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Solia M. F. Bauer

Livro Pleno
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Sofia M. F. Bauer

IP OTERAPIA RICKSONIAN
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Editora Livro Pleno


2002
I~IIPNOTERAPTA ERJCKSONIANA PASSO A PASSO

2002

Conselho editorial
Douglas Marcondes Cesar

Copidesque
Juliana Boas

Revisão
Marco Antonio Storani

Coordenação editorial
Douglas Marcondes Cesar

ISBN: 85-87622-02-1

Todos os direitos reservados para a língua portuguesa

Editora Livro Pleno


Rua Dr. Cândido Gomide, 584 Jd. Chapadão
-

CEP: 13070-200 Campinas SP Brasil


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Telefax: (OXX) 19 3243-2275


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Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, es


pecialmente por sistemas gráficos, niicrofflmicos, fotográficos, reprográfi
cos, fonográficos e videográficos. Vedada a atemorização e/ou a recupera
ção total ou parcial bem como a inclusão de qualquer parte desta obra em
qualquer sistema de processamento de dados. Essas proibições aplicam-se
também às características gráficas da obra e sua editoração.
Sofia M. F. Bauer

HIPNOTERAPJA ERTCKSONJANA
PASSO A PASSO

Editora Livro Pleno


2002
HIPNOTEI~APIA ERICKSONIANA PASSO A PASSO

2002

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qualquer sistema de processamento de dados. Essas proibições aplicam-se
também às características gráficas da obra e sua editoração.
Agradecimentos

Ao Dr. Jeffrey K. Zeig, por sua colaboração e dedicação ao


ensino da hipnoterapia ericksoriiana.
Ao professor Malomar Lund Edelweiss e seu Grupo de E~
tudos, que muito têm me ajudado na formação, informação e no
aprimoramento pessoal e profissional.
Aos colegas de equipe, que tanto me incentivaram a escre
ver este guia.
Em especial, a José Roberto Fonseca, pela ajuda primorosa
na correção e na elaboração do glossário que vem no final do li
vro.
A José Carlos Vjtor Gomes, pelo incentivo a esta publica
ção.
E, sem deixar de homenagear, ao Dr. Milton H. Erickson,
por compartilhar de sua arte em trabalhar psicoterapeuticamen
te. Que a estrela dele continue brilhando, para iluminar os nossos
caminhos.

vil
Sumário

PREFÁCIO 15
SOBRE A HIPNOTERAPIA ERICKSONIANA NO BRASIL 17
INTRODUÇÃO 21

Capítulo 1

HISTÓRIA DA HIPNOSE

Capítulo 2

MITOS E CONCEITOS 33
1. Mitos 33
2. Concejtos 38
3. Mente consciente e mente inconsciente 41
4. Sugestibilidade 42
5. Hipnotizabilidade 43
6. Constelação hipnótica 52
7. Fenômenos hipnóticos 56
Rapport 56
Catalepsia 57
Dissociação 57
Analgesia 57
Anestesia 57
Regressão de idade 57
Progressão de idade 58
Distorção do tempo 58
Alucinações positivas e negativas 59
Amnésia 59
Hipermnésia 59
Atividades ideomotoras e ideossensórias 59
Sugestão pós-hipnótica 59

Capítulo a

O MODELO DA IIIPNOTERAPIA ERICKSONIANA 63


1. Hipnose clássica 63
2. Hipnose naturalista: a hipnose de Miltora H. Erickson 64
3. A indução naturalista 68
4. Roteiro de indução simplificado 69
Absorção 69
Ratificação 70
Eliciação 70
Pacing e leading 78
5. Avaliação do paciente para utilização do metamodelo
(segundo Jeffrey 1<. Zeig) 78
Categorias de avaliação~ 80
Perceptuais 80
Categorias de avaliação 84
Sócio-relacionais 84
Ganchos 93
6. Atuação em uma seqüência 94
7. Semeadura 95
8. O Diamante de Erickson um metamodelo
-

de psicoterapia 99
9. Utilização para que finalidade um metamodelo
-

de psicoterapia 102
10. Selecionando o que um terapeuta poderia utilizar 106
11. Como fazer uma indução ao modo de Erickson,
de acordo com cada cliente, sem ser Milton 1-1. Erickson
—O processo 106
xii
Carítulo 4

o uso DE METÁFORAS EM HIPNOTEPApIA ~ 113


1. Parte teórica 114
2. Parte prática a construção das metáforas
- 122
3. Metáforas estórias já contadas algum dia
- 124
4. Algumas analogias utilizadas metaforicamente 145

Capítulo 5

TÉCNICAS HIPNOTERÁPICAS 149


1. Instruções gerais 149
2. A posição 152
3. Indução de relaxamento progressivo 155
4. Indução da respiração 161
5. Indução da levitação das mãos 164
6. Indução de um lugar agradável 169
7. Técnica passo a passo em cima do sintoma 172
8. Técnicas de entremear palavras 175
9. Técnicas de aprofundamento do transe 177
Fracionamento 177
Nuvens 181
Escada 182
Silêncio 183
10. Sonhos induzidos 184
11. Distorção do tempo 185
12. Confusão mental 187
13, Técnicas de hipnose com crianças 188
14. Técnica de progressão de idade 192
15. Técnica de regressão de idade 193
16. Técnicasparador 197
17. Técnica para controle de hábitos viciosos 201
18. Técnica de auto-hipnose 210
xflz
Capítulo 6

CASOS CLÍNICOS ........................~ 215


1. As desordens somáticas e ps~cossomáticas 216
2. Hipertensão 216
3.. Úlcera 220
4. Impotência 224
5. Ejaculação precoce 229
6. Vaginismo e frigidez 232
7. Depressão reativa 237
8. Fobias 243
9. Síndrome do pânico 248
10. Asma 26.8

Capítulo 7

CASOS DE INSUCESSO 273

Capítulo 8

CONCLUSÃO 279

BIBLIOGRAFIA 281
GLOSSÁRIO 287

xiv
Prefácio

Hipnose! Esta palavra traz à tona uma variedade muito


grande de sentimentos e imagens sensacionajs. Mesmo entre os
profissionais, existe muita penumbra e muitos preconceitos em
torno dela.
Felizmente, a Dra. Sofia Bauer, psiquiatra especialmente
qualificada, escreveu este livro de valor incalculável, qu.e ajuda a
elucidar muitas questões referentes à hipnose. No livro Hipnote
rapia erjcksoniana passo a passo, a Dra. Bauer provê informações
atualizadas que podem tornar possível ao médico ou ao psicote
rapeuta integrar efetivamente a hipnose à sua prática profissio
nal cotidiana.
A autora enfatiza especialmente a moderna abordagem
hipnótica pioneiramente elaborada por Milton Ii. Erickson, M.D.
(1901-1980), ele que é considerado o pai da hipnose médica mo
derna, ErÏckson inventou uma nova abordagem baseada no res
gate dos recursos do paciente. O seu método consistia em utilizar
aquilo que o paciente trazia em si como algo de mais forte, mais
do que analisar ou dar ênfase às suas fragilidades. Sua aborda
gem está no coração da psicoterapia moderna. Clínicos de todo o
mundo participaram de programas de treinamento para apren
der sobre esse avanço importante cristalizado e representado
pelo legado deixado por Erickson.
Sofia Bauer, diretora (entre outros) do Instituto Milton 1-1.
Erickson de Belo Horizonte, um dos mais de 70 institutos afilia
dos à Milton 1-1. Erickson Foundation mc., é uma das pessoas
mais amplamente qualificadas para escrever sobre os avanços da
psicoterapia ericksoniana, urna vez que se submeteu a um pro
grama de treinamento intensivo na Fundação Erickson, em Phoe
mx, Arizona, tendo sido urna das mais aplicadas estudantes bra
sileiras e se consagrado como um dos mais reconhecidos traíners
de língua portuguesa.
Reconheço em Sofia Bauer urna profissional altamente éti
ca e uma psicoterapeuta diligente. Supervisionei alguns dos
seus casos clínicos e gostaria de ser enfático no reconhecimento
da sua remarcada comDetêncja, ela que também tem sido discí
pula do renomado psicoterapeuta Malomar Edeiweiss, e acabou
incorporando, também, algumas das suas contribuições para o
seu. trabalho.
Ë urna honra prefaciar o trabalho de urna aluna tão impor
tante e cuja contribuição à psicoterapia se cohsagra agora numa
obra insubstituível. Hipnoterapia ericksoníana passo a passo é um
texto claro e de fácil compreensão, que estará entre os mais im
portan~es manuais de terapia ericksoniana de língua portuguesa,
para todos aqueles que se interessarem em aprender sobre os
fundamentos da abordagem de Erickson. Este livro é muito bem
organizado, rico em novas idéias e propostas interessantes. Os
leitores que apreciarem de forma cuidadosa esta leitura serão
compensados com o conhecimento de um universo de idéias prá
ticas que irá reverter-se imediatamente em novos recursos em be
nefício do aprimoramento do seu trabalho na clínica..

J~ffrey K. Zeig, Ph.D.


Diretor da Milton Ii Erickson Foundatiori mc.

xvi
Sobre a hipnoterapia ericksoniana
no Brasil

Gostaria que vocês soubessem que a hipnoterapia erickso


niana vem sendo divulgada e difundida por todo o Brasil.
José Carlos Gomes vem trazendo, em workshops e. con
gressos, os mais competentes profissknais da área como: Jeffrey
K. Zeig, Stephen Gilligan, Ernest Rossi, Tereza Robles, Jorge
Abia, Camilo Loriedo, Stephen Larikton, entre outros.
Dr. Jeffrey K. Zeig vem fazendo um belo trabalho de base,
ensinando aos psicoterapeutas a abordagem ericksoniana. Ele
tem dado cursos em Belo Horizonte, São Paulo, Rio e Porto Ale
gre.
Hoje já contamos com vários institutos ericksonianos que
ministram cursos de formação na área. Desejando fazer uma for
mação mais completa, você pode procurá-los.
Esses institutos são filiados à Fundação Milton H. Erickson
dos EUA e receberam autorização para funcionar corno institutos
de formação na abordagem ericksoniana.

xvii
. ~ ~. . .~C . r •.: % ~ N. . . :fl. N . Ç»~. .: ~ -
Hipnose é um ato de amor... permitir-se entrar em transe é
um ato de amor... ver esta outra parte sua que mora aí dentro... a sua
beleza.
Quando você ama alguém, você gosta... admira... se fixa nela...
absorve.., e “mergulha” profundamente na idéia de se entregar...
Não tenha medo do que vem. Você primeiro vai aprender a conhe
cer o outro e descobrir a beleza dele. Quando você o fizer, perderá o medo
e com certeza tocará seu coração e este então se abrirá para receber o
belo, o bom, o que realmente cura.

Tenha coragem de dizer para você: Eu não sei,, mas vou


aprender à medida que observo o meu cliente; verei o que ele
tem de bom, seus recursos, sua potencialidade, e isto será a luz
que o guiará para a saída do problema. Mas é preciso ter a cora
gem de enfrentar o medo de amar o que quer que venha. Libere
seu coração para que ele sinta e deixe fluir o amor por você pri
meiro. Aceite o fato de que, para andar, temos que dar um passo
depois do outro. Centre-se, respire, ame a você mesmo, libere seu
olhar, seus sentimentos, e busque perceber como o outro lhe toca.

Abra seu coração para receber... deixe acontecer,.. o amor!...


Com certeza você tem muito para dar...
Eu me lembro do meu primeiro sonho em análise.., um canteiro
a ser plantado, só havia terra, eu pedia ajuda a um jardineiro... Foi como
tudo começou...
No final desta mesma análise, meu último sonho.., estava num
jardim botânico,.. um herbário talvez... havia um sábio de cabelos bran
xix
cos que tinha dificuldade em andar... ele me ensinava que nesse jardim
havia todo tipo de planta... a forma de cuidar era variada.., ele mostrava
como observá-las... tratá-las... mas estavam ali.., poderia tirar mudas...
plantar mais...
Hoje estou aqui falando de passos... como guiar as pessoas para
amarem a si mesmas... se~’near... plantar... frutificar!

xx
Introdução

Tudo começou com uma semente, o professor Malomar


Lund Edelweiss.
Semeou as primeiras idéias aqui em Belo Horizonte e foi
disseminando um tipo de flor especial: encantava, suavizava e
curava através de uma terapia suave. Uma mistura de psicanálise
com hipnose.
Foi com quem dei os primeiros e os grandes passos na di
reção da hipnoterapia. Aprendi a trabalhar com algo muito espe
cial: em vez do ferrinho de dentista, usar laser. Mais suave, me
nos dolorido e muito eficaz na retirada do tártaro.
A partir das primeiras induções ensinadas por ele, tive a
curiosidade de percorrer o caminho que me levasse à teoria da
clínica daquilo que estávamos fazendo. Fui buscar nos professo
res que seguiam a abordagem de Milton H. Erickson.
Foi quando encontrei o Dr. Jeffrey K. Ze~g, entre muitos
outros professores da teoria da hipnose e da clínica hipnoterápi
ca.. Zeig, por ter estado ao lado de Milton H. Erickson por muitos
anos, foi capaz de elaborar uma forma de teoria para o trabalho
realizado pelo mestre da hipnoterapia naturalista. Das teorias
que vi, para caminhar nesta trilha, achei que Zeig era muito bom
para ensinar o passo a passo da teoria à clínica da hipnose. Vocês
terão a oportunidade de ver neste livro muitas das coisas que
com ele aprendi para dar os meus próprios passos.
Assim, este livro é o caminhar e o condensar das teorias
que percorri e que gostaria que vocês aprendessem.
22 Sofia M. F. Bauer

Ele é dedicado a todos aqueles que querem um guia práti


co para trabalhar com hipnoterapia ericksoniana. Vai abordar, da
teoria à prática clínica, todos os passos que devemos percorrer
para um bom trabalho.
Saber a teoria, a definição dos conceitos que envolvem a
hipnose, é fundamental para você saber lidar com ela. É como co
nhecer o solo onde você, fará suas edificações. Uma vez que você
sabe onde está pisando, fica fácil aplicar as técnicas de edificação.
Urra para cada tipo de solo.
Assim, o primeiro passo deste guia é mostrar os conceitos
teóricos.
Lembro-me bem de quando comecei. Foi como uma mistu
ra. Ainda não sabia bem o que era a hipnose, nem tampouco as
muitas técnicas para aplicá-la. Costumava perguntar ao profes
sor Malomar, meu grande introdutor na área, se a pessoa podia
bocejar, rir ou chorar, se abrir os olhos era sair do transe, se a
pessoa poderia falar; ia treinando e aprendendo, curiosa, a cada
dia, um novo passo.
Por isso considero essencial ter uma boa noção sobre o que
seja a hipnose, como se manifesta, seus níveis de profundidade,
seus fenômenos.
Logo em seguida, verificar e aprender quais as maneiras de
se colocar uma pessoa em transe. Há várias técnicas que vêm se
propagando e que você poderá utilizar variadamente. Vamos
abordar aqui neste livro alguns ericksonianos e suas técnicas de
prática clínica que mais efetivamente nos ajudam a colocar o
cliente em transe e ~a trabalhar em hipnoterapia.
Lembremos sempre que hipnose não é urna terapia em si,
mas uma boa ferramenta que nos ajuda a tornar o inconsciente
observável e aflorar os recursos de cada um mais rapidamente
para um trabalho de cura.
Mas não basta só saber a teoria sobre hipnose e sobre suas
técnicas de aplicação. É necessário, e condição básica, uma boa
formação em psicoterapia, e até em psicanálise, para que você
possa saber como utilizar essas técnicas.
Com este guia você associará seus aprendizados de psica
nálise e psicoterapia e, numa boa mistura, verá os resultados.
Hipnoterapia Erjcksoniana Passo a Passo 23

Espero que você utilize bem o que verá à frente. Sempre


ciente de que o bom senso é uma condição in~portante na utiliza
ção da hipnose~
Que este guia possa realmente guiá-lo no caminho da luz!
Como disse Milton H. Erickson a uma cliente deprimida,
“~. nenhuma dor dura para sempre, depois da chuva vem a luz
dosoL.~”.
4 r.~. .~ ~ .~N 7 . ~ r ~ — ,~ ~ •4~.. ~ .~ •~.. . .
Capítulo 1

História da hipnose

Todos que estão familiarizados com leituras sobre o tema


sabem que este é um capítulo que não falta nos livros.
A hipnose existe desde que o homem apareceu na terra. Os
fenômenos hipnóticos fazem parte da vida cotidiana de todos os
seres humanos. Nós passamos por eles todos os dias, várias ve
zes por dia. Mais adiante veremos os fenômenos hipnóticos e
você entenderá melhor.
A hipnose é um fenômeno universal. Portanto, ela pode ser
encontrada na história da humanidade desde os seus primórdios.
As induções hipnóticas são tão antigas quanto a comprovação da
existência das civilizações antigas, passando por culturas dife
rentes em danças, rituais, expressões orais, forças da natureza,
vindas desde povos não civilizados até os civilizados, todas se
guindo e procurando um estado especial de consciência: o transe.
Podemos ver, no decorrer da história, que este estado espe
cial foi associado a idéias de modificação de energia, um sono di
ferente, urna patologia, uma regressão, urna aprendizagem ad
quirida, uma dissociação, um envolvimento motivado, uma ence
nação.

Século XXX a.C.


No Egito via-se, através de papiros, que os sacerdotes iii
duziam um certo tipo de estado hipnótico.
26 Sofia M. F. Bauer

Século XVIII a.C.


Na China induzia-se um certo tipo de transe hipnótico
para se buscar a aproximação entre os pacientes e seus antepas
sados.
Mitologia grega
Filho de Apoio e Coronis, Asclépios (o Esculápio dos ro
manos) aprendeu com o centauro Quíron um tipo de sono espe
cial que curava as pessoas. Muitos dormiam no templo do deus,
e durante a noite se dava a cura.
Século XI
Avicena (Abu Ali ai-Husayn ibn Sina, 980-1037), sábio, filó
sofo e frLédico iraniano, acreditava que a imaginação era capaz de
enfermar e de curar pessoas.
Século XVI
P aracelsus (Philippus Aure olus Theophrastus Bornb astus
von Hohenheim, 1493-1541), pai da medicina hermética, acredita
va na influência magnética das estrelas na cura de pessoas doen
tes. Confeccionava talismãs com inscrições planetárias e zodia
cais.
Séculó XVIII
Franz Anton Mesmer (1734-1815) foi considerado aquele
que inaugurou a fase científica da hipnose. Assim, o início da his
tória formal da hipnose se deu em 1765 com os trabalhos de Mes
mer com seu magnetismo animal. Utilizando-se de magnetos,
Mesmer curava dores e doenças naquela época, pela aplicação de
tais ímãs na fronte da pessoa. Ele propunha que a cura se dava
por uma ab-reação da harmonia orgânica, produzida por urna
concentração inadequada de um fluido magnético invisível. Pen
sava que a cura se dava ao fazer fluir o tal magnetismo. Foi cons
titujndo fama com suas curas, e logo chamou a atenção pelo su
posto charlatanismo. Foi feita uma comissão para investigar se a
cura era mesmo real ou não. Participaram desta comissão Benja
mm Franklin, Lavoisier, Guillotin e Baiily, em 1784. Fizeram o
mesmo trabalho substituindo os magnetos por madeira e obtive-
wpnoterapia Ericksonlana Passo a Passo 27

rafli 05 mesmos belíssimos resultados. Consideraram então Mes


mer ~ charlatão. O mesmerismo foi proibido. Não viram o que
perdiam: a excelência dos resultados.
Mesmer não foi o primeiro. Seguia idéias de autores que
curavam doenças, acusados do uso de técnicas de bruxaria. Entre
estes autores estão: o abade Lenoble, Paracelso (1493-1541), Jan
Baptiste Van Helmont (1579-1644), Robert Pludd, Jantes Clerk
Maxwell (1831-1879), padre Kircher, Greatrake e JeanJoseph
Gassner. Seguia também as sistematizações ffsico-qufmicas de
Luigi Galvani (1737-1798) e Antoine Laurent de Lavoisier (1743-
1794).
Podemos citar taml?ém o marquês de Puységur (1751-1825)
como um discípulo de Mesmer que descobre o Sonambulismo
Artificial. Ao. fazer hipnose, usava tocar .hai~pa comç uma forma
de produzir “magnetismo”, termo provindo de Mesmer. Além
disso, utilizava os valores do paciente, como Erickson veio a La:
zer mais tarde.
Pe. José Custódio de Paria (1755-1819), mais conhecido
como abade Paria, graças ao famoso romance de Alexandre Dia-
mas, O Conde de Monte Cristo, teve contato com as idéias de Mes
mer, defendeu-as e sustentou a idéia de que o transe se asseme
lhava ao sono.
Século XIX
James Braid (1795-1860) cunhou o termo hipnotismo.

Do grego hypnos, sono. Mais tarde tentou trocar o nome


para monoideísmo, mas o termo já havia pegado. Induzia otran
se por fixação do offio a um ponto acima da linha dos olhos.
James Esdaile era um médico inglês que se utilizou das

técnicas de Mesmer para fazer grandes cirurgias sem anestesia


• durante a guerra na Índia. Publicou o livro Mesmerisnio na Índía
em 1850.
A escola de Nancy (de Llébeault, de Bernheim e de (±oué)
— considerava que o estado de transe era um estado normal e
não patológico. Se propunha que a muçiança acontecia de uma
forma não-consciente através da intervenção da vontade. E que a
sugestão operava somente quando encontrava um eco interno,
uma auto-sugestão.
28 Sofia M. F. Bauer

A escola da Salpêtrière — (Charcot), onde Freud fora fazer


seus estudos, considerava o estado de transe como algo que só
acontecia corno estado patológico.
Jean Martin Charcot (1825-1893) — tido corno um dos
maiores neurologista do século XIX, após estudo com um grupo
de pacientes histéricos, considerou o transe como um estado pa
tológico de dissociação. Também dividiu o transe em três níveis:
a catalepsia, a letargia e o sonambulismo. Foi o fundador da es
cola de neurologia da Salpêtrière.
Ambroise-Auguste Liébauit (1823-1904) — assemelhava o
transe ao sono, só que o transe resultava de sugestões diretas.
I-iippoiyte Bernheirn (1840-1919)—~ seguidor de Liébault,
desenvolveu a idéia do transe como um estado de “reforçada su
gestibilidade çausada ~ sugestões”. Liébault e Bernheim con
fluíram para a idéia de transe e sugest~bilidade.
Século XX
Ivan Pavlov (1849-1936) — médico russo que definiu o
transe corno um “sono incompleto” causado por sugestões hip
nóticas. Estas sugestões provocariam uma excitação em algumas
par Les do córtex cerebral e inibição em outras partes. Criador da
indução reflexológica.
Pierre Janet (1849-1947)* francês que descreveu o transe
corno uma dissociação. Introduziu o termo subconsciente para
diferenciá-lo do inconsciente.
Freud, nesta época, fez seus estudos junto aos casos de his
teria de Charcot e~ acabou por abandonar a hipnose, depois de
muitos estudos com Breuer. Faziam a correlação da hipnose com
patologia. O transe sonambúlico, que provocava amnésia, e a
vontade crescente do descobrimento dos caminhos do incons
ciente fizeram Freud abandonar a hipnose e partir para a livre as
sociação. Breuer aprendeu a aproveitar o transe menos profundo,
e então veio a fama e a inimizade com Freud.
Mas Freud, já em 1918, no Congresso Psicanalítico de Bu
ciapeste frisava a importância de aliar à psicanálise a hipnose. No
final de sua vicia, em 1938, falou da “legitimidade de certos fenô
menos hipnóticos” no Esboço de psicanálise. E, por fim, da possibi
I-{ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 29

lidacle de juntar o ouro da psicanálise ao bronze da sugestão hip


nótica.
Após a Segunda Grande Guerra, a hipnose começou a reto
mar força no tratamento dos traumas pós-guerra. Vieram novas
teorias:
Ernest Simmel, psicanalista alemão (1918) — desenvolveu
a hipnoanálise.
Clark Leonard Huli (1884-1952) professor de psicologia em
Yale, interessou-se pelos aspectos experimentais da hipnose, lan
çando o livro Hypnosis and sugestíbility, em cjue afirma que os fe
nômenos hipnóticos são uma resposta adquirida, igual aos hábi
tos. Teoria da aprendizagem: repetição associativa, condiciona
mento e formação de hábito.
Kris (1952)
— regressão dirigida a serviço do ego.
André Mulier Weitzenhoffer (1921) — reforça o conceito de
aprendizagem, mas caracteriza o transe corno experiência natura
lista.
Gili e Brenman (1959) — regressão a um estado primitivo
de transferência com o hipnotizador.
Fromm, Oberlander e Grunewald (1970) —- ego compulsi
vo e regressão adaptativa.
Ernest Hillgard — modificou os conceitos de dissociação
de Janet, em que o transe é um desligamento temporário.
Milton H. Erickson (1901-1980) — observadoi’ nato, perce~
beu a natureza muitidimensional do transe, que se modifica ex
periencialmente de pessoa a pessoa. Por mais que haja defini
ções, serão sempre uma visão pessoal que falharão em explicar
algum ponto e não irão substituir a experiência real de viver a
hipnose.
“Deve-se reconhecer que uma descrição, não importa quão
precisa ou completa seja, não irá substituir uma experiência real,
nem tampouco poderá ser apl:icável a todos os p~icientes” (Milton
H. Erickson).
Erickson, seguindo os achados de bons resultados de Clark
Huli, iniciou sua jornada, utilizando-se da hipnose de uma forma
muito pessoal. Nenhuma indução clássica, mas sim uma indução
especial e única para cada paciente, fazendo com que o paciente
30 Sofia M. F. Bauer

se tornasse seu próprio indutor, den±ro de uma técnica bastante


naturalista.
Podemos resumir, de acordo com o passar dos tempos,
que se considerava a hipnose uma técnica, e que o hipnotizador
curava. Mais tarde, que era necessário a interação de ambos, hip
notizador e hipnotizado. Depois, foi visto que a cura vem de den
tro daquele que deseja se curar. A indução é urna arte, uma habi
lidade que pode ser desenvolvida por todos, pois, naturalmente,
pode ser aprimorada de dentro para fora.
É isto que veremos a partir de agora. Boa viagem!
A viagem que vamos começar é na história da vida de
Erickson.
Rapaz jovem, filho de fazendeiros, contraiu poliomielite
aos 17 anos. Febril, à beira da morte, foi diagnosticado pelo mé
dico que disse à sua mãe e ele pôde ouvir que “este menino não
passará do amanhecer”. Raivoso e indignado pensou: “Como um
médico pode dizer uma coisa destas a uma mãe?!” Pediu a sua
mãe que o arranjasse na cama de tal maneira que pelo espelho
veria o sol nascer. Agüentou firme pensando: “Se eu vir o sol
nascer, não morrerei.” Aos primeiros raios de sol, ele se entregou
e entrou num coma profundo, vindo a despertar uns dias depois,
já refeito do pior, a morte. Foi sua primeira luta interior, em que
experienciou a força vir de dentro. Mais tarde, constatou o pri
meiro dos conceitos que veio a desenvolver: o princípio ideodi
nâmico. Aquele que diz que urna idéia (um pensamento) é um
ato em estado nciscendi, corno disse Freud. Ele estava paralítico,
preso a um.a cadeira de balanço, vendo seu povo trabalhar lá
fora, no campo, coi±~ muita vontade de lá estar também. Percebeu
que sua cadeira balançava. Como isto podia ocorrer se estava pa
ralisado. Foi ai que percebeu que seu corpo fazia um movimento
de ir para frente, como sua idéia de ir para fora. Começou a trei
nar sua mão, depois seus braços, depois aprendeu a andar passo
a passo e em pouco tempo estava se recuperando.
iJrna pessoa que experiencia a motivação como força básica
motivadora desenvolveu isto junto à hipnose: a força vem de
dentro. Urna resposta interior.
Milton Hyiarid Erickson, nasceu em Nevada, EUA, em 15
de dezembro de 1901. Morreu em 27 de março de 1980, e deixou
I—Iipnotera.pia Ericksoniana Passo a Passo 31

uma obra muito valiosa, com a utilização de hipnose naturalista,


que ressignifica os caminhos ditos problemáticos. Como psiquia
tra teve uma boa formação em psicoterapia e, por ter seu lado in
tuitivo e observador muito desenvolvido, foi se envolvendo, ao
longo da vida, com hipnose, a pontó de ser conhecido nos EUA
como Sr. Hipnose. Foi o presidente fundador da Amer:ican Socie
ty of Clinical Hypnosis e editor fundador da revista daquela so
ciedade, American Journal of Clínical Hypnosís.
Milton 1-1. Erickson tinha uma forma muito particulai: de
ensinar, através de seminários didáticos, em que seus alunos
mais experienciavam sua metodologia do que se prendiam à teo
ria.
Nos EUA, existem profissionais que merecem ser citados
por seus trabalhos de hipnose:
André Weitzenhoffer grande estudioso do assunto, de

dicou-se à pesquisa da hipnose e de seus aspectos experimentais,


à divulgação das escalas de transe e ao desenvolvimento de con
ceitos que fundamentassem a hipnose. Tem várias publicações de
grande valia e respeito.
Ernest Hillgard — outro estudioso dos aspectos experi
mentais, com várias publicações de grande valia, dando ênfase
ao transe como dissociação.
A seguir poderíamos citar os seguidores de Milton 1-1.
Erickson, como os grandes disseminadores das técnicas ditas
ericksonianas.
Jay I-Ialey— colega de Milton 1-1, Erickson, publicou Tera
v~a nõo-convencíoncil, ~m que torna Erickson mais conhecido como
pai das abordagens de terapia estratégica breve.
Jeffrey Kenneth Zeig (Nova Jorque, 6/11/1946) — aluno de
Erickson por seis anos. Aprendeu e desenvolveu um metamodelo
de psicoterapia baseado nos ensinamentos tidos com o mestre
Erickson. Foi o fundador e é o presidente da Milton H. Erickson
Foundation, e tem dedicado sua vida a ensinar pelo mundo afora
a abordagem ericksoniana do trabalho com hipnoterapia. A
maior parte deste livro vem dos ensinamentos de Jeffrey 1K. Zeig.
Ele tem muitos livros sobre o assunto publicados e alguns deles
em português.
32 Sofia M. F. Bauer

Podemos ainda citar nomes reconhecidos mundialmente


corno seguidores da linha de hipnoterapia ericksoniana. Cada
um à sua maneira, desenvolvendo uma linha de abordagem den
tro deste tema. Ernest Rossi, com a terapia das mãos; Stephen
Gilligan e sua concepção pessoal, em que mistura as técnicas
aprendidas com Erickson, o budismo e o aikidô, fazendo um
grande trabalho de amor e integração dos clientes; Stephen e Ca
rol Lankton, que desenvolveram as técnicas de metáforas embu
tidas, buscando a resposta interior através de suas riquezas que
são redescobertas. Existem jnúmeros outros seguidores que vão
desenvolvendo novas abordagens daquilo que vem sendo batiza
do de abordagens naturalistas para desenvolver o transe.
No Brasil, temos o professor Malomar Lund Edelweiss,
nascido em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, em 1917.
Ele é psicólogo, professor universitário desde 1952. Teve como
primeira formação acadêmica o curso de Direito, depois de Filo
sofia. Fez sua formação em psicanálise em Viena, no Wiener Ar
beitskreis für Psychoanalyse, com Igor Caruso. Fundou, em 1956,
no Rio Grande do Sul, o Círculo Brasileiro de Psicanálise, tendo
hoje nove sociedades afiliadas em seis estados brasileiros. Tam
bém deu início ao Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ao mu
dar-se para esse estado em 1963~ E é em Belo Horizonte que vem
praticando a hipnose juntamente com a psicanálise sob o nome
de hipnoanálise há aproximadamente 15 anos. É o introdutor do
assunto eMre seus seguidores e alunos. Exerceu por mais de 30
anos a prática psicanalítica clássica, e vem dedicando-se nestes
últimos 15 anos à prática da hipnoanáiise e hipnoterapia. Foi um
~dos primeiros divulgadores das obras e trabalhos de Milton 1-1.
Erickson no Brasil. Mantém, em nível de pós-graduação, curso
programado em cinco anos letivos, para universitários com mais
de cinco anos de formados em exercício profissipnai na área da
hipnoanálise e hipnoterapia. Considero-o o padrinho brasileiro
da hipnoterapia.
Capítulo 2

Mitos e conceitos

Para trabalhar com hipnose é preciso primeiro saber o que


é. Apesar das inúmeras teorias, até hoje a cbnceituação e defini
ção de hipnose ainda é algo polêmico.
Vou começar pelos mitos sobre hipnose que comprometem
o conhecimento e a aceitação desta como urna ferramenta muïto
boa de ajuda às psicoterapias.
1. Mitos
Podemos ver que os mitos sobre a hipnose se propagam
através dos séculos. No século XIX, a novela Trilby escrita por Du
Maurier, fala de Svengali, com sua personalidade forte e maléfi
ca, e Trilby, a mocinha fraca que se deixa influenciar pelo hipno
tizador Svengali e se torna uma excelente cantora enquanto está
hipnotizada
Os mitos sur~iram inicíalmente relacionados aos hipnoti
zadores de palco e suas mágicas demonstrações. Abordarei os
principais mitos, sobre os quais nossos clientes sempre chegam
questionando, e é preciso que se desfaçam para que se possa es
tabelecer uma relação de confiança e não de domínio.

A hipnose é causada pelo poder do hipnotizador


Este é um mito comum, pois até hoje, em “hipnose de pal
co”, o que se vê é a personalidade forte e astuta de um bom hip
notizador sugestionando pessoas a fazer aquilo que eles pedem:
34 Sofia M. F. Bauer

comer cebola como se fosse maçã e assim por diante. O que você
provoca com este tipo de demonstração? Poder sobre o outro?!
Esta é urna idéia que vem desde os tempos de Mesmer, que vin
culou o transe ao poder do magnetismo animaL Porém, na verda
de, a hipnose não acontece apenas pelo poder do hipnotizador,
mas pela aceitação e interação da pessoa que entra em transe e
deseja experiencíar aquilo que se pede. E muitas vezes o hipnoti
zador faz a hipnose dita autoritária, aquela que dá ordens, com
todo seu jeito poderoso e não consegue nada. A hipnose acontece
num campo de interação e confiança, o rapport.

Quem pode ser hipnotizado


Teoricamente todo mundo pode ser hipnotizado. Alguns
acreditam que isso só acontece com as pessoas de mente fraca,
mas a verdade é que a hipnose faz parte do nosso dia-a-dia. En
tramós em transe espontaneamente, por algumas vezes, num
mesmo dia e diariamente. Quem já não experimentou sensação
de, ao tomar banho, ir se desligando de tudo e viajar nos pensa
mentos? Quem já não deu um telefonema e esqueceu para onde
ligava? Quem já não experimentou dirigir, andar quilômetros e
só depois verificar que havia andado muito sem se dar conta? Es
ses são fenômenos hipnóticos do nosso dia-a-dia. São fenômenos
de focalização da atenção. Portanto, um hipnotizador habilidoso,
numa boa interação com seu cliente, trabalhando a confiança e a
motivação, leva seu cliente ao transe. Em tese, todo mundo pode
ser hipnotizado.

O hipnotizador c9ritroia o desejo do paciente


Sabemos que a mente inconsciente é sabiarnente amiga.
Portanto, esta afirmativa é falsa. O sujeito é protegido pelo
seu inconsciente de fazer aquilo que não deseja. Caso ele o faça é
~o:rque julgou inofensivo, ou por acreditar que aquilo possa aju
dar.

A hipnose pode ser prejudicial à saúde


A. hipnose não causa danos, se usada por pessoas compe
tentes e bem-intencionadas. Pessoas inescrupulosas sugerem a
melhora extrapolarido os limites de seu cliente~
I-Iipnol:erapia Ericksoniana Passo a Passo 35

Lembre-se, ela é como a eletricidade, boa, mas em excesso


e mal aplícada pode dar choque. Por isso a cautela de se preparar
bem o profissional da área.
Mas em si a hipnose não faz mal algum, por ser parte da
nossa vida diária. O que faz mal é a sua manipulação inescrupu
losa por certos profissionais e a creduiiclacl.e de certos pacientes.

Pode-se tornar dependente de hipnose


Quando as pessoas procuram por ajuda, estão de certa ma
neira dependentes do profissional que as atende. Mas, à medida
que vão se curando, esta dependência acaba. Elas dependem do
clínico para socorrer e confortar. O objetivo é ajudar a pessoa a se
curar e ser auto-suficiente. A hipnose ajuda neste processo e
pode-se até ensinar a auto-hipnose como auto-ajuda e inde
pendência.

A pessoa pode não voltar do transe, ficar presa nele


Não é possível; o máximo que acontece é a pessoa adorme
cer, que seria o passo seguinte ao transe profundo. Sabe-se que o
transe é um estado entre a vigília e o sono. Se você aprofunda,
dorme e pode ser acordado.

O sono e a hipnose
Hipnose não é sono. É um estágio anterior. Às vezes, con
funde-se o estado da pessoa em transe profundo, pensando que
adormeceu. Mas mentalmentê a pessoa é capaz de estar concen
trada e com certo grau de consciência e responder aos seus co
mandos. Assim, o tr~inse parece sono do ponto de vista físico (ati
vidade diminuída, relaxamento muscular, respiração suave, etc.),
mas, do ponto de vista mental, a pessoa está relaxada de forma
alerta

A pessoa fica inconsciente em transe


A hipnose é um estado de atenção focalizada, o que não
quer dizer que você perca a consciência. Ocorrem modificações
nas percepções e, num nível mais profundo de transe, acontece
um desligamento da atenção vigilante. E só no transe profundo é
que ocorre a amnésia total.
36 Sofia M. E. Bazar

Hipnose e relaxamento
Hipnose pode ser induzida via relaxamento, mas nem toda
hipnose é relaxamento. Um atleta correndo ou nadando pode es
tar em transe e não está em relaxamento.
Hipnose e terapia
A hipnõse não é uma terapia. É somente mais uma boa fer
ramenta utilizada numa terapia, que ajuda a acessar o incons
dente de uma manéira ágil. Mas hipnose por si só traz alívio e
páz, o que é curativo também.
e
Regressão e. hipnose (
E.
Muitas pessoas pensam que hipnose é regressão. Regressão
é um dos muitas fenômenos que podem ocorrer com a pessoa em
transe, mas nem toda pessoa regride quando entra em transe.
Principalmente as pessoas, mais ligadas, e/ou mais controlado
ras, muito pensativas e racionais. Estas têm mais dificuldade de
entrar num transe mais profuxtdo. Para haver regressão é neces
sário um transe médio ou profundo.
A regressão ocorre como uma hipermnésia, em que fatos,
imagens e sensações são evocados de maneira intensa. Pode
ocorrer naturalmente ou por indução.
Mas regressão não é hipnose. A hipnose abrange outros fe
nômenos que também são utilizados dentro do transe, muitas ve
zes com mais eficácia, além de não provocar uma sensação de
derrota para aqueles que não a conseguem. Enormalmente não
há necesØdade de~ se fazer só regressão na hipnoterapia. É bom
lembrar que na tegress5o as memórias podem ser construídas~ 9
que vale, é a realidade psíquica para o nosso trabalho.
Há perigos na hipnose?
Por ser uma técnica que trabalha o desconhecido, a mente
inconsciente do ser humano, pede-se cautela e escrúpulos.
Assim, a hipnose exige a formação do profissional, preparo
e habilitação reconhecidos para lidar com psicoterapia e um bom
estudo da mente humana (psicanálise, estudo de psicoterapias,
psicopatologia).
~~lipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 37

Ela é utilíssima em mãos hábeis, mas se torna uma arma


perigosa, se aplicada indevidamente.

A hipnose pode ser aprendida por um hipnotista de palco?


Se o propósito é trabalhar psicoterapeuticamente, não bas—
ta apenas aprender a hipnotizar e a dar sugestões, o que um hip
notizador de palco sabe fazer muito bem e não tiramos seu méri
to. Mas é preciso mais, é preciso conhecer o lado psicológico e
psicodinâmico dos problemas que a pessoa traz.

A hipnose realiza milagres


Ela não realiza milagres. O que acontece é a junção da mo
tivação do paciente e a abertura às riquezas de cada um em seu
inconsciente. Nesta mistura, a hipnose abre um novo caminho, o
de acessar as novas respostas interiores. Parece milagre, mas é
algo sério e cientificamente teórico.

A hipnose significa inconsciência


As pessoas que ainda não conhecem a hipnose pensam que
estar em transe é ficar inconscíente, Pelo confrário, é ficar atento,
com uma atenção especial. Isto, muitas vezes, pode significar
prestar atenção em tudo o que o hipnotizador diz, e não “apa
gar”, O sujeito hipnotizado pode ouvir, sentir, falar; mas tudo
acontece numa abertura especial e não na falta de consciência.
Se juntarmos isto ao milagre, o mito anterior, você verá
porque muitas pessoas procuram a terapia com hipnose e sofrem
insucessos. Vêm à procura de alguém que faça o milagre e de for
ma inconsciente. Istà não existe. E necessário a motivação e a
~fontade de mudar, aliada à confiança de que, lá no fundo, existe
um tesouro em recursos para sua recuperação. A função do hip
noterapeuta é conduzir o cliente a aprender que ele é seu próprio
terapeuta. Aprendendo, através da hipnose, a conhecer-se me
lhor.

A hipnose debilita a mente


Pelo contrário, a pausa reabilita as suas energias vitais, um
pa a mente, suaviza os sentimentos para a pessoa sentir-se majs
livre e lutar pelos seus ideais.
38 Sofia M. F. Bauer

Urna pessoa hipnotizada revela seus segredos

Este é um conceito errado. Pensar que a pessoa pode


confessar seus segredos como se estivesse sob o efeito de dro
gas é falso, Ela falará, se assim o quiser, porque pode ocorrer a
hipermnésia, a lembrança vívida de um fato esquecido. Deste
modo, a hipnose pode auxiliar o paciente a dizer o que ele ne
cessita dizer, mas não pode forçá-lo a tal, se ele não tiver von
tade de fazê-lo.
O sujeito não fica à mercê do hipnotizador, Ele pode falar,
caso queira se colocar e precise. E, muitas vezes, ainda ocorre o
acréscimo de memórias construídas pela realidade anterior do
sujeito. Mas não se pode dizer que o sujeito vai confessar seus se
gredos.

E se houver a morte do hipnotizador durante o transe?

Já pensou se o terapeuta morre, durante o transe, de um


a Laque cardíaco ou outra coisa qualquer?
O que aconteceria é que, ao não ouvir mais a voz do hipno
tizador, o paciente ou inte:rromperia o transe induzido ou conti
nuaria nele por algum tempo, em auto-hipnose, e em seguida
despertaria como despertamos de um sono natural. Talvez, até o
paciente despertasse para descobrir porque o hipnotizador não
está mais atento.
O fato é que o transe é um estado entre estar acordado e
dormindo; e se você continuar no transe você adormece. Se ador
mece, também acórda. Assim, naturalmente, retorna ao estado
acordado.

2. Conceitos
O conceito de hipnose não é unânime. É algo difícil de con
ceituar teoricamente e há controvérsias.
Entre os conceitos já aceitos, está o de um “estado natural de
consciência, diferente do estado de vigílía”. O nome dado poi” James
Braid, hipnotisn~o (um estado parecido com o sono), diz respeito
à semelhança com esse estado.
I_IipnOterapia Ericksoniana Passo a Passo 39

De acordo com o dicionário Aurélio, “estado mental seme


lhante ao sono, provocado artificialmente, e no qual o indivíduo
continua capaz de obedecer às sugestões feitas pelo hipnotiza
dor.
De acordo com Milton H. Erickson, “suscetibilidade arn_
pliada para a sugestão, tendo como efeito uma alteração das ca
pacidacles sensoriais e motoras para iniciar um comportamento
apropriado”
Alguns autores consideram a hipnose um estado “altera
do” de consciência. Este é um termo polêmico (alterado), pois
tem um tom pejorativo.
Para a Amerícan Psychoiogícai Associa tion, na definição pu
blicada em 1993, a hipnose é um procedimento durante o qual
um pesquisador ou profissional da saúde sugere que um cliente,
paciente ou indivíduo experimente mudanças nas sensações, per
cepções, pensamentos ou comportamentos.
Mas mesmo toda a conceitualização tentada até hoje não
consegue englobar toda a riqueza da experiência da hipnose, a
qual, através dos fenômenos hipnóticos, capacita uma pessoa a
produzir novos aprendizados e a se utilizar da sabedoria do seu
inconsciente a seu serviço.
Para Erickson, o transe é um estado de sugestibilida.de in
tensificado artificialmente e semelhante mas não igual ao sono,
no qual parece ocorrer urna dissociação natural dos elementos
conscientes e inconscientes do psiquismo. ‘d’O transe é um perío
do no qual as limitações que urna pessoa tem, no que dizem res
peito à sua estrutura comum de referência e crenças, ficam tem
porariamente alteradas, de modo que o paciente se torna recepti
vo aos padrões, às associações e aos moldes de funcionamento
que conduzem a soluçao de problemas
Para Gilligan, o transe hipnótico seria “urna seqüência inte
racíonal, experiencialmente absorvente, que produz um estado
especial de consciência, em que automaticamente começam a
ocorrer auto-expressões”.
Podemos dar uma definição prática:
Hipnose seria a. absorção da atenção do sujeito: a afenção se
ria focalizada através de urna indução ou de uma auto-indução,
absorvendo a atenção da mente consciente e isto daria a oportu
40 Sofia M. F. Bauer

nidade à mente inconsciente de se inanifestár através dos fenômenos


hipnóticos. A pessoa então experiencia um estado diferente de
consciência, com a mente consciente focada e parcialmente alerta;
enquanto sua mente inconsciente experimenta formas variadas
de manifestar as riquezas do inconsciente.
Os fenômenos hipnóticos aparecem de forma var:iada.
Cada transe é único. Não necessariamente a pessoa entrará em
transe da mesma maneira. Pode variar: variação de intensidade,
profundidade e de fenômenos que ocorrem.
Os fenômenos hipnóticos são: rapport, catalepsia, amnésia,
anestesia, analgesia, regressão, progressão, alucinações positivas,
alucinações negativas.
A sugestão faz parte do transe. A auto-sugestão também. A
sugestão seria uma comunicação associada a uma influência que
assim provocaria a absorção da mente consciente, que fica focali
zada em algum tipo de absorção sensorial e ideativa. Desta ina
neira, ocorre a oportunidade de a mente inconsciente se manifes
tar, em diversos níveis, através dos fenômenos hipnóticos. Esta
belecida a confiança, o rapport, há o acesso ao inconsciente e ocor
re algum tipo de mudança.
Quando eu era estudante, gostava de sublinhar os textos lj
dos, depois fazer um resumo e depois apenas um esquema que
memoriza a imagem. Assim nunca mais me esquecia do que pre
cisava saber.
Vamos brincar de fazer esquema. Como se estivéssemos
numa aula, eu provavelmente colocaria no quadro para você me
morizar:
COMUNICAÇÃO ± INFLUÊNCIA = HIPNOSE
1•- ABSORÇÃO DA ATENÇÃO DA MENTE CONSCIENTE
* em sensações, sentimentos, percepções

2- ELICIAÇÃO DA MENTE INCONSCIENTE


— o aparecimento dos fenômenos hipnóticos

1 + 2 = TRANSE HIPNÓTICO
A ABSORÇÃO DA MENTE CONSCIENTE MAIS O
APARECIMENTO DE FENÔMENOS HIPNÓTICOS
LEVA À MUDANÇA.
I*Ijpnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 41

Resumindo
Todas as teorias até hoje desenvolvidas são úteis, mas não
conseguiram definir hipnose e dar a última palavra na descrição
do processo e da experiência hipnótica.
Ela pode ser considerada como um estado de consciência
diferente do estado de vigília. Ocorre também no estado acorda
do, no nosso dia-a-dia, como um fenômeno natural.
É considerada um estado de atenção focalizada, uma ab
sorção: a mente consciente focaliza a atenção em alguma coisa e~
pecial (percepção, pensamentos, imagens, estórias, amor etc.) e
há uma dissociação da mente inconsciente (automatísmos).
O que se sabe é que alguma coisa acontece que é diferente
de estar simplesmente acordado. Há uma focalização da atenção
voltada para o que é interno. Passa a valer também a realidade
interna criada pela pessoa. Pode envolver relaxamento e todos
ou alguns fenômenos hipnóticos.
Normalmente, ela é induzida, ou até auto-induzida. A
boa relação entre as duas partes é uma condição importante. O
rapport gera a confiança, a abertura, e faz com que aquele que
guia possa ser ouvido e atendido em sua faculdade de a1.~sorver a
atenção. O resto quem faz é o sujeito que está sendo hipnotizado.
A hipnose vem de dentro do sujeito.
Num conceito mais atualizado, a hipnose acontece pela in
teração das duas partes.

3. Mente consciente e mente inconsciente


Dentro da visão de Erickson, podemos definir:

Mente consciente — é considerada a parte da mente que


nos permite estar ciente das coisas, ter crítica. Tem a habilidade
de analisar as coisas, agir racionalmente, fazer os julgamentos. É
a parte racional, mas é a parte limitada de nossa mente. Você só
pode prestar atenção a poucas coisas ao mesmo tempo. É como
chupar cana e assoviar ao mesmo tempo.
Mente inconsciente — é o reservatório de todas as expe
riências adquiridas através da vida, Experiências pessoais, apren
42 Sofia M. E. Bauer
e

dizados, necessidades, motivação para interagir com seu próprio


mundo e as muitas funções automáticas. É uma mente sábia, não
rígida, nem analítica e tampouco limitada. Ela responde a comu
nicações experimentais, é capaz de interpretações simbólicas e
tem a tendência a uma visão global. Carrega os recursos para as
mudanças.
Pode-se ver a dwilidade da mente pelos hemisférios cere
brais. O hemisfério direito o da mente inconsciente, hemisfério

intuitivo opera no nível simbólico e da criatividade. O hemis


fério esquerdo o da mente consciente é o lógico, analítico e


— —

tem as funções intelectuais.


A hipnose é uma ferramenta que nos permite dissociar es
tas duas partes, para “acessar” os recursos sábios do inconscien
te, reintegrando a seguir, de uma forma saudável, a ajuda com a
resposta que vem de dentro da mente inconsciente.

4. Sugestibiidade
De acordo com André Weitzerihoffer, sugestibiidade “é
a capacidade de responder às sugestões”. E sugestão seria
“uma comunicação que evoca uma resposta Involuntária que
reflete o conteúdo ideacional da comunicação. É a comunica
ção de uma pessoa para a outra que evoca um automatismo na
segunda pessoa, e reflete a realização do conteúdo Ideacional da
comunicação”.
A palavra sugestiTo vem do latim sugestione, em que su, sub
= embaixo, abaixo, por baixo, e gestione = gestão, administração,
gerência.
Lembrando Freud, “o pensamento é um ato em estado nas
cendi.” Nascer na pessoa uma nova idéia. Este é um princípio da
hipnose — o princípio ideodinâmico em que uma idéia gera

urna ação.
Faço aqui um pequeno relato da história de Erickson,
quando ele descobre este princípio durante sua convalescença da
poliomielite. Sentado numa cadeira de balanço, totalmente para
lisado pela doença, estava com muita vontade de ficar lá fora no
campo como seus familiares, trabalhando na fazenda. Olhando
fixamente para fora com este pensamento em mente, notou que
1~{ipno terapia Ericksortiana Passo a Passo 43

~ua cadeira começou a balançar para frente e para trás. Era a


idéia fazendo com que ele se movimentasse. Foi assín~ que, atra
vés deste exercício de pensamento, Erickson foi reaprendendo a
se mover e mudar o que ele queria.
A sugestibilidade seria uma abertura para acejtar novas
idéias, novas informações. À medida que esta informação vai
sendo adquirida, dependendo do seu valor subjetivo, eia pode
alterar a experiência da pessoa de alguma maneira. A escolha
de aceitar ou não a sugestão proposta vai depender de a pró
pria pessoa acreditar que isso possa levar à mudança que eia
deseja.
É sempre bom alertar para o fato de que há pessoas com
uma capacidade crítica reduzida e de que há uma diferença entre
sugestibilidade e credulidade. Ter bom senso e usar da capacida
de de influência com sensibilidade é dever do hipnoterapeuta,
sempre com muito respeito ao desejo do outro.
Todas as pessoas são envolvidas por alguma opinião em
algum momento de suas vidas, Isso é particuiarmente evidente
nas propagandas que exercem influência através da comunicação
visual, auditiva e cenes tésica.
Fazer um transe hipnótico significa comunicar alguma coi
sa que o outro possa entender e para tal utilizamos estratégias de
comunicação.

5. Hipnotizabilidade
Diz respeito à suscetibilidade hipnótica, o grau e:m. que
você é hipnotizável. Transe leve, médio ou profundo.
Quem pode ser hipnotizado? Já vimos isto nos mitos.
Como a hipnose e seus fenômenos fazem parte de nosso dia-a
dia, podemos afirmar que todos podem ser hipnotizados. Joseph
Barber, em seu texto “O modelo do serralheiro”, mostra que a
suscetibilidade à hipnose depende do serralheiro (chaveiro) fazer
a moldagem correta para abrir a fechadura da mente inconscien
te. O modelo da hipnose naturalista, de acordo com cada cliente,
tem maior eficácia quanto a essa suscetibilidade. Quando se indi
vidualiza a terapia, há urna melhor resposta à indução. Veremos
isto mais tarde.
44 Sofia M. F. Bauer

A hipnose pode ocorrer em vários níveis. Veja o gráfico:

5
U
G
E

80%T

50%
1

SONAMBULISMO
25% SONO FISIOLÓGICO

HIPNOTIZABILIDADE

O transe médio é considerado o melhor, por ter maior efi


cácia quanto à sugestão. Em transe leve a consciência está muito
presente, e com ela a crítica e as resistências. No transe profundo
ocorre amnésia, que por vezes é prejudicial aos bons resultados,
A sugestibilidade é maior no transe médio, mas sabemos
que este gráfico é empírico. Você pode ter alta sugestibilidade
num paciente sonambúlico ou no transe leve. O mais importante
é a aliança terapêutica, o rapport. Tendo isso, você muda o gráfi
co, muda as possibilidades. .Aquilo que falei anteriormente, sobre
o modelo cio serralheiro quanto a entrar em transe, vale também
para a sugestibilidade que pode ser aumentada nos níveis vários
de transe. Portanto, o principal é fazer com que o paciente confie
em você. Mas, para aqueles que estão começando, saber que o
transe médio oferece maior sugestibilidade já traz segurança.
Neste nível, o paciente tem alguma consciência e controle, e pode
se soltar e confiar, observando.
Veja agora as escalas sobre o que acontece em cada nível de
transe.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 45

Critérios de Hershinan para adequação de estados hipnóticos

• Transe leve (hipnoidal)


Relaxamento
Catalepsia das pálpebras dos olhos
Fechamento dos olhos
Começo de catalepsia corporal (sem movimentos)
Respirações mais vagarosas e profundas
Imobilização dos músculos faciais
Sensação de peso (pesado) em várias partes do corpo
Anestesia de luva
Habilidade para sugestões pós-hipnóticas simples

• Transe médio
Amnésia parcial (alguns sujeitos)
Definido retardamento na atividade muscular
Habilidade em ilusões de sensações
Aumento isolado de sensações
Marcada catalepsia dos membros do corpo
Habilidade para sugestões pós-hipnóticas mais difíceis

• Transe profundo
Habilidade para manter o transe com olhos abertos
Amnésia total (na maioria dos sujeitos)
Habilidade para controlar algumas funções orgânicas (pul
so, pressão arterial)
Anestesia cirúrgica
Regressão de idade e revivificação
Alucinações (positiva e negativa, visual e auditiva)
Habilidade de “sonhar” material magnífico
Habilidade para todas ou para a maioria das sugestões
pós-hipnóticas
• Transe pleno ou estuporoso
Marcado por respostas orgânicas lentas e quase completa,
inibição da atividade espontânea.

Fonte: Hipnose médica e odontológica, Mílton H. Erickson, M~D.,


Seymour Hershman, MIX e Irving Secter, D.D.S., Editora Livro Ple
no, Campinas, 1996.
46 SoflaM.P.Bauer

Estado (profundidade) da hipnose em relação


às aplicações clínicas (Weítzenhoffer)

Critérios Grau

Olhos abertos
Pálpebras pesadas Acordado
Pálpebras com tremor

Sensação de peso nas extremjdades


Sonolência
Terapia psicobiológica (reforço, per
suasão, reeducação, confissão e venti- Estado
lação) hipnoidal
Hipnoanálise (associação livre, fanta
sias induzidas)
Aumento do limiar de dor através do
relaxamento
Redução da tensão muscular geral

Fechamento dos olhos


Relaxamento muscular geral
Catalepsia das pálpebras (paralisia)
Catalepsia dos membros (flexibilidade
cérea Hipnose
Indução do membro rígido leve
Paralisia induzida
Automatismos induzidos
Terapia psicobiológica (condução)
Analgesia leve (cefaléias tensionais,
trabalho de parto e alguns partos, tra
balhos dentários simples)
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 47

Critérios Grau

Amnésia pós-hipnótica parcial sugerida


Alterações sugeridas de vários senti
dos cutâneos
Anestesia em luva
Analgesia parcial pós-hipnótica
Automatismo generalizado
- Hipnose
Alteraçoes superficiais de personalida
media
de sugerida
Hipnoanálise (indução de sonhos, re
presentação de papéis)
Facilitação de terapias físicas
Analgesia para partos, trabalhos den
táríos e pequenas cirurgias
Sugestões_pós-hipnóticas_simples ______________

Amnésias pós-hipnóticas extensas su


geridas
Anestesia geral
Efeitos emocionais induzidos
Profundas alterações de personalidade
sugerid as
Alucinações
Hipnose
Alteração da noção de tempo profunda
Regressão e progressão de idade
Terapias biológicas (certas dessensibi
lidades)
Hipnoanálise (escrita automática, pin
tura, modelagem)
Remoção de sintomas
Uso quase geral de sugestões como ad
junto de intervenções médjcas
Anestesia para cirurgias maiores
48. Sofia M. F. Bauer

Critérios Grau

Amnésia pós-hipnótica total e espontâ


nea
Habilidade para abrir os olhos em hip
nose
Profundas alterações de personalidade Hipnose profunda
sugeridas Sonambulismo
Todas as sugestões pós-hipnóticas
Terapia psicobíológica (recondiciona
mento)
Hipnoanáiise (fixação de cristais, psi
codrama, conflitos artificiais induzi
dos, reivindicações)
Uso geral de sugestões como adjuvan
te de tratamentos médicos

Ponte:
The practice of hypnotisrn, André Weitzeiihoffer, MD., Nova
lorque, Wiley Interscience Publication, 1989. Copyright © 1989 by
John Wiley & Sons, mc.
f{ipnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo. 49

A escala de Davis—Husband in Weitzenhoffer,


The practice ofhypnotism

Teste de
profundidade Escore sugestão e resposta

Não-suscetível
1
2 Relaxamento
3 Tremor de pálpebras
4 Fechamento dos olhos
5 Completo relaxamento físico
6 Catalepsia dos olhos
Transe leve io Rigidez cataléptica
11 Anestesia em luva
13 Amnésia parcial
15 Anestesia pós-hipnótica
17 Mudanças na personalidade
Transe médio 18 Sugestões pós-hipnóticas simples
25 Sonambulismo completo
26 Alucinações pós-hipnóticas visuais
positivas
27 Alucinações pós-hipnóticas auditi
vas positivas
28 Amnésia pós-hipnótica sistemati
zada
29 Alucinações auditivas negativas
30 Alucinações visuais negativas, hi
perestesia

Fonte:
Davis &z Husband, 1931. Copyright 1931 pela American Psy
chological Association.
50 Sofia M. F. Bauer

Depois de observar as escalas e os níveis de transe, vem a


pergunta: Para estar no transe médio ou profundo é preciso sen
tir tudo isto?
Na verdade, isto é uma escala. Uma médja do que acontece
em cada nível de transe. Mas o que ocorre normalmente não é se
verificarem todos estes itens em cada transe atingido ou induzi
do. Pode-se ter alguns dos itens ou todos eles. Há pessoas que
são mais cenestésicas e podem desenvolver mais sensações. Ou
tras têm uma capacidade de alucinar em imagens e outras de de
senvolver analgesia ou anestesia, e todas podem estar desenvol
vendo muitos níveis de transe, além de variar de fenômenos hip
nóticos de um transe para o outro. Por isso, é bom saber que uma
pessoa que hoje entra num transe leve, amanhã poderá desenvol
ver um transe médio ou profundo, e vice-versa; hoje desenvolver
o transe profundo, e amanhã o leve.
Mas como é que você de uma maneira prática vai saber
se o seu cliente entrou em transe? E qual a profundidade deste
transe?
A pessoa quando entra em transe fica com a mente cons
cjente absorvida. Dá vazão à mente inconsciente, a que os fenô
menos hipnóticos apareçam, e fica clara a constelação hipnótica,
ou seja, um quadro de sinais físicos que denotam um estado en
tre o acordado e o dormindo.
Ao perceber alguns destes sinais, você já está com seu
cliente em transe. Pode ser um transe mais leve, em que as carac
terísticas principais são: catalepsia, diminuição dos movimentos,
respiração mais lenta, às vezes sinais ideomotores.
No transe médio, observam-se uma catalepsia mais acen
tuada, músculos da face soltos e mais sinais da constelação hip
nótica como: movimento de deglutição diminuído, sinais ideo
motores, movimentos oculares, respiração mais lenta, às vezes
mudança na postura (mais caído para um lado).
O transe profundo parece-se com o sono. A pessoa conti
nua respondendo aos comandos do indutor do transe, ocorrem
os movimentos rápidos dos olhos (REM) e pode haver até so
nhos. Ela pode entrar em sonambulismo. O próprio nome já diz,
o sono mais o ambulismo. Parece estar adormecida, mas tem a
capacidade de andar, escrever, responder às perguntas, de uma
~jjpnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 51

forma “acordada diferente”, pode abrir os olhos, mas estes ficam


vidrados e mais fixados a um ponto ou olhar vago. Este estágio é
anterior ao sono. O grau mais profundo de transe seria a letargia,
quase o sono. É difícil alcançá-lo., porque a tendência é passar di
retamente ao sono fisiológico. É preciso desenvolver esta capaci
dade que os monges treinam em suas meditações.
O transe letárgico, em psicoterapia, pouco adianta. O
transe médio é o utilizado com maior eficácia, pois desenvolve
a capacidade de se abrir para as potencialidades do incons
ciente, provoca apenas amnésia parcial e gera segurança em
quem o experimenta. A pessoa sabe que estava num estágio di
ferente, mas ela é partic~pativa da hipnoterapia. A hipnose
aqui se toma efetiva.
No transe profundo muitas vezes ocorre amnésia total; a
pessoa não se lembra de nada e não se torna participativa de
uma maneira consciente. Há casos em que é necessário um tra
balho no nível profundo: traumas, sugestões diretas, em que
não se deseja que a pessoa desenvolva uma resistência ao que
foi sugerido.
Mas, na maioria dos casos, é sempre bom desenvolver o
transe em nível médio. Lembremos que você, à medida que de
senvolve o rapport e faz o condicionamento ao transe, pode levar
uma pessoa que só vai até o nível leve a desenvolver um transe
mais profundo.
Fizeram-me uma pergunta durante uma aula. Uma per
gunta importante. O que cura mais rápido? Colocar uma pessoa
em transe profundo, ou uma pessoa em transe leve? Qual é o
transe mais eficaz?
Com o que você leu até o momento, sabe que o melhor
transe, para a sugestibilidade, é o médio. Mas e o paciente que só
entra em transe leve, ou só em profundo? Não teremos bons re
sultados?
O que funciona é o somatório de motivação, rapport e ne
cessidade. Um paciente bem motivado, apoiado na confiança que
tem no terapeuta e necessítando de melhora provavelmente será
o melhor cliente. Não importa o nível de transe. Para os erickso
nianos, isso não é importante. Então, não se preocupe se o seu
cliente não entra num transe médio ou profundo. Os clientes é
52 Sqfia M. F. Bauer

que têm essa preocupação: “eu não entrei em transe”, “eu não
apaguei”. Isto não é necessário. Fale ao cliente que o transe pode
ser leve, mas muito eficaz, caso ele preste a atenç~o necessária.
Porém, para você poder recorLhecer tudo isto, é necessário
saber o que é a constelação hipnótica e os fenômenos hipnóticos.
Você verá a seguir.

6. Constelaçõo hipnótica (segundo Jeffrey K. Zeig)


Um dos motivos de se sentar de frente para o cliente e de
mantê-lo sentado é poder observar a constelação hipnótica; além
de dificultar sua passagem direta ao sono.
Zeig criou este termo— constelação hipnótica —para de
signar aquelas características, sinais físicos, que mostram que o
sujeito está em transe. São elas:

Economia de movimentos (a catalepsia) — observa-se facil


mente quando a pessoa entra em transe; ela fica imóvel, econonil
za movimentos. É a catalepsia agindo. Não existe vontade de se
mexer. O que move, agora, é algo interno. O corpo pára e a menL
te produz.

Literalismo (interpretação literal)


— uma segunda coisa ob
servada é que o inconsciente é literal, ou seja, ele responde lite
ralmente às palavras ditas. Por isso, todo cuidado com suas pala
vras, com o que você sugere. Vou lhe dar alguns exemplos. Você
pode perguntar a uma péssoa ~cordada: “Você se importa de di
zer seu nome?” A pessoa naturalmente vai lhe responder o
nome. No caso de estar em transe, ela pode simplesmente res
ponder que não ou sim. Outro exemplo: Uma vez, fazendo uma
indução, sugeri ao cliente que se imaginasse flutuando em urna
nuvem, como se ela fosse um cobertor gostoso de bebê; o pacien
te começou a sentir um calor enorme. Imagine se ele também ti
vesse medo de altura?! É bom prevermos, com algum questiona
mento, medos que possam ter relação com a indução que temos
em mente. E lembremos que a resposta do sujeito pode vir literal
mente.
~jpnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 53

Demora para iniciar resposta


há também a demora para

jniciar a resposta a um comando. Por isso, tenha um pouco de


paciência ao pedir algo, como levitação ou outra coisa qual
quer. As respostas costumam vir quando estamos desistindo.
Aos iniciantes, que ficam um pouco aflitos, achando que não
aplicaram bem a técnica, paciência, um pouco de silêncio e lá
vem a resposta.

Mudança nos reflexos de salivação e deglutição


você pode

notar que, logo ao iniciar o transe, há uma mudança no reflexo


de deglutição. No início., a pessoa saliva mais, engole mais. De
pois! quando já está num transe médio, a pessoa pára de engolir,
diminui o reflexo de salivação. É mais ou menos como o primeiro
sono, em que, às vezes, baba-se e depois fica-se quase sem saliva
no sono profundo.

Díminuição na freqüência respiratória, pulso e pressão sangüí


nea —há uma diminuição geral dos reflexos. Se quando estamos
dormindo ficamos menos acelerados, no transe, caminho entre o
estado alerta e o sono, há também a diminuição destes reflexos.
Há uma vasodilatação, pelo relaxamento muscular; uma tranqüi
lidade que pode ser observada até na respiração.

Relaxamento muscular ocorre também o relaxamento


muscular. Você pode reparar melhor nos músculos da face.


Quando a pessoa entra num bom nível de transe, os músculos da
face vão se soltando. Costuma-se observar que a pessoa solta o
queixo e, muitas vezes, solta os lábios. Vê-se também os braços
entregues. É como ver um bebê que adormece. Sabe-se que o
bebê adormeceu porque ele se entregou; fica até mais pesado no
colo de quem o carrega. Assim, podemos observar que a pessoa
em transe se entrega a um estado de relaxamento generalizado.

Mudanças no comportamento ocularos itens abaixo ocor


rem freqüentemente quando se faz o transe através da fixação de


um ponto, e você então observa as mudanças. pupilares; a perda
do foco; o olhar vidrado, que também é comum no sonambulis
54 Sofia M. F. .Bauer

mo; e a mudança de piscadas que vão ficando mais lentas até o


fechamento dos olhos.

a) Mudanças pupilares a midríase, ou dilatação da pu


pila, é observada no cliente em transe com os olhos


abertos.
b) Tremor palpebral se você está trabalhando com o

sujeito de olhos fechados, talvez ocorra o tremor pai


pebrai. É um sinal de estar entrando em transe. É bom
você dizer ao sujeito que é muito natural os olhos tre
merem um pouco, involuntariamente, quando se está
entrando em transe, e que basta que ele respire fundo e
logo os tremores passarão.
~) Perda de foco — o cliente tem a sensação de visão em
baçada.
d) Olhar “fixo” de transe — o olhar vidrado, como no so
nambulismo.
e) Mudanças na freqüência das piscadas — os olhos pis
cam mais rapidamente.
f) Mudanças no movimento lado a lado do olho outra

mudança que se observa na pessoa em transe de olhos


fechados é o movimento de lado a lado do globo ocu
lar. Isto denota a entrada num transe mais profundo.
Você pode também observar o REM (rapid eye inove
ment), o movimento rápido dos olhos, que ocorre no
estado mais profundo de transe, quando a pessoa pode
estar sonhando.
g) Lacrimejamento observa-se uma lubrificação natu

ral e espontânea das vias lacrimais.

Reduçâb nos movimentos de orienta çõo há uma acentuada


redução nos movimentos de orientação, quando é pedido à pes


soa em transe que leve a mão ao rosto, por vezes ela perde a no
ção de onde está sua mão naquele momento.

Perseveração — o cliente mantém um movimento começado.


~4jpnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 55

Assimetria direito/esquerdo — a assimetria entre os dois la


dos do corpo. Você pode notar que a pessoa vai modificando
suas contraturas musculares, sua fisionomia, Um lado do rosto
501ta-se mais que o outro. Às vezes, tomba-se para um lado, ou
~rjra—Se mais o rosto.

Mudanças na circulação periférica — as mudanças na circula


ção periférica ocorrem pelo relaxamento muscular generalizado
que relaxa artérias e veias e com isso leva mais sangue aos pe
quenos capilares das pontas do corpo. É bom lembrar que nos ca
sos de hipertensão a hipnose é muito eficaz na redução da pres
dão, exatamente por este motivo: relaxamento dos vasos arteriais.
Você pode usar o transe e o ensinamento de auto-hipnose, como
uma técnica de ajuda para hipertensos.

E’asciculação fascicuiação é um conjunto de pequenas


contraturas musculares involuntárias que se observa durante o


transe.

Aumento da responsividade há um acentuado aumento da


responsividade, que você observa nas mínimas pistas, como res


pirar profundo e observar que o sujeito respira juntamente com
você. Pedir que a pessoa faça alguma coisa e ela faz.

Auinento da atividade ideomotora e ideossensória


movimen

tos ideomotores são comuns, como sinais com os dedos. Peque


nos movimentos que sinalizam uma idéia. A levitação é um mo
vimento ideomotor. Há também atividades ideossensórias, uma
idéia que traz junto uma sensação.

7. Fenômenos hipnóticos
Rapport
Catalepsia
Dissociação
Analgesia
Anestesia
56 Sofia M. F. Bauer

Regressão de idade
Progressão de idade
Distorção do tempo
Alucinações positivas / negativas
Amnésia
Hipermnésía
Atividade ideossensórja/ideomotora
Sugestão pós-hipnótica

Quando você coloca uma pessoa em transe, observará al


guns comentários, ao final do transe, sobre as percepções expe
rienciadas pelo sujeito. Elas são variadas; podem aparecer algu
mas ou até muitas das que descreverei a seguir. Não necessaria
mente aparecem as mesmas quando se entra em transe novamen
te. Você pode ver que o mesmo sujeito, numa indução, falará que
teve amnésia e analgesia e pode ser que numa outra sessão ele te
nha hipermnésia e não tenha analgesia.
O importante é que os fenômenos hipnóticos sempre apa
recem quando a pessoa está em transe. É nossa garantia, quando
principiantes, de que o nosso cliente entrou em transe.
Os fenômenos hipnóticos aparecem desde o transe leve até
o profundo, independentemente do nível de transe. Às vezes, a
pessoa está num transe leve e desenvolve amnésia. Em outras, a
mesma pessoa pode entrar num transe profundo e ter apenas
amnésia parcial. Por isso, fique atento, nem sempre se segue à
risca as escalas de transe.

Rapport
É o estabelecimento da aliança terapêutica. O seu cliente,
para o seguir em seu pedido de indução, precisa confiar em você.
Quando você tem um amigo e ele lhe chama para ir a algum lu
gar que você desconhece, você vai por confiar nele. Isto acontece
através do estabelecimento do rapport. Quando este se estabelece,
o sujeito tende a não prestar atenção a situações do ambiente e a
estímulos externos, para responder somente à pessoa que conduz
a hipnose.
~jpnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 57

Catalep sia
É a sensação de ficar imobilizado, mais pesado e sem von
tade de se mover. É um estado particular de tonicidade muscu
lar, no qual o sujeito fica fixo numa posição por um período inde
finido de tempo. Você pode colocar o braço do sujeito erguido e
ele mantém esta posição. A catalepsia acontece em todos os ní
veis de transe.

~issociação
É a capacidade de dissociar a mente consciente da mente
inconsciente. Ficar absorvido nos aspectos da indução que é feita
e ao mesmo tempo experienciar as mais variadas sensações, sen
timentos e pensamentos. É como se fossem dojs de você mesmo.
Um é capaz de seguir o que é pedido pelo hipnotizador, e o ou
tro está vivendo uma realidade vinda do seu interior.

Analgesia
É o formigamento do corpo. Você o sente, mas não sente
dor. Como em alguns tipos de anestesia. Há pacientes que sen
tem analgesia desde o transe leve. É possível até mesmo fazer ci
rurgias quando se desenvolve este fenômeno de transe.

Anestesia
É a sensação de não sentir uma parte defínida do seu cor
po. Por exemplo, h~ pacientes que não sentem as mãos, ou as
mãos e os braços, outros, as pernas. Além de você não sentir dor,
você também perde a noção daquele membro do corpo.
É um excelente fenômeno que pode ser desenvolvido para
cirurgias.

Regressão de idade
A regressão de idade é também um fenômeno natural do
transe. Ele pode ser induzido ou pode aparecer espontaneamen
te. São memórias, pensamentos, imagens, num nível de recorda-
-r

58 Sofia M. P. Bauer

ção, ou pode aparecer como uma revivificação, em que a pessoa


fala e age como se fosse uma criança, ou se tivesse a idade deter
minada daquele fato.
É sempre bom lembrar que não temos como provar se é
algo real, ou se é uma realidade construída em cima de aprendi
zados da vida, Mas o que realmente importa é a realidade vivi
da e sentida do seu cliente. Por isso, aceite, respeite e trabalhe
tudo o que o inconsciente sabiamente amigo trouxer como mate
rial exclusivo e como o tesouro do seu cliente. Aqui entram as
regressões a vidas passadas. Se existem, se é verdade, todos nós
teremos certeza quando passarmos desta vida. Mas o que im
porta é o respeito ao material trazido pelo cliente. Utilize-o, ele é
o reservatório das potencialidades, das dicas que o inconsciente
lhe dá. Não tenha pré-conceitos.

Progressão de idade
Do mesmo modo que ocorre a regressão, há também o fe
nômeno de progressão. A pessoa pode se ver no futuro realizan
do as coisas que deseja e necessita fazer, ou até mesmo suas obs
truções. Utilize-se desta técnica/fenômeno com os pacientes an
siosos, Por si só eles já fazem uso dela diariamente em suas “pré
ocupações”. Você usa uma ferramenta que é comum a eles e faci
lita a ressignificação, o que é positivo para o cliente seguir à fren
te.

Distorção do tempo
Quando você está em transe, ocorre uma modificação tem
poral. Seu tempo interno pode variar em relação ao tempo crono
lógico do relógio. Lembre-se de que o inconsciente não é analítico
e lógico. Por isso, às vezes uma longa indução pode parecer du
rar apenas cinco minutos ou vice-versa. É parecido com o que
rios acontece na vida cotidiana, vemos um bom filme e parece
que ele passou depressa demais. Em compensação, ao ouvir o
discurso de um político, talvez pareça ter durado horas e fora
apenas meia hora. Quando o sujeito então lhe disser que foi tão
rápido, ou que pareceu ter durado horas, ele estava desenvolven
do este fenômeno do transe.
l-{ipnoterap~a Ericksoniana Passo a Passo 59

Alucinações positivas e negativas


Consideram-se alucinações positivas aqueles aspectos
sensários de percepção dos cinco sentidos que aparecem dii
rante o transe. Por exemplo: visualização de imagens, ouvir al
gum tipo de som que não está presente, sentir alguma sensa
ção física diferente. Tudo aquilo que é incluído e que na reali
dade não existia.
As alucinações negativas ocorrem pela retirada de sensa
ções e percepções. Por exemplo: não ouvir urna campainha que
toca, um som; não sentir uma parte do corpo; não ver algo que
se encontra ali.
Ocorrem em todos os níveis de transe.

Amnésia
É um fenômeno que pode acontecer parcial ou totalmente.
A amnésia é parcial quando você se lembra de partes do
transe. Mais comum no transe leve e médio. Amnésia total ocorre
quando a pessoa não se lembra de nada que aconteceu durante o
transe. Ela é comulrL no transe profundo e sonambúlico.

Hiperrnnésia
É a capacidade de relembrar aguçadamente uma situação
específica.

Atividades ideomotoras e ideossensórias


Estão ligadas à capacidade do sujeito de responder auto
maticamente através de sinais ideomotores (sinalização com de
dos, mãos, ou levitação e a capacidade de escrita automática) ou
ideossensórios (percepção sensória associada a uma idéia).

Sugestão pós-hipnótica
A sugestão pós-hipnótica é um ate que acontece após o su
jeito “acordar” de um transe, em resposta às sugestões dadas du
rante o estado de transe, com execução de algo pedido a partir de
60 Sofia M. F. Bauer

um “gatilho” dado num transe anterior. Assim sendo, o sujeito


hipnotizado recebe uma instrução, durante um primeiro transe,
que, de acordo com uma dica determinada (ao acordar, ao abrir
a janela etc.), ele entrará num estado de transe mínimo (coris
ciência alterada), em que executará a sugestão pedida. Este tran
se pós-hipnótico, em geral, é de duração breve. O tempo de e~e
cutar o ato sugerido. No caso de se pedir como sugestão pós-
hipnótica que o sujeito fique sem dor por horas, este transe não
será breve. Necessitará de longa duração .para sua execução.
Mas geralmente são pequenas sugestões que serão executadas
na vida cotidiana do sujeito, que lhe podem ajudar na mudança
de nuances, necessaria a sua melhora. Exemplo: ...Hoje, ao di
rigir seu carro, abra o teto solar, respire fundo, olhe o céu azul e
sinta como seu peito se abre para uma nova inspiração.” Esta foi
uma sugestão pós-hipnótica dada a um paciente asmático. Dias
depois o mesmo paciente relatou a delícia que era abrir o teto
solar e respirar fundo e livremente.
A sugestão pós-hipnótica é mais eficaz quando feita em
transe profundo e com amnésia. Tem um efeito mais poderoso,
mas não quer dizer que não possamos usá-la para os diversos ní
veis de transe, ou num sujeito com amnésia parcial. Um ponto
que aumenta a eficácia deste fenômeno é o rapport. Por isto, se ti
ver um bom rapport, não importa o grau de profundidade e a am
nésia, a sugestão pós-hipnótica funcionará.
Use este fenômeno para dar as sugestões diretas, mas no fi
nal do transe, que é quando já se está num nível mais profundo,
em que ocorre amnésia, e temos a certeza de termos desenvolvi
do um bom rapport.
Esse tipo de sugestão é usado para dor, parto, corrida de
atletas, ansiedade e tudo o mais que se deseje, e tem uma efetivi
dade poderosa.
É considerada um fenômeno hipnótico porque só ocorre
durante um transe caracterizado por certa catalepsia, dissocia
ção, amnésia, olhos focados e certa dilatação das pupilas (mi
dríase).
Resta dizer que os fenômenos hipnóticos fazem parte da
nossa vida cotidiana. Todos eles. Assim, você é capaz de ter am
nésia do número do seu telefone, se se distrair um pouco. Você
j~ipnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 61

pode ter urna hiperrnnésia de um fato ou uma dissociação


quanto dirige um carro; seu consciente se distrai com uma preo
cupação ou pensamento feliz e o seu inconsciente continua auto
maticamente dirigindo o carro para você; você anda quarteirões e
se dá conta de que o fez de urna forma “até segura”.
Por isso, entrar em transe é algo comum a todos. Nós o fa
zemos diariamente, várias vezes ao dia. Qualquer pessoa pode
entrar em transe; resta saber se o terapeuta está habilitado para
ser um bom serralheiro e providenciar a chave certa da confiança
que abra o seu inconsciente.
Para finalizar este capítulo, Erickson faz uma nota especial:

“Deve-se reconhecer que uma descrição, não importa


quão apurada ou completa, não substituirá a expe
riência atual, e nem tampouco pode ser aplicada a
todo sujeito. Qualquer descrição de um transe pro
fundo deve necessariamente variar em pequenos de
talhes de um sujeito para outro. Não há uma lista ab
soluta de fenômenos hipnóticos que pertençam a um
nível hipnótico. Alguns sujeitos desenvolvem fenô
menos hipnóticos no transe leve associados ao transe
profundo e outros mostram fenômenos de transe
leve no transe profundo. Exemplo: pessoas que de
senvolvem amnésia em transe leve e que falham em
desenvolvê-la em transe profundo” (Rossi, 1980, pp.
144-145).

“O transe profundo é aquele nível de hipnose que


permite ao sujeito funcionar adequadamente e dire
tamente no nível inconsciente sem interferência da
mente consciente” (Rossi, 1980, p. 146).

“O transe terapêutico é um processo em que os limi


tes e o enquadramento referencial de alguém estão
temporariamente alterados e assim pode ser recepti
vo a padrões de associação e modos de funcionamen
to que conduzam à solução do problema” (Erickson
e Rossi, 1979, p. 3).
62 Sofia M. F. Bauer

Conta-se que uma vez um professor de ciências humanas foi bus


car supervisão com um didata do. conhecimento. O mestre o escutou
atentamente enquanto fazia a análise da demanda do aluno. Após um
tempo disse: — Você parece cansado, teve um dia longo de trabalho, veio
de um lugar distante, deixe-me primeiro servir-lhe um chá.
O mestre trouxe a chaleira, serviu o chá numa xícara e o chá co
meçou a transbordar para o pires, mas ele continuou despejando o chá.
Então o pires também ficou cheio e, apenas uma gota a mais, o chá co
meçaria ~a escorrer pelo chão.
O aluno então disse: — Pare! O que você está fazendo? Não vê
que a xícara e o pires estão cheios?
O mestre calmamente respondeu: Esta é exatamente a situação

em que você se encontra. Sua mente está tão cheia que mesmo que eu
pudesse responder às suas perguntas você não as escutaria. Para que o
que eu tenho a lhe dizer produza um efeito, você primeiro deve esvaziar
a sua mente. Crie um espaço dentro de você. Com uma postura arrogan
te, nada do que eu disserflorescerá.
A postura é de receptividade e é por isso que se diz:

“Existem coisas que você sabe.


Existem coisas que você não sabe
Também existem coisas que você não sabe que sabe.
O dia em que você souber aquilo que você não sabe que sabe, você
será realmente você.
Capítulo 3

O modelo da hipnoterapia
ericksoniana

1. Hipnose clássica
Esta é a hipnose que vem do século passado, em que há um
hipnotizador que faz a indução por métodos tradicionais. Segue-
se um ritual rápido ou demorado, mas algo bem convencional e
já preestabelecido.
São as técnicas difundidas em manuais, as utilizadas por
hipnotizadores de palco e pelos mais tradicionalistas. Não tenho
nada contra estas técnicas; são úteis e de fácil acesso. O que vemos
ë o progresso das coisas, a evolução para técnicas que podem se
adequar mais a uma ou outra pessoa. O que não quer dizer que
urna pessoa que aplica hipnose mais naturalista não venha a se
utilizar de uma técnica mais standard e tradicional. E, às vezes,
com um efeito até melhor, dependendo do seu sujeito hipnótico.
André M. Weitzenhoffer faz urna crítica aos ericksonianos
por fazerem esta distinção. Aqui vale dizer que estamos apenas
fazendo uma distinção didática e não urna crítica à utilização
deste tipo de hipnose. Sempre tenha bom senso e aprenda tudo o
que lhe for útil.

O professor Malomar urna vez disse, enquanto


aprendíamos as várias modalidades de colocar al
guém em transe: “Aprenda todas as técnicas que pu
der aprender porque, se acaso algum dia você não
64 Sofia M.F.Bauer

estiver inspirado para tocar seu instrumento, você


poderá tocá-lo com o máximo de técnica, como se es
tivesse inspiradissimo~

Assim, por hipnose clássica poderíamos entender a indu


ção de transe formal associada às sugestões diretas.
Para que a sugestão direta, em relação ao problema do su
jeito, seja efetiva, é necessária a profundidade do transe. Em vir
tude das resistências naturais da mente consciente, torna-se ne
cessário que o sujeito esteja num nível mais profundo de transe.
A sugestão direta não é tão eficaz como a sugestão indire
ta, a qual pode eliminar algumas das resistências naturais do su
jeito. Nesta, a profundidade do transe não é um requisito funda
mental. .Por vias indiretas, sugestiona-se sem a “obrigação” de ter
que seguir determinado caminho.

2. Hipnose naturalista — a hipnose de Milton H. Erickson


Método de hipnose criado por Milton 1-1. Erickson que con
siste em fazer um tipo exclusivo de transe para cáda cliente. Mes
mo que seguindo uma forma de indução padronizada, fazendo-o
ficar ao molde (tailoring) do seu cliente, de acordo com um crité
rio de avaliação de como cada pessoa é, como cria seu sintoma,
como é sua resistência, e assim por diante. Veja o Diamante de
Erickson, um metamodelo de hipnoterapia.
É um método baseado numa linguagem de fácil acesso a
cada cliente. A linguagem dele mesmo, através de sugestões indi
retas, mas não só e èxclusivamente estas, podendo se utilizar das
sugestões diretas na construção de um transe mais maleável e na
tural a cada pessoa.
Baseia-se em utilizar coisas do próprio cliente para colocá
lo em transe, e não em induzir um transe formal ou colocar uma
fita de indução impessoal. O transe é visto como uma experiência
natural a todas as pessoas. O terapeuta, então, captura a atenção
do cliente através de aspectos de interesse deste e com a sua lin
guagem característica. A espontaneidade é parte fundamental
para aceitar o que o cliente traz, até mesmo a resistência, e se uti
lizar deste material para ir passo a passo para dentro do cliente.
~ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 65

O que ~iaturalmente nos impede de ter uma metodologia muito


formal.
Podemos também entender como transe naturalista o tipo
de transe feito por Erickson, desde 1943, que era oposto às indu
ções formais. Ele fazia um tipo de sinergismo, ou princípio de se
~ellaanças, como na homeopatia. Dava o mesmo do mesmo para
encontrar urna nova saída. Assim ele aceitava e utilizava a situa
ção em que se encontrava o sujeito. O comportamento presente
se tornava o remédio definítivo e parte da indução, já que a indu
ção formal, nestes casos, não produzia resposta favorável. Posso
citar um exemplo de um homem de 30 anos, bom sujeito hipnóti
co, que procurou por Erickson porque, ao fazer um tratamento
dentário, no qual ele requisitou indução hipnótica para anestesia,
não obteve o resultado desejado. Este rapaz conseguia anestesia
do braço, mas simultaneamente hiperestesia da boca (uma dor
insuportável). Erickson usou do sinergismo, pedindo que o braço
doesse muito e conseqüentemente, sem qualquer sugestão direta,
sua boca ficou anestesiada. Você, então, pode observar que ele
sabia e se utilizava das induções formais de uma forma que en
trava pela natureza específica daquele sujeito. Chegamos à con
clusão de que, de acordo com as palavras de Erickson:

“A terapia é única para um único cliente, construída


para as necessidades e situações daquele sujeito”
(Erickson, 1980, vol. 1, p. 15).

Terapia naturalista z~ A natureza de o sujeito


utiljzar o que o paciente traz.

“A forma caiculadarnente vaga de algumas instru


ções força a mente inconsciente a assumir a respon
sabilidade pelo seu próprio comportamento” (Erick
son, 1980, vol. 4, p. 102).

Chave ~ serralheiro =~ acesso

Erickson foi pioneiro em usar a comunicação, especialmen


te a comunicação indireta, que elicia e potencializa os recursos
internos de cada pessoa.
66 SofiaM.F.Bauer

O objetivo da hipnoterapia erjcksoniana

“A indução e a manutenção do transe servem para


promover um estado psicológico especial, no qual os
pacientes podem reassociar e reconhecer suas com
plexidades interiores e utilizar suas próprias capaci
dades em manejá-las de acordo com sua experiência
•de vida” (Milton 1-1. Erickson, 17w coliect papers, 1980,
voL4,p.38).

Como se vê acima, Erickson trabalha para colocar seu pa


ciente conduzindo a sua própria cura, utilizando as idjossincra
sias do paciente e sugestionando-o através delas a buscar os
seus recursos também idiossincráticos. A terapia evolui de den
tro do paciente. As inúmeras associações estimuladas pelas téc
nicas de indireção guiam sempre a um comportamento com
mais efetividade para a cura. E, como resultado, as mudanças
ocorridas serão mérito do paciente e não do terapeuta. Isto esti
mula a confiança e o crescimento do paciente que busca a ajuda
e percebe que a ajuda já está dentro dele, e que aquilo que ele
pensou que fosse resistência, preguiça, desânimo, etc., pode ser
o caminho para a cura e o bem-estar. É positivar, ressignificar
aquilo que era visto como negativo. Há sempre dois lados em
uma moeda.
Lembremos que o sucesso da terapia está diretamente li
gado ao grau de responsividade do paciente às mínimas pistas
sugeridas. Vá devagar, principalmente com os pacientes resis
tentes. Não tenha pressa em curá-lo. Pense em dar um passo
de cada vez, de acordo com o passo que o cliente pode dar.
Isto é, uma maneira natural de agir. Exemplo: se o seu paciente
é cooperativo, ao você respirar de modo profundo ele também
respira; se você fecha os olhos, ele fecha também. Vá em frente.
Caso ele pergunte muito, queira saber muito, responda já com
voz adequada ao transe, mais lenta e com linguagem própria
para permear responsividade, linguagem permissiva, passan
do ao seu paciente a confiança necessária a dar um pequeno
passo. Quem sabe, primeiro a um relaxamento e não a um tran
se? Você pode trocar estes termos como uma forma de dar
mais segurança ao seu cliente. Desta maneira, o terapeuta
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 67

ericksoniano segue utilizando os passos dados pelo cliente para


guiá-lo1 oferecendo modificações leves e pequenas que estabele
cem um movimento novo. A cada novo passo o cliente pode evo
luir espontanearnente, sendo o mérito do próprio cliente. Essa é
a responsividade às mínimas pistas que, depois de se elicjar a
cooperatividade, acontece. Erickson usava de estratégias indi
retas, às vezes, diretas, entalhadas de acordo com cada cliente,
utilizando e acessando os recursos internos do indivíduo. Para
isso Erickson usava valores, linguagem, idiossincrasias, sinto
mas e até a própria resistência do seu cliente. Use o que o pa
ciente traz!
Podemos considerar a hipnoterapia naturalista uma ferra
menta de trabalho que faz o sujeito experienciar e eliciar seus re
cursos internos como o caminho para a cura de seus problemas.
O postulado básico desta abordagem é que há uma mente
inconsciente que pode ser acessada e mobilizada para produzir
alívio psicológico, liberando material recalcado, fazendo mudan
ças importantes na resolução de problemas. Sabendo-se. que a
mente inconsciente é a parte sábia, expert nos problemas indivi
duais. As técnicas indiretas eliciam com mais facilidade as forças
adormecidas dentro do paciente. O paciente se torna o agente ati
vo da cura. Portanto, o objetivo da hipnose naturalista é trazer à
tona a natureza do sujeito para curá-lo.

A terapia de Erickson se baseia em 3 Ms e 2 Rs:

Motivar Responsividade
Metaforizar Recursos
Mover

Motivar é essencial. A vontade de mudar é 50% do cami


nho. Você pode ajudar a aumentar a motivação do cliente através
de um bom rapport, aceitando até mesmo a resistência. O cliente
que tem motivação quer mudar e se torna presença ativa, em sua
melhora. Dependendo do ganho secundário, você pode ter traba
[ho em efetuar a ativação da motivação, mas é possível; desde
que a pessoa esteja procurando sua ajuda, supõe-se que alguma
68 Sofia M~ P. Bauer

motivação já acontece. Trabalhe como um bom serralheiro e en


contre a chave que abre as possibilidades para uma vida nova e
saudável.
Metaforizar é o meio de ser indireto, de falar a língua do
cliente. É atingir seu cliente nos dois níveis de consciência, con
tando estórias, piadas, casos. As metáforas são como pontes no
tratamento que viabilizam uma ressignificação e uma saída para
os problemas; o cliente vai embora e leva algo (um recado) feito
sob medida para ele.
Mover é promover mudanças na direção desejada pelo
cliente. Através de uma terapia estratégica, prescrevendo tare
fas, usando das resistências ou dos próprios sintomas, utilizan
do o que o cliente traz, caminha-se na direção da cura. O traba
lho é para que o movimento de mudança venha de dentro. Ver
mais à frente, no caso do pânico, a metáfora da borboleta, Ela é
um bom exemplo de como as mudanças são recursos que o
cliente já tem (sabe) e passa a utilizar para efetuar sua mudança.
A lagarta, depois de um período de metamorfose, torna-se uma
linda borboleta.
Erickson trabalha em 2 Rs. A responsívidade, responder às
mínimas pistas. Ele só dava um passo de acordo com o tamanho
do passo do seu cliente. Não exagerava na carga. Um exemplo é
o caso do rapaz que o procurou porque, para urinar, necessitava
de um tubo de 20 cm. Erickson não retirou o tubo de cara. Pri
meiro aumentou o tamanho para 30 cm. Se foi possível aumentar,
poderia diminuir aos poucos. Foi o que fez, foi diminuindo para
25, 20, 15, 10, até ele somente usar os seus centímetros naturais. O
segundo R é dos recursos. Você deve lembrar que todo mundo
tem sua riqueza interior, é a ela que será dirigida sua ressignifi
cação.
Bom trabalho!

3. A inducão naturalista
Jeffrey K. Zeig é um grande mestre das abordagens erick
sordanas. O que você verá, até o final do capítulo 3, é um resumo
de sua maravilhosa obra destinada a ensinar os terapeutas a se
rem ericksonianos sem ser Milton 1-1. Erickson.
HipnoteraP~ Ericksoniana Passo a Passo 69

Aconselho a todos, quando tiverem oportunidade, assisti


rem aos cursos ministrados por Zeig, para aprender com ele,
mais profundamente, o que vou colocar aqui com minhas pala
vras.
O que aprendi com ele gostaria de passar para vocês agora.
É aquela história.., a montagem de um roteiro, sem ter um rotei
ro... E Zeig é um excelente professor nisto, Ele foi capaz de mort
tar uma teoria que dará a você o molde do terno, para você adap
tar a qualquer peso e medida.
É por isso que todo este capítulo é dedicado a tais explica
ções. Espero que você aproveite como eu aproveitei, e que gere
em você a curiosidade de conhecer o trabalho, os cursos e os li
vros do Zeig. Muitas pessoas criticam autores que ensinam o bá
sico, dizendo que são fracos. O que é importante é quê alguém
tenha coragem de ensinar o básico, o alfabeto, para aqueles que
querem aprender a ler. A base da casa precisa ser sólida, para
que construções mirabolantes venham por cima. Acho que Zeig é
quem nos dá tal fundamentação. Este é um livro básico para fun
damentar os alicerces daquele que quer se aprofundar na hipno
terapia, em que cabe apenas o fundamental. Lembre-se sempre,
conhecer as teorias psicológicas é uma condição importante no
trabalho terapêutico. Aqui, nos dedicamos à aplicação da indu
ção naturalista. Aproveite o que posso lhe passar do caminho
dado por Zeig.
De acordo com Jeffrey K. Zeig, a indução de um transe te
rapêutico pode ser dividida em três fases: absorção, ratificação e
eliciação.

4. Roteiro de indução sim plzficado


Você pode fechar seus olhos...

Absorção

Você pode respirar profundamente...


Você pode ir para dentro de você mesmo...
Você pode explorar aí dentro...
Aos poucos você pode descobrir padrões de conforto...
70 Sofia M. F. Bauer

Eu não sei bem onde o conforto é mais interessante.


Talvez você possa... apreciar o conforto... nos seus pés...
Talvez você possa... apreciar o conforto... nas suas pernas...
Talvez você possa... apreciar o bem-estar... em alguma par
te especial do seu corpo...
E você pode não perceber todas as formas de conforto que
podem ser desenvolvidas, mas a sua mente inconsciente pode
ajudar você.., a apreciar as mudanças que vão ocorrendo...

Ratificação
Enquanto eu estive falando com você.., seu ritmo respirató
rio mudou... sua pulsação se alterou... se acalmando... seu reflexo
de engolir mudou... seus movimentos motores se alteraram... sua
face está mais soltamente acomodada... (Mude de acordo com
aquilo que você está observando da constelação hipnótica no seu
cliente.)

Eliciação
Agora você pode aproveitar esta sensação gostosa de con
forto e se aprofundar no seu bem-estar... sentindo.., percebendo...
calmamente sensações... sentimentos... que vão surgindo e po
dendo ser apreciados... Que coisa boa é poder se sentir diferente
mente à vontade.,. Curta isso por alguns momentos...

Término e reorientação
Assim, agora, você pode respirar profundamente e ir se
reorientando aqui para a sala novamente.., bem alerta e desper
to... desfrutando deste novo padrão de conforto.
Este é um roteiro simplificado, um modelo de Jeffrey JK.
Zeig de como montar uma indução. Você será criativo, acrescen
tando a linguagem do cliente, acrescentando palavras como
“muito bem”, ou sorrindo enquanto fala, ou mudando a entona
ção da fala. Há inúmeras modificações que podem ser introduzi
das em todas as fases. Por isso veremos cada uma delas em sepa
rado. A linguagem que pode ser usada, as técnicas etc.
~.IipnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 71

~bsorçãO
Por absorção entende-se a fase inicial da indução, necessá
ria para focalizar a atenção do cliente. Relembrando o conceito de
hipnose1 a mente consciente fica absorvida em uma sensação,
sentimento, percepção ou idéia, enquanto a mente inconsciente
elicia fenômenos hipnóticos que levam o sujeito a experienciar
algo “magnífico”, diferentemente do estado de vigília. Por isso,
utilizamo-nos de técnicas de absorção para fazer o transe hipnó
tico.
De acordo com Zeig, a linguagem utilizada para a indução
tem relevância neste momento por absorver a atenção e focalizá
la de algum modo. O que precisamos neste estágio é promover a
dissociação, quando o sujeito sairá do estado de vigília para um
estado “alterado” (no bom sentido) de consciência.

Existem vários métodos para se fazer absorção:

1. Você pode absorver pela percepção: visual, auditiva, ce


nestésica, interna, externa.
Pela percepção visual, podemos citar a técnica de fixação
em um ponto, quando externa. Quando interna, visualizações
mentais de urna imagem, lugar ou cor.
Pela percepção auditiva, fazendo o cliente perceber os sons
do ambiente, ou através de música.
Pela percepção cenestésica, fazendo-o perceber suas sensa
ções físicas, tônus muscular, calor, temperatura, conforto etc.
E você pode misturar um pouco de cada percepção (vi
sual, auditiva, cenestésica), dando preferência em começar por
aquela que é predominante para o seu sujeito hipnótico. O
mesmo em relação a focalizar sua atenção ao meio externo, ou
ao seu mundo interno, conforme o critério de avaliação que
veremos à frente.

2. Você pode absorver descrevendo detalhes. Este método


consiste em descrever minuciosamente detalhes de coisas (focali
zação de um ponto), sensações (nas percepções visuais, cenestési
cas e auditivas) e idéias, de forma a enfocar a atenção do sujeito.
72 Sofia M. P. Bauer

3. Através de possibilidades. Uma forma de colocar em pala


vras muitas possibilidades, mas em todas estará implícita a idéia
de que você entrará em transe. Exemplo: Talvez você possa en—
trar em transe sentindo seu corpo acomodado ao sofá~. ou talvez
você possa ouvir os pássaros cantando lá fora... ou talvez você
possa apreciar, sentir sua respiração... enquanto encontra a sua
maneira de entrar em transe.

4. Usando métodos não-verbais. A sua forma de olhar para o


chão, de se posicionar confortavelmente em sua cadeira, ou ins
pirando profunda e confortavelmente.

5. Você pode absorver usando a dissociação. É uma forma


de usar a linguagem dissociando parte da conversa para a mente
consciente, parte para a mente inconsciente. Mostrarei logo à
frente as técnicas para fazê-lo.

6. Você pode absorver através de um determinado fenôme


no hipnótico. Temos como exemplo a levitação das mãos, a hi
permnésia na lembrança de uma memória, etc.
E para fazê-lo, Zeig dá as direções através de técnicas de lin
guagem para a montagem da absorção. São elas:

Truísmos
Yes set Conjunto de Sins/No set
— — Conjunto de Nãos
Pressuposições
Injunções ~imbólicas
Dissociação mente consciente / mente inconsciente
Comando embutido
Possibilidades
Citações
Causalidade implícita
Imagens e fantasias

Descreverei cada uma destas técnicas a seguir:


1-{ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 73

Truísmos — são verdades incontestáveis que ajudam a ab


sorver a atenção do cliente. Se ele for uma pessoa mais externa,
comece com detalhes externos. Caso el~ seja uma pessoa mais i~-~
tensa, mais dada aos seus sentimentos, comece por truísmos in
ternos.

Exemplos externos:

Você pode ir ouvindo os barulhos que vêm da rua.


Você pode observar cada detalhe do ponto que está fo
cando.
Você pode sentir o sofá no qual está sentado.

São exemplos internos:

Você pode sentir como sua respiração acontece agora, em


você...
Você pode perceber a tensão do seu corpo...
• Você pode perceber cada lágrima que corre como algo que
vem de dentro de você...

• Yes set —~- é o conjunto de três truísmos, que são significati


vos, com uma afirmativa para entrar em transe. É como se a pes
sóa fosse fálando sim a cada afirmativa colocada. Depois de três
afirmativas, você faz uma pressuposição de algo que você deseja
guiar para absorvê-la no transe.
• Ex.: Você pode perceber seu corpo confortavelmente recos
tado no sofá... (1)
Você pode perceber seus pés apoiados ao chão... (2)
Você pode perceber sua cabeça também apoiada... (3)
E desta maneira “apoiar” agora seus pensamentos confor
tavelmente (a verdade pressuposta). (4)
O número 4 não é um truísmo, mas a pessoa já vem dizen
do sim a cada passo, que acaba por seguir o mesmo movimento e
se guia através destas novas palavras pela “lei da inércia”.
74 Sofra M, E, Bauer

Você pode utilizar o yes set misturando visual, auditivo e


cenestésico, ou fazê-lo em separado, de acordo com a preferência
sua e de seu cliente.
Você pode usar o yes set guiando todo o transe. Começan
do por fechar os olhos, sentar-se confortavelmente, respirar pro
funda e calmamente, relaxar o corpo e a mente, experienciar con
forto. Seja crjativo, utilize as verdades incontestáveis que estão aí
ao nosso alcance.
1-lá também o no set, que segue o mesmo princípio e é utili
zado principalmente para pessoas dominantes, que gostam de
comandar seu próprio transe.

No set
— é um conjunto de nãos, como você faz o conjunto
de sjn.s.
Ex.: Eu não sei o que você está sentindo agora...
Eu não sei o que você está ouvindo agora...
Talvez o som do ar-condicionado, ou dos pássaros...
Eu também não sei o que você está pensando agora...
Mas o que eu sei é que você pode sentir, ouvir e pensar al
guma coisa que lhe faça muito bem agora...

Pressuposições — o nome já diz que através de urna forma


de linguagem você vai pressupor que alguma coisa acontecerá.
Exemplos: Eu não sei dizer qual será a profundidade do
seu transe.
Ou talvez você possa entrar em transe sentindo o conforto
do sofá...
Eu não sei dizer quando você se sentirá mais confortavel
mente relaxado...
As pressuposições serão criadas através daquilo que você
deseja que o cliente faça (relaxar/respirar/imaginar).

• Injunções simbólicas — são mensagens implícítas usando


provérbios e expressões idiomáticas. Exemplo: Abra os seus
olhos internos... Respire aliviado...

Dissociação mente consciente e mente inconsciente é —

urna forma de linguagem que manda uma fala (ordem) à mente


~ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 75

consciente e, em seguida, uma outra fala complementar à mente


inconsciente, com mudança na enton~ção de voz (mais suave),
quando se dirige à segunda. O paciente fica dividido e se distrai,-
além de mandarse urna metarnenSagem. Esta é uma forma im
portante de indução do transe. Utilize-a entremeadamente du
rante a indução.
Você faz de acordo com este esquema:
Sua mente consciente pode
enquanto sua mente inconsciente pode
porque
ExemplQ:
Sua mente consciente pode ouvir estas palavras, enquanto
sua mente inconsciente pode ouvir as coisas que vêin lá de dentro de
você, porque lá dentro está a sua sabedoria.
Você pode fazer a dissociação sem colocar o porquê. Fica
mais eficaz ao se aliar um porquê qualquer. Isto dá uma garantia
de vantagem para a pessoa acreditar mais na mente inconsciente.
A voz muda de entonação para um tom mais suave ao se
dirigir à mente inconsciente.

Comando embutido —esta forma de linguagem sugere e


ordena algo em especial, de uma maneira indireta, embutido
num questionamento ou numa afirmação. Exemplo: Eu estou me
perguntando se, ao respirar profundamente, você não vai sentir
como é gostoso ter um fôlego novo que abre o peito... Enquanto
você vai soltando o seu corpo no sofá, vai se permitindo soltar
sua mente calmamente.

Possibilidades
— utilizando as muitas possibilidades de ab
sorver a atenção do cliente em detalhes, sensações, sentimentos,
idéias.
Talvez você possa sentir seus pés... Talvez você possa sen
tir seu corpo se suavizando.., ou talvez você possa perceber sua
cabeça se soltando. ..se suavizando.
Citações —são relatos ou citações de situações ou fala de
alguém. Exemplo: “Eu tive um cliente que, ao me ver respirar
76 Sofia M.F.Bauer

profundamente, já fechava seus olhos e entrava em transe”. “Um


professor meu dizia: quando a gente fecha os olhos, respira pro
fundamente, um novo fôlego sempre vem acompanhado de uma
nova inspiração.”

Causalidade implícita —usando das pressuposições com


advérbios específicos. “À medida que você inspira profunda
mente, se permite abrir um novo espaço.”
“Se você pode soltar seu corpo no sofá, então pode soltar
outras partes suas.”
“Quando você fecha os olhos para fora, então pode abrir
seus olhos internos, os oLhos da mente.”

Imagens e fantasias —você descreve imagens, ~aisagens,


fantasias com detalhes que absorvem a atenção do sujeito.
Assim, utilizando-se de urna linguagem variada, pode fa
zer o sujeito perceber o mundo e o seu mundo interno e se absor
ver em algum ponto específico. Você fará com que a pessoa fique
imersa em detalhes e possibilidades de ter uma sensação, uma
percepção, uma fantasia, uma memória, um fenômeno hipnótico,
ou formas combinadas destes.

Ratificação
Ratificar significa dar ao cliente um feedback daquilo que se
observa ao vê-lo entrar em transe, para ele saber que está indo
bem, que está conseguindo urna boa resposta na sua tentativa de
se colocar em transe. É dizer as mudanças fisiológicas que você
vai observando na pessoa. Isto aumenta a confiança e aprofunda
o transe. “Se eu estou indo bem, posso continuar caminhando em
frente.” Você observa e fala ao sujeito sobre as mudanças que
você notou. Elas fazem parte da constelação hipnótica:

Economia de movimentos catalepsia


Literalismo
Demora nas respostas
Mudança no reflexo de deglutição
Alterações e diminuição do ritmo respiratÓrio e cardíaco
1—lipnoterapia Ericksoníana Passo a Passo 77

Relaxamento muscular
Mudanças nos olhos:
Reflexo de piscar
Dílatação das pupilas (midríase)
Lacrimej amento
Desfocalização, olhar vago
Movimentos sacádicos (do globo ocular)
Decréscimo ou mudança nos movimentos de orientação
Perseveração
Fasciculação
Assimetria direito / esquerdo
Mudanças na circulação periférica
Aúmento da responsividade
Movimentos ideomotores/ideossensórios

As palavras são ditas da seguinte maneira:


“... À medida que eu fui falando com você...”
ou
“... Enquanto eu tenho falado com você.., certas mudanças
ocorreram... sua respiração mudou, seu ritmo de pulsação se mo
dificou... há pequenos movimentos nos seus dedos...”

Eliciação

Eliciar é fazer alguma coisa acontecer. É o momento-chave,


quando a terapia acontece. É aqui que vamos trabaLhar as mu
danças, pois os fenômenos hipnóticos já estão presentes, dando-
nos o acesso mais rápido ao inconsciente. Podemos nos utilizar
destes fenômenos ou de técnicas especiais que veremos logo à
frente quando falarmos do metamodelo, do diamante de Milton
Erickson. Como eliciar um fenômeno hipnótico, como utilizar o
material magnífico do inconsciente e produzir mudanças? É aqui
que vamos introduzir as técnicas de fazer metáforas, utilizar a le
vitação das mãos, induzir sonhos, distorcer o tempo, promover
regressão, progressão, amnésia. A terapia ocorre o tempo todo,
mas o processo tem sua fase de elaboração neste ponto.
78 Sofia M. F. Bauer

Pacing e iea.ding
Dentro da abordagem de Milton H. Erickson, encontramos
uma técnica peculiar. Erickson só dava o passo do tamanho que o
cliente podia acompanhar. Caso ele desse uma sugestão, um co
mando um pouco mais arrojado, ao qual o cliente não seguia, ele
logo voltava atrás, dando um passo bem pequeno para que o su
jeito pudesse acompanhar.
Pacing pode ser traduzido por acompanhamento passo a
passo de pequenas dicas que o cliente lhe dá de que está entran
do em transe, E você segue. Assim, por exemplo, se você respirar
profundamente e o cliente o acompanhar, siga em frente. Você
pode pedir que feche os olhos e assim por diante. Você vai dando
pequenos passos de absorção e observando se o cliente consegue
realizá-los. Observe a responsívidade e crie passos que ele possa se
guir. Você trará confiança à indução e estará fazendo o pacing.
O leading é o guiar ao complemento. É aquela frase que,
após dar uns passos, você coloca, guiando para uma nova dire
ção, ressignificando.

Podemos dar o seguinte exemplo:

19 Pacing: “Você pode respirar fundo” — espere; se a pes


soa o fez, continue.
2~) Pacing: “Você pode acomodar-se na cadeira” — espere e
veja se a pessoa o fez.
32) Pacing: “Você pode fechar seus olhos” se o fez, passe

ao “leading”.
42) Leading: “Então você pode acomodar seus sentimentos
suavemente”.

5. Avaliação do paciente para utilização do metarnodelo (segundo


Jeffrey 1<. Zeig)
Para se fazer uma psicoterapia sob medida para cada clien
te é necessário um critério de avaliação. A psicoterapia será mais
eficaz se houver um ajuste ao próprio estilo do cliente. Zeig dá o
nome de taíloring a este ajusté. Vem de tailor, alfaiate, aquele que
I-upnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 79

faz a roupa sob medida para cada cliente. É uma modelagem da


indução e da intervenção para ficar com a forma do cliente.
Este ajuste é feito por procedimento técnico criado por
Zeig. Faz-se urna avaliação do cliente, das sinalizações que
este nos dá, dos recursos que ele tem e de sua forma de expe
rienciar o mundo. Quais são suas lentes perceptuais: sua forma
de atenção, seu sistema sensorial preferido, sua forma de pro
cessar as informações recebidas, suas características relacio
naís, sociais e interpessoais. Nesta avaliação vêem-se também
os pontos de apoio do cliente, seus valores, papéis, atitudes e
padrão de comportamento.
A forma de aváliar é simples. Veremos, a seguir, o quadro
feito por Zeig e como podemos utilizá-lo para avaliar nosso
cliente:

Quadro de avaliação

De acordo com Jeffrey K. Zeig:

Categoiias intrapsíquicas Categorias sócio-relacjonais

Perceptuais Filho mais velho ou único/do


meio/mais novo

1. Interno x Externo Rural/Urbano

2. Focalizado x Difuso Intrapunitivo x Extrapunitivo

3. Sistema sensorial preferido Absorvente x Radiante


(visual, cenestésico ou auditi- Audacioso x Autoprotetor
vo) Em estresse x Em homeostase
Dominante (one up) x
Processamento Submisso (one down)

4. Ampliador x R.edutor
5. Linear x Mosaico
80 Sofia M. F. Bauer

Qual a categoria que está em maior desequilíbrio?

Vamos examinar item por item a seguir.

Categorias de avaliação: perceptuais


Nesta categoria, você identifica as lentes com as quais o
cliente vê o mundo. Qual é o seu estilo de atenção e sua forma de
processar a informação vinda do mundo.
São categorias intrapsíquicas.
Zeig divide, de acordo com o quadro descrito, em estilo de
atenção:

Interno X Externo
Fócaljzado X Difuso
Sistema sensorial preferido: visual
auditivo
cenestésico

A pessoa com atenção interna é aquela voltada para si mes


ma, para seus sentimentos e problemas. Voltada para dentro.
Descreve mais as coisas internas. Um exemplo típico é o deprimi
do. Fala de si mesmo, de seus sentimentos, de sua dor.
A pessoa externa está com sua atenção voltada para o am
biente que a rodela. Fala do tempo, dos objetos da sala, da roupa
com que veio, de detalhes externos. Os paranóides são pessoas
de atenção externa. Prestam atenção a tudo o que está à sua volta.
A forma de se fazer a indução para uma pessoa interna di
fere daquela feita em uma pessoa externa. Você pode dizer para o
interno: ~..Vá para dentro de você mesmo... olhe lá dentro... (para
só depois induzi-lo a perceber as coisas externas).., e assim você
até pode perceber minha voz te guiando... os ruídos da sala... e
quando quiser pode voltar para dentro de você mesmo... e ir des
cobrindo uma maneira confortável...
Habitualmente devemos seguír a forma de atenção. Se a
pessoa for interna, começar pela atenção interna e ir dirigindo
esta atenção ao equilíbrio com a externa. Você pode ir dando su
gestões:
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 81

dentro — dentro
dentro — fora— dentro
dentro — fora— fora

Isto, inclusive, ajuda o deprimido a olhar para fora, a ver o


mundo com bons olhos. Vá devagar. Observe a linguagem do
seu cliente.
Com o cliente externo, você começa a indução observando
os detalhes externos, os sons da sala, o sofá em que ele está, a sua
voz e vai colocando-o devagarinho para dentro. à medida que
“...

você ouve os pássaros cantarem..., você pode inspirar profunda


mente e ir sentindo como você se abre para uma nova perspecti
va...”
U~n segundo item é se a atenção é focalizada ou difusa. O
que predomina? Há equilíbrio? A pessoa com atenção focalizada
mantém o olhar focado, observa com atenção, não consegue pres
tar atenção a duas coisas ao mesmo tempo. Às vezes, pede a você
para desligar o ar-condicionado pelo barulho que lhe tira a aten
ção. Ela olha atentamente. A pessoa drfusa na atenção é capaz de
dar notícia de que seu telefone está tocando, ouvir você, olhar
para os lados; não fica com o olhar focado. A indução difere para
cada tipo de atenção. A indução para a pessoa focalizada pode ser
feita absorvendo-a num detalhe determinado: num som, na res
piração, no relaxamento. Para pessoa difusa você pode focar a
atenção variadamente e ela se sentirá confortavelmente em
casa para entrar em transe. Então você pode misturar as focali
zações.
A terceira categoria, de acordo com a atenção, é o sistema
sensorial preferido de cada sujefto. As pessoas visuais vão usar
verbos, palavras como: olha, viu, observou, veja. V~o citar coisas
visuais: a roupa, os objetos à sua volta, o carro de fulano etc. O
cliente com traços paranóides é mais visual. Lembre-se, isto não
quer dizer que toda pessoa com predominância visual é um pa
ranóide (patologicamente dizendo). As pessoas auditivas dão va
zão às palavras como: ouça, me soa como, etc. Os obsessivos são
mais auditivos. As pessoas táteis ou cenestésicas são aquelas que
se expressam por palavras como: sinto, percebi, etc. Os deprimi
dos são mais táteis.
82 Sofia M. F. Bauer

Nesta categoría sensorial, você pode orientar as palavras e


a absorção, começando pela categoria dominante de seu cliente.
Se ele é cenestésico (tdtil), pela percepção das sensações (relaxar,
distender, respirar). Se ele é auditivo, pelos sons à sua volta1 ou a
música, ou o ritmo de sua voz. Se ele é visual, pelas imagens sen
soriais. E depois vá introduzindo as outras categorias sensoriais.
De acordo com a categoria de processamento, teremos:

Ampliador X Redutor
Linear X Mosaico

Neste grupo de categoria de processamento, vemos a for


ma como a pessoa processa a informação vinda do ambiente.
Como o cliente experimenta o mundo?
As pessoas ampliadoras processam o que recebem de forma
ampla, exagerando em sua maneira de expressar. Exageram no
que vêem e no que vivem. Vêem uma coisa pequena e a imagi
nam enorme. São as pessoas dramáticas. As pessoas redutaras fa
zem o contrário, reduzindo os dados da realidade externa. São
capazes de contar um fato, importantíssimo para elas, da manei
ra mais sucinta e sem emoção.
As pessoas lineares são aquelas organizadas, que vão ao
princípio, depois ao mejo, e chegam ao final numa linha reta. As
pessoas mosaicas são aquelas que, contando um fato, falam do fi
nal no começo, interrompem o caso, contam outro, depois voltam
ao mesmo assunto.
O transe deve ser feito de acordo com a forma de proces
samento de cada um. O transe para a pessoa ampliadora pode ser
mais teatralmente dramatizado. No caso da redutora nunca exa
gere; ela não vai gostar. Para a pessoa linear, faça tudo metodica
mente devagar e por ordem. Sentar, fechar os olhos, e ir para
dentro, respirar, relaxar, soltar a mente. No caso da mosaica, acei
ta bem até mesmo a confusão mental. Você pode ir daqui para
ali, misturando percepções, sentimentos, sensações.
Você deve levar em consideração se há um equilíbrio entre
as categorias. O ideal é fazer o equilíbrio entre as partes. Se é
muito externa, fazê-la ver o lado interno. Se é ampliadora, diminuir
l-iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 83

esta categoria para que veja as coisas sem tantos exageros. Se é 1-e-
dutora, ir ampliando aos poucos.
Veja qual é a categoria que tem um maior desequilíbrio.
Procure equilibrá-la, ao trabalhar no transe.
Costumo seguir com os meus alunos um conselho dado
por Zeig. Pegue cada uma destas categorias e trabalhe com ela
durante uma semana, ou um mês, com todos os clientes. Você vai
aprender a ver se a pessoa é interna ou externa, focalizada ou di
fusa; linear ou mosaica; ampliadora ou redutora; visual, auditiva
ou cenestésica.
Podemos parar em algum exemplo e examinar um pouco.
A pessoa deprimida fica ou está com a atenção voltada para o in
terno, é mais tátil e amplia o negativo. Por isso, qual seria o nosso
modo de intervenção? Entraríamos com uma indução voltando a
atenção para o interno. Exemplo: feche seus olhos para fora e
abra os seus olhos internos, que podem sentir (o lado tátil) e você
poderá perceber que a dor vai se esvaindo a cada, respiração
sua... E poderíamos dizer que a meta é diminuir o desequilíbrio.
A pessoa deprimida está com o olhar (a atenção) voltado para o
interno. A meta seria fazê-la olhar para o externo, ver o mundo.
Vá pontuando devagar, passo a passo, conduzindo. A cada passo
dado pelo cliente, você guia para um novo passo, orientando-o
para o externo. Mais tarde veremos, com calma, como fazê-lo.
O importante é conseguir transitar entre as categorias, de
forma flexível, Não ficar fixado numa categoria de forma irredu
tível. Por exemplo, voltar a atenção para o interno é ótimo para
se ter idéias,aprender a se concentrar. Voltar a atenção para o ex
terno é ótimo para lidar com a dor. Você distrai a atenção que
está voltada para o interno. No mesmo exemplo da dor, a aten
ção está enfocada no cenestésico; transfórme o cenestésico em vi
sual, dando urna cor para a dor e vá mudando esta cor. Você
também pode trabalhar com a categoria mais flexível corno sua
aliada na cura.
Outro ponto importante é o terapeuta conhecer sua pró
pria forma de ser. Milton H. Erickson tinha sua atenção externa
focalizada, era visual, processava os dados de forma mosaica e
ampliava o positivo. Zeig é interno, de atenção difusa, auditivo;
processa os dados de forma linear e amplia o positivo. Você, co-
84 Sofia M. F. Bauer

nhecendo sua forma de ser, pode permear as técnicas, utilizando


aquilo que você conhece melhor, até mesmo se equilibrar naquilo
em que está irredutível.

Categorias de avaliação: sócio-relacionais

Categorias sócio-relacionais — interpessoais

Filho mais velho ou único/do meio /mais novo


Rural / Urbano
Intrapunitivo x Extrap unitivo
Absorvente x Radiante
Audacioso x Autoprotetor
Em estresse x Em homeostase
Dominante (one up) x Submisso (one down)

Nesta categoria de avaliação poderemos ver como a pessoa


lida com o mundo e com as pessoas que a cercam.
Veremos que estas categorias vão guiar a terapia e a hipno
se, nossa linguagem, os valores importantes para o cliente, as me
táforas que este utiliza na colocação de suas questões, etc.
Para fazer metáforas é bom estar bem treinado em avaliar
as categorias, principalmente as sócio-relacionais. Assim, você
cria uma estória úníca para o seu cliente, dentro da avaliação feita
para ele. É o tailoring, o ajuste, a história daquele sujeito.
Veremos, a seguir, cada uma destas categorias.

Filho mais velho ou único, do meio e mais novo


Para Milton 1-1. Erickson, a ordem de nascimento na família
parece ter influências. Os filhos mais velhos parecem ser mais in
telectuais, mais responsáveis e protetores, cuidando dos mais no
vos. Este papel pode ser também o mitificado pela família. Às ve
zes aquele filho indicado como o protetor da família toma este
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 85

lugar. Investigue. O mais comum é o fiLho mais velho ser o prote


tor. Profissões que cuidam das pessoas como médico, psicólogo,
vêem-se em muitos filhos mais velhos.
Os filhos do meio parecem ser os rebeldes; ficam no meio.
Outras vezes, são os amígáveis, aprendendo a fazer acordos com
os outros.
Os filhos mais novos são os protegidos, que demoram
mais a crescer, mas são mais obedientes.
Na terapia você pode fazer os ajustes que estiverem em
desequilíbrio. A tendência do filho mais velho é dar-se, dar
proteção e nunca receber. Inicie na linguagem que ele entende:
você pode tomar conta de si mesmo agora... e receber o bem
estar... Para o filho mais novo você faz o inverso:...e agora, re
cebendo~este tempo que é todo seu... você pode aprender a dar
seus primeiros passos...

O local de nascimertto: rural ou urbano


O local de nascimento, onde você passou sua infância,
onde você foi criado, influencia profundamente sua forma de ser.
Se a pessoa vem do meio rural tende a conhecer melhor os
fenômenos da natureza como as quatro estações, fases da lua,
agricultura, bichos. Tem uma relação com o tempo mais tranqüi
la: há tempo para tudo... quando for possível.
A pessoa urbana valoriza coisas da cjdade como par
ques, cinemas, eventos da cidade. As crianças urbanas não co
nhecem uma galinha, se assustam quando a vêem. Uma crian
ça do meio rural não sabe lidar com jogos de computador,
brinca éom pipas, etc. Fique atento para fazer os ajustes ade
quados a cada um. Você não deve contar uma estória de plan
tas e animais para alguém que não conhece um pouco disto.
Veja o mundo que cerca tais pessoas. Monte a estória de acor
do com o mundo dela. Por exemplo, se eu for montar uma es
tória para minha filha, que é urbana e filha caçula, vou contar
estorinhas que fazem uma menininha se tornar uma moça lin
da, capaz de dar conta de trabalhar e cuidar de seus filhos.
Posso colocar estórias de contos de fada, porque ela é românti
86 Sofia M. F. Baiter

ca, mas preciso colocar os valores dela: querer crescer, trabalhar,


casar e dar conta de cuidar dos filhos.

Intrapunitiva x extrapunitiva
A pessoa intrapunitiva é aquela que tende a colocar a culpa
de tudo em si mesma e se martiriza com tais culpas. A extrapuni
tiva coloca a culpa no outro (é o meu marido, meu patrão, meu
trabalho, etc.). Percebemos que a pessoa deprimida costuma se
culpar de não dar conta, O paranóico culpa-se de pôr a culpa no
outro. O histérico o faz também com freqüência; está sempre pre
judicado por alguém ou alguma coisa. Mas, lembre-se, não se
prenda a diagnóstico patológico. Nós estamos aprendendo a fa
zer um diagnóstico diferente, que leva à saúde. Você vê como seu
cliente está, tira-o da inflexibilidade e mostra o caminho. Assim,
se a pessoa está muito intrapunitiva, você mostra a possibilidade
de as culpas não serem apenas suas. Faz-se o contrário com a ex
trapunitiva, pontuando onde ela também ~em sua participação e
culpa. “Quando um não quer, dois não brigam”...
Na hipnose com a pessoa intrapuriitiva, você pode dizer,
por exemplo, “... sua mente consciente pode cometer erros, en
quanto sua mente inconsciente pode não estar cometendo er
ros...” Com a extrapunitiva faça o contrário, trabalhe para que ela
veja o que ela faz, o que ela pode fazer, qual o papel dela nesta
história.

Absorvente x radiante
A pessoa absorvente é aquela que tende a absorver o que
vem de fora; idéias, pensamentos, palavras. Absorve a energia
social.
A pessoa radiante é aquela que emite energia socjal, idéias,
atitudes, e que absorve a atenção do absorvente.
Zeig compara com a Lua e o Sol. Um precisa da ajuda e do
equilíbrio do outro.
Ao radiante você diria ajude-me a ajudar você. Contaria a
estória das estrelas.
l-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 87

Ao absorvente você diria: como é bom receber novas idéias


que nos fazem emitir o que há de bom dentro de nós mesmos.
Pense em fazer o equilíbrio. Uma pessoa muito absorvente
é tímida. Precisa aprender a emitir o que tem de bom. Já uma
pessoa exageradamente radiante chega a ser metida. Ajude-a a
aprender a receber. Com certeza, ela também precisa receber.

Audacioso x autoprotetor
A pessoa audaciosa é aquela que corre atrás de suas metas.
Luta para conseguir o que quer. Muitas vezes é muito impulsiva.
Para esta pessoa você pode dizer, durante a hipnose: “você é
...

capaz de conseguir o que desejar Vá em frente, conquiste


você sabe o caminho. mas vá com cautela e sabedoria...”
~.

A pessoa autoprotetora é aquela que age mais devagar. É


ponderada7 não arrisca É preocupada com afastamentos e apro
ximações, em não fazer as coisas por impulso. Por isso, palavras
boas na indução seriam “vamos pensar sobre isso devagar
ao seu tempo/modo/ritmo tudo vai se esclarecendo... o incons
diente, que é seu amigo e protetor, vai lhe revelando o caminho
na sua medida...’1.

Em estresse x em homeostase
A pessoa em estresse é aquela que gosta de riscos, de se
ocupar o tempo todo, de agitar bastante, de procurar esportes
mais estress antes.
A pessoa em homeostase é mais calma, busca a harmonia,
o equilíbrio.
No caso de fazer hipnose para uma pessoa em estresse,
você pode falar mais rápido, incluir coisas agitadas. E para a pes
soa em homeostase você pode fazer um transe via relaxamento,
mais calmo.
O importante, nesta categoria, é você produzír a homeosta
se para quem está em desequilíbrío. Uma pessoa muito agitada
costuma entrar em franse profundo quando pára. Para a pessoa
calma, a indução precisa ser calma e mais demorada; ela entra
88 Sofia M. F. Bauer

em transe aos poucos. Isto não é regra básica. Apenas minha ob


servação.

Dominante x submisso
Podemos falar em posição superior e posição inferior.
Sabemos que o comportamento humano é hierarquizado.
A pessoa dominante (em posição superior) controla, define, esco
lhe, indica, induzindo os papéis sociais.
A pessoa submissa (em posição inferior) é escolhida, res
ponde, adapta-se e recebe os papéis que lhe são indicados.
Você pode observar, nos primeiros minutos de uma intera
ção, através de gestos, entonação da voz, postura corporal, pala
vras, padrões de dominância ou submissão.
Uma pessoa dominante não quer ser controlada e tem
medo de a hipnose dominá-la. Costuma dizer que não quer fazer
hipnose, que ninguém pode hipnotizá-la. Isto em casos mais este
reotipados. Outras não falam, mas demonstram que não aceitam
ordens. Então o bom transe neste caso é dizer ‘a’,..eu não sei
como você vai entrar em transe... eu não sei se você vai observar
sua respiração mais calma... ou se você perceberá seu corpo se
soltando... mas você sabe como se colocar num transe agradá
vel...”
No caso da pessoa submissa, esta já se coloca à sua dispos~
ção. Eia requer um comando e por isso se torna fácil colocá-la em
transe.
Zeig demori~sfrou esta característica com um exercício em
um de seus seminários em Belo Horizonte. Primeiro ele de
monstrou que o comportamento humano é por lateralidade.
Por exemplo, quando cruzamos os dedos, se somos canhotos, o
polegar esquerdo fica em cima; se somos destros, ao nos virar
mos para escutar algo, viramos a orelha direita. Em seguida,
pediu que se formassem pares de pessoas para um exercício;
as pessoas ficariam de costas uma para a outra, e uma deveria
contar um caso de sua infância para a outra. Em alguns pares,
uma pessoa virou-se para a direita para contar o caso; a outra,
que havia inicialmente se virado para a direita, tornou a se vi
rar para a esquerda para ouvir o caso. Em poucos. segundos,
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 89

de modo informal, a hierarquia estava definida: quem contava o


caso era o dominante, quem ouvia era o submisso. O padrão foi
complementar.
Como lembrou Zeig, em algumas culturas, como a do Ja
pão, a hierarquia das posições superior-inferior é definida de
modo formal, no momento em que dois homens são apresenta
dos, pela avaliação que cada homem faz, ao ler o cartão que lhe é
apresentado pelo outro. O que se sente por baixo se curva primei
ro e mais; o superior se curva em seguida, mas um pouco menos
que o primeiro. Finalmente, o inferior se curva uma segunda vez.
A hierarquia está formalmente definida.
Em outros pares, uma pessoa virou-se para a direita, a ou
tra também se virou para a direita; nenhuma quis ceder. Então,
cada uma se inclinou para trás, em posição jncômoda, com o cor
po retorcido, mas não cedeu. As duas se colocaram como domi
nantes (one up). Quando isso ocorre, o padrão é simétrico e costu
ma se desenvolver uma escalada simétrica de luta pela dorninân
cia. Quando há uma escalada simétrica, a interação tem três pos
sibilidades de desenlace: a) há urna explosão que pode chegar à
violência física; b) a interação pode, em determinado momento,
tornar-se complementar; c) uma das pessoas envolvidas pode
criar um mecanismo de controle por observação (governo), e pas
sar a manejar a relação de forma consciente.
Um outro tipo de dominação pode ocorrer. É urna pessoa
colocar-se sempre por baixo (por exemplo, queixando-se sem
pre, e nenhuma sugestão apresentada pelo outro lhe serve),
mas para, no fundo, colocar-se por cima, determinando os pa
péis e a natureza d~. interação. É o padrão denominado meta
complementar.
Do ponto de vista terapêutico, há várias coisas a se obser
var sobre estas hierarquias. Primeiramente, o terapeuta deve ser
capaz de pensar em termos de hierarquia e ser capaz de observar
o cliente: “Como este cliente faz para ficar por cima? Ou por bai
xo?” Ele aconselha o. exercício de, por urna semana, ficar obser
vando as relações hierárquicas one up/one down. Segundo, o tera
peuta deve ser capaz de se colocar de forma dominante, para in
duzir papéis efetivos. Terceiro, este é um ponto muito importan
te na observação de famílias. Qúando a hierarquia da família se
9Q Sofia M. F. Bauer

desorganiza, um filho com papel de pai, por exemplo, tendem a


aparecer sintomas. Outro ponto é que, diante de uma escalada
simétrica, não adianta falar; é preferível dar tarefas, do que fa-
lar. Deu exemplo de Erickson, que interrompeu uma escalada si
métrica entre marido e mulher mandando que a mulher se atra
sasse 15 minutos, depois 30 minutos, depois 45 minutos. Deu
exemplo de Whitaker que, junto a uma família que mostrava um
padrão de relacionamento inteiramente irracional, ele começou
a não falar coisa com coisa e ter atitudes estranhas, levando a fa
mília a se relacionar usando do raciocínio. Posteriormente Whi
taker explicou que o comportamento da família havia se modifi
cado porque a loucura só pode ocupar um lugar social. Deu tam
bém uma definição muito bonita de poder: “bondade notável e
atenção~aos detalhes!”
Nesse mesmo seminário Zeig chamou a atenção, finalmen
te, para o fato de que os terapeutas mais interessantes são os que
têm a maior amplitude possível de intervenções: intervenções simbó
licas, intervenções verbais, em múltiplos níveis. E, sintetizando
com o exemplo do “cliente deprimido,” diz que ele faria o possí
vel para ser: interno-tátil-ampliador do negativo-intrapunitivo
absorvente-one down, e que o plano terapêutico seria fazê-lo tor
nar-se, nas sessões: externo-visual-ampliador do positivo-extra
punitivo-radiante-one-up.
Depois de observar as categorias de avaliação, você pode
fazer um diagnóstico diferente e peculiar orientado aos aspectos
psicológicos de cada cliente.
O ajuste é, portanto, feito através desta avaliação. Quando
entrarmos no metamodelo, você já estará apto a fazer, sob medi
da, o~ “embrulho de presente”, dando uma terapia única ao seu
cliente.
Estas categorias é que vão guiá-lo na terapia, na hipnose,
na construção de metáforas, na colocação de tarefas.
Você saberá como usar a linguagem experiencial do seu
paciente, o assunto de preferência dele, dentro dos valores que
mais se ajustam ao caso. Você utiliza o que o cliente traz. Está
lembrando?... A terapia é feita pelo cliente... com as coisas que vêm do
cliente... Utilize.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 91

Resumindo

Categorias intrapsíquicas
A_Fazendo uso da percepção, da atenção
1 Interno
- - voltado para dentro, preocupado com seus
próprios problemas / sentimentos / sensações,
não olha para fora.

Externo observa tudo à sua volta, quer estar bem ao


olhar do outro, sabe sobre os outros.
2 Focalizado - olhar sempre fixado a uma coisa só.

Difuso - desloca o olhar o tempo todo. Não fica


focalizado.
3 Visual
- - observa, usando palavras como: “Eu vejo,
observo, olho...”

Auditivo - presta atenção à música, aos sons que


desagradam. Fala: “isto soa, ouça aqui...”

Cenéstico -corporal, tátil. Fala de sensações...


“Eu sinto, eu percebo...”
B — Processo de_elaboração
1 Linear
- - metódico, segue uma seqüência linear,
organizado, faz as coisas em seqüência lógica
(1,2,3...).
Mosaíco
-elaboração diversificada, vai ao meio, volta ao
princípio, depois vai ao final, entremeia coisas
num determinado assunto.
2 Ampliador
- -Positivo exagera para o lado positivo:
-

A hipnose é uma experiência fantástica...


...

-Negativo exagera para o lado negativo:


-

Este seu problema... que lhe traz tanta dor...


...

pode ser enfocado de uma maneira sublime...

Redutor - qualifica de forma redutiva, menos emoção.


Olha um elefante e vê um rato. Faz-se um
. transe mais circunspecto:
...E você pode reparar em certas coisas que te
interessam...
Sofia M. F. Bauer

C Desequilí-
— - Qual destas categorias está mais
brio desequilibrada?
Utilize-a, levando-o ao equilíbrio.
Categorias interpessoais — sociais
1 Estrutura
— filho mais velho: protetor, dominante
-

familiar filho do meio: rebelde, adaptativo, artístico,


-

comunicativo
filho mais novo: requer proteção, obediente,
-

~ conciliador
2 Região:

Urb ano - vive o presente, linguagem urbana

Rural - orientado para o futuro, plantas, animais,


tempo
3 Intrapuniti-
- - mea culpa
vo
- a culpa é do outro
Extrapunitivo
4 Absorvente
- - Lua, aqueles que imitam sugam energia,
conhecimento, pensamentos

Radiante - Sol, doador

5 — Audacioso -aventureiro, impulsivo, curioso, explorador;


vai à luta

Autoprotetor - necessita ir devagar, ponderado, cauteloso

6 — Em estresse - agitado, gosta de muitas atividades:


esportes, danças, crianças
Em homeosta- -calmo, gosta de comodidade, faz uma coisa
se de cada vez, adulto
7 Dominate
— - dominante, comanda
(one up)

Submisso - submisso, prefere ser comandado


(one down)
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo

Use este quadro para você avaliar seu cliente. Você pode
começar observando uma categoria por semana, para você jr
aprendendo. Depois de observar, utilize-o no transe e faça, sob
medida, para aquele cliente, dentro da categoria escolhida.
Bom trabalho! Exercite cada uma em separado; fica mais
fácil. Depois vá juntando. É como matemática, primeiro os fatos
de adição, depois de multiplicação.., e quando se vê... estará, fa
zendo equações complicadas!

Ganchos
Este é um item que Zeig denomina em inglês hooks (gan
chos).
Você vai observar o que o seu cliente valoriza e que posição
ele toma. Você deve notar, na linguagem verbal e não-verbal, o
que é idiossincrático, característico da pessoa, como pensamen
tos, sentimentos, condutas, estilo de vida, etc.
Você pod.e verificar:

.1. Estilo de personalidade


Inteligente, vago, honesto. Características pessoais que
você vai incluir ‘nos valores e posições perante a vida.

2. Padrões de linguagem repetitivos


Observe as palavras que são idiossincráticas, que carregam
alguma metáfora, formas de expressar. Se a pessoa fala com gíria,
ou é mais erudita, etc.
Observe as palavras que a pessoa utiliza para descrever
seu problema, sua dor. Você deve utilizá-las podendo entremeá
Ias e positivá-las. Usar assim a ressignificação daquela lingua
gem simbólica.

3. A relação com o tempo


Há uma correlação entre o cliente e o tempo.
O paciente deprimido está voltado para o passado. O clien
te ansioso, orientado para o futuro, e a pessoa presa ao presente
pode estar relacíonada com problemas presentes (uma dor, um
94 Sofia M. F. Bauei’

trabalho, etc.) e até mesmo ter uma desordem de caráter, em que


não percebe que um ato malfeito é uma semente para um mal
maior no futuro (punição).

Padrão invasivo — não-verbal


Você percebe a pessoa invasiva até pelas atitudes não ver
bais. Utilize.

Ausência conspícua — não-verbal


Aquilo que não é dito, mas se observa a ausência óbvia de
algo que deveria estar presente. Por exemplo: contar um fato tris
te, sem tristeza. Você percebe através da conduta versus o pensa
mento. Postura física e sentimento descrito.
O que está faltando que deveria estar ali? Observe, veja o
que falta. Veja nos padrões da pessoa o que falta e mostra dese
quilíbrio.

Exigência interacional
Você deve observar que ocorrem exigências na relação te
rapêutica. Utilize-as. Como por exemplo: pedidos de atenção, te
lefonemas constantes, tempo extra (aquela pessoa que vai fican
do mesmo com o tempo terminado), pedir carinho, demonstrar
uma afeição mais especial.
Existem aqueles pacientes que sempre exigem mais. Isto é
um padrão de interação. Ajude-o a perceber como ele cobra do
mundo.
Pacientes limítrofes (borderline) exigem sempre mais e não
se satisfazem.

6. Atuação em uma seqüência


Preste atenção, os nossos atos são feitos de seqüência. Um
simples aperto de mão~ como diz Zeig, é uma seqüência em inte
ração de passos.
Criar um problema também envolve uma seqüência de
passos. Você vai aprender a fazer uma indução na seqüência dos
passos em que a pessoa cria o conflito. Você, apresenta, na se-
I-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 95

qüência já utilizada, urna ressignificação que leva à solução do


problema.
~ pânico é urna seqüência. Veja como o paciente entra em
pânico e siga os passos, introduzindo urna pequena mudança
que pode ser significativa.

Os primeiros três itens são mais peculiares da pessoa que


fica nuïna posição inferior, Os quatro últimos, mais característi
cos dos pacientes de uma hierarquia superior.
Utilize-se destes ganchos e da avaliação e você terá uma
linguagem peculiar e única para atingir e tratar seu cliente.
Mas você também deve avaliar alguns outros aspectos a
que Jeffi’ey K. Zeig chama a atenção:
— A responsividade —O paciente está responsivo?
— A motivação — Ele está motivado? Se não estiver elicie
a motivação.
— O humor — Qual é o tipo de humor?
— A linguagem simbólica, o símbolo que a pessoa utiliza
para o seu problema As metáforas do problema.

7. Semeadura
Há muitos tipos de solos... Ternzs roxas, como no interior de
São Paulo... as mais caras do Brasil... o que se planta, nasce... Há terras
que já não são tão boas assim... como o cerrado... as terras arenosas... jo
gando um pouco de calcário e outros aditivos.., se tornam tão produtivas
quanto os solos de terra roxa... e existem as terras desérticas, como as de
Israel... Lá o povo teve que aprender a lidar com terras secas... só tinham
aquele solo e precisavam plantar... colher... comer... Aprenderam que
bastava irrigar.., e aí... vieram os melhores morangos e melões do mun
do... Aqui no Brasil... nas terras semi-áridas do Nordeste... hoje, com
tecnoiogía avançada de irrigação.., está se produzindo duas colheitas de
uvas, melões e outras frutas... enquanto no Sul... terra fria.., se produz
uma única colheita por ano... a terra só estava seca... precisava de cuida
dos para a semeadura... o clima... caloroso.., receptivo.., era preciso re
volver a terra... irrigá-la e plantar a semente certa...
96 Sofia M. P. Bauer

Por falar em semente certa, tem a história de 1. Augusto Meu—


donça... de quando ele era menino... o pai, ao ievd-lo ao mercado, pedia
que escolhesse os maiores “milhões”... sementes de milho... as maiores
que pudesse achar... que as guardasse para quando chegassem as chuvas
de setembro... boa época de semeadura... Mas as semehtes eram o grande
clichê,., Como Robinson Crusoé... ensinando os índios a comerem as es
pigas pequenas e separarem as grandes para sem ear.
Sementes boas, hibridadas e protegidas... semeadas em terra
fértil.., cuidadas por algum tempo... é plantio garantido... Semear signi
fica colocar na terra uma boa semente e cuidar para que ela cresça...

“Semeadura” é uma sugestão (semente) feita aqui com o


intuito de se colher o resultado mais adiante.
É um tipo de comando embutido, que passa desapercebido
e que leva à abertura de novas possibilidades. Poderíamos dizer
que seria a preparação do terreno.
Milton EL Erickson se utilizava sempre da “serneadura”
em seus trabalhos clínicos. Se ele queria fazer regressão, no início
de seu trabalho começava a falar de seu tempo de menino, das
brincadeiras de escola, semeando as idéias de rever esta fase, o
que sempre aumentava a eficácia terapêutica; cuidar do terreno
p reviamente.
Aqui podemos considerar que os processos pré-conscientes
podem influenciar positivamente o processo pelo qual certas
idéias são levadas à mente e a maneira como são assimila das
pelo inconsciente, percebidas e interpretadas. É como se ativásse
mos alguns mecanismos pela sugestão através de idéias, pensa
mentos, atitudes. Você prepara o terreno através do rapport, da
confiança, da motivação do cliente. Aplica, em seguida, algumas
sementes do que você quer colher terapeutícamente e assim ativa
o aparecimento da resposta.
Para Zeig, uma intervenção terapêutica é muito mais eficaz
se você antes faz semeadura. É uma coisa simples. Basta você ter
uma meta do que deseja dar àquele cliente naquele momento. Se
meie algumas premissas do que você deseja e, quando você for
eliciar sua meta, as sementes estarão brotando. Se você quer fa
zer levitação, você pode semear a idéia de que coisas novas vêm
de dentro, quando a gente mei~os espera (um sorriso espontâneo,
l-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 9?

urna vontade de fazer algo novo). Você pode contar casos de coi
sas que se elevaram, e assim por diante.
A serneadura pode ser feita em toda~ as fases de urna ses
são. Com o cliente acordado e em transe.

1. Você pode semear, antes de colocar a pessoa em transe,


dizendo: ...“neste dia em que você está tão cansado, nada como
poder se dar um momento de pausa...” Assim, você semeia a
possibilidade de pausa.

2. Você pode semear para a fase de utilização durante a in


dução.
Quando você quer fazer uma regressão, você faz a indução
absorvendo o cliente em memórias de infância.
Quando você quer alterar uma sensação de dor através da
analgesia, você pode induzir o transe absorvendo-o na sensação
de anestesia de luva (dormência das mãos).

3. Você pode fazer serneadura dentro da fase de utilização


para estabelecer mudanças futuras. Por exemplo: melhorar a faia,
ficar calmo no avião. Você pode fazê-lo através da semeadura de
aprendizados já adquiridos durante a vida (amarrar sapatos, ler
e escrever, aprender a dirigir). As metáforas embutidas são tidas
como boa semeadura nesta fase.

4. Você pode usar da semeadura para aprofundar o transe.


Semeando idéias de aprofundamento. MerguLhar no mar, voar
em nuvem, descer escadas, etc.

5. Você pode usar a semeadura na parte pós-hipnótica de


sugestões.

A hipnose clínica tem como função efetuar mudanças na


vida das pessoas. O objetivo é estender os insights~, aprendiza
gens e associações hipnóticas. Assim, você semeia a idéia de
que “toda vez que você entrar em transe você pode aprovei
tar/sentir...” É tão bom saber que uma variedade de desco
“...

bertas esperam por você.., como você encontrar formas para pôr
os aprendizados desta experiência para trabalhar por você... con
98 Sofia M. F. Bauer

fiando na sua capacidade de acessar os recursos interiores que


você agora sabe que existem aí dentro...”

Sabemos que a terapia se torna mais eficiente quando inter


venções de uma sessão são semeadas em ocasiões anteriores. Os
temas devem ser previamente desenvolvidos através de uma me
táfora, de um CofltO, de versos, de um símbolo, e depois reprisa
dos e elaborados durante a eiiciação do transé.
Neste livro vocês estão recebendo sementes antes de cada
assunto, num pensamento ou numa estória.
Algumas sementes crescerão e florescerão, outras não. Mas
semeie sempre...
Existem alguns fatores que podem influenciar a eficácia da
semeadura, de acordo com Brent B. Geary (1994):

a) A utilização dos valores e aspirações do paciente nas


semeaduras pode intensificar a motivação e a responsi
vidade.
b) Quando as pessoas imaginam um evento ocorrendo,
elas vão, provavelmente, acreditar que o evento acon
tecerá. Imaginar comportamentos que elas querem de
sempenhar.
c) Semeadura direta versus indireta: vaj depender muito
do estilo terapêutico, dos valores e objetivos do pacien
te, do grau de resistência, do estágio da terapia.
d) A chave para a escolha do momento é a responsivida
de do paciente; ajuntar pequenos passos em direção a
um objetivo maior.
e) O terapeuta não precisa ficar embaraçado quando seu
cliente diz que gostou da forma como ele jogou aquela
sugestão. Semeadura com identificação consciente é
útil e também complemento a eliciação inconsciente.
f) Considerações suplementares sobre semeadura.

Assim, veremos que semeadura é um procedimento co


mum quando queremos atingir um objetivo. Vai-se semeando
aquela idéia devagarinho e o produto vai aparecendo.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 99

Quando vou dar aula sobre um determinado assunto, costu


mo semear idéias e curiosidade sobre o novo tema. Percebo que os
alunos gostam e vêm motivados para receber o novo material
Antes de fazer a indução, veja qual é o seu objetívo, veja os
valores e as idiossincrasias e semeie em cima disto o desejo de
algo novo.
Exemplo:
Num paciente ansioso que fala sem parar, você pode se
mear a idéia de que a ansiedade está ligada a uma respiração
muito acelerada, contando a lenda oriental segundo a qual nasce
mos com um número predeterminado de respirações. Por isso
respirar rápido diminui o período de vjda. Quando você for fa
zer a indução, pode ter certeza, seu paciente terá a maior boa
vontade em fazer respirações longas e calmas.

8. O diamante de Erickson — um metamodelo de psicoterapia


Segundo Jeffrey K. Zeig:
Como construir uma terapia para cada cliente?.
Quando ainda era criança ganhei um caderno de receitas,.. eu
adorava cozinhar, como uma boa menina.., ia seguindo as instruções da
receita... um dia, por algum motivo, precisava de pêssegos... mas em
casa só tinha abacaxí... pen~ei... pensei e achei que dava para fazer o doce
utilizando o abacaxi... que delícia, para o meu gosto (que gostava de aba
caxO... o doce ficou melhor ainda.., ao meu gosto... Assim eu fui perce
bendo que eu podia modificar as receitas e estas ficarem mais apetito
sas... mas precisei começar pelo caderninho de receitas...
Hoje, ensino a minha filha com o mesmo caderno.., mas semeío
a idéia de que ficará mais gostoso se ela colocar algo especial... Se ela for
oferecer para alguém aquela iguaria.., pensar antes do que a pessoa gos
ta... colocar na receita... a pessoa vai aceitar melhor ainda.., e virão os
elogios... Se a pessoa gosta de chocolates.,, 1-lum! Lima musse de choco
late!... Së gosta de morangos... uma torta de morangos... Você vai pare
cer dedicada e a pessoa vai gostar de. saborear delicadan~zente... o que ela
gosta e prefere...

Aproveite... Crie... Recrie... Dê de presente... Utilize as so


bras... Faça limonada de um limão azedo... é uma delícia!
100 Sofia M. F. Bauer

Chegar ao metamodelo significa que você já fez a avalia


ção do seu paciente e agora vai empregá-la para fazer a terapia.
A própria avaliação já pode ser considerada intervenção. Em
muitos casos, você vai avaliando e já ressigrdficando o paciente.
Neste momento veremos uma teoria montada por Zeig,
como uma receita de bolo, de como se pode fazer uma psicotera
pia ao modelo de Erickson, ou de acordo com cada cliente.
Para entendermos, primeiro vamos ver alguma coisa sobre
um conceito fundamental da obra de Milton H. Erickson: utiliza
çao.
Utilização pode ser definida como a “prontidão do tera
peuta para responder estrategicamente a qualquer ou a todo as
pecto do paciente e do ambiente” (Zeig, 1992). Aqui se incluem
todos às aspectos do cliente, da experiência com o cliente, de
suas idiossincrasias (roupas, maneirismos, história, família, tra
balho etc.). Você pode também utilizar o sintoma do cliente, o pa
drão em que ele cria o sintoma e as resistências.
Erickson utilizava tudo que o cliente trazia para facilitar a
psicoterapia. Se o cliente vinha porque desmaiava demais, ele
—u±ilizava-os--desrnato-s—e--pnnha--o cliente para desmair~seguid~
mente até o cliente esgotar este padrão. Outro exemplo era do ra
paz que veio à terapia porque urinava utilizando um tubo de 20
cm. Erickson aumentou o tubo para 30 cm. Se foi possível au
mentar, pode-se diminuir. Ut{lizando-se do mesmo tubo, foi di
minuindo o tamanho até o rapaz fazer uso do seu próprio tubo,
quase nesta proporção, naturalmente.
Zeig, em seu artigo “Técnicas avançadas de utilização”
(The essence of the story— 1994), cita dois exemplos de Erickson
que, resurnidamente, relatarei a seguir:

Exemplo 1

Uma mulher alcoólatra, que escondia garrafas de bebidas


no jardim da sua casa, reclamava que o marido era desligado e só
queria saber de ler revistas e livros velhos e empoeirados. En
quanto isso, ela fazia jardinagem e bebericava escondido nas gar
rafas que escondia no jardim. Erickson percebeu que se tratava
de um casal com padrão rebelde. Primeiro, deu uma tarefa para
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 101

que ela escondesse a garrafa de uísque dentro de casa e o marido


deveria procurar. Caso ele não a encontrasse, ela poderia beber. E
assina, por alguns dias, eles se divertiram. Ela escondia de forma
que ele poderia achá-las. Erickson sabia que eles gostavam de
acampar mas detestavam pescar. Na sessão seguinte, ele insistiu
para que eles fossem pescar, porque, no meio de um lago, como
ela poderia beber uma garrafa de uísque?! E o marido não pode
ria ter livros empoeirados. O casal se rebelou ante a proibição de
irem acampar e somente poderem pescar. Eles começaram a
acampar assiduamente e voluntariamente largaram seus padrões
anteriores. No caso, Erickson utilizou um aspecto do sintoma, o
fato de esconder coisas, e tornou-o um jogo, mudando o seu va
lor de negativo para o positivo. Deixou-os se rebelarem e esco
lherem sua própria atividade.

Exemplo 2

Zeig participou pela primeira vez de um seminário de


Erickson em 1973. Naquele tempo, seus recursos financeiros
eram limitados, e Edckson não lhe cobrou o seminário. Assim,
Zeig resolveu dar-lhe uma lembrança. Comprou-lhe uma escul
tura de um pato, mas era apenas a forma de um pato delineada.
Quando foi lhe entregar o presente, Milton Erickson olhou a es
cultura, depois olhou-o, e novamente olhou para a figura, depois
para ele, e então disse: “Emerja” (Zeig, 1985, p. 54). Naquele mo
mento Zeig estava emergindo como terapeuta e como pessoa. A
forma de Erickson agradecer incluía uma esplêndida utilização
em múltiplos níveis.
Assim, podemos ver que a utilização era parte de um estilo
de vida e não apenas uma técnica.
Resumindo, a utilização é um estado em que o terapeuta
entra para alcançar um tratamento efetivo. A utilização pode ser
considerada um aspecto do transe do terapeuta. O terapeuta en
tra num estado de prontidão e faz um modelo para acessar o
transe no paciente. O paciente é encorajado a entrar num estado
de responder construtivamente, como que separando o joio do
trigo, focalizando sempre as boas sementes da pessoa.
102 Scfüz M. P. Bauer

“Pode-se dizer que utilização é a terapia de Erickson, assim


como interpretação faz parte da terapia psicodinâmica” (Zeig,
1994).
Para entender melhor, é preciso levar em consideração
duas questões, de acordo com Zeíg:

Usa-se utilização para que finalidade?


• O que o clínico poderia selecionar para utilizar?

A utilização é eficaz como uma forma naturalista de aceitar


a pessoa com o que ela tem para lhe dar. Uma vez que ela é acei
ta desta forma, ela se abre para você. “O terapeuta me recebeu
bem. Posso ajudá-lo a me ajudar.
O que o clínico pode selecionar para utilizar? Aquilo que
ele sentir no coração. A intuição, a sabedoria do inconsciente1
guia o caminho. Observe, observe e observe. Você verá muitas
possibilidades. O caminho a seguir virá do compartilhamento.
Ter a coragem de amar seu cliente, como diria Giliigan, ter a co
ragem de aceitar suas falhas e encorajá-lo a enfrentá-las.

9. Utilização para que finalidade — um meta.modeio de psicoterapia


Zeig publicou um metamodelo de psicoterapia como uma
forma de intervenção, baseado em cinco pílotis de escolha, de
acordo com o que aprendeu com Erickson (Zeig, 1992). Veja dia
grama abaixo:

Objetivo

Tailoring Embrulhar
para presente
Posição do -

terapeuta

Processamento
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 103

“O diamante de Erickson» (adaptado por Zeig, 1992)


Vou descrever o que apre~di com Zeig e que tem sido o es
queleto que me ajuda a poder trabalhar com a hipnose naturalis
ta e usar do princípio homeopático das sirnilitudes.
As faces do diamante são “pontos de escolha”. Se o tera
peuta fica preso num ponto da terapia ou encontra resistência,
urna mudança pode ser feita em uma ou maIs faces deste día
mante. E importante frisar que as coisas não acontecem linear-
mente e em seqüência, como no esquema. Elas podem se suceder
ou acontecer simultaneamente.

Objetivo
A questão do objetivo a que o terapeuta deve responder é:
O que eu desejo comunicar?
Um terapeuta que deseja fazer a indução poderia comuni
car: relaxe!
Num paciente deprimido, poderia querer comunicar: seja
mais ativamente envolvido!
Os objetivos podem variar, dependendo do estágio da tera
pia. Objetivos de indução são diferentes de objetivos de terapia
em si. Também se pode dividir a terapia em vários objetivos, em
subpartes. Por exemplo,, o objetivo pode ser: sê feliz; e pode ser
dividido em: seja autoconsciente, tenha um papel social constru
tivo, tenha uma rede de amigos, etc. Durante o tratamento, cada
objetivo pode ser endereçado individualmente.
Na terapia ericksoniana, existem alguns objetivos genéri
cos que são os dois Rs responsividade e recursos.

Os objetivos da indução incluem: modificar a atenção, au


mentar a intensidade e promover a dissociação (Zeig, 1988).
Os objetivos da terapia incluem oferecer novas informa
ções ao paciente, que antes não estavam à sua disposição. Lem
brando os três Ms da terapia de Erickson: motivar, metaforizar e
mover.

Embrulhar para presente (Gift Wrapping)


O terapeuta deve decidir. como ele deseja apresentar o seu ob
jetivo.
104 Sofia M. E. Bauer

Este método de empacotar, fazendo um embrulho de pre


sente, pode se dar através de uma estória, um símbolo ou um
caso; através de uma confrontação, uma interpretação, um diálo
go de gestalt, ou uma dessensíbilização. Técnicas de psicoterapia
são formas de embrulhar para presente os objetivos terapêuticos,
e não técnicas de cura. Hipnose também é considerada urna for
ma de embrulhar para presente. Assim, um objetivo vai ser dado
não só uma, mas várias vezes e, dessa maneira, pode-se variar a
forma de presentear o paciente. Você pode dar uma estória, uma
tarefa significativa, etc. Pode dar urna suges~ão direta dentro de
uma indireta, dentro de uma estória e dentro de uma hipnose.
Um outro ponto aqui seria a comunicação do terapeuta ser
julgada pela responsividade do paciente e não pela esperteza do
terapeuta. Presentes bonitos e inteligentes, de técnicas usadas, se
rão valiosos se eliciarem no paciente respostas desejadas e cons
trutivas.
Pode-se dar de presente o sintoma do paciente, bem “em
brulhado”; o terapeuta pode embrulhar para presente a solução
dentro de uma técnica. Usando o mesmo método com que o
cliente criou o problema, presenteia-se a solução.

Tailoring — fazer sob medida — ajuste


Aqui, agora, é preciso individualizar a terapia para cada
cliente.
Qual é a posição que o paciente torna? O que ele valoriza?
A terapia para urna pessoa tímida difere daquela direcio
nada a uma pessoa extrovertida.
Zeig dá como exemplo um autógrafo de Erickson dizendo
assim: “Para Jeff, outro livro só para enrolar seus cabelos.” Essa
era urna mensagem personalizada para o estilo de cabelo que
Zeig tem e para deixá-lo orgulhoso disto.

Processamento
Depois de decidir sobre as três primeiras escolhas, resta a
pergunta: Corno vou dar e apresentar a terapia sob medida e embrulha
da para presente?
Este é o processamento:
I-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 105

— Set up instalação da indução, incluindo semeadura,


sugestões pré-hipnóticas e eliciação da motivação. É a primeira


parte da terapia. Você pode, na indução, usar também da seqüên
cia do sintoma como uma seqüência de indução, ressignificando
a. Pode ainda usar das técnicas de indução do capitulo 5, progra
mando e fazendo sob medida.

— Intervenção contar casos, estórias, ressignificar, pres


crever sintomas, mudar a história etc.

— Seguimento (foflow tlirough) — ratificar mudanças, in


duzir amnésia, dar tarefas etc.

A posição do terapeuta
Que posição eu, terapeuta, devo tomar?

Para Zeig, a posição do terapeuta pode influenciar mais do


que as técnicas descritas no resultado do tratamento. Ele pode
ser gentil, confrontador, curioso, intelectual, etc. Cada terapeuta
tem um tipo de lente (percepção), coração (emoção), músculos
(padrões de ação), e um chapéu (papel social). É importante estar
atento ao seu desempenho.
Cada terapeuta tem seu estilo pessoal de trabalhar: o tera
peuta corporal pode avaliar e trabalhar com o corpo, o analista
usará a interpretação, o terapeuta estratégico usará a prescrição
de sintomas, etc. Terapeutas dramáticos farão sessões diferentes
das de um mais contido.

Algumas considerações:
Metamodelo é apenas um esquema. As coisas não aconte
cem linearmente, como descritas. A terapia requer disciplina e
espontaneidade. Prescrever escolhas limita a efetividade.
Este modelo apresentado por Zeig é apenas uma forma
abreviada. Deve ser desenvolvido p osteriormente.
Existem cinco faces de escolha dentro do metamodelo; se a
terapia se tornar problemática, o terapeuta pode mudar o objeti
106 Sofia M. F. Bauer

vo e embrulhá-lo para presente de outra maneira o taiioring


e/ou apresentação do processo.


Ainda é preciso lembrar, afirma Zeig, que a intervenção
pode ser feita com a avaliação. Lembre-se do modelo de avalia
ção já referidos anteriormente.

10. Selecionando o que um terapeuta poderia utilizar


Os terapeutas irão se orientar de acordo com:

1. os objetivos que querem alcançar, um fim particular;


2. os recursos e forças do paciente, porque a utilização é
um método pelo qual se traz o lado positivo de qual
quer situação;
3. uma comunicação em múltiplos níveis.

Na avaliação, o terapeuta já poderá começar uma interven


ção.
O que o terapeuta selecionaria para utilizar? A decisão sobre o
que utilizar depende de como o terapeuta vê o paciente, as queixas pre
sentes. A perspectiva do clínico é idiossincrátíca e depende da sua pos tu-
ra profissional. O terapeuta pode avaliar e utilizar a biologia do proble
ma ou hierarquia familiar, etc.

Resumindo
Depois de aprender a fazer a avaliação, faça o diagrama do
metamodelo. Veja seu objetivo, o ajuste (tailoring) necessário para
adequá-lo àquele cliente, como você vai fazer a terapia (embru
lhar para presente) e como vai se utilizar de tudo isto de modo
que a terapia seja eficiente.

11. Como fazer uma indução ao modo de Eríckson, de acordo com


cada cliente, sem ser Milton H. Erickson — O processo
Agora, depois de você ter visto como fazer a indução (ab
sorção, ratificação e eliciação), semear as idéias e construir o me
tamodelo de acordo com a avaliação de categorias, podemos fa
lar do processo globalizadamente.
Hipno terapia Ericksoniana Passo a Passo 107

Neste ponto colocarei um exemplo de como podemos utili


zar o me~amodelo.
Você pode usá-lo em todas as ocasiões que você queira,
tendo em mente:
— a meta ou objetivo;.
— como fazer a meta ser dada sob medida;
— como embrulhar o presente para que ele seja recebido de
uma forma agradável;
— criar um processo terapêutico com princípio (semeadura
e indução), meio (intervenção principal) e fim (seguimento, tare
fas, sugestões pós-hipnóticas).

Exemplo 1

Outro dia, fui dar uma aula sobre metáforas. Levava comi
go algumas metáforas prontas como roteiro, para que os alunos
tivessem um guia. Queria ensiná-los a serem criativos (minha
meta), mas precisava levá-los a fazer com perícia e qualidade (se
gunda meta). Não poderia apenas entregar receitas de bolo. Preci
sava ensinar-Lhes a fazer sob medida estórias que ressignificas
sem os problemas dos clientes. Cheguei com os folhetos conten
do definição, história, o modelo ericksoniano de montagem de
metáforas e algumas metáforas prontas. Entreguei os textos. Em
seguida, contei-lhes sobre quando eu era estudante de medicina
e fui trabalhar como interna no hospital. Eu ainda não sabia me
dicar. Prestava atenção em como o médico resolvia um problema
de diarréia, uma crise de asma, etc. E escrevia em uma caderneta
que ficava em meu bolso (meu salva-vidas). Para diarréia medi
que com isso e aquilo. Para crise de asma utilize isto. E assim, no
meio da madrugada, quando ficava só, tinha o meu roteiro pron
to. Mas o problema era quando aparecia outra patologia! Ai, meu
Deus! E agora? O jeito era chamar o médico de plantão, pedir
ajuda. Logo escrevia, para pneumonia deve-se usar tal medica
ção, se fosse este o caso. E assim eu ia aprendéndo. Mas a cader
neta era sempre a salvação da iniciante. Logo, com a prática, fui
percebendo que os médicos prescreviam coisas diferentes para as
mesmas patologias. Comecei a questionar: Mas, fulano, não é tal
e tal medicamento que se usa para diarréia? Este, então, me dizia
108 Sofia M. F. Bauer

que poderia ser outro tal que ele usava, por agir mais rápido, ser
mais novo e tal paciente poder ter maior compatibilidade. Eu
anotava logo aquela nova prescrição. No início, ficava na dúvida
entre o novo e o velho. Fazia a opção do novo, observava e tirava
as conclusões. Melhorou mais rápido, foi mais efetivo. Eu fazia
daquela abordagem minha opção. O tempo foi passando. De tan
to pensar, mudar e criar, fui optando pela minha própria forma
de medicar. E a caderneta? Continuava lá, aquele roteiro de segu
rança. Foi por tê-lo que conquistei a minha criatividade. Isto foi a
semeadura do meu objetivo para aquela aula, feita através da mi
nha história.
Depois passei a falar um pouco sobre os cuidados com os
roteiros. Ali estava eu entregando roteiros... E a criatividade? Dei
uma aula sobre como fazer sob medida, observando as categorias
de avaliação de Zeig e pegando palavras idiossincráticas, as pala
vras dos sentimentos, as metáforas que os clientes utilizavam.
Os alunos foram se interessando em ouvir as estórias da
das. Foram se interessando em aprender a pegar palavras e usá
las para fazer aqueles roteiros que levei, de maneira pessoal.
Fechei, naquele dia, contando a estória contida no início
deste capítulo, do aluno que procura o mestre para aprender
mais e o mestre lhe serve uma xícara de chá que transborda, di
zendo-lhe: como pode receber mais, se a xícara está cheia. Pri
meiro é preciso esvaziar, para depois receber.
Sob medida, o processo precisa ser feito passo a passo. Por
isso, nesta aula não bastava sair aprendendo hipnose. Era preciso
aprender que, para darmos algo novo (a metáfora), é preciso es
vaziar os conteúdos de ansiedade, ou aquilo que bloqueia. A in
dução ajuda bem. Ouvir o cliente também ajuda bem.

Exemplo 2

Agora, e~empiificarei com um pequeno casç de cliente.

Homem, executivo, audacioso, posição superior, irradian


te, que procura a hipnoterapía para se conhecer melhor. Tem
medo de 1~hipnose. O que é muito comum em pessoas dominan
tes, que têm medo de ser dominadas. Isso já mostra um primeiro
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 109

passo para a terapia funcionar. Foi minha primeira meta: ir deva


gar para adquirir confiança é rapport. Ele faz o jogo, aparente
mente. Mas você o conduz a fazer o jogo. Ele procurava a terapia
porque era muito ansioso, queria diminuir sua ansiedade, mas
não permitia a hipnose. “Hipnose, não. Eu posso perder o contro
le.” Palavras dele.

Meta — acalmar, reconhecer suas potencialidades, dar-se


conta de ser um grande executivo, poder empreender grandes
conquistas (ele usava esta palavra, quando falava do seu trabalho).

Embrulho de presente — utilizar o mesmo mecanismo que


ele repetia (não-verbal) como indutor do transe e aprendizado de
um novo ritmo, mais calmo: puxar seus cabelos.

Tailoríng —utilizar as palavras perder, controle, conquis


ta, acalmar-se, ressignificando seu poder de conquista.

Processo — fazer indução sem dizer que era indução; ges


tos, respiração, calma. Na intervenção principal deixá-lo em paz, à
vontade, sendo realmente dono de si mesmo. No seguimento, su
gestões pós-hipnóticas de como era bom se soltar, aliviar-se, per
der a dureza e a rigidez que lhe tiram a possibilidade da alegria.
Muito bem, dei uma breve explicação de cada passo. Ago
ra, como um todo, utílizei a sua resistência e o seu crjtério de
avaliação para levá-lo ao que ele desejava: ser menos ansioso.
Enquanto ele me contava sua história, puxava os cabelos.
Este é um ato comúm das pessoas ansiosas, Fui observando e, lá
pelas tantas, comecei a puxar os cabelos como ele, na mesma in
tensidade e ritmo. Fui respirando como ele, também, a princípio,
e dizendo que eu não faria a hipnose ainda, até que ele pudesse
perder o medo e que ele pudes~e controlar sua calma como quises
se. Aos poucos, comecei a diininuir o ritmo com que eu puxava
os mei.~is cabelos. Ele seguiu. Ótimo, primeira responsividade vi
sível. Respirei com mais calma, ao que ele prontamente seguiu.
Então, comecei a discursar sobre a necessidade de uma máquina
parar (ele trabalha com aparelhagens eletrônicas), pode ocorrer
curto-circuito.
Sofia M. P. Bauer

O desgaste do motor que não pára, perde o controle, adoe


ce. Não é mais uma máquina eficaz. É necessário acalmar a má
quina. Fazê-la ter seu tempo. Fui diminuindo mais ainda as puxa
das de cabelo e perguntei sobre o programa de proteção de tela do
computador. Ele apenas acenou que conhecia, sabia o que era.
Acompanhando-me, ele foi parando de mexer no cabelo, eu tam
bém parei. E disse: o computador agradece a entrada do progra
ma de proteção de teia (podem ser fogos de artifício, peixes na
dando, não importa)... o que importa é que o computador pára e a
limpeza da tela começa a acontecer... talvez você queira experi
mentar... fechar os olhos... e ver lá que programa você pode con
quistar de calma agora! Ele entrou em transe, relaxou e quando
...

abriu os olhos disse: “Que coisa boa que é parar a máquina de vez
em quando!”... Eu, então, apenas ratifiquei isto e sugeri que até as
máquinas podem parar, aliviar, revitalizar e ter o controle da alegria!
Depois de ver estes exemplos, podemos voltar ao processo
em si. O que seria então o processo? A junção de todas as partes.
Começa-se pelo início da sessão, num tipo de interven
ção/avaliação. Você observa, anota (até mesmo em pensamento),
para depois utilizar tudo que o cliente traz. Trace a meta, como
vai fazer. Vamos às regras básicas:

19 Absorver
Absorver a atenção do cliente de acordo com a avaliação.
O intuito é colocá-lo em transe. Por isso, a meta é:
* recostar;
— relaxar;
— respirar;
— soltar-se;
— olhar para dentro;
— ouvir-se;
— sentir-se;
— ir para dentro;
— observar-se e descobrir-se em seus potenciais e na calma;
— desligar a consciência/fazer aparecer o inconsciente, os
fenômenos hipnóticos.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 111

Para isso utilize os artifícios da linguagem de indução, ab


sorvendo com:
- yes set;
- dissociação;
- pressuposição.

2~) Ratificar
Ao perceber o paciente em transe, ratifique. Isso aumenta
sua confiabilidade e resp onsividade.

39 Eliciar e u~i1izar
Você estará üsando do diagnóstico para fazer com que a te
rapia seja única, já embrulhada para presente durante a indução
e, fazendo sob medida, você entra no processo terapêutico. Qual é a
minha meta? Como posso ajudar? O que quero ressignificar?
Então, durante a sessão ocorre todo um processo. Ele co
meça pela indução, passa pelo período do transe, no qual você
fará a intervenção principal, e depois você dará um seguimento,
terminando a sessão com sugestões pós-hipnóticas e/ou tarefas.
Na intervenção principal siga seu estilo. Você pode dar
uma interpretação (em analogias, se possível, é mais indireto), ou
você pode fazer um diálogo guestáltico, ou fazer uma metáfora,
ou metáfora dentro de outra (as metáforas embutidas, especiali
dade de Carol e Stephen Lankton).
O que interessa mesmo é que você tenha uma meta a res
significar durante sua intervenção principal. O benefício da hip
nose é presentear o paciente com uma abertura às suas potencia
lidades maiores o acesso ao inconsciente
- —, sua sabedoria su
perior. Assim, durante a intervenção princípal, utilize as idiossín
crasias, os valores e as metas que seu cliente deseja conseguir. É o
abrir caminho. Vocês verão casos no capítulo 5 que ajudarão a
compreender a utilízação.
E, finalmente, feche a sessão dando sugestões que seguirão,
pós-hipnose, aquilo que foi ressignificado. Você pode dar tarefas
que terão o significado de sugestões pós-hipnóticas.
Capítulo 4

O uso de metáforas
em hipnoterapia

Uma vez perguntaram como eu fazia para criar uma estó


ria para cada cliente. Como se arrumar tanta criatividade?
O que eu sei é o que você vai ver a seguir sobre as técni
cas que fazem você criar uma estória comum, única1 para aquele
cliente...
Mas lembro-me de uma estória... há muito contada...

Uma menina pequena, com medo de dormir no escuro, chamou


sua mãe em socorro... esta, sabíamente, ouvindo a filha.., abriu as jane
las e mostrou as estrelas do céu... contando a seguinte estória... Quando
Deus criou o inundo, criou o céu, deixou-o escuro demais. Ele, então,
pensou em criar alguma coisa que pudesse brilhar na escuridão infini
ta/mente... criou as estrelas... de todas as espécies. umas maiores... ou
tras menores,,. umas de brilho dourado... outras, prateado... umas mais
azuladas... outras alaranjadas... Mas criou-as com o intuito de que elas
iluminassem todos os asteróides e planetas ao seu redor, infinitamente.
Criou até mesmo revoluções èstrelares... de onde sempre surgiriam no
vas estrelas.., como também criou estrelas bem maiores para que estas,
pouco a pouco, fossem dando filhotes e fizessem seu brilho seguir infini
to afora.:. Ma~ Ele foi tão genial que criou o espaço tão grande que to
das, mas todas as estrelas mesmo pc~deriam habitar este espaço sem se es
barrarem... Deus deu uma missão importante a todas elas: brilhem, bri
lhem bem.., levem sua luz a todos os lugares que vocês puderem... Dê
114 Sofia M. P. Bauer

luz a todos os planetas e asteróides cine precisarem de luz e de calor e é


certo cjue vocês terão brilho s~ficiente para levar a todos... pois, uma vez
sendo estreia, sempre será uma, sempre brilhará pelos seus méritos na
turciis... Descubra como você brilha, e seu brilho se tornará ainda
maior.
A menina entendeu cjue o brilho está nela e com ela,.. por isso
podia dormir iluminada... O sono iluminado...
Deus está em toda parte ao mesmo tempo, ao redor e dentro de
você! Você jamais está só e desamparado. Pare, medite, volte-se para
dentro de você e ouça a voz de Deus falando aí dentro; guiando seus pas
sos através da sabedoria do seu coração inconsciente. Siga os passos do
seu coração... Viva no entusiasmo (do grego en = dentro de + theos,
teós = Deus), amando Deus dentro de você, e a luz da criatividade
guiará os~seus passos, iluminará o seu caminho...

1. Parte teórica
O emprego da metáfora vem sendo difundido em muitas
escolas de psicoterapia, com um papel significativo de ponte de
comunicação.
O uso das metáforas é observado no decorrer da história
dos homens. Os homens das cavernas deixavam seus escritos
através de simbolos e desenhos que metaforicamente repre
sentavam sua linguagem.
A palavra “infante”, com o sentido de criança, vei~a do la
tim infant, infans, e significa “incapaz de falar”. A criança peque
na fala através da mãe, que interpreta o que o filho deseja.
A metáfora é uma linguagem qu~ perdura na história do
homem como a linguagem mais próxima do inconsciente. Muitas
vezes você não encontra palavras para se expressar e se comurLi
ca metaforicarnente.
Revendo uma frase nos escritos de Freud: “Pensar por
imagens é... somente uma forma incompleta de se tornar cons
ciente. De algum modo, também, éstá mais perto do processo in
consciente do que pensar por palavras...” (Freud, 1923, p. 14)..
“Pensar por imagens está mais próximo do inconsciente do
que pensar por palavras.” Há uma integração de dois níveis de
linguagem, consciente e inconsciente.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 115

Venho de uma formação psicanalítica, em que percebia que


as interpretações que ficavam eram aquelas dadas num nível me
tafórico. A pessoa não se esquecia. Volta e meia retornav~ ~à me
táfora.

Definição
Uma definição de Aristõteles, apresentada no livro O mito
da metáfora, de Turbayne (1970):

“A metáfora consiste em dar à coisa um nome que pertencë


a outra coisa qualquer, a transferência pode ser feita em gênero e
espécie ou de espécie para espécie ou como analogia.”

Turbayne sugere trocar nome por signo ou coleção de sig


nos. E também sugere que mitos, parábol.as, fábulas e alegorias
são subclasses das metáforas.
O uso da metáfora é essencial para a comunicação huma
na. Estórias e casos são usados desde há muito tempo para co
municar e expressar mensagens, e são fáceis de aplicar em psico
terapia, como vimos anteriormente.

Definição do Dicionário Aurélio para metáfora:

“Tropo que consiste na transferência de uma palavra para


um âmbito semântico que não é o do objeto que ele designa, e
que se fundamenta numa relação de semelhança subentendida
entre o sentido próprio e o figurado.
Por metáfora, chama-se raposa a uma pessoa astuta, ou se
designa a juventude primavera da vida.H

Defjnição do Dicionário Aurélio para analogia:

“Ponto de semelhança entre coisas diferentes. Semelhança,


similitude, parecença.”

Deveria dizer que muitas vezes pode-se apenas usar uma


analogia, o que seria fazer um paralelo entre coisas díferentes.
Ernpreg~imos metáfora quando contarnQs urna estória. Toda metá
fora é uma analogia, mas nem toda analogia é uma metáfora. Nas inter-
116 Sofia M. E. Bauer

pretações analíticas o que se vê é um emprego maior de analo


gias.

Da perspectiva da psicanálise, o po~der desta abordagem


está no fato de o cliente ser encorajado a explorar e elaborar uma
representação de um sentimento, ou questão, ou problema, numa
forma de pensar (imagem sensória~) que e~tá mais pró*ima do
processo inconsciente. E há uma integração com a metáfora da
imagem (processo primário) e da palavra (processo secundário).
Assim, se o processo primário de pensamento é expresso essen
cialmente através de uma linguagem de imagem, e o processo se
cundário é expresso através de palavras, então a metáfora pode
ser vista como uma integração dos dois processos.
Freud fazia muito uso de metáforas em suas interpreta
ções. Bettelhejm (1984) sugere três razões para que Freud teaha
usado metáforas ao explicar a natureza da psicanálise. Primeiro,
a psicanálise emprega interpretação imaginativa para explicar as
causas escondidas por detrás dos fatos. Segundo, por causa do
recalcamento ou da censura, o inconsciente se revela através de
símbolos e metáforas, falando em sua própria língua metafórica.
E, finalmente, as metáforas são capazes de tocar as emoções hu
manas (pp. 37 e 38).
Os poetas falam metaforicamente dos sentimentos huma
nos. E cada um de nós é um pouco poeta ao descrever seus pró
prios sentimentos.
Existe um correlato entre as palavras transferência, em ale
mão i~~bertragiing, e metáfora, feito por Richard R. Kopp (1995).
Ele diz, em seu artigo, que a tradução do alemão über para o in
gles e above/over, sobre ,e de tragung e carry, que significa car
regar”, e que a palavra metáfora vem do grego meta, “além” (=
above, no inglês), e phorein, que significa “carregar, transportar de
um lugar para outro” (carry). Assim, transferência, na verdade,
pode ser traduzida, em inglês, como inetdfora (pp. 115 e 116).
De acordo com Szajnberg (1985-86), a transferência é vista
como um subconjunto dos muitos fenômenos de metáforas. Ele
faz a seguinte nota:
“Como o sonho, a metáfora consiste do significado mani
festo em conjunto com o significado latente, e particularmente a
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 117

jornada criativa entre eles. É importante para a psicologia psica


nalítica... reconhecer o componente do trabalho criativo feito pelo
indivíduo para~criar umametáfora” (p. 56).
A metáfora vem como uma linguagem peculiar de cada in
divíduo; fala dos afetos e das relações objetais. E tipicamente
aparece quando os sentimentós estão exacerbadós e quando lfté
ralmente as palavras não parecem fortes o bastante ou precisas o
suficiente para exprimir a experiência. Exemplos disso são frases
metafóricas como: “o céu vai cair sobre a minha cabeça”, “estou
perdido no espaço”, “perdi a cabeça”, “estou sem ar”, etc.
Você pode usar da mesma metáfora do cliente e ressignifi
cá-la (refrarning) positivamente, mostrando, por meio de estórias
metafóricas, uma nova maneira de ver aquilo que se pensava ser
o pior. Tudo isso com a intenção de reduzir, melhorar a experiên
cia do sujeito e estabelecer uma maior coerência do eu; apresen
tar saídas e mostrar os recursos naturais que toda pessoa tem
dentro de si mesma.
Dentro da psicoterapia psicanalítica, a metáfora é freqüen
temente usada como veículo de interpretação, na forma de uma
analogia (comparação), como uma estória. Veremos mais à frente
que podemos e devemos usar as metáforas que o cliente traz.
Uma justificativa para o emprego de metáforas é que elas
são muito efetivas, pois permitem ao cliente a distância emocio
nal em relação ao seu material, mantendo-se o respeito à sua in
teligência e auto-estima e, ao mesmo tempo, integrando elemen
tos necessários a uma boa ressigrilficação (reframing).
Mas é importante frisar que, mesmo que seja o terapeuta a
criar urna metáfora, se ela funciona é porque o cliente se engatou
bem no processo interior que aquela metáfora sugeriu. O cliente
aceita e trabalha suasquestões. Aquela velha estória, “se a cara
puça serviu...” As interpretações metafóricas que ajudam o clien
te a capturar uma nova experiência e significado em sua lingua
gem não podem ir além daquilo que ele apresentou, e assim exis
te uma enorme possibilidade de serem aceitas por este. Fique
atento: não dê~ mais d0 que o cliente possa digerir. Ele terá urna
indigestão. Tenha muito cuidado também em não cometer um
meta fora (meter fora do lugar).
118 Sofia 1vI. F. Bauer

Deve-se dar ao cliente uma interpretação metafórica que


capture uma experiência de sua vida diária, e então ele pode fa
zer seu prõcesso cognitivo de engate com a estória ou analogia
apresentada.
Agora, se você utiliza, explora e transforma uma imagem
metafórica criada pelo cliente, ele diretamente ~adere ao processo
de ressignificação, em que o terapeuta guia a ama exploração in
terior (realidade interna) e convida a uma transformação. E, des
sa maneira, o cliente se sente dono da situação (do processo) por
que as imagens metafóricas vieram de dentro dele.
Muitas vezes, o corpo fala metaforicarnente de um senti
mento que, em palavras e mentalmente, não se expressa. O corpo
fala em sintomas, que são verdadeiras metáforas. A úlcera que
corrói e queima de raiva por exemplo. O sintoma pode ser causa
do por um conflito não expresso. Ex/presso quer dizer, posto
para fora, em que o corpo ex/pressa, em linguagem somática, a
irritação ou o conflito da pessoa. Isso ilustra como o corpo “fala”
através de uma linguagem metafórica de sentimentos; é a lingua
gem corporal.

Psicoterapia jungiana e metáforas


Seguindo o mesmo pensamento, Jung era adepto da teoria
da imaginação ativa, dos símbolos e do trabalho com a interpre
tação dos sonhos, em que se dava uma enorme importância às
metáforas. Como em Freud, um período inicial do desenvolvi
mento do pensamento por imagem predominaria, mais poderoso
que outra linguagem mais elaborada. O que sugere também o
uso de metáforas para termos acesso ao pensamento mais primá
rio do homem.

Psicoterapia familiar e metáforas


A estrutura familiar também tem uma realidade metafóri
ca.
De acordo com Salvador Minuchin e Fishman (1981), a fa
mília constrói sua realidade apresentada, e é tarefa do terapeuta
selecionar da cultura da própria família, as metáforas que sim

bolizam sua realjdade reduzida”, e usá-las como um “rótulo que


Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 119

aponta a realidade da família e sugere a direção da mudança” (p.


277).
Exenli5los podcm s~r dados: o pai como o ~caix~ fórte, a
mãe como uma rainha, o filho como o bobo da corte, a filha
como a gata borralheira etc.
Se pudermos apreender a simbologia familiar, descobrire
mos o mito metaforicamente criaremos uma ressignificação (re
framing) para o processo da família.

Hipnoterapia ericksoniana
Milton H. Erickson foi habilíssimo no uso de estórias e me
táforas em terapia para aumentar a efetividade das psicoterapias
breves. Ele acreditava que, contado de um modo indireto um
caso semelhante ao do paciente, com uma saída possível, ou uma
estória que chamasse a atenção do cliente sob certos aspectos se
melhante aos seus próprios problemas, faria com que o paciente
pensasse em seus próprios recursos de como também resolver
seus problemas. A metamensagem dessas estórias — uma men
sagem embutida sutilmente dentro do conteúdo das narrativas
— passa diretamente à mente inconsciente. O emprego da hipno
se tornava mais eficaz o uso de metáforas, afrouxando a atenção
da mente consciente e sua censura, que ficam absorvidas através
de técnicas hipnóticas, enquanto as mensagens são dirigidas à
mente inconsciente, que está muito mais próxima do pensamento
por imagens do que daquele por palavras. Portanto, em hipnose
o efeito é maior e mais duradouro.
Eu poderia di~er resumidamente que Milton H. Erickson
dividia~a mente em mente consciente e mente inconsciente. Men
te consciente seria aquela mente que pensa, julga, faz e que toma
conta da nossa consciência. E mente inconsciente corresponderia
áquilo que se passa fora da nossa consciência, daquilo que esta
mos cientes, mas que tem um papel em determinar fenômenos fí
sicos e mentais. A mente consciente é vista como uma parte limi
tada que não é capaz de muitos pensamentos e atos simultâneos.
A mente inconsciente é sábia, ilimitada, capaz de fazer muito
mais do que a gente conscientemente imagina, um verdadeiro re
servatório de potenciais.
120 Sofia M. P. Bauer

Desta maneira, o uso da hipnose na psicoterapia serviria


de ferramenta para distrair e absorver a mente consciente, e le
var à •mente inconsciente, através de meta/mensagens, sob a
forma de sugestão (su, sub = por debaixo ± gestione = gestão, ad
ministração), novas possibilidades de acessar os recursos inter
nos de cada pessoa e ressignificar aquilo que hoje é visto corno
problema.
Para fazê-lo, Milton H. Erickson utilizava a linguagem do
próprio cliente, contava casos, estórias, usava metáforas embuti
das dentro de outras com o intuito de confundir a mente cons
ciente e assim levantar resistência.
O princípio do uso das metáforas era bem simples: falar
de algo que chamasse a atenção do cliente, como uma ponte de
ligação~ao seu problema, ou que o Ievassé a agir como um radar,
captando o que lhe interessa. Por exemplo: se você tem um pro
biema em seu carro e conta a alguém o que fez para consertá-lo,
onde levou, o que trocou, etc,, faz imediatamente a pessoa se re
meter a um estrago em seu próprio veículo, onde levou, como
consertou ou como poderá fazê-lo, caso esteja precisando de aju
da. É o mesmo princípio.
Deste modo, você não provoca atritos com a resistência, o
que ocorreria se dissesse diretamente vá e faça assim. Você suge
re (suggerere, su + gerere) ao outro uma maneira de ver, de lidar,
de experienciar algo novo e diferente.

Lembrando:

Metaforizar é essencial. É o meio de ser indireto, de con


versar a língua do inconsciente. A pessoa guarda com mais facili
dade casos, estórias, interpretações metafóricas do que conversas
e interpretações lógicas. As metáforas ficam como uma ponte de
tratamento. O cliente vai embora, mas leva algo de que, se a me
táfora foi feita de acordo e sob medida para aquele sujeito, não se
esquecerá.
Milton H. Erickson atendia pessoas dos Estados Unidos in
teiro, alguns estrangeiros e, numa terapia brevíssima, precisava
deixar o seu recado e sua ressignificação. Ele o fazia através das
metáforas que usava, ou das tarefas metafóricas.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 121

Contar estórias metafóricas ajudava a pessoa a poder mo


ver-se de uma situação paralisada. O objetivo das metáforas é
guiar o cliente para um raminho de auto-ajuda, em que ele pró
prio vai encontrar uma nova maneira de lidar com o que antes
não conseguia. A própria levitação das mãos é uma técnica hip
ndtërapêutica qtie tem como linguagem metafórica o significado
da mudança natural que vem de dentro, de uma força que se
pode acessar, como se coloca um novo programa no computador,
fazendo-o trabalhar numa nova inteligência.

De acordo com 5. Gilligan:

Quando falamos em metáforas estamos usando uma lin


guagem figurada em que há generalidades sobre determinados
assuntos. Cada um dos exemplos metafóricos usados como ge
neralidade constitui um modo comum e indireto de sugerir uma
busca experiencial através da memória relacionada a urna pes
soa em particular, um lugar, um acontecimento, um objeto ou
um processo. Quando ditas com convicção, dentro de um bom
rappol’t, essas generalidades (em metáforas, casos, ou estórias)
imergem o paciente num processo de busca interna que culmina
rá com ele acessando um evento. Considerando que o evento será
diferente para cada pessoa, o uso de generalidades em metáforas
toma-se um excelente modo de respeitar os processos singulares
de cada indivíduo.
Como vimos até aqui, os processos inconscientes tendem a
representar e englobar idéias de modo mais metafórico do que os
processos conscientes. Portanto, o hipnoterapeuta ericksoniano
utiliza comunicação simbólica e metafórica. A este respeito vi
mos que contar estórias ajuda o paciente, desde que sejam meta
fóricas, no sentido de que o conteúdo da história não se refi;-a ao
paciente, mas alguns aspectos principais da estória (por exemplo:
os personagens, eventos, ternas e objetivos) sejam relevantes à ex
periência do sujeito.
Há muitas maneiras de, metaforicamente, você levar um
cliente a observar aquilo que está sendo difícil para ele. A forma
metafórica é indireta. Assim, se você quer que o cliente se volte
para problemas de sua própria infância, basta que você conte ca
sos de infância, Se você contar uma estória de um menino que
122 Sofia M. F. Bauer

aprendeu a lutar contra um dragão feroz, ajudando toda sua vila,


apenas aprendendo a tomar fôlego, você poderá tratar de muitos
problemas que se enquadrem em crescimento, aptender a respi
rar (asma), segurança, etc.
De um modo naturalístico, percebendo a linguagem meta
fórica, não-verbal, física, do cliente, você o ajuda a explorar,~atra
vés de casos e estórias, novas maneiras de ver e sair de seus pró
prios problemas.

2. Parte prática — a construção das metáforas


Imagine só, véspera de Natal, numa beirada de janela, pen
sando em metáforas para ensinar a alguém como mostrar o “ca
minho das estrelas” àquele que não vê a luz. Isto tudo, a menos
de 00 C, nevando floquinhos brancos lá fora, montanhas branqui
nhas, carros cheios de neve, música clássica com temas de Na
tal.
É assim que estou aqui, emocionada em poder estar tão
perto das estrelas do norte. Djzem que Papai Noel vem do norte,
espero que ele me ajude a ensinar vocês a praticar a construção
de estórias que mostrem luz aos seus clientes.
Como terapeutas, não precisamos brilhar em estórias ma
ravilhosas, mas sim tocar o coração do cliente, mostrar-lhe que
há luz no final do túnel, que há saída para o seu sofrimento. Para
isso, não é preciso estórias muito elaboradas, mas com simplici
dade, palavras-chave, metáforas do próprio cliente. Aí você con
segue dar o suporte necessário ao crescimento dele, o alívio de
sua dor.
Agora veremos como fazer metáforas e atingir vários ní
veis de comunicação. O mais importante é que você fará algo co
mum (uma estória comum, conhecida) se tornar única para aque
la pessoa.
Você se lembra do processo de avaliação de Jeffrey K.
Zeig? Ele ajudará você a perceber a linguagem metafórica do seu
cliente. Para isto veremos uma série de dicas. Vamos lá!

1) Dentro da avaliação você pode ver se a pessoa é interna;


então, fale de sentimentos, sensações, é o que vai atingi-la. Se a
I-Iipnoterapia Erícksoniana Passo a Passo 123

pessoa é externa, fale das coisas que rodeiam esta pessoa, as coi
sas que ela valoriza quando vê, ou que ela deseja ver.
Assiln, você ~ai seguindo a aváliação Vejacada item, àno
te-os. Você fará a estória ser moldada de acordo com os itens
anotados. Preste bastante atenção nas relações sociais (filho mais
velho, intrapunitivo, rádiante, dominante, etc.). Isto irá ajudar
você a construir a estónia, colocando estes valores idiossincráticos
da pessoa. Qualquer estónia, como a do patiaho feio, por exem
plo, pode se tornar única se for feita colocando os aspectos pes
soais e idiossincráticos do sujeito nesta estória comum. Isso toca
a pessoa em questão, e a estória passa a ser pessoal.
Assim a avaliação é uma ferramenta importante ao cons
truir uma estónia sob medida. Você vai checar os valores, as
questões que são idiossincráticas e vai colocá-las na estória co
mum. A estória comum, por exemplo, “O patinho feio”, por si
mostra sobre o descobrimento dos valores pessoais, a auto-esti
ma. Se você descreve detalhes em que se encaixem os valores, ca
racterísticas daquela pessoa, torna-se uma estória pessoal.

2) O segundo ponto é tocar os interesses do sujeito em


questão. Eu chamo isso de “antenar”.
Todo mundo tem uma espécie de antena, radar. Quando o
assunto interessa, você ouve. É como urna dona de casa qüe está
sem empregada e alguém fala de uma forma fácil de fazer comi
da e estocar ou de lavar roupa. Ela vai prestar atenção, pois tem o
mesmo problema. Então, você fala de algo semelhante que tem o
objetivo de mostrar um caminho (solução) e a pessoa vai fazer
sua escolha para a busca de tal solução. É uma alusão às possí
veis formas de solucionar algo.
Também quando você fala dos seus filhos, o outro tende a
falar dos filhos dele. Quando você fala do seu carro, o outro ten
de a falar do carro dele, e assim por diante. É uma excelente fór
mula enicksoniana de fazer o outro falar de suas coisas e, conse
qüentemente, de solucionar suas coisas pelo mesmo princípio.
L LJ. 1 .-L~.

Quando você quiser sugerir que há algum caminho, ou


urna luz, fale de algo semeLhante ao problema da pessoa. Eia se
“antena” àquele problema porque é semelhante ao dela e assim
124 Sofia M. F. Baner

quer ouvir que solução foi encontrada. Pronto! Você faz a pessoa
pensar que existe saída para aquilo que parecia não ter. Este é o
~‘princípio-antena”.

3. Metáforas — estórias já contadas algum dia


Aqui vou relatar algumas estórias de autores conhecidos,
como Rubem Alves e outros. Elas serão como um guia. De
nada adianta você contar a estória da borboleta, ou da águia,
tal como elas são. Talvez atinjam seu clïente, mas não o objeti
vo terapêutico.
Neste ponto, estou oferecendo um guia de metáforas para
pôr sua criatividade a postos e você poder fazer uma ressignifica
ção adequada indireta via alguma estória. Por isso, não venha a
este guia; olhe e pense que borboleta sugere auto-estima, águia li
berdade e assim por diante. Cada uma estilizada ao jeito do
cliente ajuda você a criar uma ressignificação, uma resposta indi
reta em vários níveis de linguagem, que ajudarão seu cliente a
descobrir uma saída.
O guia é uma ajuda. Agora ponha sua criatividade para
funcionar. Aqui não estão todas as estórias produtivas. Estão
apenas algumas de que gosto muito e que vão poder ajudá-lo a
construir as suas próprias.
Há terapeutas que preferem só fazer analogias. Há outros
que gostam de contar estórias pessoais porque isso favorece um
clima de maior proximidade. Não caia no exagero, porque o
cliente pode achar que é você quem está fazendo terapia com ele,
e pode querer te cobrar uma consulta. Sem excessos para ne
nhum lado, sempre.
Este livro é um guia básico. Por isso você recebe o básico
com as estórias que eu apresento.

Vamos às regras:

— seja criativo, mude de acordo com a pessoa;


— inclua detalhes que tenham a ver com a pessoa. Por
exemplo: descreva o bichinho, a criança1 com detalhes do seu
cliente;
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 125

— inclua os detalhes idiossincráticos;


— ponha emoção em sua fala ao colocar os valores do seu
cliente em evi.dêncià ~ estória; - - . -

— utilize as palavras do seu cliente, principalmente as pala


vras metafóricas;
— não siga só as minhas sugestõe~. São apenas algumas
possibilidades.

“Águia”

Esta é uma estorinha que eu gosto de usar com a finalidade


de dizer que, mesmo que você ainda não saiba fazer algo, poderá
fazê-lo desde que tenha vontade de verdade. Ela pode ser útil,
para cabos em que a pessoa teve uma educação repressiva e está
se reprimindo, impossibilitando-se de alternativas que a vida lhe
dá de crescer no trabalho, mudar, casar, etc., ou porque falhou
uma vez, ou por nunca ter se atrevido, e você vê que a pessoa
tem possibilidades. Você descobrirá inúmeras outras utilidades.

Esta é a estória de uma aguiazinha filhote que foi acha


da por um fazendeiro, com a asa quebrada, na floresta... Para sal
vá-la, ele a levou para sua fazenda... não tendo onde colocá-la,
botou-a junto das galinhas, num galinheiro. Deu comida de gali
nha e cuidou dela como se cuida de uma galinha. Ela se curou,
mas foi crescendo como se fosse uma galinha. Às vezes achava
esquisito ser tão diferente: não cacarejava, seu bico era grande e
tinha grandes garras. Mas ali ficava, triste, vendo que havia algo
que não estava bom; sem fazer nada...

Até que um dia passa por aquelas paragens um natura


lista... que, ao ver uma águia (ave de rapina) criada como se fosse
uma galinha, leva o maior susto. Era preciso ajudá-la a mudar!
Pediu licença ao fazendeiro para ensiná-la a voar e começou...
No primeiro dia... pegou a águia e colocou-a no braço,
dizendo: você não é uma galinha, é a rainha dos pássaros, uma
águia; bata suas asas e saia voando... A águia não entendeu
.nada... Nunca tinha visto urna águia antes... pulou par~ o chão e
voltou para o poleiro...
126 Sofia lvi. F. Bauer

No segundo dia... o naturalista, inconformado, resolveu


explicar melhor... Levou-a ao alto do telhado e mostrou que ela
podia voar dali, que elatinha asas que afariam sair voai~.do, que
suas asas eram maiores que as de urna galinha.., além do bico...
do seu canto.. .e que suas garras foram feitas para alcançar seu
alimento, quando assim lhe con~esse... Bastaya que ela batesse
as asas e saísse voando... A águia entendeu que era diferente,
porque assim se sentia; mas ela ainda não sabia como.,. E assim,
voltou ao poleiro com toda aquela estória de liberdade, asas, gar
ras, rainha dos pássaros...

No terceiro dia... o naturalista entendeu que era urna


questão de tempo e oportunidade... Então ele fez a oportunida
de... levou-a para o alto das montanhas, lugar de águia, e mos
trou-lhe muitas outras águias voando... Voltou a dizer: bata as
asas e saia voando... Suas asas foram feitas para voar alto... você
é a rainha dos pássaros... Ela ficou observando as outras e, de re
pente... num grito de liberdade.., num grito de águia... saiu voan
do de asas abertas... Diz a lenda que esta águia nunca fez uma
galinha de vítima, porque foi com as galinhas que aprendeu a ter
o pé no chão, a catar seus grãos de mflho e, de vez em quando,
sentar no poleiro, esperando sua vez..:

“A borboleta”

Esta é uma estória que eu adoro. É uma estória da nature


za. Eu a vi pela primeira vez terapeuticamente, no livro dos
Lanktons, A resposta interior, um pouco diferente da versão que
vocês verão aqui; acrescida de detalhes que eu coloquei.

Acho que eia cabe bem no início e no final de uma terapia,


como mostra de que toda mudança é possível, mas necessita de
esforço e às vezes causa até dores necessárias. Coloco-a em casos
em que a pessoa precisa de um estímulo para acreditar que lá
dentro dela existe uma “pessoa linda” que pode aparecer, se ela
se esforçar. Por exemplo, pessoas deprimidas, obesas, com sín
drome do pânico têm dificuldades para acreditar que vão melho
rar. Você pode incluir inúmeros outros casos; sempre que você
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 127

quiser dar a mensagem de que toda mudança é possível, de que


dentro de nós há sempre uma grande surpresa, um reservatório
de riquezas, habilidades, mas .que para rnudar~ é p~eciso sacrifí
cios, tempo e mudança (a terapia).

Eu tenho observado que, se eu coloco os valores da pessoa,


as características da pessoa, esta estória toca fundo o coração e
ajuda nas mudanças.

Esta é a estória de uma lagartinha (veja lá se a pessoa


não tem fobia a lagartas!) que rastejava pelo chão chorando por
que era (gorda, feia, sem emprego, triste, etc.), tinha medo de os
homens a pisotearem, ficava sentida porque as flores e plantas a
rejeitavam, pois ela queria comer suas folhas. Mal sabiam elas
que um dia esta lagarta as ajudaria em sua polinização e repro
dução. Mas eia cl~orava muito, achava que não tinha saída e fica
va ali, isolada, com seu prQblema... Até que uma coruja, sábia e
amiga, lhe disse que não precisava chorar, porque lá dentro dela
morava uma linda borboleta... bastava que ela se prontificasse a
fazer as mudanças e ela se transformaria numa linda borboleta...
A lagarta, cheia de esperança, perguntou como... A coruja disse-
lhe que bastava que ela se fechasse num casulo e Já sofresse as
transformações necessárias para as asas crescerem... Porque na
natureza nada se cria, nada se perde mas tudo se transforma (lei
de Lavoisier)... e ela poderia se transformar... A lagarta pergunta:
mas como criarei asas? A coruja continua dizendo-lhe que basta
va que ela se imaginasse de asas bem coloridas1 voando um vôo
de liberdade, pousando nas flores, sendo bem aceita pelos ho
mens, pulando de um jardim a outro, indo e vindo para onde
quisesse, a favor do vento, contra o vento.., mas tudo com asas
de liberdade que a fizessem ver longe, leve e feliz.., isto bastaria
para que as asas começassem a cr~scer... viriam dores... dores
apenas necessárias para as mudanças... mas toda vez que, lá fe
chada em seu casulo, pensasse em suas asas, elas iriam~ crescer
(um pensamento é um ato em estado nascendi, lembrando
Freud)... e assim...~ muito mais depressa do que ela poderia ima
ginar, tudo seria diferente... Ela sairia do casulo com asas, livre,
voando, vendo o mundo lá do alto.., bem diferente de como via
antes...
128 Sofia M. F. Bauer

~‘A rosa”

Esta estória me foi contada por uni amigo apaixonado. Um


certo dia, na tentativa de declarar seu amor pela namorada, deu-
lhe um botão de rosa e pediu-lhe que, todos os dias, invariavel
mente, observasse aquelebotão, pois ela teria uma surpresa ma
ravilhosa.
E assim, todos os dias, pela manhã, a namorada olhava o
botão que ia crescendo e se abrindo avêludadamente, exalando
um perfume discreto e inebriante, responsável pela atração dos
zangões e beija-flores, até que um determinado dia o botão se
transformou numa bela rosa e, de dentro dele, visualizava-se
uma aliança com um bilhete que dizia: “Quando o botão se abre
eu entrego o meu amor, porque assim eu sei que a rosa já está
madura para recebe-lo.

“Solos”

Eu passei parte da minha infância brincando em área rural.


Por isso gosto de estórias de conteúdo rural. Observe este detalhe
importante caso a pessoa seja de cidade grande. Mesmo assim,
querendo contar, explique bem para a pessoa poder entrar no cli
ma da situação... Esta estória é mais uma analogia sobre os tipos
de solos. Há algum tempo, folheando uma revista, vi um anún
cio: numa página, terra árida.., virava a folha... a mesma área,
verde, irrigada e cheia de plantas com seus frutos,..

Há vários tipos de solos... Há aquelas terras roxas... como


no Paraná e São Paulo... Terra cara... onde tudo que se planta
nasce... basta plantar... existem outras terras... como as terras are
nosas... não tão boas... mas com um pouco de calcário, como no
cerrado... você planta e tudo nasce também... e há terras que
eram consideradas solos inférteis... (isto é ótimo para mulheres
que querem engravidar, alguém com algum projeto parado por
que acha que não é bom o suficiente, etc.).

Em Israel os solos eram desérticos... eles precisavam


plantar... comer... assim, desenvolveram técnicas de irrigação ar
tificiaL.. irrigaram aqueles solos.., e se tornaram os maiores pro
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 129

dutores do mundo em melões, melancias e morangos... Aqui no


Brasil, no Nordeste, o clima é perfeito1 mas as terras também são
consideradas ruins~.. mas há gente que acredita, tem fé, e irrigou
este solo... Calor, clima favorável, terra irrígada... está se tornan
do uma grande área produtora de frutas... inclusive dá duas co
lheitas de uvas por ano!!! Não importa o tipo de solo, solo se cor
rige, o que importa é a vontade de frutifjcar e o investimento...

“Sementes”

Neste ponto gosto sempre de juntar ao solo a “semeadura”


de algo novo. Aqui acrescento alguma estória sobre sementes
bem cuidadas, bem escolhidas. Plantadas na época correta, serão
os frutos de amanhã. Solo com mais semente, mais cuidado,
amor e investimento, e você terá, lá na frente, os lucros deste
plantio. Confie!

No livro A magia da hipnose de José A. Mendonça, existe


uma história muito boa sobre as chuvas de setembro, que eu rela
to no item “Semeadura” deste livro. Lembro-me de um filme de
Robinson Crusoé, em que ele ensinava aos índios que estes deve
riam comer apenas as espigas de milho pequenas e carunchadas,
e deveriam plantar os milhos das grandes e boas espigas. Boas
sementes, na época das chuvas (irrigação), é sinal de bons frutos.

“Crescimento 1H

Quando meu filho mais velho estàva fazendo a 1~ série, aos


7 anos (ano das simbolizações), ele teve que fazer uma experiên
cia de plantar feijão. Plantaria em algodão seco, algodão com
água, terra seca e terra com água. Deveríamos observar o que
nasceria primeiro, como cresceria e tudo Q mais...

Eu também “viajei” na experiência... Como a vida nas


cc... Não basta nascer, tem que sobreviver!... Este era o nosso em
penho... Sem água não vive! Sem sol, também não! Mas pode-se
nascer com água apenas, sobrevive se a raiz não se fixa?! Depen
de do tamanho da planta! Ah, também é preciso de terra firme!...
E que beleza era ver que o que primeiro nasce são as raízes, aqui-
130 Sofia M. F. Baner

lo que fixa, que busca o alimento necessário... só depois é que


vem caule, folhas... flores e frutos... e tudo vai depender do solo,
do sol, dos cuidado~ e de uffla raiz bem fixada... Toda piantinha,
no início, precisa de apoio para crescer... Podem haver intempé
ries... pragas... e você cuida, olha, vigia para ela crescer... lhe dá
água e o que mais necessitar... mas você sabe que de uma única
semente virá uma planta de verdade!...

Aqui me lembro de Michael Mahoney, numa conferência


em São Paulo, contando sobre uma passàgem com seu filho, vol
tando de um jogo, no qual o filho havia perdido a partida. Ele e o
coleguinha vinham conversando no carro e, para consolar o cole
guinha, o filho disse: olha, não se preocupe, nós somos vencedo
res natos. O colega pergunta por que e este responde: “porque fo
mos o espermatozóide vencedor numa corrida com milhões e mi
lhões de outros. Nós vencemos ao capturar o óvulo e estamos
aqui!”...

“Crescimento 2”

Uma’ outra forma de estimular o crescimento é trabalhar


em cima do aprendizado do andar, ou do ler e escrever. São bata
lhas difíceis, demoradas, mas pelas quais todos nós passamos.
Hoje, não pensamos mais como fazemos para dar cada passo,
mas houve um dia em que isto foi necessário. Aliás, uma boa
temporada de treinamento! Podemos dizer a mesma coisa do es
crever e do ler. Um longo período de treinamento. Mas o fato é
que, tendo motivaçõo, treinando e querendo, tudo se aprende. Erick
son, em luta com a recuperação da pólio, passou pelo estágio de
reaprender a andar. Ele imitava sua irmãzinha que, naquela altu
ra, aprendia seus primeiros passos... foi imitando-a, treinando e
reaprendendo... por isso é possível reaprender o que quiser... mas
é preciso estar motivado a fazê-lo... (como terapeutas, cabe a nós
sermos o ponto de apoio à motivação, porque não basta apenas ter
a motivação. A qualidade e o sucesso de um empreendimento
dependem da motivação e do apoio, este último dado pelo terapeu
ta.~. aceitar o indivíduo com suas limitações e ensiná-lo a desco
brir saídas e seus recursos interiores).
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 131

Mas você pode também criar estórias do aprender a ler e


escrever. Ou outras aprendizagens como línguas, esportes, etc.
Crie...

“Mares”

Estas estórías que eu estou colocando aqui têm muito a ver


comigo, por isso são minhas preferidas. Prestem atenção ao seu
estilo e o respeitem. Se eu escrevo sobre o mar, você pode escre
ver sobre o espaço. Seja você. Isto é um guia e você está vendo
como eu vejo o mundo... Nasci numa praia... minha casa dava
para a areia... e uma das coisas que eu gostava de fazer, desde
pequena, era apreciar o mar, as marés, a Lua, as estrelas, as nu
vens, a cor do céu... e “viajava” com cada mudança... Dias de
chuva, eu ficava horas observando a cor do mar, as ondas. Como
tudo mudava tanto! E aquele azul, pra onde fora?!~.. O jeito era
ter paciência, porque depois da chuva viria novamente a luz do
Sol... Ah! Quando eu vi estas palavras ditas por Milton H. Erick
son a uma paciente dele deprimida, que alegria, tinha encontra
do alguém que respondia àquilo que eu me perguntava.., mas
são só pensamentos... voltemos ao tema!

Eu gosto de usar esta metáfora para mostrar a mente cons


ciente, o que se vê de fora (a praia), e o que existe lá dentro e que
não se vê, mas existe (as profundezas, as riquezas), para mostrar
que as intempéries fazem parte da vida natural, e também ser
vem para aprofundar o transe. À medida que vaj se aprofundan
do no mar, aprofunda-se no transe.

Mas é preciso um cuidado especial ao utilizar esta metáfo


ra, como muitas áutras. Verificar se a pessoa tem medo deágua,
mar, mergulhar, se ela já teve alguma tragédia envolvendo mer
gulho. Apenas pergunte: Gosta •de mar? E de mergülhar? Isto
basta para você saber se pode usar de mais esta ferramenta.

Quando você vê uma linda praia, a observa de fora, vendo


a beleza da cor de suas águas, da areia à sua volta, das plantas...
mas não fica pensando como é o relevo lá debaixo... imaginando
os peixes... as algas... pedras... Você apenas sabe ue existe este
132 Sofia M. F. Bauer

mundo lá debaixo... Aprecia o que os seus olhos observam e sen


tem... Pois é... o que os seus olhos vêem. Observa as mudanças de
tlima, temperatura e pressão... Dias muito quentes, sempre tra
zem aumento de pressão, tempestades e chuvas fortes... Como o
mar modifica... fica bravo.., batendo ondas violentas.., sujo e
feio... mas com o tempo ele vai acalmando.., então, vem o tempo
da ressaca... mar feio... revolto em areia... o céu já está limpo... o
sol já brilha novamente.., mas é tempo de cuspir o que é ruim
para fora... põe pedaços de embarcações, latas velhas, cascas de
coco... a praia fica feia... mas o mar vai se limpando.., e aos pou
cos se acalmando.., a areia assentando e tudo vai chegando ao lu
gar... e novamente o mar fica claro, limpo, convidativo a um bom
mergulho... E você pode mergulhar... mergulhar devagarinho... ir
conhecer o outro lado... o que há lá embaixo... Meu Deus! Um
mundo... um mundo que vive, sente, trabalha e, no silêncio do
interior, funciona produzindo riquezas e belezas.,. e você pode ir
mergulhando... seguramente... protegidamente... vasculhando...
descobrindo.., dos pequenos peixinhos coloridos... algas... estre
las do mar... até mesmo mais profundamente... as coisas grandes
que habitam lá no fundo... não tenha medo... é a sua praia... é o
seu mar... você pode observar as maravilhas que lá existem...
você pode parar... boiar... respirar livremente.., apenas observe...
Há vida! Há riquezas!.., e bem lá no fundo, no subsolo.., há uma
grande riqueza... há petróleo... que dá a energia da vida... Obser
ve... veja vida dentro de você.., e assim, aos poucos... devagar e
lentamente... você pode ir voltando.., e quando chegar à tona... à
sua praia... sente um pouco... observe-a... descanse... e pense sem
pre... que há um mundo de coisas a serem descobertas dentro do
seu próprio mundo... Aproveite!

110 rei e o sábio”

Diz uma estória que o conselheiro sábio do rei estava mor


rendo e o rei estava desesperado porque, o que seria dele sem o
seu conselheiro? Quem indicaria o caminho e lhe daria as respos
tas? No leito de morte, o sábio deu ao rei um anel e lhe disse: “Ó,
meu rei, ~ que já aprendeste ta~to, saberás levar a vida sem os
meus conselhos, eles já estão lá dentro de ti, mas quando açhares
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 133

que não consegues mais, depois de tudo tentar, tu poderá ler a


mensagem de dentro do anel.”

Passaram-se ano~, o rei foi lutando, péssimas colheitas,


boas colheitas, tempos de paz, tempos de guerra e ele lá... lutan
do... até que, num certo dia,desesperado, achando que não daria
conta, sentindo-se sem conseguir achar alguma saída, lembrou-se
do anel do sábio, o qual andava em sua mão por todos aqueles
anos... Abriu o anel e lá estava escrito: “... Assim como tudo que
tu já passaste, enfrentaste e deste conta... também isto passará...”

“O velho e o jornaleiro”

Um velho senhor costumava dirigir-se todos os dias de


manhã a uma banca de jornais para comprar o seu matutino.
Cumprimentava amistosamente o jornaleiro, comprava o jornal,
agradecia, despedia-se dele e ia contente ler as notícias do dia.
Acontece que o jornaleiro sempre o tratava com monossíla
bos e cara fechada, nunca rêspondendo aos seus cumprimentos e
agradecimentos.
Um certo dia, um outro senhor, que estava sempre ali pelas
redondezas da banca de jornais, dirigiu-se ao velhinho e inda
gou-lhe sobre o porquê de tanta gentileza e educação com uma
pessoa que só lhe tratava com pouco caso e uma certa estupidez,
e se ele não deveria responder-lhe com a mesma linguagem, ao
que o bom senhor retrucou, dizendo:
— “Eu não quero dar a ele o direito de escolher como eu
devo me comportar.”

“A história de Clara”

Também ouvi esta estória por aí... Dizem que, quem conta
um conto sempre aumenta um ponto... É mais ou menos isso que
vocês vêem por aqui... Algumas estórias têm autor conhecido,
outras, desconhecido, outras estão um pouco distorcidas, mas o
que importa mesmo é o objetivo de contar a estória e ressignificar
o caminho. Caso você encontre algumas estórias já vistas, elas es-
134 Sofia M. F. Bauer

tão aqui só para mostrar que estórias comuns podem ser o veícu
lo de estórias únicas que virão a seguir.
Esta estória é mais uma que, se lhe fo~em acrescentadas
peculiaridades e valores pessoais, poderá se tornar única e ajnda
levar a mensagem de que nunca está tudo perdido...

Clara era uma moça triste que não gostava da vila de


pescadores onde vivia, não gostava do que fazia, e só sabia recla
mar... Numa madrugada de tempestade ela foi acordada por
uma voz que dizia: “Clara, vá até o rio agora, e você fará uma
grande descoberta.” Clara, apesar de triste e reclamoi-ia, era cheia
de vontade de melhorar. A descoberta seria uma boa nova.., mes
mo no meio de toda aquela chuva, ela saiu na noite e foi até a bei
ra do rio,., lá chegando, tropeçou num saco de pedras e começou
a procurar pela grande descoberta... não via nada... para passar o
tempo, foi jogando as pedras do saco na correnteza do rio... o
tempo foi passando e nada,.. nas primeiras luzes do raiar do dia,
Clara segurava a última pedra do saco... ao perceber, num misto
de desespero e clarividência, que se tratava de um diamante...
Ela havia, jogado rio abaixo inúmeros outros diamantes.,. mas a
voz veio novamente e disse: “Clara, você ainda tem um diamante
na mão, use do brilho e da riqueza dele e mude sua vida, ele
pode ser sua grande fortuna”... A partir deste dia Clara mudou
sua vida. Com aquele diamante teve o dinheiro suficiente para
fazer um negócio próprio e começar sua vida... Muito trabalho...
mas com a vontade e o brilho que levam alguém a mudar de vida
e vê-la com bons olhos...

“O artista perfeito”

Para os que têm mania de fazer tudo certinl-io, não podem


errar e por isso travam suas vidas; para pais que querem que os
filhos sejam perfeitos; para aqueles que só aceitam o caminho da
retidão, e para muitos mais... use esta estória que mostra que a
beleza pode estar em qualquer lugar, e que se pode enxergá-la
até nos graves defeitos...

Esta é a estória de um artista plástico que tinha mania de


perfeccionismo... Ele fazia vasos de barro,.. mas seus vasos ti-
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 135

nilam que sair perfeitos... senão ele os quebrava e ainda ficava


com muita raiva... Seu ateliê ficava numa praça e, de onde ele tra
balhava podia vêr as pessoas transitandó, e as pessoas faziam o
mesmo da praça... Só que este artista gastava mais tempo tentan
do ser perfeito, quebrando vasos e ficando com raiva, do que se
divertind~ em trabalhar ~com a sua arte... Até: que um dia passou
pela praça uma moça linda.., ele se encantou por ela e errou féio
a mão na massa... O vaso saiu ainda mais torto! Ficou bravo e,
quando já ia jogar o vaso fora, a moça chegou perto e pediu para
comprá-lo... Ele se negou, dizendo que o vaso estava torto e as
sim ele não podia vendê-lo... A moça insistiu tanto que ele deu-o
de presente a ela... A cena se repetiu por algumas vezes... Ele,
inspirado na beleza da moça, erra a mão na massa... o vaso sai
torto... ele quer jogar fora... a moça quer comprar... ele acaba dan
do-o... Depois de algum tempo... ele recebe um convite para uma
exposição de arte... Para sua surpresa, o artista era ele e as peças,
seus vasos tortos!... ao indagar, a moça, que era uma crítica de ar
tes, então lhe diz: “Uma obra-prima é aquela obra feita sob uma
bela inspiração, ninguém pode imitá-la exatamente como ela é,
por isso é única. A beleza não está nos traços perfeitos, mas no
que é único e só dela... São todas grandes obras de arte.”

“Boiar”

Esta é uma boa metáfora para quem tem dificuldade de en


trar em transe, de se entregar ou tem medo de perder o controle...

Quando e~i era criança, como já disse, morava numa


praia... minha mãe não sabia nadar... tinha muito medó que rios
afogássemos no mar e ela tivesse que socorrer sem saber nadar...
por isso ela só nos deixava entrar no mar até a altura dos joe
lhos... o que era muito pouco...

Um dia meu pai resolveu nos ensinar a boiar... aquilo


poderia aliviar um pouco a aflição da miiha mãe... A praia perto
de onde eu morava tinha uma correnteza que levava a urna prai
nha ao lado... Ele acreditava que, nos ensinando a boiar, chega
ríamos a esta prainha, caso a maré nos puxasse mar a dentro...
136 Sofia M. F. Bauer

Mas do que eu me lembro como se fosse hoje foi da


aula.... da primeira vez em que eu boiei... que delícia! Que coisa
boa! Eu era t~o pequena que a mão do meu pai; apoiando as mi
nhas costas, era um apoio enorme!... e ele dizia: “...solte-se, eu
estou te segurando... respira fundo, Sofia... seu pulmão se enche
como se fosse unia bóia.., respire... olhe para o céu~. veja o azul
do céu... as nuvens.., sinta o barulho do mar em seus ouvidos...
vai soltando seu corpo... abrindo os braços... abrindo as pernas...
respirando fundo... agora sinta.., você flutua sobre as ondas...
você está respirando gostoso... seu pulmão é como uma bóia...
agora você vai subir a onda... veja como é gostoso... e assim... lá
pelas tantas... eu estava flutuando.., leve... gostoso.... sem a mão
dele me segurando... Pulava as ondinhas.,. mergulhava nas on
donas... para logo poder estar boiando.., sol batendo.., barulhi
nho da água nos ouvidos... o corpo solto... curtindo cada movi
mento... que delícia!...

“Árvore”

Uma árvore é como uma vida... Primeiro vem uma semen


te... que cria raízes... se a raiz for boa e forte, buscará o alimento
fundo e crescerá.., a árvore vai crescendo.., aos poucos vêm os
galhos, as folhas... às vezes, se cresce em direções erradas.,, se en
torta.,.. é preciso podar... outras vezes.., existem pragas e àí tam
bém é necessário podar... outras vezes são acidentes naturais,
como uirí raio, que quebram partes da árvore... Mas, como todo
ser vivo.., pode regenerar... pode crescer para o lado certo.., pode
recuperar o que foi perdido... E lá vai a árvore crescendo.., ficam
marcas das podas... ficam marcas da vida... Vêm as flores... os
frutos... frutos bons... frutos ruins.., frutos que são arrancados an
tes da hora.,. frutos que apodrecem no pé... frutos que ficam no
ponto... e a árvore continua.., enquanto houver sol, terra e água...
ela estará lá, vivendo, dia a dia, até o seu pôr-do-sol...

“Cicatrizes”

Há vários tipos de cicatrizes.,, há aquelas que são super


ficiais... que com algum cuidado logo estão boas... há outras que
I-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 137

são mais profundas... precisam de algum tempo para irem se re


fazendo... doem muito... mas a cada dia que passa... podem doer
menos.., há algumas que necessitam ser ocluídás por cuï’ativos;
para não contraírem infecção secundária... depois de algum tem
po! libera-se o curativo e se as deixa seguir o caminho natural da
regeneração... O que se sabe é que toda ferida cicatriza, na pri
meira ou segunda tentativa... Com tempo, repouso e cuidado,
tudo volta ao normal... Até mesmo nas grandes amputações, aci
dente ou necessidade. A dor da perda de um membro é muito so
frida... Vem a dor fantasma... a dor presente de um membro au
sente... que se faz presente sentindo-o ausente... e como todo bom
médico diz: “Só o tempo cura esta dor de nervos, até que eles se
acomodem à nova situação de já não ter mais aquele membro
atrelado ao seu lado... Mas o tempo passa e a dor vai sumindo...
vem o tempo de adaptação...”

As três estórias que eu vou contar agora, resumidamerite,


você pode encontrá-las nas obras de Rubem Alves. Estou só resu
mindo o conteúdo de algumas por achar que são estórias muito
válidas na auto-ajuda.

“As mil e uma noites”

Existem inúmeras versões para esta estória. Aqui vai mais


uma. Na verdade gosto de usar esta estória para mostrar às pes
soas que um amor pode durar uma vida.., basta você querer... é
diferente de uma grande paixão... é uma conquista feita aos pou
quiahos... todo dia... Não é desfazer todo dia... é fazer todo dia
um pouquirtho...

Conta a lenda que um sultão fora traído por sua esposa


e jurou nunca mais sentir a dor do amor e perder a sua amada...
por isso instituiu uma lei em que ele se casaria todo dia com uma
nova esposa, teria com eia uma noite de sexo e no dia seguinte;
pela manhã, mandaria lhe cortar a cabeça, antes que pudesse se
apaixonar por ela... Assim ele ia fazercio, as mulheres do reino fi
cavam apavoradas, com medo de serem as próximas vítimas. Até
que Xerazade, filha do vizir, se dispôs a casar-se com o sultão
para pôr fim àquela maldição. Seu pai entrou em desespero, pois
138 Sofia M. F. Bauer

era ele quem mandava cortar as cabeças... Pediu à filha que não o
fizesse... mas ela insistiu... Conta a lenda que Xerazade era mu
lh~r culta... que lera toda a biblioteca do Sultão... sabia poemas...
estórias... provérbios.., como ninguém... nada se fala sobre seus
dotes de beleza... Xerazade se casa com o sultão... tem uma noite
de sexo maravilhosa.., quando o sultão começa a cochilar para
adormecer, Xerazade começa a pensar que é hora de fazer algu
ma coisa para não morrer decepada na manhã seguinte... Ela con
ta estórias, as mais lindas, em versos e prosa... ao pé do ouvido
do sultão... e devagarinho vai soprando, suavemente, palavras...
tramas e amor... o sultão se encanta... no dia seguinte, pela ma
nhã, o sultão adia sua morte para o dia seguinte e... assim por mil
e uma noites e mais uma... eternamente.., ele vai adiando a morte
daquela mulher que o encantava dia a dia... Mas todos os dias de
sua vida.., o amor nasce... cresce e deve ser criado assim... todos
os dias um pouquinho...

“O pássaro encantado”

Esta estória de Rubem Alves ajuda a mostrar que a posses


são só piora as coisas. Ciúme e posse abalam uma relação. A li
berdade é o sinônimo de uma união, fica-se porque gosta... isto é
o que vale... É como diz a música do Gilberto Gil: “o seu amor,
ame-o e deixe-o livre para amar”...

Conta a estória que um pássaro encantado visitava uma


menina, vez por outra, para cantar as mais lindas melodias... Vi
nha sempre com uma penugem maravilhosamente colorida.., um
canto de cada lugar do mundo que já havia estado... A menina se
encantava com ele... e um dia resolveu prendê-lo, para que ele só
cantasse para ela.., colocou-o numa gaiola e lá ficou observando
o... ele foi parando de cantar... perdendo a cor de suas penas e
aos poucos foi ficando cada vez mais tristeS.. Então a menina per
cebeu que para ele viver era preciso libertá-lo... Soltou o pássa
ro... ainda que ficasse triste.., mas sabia que, se o tratasse bem, ele
voltaria a visitá-la sempre... pois ele a visitava porque gostava
dela... Assim, toda vez que ele viesse seria bem recebido, com
amor e prazer, de ambos os lados. Isto bastaria para que ele re
tornasse sempre e o que havia de belo permanecesse...
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 139

“A toupeira”

A toupéira é um bichinho feio e ~quase cego. Vive enfiado


debaixo da terra. Esta é uma ótima estória para quem faz “políti
ca de ema”, ficar com a cabeça enfiada debaixo da terra quando
algum problema acontece, ou porque tem medo ou falta cora
gem, ou seja lá por ~ue for.

A toupeira era quase cega de tão míope, não enxergava


quase nada e por isso tinha medo de sair da sua toca e ser esma
gada por um animal maior... ou de cair num abismo... e por isso
ficava entocada... tão protegida... que nem mesmo via a luz do
dia... e ninguém podia vê-la... Assim ela ia vivendo.., triste...
com medo... e escondida... Mas ela era boa em juntar gravetos,
em construir casinhas de galhos... lá ela ficava fazendo tudo es
condido...

Um dia, avisaram que um cometa passaria no céu... ela


queria tanto ver o cometa que, na noite anterior à sua passagem,
ela sonhou o seguinte sonho: .o cometa havia passado e manda
. .

do duas estrelas para os seus olhos e ela passara a enxergar


tudo!... Saiu, então, para conhecer como era lá fora da toca... Que
surpresa!... Uma grama verdinha... flores por todos os lados da
floresta... Nossa, como as formigas eram pequeninas e não ti
nham medo de ser esmagadas! Havia pássaros cantando... como
o dia era ensolarado... ninguém a machucava e ela ia andando
...

e aproveitando a natureza à sua volta...

Quando abordou do sonho, acordou diferente, com a co


ragem de fazer uns óculos para ver, lá fora, tudo o que havia vis
to em sonho... E assim ela o fez.

“Esfrelas-do-mar”

Esta estória é baseada na obra do escritor Loren Eiseley.

Era uma vez um escri~or que morava numa praia tranqüila,


em uma colônia de pescad.ores. Todas as manhãs ele passeava à
beira-ma~ para se inspirar, e de tarde ficava em casa, escrevendo.
140 Sofia M. F. Bauer

Um dia, caminhando na praia, ele viu um vulto que pare


cia dançar. Quando chegou perto, era um jovem pegando na
areia as estrelas-do-mar, uma por uma, e jogando novamente de
volta ao oceano.

— Por que você está fazendo isso? — perguntou o escritor.

— Você não vê? — disse o jovem. —A maré está baixa e o


sol está brilhando. Elas vão secar ao sol e morrer, se ficarem aqui
na areia.

— Meu jovem, existem milhares de quilômetros de praia


por esse mundo afora, e centenas de milhares de estrelas-do-mar
espalhadas pelas praias. Que diferença faz? Você joga umas pou
cas de volta ao oceano, mas a maioria vai perecer de qualquer
forma.

O jovem pegou mais uma estrela na areia, jogou de volta


ao oceano, olhou para o escritor e disse:

— Para essa, eu fiz diferença.

Naquela noite o escritor não conseguiu dormir, nem sequer


conseguiu escrever. De manhãzinha foi para a praia, reuniu-se ao
jovem e, juntos, começaram a jogar estrelas-do-mar de volta ao
oceano.

“Essa dor tem outro nome”

Baseado no livro homônimo de Maria José de Serra.

Muitas vezes aprendemos com os nossos filhos. Esta estó


ria aprendi com o meu filho Pedro que sabiamente ajudou a cu
rar “uma dor” que constantemente aparecia em minha filha Mar
cella. Acredito que, mesmo sendo uma estória infantil, você pos
sa aproveitar com seu cliente e utilizá-la nos casos de dores so
matizadás.

Tudo começou com queixas constantes de minha filha,


antes, durante ou depois da aula... Num dia, tinha dor de cabeça,
I-lipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 141

noutro dor de barriga, noutro dor de garganta, e assim por dian


te... Estava entrando no primário, tinha lá suas dificuldades:
aprendizado do alfabeto, a materfiática e a adaptação a uma nova
escola... Menina sensível.., sentia mas não sabia expressar... então
colocava em “dores” melhor dizendo “em sofrimentos”...
...

‘~Em casa de ferreiro o espeto é de pau”!... Eu não via


isso!!! Até que um dia meu filho, ouvindo urna queixa de dor de
cabeça, disse: “Deixa mãe, eu resolvo isto. Vou trazer um livro da
escola e vou contar uma estória que vai curar estas dores! Sabia
que esta dor da Marcella tem outro nome?!”...

Voltou da escola orgulhoso... livro na mão, pôs-se a ler


para nós duas... Fornos ouvindo a estórja... Percebi que ambas es
távamos curiosas.., afinal, algo nos curaria!

Era a estória de urna menina que foi para a escola e, du


rante o ano, começou a ter dores todos os dias... Um dia tinha dor
de garganta... ia ao médico, não era nada... Noutro tinha dores de
cabeça, ia ao médico, não era nada... E assim as dores vinham e
iam... vinham e iam os médicos... doença de verdade.., nenhu
ma...

Até que um dia foram num médico diferente... ele ouviu


as queixas e disse à mãe e à filha: “Sua filha sofre sim, mas essa
dor tem oittro nome”... Que susto! Como?! O que era?... O médico
explicou que só a fill~a saberia dizer qual o outro nome da dor...
Toda vez que urna dor viesse.., a mãe deveria parar tudo e per
guntar à filha.

“O diálogo do grande carvalho


com a pequena laranjeira”

Lembro uma vez, ainda estudando corno criar metáforas,


num curso fora do país, em que tive de criar um diálogo em que
eu deveria falar algo ao meu professor. Que aperto! Mas aprendi,
dentro das teorias budistas, que é exatamente a incerteza, a inse
gurança, que trazem a criatividade.., fui em frente... mais um
grande desafio: hipnotizar, criar uma estória numa lingLla dife
rente e para o professor! Meu Deus, era desafio demais...
142 Sofia M. F. Bciuer

Depois de uns minutos de silêncio, pensei: Por que não


contar a minha história para ele? O resto... a interação, o diálogo
viria...

Veja o que deu... eu a uso até hoje... Aproveite para fazer as


suas...
Quando a gente se prontifica a estar com o outro e querer
ajudá-lo.., as coisas caem do céu...
- Naquela hora pensei o que poderia me representar?...
...

uma laranjeira, no meio de um laranjal... Tantas laranjeiras.


Umas mais velhas, mais sábias, produziam frutos facilmente.., eu
era tão nova, acho que era a primeira vez que eu florescia.,, esta
va muito alegre... por estar no meio de grandes laranjeiras que
produziam frutos deliciosos.., no mínimo eu iria produzir frutos
semelhantes... Assim, comecei a contar a história desta laranjei
ra... enquanto eu ia contando, procurava expressar o que eu sen
tia lá dentro... Quanto mais eu colocava a laranjeira com senti
mentos, mais eu percebia as reações do professor... ele ouvia.. .dife
rente/mente...

Mas a laranjeira era novata, nada sabia, ela queria


aprender a florescer como as grandes laranjeiras... mas o simples
fato de estar florescendo pela primeira vez a deixava emocionâ
da... ela produzia flores, então viriam os frutos... Pelo fato do seu
excitamento, sua robustez, ela exalava um perfume mais inten
so... era diferente... chamava a atenção o perfume de laranjeira
nova... encantava... O carvalho, árvore frondosa, que trazia a
sombra do sol forte e a proteção aos grandes vendavais, foi sen
tindo o cheiro da coisa nova.., quem era essa laranjeira tão pe
quenina, mas tão saliente, mostrando seus ares de curiosa?... As
sim, o carvalho indaga a ansiosa laranjeira... Ela responde que é
nova na área, fora enxertada naquele terreno há pouco tempo,
mas estava gostando de ter ao seu lado. tão grande carvalho
corno protetor... Ele então responde cordialmente ao cumprimen
to dizendo:... É muito bom receber gente nova, ainda viçosa, com
perfume novo, que vem arejar estes ares... Há sempre uma troca,
laranjeira nova.., eu lhe dou sombra... você dá um novo perfu
me...
Hiprioterapia Ericksoniana Passo a Passo 143

Os dois assim entraram num bom diálogo e, dali pra


frente, fizeram um pacto de troca... como estariam sempre por
perto1 seria muito bom que as trocas -se fizessemsempre... A par
te jovem entrava com garra, alegria, entusiasmo e muita vontade
de aprender... A parte mais sábia, mais vivida, entraria com a sa
bedoria... guiandopassos... ihdicando as estações do ano... dando
proteç~o... sombra... carinho e compreensão aos atos impulsivos
da parte nova.., já sabiamente podado pela vida, o carvalho sabia
que haveria tempo de primavera... flores.., que dariam frutos...
mas que viriam longos invernos.., e seria exatamente neste perío
do.., que haveria de se ter força para sobreviver...

O diálogo dura até hoje... enquanto houver vida, haverá


troca... E os dois lados dão e recebem... isto faz a união...

Esta é uma estória que uso muito para dizer que o novo
aprende com o velho, mas o velho aprende também com o novo.

Há sempre trocas... Você pode dar o que você tem de bom,


até sua curiosidade, e com isso receber o conhecimento... o ama
durecimento...

Há sempre o que dar e, do outro lado, o que receber...

O cliente procura o terapeuta para ganhar proteção, vida


nova, luz e caminho e o terapeuta é um eterno aprendiz... ele
aprende com todas as lições que os clientes lhe dão... é um eterno
trocar... -

Divirta-se com estas estórias...

“Porco-espinho”

Conta uma estória que mandaram um casal de porcos espi


nhos para a neve. Eles sentiam tanto frio que resolveram esquen
tar um ao outro, ficando bem juntinhos, mas, abraçados, começa
ram a se espetar com seus espinhos1 um ao outro. Dài que se in
toxicavam com o veneno um do outro, devido à proximidade
exagerada.
144 Sofia M. F. Bauer

Preferiram, então, manterem-se afastados... Mas afastados


sentiam frio.., poderiam morrer... resolveram que o melhor seria
ficarem peTto o suficiente para se aquecerem e longe o suficiente
para não se espetarem...

“Pollyana, o jogo do contente”

Pollyana é um livro infanto-juvenil muito interessante, es


crito por Eleanor Hodgman Porter. Eu gosto muito desta filoso
fia: aproveitar as coisas ruins que acontecem, ver o lado bom...

Quando eu tinha 12 anos minha mãe faleceu... fiquei mui


to abalada porque eu a amava demais... ela era linda, em todos os
sentidos, até na alegria... Na hora do enterro, quando eu não a ve
ria mais, pedi a Deus que me desse força para guardá-la no cora
ção e que eu aprendesse as lições que ela havia me dado até então,
inclusive a alegria de viver... Lembrei dela sorrindo e me dizendo:
“Sofia, olha para o céu, hoje tem. festa de aniversário lá, está cheio
de docinhos de coco, olhe!” (eram aquelas nuvens branquinhas,
pequeninas e ralas). Neste mesmo instante olhei para o céu... ele
estava rosado com o pôr-do-sol... lindo para recebê-la... eu pedi a
Deus que me desse um sinal de que eu daria conta do meu recado•
e de não tê-la por perto... Foi chegando uma freira do colégio
onde eu estudava e me deu um livro... Foi o sinal de Deus... O li
vro era este, Pollyana, que falava do jogo do contente... Saí dali já
lendo e aprendendo que tudo tem um lado positivo... Deus levava
quem eu amava, mas me dava coragem para cuidar de outros que
eu poderia amar e ensinar a alegria de viver... Ali começava mi
nha jornada de fazer alegre aquilo que se entristece...

“Longe é um lugar que não existe”

Quando eu era estudante de medicina, vivia choramingan


do que minha formatura estava longe, muito longe. Era difícil, ti
nha que estudar, dar pla~ntão, ainda cuidar dos afazeres de casa.
Quando eu iria ser médica, quando eu iria ser alguém?! Fazia
aquele tempo ser mais longo do que era, sofrendo o que não era
preciso....
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 145

Mas um dia ganhei um livro de uma pessoa especial, e o


livro se chamava: Longe é um lugar cjue não existe, de Richard Bach.
O nome já me interessou e log.o comecei a lê-lo.

Contava a história de uma gaivota que morava no norte


dos Estados Unidos e que chorava porque sua melhor amiga fora
embora para o pólo Sul num navio. Chorava dizendo que a ami
ga tinha ido morar muito longe.. múito longe...

Mas uma ave amiga, ao vê-la chorar, disse: “Longe é um


lugar que não existe, só existe dentro da cabeça das pessoas. Se
você gosta dela, vá em frente. Sempre em frente. A vontade leva
rá você até o pólo Sul. Pelo caminho, quando estiver cansada,
pare e pense... longe é um lugar que não existe... Eu chegarei lá...”

Ouvindo estas palavras, a gaivota pôs-se a caminho. Foi


voando e de quafido em quando perguntava: Onde estou, falta
muito para o pólo Sul? Ao que os pássaros respondiam que esta
va longe, muito longe. Ela só pensava na frase da ave amiga e
continuava sua jornada. A vontade, a garra e a disposição eram
tão fortes que ela voava feliz...

Aprendeu a admirar as paisagens, o céu, o mar, o canto,


as outras aves, a ver a beleza da natureza... e, com isso, a apre
ciar a passagem por aquela etapa da viagem...

E quando deu por si, ela estava lá junto da amiga no


pólo Sul!

Comigo aconteceu o mesmo e hoje, diante de todas as eta


pas que preciso vencer, eu me lembro.,. longe é um lugar que não
existe...

4. Algumas analogias utilizadas metaforiccimente

“Tênis x frescobol x casamento”

Rubem Alves é um mestre em analogias. Esta analogia do


jogo de tênis com o frescobol vale a pena contar em casos de pro
blemas conjugais.
146 Sofia M. F. Bauer

Ele compara o casamento com um jogo com duas raquetes


e uma bolinha. Há os casamentos que são como jogo de tênis. Os
dois em campo, jogando um contra o outro. Sempre mandando a
bola aonde o outro não pode alcançar. Quando um perde, fica
com raiva e quer revanche. E assim infinitamente a raiva não
passa, ficam liga.dos no ódio. Já no jogo de frescobol, é tudo pela
alegria, fazendo tudo para mandar a bol~ dentro. Quando um
erra,, o outro corre, e faz tudo para pegar a bola errada e manter o
jogo em andamento. Quanto mais os dois jogam, mais se entro
sam e mais acertam as bolas.

Os gansos sabem como é difícil voar sozjnho. Eles voam


em bando. Isso diminui a força que fazem ao voar, cortando os
ares.
Fazem uma formação em V, de tal maneira que um voa
na frente, fazendo mais força que os outros. Logo a seguir, vêm
dois outros, um em cada lado da asa do primeiro, pegando o vá
cuo e assim por diante o resto do bando. Os que vão atrás vão
grasnando, incentivando o líder para que este continue manten
do a força.
Quando o líder cansa, vem à frente o segundo, e o líder vai
lá para o final, descansar. E assim, o bando caminha junto. Quan
do, às vezes, um resolve debandar, percebe que precisa fazer for
ça demais e vê que é preferível retornar ao bando e ter certa pro
teção.

“Neblina”

Quando a neblina baixa na estrada, o melhor é colocar farol


baixo e dirigir devagar. Neste momento, andar depressa, querer
chegar logo, pode ser perigoso... Assim, nesta hora de visão com
neblina, o jeito é guiar devagar... Aos poucos, à medida que o Sol
vai aparecendo... e vai brilhando,., vai dissipando a neblina,., o
caminho fica claro novamente e você pode dirigir ‘ao seu modo...
sempre vendo aonde vai...
l~lípnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 147

“Resfriado”

Quando ficamos gripados, achamos que é o fimdomun


do... que aquele mal-estar não passará nunca... nos sentimos mui
to mal... O mal psíquico age da mesma maneira e, como na gripe,
repouso e tempo rajudam o corpo ou a mente a melhorar.., O si
lêncio, a meditação, a hipnose são maneiras de repousar a men
te... acalma... alivia.., podendo esta encontrar as saídas para aqui
lo que pensava não existir.

“Abscesso”

O abscesso é uma reação do organismo para colocar para


fora um corpo estranho, uma bactéria... Primeiro vem o verme
lhão, o inchaço, o incômodo e a dor... Depois, a deformação do
local e mais tarde, só mais tarde, o abscesso amadurece e vasa,
colocando para fora as bact~rías ou o corpo estranho... É feio, às
vezes até nojento, mas é a maneira que o corpo encontrou para
pôr para fora o que de ruim estava lá dentro...

“Alarme”

Uma vez ouvi do professor Malomar Edelweiss a seguinte


analogia, comparando a ansiedade ao alarme de incêndio.

Ele dizia algo assim:


“O alarme de incêndio está bom quando toca devido ao
fogo que está acontécendo. O alarme estragou de vez se há incên
dio e ele não toca. E o alarme está sensível demais se toca por
qualquer fumaça de um bife na frigideira. Este alarme precisa so
mente ser reequilibrado.”
Existem inúmeras outras estórias, não só as de Rubem Al
ves, mas também de outros autores, da Bíblia, estórias judaícas,
sufistas, etc. O importante é que você pode usar estórias comuns,
e tomá-las pessoais para cada caso. Use dos artifícios aprendidos
e dê a mensagem que o seu cliente pede. Não à sua vontade. Seja
escrupuloso e respeite o desejo do cliente. Outro detalhe impor
tante: não dê demais, você pode cometer um meta fora.
148 Sofia lvi. F. Bauer

Uma vez perguntaram a Buda como ele fez para andar 2.000
km. Ele respondeu que bastou dar o primeiro passo, os outros vieram a
seguir, um depois do outro...

o O O

Quando eu estudava medicina e dava meus primeiros plantões,


ainda não sabia medicar. Levava uma caderneta, aonde eu ía anotando:
para pneumonia dá-se tal antibiótico, tal antitérmico, etc. Cada médico
que eu via cuidando de um determinado enfermo com alguma patologia,
eu anotava na minha caderneta de primeiros socorros as prescrições fei
tas. Precisei dela por um longo período. Um guia para os primeiros pas
sos. Eu a guardo até hoje, uma relíquia, que não mais usei, mas me aju
dou nos primeiros passos...

Conta uma lenda oriental que um jovem pergunta a um mestre


budista como ele poderia meditar.,. já que meditar era não pensar em
nada, coisa tão difícil... O mestre sabiainente deu-lhe a resposta através
de um ensinamento dizendb: — É muito sim pies: não pense em maca
cos!” ...O discípulo foi meditar e então, adivinha em que ele pensou?...
Só em macacos...
Capítulo 5

Técnicas hipnoterápicas

1. Instruções gerais
Neste capítulo veremos inúmeras técnicas de indução.
Lembre-se, são apenas roteiros para orientá-lo na montagem do
seu jeito de fazer indução. É condição essencial adequá-las ao seu
jeito de se expressar, e principalmente ao jeito do seu cliente. A
indução deve ser feita sob medida, adequada aos critérios de
avaliação do seu cliente, na linguagem pessoal dele.
Se você usar exatamente como estão descritas aqui, elas
irão funcionar bem, mas terão muito mais efetividade se forem
adequadas à forma do seu cliente; tornam-se mais pessoais. O
cliente se sente “em casa”, fica mais à vontade no mundo dele.
Por isso, mude palavras, acrescente qualidades, nomes, verbos,
palavras do seu cliente. E, principalmente, use das metáforas que
seu cliente utiliza.
É preciso observar a motivação, acessá-la, fazer ~um bom
rapport.
Outro ponto importante é que toda indução provoca uma
dissociação entre a mente consciente e a mente inconsciente. Dis
socie, mas no final do transe reintegre!
A cada vez que você fizer uma indução sugira, ao final,
que a pessoa entrará novamente naquele estado de transe i~ais
fácil e profundamente confortável. Que virão pensamentos, lem
branças e até soril-ios que nos ajudarão, cada vez mais, a elaboràr
o que se está trabalhando.
150 Sofia IvI. F. Bazier

Pode-se sugerir amnésia parcial ou total1 de acordo com a


sabedoria do inconsciente, que vai proteger o cliente daquilo que
ele não estiver preparado para sentir. “...você pode se lembrar do
que quiser, ou você pode se esquecer de se lembrar ou lembrar
de se esquecer... e o seu inconsciente sábio e amigo vai se lembrar
de tudo aquilo que for bom e saudável e puder ajudá-lo.”
Você pode colocar outras sugestões mais diretas no final
do transe. Sugestões de conforto, bem-estar e o que mais necessi
tar.
Veremos uma série de técnicas e suas indicações a partir
deste ponto.
É bom lembrar que a hipnose está abrindo uma porta para
o inconsciente. Por isso, devemos nos utilizar de todos os meca
nismos da metalinguagem, da linguagem não-verbal, para aces
sar os dois hemisférios cerebrais. Uma voz entonada, calma,
principalmente quando está se fazendo a dissociação mente cons
ciente e inconsciente, trabalha os dois hemisférios. A voz dirigida
à mente consciente fala mais metodicamente; a voz dirigida às fa
las da mente inconsciente, mais melodiosamente. A melodia atin
ge a emoção (hemisfério direito). É como a cantiga de ninar, a en
toada feita bate como as batidas do coração ao adormecer. As pa
lavras mais racionais atingem a razão (hemisfério esquerdo). Fa
zer voz pausada, mudando o tom quando se fala ao inconsciente,
vibrando a voz de forma diferente, respirando pausadamente, fo
cando a atenção; está se fazendo a indução em metalinguagem.

Existem aqueles clientes mais racionais. Você não vai fazer


voz de “fada”, toda melodiosa; ele vai achar graça. Mas, manten
do a. firmeza, a racionalidade, dará a direção da calma, do ir para
dentro, ao modo do seu cliente. Prepare-se para observar e mol
dar a terapia de acordo com cada cliente, O importante é dar a
noção de focar, absorver, ratificar e eliciar o transe hipnótico.
Ao final do transe, é bom perguntar como a pessoa se sen
tiu. Principalmente na primeira e segunda vez. Você terá uma
noção dos fenômenos hipnóticos que ocorreram com o seu clien
te. E assim vo~ê pode usar destes fenômenos num próximo tran
se. Por exemplo: se o seu sujeito é bom de visualização, uma in
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 151

dução através de visualização de um lugar agradável poderá ser


sugerida a posteriori.
Não discuta dobre o que foi feito ao final, atrapalha a am
nésia natural e protetora que ocorre, para que a pessoa tenha
tempo de elaborar o que aconteceu. Mude de assunto, não racio
n~iize. A experiência já foi registrada e a racionali~ação pode
criar defesas e barreiras para que veaham outras coisas lá de
dentro.
O transe pode ser dividido em partes. O processo de absor
ção, em que se observa, através de técnicas, a atenção da mente
consciente. A seguir, vendo que o paciente já mostra a constela
ção hipnótica, rat~ficjue, isto aprofunda o transe. Depois, você uti
liza de técnicas para fazer elíciação e trabalhar terapeuticamente
com seu paciente.
Você deve observar a seqüência, “pacing” (acompanl-iamen
to do passo que o cliente pode dar), em seguida o “leading” (guiá
10 às ressignificações necessárias). Se ele já consegue respirar fun
do, você pode pedir para que sinta algum conforto, e assim por
diante... Só um passo de cada vez...
O tempo de ïndução pode variar de um minuto até uma
hora e meia, dependendo da técnica empregada e do tempo que
seu paciente necessita para eliciar respostas. Se você quer se utili
zar das técnicas de indução rápida (mais clássicas), você levará
um minuto, até pouco mais. Na indução ericksoniana, o tempo
varia de acordo com o cliente e com a técnica empregada. Em ge
ral, em 15 minutos você faz a indução e gasta mais 15 minutos
eliciando e se utilizando do transe hipnótico. Quando se faz re
gressão, ou se utiliza de técnicas como as mãos paralelas de Ei~
nest Rossi, reserve mais tempo, pode durar até uma hora e meia.
Não dá para termos regras básicas.
No meu trabalho reservo uma hora para cada atendimento.
Quando é a primeira consulta, o ideal é ter uma hora e meia de
folga para este atendimento. Isto é para quë vócê possa ter tempo
de colocar a pessoa em transe com calma. Às vezes esta reserva
de tempo não é possível. Você saberá utilizar bem ~eu tempo
para fazer um bom trabalho. Dentro desta uma hora, reservo
meia hora para a hipnose. Prefiro reservar a meia hora final por
que o cliente sai bem, sai mais calmo e não discutimos racional-
152 Sofia M. F. Bauer

mente o que houve. Ele apenas leva a experiência. Tem tempo


para elaborar inconscientemente as experiências vividas e inte
grá-las à sua realidade. Você pode fazer a indução no princípio.
Eu costumo fazê-la quando o paciente chega ansioso demais,
chorando ou sofrendo por algum motivo: dor de cabeça, mal-es
tar etc. Não há regras, varie e crie, deacordo com o seu bom sen
so. Há sessões em que você utilizará somente transe hipnótico.
Haverá outras em que você não se utilizará da hipnose.
Antes de se utilizar dos roteiros, você deve se lembrar do
princípio do sinergismo (similitudes) de Erickson para fazer um
transe exclusivo para cada cliente. Antes de mais nada, a indução
deve ser natural, principalmente quando o transe formal não fun
ciona. Procure o caminho que seja mais natural a ser seguido
para cada pessoa.
Recomendo que leiam Collect papers, vol. 1, para o aprendi
zado das induções naturalistas, onde você poderá ver, nas pala
vras de Erickson, sua maneira de trabalhar.

2.Aposição
A melhor posição para colocar uma pessoa em transe é sen
tada. Você pode perceber mais facilmente a constelação hipnótica
(catalepsia, piscar de olhos, engolir etc.). Como é um estado entre
estar acordado e dormido, o próprio sujeito nota a diferença em
suas sensações, que fica entre os dois estados. E além disso, a
pessoa deitada dorme mais facilmente. Existe um treinamento
budista de meditação para se alcançar o transe estuporoso, em
que você fica sob transe mais profundo, sem adormecer e aberto
ao mundo. Para nós ocidentais, este transe é muito difícil, requer
treinamento. Passamos ao sono com facilidade. Devemos evitar,
neste período de transe, que a pessoa adormeça. O trabalho deve
ser feito em transe; se a pessoa adormecer, acorde-a. Você. poderá
fazê-lo chamando-a baixinho, ou apenas inspirando profunda
mente e respeitando a resposta demorada da volta. Caso isto não
baste, toque-a de leve, avisando-a antecipadamente.
Além de a pessoa estar sentada, convide-a a descruzar bra
ços e pernas, tomando uma atitude de abertura, ficando de fren
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 153

te, para você observar melhor as reações da constelação e os fenô


menos hipnóticos.
Nunca toque no cflente sem antes avisá-lo. Ele pode tér
unia percepção alterada. Um leve toque pode parecer uma paula
da.
154 Sofia M. E. Bauer

“Domine sua agitaçdo!


Só as criaturas calmas podem ser totalmente eficientes.
A agitaçflo cansa e produz tudo malfeito.
A prèssa é inimiga da perfeiçilo.
A calma é o segredo daqueles que realizam tudo bemfeito.
Quanto mais trabalho, maior deve ser a nossa calma.
Domine sua agitap70, permaneça sereno, e tudo lhe sairá bem.

(Minutos de sabedoria, C. Torres Pastorino)


I-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 155

3. Indução de relaxamento progressivo


Quando vamos fazer uma indução, lembremo-nos de al
guns princípios fundamentais para o estabelecimento da aliança
terapêutica.

Motivação é muito importante o~paciente estar motiva


do para querer algo novo que vai ajudá-lo. Desenvolva a motiva


ção antes. Vemos que é muito fácil colocar um queimado ou uma
pessoa com dor em transe; há uma motivação enorme para sair
do sofrimento.

Rapport — a segurança ao dizer “vem comigo”, para que a


pessoa possa segui-lo como um guia, um “lanterninha” de cine
ma que indica os lugares onde o cliente possa se “sentar”; ele
precisa confiar, se entregar. Há pessoas com maior dificuldade
de entrega. Necessitam de controle. Dê-lhes o controle e elas se
colocarão predispostas para relaxar, porque relaxar o corpo ajuda a
relaxar a mente. Como diz o professor Malomar Edelweiss: “A
cada tônus muscular corresponde um tônus mental, e vice-ver
sa.”
Então estabeleça que o que vocês vão fazer é um relaxa
mento e que ele é proveitoso de todas as maneiras.
Tire as dúvidas sobre o que a pessoa entende por hipnose,.
se ela já foi hipnotizada. antes, se já fez algum curso de controle
da mente, ioga etc. Você fará uma comparação mostrando que o
caminho é o mesmo. Tire as dúvidas quanto aos mitos, caso a
pessoa os tenha.
Assim, depois de motivá-la, estabelecer a confiança, você
pode colocá-la numa posição confortável. Sentada, de preferên
cia, pois nos dá maiores referências sobre a constelação hipnóti
ca, em que nível de transe o sujeito está. Além do que, a pessoa
percebe a diferença do estado alerta para o transe. Muitas vezes,
quando a pessoa deita, passa direto ao sono.
Não há necessidade de ser uma poltrona excepcionalmente
confortáveL Milton H. Erickson hipnotizava em cadeiras bem
desconfortáveis e todos entravam prontamente em transe por sua
motivação.
156 Sofia M. F. Bauer

Posicione-se de frente ao seu cliente, de pernas e braços


descruzados, e peça a ele que faça o mesmo. Isto porque se acre
dita que a postura fechada leva a não se abrir ào novo. Sevocê
for fazer levitação das mãos, a pessoa estará com os braços cata
lepticamente mais presos. Além do que, um braço ou uma perna
pesa sobre a outra; durante o transe, por causa do fenômeno da
catalepsia.
Ao se posicionarem, você já pode começar o transe não-
verbal, respirando profunda e suavemente e fechando seus olhos
por alguns segundos. Se a pessoa o seguir, ela já está responsiva.
Aqui começa o transe:

Você pode fechar seus olhos...


Permita-se respirar profundamente, calmamente e sinta
sua respiração...
Como é gostoso poder parar por alguns instantes.., dar-se
algum tempo... Um tempo para se voltar para você mesmo...
De olhos fechados para fora... Você pode abrir os seus
olhos internos.., olhos que vão poder olhar (sentir) você lá den
tro...
Respire... inspirando calma... mente... solta... mente... abrin
do o peito para uma novà inspiração.., abrindo o peito apertado
de sentimentos (sofrimentos /pensamentos)...
Trabaihar a angústia... angústia... é uma palavra que vem
do latim... significa peito apertado...
Sua mente consciente pode ir ouvido estas palavras que
vão guiando você.., enquanto sua mente inconsciente pode sá
bia/mente ir fazendo sua própria viagem de conforto...
Inspirando... abundo o peito... um novo fôlego... Expiran
do... Ex/pressando... aquilo que fica preso lá dentro...
À medida que você faz esta respiração solta/mente... gos
tosa.., você pode ir se soltando aí no sofá (cadeira), sentindo o
seu corpo, seus pensamentos... que partes estão mais tensas...
Mas não faça força... nem mesmo força para não fazer for
ça... Deixe as coisas acontecerem naturalmente... Até mesmo os
pensamentos... sem julgamento.
J-lipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 157

A respiração vai ajudando você, digerindo, limpando.., le


vando oxigênio a todas as suas células... Tetirando o gás carbôni
co e todas as toxinas que ficam presas lá no fundo... Abrindo...
Soltando... Protegida/mente, pelo seu inconsciente...
E assim, enquanto sua mente consciente vai percebendo
pequenos ajustes, a sua mente mais profunda vai fazendo as mii-
danças necessárias, buscando seus recursos interiores; porque aí
dentro de você há um reservatório de bons recursos para ajudá
lo a se sentir bem, agora!...
E você pode ir percebendo seu corpo... Ir soltando seus
pés... Sinta os seus pés no chão, dentro dos seus~ sapatos... você
pode apoiar seus pés e se deixar ir para dentro mais e mais... Que
coisa boa é podermos nos apoiar protegida/mente...
Enquanto você solta seus pés e os sente... Pode ir soltando
as perhas... o pensamento calma/mente... solta/mente... alivian
do cada tensão muscular...
Pode jr sentindo as pernas apoiadas ao sofá (cadeira), dei
xando-as aí ficarem... Pode ir soltando quadris.., abdômen... sol
tando peso... tensão...
A mente consciente focaliza, localiza... A mente inconscien
te desliza, solta, relaxa... Porque é sua parte sábia que ajuda você
a descobrir algum conforto, paz e relaxamento...
Vai soltando o peito... a respiração... Soltando as costas nas
costas do sofá (cadeira), vértebra por vértebra.., músculo por
músculo...
Você pode se deixar ir, soltando... relaxando... enquanto
sua mente inconsciente já trabalha sabiamente para ajudá-lo em
suas questões (...) ... Soltando... Relaxando.
E o corpo... pescoço... nuca... soltando, relaxando... alivia
da/mente.
E você pode sentir a cabeça, os músculos da cabeça, da
face... que coisa boa que é poder se dar algum tempo... Tempo dé
revisão... Tempo de soltar... Tempo de aproveitar... Aproveite
saudavel/mente este momento...
A esta altura... eu vou observando mudanças em você...
Enquanto eu fui falando... sua pulsação mudou... seus batimen
tos cardíacos se tornaram mais compassados... seu rosto está com
158 Sofíci M. P. Bauer

uma expressão mais suave... (e assim por diante, vá colocando


aquilo da constelação hipnótica que você percebe e que ajude a
pessoa a relaxar ainda mais... Observe.bem antes de falar).
Como disse um professor meu, em suas induções: tudo é
questão de treinamento, quanto mais a gente treina, mais e mais
aprende... Desde pequenino, levou algum tempo no aprendizado
do caminhar, andar com suas próprias pernas. Primeiro, foi aju
dado pela mão de um adulto, que lhe deu o apoio; depois a von
tade era tão grande de andar, que você foi querendo dar seus
próprios passos sozinho. Às vezes caía, mas levantava, caminha
va lento e tropegamente, mas queria aprender. Quanto mais você
treinava, mais você aprendia, até que você aprendeu a andar com
suas próprias pernas. Andou, correu, brincou, coisas que sabe fa
zer até hoje. Sua mente inconsciente, hoje, não pensa para fazê
las. Simplesmente o faz! Os aprendizados vão sendo armazena
dos dentro do nosso inconsciente e este os guarda como uma fon
te de recursos! que pode ser processada autornatica/mente, pro
tegida/mente... para lhe ajudar... em qualquer momento de sua
vida... Pois foi assim também quando você foi para a escola
aprender a ler e escrever... Levou tempo treinando e aprendendo
cada letra, seu som e formato... juntando as letrinhas e formando
palavras.., vendo as diferenças entre as letras... o m com três per
ninhas, o n com duas... a diferença do p para o b e juntando le
...

tras foi formando palavras.., e treinando você foi aprendendo,


automaticamente, a utilizá-las. Hoje, você lê e escreve automat
icamente, sem ter que pensar... Seu inconsciente toma conta de
seus aprendizados, daquilo que saudavel/mente, automat
icamente, você pode utilizar em seus aprendizados... E, como
todo aprendizado, vai sendo armazenado em seu favor, lá no
fundo da sua mente, para você utilizar quando quiser... Você
também faz novos aprendizados, todos os dias... Além de poder
reaprender muitas coisas boas e novas a cada dia. Quanto mais
você treina, mais você é capaz de ir aprendendo tudo o que você
realmente desejar. A vida é assim... O que é preciso é você querer
mudar... treinando..., aprendendo... e sua mente inconsciente
pode ajudá-~io com uma fonte inesgotável de recursos que você
tem. Aproveitando.., relaxando... Um novo momento de aprendi
zado.., e você pode ir aprendendo a respirar... inspirando um
novo fôlego... expirando as toxinas lá de dentro... soltando o cor-
l-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 159

po para soltar a mente.. saudavelmente... e assim, das próximas


vezes em que você entrar em transe, você poderá se aprofundar
ainda mais nesta viagem de bem-estar.... agora, aqui,. võcê levará
a saudável sensação de bem-estar para um resto de dia (noite)
agradável1 assim como novos dias agradáveis.., em que virão
pensamentos, sonhos, lembranças, que te ajudarão, cada vez
mais, a realizar o que você deseja: equilibrar.., restaurar... recupe
rar... aprendendo a cada momento... mais livre/mente...
Assim, agora respire gostosamente e vá se trazendo sere
na/mente ativo, ativa/mente sereno, bem desperto aqui, de volta
à sala... ouvindo os sons ao redor... ouvindo a minha voz e se
reorientando a este. momento... mantendo o bem-estar...
Se você quiser pode se lembrar do que foi dito, ou pode
esquecer de se lembrar... ou pode deixar por conta da sua mente
inconsciente ir lembrando você daquilo que for necessário, no
momento em que for necessário...
160 Sofia M. F. Bauer

Segundo uma lenda oriental, você nasce com determi


nado número de respirações. Caso você respire acelerada
mente, você vive menos. Caso você exercite o respirar com
calma e pausadainen te, terá longevidade...
Nota-se que a respiração é rápida e superficial, quando
estamos com muita atividade física ou psíquica.
A pessoa ansiosa e agitada respira rápido e curto...
Exercícios de respiração promovem, a alteração dos dois
hemisférios cerebrais... promovem a calma.
HípnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 161

4. indução da respiração
A respiração é considerada uma boa metáfora de limpeza,
saúde, vida. A respiração processa mudanças de purificação e
vida.
Veremos um roteiro em que eu juntei algumas técnicas de
indução através da respiração, com uma técnica budista, o ar
azul.
Sabemos que o transe é atingido através da absorção; no
caso, a absorção será a focalização na respiração do cliente. Você
não precisa fazer exatamente como vai aqui. Utilize sua forma
pessoal.
Agora se permita colocar-se à vontade,,, fechando os
olhos... procurando perceber sua respiração, corno ela acontece
em você.., apenas repare... e vá soltando o corpo no sofá (cadei
ra), sentindo seus pés apoiados ao chão... não fazendo força algu
ma... calma/mente se deixando ir para dentro de você mesmo...
deslizando.., sentindo. A respiração é algo que faz parte de
nós... nos dá a vida a cada minuto que respiramos... Levando na
inspiração o oxigênio a todas as nossas células... a quantidade
~erta que elas precisam para se multiplicar, mudar, viver.., e reti
rando/digerindo... na expiração as toxinas e o gás carbônico... le
vando vida nova abrindo soltando Nós vamos fazer um pe
queno exercício de imaginação.., em que você pode imaginar...
visualizar sentir mas não se esforce para fazê-lo faça auto
maticamente... é um exer~ício ‘de respiração... Traz alívio e bem
estar... e você pode experienciar...
Enquanto sua mente consciente vai aprendendo a fazê
lo... sua mente incon~ciente vai usufruindo do prazer das trocas...
trocando saudavel/mente.~. digerindo... deslizando... Então você
pode imaginar um céu muito azul..., de um azul muito suave, bo
nito e limpo.., onde o ar também é azul...
Imaginando.., visualizando õu sentindo.., o ar entrando
azul na sua inspiração.., inspirando azul,.. sentindo seu peito se
abrindo.., o azul entrando e aliviando.., acalmando... levando os
aspectos positivos.., o bom.,.. e deixando sair na expiração... um
ar cinza.., carregando o gás carbônico e as toxinas que ficam pre
sas lá dentro de você.., entrando o azul que acalma... abre o pei
to.., alivia.., dá fôlego... saindo os aspectos negativos... cinza.~.
162 Sofia M. F. Bciuer

Isso... experimente... Entrando o azul... que trabalha a angústia...


o peito apertado... saindo o cinza... carregando... expressando o
que fica preso lá dentro... Isso mesmo... pei~mita-se expei~ienciar
abrir-se para o novo, o calmo, o azul, e deixar sair o que fica aí
preso... digerindo... respirando vida... paz... aprofundando seu
bem-estar.
Passe para a ratificação. Ratifique as mudanças não só da
respiração, mas as que você observa, em cada detalhe.
Em seguida, utilize sua criatividade, elicie as possibilida
des, os r~cursos da pessoa. Você pode criar metáforas ou trabalhe
com o que você achar melhor. Depois reintegre a pessoa e termi
ne o transe, reorientando-a para o estado de vigília.
I-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 163

“O monge budista e a ajuda”

Um monge budista caminhava pelas ruas de uma grande cidade,


tendo ao seu lado um discípulo. Ambos avistaram um homem caído ao
chão. O monge manteve o rosto impassível e seguiu seu caminho, O dis
cípulo olhou para o mestre, olhou para o homem caído e esboçou um ges
to em direção ao chão, com a intenção de ajudar o homem a se levantar.
O mestre impediu e indicou-lhe para continuar sua caminhada. Cami
nharctin em silêncio, cada qual absorto em seus próprios pensamentos. O
discípulo não compreendia a atitude de seu mestre, que sempre lhe ensi
nou a buscar a felicidade do próximo, a ter sentimentos de fraternida
de... Como entender isto agora?
Depois de caminharem algum tempo, o mestre disse: você está
buscando entender o que aconteceu, vou lhe ensinar o seguinte: quando
você encontrar um semelhante ctiído, fazendo algum esforço para se le
vantar, mesmo que seja movendo apenas o dedo mindinho, ajude-o, mes
mo qz.ie corra o risco de quebrar a espinha, vale a pena. Se você encontra
alguém caído, observe-o: se não faz nem um gesto mínimo para se er
guer, deixe-o e siga seu caminho, pois certamente você quebrará sua es
pinha.
164 Sofia M. F. Bauer

5. Indução da levitação das mãos


Esta é uma indução que ajuda a mostrar ao cliente que ele
está em transe e que tem uma força maior, seu inconsciente, que
é capaz de fazer muitas coisas que ele pensa que não consegue.

A levitação das mãos é uma resposta ideomotora. Um fe


nômeno hipnótico que acontece naturalmente e que, ao ser su
gestionado na indução, vem como resposta. Os iniciantes têm um
certo receio de fazê-lo porque acham que vão falhar, que seu
cliente não responderá. É preciso, antes de tudo, em qualquer in
dução, estabelecer o rapport. O paciente confiante se deixa ir para
dentro, acessar estas forças e recursos inatos dentro dele mesmo
e assim experienciar a resposta com a levitação das mãos e bra
ços. Muitas vezes a resposta é demorada. É preciso dar tempo
para que o cliente responda. Pode ser que, depois de algum tem
po, quando você acha que o cliente não vai mais responder, ve
niaa a resposta. Por outras vezes o cliente apenas alu.cina que le
vitou a mão, que o fez; mas na verdade, ele só alucinou. Você ob
servou e o cliente manteve a mão abaixada. Mesmo assim, ao ter
minar o transe, o cliente lhe diz que a levitação foi ótima. Juntou-
se aí outro fenômeno hipnótico, a alucinação positiva. Por isso,
espere retirar a pessoa do transe, e investigue como foi este exer
cício para o seu cliente. Normalmente a resposta vem. Você pode
dar uma pequena ajuda, avisando (é importante avisar, quando
for tocar num cliente, para ele não se assustar) que você vai tocá
lo e ajudá-lo a ir descolando os dedos. Ou por outra, caso não
veja resposta, simplesmente diga: ~ e sua mão é que vai esco
lher... talvez prefira ficar quietinha agora... experienciando des
cansar... relaxar devagar.., e aproveitar os benefícios de assim fi
car...”.

Mas vamos à indução:

Você fai~á sua indução ao seu modo, com absorção da men


te consciente, com ratificação e eliciando a resposta ideomotora
da levitação das mãos. Lembre-se de que existe um roteiro. Mas
nós não somos uma rede de sanduíches prontos, iguaizinhos a
receita de bolo. Modifique, crie, acrescente, retire. Faça sob medi-
l-{ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 165

da para o seu cliente, na linguagem dele. Contudo, darei um ro


teiro que, espero, seja sujeito às suas criações.

Absorção
Como é.bom você, hoje, aqui, se colocar novamente à von
tade para ir lá para dentro. Fechando os olhos... soltando o cor
po... se deixando ficar confortavel/mente bem colocado... Apro
veitando e desfrutando protegidamente da sua respiração... Ins
piração... tomando um fôlego novo e gostoso... soltando o ar e as
toxinas presas lá dentro... Inspirando... Expirando... Soltando...
Protegidamente...
E à medida que sua mente consciente ajuda você a se colo
car à vontade.., a sua mente inconsciente, automaticamente vai
suavizando suas sensações... emoções... pensamentos... você
pode ir sentindo seu corpo e colocá-lo à vontade.., cada momento
suavizando.., soltando... relaxadamente... sentindo seus pés,
como eles estão apoiados ao chão... A mente consciente vai
guiando para você ir se soltando... enquanto a mente inconscien
te vai sentindo o conforto e bem-estar que vai se instalando...
porque a sua mente mais profunda sabe guiar você melhor do
que você imagina...
Que coisa boa que é poder sentir seu corpo se soltando...
pernas.., coxas... enquanto ainda pode perceber alguns sons (da
sala, ambiente)... soltando o abdômen... peito... soltando o peso
dos ombros... costas... vai permitindo sentir o bem-estar de ficar à
vontade.., em que não é preciso fazer força alguma... cabeça...
pescoço... também soltando... suavizando... protegidamente...

Ratificação
Você pode ir notando... pequenas modificações... no tô
nus muscular... na sua respiração mais calma... mais ritmada...
sua pulsação mais tranqüila/mente ritmada.., os músculos da
face se soltando, suavizando... (aquilo que você perceber).
A hipnose é uma maneira de aprender sobre você mes
mo... num nível diferente de sentir... em que experiências aconte
cem... em que você se permite ficar à vontade com você mesmo...
166 Sofia M. E. Bauer

E sua mente inconsciente pode desfrutar deste tempo


gostosamente...

Eliciação
Em um momento vou pedir algo especial a você.., não é
necessário fazér nenhuma força para isso... basta deixar que sua
mente mais profunda possa ir fazendo por você.., trazendo uma
sensação agradável daquilo que ela é capaz de atingir...
E que coisa boa é poder experienciar a força que vem de
dentro... e você pode ir sentindo.., seu corpo... que partes estão
mais pesadas... ou mais leves.., ir sentindo suas mãos... focalizan
do a atenção nelas... e você pode experimentar ir descolando uma
de suas mãos do colo.., a que você quiser... até mesmo as duas...
mas não faça força... deixe que a mão vá fazendo o movimento
com uma força que vem de dentro... ela vai descolando e subindo
em direção ao seu rosto... suave/mente.., e você sentirá a sensa
ção agradável e boa que é experienciar coisas novas.., que vêm de
dentro... subindo devagarinho... descolando aos pouquinhos...
A mão sabe o caminho de chegar ao rosto sozinha.., ela
vai indo... (à medida que ela for subindo)... Isso mesmo... expe
rienciando fazer algo novo.., a sensação de leveza e bem estar vai
acompanhando você... Você pode experimentar mover e fazer
algo novo... A sua mente inconsciente é capaz de fazer movimen.~.
tos novos para você... (Ao tocar o rosto)... e tocá-lo de uma forma
especial e agradável.., sentindo... tocando... movendo.., e aos
pouquinhos, depois de tocar seu rosto e senti-lo.., você pode ir
descendo sua mão até tocar seu colo novamente...
Essa é umã experiência nova.., aquilo que a sua mente
inconsciente/mente sábia pode fazer de novo e interessante por
você... Assim como agora, ela poderá mover muitas outras coisas
que você desejar, no seu tempo, ao seu modo e no seu ritmo...
Mudando... Acrescentando... Criando...
E agora, depois desta agradável experiência.., você pode
ir voltando devagarinho aqui para a sala... bem disposto... sere
namente alerta... respirando saudavelmente...
Quando a pessoa não levitar mude um pouco para:
HipnoteraP~~ Ericksoniana Passo a Passo 167

Mas se sua mão preferir ficar quietinha neste momento...


tambéfl~ deixe-a experienciar a sensação agradável de se permitir
repousar como está... Virão outi’os momentcis defazer movimen
tos lá dentro, na hora mais oportuna para você.., desfrutando
protegidamehlte deste descanso gostoso...
A levitação de mão é feitá para ver até que ponto o sujeito
recebe como seu algo que se sugere como uma indicação de com
portameflto. Você tem uma base para observar o que é necessário
fazer para que mudanças ocorram.
168 Sofia M. F. Bauer

O silêncio traz o equilíbrio.., coloca você em contato com


sua potencialidade pura... seu inconsciente...

Aqueles que querem orar procuram um lugar calmo...

Você pode achar um lugar calmo dentro de sua alma...

“...Olhe sempre o lado belo da vida. Enquanto uma mosca


busca uma única ferida num corpo inteiramente limpo,
-uma abelha é capaz de achar uma única flor no meio de um
pântano. Seja como a abelha, mesmo que tudo à sua volta
seja lama, você há de encontrar uma flor que venha adoçar
sua vida. Olhe o lado belo da vida...

(Minutos de sabedoria, C. Torres Pastoririo)


Wpnoterapía Ericksoniana Passo a Passo 169

6. Indução de um lugar agradável


Esta é uma indução para proporcionar ao cliente um tipo
de lugar de proteção. Ele pode usar esta técnica para fazer auto
hipnose. Para se colocar neste local protegido em momentos de
ansiedade ou insegurança.
Comece por uma indução natural, do modo que você qui
ser, não necessariamente como vai escrito neste roteiro. Depois
de estar com seu cliente Já confortável e responsivo, mostrando
alguns dos itens da constelação hipnótica, leve-o ao lugar agra
ciável.

Aqui vai um roteiro completo:

Permita-se ficar à vontade.., colocando-se confortave].


mente no sofá (cadeira)... e você sabe que, ao fechar seus olhos...
você pode abrir seus olhos internos.~. os olhos da mente que vão
observar seus sentimentos... o que está se passando lá dentro... é
mais urna oportunidade para você se permitir descobrir uma for
ma de ficar em segurança com você mesmo... Assim, daqui a
pouco... pouco a pouco... você vai indo para dentro... entrando
em contato com sensações/sentimentos de conforto e bem estar...
Você vai respirando... abrindo o peito na inspiração.., levando
vida.., oxigênio... um fôlego novo.., e, à medida que você inspi
ra... sua mente consciente vai acomodando seu corpo conforta
veirnente no sofá... e sua mente inconsciente vai lhe levando para
uma viagem... sensações/sentimentos... porque sua mente in
consciente sabe dos caminhos.., lugares, que conduzem ao bem
estar... e você pode ir desfrutando protegida/mente de um esta
do de bem-estar aí dentro de você.., inspirando... oxigênio... paz...
tranqüilidade... expirando.... gás carbônico... sentimentos aperta
dos... aliviando...

Ratifique:

Daqui onde estou, eu já observo mudanças em você.., no


ritmo respiratório.., mais suave.., no seu tônus muscular... mais
solto.,, suave... deslizando.., desfrutando protegidamente... na
sua face mais relaxada.,. na sua coloração...
~~ue coisa boa desfrutar de um bem-estar...
170 Sofia M. F. Baue’r

Elicie:

E você pode aumentar sua segurança, seu bem-estar...


imagine... visualize.., una lugar especial... agradável.., pode ser
um lugar conhecido ou imaginado.., pode ser uma praia, um mar
agradável.., ou pode ser o alto de uma montanha... ou talvez um
vale cbm um rio ou um campo de flores.., pode ser o que você
quiser... até mesmo seu quarto... mas se deixe imaginar este lugar
em cada detalhe... a cor do céu... que mais lhe agradar... a tempe
ratura do ambiente que mais lhe agradar... a brisa do ar? O tem
po está gostoso... permita-se visualizar cada partezinha deste lu
gar só seu... cada planta... cada flor.., se água... como é esta
água... a cor... os barulhos... se há animais/passarinhos...
Veja lá o que você quiser... e se coloque neste lugar...
num cantinlao agradável... Protegidamente confortável.., com paz
e tranqüilidade.., desfrutando do bem-estar de poder ficar à von
tade... respirando~.. soltando... e deixando que sua mente incons
ciente sabiamente amiga possa trabalhar por você agora... E as
sim1 toda vez que você se sentir com vontade você pode ir para
este lugarzinho aí dentro de você... protegidamente recuperar
seu fôlego, sua energia... seu bem-estar... Vou lhe dar alguns mi
nutos... utilize-os como se fossem todo o tempo do mundo.,. para
você curtir una bem-estar protegidamente... curtindo.., soltando...
desfrutando... (dê dois minutos mais ou menos, de acordo com
cada pessoa). Faça apenas um sinal com a cabeça quando você
estiver lá no seu lugar agradável para que eu possa saber, logo
que você o visualizar.., e agora... você pode ir voltando devagari
nho... se trazendo serenamente bem desperto e cheio de energia
aqui para a sala agora... respirando uma, duas ou três vezes, vá
voltando... completamente alerta e bem disposto... sabendo que
você pode voltar a este lugar agradável sempre que necessitar...
ele é seu... até mesmo criar outros novos lugares do seu agrado...
Voltando bem disposto, para um resto de dia agradável, em que
você levará este bem-estar que é uma conquista sua...
flipnoteraPia Ericksoniarta Passo a Passo

Trabalhe o que traz pressão


— despressurize.
Trabalhe o que traz medo —faça, e o medo se vai.
Confie em você, acredite em você.

o~ o

Tudo tem dois lados... o mal e o bem... o triste e o ale


gre... anoiteeodia...

Descubra o outro lado da sombra e verás a clareza onde po


des continuar a guiar teus passas...

000

Uma. vez Thelonious Monk, o monstro sagrado do jazz, foi


interrogado por um jornalista sobre como se sentia diante
de tanto sucesso, ao que naturalmente respondeu:
— Eu me sinto do meu tamanho!
172 Sofia M. F. Bauer

7. Técnica passo a passo em cima do sintoma


As pessoas criam hábitos que, mesmo sem perceberem, se
guem uma seqüência. O sintoma, como já sabemos, é a expressão
do inconsciente de que algo não vai bem. Ele também segue uma
seqüência em sua manifestação. Ele acontece por partes. Primeiro
um espirró, depois a sensação de sufoco, depois a taquica~-dia, o
suor frio, o tremor e o medo de morrer, por exemplo. Isto é uma
seqüência de como o pânico se manifesta num paciente.
Nesta técnica há dois objetivos. O primeiro, ressignificar o
que para o paciente leva ao pânico; o olhar enfocado em algo
ruim. O segundo, injetar um vírus na seqüência que determina o
problema. Quando você muda os passos, muda o padrão e assim
muda a forma corno o problema é gerado.
É uma técnica muito simples que aprendi com Jeffrey K.
Zeig. Como é uma técnica passo a passo, você seguirá passos.
Com o tempo, aprenderá a fazê-lo automaticamente. Utilizando
cada passo da pessoa até a criação do problema, ressignificando
e criando a indução com estes mesmos passos, só que ressignifi
cados. O paciente já conhece esse caminho, por isso ele já vai
automaticamente. Ele só não percebe que, inconscientemente, es
tamos mudando a visão daquilo que era negativo para um enfo
que positivo.
Vamos aos passos:

1 Pergunte com o que se parece o problema da pessoa.


Ela vai lhe dar a metáfora que você poderá utilizar


mais à frente.
2— Pergunte como o problema acontece. Peça uma se
qüência. O que vem primeiro, depois e depois. Anote
no mínimo cinco passos desta seqüência. Você vai uti
lizar estes mesmos sintomas, problemas, ressignifican
do-os.
3 Em seguida, crie uma indução em que você colocará os

passos ditos de uma forma que se transformem em


passos positivos.
4 Utilize, você já sabe como fazer.

flipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 173

Veremos, a seguir, um exemplo desta indução. Não é pos


sível criar um roteiro único, porque cada pessoa terá o seu sinto
ma e a sua seqüência. O que você terá~em mente é o seguinte:

Indução através dos mesmos passos.


Na indução tenho três etapas a cumprir —absorção, ratifi
cação e eliciação. Durante a absorção vou introduzir a seqüência
de passos, ressignificando o que é negativo e desta maneira inje
tando um vírus bom que muda o problema para calma, bem-estar,
etc.

Deve-se, então, utilizar os passos do cliente, dentro da ab


sorção, para colocá-lo:
— bem acomodado;
— respirando mais tranqüilamente;
— relaxando o corpo;
— voltando-se para dentro em busca de soluções;
— descobrindo que pode se acalmar.

Vamos ao exemplo:

Rapaz deprimido devido a síndrome de pânico, que não


lhe permite mais fazer as coisas normais da vida Fica preso dentro
de casa, só enxerga as coisas como se elas fossem desabar sobre sua
cabeça. A pressão é muito forte.
Com que se parece seu problema? Afundando num buraco.

Os passos de çomo ele entra em pânico:

1 pensa em algo sistematicamente;


2— respiração curta;
3 suor nas mãos;

4— não vou dar conta, vou cair;


5 não quero sentir, mas já estou sentindo medo

A expressão usada pelo paciente para o seu problema é


afundar num buraco. Que tal, já que ele se afunda tão bem, afun
dá-lo num lugar seguro e protegido1 do qual poderemos retirar a
pressão?! Eis a nossa meta.
174 Sofia M. F. Bauer

Existem algumas palavras que podemos aproveitar para


ressignificar. Elas já fazem parte do vocabulário do cliente. Pode
mos apenas mudar o significado. São elas: coisas normais, ficar
preso, enxergar, desabar, pressão.

Assim, durante a indução fui dizendo...

E você pode fechar seus olhos agora... ir lá para dentro...


onde só você enxerga a pressão... e então pensar em algo bom, sis
tematicamente... aprendendo a ficar preso no bem-estar...
Você pode ir desabando seus pensamentos em algum lu
gar aí dentro de você... de modo que você pàssa respirar e a curto
prazo... sentir ficar preso no bem-estar... Inspirando e abrindo o
peito... Soltando o súor que fica preso às suas mãos... e a cada vez
que você respira... a curto prazo vem o bem-estar... e assim você
pode ir afundando na sensação de paz... e cair na tranqüilidade se
gura de ficar preso na segurança que vem lá de dentro do seu pei
to... e, desse modo, você já estará sentindo alguma diferença em
afundar na calma que traz a luz e a liberdade...
Isto é apenas parte de uma indução. Divirta-se.
Procure seguir os passos do problema para guiar à solução
e vá criando induções únicas para aquele momento.
Uma outra maneira de usar a técnica passo a passo é usar
do princípio do sinergismo de Erickson que citei em Indução na
turalista, no capítulo 3. Mesmo sabendo a indução formal, exis
tem ocasiões em que precisamos seguir pelo sintoma do cliente e
fazê-lo nosso instrumento de indução.
Vou citar outro exemplo de Erickson:
Uma mulher que viera procurá-lo por não conseguir entrar
em transe e relaxar para tratamento dentário. Ela ficava rígida e
depois chorava. Não conseguia, de tão rígida que ficava, sequer
fechar os olhos.
Erickson pediu a ela que só ficasse rígida por enquanto, o
máximo que pudesse, e que rigidamente fosse ficando na cadei
ra, e que rigidamente fechasse seus olhos e rigidamente se manti
vesse completamente quieta. Até este ponto ele usou da primeira
metade do que lhe atrapalhava. Em seguida ele lhe disse que eia
também poderia até chorar, mas que seria mais agradável soltar-
l-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 175

se relaxadamente e entrar em transe profundo, ao que ela respon


deu prontamente. Por isso, você pode usar a técnica “passo a
passo”1 seguindo as similitudes do sintoma, para indução e até
solução.

8. Técnicas de entrernear palazras


Esta técnica segue o mesmo padrão. Veja as palavras-chave
que a pessoa utiliza constantemente e que podem ajudá-la em
seu problema, se forem ressignificadas.
Utilize delas, durante o transe, mudando a entonação de
sua voz e mudando o sentido enfocado pelo paciente.
Por exemplo: perder peso. É algo tido como muito difícil
pelos pacientes obesos. Eles detestam pensar em ter que perder.
Mas você pode res~igrdficar, perder o que é feio, ganhar leveza.
Perder tristeza, decepção.
Milton H. Erickson era mestre nesta arte. Sempre que po
dia elç entremeava alguma palavra comum ao cliente mas com
novo sentido.
Experimente, você vai gostar. Faça isso também na sua
vida pessoal.
176 Sofia M. F. Bauer

Quando você descobre um caminho novo que te leva ao


paraíso...
Você só quer segui-lo...

O silêncio fiz parte do ser humano... É uma das manei


ras de encontrar-se...

Para chegar ao seu silêncio você também precisa de tempo


e treinamento.
l-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 177

9. Técnicas de ap’rofundarnento do t~ranse


Você pode usar das t&nicas deste i~em para aprofundar o
transe. Elas não servem só para aprofundamento do transe, são
muito boas como indução geral. O que observo é que natural
men~te servem corno um modo indireto de aumentar o nível do
transe.
Caso você tenha um paciente mais difícil de entrar em
transe, primeiro demore mais tempo na indução, fale mais com
passado e utilize de alguma destas técnicas que passarei a des
crever.
Mas, antes gostaria de dizer o que observo dos pacientes
mais difíceis de entrar em transe. Talvez isto possa ajudá-lo.
Normalmente são pessoas controladoras, têm medo de perder o
controle. Então dê o controle a elas, a questão do one up já vista
no início do livro. Você a deixa conduzir o próprio relaxamento.
Ela vai até onde quiser. Sempre enfatize que, quanto mais ela se
sdfta (para ela mesma, é claro!), mais ela aproveita esta liberdade
interior de criar. Outro tipo difícil, é a pessoa que tem um diálo
go interno constante. Neste caso, o melhor é utilizar da confusão
mental que você verá logo à frente. Também aqui se encaixam as
pessoas que tiveram uma experiência anterior desagradável.
Neste caso, vá devagar, prestando atenção ao pacing e ao leading.
Dê garantia de tranqüilidade, e de que poderá sair do transe
quando ela quiser. O paciente com traços obsessivos tem medo
de perder o controle, Enquadre, molde, dê alguns comandos de
controle para ele.

Fracionamento de Vogt
Esta técnica chama-se fracionamento porque ela vai divi
.dindo o transe em pequenos transes. Você faz uma pequena in
dução breve e logo tira a pessoa do transe. Pergunta como ela
está se sentindo e logo em seguida a coloca novamente por mais
alguns minutos. Só que agora ela já sabe o caminho; entra mais
profundamente, E assim você a coloca e em seguida tira por
umas três ou quatro vezes e eia entrará cada vez mais profunda
mente em transe.
178 Sofia M. F. Bauer

É excelente para aquele paciente que chega dizendo que


não entra bem em transe. Faça isto e você verá a diferença com
ele.
Veja o exemplo:

Você pode fechar seus olhos agora...


E assim ver como se sentiria entrando em você mesmo...
Concentre-se naquele tipo de experiência em que você
pode ver...
Onde você pode sentir...
Onde você pode ouvir...
Coisas coloridas.., escuridão...
Sentir paz... conforto...
Ouvir os sons do silêncio ao seu redor...
De uma maneira receptiva...
De olhos fechados... Você presta mais atenção naturalmen
te a si mesmo...
Respirando normalmente... confortavelmente...
A cada vez que você respirar...
Você pode ir profundo no seu relaxamento...
Você pode ouvir os sons da minha voz...
Os barulhos ao seu redor...
Ar-condicionado (ou outro)...
Os pássaros cantando (ou outro)...
Mas os so~ts da sua experiência é que se tomam, agora,
mais e mais interesdantes...
E ‘i~ocê vai se sentindo mais e mais confoitável...
Sentindo-se muito à vontade, nesta experiência de transe
(ou relaxamento)...
Todos os sinais de sua mente, como os sons...
Os sentimentos...
E o relaxamento...
Vão se intensificando no seu corpo...
Você vai se sentindo mais e mais confortável... Mais relaxa
do...
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 179

E eu não sei se você tem que deixar seu corpo acordado em


transe...
Talvez você possa deixá-lo repousando...
Quieto... calma /mente.
E seu corpo vai calmamente relaxando...
Enquanto sua mente vai voltando a esta sala...
Você vai se reorientando aqui para a sala...
Ouvindo bem os sons daqui... a minha voz...
Fale um pouquinho como você está se sentindo?
Quais são as suas sensações e sentimentos?
O que está acontecendo com você?
Como está seu corpo agora? Pesado? Leve?

Ouça as respostas e diga:

Muito bem... Que bom que você está sentindo (...)...


Você pode,. agora, fechar seus olhos...
E novamente se deixar levar para o mesmo relaxamento...
A sensação de bem-estar...
Mais rapidamente e profundamente...
Algumas pessoas relaxam diferentemente das outras...
Umas relaxam algumas partes do corpo...
Outras relaxam o corpo todo...
Você pode ir sentindo as partes do seu corpo...
Você pode ir sentindo como .suas mãos vão relaxando mais
e mais...
Eu não estou certo de onde está seu corpo agora...
Mas você sabe que coisas você pode ir fazendo para relaxar
mais e mais...
Sem se preocupar com o que eu estou dizendo...
Você pode ir para dentro, mais e mais profundamente, ao
seu modo...
E assim, você m~smo vai se colocando em transe (relaxa
mento) pelo som da minha voz...
Pelos seus próprios recursos de bem-estar,..
180 Sofia M. E’. Bauer

Indo mais e mais para dentro...


Nas sensações...
Nos sentimentos...
Agora permita-se manter todas as boas sensações de rela
xamento
Deixe-se ficar confortavelmente tranqüilo...
Muito bem...
E agora você pode me dizer alguma coisa sobre o que está
acontecendo com você?
É uma experiência agradável?
Existe alguma surpresa para você?
Alguma coisa prazerosa que gostaria de contar?

(Deixe a pessoa falar. Aguarde.)

E então, agora, .você pode se aproveitar destas sensações...


Deixe-se ir para dentro, novamente, mais e mais profunda
mente...

(Fique em silêncio por alguns instantes. Veja que a pessoa


relaxa, entra num transe mais profundo. Volte a falar~ depois de
algum tempo.)

Agora, fique à vontade, naturalmente à vontade...


Você pode até se esquecer de algumas coisas...
Mas você pode se lembrar de outras coisas...
De urna maneira muito natural de memorizar consciente-
mente aquilo que for saudável e confortável a você...
Você tem a capacidade de se deleitar com lembranças de
coisas agradáveis que um dia você aproveitou muito...
Você pode trazê-las à tona... naturalmente...
E você vai devagarínho...
Sentindo seu corpo...
O tônus muscular gostosamente solto...
As lembranças agradáveis...
O bem-estar...
E você pode ir se trazendo de volta à saia...
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 181

Percebendo os sons ao seu redor...


A minha voz chamando você...
E você pode se trazer com todo o conforto e bem-estár...
Eles permanecerão com você o resto do dia...
Amanhã...
E depois... saudavelmente... naturalmente

Nuvens
É uma excelente técnica imaginativa. Veja se você tem um
paciente que gosta de imaginar coisas. Esta técnica também fun
ciona muito bem com crianças. Os meus filhos gostam mujto. Só
não utilize em pessoas com medo de altura ou de voar, a não ser
com o objetivo de dessensibilizá-la.
Faça a absorção inicial para colocar a pessoa mais à vonta
de, bem sentada, de olhos fechados, respirando calmamente, libe
rando a mente inconsciente para viajar em sensações, sentimen
tos, pensamentos e na imaginação.

Assim você vai introduzindo o que vem abaixo:

E assim, à medida que você se solta na cadeira (sofá)...


vai soltando pensamento, sentimento, sensação... calmamente se
deixando aproveitar um momento novo e diferente... a sua mente
consciente pode acompanhar minhas palavras numa experiência
gostosa que vou lhe propor agora... enquanto sua mente incons
ciente pode guiar você para aproveitar sabiamente desta expe
riência...
(Eu costumo introduzir afgo quê ajude a pessoa a ficar
mais à vontade e querer experienciar.)
Meus filhos adoram esta brincadeira.., sim, porque é ape
nas mais uma brincadeira que traz o bem-estai e a tranqüilida
de... Às vezes, no carro, dirigindó, eles pedem que eu faça a brin
cadeira das nuvens...
É muito simples... Imagine um céu azul e muito bonito...
cheio daquelas nuvens branquinhas e grandes... Agora, imagine
ou visualize, ou apenas pense numa dessas nuvens bem branqui
nhas, com os raios de sol reluzindo nela.., veja como eia é... ima
182 Sofia M. F. Bauer

gine-a como se fosse um grande sofá no qual você vai se sentar...


acomode seu corpo nela.., ela vai aconchegando você de tal ma
neira que você se permite soltar~se completamente... confortavel
mente.... e a nuvem vai levando você lá para o alto seguramente
(caso você queira pode até colocar um cinto de segurança nela)...
Aos poucos ela vai subindo lentamente... e você vai se sentindo
como se estjvesse flutuando~.. soltando... sentindo a brisa do ar
batendo suavemente em seu rosto... vendo as coisas lá em baixo,
bem distante... sem perturbarem você agora... e tranqüila/mente
aproveite soltar-se nesta nuvem gostosa... deixe a nuvem voar
com você por onde você quiser... aproveite para respirar... sol
tar.., e se deixar ir com esta nuvem até algum lugar que vai agra
dá-lo o suficiente para você querer parar por lá... aproveite...
(Dê o tempo de um, dois ou três minutos. Fale aquilo que
você acha que é necessário a esta pessoa neste momento.)
Respirando... soltando... aproveitando as sensações...
sentimentos e tudo mais que a sua sábia mente vai lhe trazendo...

Assim, agora você pode ir pedindo à sua nuvem que tra


ga você de volta aqui para esta sala, completamente bem desper
to e bem disposto.

Escada
A técnica de descer escada é uma técnica de contagem. As
técnicas de contagem, em que você conta números e vai induzin
do o transe, são boas técnicas de aprofundamento de transe. No
caso, escolhi a da escada.
Você vai imaginar ou visualizar, agora, uma escada... do
jeito que você quiser... à medida que eu for contando, você vai
descendo cada degrau em direção a uma praça bem bonita que
você também pode imaginar.., olhe bem lá embaixo... você pode
visualizar.., imaginar uma bela praça com pessoas passeando...
crianças brincando.., talvez com um lago... coreto... plantas... ár
vores... o que você quiser... e assim sua mente consciente pode ir
ouvindo esta contagem... enquanto sua mente inconsciente vai
descendo lá para dentro de você... 20... descendo devagar, olhan
do o que você pode achar lá embaixo... 19... mais um degrau em
que você pode se soltar... Respirando tranqüilamente... olhando
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 183

lá embaixo... uma praça cheia de vida... 18... descendo mais um


pouco... vendo as crianças brincando... 17... mais um degrau... e,
devagar, podendo olhar na braça algum lugar que você deseja e
onde gostaria de ficar... 16... 15... 14... vai descendo os degraus...
vendo os adolescentes namorando.., aproveitando... 13... descen
do... soltando... respirando pausadamente... 12... visualizando lá.
no fundo como você pode se soltar na praça.~. descansar.., viver
11... 10... 9... e quanto mais você vai descendo... mais solta/men
te você vai ficando... 8... 7... 6... sentindo sensações de tranqüili
dade.., quietude... bem-estar... 5... 4... 3... você está quase lá... você
já pode dirigir seu olhar para onde você desejar ficar... 2... um lu
gar agradável para você... 1... você pode agora sentir-se à vonta
de... para gozar do bem-estar de um lugar seguro... gostoso, aí
dentro de você.., desfrute deste bem-estar...

Silêncio
Uma outra possibilidade adotada para fazer uma pessoa
aprofundar no transe é deixá-la em silêncio. Você faz uma peque
na indução com absorcão em relaxamento, ratifica e dá um tem
po para ficar em silêncio dizendo assim

Assim você pode experienciar um pouco de silêncio fi


car aí quietinho com você mesmo vou lhe dar alguns minutos
de silêncio desfrute naturalmente deste momento, de olhos fe
chados para fora... você pode ir abrindo seus olhos internos.~.
aqueles que podem ver, sentir, aprender, reaprender e enxergar a
luz que vem lá de dentro da sua sabedoria...
Isso mesmo... bem à vontade...

Deixe a pessoa em silêncio O tempo pode variar de 5 mi


nutos até mais ou. menos uns 15 minutos Para nós oc~denta~s é
difícil ficar em silêncio Levamos, no mínimo, 5 minutos e, em ge
ral1 até 15 minutos para encontrar paz no pensamento. Exercitar
o silêncio é üma arte budista. É entrar num outro tipo de diálogo,
p diálogo da percepção, que fica mais aguçada. É dar vazão para
qüe o luconsciente aflore e as respostas venham lá de ciertro
184 Sofra M. F. Bauer

Depois de um período razoável de silêncio, você pode in


troduzir alguma metáfora, analogia ou uma sugestão pós-hipnó
tica, e então reorientar o paciente para o despertar.
Ainda neste item de aprofundamento, poderíamos dizer
que empregar metáforas é uma das técnicas. Quando você vai
contando estórias, vai eliciando a pessoa a entrar nelas de algum
modo, liberando a mente consciente dos julgamentos e controles,
absorvida na estória contada. Você pode usar da metáfora dos
mares, da árvore, do boiar e muitas mais.

10. Sonhos induzidos


Os sonhos, como Freud tão brilhantemente demonstrou,
transmitem os desejos do. nosso inconsciente. São importantes na
análise do nosso cliente. Podemos utilizá-los também na hipnote
rapia; aproveitar sonhos trazicios, pedindo para continuar tal so
nho, ou associar algo mais sobre este. Ou podemos pedir à pes
soa que sonhe. Paul Sacerdote (1908-1994) desenvolveu um exce
lente trabalho sobre este tema, publicando o livro Induced dreams,
em 1967, em que relata casos clínicos e trabalhos afins.
Vou passar uma técnica bem simples para usarem com seu
cliente já em transe médio. É uma técnica que pode ser bem suce
dida em muitos pacientes, mas é necessário levá-los a um transe
médio ou profundo. Por isso, faça uma boa absorção. Quando
você perceber que seu cliente já se encontra em transe médio, uti
lize-se disto:

Agora eu vou lhe dar algum tempo... tempo de mente li


vre... para sonhar... (ou continuar tal sonho) de tal maneira que
possa ajudar você a entender muitas coisas que estão lá dentro...
Respostas... idéias novas.., um novo caminho...
Os sonhos funcionam como um ladrão de caixa d’água...
quando a caixa, se enche... escapa água pelo ladrãozinho~... para
avisá-lo de que eia já está cheia... (eu ouvia isso do professor Ma
lomar, sábio professor!)...
Num sonho... fazemos vários papéis... somos os produto
res.., os diretores... os atores de diversas facetas... os críticos... e
os espectadores...
flipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 185

Assim, você pode agora se permitir algum tempo... em si


lêncio, e deixar que as suas partes possam criar um sonho... Tome
todo o tempo do mundo nos próximos minutos para fazê-lo...

Dê algum tempo, no mínimo 5 minutos. Observe as rea


ções físicas, principalmente o movimento ~.os olhos. Quando
ocorre o REM (rapid eye movement = movimento rápido dos
olhos), é certo que a pessoa está fabricando um sonho.
Depois de dar algum tempo, você então sugere à pessoa
que ela possa relatar seu sonho. Espere, veja se ela consegue rela
tar. Existem algumas pessoas que não conseguem falar durante o
transe. Caso ela fale, peça que. ela mesma associe algo ao que re
lata. Anote e guarde para usar posteriormente. Caso a pessoa
nada diga, dê a sugestão de que ela poderá se lembrar do sonho,
se isso for saudável para aquele seu momento, e que ela poderá
relatá-lo ao voltar do transe.
Retire-a do transe e indague a respeito do sonho. A maioria
que sonhou se recorda e relata. Há alguns casos em que a pessoa
sonha espontaneamente, se colocada em transe. Aproveite quan
do o cliente lhe disser que sonhou; pergunte, interprete. É um
mateiial que veio espontaneamente do inconsciente

11 Distorção do tempo
A distorção do tempo ocorre durante o transe hipnótico.
Por que, então, não utilizá-la como ajuda terapêutica? Aprendi,
com o professor Malomar, uma técnica muito simples de aplicar
a distorção do tempo. Você poderá usar esta técnica para dimi
nuir tempos de sofrimento ou dor.
Ao colocar a pessoa em transe, faça a indução para colocá
la absorvida em calma e tranquilidade eem seguida use o campo
das flores:

Você sabe que o tempo do relÓgio cronológico difere do


nõsso tempo interno... Quando você assiste a um filme que gosta,
duas horas passam como se fossem apenas meia hora... Em com
pensação, quando você ouve um discurso de um político prolixo,
10 minutos parecem durar uma hora... Assim, nós podemos mo
dificar nosso tempo interno a nosso favor,., você com este seu
186 Sofia M. F. Bauer

problema (introduza aqui a enxaqueca, a dor física, a tristeza, o


luto, etc.)
... você pode modificar este tempo interno.., vamos fa
zer uma pequena experiência que pode ajudar você...
Imagine, então, um campo de flores.., as flores que você
preferir.., podem ser flores do campo... jasmins... papoulas... mar
gar~das... tulipas.., o que você desejar... imagine este campo...
quando você conseguir visualizá~4o, sinalize com a cabeça...
Ótimo! Então, agora, quando eu disser já... você começa
rá a colher flores neste campo, o máximo que puder... eu contarei
um minuto de relógio e lhe direi quando deve parar...
Então, já! Comece!...~ (conte um minuto e, enquanto
...

isso, continue falando)... comecea colher o máximo de flores que


você puder... Você pode sentir o perfume delas... o caule... você
pode ir formando um “buquet”... isso, vá juntando... o máximo
que você conseguir colher... Aproveite deste tempo... ótimo!...
(quando der um minuto, fale)... Pare, agora... e, devagarinho, vá
se reorientando aqui para a sala e me conte que quantidade e
qualidade de flores você colheu.
A pessoa então vai dizer que tipo de flores colheu e a
quantidade. Normalmente as pessoas colhem muitas. Eu só tive
duas exceções até hoje, das quais tirei grande proveito, pois a
pessoa se projetou na flor e, por isso, só pôde clher ela mesma.
O que também leva tempo. Por falar em levar tempo, colher um
montão de flores leva-se tempo e não apenas um minuto,

Então você falará ao seu cliente:

Muito bem, para colher estas flores no tempo do relógio


você levaria muito mais que um minuto.., mas, lá dentro de você...
sua mente sábia soube distorcer o tempo a seu favor... Para que
você pudesse, em apenas um minuto, colher muitas flores...
Você também pode modificar seu tempo interno, quan
do esta dor aparecer... e senti-la por um ou dois minutos ape
nas... é como se fossem mesmo muitos minutos.., e logo em se
guida deixar que a dor se vá...
Para enxaqueca esta é uma boa técnica. Faz-se a indução, o
campo de flores com a distorção do tempo, o que provoca um re
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 187

laxamento muscular e, conseqüentemente, arterial, e assim a dor


de cabeça vai-se embora.

12. Confusão mental


Lembram-se da estória do ~estudante de cabeça cheia que
procura o mestre para aprender mais e o mestre enche a xícara
até transbordar, dizendo que para se encher algo primeiro tem-se
que esvaziá-lo?! É por aí este raciocínio.
Você vai utilizar esta técnica com clientes de diálogo inter
no, clientes que não querem perder o controle, clientes mosaicos,
porque nela a pessoa tenta se situar (seguir) mas não consegue. A
uma certa altura ela desiste de seguir o pensamento confuso. No
caso da pessoa mosaica, o fato de ela ficar à vontade no ir e vir
dos fatos, a faz sentir-se “em casa”, e a coloca relaxando a mente.
Você pode fazer confusão mental de tempo, de lugar, de
fatos. Escolha a versão que deixe você o mais à vontade possível.
Você deverá falar um pouco mais rápido, ir e vir nos mesmos fa
tos, mas, em hipótese alguma, mentir: Fale apenas verdades. A
pessoa estará acompanhando você no início. Se você se mostrar
íntegro, ela larga o controle e se entrega ao transe.
Gilligan, em seu livro Transes terapêuticas, dá vários exem
plos de induções com confusão mental. Erickson gostava bastan
te, talvez porque fosse uma pessoa de processamento mental moz
saico, tinha bastante facilidade para fazê-lo.
Veremos, a seguir, um exemplo de confusão mental, traba
lhando em cima do~ tempos passado, presente e futuro. A meta
desta indução é esquecer o que é ruim, lembrar-se do que é bom.

Você pode agora deixar-se ficar à vontade para escutar o


que eu vou dizendo... ou para escutar aquilo que vem de lá de
dentro de você.., o que interessa mesmo é que você pode ouvir o
que quiser... desfrutando deste momento de um modo diferen
te...
Assim, hoje (terça-feira) você está aqui me ouvindo... en
quanto você pensa sobre sua (quarta~feira)... sabendo que (quar
ta) será amanhã... e enquanto hoje é uma (terça-feira) como mui
tas o~tr~s que você ~á viveu e vive~~ (terças-feiras) Onrem foi
188 Sofia M. P. Bauer

(segunda) e você se preparava para as atividades de sua (terça


feira), hoje... Hoje, (segunda) já é passado, ficou para trás mas
...

ontem, (segunda) era o seu presente... Hoje, presente é a (terça)


que você vive, e todas as coisas que você faz hoje são presentes...
mas se tornarão passado... sernentes do seu futuro... e quando
você chegar ao próximo (domingo), tudo que, você viveu hoje
será passado... e as sementes já poderão estar se tornando novas
plantas... Assim, corno a semana passa... passam muitas coisas...
Passa o mês... passa o ano... passam as dificuldades... mas ale
grias também... hoje você está em (janeiro), há dois meses você
estava em (novembro), planejando o que seria lá na frente em (ja
neiro)... do mesmo modo (julho) está longe e ainda por vir.., mas
você pode planejar o que deseja ter lá na frente... e quando (ju
lho) chegar, muita coisa já terá ficado para trás... o mês de (janei
ro)... problemas de janeiro) e se você semeou bem terá lucrado
em ~julho)~.. Assirn, tantas coisas que hoje são futuro se tornam
presentes... enquanto tantas que são presentes se tornam passa
do... Quando você tinha 7 anos.., pensava nos seus 15, ainda dis
tantes, por virem.., e logo eles chegaram e você já não se lembra
va de tudo que fizera aos 7 anos.~. Agora aos () anos... talvez
você não se lembre de tudo que você fez aos 15... mas é certo que
na idade de hoje, presente, você pode fazer algo pelo seu futuro...
e deixar de lado o que no passado atrapalha seu futuro... Assim
como nós esquecemos facilmente as coisas que fizemos na sema
na passada... também podemos deixar para trás as coisas ruins
que interferem na nossa vida presente e futura... Você também
pode se esquecer das coisas que são pesadas e ruins lá de trás...
como pode se lembrar das coisas boas que já viveu e que servirão
de sementes para muitas outras que virão... Tanto as coisas ruins
podem ir como as coisas boas podem vir... A sua mente incons
ciente pode sabiamente guiar novos passos... plantar novas se
mentes hoje... que farão um futuro melhor.~.

13. Técnícas de hipnose com crianças


As crianças naturalmente já vivem em transe. Se você repa
rar um menino assistindo a um desenho animado observará que
ele vive a cena: ri, chora, fica com medo etc. Isto é estar num esta
cio alterado de consciência. As crianças entram num filme e vi-
~{ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 189

vem a cena. O mesmo acdntece quando você conta um conto de


fadas a uma menina romântica. Ela vive a cena. Por isso, para se
colocar uma criança em transe, basta que você descubra o que a
faz “viajar” na imaginação, com o que ela gosta de brincar. Atra
véS da brincadeira, que se torna uma absorção da atenção, já esta
mos fazeüdo umãindução.
Vou descrever algumas pequenas induções que você pode
rá usar. Mas você pode ser criativo e inventar as suas próprias
brincadeiras que vão eliciar a imaginação e as respostas que vi
rão de dentro da própria criança.
Quanto à idade, não há restrições. Tanto uma criança de 3
anos entra em transe, quanto uma de 10 anos. O que importa é
você saber escolher o que chama a atenção daquela determinada
criança. Se ela é vidrada em videogames, faça um videogame
imaginário com personagens imaginários. Se a criança acredita
em vampiros, faça, imaginariamente, os artifícios que matam um
vampiro. Mostre porque ele se tornou vampiro, como pode fazê
lo mudar etc.

Técnicas

Anestesia de luva
Não é apenas uma técnica infantil. É um~. técnica que de
monstra a hipermnésia, ficar absorto em apenas um detalhe, coi
sas que as crianças têm facilidade. Na verdade, é uma técnica de
analgesia, retirada da dor. Funciona bem com as crianças, que
gostam bastanté de uma mágica. Elas acreditam que a mente tem
o poder de mudar as coisas, quando são submetidas a esta técni
ca. A analgesia retira a sensação de dor apenas, mantendo a sen
sação do tato, de pressão ou calor.
Eu a utilizo muito, quando tenho que dar uma injeção em
criança ou fazer um curativo e no consultório, para mostrar o po
der da mente, como a gente consegue as coisas.
Você faz um ventinho sobre a mão da criança, no dorso da
mão. Se cluiser, pode friccionar sua mão sobre o dorso da dela.
Essa técnica é chamada de anestesia de luva, porque costumava
se fazê4a utilizando uma luva com a qual se friccionava a mão.
190 Sofia M. F. Bajier

Enquanto você faz o ventinho ou fricciona, você vaj di


zendo:
Vá sentindo este ventinho... preste bastante atenção no
vento ou calor da fricção.., daqui a pouco você não sentirá dor al
guma neste ponto da mão (caso seja o lugar da injeção, você faz o
mesmo no local a aplicá-la)
Faça isto por um minuto. Logo em seguida, teste. Dê uns
beliscões com força neste dorso da mão. Passe, a seguir, para a
outra mão e teste. Você verá a diferença, é incrível! A criança, en
tão, acredita que pode fazer mudanças... que a mente é capaz de
mudar as coisas.
Assim, utilize esta técnica como uma indução rápida, que
mostra o poder dos nossos desejos.

Tela de TV
Esta é uma boa técnica para crianças. Elas projetam com fa
cilidade. A técnica projetiva ajuda a criança a mostrar seus medos,
seus desejos, e favorece a possibilidade de você mostrar saídas,
como se estivesse fazendo uma peça teatral. É uma ludoterapia.
A técnica consiste em questionar, durante a entrevista,
além dos problemas, as coisas preferidas, as brincadeiras, os de
senhos, os esportes, estórias, etc.
Você, então, pede à criança para olhar para a parede em
branco. Peça para ficar olhando, que vai demorar um pouquin±to,
mas logo, ela começará a ver seu filme predileto. Dê algum tem
po, mas o que costumeiramente acontece é a criança relatar estar
vendo um desenho animado, ou..programa de preferência.
Daí para a frente, dê asas à crjatividade da criança, ela vai
fazendo o diálogo, colocando os fantasmas, medos. Cabe a você
continuar ajudando-a a ver as saídas.
Esta técnica acontece com facilidade logo que você sugere.
Poucos segundos depois, a criança começa a projetar sua imagi
nação produtiva.
É bom lembrar que a criança entra em transe acordada e
depressa demais. Do mesmo jeito que entra em transe fácil e
rápido, sai também rapidamente. Por isso, você pode fazer vá-
j~{ipnote1ap1a Ericksoniana Passo a Passo 191

rios pequenos transes. Esta técnica pode ser utilizada em todas as


sessões

Ar azul e nuvem
As crianças adoram usar estas duas técnicas. São técnicas
relaxantes e, para a criança ansiosa, ajudam bastante.

Conversando com bichinhos ou bonecos


Uma outra maneira de fazer a indução hipnótica é induzir
o transe em um bicho de pelúcia ou numa boneca ou boneco,
conforme o sexo da criança. Você vai induzindo, através da técni
ca de relaxamento, o transe no boneco. Veja a seguir:

Assim, bonequinha, vejo que você tem problemas (ou


que você está com medo — algo semelhante às questões da crian
ça em jogo)... Você está triste (chorando/acuada, etc.)... mas acho
que eu posso te ajudar a ficar forte e feliz... Vou ensinar-lhe um
segredo... um jeito especial de ficar alegre e feliz... Basta que você
imagine.., para imaginar você deve começar fechando seus
olhos... e... quando você fecha os olhos... você respira fundo... en
che o peito de ar... aquele que faz você ficar forte para enfrentar
(o problema)... Assim você fecha os olhos e imagina que vai des
cansar... num lugar bem bonito~.. num lugar encantado... neste
lugar seu corpo vai se soltando..~ do dedo do pé à ponta de sua
cabeça... ficando bem leve.., e quando seu corpo vai ficando bem
leve.., sua cabeça vai ficando mais e mais forte... e você1 neste lu
gar encantado, pode pedir ajuda... de uma fada... um mago... ou
seu anjo da guarda... peça a ele(a) que venha lhe mostrar o tanto
que você é forte... Mas vá soltando o corpo... (observe a criança e
indiretamente vá colocando-a confortável para acompanhar a bo
neca)... Deste ponto em diante, convide seu cliente para também
fechar os olhos, se até então ele ainda não o tiver feito, dizendo:
E você (fulana) pode acompanhar sua boneca.,. e experi
mentar relaxar para ficar forte... e assim ajudar a você mesma a
resolver tudo que você deseja resolver...

Existem muitas outras técnicas, inclusive as técnicas de


adulto citadas até então; são ótimas.
192 Sofia M. P. Bauer

Seja criativo, qualquer brincadeira induz ao transe. Lem


bre-se de que transe é manter absorvida a mente consciente para
dar vazão à mente inconsciente, aflorar os recursos naturais que
a criança tem.

14. Técnica de progr~ssão de ídade


Progressão de idade já é um fenômeno hipnótico. Ele ocor
re comumente nas pessoas de padrão ansioso. Elas estão sempre
se pré-ocupando. Antecipam o que virá. Esta técnica faz o mesmo.
É projetar o futuro, só que ressignificando o positivo.
Para uma pessoa de estrutura ansiosa, ela cai como mel na
boca, pois esta pessoa já está acostumada a usar deste fenômeno
hipnótico para criar seu problema, e então usará dele para encon
trar as soluções. O preocupado ocupa-se, hoje, antecipando e pre
meditando o pior para acontecer amanhã. Você ensinará, sem
que ele perceba claramente, como continuar a fazer o mesmo de
um bom modo.
Esta técnica também é muito boa quando se termina a re
gressão, para reintegrar a pessoa ao presente e para projetar um
futuro melhor. Principalmente, se foi feita a regressão por causa
de um trauma. Mostra-se que tempos melhores virão. Se hoje se
mear boas sementes, colherá bons frutos amanhã;

Procedimento:

Depois de feita a indução, na fase de eliciação.

Imagine, agora, que você vai se ver lá na frente... talvez


daqui a uns cinco anos (ou no ano que vem, de acordo com a sua
meta, aquilo que você deseja alcançar)... tome todo o tempo do
mundo... para que você comece a se ver lá na frente... mais cal
mo.., relaxado... sendo capaz de (aquilo que ele deseja conse
guir)... cercado por quem você gosta... fazendo livre/mente tudo
o que você já sabe que é capaz de fazer... tome tempo... você é ca
paz.,.. de se ver.., solta /mente... já fazendo ()...como é bom con
segulr fazer o que desejamos... como é bom saber que somos ca
pazes de conseguir o que desejamos... Desde Freud, já se ouvia...
~ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 193

que ~ pensamento é um ato em estado nascendi... quando você


desejarn tem boas intenções.., você consegue alcançar.

Uma outra técnica é deixar um tempo livre para o próprio


cliente se projetar lá na frente. Utilize-se das duas: da primeira
para ressignificar, e da segunda quando você quiser que seu pa
ciente aprenda a ressignificar sozinho. Dê-lhe tempo, e proponha
que ele se veja no futuro, já fazendo o que ainda não consegue fa
zer... e que em pouco tempo poderá conquistar.

15. Técnica de regressõo de idade


Nós já sabemos que a regressão faz parte dos fenômenos
hipnóticos. Por isso, uma pessoa que entra em transe pode desen
volver a regressão de idade.
Há diferentes níveis de regressão de idade. Você pode de
senvolver regressão com algum nível de consciência, num transe
leve para médio. A regressão de idade profunda, com revivência
das cenas, com voz infantilizada, ou até mesmo a outras vidas,
requer um transe mais profundo. E muitas vezes, mesmo num
transe profundo, pode ser que a pessoa não desenvolva a regres
são. Como ela também pode não desenvolver outro tipo de fenô
meno hipnótico.
Assim, devemos tomar cuidado com a proposição de um
transe apenas com a finalidade de regressão. Às vezes, naquele
dja a pessoa não desenvolve a regressão e vai regredir esponta
neamente em outra sessão, sem precisar nem mesmo da sugestão
para este fenômenos.
O que vejo, na minha prática clínica, é que se você desen
volve um bom rapport, a regressão acontece. Mas vale ~i advertên
cia para os novatos, ao usar esta técnica.
Lembro-me de pessoas que me procuraram porque que
riam só regressão. Eu, achando que detendo a técnica poderia
conseguir o que eu quisesse, me dei muito mal. Eram pessoas de
safiadoras, controladoras. Estas, como já falei, necessitam de um
rappoi’t demorado, talvez algumas sessões, para se abrirem de
verdade. E, no final, foi meu nome para o “buraco”! Elas não con
seguiram “nada” comigo, continuaram com o problema. Não tra
194 Sofia M. F. Bauer

balhei a posição “controle” e todos saímos perdendo. Por isso vai


este depoimento. Bom mesmo é aprender o que Jeffrey K. Zeig
ensina no seu curso de psicoaeróbica: o terapeuta deve desenvol
ver a postura do não-saber, da incompetência, para aprender
com o clïente.
Na técnica de regressão, esta postura do não-saber é muito
importante. O que virá, virá lá de dentro do cliente. Nossa postu
ra é de abertura.

As pessoas fazem duas confusões comuns. Uma, que hip


nose é regressão; e a outra é que regredir é sempre regredir a ou
tras vidas, fazendo confusão com dogmas religiosos.
Nós vamos tratar aqui do científico. Da técnica para regre
dir. Quanto ao aspecto religioso, respeite o que vier do seu clien
te. O que vier é a realidade psíquica dele.
Agora, é preciso esclarecer a primeira confusão. Hipnose
não é apenas regressão. Você já sabe disso, mas o seu cliente não.
É bom mostrar a ele que hipnose é também um recurso utilizado
para relaxamento; assim, ele não sai frustrado.
A questão religiosa é um direito de cada ser humano. O
que vem, ou vier, cabe a nós adequar a cada sujeito e à sua reali
dade psíquica de hoje. Ajudá-lo a se adequar ao mundo ou reali
dade que ele vive hoje, com o que ele precisa melhorar nessa
vida e usando do material cpie lhe mostra o caminho por meio
das lembranças passadas. Esta é a realidade psíquica dele.
Esses nossos olhos só nos permitem ver parte da realida
de. Por isso, os olhos da intuição, do inconsciente merecem nossa
atenção e, com todo o respeito às religiões, podemos ser científi
cos.
Há inúmeras técnicas de regressão. Vou ensinar uma bem
simples que facilmente você aplica. Mas antes de enfocá-la, gos
tarja de citar algumas das técnicas usadas, e também de enfatizar
que há profissionais, no Brasil, desenvolvendo muito bem o tra
balho de regressão. E assim, se você tiver maior interesse nesta
área, não deixe de procurá-los. Aqui, o livro se destina às técni
cas básicas em geral.
Técnicas mais usadas:
j~jpnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 195

Túnel — um túnel onde é possível mirar-se lá no fundo,


buscando ver do outro lado... uma luz... algum lugar.
Contagem regressiva descendo elevador, escadas.
For álbum de fotografia — vai-se indo para trás, reven
do fotografias.
o Por alusão ao tempo de infâi~icia, a brincadeiras de infân
cia.
o Através de uma linha do tempo — linha da vida da pes
soa. Colocando sinais, pontos luminosos etc.
o Contando por idade e levando a pessoa a rever fatos que
foram agradáveis e desagradáveis. Revivificação de ce
nas.
Procura de datas que venham à mente espontanearnente,
cenas, imagens e sensações.

Há muitas outras que você pode pesquisar.

Vou descrever, agora, uma técnica mais simples que pode


facilitar seu caminho.

1. Coloque em transe o seu cliente — use o tempo que o


cliente necessitar. Há pessoas que entram em transe facilmente
(cinco minutos), outras já demoram um pouco mais. Siga um ro
teiro simples de indução, em que você observa a pessoa relaxar,
se soltar e voltar o seu olhar para dentro.
Outro detalhe importante: uma sessão de regressão costu
ma ser mais demorada. Por isso reserve tempo. As pessoas preci
sam de tempo para~ regredir, vivenciar e dar tempo a você para
ressignificar qualquer material que venha. Lembrando, ainda,
que as respostas em transe acontecem, mas são mais demoradas,
E você precisa de respostas neste trabalho. Reserve um bom tem
po. Aconselho uma hora e meia, até duas, conforme o caso.
Existem pessoas que regridem espontaneamente ao e~ntrar
em transe hipnótico. Não tenha receio, se não houver o tempo
que eu citei acima. Assim como elas tem facilidade de entrar
numa regressão, têm de sair dela também. Retorne em outra ses
s~o ao mesmo tema. É bem provável que esta pessoa regrida no
vamente, até esgotar o assunto determinado.
196 Sofia IvI. F. Bauer

2. Ratifique o transe, levando paz e segurança, para que ela


permita ao inconsciente trabalhar as dificuldades e os recursos
naturais dela.

3. Então você diz... e você pode regredir agora a urna deter


minada idade... você está livre para viajar para dentro de você...
dê o tempo que você precisar... você pode se encontrar com você
mesma em alguma idade importante e significativa.., ou alguma
época de vida muito significativa.., que lhe venha agora... Dê
tempo... respire... e deixe vir.., o que quiser e precisar vir.., cal
ma/mente... (Dê tempo/silêncio/aguarde.)
Para eu poder ajudá-la neste momento, com este seu
(determinado problema)... preciso saber o que você está vendo,
experienciando, sentindo.., e você poderá ir falando aos pou
quinhos sem sair da cena.., Mas eu posso acompanhar você de
perto...
Daqui para frente, use sua criatividade para que a pessoa
descreva, sinta, exponha o que for preciso... Você a~ompanha e
ressignifica aos poucos. Você pode buscar uma idade anterior ou
época anterior ao fato, ver como a pessoa era antes do fato relata
do. Você pode buscar urna idade ou época posterior e ver como
ela ficou depois do fato relatado. E você pode usar da pessoa de
hoje, com seus conhecimentos, recursos e valores de todas estas
épocas para ressignificar positivamente. E, inclusive, unir as par
tes num todo. Mesmo se forem outras vidas, ver a importância
daquela vida sobre esta, o~ aprendizado do sofrimento de outrora
e o que pode ser feito por esta vida agora, ou por esta idade agora.
Feito isto, reintegre a pessoa à idade atual, colocando todos
os aprendizados feitos com a visão magnífica que veio do incons
ciente, e então diga aquelas palavras de Freüd: “Pensar por ima
gens está mais próximo do inconsciente do que pensar por pala
vras.”
As imagens que vieram serviram para aji~idar você a se
reintegrar (resta~irar, equilibrar, limpar etc.) ao que ficou preso lá
atrás... e hoje você sairá daqui mais leve.., sentindo-se reintegra
do... sabendo que sofrimentos acontecem e sempre trarão ensina
mentos para as vivências futuras... e você vai pensar... refletir em
tudo isso... e ver o que mais você pode aprender com a beleza e a
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 197

sabedoria do seu inconsciente... Leve o bem-estar... calma/men


te... serena/mente... vá retornando.., hoje, dia tal, com sua idade
(atual)... bem alerta e bem-disposto.

Neste final, se você quiser, poderá usar a técnica de pro


gressão1 para que a pessoa se utilize de todo o material revivido e
lance as sementes do que virá a posteriori. Semeando agora, colhe
rás no futuro.
Como diz o professor Malomar: “Todos nós somos o nosso
passado inteiro, desde Adão e Eva até hoje, não há como fugir.”

16. Técnicas para dor


Erickson, com sua doença, sofria muitas dores. Ele pôde
desenvolver inúmeras técnicas para aliviá-las e, dessa forma,
ilustrou sua experiência como um exemplo das maneiras que po
demos usar a hipnose com eficiência em casos de dor
O que vou relatar aqui são técnicas simples que ajudam
nas dores agudás ou crônicas.

1— A distorção do tempo — já foi citada anteriormente.


Use o campo das flores, ou a projeção de um filme que
a pessoa goste, ou uma cena de amor da vida dela.
Crie algo especial e distorça o tempo.

2— Visualização de um lugar ~agradável —já foi citada


também. Leve a pessoa a imaginar um lugar especial,
onde ela ficará por algum tempo. Deixando o corpo ali
com suas dores, ajude-a a criar um lugar muito espe
cial. Um jardim, um clube, não importa, mas deve ser
um local que a pessoa aprecie nuiito.
Eu costumo usar esta técnica quando estou fazendo gi
nástica. Meu corpo fica ali, fazendo os exercícios, eu
vou para Bali, Polinésia Francesa. Sinto o mar, a tem
peratura e a cor da água. O vento balançando as folhas
dos coqueirõs, o cheiro da maresia,.. os bangalôs e...
quando vejo, a professora já está em outro exercício.,. e
a dor? Nem sei, tive? !...
Esta técnica é considerada um deslocamento.
198 Sofia M. F. BaLier

3 — A anestesia de luva — imaginar-se colocando a mão


num balde de gelo.., ela vai ficando gelada... adormeci
da... aí você a leva ao local onde está com dor... aneste
sia a área.

4— Relaxamento progressivo ajuda muito quando nor


malmente são dores musculares, cólicas ou dor de ten


são. A tensão aumenta a dor, o relaxamento faz com
que a musculatura reduza a tensão. Pode-se falar sobre
a dor orgânica e a dor psíquica que aumenta a dor or
gânica.

5 — A estória — “Esta dor tem outro nome”, quando for


somatização. Você a encontrará no capítulo que fala
sobre metáforas e assim poderá contá-la durante o
transe. Ajuda a pessoa a fazer suas ligações emocionais
entre sofrimento e dor. É ótima paira dor em crianças
que estão somatizando, principalmente no período es
colar.

6 — Zeig desenvolveu uma técnica especial de ir repartin


do a dor — intensidade, tipo, modo, freqüência. A pes
soa vai perdendo a noção exata de como a dor aconte
ce quando a atenção se volta para os detalhes. É uma
técnica de distração. Ele segue os passos que levam à
dor, e assim vai fazendo as seguintes perguntas, para
depois r~essignificar estes símbolos entremeados na
hipnose:

Se esta dor fosse uma cor, que cor seria?


Se esta dor fosse urna ferramenta, que ferramenta se
ria?
Se esta dor fosse uma planta, qual seria?
Se esta dor fosse um utensílio, qual seria?

E depois então faz a indução em cima de cada passo da


criação da dor e utiliza os símbolos idiossincráticos, ressignifi
cando alívio e bem-e~tar.
~~Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 199

Na visão de Jeffrey K. Zeig, a utilização do símbolo do


cliente facilita a intervenção e até mesmo a indução do transe. E
vOCê usa a “lente” do cliente para que ele se sinta “em casa”. Os
símbolos usados para o sintoma, no caso a dor, nos levam a en
tender o seu significado, que fala de um sofrimento.
Devemos, então, promover a “menor mudança”, que de ai-
guina maneira muda o padrão da criação do problema (dor/sin
toma/sofrimento). Uma pequena mudança pode mudar o efeito
desencadeador.
Devemos, também, trabalhar da periferia para o centro. Se
é dor, investigue o que está ao redor. Pode-se, primeiro, trabalhar
para diminuir o latejamento, ou a pressão, o que modifica consi
deravelmente a dor. Ao redor, há muito menos resistência que no
centro do problema.
Veja com o que se parece o problema, como você o viu na
indução de seguir o sintoma passo a passo. Trabalhe em cima
desta metáfora ou analogia. Utilize sua avaliação e vá fazendo a
intervenção com a linguagem idiossincrática do cliente. Use a
metáfora do cliente para ressignificar positivamente. Você não
analisa o que o cliente traz, você utiliza, Por exemplo: se você tra
balha com um conquistador de mulheres incansável, coloque a
conquista em atingir a calma, o equilíbrio, superando o ter de
conquistar todas, para conquistar a mulher e a paz. No caso da
dor, corno a pessoa se absorve em perceber a dor, absorver com a
percepção de um filme que adora, ou uma música.
Nesta visão dada por Zeig, você pode trabalhar não só a
dor, mas qualquer tipo de sintoma. O sintoma já é uma metáfora.
Serve para fobias, dépressão, etc.

7— Distração — a distração é urna técnica usada até intui


tivamente pelas pessoas. A criança cai e machuca e
você a distrai contando uma estória, dando um doce
ou picolé. Você vai distrair a mente daquele que sofre
alguma dor. Lembre-se, quanto maior for o rapp~rt,
maior será a responsividade. A fé e a confiança são
partes integrantes da ajuda curativa.

Você fará a distração de dois modos simples:


200 Sofia M. P. Bauer

A — Examinando a dor em todos os detalhes possíveis.

B Distraindo a pessoa do assunto, contando estórias, des


focalizando do tempo-dor.

A e B parecem opostos, mas provocam o mesmo efeito. Fo


calizam outra coisa que não é exatamente a dor. Quando você co
meça a perguntar muito sobre os detalhes daquilo que envolve a
dor, a pessoa se distrai e perde aquele único enfoque. É impor
tante fazer muitas perguntas, descrevendo a dor, vendo com o
que se parece, se já teve outras vezes, quando, como, o que pen
sou, o que sentiu, e introduzir aí a segunda distração: estórias, as
dores que sentimos e não percebemos, como o atleta em prova, o
soldado em combate, dançar a noite toda com o pé machucado,
etc.
8 —Auto-hipnose —a pessoa pode aprender, com um trei
namento, como induzir a auto-hipnose. Cada um tem
seu jeito peculiar de relaxar, meditar, orar, escutar mú
sica, praticar esportes etc. Estas são variáveis de auto-
hipnose.
Ensine-a a entrar num transe, de uma forma que ela se
sinta “curtindo” um hobby. Pode ter certeza que duran
te esse período ela se desligará da dor. Você também
pode gravar uma fita com uma indução que ela possa
utilizar nas horas de dor mais aguda, para suavizar o
sofrimento.

9 — Luz vermelha — esta é uma técnica que faz você trans


formar um estímulo cenestésico em visual e, desta ma
neira, retirar a percepção dolorosa. O visual não sente,
ve.
Coloque o cliente em transe e então faça o que vem a
seguir:

E agora... pensando e sentindo essa dor... imagine


uma luz vermelha (pulsando, cortando, irradiando -

conforme a dor sentida),.. deixe vir à sua mente, bem


nitidamente, a imagem desta luz vermelha,., pode ser
~ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 201

até mesmo uma lâmpada... ela vai ficar tão vermelha


quanto a sua dor está doendo... isso mesmo... vai-se
dando tempo.. e pouco a pouco... você pode ir vendo...
..

e quando assim já estiver visualizando.., faça um sinal


com a cabeça para que eu saiba... átimo, agora que
você vê esta luz vermelha (pulsando, cortando, irra
diando)... imagine que a cor vai se apagando... o ver
melho vai perdendo intensidade.., e a dor também...
diminuindo... apagando... a luz vai ficando laranja...
apagando... a dor também,.. amarelada... até ficar uma
luz completamente branca e calma... branca e limpa...
limpando completamente sua dor... e esta luz branca
vai se irradiando pelo seu corpo... cobrindo você de
paz e de tranqüilidade... Tome este banho de luz bran
ca... solte-se, aproveite desta paz e deste bem-estar...
que vai ficar com você por um bom tempo... o tempo
que você quiser e necessitar...

Ao terminar este item, gostaria de fazer uma advertência.


Dor é um sinal do organismo de que algo não vai bem. Por isso,
todo o cuidado ao retirar a dor de uma pessoa. Verifique se ela já
foi ao médico, se já viu do que se trata a referida dor, porque po
demos, por exemplo, no caso de um aneurisma cerebral, retirar a
única possibilidade de salvação, retirando a dor. Existem pacien
tes que são altamente .sugestionáveis, e que podem ter excelentes
resultados com as técnicas de dor. Você pode achar que está aju
dando e, sem querer, cooperar para um mal maior. Seja cauteloso.

17. Técnica vara controle de hábitos viciosos


O controle de hábitos viciosos costuma ser assunto polêmi
co e difícil em qualquer terapia. Lidar com o prazer oral, o mais
arcaico, é coisa complicada. Portanto, o mais difícil de ser aboli
do. Na hipnoterapia, ocorre o mesmo. Não é uma questão mági
ca. As vezes, o cliente chega esperando a magia• que a hipnose
fará para ele emagrecer, perder a forne1 espontaneamente. O mes
rno sobre a bebida ou o cigarro. Mas não é assim. Quem dera pu
desse ser! O principal, de qualquer mudança, é a motivação. Por
202 Sofia M. P. Bauer

isso, se o cliente chega procurando a solução mágica, será difícil


num primeiro momento.
Há a necessidade de, em primeiro plano, trabalharmos a
motivação. A pessoa tem que querer mudar e se sujeitar a algu
ma privação. O perder para ganhar. Considero este o trabalho te
rapêutico. Aí é que vai nosso tempo de trabalho, A hipnose é
como ernbrulha~ para presente o pedido do cliente, fazendo-o
sentir-se mais confiante, menos ansioso. Mostrando-lhe, lá na
frente, como ele ficará e quais suas potencialidades para alcançar
o que deseja.
Deve-se verificar o que há por trás do hábito vicioso em
tratamento. Sabemos que este hábito cobre um vazio, algo que
está por ser feito. Mas urna vez o vício instalado, ele se torna um
ato mecânico. Muitas vezes o ato mecânico nem é percebido pelo
cliente. Devemos trabalhar o motivo de se colocar algo (droga, ál
cool, fumo, comida) no lugar de outra coisa e também o ato me
cânico.
Repare, um fumante sempre acende um cigarro num mo
mento de tensão, por menor que ela seja. Mostra o padrão: “pre
ciso me acalmar”, “preciso de tempo”. Quem sabe, você o ajuda a
aprender a se acalmar de outra forma, ou resolver os problemas
logo que eles aparecem.
Uma pessoa obesa costuma comer compulsivamente quan
do está ansiosa. Sente raiva, fica com culpa e se autoflagela co
mendo. Depois vem mais culpa e depressão: “Sou fraca!” Ensine-
a a gostar de si mesma, a perceber suas raivas, a fazer auto-hip
nose para acalmar-se. Trabalhe o seu bem-querer, a auto-estima.
Assim, vemos que trabalhar uma questão de hábito vicioso
implica urna terapia completa. Não é apenas uma ou duas ses
sões para parar de fumar, beber ou comer. É muito mais profun
do. Você verá iflúmeras técnicas nos livros de hipnose, mas elas
poderão falhar se não for feita a limpeza da “base”. No caso do
fumo, talvez você até consiga um bom resultado. Eu tenho dúvi
das. Se você não retirar o padrão ansioso, não terá bons resulta
dos.
A~ui vou mostrar uma técnica usada por Jeffrey K. Zeig.
Sei que hoje existem técnicas novas, como TFT (Roger Caiiahan)
que promovem o desaparecimento da vontade de fumar com
1~1i~~oterapia Ericksoniana Passo a Passo 203

bons resultad05, mas há a necessidade de se trabalhar o padrão


an5i0501 até pela própria técnica TFT, que é excelente, ou pela
hípnoterapia~ ou pelo seu método de psicoterapia.
Gostaria de acrescentar que, em relação aos outros hábitos
viciosos, podemos seguir um pequeno roteiro que vai orientar
voc~ na montagem das induções. Seja~ lá comer, beber, se drogar,
utilize o que o cliente traz. As metáforas do cliente serão sua por
ta de entrada.
Um segundo ponto, qualquer hábito vicioso implica, ansie
dade. Comece via relaxamento, ensine auto-hipnose, crie um lu
gar agradáveL faça levitação das mãos como uma ajuda a promo
Ver a motivação, mas cada uma dessas induções por sessão, se
não você provoca uma indigestão, a resistência. Não queira fazer
tudo de uma só vez.
Em todas as suas induções, vá minando (introduzindo ví
rus positivo) o padrão que determina o hábito em tratamento.
Por isso, é bom utilizar-se da técnica passo a passo do sintoma do
seu cliente. Observe-o atentamente, vá descobrindo os passos
que ele relata e que você percebe.
Trabalhe a calma, a auto-estima, a mudança. O relaxamen
to, a levitação, o lugar agradável e a metáfora da borboleta po
dem ajudar você inicjalmente. Vá minando os padrões, da perife
ria para o ponto central do problema.
Agora passarei a descrever a maneira de Jeffrey K. Zeig li
dar com o controle do tabagismo. Ele tëm uma técnica especial
que procurarei passar a vocês. Para Zeig você deve intervir o
mais rápido possível, já durante o telefonema de pedido da con
sulta. Você pergunta se há outros fumantes em casa, na família, e
se estão interessados também em parar de fumar. Se for positiva
a resposta, peça para que venham juntos. Tratar todos, pelo pre
ço de um só. Isto é feito com a intenção de que, mais de um fa
zendo o mesmo, fica mais fácil.

Telefonema pré-sessão
Assim, neste telefonema pré-sessão., pede-se o “apoio” de
outros familiares que queiram o mesmo. Pede-se para que venha
sem fumar já desde cedo. Procura-se marcar uma sessão para o
final, da manhã, pois a pessoa já estará ansiosa para fumar. Nisto,
204 Sofia M. F. Bauer

o terapeuta já vê se há motivação suficiente através do desconfor


to e da privação que a pessoa já está fazendo. O tratamento co
meça aí. E você pode dizer, neste telefonema, como Jeffrey faz:
“Eu quero que você fume os seus melhores cigarros até vir aqui,
cada tragada com prazer; agradeça formalmente ao cigarro por
ter sido, talvez, seu amigo, seu suporte.” Ele também diz que se
pode usar, além da hipnose, outras técnicas. Já neste telefonema,
Zeig costuma contaminar o padrão do hábito. Coloque algum
tipo de vírus, por exemplo:

— antes de jr à sessão, colocar os cigarros num lugar bem


longe de suas mãos;
— adiar o fumar o máximo possível e obter o máximo de
prazer em cada tragada até a sessão marcada;
— quantos cigarros fuma (marque-os, numerando-os de 1 a
20, e vá fumando pela ordem);
— fazer algo diferente: tirar o sapato para fumar, beber um
copo de água, etc.

Este tipo de estratégia de telefonema pré-sessão pode ser


usado para qualquer hábito vicioso. Ajuda a motivar e testar a
motivação.

Na sessão
Durante sua avaliação devem ser feitas perguntas, sem se
veridade, que rompam o padrão e criem implicações positivas.
Questões sug~eridas:

Há quanto tempo você vem fumando?


Preste atenção.
o Que tipo de cigarro você tem fumado?
o Quantos cigarros você tem fumado?

Por que parar de fumar? Por que agora? Durante o tran


se você pode repetir a pergunta e pedir para reavaliar.
Existe alguma pressão? Familiar, saúde, social etc.
Hipnot~aP~ Ericksoniana Passo a Passo 205

Trouxe junto alguma coisa relacionada ao ato de fumar


(cigarros, isqueiro etc.)?
e Fez a tarefa para a sessão? Se o sujeito não tiver feito, é
hora de dizer que ele ainda não está apto a parar de fu
mar.
O que você tem aproveitado do ato de fumar?
e O que você tem obtido do fumar?
O que você tem aproveitado do ato mecânico de fumar?
Tem ou já teve outros hábitos?
e Se teve, como conseguiu parar? Você usa isto como es
tratégia para ajudá-lo a parar de fumar agora.
• Pedir para fazer a mímica de como tem fumado.
Isso ajuda o cliente a identificar um padrão de compor
tamento. Se furna para se acalmar, se fuma para se sentir
seguro etc.
• Obter informações sobre a família. De quem gosta, de
quem não gosta. Isto para dar sugestões que possam aju
dar a pessoa. Por exemplo: colocar o nome da pessoa
que mais detesta no maço de cigarros. Quando for fumar
vai ver o nome de alguém que odeia. Ou colocar o retra
to dos filhos no maço de cigarros. Vendo a foto daqueles
que o ama e não querem vê-lo doente.
Como você sabe que pode superar este problema? Res
ponder só de uma maneira positiva.
• Descrever a vontade de fumar. Fazer escala de O a 10 em
desconforto. O objetivo é mantê-lo no limiar menor de
desconforto, para que tolere ficar sem fumar
• Hobbies, interesses. Você pode usar, na hipnõse, a troca
de interesses. O melhor desempenho em iwbbies. Até
mesmo a distração no hobby ou em algum interesse parti
cular como sugestão pós-hipnótica.
Previsão de qual será a maior dificuldade.
206 Sofia M. P. Bauer

Que tipo de suborno iria funcionar? Ajuda a entender


que é possível controlar o comportamento e até os su
bornos pretendidos.
o Como você lida com a dor? Você verá o grau de tolerân
cia ao sofrimento. Como trabalhar, dando motivação su
ficiente para superar a dor.
o Parte de você quer parar de fumar. Parte não. Em 100%
diga quantos por cento correspondem a cada parte. Você
usará isto na estória que contará em transe.

São muitas perguntas, mas todas rápidas. Fazem parte da


avaliação e já são parte da intervenção, estratégia e tratamento.
Você pode usar as que quiser ou todas elas, ou as que você criar.
O que importa é que você vai trabalhar com o seguinte esquema:

— perguntas sugestivas para suavizar;


— perguntas com tempo verbal passado. O que você tem
feito e que não fará mais;
— perguntas motivadoras, que testam e avaliam o quanto o
paciente está motivado;
— perguntas contaminadoras do padrão do hábito de fu
mar;
— perguntas que induzem a aprender novas estratégias que
podem ser colocadas no lugar do fumar;
— perguntas de escala, para que você utilize durante a hip
nose.

Tudo isto já faz parte da sessão: avaliação, utilização,


orientação de novas estratégias. Você gasta tempo para fazê-lo.
Só depois disto você está apto a fazer uma hipnose sob medida,
que vëaha trabalhar o desejo de parar de fumar.
Você pode sugerir beber muita água, caminhar, pensar em
algo positivo e muitas outras coisas, quando vier a vontade de
fumar. Faça as suas criações.
Vamos, então, ao que é importante na hipnose de parar de
fumar. Lembre-se, cada caso é um caso diferente e será necessá
rio cunhar urna hipnose única para aquele caso.
~jpnotera≠a Ericksoniana Passo a Passo 207

Zeig parou de fumar porque Erickson trabalhou contando


a estória de um amigo que era “esquisito” para fumar, “esquisi
to” para soltar a fumaça, “esquisito” para acender o cigarro etc.
A estória durou uma hora, uma verdadeira hipnose, em que
Erícks0~~ ligou os termos “fumar cachimbo” com “era esquisito”.
A última coisã. que Zeig queria ser era esquisito aos olhos de
Ericksofl’
Por isso, faça o transe sob medida.
Lembro-me de uma sessão que Zeig fez com uma moça
que desejava parar de fumar, em um congresso (São Paulo, 1996).
~oí um bom tempo fazendo muitas das questões relatadas acima.
Ele ia minando o padrão do desejo de fumar. Lá pelas tantas, ele
pergunta de quem ela mais gostava. Ela respondera que da filha.
DepoiS~ qual era a vontade de parar de fumar. A resposta foi uns
70% que poderia virar 30%, dependendo da hora. A seguir, pe
diu a ela q~ue desse cinco desculpas inteligentes para dar uma tra
gada no cigarro. Deu-lhe um tempo para que trouxesse as des
culpas inteligentes. Resultado, não conseguiu desculpas.
Zeig, em seguida, pediu a ela que repetisse a seguinte frase
com respostas positivas: “Eu sei que eu posso parar de fumar por
que...” Ele fez isto algumas vezes, como semeadura da interven
ç~o principal que viria dentro da hipnose.

Este é um esquema que Zeig utiliza. Você poderá montar


ao seu estilo um trabalho que motive, reforce a força de vontade
e o bom re~ultado ao final.
Colocou-a em transe, observando-a sentir conforto. Voltar-
se para dentro e descobrir conforto. Ratificou e durante a elicia
ção usou de duas estórias.

A primeira:
Ele estava num aeroporto, esperando para embarcar; viu
uma mãe com a filhinha no colo, que tentava se desgarrar dela.
Em princípio levou algum tempo, digamc ~ que cinco minutos,
para fugir do colo da mãe e chegar a um baleiro. A mãe correu,
pegou a filha, colocou-a no colo e segurou-a com força. Da se
guiada vez, a filha levou uns dois minutos para fugir novamente
208 Sofia M. F. Bauer

para o baleiro, gritando. A mãe ralhou com a filha, pegou-a à for


ça e amarrou-a com os braços à cadeira. A garota levou menos de
um minuto para libertar-se e saiu correndo e gritando para con
seguir as balas do baleiro. Por que a mãe não distraiu a filha? Por
que não contou estárias, leu revista, cantou? Assim, os 70% de
força tornaram-se apenas 30% em apenas cinco minutos.

A segunda:
Em seguida, contou-lhe outra estória cantando uma musi
quinha como se fosse uma maria-fumaça. Esta, ao ver o morro ín
greme que iria enfrentar, ia cantarolando vagarosamente: Eu sei
que eu posso... Eu sei que eu posso... Eu sei que eu posso... Quan
do ela chegava ao topo e começava a descer, ela cantarolava rapi
damente: eu sabia que podia... eu sabia que podia...
Com estas duas intervenções principais, semeadas pelas
perguntas feitas anteriormente, ele fez uma hipnose sob medida.
E, assim, ela poderia acreditar que ela podia vencer os 30% que
ela tanto temia.
flipnoterapia Ericksoniarta Passo a Passo 209

Praticar o silêncio significa assumir o compromisso de reservar


uma certa quantidade de tempo para simplesmente ser.,. Quando você o
pratica1 medita, entra em cantata com sua potencialidade de ser, sem
julgamento~... E é desta maneira que aparecem os pensamentos criati
vos... Aprenda a estar com você...
210 Sofia M. F. Bauer

18. Técnica de auto-hipnose


Você pode aprender a fazer sua própria indução. De acor
do com Ernest Rossi, a cada hora e meia do nosso dia, entramos
em 20 minutos de auto-hipnose (ciclos ultradianos). É como se
fosse una certo cansaço, um desligamento. As nossas células ne
~essitam de uma pausa a cada hora e meia ou duas. Urna pausa
de 20 minutos, para refazer as trocas de sódio, potássio, reorgani
zar as memórias de descanso e recuperação. Se trabalhamos sem
parar, a máquina estraga. Se você consegue parar a cada duas ho
ras do seu dia, por 20 minutos, você consegue uma maior longe
vidade e acaba com o estresse. Mas o que constatamos é que, no
mundo ocidental, as pessoas não querem parar, seguido a métri
ca de que time is money e, portanto, não se pode perder tempo.
Mas não sabem o mal que estão se fazendo. A meditação, a ioga, a
reza, o silêncio, o descanso, são maneiras de pausa. A auto-hipno
se também. E você pode aprender a fazê-la para o seu próprio be
nefício e ensiná-la ao seu cliente como auto-higiene. Vamos lá...

Coloque-se numa posição confortável.., acomode-se de


tal maneira que ninguém venha lhe incomodar nos próximos 15
ou 20 minutos.., e se dê tempo... todo o tempo do mundo nos
próximos minutos.., você pode reorganizar sua vida para descan
sar agora...
É tão bom espreguiçar-se... parar por uns instantes.., to
mar fôlego... ver corno está sua respiração... liberar-se para deixar
a respiração acontecer em você... Respire... Inspirando e abrindo
seu peito... pense nas coisas boas que deseja alcançar... expire...
solta /mente... pondo para fora o que fica preso aí dentro... dei
xe-se ficar quietinho... deixe-se espreguiçar... sintonize com o que
você está experienciando... imagine qu~e você está experienciando
conforto em algum lugar do seu corpo... veja onde você ainda
tem alguma tensão... você não tem que ficar confortável.., apenas
aprenda a conhecer onde está sua tensão agora... que partes do
seu corpo traduzem seu estresse... talvez o coração esteja batendo
mais depressa... talvez alguns músculos, como os do estômago
ou da cabeça, estejam tensos... não tenha pressa... sintonize-se
com esta tensão... eia vai passando... enquanto você observa sua
respiração... os músculos que j.~ estão mais soltos... talvez você se
~jjpnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 211

pegue pensando... não julgue... deixe que os pensamentos vão e


voltem.~ simplesmente vá notando o que acontece... deixe as coi
sas acontecerem... não há necessidade de controlar nada... Assim,
vá notando as mudanças ocorrendo... Respiração mais solta... os
barulhos à sua volta, sem perturbá-lo.., o alívio de não ter que fa
zer nada... poder descansar... o soltar dos músculos.., é tãci gosto
so ficar deste jeito... descansando... cabeça... idéias... e você não
precisa se mexer... afinal de contas você merece este descanso...
fique assim por um tempo... aprendendo que, para fazer auto-
hipnose1 basta fechar os olhos para o lado de fora... e abrir seus
olhos internos... conectar-se lá dentro... calma... tempo... tempo
de recuperação... silêncio... todo o silêncio necessário para des
frutar devagar e dar-se o tempo de recuperação nos próximos
minutos... silêncio.., e você retornará sozinho, dentro do tempo
que desejar e tiver disponível.., cheio de energia... de mente are
jada... serena / mente bem disposto...

Siga este roteiro e logo você fará o seu próprio.

Uma outra auto-hipnose um transe para liberar


potencialidades inconscientes

E agora,
quando você for para dentro de você mesmo...
deixando-se ir...
você pode tornar-se...
ainda mais consciente...
de que você tem uma mente consciente,
e uma mente inconsciente,
um eu interno,
um eu tranqüilo,
oculto bem no fundo,
que fica mais disponível,
mais acessível,
quando você se deixa ir suave/mente, calma/mente
E esta mente interior,
Esta mente consciente,
212 Sofra M. F. Baijer

tem muitas habilidades


e compreensões
que você pode usar
para se tornar mais confortável,
tornar-se mais feliz,
para desfrutar de siia vida
mais inteiramente,
porque sua mente inconsciente
pode pensar melhor sobre seus objetivos,
pode ver como você se sentiria,
estando agora mais à vontade
sendo mais capaz de olhar para você com cuidado,
dedicação,
de se sentir confortável /mente.
E quando sua mente inconsciente sabe
o que ela pode fazer
para ajudá-lo,
você também pode perceber isto
porque ela pode lhe mostrar
um pensamento,
uma memória,
uma sensação, ou uma imagem.~.
que, à primeira vista, pode parecer incomum,
porém, mais tarde,
mostrar o caminho
para ajudá-lo, libertá-lo.
E eu não sei,
e você não sabe,
o que seu inconsciente sabe,
ou o que ele fará por você,
mas eu sei
que você pode esperar agora
pelo seu eu interno,
para revisar aquele objetivo,
flipnoterapm Ericksoniana Passo a Passo 213

encontrar aqueles pensamentos,


aquelas novas formas de fazer,
deixar aflorar a memória para aprender,
encontrar aquelas necessidades,
que realizam aqueles objetivos.
Sua mente inconsciente sabe o que fazer,
quando ela reconhece como usar
suas próprias experiências,
suas próprias reações,
sua forma própria de fazer as coisas,
para ajudá-lo .a realizar aquelas coisas
que são tão boas para você.
Você necessita de sua mente inconsciente,
você pode saber que ela está pensando essas coisas,
e ela sabe o que fazer
e o que fará por você...
Dê tempo a você mesmo...
Aproveite agora para se sentir
solta/mente..,
suave/mente...
e assim você pode tomar
todo o tempo do mundo
para ir voltando
aqui para a sala (ou para o seu ambiente,
caso seja autohipnose)
nos próximos minutos...
serenamente alerta
e bem-disposto.

Existe uma excelente hipnoterapeuta ericksoniana do Mé—


xico, Teresa Robles, que, com Jorge Abia, desenvolveu várias téc
nicas de auto-hipnose, tendo publicado alguns livros sobre o
terna, tais como: Autol’iipnosís: aprendiendo a camintrr por la vida e
Revisando o passado para construir o fritura. São livros de fácil leitu
ra e recomendados para quem deseja ampliar seu arsenal técnico.
Capítulo 6

Casos clínicos

A hipnoterapia serve para qualquer caso clínico que che


gue ao seu consultório. Aqui vou citar algumas patologias, meu
ponto de vista, a forma como trabalhei e, como ponto principal,
alguns depoimentos dos clientes que passaram por este processo.
Gostaria de colocar que a criação de um sintoma é uma
forma de linguagem metafórica de algo que se passa lá dentro de
você. Funciona como um sistema de alarme. Assim, se você tem
um sintoma psíquico ou somático, você tem algo que se interco
munica aos dois sistemas. Como dizia Freud: “... nada é mera
mente psíquico... nada é meramente somático...”
Veja o que aconteceu como precedente do sintoma na vida
daquela pessoa, nos anos que antecederam o sintoma, .o que
acontece hoje. O próprio sintoma é uma linguagem metafórica
que se traduzirmos dá a dica do que a pessoa sofre lá no fundo.
Exemplo: intestino preso é como prender o “enfezamento”, pren
der as mágoas e raivas.
Gostaria agora de relatar alguns casos dlinicos que poderão
ilustrar para você como a hipnoterapia funciona. Eu poderia dar
exemplos de todos os tipos de psicopatologia. Mas escolhi ape
nas algumas. Você verá alguns depoirnentos dos próprios clien
tes. Como foi para cada um vivenciar a hipnoterapia. Estes rela
tos foram colocados para que você pudesse ver como a terapia
funciona diferentemente em cada pessoa. Os fenômenos hipnóti
cos variam, assim como a reação de cada um.
216 Sofia M. P. Bauer

Lembre-se, são só alguns exemplos. O intuito do livro é


mostrar-lhe a técnica; os casos são apenas ilustrações.

1. As desordens somáticas e psicossomát~cas


A psicopatologia diferencia estas duas coisas. Por desor
dem somática traduz-se uma anomalia passageira que a pessoa
tem como uma descarga emocional. Exemplo: uma diarréia, um
vômito, uma dor de cabeça após uma discussão.
Por desordem psicossomática, uma anomalia que ataca um
órgão-alvo, a qual é considerada uma doença física, mas a causa
é psíquica. Existe o mal físico, às vezes crônico, mas a causa vem
do psiquismo. Sao exemplos: asma, ulcera, enxaqueca, alergias,
psoríase, vitiligo, hipertensão, etc.
Tanto na primeira, desordem passageira, como na segun-
da, a hipnoterapia tem sido muito efetiva. E sempre um sintoma
que fala ~de um outro mal, que o psiquismo traduz no corpo. A
hipnose toi~na-se o caminho que restabelece a conexão com o psi-
quismo, levando à eliminação do problema. É o que veremos nos
casos a seguir. São casos de desordens psicossomáticas ou trans-
tornos somáticos, em que o psiquismo precisou dar seu sinal de
alerta através da linguagem metafórica do corpo.
1
1
2. Hipertensão
A hipnose, por si, é muito eficiente para o controle da pres
são arterial. Uma vez que controla as batidas do coração, o rela
xamento muscular, promove o relaxamento das artérias e a que
da da pressão.
Costumo ensinar hipnose de relaxamento, ar azul, lugar
agradável e auto-hipnose. Funciona muito bem. Enquanto a pes
soa a faz, a pressão baixa. Você pode medir a pressão logo a se
guir e verá que ela terá baixado.
Um outro trabalho importante é, através do processo psico
terápico, observar o que faz pressão na vida desta pessoa. Ajude
a a ir limpando. Através da hipnose, associada às metáforas, vá
mostrando os caminhos à despressurização da vida.. Associe os
dois métodos e a pessoa vai aprender a controlar a pressão da
flipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 217

vida. Ensine-a a relaxar, a curtir prazeres pequenos, a enfrentar


os problemas que causam pressão.

Caso Irene
Mulher, 45 anos, advogada. Procurou a terapia por estar
sofrendo de hipertensão. Seu médico indicou a terapia como uma
ajuda devido ao grau de estresse em que vivia. Sua vida era pres
~o contínua. Trabalhava sob pressão de dar conta de todos os
problemas de uma grande empresa. Em seus re~atos, colocava
palavras como panela de pressão, rolo compressor.
Após três meses de hipnoterapia, já sabia fazer auto-hipno
se, que praticava diariamente dentro da empresa e, em casa, logo
que chegava do trabalho. Trocamos a “panela de pressão” por
outras panelas que cozinhavam muito bem e deixavam a comida
mais saborosa, apesar de gastar um pouquinho mais de tempo.
Trocamos o rolo compressor por máquinas de última geração
que, sem pressionar, conseguem fazer o mesmo trabalho. Isto em
estado de transe, em trabalhos metafóricos. Foram introduzidas
sugestões pós-hipnóticas de lazer, descanso e diversão. Foram
prontamente aceitas e a paciente foi mudando sua vida.
Voltando ao médico, para o controle periódico, para surpre
sa de ambos a pressão havia se normalizado. Foram suspendidos os
medicamentos e depois de mais três meses de terapia, seis meses no
total, recebeu alta do médico e da terapia, com vida nova.
Foram utilizadas com ela as técnicas sugeridas neste livro
como: relaxamento, respiração, entremear palavras ressignifican
do-as, metáforas e sugestões pós-hipnóticas.

Caso Rivonilda
Mulher, 53 anos, hipertensa desde criança. Há dois anos e
meio teve uma trombose femural e sofreu uma cirurgia. Deste
momento em djante sua vida mudou. Foi proibida de tudo, pois
constataram um entupimento grave de uma das artérias caróti
das, Perigo de vida, inclusive. Pressão alta, trombose, entupi
mento de veias, assim chegou a paciente, acreditando que a hip
noterapia poderia ajudá-la. Afinal de contas, tudo veio lá de trás!
218 Sofra M. F. Bauej

Desde menina! Era a caçula de nove irmãos. Quando a mãe en


gravidou, o pai morreu. Que pressão!
Esta mulher já estava em tratamento homeopátko e fazen...
do massoterapia. O tratamento médico também seguia fazendo,
com exames e controles periódicos. Sua pressão alterava muito e
sempre muito alta.
O que vi, ao final, foi uma pessoa que, após o susto de qua-
se perder a vida, trazer de dentro de si mesma a sua resposta in
terior: a cura que tanto almejava. Sua pressão equilibrou-se. Seus
pés, que chegaram a ter isquemia e quase perder as unhas, torna- 1:
ram-se corados e quentes novamente. Saúde equilibrada. Alta do
médico.
O que mais chamou minha atenção foi o que lhe aconteceu
após a quarta sessão hipnoterápica. A resposta interior apresen
tou-se na forma de uma luz violeta, uma bola de luz violeta que
ela viu. Chama violeta, presença da cura? Ela vivificava algo es
pecial.
Em seus relatos assocjou a cura a Saint Germain. O que é
verdade de tudo isto?! A meu ver, tudo. É a verdade de Rivonil
da que pode receber a cura, a limpeza, o sinal e a luz da despres
surização e da harmonização. Não fui eu quem sugestionou algo
assim. Foi o inconsciente sábio de Rivonilda que sinalizou para ~J
que o caminho da luz se abrisse. Somente pessoas especiais rece
bem Saint Germain e sua luz personificada. Ela é uma pessoa es
pecial, merecia uma cura especial. Fico muito feliz por ter sido
testemunha de uma autocura, propiciada pelo veículo da hipno-
terapia. E gostaria que este reláto especial fosse o testemunho de
que quando alguem quer mudar ela muda. A motivaçao e a alma
do negócio.

Segue o relato da paciente sobre as seis sessões que ela fez


comigo em hipnoteràpia.

“Belo Horizonte, 3/2 /98


São experiências a relatar de 53 anos de vida, mas farei um
resumo em poucas linhas. Fui hipertensa desde criança e muito
fljpnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 219

alérgic~ 1-lá dois anos e seis meses, tive uma trombose femural e
passei por uma cirurgia. Meu ritmo de vida mudou.
Fui proibida de tudo na vida, sentia-me um peixe fora
d’água, mas não me entreguei. Comecei um tratamento com ho
rneopatia holística e terapia corporal (massoterapia), estava sen
tindo uma melhora grande mas ainda estava faltando alguma
coisa em minha vida, estava sempre questionando e interrogan
do a mim mesma o tempo todo, sentindo vazio e medo, insegura
com relação ao caminho daquela vida nova, tudo mudado, tendo
de fazer novas adaptações em relação ao meu trabalho. No se
gundo semestre de 97 busquei o processo de cura mais rápido, a
hipnose. Seis encontros com a terapeuta fizeram-me sentir cura
da, sem medos, em perfeita harmonia com a vida, sentindo o pra
zer de fazer parte deste mundo.

Primeira experiência com a terapeuta:


Chorei muito, voltei ao tempo dos meus 2 anos, lembrei-
me de um vestido de chita e senti saudade dele; senti a dor de
pequenos empurrões que levei do meu irmão de 7 anos na época.
Dois dias após a primeira sessão, entrei em hipnose sozinha em
casa, vivendo uma experiência dentro do útero, e a chegada ao
mundo foi uma sensação suave e de prazer sem dor.

Segunda experiência:
Sempre chorava muito, de escorrer lágrimas em grande
quantidade, muito insegura, com medo de tudo e com vontade
de me alimentar de coisas que são a alimentação de recém-nasci
dos como leite, sopa, etc.

Terceira experiência:
Ainda chorava muito. Os medos já diminuíram durante a
sessão. Senti meus pés saírem do chão e um bem-estar muito
grande. Eu estava muito feliz, em campo muito plano, com chei
ro de terra molhada; plantações muito grandes de trigo e pessoas
de épocas passadas. Uma vida muito pobre, e eu fazia parte des
te lugar e estava feliz. Não era criança e estava sempre mexendo
na plantação, sentindo prazer por estar ali.
220 Sofia M. F. Bauer

Quarta experiência:
Na quarta sessão estava bem mais leve e vivendo a cura,
presenciando a fluência da circulação em meus pés, uma reação
normal. Três dias após, era domingo, 17:30h, estava em casa, so
ziiiha, preparando-me para tomar banho, quando uma chama
violeta pairou sobre minha cama. Estendi as mãos, tentando pe
gar, e pedindo para não ir embora. Ela ficou sobre minhas mãos
por minutos. Era fria, gelada, e apagou-se. Levei as mãos ao pei
to, tive sono, dormi uma hora e meia e até hoje sinto a cor, e o ca
lor nas mãos mudou. Foi urna experiência que não quero esque
cer, lembrando sempre e agradecendo às energias porque foi
bom. Faltam palavras para expressar o que senti nesse dia. Foi
bom, lindo, maravilhoso.
Hoje me sinto uma outra pessoa, de bem com a vida. Estou
curada, comprovado cientificamente.”

3. Úlcera
No caso, o órgão de choque é o estômago. A raiva, o estres
se, o excesso de autocontrole, a preocupação, estouram no estô
mago. São ~pessoas de caráter nervoso que se corroem por dentro.
Queimam-se com seu próprio fogo. Observe bem a pessoa com
queixas de gastrite, ou úlcera. Ela está passando por um período
de estresse que gera raiva e culpa.
Procure averiguar quais os problemas que a vêm afligindo.
Você sabe que qualquer problema psicossomático tem sua raiz
no psíquico, mas é o soma o sinalizador. Não adiantaria muita
coisa, apenas tratar medicamentosarnente. É preciso averiguar e
melhorar as causas psíquicas que estão gerando o mal-estar psí
quico e físico.
Corno em todos os casos, a hipnose é ferramenta útil nos
ensinamentos do relaxar, buscar soluções interiores para os pro
blemas que nos afligem. Acalmar-se, buscar coragem, aprender a
se divertir, são caminhos que você pode ensinar através da hip
nose. Mas, lembre-se, busque o que está corroendo esta pessoa
por dentro. Através das perguntas feitas, dos sonhos e da hipno
se, você tem material suficiente para limpar o que a queima inte
riormente.
wpnote~P~ Ericksoniana Passo a Passo 221

Caso Dano
O que vem a seguir é o relato do paciente que se submeteu
à hipnoterapia. Dentro do que fo{ dito acima, ele aprendeu a
compreender aquilo que o queimava. Como podia se divertir,
laxar e mudar sua vida, mesmo que tivesse que continuar fazen
do o mesmo trabalho profissionaL Aprendeü a relaxar, a curtir
~ua futura esposa (casou-se com ela), a dar mais valor a suas ho
ras de laser, como a hora que ele precisava para limpar “as quei
maduras” do trabalho, e assim por diante. O fato de entrar em
transe já o ensinava que era possível desligar-se por algum tem
po do que era ruim. Recuperava o fôlego e dava forças para pro
curar mais o que era gostoso. Divertindo-se mais, diminuía o
peso das pressões do trabalho, que continuavam as mesmas, ou
até poderiam piorar, mas era possível soltar-se; desligar-se, por
tempo determinado, para recuperar o fôlego. Aprendeu também
que, se o estômago doía, isso era um sinalizador. Algo já estava
pressionando a mente. O que precisava ser resolvido, o que era
pressão excessiva? Era hora de parar. Ocupar-se de algo bom que
relaxa, dá tempo ao estômago para se recuperar.
Neste caso, o paciente entrava bem em transe e sofria am
nésia parcial. O que é bom, porque você pode dar sugestões que
ficam guardadas lá no inconsciente, e que a pessoa vai usando
devagarinho. As lembranças de uma ou outra palavra ou suges
tão vão aparecendo, lá de dentro, aos poucos, na medida certa. O
fato de entrar bem em transe, neste caso, favorecia. O relaxamen
to era sempre profundo e o fazia soltar a musculatura do estôma
go, diminuía a tensão física. Tirava as pressões e ajudava o pa
ciente a acreditar que algo especial acontecia, e que ele tinha re
cursos para se recuperar.

Uma experiência hipnótica


“Antes de começar a falar sobre a minha experiência com
hipnose, gostaria de voltar há 12 anos, quando surgiram todos os
meus problemas que me levaram a buscar o tratamento à base de
hipnose.
Tudo começou no ano de 1986, que eu considero o ano
mais negro de minha vida. Tinha na época 28 anos. Trabalhava
222 Sofia M. F. Baitei

em uma empresa de informática e havia montado uma joint ven


twre com outros três sócios brasileiros e argentinos para exporta
ção e importação de alimentos, via Mercosul. Como em todo ne
gócio que se monta, existem problemas e dificuldades, mas não
tantas quanto aquelas pelas quais que passamos.
Em maio de 86 resolvemos comprar a parte da sociedade
de outro sócio e acabamos vendendo toda a empresa para este
sócio, ou seja, caiu o primeiro sonho de me tornar um empresá
rio. Para continuar o mês de mudanças, terminei um relaciona
mento de cinco anos com uma pessoa com quem, em breve espa
ço de tempo, casaria. E, fechando o mês de maio, deixei a empre
sa de processamento de dados para buscar uma outra alternativa
de negócios, visto que estávamos em pleno Plano Cruzado e a
perspectiva quanto à situação econômica era positiva para os em
preendedores.
Quando chegou o mês de setembro de 86, adquirimos uma
pequena indústria que, pensávamos, seria o fim da aposentado
ria de meu pai e o início de um grande negócio, pois estávamos,
eu e meu pai, à procura de um empreendimento que nos trouxes
se muito trabalho e uma certa tranqüilidade financeira, O início
das atividades se daria no dia 22 de setembro, e meu pai esbanja
va alegria e entusiasmo, pois chegariam ao fim seus dez anos de
aposentado.
À zero hora do dia 22 de setembro meu pai sentiu-se mal e
o levamos para o hospital, onde veio a falecer duas horas depois,
vítima de um infarto fulminante.
Em 31 de dezembro, felizmente termina o ano de 1986.
Começamos a tocar o negócio, eu e meu irmão, indo de
vento em popa e superando às dificuldades impostas pela falsi
dade de um plano eleitoreiro imposto por um governo que não
tinha sequer as rédeas do bom senso em suas mãos.
Durante o ano de 1987, comecei a sentir fortes dores no es
~ômago, foram diagnosticadas duas úlceras duodenais e uma
hérnia de hiato. Acredito ei~i se tratar de conseqüências do ano de
1986. Tratei à época com os métodos convencionais e aparente
mente deu resultado.
f{ipnoteraP1~a Ericksoniana Passo a Passo 223

Meu negócio como empresário durou três anos, exatamen


te até o fim de 1988, quando achei um comprador para a empresa
e fiquei. livre de vários problemas.
Em 1989, minha vida começou a mudar radicalmente. Vol
tei a trabalhar em uma empresa multinacíonal de grande porte,
com um bom salário. Resolvemos, à época, eu e minha namora
da, morar juntos, após dois anos de namoro, e iniciamos uma
vida a dois que durou pouco tempo mas que foi bastante interes
sante.
Neste mesmo ano, voltei a ter novamente duas úlceras
duodenais, uma hérnia de hiato e gastrite. De novo os mesmos
tratamentos convencionajs, via alopatia.
1-lá cerca de quatro anos, encontrei Sofia, que me falou so
bre a hipnose, o tratamento e os resultados obtidos nos casos de
doenças como a úlcera. Neste ano, as minhas dores no estômago
haviam voltado. No primeiro instante, achei aquilo meio maluco,
com muito receio e com muita descrença neste assunto que eu
desconhecia por completo.
Só que aquilo ficou na minha cabeça e eu pensava comigo
o que poderia acontecer se eu passasse por uma experiência des
sas. Mal não faria, por que então não experimentar? Na vida te
mos que estar preparados para mudanças e mudar sempre que
for preciso.
A primeira vez que fui ao consultório, um pé ficou atrás e o
outro teimava em não entrar na sala da Sofia. O primeiro contato,
ou a primeira sessão, foi bastante tenso, pois a idéia era buscar o
relaxamento, a paz interior, a abertura de espaço para mim mes
mo e para o meu estômago. Mas como relaxar com toda pressão
que eu vivia diariamente, principalmente no trabalho.
Após alguns meses de análise, a situação começava a mu
dar de figura. Eu sentia menos.peso em meu corpo e minha cabe
ça ficava sempre leve. Eu me lembrava dos 15 minutos iniciais
das sessões, depois não sabia de nada que me acontecia. Foi urna
experiência bastante gratificante. As dores no meu estômago pa
raram e minha vida tornou-se um pouco mais calma, mas não
menos tensa.
Agora eu conseguia controlar ~im pouco a produção do
acido clorídrico que corroía as paredes de meu estômago. Sem-
224 SofiaM.F.Bauer

pre que alguma coisa começava a me incomodar, eu buscava as


sessões de hipnose para me relaxar. Até nas reuniões de negócios
eu conseguia não me aborrecer mais. Quando a cois.a ficava cha
ta, eu “ligava meu subconsciente” e passava a ouvir a voz da So
fia me falando coisas, me levando a lugares que só me traziam
boas recordações.
Fiquei mais feliz ainda no dia que fiz outra endoscopia e vi.
que as paredes de meu estômago só tinham marcas passadas e
mais nenhuma presente. A primeira pessoa a quem contei e mos
trei o meu exame foi Sofia, tamanha era a minha alegria por ter
passado essa fase e acreditando no que as pessoas são capazes de
fazer pelos outros.
De vez em quando peço a Sofia para fazer uma sessão. A
minha experiência foi bastante construtiva e provocadora de
muitas mudanças em minha vida. Para melhor, é claro, Não pos
so esquecer que minha esposa participou ativamente deste resul
tado positivo.
Ao final deste relato, gostaria de dizer que o perfil deste
paciente é de uma pessoa impulsiva, mas empreendedora e mui
to correta. As pessoas impulsivas querem “imaturamente” as coi
sas prontas para ontem. Um superego exigente contribui ainda
mais para o aumento das pressões. Assim, o que ocorre é um so
matório de pressões psíquicas que acabam afetando o corpo.
Se você trabalha no sentido de diminuir a pressão para
continuar dando conta de fazer tudo a seu modo e a seu tempo,
lá na frente o resultado será ótimo. Elimina-se a raiva, e você não
mais gerará a culpa, o castigo e o ganho secundário. Aprende-se
a sentir o prazer de viver na retidão e aproveitar o lazer. Pois até
Deus, depois de criar o mundo, tirou seu dia de folga!~

4. Impotência
Geralmente os homens que cliegam com esta queixa so
frem de uma impotência geral. Averigúe de que outras impotên
cias este homem está sofrendo. Vida profissional, vida em casa,
com familiares. Algumas vezes, a impotência é no campo afetivo.
Coisas do tipo: “ela é mulher demais para mim”, “ela é linda e eu
sou feio”, “ela é proibida, ou a mulher impossível”.
~ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 225

Então, sempre procuro averiguar a impotência simbólica


que está por trás. É necessário trabalhar o bem-querer, a auto-es
tima. Quais são seus valores? Por que esta mulher está com você?
Se ela está com você é porque gosta? São perguntas que podem
refazer a auto-estima. Podem fazê-lo ver seus valores. Você pode
usar de metáforas do resgate de tesouros escondidos, por exem
plo. Observe a questão edípica, as iffipossibilidades de se tornar
homem de verdade. Nestes casos, precisamos trabalhar a ansie
dade de ter que mostrar competência de imediato. São pacientes
ansiosoS, querem conseguir tudo depressa. Isto não quer dizer
que se apresentam ansiosos aparentemente. Demonstram uma
ansiedade dissimulada. É como nó caso da gagueira, só na hora
em que se sentem pressionados é que a ansiedade é demonstra
da, gaguejando ou ficando impotentes. Isto mostra que a dificul
dade se encontra no pensamento impotente: “Posso não dar con
ta agora.” Nestê momento vem a pressão imediata. Devemos en
siná-los a comer devagar, não vai faltar comida.
Outro componente que venho observando é que são pes
soas “boazinhas”. O bonzinho sempre passa por bobinho. E ele
sabe disso de uma maneira ou de outra. O que está por trás dis
to? A questão da auto-estima, da auto-imagem. É preciso traba
lhar a referência, o auto-retrato de homem. Por isso, durante seu
trabalho hipnoterápico, procure manter a direção da conquista
de um auto-retrato como homem adulto, fazendo o menino virar
homem. Devemos introduzir, depois das sessões básicas de rela
xamento, a diminuição da ansiedade; o descobrimento, através
da levitação (“levantar” tudo que ele quiser levantar), do poder
do inconsciente e de que é hora de crescer. Mostrar o desenvolvi
mento do menino. Além de ensinar-lhe que pode se deliciar va
garosamente com as comidas que a vida oferece. Veja o esquema.
Sabemos que cada caso é um caso, Mas vou lhes dar um ro
teiro que poderá ser adaptado a cada caso.

Primeira sessão Adaptação


-

É como a primeira saída. Vá devagar, não peça muito.


Lembre-se de que há uma ansiedade de base. Ele quer muito,
Você não tem como dar muito de uma vez. Você já vai ensinar
um primeiro pressuposto: devagar, se tem mais vontade de atin
226 SofíaM.P.Bauer

gir o objetivo. Observe, veja as idjossincrasias, veja onde o pacien


te é ansioso. Veja no que ele se encontra impotente, além do as
pecto sexual. Pergunte coisas do tipo: 1 Corno você se levanta

de manhã? 2 Como você toma o seu café da manhã? 3 Como


— *

você come o seu prato predileto na refeição? É depressa ou deva


gar? 4 Quando você vai dormir, acha que tem de pegar logo no

sono? Anote e guarde. Você utilizará nas estórias para ressignificar


e encontrar caminhos que o tirem da impotência, da ansiedade.
Nessa sessão, após ouvi-lo, você fará a primeira hipnose.
Como em todos os casos, nosso primeiro objetivo é ensinar con
fiança e relaxamento. Confie em mim, vem comigo. Isto é o que
queremos comunicar. Fazendo a primeira hipnose, via relaxa
mento, você terá o subsídio de já estar ensinando-lhe a relaxar a
“cabeça de cima”, e com isso aprënder a relaxar o todo até a “ca
beça de baixo”, que precisa estar totalmente relaxada para tensio
nar, distendidas as artérias. Para as artérias se encherem, só rela
xando. Você não precisa dizer isto; é claro! Ensine-o a relaxar a
cabeça de cima... apenas isto. E de passagem, como sugestão pós-
hipnótica: nada como aprender a relaxar a cabeça... vêm vonta
...

des... idéias... s~ensações agradáveis.., você vai aproveitar isto e


muitas outras coisas de sua vida com calma... você sabe que exis
tem pessoas que fazem má digestão porque comem com pressa...
porque não sentem o sabor... o cheiro... do alimento.., a digestão
feita devagarinho é saudável.., tudo que é feito com calma é mais
bem saboreado...

Segunda sessão Levitação


-

Caso seja um paciente que entra bem em transe, você pode


rá fazer levitação da mão com ele. Se é responsivo, já responderá
à levitação. Você pode levantar sua respiração, respirando pro
fundamente... quando você levanta de manhã respira gostoso...
se ergue... se levanta para uma iiova posição... e você pode se le
vantar agora para uma disposição mais relaxada... quantas vezes
caímos e nos levantamos depois com uma sensação gostosa... as
sim, pen~ita-se erguer o seu bem-estar.
E na sugestão pós-hipnótica você trabalhará os vários ní
veis de impotência que ele sofre. Se ele é capaz de, inconscien
te/mente, levantar sua mão sem ter que fazer força para isto... ele
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 227

também pode levantar outras partes, naturalmente... com aquela


vontade que vem lá de dentro... A mente inconsciente, sábia ami
ga, faz, muito mais coisas por nós do que podemos imaginar.., e
podemos deixar a ela a incumbência de levantar isso ou aquilo
que for importante... mais tarde... ou agora mesmo... tudo a tem
po de lhe mostrar que é possível fazer o que desejamos fazer...

Terceira sessão Assegurar confiança


-

Ensinar-lhe a auto-hipnose, ou lugar agradável. Sempre


que se pressionar é hora de parar... relaxar.
Aprendi com o professor Malomar a fazer com que o pa
ciente se imagine .con,.endo uma refeição prazerosa, imaginando
o visual das comidas, a cor, o cheiro, o sabor, aproveitando va
garosamente.

Quarta sessão Desenvolvimento psicológico do menino


-

Lembremos que se este homem se sente impotente, sente-


se incapaz de alcançar um objetivo. Será que existem partes ima
turas de sua identificação masculina? É bem provável. Se você
achar que sim, durante o transe faça uma analogia do desenvol
vimento de todo menino. Umas partes crescem mais depressa
que outras. Até este momento, tudo ficava meio desproporcional:
voz rouca, pernas grandes e cabeça de menino. Os aspectos psi
cológicos do desenvolvimento humano crescem assim também.
Dê a ele tempo para o amadurecimento.

O professor Malomar costuma dizer algo parecido com o


que vem a. seguir:

Como acontece com toda criança, os aprendizados vão se


fazendo pela vida a fora... quando bem pequenino, levou algum
tempo aprendendo a andar... muito treino.., e lá na frente você
andava automaticamente... o menininho ia crescendo e percebeu
seu primeiro grande amor... sua mãe... a mulher de sua vida...
mas foj percebendo, aos poucos, que ela era uma mulher proibi
da... ela era a mulher de seu pai... seu primeiro objeto de amor
era inatingível., o meio de sair desta impossibilidade era procu
rar outra mulher... uma mulher que não fosse proibida... uma
228 Sofia M. F. Bajiej

mulher para ser a sua mulher... Mas o menino ia crescendo.., dei


xando de lado fantasias como Papai NoeL. cegonha... criando
novas idéias... mais audazes... aprendendo a vencer desafiõs... o
corpo crescendo... voz engrossando... barba aparecendo... meio
esquisito... pernas longas.., corpo de homem... cabeça de meni
no... mas sabendo que lá na frente... tudo se equilibrará.., terá
corpo de homem... cabeça de homem... neste meio tempo, caindo
idéias infantis, entrando idéias adultas... costumam ficar algumas
idéias fantasmagóricas infantis.., que bloqueiam e paralisam o
crescimento... Corpo de homem... medos infantis.., agora você
pode ir equilibrando seu crescimento... deixando de lado algu
mas idéias infantis e vendo o homem de hoje... com todas as qua
lidades que você tem... com a sua mulher livre... sua... a seu
lado... desfrutando dos prazeres dos adultos, livremente.., sauda
velmente... E as partes psicológicas podem crescer... equilibrar...
liberar você para viver o prazer... imagine tudo que o homem
pode e deve fazer com a sua mulher... Dizem que a mulher é que
faz o homem... deixe sua mulher lhe fazer sentir-se o homem
dela...

Isto você falará, após ter colocado seu paciente em transe e


já ter ratificado o bem-estar que relaxa a cabeça e faz as coisas
fluírem mais livremente.

Quinta sessão Dessensibiização


-

Coloque a i5essoa em transe, desenvolva uma metáfora ou


analogia de como um cozinheiro prepara uma boa refeição. Você
já ouviu falar que “quem tem pressa come cru”. Pois é, então, fale
com calma, descreva o cozinheiro, primeiro imaginando o que
ele vai preparar de iguaria para sua amada. Que ingredientes vai
usar. Que tipo de bebida. Depois, ele vai às compras, sonhando
com o jantar. Prepara a mesa, enquanto namora, põe água no
fogo para ferver, mas não fica vigiando, sabe que água precisa de
tempo para entrar em ebulição. Há tanta coisa para se fazer, nes
te meio tempo. Picar os ingredientes. Dar uns beijos na namora
da, e muito mais. A comida vai sendo feita ao fogo, na medida
necessária, e quando menos se espera... lá vem.., tudo ao ponto
de ebulição! Comida no ponto, é hora de comer!
Hipn0t&aPia~ Ericksoniana Passo a Passo 229

Esta é uma dessensibilização indireta. Você poderá fazer


unia dessensibilização direta, ensinando o passo-a-passo do “co
zimento do namoro e assim por diante.
Ao longo da terapia, introduza os aspectos das impotên
cias subjetivas relacionadas à impotência do paciente em ques
tão. Trabalhe a auto-imagem, o crescimento, o ideal do ego e os
prazeres. Como sempre, cada caso tem lá suas particularidades
que somente ao se trabalhar é possível averiguar.
Boa sorte!

5. Ejaculação precoce
É quase o mesmo caso da impotência. Denuncia a pressa à
satisfação e uma imaturidade no aspecto psicológico no que se
refere ao ato sexual. O menino com muita sede vai ao pote, mas
ainda não sabe beber dessa água.
O trabalho aqui é com a ansiedade e o desenvolvimento
psicológico. Transformar o menino em homem. Siga os passos
descritos para o caso de impotência. Utilize uma metáfora espe
cial: o desembrulhar um presente. A melhor maneira de desem
brulhar um presente é fazê-lo devagar, traz mais suspense, mais
vontade de ver o que há lá dentro. Se você desembrulha depressa
demais, está sujeito até a quebrar o presente.
Mas lembre-se sempre de que, para cada caso, há necessi
dade de uma análise especial. Devemos averiguar a maturidade
sexual. Não adianta ter corpo de homem, idéias de homem, se
continua tendo medos e fantasmas infantis. Algumas experiên
cias1 como fazer sexo depressa para não ser flagrado, ou fazer
sexo depressa, porque era com prosfituta~, ou por ser feito com
animais (como galinha, égua etc.), podem ~trazer sentimentos de
culpa. Não há mal algum nisto tudo descrito acima. Mas para o
paciente há. Ele vê como uma coisa deturpada, por isso o gozo
vem com culpa, prazer e desprazer, num compromisso de equilí
brio, em que a evitação do desprazer é feita pelo recalcamento. A
pessoa, então, goza do prazer e, em seguida e simultaneamente,
pune-se com a ejaculação precoce.
230 Sofia M. F. Bauer

Nesses casos, a regressão é uma boa maneira de observar o


material recalcado, o que se tornou proibido aos olhos do menj..
no-homem.
É importante sugerir amnésia nestes casos de regressão.
Assim, você pode trabalhar o material recalcado sem tanta dor. O
material está recalcado porque está vinculado a um sofrimento
do passado. Todo cuidado é necessário. Em seguida, sabendo
quais foram os motivos de recalcamento do prazer do adulto de
hoje, você pode ressignificar as novas possibilidades.
Vou relatar um caso de ejaculação precoce, em que você
vai observar os aspectos citados acima, e outros que mostram por
que é preciso ver cada caso como único.

Homem, por volta dos 30 anos, casado. Infeliz no casamen


to e na vida sexual. Relata sempre ter tido ejaculação precoce. No
relato de sua história, conta que sua primeira vez foi com uma
prostituta velha e nojenta. Ele então pensou: “Nossa, preciso fa
zer isto depressa! Será que eu vou dar conta?” Este relato é muito
comum nestes casos, o fato de a primeira vez ser com alguma
mulher esquisita e ter que fazê-lo logo! Relata também, por vir de
área rural, praticar sexo com animais. Fazia correndo para a mãe
não pegá-lo. Imagina isto na cabeça de um rapazinho, são dois
pecados! Sexo com animal e a mãe o pegando fazendo aquilo!
Isto também é relato comum. Fazer correndo para ninguém ver.
Ao colocá-lo em transe, em um le seus primeiros transes
hipnóticos, ele teve uma “regressão espontânea” a uma “outra
vida”. Era um padre. Falava que tomava conta de uma pequena
vila como pároco. Pedi a ajuda dele como padre: Se um seu paro
quiano lhe contasse que não estava dando conta de sua missão
de homem casado, falhando em fazer sexo com sua esposa, por
ser pecaminoso, o que o padre poderia dizer para ajudar este ho
mem que já não se sentia homem e estava à beira de perder sua
amada mulher? O padre, então, respondeu que ele deveria cum
prir sua missão de esposo do melhor jeito possível, que não era
pecado amar a esposa e ser o homem dela. Após aquelas pala
vras, pedi que o paciente pudesse relembrar-se do que havia sido
dito ali por um padre, que o abençoava como homem para que
fosse feliz,
HipnoteTaPia~ Ericksoniana Passo a Passo 231

Este homem, antes desta regressão, havia dito que achava


que tinha sido padre em outra vida e que este padre é que pode
ria estar presente corno um obsessor, impedindo-o de ser sexual
mente feliz, pois o sexo era proibido aos padres. Nesta sessão,
aproveitei-me desta lembrança e coloquei como sugestão pós-
hipnótica que “ele havia sido padre noutra vida, e nesta ele tinha
outra missão a cumprir, a de marido de uma mulher que o ama
va”. Isto já estava programado, em supervisão feita com o profes
sor Malomar, que havia me dado somente esta frase e dito para
que eu a utilizasse oportunamente. A oportunidade veio e eu a
utilizei. Funcionou bem. Em todos os sentidos, com as sessões se
guintes1 ele foi se tornando um homem de verdade.

6. Vaginismo e frigidez
Os casos de vaginismo ou frigidez refletem a imaturidade
dos aspectos femininos à sexualidade. Uma mulher precisa de
um homem para tornar-se mulher. Muitas não encontram este ho
mem. Costuma-se dizer que assombração sabe pàra quem apare
ce. Crescem com proibições recalcadas sobre prazer, sexo. Culpa,
medo, fazem parte destes casos. Desejo acompanhado de puni
ção. Por isso, encontram homens que também têm lá suas dificul
dades sexuais e não fazem uma mulher sentir-se mulher de ver
dade.
Averigúe a história passada, a relação sexual com o parce~
ro, o casamento, se for casada. Corno o parceiro é como homem?
Seduz, excita, fala palavras carjahosas, ou vai direto ao assunto?
É grosso? Sobre a ~história passada, veja os valores da família de
origem, o que foi ensinado corno sendo pecado. Aquelas coïsas
tipo: “Isto não se pode fazer com os meninos, é pecado. Moça de
cente não beija na rua. Sexo é indecente. Sexo é proibido; etc.”
Você está averiguando, conscienternente, alguns detalhes do que
pode estar recalcado.
Procure observar o desejo sexual. Perguntas como: Você já
beijou gostoso a ponto de sentir sua calcinha molhada quando
mocinha? E agora? Porque é muito natural as mocinhas molha
rem a calcinha, quando pensam ou estão com seu namorado...
Coisas deste gênero. Você faz a pergunta e já sugere naturalmen
232 Sofia M. P. Bauer

te o caminho normal das coisas. Mostra o que é normal, Mostra


que ela “funciona” como qualquer mulher. E, se puder, acrescen
te algo da vida cotidiana das jovens mulheres... como são gosto
sos aqueles beijos de adolescentes... sentir o namorado... aquele
homem que aperta... chega perto e mais perto... Lembro-me de
uma empregada... uma mãe preta... que ao ver as moças aos bei
jos na via pública.., no outro dia, dizia: “Beijar é ‘bão’ mesmo”... é
como ferro de pássar roupa... liga em cima, esquenta embaixo!...
e eu não via nisto uma desaprovação.., mas uma forma carinhosa
de dizer: “Lá vão elas no caminho natural das mulheres... É ‘bão’
mesmo!”... Já ouviu aquela expressão “babar de vontade”? Pois é,
babamos pelos lábios de cima e também pelos de baixo... e tudo é
muito natural e normal... Mas para isso é preciso desejar... e ser
tentada a querer... além de uma ordem inconsciente de que as
mulheres podem e devem curtir os prazeres...
Então, você já recebeu algumas dicas de como ir fazendo
uma avaliação do caso, junto com uma intervenção ressignifica
dora de material recalcado.
Observe primeiro o desejo. Existe? Caso não, por que esta
mulher não está sendo despertada em seus desejos mais íntimos?
É por causa do parceiro? Se for, veja a questão de como é o par
cejro que completa a neurose. (Assombração sabe para quem
aparece.) Trabalhe a auto-estima, como ser uma mulher de ver
dade (ver a metáfora da rosa), como fazer a passagem de uma
menina para uma mulher.
Agora, se o desejo existir, melhor. Mas continua havendo
recalque. Hipnose é uma boa ferramenta. E, como não poderia
deixar de ser, devemos trabalhar o crescimento psicológico da
menina para torná-la mulher. Mostrar que ela funciona, tem de
sejos (se molha, sonha, etc.), assim pode desfrutar de todos os
mecanismos para o prazer que existem no corpo de uma mulher.
Aqui começa a hipnoterapia. Despertar o interesse, acres
centar que uma mulher adulta pode fazer amor. Se a mulher pro
cura o tratamento, ela está infeliz. Isto pode tornar-se a nossa
motivação. Alguém com fome e que não consegue se satisfazer
com a comida. Modificaremos os temperos, a ordem no comer e
as coisas poderão ser “sentidas” e experienciadas diferentemen
te. Para isto, devei~ios pedir a autorização do superego, dos valo-
1-{ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 233

res que vêm lá da infância. É o crescimento psicológico. Você


pode seguir como no caso de impotência, a mesma seqüência, in
cluinclo a regressãa, para observar .o material recalcado e para
ressignificar no sentido de que a menina possa crescer e mudar
os valores de menininha. Inclua a sessão do crescimento natural,
que você viu em impotência, adequando-a para as meninas. Mas
faça, o mesmo trabalho... “Os fantasmas e idéias infantis podem
ser substituídos por práticas mais adequadas à mulher de hoje...”
Ao fazer a regressão, averigúe sobre as crendices e valores a
respeito de sexo na infância. Provoque amnésia para que tudo fi
que mais confortável à sugestão de crescimento, liberdade e per
dão. E, veja bem, não é ir contra o que foi “ensinado” ou “apren
dido” no passado, é simplesmente acrescentar o que falta ao de
senvolvimento geral da mulher. Você não retira valores, você res
significa que as coisas mudam quando crescemos. E que devemos
e podemos crescer. Faz parte do desenvolvimento natural.
Nas induções indicadas (relaxamento, levitação, lugar
agradável, regressão, crescimento natural da menina) você pode
usar de palavras especiais. Ensinamentos entremeados em todas
as induções. Tais como: abrir-se.., ir fundo no que é gostoso... ex
perimentar novos gostos... comer comida nova, deve-se experi
mentar devagarinho... relaxar e abrir um novo espaço... abrir-se
para novos sentimentos... sensações... como é divertido experi
mentar uma brincadeira nova.., até ficar sem graça, para ver uma
nova graça... libertar-se... crescer... gozar... aproveitar.., desabro
char...
Mas, lembre-se, cada caso é único. O que fez com que esta
mulher ainda se comporte como uma menina?

Caso Rosa
Vou relatar um caso de vaginismo e frigidez.
Era uma mulher que chegou ao consultório com aproxima
damente 30 anos, casada, sem filhos e sem prazer, com muita dor
ao fazer sexo, nas poucas vezes que o fazia. Vinha de uma cidade
pequena. Fora criada com muita rigidez, e tudo era pecado, me
nos ir à missa para pagar os pecados. Casara-se como toda moça
devia fazer. Naqueles melhores momentos do namoro, nada po
dia, só depois de casada. Isso é que é pecado! A proibição é tanta
234 Sofia M. P. Bauer

que o prazer de beijar não podia existir, porque então viria a cul
pa e o castigo. O desejo no início de um namoro é sempre algo
especial.. É a caia que une, que faz a química eficaz no gozo e na
satisfação. Isto estava proibido. E continuou proibido depois do
casamento. Foi tudo um desastre.
Ela chega ao consultório depois de sete anos nesse casa
mento infeliz. Relata ter sonhos orgásticos e que, ao ver filmes ro
mânticos como Ui~a linda mulher, sente vontade de ter aqueles
prazeres1 aqueles beijos. Assim, pude ver que o desejo existe. O
que havia em sua relação com o marido? Homem mais rude no
lidar com a mulher, o convite para uma noite de sexo era: “Mu
lher, vamos dar uma cornidinha hoje?” Ou “hoje você não quer
dar para mim?” Deste jeito, nem sendo prostituta! E a sedução? E
o jogo de amor, os carinhos, as preliminares, os beijos que exci
tam? Corno pode alguém ter alguma vontade de fazer algo? Par
perfeito para não dar certo. Terapia de casal pode ajudar, porque
vai ser necessário trabalhar o casamento, a relação.
A postura de Rosa chamou-me a atenção. Ela estava toda
fechada, pés para dentro, encurvada sobre o abdome, olhar de
vergonha. Uma atitude ainda infantil para uma mulher de 30
anos.
Fizemos um trabalho que durou três meses. Por volta de 12
sessões. Saiu daqui bonita, aberta, de olhar vibrante e de bem
com a vida. Sobre o casamento, a primeira proposta foi aprender
a seduzir o marido, a fazê-lo homem. Ensiná-lo a fazer gostar do
que ele já gostava. Neste caso, deu certo. É bom lembrar que al
gumas vezes um cresce e o outro não quer crescer. A mulher, por
exemplo, se preparas para ser seduzida, acariciada e o parceiro
não quer mudar seu jeito de ser. Isto pode gerar uma separação.
O que deve se ver aqui é se esta separação pode servir para dar
uma vida melhor a cada um. Por que será que o ideal é manter
uma relação em que os dois sofrem? Veja bem as questões reli
giosas, inclusive. Se estes valores forem fortes, você ainda tem
trabalho à frente com o casal. Trabalhar o ter que sofrer para ter
prazer.
Bem, voltando ao caso, fomos devagarinho introduzindo o
relaxamento. Ela foi absorvendo bem. Aprendia a abrir-se, a con
fiar e a desejar melhorar. Tudo o que ela ia experimentando ia
flipnoterapia Ericksoniana Passo a.Passo 235

sendo sugerido, de forma pós-hipnótica, que mostrasse ao mari


do. Ele poderia se abrir pra ela mesma.
Em urnà das sessões, como seu nome era de uma flor, con
tei-lhe uma estória com esta flor. Aqui vou relatar como sendo
urna rosa. É claro que se trata de um pseudônimo para proteção
do caso. Esta metáfora você pode usar, modificando-a e tornan
do-a ímpar para aquele caso.
É a história de um rapaz que, ao descobrir que estava
amando uma moça, deu-lhe de presente um botão de rosa bem
fechado... colocou lá dentro, sem estragar o botão de rosa, um
anel de noivado.., e deu-lhe de presente dias antes do aniversário
dela... com um bilhete dizendo: “Você é como esta rosa... uma
mulher especial... foi se abrindo para mim devagarinho... exalan
do um perfume encantador... e que surpresa vê-la desabrochar e
se abrir.., eu me apaixonei... olhe todos os dias para este botão e
você terá uma surpresa”... A moça o fez... todos os dias foi confe
rindo e no dia de seu aniversário, qual foi a grata surpresa?...
Descobriu o anel... o ser desejada... o símbolo da união! Que ho
mem sutil e romântico qu.e conseguiu fazer esta fortuita compa
ração... uma flor se abrindo.., o perfume que ela exala... encanta...
traz o zangão... traz o beija-flor.., faz a flor se abrir ainda mais!
Mas como, pode um botão de rosa fechado ser penetrado?! É a
rosa que seduz o zangão e o beija-flor com sua abertura e seu
perfume... ou será o contrário?! O que vale são as leis da nature
za... o que acontece de forma natural... Experimente ver...
Como sempre, foi pedido amnésia parcial. Podia lembrar-
se do que fosse bom e necessário, mas podia esquecer de se lem
brar e vice-versa. Porque a mente jnconsciente é capaz de lem
brar do que for mais interessante e importante a cada momento.
Lembrando que, por vezes, foi pedido a eia que mostrasse ao ma
rido o que vinha aprendendo.
O que fui percebendo foi uma mudança radical. Mais boni
ta, roupas mais sexy, sorriso no rosto. Nos dias de sua sessão, eu
procurava ir bem feminina. Roupas que mostravam a silhueta,
salto alto, cabelo arrumado, batom e tudo que as mulheres sabem
que seduz um homem. Às vezes, pedia-lhe algumas tarefas
“muito diferentes”, como: ‘d’Hoje você vai sair de saia comprida,
não é preciso usar caicinha, sinta-se à vontade. Lá no fundo, pen
236 Sofia M. F. Bauer

se: meu homem sabe que hoje eu estou ‘pelada’ para ele. Sjnta-se
livre para andar, protegida/mente livre.” Foram dadas outras di
cas femininas de sedução que acho desnecessário detalhar. Ob
viamente, como terapeuta mulher, posso dar tais dicas sem pro
vocar sedução. Caso o terapeuta seja homem, ele terá lá sua ma
neira de dizer coisas que tornem a mulher em questão aberta e
sedutora.
O fato principal, e para o qual quero chamar a atenção, é
que é preciso ensinar a mulher a ser sexy, sedutora. Foi o que fiz.
Contei-lhe inúmeros casos sobre mulheres feias e sensuais que
deixavam os homens enlouquecidos. Pensamentos sexuais e sen
suais também trazem desejos sexuais. O aprendizado da mastur
bação, hoje não mais proibido à mulher adulta, poderia ser o ca
minho ao prazer. Descobrir seu tempo, o que a faz sentir mais
prazer, que tipo de estimulação, e assim por diante...
Trabalhamos, em regressão, as proibições de outrora, como
a proteção da mãe àquele botão de rosa, ainda frágil, mas que
hoje a mãe gostaria de ver seu botãozinho transformado em uma
flor de verdade, aberta para exalar o perfume da alegria.
A terapia deu certo. Primeiro a masturbação, depois o
aprendizado da sedução, e depois a abertura, o relaxamento e o
gozo.
Gostaria de acrescentar mais alguns dados da técnica com
frigidez e/ou vaginismo. A regressão é algo importante, em que
não tiramos o que foi proibido. Ressignificamos o que foi proibi
do à pequena menina. A mulher de hoje pode permitir-se um
novo aprendizado. Você pega um material que foi recalcado, res
peita, desvincula a energia e os sentimentos desconfortáveis e
acrescenta novos aprendizados hoje permitidos. Isto tudo você
vai introduzido sutilmente, estimulando o desenvolvimento na
tural da menina: fala-se sobre as características sexuais primá
...

rias e secundárias... sobre a menstruação... coisa natural, tornar-


se moça... o aparecimento dos pêlos pubianos e axilares.. o de
senvolvimento dos seios... o provável interesse no desenvolvi
mento dos quadris.., a primeira vez que usou o sutiã... o provável
interesse dos rapazes sobre a sua nova figura, mais mulher...
como alguns podem ter dado uma passadiaha de mão nela.., e
coisas semelhantes.,. (cada item sendo falado rapidamente e sem
I-Iipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 237

ênfase especial). Seguindo-se umas palavras sobre... o pudor, o


respeito, a consciência do primeiro sentimento sexual ou auto-
erótico, as idéias de amor na puberdade, na’adolescência... possí
veis idéias sobre os bebês... lua-de-mel, tudo sem menções espe
cíficas.
Acrescente também... ensinar o que é ser mulher, sedutora,
aberta, respeitando o tempo e o ritmo de cada um.

7. Depressão reativa
“Bem, como dizia o comandante, doer, dói sempre. Só não dói de
pois de morto, porque a vida toda é un~ doer.
O ruim é quando fica dormente. E também não tem dor que não
se acalme e as mais das vezes se apaga. Aquilo que te mata hoje amanhã
estará esquecido, e eu não sei se isso está certo ou está errado, porque
acho que o certo era lembrar, Então o bom, o feliz se apagar como o
ruim, me parece injusto, porque o bom sempre acontece menos e o mau
dez vezes mais. O verdadeiro seria que desbotasse o mal e o bom ficasse
nas suas cores vivas, chamando alegria...
Pensei que ia contar com raiva no reviver das coisas, mas errei.
Dor se gasta. E raiva também, e até ódio. Aliás também se gasta a ale
s-ria, eu já não disse?
Embora a gente se renove como todo mundo, tudo no mundo
que não se repete jamais pode parecer que é o mesmo mas são tudo ou
-

tros, as folhas das plantas, os passarinhos, os peixes, as moscas.

Nada volta mais, nem sequer as ondas do mar voltam; a água é


outra em cada onda, a água da maré alta se embebe na areia onde sefil
tra, e a outra onda que vem é água nova, caída das nuvens da chuva. E
as folhas do ano passado amarelaram, se esfarinharam, viraram terra, e
estas folhas de hoje também são novas, feitas de uma seiva nova, chupa
da do chão molhado por chuvas novas. E os passarinhos são outros tam
bém, filhos e netos daqueles que faziam ninho e cantavam no ano passa
do, e assim também os peixes, e os ratos da despensa, e os pintos... tudo.
Sem falar nas moscas, grilos e mosquitos. u”
Extraído da Introdução de Dora, Doralina
de Rachel de Queiroz (1975)
238 Sofia M. E. Bauer

Depressão reativa, como o próprio nome já diz, é uma rea


ção de desânimo, falta de vontade, ante alguma situação ruim ou
de pressão que vem ocorrendo tambéma algum tempo. Este tern~
po é variável. Pode ser de alguns meses a anos. O que se sabe é
que a pessoa vai, aos poucos, perdendo sua capacidade de luta,
de alegria e ânimo. A reação depressiva pode ser breve ou pro
longada, pode estar acompanhada de ansiedade.
O que veremos a seguir é que, se uma pessoa chega dizen
do que é deprimida você pode trocar este verbo por está deprimida.
Você muda o quadro, gera esperança. A pessoa tem mais possibi
lidades de acreditar que um dia possa melhorar porque, no qua
dro depressivo, a pessoa em questão não acredita que haja me
lhora. Vá devagar. Averigúe a história passada. Como ela era an
tes de ficar deprimida? O que ocorreu nos últimos anos que a
vem desgastando? O ser humano é uma máquina que se desgasta
também. Ele precisa de repouso (pausa), alegria (energia de
vida), para manter-se bem.
Com isto você tem uma base para começar. A pessoa che
gou neste ponto por meio de acontecimentos que você pode aju
dá-la a modificar. Esta será sua meta, limpar o que causa desgas
te. Mãos à obra!
O deprimido “sente” as coisas. Ele desenvolveu a capaci
dade cenestésica. Os sentimentos estão à flor da pele. Seja cuida
doso. Ele também é muito interno, voltado para as suas próprias
questões interiores. Perdeu o olhar para fora, ver os problemas
do mundo, os prazeres do mundo etc. Isto parece desvantagem,
mas para iniciarmos o trabalho com hipnose é muito bom. Este
paciente volta-se com facilidade para dentro de si mesmo. O que
nos ajuda a colocá-lo no transe.
No caso, devemos iniciar o transe pelo fenômeno hipnótico
que o deprimido já desenvolve naturalmente, a regressão aos so
frimentos. Ele está preso aos seus sofrimentos, Fica fácil você ini
ciar voltando-o para as suas dores. O paciente deprimido gosta
de falar dos aspectos que o machuca e fica o tempo todo voltado
para trás. O difícil é querer que ele sinta prazer, conforto, que se
livre da dor de imediato. Por isso, não comece o transe desejando
que ele se sinta bem. Isso não vai agradar. Lembra da estória do
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 239

castelo?... Nunca entre pela porta da frente, levantar-se-ão as bar


reiras da defesa.
Não é preciso continuar dizendo que cada caso é único,
que você faz a terapia sob medida... A esta altura acho que isto
eu consegui lhe ensinar!
Mas existem algumas particularidades comuns na reação
depressiva. Vamos a elas:
1. Esgotamento— reflete-se no desânimo. Normalmente em
decorrência de uma ansiedade de base. A pessoa vai se desgas
tando, por pressão interna, ansiedade. Com isto ela gera um dis
túrbio na liberação das serotoninas, a enzima que passa as men
sagens na fenda sináptica, provocando a sensação de desânimo, a
falta de capacidade. Você quer algo, não consegue (motivos di
versos), vem a pressão, provoca desequilíbrio nas trocas da fenda
sináptica, ansiedade e o desânimo fica sendo a última’conseqüên
cia. Por isso é chamada depressão reativa. É a própria reação ao
estresse da vida.
Neste passo n2 1 você, então, tem a meta de descobrir o
que fazer para diminuir a pressão e a ansiedade. O que falta a
esta pessoa? O que ela não consegue fazer? O que é preciso ser
feito? Existe um ditado que diz: a esperança é a última que mor
re. A pessoa está viva! Ajude-a a ajudar a si mesma.
Devagarinho, vá mostrando possibilidades, voltando-a a
tempos antes do problema atual, como era o seu desempenho na
quele tempo. Ela pode resgatar aquela pessoa que mora lá dentro
dela.
2. A crença em que não vai melhorar vemos muito isto, uma

pessoa quase desesperançada. Dê apoio. Mostre que, quando es


tamos adoentados1 como numa gripe, parece que não vamos sa
rar nunca. Mas o tempo ajuda a remover os males. Trabalhe den
tro das questões da pessoa. Como é possível mudar o que está fa
zendo muito mal. Não dê muitas soluções de uma só vez. Dê,
primeiro, uma luzinha pequena. Se ela aceitar dê uma luz a mais
e assim por diante. Se você disser que para tudo há luz, pronto, a
pessoa não vai acreditar. Tem que ser em doses homeopáticas.
Como dar comida demais àquele que não consegue digerir? Dê,
240 Sofia M. E. Baiter

aos poucos, coisas macias e líquidas que ele possa engolir sem
perceber conscientemente.

3. É urna pessoa interna trabalhe em transe começando pe


las dores e pelos sofrimentos. Voltando-a para dentro, para rea


valiar suas questões. Qual a dor que é mais pronunciada? Traga
a angústia, deixe-a chorar. As lágrimas lavam a alma. Assim ela
sente que alguém está cuidando dela com atenção, entende o que
ela sente. É o colo. O paciente depressivo pode vir com a questão
da maternagem, da relação objetal com traços negativos. Uma
criança que não foi bem amada em seu primeiro ano de vida so
fre pelo resto da vida em suas relações objetais posteriores, sem
pre tendo a impressão de que não será bem amada. Você pode
começar por restabelecer a relação objetal. Ouvir, dar atenção, ca
rinho e a pessoa cresce. É como prega o livro Inteligência emocio
na!, de Daniel Goleman, com amor você ensina e aprende melhor.
Será que esta pessoa não precisa agora de carinho, auto-estima,
para acreditar nela mesma? Ensine-a a voltar-se para dentro, ver
o sofrimento, mas não parar por aí. Ver que a vida, agora, depen
de dela. Você ensina com amor, que elá pode se cuidar, e não
chorar porque não é cuidada.
No transe, você começa por olhar para dentro, e depois vai
voltando-a para fora, devagar e com tempo.
A. regressão, no caso da depressão, é uma técnica de limpe
za e dessensibilização. Há catarse, normalmente. Deixe-a limpar-
se, chorar enquanto for necessário. Aos poucos, é necessário in
troduzir a progressão de idade. A técnica importante é a progres
são. A regressão é nosso bilhete de entrada na pessoa, mas nossa
ferramenta de ajuda é a progressão. Esta deve ser introduzida ao
longo da terapia, devagar.
Lembram-se da estóri~ da borboleta, da Clara. São boas es
tórias. Introduza no decorrer do seu trabalho. O caminho dos ju
deus para a terra prometida, quantas privações, mas chegaram lá
porque tinham fé!
Caso Rachei
Vou relatar agora um caso clínico, de uma paciente linda
em todos os sentidos. Você verá ao final o relato dela própria so
bre a hipnoterapia.
flipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 241

Moça bonita, médica, 24 anos. Deprimida. Assim se colo


cou na sua primeira sessão. Em decorrência de um amor desas
tróso, cheio de idas e vindas, ela chegava ao consultório se sen
tindo deprimida e sem esperanças. Vida profissional? Só confu
sãO! Ela queria uma determinada especialidade, mas em função
de um namorado um tanto narcísico e egoísta, que a deixava in
segura1 ela não tinha cabeça para organizar seus estudos para a
residência. Ia mal, das finanças ao amor. Onde estava o amor-
próprio? Todo investido naquele romance que lhe esgotava as
energias.
Este foi o quadro apresentado. Comecei por mostrar àquela
moça bonita que ela não era “doente” e nem deprimida. Ela esta
va assimdeprimida em função de tanta coisa ruim. Não determi
nei que largasse o seu parceiro. Não era por aí. Fui para o perifé
rico, buscar seu amor-próprio, orientando-a para a especialização
que queria. Pouco tempo depois, conseguiu. Após isso, veio a
vez de aprender a limpar suas finanças. Conseguiu também.
Cara mais alegre, novos amores! Podia ver a possibilidade de es
colhas. Se quisesse o antigo, que fosse diferente.
Após um ano e meio de hipnoterapia, estava ainda mais
bonita, terminando a residência, ganhando seu salário e alegre.
Ao terminar a terapia, ela mandou-me um presente de Na
tal com um cartão que dizia assim:

“Sofia,

Feliz Natal e que 1998 seja mais um ano de muitas alegrias


e sucessos.
Durante 1997 aprendi com você a ser feliz sozinha e a com
partilhar as inúmeras alegrias da vida com o mundo e as pessoas
à minha volta.
Te agradeço, todos os dias da minha vida, por isso e por
muito mais!
Muito obrigada!
Um beijão,
R

P. 5.: A vida é linda, não é?!”


242 Sofia M. F. Bauer

Olha, foi o melhor presente de Natal ver aquela moça cho


rosa, hoje, falar de alegria. É ver a estária “Pollyana, o jogo do
contente”.
Vai agora o relato dela mesma, convidada a se manifestar
sobre o que sentiu neste trabalho.

“Cheguei à hipnoterapia após vários anos de psicoterapia


convencional. Já havia passado por várias terapeutas e até por te
rapia de grupo. Porém, em algum momento, eu sempre me de-~
sinteressava e desistia.
Sofia me foi indicada por uma colega que conhecia seu tra
balho. Ao começar meu tratamento me sentia uma pessoa depri
mida, triste, sem forças para tomar atitudes de realização. Logo
eu, que no passado sempre me sentira independente e auto-sufi
ciente, agora me via acomodada e passiva diante da vïda. Iniciei
a terapia com bastante curiosidade e expectativa e logo vi que
aqueles momentos transformariam a minha vida para sempre.
Durante o meu período de terapia, passei por momentos espe
cialmente críticos da minha vida e sei que só os superei porque
tinha o suporte da terapia e da terapeuta. O tempo foi passando,
as crises foram sendo superadas e a cabeça e o eixo da vida fo
ram chegando aos seus devidos lugares. Claro que chegar a esse
ponto não foi tarefa fácil, mas posso dizer que, se os caminhos fo
ram às vezes árduos, os resultados foram extremamente agradá
veis. Hoje me sinto novamente capaz de assumir as rédeas da mi
nha vida, de ter coragem para tentar vencer desafios, de ser feliz.
Hoje gosto de mim e procuro ser sempre otimista: mesmo nas
coisas mais difíceis e dolorosas, há sempre algo de bom para se
aprender. Ainda busco alguns caminhos, mas sei que chegarei lá!
Afinal, estou em paz e de bem com a vida!H

Caso Maria
Senhora por volta dos 70 anos procurou a terapia para reti
rar suas raivas e viver mais alegre. Veja seu relato, que coisa bo
nita! A esta idade resgatar sua criança interior!

“A hipnose me mostrou a beleza que existe dentro do nos


so inconsciente. Foi uma descoberta sensacional, que abriu cami
l-3ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 243

~ho para a solução de situações enquistadas em mim, que pude


ram vir à tona de uma maneira bela e prazerosa.
Ir a uma sessão de terapia com Sofia Bauer. era algo que me
dava uma expectativa alegre, porque eu sabia que, mais uma vez,
iria desfrutar da vivência com o que de mais belo existia em
mim.
Tive um dia um encontro lindo com a minha criança inte
rior; abraçar aquela criança foi me reencontrar pequenina e -

como me abraçava forte, com os braços em volta do meu pescoço.


Esta vivência foi marcante na maneira como transmutou
fatos dolorosos da minha infância.
Posteriormente ainda moro com meus pais, uma vez que
todos os outros filhos não moram em Belo Horizonte.

8. Fobias
As fobias são vistas como deslocamento de materiais recal
cados. Se você tem isto em mente, e com tudo que já viu no livro,
material recalcado, inconsciente e sua liberação, possibilidade de
usar os recursos internos para eliciar a resposta interior de cada
um, você tem a saída do problema.
As fobias desenvolvem-se em pessoas de base ansiosa. Por
isso você pode começar pelo relaxamento. Ensinando a pessoa a
acalmar-se e acreditar no autocontrole que vem de dentro. Àme
dida que voce ensina que ela pode se acalmar, a fobia ja diminui.
Você poderá utilizar-se da levitação como prova do que a mente
inconsciente é capaz de fazer. Não só uma fobia, algo que vem do
inconsciente, como um sinal de alarme, que mostra que algo lá
dentro não vai bem, no campo dos afetos; como também mostra
a possibilidade de reverter o quadro. Assim como a fobia apare
ceu, ela também pode desaparecer instantaneamente...
A regressão é algo muito bom nestes casos. Trabalhar os
afetos de criança, você já sabe fazê-lo.
A outra possibilidade é a dessensibilizaçãc. Como o nome
diz, é você levar a pessoa a fazer ou estar no local onde a fobia
acontece. Vá devagar. Primeiro estabeleça a confiança, o rapport,
o relaxamento, o lugar agradável. Só depois, você tendo estes
subsídios, desenvolva a fobia in vitro para dessensibilizar. Colo-
244 Sofia M, F. Bauer

que-se junto. Se for de elevador, entre junto no elevador, por


exemplo. Vá mostrando que ela pode respirar fundo, sabendo
que o elevador está ali para levá-la com segurança a algum lugar.
Desta maneira você dessensibiliza, seja lá qual for a fobia1 indo
passo a passo (veja técnica passo a passo e entremear), da forma
como essa pessoa desenvolve a fobia. Sabendo os passos para
criar o problema, crie a ressignificação de cada passo, positiva
mente. Talvez você precise de tempo para montar esta sessão
com as palavras, sentimentos e sensações do cliente. Planeje e
use. É muito bom quando você consegue fazê-lo. De alguma ma
neira você minou (injetou um vírus no padrão) a fobia.
Repita a dessensibilizacão, se for necessário, mas não se es
queça de que há material afetivo deslocado. É preciso trabalhá-lo.
Vou colocar a seguir o relato de um caso de fobia de chu
va.

Caso Gustavo
Gustavo era um empresário que chegou com queixa de fo
bia de chuva. Além disso, estava desenvolvendo um quadro da
desordem de pânico e ansiedade.
Vivia sàb pressão de trabalho, amores e com isto acabou
por desenvolver uma fobia relacionada ao seu trabalho. Curiosa-
mente, se chovesse ele ganhava mais dinheiro. Era só chover, que
ele sofria!!! Como ganhar dinheiro não seria a felicidade?! Ga
nhar dinheiro significaria liberdade, morar sozinho, alegrias.
Será que ele era merecedor?
Durante seis meses ele fez hipnoterapia, entrava bem em
transé. Foi trabalhado o material recalcado, o deslocamento. Re
pontaram a liberdade, o prazer, o amor, as possibilidades... Cres
ceu, ganhou dinheiro e ressignificou os barulhos da natureza
(canto dos pássaros, chuva, etc.).

A seguir o relato do próprio paciente.

“Recebi o convite da Dra, Sofia Bauer para prestar um de


poimento sobre o tratamento a que me submeti através da hipno
terapia.
Hipnoterap~a Ericksoniana Passo a Passo 245

Deponho com prazer, pois minhas relações com Dra. Sofia


são de reconhecimento profundo pelo seu trabalho, estudos, sim
plicidade e dedicação.
Comecei um tratamento no segundo semestre de 1994 e,
assim, não me lembro com precisão de muita coisa.
Tentarei fazer um relato sucinto, pois na verdade sou um
tanto prolixo. Temo omitir detalhes relevantes e me prolongar
em questões pouco importantes.
Sou homem, tenho 37 anos, gradúado em Administração
de Empresas, sou solteiro, venho de uma famiia com seis filhos
e ainda moro com meus pais, uma vez que todos os outros filhos
não moram em Belo Horizonte.
Fui convidado a fazer este relato, pois tive manifestações
muito fortes da síndrome do pânico (na época não sabia que era
essa a classificação) e a hipnoterapia me ajudou muito.

Eis minha história:


A partir de 1990/91 comecei a me sentir de forma bastante
estranha toda vez que chovia, principalmente no costumeiro pe
ríodo de chuvas intensas que ocorrem em BH, nos meses de de
zembro a fevereiro.
Essencialmente tinha medo. Um medo avassalador que me
desnorteava a cada possibilidade de chuva. Um medo que não
me deixava dormir, não me deixava trabalhar e fisicamente, fa
zia-me sentir palpitações, sudorese extrema, perda da coordena
ção motora e dificuldades em dialogar.
Não sei se me cabe descrever com majs precisão esse medo
e não sei se conseguiria descrevê-lo com mais detalhes. Talvez só
quem o já tenha sentido possa entender. Porque é mais do que
medo. É pavor. No caso específico da chuva, pavor de quê? Ape
nas da chuva? E os desabrigados? E os mortos? E o trânsito caóti
co? E a inércia do poder público, que nada (ou quase nada) faz
como prevenção? E o mofo, as roupas que não secam? E a impo
tência do homem ante a natureza? (Ainda bem!)
Acompanhava, de forma quase mórbida, através de diver
sas publicações, o fenômeno El Nifi.o.
E sempre com medo. Na época passava por dois momentos
geradores de stress. Acompanhava o triste fim de vida de um
246 Sofia M. E. Bauer

grande, o melhor, amigo, que sofria de uma doença letal. E havia


terminado uma relação afetiva.
No trabalho as coisas também não iam bem. Sou um pe
queno empresário e, como tal, estava sempre assoberbado e mui
to, muito cansado. Minha relação com os sócios e empregados
encontrava-se numa situação de desconfiança. Medo. Sempre
medo,
Para mim o medo da chuva era especialmente complicado
porque, no meu ramo de atividade, a chuva representa lucros.
Assim, pensei diversas vezes em abandonar minha empresa, pois
não havia incompatibilidade major do que o proprietário da em
presa ter medo do fator gerador de lucros. Em vez de abandonar
a empresa, comecei a menosprezar minhas atividades, que nunca
foram poucas. Deixei de fazer retiradas pró-labore. Não me sen
tia qualificado para receber pelo meu trabalho.
Assim, trabalhava muito sem receber. Para uma pessoa que
se encontrava revezando entre acompanhar o fim de vida de um
amigo e o trabalho, o fato de nada receber era extremamente de
sestirnulante.
Quase não comia. Tinha medo de engordar e recuperar
quase 30 kg perdidos com muito esforço. O não-comer era quase
lei.
Quando pressenti que tanto overstress não ia terminar bem,
resolvi procurar ajuda. Tive dificuldade de encontrar um nome.
Queria alguém que lidasse com medo.
E as manifestações do pavor se acentuando. Alarme. Eu me
arrepiava, os olhos dilatados, constante mau humor. Indiferença
sexual. Quando me olhava no espelho, via o reflexo de O grito, de
Munch. Ainda hoje, nunca me identifiquei tão bem com um qua
dro.
Tentava rezar, pedindo luz. Envergonhava-me, pois as pes
soas não compreendiam. Comparavam-me àqueles que realmen
te (?) sofriam os efeitos da chuva. Eu tinha um teto, não é? Enver
gonhava-me por nada fazer por estas pessoas. Desabrigados, de
saparecidos. Sentia-me na obrigação de levantar-me no meio da
noite, durante a chuva, e ir atrás da Defesa Civil,
Resolvi voltar a procurar ajuda. Dizem que coincidências
não acontecem. Numa quarta-feira conversei com uma grande
~ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 247

amiga sobre tudo isso. Na quinta-feira, numa roda de conheci


dos, ela ouviu falar de uma médica recém-chegada do exterior
com técnicas pouco aplicadas no Brasil. Passou-me o telefone e
no mesmo dia liguei para o consultório da Dra. Sofia Bauer.
Hoje me espanto ao constatar que marquei úma consulta
sem ao menos saber que novas técnicas eram essas.
Tenho certeza de que, na primeira vez que estive com Dra.
Sofia, ela me explicou muito bem como funcionava a hipnotera
pia. Entendi. Mas no estado de confusão em que me encontrava,
não me lembro de nada. Dessa primeira visita, guardo a lem
brança de ter sentido uma grande empatia e que continuaria pro
curando ajuda ali. Saí de lá com a convicção de haver encontrado
o porto seguro.
Nas próximas consultas/sessões, fui percebendo que com
muita técnica a Dra. Sofia obteve de mim uma enorme diversida
de de informações. Em pouquíssimo tempo, com pouquíssimas
palayras, conhecia-me mais do que talvez eu próprio.
Não me lembro de ter tido resistência alguma à hipnose.
Na verdade, a hipnose nada mais é do que um relaxamento pro
fundo, um bem-estar fora do comum. Relaxado, mas sempre
consciente do que acontecia à minha volta. Ciente de cada pala
vra que eu dizia. Nesse relaxamento, eu “viajava” para dentro de
mim mesmo. E sempre, sem exceção, com um retorno cada véz
mais rico.
Dra. Sofia aliou às sessões medicamentos adequados. Sem
pre alterando a dosagem de acordo com a necessidade.
Talvez meu depoimento soe muito estranho, pois testou
convicto de não me lembrar de quase nada dos momentos das
sessões. Lembro-me bem de como me sentia antes do tratamento
e como fiquei depois.
Ficamos juntos em torno de seis meses. Nos primeiros me
ses, duas sessões por semana. Nos três últimos, apenas uma.
São duas as recordações mais intensas que tenho da hipno
terapia (enquanto hipnotizado): uma delas é a voz da Dra. Sofia,
da sua modulação, do bem-estar que produzia, da segurança que
emitia, das sensações que eu levava quando saía de lá. Posso
imaginar quanta técnica esteja envolvida para se chegar a esse
ponto.
248 Sofia M. F. Bauer

E a segunda recordação é a de estar sempre rodeado de


elementos da natureza. Não sei de que maneira, os passarinho5
(da rua) estavam sempre ali por perto, brincando, cantando, mes
mo nos dias de muita chuva.
Hoje, quando chove, sou ainda capaz de escutá-los. Talvez
sejam eles instrumentos de recordação da hipnoterapia.
E o que aconteceu com o medo das chuvas? Está sob con
trole. Nos dois anos seguintes ao tratamento não senti mais ne
nhum medo. Não estaria sendo sincero ao afirmar que a situação
é a mesma. Depois desses dois anos, há uma instabilidade (uma
inquietação), na época de chuva. Mas ainda enfrento com contro
le, sem nenhum pânico. Não posso garantir por quanto tempo
mais as coisas estarão sob controle. Nada me foi prometi do. O
que sei é que por quatro anos não tenho sentido mais pânico. E
isso é o céu.
Além dessa melhora, tenho a dizer que minha vida mudou
muito após a hipnoterapia. Graças à Dra. Sofia, ou a mim mesmo
(tratado pela hipnoterapia).
No período de um ano fui ao exterior, a passeio. Fiz outras
viagens, comprei um apartamento (que uso como um santuário),
passei a ter outros interesses (mais especificamente a música).
Continuo trabalhando muito. Mas hoje eu sou o adminis
trador. Sinto-me mais realizado. Possó mostrar do que sou capaz
e estar sempre atento a querer aprender mais. Recebo, com orgu
lho, um salário de acordo com meus bons serviços.
Mas o mais importante resultado da hipnoterapia é que
hoje conheço-me melhor. Sei o que desejo e o que níïo desejo. Res
peito minha capacidade e reconheço minhas limitações. Aprendi
a dizer .não, Convivo em paz com o universo e com a sociedade,
fazendo-me respeitar através de meu trabalho, das minhas cren
ças e de minhas opções.11

9. Síndrome do pânico
A síndrome do pânico é considerada uma desordem de an
siedade pelo DSM-fV. Ela é vista pela categoria dos psiquiatras
como uma desordem química na fenda sináptica, condição que
leva a uma depressão reativa e, por assim dizer, apregoam, em
flipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 249

geral1 que pessoas ,.que sofrem de pânico estão sofrendo de de


pressão.
O que vejo, na minha prática clínica, é que as pessoas que
sofrem desta desordem de ansiedade, e até de pânico, são alta
mente impressionáveis por diagnósticos médicos. Tudo o que o
médico disser será levado ao pé. da letra. Buscam desesperada-
mente uma saída, e o que encontram é o atestado de depressão,
problema físico sério e que só tem a saída medicamentosa.
Isto abate o paciente que sente como atestado de doença
não-curável. “Estou sofrendo de depressão e não há solução.”
Realmente ocorre uma depressão reativa por esgotamento
dos neurotransmissores que transportam as cargas nervosas da
tal fenda sináptica, mas esse sujeito em questão não é só uma fen
da sináptica na ligação de um neurônio ao outro. É como tratar
de uma pessoa com uma úlcera duodenal e só ver o estômago e o
duodeno do afetado. Ele só andou se “corroendo” porque teve lá
suas bases psicológicas afetadas por alguma pressão e o seu ór
gão de choque sinalizador foi o estômago. Não adianta medicar
só para o estômago e o duodeno. É preciso averiguar a história
pessoal, o que deixa esta pessoa nervosa se queimándo. Aí você
trata a causa básica. O estômago é o sinalizador. Assim, a meu
ver, o mesmo ocorre na síndrome do pânico. Apesar de alguns
tratados de psiquiatria até colocarem esta síndrome como incurá
vel, ela é curável ou aliviável. Do mesmo modo que ela apareceu
é que ela desaparecerá. Veio por um problema depressão, então
despressurize. Ajude seu cliente a ver o que há por baixo dos me
dos e bloqueios que o pânico gerou. Que tipos de pressão esta
pessoa se faz. GeraÏmente são pessoas de um excelente caráter,
“gente boa’~’, que se cobram muito. Cobram o perfeccionismo em
tudo. São de base ansiosa e se pré-ocupam. Vêem lá na frente uma
possível catástrofe e acabam, por vezes, por gerá-la. “Assombra
ção sabe para quem aparece.” Têm medo e não o enfrentam, mas
se cobram. Aí se instala a síndrome, o sufoco.
Você pensa (pressiona). O cérebro é feito de células nervo
sas que se comunicam por estímulos elétricos. Quando você pen
sa de uma forma que pressiona, estimula além da conta, levando
a uma descarga maior de estímulos elétricos. As células nervosas.
se comunicam como um fio de eletricidade, i~iandando a carga
250 Sofia M. F. Baue~

elétrica de uma célula para a outra. Para pularem de uma célula a


outra têm que passar por um pequenino espaço, chamado de fen
da. sináptica. Quem faz a mediação das cargas elétricas são neu
rotransmissores como serotonina, adrenalina e noradrenaljna
Quando você pensa demais, manda muito impulso elétrico, e, de
sorjenta a liberação das aminopressoras, provocando um distúr~
bio. Esta é a doença para os psiquiatras. Neste distúrbio, ocorre
um envio errado das mensagens da célula anterior para a seguin
te, que então comunica a mensagem deturpadamente: “estamos
em guerra.” A resposta do outro neurônio, e assim por diante, é
atender ao estado de guérra. Aciona a adrenalina, vem a respira
ção acelerada (dispnéia), as arritmias cardíacas, a sensação de
tonteira, a vontade de vomitar, a dor de barriga, a sensação de
morte iminente, etc.. É como levar um susto, sem ter com o que se
assustar. Vem quando menos se espera, justificando o fato de a
pessoa começar a ter medo daquilo que eia primeiro associa a
uma crise. Andar de ônibus, elevador, sair em público, etc.
A cura do pânico e da desordem de ansiedade está em tra
balhar o que causa o pensamento de pressão, lembrando que o dis
túrbio acontece com um neurotransmissor que é uma amínopres
sora. Dar a medicação é bom como uma ajuda, para evitar o dis
túrbio das serotoninas e que a mensagem passe de forma deturpa
da para o próximo neurônio. Isso não cura, ajuda sim a trazer a
segurança necessária para a pessoa não ter uma crise de ansieda
de e até de pânico. Ajuda inclusive ao tratamento hipnoterápico
para dar segurança à pessoa. Mas não é necessário. O que vejo,
clinicando, éque se pode cortar uma crise destas ensinando respi
ração e auto-hipno~e. A motivação pa~ra a melhora nestes pacien
tes é enorme. Ajuda na eficácia da aplicação da hipnoterapia.
Antes de falar sobre o tratamento, gostaria de relatar al
guns achados em minha clínica sobre a história e o perfil deste
tipo de pacientes. Gostaria de pesquisar mais a respeito, e aceita
ria observações daqueles que com isto trabalham. Em geral, são
pessoas de bom caráter, com tendência a fazer as coisas certinhas
demais. Cobram-se muito, mas se sufocam. Não falam o que sen
tem (mágoas, raivas), não ex-pressam seus sentimentos, mas fa
zem uma pressão interna enorme. Geralmente, quando investiga
da a história familiar, foram crianças que tiveram medo, insegu
Hipnot&aP~.a Ericksoniana Passo a Passo 251

~ança na infância. Possuem um dos genitores mais bravo, que de


certa forma pressionaram na educação, com rigidez. Houve um
aprendizado de cobrança que foi introjetado. Funcionam comd se
fossem um motor que não pode parar de funcionar e sempre a
carga tem que ser maior do que suportam. Passam a ver a vida
como se tivessem uma nuvem preta, ameaçando tempestade so
bre suas cabeças. Vêem sempre a catástrpfe antes mesmo que ela
ameace acontecer, o que está sempre gerando medo e trazendo
sufoco, angústia, pressão. É como um curto-circuito que acaba es
gotando totalmente as energias e trazendo como conseqüência a
dita depressão reativa. Um desânimo completo, que acaba tam
bém tendo que ser medicado. Vendo este perfil, podemos dedu
zir que é possível a cura.
Investigue a história do seu paciente. Não o olhe apenas
como o distúrbio de neurotransmissores. Há uma pressão que
desencadeia todo o processo. A base é a insegurança calcada no
excesso de perfeccionismo e cobrança que acaba imobilizando a
pessoa. Costumo observar uma estrutura histérica ou uma rigi
dez obsessiva, às vezes ambas se mesclando na mesma pessoa. O
histérico fica preso ao ganho secundário, enquanto o obsessivo,
ao excesso de rigidez, mas sabemos que há possibilidades de mu
dança e de des-pressurização.
Observe o que ela tem que fazer e não faz, o que ela tem
que falar e não fala, o que ela vê com maus olhos, e mostre que
há a saída positiva. E você verá que, realmente, “nada é mera
mente somático e nada é meramente mental”, como Freud já di
zia. Libere a pressão mental que virá o alívio somático.
Assim, a hipnose, ferramenta hábil, faz o relaxamento
mental. Aumenta a possibilidade de resgatar os recursos do in
consciente.
A hipnose pode ser induzida através da respiração, em
que se pode trabalhar a angústia ou stifoco, abrindo-se o peito e a
inspiração para novas possibilidades. Já é um trabalho para a an
siedade. Eu gosto de utilizar a respiração azul. Ela proporciona
sugestão embutida através da cor azul, do respirar, limpar e po
sitivar, a possibilidade de ex-pressar o seu sufoco, de colocar para
fora os maus pensamentos, a raiva, as atitudes negativas. Através
desta respiração se faz a absorção da hipnose; metaforicamente,
252 Sofia M. F. Bauei~

limpa e harmoniza com a respiração, e dá a oportunidade de, em


transe, acessar os recursos de cada pessoa em especial.
Então eu sëmpre gosto de começar pela respiração. Não
necessariamente a respiração azul, mas trabalhando a absorção
do transe através de algum método de respiração que, por si, tra
balha a angústia vivida em nível corporal. Angústia vem do la
tim angustia, derivado de angustus, que quer dizer apertado, es
treito, sufocado.
Estando a pessoa em transe, ratifique as mudanças, princi
palmente o alívio do sufoco, a respiração mais calrria, os batimen
tos cardíacos mais compassados, e assim por diante.
Passe para a eliciação e utilize aquilo que a pessoa lhe traz,
mostrando as possíveis saídas. Tudo tem dois lados: o escuro e o
claro; o negativo e o positivo; o triste e o alegre, etc. Você pode
utilizar as habilidades do paciente, como as palavras que ele ne
gativiza, positivando-as. Você pode fazê-lo por metáforas, estó
rias de como vencer dificuldades. Você pode apresentar suges
tões indiretas, contando sobre pessoas que queriam fazer coisas,
mas ficavam só no querer. E, quando receberam um incentivo, ti
veram a força de ultrapassar o obstáculo e tornaram-se alegres.
Você também pode dar sugestões diretas.
É tudo um aprendizado em que há necessidade de que a
pessoa fale, fale e fale, ex-presse os sufocos. Veja as possibilidades
de o seu cliente não se cobrar tanto, mas de aos poucos ir fazendo
mais, cobrando menos, e de ir vendo a vida com bons olhos. O
que acontece é que a hipnose ajuda a relaxar a mente, ensina a
pessoa a relaxar o pensamento e a viver mais aliviadamente.
Aos poucos, sempre utilizando os recursos do seu cliente,
vá fazendo-o experienciar alívio durante as sessõesde hipnotera
pia. Vá mostrando as possibilidades de fazer o que eleconsidera
pesado de uma maneira leve. Do mesmo modo como os blo
queios vieram, vão embora.
Há alguns casos de desordem de ansiedade e pânico que se
manifestam com uma fobia soci~il de inibição da assinatura em
público. Trabalha-se da mesma maneira, buscando o que traz
pressão, o que sufoca, aliviando e fazendo a ~essoa agir. O sufo
co vai passando, a pessoa perdendo o medo, a impotência, e a
mão sendo novamente liberada para a escrita.
~.ipnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 253

Nós podemos aprender muito com os nossos clientes. Uma


vez, tratando de um cliente com síndrome do pânico, pessoa
muito racional e de caráter rígido, muito honesto mas extrema
mente perfeccionista, ouvi dele o seguinte depoimento:
“Hoje vejo que a racionalização, o entendimento do que era
o pânico1 curou-me quase por completo, mas falta ainda o princi
pal1 OS sentimentos, que agora começo a contatar.”
Em seguida, contou-me três estórias que gostaria de relatar
a vocês. Elas passam o lado extremista, rígido, que acompanha
muitos desses casos de pânico, e que pode ajudá-lo a ajudar
aquele que rigidamente se cobra, entrando em pânico.
A primeira é sobre Buda. Uma vez Buda resolvera “cair
nos extremos” e só beber água da chuva e comida da natureza.
Estando à beira de um rio, viu um mestre numa canoa, bem nu
meio do rio, porque às margens havia galhos e obstáculos, ensi
nando a um rap~z como tocar violão. Este ia lhe dizendo: “Não
tensione muito a corda, porque ela pode rebentar; não afrouxe
muito porque a melodia não sai.” E Buda pôs-se a pensar sobre o
meio-termo das coisas.
A segunda é sobre dois monges que fizeram votos de cas
tidade. Iam ambos passando à beira de um rio quando uma linda
moça pediu ajuda para atravessar de uma margem para a outra.
Um dos monges carregou-a no colo até o outro lado, voltando
depois e seguindo seu caminho, ao lado do colega. Bem adiante o
outro monge interpelou-o, dizendo que não era justo e certo o
fato de ele ter carregado a moça até a outra margem, ao que o
primeiro monge respondeu que o companheiro é que estava com
problemas, pois ainda carregava a moça em seus pensamentos.
A terceira estória é sobre uni mestre que, toda vez que lhe
perguntavam sobre o que era bom ou ruim, sempre respondia:
“Não sei!” Conta a estória que dois cavalos fugiram da aldeia e
foram perguntar ao mestre se isso era muito ruim, ao que este
respondeu: “Não sei!” Mais tarde os cavalos voltam trazendo
uma porção de outros cavalos para a aldeia. Ao indagarem ao
mestre se aquilo era bom, vem a mesma resposta: “Não sei!” Pas
sados uns dias, um dos novos cavalos deu um tombo no filho do
chefe da aldeia, quebrando-lhe a perna. Perguntado sobre se isso
era ruim, o mestre respondeu mais uma vez: “Não sei!” Mais aI-
254 SofiaM.F.Bauer

guns dias veio a mensagem de que se requisitavam os jovens


para a guerra, e que o jovem filho do chefe, por estar com a perna
quebrada, foidisperisado. Bom ou Ruim? Qual seria a resposta?
O meu cliente, ao relatar tais estórias, emendava a sua pró~.
pria, dizendo que há males que vêm para o bem, até mesmo para
enxergar que é preciso ter meios-termos. Acrescentou que a pes~
soa rígida fica presa a extremos, e que o importante é enxergar
que existe e é possível trilhar o caminho do meio.

Caso Imaculada
Mulher casada pela segunda vez, três filhos, dona de casa.
Queixa principal: medo até de sair de casa (síndrome do pânico).
Medicação: já havia tomado antidepressivos e ansiolíticos, sem
melhora.

História antecedente
A síndrome começou a se manifestar após o segundo casa
mento, há cinco anos. Viúva de um policial alcoólatra muito bra
vo que a subjugava ao extremo. Vivia dizendo-lhe: “Quando eu
morrer te levo junto,” Morreu de um ataque cardíaco. O sufoco
vinha se instalando desde o primeiro casamento. Vida sob pres
são. Fizesse o que fizesse, ela estaria sempre errada. Quando ele
morreu, se sentiu culpada. Ao casar-se novamente não se sentiu
no direito de viver e tinha medo de que ele viesse para “levá-la”
à morte. Passou a ter uma angústia enorme. Vieram os primeiros
sinais em distúrbios somáticos: dores no coração. Achava que
morreria do coração. Exames clínicos,muitos médicos, taquicar
dia, dores no peito, angústia instalada. Medo até de sair de casa e
morrer na rua. Isolamento, tristeza, solidão. Casamento ameaça
do.
Assim chegou Imaculada. Cheia de remédios, cheia de pres
são e sem esperança, a não ser na religião, que Lhe manteve a fé
em Deus. Aí estava nossa pega, a religião. Havia alguma espe
rança. Podíamos ensiná-la a entrar em transe, a respirar e depois
utiljzarmo-nos da sua fé em Deus.
Paciente que procura ajuda e quer sair do sufoco já está
motivada. Facilita tudo. Reforcei.
~jjpnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 255

Foi desenvolvido o transe e feita a respiração azul. Lembre-


se, ensine a respirar. Não precisa utilizar à minha maneira. Ela
evOlUiU bem com a respiração, acalmou-se. Transe médio. Fez-se
a ~~vitaÇã0 das mãos, para mostrar sua força interior; pois se con
siderava totalmente desvitalizada. O inconsciente pode e faz...
Resposta positiva. Contei então uma estória de que gosto muito e
que pode motivar as mudanças. Utilizei as palavras e as situa
ções da paciente para a montagem desta metáfora com intuito de
dizer-lhe que as coisas podem se modificar, porque lá dentro
dela existe a força natural. É a estória de uma lagartinha que ti
nha muito medo de sair por aí e morrer pisoteada pelos homens. Por
j~sO, foi se fechando. As plantas também a rejeitavam, achando
que ela só queria comer suas folhas. Mal sabiam que esta lagarti
nha gorda (a paciente é obesa) e que rasteja, pedindo ajuda, poderia
ser aquela borboleta que viria ajudar a polinizar as flores dessas
mesmas plantas. Mas a lagartinha só chorava, apertada, em sua
tristeza, até que uma coruja, aquela ave que consegue enxergar
de noite, quando tudo está escuro, disse para ela: pare de chorar,
faça alguma coísa! Aí dentro de você mora uma linda borboleta,
deixe-a sair. Ela pode voar, ser aceita pelos homens e pelas plan
tas, ver lá de cima o que hoje você vê aqui de baixo, mudar de
jardins e muito mais. A lagartinha, então, pediu ajuda. Como ela
poderia se tornar borboleta? A coruja, sábia amiga, lhe disse que
era necessário uma fase de metamorfose, de mudança, em que
era preciso se fechar num casulo para empreender esforços, que
viriam dores, mas só as necessárias para fazer a tal mudança.
Mas o que realmente era preciso era o pensamento positivo. Que
ela poderia ser livre, bem-aceita e voar leve, rumo ao que ela dese
jasse. Que ela pensasse em ser borboleta o tempo todo e tudo po
deria ir mudando, até que uma hora, mais rápido do que ela ima
ginava, ela sairia do casulo, já como uma borboleta. Dúrante esta
parte da indução, a paciente começou a balançar seus braços
como uma borboleta. O inconsciente, às vezes, responde literal
mente. Bom sinal, ela já estava sentindo e experienciando o bem
estar da liberdade. Questionada, respondeu que já não havia
pressão é nem mesmo dor no peito, que estava bem. Foi dito a
ela que olhasse sempre o lado belo da vida. Enquanto uma mosca
acha uma única ferida num corpo inteiramente limpo, uma abe
lha consegue achar uma única flor no meio de um pântano. Que
256 Sofia M. E. Bauer

ela fosse como uma abelha, quando as coisas lhe parecessem


como lama que ela olhasse à sua volta e procurasse uma única
flor que viesse lhe adoçar a vida. Ela sorriu.
Terminei a indução dizendo-lhe que Deus é quem dá a
vida e, assim, só Deus pode tirar, mais ninguém... (Sugestão dire
ta.)
Essa foi sua primeira sessão. Ela veio acompanhada e com
medo. Saiu sorrindo, leve como uma borboleta, sem dor e com
coragem para voltar a uma segunda sessão.
O trabalho não havia terminado aqui, apesar do bom su
cesso em suas respostas à hipnose. Apenas havia começado. E o
sufoco? A raiva? Os medos? A pressão que ela se fazia? Não se
riam tratadas?
A terapia apenas começava bem. O que escrevi aqui foi o
desenvolver desta primeira sessão. Durante dois meses, ela com
pareceu semanalmente ao tratamento, trabalhando seu segundo
casamento, sua vontade de trabalhar (liberdade financeira), a lida
com os filhos. As pressões foram se desfazendo. A depressão foi
indo embora. Imaculada se tornou livre e sem o pânico.
O que você pode fazer por um cliente com esta desordem
de ansiedade ou pânico?

1 — A respiração é fundamental. Corta a angústia, alivia um


ataque de pânico e por si é uma indução de hipnose.
2 — Técnicas de relaxamento progressivo, que aliviam a
ansiedade.
3 — Imaginar um lugar agradável, seguro. Lembre-se de
que são pessoas inseguras. É como se fosse lhe trazer o
objeto transicional à tona e dar-lhe calma. A pessoa se
acalma em seu cantinl-io assegurado e readquire força
para lutar.
4 — Técnicas de projeção do futuro são excelentes nos ansio~
sos. Planeje, por etapas pequenas, coisas que eia necessi
ta fazer, dando uma seqüência possível de se atingir sem
pressão, mostrando como se ocupar e des-~ré-ocupar,
nesta visão de futuro programada em pequenas partes.
~ipnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 257

Agora você verá o relato da própria paciente. Gostaria de


chama~~ sua atenção para alguns pontos. É uma paciente que che
gou com total motivação. isso é muito importante para a melho
ra; é a metade do caminho. Outra coisa, ela entra em transe mui
to bem, e desenvolve o transe sonàmbúlico. Dentro do relato
dela, VOC~ verá que ela transforma a corujinha da estória da bor
boleta na sua amiguinha, a sábia amiguinha. Detalhe: na mesinha
0nde ficam os anjinhos e a fada que ela relata, também tem urna
corujinha. Ela foi fazendo as pontes de ligação até a sabedoria, a
amiguinha que enxerga na escuridão. Por isso, veio em sonho e
em material de transe a presença da corujinha.

Relato da paciente
“Bom! Meu pânico começou em 94, exatamente do dia 31
para o dia 1~. De repente começou a tremer todo o meu corpo.
Achei que estava tendo um derrame. Levaram-me correndo para
o hospital. Chegando lá fui medicada e informada de que não era
derrame e sim sistema nervoso, só que minha luta estava apenas
começando. A partir daquele dia não tive mais paz, porque bas
tava começar a escurecer começava tudo de novo: medo, pânico,
tremedeiras que pareciam crise de epilepsia. Aí novamente eu
correndo para o hospital, e assim foram vários dias, meses, anos,
até que um dia, em uma de minhas idas ao hospital, fui aconse
lhada a procurar um psiquiatra, um bom profissional, que logo
diagnosticou que eu tinha pânico da noite e muito medo de mor
rer; muitas vezes entrei em seu consultório e não conseguia falar
nada. Só chorava muito e ele, muito pacientemente, olhava-me,
ouvia-me, lógico que tudo dentro do horário disponível para
mim. E muitos calmantes para dormir, pois a noite para mim era
eterna, parecia que nunca ia amanhecer e eu precisava ficar acor
dada para ter certeza de que não ia morrer, pois ácho que tudo à
noite é mais difícil; então o jeito era tomar calmantes, muitos cal
mantes. E falta de ar, até que meu psiquiatra achou que eu preci
sava de terapia, então me deu encaminhamento para uma psicó
loga. Fiz terapia em grupo com duas psicólogas, para mim foi
um desastre, me sentia cada vez pior; depois de cada sessão de
terapia eu voltava pior. Às vezes não sobrava tempo para eu fa
lar nada, pois eram muitas pacientes, cada uma querendo pôr
258 Sofia M. E. Bajier

seu problema para fora. Muitas vezes só me restava voltar para


casa e chorar muito, pedir a Deus que não deixasse a noite chegar
tão rápido. Tudo isso com meu marido deixando transparecer no
rosto “não agüento mais”. Via no rosto de minha filha o sofri
mento de me ver sofrer e não poder fazer nada. Às vezes tentava
me ajudar com uma palavra carinhosa. Meus filhos, todos ado
lescentes, faziam-se de fortes, de que não ligavam, mas dava para
perceber, lá no fundo dos seus olhos, que eles também sofriam; e
falavam assim: “Fica assim não, mãe, a senhora vai ficar boa!” E
essas palavras saíam muito fortes de suas bocas. Então deram
força para acreditar que realmente eu poderia ficar boa, sim. En
tão larguei psiquiatra, terapia, e resolvi procurar outro tipo de
ajuda, porque o mais importante de tudo é a gente querer ser aju
dada é querer ficar boa. Um dia, não sei qual, mas o mês eu sei
-

que era janeiro de 97, um programa me chamou a atenção, era o


Globo Repórter. O assunto? Hipnose. As pessoas eram hipnotiza
das e descobriam o porquê de seus medos, pânicos, fobias. Não
pensei duas vezes, escrevi para o programa e pedi ajuda; não sa
bia que minha vitória estava tão perto; pedi ajuda pois eu não co
nhecia profissionais que faziam este tipo de tratamento; nunca ti
nha ouvido falar que em Belo Horizonte existiam hipnoterapeu
tas, mas pedi ajuda e graças a Deus recebi, através do programa,
que se prontificou a me ajudar. Conheci a Dra. Sofja Bauer, psica
nalista e hipnoterapeuta. Lembro-me como se fosse hoje do dia
em que a conheci. Era feriado e estava chovendo muito. Fui acom
panhada com meu marido, chegamos, fui recebida por uma jo
vem bonita, de offios grandes, puxadinhos, esverdeados, parecia
meio oriental, mas com um carisma que eu iiunca tinha visto an
tes, principalmente em se tratando de médicos. É muito difícil,
quase impossível, a gente encontrar um médico assim, mas ela
era diferente. Tudo ali para mim era diferente, era novo, nunca
tinha visto antes. Ela me convidou para entrar. Entrei em sua
sala, era toda diferente a decoração! Ali já podia sentir uma ener
gia boa, positiva. Conversamos, falei um pouco de mim para ela,
falei do meu medo de morrer, de urna frase que um dia ouvi de
urna pessoa a quem amei muito: “Eu vou, mas vou te levar comi
go.” Esta frase me marcou muito. Bom! tivemos a primeira ses
são de hipnose, eu estava um pouco nervosa, pude olhar dentro
de mim e ver um vazio grande, só existia medo, insegurança,
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 259

vontade de fugir da realidade. Terminou, ela me levou até a por


ta, me abraçou e pediu que voltasse na próxima semana. Bom,
n’e ser~ti tão bem que ficava contando os dias para voltar. Aquele
abraço teve um significado muito forte para mim. Signifiçava que
eu tinha encontrado a pessoa certa para me ajudar. Voltei outra
vez, era sempre recebida com um sorriso e ouvia palavras acon
chegantes durante o estado de transe que é um relaxamento mui
to gostoso. Eu me sentia outra pessoa, poderosa, sem medo,
cheia de energia e levava tudo isso para casa. Um dia cheguei an
gustiada1 com muita dor de cabeça, o peito doía tanto que pare
cia não ter passagem nem para a dor, e durante a hipnose me
lembro muito bem de ter levantado minhas mãos, que pareciam
estar com tanta energia que eu podia sentir. Então eu as levava
aonde sentia as dores e as dores desapareciam. Em uma de mi
nhas sessões, foi a vez mais gostosa, durante a hipnose, fui até
uma montanha muito alta, o lugar era lindo, um campo florido,
parecia primavera e eu estava lá no alto da pedra, respirando um
ar azul maravilhoso, tão leve que eu podia voar. Tinha alguém
comigo, uma amiguinha. Estava tão bom que eu não queria vol~
tar mais. Eu ouvia a voz da Dra. Sofia me chamando, então voltei
e levava toda esta sensação para casa, fui perdendo o medo de
tudo. Descobri, através da hipnose, que sou capaz de viver sem
medo, sem pânico. Se fui ao topo de uma montanha, posso ir at~
o fim de minha vida, feliz. Hoje trabalho, tenho disposição para
tudo, vejo a vida de uma outra forma. Estou de bem com a vida,
graças à Dra, Sofia Bauer e à hipnose. Mas uma coisinha que
sempre me chamou muito a atenção foi a decoração do consultó
rio. É tudo meio mágico. Tem uma fadinha sentada na mesjn.ha,
atrás da fada um anjinho e muitos gnomos, duendes, anjinhos.
Muitas vezes pensei comigo: “Esta fadinha é ela, Dra. Sofia, mi
nha fada-madrinha.” Tem uma corujinha que me provocava um
certo receio. Em uma de minhas sessões, lembro que falei da
montanha onde eu estava, pois é, minha amiguinha que estava lá
era exatamente a corujinha, estávamos felizes da vida. Tudo isso
sem esquecer que cada abraço que ela me dava no final de cada
consulta tinha um significado muito grande para mim. Sou mui
to grata a Deus por ter encontrado uma pessoa tão boa, uma
grande profissional, Sofia Bauer.”
260 Sofia M. F. Bajie’,.

Caso Sara
Sara, 40 anos, veio de uma cidade do interior. Mora, em
Belo Horizonte há dez anos. Sofre de síndrome de pânico, até o
momento do início da terapia não diagnosticado por médicos e
psicoterapeutas pelos quais já havia passado, queixando-se do
que logo será exposto.
Veio por saber que se tratava de hipnose e não agüentar
mais terapias de muitas delongas. O último processo terapêutico
já estava no segundo ano, sem nenhuma melhora.
Moça de boa aparência, bem tratada, não parecia ter mais
de 30 anos.
Em sua primeira consulta chegou suando frio, nervosa, com
dispnéia e muito pálida. Dizia: “Não é de propósito, mas não
consigo controlar. Tive que subir de escada. Eu não estou bem.”
Ao que então respondi que não havia problemas, pois foram ape
nas dois lances de escada (minha sala é no segundó piso) e eu es
tava ali para ajudá-la. Nada melhor do que o terapeuta poder ver
no que ele pode ajudar. Comecei por respirar profundamente in
dicando-lhe o assento. Ela me acompanhou prontamente dizendo
que não conseguia e nem sabia como falar. Apenas respirávamos
juntas, profundamente, por algumas vezes. Nesse tempo fui lhe
informando que respirandó profundamente ajudaria a melhorar
aquela crise de pânico. Ela insistia em tentar falar contando aos
sobressaltos algumas passagens. “São quase 30 anos assim, tendo
medo de tudo, sofrendo desse mal-estar... tudo começou quando
eu tinha 13 anos...”
Ouvi toda a história atentamente e, resumindo-a, é uma
moça de família humilde do interior, com muitos filhos, poucos
cuidados e afetos. Pai severo demais. Ela, menina rebelde. Os
conflitos se tornavam demasiados. Aos 13 anos, foi obrigada a ir
a uma mãe-de-santo, num centro espírita ou coisa parecida, levar
um recado. Cheia de seus próprios conflitos, por ser uma menina
que falava tudo que sentia e assim ser tida como a ovelha negra,
chegando nesse lugar, sentiu que “aquela mulher” poderia fazer
algum “trabalho” para ela. Foi a primeira vez que teve a crise de
pânico: suciorese, palpitação, dispnéia, vertigem, sentindo algo
muito esquisito como se fosse morrer. De lá para cá, nestes 27
anos, as crises foram se agravando e intensificando, a ponto de
WpnoteraPia Ericksoniana Passo a Passo 261

enchê~ de fobias (fobia de viajar, fobia de elevador, lugar fecha


do e alto). Moça envolvida em conseguir sua independência, tra
~ava unia luta dentro de si mesma com tais medos e sensações
para que ninguém percebesse seú mal. E assim conseguiu se fir
mar profissionalmente e até mesmo com boa remuneração e mu
dança para Belo Horizonte. Agora já não conseguia esconder o
mal-estar e nem mesmo subir na vida (na carreira e em elevado
res). Para subir de posto em seu trabalho, precisava sair do andar
térreo e não conseguia.
Comecei dizendo que conseguíamos a primeira coisa, sair
do térreo e chegarmos ao segundo piso, mas que estava solida
mente construído e há anos aqui eu ficava “trabalhando” sem
transtornos, seguramente.
Perguntei se sabia qual era o seu mal. Respondeu-me que
era medo; eu disse se tratar de pânico, e que poderia ajudá-la já,
naquele momento, a se acalmar de todo aquele mal-estar. En
quanto respirava profundamente e com voz mansa, ia falando:
“O pânico é um mal-estar gerado pela ansiedade, a base de tudo.
A pessoa, quando nervosa, respira rápido demais, o que provoca
uma hiperventilação, que dá certa tontura e ofusca a mente, au
mentando ainda mais a tal hiperventilação. Esta, por sua vez,
leva a um reflexo de um nervo que passa em nossa garganta, o
nervo vago, provocando reflexo vagal, que gera mudanças nos
nossos órgãos vitais (coração, pulmão, estômago) os quais ele
enerva. Daí a sensação de morte iminente, de coração disparado,
de respiração curta e difícil. Perde-se até um pouco a clareza dos
fatos...”
Ela foi ouvindo atentamente enquanto eu falava manso e
respirava mais calmamente, quase em transe. Fiz o ~ir azul. Ela
respondeu bem.
Eu disse a ela que já a sentia um pouco mais à vontade, que
recostasse a cabeça e, se já estivesse melhor, que poderia fechar
os olhos,.. e que dentro em pouco êla iria sentir-se mais leve,
mais aliviada. A resposta foi imediata. Sabe por quê? Porque
quando temos uma dor muito forte, nossa motivação para a me
lhora é grande. Tê-la em plena crjse de pânico foi ótimo. Eia pôde
ver que até sem medicação, aprendendo a respirar, a se soltar, ela
262 Sofia M. F. Ba~jer

controlaria novas crises. Dito e feito! Saiu bem daquela sessão,


pronta para voltar, cheia de motivação.
Esta era uma paciente especial. Ela era sensível demais.
Linda de alma! Boa pessoa, prestativa e muito dedicada a fazer
suas conquistas. Precisava de um colo que lhe acolhesse, até que
ela percebesse, mesmo sofrendo, mesmo crescendo sozinha num
campo tão infértil, que planta boa ela era! Era isso que eu precisa
ria mostrar. Os recursos, ela tinha.
Em sua segunda sessão fiz a levitação das mãos e contei-
lhe sobre os solos e as boas sementes. Enfatizei que até mesmo
em solos difíceis boas sementes crescem. Ela entrou em regressão
espontânea. Viu-se criança, atravessando uma pequena ponte,
moradia pobre, escola pobre. Tudo uma pobreza. Fiz com que ela
visse como estava hoje, que ajudasse a pobre menina a atravessar
a ponte das riquezas. Saiu-se bem.
Na terceira, chegou agitada. Fiz o relaxamento através da
técnica de subir nas nuvens, “elevar-se” ao bem-estar com total
segurança. Sentiu-se aliviada, pediu o ar azul, ao que atendi pron
tamente. Então ela subiu com sua nuvenzjnha protetora até o oi
tavo andar de elevador. Bom sinal. O que ela já vislumbrava em
transe estava a um passo de conseguir lá na frente. “O pensa
mento é um ato em estado nascendi” (Freud).
Alívio pronunciado em seu rosto. Reassegurei que ela já se
permitia aliviar-se. Era só usar do ar azul e de sua nuvem prote
tora, e eles a tirariam do que a estivesse pressionando.
Na quarta sessão, novamente regressão. Lágrimas, senti
mentos de solidão, desajuste. Foi trabalhado que ela poderia con
tar com seu anjo da guarda. Ao ser dito isto, ela visualiza um
monge, num bonito templo que vem buscá-la. Pedi que ela con
versasse com o monge, contasse de seu desamparo, de seu sofri
mento. Ele era sua sabedoria interior, um mestre com quem ela
poderia contar sempre que sentisse o desamparo. Na certa, ele te
ria uma palavra sábia para ela. Foi o que aconteceu. O mestre pri
meiro trouxe o silêncio, depois camïnhos, depois guiou os pas
sos. Ele aparecia sempre em seus transes aliviando, despressuri
zando,
Em sua quinta sessão vieram sonhos. Dentre eles um terre
no em que ela plantava, com o pai, repolhos. Alimento. E o solo?
Flipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 263

já era bom solo, e o pai já lhe ajudava no plantio de seu novo ter
reno. Bom sinal.
A terapia seguiu-se, é em sua sétima sessão ela já fez sua
primeira viagem sozinha. Ficou um ano em tratamento. Pude vê-
la comprar seu apartamento, fortalecer-se e ainda ficar mais bo
nita como mulher. Era aprendizado longo. Pressão, ela tini-ia
muitas, mas agora já contava com a sabedoria interior e o fato de
poder relaxar quando a pressão aumentava.

Caso Roberta
“Tenho 20 anos de idade. Fui nascida e criada em Belo 1-lo-
rizonte.
Meu pai biológico faleceu quando eu tinha 1 ano e 3 meses.
Fui criada por minha mãe, uma pessoa maravilhosa, e por meu
avô que me adotou como sua filha.
Embora minha mãe tenha problemas de depressão, sempre
foi uma mãe maravilhosa, e meu pai adotivo sempre me deu
muito carinho. Sempre tive tudo que uma criança gostaria de ter,
materialmente falando, mas a adolescência foi meio complicada;
não queria ir à escola pois os “coleguinhas” me apontavam: olha
lá a filha da doida! Isto me revoltava muito.
Aos 7 anos fiquei três meses sem ver minha mãe; ela estava
internada em uma clínica psiquiátrica. Todos me falaram que ela
tinha morrido.
Quando ela voltou fiquei muito feliz, mas com raiva das
pessoas que mentiram pra mim.
Quando discutia com minha mãe, eu já a chamava de doida.
Talvez por ironia do destino, acabei ficando também.
Quando completei 16 anos de idade, meu pai adotjvo fale
ceu.
A partir daí minha vida se transformou num inferno.
Nunca tinha tido contato com a família de meu pai. biológi
co, mas, como era menor de idade, fui obrigada a ir para lá. Ma
mãe foi morar com uma prima minha.
Na casa de meu avô, não me dei muito bem, sentia-me um
peixe fora d’água. Meu avô é alcoólatra e tinha brigas terríveis
264 Sofia M. E. Bauer

com sua mulher que, por sua vez, me odiava. Sofri muitas humi
lhações lá.
Resolvi sãir de lá. Dormia um dia aqui, outro ali.
Passei fome e envolvi-me com drogas. Primeiro maconha,
depois cocaína, até que tive uma overdose e quase morri.
Larguei as drogas.
Como eu era menor de idade, tive que ser emancipada pelo
juiz de menores. Aos 17 anos fui emancipada.
Comprei uma casa para mim, um carro, enfim, tudo aquilo
de que eu precisava.
Fui morar com mamãe nesta casa. Tudo estava muito bem,
quando tive minha primeira crise. Foi terrível! Não dormia, não
comia, nem chegava na janela. Tinha medo e vontade de morrer
ao mesmo tempo.
Foi quando fui a um clínico geral que me receitou uma
droga (Dormonid). Tomei essa droga por um ano. No início me
lhorei, mas com o tempo já não fazia efeito e voltei a ter crises
piores.
Fui a uma psiquiatra que me receitou outra droga (Pame
1cr). Também não resolveu meu problema. Foi quando conheci
um rapaz que me falou sobre a hipnose. Ele fazia tratamento com
a Dra. Sofia Bauer.
Quando vi uma reportagem sobre hipnose na televisão, lá
estava Sofia Bauer.
Então resolvi ir lá. Fui com muito medo. Não sei por quê,
mas tive medo.
No dia em que fui, levei comigo minha prima, uma criança
de 12 anos.
Meu pânico era tão forte que até uma criança me inspirava
segurança.
Quando saí da sala, depois da sessão, foi incrível!
Senti-me em paz e autoconfiante.
No início do tratamento tomava dois comprimidos de Ri
votril. Agora, quando tomo, é um só.
Faço tudo que uma pessoa normal faz.
Recuperei minha auto-estima.
E-{ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 265

Faço ginástica, inglês e sempre que posso vou a um asilo


que me faz muito bem. É uma troca de carinhos e experiências.
Saio, me-divirto, enfim, quando olho para trás e me lembro
de tudo que passei, aí eu vejo que hoje eu sou feliz!
Belo Horizonte, 3/12 /97”

Caso Edmundo
“Num momento difícil que vivia, urna pessoa amiga sinali
zou-me o caminho da hipnoterapia e, em ato contínuo, indicou a
Sofia Bauer. Com o resquício de matuto do interior, evitei relutar
e fui buscar apoio. Fui aos poucos me entregando e me encon
trando. Com o passar dos tempos passei a resolver angústias,
amarguras e, especialmente, rancores, ali mesmo na sala do seu
consultório. Hoje saio aliviado e consigo esperar a próxima con
sulta, sem dar ‘porrada’ em ninguém, para, neste dia, botar para
fora a raiva daquela semana. O melhor, nesses encontros, é que
enfrento o desafeto de frente, travestido de Sofia e sem seqüelas”.

Caso Adriana
“Janeiro 21, 1988
Relato sobre tratamento com terapia hipnótica

O resultado da terapia hipnótica é rápido e muito eficiente.


No meu caso particular, eu não me senti em momento algum
hipnotizada, ápenas uma sensação de tranqüilidade.
Quando eu procurei a Sofia, eu não conhecia o trabalho
dela. Eu estava vivendo situações de alto grau de stress e me sen
tia muito nervosa e sobrecarregada. Eia me foi altamente reco
mendada por uma amiga psicóloga.
As sessões de terapia são compostas por duas etapas. mi
cialmente conversamos sobre os problemas que estão me inco
modando naquele momento, ou também prõblemas estruturais
(família, criação, medos, traumas) que eu gostaria de resolver.
Sofia muitas vezes dá explicações psicológicas para atitu
des de outras pessoas, o que nos faz compreender o porquê das
estranhas atitudes dos que nos circundam. Eia também ilustra
com outros exemplos, e nos mostra que ‘a vida é mesmo assim’,
266 Sofia lvi. F. Batier

que todas as pessoas vivem situações difíceis, que vamos sempre


ter situações difíceis, mas se estivermos mais calmos e compreen
dermos melhor os fatos teremos mais clareza e força para resol
ver nossos problemas.
Na segunda etapa, ela coloca uma música tranqüila, o pa
ciente fecha os olhos, encontra uma posição confortável e deve
permanecer em silêncio. Ela então diz alguma espécie de parábo
la na qual ela insere a chave do problema que você relatou na
quela sessão, ou então ela diz alguma coisa relaxarite, provavel
mente extratos de textos de meditação.
Eu acho a combinação das duas etapas perfeitas, pois,
quando eu falo, eu desabafo sinto-me melhor, diminui a ansie
dade e também não tenho necessidade de ficar me expondo e fa
lando com outras pessoas conhecidas, o que muitas vezes é pre
judicial.
Também gosto muito de nossas conversas um pouco antes
da meditação e das opiniões que ela emite, pois isso me dá uma
sensação de envolvimento e feedback, e as opiniões são efetiva
mente muito boas.
Depois de desabafar e ter explicações e/ou idéias para en
frentar os problemas em questão, fazemos este momento de paz.
As coisas que ela fala podem parecer muito bobas ou óbvias mi
cialmente, mas o resultado é muito bom. Você sente uma sensa
çãode efetivo descanso, então no resto do seu dia você tem mui
to mais disposição para enfrentar os problemas. Você também
encontra soluções muito mais facilmente, pois está mais tranqüi
lo e mais positivó..
No início, eu tive inclusive que fazer uso de medicamentos
alopáticos fortes, o que me levou a um enorme sentimento de
culpa pois eu me trato com homeopatia. Sofia me explicou de
maneira muito clara e científica que o meu estado de sti~ess era
tão elevado que já havia desencadeado reações químicas que
eram expressas em pânico e deveríamos parar estas reações para
poder tratar os problemas. À medida que eu fui me sentindo
mais calma, fui reduzido o remédio, o que Sofia orientava, mas
deixava a meu critério, pois cada um sabe como se sente. O remé
dio não me provocou nenhum efeito colateral grave ou qualquer
espécie de dependência.
~jpnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 267

Estou me tratando com a terapia hipnótica há um ano e


me sinto muito bem. Todos os problemas estruturais e conjuntu
rais estão praticamente resolvidos, eu me sinto muito mais calma
e mais alegre. Continuo freqüentando as sessões de terapias, mas
não me sinto ‘dependente’. Pelo contrário, me sinto muito mais
independente, pois ela me ensinou a encontrar mais paz interior
e encarar os problemas de uma maneira mais leve, sendo menos
exigente comigo mesma.”

Gostaria de colocar alguns detalhes sobre o tratamento do


pânico~ pois é uma doença pouco conhecida, o número de pes
soas sofrendo de pânico tem aumentado assustadoramente e as
pessoas muitas vezes podem ouvir relatos fatalistas e se sentir
desesperadas e desesperançosas. Eu conversei com várias outras
pessoas que sofrem de síndrome do pânico e elas tiveram uma
cura muito mais lenta que a minha, pior do que isto, a maioria
delas não se sente curada. A literatura encontrada sobre pânico é
muito resumida e reflete casos muito graves. Não aconselho a
ninguém ler estes capítulos em livros especializados pois eles im
pressionam e não refletem o caso de cada pessoa.
O sentimento de pânico, como, o nome já sugere, é desespe
rador. Muitas pessoas sofrem de pânico e não sabem. Existem ní
veis mais fracos e mais fortes. No início é apenas um desconforto
e medo de pequenas coisas como dirigir, estar sozinho, ficar ne
gativo e enxergar os problemas de maneira fatalista, não enxer
gando soluções. Depois os sintomas se agravam e você sente uma
sensação dentro do peito de que vai explodir e sair flutuando,
como se o seu corpo não respondesse mais ao seu comando. Isso
o leva a imaginar que você pode ser atropelado ou pular de uma
janela, pois as suas pernas não estão respondendo ao seu coman
do. A maioria das pessoas tem pavor de estar sozinhas, sofre as
mais diversas fobias e muitas vezes sente a certeza de que está
com problemas cardíacos ou outras doenças graves e não acredi
ta no resultado dos exames que dizem o contrário. Muitas vezes
também as pessoas ficam obcecadas de que algo de ruim possa
vir a acontecer com seus entes queridos.
~ pânico é um estado grave e cumulativo de angústia e
stress. Alguns livros e médicos dizem que a doença é genética e
268 Sofia M. F. Bauer

incurável. Que bobagem! Não dê ouvidos, isto é uma boa descul..


pa para um paciente se acovardar e passar o resto da vida no pa
pel de vítima. A vida é uma só., escolha ser feliz! Lute com• toda
sua força e você se sentirá melhor rapidamente. Não é fácil, mas
é possível. Além de freqüentar a terapia, é imprescindível fazer
esporte; o melhor é a natação. Não se sinta frustrado no início. A
melhora, obviamente, não é instantânea, mas pode ter certeza de
que você está caminhando na direção certa. É muito importante
se distrair e buscar atividades relaxantes e que lhe dêem prazer e,
principalmente, mudar sua vida. Afastar-se das razões que o le
varam a este estado de angústia ou, se isto não for possível, des
cobrir uma forma de resolver os problemas, as frustrações, os
traumas, os medos, e/ou encará-los de outra forma, não se dei
xando atingir de maneira tão brutal e destruidora.
A terapia é muito importante em todo este processo, pois
quando se atinge o estado de pânico, o paciente já está num nível
de angústia tão elevado que é muito difícil encontrar soluções e
se acalmar sozinho. A terapia ajuda a desabafar, descobrir os ca
minhos, dar estímulo, ter paciência e relaxar.

1O.Asma
A asma também é uma doença psicossomática. Como tal, o
sintoma por si fala do que se trata: sufoco. A falta de ar é fruto de
um componente psicológico de sufoco: superproteção por parte
de um dos genitores, ou uma insegurança em resolver alguma si
tuação. Qualquer que seja o caso e a idade de aparecimento do
comprometimento das vias respiratórias, o sintoma fala da atitu
de de sufoco. A essa altura, você já sabe as muitas maneiras de
trabalhar o sufoco. Até mesmo com a própria respiração. O con
dicionamento do transe, o ar azul, o relaxamento combinado ao
lugar agradável, suavizam o sintoma da “falta de ar” psicologica
mente induzida. Mas só isso não afasta o problema, apenas me
lhora.
O importante é você ir introduzindo a hipnose como alívio,.
associado ao conteúdo metafórico que será especifico para cada
caso, em que, através das metáforas ou analogias, você trabalha o
que causa o sufoco ou a superp.roteção. O que se deve fazer é
• i~Iipnote~Pia Ericksoniana Passo a Passo 269

condicionar o alívio, sabendo-se o momento em que a pessoa


“dispara” sua mínima pista de que vai modificar a respiração em
vista de seu problema, ou seja, uma adolescente, em vias de arru.
mar um namorado, respira normalmente para ir à escola, ao cine
ma, fazer suas tarefas, mas basta ela pensar que, ao ir à escola,
pcderá ver o futuro pretendente, que modifica seu padrão respi
ratório. Assim, identifique o que causa o sufoco, em que momen
tos ele aparece, introduza a auto-hipnose. A auto-hipnose será
ensinada durante o transe como sugestão pós-hipnótica. Por isso,
o transe deve ser de nível médio a profundo, em que a sugestão
pós-hipnótica é sempre mais eficaz, em mínimas pistas, para alte
rar com naturalidade algum aspecto psicológico. A pessoa adota
a nova postura, sugerida no transe, sem perceber.
Lembrando a você, a sugestão pós-hipnótica é muito eficaz
quando o rapport é bom e o nível de transe é médio ou profundo.
Na sugestão pós-hipnótica para o paciente asmático, você dará
• instruções para que, quando ele sentir algum aperto no peito, ou
• um pensamento sufocante (isto depende de cada caso), respire
profundamente da maneira que vocês treinaram. E assim, no es
tado de amnésia, de uma maneira natural, no momento do sufo
co, a pessoa entra num transe espontâneo de segundos e muda o
padrão de respiração. Com isto ela, sem perceber, não provoca a
crise asmática.
Vou mostrar aqui um pequeno exemplo, em que ocorreu
um caso diferente de hipnoterapia naturalista. Lembrem-se de
que a hipnose naturalista é aquela que acontece de uma forma
natural. Você aproveita o que tem em mãos e utiliza isso para li
befar a pessoa.
Fui procurada por um colega de profissão, um excelente
psicanalista, que há dois anos, desde o nascimento do filho, vi
nha desenvolvendo um quadro de asma. Já havia voltado à sua
análise, procurado tratamento médico para os brônquio-espas
mos, sem ainda ter tido bons resultados. Resolvemos experimentar
a hipnoterapia, algo fora do padrão de um psicanalista e, como
tal, também a proposta de trabalho foi fora do normal: em sua casa
e nos momentos de crise, que ocorriam ao crepúsculo, aquela
hora em que os bebês choram. Percebi que ele era um pai dedica
do, preocupado e muito consciente da função paterna. Quando
270 Sofia M. F. Bauer

menino, ele tivera asma e se curara. Ora, agora também poderia


fazer sumir o sintoma, como antes!
Tudo aconteceu fora do setting analítico. Dentro de casa,
aprendendo a relaxar perto do filho. Era pedido que o filho saísse,
fosse passear, feito pelo próprio paciente.
Em oito sessões trabalhamos através de metáforas e apren
dizado de relaxamento hipnótico, tudo aquilo que consciente-
mente ele já sabia.
Foram dadas sugestões pós-hipnóticas que mostraram
muita eficácia. Após estes dois meses o paciente estava curado.
Num trabalho natural, que aconteceu de uma forma espon
tânea, com um bom rapport, desenvolvido pelo sufoco e desespe
ro do paciente e pela minha intenção de ajudá-lo, este pôde con
fiar e entregar-se a um trabalho do qual não tinha o suposto sa
ber. Mas ele foi sabendo, aos pouquinhos, tudo que era feito, e
assim aprendendo a confjar nele, como auto-indutor do bem-es
tar.
Veja agora o relato dele mesmo. Um belo depoimento do
que é uma hipnoterapia naturalista.

“Há cerca de quatro anos vi-me diante de um velho e desa


gradável conhecido com quem havia compartilhado uma boa
parte da minha infância e adolescência, o brônquio-espasmo.
Esse tal costumava dar as caras em situações variadas que ti
nharn como denominador comum a angústia ou o stress.
E desta última vez não foi diferente. O fato desencadeante,
em princípio, só me causou alegria e uma torrente de bons senti
mentos, pois um desejado e bem vindo primeiro filho havia che
gado. Porém, as preocupações e obrigações inerentes acabaram
por se manifestar sob a forma de uma bela crise de asma.
Essa prïmeira crise veio a ser complicada por uma sinusite
que provocou um quadro agudo de insuficiência respiratória. A
partir de então, iniciei um tratamento convencional de sensibili
zação alérgica que durou sete meses, com a supressão quase total
dos sintomas, à exceção de um pequeno e persistente chiado, so
mente à noite, ao deitar.
flipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 271

Comentei o caso com Dra. Sofia que me propôs a experiên


cia da indução hipnótica.
Foram feitas oito sessões, que consistiam em encontros se
rnanais, em minha casa, com relaxamentos ao som de música new
age.
Mais marcante do que a música, porém, é a musicalidade, a
sonoridade calmante que a voz da terapeuta provoca.
A partir dos meus relatos sobre atividades rotineiras, lazer,
situações prazerosas, etc., a terapeuta cria, então, imagens pictó
ricas que induzem a uma livre associação de quadros agradáveis,
aleatórios, descompromissados.
Curiosamente, em nenhum momento se perde a consciên
cia, no sentido do contato com a realidade.
O estado é de vigília, com leve torpor, más, ao final de cada
sessão, é geralmente impossível estabelecer com precisão quanto
tempo se passou. Quanto ao sintoma, o vilão da história, este de
sapareceu por completo.
Chama a atenção o fato de que não é feito nenhuma corre
lação formal, algo como uma ordem, uma sugestão, uma palavra-
chave, algo mágico, se ligando a sintoma, chiado, brônquio,
asma1 etc.
Todo o processo se passa ao largo, bordejando, no bojo das
histórias contadas durante a sessão.
Uma última observação que provoca especial atenção é a
absoluta informalidade do processo.
Sendo eu um psicanalista de formação tradicional, acostu
mado com um setting mais rigoroso, fiquei agradavelmente sur
preso com a naturalidade e simplicidade de nossas sessões.
Para finalizar, um sentimento também notório é o prazer
associado à espera das sessões. Como quem se dirige a uma mas
sagem ou a uma sessão de shiatsu, o que difere dos sentimentos
de apreensão ou angústia às vezes relatados por pacientes em
análise.”
272 Sofia M. F. Bauer

“Cerque sua vida com o doce sentimento do amor.

Não tenha prevenção contra seus semelhantes.

S~ alguém não o compreender, se alguém o ferir ou iiw


goar, procure retribuir com maior compreensão, com aten
ções redobradas.

Só o amor é capaz de vencer as barreiras da separação, de


• aproximar as criaturas, de solidificar as amizades.

Então, cerque sua vida com o doce sentimento do amor.

C. Torres Pastorino
Capítulo 7

Casos de insucesso

Gostaria de colocar neste livro, após ter citado muitos ca


sos de sucesso, que o contrário também ocorre.
Aos que começam agora, que fique registrado que também
na hipnoterapia ocorrem insucessos. Não se pode querer curar
tudo! Cura é uma palavra questionável. Você ajuda, apoia, mos
tra caminhos, ressignifica e assim mesmo encontra obstáculos
maiores.
Devemos observar várias questões. Transferência negati
va, contratransferência negativa, falta de motivação, procura da
magia, compulsão à repetição, materïal recalcado não trabalhado,
pontos cegos do terapeuta, falta de técnica adequada, pressas. etc.
Aprendi com Jeffrey 1K. Zeig que a postura de incoinpe~ente,
de em princípio não saber como ajudar seu cliente, é imprescin
dível. Se você entra como dono do saber, você prejudica sua vi
são do caso. Força uma atitude de ter que dar conta. Agora, se
você entra aberto, dizendo a si mesmo que sobre a pessoa em
questão você não sabe nada e vai aprender a conhecê-la, apren
der como ela fez para ficar assim, com tal problema, o que ela
quer mudar, qual a disponibilidade para isto, você está tomando
uma postura de abertura às possibilidades de cura.
Isso o ajuda não apenas a reconhecer qual é o problema da
pessoa, mas também quais as potencialidades que ela traz consi
go. A postura de abertura, respeito e amor ao paciente ajudam
muito no sucesso do tratarnento~ Dessa maneira você não julga,
274 Sofia M. E. Baijer

não faz um diagnóstico fechado. Você tem uma depressão, de


pressão se trata assim. Mas você pensa, ela está deprimida, o que
a levou a ficar deprimida, o que ela já passou para estar assim
agora, como ela era antes de tudo isto? É o respeito, é a busca dos
recursos, é o amor. Com isto, mesmo que a motivação não seja lá
grande coisa, você pode ajudar a aumentar a motivação à cura.
Se você aceita o paciente, procura descobrir o que ele tem de
bom, observa o que é sofrimento para ele; o paciente é capaz de
perceber a abertura, o respeito e coopera. Ele sentiu-se recebido,
respeitado e aceito, mesmo estando com um problema e não tendo
algo incurável.
Nos casos em que a procura se manifesta quase como uru
desejo de que a hipnose magicamente resolva seu problema, é
necessário esclarecer as coisas. Hipnose não é mágica. Você põe
alguém em transe, diz meia dúzia de palavras e plin! Solução
imediata. Acorda-se ~do transe curado. Isto não existe. Às vezes
ocorrem as sincronicidades. A pessoa quer muito uma determi
nada coisa (emagrecer, parar de fumar, parar de gaguejar, etc.) e
você faz a indução. Ela sai do transe pronta! Ela já vinha se cu
rando, através do seu desejo de cura. A hipnose foi apenas um
empurrão. Estes casos costumam tornar-se mitos. Fulano fez uma
sessão de hipnose e pronto, curou-se! Mas, na realidade, isto
acontece em poucos casos. É a fé mais a técnica se unindo num
momento muito oportuno. Mas a intenção e o desejo de melhora
já vinham sendo administrados pela pessoa. Neste momento
aparece o “santo” terapeuta, faz a “mágica” hipnose e tudo se re
solve! Belo! Nós é que ficamos em apuros quando chega algum
cliente que deseja curar-se dessa maneira. Mas não deixe de aju
dar. Agora, seja honesto. O que funciona para um, não é o mes
mo que funciona para o outro. Há questões como o tempo, o rit
mo e o momento que cada pessoa vivencia dentro de seu proble
ma.
A hipnose ajuda, mas não faz milagres. Você pode usar de
apenas uma sessão, como pode levar até anos em alguns casos.
O que você não pode é trabalhar sem a motivação do clien
te, ele apenas acreditando que você vai fazer o milagre da cura.
Pelo que pregamos, a hipnoterapia é feita pelo cliente. Este torna
se o terapeuta de si mesmo. Você se torna apenas um guia que
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 275

mostra caminhos. Quem conhece melhor o seu cliente? A sabedo


ria interior que habita a mente dele.
Por que então, mesn~o respeitando o cliente, lhe dizendo
que não podemos fazer mágica, ainda assim ocorrem casos de in
sucesso? Pense sobre a questão da transferência de ambos, tera
peuta e cliente. Isto é muito importante. Como você pode cuidar
de alguém que você não gosta? Como pode alguém ser cuidado
por outro de quem ele não gosta? Não é bom. Veja isso desde o
começo. Encaminhe a outro colega, seja honesto, caso sentir que
você não está gostando do caso Pare e pense por que você sentiu
tais sentimentos É uma boa hoia para refletir E, do mesmo
modo, deixe o cliente livre para ir embora De um modo geral,
cliente insatisfeito vai embora por conta própria Insucesso7
Tudo pode ser visto como gosto, preferências e ajustes
Urna coisa importante é a compulsão à repetição, vincula
da à pulsão de morte, ela conduz o cliente a repetir o mesmo,
sem sair de seu problema Aquele cliente que vem de muitas aná
lises interrompidas Tome cuidado’ É preciso minar este padrão,
porque também será um insucesso Você pode minar o padrão,
fazendo ajustes bem menores do que aqueles que o cliente vem
procurar Ele quer muito e, se você der, ele irá jogar fora Mas se
você for dando aos pouquinhos pode ser diferente, talvez ele não
perceba que você está dando algo tão bom e receba E, de pouqui
nho em pouquinho, você vai ganhando confiança para alcançar o
que é grande lá na frente
Devo falar um pouco daquilo que Milton H Erickson cha
ma de cliente universitário. É aquele paciente que passa de um te
rapeuta para outro, sem sucesso em nenhuma terapia. Por vezes,
procura excelentes terapeutas, mas é sempre caso de insucesso.
É bom ver a questão do fazer tudo para não fazer nada e man
ter o problema. São aqueles pacientes que enganam a si mesmos,
e, por vezes, sentimo-nos impotentes em resolver tais questões.
Outro aspecro a considerar aqui é ver que esses pacientes
têm dificuldade em aprofundar. A eficácia do tratamento depen
de da motivação a querer ir a fundo no que gera o problema.
Fique atento! Você não tem que ser dono do suposto saber.
Mas, nesses casos, é preciso redobrar sua atenção e focalizar se
276 Sofia M. F. Bauer

há alguma brecha para fazer apenas “alguma coisinha” pela pes..


soa um pouco mais profunda.
Na minha clínica, vejo os insucessos ocorrerem pelos moti
vos citados acima. Acredito que, quando urna pessoa quer se cu
rar, tem bastante motivação e você, suficiente respeito e amor
para tratá-la, já ultrapassaram metade do caminho. Muitas vezes,
falta o conteúdo teórico ou a prática, ou ambos. Se você tiver a
humildade de conduzir o caso com calma, não querendo dar
mais do que sabe, não. cometerá nenhum pecado grave. É bem
provável que acerte! Isto é o que eu posso dizer.
Respeito até mesmo as falhas, como grandes aprendiza
gens, e posso reconhecer que, às vezes, foge ao nosso alcance aju
dar determinado cliente.

Existe uma analogia interessante que eu gostaria de fazer


através deste realato:

Um cliente é como um castelo.., tem suas forças armadas


em pontos estratégicos... prontos para atacar qualquer um “dife
rente” que queira invadir o castelo.., se você entra pela porta da
frente (ataca o problema em questão, de cara)... os soldados vão
atirar-lhe as flechas... os canhões... Mas sabemos que todo castelo
tem lá sua passagem secreta... que sai na floresta.., e por que não
entra pela floresta.., procurar a entrada secreta (algo comum a
você e ao cliente, de que ele goste, para adquirir a confiança)? e
assim você entra sem ser visto.., vai se infiltrando na fortaleza...
minando o castelo...
I-{ipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 277

“Nós paramos um instante para encontrar o outro, para


nos conhecermos, para amar e compartilhar. É um momen
to precioso, mas transitório. Um pequeno parênteses na
eternidade. Se partilharmos carinho, sinceridade, amor,
criamos abundância e alegria para todos nós. Esse momen
to de amor é valioso.“

Deepak Chopra

“Você combina a capacidade de expressar seu talento único


com benefícios à humanidade, está fazendo uso da lei do
darina,.. Não há meios de você não ter acesso à abundância
ilimitada, porque esta é a verdadeira maneira de se obter a
abundanc!a.

Deepak Chopra
Capítulo 8

Conclusão

Ao finalizar este guia de passos, gostaria de dar o meu re


cado:
Descubra seu talento único, veja o que você faz que é i5ni-
co, que é seu, e que você faz com prazer, veja como pode ajudar.
A incerteza é sempre bem-vinda, ela será o guia da criatividade.
Por isso, aceite-a. Nesta hora, você se abre à criatividade e então
pergunte-se: Como eu posso ajudar? Dê o que, você tem de belo,
com amor em abundancia. De o que voce deseja receber.

Observando uma situação de caos, o problema do cliente,


mantenha-se alerta, com suas incertezas, sem ter uma atitude de
dono da verdade; você terá a criatividade ao seu lado para ver
emergir a solução no momento oportuno.

Afirmam que conscientemente conseguimos captar 7 + 2


informações por segundo, enquanto que inconscientemente con
seguimos obter 21011. Você sabe quantos “zilhões” de pensamen
tos esta quantia significa?! Pois então confie no seu inconsciente.
Baseado em tudo que você tem de teórico, mais o que você viu
neste guia prático de clínica hipnoterápica, dê tratos ao seu in
consciente na busca de como você pode ajudar.
Você pode usar a hipnose das mais variadas formas. Seja
VoCê, Erjckson usa hipnose em 15% de seus atendimentos. Zeig
usa em 10%. Mas os procedimentos hipnóticos, a linguagem, a
280 Sofia M. F. Bauer

utilização, são usados em 100% dos casos. Seja você mesmo, des
cubra como usar das técnicas vistas e ponha seu talento a favor
da humanidade.

E boa sorte!

Dizem que sorte nada mais é que a prontidão e a oportuni


dade caminhando juntas!
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Glossário de hipnose

José Roberto Fonseca

AB-REAÇÃO: Termo com que se denota o estado de crise do clien


te, sob efeito do transe hipnótico, em que ele pode chorar, ficar
zangado, rir histericamente ou demonstrar medo.
ABSORÇÃO: Primeiro item a ser observado na indução natura
lista, e que consiste em absorver a atenção da mente consciente
(MCS) do paciente, de forma sensorial (sensação de pressão,
frescor e calor cenestesia) ou ideativa (visual e interna), en
-

quanto o inconsciente (MIC) relaxa, permitindo entrar neste


estado especial de consciência chamado transe hipnótico.
ABSORVENTE: V. Categorias.
ACOMPANHAMENTO: O mesmo que Acompaahar.
ACOMPANHAR: Também denominado Seguir, é o estágio III do
“Embrulhando para presente” de Jeffrey Kenneth Zeig, que
consiste em: ratificação de mudanças, promoção da amnésia,
instruções processuais, como usar recursos de eliciação, testar
a terapia (no consultório, simbolicamerute, exercitar a fantasia),
propor tarefas para consolidar e treinar o aprendizado, subme
ter à hipnose, escrever cartas. Em inglês é ofoliow through.
ACORDADO: Termo com que André M. Weitzeruhoffer batiza o
primeiro estado de transe, e que se caracteriza por: olhos aber
tos; pálpebras pesadas e/ou pálpebras com tremor.
ACUIDADE: Agudeza de percepção; capacidade acentuada de
discriminar estímulos sensoriais. É uma das qualidades que
deve ser desenvolvida no terapeuta, para que a sua percepção
288 Sofia M. F. Bauer

visual e auditiva sejam utilizadas como recurso de compreen


são e ajuda ao cliente.
ALIANÇA SOFRÔNICA: V. Sofronização.
ALUCINAÇÃO HIPNÓTICA: Fenômeno observado em alguns
pacientes, que implica na distorção da percepção, com acrésci
mo de objetos ou sensações inexistentes (positiva) ou negação
de uma realidade (negativa). Por indução pode-se promover
uma alucinação pós-hipnótica, com os mesmos conteúdos da
alucinação hipnótica positiva ou negativa.
AMNÉSIA: No contexto da hipnose, é um estado de esquecimen
to reversível. Pode ocorrer espontaneamente ou sugerida.
Pode ser parcial ou total, de acordo com o montante de mate
rial esquecido ou não-recuperável. É típica do estado de transe
profundo.
AMNÉSIA HIPNÓTICA: Amnésia provocada através da hipno
se.
AMNÉSIA HIPNÓTICA, TÉCNICAS DE: Sugestão indireta, dis
tração, estruturação, confusão, metáfora, semeadura, dissocia
ção.
AMNÉSIA SELETIVA: Tipo de amnésia em que, de forma espon
tânea ou sugerida, o indivíduo fraciona ou seleciona certas ex
periências, atitudes ou aprendizados.
AMPLIADOR ou AMPLIFICADOR: V. Categorias.
ANALGESIA: Perda de sensibilidade à dor, experimentada sob
transe hipnótico.
ANALOGIA: Ponto de semelhança entre coisas diferentes. Méto
do utilizado por Erickson para levar o cliente a identificar as
pectos idiossincrásicos e aproximá-lo mais de sua realidade in
terior.
ANEDOTA: Um chiste, uma estória jocosa, um caso. Estratégia
criada por Milton Hyland Erickson para facilitar o processo de
indução ao transe hipnótico.
ANESTESIA: Perda total ou parcial da sensibilidade, em qual
quer de suas formas, conseguida através da hipnose (anestesia
por dissociação).
ANTENA: V. Princípio-antena.
APOSIÇÃO DE OPOSTOS: Categoria de sugestão indireta que
envolve a justaposição de dois comportamentos que estão mu
dando em direções opostas. Com esta sugestão é útil começar
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 289

em um níve’ somático, de modo a estabelecer credibilidade an


tes de sugerir mudanças psicológicas mais complexas. Ex.:
Quanto mais pesado seu corpo se sente assim que você desen
volve o transe, mais leves seus braços podem se sentir.
ASSESSMENT: Avaliação feita a partir dos recursos do cliente,
das sinalizações que ele emite, e da forma como ele experiencia
o mundo: suas lentes perceptuais, isto é, estilo de atenção, e
sistema sensorial preferido (visual, auditivo ou cenestésico), e
sua forma de processar a informação recebida. Veja Catego
rias.
ASSESSMENT CATEGORIES: V. Assessment.
ATAVISMO: Teoria proposta por alguns estudiosos da hipnose
(Meares, A., 1961, e outros), que afirma que o fator básico na
hipnose é a regressão ao estado primitivo de funcionamento,
em que o homem pré-humano aceitava idéias pelo processo de
sugestão, e sem avaliação crítica. “Reaparecimento, em um de—~
scendente, de um caráter não presente em seus ascendentes
imediatos, mas sim em remo tos” (Aurélio).
ATENÇÃO CONCENTRADA, LEI DA: V. Princípios psicológi
cos.
AUDACIOSO: V. Categorias.
AUDITIVO: V. Categorias.
AUSÊNCIA CONSPÍCUA OU AUSÊNCIA EVIDENTE: No de
senvolvimento da Acuidade, é a observação da ausência de al
gum movimento muscular, gestual, comportamental etc., du
rante a entrevista com o cliente, que evidencia uma caracterís
tica sua.
AUTO-HIPNOSE: Processo de indução hipnótica dirigida pelo
indivíduo sobre ~i mesmo.
AUTOPROTETOR: V. Categorias.
AVENTUREIRO: V. Categorias.
BACKGROUNID: É o termo em inglês para fundo, de Figura e
Fundo (ver), da Gestalt.
BRAIDISMO: Termo com que ficou conhecida a técnica de fixa
ção visual para a indução de estados de relaxamento criada
por James Braid (1795-1860) em 1843, denominada por este
hipnose. Também chamada de efeito Braid.
CATALEPSIA: De acordo com a classificação de Jean-Martin
Charcot (1825-1893), um dos três estágios do estado hipnótico,
290 Sofra M. F. Bauer

caracterizado por rigidez cérea dos músculos, de modo que o


paciente permanece na posição em que é colocado. O mesmo
que rigidez.
CATARSE: Purgação, purificação, limpeza. Termo usado por
Freud (1856-1939) e Breuer (1842-1925), em 1895, para descre
ver o método utilizado por eles de encorajar o paciente, em
transe, a falar sobre seus problemas emocionais.
CATEGORIAS DE AVALIAÇÃO ou CATEGORIAS DIAGNÓS
TICAS: (Assessrnent categories, em inglês). Método desenvolvi
do por Jeffrey K. Zeig, discípulo de Milton H. Erickson (1901-
1980), com o intuito de se tomar conhecimento do modo de
ser do cliente e, a partir daí, saber a forma ideal de se preparar
o “embrulho para presente” (giftwrapping). Divide as catego
rias em dois níveis de comunicação, seguindo um padrão ges
táltico de figura e fundo ~foreground/background), a saber:
CATEGORIAS INTRAPSÍQUICAS (pessoais): Subdivididas em
três níveis:

1 Perceptivas ou perceptuais (atenção)


-

a) Interno voltado para si; preocupa-se com a própria vida


-

interior (sentimentos, pensamentos); não observa bem o


meio ambiente, o exterior.
b) Externo voltado para fora; observa e capta tudo ao seu re
-

dor.
c) Focalizado ou direto dirige a atenção para uma coisa de
-

cada vez (monoideísmo).


d) Difuso desloca a atenção de uma coisa para outra.
-

2 Sensoriais (sistema sensorial preferencial)


-

a) Auditivo em que predomina a audição como meio de co


-

municação com o mundo.


b) Cenestésico ou tátil é mais voltado para as sensações, quer
-

de prazer ou de incômodo.
c) Visual a visão tem um enfoque todo especial.
-

3 Processuais (quanto ao processo de elaboração)


-

a) Linear pondera, classifica, ordena, tanto na recepção quan


-

to na devolução, ao se comunicar; metódico seqüencial; tra


ça roteiros, esquemas.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 291

b) Mosaico elabora de forma mais diversificada, indo de um


-

tema a outro.
c) Ampliador, amplificador ou aumentado amplia a visão -

das experiências de forma:


— Positiva tudo é maravilhoso, bom, fantástico; gestos teatrais.
-

— Negativa a vida parece uma droga, em todos os sentidos;


-

qualquer problema é um enorme problema.


d) Redutor ou reduzido tende a reduzir as experiências a
-

pouco mais de um simples fato corriqueiro, uma ninharia.


CATEGORIAS INTERPESSOAIS (de relações sociais)
a) Quanto à estrutura familiar
— Filho mais velho e/ou único manda, protege, cuida. -

— Filho do meio rebelde, amistoso, comunicativo, artístico.


-

— Filho mais novo, caçula obediente, conciliador, prudente,


-

cordato.
b) Quanto à região
— Urbano nasceu e/ou se criou na cidade grande, em subúr
-

bios; está mais orientado para o presente.


— Rural do campo, tendo uma realidade e uma linguagem
-

bastante diferenciada; pensa mais no futuro.


c) Intrapunitivo parte do princípio de que é culpado por
-

tudo o que acontece ao seu redor; assume o rnea culpa.


d) Extrapunitivo a culpa é sempre dos outros; não se percebe
-

responsável por nada,


e) Absorvente suga a energia do outro; se espelha na expe
-

riência alheia; como a Lua, não tem luz própria.


f) Radiante ou doador age como o Sol, doando luz e calor;
-

cri ativo; expansivo.


g) Aventureiro ou audacioso. atira-se, lança-se, arrisca-se; cu
-

rioso; arisco; explorador.


h) Autoprotetor ou retrator afasta-se, retrai-se, protege-se; tí
-

mido; sem iniciativa; recatado ou medroso.


i) Em estresse comporta-se geralmente de forma agitada,
-

com muita energia, como uma criança.


j) Em homeostase é mais quieto, mais acomodado, como um
-

adulto.
292 Sofia M. F. Bauer

k) Rígido age de forma categórica, inflexível; tem padrões


-

predeterminados.
1) Flexível tem mais jogo de cintura; é maleável; não fica pre
*

so a padrões.
m) Quanto à hierarquia:
— One up, uno arriba, unissuperior, superior ou dominante: in
dica, controla, define, manda.
— One down, uno abajo, uniinferior, submisso ou inferior: obe
diente, responsivo, passivo.
— Simétrico quandqa posição do cliente é idêntica à do tera
-

peuta. Um bom terapeuta deve desenvolver a posição one up


mas, diante de um cliente one up, precisa desenvolver estraté
gias que o façam sentir-se no comando.
CAUSALIDADE IMPLÍCITA: Técnica de absorção que usa truís
mos de pressuposição e um determinado padrão de linguagem.
CENESTESIA: Sentimento difuso resultante dum conjunto de
sensações internas ou orgânicas e caracterizado essencialmente
por bem-estar ou mal-estar. Não se deve confundir com cines
tesia, que é o “sentido pelo qual se percebem os movimentos
musculares, o peso e a posição dos membros”, ou com sineste
sia, que é a “relação subjetiva que se estabelece espontanea
mente entre uma percepção e outra que pertença ao domínio
de um sentido diferente (por exemplo um perfume que evoca
uma cor; um som que evoca uma imagem, etc.)
CENESTÉSICO: V. Categorias.
CHAPÉU: No diamante de Erickson, é a posição do terapeuta
que representa o papel social deste.
CITAÇÃO: Padrão que permite fazer uma afirmação e atribuir a
responsabilidade dessa afirmação a outra fonte. Ex.: Eu estava
lá fora e alguém veio até mim e disse: relaxe!
CO-CONSCIÊNCIA OU CO-CONSCIENTE: V. Subconsciente.
COMANDO: É a ordem que se dá, de forma direta ou indireta
(embutida, por exemplo), para se constituir numa indução ao
transe ou numa intervenção terapêutica a ser considerada no
processo de elaboração e crescimento pessoal do cliente.
COMANDO EMBUTIDO: Forma de comando que se disfarça
numa frase corriqueira, indireta. Ex.: Acho muito importante
que você se sinta confortável enquanto...
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 293

CONFUSÃO MENTAL: Estimulação indiferenciada. Forma de


indução utilizada por Milton H. Erickson, no intuito de “can
sar” o consciente (MCS) e deixar que o inconsciente (MIC) se
manifeste. Pode ser dura, mais agressiva, ou suave com pia
das, casos, etc., e alcançada através de técnicas associadas (di
retas) ou dissociadas (rupturas).
CONJUNTO-NÃO: V. No-set.
CONJUNTO-SIM: V. Yes-set.
CONSCIÊNCIA: Conhecimento imediato da sua própria ativida
de psíquica.
CONSCIENTE: O conjunto dos processos e fatos psíquicos de
que temos consciência. É um dos níveis da vida psíquica, mui
to pequeno em relação à parte inconsciente, e pelo qual o indi
víduo é responsável em qualquer momento de sua existência.
CONSTELAÇÃO HIPNÓTICA: Conjunto de fenômenos verifica
dos no indivíduo em transe hipnótico, a saber: economia de
movimentos; literalismo; demora para iniciar resposta; mu
dança nos reflexos de salivação e degustação; diminuição na
freqüência respiratória, no pulso e na pressão sangüínea; rela
xamento muscular; mudança no comportamento ocular (mu
danças pupilares; tremor palpebral; desfocalização; olhar
fixo de transe; mudanças na frequencia de piscadas, nos mo
vimentos sacádicos — de lãdo a lado—, lacrimejamento); re
~dução nos movimentos de orientação; perseveração; assimetria
esquerdo / direito; mudanças na circulação periférica; fascicula
ções; aumento da responsividade e nas atividades ideomotora
e ideossensória e máscara facial,
CORAÇÃO: No diamante de Erickson, a posição do terapeuta
que di~ respeito à compaixão e à empatia.
DESORIENTAÇÃO TEMPORAL: Técnica de confusão mental
utilizada por Erickson, e que consiste em cansar a mente cons
ciente (MCS) com vários truísmos sobre o tempo (dias, meses,
anos) de forma deliberadamente confusa, para se induzir ao
transe.
DESPERSONALIZAÇÃO: Fenômeno hipnótico induzido, em
que o sujeito é levado a esquecer a sua identificação pessoal.
DIAMANTE DE ERICKSON ou DIAMANTE ERICKSONIANO:
Metamodelo ideográfico de intervenção, em que se destacam
os cinco pontos básicos do processo de “embrulhar para pre
294 SofiaM.F.Bauer

sente”, partindo da definição da meta, primeiro item, indo para


o “embrulho para presente”, através de uma sugestão direta,
uma sugestão indireta, a hipnose, uma prescrição de sintoma,
estórias, etc.; segundo item, dirigindo-se à posição do paciente
(individualização e ajuste — tailoring) em que se procura ver
como este paciente funciona (Categorias diagnosticas e Gan
cho); terceiro item, passando para o processo de terapia (Método
sanduíche: Set-up Intervenção Acompanhamento); quarto
- -

item, a posição do terapeuta (coração, chapéu, músculos e/ou


lentes), quinto item, do diamante.
DIFUSO: V. Categorias.
DIRETO: V. Focalizado.
DISSOCIAÇÃO: Fenômeno em que o indivíduo, por indução,
desloca sua percepção ou sensação de si mesmo, experiencian
do acontecimentos inexistentes. É também um método aplica
do para “distrair” a mente consciente (MCS), dissociando-a da
mente inconsciente (MIC).
DISSOCIAÇÃO DA PERSONALIDADE: Segundo a classificação
de Charcot, sinônimo de sonambulismo, o tronco principal da
hipnose.
DISTORÇÃO DO TEMPO: Fenômeno verificado em sujeitos em
transe, em que se perde a noção do tempo. O tempo pode ser
uma experiência cronometrada ou subjetiva.
DOADOR: V. Radiante.
DOIS RS ou 2 RS: Base da terapia ericksoniana: acessar a Respon
sividade para atingir os Recursos do cliente.
DOMINANTE: V. One up.
DISSOCIAÇÃO DUPLA CONSCIENTE/DUPLOS VÍNCULOS
INCONSCIENTES: Sugestão indireta que se pode representar
pela fórmula: Sua mente consciente pode X, enquanto sua
mente inconsciente faz Y, ou sua mente inconsciente pode X,
enquanto sua mente consciente faz Y. É uma extensão da ver
são do duplo vínculo consciente/inconsciente.
DUPLO VÍNCULO CONSCIENTE/INCONSCIENTE: Categoria
de sugestão indireta em que as alternativas comparáveis ofere
cidas facilitam especificamente uma educação a respeito do in
consciente e uma interação terapêutica entre o consciente e o
inconsciente. Ex.: A mente consciente pode não perceber quan
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 295

do a mente inconsciente está começando a trabalhar em dire


ção a uma solução.
DUPLO VÍNCULO NON SEQUITUR: (Non sequitur, em latim,
significa “que não segue”). Categoria de sugestão indireta que
segue a fórmula: solicitação direta + alternativa subentendida
= duplo vínculo non sequitur. Uma parte da sugestão tende a

indiretamente encerrar a resposta desejada, enquanto outra


parte requer a resposta desejada mais diretamente. Ex.: Você
será capaz de entrar em transe enquanto nós falamos ou de al
terar sua consciência e experiência.
ECONOMIA, LEI DA: V. Morgan, Regra de.
EFEITO BRAID: V. Braidismo.
EFEITO DOMINANTE, LEI DO: V. Princípios Psicológicos.
EFEITO REVERSO, LEI DO: V. Princípios Psicológicos.
ELICIAÇÃO: É o ato de fazer sair, de expulsar, de evocar, de tra
zer à lembrança, à imaginação; evocação. A eliciação é o tercei
ro passo do processo de indução hipnótica naturalista, e envol
ve: ter acesso à responsividade aumentada do cliente, que fica
cooperativo, capaz de responder a pistas mínimas, e à mobili
zação de seus recursos, que já é diretamente ligada aos objeti
vos terapêuticos.
EMBRULHANDO O PRESENTE: V. Embrulhar para presente.
EMBRULHANDO PARA PRESENTE: V. Embrulhar para presen
te.
EMBRULHAR PARA PRESENTE (GIFTWRAPPING): Processo
utilizado na hipnose naturalista, desenvolvido por Jeffrey Ken
neth Zeig a partir da idéia inicial de Milton Hyiand Erickson, e
que consiste em preparar, para cada cliente, a partir de suas
características pessoais (V. Categorias de Avaliação), um mo
delo próprio de indução. Segue três estágios: Organização ou
Preparação (Set-up), Intervenção (Intervene) e Acompanhamen
to ou Seguimento (Follow through).
EMBRULHO PARA PRESENTE:V. Embrulhar para presente.
EM HQMEQSTASE: V. Homeostase.
EM ESTRESSE: V. Categorias.
EM STRESS: V. Em Estresse.
ENTREMEAR: O mesmo que intercalar. Tem o sentido da utiliza
ção dos recursos apreendidos cio cliente, através do diagnósti
co das categorias ~Assessment), e ainda seguindo o padrão ges
296 Sofia M. F. Bauer

táltico figura e fundo, para se fazer uma intercalação dos valo


res diagnosticados.
ESCRITA AUTOMÁTICA: Fenômeno hipnótico de dissociação,
em que o cliente escreve sem ter consciência de que o faz e do
que escreve.
ESTÁGIOS DO ESTADO HIPNOTICO: Segundo a classificação
de Charcot: letargia ou sonolência, catalepsia ou rigidez e so
nambulismo ou dissociação da personalidade.
ESTADO DE TRANSE: V. Transe.
ESTADO HIPNOIDAL: De acordo com os critérios de André M.
Weitzenhoffer, estado anterior à hipnose leve, e que consiste
em: sensação de peso nas extremidades, sonolência, aumento
do limiar de dor e redução da tensão muscular, e é o estado em
que se pode induzir uma terapia psicobiológica (reforço, per
suasão, reeducação, confissão e ventilação) ou a uma hipnoa
nálise (associação livre, fantasias induzidas). Para Hershman, é
o mesmo que Transe Leve.
ESTADO HIPNÓTICO: O próprio transe, em suas diversas mo
dalidades. V. Transe.
ESTRUTURA FAMILIAR: V. Categorias.
EXTERNO: V. Categorias.
EXTRACEPTIVO: Que recebe estímulos externos. Contrário a
Proprioceptivo.
EXTRAPUNITIVO: V. Categorias.
FASCICULAÇÃO: Contração de musculatura estriada esqueléti
ca, localizada e pouco intensa, visível através da pele íntegra.
Verifica-se na Constelação Hipnótica.
FAZER SOB MEDIDA: V. Tai.loring.
FENÔMENO DO TRANSE: Todo o universo que reveste o tran
se: regressão de idade, progressão de idade, amnésia, analge
sia, anestesia, respostas ideoclinâmicas (ideoafetiva, ideomoto
ra e ideossensória), catalepsia, dissociação, alucinações positi
va e negativa e distorção do tempo.
FENÔMENO HIPNÓTICO: V. Hipnotismo.
FENÔMENO MAGNÉTICO: Diz-se do estado de transe conse
guido a partir da crença num magnetismo animal ou mineral.
Mesmnerismo.
FIGURA /FUNDO: Termo usado em Gestalt para representar os
problemas que são trabalhados em primeira instância (Figura),
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 297

por se apresentarem de forma mais evidente, e dar passagem


àqueles que estão mais ocultos (Fundo), e que normalmente
representam o centre do problema em si. Em inglês se diz Fore
ground/Background.
FILHO DO MEIO: V. Categorias.
FILHO MAIS NOVO: V. Categorias.
FILHO MAIS VELHO: V. Categorias.
FILHO ÚNICO: V. Categorias.
FLEXÍVEL: V. Categorias.
FOCALIZADO: V. Categorias.
FOLLOW THROUGH: Termo em inglês para Acompanhar, Se
guir.
FOREGROUND: Termo em inglês para figura, da Figura/Fundo
(Ver) descrito na Gestalt.
FOREGROUND/BACKGROUND: V. Figura /Fundo.
FRACIONAMENTO DE VOGT: Série de pequenos transes utili
zados com o intuito de aprofundar o transe em si.
GANCHO (HOOK): É o que valoriza e que posição toma o pa
ciente, o casal ou o sistema, observando o que se vê e princi
palmente o que não se vê (pensamentos, sentimentos, condu
tas). É o padrão ao qual o cliente é amarrado, em que se apoia.
GIBBERISCI-I: Termo em ingles que se traduziria por linguagem
inarticulada”, e que representa uma forma ininteligível de se
comunicar através de sons guturais, monossilábicos, estra
nhos, componente de uma técnica utilizada em teatro, na Ges
talt e, por conseguinte, na Hipnoterapia, como recurso para o
desenvolvimento da comunicação no cliente e mesmo no tera
peuta.
GIFTWRAPPING: V. Embrulhar para Presente.
HIPERAMNÉSIA: Aumento da capacidade de lembrar. O indiví
duo hipnotizado pode dirigir sua atenção, utilizá-la e tirar
vantagem de todas as associações que estão gravadas na sua
mente, para ajudá-lo a selecionar memórias passadas específi
c as.
HIPERSUGESTÃO: Sugestão especifica com enfoque direto à
mente consciente (MCS).
HIPERSUGESTTBILIDADE: Para Huil, é a característica principal
da hipnose. É uma forma enfocada de dar uma sugestão espe
cífica à mente consciente (MCS). Refere-se à sugestibilidade
298 SofiaM.F.Bauer

acima do normal ou acima de uma linha básica individual


(Weitzenhoffer).
HIPERVENTILAÇÃO: Técnica bastante difundida pela bioener
gética, e que consiste em um exercício respiratório (respiração
“cachorrinho”), com o intuito de se levar a uma alteração bio
química do cérebro (maior oxigenação), quebrando as defesas
do cliente, o que corresponde a uma indução ao transe, com
riscos fisiológicos para o paciente. Deve ser, portanto, evitada.
HIPNOANÁLISE: Técnica desenvolvida por Ernest Simmel, psi
canalista alemão, e já proposta por Freud em 1918, que consis
te na utilização da hipnose aliada à Psicanálise. Foi amplamen
te usada no tratamento das neuroses de guerra decorrentes da
Primeira Guerra Mundial.
HIPNOANESTESIA: Técnica de utilização da hipnose, com o ob
jetivo de se submeter o paciente à anestesia, sem o uso de qual
quer componente anestésico químico. Mais usada pelos médi
cos e dentistas.
I-IIPNOIDAL: Relativo ao sono ou à hipnose. V. Transe Hipnoi
dai.
HIPNOLOGIA: Tratado acerca do sono e seus efeitos, e dos fenô
menos hipnóticos.
HIPNOSE: “Estado mental semelhante ao sono, provocado artifi
cialmente, e no qual o indivíduo continua capaz de obedecer
às sugestões feitas pelo hipnotizador” (Aurélio); “Suscetibilida
de ampliada para a sugestão, tendo como efeito uma alteração
das capacidades sensoriais e motoras para iniciar um compor
tamento apropriado” (Milton Erickson); “Um estado que lem
bra o sono normal mas difere deste por ser induzido pelas su
gestões e operações do hipnotizador, com quem o sujeito hip
notizado permanece em rapport e responsívo às suas sugestões
que podem induzir à anestesia, cegueira, alucinações e parali
sias, enquanto as sugestões de valor criativo podem também
ser aceitas” (Webster’s); “Um pressuposto estado psicofisiológi
co caracterizado por hipersugestibilidad.e, i.e~, sugestibilidade
aumentada, e/ou um ou mais outros sinais clínicos bastante
aceitos” (Weítzenhoffer). Alguns autores a consideram um es
tado alterado de consciência.
HIPNOSE AUTORITÁRIA: Aquela cuja indução é feita por su
gestão direta; hipnose clássica.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 299

HIPNOSE CLÁSSICA: Também chamada de Hipnose Conven


cional ou transe clássico, é o nome com que se batiza a hipnose
baseada em induções feitas através de sugestões diretas, no
que se diferencia da hipnose naturalista ericksoniana.
HIPNOSE CONVENCIONAL: V. Hipnose Clássica.
HIPNOSE DE PALCO: Método usado pelos hipnotistas de palco,
em que se cria a ilusão de possuir poderes mágicos e misterio
sos sobre as pessoas.
HIPNOSE DIRETA: V. Sugestão Direta.
HIPNOSE DIRETA AUTORITÁRIA: V. Técnica Autoritária Dire
ta.
HIPNOSE ERICKSONIANA: V. Hipnose Naturalista.
HIPNOSE INDIRETA: Técnica em que se faz a indução em uma
terceira pessoa usando a segunda como ponte de comunicação.
Ex.: Quando se induz o transe em um amigo do paciente que
porventura o tenha acompanhado ao consultório, tomando-o
(ao amigo) como colaborador na experiência de indução ao
transe do paciente, e fazendo comandos indiretos a este amigo.
V. Sugestão Indireta.
HIPNOSE LEVE: É o terceiro estado do transe hipnótico, na clas
sificação de Weitzenhoffer, e que corresponde a: fechamento
dos olhos; relaxamento muscular geral; catalepsia das pálpe
bras (paralisia); catalepsia dos membros (rigidez cérea); indu
ção do membro rígido; paralisia induzida; automatismos indu
zidos; terapia psicobiológica (condução); analgesia leve (cefa
léias tensionais, trabalho de parto e alguns partos, trabalhos
dentários simples).
HIPNOSE MÉDIA: Quarto estado do transe, segundo Weitze
ahoffer, caracterizado por: amnésia pós-hipnótica parcial suge
rida; alterações sugeridas de vários sentidos cutâneos; aneste
sia de luva; analgesia parcial pós-hipnótica; automatismo ge
neralizado; alterações superficiais de personalidade sugeridas;
hipnoanálise (indução de sonhos, representação de papéis); fa
cilitação de terapias físicas; analgesia para partos, trabalhos
dentários e pequenas cirurgias; sugestões pós-hipnóticas sim
ples.
HIPNOSE MÉDIA: Aquela em que o paciente simula o transe
hipnótico.
300 Sofia M. F. Bauer

HIPNOSE NATURALISTA: Método criado por Milton Hyland


Erickson (1901-1980), psiquiatra norte-americano, e que consis
te em aprender junto ao cliente sobre a melhor forma de induzj
lo ao transe hipnótico, através de urna avaliação (Assessment)
do cliente, o estabelecimento de uma meta, a utilização (Tailo
ring) e o processo terapêutico traçado a partir desses dados
que formam o Diamante de Erickson. Faz uso de induções in
diretas, metáforas, anedotas, analogias e muitos outros recur
sos, para se chegar a um resultado terapêutico mais preciso.
HIPNOSE NATURALISTA ERICKSONIANA: V. Hipnose Natu
ralista.
HIPNOSE PROFUNDA: Segundo a classificação de Weitzeriliof
fer para os estados de transe, esse é o quinto estágio, caracteri
zado por: amnésias pós-hipnóticas extensas sugeridas; aneste
sia geral; efeitos emocionais induzidos; profundas alterações
de personalidade sugeridas; alucinações; alteração da noção de
tempo; regressão e progressão de idade; hipnoanálise (escrita
automática, pintura, modelagem); terapias biológicas (certas
dessensibilidades); remoção de sintomas; uso quase geral de
sugestões como adjunto de intervenções médicas e anestesia
para cirurgias maiores.
HIPNOSOMATOTERAPIA: Uso do hipnotismo como agente
principal no tratamento de problemas somáticos.
HIPNOTERAPIA: Terapia na qual o uso do hipnotismo constitui
o núcleo do tratamento.
HIPNOTISMO: Termo criado por James Braid (1795-1860), cirur
gião inglês, em 1843. É uma forma abreviada de neurohipno
tismo, ou seja, sono nervoso, para batizar o transe hipnótico,
por achar que o estado hipnótico se parecia com o sono. Criou
a técnica de indução por fixação visual, batizada de braidismo
ou efeito Braid. Segundo o Aurélio, é o “conjunto de processos
físicos ou psíquicos utilizados para produzir a hipnose”. É
também a ciência que trata dos fenômenos hipnóticos. Para
Weitzenhoffer, é ‘d’o estudo da sugestão com ou sem a presença
da hipnose”. Para Bernheim, é “a indução de urna condição
psíquica particular, na qual aumenta a suscetibilidade à suges
tão”.
HIPNOTIZAEILIDADE: O aprofundamento da hipnose alcança
do em um dado momento por um indivíduo presumivelmente
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 301

hipnotizado. Não confundir com sugestibilidade hipnótica. É


sinônimo de sensibilidade hipnótica ou suscetibilidade hipnó
tica.
HOMEOPÁTICO, PRINCfrIO: V. Sinergismo
HOMEOSTASE ou EM HOMEOSTASE: V. Categorias.
HOOK: V. Gancho.
ILUSÃO DA ESCOLHA: Termo com que Lawrence Kubie, coau
tor, com Erickson, de artigos sobre hipnose,. chama à Ilusão
das Alternativas..
ILUSÃO DAS ALTERNATIVAS: Uma das categorias das pressu
posições verbais, que consiste em oferecer duas ou mais esco
lhas ao paciente, ambas, porém, conduzirão ao resultado dese
jado.
IMPLICAÇÃO: Variedade de sugestão indireta que inclui o uso
da pressuposição de urna forma característica, especialmente
as pressuposições simples sobre tempo e número (antes, quan
do, como, depois, algum, uma certa quantidade, etc.). Ex. : An
tes de você me informar porque veio até aqui, eu gostaria que
você tirasse um momento para se sentir confortável e relaxado,
INCONSCIENTE: Diz-se das atividades e processos psíquicos do
indivíduo, e dos quais este não tem consciência. Podemos afir
mar que é a soma de todas as experiências do indivíduo, em
todos os níveis, e que tem uma linguagem própria.
INDUÇÃO: É o meio que se utiliza para levar alguém ao transe,
que tanto pode ser direto como indireto.
INDUÇÃO DO TRANSE NATURALISTA: Método criado e de
senvolvido por Erickson, que consiste em: utilizar a realidade
do cliente, acessãr questões que absorvem e dirigem a atenção,
fazer uso do eu como modelo, perceber e ampliar respostas,
criar uma cadeia verbal, usar pressuposições e sugestões inter~
pessoais, trocar estilo de despachar, orientar para experiências
internas, enquadrar respostas e eliciar e guiar associações.
INDUÇÃO DIRETA: É aquela que segue os moldes da Hipnose
Clássica.
INDUÇÃO INDIRETA: Método criado por Erickson, que consis
te em utilizar os recursos do cliente e criar uma forma não-di
retiva de induzi-lo ao transe.
INFERIOR: V. One Down.
302 Sofia M. F, Bauer

INJUNÇÃO SIMBÓLICA: Mensagem implícita em que se usam


provérbios e expressões idiomáticas para absorver a mente
consciente (MCS) e induzir o transe.
INTERCALAR: V. Entremear.
INTERNO: V. Categorias.
INTERVENÇÃO: V. Intervir.
INTERVENE: Termo em inglês para Intervir.
INTERVIR: Intervene, em inglês. É o segundo estágio do “Embru
lhando para Presente” de Zeig, que corresponde a: sugestão
indireta, hipnose, sugestão direta, tarefas diretivas, proposição
de tarefas ambíguas, prescrição de sintomas, ressignifica
ção/conotação positiva, propor, deslocar, exercitar as fanta
sias, orientar para o futuro, mudar a história, confusão, metá
foras, ~símbolos, anedotas, comunicação paralela, técnica de
salpicamento;
INTRAPUNITIVO: V. Categorias.
LEADING: Termo em inglês que significa “direção”, e que impli
ca a forma com que se utiliza de uma nova direção a ser dada,
após se verificarem alguns passos do cliente, ressignificando
lhe a meta.
LEI DA ATENÇÃO CONCENTRADA: V. Princípios Psicológi
cos.
LEI DA ECONOMIA: V. Morgan~ Regra de.
LEI DO EFEITO DOMINANTE: V. Princípios Psicológicos.
LEI DO EFEITO REVERSO: V. Princípios Psicológicos.
LETARGIA: Estado de sono profundo observado em indivíduos
em transe, e que é um dos três estágios do estado hipnótico
(q.v.), na classificação de Charcot. É também chamado de so
nolência.
LINEAR: V. Categorias.
LITERALISMO: Comportamento observado no indivíduo hipno
tizado, em que se vê uma resposta literal ao comando hipnóti
co, tanto no que concerne a perguntas como a solicitações de
movimento físico do paciente. Assim, se lhe é perguntado se
sabe dizer o seu nome, ele poder~ responder apenas que sim.
Este fenômeno é muito observado em crianças e é também co
nhecido como pensamento literal. É uma forma econômica de
funcionamento do inconsciente.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 303

MAGNETISMO: Nome com que se conhece o transe provocado


por um magneto ou imã, ou qualquer utensílio que represente
poder de indução. Paracelso utilizava talismãs planetários e
zodiacais. Mesmer usou um magneto e criou um box para ex
trair as doenças. À crença no poder de um símbolo externo que
provocasse uma reação interna é que se chamou magnetismo.
É também sinônimo de mesmerismo.
MAGNETISMO ANIMAL: O método criado por Mesmer (1734-
1815), em que se aplicava um imã (magneto) sobre o doente, e
este produzia redistribuição de algum tipo de fluido, provo
cando a cura.
MAGNETISMO MINERAL: Segundo a crença de Maximilian
HelI, sacerdote jesuíta, astrônomo real em Viena, que traba
lhou com Mesmer, o imã utilizado nas curas era o único res
ponsável por tais feitos. A esta supervalorização das proprie
dades físicas terapêuticas do magnetismo é que se chamou
magnetismo mineral.
MCS: Abreviatura para Mente Consciente.
MENTE CONSCIENTE: O consciente. No método naturalista
ericksoriiano, faz-se uso da diferenciação entre mente cons
ciente (MCS) e mente inconsciente (MIC), como recurso de in
dução.
MENTE INCONSCIENTE: O inconsciente.
MESMERISMO: V. Magnetismo.
META FORA: Termo proposto pelo professor Malomar Lund
Edelweiss (Santa Cruz do Sul, RS, 11.1.1917) para designar a
Metáfora que é empregada de forma inadequada, sem respei
tar a realidade do cliente. Ex.: Contar estórias de mergulho
submarino para quem tem medo de água.
METÁFORA: Toda estória ou analogia cujo significado pode eh
ciar e guiar associações internas do cliente. É uma forma de se
representar o problema do cliente, sem afrontá-lo, colocando-o
em situação delicada. Foi uma grande contribuição de Erick
son para o processo terapêutico breve sob transe hipnótico. In
clui analogias, mitos, fábulas, parábolas, alegorias e casos.
METÁFORA ESPACIAL: Aquela que utiliza termos espaciais
para dar sentido à experiência e entendê-la, em face de um lu
gar específico onde ocorre o transe. Ex.: Pensamentos profun
dos; o recôndito de nossas mentes, etc.
304 Sofia M. P. Bauer

METALINGUAGEM: “A linguagem utilizada para descrever ou


tra linguagem ou qualquer sistema de significação: todo dis
curso acerca de uma língua, como as definições dos dicioná
rios, as regras gramaticais, etc.” (Aurélio).
METAMENSAGEM: Mensagem embutida sutilmente dentro do
conteúdo da sugestão indireta (metáfora, analogia, etc.)
METAMODELO: O Diamante de Erickson.
MÉTODO NATURALISTA: O método de indução criado por
Milton Hyland Erickson. V. Indução do Transe Naturalista.
MÉTODO “SANDUÍCHE”: Método criado por Zeig, que consiste
em Set-up ou Organização, Intervenção e Acompanhamento
(ver), usado no “Embrulhando para presente”. V. Padrão San
duíche.
MIC: Abreviatura para Mente Inconsciente.
MONOIDEÍSMO: Nome proposto por Braid para substituir o ter
mo hipnose, também por ele criado, por melhor descrever o
estado hipnótico, mas que não vingou, apesar de se verificar
que o termo hipnose está tecnicamente errado. Monoideísmo
significa, literalmente, “concentração sobre uma idéia”.
MORGAN, REGRA DE: Regra que consiste em que “todos os fe
nômenos devem ser explicados nas bases mais simples”.
É o mesmo que Lei da Economia.
MOSAICO: V. Categorias.
NARCOANÁLISE: Processo de investigação psicanalítica que
consiste em injetar no organismo do paciente um narcótico eu
forizante (soro da verdade), que provoca a supressão do con
trole, permitindo-lhe a evocação do passado, de experiências,
conflitos, tendências, etc.
NARCOSSÍNTESE: Forma de psicoterapia que utiliza elementos
coligidos pela narcoanálise, e que se efetua quer no estado de
seminarcose, qúer no estado de vigília. Haclfield e Flarsley, em
1938, e mais tarde, Grinker e Spiegel, durante a Segunda Guer
ra Mundial, usaram barbitúricos para induzir um estado de
hipnose medicamentosa ou narcossíntese, com o objetivo de
trazer à tona o material traumático.
NEURO-HIPNOTISMO: V. Hipnotismo.
NISTAGMO: Movimento rápido e involuntário do globo ocular,
que pode sër em um só sentido (horizontal, vertical, rotatório),
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 305

ou em dois. A palavra vem do grego nystagmós, que significa


cochilo. V. REM
NO-SET: Literalmente traduzido por Conjunto-Não ou Conjunto
de Nãos, é uma seqüência de negativas para formar uma su
gestão. Usado em clientes ansiosos ou mais resistentes.
OBJETIVOS NA TERAPIA ERICKSONIANA: Genéricos: os Dois
Rs (2 Rs) — responsividade e recursos; Da indução: modificar
a atenção, aumentar a intensidade e promover a dissociação; e
Da terapia: Os Três Ms (3 Ms) motivar, metaforizar e mover.
-

ONE DOWN: V. Categorias.


ONE UP: V. Categorias.
OPOSIÇÃO CONSCIENTE/DUPLOS VÍNCULOS INCONSCIEN
TES: Categoria de sugestão indireta que é usada apenas com
clientes que estão oferecendo um desafio ouse conduzindo de
modo a estar sempre em oposição. Ex~.: É muito importante
que você não aprenda nada com estranhos, e certamente você
não precisa se sentar enquanto está aqui. Insisto em que você
escute cuidadosamente minhas palavras para não relaxar e
permitir à sua mente se desviar enquanto eu falo.
ORGANIZAÇÃO: V. Organizar.
ORGANIZAR: V. Set-up,
PACING: V. Passo a passo.
PADRÃO INTERACIONAL: Dentro da PNL, corresponde à Sin
cronização com resposta livre (ver).
PADRÃO “SANDUÍCHE” : Afirmações dissociativas que se
guem o esquema de: 1 Afirmação consciente (o pão); 2 Meta
- -

(o recheio) e 3 Motivação (a outra parte do pão). V. Método


-

“Sanduíche”.
PASSO A PASSO: É o ato de comunicar ao sujeito hipnotizado
sobre• seu comportamento atual e anterior, como. um recurso
defeedback.
PENSAMENTO LITERAL: V. Literalismo.
PERMISSIVTDADE: É o primeiro elemento da indução, que con
siste em permitir que o cliente faça o que tem vontade. É o pri
meiro passo para induzir as pessoas ao transe.
PNL: V. Programação Neurolingüística.
POSIÇÃO DO TERAPEUTA: Cada terapeuta tem um tipo de
“lente” (percepção), “coração” (emoção), “músculo” (padrões
306 Sofia M. F. Bauer

de ação) e “chapéu” (papel social), que faz o seu estilo pessoal


de trabalhar com a hipnose ericksoniana.
PREPARAÇÃO: V. Preparar.
PREPARAR: V. Set-up.
PRESSUPOSIÇÃO: Padrão que segue o princípio em que se su
põe algo como sugestão ao cliente. São quatro os modelos mais
usados: 1 Palavras de consciência (saber, se dar conta, notar,
-

estar consciente); 2 Palavras temporais (antes, depois, duran


-

te, desde que, enquanto, quando, começo, fim, pare, continue,


já, ainda, não mais); 3 Adjetivos e advérbios; e 4 Ou (Ex.:
- -

Você pode entrar em transe agora ou mais tarde). É um padrão


de linguagem, uma forma neurolingüística de condizer a ab
sorção e já uma forma de terapia em si.
PRINCÍPIO-ANTENA: Termo proposto por Sofia Bauer (Itajaí,
SC, 6/3/1960) para descrever o aspecto de sintonia diretiva de
que se faz uso na Utilização, levando o cliente a falar sobre de
terminado assunto ou aspecto quando o hipnoterapeuta, pro
positalmente, toca em assunto do interesse do cliente. Ex.: Se o
terapeuta deseja abordar a temática da relação familiar, fala ao
cliente sobre sua família, levando-o a se “antenar” e falar sobre
esse tema.
PRINCÍPIO HOMEOPÁTICO: V. Sinergismo.
PRINCÍPIO DAS SIMILITUDES: V. Sinergismo.
PRINCÍPIOS PSICOLÓGICOS: Leis que regem os esquemas utili
zados para ajudar os pacientes de forma mais efetiva na suges
tão, e que consiste em três itens básicos: 1 Lei da Atenção
-

Concentrada estabelece que, quando a atenção está esponta


-

neamente concentrada numa idéia, essa idéia tende a realizar-


se. 2 Lei do Efeito Reverso criada por Coué em 1968, diz
- -

que, “quando a vontade e a imaginação entram em conflito, a


imaginaç~o sempre ganha”. 3 Lei do Efeito Dominante “An -

corar uma emoção a uma sugestão torna a sugestão mais efeti


va.” Uma emoção mais forte tende a reprimir ou eliminar uma
outra mais fraca.
PROCESSAMENTO: Set-mtp, intervenção e Acompanhamento. V.
Método Sanduíche e Padrão Sanduíche.
F2~OGRAMAÇÃO NEUROLINGIiISTICA: Um método criado
por John Grinder e Richard Bandiler, que inclui o hipnotismo,
Hipnoterapia Ericksonjana Passo a Passo 307

com a finalidade de inïluenciar o indivíduo através de formas


(padrões) de comunicação. Sua forma abreviada é PNL.
PROGRESSAO DE IDADE: Técnica em que se projeta o paciente
no futuro, de acordo com suas próprias motivações e desejos.
PROGRESSÃO DE IDADE, ESTRATÉGIAS PARA: 1- Fazer a in
dução; 2 Construir um conjunto de respostas; 3 Criar metáfo
-

ras que se dirigem ao futuro; 4 Identificar recursos positivos;


-

5 Identificar contextos futuros específicos; 6 Embutir os re


- -

cursos positivos; 7- Pesquisar o comportamento que se seguirá;


8 Fazer sugestões pós-hipnóticas; 9 Desvincular; e 10 Reo
- - -

rientar para o estado de alerta.


PROGRESSÃO DE JDADE, SUGESTÕES INDIRETAS PARA:
Abordagens metafóricas, comandos embutidos, pressuposi
ções, questões indiretas embutidas.
PROPRIOCEPTIVO:~ Termo criado pelo fisiologista inglês Sir
Charles 5. Shenington (1857-1952), e que diz respeito à capaci
dade de receber estímulos originados no interior do próprio
corpo.
PSEUDO-QRIENTAÇÃO NO FUTURO: V. Progressão de Idade.
QUESTÕES OU DECLARAÇÕES QUE FOCALIZAM E REFOR
ÇAM A CONSCIÊNCIA: Nome com que se conhece uma das
variedades de sugestão indireta, cujo título já é autodefinivel.
Ex “Eu ficaria admirado se você pudesse começar a relaxar
assim que ouvisse as minhas palavras ; ou, Voce ja esteve em
transe antes?”
RADIANTE: V. Categorias.
RAPPORT: Termo francês inicialmente utilizado na Psicanálise, e
que diz respeito à interação do paciente (cliente) com o tera
peuta. Um bom rclpport é essencial à indução do transe, e deve
ser permanentemente reforçado durante o processo. O termo
rapport se traduz, literalmente, por “narração, informação, de
claração, relatório;, acordo, harmonia; relações amorosas.”
RATIFICAÇÃO: É a retroalimentação ~feedback) que se dá ao
cliente para ele saber que está indo bem, que está conseguido a
resposta fenomenológica pretendida. Consiste em repetir, para
a pessoa, as mudanças que estão ocorrendo na Absorção.
RECALCAMENTO ou RECALQUE: É uma forma de operação
que procura manter inconscientes algumas representações
(pensamentos, imagens, recordações) que estão ligadas a uma
308 Sofia M. F. Bcjuer

pulsão. Para Freud, tem uma conotação de defesa. O recalca


mento ocorreria nos casos em que a satisfação de uma pulsão
ameaçaria provocar desprazer. A hipnose pode trazer coisas
esquecidas ou reprimidas à tona, através de visualízações, alu
cinações auditivas ou táteis, bem como outros recursos ade
quados para este fim.
RECURSOS INTERNOS DO CLIENTE: O conjunto de habilida
des, comportamentos, manias, hábitos, e tudo o que se refere
ao histórico vital do cliente, e que compõe um dos 2 Rs dos ob
jetivos da Terapia Ericksoniana,
REDUTOR: V. Categorias.
REFLEXOLOGIA CONDICIONADA: V. Hipnose.
REFRAMING: V. Ressignificação.
REGIÃO: V. Categorias.
REGRESSÃO A VIDAS PASSADAS: Método bastante questiona
do nos meios científicos, que consiste numa regressão de idade
ou revivificação a um tempo anterior ao da experiência em
brionária do cliente, em que este se identifica como sendo ou
tra pessoa, em época distinta desta. Cada vez mais se estuda
tal fenômeno com mais critério, sabendo-se que, inde
pendentemente da constatação da veracidade dos dados obti
dos na experiência, o resultado terapêutico de tais experiências
tem se mostrado inquestionável.
REGRESSÃO DE IDADE: É o processo psicológico pelo qual se
desenvolve uma amnésia para as cojsas presentes, para as coi
sas relativamente recentes, uma amnésia total, geral, absoluta
mente compreendida, e o cliente regride no curso da vida, até
que certo nível de jdade seja atingido. Um paciente regredido
com sucesso para a idade de 6 anos vai agir e falar como uma
criança de 6 anos.
REGRESSÃO DE IDADE, ESTRATÉGIAS PARA: Regressão dire
ta a uma situação específica do passado, técnicas especiais de
imaginação ou veículos especiais, sugestões indiretas associa
das, abordagens metafóricas, regressão gradual, desorientação
temporal, progressão e regressão de idade.
REM: Abreviatura em inglês para Rapid Eye Movement, “movi
mento rápido do olho”. Movimentos rápidos dos globos ocula
res que se verificam durante a ocorrência de sonhos na pessoa
adormecida ou em estado de transe. V. Nistagmo.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 309

REORIENTAÇÃO: Técnica pela qual o indivíduo, sob transe,


reorienta-se em relação ao seu corpo, de modo a aceitar de for
ma mais tranqüila alguma deformidade, ou reconhecer algum
aspecto físico até então negado, negligenciado ou reprimido.
Mecanismo de defesa mediante o qual os sentimentos, as lem
branças dolorosas ou os impulsos desacordes com o meio so
cial são mantidos fora do campo da consciência.
RESPONSIVIDADE: Primeiro item observado por Erickson nos
seus 2 Rs, e que diz respeito à forma positiva com que o cliente
responde à indução. V. dois Rs.
RESSIGNIFICAÇÃO: É o ato de mudar o significado de como
algo é percebido. Ex.: Experiências traumáticas são convertidas
em experiências de aprendizado. Em inglês, Reframing.
RETRATOR: V. Autoprotetor.
REVIVIFICAÇÃO: É o reviver de experiências passadas, capaci
tando a pessoa a vê-las, entendê-las e senti-las, enquanto ainda
as reconhece como experiências passadas. Na regressão, a pes
soa vive seus conhecimentos e sentimentos presentes naquele
momento; em revivificação, ela reconhece sua resposta como
uma forte lembrança.
RIGIDEZ: V. Catalepsia.
RÍGIDO: V. Categorias.
RURAL: V. Categorias.
SACÁDICO: Diz-se do movimento de lateralidade ocular, obser
vado na Constelação Hipnótica.
SEGUIMENTO: V. Acompanhamento.
SEGUIR: V. Acompanhar.
SEMEADURA: Tipo de comando embutido em que se semeia
uma idéia (sugestão pré-hipnótica) para se aproveitar mais
adiante, no estado de transe.
SENSIBILIDADE HIPNÓTICA: V. Hipnotizabilid~de.
SENSORIAL: V. Categorias.
SET-UP: (eqüivale a Organizar, Preparar). É o nome do primeiro
estágio do “Embrulhando para presente” de Zeig, na instala
ção da indução, incluindo semeadura, sugestões pré-hipnóti
cas e eliciando motivação. Segue o seguinte esquema: diagnós
tico terapêutico, pcicing, estabelecimento de rapport, estabeleci
mento de uma significação positiva (parabenizar a pessoa, mo
tivar, amarrar em uma conotação, criar expectativas), utilizar a
310 Sofia M. F. Bauer

confusão para romper com sets habituais, semear objetivos ou


metas, intervir significativamente, promover mudanças por es
tratégias mínimas passo a passo, criar um drama, acessar res
postas cooperativas a estímulos mínimos (usar hipnose, identi
ficar e utilizar recursos), lidar com as resistências, estabelecer
um símbolo para o problema e criar estórias empáticas.
SIFt: Sigla em inglês para Set-up, Intervene e Follow through, os três
estágios do Giftwrapping.
SIMÉTRICO: V. Categorias.
SIMILITUDE: V. Sinergismo.
SIMILITUDES, PRINCÍPIO DAS: V. Sinergismo.
SINCRONIZAÇÃO: É o ato de se colocar em sintonia com o com
portamento verbal e corporal do cliente. Bandier e Crinder,
criadores da PNL, estabelecem dois pontos distintos de com
portamento de sincronização: a resposta de espelho, que ocorre
quando um indivíduo assume a mesma postura de óutro ou
respira no mesmo ritmo do outro, comparável à mímica, e a
resposta livre, quando o comportamento de um varia segundo o
comportamento do outro, sem haver aspecto imitativo.
SINCRONIZAÇÃO DESCRITIVA: É contar ao cliente, a partir de
seu ponto de vista, o que o terapeuta pode ver e ouvir, sem in
vadir seu espaço e percepção pessoal. Ex,: “Você está respiran
do” em vez de “Você está respirando de modo confortável”.
SINERGISMO: Princípio utilizado por Erickson, em que se utili
zava do mesmo sintoma apresentado pelo cliente, aumentan
do-o, acentuando-o ou evidenciando-o, a fim de levar o cliente
ao estado de transe. Baseia-se no Similia similibus curantur da
homeopatia, ou seja, “Cura-se o similar pelo semeffiante”. Ex.:
O cliente que não consegue relaxar, em virtude da dor no pé, é
levado a evidenciar essa dor e intensificá-la, até que aconteça o
relaxamento, imperceptivelmente. É também conhecido por
Princípio Homeopático ou das Similitudes.
SOFROLOGIA: Estudo da consciência humana, seus fenômenos
e fatores físicos, químicos, biológicos e psíquicos, para aplica
ção na. medicina e campos afins. Engloba em seu campo de es
tudos, através de uma formulação científica moderna, técnicas
e modelos ocidentais, associados aos que se inspiram nos tra
dicionai.s do oriente, como a ioga, o zen japonês e outros. Os
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 311

métodos da sofrologia incluem o relaxamento dinâ~j~0 o treinamento


sofrológico coletivo)etc.
SOFRONIZAÇAO: O mesmo que aliança sofrônica. Modalidade especi
al darelação entre o médico e o enfermo e, por extensão, entre o terapeuta
e o cliente. Relação empática, transferência positiva.
SONAMBULISMO: Tipo de hipnose no qual o sujeito entra numéstágio
muito profundo e dá ao observador a impressão de estar acordado. Tem
sido considerado como uma das diversas formas em que se manifesta a
hipnose. Éo terceiro estágio do estado hipnótico, na classificação de
Charcot, sinônimo de dissociação da personalidade. Éo tronco piinci
pai da hipnose. V Transe Sonambúlico.
SONAMBULISMO ARTIFICIAL: Termo proposto pelo marquês de
Puységurpara o estado de transe induzido, anterior à denominação hip
nóse, criada por Braid.
SONAMBULISMO NATURAL: V Sonambulismo.
SONAMBULISMO PROVOCADO: Nome dado por Beaunis ao transe
hipnótico.
SONHO INDUZIDO: Sonho sugerido ao cliente em estado de transe hip
nótico, como recurso terapêutico, Quem descobriu o uso do sonho in
duzido em hipnose foi um médico pouco conhecido, de nome Schoroter,
em 1912, mas foi Paul Sacerdote (1908-10/2/1994), psicanaljsta norte-
americano, quem o divulgou, ao publicar o livro. Induced drearns, em
1967.
SONO: Estado fisiológico normal, periódico, caracterizado pela redução
da atividade, relaxamento do tônus muscular, postura horizontal e sus
pensão do estado consciente. Na hipnose,representa um estado posteri
orao transe pienb, sem ~tiiidades psicoterapêuticas.
SONO ARTIFICIAL: O transe hipnótico, para Braid.
SONO LÚCIDO: Nome dado por Faiia ao transe hipnótico.
SONO PARCIAL: O transe hipnótico; na denominação de Pavlov.
STRESS: V Em Estresse.
SUBCONSCIENTE: O conjunto dos processos e fatos psíquicos que es
tão latentes no indivíduo, mas lhe influenciam a conduta e podem facil
mente aflorar à Consciência. Todas as atividades subconscientes fazem
parte também do inbconsciente, mas o oposto não é verdadeiro.
312 Sofia M. F. Bauer

SUBMISSO: V. One Down.


SUGESTÃO: “A comunicação ou a criação de uma idéia dentro
de um indivíduo, de tal maneira ou de tal natureza que a idéia
se torna diretamente responsável por uma reação que não é
mediada pelas faculdades discriminativas ou pelas funções
executivas do paciente. Por extensão, a idéia, por si mesma, é
também chamada de sugestão” (Weitzenhoffer). A idéia é uma
sugestão que provoca um efeito e associações de outras idéias.
Para Bernheim, o estado de sugéstão é a chave para todos os
fenômenos hipnóticos e mesméricos.
SUGESTÃO DIRETA: É aquela que lida direta e claramente com
o problema. As mensagens do que o hipnotista deseja são cla
ras. Ex.: Para fechar os olhos, o hipnotista sugere diretamente:
“Feche seus olhos!”
SUGESTÃO EM ABERTO: Tipo de sugestão indireta que inclui
sugestões que são vagas e sujeitas a um campo mais vasto de
interpretação, sendo algumas vezes útil para introduzir uma
sugestão mais específica visando a uma resposta especial. Ex.:
Para uma resposta desejada de sentar-se: “Há certas posições
que uma pessoa pode tomar para estar mais confortável.”
SUGESTÃO EMBUTIDA: Aquela em que, através do uso de me
táforas1 anedotas, analogias, se sugere algo indiretamente ao
cliente.
SUGESTÃO INDIRETA: É aquela que está indiretamente relacio
nada ao problema. Pode ser feita de diferentes modos, como:
contar estórias, casos, anedotas e/ou piadas, propor tarefas, fa
zer analogias e sugestões embutidas, etc. Método de utilização
de Milton H. Erickson, em que uma sugestão gera outra suges
tão. Erickson e Rossi fazem uma relação de 11 variedades dife
rentes de sugestão indireta, a saber: sugestão em aberto; impli
cação; questões ou declarações que focalizam e reforçam a
consciência; truísmos; sugestões que abrangem todas as alter
nativas possíveis; aposição de opostos; vínculos de alternativas
comp aráveis; duplo vínculo consciente / inconsciente; dissocia
ção dupla consciente / duplos vínculos inconscientes; oposição
consciente /duplos vínculos inconscientes e duplo vínculo non
secjuitiii~.
SUGESTÃO NEGATIVA: Em que se usam negativas para não
responder de um modo desejado. É um curto-circuito das re
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 313

sistências, em que se ocupa o cliente com a negatividade, en


quanto exige uma resposta positiva indireta. Ex.: Eu gostaria
de sugestioná-lo a não perceber a sensação de sua perna.
SUGESTÃO PÓS-HIPNÓTICA: É aquela que é dada ao cliente
ainda em transe sobre comportamentos e sentimentos que terá
no futuro. É importante no processo terapêutico, para que a
pessoa possa levar as novas possibilidades para a vida futura.
Deve ser dada, de preferência, em transe profundo.
SUGESTÃO POSITIVA: É aquela que dá suporte e encoraja o
cliente a alcançar o que deseja.
SUGESTIBILIDADE: É o grau em que uma pessoa aceita suges
tões prontamente. Para Erickson, era “uma capacidade ou uma
indicação da capacidade de uma pessoa de responder a
idéias”. É uma função do comportamento normal. Unidade
multidimensional de quem sofre sugestão.
SUGESTIBILIDADE PRIMÁRIA: Segundo Eysenck, “uma das di
mensões do comportamento hipnótico”. Termo que Weitze
ahoffer toma emprestado da nomenclatura de Eysenck para
diferenciar o “ser hipnotizado”, caracterizando apenas a capa
cidade de um indivíduo de se sugestionar.
SUGESTÕES QUE ABRANGEM TODAS AS ALTERNATIVAS
POSSÍVEIS: Categoria de sugestão indireta que abre um enor
me leque de possibilidades para o cliente, e em que qualquer
resposta se desenvolve na direção do terapeuta, inclusive o
não-responder. Ex. : Você pode se sentar aí com seus braços
em seu colo ou dobrados, ou suas mãos separadas ou juntas,
com seus pés apoiados no chão ou cruzados, com seus olhos
abertos ou fechados.
SUPERIOR: V. One LTp.
SUPRESSÃO: A tentativa de não pensar em coisas ruins e mantê
las, se possível, completamente for~. do pensamento. A supres
são bem sucedida leva ao esquecimento, à repressão involun
tária e além do controle da pessoa.
SUSCETIBILIDADE HIPNÓTICA: V. Hipnotizabilidade.
TABUS: Em decorrência do mau uso e da má informacão sobre a
hipnose, criaram-se, desde muito tempo, determinados tabus e
conceitos errados, que não correspondem à realidade, a saber:
1 A hipnose é causada pelo hipnotista; 2 Somente alguns ti
- -

pos de pessoas podem ser hipnotizados; 3 As pessoas que en


-
• 314 SofiaM.F.Bauer

tram em transe têm a mente fraca; 4 O hipnotista controla o


-

desejo do paciente; 5 A pessoa hipnotizada pode dizer ou fa


-

zer algo que vai contra seu desejo; 6 Ser hipnotizado pode ser
-

prejudicial ou danoso à saúde; 7 O indivíduo pode se tornar


-

dependente de hipnose; 8 A pessoa pode ficar presa no esta


-

do de transe; 9 A pessoa fica inconsciente em transe ou dor


-

me; 10 A hipnose sempre envolve um ritual monótono de in


-

dução; 11 Deve-se estar relaxado para entrar em transe; 12


- -

Hipnose é terapia; e 13 A hipnose pode ser usada para lhe fa


-

zer lembrar das coisas, ipsis litteris, e outros.


TAILORING: (eqüivale a Costurando). É a estratégia montada
por Zeig, que consiste em: 1 Descrever, de forma completa e
-

detalhada, o problema, o sistema e a solução; 2 Formar uma


-

analogia relacionada à pessoa, ao problema, ao sistema e à so


lução; 3 Descobrir os mecanismos do problema (como a pes
-

soa faz, o que mantém o problema, exemplos paralelos do pro


blema, gatilhos e seqüências, soluções já ensaiadas, situações
nas quais ele piora, como fazê-lo piorar, etc.), ver os valores
(qual a posição/postura que o paciente assume, quais os valo
res primários, pontos de vista, padrões, etc.), procurar trata
mento/soluções (como esta pessoa faria o contrário a esse pro
blema, exceções, exemplos paralelos de soluções, situações nas
quais se é melhor, etc.) e o fator relacional (funções sistêmicas
do problema, papel social, requisitos relacionais etc.). É o Fa
zer sob Medida.
TÁTIL: V. Cenestésico.
TÉCNICA AUTORITÁRIA DIRETA: Qualquer técnica de indu
ção que use sugestão direta de forma inquestionável. Ex.: Ago
ra você vai fechar os olhos.
TRANSE: Estado de consciência diferenciado do normal, em que
se verificam diversas alterações em nível cenestésico, visual,
auditivo, olfativo e/ou do paladar. A hipnose é um transe in
duzido, que segue alguns critérios específicos, a saber:
Para Hershman: Transe Leve ou Hipnoidal; Transe Médio;
Transe Profundo e Transe Pleno ou Estuporoso.
Para Weitzenhoffer: Acordado; Estado Hipnoidal; Hipnose
Leve; Hipnose Média; Hipnose Profunda e Sonambulismo.
TRANSE CLÁSSICO: V. Hipnose Clássica.
TRANSE ESTUPQRQSQ: V. Transe Pleno.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 315

TRANSE FORMAL: V. Transe Clássico.


TRANSE HIPNOIDAL: Para Hershman, o Transe Leve. V. Esta
dos Hipnóticos.
TRANSE HIPNÓTICO: Nome com que se conhece o transe sob
efejto da hipnose. Vários autores deram-lhe nomes diversos, a
saber: sono lúcido (Faria); sonambulismo artificial (Marquês
de Puységur); sonambulismo provocado (Beaunis); sono par
cial ou reflexologia condicionada (Pavlov); sono artificial, hip
nose, hipnotismo, neuro-hípnotismo ou monoideísmo (Braid).
TRANSE LEVE: O primeiro estado do transe, nos critérios de
Hershman, e que se caracteriza por: relaxamento; catalepsia
das pálpebras dos olhos; fechamento dos olhos; começo de ca
talepsia corporal (sem movimentos); respirações mais vagaro
sas e profundas; imobilização dos músculos faciais; sensação
de peso (pesado) em várias partes do corpo; anestesia de luva
e habilidade para sugestões pós-hipnóticas simples. O mesmo
que Transe HipnoidaL
TRANSE MÉDIO: O segundo estado de transe, nos critérios de
Hershman, caracterizado por: amnésia parcial (alguns sujei-.
tos); definido retardamento na atividade muscular; habilidade
em ilusões de sensações; marcada catalepsia dos membros do
corpo e habilidade para sugestões pós-hipnóticas mais difíceis,
TRANSE PLENO: De acordo com os critérios de Hershman, o es
tado hipnótico marcado por respostas orgânicas lentas e quase
completa inibição da atividade espontânea, posterior ao transe
profundo. Também chamado de Transe Estuporoso.
TRANSE PROFUNDO: Terceiro estado de transe, de acordo com
os critérios de Hershman, e que consta de: habilidade para
manter o transe com olhos abertos; amnésia total (na maioria
dos sujeitos); habilidade para controlar algumas funções orgâ
nicas (pulso, pressão arterial etc:); anestesia cirúrgica; regres
são de idade e revivificação; alucinações (positiva e negativa,
visual e auditiva etc.); habilidade de sonhar material magnífico;
habilidade para todas ou para a maioria das sugestões pós-
hipnóticas.
TRANSE SONAMBÚLICO: O mesmo que Sonambulismo, nos
critérios de Weilzenhoffer quanto aos estados da hipnose, ou
do transe hipnótico, caracterizado por: amnésia pós-hipnótica
total e espontânea; habilidade para abrir os olhos em hipnose;
316 Sofia M. F. Bauer

profundas alterações de personalidade sugeridas; todas as su


gestões pós-hipnóticas; terapia psicobiológica (recondiciona
mento); hiprioanálise (fixação de cristais, psicodrama, conflitos
artificiais induzidos, reivindicações); uso geral de sugestões
como adjuvante de tratamentos médicos.
TRÊS MS ou 3 MS: Nome metafórico para: motivar, metaforizar e
mover. Forma com que se define o processo terapêutico erick
soniano: 1 motivar, através de um bom rapport; 2 metafori
- -

zar, usandó sugestões indiretas, que é a linguagem do incons


ciente; e 3 mover, promovendo mudanças no cliente.
-

TRONCO PRINCIPAL DO HIPNOTISMO: O sonambulismo arti


ficial, na classificação de Charcot, que é a fase mais estudada
dos estados hipnóticos, pelo seu valor terapêutico intrínseco.
TRUÍSMO: É a afirmação de evidência, uma verdade incon
testável, usado para: acompanhar o transe; dirigir a atenção;
ratificar o transe; como uma injunção simbólica; para embutir
comandos e para criar um yes-set (conjunto-sim).
Categoria de sugestão indireta. Ex.: Cada pessoa entra em
transe de uma maneira diferente.
UNIINFERIOR: V. One Down.
UNISSUPERIOR: V. Oiw Up.
UNO ABAlO: V. One Down.
UNO ARRIBA: V. One Up.
URBANO: V. Categorias.
UTILIZAÇÃO: Método empregado por Erickson no processo te
rapêutico, em que se utiliza tudo aquilo que o cliente tem, até
mesmo as resistências, e procura conversar na língua que o
cliente fala. A partir desse método, Jeffrey Kenneth Zeig criou
o Tailoring, que é o fazer sob medida a terapia para cada clien
te, e os assessments, que são categorias diagnosticas que facili
~am e encontram a melhor maneira de “embrulhar para pre
sente” a indução do cliente. A base do método ericksoniano da
utilização é a sugestão indireta, sendo mesmo sinônima deste.
É definida por Zeig como “a prontidão do terapeutapara res
ponder estrategicamente a qualquer ou todo aspecto do pa
ciente e do ambiente”. Para William Hudson O”Hanlon, “sigrd~
fica usar o que a pessoa traz consigo para a sessão de hipnose,
permitir que ela aja como quiser e informar que, qualquer que
seja a sua reação, ela sempre é ‘correta”.
Hipnoterapia Ericksoniana Passo a Passo 317

VERDADE INCONTESTÁVEL: V. Truísmo.


VIGÍLIA: Estado de quem está acordado; estado de vigília. Esta
do anterior ao transe induzido.
VÍNCULOS DE ALTERNATIVAS COMPARÁVEIS: Categoria de
sugestões indiretas que consistem em “livre escolha de alterna
tivas comparáveis em um nível primário com a aceitação de
uma das alternativas determinadas num metanível”. Ex.: Você
preferiria que eu começasse falando ou prefere começar falan
do?
VISUAL: V. Categorias.
VISUALIZAÇÃO: Fenômeno observado no estado de transe, em
que o cliente passa a ter alucinações visuais positivas.
YES-SET: O mesmo que Conjunto-sim ou Conjunto de Sins. É
uma seqüência de três ou mais truísmos,. seguida de uma afir
mação-meta. A idéia subjacente ao Yes-Set é a de criar uma
verdadeira inércia de concordância, de tal forma que depois o
cliente passe a concordar automaticamente com a afirmação
meta.