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UNIDADE I 13

SOBRE O OFÍCIO DO HISTORIADOR

A história, por outro lado, não pode decidir excluir nenhum aspecto da história humana a priori, embora optando, de tempos em tempos,
por se concentrar em alguns e negligenciar outros. Com base na conveniência ou necessidade técnica, os historiadores tenderão a se
especializar.1

Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica, tudo que toca pode e deve informar sobre ele.2

1.1 - O que é Teoria?


Antes de iniciarmos nossa discussão propriamente dita Analisemos as palavras do historiador José
sobre Teoria da História, faz-se necessário esclarecermos D’Assumpção Barros:
um ponto fundamental: o que é Teoria? E, ainda, qual a
diferença entre Teoria, Historiografia e Metodologia? Como ‘modo de apreender o mundo’ – ou mesmo como maneira
de agir diante da realidade ou do mundo imaginário – a Teoria
se contrapõe ao agir intuitivo, ao comportamento emotivo, ao
Historiografia, Metodologia e Teoria caminham jun- impulso instintivo, à recepção mística da ‘palavra revelada’, e a
tas, ainda que possuam características e identidades outros tantos modos de conhecer ou de se movimentar no mun-
próprias. A primeira se refere ao olhar que os histo- do. A Teoria é filha da Razão e irmã da Metodologia Científica.3
riadores lançam sobre si mesmos e sobre seus pares.
Como exemplo, podemos citar a historiografia brasilei- Neste sentido, a teoria está intrinsecamente ligada à ra-
ra acerca do período do regime militar, qual seja: toda cionalidade e à cientificidade. Portanto, não basta apenas
obra de caráter histórico que analise o período aborda- uma visão de mundo, mas a esta deve ser aplicada um
do fará parte desta historiografia. método científico que leve em consideração as questões
de observação, experimentação e demonstração.
O segundo diz respeito ao caminho, às técnicas e pro-
cedimentos escolhidos pelo historiador. Quais fontes Também é importante distanciarmos a teoria da intui-
serão utilizadas em minha pesquisa? Qual corpus docu- ção. Esta última não necessita de método. Já a teoria,
mental será priorizado em minha análise? As respostas como dito anteriormente, está diretamente ligada à ra-
a estas perguntas levam ao caminho a ser percorrido cionalização e verbalização, enquanto a intuição envol-
pelo pesquisador. ve mais emoção e sentimento.

É uma determinada teoria – uma certa maneira de ver as coi-


Já a teoria é antes de tudo uma visão de mundo. Ou sas – e seus instrumentos fundamentais, os conceitos, o que nos
seja, a sua escolha teórica está diretamente relacionada à possibilita formular uma determinada leitura da realidade histó-
sua visão sobre o mundo e, especificamente, à sua visão rica e social, enxergar alguns aspectos e não outros, estabelecer
sobre a História. No entanto, é importante ressaltar que, conexões que não poderiam ser estabelecidas sem os mesmos
instrumentos teóricos de que nos valemos.4
se teoria é uma visão de mundo, nem toda visão de mun-
do é uma teoria. Por exemplo, a religião é uma forma de
ver o mundo, mas não se constitui uma teoria, pois não A hipótese lançada sobre algum objeto de pesquisa
surge da maneira como o pesquisador enxerga a rea-
está relacionada ao método científico, à sistematização
lidade. Em outras palavras, surge a partir do ponto de
e produção de conhecimento com rigor metodológico, vista teórico do historiador. Depois de lançada, o sujeito
já que envolve emoções e sentimentos alheios à teoria. deve caminhar para a ação (metodologia) em busca da
Não há, portanto, no caso da religião, uma preocupação comprovação da hipótese. A teoria nos fornece o “pro-
teórico-metodológica com dois aspectos fundamentais à blema”, enquanto a metodologia nos traz as “fontes”.
ciência: observação e experimentação. Temos aí as bases da pesquisa historiográfica.

1
HOBSBAWN, Eric. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P. 122.
2
BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história ou O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2001. Pg. 79
3
BARROS, José D’Assunção. Teoria da História. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 14-5. Vol. 1.
4
Ibidem. P. 64.

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Em síntese, podemos afirmar que teoria está rela- nárias. A outra, decididamente prática, aponta para o chão, em
14 cionada ao modo de pensar enquanto metodologia busca de soluções concretas para confirmar ou rejeitar as hipó-
teses aventadas pela irmã.5
está ligada ao modo de fazer. Neste sentido, a nossa

escolha teórica irá definir a nossa maneira de cami-
Se partirmos do pressuposto que a teoria é uma visão
nhar pela pesquisa, ou seja, a nossa metodologia.
de mundo, certamente chegaremos à conclusão de que
Ao mesmo tempo em que o caminho pelas fontes
ela é, por definição, um campo de disputa, já que os
pode nos fazer modificar a nossa visão e reavaliar-
historiadores possuem diferentes visões de mundo.
mos o nosso modo de pensar o mundo. Portanto,
metodologia e teoria são processos que se influen-
Se por um lado esta disputa enriquece o conhecimento
ciam diretamente.
e o debate historiográfico, por outro, pode gerar – na

Vemos, portanto, que Teoria e Metodologia são como duas ir- tentativa de “vencer” a discussão – um posicionamento
mãs siamesas. Uma olha para o alto, buscando enxergar algo de não raro no campo historiográfico: a tentativa de ade-
novo no céu estrelado de todas as realidades possíveis e imagi- quar a realidade à teoria.

1.2 - Ser Historiador


A história está preocupada com os processos fundamentais de principal seja nos ajudar a avaliar as possibilidades do presente
mudança. Se você é alérgico a estes processos, abandona a his- e do futuro, em vez do passado, onde seu lugar é ocupado pela
tória e procura abrigo nas ciências sociais. Hoje a antropologia, história comparativa: mas o que temos que explicar é a história
a sociologia, etc. florescem. A história está doente. Mas nesse atual. (...) A história da sociedade é, portanto, uma colaboração
caso nossa sociedade também está doente.6 entre modelos gerais de estrutura e mudança social e o conjunto
específico de fenômenos que de fato aconteceram. (...)
A citação acima traz uma discussão importante para
2) A história da sociedade é, entre outras coisas, a história de
nós historiadores: qual é, afinal, o objeto da História? unidades específicas de pessoas que vivem juntas, unidades que
são definíveis em termos sociológicos. (...)
Durante muito tempo, defendeu-se a ideia de que o
historiador era aquele que narrava os chamados “fa- 3) A história das sociedades exige que apliquemos, se não um
modelo formalizado ou elaborado de tais estruturas, pelo menos
tos”, ou seja, os acontecimentos considerados impor-
uma ordem aproximada de prioridades de pesquisa e uma hipó-
tantes para as sociedades. No século XIX, o positivis- tese de trabalho sobre o que constitui o nexo central ou comple-
mo defendeu largamente esta posição ao afirmar que xo de conexões de nosso tema, ainda que, naturalmente, essas
os fatos falariam por si e que caberia aos historiadores coisas impliquem em um modelo. (...)
ordená-los de forma objetiva. Acreditava-se também
Um consenso tácito entre os historiadores parece ter estabele-
que as fontes já continham toda a verdade, bastava
cido um modelo operacional bastante comum desse tipo, com
trazê-las à tona. variantes. Parte-se do ambiente material e histórico, passa-se
para as forças e técnicas produtivas (entrando a demografia em
Segundo Hobsbawm (1998), até o século XVIII, a algum ponto intermediário), a estrutura da economia resultante
História era vista como mestra da vida, como a disci- – divisão do trabalho, troca, acumulação, distribuição do exce-
dente e assim sucessivamente – e as relações sociais daí deriva-
plina que deveria dizer como uma sociedade deveria
das. Essas poderiam ser seguidas pelas instituições e a imagem
funcionar. Ou seja, o passado era um modelo para o da sociedade e seu funcionamento que lhes são subjacentes.7
presente e o futuro. No entanto, as transformações, os
distintos processos sociais, suas conjunturas e con- No século XX, a visão positivista fora questionada –
textos próprios, irrepetíveis e específicos, nos fizeram o que se defende hoje é que o fato é a matéria-prima
afastar cada vez mais desta ideia de História como do historiador e não o seu produto final. Neste sentido,
mestra. Neste sentido, se os contextos diferem en- a pesquisa histórica parte de um determinado aconte-
tre si e no tempo, não devemos olhar para o passado cimento, mas não se encerra nele, já que o desenvol-
como um guia. vimento do fazer histórico dependerá da teoria e da
metodologia do pesquisador que, como vimos anterior-
Vejamos como Hobsbawm indica o modo como deve- mente, estão diretamente ligadas à sua visão de mundo
mos fazer uma “história das sociedades”: e de História.
1) A história da sociedade é história; ou seja, ela tem como uma
de suas dimensões o tempo cronológico real. (...) A história con- A partir destes questionamentos, podemos afirmar
jectural tem um lugar em nossa disciplina, mesmo que seu valor que o principal objeto do historiador não é o fato, mas

5
ibidem. P. 76
6
CARR, Edward H. Que é história? Rio de Janeiro: Paz e Terra: 1996. P. 29
7
HOBSBAWN, Eric. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Pgs. 91-94.

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o processo, a mudança, as transformações. Cabe-nos, Ao mesmo tempo, é importante destacar que compre-
portanto, compreender como de uma situação A for- ender não significa justificar ou aceitar. Compreender 15
mou-se uma situação B, o que ocorreu entre estes dois é procurar entender as motivações, as causas políticas,
momentos que possibilitou tal mudança. econômicas e sociais que levaram determinados gru-
pos sociais a agirem de determinadas maneiras e não
No que tange às fontes, estas não devem representar a de outras.
realidade simples e pura, mas, ao contrário, devem ser
objeto de questionamento e crítica. Para Marc Bloch, Compreender, no entanto, nada tem de uma atitude de passivi-
dade. Para fazer uma ciência, será sempre preciso duas coisas:
“(...) os textos ou os documentos arqueológicos, mes-
uma realidade, mas também um homem. A realidade humana,
mo os aparentemente mais claros e mais complacen- como a do mundo físico, é enorme e variegada. Uma simples
tes, não falam senão quando sabemos interrogá-lo” fotografia, supondo mesmo que a ideia dessa reprodução meca-
(BLOCH, 2001, p. 79). nicamente integral tivesse um sentido, seria ilegível. Dirão que,
entre o que foi e nós, os documentos já interpõem um primeiro
filtro? Sem dúvida, eliminam frequentemente a torto e a direito.
Estas afirmativas nos levam a um segundo ponto: não
Quase nunca, em contrapartida, organizam de acordo com as
há neutralidade na pesquisa histórica. Ou seja, nos é exigências de um entendimento que quer conhecer. Assim como
impossível retirar a subjetividade da pesquisa. Afinal, o todo cientista, como todo cérebro que, simplesmente, percebe, o
ato de escolher e determinar como fato histórico já en- historiador escolhe e tria. Em uma palavra, analisa.8
contra subjetividade em seu caminho, impossibilitando
a neutralidade ou objetividade pura.
No que tange ao papel do indivíduo na História, é
Por outro lado, o excesso de subjetividade pode nos importante termos em mente que se este tem respon-
levar a duas armadilhas caras ao historiador: o julga- sabilidade por um determinado processo histórico, não
mento e o anacronismo. é certamente o único. Afinal, o indivíduo está inserido
em um determinado contexto e, por isso, é produto e
Ao defendermos uma proposta de análise histórica deve- produtor da realidade histórico-social.
mos ter em mente que compreender é diferente de julgar. O
caso mais rico para exemplificar este perigo é dos estudos Já o anacronismo surge especialmente do desejo de
acerca dos regimes autoritários europeus do século XX. comparar realidades e processos distintos. O historia-
Imbuídos da necessidade de mostrar ao mundo a violên- dor deve estar sempre atento à tentação de olharmos as
cia e as atrocidades cometidas por tais governos, muitos sociedades passadas a partir dos conceitos e valores da
estudiosos partiram para dois focos de análise: julgar seus sociedade em que está inserido.
sujeitos históricos como “loucos”, “intrinsecamente autori-
tários e bárbaros” etc.; ou atribuir aos grandes personagens, É claro que não podemos nos despir de toda e qual-
tais como Hitler e Stálin, a causa de todo o mau. quer valoração que possuímos, porém, devemos evitar
comparações e análises que nos leve a julgar uma so-
Ambas as perspectivas acabam por retirar a complexida- ciedade em detrimento de outra.
de histórica de tais processos. Não se compreende a ascen-
são do partido nazista alemão sem levar em consideração o Esta, talvez, seja uma das maiores dificuldades do
apoio da própria população alemã aos ideais fascistas. Ao nosso ofício: analisar uma sociedade da qual não fa-
passo que também não se analisa a União Soviética sem zemos parte, da qual não dividimos valores e visões
compreender o processo de bolchevização da sociedade. de mundo, enfim, da qual não pertencemos. Trans-
As condições de vida das sociedades alemã e soviética portar-nos para um contexto que não existe mais é
devem ser levadas em consideração quando procuramos um grande desafio, mas que torna a nossa disciplina
compreender porque apoiaram o autoritarismo. ainda mais instigante.

1.3 - Passado, Presente e Futuro


Diferente do que durante muito tempo se defendeu, fazem ao passado estão diretamente relacionadas ao
a História não é uma disciplina que lida apenas com o contexto presente e, portanto, transformam a visão so-
passado, haja vista que quem a exerce está inserido em bre o que passou. Nas palavras de Marc Bloch:
um presente e possui uma visão de mundo que a leva a
O passado é, por definição, um dado que nada mais modificará.
uma perspectiva de futuro. Mas o conhecimento do passado é uma coisa em progresso, que
incessantemente se transforma e aperfeiçoa. Para quem duvidas-
Neste sentido, a História é um constante diálogo entre se, bastaria lembrar o que, há pouco mais de um século, aconte-
passado e presente. As perguntas que os historiadores ceu sob nossos olhos. Imensos contingentes da humanidade saí-

8
BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. P. 128.

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ram das brumas. O Egito e a Caldeia sacudiram suas mortalhas. Só quando sejamos capazes de compreender a coerência do sis-
16 As cidades da Ásia central revelaram suas línguas, que ninguém tema inteiro em que vivemos imersos poderemos chegar a repen-
mais sabia falar, e suas religiões, há muito extintas. Uma civi- sá-lo, desmontá-lo peça por peça e planejar a sua substituição
lização inteirinha ignorada acaba de se levantar do túmulo, nas por outro baseado num novo jogo de valores, de acordou com as
margens do Indo. Isso não é tudo, e a engenhosidade dos pes- características que haverá de ter a sociedade do socialismo.11
quisadores em vasculhar mais a fundo as bibliotecas, em abrir
novas trincheiras nos solos cansados, não trabalha apenas nem, Neste sentido, para Fontana, a História seria um ins-
talvez, mais eficazmente para enriquecer a imagem dos tempos
idos. Procedimentos de investigação até então desconhecidos trumento para construção do futuro socialista. Isto se
também surgiram. Sabemos melhor que nossos antecessores in- daria pelo seu papel crítico e questionador, advindo da
terrogar as línguas acerca dos costumes, as ferramentas acerca forma de compreender a realidade social e os processos
do artesão. Aprendemos, sobretudo, a mergulhar mais profun- históricos que formaram a sociedade contemporânea.
damente na análise dos fatos sociais. O estudo das crenças e dos
ritos populares mal desenvolve suas primeiras perspectivas.9
A concordância com as afirmativas de Josep Fontana
de que a História deve ser utilizada como instrumento
Sem dúvida, falar do passado é se posicionar em re- na construção do socialismo dependerá do seu posi-
lação ao presente, definindo-se em relação às lutas e cionamento político. No entanto, é difícil negar que a
projetos sociais do contexto do historiador. Para o his- ampliação do conhecimento histórico carrega um olhar
toriador espanhol Josep Fontana, de orientação mar- crítico sobre a sociedade.
xista, a História possuiria, em si, uma função social: a
construção de uma sociedade igualitária: Isto fica claro quando observamos a preocupação de
governantes com a História e com o que se é ensina-
Nosso objetivo dificilmente pode ser o de converter a história do pelos professores de História: Thatcher controlou o
em uma ‘ciência’ – em um corpo de conhecimentos e métodos,
cerrado e autossuficiente, que se cultiva para si mesmo –, mas tipo de História que era lecionada nas escolas britânicas
sim, pelo contrário, o de arrancá-lo à fossilização cientificista e Nikita Khrushev afirmou que “Os historiadores são
para voltar a convertê-la numa ‘técnica’, num instrumento para pessoas perigosas, capazes de colocar tudo de cabeça
a tarefa da mudança social.10 para baixo. Convém vigiá-los”.

Exercícios
1 - “As exigências práticas que suportam todo julgamento histórico dá a toda história o caráter de ‘história con-
temporânea’, porque, mesmo que os eventos assim recontados possam parecer remotos no tempo, a história na
verdade refere-se a necessidades presentes e situações presentes, onde aqueles acontecimentos vibram”.
(CORCE, B. History as the story of liberty. S/ local, 1941. P. 19)

Por que para o filósofo italiano Benedito Croce toda história é história contemporânea?

2 - “A relação do homem com seu meio é a relação do historiador com seu tema”.
(CARR, Edward H. Que é história? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. P. 65

Explique a afirmativa acima proposta por Edward Carr.

9
BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. P. 75.
10
FONTANA i LAZARO, Josep. História: análise do passado e projeto social. São Paulo: EDUSC, 1998. P. 265.
11
FONTANA i LAZARO, Josep. História: análise do passado e projeto social. São Paulo: EDUSC, 1998. P. 264.

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