marx, perceberam a


positividade do trabalho como essência subjetiva da riqueza, que, no
caso do capitalismo, confunde-se com a propriedade privada. Para
Adam Smith, por exemplo, a propriedade privada não pode ser
compreendida “como um estado exterior ao homem.” (MARX, 2004,
p. 99). Contrariamente aos economistas, os participantes do sistema
monetário e do mercantilismo, os homens de negócios,
denominados por Marx de fetichistas, concebem a propriedade
privada, a riqueza, como uma essência objetiva, exterior ao homem.
Contudo, embora reconhecendo a gênese da propriedade
privada no trabalho humano, a economia nacional
(Nationalökonomie) só reconhece essa positividade do trabalho de
modo aparente, na medida em que é “a realização conseqüente da
renegação do homem” (MARX, 2004, p. 100), ou seja, na medida em
que põe o homem em uma tensão interna com a propriedade,
trazendo-o para dentro desta como essência subjetiva, porém
expropriando, ao mesmo tempo, essa propriedade do seu produtor.
Dito de outro modo, a propriedade privada (trabalho objetivado)
12
Ver também Pierre-Joseph Proudhon em Qu’est-ce que la propriété? (1840), obra na qual o
economista afirma que a propriedade privada é um roubo, mediante uma análise dos princípios do
direito e do governo. Cf. PROUDHON, Pierre-Joseph. Qu’est-ce que la propriété? Recherches sur le
príncipe Du droit et du gouvernement. Disponível em:
<www.classiques.uqac.ca/classiques/Proudhon/la_propriete/La_propriete.pdf>. Visitado em 01 dez.
2009. (Collection "Les classiques des sciences sociales").
284 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

surge ao homem não apenas como uma entidade exterior, mas como
entidade que se põe diante dele como ameaça à sua existência, como
opressão ou como simples ato de objetividade que se lhe opõe como
ser hostil que cria as condições da desigualdade social.13 Portanto, o
homem constitui-se, na perspectiva econômica clássica, em um
mero instrumento no processo de produção, e não como possuidor
da riqueza por ele produzida, causando, assim, o estranhamento no
ato da própria objetivação. Em poucas palavras, a propriedade
privada é o ato de estranhamento do homem, o que a economia
nacional não reconhece.

Se, portanto, aquela economia nacional inicia sob a aparência do


reconhecimento do homem, de sua independência, e do jeito que
ela desloca a propriedade privada para a própria essência do
homem, que já não pode mais ser condicionada pelas
determinações locais, nacionais etc. da propriedade privada como
uma essência existente fora dela [...] então ela tem de, junto do
desenvolvimento mais avançado, deitar abaixo esta hipocrisia,
distinguir-se no seu pleno cinismo, e ela o faz na medida em que
[...] desenvolve mais unilateralmente, portanto mais aguda e
conseqüentemente, o trabalho enquanto a única essência da
riqueza [na medida em que] prova que as conseqüências dessa
doutrina em oposição àquela concepção originária são, antes,
inimigas do homem. (MARX, 2004, p. 100).

13
Nesta ótica, a concepção marxiana da propriedade privada justapõe-se à idéia de Rousseau acerca
do tema. Para este, existe na espécie humana duas formas de desigualdade, uma natural ou física, que
consiste na diferença das idades, da saúde, das forças corporais e das qualidades do espírito, e outra
moral ou política,a qual, por sua vez, consiste nos diferentes privilégios desfrutados por alguns em
detrimento dos demais, como a riqueza, o respeito e o poder. Rousseau, no entanto, não está
interessado em discutir a desigualdade natural, mas a desigualdade política, estabelecida, segundo ele,
pelo desenvolvimento das faculdades humanas e a instituição da vida social e legitimada pela
instauração da propriedade e dos elementos jurídicos. Assim ele conclui seu Discurso sobre a origem
e os fundamentos da desigualdade entre os homens: “Esforcei-me por expor a origem e o progresso da
desigualdade, o estabelecimento e o abuso das sociedades políticas, na medida em que essas coisas
podem ser deduzidas da Natureza do homem pelas simples luzes da razão, e independentemente de
dogmas sagrados que fornecem à autoridade soberana a sanção do direito divino. Conclui-se desta
exposição que a desigualdade, sendo quase nula no estado natural, tira sua força e seu acréscimo do
desenvolvimento de nossas faculdades e dos progressos do espírito humano, e se torna enfim estável
e legítima pelo estabelecimento da propriedade e das leis.” Cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso
sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. In. O contrato social e outros
escritos. Tradução de Rolando Roque da Silva. 16 ed. São Paulo: Cultrix. 2007. p. 205-206.
Renato Almeida de Oliveira | 285

Em virtude do fato de considerar o trabalho como essência da


propriedade privada, a economia nacional torna o homem, visto
como não-ser, porque homem estranhado, em ser, encobrindo,
dessa maneira, a exploração do trabalho pelo capital, o domínio da
propriedade sobre o homem. Essa tensão entre capital e trabalho é
exposta por Marx no texto Propriedade Privada e Comunismo. Tal
tensão é representada na oposição entre sem propriedade e
propriedade. O primeiro é o trabalhdor, gênese de toda propriedade,
mas expropriado dela. O segundo é o capital, apropriador indevido,
visto que a propriedade não é resultado de sua atividade.
Haja vista a propriedade privada ter sua gênese na atividade
humana imprime-lhe um caráter necessariamente histórico, quer
dizer, transitório. Nesta idéia reside o princípio revolucionário do
comunismo marxiano. O homem, mediante seu trabalho, enquanto
causa da propriedade, é, ao mesmo tempo, seu termo; ou seja, sendo
causa, o homem também é resultado da propriedade privada.
A solução apresentada por Marx a essa oposição é a abolição
da propriedade privada, compreendida em seu aspecto objetivo, ou
seja, como estranha, independente e hostil ao homem. Embora seja
a expressão efetiva da objetivação das potencialidades humanas, a
propriedade privada é, simultaneamente, a negação do próprio
homem, sua efetividade estranhada. Marx apresenta três momentos
ou modelos de comunismo no processo de superação da
propriedade privada:

1) A propriedade privada como mera posse (comunismo vulgar);


2) O comunismo de natureza política, democrático ou despótico;
3) O comunismo como verdadeiro retorno do homem a si.

Ad 1) O primeiro momento é o do comunismo grosseiro; há


aqui a universalização da propriedade, uma generalização, pois
reconhece a propriedade como um bem que deve ser usufruído por
todos. Contudo, esse comunismo não abole a essência privada da
sociedade, isto é, põe como a sua finalidade a posse física da
286 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

propriedade material. Nesse sentido, o homem existe unicamente


para possuir propriedade. Essa posse é uma forma medíocre de
fruição, posse entendida como imediaticidade, como uso, ou, nas
palavras de Marx, como capital.
Desse modo, a universalização causa uma generalização do
estranhamento, visto que nega a individualidade humana, a
personalidade dos indivíduos. Portanto, o comunismo rude é apenas
um nivelamento pobre dos homens e a manutenção do capital,
porém, não mais restrita a alguns indivíduos, mas capital universal
(a comunidade como capitalista). O comunismo rude é, portanto,

a expressão positiva da propriedade privada supra-sumida, acima


de tudo a propriedade privada universal. Ao apreender esta relação
em sua universalidade, ele é 1) só uma generalização e
aperfeiçoamento da mesma em sua primeira figura; como tal,
mostra-se em uma figura duplicada; uma vez o domínio da
propriedade coisal (sachliche) é tão grande frente a ele que ele quer
aniquilar tudo que não é capaz de ser possuído por todos como
propriedade privada; ele quer abstrair de um modo violento do
talento etc.; a posse imediata, física lhe vale como a finalidade
única da vida e da existência; a determinação de trabalhador não é
supra-sumida, mas estendida a todos os homens; a relação da
propriedade privada permanece [sendo] a relação da comunidade
com o mundo das coisas (Sachenwelt) [...] Este comunismo – que
por toda parte nega a personalidade do homem – é precisamente
a expressão conseqüente da propriedade privada [...]. Quão pouco
esta supra-sunção da propriedade privada é uma apropriação
efetiva prova-o precisamente a negação abstrata do mundo inteiro
da cultura (Bildung) e da civilização; o retorno à simplicidade não-
natural do ser humano pobre e sem carências que não ultrapassou
a propriedade privada, e nem mesmo a ela chegou. (MARX, 2004,
p. 103-104).

Três elementos dessa citação exigem breves esclarecimentos.

1) O comunismo rude abstrai de um modo violento do talento e nega a


personalidade do homem: isso significa a realização de uma ínfima
igualdade entre os indivíduos, uma massificação dos mesmos, não
Renato Almeida de Oliveira | 287

olhando para a particularidade de cada homem. Esse não é o sentido do


comunismo pensado por Marx, o qual pretendia que cada indivíduo
gozasse dos bens do trabalho de acordo com suas reais carências;
2) A condição de trabalhador não é suprassumida, mas estendida a todos
os homens: ao referir-se à expressão “condição de trabalhador”, Marx
quer ressaltar o caráter negativo do trabalho, o qual deve ser superado.
O trabalho como auto-realização do homem é uma determinação
inerente a todo indivíduo. Porém, no comunismo vulgar, todos os
homens tornam-se meros produtores expropriados pelo capital
comunal;
3) O retorno à simplicidade não-natural do ser humano pobre e sem
carências: tal fato é resultado da massificação dos indivíduos. As
carências humanas permanecem estranhadas, suas necessidades são
condicionadas ao mínimo necessário. A arte, a poesia, a filosofia, a
cultura, de um modo geral, embora produzidos pelo homem, não se lhes
figuram como carências, pois o comunismo rude, à semelhança do
capitalismo, reduz as carências humanas a meras necessidades físico-
biológicas.

Ad 2) O comunismo de natureza política, seja ele democrático


ou despótico, é a abolição do Estado como instituição política que
serve aos interesses da classe detentora do poder, mas que deixa
imperar na sociedade a relação da propriedade privada, o que
significa dizer que o estranhamento humano não foi abolido. Por
isso, Marx afirma que essa forma de comunismo é ainda incompleta.
Podemos dizer que o comunismo democrático seria um modo de
legitimar a propriedade privada comunal (universal). Reina a
democracia enquanto igualdade abstrata, porém, na realidade,
concreta cada indivíduo possui carências específicas, interesses
particulares. Nesse sentido, enquanto o comunismo estiver afetado
pela propriedade privada, o estranhamento do ser humano
continuará a existir no seio da sociedade. Somente com base em
uma compreensão da essência positiva da propriedade privada e da
natureza humana das carências, será possível se pensar um
autêntico comunismo que permita ao homem efetivar-se em sua
totalidade.
288 | Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

6.1.2. O Autêntico Sentido da Objetividade Humana.

Ad 3) A terceira forma de comunismo apresentada por Marx


é o comunismo real, porque é a suprassunção positiva da
propriedade privada, o que seria o mesmo que dizer que é a
superação do autoestranhamento humano, “e por isso enquanto
apropriação efetiva da essência humana pelo e para o homem.”
(MARX, 2004, p. 105). O homem agora é senhor de si, e o mundo
por ele objetivado passa a pertencer-lhe; suas carências tornam-se
verdadeiramente humanas, não restritas apenas a carências físico-
biológicas, a apetites patológicos. No âmbito das relações sociais, o
outro não é o limite da minha liberdade, mas com quem efetivo
minha liberdade, porque o indivíduo reconhece-se como ser
genérico, ser social.
A realização da natureza humana, a efetivação e satisfação das
necessidades, enfim, a integração da objetividade humana
(naturalismo), que resulta na dissolução do antagonismo entre
homem e natureza, significa o nascimento do verdadeiro
humanismo. Isso quer dizer que a auto-confirmação do homem, a
efetivação de sua liberdade, é perpassada por sua relação com a
natureza. Ele depende da natureza, primeiramente como sujeito
físico e, em segundo lugar, como trabalhador. No primeiro caso, ele
retira da natureza os meios de vida, os meios de subsistência física.
No segundo caso, a natureza surge-lhe como matéria mediante a
qual seu trabalho se efetiva. Tal efetivação significa a realização das
potencialidades humanas. Por isso, Marx afirma que o verdadeiro
comunismo é

enquanto naturalismo consumado = humanismo, e enquanto


humanismo consumado = naturalismo. Ele é a verdadeira
dissolução (Auflösung) do antagonismo do homem com a natureza
e com o homem; a verdadeira resolução (Auflösung) do conflito
entre existência e essência, entre objetivação e auto-confirmação
(Selbstbestätigung), entre liberdade e necessidade
(Notwendigkeit), entre indivíduo e gênero. (MARX, 2004, p. 105).
Renato Almeida de Oliveira | 289

O trabalho modifica a natureza, pondo nesta a essência


humana. Desse modo, a natureza constitui-se como elo do homem
com o homem, pois a natureza trabalhada (o objeto) será usufruída
pelo conjunto social. Daí que a essencialidade humana posta na
natureza está primeiramente para o homem social, pois é neste
homem que a natureza existe como elo, “na condição de existência
sua para o outro e do outro para ele”, ou seja, “como fundamento da
sua própria existência humana” (MARX, 2004, p. 106), porque tal
existência é a vida social.
Do que consideramos, podemos inferir que o verdadeiro
sentido das necessidades humanas em Marx é o fato de as carências
impulsionarem os indivíduos à produção, no decorrer do qual o
homem afasta-se da sua condição meramente animal e aproxima-se
da sua determinação propriamente humana, isto é, social, na qual
não se expressam apenas as carências objetivas, mas também a
afetividade, o encontro com o outro.
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Sobre os autores

Eduardo Ferreira Chagas


Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE, 1989),
Mestrado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH)
da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, 1993) e Doutorado em Filosofia
pela Universität von Kassel (KASSEL, ALEMANHA, 2002). É professor efetivo
(associado) do Curso de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia
da Universidade Federal do Ceará (UFC) e professor colaborador do Programa de
Pós-Graduação em Educação Brasileira da FACED - UFC. Coordenador do Grupo
de Estudos Marxistas – GEM –, vinculado ao Eixo Marxismo, Teoria Crítica e
Filosofia da Educação, e ao Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira
da FACED - UFC. Orientador do Programa Jovens Talentos/CNPQ. Atualmente, é
Pesquisador Bolsista de Produtividade do CNPQ, é membro da Internationale
Gesellschaft der Feuerbach-Forscher (Sociedade Internacional Feuerbach) e
dedica suas pesquisas ao estudo da filosofia política, da filosofia de Hegel, do
Idealismo Alemão e de seus críticos Feuerbach, Marx, Adorno e Habermas.
E-mail: ef.chagas@uol.com.br
Homepage: www.efchagas.wordpress.com
C.V (Lates): http://lattes.cnpq.br/2479899457642563.

Renato Almeida de Oliveira


Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. Professor Adjunto do
Curso de Filosofia da Universidade Estadual Vale do Acaraú (Sobral – Ce.).
Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Filosofia e Teoria Política e
Social (GEPPS/UVA). Memebro do Grupo de Estudos Marxistas (GEM/UFC).
Dedica suas pesquisa sobre a relação entre política e religião, enfocando a questão
da secularização, na esteira de Marx e da tradição marxista.
E-mail: renatofilosofosds@yahoo.com.br
C.V (Lates): http://lattes.cnpq.br/5027075041056189