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Filosofia

Prof.:

Índice-controle de Estudo
Unidade II Teoria do Conhecimento

Aula 7 Descartes e o racionalismo

Aula 8 O empirismo

Aula 9 Kant e o criticismo

Aula 10 Introdução à Lógica

Aula 11 A verdade

Unidade III Ética

Aula 12 Introdução à Ética


Código: 82707128
anglo
SISTEMA DE ENSINO

CONSELHO EDITORIAL
Guilherme Faiguenboim
Nicolau Marmo

COORDENAÇÃO EDITORIAL
Assaf Faiguenboim

EDIÇÃO
Maria Ilda Trigo

ASSISTÊNCIA EDITORIAL
Creonice de Jesus S. Figueiredo
Kátia A. Rugel Vaz
Maria A. Augusta de Barros
Paula P. O. C. Kusznir
Silene Neres Teixeira Paes

ARTE E EDITORAÇÃO
Gráfica e Editora Anglo Ltda.

IMPRESSÃO E ACABAMENTO
Gráfica e Editora Anglo Ltda.

Gráfica e Editora Anglo Ltda.


MATRIZ
Rua Gibraltar, 368 - Santo Amaro
CEP 04755-000 - São Paulo - SP
(0XX11) 3273-6000
www.angloconvenio.com.br

Código: 82703128
2008
Unidade II

TEORIA DO CONHECIMENTO
Aula
7
Descartes e o racionalismo
Para pensar

Alguma vez você já sonhou que estava sonhando? Ou, então, você já teve, em sonho, a sensação de
estar despertando de um sonho? Nesse caso, deve-se questionar: será que podemos estabelecer critérios
para diferenciar o sono da vigília? O que nos garante que a nossa percepção e o nosso entendimento
sobre as coisas sejam reais?

Observe a imagem e leia o trecho que segue:

René Magritte, Golconda, óleo sobre tela, 1953.

“Surrealismo, substantivo. Automatismo puramente Mas o que é exatamente o racionalismo? Como


físico através do qual se pretende expressar, verbal- se originou esse sistema filosófico tão importante
mente, por escrito ou de outra forma, a verdadeira fun- e, ao mesmo tempo, tão criticado?
ção do pensamento. Pensamento ditado na ausência de O racionalismo cartesiano
qualquer controle manifestado pela razão, e fora de
quaisquer preocupações estéticas e morais.” O pensador francês René Descartes (1596 – 1650)
propôs um sistema filosófico – ou seja, um conjunto
(André Breton, Primeiro Manifesto do Surrealismo, 1924.)
coerente de conhecimentos – que tornava possíveis
A pintura de René Magritte (1898 – 1967) – um respostas para todas as questões filosóficas. Antes
dos principais expoentes do Surrealismo – remete- de Descartes, na Grécia antiga, Platão e Aristóteles
nos a uma atmosfera de sonho, uma vez que nela haviam criado sistemas que foram atualizados, na
não reconhecemos o que costumamos chamar de re- Idade Média, por Santo Agostinho (séculos IV – V) e,
alidade. Os surrealistas, assim como outros artistas e sobretudo, por São Tomás de Aquino (século XIII),
pensadores do século XX, opuseram-se ao pensa- ambos sob a influência do cristianismo. Com a ver-
mento racional, valorizando o onírico, a ausência de dadeira revolução científica que foi o Renascimento
regra, o inconsciente, o que escapa à razão. Pen- – e que resultou em novas formas de ver e interpre-
savam, assim, estar elaborando uma crítica à cul- tar o mundo –, surgiu a possibilidade de desenvolvi-
tura ocidental, fortemente baseada no racionalismo. mento de um novo sistema.

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Os avanços espetaculares na explicação do Essa capacidade é fruto da razão; portanto, a única
mundo por parte das ciências naturais (que cul- certeza que temos, e que nos define enquanto indiví-
minaram com Newton no final do século XVII) sus- duos, é nossa capacidade de pensar. O pensamento
citaram o questionamento: seria possível atingir, existe, e como não pode ser separado do indivíduo,
no conhecimento filosófico, o mesmo grau de cer- o indivíduo também existe. Essa formulação foi re-
teza das ciências naturais? Se o universo era des- sumida na famosa expressão de Descartes: “penso,
crito como um mecanismo sofisticado, cujo fun- logo existo” (em latim, “cogito ergo sum”).
cionamento parecia cada vez mais evidente para a Uma decorrência dessa formulação é a crença
razão humana, não poderia ocorrer o mesmo com de que o Eu pensante é mais real do que o mundo
a alma? Não haveria uma explicação completa para físico. Em outras palavras, a formulação que funda
o funcionamento do ser humano, para além do todo o conhecimento verdadeiro tem origem
corpo material? Qual seria a relação entre corpo metafísica (ou seja, está além da física): trata-se da
e alma? Tais questões foram abordadas por Des- descoberta da alma por si mesma. Assim, a ex-
cartes. pressão “eu sou, eu existo” é necessariamente ver-
dadeira e incontestável a partir do momento em
O princípio da dúvida que foi enunciada. Ela é verdadeira porque existe
um sujeito pensante capaz de dizê-la.
O ponto de partida de Descartes na busca por
Da mesma maneira que o homem pode conceber
um conhecimento verdadeiro foi o chamado prin-
a si mesmo, ele também pode conceber deus, e esta
cípio da dúvida: deveríamos desconfiar não ape-
seria uma prova de sua existência: se concebemos
nas do saber passado, mas também daquilo que
um ser perfeito, ele necessariamente existe, uma
nos é oferecido pelos sentidos. Cada objeto do
vez que não existir seria uma imperfeição. É por
mundo material se apresenta de forma tão diversa
isso que a existência das coisas guarda relação com
e tão mutante diante de nós, que se torna teme-
a proximidade que elas têm do pensamento. Dessa
rário basear-se somente nos sentidos para se che-
forma, a existência dos objetos materiais – por
gar a qualquer conclusão definitiva. Em outras pa-
exemplo, uma mesa, uma cadeira (mas também o
lavras, deve-se duvidar de toda idéia que pode ser
sol ou a lua) – não seria comprovada pela forma
posta em dúvida.
como os percebemos pelos sentidos, mas pelo fato
A realidade percebida pelos sentidos é engano-
de possuírem propriedades quantitativas que
sa “e é de prudência nunca se fiar inteiramente em
podem ser medidas e expressas racionalmente em
quem já nos enganou uma vez” (Meditações, I, 3).
relações matemáticas, como comprimento, largu-
Além disso, nunca podemos ter certeza de estar vi-
ra, altura. Deus, o ser perfeito, não nos engana: ele
vendo uma experiência real ou de estar apenas
é a garantia de que as relações matemáticas do
sonhando. Descartes utilizou um exemplo para ex-
mundo material correspondem a coisas concretas.
plicar as mutações dos objetos do mundo material:
um pedaço de cera que acabou de ser retirado de O método racional
uma colméia é doce, tem ainda o perfume das flo-
res de onde foi colhido; é duro, frio e produz um Descartes dedicou-se ao estudo das relações en-
determinado som quando nele batemos. Conforme tre as formas, no campo da geometria (você deve
aproximamos o pedaço de cera do fogo, seu odor conhecer o sistema de coordenadas cartesianas). A
desaparece, sua forma e cor se modificam e ele matemática, que decompõe problemas complexos
acaba se transformando em líquido e pode esquen- em partes menores e os resolve um de cada vez,
tar até que não possamos mais tocá-lo. Ainda é era vista por Descartes como exemplo de método
cera, mas os sentidos a percebem de maneira com- racional.
pletamente diferente. Essa percepção da natureza Da mesma maneira que os complexos problemas
da cera, que se apresenta de forma tão diversa, é da matemática, os objetos materiais (ou seja, aque-
fruto da faculdade de entender, que se encontra les que têm extensão, que ocupam espaço) também
dentro de cada sujeito. podem ser decompostos em partes menores, mas a
alma (ou o pensamento) não: uma vez que é cons-
ciência pura, não ocupa lugar no espaço.
“Penso, logo existo.”
Mesmo reconhecendo que o homem é um ser
Uma vez que somos capazes de duvidar de tudo e duplo – ao mesmo tempo corpo e alma, ou seja, ex-
de todos, a única certeza absolutamente incontes- tensão e consciência –, Descartes instaurou a sepa-
tável é justamente a nossa capacidade de duvidar. ração entre matéria e pensamento. Sendo assim,

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o sujeito consciente se opõe ao objeto, àquilo que Tarefa mínima
é conhecido. Descartes foi o fundador da Filosofia
do Eu ou Filosofia do sujeito, segundo a qual todo Arquimedes, para tirar o globo terrestre de seu
conhecimento é visto como originário de uma ela- lugar e transportá-lo para outra parte, não pedia
boração individual. mais que um ponto que fosse fixo e seguro. Assim,
O pensamento de Descartes retoma a tradição terei o direito de conceber altas esperanças, se for
do racionalismo, cujas origens remontam a Platão bastante feliz, para encontrar somente uma coisa
e que se funda na idéia de o saber se originar na que seja certa e indubitável.
razão, que antecede e explica todo o real. Tal Suponho, portanto, que todas as coisas que vejo
concepção teve profunda influência no pensamen- são falsas; persuado-me de que jamais existiu de tu-
to filosófico ocidental, embora questionada, ainda do quanto minha memória referta [cheia] de menti-
no século XVI, pela escola do empirismo, que es- ras me representa; penso não possuir nenhum sentido;
tudaremos na próxima aula. creio que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e
o lugar são apenas ficções do meu espírito. O que po-
exercícios derá, pois, ser considerado verdadeiro? Talvez nenhuma
outra coisa a não ser que nada há no mundo de certo.
Mas que sei eu, se não há nenhuma outra coisa
1. “É de prudência nunca se fiar inteiramente em quem
diferente das que acabo de julgar incertas, da qual não
já nos enganou uma vez”. se possa ter a menor dúvida? Não haverá algum Deus,
(Descartes, Meditações.)
ou alguma potência, que me ponha no espírito tais
a) A afirmação de Descartes se refere a uma pensamentos? Isso não é necessário; pois talvez seja eu
idéia que é ponto de partida de seu pensa- capaz de produzi-los por mim mesmo. Eu então, pelo
mento. De que se trata? menos, não serei alguma coisa? Mas já neguei que
tivesse qualquer sentido ou qualquer corpo. Hesito, no
A citação faz referência à desconfiança em relação
entanto, pois que segue daí? Serei de tal modo depen-
aos sentidos, que nos enganam. dente do corpo e dos sentidos que não possa existir
sem eles? Mas eu me persuadi de que nada existia no
mundo, que não havia nenhum céu, nenhuma terra,
espíritos alguns, nem corpos alguns: não me persuadi
também, portanto, de que eu não existia? Certamente
b) A que outro importante pensador essa idéia
não, eu existia sem dúvida, se é que me persuadi, ou,
remete?
apenas, pensei alguma coisa. De sorte que, após ter
A Platão, que também baseou seu sistema filosófico pensado bastante nisso e de ter examinado cui-
na desconfiança em relação aos sentidos. dadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e
ter por constante que esta proposição, eu sou, eu exis-
to, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a
enuncio ou que a concebo em meu espírito.
(René Descartes, Meditações metafísicas.)
2. Segundo Descartes, qual nossa única certeza?
Nossa capacidade de pensar, que definiria nossa existên- No início do texto, Descartes afirma que Arqui-
cia (“penso, logo existo”). medes necessitou de um ponto fixo e seguro para
transportar o globo terrestre para outra parte. Qual
o “ponto fixo” encontrado por Descartes para sus-
tentar seu pensamento?

3. Qual a principal característica do método ra- O próprio pensamento – prova da existência de um “eu”
cional? autônomo. A existência do “eu” seria comprovada cada vez
A decomposição de um problema ou objeto em partes que um pensamento é enunciado.
menores, para posterior análise.

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Tarefa complementar verdadeiro só pode nascer do trabalho interior realizado
pela razão, graças a seu próprio esforço, sem aceitar
dogmas religiosos, preconceitos sociais, censuras políti-
cas e os dados imediatos fornecidos pelos sentidos. Só a
razão conhece e somente ela pode julgar-se a si mesma;
2) que a Filosofia moderna realiza a primeira desco-
berta da Subjetividade propriamente dita porque nela o
primeiro ato do conhecimento, do qual dependem todos
os outros, é a Reflexão ou a Consciência de Si reflexiva.
Isto é, os modernos partem da consciência da consciên-
cia, da consciência do ato de ser consciente, da volta da
consciência sobre si mesma para reconhecer-se como
sujeito e objeto do conhecimento e como condição de
René Magritte, verdade. A consciência é para si mesma o primeiro ob-
O princípio jeto do conhecimento, ou o conhecimento de que é ca-
do prazer
(Retrato de pacidade de e para conhecer;
Edward James), 3) que a Filosofia moderna é a primeira a reconhecer
óleo sobre tela, que, sendo todos os seres humanos seres conscientes e
1937.
racionais, todos têm igualmente o direito ao pensamen-
Como vimos, os surrealistas criticaram a pri- to e à verdade. Segundo Hegel, essa afirmação do direi-
mazia do pensamento racional nas sociedades oci- to ao pensamento, unida à idéia de liberdade da razão
dentais e defenderam a importância do sonho e da para julgar-se a si mesma, portanto, o igualitarismo inte-
ausência de controle. lectual e a recusa de toda a censura ao pensamento e à pa-
A postura desses artistas, bem como a de mui- lavra, seria a realização filosófica de um princípio nascido
tos outros críticos do racionalismo, é bastante com- com o protestantismo e que este, enquanto mera reli-
preensível, uma vez que a razão humana, apesar de gião, não poderia cumprir, precisando da Filosofia para
muito importante, não é o único aspecto que nos realizar-se: o princípio da individualidade como subje-
diferencia e nos ajuda a atuar sobre a realidade. A tividade livre, que se relaciona com o infinito e com a
imaginação, as emoções, a sensibilidade são carac- verdade.
terísticas humanas que têm sua função específica e (…)
não deveriam ser vistas como “inferiores” à razão. A primeira intuição evidente, verdade indubitável de
onde partirá toda a Filosofia moderna, concentra-se na
Qual sua opinião sobre isso? Você acha que a
célebre formulação de Descartes “Penso, logo existo”
razão é mais importante do que as emoções ou a
(Cogito ergo sum). O pensamento consciente de si como
imaginação? Procure justificar sua resposta.
“Força Nativa” (a expressão é de Espinosa*), capaz de ofe-
A resposta é livre e pode resultar tanto de uma reflexão pes- recer a si mesmo um método e de intervir na realidade
soal quanto de um amplo debate com a turma. No Manual do natural e política para modificá-la, eis o ponto fixo en-
contrado pelos modernos.
professor há observações sobre o encaminhamento dessa
(Marilena Chauí, Aspectos da História da Filosofia.)
tarefa.
* Filósofo que viveu no século XVII (1632 – 1667).

LEITURA COMPLEMENTAR
O que significa o trecho: “a consciência é para si
mesma o primeiro objeto do conhecimento”?
A idéia moderna de razão O primeiro conhecimento que a consciência busca é sobre si
Em seu livro História da Filosofia, Hegel declara que mesma, ou seja: ela reconhece a sua existência. É o princípio
a Filosofia moderna é o nascimento da Filosofia propria-
que está por trás da expressão “Penso logo existo” e aponta
mente dita porque nela, pela primeira vez, os filósofos
afirmam: para a reflexão enquanto característica do pensamento
1) que a Filosofia é independente e não se submete filosófico (no sentido da capacidade de voltar o pensamento
a nenhuma autoridade que não seja a própria razão co-
para si mesmo).
mo faculdade plena de conhecimento. Isto é, os moder-
nos são os primeiros a demonstrar que o conhecimento

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Aula
8
O empirismo
Para pensar

Faça uma experiência simples: pegue um objeto, segure-o a uma certa altura do chão e largue-o.
Logicamente, ele cairá.
Mais do que simples, essa experiência pode ser considerada banal, mas certamente foi importante
para que Newton desenvolvesse a teoria da gravitação, uma vez que ele se baseou nos fenômenos ob-
servados na natureza para criar modelos matemáticos de explicação. Em outras palavras, as teorias de
Newton simplesmente se fundamentam em eventos da natureza que costumam se repetir. Porém, o que
garante que eles vão continuar se repetindo? Existe algo que prove que as leis da natureza, conforme as
conhecemos, vão continuar sendo válidas no futuro?

Observe a imagem:

Robert Rauschenberg. White painting (três painéis), óleo sobre tela, 1951.

Nos anos 1950, o artista plástico norte-ameri- Mas, afinal, qual o significado de compor e ex-
cano Robert Rauschenberg revolucionou o mun- por uma tela em branco? E por que a concepção de
do das artes ao apresentar suas primeiras White Locke é tão importante? É o que vamos tentar en-
paintings (pinturas brancas). tender agora.
Muito antes de Rauschenberg propor essa re-
flexão sobre a importância do branco – do vazio – O empirismo
para a construção de significados, ele já era tema da Durante o século XVII, surgiu na Inglaterra um
Filosofia. Como veremos nesta aula, John Locke – intenso questionamento sobre o racionalismo de
importante pensador inglês do século XVII – con- Descartes. Esse questionamento deu origem a uma
cebeu nossa mente como um “painel em branco”. nova tradição, baseada no empirismo.
Dessa forma, estabeleceu um diálogo crítico com A oposição entre racionalismo e empirismo reto-
Descartes e refutou a teoria racionalista sobre as ma muitas das questões que surgem quando se con-
idéias inatas. trapõem as teorias do conhecimento de Platão e de

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Aristóteles. O empirismo, assim como a teoria aris- que são interpretadas e sentidas de forma dife-
totélica, fundamenta-se no princípio de que todas rente por diferentes sujeitos. Já as idéias simples
as idéias se originam da experiência sensível. Des- produzidas pela reflexão são operações mentais,
sa forma, o conhecimento verdadeiro buscado pela como percepção, retenção, discernimento, compa-
Filosofia deve basear-se no conhecimento da natu- ração. As idéias complexas surgem a partir da com-
reza (obtido, por exemplo, pela Física experimen- binação de várias idéias simples. Por exemplo, po-
tal), e não num modelo matemático abstrato e rigo- demos combinar em nossa mente as idéias simples
rosamente dedutível, como queria Descartes. O uso de espaço, duração e quantidade e, a partir delas,
da Física como paradigma – isto é, modelo – desse criar a idéia complexa de infinito.
novo tipo de pensamento reflete a forte impressão A investigação sobre os processos mentais e a
causada pelas descobertas do também inglês Isaac origem do conhecimento empreendida por Locke
Newton (1642 – 1727) em seus contemporâneos. tem um sentido moral, na medida em que é vista
Dois dos mais ilustres pensadores empiristas como forma de aperfeiçoar a vida dos homens. Sua
britânicos foram John Locke (1632 – 1704) e David preocupação com o caráter social da existência hu-
Hume (1711 – 1776). Vamos agora conhecer suas mana deu origem a importantes escritos políticos,
teorias. que examinaremos mais adiante.

John Locke David Hume


“Suponhamos, pois, que a mente é, como disse- O pensamento de Hume, marcado por forte ceti-
mos, um papel branco, desprovida de todos os ca- cismo, parte da constatação, típica do empirismo,
racteres, sem quaisquer idéias; como ela será su- de que aquilo que se apresenta ao conhecimento é
prida? De onde vem este vasto estoque, que a ativa fruto das impressões (proporcionadas pelos senti-
e que a ilimitada fantasia do homem pintou nela dos) e da articulação de idéias (representações da
com uma variedade quase infinita? De onde obtém memória e da imaginação, por sua vez, cópias modi-
todos os materiais da razão e do conhecimento? A ficadas das impressões). Os fatos concretos, perce-
isso respondo, numa palavra, da experiência. Todo bidos pelos sentidos, devem ser aceitos como tais;
nosso conhecimento está nela fundado, e da expe- não necessitam, portanto, de nenhuma demonstra-
riência deriva fundamentalmente o próprio conheci- ção. As idéias, bem como suas articulações, também
mento.” têm origem na experiência. Por exemplo, quando
Com essas palavras – extraídas do livro Ensaio percebemos o movimento, podemos intuir os con-
acerca do entendimento humano – John Locke afir- ceitos de espaço e tempo.
ma suas convicções empiristas. Nessa mesma Para Hume, é impossível um conhecimento que
obra, rejeita o pensamento cartesiano dizendo: se não tenha bases concretas, e as próprias palavras,
existe uma razão inata (ou seja, com a qual já nas- quando usadas para se referir a algo que esteja
cemos) e que seria a origem do conhecimento, para além do concreto, não têm significado. Por exemplo,
que serviriam nossos sentidos? Os sentidos servem, a afirmação de que o universo é formado por duas
evidentemente, para obtermos o conhecimento das substâncias (matéria e espírito) é vazia, uma vez
coisas. Então por que deveria existir alguma outra que o conceito de “substância” não se relaciona a
fonte do conhecimento? Segundo Locke, nossas nenhuma experiência dos sentidos.
idéias derivam da reflexão sobre o que foi apreen- Todavia, Hume vê uma limitação na capacidade
dido pelos sentidos. A experiência externa propor- humana de conhecer: a tendência a estabelecer re-
cionada pelos sentidos tornaria possível a experi- lações de causalidade. Quando observamos que uma
ência interna. Assim, experiência e reflexão seri- bola de bilhar bate na outra e provoca movimento,
am as fontes de todas as idéias. dizemos: “a bola moveu-se porque uma outra a
Locke identifica dois tipos de idéias: as simples atingiu”. Para Hume, tal frase não tem sentido por-
e as complexas. Idéias simples são aquelas que que está baseada em uma noção de causalidade que
surgem dos sentidos e da reflexão. As idéias sim- não pode ser comprovada. “A bola moveu-se” é
ples originadas dos sentidos dependem das quali- verdadeiro, “uma outra a atingiu” também é verda-
dades dos objetos. Existem qualidades primárias deiro: ambos os fatos são impressões visuais. O que
(como extensão, forma, repouso e movimento, so- não se explica é a palavra “porque” unindo as duas
lidez), que são objetivas – portanto, percebidas da proposições. Segundo Hume, a origem desse por-
mesma forma por todas as pessoas –; e qualidades quê reside na forma como percebemos um hábito
secundárias (como gostos, odores, ruídos e sons), da natureza: os dois fenômenos sempre se repetem,

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e isso nos leva a crer que continuarão a se repetir. O princípio da causalidade e a conseqüente crença na
Portanto, as relações de causa e efeito com que li- existência de uma causa primeira.
damos (base das ciências) estão fundamentadas na
crença.
Dessa constatação, conclui-se que as únicas cer-
tezas que a Filosofia nos proporciona se encontram 3. Leia as frases que seguem. Em sua opinião, qual
no campo da moral, identificada por Hume como um delas pode ser atribuída a Locke? Qual pode ser
conjunto de virtudes aprovadas pela sociedade con- atribuída a Descartes? Justifique sua resposta.
forme sua utilidade. Por exemplo, não há um fun- I. “Primeiramente, considero haver em nós certas
damento lógico para a existência da propriedade noções primitivas, as quais são como originais, sob
privada, mas simplesmente o reconhecimento de que cujo padrão formamos todos os nossos outros co-
esse tipo de instituição poderia ser útil aos homens, nhecimentos.”
ou seja, adequada a uma situação considerada boa. II. “Penso não haver mais dúvida de que não há prin-
A desconfiança de Hume em relação à causali- cípios práticos com os quais todos os homens
dade pode ser vista como um questionamento sobre concordam e, portanto, nenhum é inato.”
as supostas certezas geradas pelo conhecimento A frase I pode ser atribuída a Descartes, uma vez que
científico. Porém, seu alvo era outro. Ao estabele-
ela defende a noção de idéias inatas. Já a frase II, jus-
cer uma crítica ao princípio da causalidade,
Hume pretendia questionar toda uma tradição do tamente por se opor a essa noção, pode ser atribuída a
pensamento metafísico segundo a qual, se todas as Locke.
coisas do mundo têm uma causa, então deve haver
uma causa primeira, isto é, um deus criador do
Tarefa mínima
universo.

Supondo de novo que o mesmo homem tenha


exercícios adquirido mais experiência e que tenha vivido o sufi-
ciente no mundo para observar que os objetos ou even-
tos familiares estão constantemente ligados; qual a
1. Assinale R para as afirmações que se referem
conseqüência desta experiência? Imediatamente infere
ao racionalismo, e E para as que se referem ao
a existência de um objeto pelo aparecimento de outro.
empirismo:
Entretanto não adquiriu, com toda sua experiência,
a) Explica os fenômenos a partir dos princí-
nenhuma idéia ou conhecimento do poder oculto, me-
pios. ( R )
diante o qual um dos objetos produziu o outro; e não
b) Baseia-se na razão. ( R )
será um processo de raciocínio que o obriga a tirar
c) Tem como modelo a Física. ( E )
esta inferência. Mas ele se encontra determinado a
d) Tem como método a teoria. ( R )
tirá-la; e mesmo se ele fosse persuadido de que seu en-
e) Baseia-se na experiência. ( E )
tendimento não participa da operação, continuaria
f) Explica os princípios a partir dos fenôme-
pensando o mesmo, porquanto há um outro princí-
nos. ( E )
pio que o determina a tirar semelhante conclusão.
g) Tem como modelo a Matemática. ( R )
Este princípio é o costume ou hábito. (…)
h) Tem como método o experimento. ( E )
O costume é, pois, o grande guia da vida humana. É
2. a) De certa maneira, os empiristas retomam idéias o único princípio que torna útil nossa experiência e nos
de um importante pensador grego. Quem é faz esperar no futuro uma série de eventos semelhan-
esse pensador? tes àqueles que apareceram no passado. Sem a influên-
Ao defender a importância dos sentidos para o conhe-
cia do costume, ignoraríamos completamente toda ques-
tão de fato que está fora do alcance dos dados imedia-
cimento, os empiristas retomam importante idéia de tos da memória e dos sentidos. Nunca poderíamos saber
Aristóteles. como ajustar os meios em função dos fins, nem como
empregar nossas faculdades naturais para a produção
de um efeito. Seria o fim de toda a ação como também
de quase toda especulação.
b) Apesar dessa retomada, Hume, em específi-
(David Hume, Investigação acerca do
co, nega um princípio fundamental para a entendimento humano.)
teoria desse filósofo. Qual?

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Sobre o texto, responda: A vida ficcional
1. Qual o significado da expressão “poder ocul- Vivemos uma vida crescentemente ficcional. São mui-
to”, que aparece no primeiro parágrafo? tos os sintomas. O cuidado narcísico de si; o corpo físico
A expressão refere-se à relação de causalidade, ou seja, como território livre para intervenções médico-estéticas;
ao “porquê”, que liga uma causa a um efeito. a recusa da angústia; a busca por oportunidades de rea-
firmar e estender nossa identidade e marca pessoal; a tri-
balização das relações como alternativa ao esgarçamen-
to dos laços familiares; a obsessão pela fama ou ainda a
2. Hume desconfia das explicações da ciência, mas “febre” confessional dos blogs.
jamais diminui a importância do conhecimento Estamos à procura de cosméticos do corpo e da alma.
dos hábitos da natureza. A partir do texto, pro- Apreciamos narrativas de origens, fantasias sobre tem-
cure identificar elementos que comprovem essa pos remotos e tramas misteriosas. Os híbridos de ficção
importância. e realidade nos encantam. De certa forma, estamos em
“O conhecimento do costume é o grande guia da vida hu- busca de nosso avatar*. E é sintomático que seja esse o
termo (oriundo do sânscrito) usado para designar os par-
mana”, pois permite adequar meios a fins, ou seja, pro-
ticipantes em muitos ambientes e comunidades virtuais:
duzir efeitos, construir coisas, garantindo a sobrevivência afinal, quer-se algo de transcendente na imanência* do
do homem. cotidiano.
Neste sentido, mundos virtuais 3D como o Second
Life são autênticos palcos para a vida ficcionalizada,
plataformas para exercício da subjetividade contempo-
Tarefa complementar rânea. Não é por outra razão que o Second Life seduz a
mídia e as marcas (globais e locais). (…)
A intensidade icônica* do Second Life faz da vida vir-
tual uma projeção ficcional da vida real, on-line e no
tempo do relógio real. Se vida real insiste porque a ela
estamos atados, a vida virtual seduz, pois nela agimos
como atores e diretores de narrativas de vida. (…)
(Abel Reis em http://p.php.uol.com.br/tropico/
html/textos/2860,1.shl, acesso em 06/02/2008.)

* avatar: na crença hinduísta, descida de um ser divino à Terra,


em forma materializada (adaptado do sânscrito avatára, que
significa “descida do Céu à Terra”).
* imanência: atributo do que é inerente ao mundo concreto e
material, à natureza; a realidade material, em sua concretude.
Lygia Clark, Diálogo: Óculos, 1968
(da série Objetos sensoriais, 1966 – 1968). * icônica: relativo a ícone (signo que apresenta uma relação de
semelhança ou analogia com o objeto que representa).
A discussão sobre a importância da experiência
para a construção de sentido não se limita à Filosofia,
Como você interpreta o último período do texto:
expandindo-se para as questões de nosso cotidiano.
“Se vida real insiste porque a ela estamos atados, a
Um exemplo de como ela continua atual é o de-
vida virtual seduz, pois nela agimos como atores e
bate sobre os prejuízos da tecnologia para as rela-
diretores de narrativas de vida”? Na sua opinião, a
ções humanas, principalmente num momento his-
construção de mundos virtuais prejudica nosso
tórico em que o contato com o mundo é cada vez
contato com o mundo real?
mais mediado pelos novos meios de comunicação,
em especial pela internet. Assim, muitos afirmam A resposta não está fechada e pode resultar tanto de uma
que corremos o risco de o virtual se sobrepor ao real
reflexão individual quanto de um amplo debate com a turma.
e enxergam na virtualidade um afastamento peri-
goso da experiência e da realidade concreta, com No Manual do professor, há orientações para o desenvolvi-
todos os prejuízos que isso pode acarretar, dentre mento dessa tarefa.
eles, o fortalecimento do individualismo, da aliena-
ção, da solidão e da indiferença em relação ao outro.
Sobre isso, leia o trecho que segue:

ensino médio – 1ª- série 11 sistema anglo de ensino


LEITURA COMPLEMENTAR achei dentro, foi que todo o mundo não tem mais es-
pírito que Voltaire, nem mais gênio que Napoleão. (…)
Sim. Meus amigos. Choro lágrimas de sangue com a
Leia agora crônica de Machado de Assis, em minha descoberta; mas que lhes hei de fazer? Console-
que ele defende a necessidade de uma postura mo-nos com o ser simplesmente Macário ou Pantaleão.
crítica e, mais que isso, cética diante das idéias que Multipliquemo-nos para vários efeitos, para fazer um
nos são impostas. banco, uma câmara legislativa, uma sociedade de dança,
de música, de beneficência, de carnaval, e outras muitas
O mundo das idéias em que o óbolo* de cada um perfaz o milhão de todos;
“Há alguém, disse o Sr. Senador João Alfredo, citan- mas contentemo-nos com isso.
do um velho dito conhecido, há alguém que tem mais Nem me retruque o leitor com o fato de ter de um lado
espírito que Voltaire, é todo o mundo.” a opinião do autor da idéia, e as gerações que a têm
Não sei se já alguma vez disse ao leitor que as idéias, repetido e acreditado, enquanto do outro estou apenas eu.
para mim, são como as nozes, e que até hoje não des- Faça de conta que sou aquele menino que, quando toda a
cobri melhor processo para saber o que está dentro de gente admirava o manto invisível do rei, quebrou o en-
umas e de outras, – senão quebrá-las. canto geral, exclamando: – El-rei vai nu! Não se dirá que,
Aos vinte anos, começando a minha jornada por esta ao menos nesse caso, toda a gente tinha mais espírito que
vida pública que deus me deu, recebi uma porção de Voltaire. Está-me parecendo que fiz agora um elogio a
idéias feitas para o caminho. Se o leitor tem algum filho mim mesmo. Tanto melhor; é a minha doutrina.
prestes a sair, faça-lhe a mesma coisa. Encha uma pe- 3/mar./1885
quena mala com idéias e frases feitas, se puder, abençoe (Machado de Assis, Crônicas escolhidas.)

o rapaz e deixe-o ir. * óbolo: pequeno donativo feito aos pobres; esmola.
Não conheço nada mais cômodo. Chega-se a uma
Sobre o texto, leia as afirmações que seguem:
hospedaria, abre-se a mala, tira-se uma daquelas coisas,
e os olhos dos viajantes faíscam logo, porque todos eles I. O autor propõe que se quebrem as idéias co-
as conhecem desde muito, e crêem nelas, às vezes mais mo se quebram nozes. Duvidar de tudo aqui-
do que em si mesmos. É um modo breve e econômico de lo que nos é passado como certezas é uma
fazer amizade. maneira de se fazer isso.
Foi o que me aconteceu. Trazia comigo na mala e nas II. O autor enfatiza que o motivo para que se
algibeiras uma porção dessas idéias definitivas, e vivi acredite tão facilmente em idéias prontas é o
assim, até o dia em que, ou por irreverência do espírito, comodismo, já que duvidar – ou seja, ter
ou por não ter mais nada que fazer, peguei de um que- uma postura crítica – significa abrir mão das
bra-nozes e comecei a ver o que havia dentro delas. Em certezas, o que não é muito confortável, po-
algumas, quando não achei nada, achei um bicho feio e dendo até mesmo trazer prejuízos aos rela-
visguento. cionamentos sociais.
Não escapou a este processo a idéia de que todo o III. Os argumentos do autor não devem ser leva-
mundo tem mais espírito do que Voltaire, inventada por dos em consideração, pois, opondo-se ao pen-
um homem ilustre, o que foi bastante para lhe dar cir- samento da maioria, ele está simplesmente
culação. E, palavra, no caso desta, senti profundamente sendo “do contra”. No final, deve prevalecer
o que me aconteceu. a opinião do coletivo.
Com efeito, a idéia de que todo o mundo tem mais Está correto o que se afirma em:
espírito do que Voltaire é consoladora, compensadora e a) apenas III.
remuneradora. Em primeiro lugar, consola a cada um de ➜ b) apenas I e II.
nós de não ser Voltaire. Em segundo lugar, permite-nos c) apenas I e III.
ser mais que Voltaire, um Voltaire coletivo, superior ao d) apenas II e III.
Voltaire pessoal. Às vezes éramos vinte ou trinta amigos; e) I, II e III.
não era ainda todo o mundo, mas podíamos fazer um
oitavo de Voltaire, ou um décimo. Vamos ser um décimo A afirmação III está incorreta. O fato de o autor “estar sozi-
de Voltaire? Juntávamo-nos; cada um punha na panela nho” em suas convicções não diminui a força de sua argumen-
comum o espírito que deus lhe deu, e divertíamo-nos tação, já que ele pretende, justamente, desmascarar esse
muito. Saíamos dali para a cama, e o sono era um regalo.
mecanismo que nos faz acreditar todos nas mesmas coisas,
Perdi tudo isto. Peguei desta compensação tão cômo-
da e barata e deitei-a fora. Funesta curiosidade! O que sem questionar. As demais afirmações estão corretas.

ensino médio – 1ª- série 12 sistema anglo de ensino


Aula
9
Kant e o criticismo
Para pensar

Você deve se lembrar do exemplo que usamos na aula 4. Voltemos a ele: se uma bola entra na sala de
aula, você olha na direção da janela para tentar descobrir quem a jogou, ou seja, você usa seus sentidos
e seu raciocínio para chegar ao conhecimento da situação.
Será que é possível fazer o mesmo numa situação mais complexa? Temos condições, por exemplo, de
obter um conhecimento seguro sobre a origem do universo? Pensadores como Aristóteles resolviam
essa questão empregando a idéia de deus (causa primeira de todas as coisas). Mas a idéia ou a existên-
cia de deus podem realmente ser explicadas pelo pensamento?

Observe a imagem:

Jackson Pollock. Número 4.


Óleo, esmalte e alumínio sobre tela, 1950.

Se você tentar descrever a pintura do artista nor- beleza – repousa, portanto, sobre duas fontes: a ex-
te-americano Jackson Pollock (1912 – 1956), prova- periência obtida quando lançamos um primeiro
velmente terá dificuldades, pois, num primeiro mo- olhar sobre a imagem, aliada àquilo que podemos
mento, não identificamos nela nenhuma imagem formular em nosso pensamento a partir dessa
conhecida, só um conjunto de cores e traços. Porém, visão.
observando com atenção – e sabendo que o artista Essa relação entre experiência e pensamento é
pintava em pé, com a tela estendida no chão, sob o princípio da teoria de um importante pensador
seus pés –, a obra vai ganhando sentido: podemos alemão, cujas idéias vamos estudar agora.
identificar os movimentos feitos pelo artista, a forma
como ele passou o pincel por cima da tela, definindo Vida e obra de Kant
a distribuição das cores e dividindo o espaço. Existem, na história da Filosofia, algumas bio-
Nosso conhecimento sobre essa pintura – e, con- grafias surpreendentes. Alguns filósofos tinham há-
seqüentemente, nossa capacidade de apreciar sua bitos curiosos ou comportamentos considerados

ensino médio – 1ª- série 13 sistema anglo de ensino


estranhos pelos seus contemporâneos. Sócrates, di- Teoria do conhecimento
zem, andava sem sandálias por Atenas. Diógenes
Em Crítica da razão pura, Kant não tentou ex-
vivia em um barril. O relato desses comportamen-
plicar o mundo, mas sim entender a razão, seus
tos ajudou a criar a imagem do filósofo enquanto
princípios e sua estrutura, ou seja, procurou des-
uma pessoa excêntrica, quando não simplesmente
cobrir o que cabe à razão. Dessa forma, buscou os
avoada.
limites do conhecimento, identificando como pri-
No caso de Immanuel Kant (1724 – 1804), a regu-
meira regra do entendimento humano a causali-
laridade de seus hábitos era tão extrema, que cau-
dade. Todo fenômeno tem uma causa, ou seja, apre-
sava estranheza. Nasceu em Königsberg, na Ale-
senta-se diante da razão no espaço e no tempo.
manha, onde passou toda sua vida. Diferentemente
Portanto algo que não tem causa não pode ser co-
de outros importantes filósofos, jamais empreen-
nhecido. A idéia de deus, assim como a de alma ou
deu viagens longas ou encontrou outros grandes
a de liberdade, por exemplo, não pode ser objeto
pensadores de seu tempo. Hobbes, por exemplo, foi
de conhecimento, uma vez que deus não se apre-
para a França, onde polemizou com Descartes, e
senta nem no espaço, nem no tempo.
para a Itália, onde encontrou Galileu. Rousseau es-
Kant limitou o conhecimento ao mundo dos
teve na Inglaterra e conheceu Hume, além de ter
fenômenos, ou seja, das ações que se apresentam
fugido para a Suíça, quando as autoridades france-
diante de nós. Dessa forma, qualquer situação que
sas decretaram sua prisão.
ocorra fora do espaço e do tempo não pode ser conhe-
Em Kant há um curioso contraste entre a sua
cida. Deus é considerado o absoluto, portanto é ab-
pacata vida provinciana e o alcance universal de
solutamente livre: não se submete a nenhuma regra
seu pensamento. Não seria exagero afirmar que
e, conseqüentemente, não pode ser conhecido. A
todo o sistema de pensamento elaborado a partir
essas coisas que podem ser pensadas, mas não se
do século XIX, mais cedo ou mais tarde, teve que
apresentam como fenômeno (e, por isso, não po-
“acertar as contas” com Kant.
dem ser conhecidas) Kant chamou de “a coisa em si”
Professor universitário em Königsberg, foi um
(em alemão, das Ding an sich) ou númeno.
homem de hábitos metódicos. Conta-se a anedota
Dessa forma, o pensamento kantiano se opõe à
de que os habitantes da cidade podiam acertar
metafísica: ela jamais chegará a uma verdade, pois
seus relógios de acordo com a hora em que ele
lhe falta a possibilidade da experiência. Ao fazer
passava pela rua, em suas caminhadas diárias. O
questionamentos sobre deus, alma ou liberdade, a
caráter metódico desse pensador se reflete em sua
metafísica é pródiga em criar antinomias – confli-
obra, em que cada conceito é cuidadosamente tra-
tos entre duas afirmações contraditórias, mas que
balhado antes que se passe ao próximo: Kant cons-
podem ser provadas racionalmente se considera-
trói sua reflexão como quem constrói uma parede,
das de maneira isolada.
tijolo após tijolo. Dessa forma, acabou por definir
um vocabulário especial; e não é raro encontrar,
A síntese entre racionalismo e empirismo
atualmente, obras que se dedicam exclusivamente
a explicar esse vocabulário, sob o título, por exem- Para Kant, o conhecimento sobre o mundo surge
plo, de Dicionário Kant. da combinação entre razão e fenômeno. A razão,
As principais obras de Kant foram: Crítica da sem o fenômeno, só é capaz de construções óbvias;
razão pura (1781), que aborda a questão do conhe- enquanto o fenômeno, sem a explicação racional, é
cimento; Crítica da razão prática (1788), voltada para vazio. Dessa maneira, o conhecimento é composto
a Ética; e Crítica do juízo (1790), relacionada à Estéti- de matéria (que são as coisas conforme elas se apre-
ca. Ao empregar a palavra “crítica”, Kant está interes- sentam diante de nós) e forma (que é a nossa ra-
sado em questionar a validade do nosso conheci- cionalidade). O que Kant pretende, com essa elabo-
mento e de nossos valores. Em outras palavras, faz ração, é superar a distinção entre empirismo e ra-
da crítica do conhecimento um pré-requisito para a cionalismo, que dominava a Filosofia moderna.
Filosofia, daí o termo criticismo kantiano. Outra importante idéia de Kant diz respeito à
Seu primeiro questionamento filosófico – “O necessidade de se encarar a experiência a partir de
que posso saber?” – resultou em sua teoria do conhe- um questionamento prévio elaborado racional-
cimento, apresentada principalmente na Crítica da mente. “Quem não sabe o que busca, não identifi-
razão pura. Em seguida, na Crítica da razão prática, ca o que acha”, afirmou Kant, apontando para a
abordou a questão moral, com base na pergunta problematização como uma atividade essencial do
“O que posso fazer?”. conhecimento.

ensino médio – 1ª- série 14 sistema anglo de ensino


Os homens percebem o mundo à sua volta por
meio da intuição, entendida como um dado obtido exercícios
pelos sentidos sem a intermediação da linguagem
ou da lógica. A visão é o principal sentido da intui- 1. Tendo em vista o que estudamos nesta aula, ex-
ção. plique a frase: “A razão e o fenômeno são com-
Existem dois tipos de intuição, a pura e a em- plementares”.
pírica. A intuição pura é a forma como percebe- Partindo da constatação de que nem a razão, nem a ob-
mos o mundo antes da experiência, ou seja, é a
forma mais “crua” de entendimento. É constituída servação dos fenômenos percebidos pelos sentidos são
pelo espaço e pelo tempo, que são propriedades suficientes para obter o conhecimento verdadeiro, Kant
da consciência. O espaço é o fundamento de toda concilia racionalismo e empirismo.
intuição, é a forma como sentimos a exteriori-
dade. Ou, em outras palavras, é a forma de nosso
sentido externo. O tempo inclui a lembrança do
passado e a previsão do futuro que se encontra na 2. Por que, segundo Kant, é impossível um conhe-
nossa interioridade. É a forma como nos perce- cimento racional de deus?
bemos a nós mesmos: quando digo “Sou o Ema- Porque deus não se apresenta como fenômeno diante de
nuel”, sei que cheguei a essa conclusão por-
nossos sentidos.
que tenho sido o Emanuel, tem sido assim ao
longo do tempo. O tempo é a forma de percepção
3. Tente estabelecer uma relação entre o ceticis-
de nosso sentido interno. Kant usa o termo a
mo de Hume e o pensamento de Kant.
priori (= antes da experiência) para se referir à in-
tuição pura. O ceticismo de Hume estimulou Kant a dizer que aquilo
A intuição empírica é uma associação da razão que chamamos de conhecimento é apenas a forma de
com a experiência. Ou seja, é a forma como, par-
nosso entendimento. Ou seja, o que chamamos de mundo
tindo de um questionamento sobre o mundo dos
fenômenos, chegamos a um pensamento sobre ele. real é apenas a forma como o mundo se apresenta para
Em outras palavras, é o conhecimento obtido a o ser humano.
posteriori (= depois da experiência).
Com essa concepção, Kant promove a conci-
liação entre racionalismo e empirismo. A partir
Tarefa mínima
daí, surge a noção de ciência enquanto atividade
que busca, essencialmente, estabelecer uma re-
lação entre as formas gerais da razão (ou seja, o Nisso consiste a reviravolta que veio a ser conhe-
entendimento) e o mundo dos fenômenos. A in- cida pelo nome de “revolução copernicana”. (…) Kant
tuição é uma forma passiva de obter o conheci- se inspira na física e propõe algo curioso: se nós conhe-
mento, enquanto o entendimento é uma forma cemos algo das coisas, é porque a nossa razão institui
ativa. Através do entendimento, o homem emite as regras que possibilitam todo e qualquer conheci-
juízos. mento. Entenda-se bem: Kant não nega que os obje-
Há dois tipos de juízos, os analíticos e os sin-
tos nos afetem pelos sentidos, apenas mostra que a
téticos. O juízo analítico é uma mera constatação,
sensibilidade não é por si mesma suficiente para falar
ou seja, uma proposição em que o predicado per-
em conhecimento. Este, com efeito, é um saber que
tence ao sujeito (por exemplo, “Todos os homens
temos acerca da Natureza, mediante leis, que nos
são animais”). O juízo sintético é aquele em que o
mostra a regularidade e uma recorrência dos fenô-
predicado não está contido no sujeito, ou seja, é
menos, que nos permite medir e descrever o mundo
aquele que agrega um conhecimento (por exemplo,
natural como se ele tivesse uma ordem. É da origem
uma lei da física, expressa sob forma de equação).
desse saber que se trata: sua origem não está em
Fazer ciência significa elaborar juízos sintéticos,
coisas fora de nós, por mais que verse sobre elas, mas
obtidos pela experiência (limitada ao que ocorre
sim em nossa própria faculdade de conhecer, na
no espaço e no tempo) e pelo conhecimento teóri-
“razão pura”, sede dos princípios e leis que conferem
co. Já a Filosofia, ao contrário da ciência, busca
ao mundo uma ordem.
(P. P. Pimenta. “Kant e a revolução copernicana”.
indagar as razões que tornam possível o conheci- In: Mente, Cérebro & Filosofia, nº- 3.)
mento.

ensino médio – 1ª- série 15 sistema anglo de ensino


Levando em consideração seus conhecimentos
sobre o astrônomo polonês Nicolau Copérnico
(1473 – 1543) e as informações veiculadas pelo
texto, responda:

1. Por que Kant teria sido responsável por uma


revolução copernicana na Filosofia?
O nome de Copérnico está vinculado, sobretudo, ao es-
tabelecimento de um novo olhar, uma nova perspectiva,
segundo a qual a terra não está mais no centro do uni-
verso, mas é apenas parte dele. Kant também propõe,
na Filosofia, uma mudança de perspectiva: o conheci-
mento das coisas não depende de sua própria natureza,
mas de nossa capacidade de conhecer, das perguntas
que fazemos, ou seja, da razão que está em nós. Auto-retrato, cerca de 1923.

2. Qual o significado da expressão de Kant: “Não


se pode ensinar Filosofia, mas apenas ensinar
a filosofar”?
Levando em consideração o texto, pode-se concluir que
a atividade filosófica consiste em operar essa racionali-
dade que possuímos. Ensinar a filosofar significa, por
exemplo, ensinar a fazer as perguntas que nos permitem
obter o conhecimento das coisas. (Lembre-se que a pró-
pria Filosofia kantiana é fruto da tentativa de respon-
der à pergunta sobre as condições de possibilidade do
conhecimento – “o que posso saber?”.)
Auto-retrato “O Tempo Voa”, 1929.

Tarefa complementar
É bastante comum encontrarmos artistas que fize-
ram “variações sobre o mesmo tema”, ou seja, que
compuseram diferentes obras a partir da observação
do mesmo objeto de conhecimento – para usar a no-
menclatura kantiana. Paul Cézanne (1839 – 1906), pin-
tor pós-impressionista francês, é um exemplo disso: pa-
ra espanto de muitos, ele pintou 80 vezes o monte Sain-
te-Victoire de sua amada Provença (região da França).
Se a obsessão de Cézanne era a paisagem pro-
vençal, a de Frida Kahlo (1907 – 1954), artista mexi-
cana, eram os auto-retratos. Pintou vários ao longo
de sua vida. Observe três deles, executados em dife-
rentes momentos: Auto-retrato com colar de espinhos, 1940.

ensino médio – 1ª- série 16 sistema anglo de ensino


Agora, leia o seguinte trecho: Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
(…) a estrutura da razão é inata e universal, enquan-
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
to os conteúdos são empíricos e podem variar no tempo
E não pensar. É correr as cortinas
e no espaço, podendo transformar-se com novas experiên-
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
cias e mesmo revelarem-se falsos, graças a experiências
novas. O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
(Marilena Chauí) O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Com base no que estudamos sobre Kant e no Começa a não saber o que é o sol
trecho anterior, responda: o que justifica que um E a pensar muitas cousas cheias de calor.
artista volte constantemente a um tema já estuda- Mas abre os olhos e vê o sol,
do? No caso específico de Frida, o que justificaria E já não pode pensar em nada,
a produção de dezenas de visões sobre si mesma? Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
Pode-se dizer que essas variações são possíveis, porque o De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
artista vê os objetos como fenômenos, como “conteúdos em-
E por isso não erra e é comum e boa.
píricos”, que podem se transformar. Portanto, sempre have-
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
ria algo novo para ser visto no mesmo objeto. No caso de A de serem verdes e copadas e de terem ramos
Frida, pode-se supor que ela se via a si própria como fenô- E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
meno, o que não é nenhum absurdo, visto que também per-
Mas que melhor metafísica que a delas,
tencemos ao mundo dos fenômenos e, sendo assim, o conhe- Que é a de não saber para que vivem
cimento de nós mesmos estaria subordinado às mesmas leis Nem saber o que não sabem?
que regem o conhecimento do mundo fenomênico. “Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo” …
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas,
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos
LEITURA COMPLEMENTAR [lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
Ao longo do curso, temos visto como os temas
É acrescentado, como pensar na saúde
filosóficos aparecem em nosso cotidiano e dialogam
Ou levar um copo à água das fontes.
com as demais áreas do saber (como a Matemática,
a Física, as Artes e a Literatura). Na aula anterior, O único sentido íntimo das cousas
por exemplo, vimos que a postura cética – tão im- É elas não terem sentido íntimo nenhum.
portante para o pensamento de Hume – é defendida Não acredito em Deus porque nunca o vi.
numa crônica de Machado de Assis. Vamos fazer Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
algo parecido agora, só que a partir de um poema Sem dúvida que viria falar comigo
de Alberto Caeiro, um dos heterônimos do poeta E entraria pela minha porta dentro
português Fernando Pessoa. Leia-o com atenção e Dizendo-me, Aqui estou!
tente identificar possíveis aproximações e divergên-
cias entre as idéias de Kant e as do eu-lírico. (Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
O mistério das cousas Não compreende quem fala delas
Há Metafísica bastante em não pensar em nada. Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

O que penso eu do mundo? Mas se Deus é as flores e as árvores


Sei lá o que penso do mundo! E os montes e sol e o luar,
Se eu adoecesse pensaria nisso. Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
Que idéia tenho eu das cousas? E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

ensino médio – 1ª- série 17 sistema anglo de ensino


Mas se Deus é as árvores e as flores O eu-lírico aproxima-se do pensamento kantiano ao valorizar
E os montes e o luar e o sol, a experiência, o mundo concreto, e ao negar aquilo que está
Para que lhe chamo eu Deus?
além dele, posicionando-se contra a metafísica e contra a
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver, idéia de um deus transcendental, que não se revela na reali-
Sol e luar e flores e árvores e montes, dade concreta. Por outro lado, suas idéias divergem das de
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
Kant, ao desvalorizar a importância do pensamento (ou seja,
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça da razão) para o conhecimento, o que se pode comprovar pelo
Como árvores e montes e flores e luar e sol. verso: “Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos”.

E por isso eu obedeço-lhe,


(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
(Fernando Pessoa, Obra poética.)

ensino médio – 1ª- série 18 sistema anglo de ensino


Aula
10
Introdução à Lógica
Para pensar

Quando você está conversando ou mesmo discutindo com alguém, é comum o emprego da expressão
“é lógico!” – quase sempre com o sentido de “é claro” ou “é evidente”.
Mas será que é possível determinar as condições para que uma coisa ou um argumento sejam “lógicos”?

Observe a imagem:

Wassily Kandinsky. Esboço para a composição número VII, 1913.

Num primeiro momento, você pode imaginar O questionamento sobre a possibilidade de de-
que o pintor russo Wassily Kandinsky (1866 – 1944) terminar as condições para que algo seja lógico é de
simplesmente espalhou as tintas pela tela sem obe- importância vital para a busca pelo conhecimento
decer a nenhuma lógica. O resultado é que não é verdadeiro. Por esse motivo, os estudos de Lógica
possível distinguir nenhuma forma conhecida no se transformaram em um importante ramo da Filo-
meio dessa massa de linhas e cores. Tem-se, por- sofia. Mas o que se pode entender por Lógica?
tanto, a impressão de improviso e ausência de regras.
Essa impressão, porém, não condiz com a reali- Lógica: estrutura formal do pensamento
dade: esta obra é apenas um dos muitos esboços Costuma-se definir Lógica como o estudo da es-
realizados antes da Composição número VII – se- trutura e dos princípios da argumentação, indepen-
gundo o próprio artista, uma de suas obras mais tra- dente de seu conteúdo. Suas origens remontam a
balhosas. Aristóteles, cuja obra inclui a Lógica enquanto estu-
Talvez não sejamos capazes de identificar ali do da forma e das regras que utilizamos para pen-
uma ordem, porque Kandinsky estava operando sar as coisas; em outras palavras, enquanto estru-
com uma “lógica” diferente da nossa, ou seja, ele tura formal do pensamento.
compôs sua obra a partir de um conjunto de prin- Como em outros momentos da elaboração do
cípios diferentes daqueles que estamos acostuma- pensamento aristotélico, a crítica a Platão foi um dos
dos a esperar em uma pintura. fundamentos a partir do qual Aristóteles desenvol-

ensino médio – 1ª- série 19 sistema anglo de ensino


veu a Lógica. Como vimos anteriormente, Platão de- Os termos podem ser divididos por: gênero, es-
fendia o diálogo como forma de se atingir o conhe- pécie e indivíduo. O indivíduo contém as caracterís-
cimento. Na dialética platônica, os confrontos surgi- ticas do gênero e da espécie, e é somente a partir
dos do diálogo permaneciam sempre em aberto, o desses termos universais que o conhecimento ou a
que possibilitava a apresentação de novos argumen- ciência será possível. A ciência aborda os aspectos
tos e, conseqüentemente, uma nova maneira de com- necessários e universais das coisas, e não os particu-
preensão das coisas. Seria dessa forma que a Filoso- lares. O que existe de universal e necessário no limoei-
fia iria ascendendo em direção ao conhecimento ver- ro “do meu quintal” é que ele produz limões como
dadeiro. Porém, a tensão própria do diálogo abria ca- todos os outros, e não o fato de estar no meu quintal
minho para o relativismo, o que resultava na impossi- ou de um de seus galhos estar quebrado.
bilidade de se ter certeza sobre aquilo que foi debati-
do, alcançando-se a verdade numa forma incompleta. Doutrina do silogismo
Aristóteles via o diálogo como um mero exercí- O desenvolvimento da ciência, isto é, do conhe-
cio, uma vez que a dialética não lidava com as coi- cimento daquilo que é universal e necessário nas
sas do mundo (que deveriam ser objeto de estudo), coisas, implica o conhecimento das causas que tor-
mas apenas com a opinião dos homens sobre as coi- nam as afirmações possíveis. Para isso, Aristóteles
sas. O conhecimento seguro deveria ter, portanto, desenvolveu a doutrina do silogismo, enquanto
outra fonte: o estabelecimento de regras fixas do uma forma de raciocínio que, partindo de uma pre-
pensamento, que permitiriam a obtenção de verda- missa, chega necessariamente a determinadas con-
des demonstráveis. Nesse sentido, deve-se atentar clusões. Observe as seguintes proposições:
para a importância do emprego das palavras, que Todo homem é mortal.
devem ter significados precisos. Daí a necessidade Sócrates é homem.
do estudo da linguagem.
As duas proposições anteriores resultam numa
Teoria das proposições conclusão lógica:

Em seu livro Organon (palavra grega que signifi- Logo, Sócrates é mortal.
ca “instrumento”), Aristóteles desenvolveu a teoria Em outras palavras, a partir de duas premissas,
das proposições. Toda proposição é o enunciado de chega-se a uma conclusão. No exemplo visto, “ho-
um juízo – formulado pelo pensamento – que atribui mem”, “mortal” e “Sócrates” são os três termos,
um predicado a um sujeito. Uma proposição é for- sendo que “homem” é o termo médio, ou seja,
mada pela união de termos, que são as palavras usa- aquele que fornece a razão do que foi afirmado:
das para designar todas as coisas. O encadeamento Sócrates é mortal porque é homem. Tal conclusão é
dos juízos é chamado de raciocínio. rigorosa e nos dá uma certeza. Na Matemática, tra-
Quando alguém enuncia a proposição “Platão é dicionalmente usamos o procedimento da dedução,
forte”, os termos “Platão” e “forte” se apresentam que funciona de acordo com os mesmos princípios:
unidos por um juízo elaborado pelo pensamento. se x = y e y = z, então, infere-se que x = z.
Esse juízo pode ou não estar adequado à realidade, A dedução se diferencia da indução. Nesta, o
ou seja: se Platão for realmente forte, o juízo enun- conhecimento é obtido por meio da análise de casos
ciado através da proposição é um juízo verdadeiro. individuais que se repetem. A indução é a forma de
Os termos têm duas propriedades: a extensão (ou obtenção de conhecimento científico por excelên-
alcance) e a compreensão (ou entendimento). Assim, cia, uma vez que é a partir dos diversos fenômenos
a palavra “árvore” refere-se a um conjunto bastante que se repetem na natureza que se chega às leis do
grande de objetos, ou seja, ao se usar essa palavra, seu funcionamento. Finalmente, a analogia é uma
o alcance ou extensão do juízo formulado será o forma de indução que parte de uma comparação.
maior possível. A referência a determinada árvore, O silogismo não produz um novo conhecimen-
como um “limoeiro”, por exemplo, limita o alcance to, mas organiza conhecimentos anteriores. Além
do juízo, mas amplia seu entendimento: limoeiros disso, pode ser aplicado para a elaboração de pro-
têm folhas com um determinado formato, costumam posições falsas, sem que isso altere sua perfeição
atingir uma altura determinada e produzem flores e formal. Exemplo:
frutos específicos. Finalmente, com a referência a um
Todo homem é verde.
limoeiro que está em determinado quintal, pode-se
obter um entendimento mais preciso ainda, porém Sócrates é homem.
o alcance estará restrito a um único objeto. Logo, Sócrates é verde.

ensino médio – 1ª- série 20 sistema anglo de ensino


Esses falsos silogismos são chamados de sofis- Aristóteles pretendia estabelecer as regras fixas do
mas (ou falácias) e, segundo Aristóteles, eram uti- pensamento, conforme se expressam na linguagem. Daí
lizados pelos sofistas para provar os argumentos
o estudo da Lógica.
mais descabidos. Por isso, para que sejam conside-
rados científicos, os silogismos devem partir de pre-
missas verdadeiras. A ciência, por sua vez, deve se
fundar na realidade, indo além do mero raciocínio
lógico coerente, que pode produzir armadilhas. 3. Cite exemplos de dedução, indução e analogia.
Conhecimento não-demonstrativo A resposta é livre. No Manual do professor há sugestões
Se o silogismo é um conhecimento demonstra- para a resolução deste exercício.
tivo, ele deve se basear em algum tipo de conheci-
mento evidente ou não-demonstrativo, que sirva para
definir os termos. Existem três tipos de conhecimen-
to não-demonstrativo:
• axiomas: verdades que não precisam de de-
monstrações. Exemplo: “Toda afirmação ou é
verdadeira ou é falsa”. Tarefa mínima
• postulados: ou pressupostos, entendidos Em geral, discursos políticos – principalmente os
como aquilo que deve ser admitido como pon- mais radicais – estão repletos de falácias (argumentos
to de partida para sustentar um sistema teóri- falsos, mas que passam por verdadeiros). Pensando
co. Exemplo: “Duas retas paralelas não se cru- nisso, observe a imagem e leia o trecho que segue.
zam”.
• definição: dividida em definição nominal (ba-
sicamente o nome do objeto) e definição real
(indica a natureza do objeto). A partir da de-
finição, a ciência chega ao conceito.

Para construir definições científicas baseadas na


relação entre gêneros e espécies, seria necessário um
levantamento em larga escala dos seres da natureza,
bem como sua classificação. Grande parte da obra de
Aristóteles estava voltada para essa finalidade.
No dia 21 de junho de 1970, quando o Brasil ganhou
exercícios de 4 a 1 da Itália, na Copa do México, milhões de brasi-
leiros saíram às ruas para festejar o tricampeonato de fu-
tebol. A euforia, que se estenderia por quase toda a ges-
1. Por que o pensamento de Platão corria o risco tão do general Emílio Garrastazu Médici na presidência
de tender ao relativismo? da república (1970 – 1974), foi habilmente explorada pelo
Utilizando o método dos diálogos, o entendimento das
governo. Martelavam-se bordões como “Milagre brasileiro”
e “Ninguém segura este país”. Aos opositores, uma rude
coisas permanecia constantemente “em aberto”, en- intimação: "Brasil: ame-o ou deixe-o".
quanto não se alcançava a Idéia absoluta. (Lembrar da Nessa época, a censura aos meios de comunicação foi
alegoria da caverna e do caráter incompleto do conheci- mais implacável; a perseguição aos opositores políticos, mais
cruel; e o desprezo pelo Congresso e pelo Judiciário, maior
mento, conforme vai sendo lentamente adquirido.) do que em todos os 21 anos da ditadura. Mas os olhos só
viam as lojas repletas de mercadorias e crédito fácil. Algumas
escolas hasteavam diariamente a bandeira, crianças can-
tavam o hino em posição de sentido. Parecia um quartel.
Logo, tudo mudou. Veio a crise do petróleo, faltou
carne nos açougues… O sonho de grandeza virou ressaca.
2. De que forma Aristóteles pretendia evitar o re- (http://novaescola.abril.uol.com.br/ed/104_ago97/
lativismo? html/historia.htm, acesso em 08/02/2008)

ensino médio – 1ª- série 21 sistema anglo de ensino


Explique por que o slogan “Brasil: ame-o ou dei- Para auxiliar os alunos na pesquisa, o professor poderá orien-
xe-o” pode ser considerado falacioso. Para isso, consi- tá-los dizendo que uma boa “fonte” de falácias são os discur-
dere o contexto histórico da ditadura brasileira – ca-
sos mais radicais, que têm como principal característica o
racterizada, principalmente, pela perseguição impla-
cável aos opositores do regime – e o trecho que segue: desrespeito à diversidade de opiniões e à complexidade dos pro-
blemas abordados. Exemplos seriam os discursos que defendem
Falácias são discursos, ou tentativas de persuadir o ou-
vinte ou leitor, promovendo um engano ou desvio. Suas idéias racistas, homofóbicas, moralistas, machistas, nazi-fas-
estruturas de apresentação de informação não respeitam cistas ou salvacionistas (um bom exemplo de discurso salvacio-
uma lógica correta ou honesta, pois foram manipuladas
nista é o apelo do presidente norte-americano George Bush,
certas evidências ou há insuficiência de prova concreta e
convincente. Uma afirmação falaciosa pode ser composta em sua cruzada do “bem” contra o “mal”).
de fatos verdadeiros, mas sua forma de apresentação con-
duz a conclusões erradas. Toda pessoa esclarecida, instada
a elaborar argumentos, por força do trabalho que execu-
ta ou de situações cotidianas, deve reconhecer nos pró-
prios argumentos o uso proposital do raciocínio falacioso
(intenção de ludibriar) e a imperícia de raciocínio (lógica
acidentalmente comprometida). De uma forma ou de
outra, compra-se ou vende-se gato por lebre.
(Adaptado de http://www2.uol.com.br/aprendiz/n_colunas/
f_litto/index.htm, acesso em 06/02/2008)
LEITURA COMPLEMENTAR
O slogan é falacioso, pois nos induz ao erro, fazendo-nos pen-
sar que todo aquele que se opusesse ao regime ditatorial Lógica formal e Lógica dialética
não amava o país e suas “conquistas”, o que não é ver- A Lógica aristotélica fundamentava-se em três
dadeiro. No caso, houve impropriedade no emprego do conceito leis, conhecidas e ensinadas até hoje como as leis
da Lógica formal:
de “amor”. Além disso, podem-se apontar outros procedi-
1) Lei da identidade, segundo a qual “uma coisa
mentos falaciosos, como:
é uma coisa”, ou seja, A = A. Exemplo: vida é
• a proposição de um falso dilema, reforçado pelo uso da vida.
conjunção ou (“ame-o ou deixe-o”, como se não houvesse 2) Lei da não-contradição, segundo a qual “uma
outra alternativa viável); coisa não é outra coisa”, ou seja, A ≠ B (A não
pode ser B). Exemplo: vida não é morte.
• o apelo à emoção, reforçado pelo uso da palavra ame;
3) Lei do terceiro excluído, segundo a qual “não
• o apelo à força: na verdade, nas entrelinhas o que estava existe meio-termo”, ou seja, ou A = B ou A ≠ B.
dito era “cale-se ou exile-se”; As afirmações são ou absolutamente verda-
• o reducionismo, entendido como a tendência para se re- deiras ou absolutamente falsas. Exemplo: não
existe meio-termo entre vida e morte.
duzir questões complexas a apenas uma visão (no caso, a
Todavia, os princípios da Lógica formal não levam
visão de quem detinha o poder).
em conta o fato de que o mundo está em constante
movimento, e as coisas estão sempre se modificando.
Assim, seria impossível dizer o que cada coisa é, na
medida em que elas estão se transformando em ou-
tras. O ser é parte de um todo, cada coisa faz parte de
um complexo de relações, bem como de suas com-
Tarefa complementar plexas interações. Por exemplo, vida e morte são di-
Faça uma pesquisa em revistas, jornais ou na in- ferentes, mas fazem parte de um todo, na medida em
ternet, buscando identificar falácias em algum dis- que há o movimento da vida em direção à morte, bem
curso, entrevista ou pronunciamento. Depois, dis- como a luta da vida contra a morte e da morte contra
cuta com seus colegas por que esses argumentos a vida. Sem levar em consideração esses aspectos,
são falaciosos. qualquer visão de vida e morte torna-se incompleta.

ensino médio – 1ª- série 22 sistema anglo de ensino


A Lógica dialética procura resolver as ques- nifica uma negação, mas que conserva em si ele-
tões que surgem quando se leva em consideração mentos do que foi negado: em toda mudança há
o movimento, o “vir a ser” presente em cada coisa. permanência.
Seus princípios foram formulados pelo pensador As leis da Lógica dialética são:
alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831), 1) Lei da unidade e luta dos contrários: em
o que faz com que a Lógica dialética também seja tudo há unidade dialética, ou seja, ao mesmo
chamada de hegeliana. tempo união e oposição. A contradição faz
Segundo Hegel, essas transformações afetam o parte das coisas.
próprio pensamento. Dessa forma, o racionalismo 2) Lei da negação da negação: expressa os
de Descartes era verdadeiro, mas incompleto – assim princípios do mecanismo de tese, antítese e
como o empirismo de Locke. O pensamento de Kant síntese. A negação da negação não é uma anu-
buscou elementos de ambos para propor uma no- lação, mas faz surgir algo novo.
va idéia, por sua vez, original. De acordo com o 3) Lei da transformação da quantidade em
próprio Hegel, toda definição (tese) tem algo de li- qualidade: as mudanças quantitativas vão
mitado e traz necessariamente contradições, a par- ocorrendo, até que, subitamente, ocorra uma
tir das quais se elabora a sua negação (antítese). O mudança na própria qualidade daquilo que
resultado do embate entre tese e antítese é a ne- está mudando. Por exemplo, a temperatura da
gação de ambas, por meio da síntese. Esta, por sua água vai se aquecendo progressivamente, até
vez, poderá ser negada, e assim indefinidamente. que a água se transforma em vapor. Uma con-
A dialética se constitui na passagem de uma de- seqüência disso é o fato de que o todo é bem
finição a outra. A síntese, no sentido dialético, sig- diferente de uma simples soma das partes.

ensino médio – 1ª- série 23 sistema anglo de ensino


Aula
11
A verdade
Para pensar

Até agora vimos como a Filosofia, ao longo do tempo, tem buscado atingir o conhecimento ver-
dadeiro, sendo a Lógica um dos principais instrumentos dessa busca. Mas o que seria exatamente essa
verdade perseguida pelos filósofos? Qual a importância do verdadeiro? Você consegue imaginar como
seria o mundo se não distinguíssemos o verdadeiro do falso?

Observe a imagem:

Max Ernst. O beijo, óleo sobre tela, 1927.

O que caracteriza uma obra de arte – uma pin- uma operação do olhar e pode ser entendida como
tura, por exemplo – não é o simples fato de ser uma “ver com precisão”. Em grego, a palavra para ver-
imagem ou conjunto de formas composto sobre dade é aletheia, uma junção de a- (prefixo de ne-
uma superfície. O que a caracteriza é o fato de pos- gação) com lethes (que significa “esquecimento”).
sibilitar a afirmação ou o desvendamento de uma Ou seja, os gregos faziam uma interessante ligação
verdade sobre um objeto. Assim, idéias ou senti- entre conhecimento verdadeiro e memória, uma
mentos que jamais tivemos até então podem ser vez que “verdade” é sinônimo de “algo que não é
despertados pela obra de arte. Ou ainda: ela dá esquecido”.
uma forma plástica (e, de certa maneira, concreta) A memória tinha um importante papel na Grécia
a pensamentos ou sentimentos já conhecidos. antiga. Os poetas, por exemplo, dependiam muito
Tente descobrir o que a pintura do alemão Max dela, para cantar as poesias que não eram escritas.
Ernst (1891 – 1976) revela sobre o beijo, esse ato ao De fato, originalmente a Ilíada e a Odisséia – duas
mesmo tempo tão banal e tão íntimo. poesias épicas atribuídas a Homero, que narram os
grandes feitos dos antepassados dos gregos e aju-
Verdade: origem da palavra daram a construir sua identidade – eram cantadas, e
O conceito de “verdade” foi utilizado pela pri- Homero é tradicionalmente representado como
meira vez em Filosofia com Platão. Em português, cego – portanto, incapaz de escrever.
a palavra vem do latim veritas, que tem a mesma A idéia de não querer perder a memória de feitos
raiz do verbo “ver”. Nesse sentido, a verdade seria espantosos também está presente em Heródoto.

ensino médio – 1ª- série 24 sistema anglo de ensino


No início de sua monumental obra sobre as Guer- cência. Portanto, o conhecimento implica desper-
ras Médicas (entre gregos e persas), Heródoto afir- tar, de alguma forma, a lembrança de algo que exis-
mou o desejo de preservar do esquecimento o que te em nós: as idéias inatas.
os homens fizeram. Ao mesmo tempo, buscou
identificar nessa narrativa do passado modelos Verdade e identidade
para a sua época, sendo considerado o “pai da Na aula 1, identificamos o conhecimento de si
História”. mesmo como um dos aspectos da Filosofia. Vimos
Assim, seja por meio da poesia ou da História, também como, muitas vezes, virtudes ou defeitos
os gregos consideravam esse lidar com a memória nos são atribuídos – pelos outros ou por nós mes-
– ou o não-esquecido – fundamental para a afirma- mos. Essas virtudes e esses defeitos (enfim, nossas
ção de sua identidade. características) são entendidos por nós segundo um
sistema de valores. Exemplificando, pode-se dizer
Democracia e verdade
que, em geral, consideram-se características apre-
Sabemos que a democracia – sistema político ciáveis ou positivas ser bom, bonito, inteligente.
que se desenvolveu inicialmente em Atenas e de- Porém, tais valores mudam com o tempo, assim
pois se espalhou por todo o mundo grego – consti- como o próprio sentido dessas palavras. Aquilo que
tuiu-se em grande inovação política, por identificar é bom hoje, talvez não seja tão bom amanhã e
a prática política como uma atividade humana, e poderá vir a ser considerado mau um dia.
não um atributo dos deuses (no Egito antigo, por Isso nos faz pensar que cada época produz um
exemplo, obedecia-se ao faraó pelo fato de ele ser discurso que é considerado verdadeiro, o que nos
considerado um deus na terra). Uma vez que a afastaria de Platão (e de toda a Filosofia ocidental
política é uma atividade humana, o ordenamento a partir dele). A produção do discurso verdadeiro
da pólis depende da lei, que, por sua vez, é criada se dá no âmbito de instituições, e a identidade dos
pelo homem e expressa sua autonomia. indivíduos é moldada de acordo com o que é
Na democracia, não existe a figura do rei ou do considerado verdadeiro em determinado tempo e
imperador, porta-voz da “palavra verdadeira”, que, lugar. Por exemplo, na Idade Média ocidental, a
por conseqüência, transforma-se em lei. Pelo con- Igreja era portadora de um discurso considerado
trário, as leis surgem a partir do livre debate entre verdadeiro e reprimia com violência qualquer pen-
os cidadãos, que podem expor suas idéias na as- samento discordante. Você deve se recordar de
sembléia. Os diversos discursos produzidos enunciam como Galileu Galilei foi perseguido pela Inquisição
diversas verdades possíveis. Nesse contexto se de- e forçado a afirmar opiniões contrárias às suas
senvolveu a escola sofista (lembre-se da aula 3), que convicções.
valorizava as práticas do discurso, como a retórica e No século XX, ocorreu o fenômeno do totalitaris-
a persuasão, e não reconhecia a existência da ver- mo, cujo principal exemplo talvez seja o regime
dade em si, afirmando a possibilidade da construção nazista na Alemanha. Durante os anos do nazismo
de um discurso efetivo, que produzisse resultados: (1933 – 1945), as pessoas deveriam aceitar uma visão
uma lei ou uma norma que passaria a valer para de mundo baseada em algumas verdades, muitas
todos. delas bem pouco evidentes (quando não francamen-
Como sabemos, Platão, discípulo de Sócrates, é te falsas), como a “superioridade da raça alemã” ou
considerado o pai da Filosofia por ter afirmado a a “infalibilidade do Führer” (Hitler). A não-aceitação
necessidade de um novo tipo de discurso, que não dessas verdades resultava em encarceramento, tor-
buscasse apenas a persuasão, mas estivesse ade- tura e outras violências. O regime mantinha amplos
quado ao real. É nesse sentido que Platão entendia aparatos de espionagem e investigação voltados
por verdade o conhecimento do real, daquilo que contra a própria população do país, para identificar
é. A Filosofia seria a busca não só daquilo que é, dissidentes e punir infratores, mantendo, assim, a
mas do próprio ser. homogeneidade de pensamento. Algo semelhante
Nas últimas aulas, vimos como diversos pensa- aconteceu nos regimes totalitários de esquerda, cria-
dores e escolas de pensamento tentaram se aproxi- dos a partir do modelo soviético.
mar do conhecimento verdadeiro. Platão identifi- Com base nesses exemplos (e em tantos outros
cava a busca do conhecimento como uma aproxi- semelhantes), percebemos que o discurso ver-
mação em relação às formas eternas e imutáveis dadeiro tem efeitos de poder. Ou seja, a enunci-
(você se lembra da alegoria da caverna, estudada ação de um discurso verdadeiro e o seu monopólio
na aula 4), que já existem na alma como reminis- implicam a possibilidade do exercício do poder, de

ensino médio – 1ª- série 25 sistema anglo de ensino


obrigar as pessoas a fazerem o que se deseja ou de tempo, corre-se um risco: trata-se do relativismo,
moldar as identidades. Isso significa a aplicação de que consiste em aceitar todo o conhecimento como
uma dose de violência contra os indivíduos e o válido, pois é fruto de determinadas condições e es-
surgimento de regimes de exclusão: quem não se tas variam. O risco encontra-se na impossibilidade
comportar segundo os valores impostos será afas- de se obter uma certeza absoluta sobre qualquer coi-
tado. sa. Ou seja, nada pode ser considerado verdadeiro
Os exemplos dados referem-se a regimes políti- ou falso. Nesse sentido, o relativismo guarda paren-
cos, mas muitas vezes encontramos, no nosso coti- tesco com o ceticismo.
diano, práticas de exclusão: para pertencer a um Por outro lado, há o risco oposto: do dogma-
grupo, exige-se um determinado tipo de comporta- tismo, que consiste na crença de que o homem pode
mento, o que, por sua vez, funda-se na aceitação de atingir verdades absolutas, com total grau de cer-
algumas opiniões consideradas verdadeiras. O re- teza e segurança. Surge daí o perigo de se fechar em
sultado é que acabamos moldando nosso compor- uma “escola” de pensamento, rejeitando outras vi-
tamento ou nossa identidade para sermos aceitos sões e correndo o risco de perder a capacidade de
no grupo. abordar criticamente seu próprio saber.

Nietzsche e Foucault
exercícios
No século XIX, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche
(1844 – 1900) fez uma feroz crítica a Sócrates e
1. Identifique a concepção de verdade que se apre-
Platão – portanto a toda a Filosofia ocidental baseada
senta na seguinte frase:
na busca do conhecimento verdadeiro. Retornando
a pensadores anteriores a Sócrates, incluindo os “O fogo arde na Grécia e na Pérsia, mas as idéias
sofistas, Nietzsche afirmou que o conhecimento que os homens têm de certo e de errado variam de
verdadeiro é histórico – ou seja, é produzido pelo lugar para lugar”.
homem, e não meramente desvendado – e que não (Aristóteles, Ética a Nicômaco.)
há sentido na busca de verdades transcendentes,
pois elas não existem. Contra o homem racional e Ao falar da existência de diversas idéias a respeito do
conceitual, Nietzsche propôs o homem intuitivo, o que é certo e do que é errado, a frase de Aristóteles de-
artista, cujo intelecto, não mais aprisionado pela
nota relativismo.
vontade de chegar à verdade, poderia se dedicar
livremente à arte, à metáfora, dando livre curso à
sua capacidade de enganar. Assim, a Filosofia deixa
de ser a busca de adequação e passa a ser criação. 2. O que justificaria a idéia de que a verdade é
Mais tarde, o filósofo francês Michel Foucault relativa?
(1926 – 1984) retomou a crítica nietzscheana à Fi-
As mudanças de valores através do tempo podem ser
losofia, afirmando que não existe uma evolução do
pensamento rumo a uma verdade cada vez mais consideradas indícios de que as verdades sofrem mu-
clara ou um conhecimento cada vez mais puro. Ao danças. Não são, portanto, uma coisa em si. Em outras
contrário, o que existem são condições históricas a
palavras, o que cabe em uma época, pode não caber em
partir das quais é possível produzir o conhecimen-
to; e, como essas condições mudam com o tempo, outra (as mudanças dos padrões de beleza podem ser
o conhecimento também muda. A verdade deixa lembradas como exemplo). Pode-se também falar das
de ser uma adequação entre o pensamento e a coisa diferenças culturais: o que é certo para determinada cul-
e passa a ser entendida como aquilo que obriga o
pensamento a pensar de certa maneira. Assim, exis- tura pode não ser para outra. E, nesse caso, não nos
tem sucessivos sistemas de pensamento dentro dos caberia julgar qual é a mais correta, mas apenas aceitar
quais se concebem verdades, que têm o poder de que, à sua maneira, todas estão certas.
constranger os indivíduos e seus comportamentos.

Relativismo e dogmatismo
Quando consideramos que o conhecimento ver-
dadeiro tem um caráter histórico, isto é, muda com o

ensino médio – 1ª- série 26 sistema anglo de ensino


3. Qual o principal risco do relativismo? Tarefa complementar
O principal risco do relativismo é não se conseguir Observe a imagem:
chegar a certeza alguma. Isso poderia resultar numa
espécie de “vale-tudo”, em que até mesmo ações hedion-
das podem ser justificadas.

Tarefa mínima
Leia o fragmento e responda às perguntas que
seguem:

Origem do conhecimento – Durante enormes in-


tervalos de tempo, o intelecto nada produziu senão
erros; alguns deles se revelaram úteis e ajudaram a
Cristina Guerra. Cada vez me pareço menos com minha foto
conservar a espécie: quem com eles se deparou, ou os
3x4, montagem com fotos 3x4 automáticas, 1996.
recebeu como herança, foi mais feliz na luta por si e
por sua prole. Esses equivocados artigos de fé, que Em sua obra, Cristina Guerra – artista moçambi-
foram continuamente herdados, até se tornarem cana radicada no Brasil – costuma articular as no-
quase patrimônio fundamental da espécie humana, ções de identidade e mito, levando em conta o fato
são os seguintes, por exemplo: que existem coisas de vivermos numa realidade de constantes desloca-
duráveis, que existem coisas iguais, que existem coi- mentos e mudanças. Afinal, existem critérios obje-
sas, matérias, corpos, que uma coisa é aquilo que pa- tivos a partir dos quais se possa definir o que somos
rece; que nosso querer é livre, que o que é bom para e o que os outros são? Será possível chegar a uma
mim também é bom em si. Somente muito tempo verdade sobre isso?
depois surgiram os negadores e questionadores de A questão é bastante complexa e tem reflexos na
tais posições – somente muito tempo depois apare- realidade concreta. O texto que segue é um exem-
ceu a verdade como a mais fraca forma de conheci- plo disso: refere-se ao polêmico sistema de cotas e
mento. aos critérios adotados, em uma universidade, para a
(F. W. Nietzsche, A Gaia ciência, §110.)
sua aplicação. Leia-o com atenção e depois respon-
da às questões.
1. Qual o principal assunto do texto? Cotas na UnB: gêmeo idêntico é barrado
Nietzsche faz uma crítica ao saber filosófico como exis-
Universidade usa o critério da cor para selecionar
tiu até então, fundado na busca de verdades que, ao os candidatos cotistas.
final, ele critica como a “mais fraca forma de conheci- Segundo a UnB, a análise do recurso será anunciada
mento”. no dia 6 de junho.
(Brasília, 29 de maio, 2007) – Filhos de pai negro e de
mãe branca, os irmãos gêmeos univitelinos (idênticos)
Alex e Alan Teixeira da Cunha, de 18 anos, não tiveram
a mesma sorte ao se inscrever no sistema de cotas para
2. O autor afirma ser um equívoco considerar o vestibular do meio do ano da Universidade de Brasília
que “o que é bom para mim também é bom em (UnB): Alan foi aceito pelos critérios da universidade e
si”. Qual o significado dessa idéia? Alex não.
Nietzsche está criticando a Filosofia platônica e a Ao contrário da maioria das universidades que pos-
suem cotas, a seleção de alunos para o sistema de cotas
própria idéia de que exista o Bem em si, ou seja, de que
na UnB não leva em conta o critério socioeconômico e
exista algo em si (desvinculado da materialidade ou sim a cor do vestibulando. Para concorrer, os candidatos
dos desejos e paixões do indivíduo). obrigatoriamente se dirigem até um posto de atendi-
mento da universidade e tiram fotos no Centro de Se-
leção e de Promoção de Eventos (Cespe/UnB), respon-
sável pela aplicação da prova.

ensino médio – 1ª- série 27 sistema anglo de ensino


Essas fotos são anexadas na ficha de inscrição e pas- 2. Quais as diferentes opiniões sobre o sistema de
sam pela avaliação de uma banca, que vai decidir quem cotas para ingresso na universidade apresen-
é e quem não é negro. Caso o vestibulando não seja tadas no texto?
aceito para concorrer no sistema de cotas do vestibular, Um dos irmãos tem opinião definida sobre o sistema de
ele automaticamente é transferido para a concorrência
universal do processo seletivo. cotas (é contra), o outro não. Mas é significativo obser-
Esta é a terceira vez que os irmãos Alan e Alex se ins- var que ambos se inscreveram “pelas cotas porque elas
crevem para o vestibular da UnB, mas é a primeira vez existem e têm que ser usadas”, seguindo-se o argumen-
que eles optaram pelo sistema de cotas. Alan, que é
contrário ao uso das cotas raciais, quer estudar educa- to de que as notas exigidas no sistema de cotas são
ção física. Alex, que afirmou não ter uma posição defi- mais baixas. O professor que achar conveniente poderá
nida sobre o assunto, pretende cursar nutrição. abrir a discussão para a classe.
“Resolvemos nos inscrever pelas cotas porque elas
existem e têm que ser usadas. Além disso, a nota de
corte para os candidatos cotistas é mais baixa que a
nota de corte dos candidatos do sistema universal. Já
que posso usar esse recurso, resolvi aproveitar", disse
Alex, que entrou com um recurso na UnB para que a
universidade reavalie a sua condição de negro. LEITURA COMPLEMENTAR
Alan é contra o sistema de cotas raciais e diz que o
que aconteceu com ele e com o irmão é o melhor exem-
A discussão sobre o relativismo tem muito sen-
plo para mostrar que o método não funciona. “Somos
tido no mundo de hoje, onde, cada vez mais, valo-
gêmeos idênticos e eu fui aceito, ele não. Acho que as
riza-se o pluralismo, a diversidade de opiniões e de
cotas deveriam ser para candidatos carentes, que não
costumes e rejeita-se a aceitação de uma verdade
têm condições de pagar uma boa universidade”, disse.
única.
A UnB informou, por meio de sua assessoria de im-
O texto a seguir é um artigo de jornal – portanto,
prensa, que o recurso do candidato está sendo avaliado
um texto de opinião. Nele, critica-se certa tendência
pela banca responsável pela análise das fotografias e
ao relativismo em voga atualmente e, segundo o
que o resultado final será anunciado no dia 6 de junho.
autor, bastante perigosa, por possibilitar o abuso de
A assessoria disse ainda que a concorrência do sistema
poder. Leia-o com atenção e reflita sobre suas afir-
de cotas não é divulgada. A prova do vestibular do meio
mações.
do ano da UnB será realizada nos dias 16 e 17 de junho.
(http://g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL43786-5604-
619,00.html, acesso em 06/02/2008)
O relativismo e a modernidade

1. No texto, como se define “ser negro”? Existe A proposição de que toda verdade é relativa,
outra forma de se definir isso? tão ouvida hoje em dia, é insustentável

A UnB define quem é negro com base no exame visual de Recentemente, como se sabe, as ideologias “pós-
-modernas” abraçaram o relativismo com a mesma in-
uma foto; portanto, a partir da característica física do
conseqüência com que atacavam a modernidade. Pa-
candidato. Porém, existe outra forma de caracterizar o rece-me claro que muitas das teses de pensadores ex-
“ser negro” (usada, por exemplo, pelo Censo): a partir de tremamente influentes, como Michel Foucault, Gilles
Deleuze, Jacques Derrida, Richard Rorty e seus discípu-
uma declaração do entrevistado. Nesse caso, ser negro
los, podem ser consideradas relativistas, mesmo se eles
seria menos uma questão física ou material, e mais uma próprios, como é natural, jamais tenham querido assim
questão de consciência. Haveria, portanto, duas concepções se rotular.
de verdade, fundamentadas em diferentes princípios: o
É mais comum um filósofo relativizar, de algum mo-
do, a verdade, do que confessar-se relativista. Nietzsche,
da evidência empírica (cor de pele) e o da razão (consciên- um dos mais citados hoje em dia, é claramente rela-
cia). O professor pode ainda comentar a dificuldade de tivista (embora seja mais freqüentemente classificado
se fazer um julgamento como esse (que depende, em de “perspectivista”).
O fato é que é comum ouvir-se hoje em dia que “toda
grande medida, da subjetividade), principalmente num
verdade é relativa”. Essa proposição, porém, é insusten-
contexto de competição, como é o do vestibular. tável. Por quê? Porque incorre no que os lógicos chamam

ensino médio – 1ª- série 28 sistema anglo de ensino


de autocontradição performativa. Essa se manifesta no se- todos os pretensos conhecimentos dados ou positivos —
guinte dilema: se a própria proposição "toda verdade é re- o que, de certo modo, equivale a relativizá-los. Entre-
lativa" for relativa, segue-se que nem toda verdade é tanto, os pretensos conhecimentos positivos são rela-
relativa; por outro lado, se a proposição “toda verdade é re- tivizados por esses pensadores a partir da crítica efetua-
lativa” não for relativa, segue-se, igualmente, que nem da pela razão: a partir, portanto, da razão crítica.
toda verdade é relativa. Desse modo, o relativismo uni- Assim, ao mesmo tempo em que, por um lado, todos
versal se desmente ao ser afirmado. os pretensos conhecimentos positivos são reconhecidos
Mas o relativismo é inviável também do ponto de como relativos, por outro lado, a razão (enquanto facul-
vista prático ou político. Embora ele seja muitas vezes dade de criticar) é reconhecida, desde o princípio da
defendido a partir de uma atitude pluralista, em que o modernidade, como um absoluto epistemológico*. Não
relativista, negando-se a tomar qualquer verdade como que ela não possa criticar a si própria: ao contrário,
absoluta, aceita que haja verdades diferentes daquelas nunca é demais lembrar que, na “Crítica da Razão Pura”,
em que acredita, ele, com isso, acaba por minar a sua de Kant, a razão é tanto sujeito quanto objeto da críti-
própria posição. ca. Entretanto, justamente ao criticar e questionar a si
É que, como diz Platão sobre o relativista Protágoras: própria, a razão não pode deixar de se afirmar.
“ele é vulnerável no sentido de que às opiniões dos outros Ora, o reconhecimento de que a razão crítica — ou
dá valor, enquanto que esses não reconhecem nenhuma negativa — é epistemologicamente absoluta equivale ao
verdade às palavras dele”. Assim, enquanto o relativista reconhecimento de que nenhum pretenso conhecimen-
aceita, por princípio, que sejam relativamente verda- to positivo é absoluto: ou, em outras palavras, de que
deiras as crenças do anti-relativista ou absolutista (seja todo pretenso conhecimento positivo é relativo.
ele, por exemplo, um terrorista jihadista*), esse não re- Chamo o reconhecimento moderno dessa clivagem*
conhece absolutamente nenhuma verdade nas teses — entre a razão negativa e absoluta, por um lado, e os conhe-
que, para ele, não passam de manifestações de fraque- cimentos positivos e relativos, por outro, de “apócrise”.
za, decadência etc. — do relativista. Desse modo, a apócrise (1) escapa da autocontradi-
Pior ainda: o relativismo é capaz de se transformar ção performativa em que incorre o relativismo vulgar;
no seu oposto. “Da equivalência de todas as ideologias, (2) não incorre em etnocentrismo (pois seria o cúmulo
todas igualmente ficções”, afirmava Mussolini, sob a in- do etnocentrismo considerar a razão crítica como “oci-
fluência de Nietzsche, “o relativismo moderno deduz dental”); (3) não deixa de afirmar o caráter absoluto da
que cada qual tem o direito de criar-se a sua própria e razão crítica; e (4) não é suscetível de ser transformada
impô-la com toda a energia de que é capaz”. no seu oposto, tal como ocorreu com o relativismo vul-
E pergunto: qual foi a ideologia que Mussolini criou gar, nas mãos de Mussolini.
e impôs com toda a energia de que foi capaz? O fascis- (Antonio Cícero, Folha de S. Paulo, “Ilustrada”,
29 de dezembro de 2007.)
mo, para o qual, como afirmou em “A Doutrina do Fas-
cismo”, “o Estado é um absoluto”. Eis como é simples a * jihadista: relativo a Jihad (segundo o dicionário eletrônico
Houaiss, “dever religioso dos muçulmanos de defender o Islã
transformação do relativismo em absolutismo.
através de luta”).
A modernidade filosófica mesma não é nem jamais
* epistemológico: relativo à epistemologia, à teoria do conheci-
foi relativista, pelo menos nesse sentido vulgar. É ver- mento.
dade que, desde o princípio, Descartes e, mesmo antes * clivagem: separação, diferenciação ou oposição entre duas
dele, Montaigne, por exemplo, puseram em questão ou mais coisas quaisquer.

ensino médio – 1ª- série 29 sistema anglo de ensino


ensino médio – 1ª- série 30 sistema anglo de ensino
Unidade III

ÉTICA

ensino médio – 1ª- série 31 sistema anglo de ensino


Aula
12
Introdução à Ética
Para pensar

Costumamos julgar de forma bastante negativa as pessoas que não dizem a verdade. Isso nos faz pen-
sar que, em nosso sistema de valores, dizer a verdade é considerado altamente positivo.
Mas será que podemos ter como princípio dizer sempre a verdade? Você consegue imaginar alguma
situação em que é preferível não dizê-la? Será que é possível estabelecer algum critério a respeito de
quando ela deve ser dita?

Observe a imagem:

Vincent van Gogh. A noite estrelada, óleo sobre tela, 1889.

O holandês Vincent van Gogh (1853 – 1890) Juízo de valor e norma


pintou esse quadro um ano antes de morrer, en-
Nas últimas aulas, falamos a respeito do conhe-
quanto estava internado em uma clínica psi-
cimento verdadeiro e da forma como os filósofos
quiátrica em Saint-Rémy (Provença, região da
empreenderam sua busca. Pensemos agora no
França). Ao contrário de muitas de suas obras,
nosso cotidiano e no ato de dizer a verdade.
essa foi pintada de memória, e não a partir da
A decisão sobre dizer ou não a verdade está es-
vista de uma paisagem. A cena noturna construí-
treitamente ligada aos sistemas de valores de uma
da pelo artista não é, portanto, a reprodução de
sociedade. Há coisas que valorizamos, considera-
nenhum céu real: van Gogh produziu uma imagem
mos boas e procuramos fazer. Por outro lado, senti-
fantástica, com cores e movimentos que não
mo-nos mal quando não conseguimos evitar ações
vemos no céu noturno. Dessa forma, podemos até
que julgamos más ou reprováveis. Em outras pala-
nos questionar se o céu de van Gogh é verdadeiro
vras, somos capazes de estabelecer juízos de valor,
(no sentido de se adequar ao céu real), mas não
diferenciando o bem e o mal, e de agir conforme
podemos duvidar de que o artista conseguiu ex-
essa diferenciação. Esses juízos nos permitem esta-
pressar a sua maneira de vê-lo, ou seja, a sua ver-
belecer princípios morais que procuramos seguir e
dade sobre ele.
que convém serem seguidos por todos.

ensino médio – 1ª- série 32 sistema anglo de ensino


Mas por que escolhemos fazer o bem? A res- todos os cinco pacientes e poderiam, portanto, sal-
posta é simples: escolhemos fazer o bem, seguindo var cinco vidas. O que fazer? Matar o indivíduo sau-
princípios morais, porque, caso contrário, seria dável, para salvar os cinco doentes, parece-nos uma
quase impossível o convívio social. Imagine se cada opção inviável. Então, nesse caso, a morte de cinco
um pudesse estabelecer suas próprias normas. Cer- é preferível à morte de um?
tamente predominaria a insegurança, principal- Outro exemplo de que a discussão sobre esse
mente se as pessoas tivessem como princípio a princípio não está fechada é a polêmica gerada pe-
mentira, o egoísmo ou o uso da violência física ou las pesquisas com células-tronco, vistas pela ciência
psíquica. como uma alternativa bastante eficaz para o trata-
Assim, pode-se dizer que os valores têm caráter mento de quantidade significativa de doenças graves
social (ou histórico): na maior parte das vezes, vêm e até então de tratamento difícil, como alguns tipos
do passado, são herdados, e nos aparecem sob a de câncer e paralisia. Essas pesquisas colocam-nos
forma de normas que devem ser respeitadas em diante de um dilema ético, afinal as células-tronco
benefício de todos, sejam elas uma lei, um regula- mais eficazes são extraídas de embriões humanos,
mento escrito ou um princípio de conduta. que são destruídos no processo. Segundo alguns
Por outro lado, como já sabia Sócrates (veja a setores da sociedade – principalmente a Igreja –, a
aula 3), o homem tem autonomia, é capaz não só de destruição de um embrião humano significa a des-
criar seus próprios valores como de questionar os truição de uma vida. Trata-se, portanto, da viola-
valores herdados. Trata-se de uma tarefa perigosa: ção de um princípio moral. Para esses setores, por-
toda vez que nossa consciência ética confronta valo- tanto, essas pesquisas não deveriam ser realizadas,
res estabelecidos, corremos um risco. Aliás, no ca- apesar de prometerem melhorar a qualidade de
so de Sócrates, o desfecho foi trágico. vida de muitas pessoas, ou até mesmo salvá-las.
Os princípios morais estão ligados às nossas es-
Norma e práxis colhas: somos dotados da capacidade de decidir o
Certamente, dizer até quando uma norma deve que fazer e de utilizar nossa consciência moral para
ser respeitada e quando ela deve ser mudada é isso. Ao escolher, exercemos nossa capacidade de
uma tarefa difícil, ainda mais levando-se em con- ser livres. Mas, como acabamos de ver, a decisão
sideração as transformações que ocorrem, com o sobre que caminho seguir nem sempre é tão sim-
tempo, em todas as sociedades. Mas, além dessa, ples, ainda mais numa época em que as transfor-
deve-se considerar outra dificuldade em relação às mações ocorrem com muita velocidade, exigindo
normas: em nossa vida prática, estamos o tempo que se faça constantemente uma revisão de valo-
todo escolhendo entre alternativas possíveis e nem res. É justamente nesse ponto que os estudos sobre
sempre nosso sistema de valores dá conta de todas Ética são de grande interesse para nossa sociedade.
as situações que se apresentam a nós, ou seja, nem
Moral e Ética
sempre essa escolha é pacífica.
Pense, por exemplo, no preceito bíblico “não Moral (do latim moralis, de mor-, mos: costume) é
matarás”. Não precisamos ser religiosos para con- o conjunto de valores – que variam de cultura para
cordar com esse princípio, aparentemente inques- cultura e mudam com o tempo – em que se baseiam
tionável. Porém, ele é realmente aplicável a todas os princípios e as normas que garantem o convívio
as situações? entre as pessoas e, portanto, a sobrevivência do gru-
Imagine, por exemplo, que você esteja ao volan- po. Ética (do grego ethiké, ethikos: que se refere aos
te de um carro desgovernado que se dirige rumo a costumes) é o ramo da Filosofia que aborda os pro-
um grupo de cinco pessoas. Numa fração de se- blemas fundamentais da moral (significado do bem e
gundos, você percebe que talvez até possa mover o do mal, da justiça e do dever, bem como o sentido e
volante em outra direção, atingindo apenas uma a finalidade da vida). Trata das regras de conduta
pessoa. O que você faria? A morte de um é preferí- permanentes e de validade universal, buscando de-
vel à morte de cinco? finir seus princípios. As duas palavras têm o mesmo
Imagine agora outra situação: num hospital cin- sentido original (ligado aos costumes) tanto no grego
co pacientes em estado grave esperam por um quanto no latim, mas a moral tem um sentido mais
transplante de órgão (cada paciente necessita de prático (relacionado ao estabelecimento de princí-
um órgão diferente). Na sala de espera desse hos- pios ou normas), enquanto a Ética tem um sentido
pital, há um indivíduo saudável. Suponhamos que mais teórico. Na linguagem cotidiana, porém, os ter-
os órgãos desse indivíduo fossem compatíveis com mos costumam ser utilizados como sinônimos.

ensino médio – 1ª- série 33 sistema anglo de ensino


Ética em Aristóteles de um exame feito pelo sujeito. A moral kantiana
está fundada no princípio do dever: existe um de-
Aristóteles abordou a questão da Ética a partir do
ver universal que se identifica com o aperfeiçoa-
princípio segundo o qual todas as coisas (tanto os
mento moral do homem. Não há perfeição moral
objetos como as pessoas) têm uma finalidade. Em
maior do que cumprir o dever, sob a forma do im-
sua obra Ética a Nicômaco, ele afirma: “Toda arte e
perativo categórico.
todo método, assim como toda ação e escolha, pa-
Em Kant, a moralidade não depende nem da
rece tender para um certo bem; por isso se tem dito,
vontade de deus nem da submissão a um objetivo
com acerto, que o bem é aquilo para que todas as
maior (como o bem-estar ou até mesmo a sobre-
coisas tendem.” Ao escrever “toda arte e todo méto-
vivência de uma comunidade). A lei moral é tam-
do”, Aristóteles refere-se a toda atividade e todo co-
bém a priori, ou seja, não depende de fatores ex-
nhecimento humano. Assim, a metalurgia e a agri-
ternos a ela. Nossa vontade gera nossos atos, e es-
cultura, por exemplo, têm como finalidade o bem do
ses seguem suas próprias leis, baseando-se nos
homem. Essa concepção, segundo a qual todas as
princípios da razão prática, que todos nós possuí-
coisas têm uma finalidade, é chamada de teleológica.
mos. Agir moralmente significa reconhecer que
No ser humano, essa finalidade é a felicidade,
todo homem é um fim em si mesmo, e não um meio
alcançada pela prática da virtude. Aristóteles en-
que se usa para se atingir determinada finalidade.
tende a virtude como fruto de um equilíbrio entre
Desenvolvendo o imperativo categórico, Kant es-
o excesso e a falta, obtido a partir de escolhas con-
creveu em Fundamentação da metafísica dos cos-
cretas, que resultam em atos reais. Entre a covar-
tumes:
dia e a audácia, encontra-se a coragem; entre a ar-
rogância e a humilhação, a dignidade. Portanto, Age de tal maneira que trates a humanidade, em
não existia um Bem supremo que deveria ser conhe- tua própria pessoa e na pessoa de cada outro ser
cido, mas sim uma série de situações de vida em humano, jamais meramente como um meio, porém
que as pessoas praticavam o que poderia ser con- sempre ao mesmo tempo como um fim.
siderado o bem ou a virtude, utilizando-se, para Os fins que cada ser humano deve buscar são: a
isso, do meio-termo (ou justa medida). perfeição própria e a felicidade dos outros. Tais
Segundo Aristóteles, há três tipos de vida: a vi- metas surgem como um dever que nos devemos
da dos prazeres, que encontra o bem e a felicidade impor. A perfeição própria é atingida com o de-
na satisfação imediata dos desejos; a vida política, senvolvimento pleno das capacidades intelectuais,
que é exercida pelo cidadão livre e se satisfaz com morais e físicas. A felicidade dos outros depende
a honra; e a vida contemplativa, fundada na refle- da aceitação daquilo que cada indivíduo entende
xão e na investigação filosófica. Nesse caso, o meio- como um direito seu (desde que também reconhe-
-termo resultaria do reconhecimento de que as três cido como um direito meu). A partir daí, Kant fun-
formas de vida visam à felicidade e devem se inte- damenta sua doutrina do Direito: jamais pode-
grar. mos interferir na liberdade alheia.
Kant entendia a lei interna como uma lei uni-
A lei moral kantiana versal. Ao mesmo tempo em que a lei interna se
No livro Crítica da razão prática, Kant afirmou que funda no dever e tem um fundamento ético, deve
a existência de deus, da liberdade e da alma não pode existir uma lei externa que lida com a forma como
ser comprovada, uma vez que essas coisas não se sub- um indivíduo exerce ou sofre influência do outro.
metem à causalidade, ou seja, não ocorrem no espa- A lei interna caracteriza o direito natural, basea-
ço e no tempo (veja a aula 9). Ora, a moral cristã fun- do em princípios racionais a priori. A lei externa
dava-se justamente nesses elementos: admitindo-se assume a forma do direito positivo, que inclui a
a existência de deus e de uma alma imortal, mais cedo possibilidade de restrição à liberdade de cada indi-
ou mais tarde teríamos que prestar contas de nossos víduo para que se respeite a liberdade de todos.
atos. Nesse sentido, surgiam restrições à liberdade Falando sobre a lei moral enquanto uma lei in-
de se fazer o que se queria. terna, presente em todos nós, disse Kant em uma
Kant propôs um novo princípio ético funda- de suas mais famosas citações:
mental: “age de tal forma que a norma de tua con- Duas coisas me enchem a alma de admiração e
duta possa ser tomada como lei universal”. Trata- respeito crescentes, quanto mais freqüentemente
-se do conhecido imperativo categórico kantiano, delas se ocupa meu pensamento: o céu estrelado
que submete toda ação a uma regra moral nascida acima de mim e a lei moral dentro de mim.

ensino médio – 1ª- série 34 sistema anglo de ensino


exercícios são bons – e a bondade é uma coisa muito durável.
E cada um é bom em si mesmo e para seu amigo, pois
os bons são bons em absoluto e úteis um ao outro. E
1. “Se deus não existe e a alma é mortal, tudo é permi-
da mesma forma são agradáveis, porquanto os bons o
tido”, disse Ivan Karamazov, personagem da obra
são tanto em si mesmos como um para o outro, visto
Os irmãos Karamazov, do escritor russo Fiodor
que a cada um agradam as suas próprias atividades e
Dostoievski (1821 – 1881). Comente essa afirmação.
outras que lhes sejam semelhantes, e as ações dos
A afirmação da personagem expressa descrença na bons são as mesmas ou semelhantes.
possibilidade de se estabelecer qualquer princípio ético Uma tal amizade é, como seria de esperar, perma-
nente, já que eles encontram um no outro todas as
universal que não seja fundado na religião ou no temor a
qualidades que os amigos devem possuir. Com efeito,
deus. toda amizade tem em vista o bem e o prazer – bem
ou prazer, quer em abstrato, quer tais que possam ser
desfrutados por aquele que sente a amizade –, e ba-
seia-se numa certa semelhança. (…)
Mas é natural que tais amizades não sejam muito
2. Em que medida essa visão destoa da visão de freqüentes, pois que tais homens são raros. Acresce
Kant? que uma amizade dessa espécie exige tempo e fami-
Em Kant a moralidade não depende nem da vontade de liaridade. Como diz o provérbio, os homens não podem
conhecer-se mutuamente enquanto não houverem
deus nem da submissão a um objetivo maior (ou seja,
“provado sal juntos”; e tampouco podem aceitar um
não está fora do sujeito, mas dentro dele). ao outro como amigos enquanto cada um não pare-
cer estimável ao outro e este não depositar confian-
a nele. Os que não tardam a mostrar mutuamente
sinais de amizade desejam ser amigos, mas não o são
a menos que ambos sejam estimáveis e o saibam;
3. Pensando nas discussões desenvolvidas nesta porque o desejo da amizade pode surgir depressa,
aula, procure explicar as relações entre Ética e mas a amizade não.
violência. (Aristóteles, Ética a Nicômaco.)
Pode-se dizer que as normas estabelecidas por uma so-
ciedade têm como objetivo impor limites e controles ao Texto II
risco permanente da violência. Se cada um estabele- A riqueza extrema não ensina os homens a obede-
cesse suas próprias normas, ou seja, se houvesse liber- cer; a pobreza extrema degrada-os. Os que estão no
segundo caso, não sabem comandar, mas obedecem,
dade total, seria praticamente impossível vivermos em como escravos; os que estão em primeiro, não sabem
sociedade e o risco de disseminação de práticas violen- submeter-se a qualquer autoridade, mas comandam,
tas seria bem maior. com um despotismo de senhores. Vê-se então uma
cidade de escravos e de senhores, mas não uma cidade
de homens livres. De um lado, a inveja, do outro, sen-
timentos que, no mais das vezes, distanciam da
amizade recíproca e da comunidade política (…).
Tarefa mínima (Aristóteles, Política.)

Texto I
Sobre os textos, responda:
A amizade perfeita é a dos homens que são bons e 1. De acordo com a idéia de Aristóteles sobre ami-
afins na virtude, pois esses desejam igualmente bem zade, o que significa a expressão do texto I “pro-
um ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. vado sal juntos”?
Ora, os que desejam bem aos seus amigos por eles
mesmos são os mais verdadeiramente amigos, porque A expressão é uma referência metafórica às dificul-
o fazem em razão da sua própria natureza e não aci- dades para o estabelecimento de uma verdadeira
dentalmente. Por isso sua amizade dura enquanto
amizade, que exige familiaridade e, sobretudo, tempo,

ensino médio – 1ª- série 35 sistema anglo de ensino


para que seja possível nascer a confiança recíproca. A namento, uma tomada de decisão. Essas questões
verdadeira amizade é algo diferente de um simples “de- – que poderíamos chamar de temas éticos – variam
de época para época e, atualmente, ocupam espaço
sejo de amizade”.
privilegiado nas discussões entre amigos e fami-
liares, bem como na mídia em geral.
1. Procure enumerar alguns desses temas éticos.
São muitas as questões éticas em debate atualmente.
2. Qual a relação do texto II com o princípio aris-
totélico da “justa medida”? As principais delas envolvem o direito à vida e à dig-
nidade, como a pena de morte, o aborto, a eutanásia e
A justa medida é uma expressão da virtude em uma existên-
a pesquisa com embriões humanos. No Manual do pro-
cia ética, portanto é um princípio moral positivo. Ao des-
fessor, há outras possibilidades de resposta.
crever uma cidade de ricos e pobres, Aristóteles acaba
identificando o fim da liberdade. Assim, a “justa medida” –
expressa na distribuição mais igualitária das riquezas –
seria uma forma de se preservar a liberdade. 2. Diante de temas como esses, podemos ter uma
atitude mais ativa (exercendo nossa consciência,
vontade, liberdade e responsabilidade) ou mais
passiva (omitindo-nos ou deixando-nos levar pe-
los impulsos, pelas circunstâncias ou pelo dese-
Tarefa complementar jo dos outros). Em sua opinião, qual dessas ati-
Observe a imagem e leia o que o seu autor afir- tudes pode ser considerada ética? Justifique.
ma sobre ela: Certamente uma atitude ativa, já que a ética pressupõe
a autonomia do sujeito moral.

LEITURA COMPLEMENTAR

Como vimos, são muitos os debates éticos em


processo em nossa sociedade. Um deles diz respeito
à atitude do homem diante da natureza. Até que
ponto podemos dispor dos recursos naturais da ma-
neira que melhor nos convém (na maioria das vezes,
Andy Warhol. Cadeira elétrica, irresponsavelmente)? Será que temos o direito de
acrílico e serigrafia sobre tela, 1967.
ferir, matar, destruir, mesmo que seja visando ao
bem-estar do homem?
Não se imagina a quantidade de pessoas que pen-
O texto a seguir trata do uso de animais em
durariam em casa o quadro da cadeira elétrica, sobretu-
pesquisas científicas – um dos mais polêmicos as-
do se as cores da tela combinassem com as cortinas.
pectos da discussão sobre a interferência humana
(Andy Warhol)
na natureza. Leia-o com atenção e, depois, responda
Essa é uma das muitas obras em que o artista às questões.
pop norte-americano Andy Wahrol (1928 – 1987) Proteção aos animais
questiona a relação da sociedade de seu tempo
com a morte e a violência. A crítica elaborada por Parece sensato proteger de modo diferenciado animais
Warhol diz respeito a certa passividade diante de com maior capacidade de sofrer e angustiar-se
situações que ele julga inaceitáveis – como a pena Parlamentares do Congresso Nacional sabem prote-
de morte, por exemplo. ger os seus, como deixaram patente as manifestações de
Em nossa vida prática, deparamo-nos o tempo solidariedade ao tucano Ronaldo Cunha Lima, que re-
todo com questões que exigem de nós um posicio- nunciou ao mandato de deputado para escapar de jul-

ensino médio – 1ª- série 36 sistema anglo de ensino


gamento agendado no Supremo Tribunal Federal. Há 14 rimental (Fesbe) pede decisão num abaixo-assinado que na
anos, o paraibano havia dado um tiro na cara do rival quinta-feira já contava com 2.359 apoios. Até agora, em vão.
Tarcísio Burity, sem conseguir matá-lo (Burity só morre- O tucano Cunha Lima afirmou, em sua carta de renún-
ria anos depois, em 2003). cia, que preferia ser julgado na justiça comum. “Como
No que respeita a animais de verdade, contudo, o um igual que sempre fui”, escreveu. Como também di-
Congresso demonstra desprezo, na melhor das hipóte- ziam os porcos de Revolução dos Bichos, clássico de
ses. Nunca se deu ao trabalho de aprovar legislação que George Orwell, todos os animais são iguais, mas alguns
de fato discipline o uso de animais em pesquisa. A lei em animais são mais iguais que outros.
vigor (nº- 6.638), sancionada em 1979 pelo nada saudoso (Marcelo Leite, Folha de S. Paulo, 4/11/07.)
general João Figueiredo, carece até hoje de regulamen-
1. Como o autor julga a postura dos parlamentares
tação. Vale dizer: não pegou.
do Congresso Nacional diante de questão tão
Não que alguns parlamentares não tenham tentado.
importante?
Em 1995 — 12 anos atrás, portanto —, o deputado e médi-
co sanitarista Sérgio Arouca (PPS-RJ, morto também em Na visão do autor, os parlamentares se comportam de
2003) apresentou um projeto de lei (nº- 1.153) razoável. maneira antiética, pois estão mais empenhados em
A proposta de Arouca criava um Sistema Nacional de
garantir a satisfação de seus interesses pessoais do
Controle de Animais de Laboratório (Sinalab), sob a
égide do Ministério do Meio Ambiente. Fixava normas que em legislar para o bem comum (nesse caso, suben-
para a responsabilização administrativa, civil e penal na tende-se que a defesa dos direitos dos animais é im-
experimentação e vivissecção de animais, mas só daque- portante para a garantia de bem-estar social).
les do filo Chordata, ou cordados, bichos com pelo me-
nos um rascunho de coluna vertebral.
De fato, não há muito sentido em criar regras para
dissecar minhocas, como fazia a inesquecível professora
Zulmira, do Colégio Bandeirantes, em 1970. Defensores
2. O debate sobre o uso de animais em experimentos
mais extremados dos direitos dos animais podem não
científicos geralmente é marcado por posiciona-
concordar, mas parece sensato proteger de modo diferen-
mentos radicais: de um lado, estão os que defen-
ciado aqueles animais com maior capacidade de sofrer e
dem seu uso irrestrito (alegando os benefícios que
angustiar-se — mais parecidos conosco, enfim.
tal prática traria para a humanidade); de outro, os
Chamar essa premissa de “especismo” não resolve a
que lutam pela sua total proibição (alegando que já
questão. Animais não-humanos nunca serão iguais a
há outros meios de a ciência progredir, sem a ne-
animais humanos. O problema é que eles tampouco são
cessidade de “torturar” animais). Por sua vez, o au-
tão diferentes quanto se considerava poucas décadas
tor do artigo parece propor uma outra alternativa.
atrás, a ponto de justificar-se seu uso como coisas.
Identifique-a e diga em que medida ela se aproxi-
Pois bem: após alguma discussão com a comunidade
ma do conceito de equilíbrio, tão importante para
científica, em 1997 o governo FHC encaminhou ao Con-
o exercício da Ética, segundo Aristóteles.
gresso um projeto de lei reformulado (nº- 3.964). Em lugar
de um Sinalab agora se propõe um Concea (Conselho Na- O autor propõe a regulamentação do uso de animais e,
cional de Controle de Experimentação Animal), abrigado já para que isso se efetive, a realização de debates envol-
no Ministério da Ciência e Tecnologia, não mais no do Meio
vendo diversos setores da sociedade. Ao admitir a ne-
Ambiente. Em lugar de cordados, só protege vertebrados.
Oito das 14 cadeiras ficam reservadas para entidades cessidade do uso de animais e enfatizar a urgência de
científicas, hegemonia que pode vir a ser questionada. Ela se regulamentar esse uso, coloca-se numa espécie de
permite supor que, entre o interesse dos pesquisadores e o
meio-termo, que, segundo Aristóteles, era a única
dos animais, o Concea fique com o primeiro. Além disso,
seria bem-vinda uma menção mais explícita, no projeto, à maneira de se agir efetivamente – e eticamente – sobre
obrigação de só realizar experimentos que não possam ser a realidade.
substituídos por métodos alternativos.
Apesar disso, é outra proposta razoável, que tiraria os
animais do limbo legal que o Brasil lhes reserva, na contra-
-mão da maioria dos países civilizados. É sobre esse par de
propostas, ora em tramitação conjunta na Câmara dos De-
putados, que a Federação de Sociedades de Biologia Expe-

ensino médio – 1ª- série 37 sistema anglo de ensino