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A Questão Medicamentosa nos Estados Unidos ou “Admirável

Mundo Novo (?)”

Num mundo que trata o bem-estar cada vez mais como uma obrigação social do bom
cidadão e o ​estar feliz como uma meta de vida, não é de se espantar que adventos miraculosos
da presente revolução industrial também não se apresentem ao serviço dentro da mente dos
consumidores. Numa era de mercantilização das relações humanas, nada mais justo que
precificar e editar os próprios autores do teatro social.
O texto “A Epidemia da Doença Mental”, de Marta Angell1, publicado na Revista Piauí
nº59, trata de como a via medicamentosa utilizada para o dito ​tratamento dos transtornos
mentais, tida por muitos como o novo ​bálsamo de ferrabrás2, pode ser na verdade justamente o
contrário - se não contribuinte, em muitos casos o abuso de substâncias psicotrópicas, mesmo
com intuito aparente terapêutico, pode ser a causa dos mesmos transtornos que prometiam
curar. Para tal, Angell cita o trabalho de três autores (um psicólogo, um jornalista e um
psiquiatra) que detiveram-se na investigação sobre os famosos “remédios tarja preta”, sua
eficácia e como alimentam uma indústria milionária nos EUA.
O artigo também nos oferece uma breve visão histórica sobre o ofício da psiquiatria em
solo americano e sobre a origem de sua principal associação - a ​APA​, American Psychological
Association -, de sua principal obra, o ​DSM e de algumas drogas pioneiras neste contexto,
todas surgidas nos anos 50 do século passado, muito fruto do desenvolvimento tecnológico e
científico do pós-guerra e que constituem parte do cardápio disponível de ​curas diversas para o
doente contemporâneo​.
A autora, ao mesmo tempo por meio de argumentação própria e recorrendo tanto a
fatos quanto a argumentos dos três autores supracitados, tece uma narrativa de como a
indústria psicoativa opera nos Estados Unidos, desde seu início na década de 50 até seu auge
trinta anos depois e de como, depois de uma análise meticulosa dos dados e resultados de
pesquisas científicas e de acompanhamento de caso dos pacientes por ela tratados, podemos
verificar que, em muitos casos, os supostos efeitos das referidas drogas são antes resultado de
sugestão (tal qual como um placebo) do que eficácia própria do referido medicamento. Em
muitos casos, inclusive, os referidos placebos obtiveram um resultado melhor do que as drogas
às quais se destinavam a testar.
Desta forma, o artigo serve como um alerta que serve tanto para a população em geral
quanto para os profissionais da saúde mental mostrando o risco que se corre ao receitar de
maneira indiscriminada tais drogas, bem como instiga ao reconhecimento das mesmas como

1
médica, autora do livro “​The Truth About the Drug Companies: How They Deceive Us and What to Do
About It” e ex-editora-chefe do New England Journal of Medicine

2
o Bálsamo de Ferrabrás é uma poção mágica capaz de curar todas as doenças do corpo humano e é
parte integrante das lendas do ciclo carolíngeo. Segundo a mesma, quando o rei Balão e seu filho
Ferrabrás conquistaram Roma, roubaram os últimos barris que continham a panacéia em que fora
embalsamado o corpo de Jesus, que teria o poder de curar as feridas de quem dele fizesse uso.
formas sutis de dominação econômica e biopolítica, mercantilizando as relações terapêuticas e
esvaziando-as de sentido em nome da margem de lucro.