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Existencialismo: O homem está condenado a ser livre

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José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
15/05/2008 12h52

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Existencialismo é um conjunto de doutrinas filosóficas que tiveram como tema central
a análise do homem em sua relação com o mundo, em oposição a filosofias tradicionais
que idealizaram a condição humana.

É também um fenômeno cultural, que teve seu apogeu na França do pós­guerra até meados
da década de 1960, e que envolvia estilo de vida, moda, artes e ativismo político. Como
movimento popular, o existencialismo iria influenciar também a música jovem a partir dos
anos 1970.

Apesar de sua fama de pessimista e lúgubre, o existencialismo, na verdade, é apenas uma
filosofia que não faz concessões: coloca sobre o homem toda a responsabilidade por suas
ações.

O escritor, filósofo e dramaturgo francês Jean­Paul Sartre (1905­1980), maior expoente da
filosofia existencialista, parte do seguinte princípio: a existência precede a essência. Com
isso, quer dizer que o homem primeiro existe no mundo ­ e depois se realiza, se define por
meio de suas ações e pelo que faz com sua vida.

Assim, os existencialistas negam que haja algo como uma natureza humana ­ uma essência
universal que cada indivíduo compartilhasse ­, ou que esta essência fosse um atributo de
Deus. Portanto, para um existencialista, não é justo dizer "sou assim porque é da minha
natureza" ou "ele é assim porque Deus quer".

Ao contrário, se a existência precede a essência, não há nenhuma natureza humana ou
Deus que nos defina como homens. Primeiro existimos, e só depois constituímos a essência
por intermédio de nossas ações no mundo. O existencialismo, desta forma, coloca no
homem a total responsabilidade por aquilo que ele é.

 
Somos os responsáveis por nossa existência

Se o homem primeiro existe e depois se faz por suas ações, ele é um projeto ­ é aquele
que se lança no futuro, nas suas possibilidades de realização. O que isso quer dizer?

Eu não escolho nascer no Brasil ou nos EUA, pobre ou rico, branco ou preto, saudável ou
doente: sou "jogado" no mundo. Existo. Mas o que eu faço de minha vida, o significado que
dou à minha existência, é parte da liberdade da qual não posso me furtar. Posso ser
escritor, poeta ou músico. No entanto, se sou bancário, esta é minha escolha, é parte do
projeto que eliminou todas as outras possibilidades (escritor, poeta, músico) e concretizou
uma única (bancário).

E, além disso, tenho total responsabilidade por aquilo que sou. Para o existencialista, não
há desculpas. Não há Deus ou natureza a quem culpar por nosso fracasso. A liberdade é
incondicional e é isso que Sartre quer dizer quando afirma que estamos condenados a
sermos livres: "Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma
vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer" (em O existencialismo é um
humanismo, 1978, p. 9).

Portanto, para um existencialista, o homem é condenado a se fazer homem, a cada instante
de sua vida, pelo conjunto das decisões que adota no dia­a­dia.

"Tive que cuidar dos filhos, por isso não pude fazer um curso universitário." "Não me casei
porque não encontrei o verdadeiro amor." "Seria um grande ator, mas nunca me deram uma
oportunidade de mostrar meu talento." Para Sartre, nada disso serve de consolo e não
podemos responsabilizar ninguém pelo que fizemos de nossa existência. O que determina
quem somos são as ações realizadas, não aquilo que poderíamos ser. A genialidade de
Cazuza ou Renato Russo, por exemplo, é o que eles deixaram em suas obras, nada além
disso.

O peso e a importância da liberdade

Mas ao escolher a si próprio, a sua existência, o homem escolhe por toda a humanidade,
isto é, sua escolha tem um alcance universal. João é casado e tem três filhos: fez uma
opção pela monogamia e a família tradicional. Já seu amigo José é filiado a um partido
político e vai para o trabalho de bicicleta: acha correta a participação política e se preocupa
com o meio ambiente. As escolhas de José e João têm um valor universal. Ao fazer algo,
deveríamos nos perguntar: e se todos agissem da mesma forma, o mundo seria um lugar
melhor de se viver?

E é por esta razão que o viver é sempre acompanhado de angústia. Quando escolhemos
um caminho, damos preferência a uma dentre diversas possibilidades colocadas à nossa
frente. Seguimos o caminho que julgamos ser o melhor, para toda humanidade.

Fugir deste compromisso é disfarçar a angústia e enganar sua própria consciência. É agir
de má­fé, segundo Sartre. Neste caso, abro mão de minha responsabilidade. Digo: "Ah...
nem todo mundo faz assim!", ou então delego a responsabilidade de meus atos à
sociedade, às pessoas de meu convívio familiar e profissional ou a um momento de ira ou
paixão. No entanto, para os existencialistas, esta é uma vidainautêntica.

À primeira vista, o peso da liberdade depositado no homem pelos filósofos existencialistas
pode parecer excessivamente pessimista, fatalista, de uma solidão extrema no íntimo de
nossas decisões. Mas, ao contrário, o existencialista coloca o futuro em nossas mãos, nos
dá total autonomia moral, política e existencial, além da responsabilidade por nossos atos.
Crescer não é tarefa das mais fáceis.

Outros pensadores existencialistas

Desde Sócrates (470 a.C.­ 399 a.C), muitos filósofos refletiram sobre a existência humana,
passando pelos estoicos, Santo Agostinho (354­430), Blaise Pascal(1623­
1662), Friedrich Nietzsche (1844­1900) e Henri Bergson (1859­1941), mas nem por isso
podem ser chamados de filósofos existencialistas.

Mesmo entre os pensadores alinhados às doutrinas da existência, encontram­se posições
diversas que vão do chamado existencialismo cristão, representado pelo
dinamarquês Sören Kierkegaard (1813­1855) ­ considerado o precursor do movimento ­, o
francês Gabriel Marcel (1889­1973) e o alemão Karl Jaspers (1883­1969), até
o existencialismo ateu, do próprio Sartre, do filósofo alemão Martin Heidegger (1889­
1976) e dos escritores franceses Albert Camus (1913­1960) eSimone de Beauvoir (1908­
1986).

Saiba mais
Sobre existencialismo, há obras que oferecem uma visão geral das doutrinas, comoO que é
existencialismo (Editora Brasiliense), de João da Penha, e História do existencialismo, de
Denis Huisman (EDUSC).

A melhor introdução aos escritos de Sartre é a conferência "O existencialismo é um
humanismo", publicada na coleção Os pensadores (Abril Cultural).

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista e professor universitário.