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PRIMEIRAS NOTAS: O QUE É O ESTADO?

As possíveis respostas para essa pergunta envolvem a criação de ideias, teorias e


hipóteses de que o pensamento ocidental tem se ocupado desde as civilizações clássicas.
Essas teorias, hipóteses e conceitos, contudo, não surgem de forma linear e acumulativa,
nem produzem consenso entre os que se dedicam ao objeto.
Se as noções abarcadas pelo estudo do Estado não são unânimes ou homogêneas,
também não induzem ao relativismo absoluto ou à invalidade da teoria política. A pluralidade
de pensamento sobre os fenômenos políticos é inevitável pela complexidade humana, social
e historicamente construída. Nesse sentido, diferentes contextos produzem diferentes
respostas, e essas não se restringem a apenas descrever o Estado, dizendo o que ele é, mas
avançam para o terreno do dever ser. O estudo do Estado tanto explica as diferentes
realidades como idealiza ferramentas para transformá-la.
Assim, importa considerar cada uma das vertentes da teoria política em seu contexto
abrangente, conforme seu local, período e fenômenos correlatos, a fim de compreender de
forma crítica e reflexiva as potenciais respostas que cada uma delas dá à pergunta proposta
para abrir essas notas.

ORIGENS DO PENSAMENTO POLÍTICO


MODERNO
O cerne da política: o fenômeno do poder e suas principais
dimensões

O conceito clássico de política, derivado das atividades inerentes à pólis grega e à


natureza associativa do ser humano, é referente à realização do bem comum. Contudo, a
noção moderna de política está associada ao fenômeno do poder e às suas dimensões.
Derivado do latim potere, o termo poder é usualmente empregado para definir uma
capacidade do sujeito sobre algo ou alguém. Nesse sentido, pode-se pensar no poder como
posse de meios que levam à produção de efeitos desejados. Aquele que detém os meios é
capaz de exercer determinada interferência nas relações com outros ou com o ambiente,
atingindo certos efeitos.
Nas relações sociais, o exercício do poder pode ser sistematizado entre as esferas
econômica, ideológica e política. Quando o sujeito utiliza a posse de bens socialmente
necessários para interferir nos acontecimentos e ações, está exercendo poder econômico. Se
utiliza a posse de ideias, valores e doutrinas, está exercendo poder ideológico. Ao lançar mão
de meios de coerção social, está exercendo poder político. Essa sistematização é
apresentada por Max Weber, em cujo pensamento também se verifica a conexão entre o
poder, a política e o Estado.
Estado, que deriva do latim status (estar firme), é uma noção referente à permanência
de uma dada situação conexa à organização política da sociedade. Conforme Weber, o
Estado é a instituição política que, dirigida por um governo soberano, reivindica o monopólio
do uso legítimo da força física em determinado território, subordinando os membros da
sociedade que nele vivem.
É importante ressaltar que muitas sociedades existiram e se desenvolveram sem que
o Estado, tal qual o conceito indicado, fosse instituído. Por isso, destacam-se a soberania e a
legitimidade, respectivamente designando a prerrogativa do exercício máximo do poder em
âmbito interno e a não interferência externa, bem como a aceitação desse exercício por
subordinados e demais atores políticos. Esses elementos se coadunam na formação do
Estado quando, com o aprofundamento da divisão social do trabalho, certas funções, como
as político-administrativas e as militares, acabam sendo titularizadas por um grupo específico
de pessoas, que exercem poder e determinam regras à vida coletiva, compondo o governo.

O surgimento do Estado

Na tradição do pensamento político, há duas correntes que explicam o surgimento do


Estado: naturalistas e contratualistas.
Para os naturalistas, o Estado é uma decorrência da natureza associativa humana e
da complexidade progressiva dos grupamentos sociais. A sociedade, que se desenvolve em
estruturas simples, vai se tornando complexa à medida em que avança a divisão do trabalho
social, aumentam os contingentes populacionais e se diversificam as necessidades e funções
sociais. Èmile Durkheim, nessa lógica, aponta a evolução das espécies sociais, partindo das
sociedades primitivas, simples, até as sociedades contemporâneas, complexas.
A necessidade humana de associação, bem como a impossibilidade de isolamento,
derivadas da afirmativa aristotélica da natureza política do ser humano, nessa perspectiva,
são desenvolvidas para caracterizar a sociedade, agregando-se as necessidades culturais,
políticas e jurídicas. Giorgio Del Vecchio define sociedade como o complexo de relações pelo
qual vários indivíduos vivem e operam conjuntamente, de modo a formarem uma nova e
superior unidade.
Compreende-se, dessa forma, que o conceito de sociedade se centra em relações,
das quais fazem parte duas dimensões: ética e moral. Na dimensão ética, as relações
equalizam deveres e direitos dos sujeitos, reciprocamente conectados, cuja liberdade para
agir e responsabilidade pelas ações se equilibram na dimensão moral. Assim, a sociedade se
desenvolve ante o alcance de objetivos e a manutenção da ordem. Os indivíduos, dotados de
affectio societatis, ou seja, vontade de viverem em conjunto, participam do desenvolvimento
social, conscientemente operando para a harmonia coletiva, o que dá origem a um novo ente,
autônomo e superior, cuja vontade predomina sobre a soma das vontades individuais.
Por essa ótica, a organização política e social figurada pelo Estado não é a fonte
primária das regras que permitem a existência humana em sociedade. Antes de surgir o
Estado, o chamado Direito Natural já ditava regras e normas comportamentais e de
convivência, dotadas do caráter imanente que provém da natureza humana.

Teorias não contratuais sobre o surgimento do Estado

Os naturalistas defendem a formação espontânea dos Estados, não havendo entre


eles uma coincidência quanto à causa, mas tendo em comum a afirmação de que o Estado
se forma naturalmente, e não por um ato de vontade específico. Dentre as teorias que
integram a corrente naturalista, destacam-se a Teológica, a da Origem Familiar, a Patrimonial,
a da Violência e a do Desenvolvimento Interno da Sociedade.
De acordo com a Teoria Teológica, o Estado foi fundado por Deus, assim como o
mundo e tudo o mais que nele existe. Partindo daí a Doutrina do Direito Divino Sobrenatural
afirma que o Estado é uma obra imediata de Deus, uma manifestação direta de seu poder no
universo, designando, o próprio Deus, a pessoa ou a família que, divinizada, exerce o poder
estatal. Já para a Doutrina do Direito Divino Providencial, o Estado é instituído pela graça da
providência divina, que o conduz indiretamente, uma vez que os homens, dotados de livre-
arbítrio, praticam seus atos e se organizam entre si, respondendo à onipresença divina. A
Teoria Teológica apoia o Estado Absolutista, fortalecendo-o. Tem como expoentes Santo
Agostinho, Jacques Bossuet e São Tomás de Aquino.
Segundo a Teoria da Origem Familiar, que tem em Durkheim um de seus defensores,
o Estado seria o resultado da evolução da família primitiva, que se desenvolve e amplia,
gradativamente, unindo-se a outros núcleos familiares diferentes, em fases sucessivas de
transformação. Essas doutrinas pressupõem que o Estado não seria mais do que uma
ampliação da família. Quando inexistente a propriedade privada, sendo os grupos sociais
nômades, afigurava-se a autoridade materna. A partir da apropriação privada, com a
possibilidade de transmissão hereditária do patrimônio, teria se configurado a autoridade
patriarcal. Os argumentos da Teoria da Origem Familiar remontam a períodos ancestrais e a
tradições místicas e religiosas da humanidade, em suas mais longínquas civilizações. Na
autoridade social do chefe familiar repousaria a justificação e o poder público da entidade
estatal. Grécia e Roma, segundo a tradição, teriam essa origem. No caso grego, a família era
o fundamento da fatria, que vinha a constituir a base da tribo. A polis, ou seja, a cidade-estado,
seria proveniente do agrupamento de tribos. No exemplo romano, o status familiae era
empregado tanto em sentido amplo, abrangendo o conjunto de descendentes de um parente
comum, a ele subordinadas, tanto quanto em sentido estrito, caracterizando a condição de
cada membro da família em função da autoridade do pater famílias (patriarca) e a submissão
dos filii famílias.
Conforme afirma Fustel de Coullanges, a família teria sido o primeiro agrupamento que
fez as vezes do Estado. Pela Doutrina Patriarcal, o Estado deriva de um núcleo familiar cuja
autoridade é exercida pelo ascendente varão mais velho, o patriarca. A origem do Estado
seria decorrente da tradição de um legislador primitivo, cuja personalidade teria outorgado as
regras de convivência e comportamento e as instituições sociais. O povo seria descendente
desse legislador originário. Um dos expoentes da doutrina patriarcal, o filósofo inglês Robert
Filmer, no século XVII, utilizou-se dessa concepção para justificar o direito divino dos Reis e
o absolutismo monárquico, no que, posteriormente, foi combatido por John Locke. De outra
banda, pela Doutrina Matriarcal, a primeira forma de organização familiar teria sido embasada
na figura materna. A família seria uma derivação da horda, comunidade rude e nômade, sem
comando imposto, caracterizada pela convivência em situação de total promiscuidade,
ensejando o surgimento da estrutura matrilínea. Uma vez que a paternidade dos filhos seria
incerta, mas a maternidade, por natureza, é identificável (mater semper certa est), teria sido
a mãe a dirigente e autoridade das famílias primitivas, de forma que o clã matronímico, mais
antiga forma de organização familiar, teria sido o fundamento da sociedade civil. No século
XIX, o suíço Jakob Bachofen comparou diferentes sociedades para defender a ordem social
religiosa e moralmente fundada na matriarca. Os argumentos de Bachofen, aliados aos
trabalhos de Lewis Morgan e de Henry Maine influenciaram Friderich Engels, que incorpora a
teoria do matriarcado primitivo em A origem da família, da propriedade privada e do Estado.
Engels é um dos expoentes da Teoria Patrimonial ou Econômica, segundo a qual o
Estado teria se formado para permitir que se aproveitassem os benefícios da divisão do
trabalho, integrando-se as diferentes atividades profissionais, caracterizando, assim, o motivo
econômico. Nesse prisma, a posse da terra originaria o poder, e a propriedade, o Estado. A
característica fundamental do Estado é, dessa forma, a soberania territorial. O Estado teria
surgido não só para que se perpetuasse a nascente divisão da sociedade em classes, mas
também o direito de a classe proprietária explorar e dominar a classe não-proprietária. Engels,
em conjunto com Karl Marx, afirma que o Estado é produto da sociedade, quando esta atinge
dado grau de desenvolvimento econômico. Dessa forma, o Estado seria fadado ao
desaparecimento, ao se extinguirem as relações de dominação e subordinação entre
proprietários e não-proprietários.
Na perspectiva materialista da história, os meios de produção determinam a
organização social, que evoluiria, em todas as sociedades, atravessando os mesmos
estágios: selvageria, barbárie e civilização. Segundo Engels, no estágio selvagem
prevaleceria a promiscuidade sexual no interior das tribos. A partir da barbárie, as tribos
começariam a ser divididas em gens, segundo a linhagem materna, abolindo-se os
casamentos endogâmicos. Os grupos que houvessem atravessado esse período teriam sido
favorecidos pela seleção natural. A propriedade dos meios de produção era coletiva e não
haviam classes sociais. Com o desenvolvimento da agricultura e o surgimento da propriedade
privada, os homens tomariam o controle social, exigindo fidelidade às mulheres para garantir
a herança de sua prole. O Estado teria surgido para legitimar essa nova realidade, mantendo
a ordem da sociedade dividida em classes. Contudo, as contradições internas desse sistema
o levarão à derrocada, com o consequente desaparecimento do Estado.
A Teoria da Violência alega que a superioridade, em termos de força, de um
determinado grupo social, permite que ele submeta grupos mais fracos, nascendo o Estado
dessa conjunção entre dominantes e dominados. O Estado teria sido criado para regular as
relações entre vencedores e vencidos, tendo por finalidade a manutenção da ordem –
econômica, política e social – imposta ao grupo vencido pelo vencedor. O polonês Ludwig
Gumplowicz, na segunda metade do século XIX, expoente dessa teoria, estabeleceu uma
dupla noção de propriedade: a propriedade individual sobre bens móveis, resultante do
trabalho do indivíduo, é um direito natural, mas a propriedade sobre a terra é ilegítima e
inadmissível. O solo, por sua natureza, não comporta a apropriação individual, pertence à
coletividade. Afirma esse autor que a propriedade de terra começou quando horda se
assenhorou de outra e obrigou os homens vencidos a cultivarem a terra em seu proveito. Em
seguida, a horda vencedora armou o poder para manter a defesa das suas conquistas. O
estado é a organização da supremacia da classe dominante. Textualmente: é um conjunto de
instituições que tem por finalidade assegurar o domínio de uma minoria vencedora sobre uma
maioria vencida. Completa essa concepção o princípio do fato consumado: o emprego da
violência não é permanente e toda guerra chega a um fim, quando os fracos renunciam a
continuar uma inútil resistência. Portanto, a natureza se encarrega de estabilizar uma situação
criada pela força predominante. A ordem estabelecida produz habito, o costume e o direito.
Segundo a Teoria do desenvolvimento interno da sociedade, o Estado é um germe,
uma potencialidade que existe em todas as estruturas sociais. Enquanto estas se mantiverem
simples, pouco desenvolvidas, o Estado permanece inativo. Com o desenvolvimento
crescente, porém, as sociedades se tornam complexas, levando o Estado a se constituir.
Nessa concepção, defendida por Robert Lowie não há fatores externos que impulsionem o
estabelecimento do Estado, mas o próprio desenvolvimento espontâneo da sociedade.

Teorias contratuais sobre o surgimento do Estado