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Poesía Húngara Moderna

Por Nelson Ascher


Dizem que o segundo país do mundo mais rico em tesouros artísticos é a Espanha. O primeiro seria a
Itália. Mas a diferença do primeiro para o segundo lugar é tamanha, que a Toscana sozinha teria mais
tesouros do que toda a Espanha. Já faz tempo, é claro, que a Toscana não é mais o centro mercantil e
financeiro da Europa, mas o fato de tê-lo sido na Idade Média e no Renascimento, bem como sua
prolongada habitação e opulência, explicam boa parte dessa concentração. O mesmo, por exemplo, se
aplica à Holanda dos tempos de Rembrandt.
Quando se fala de poesia, porém, não se verifica uma correlação simples entre, por um lado, demografia
e riqueza material e, por outro, qualidade literária. Países pequenos e economicamente atrasados, países
nos quais se falam línguas conhecidas apenas por seus habitantes apresentam não raro ao mundo poetas
e poesia de primeiro escalão.
Este é o caso da Hungria, nação na qual se fala uma língua que, isolada da maioria das européias e de
todas as vizinhas, só tem parentes europeus distantes na Finlândia e na Estônia. Povo nômade que,
oriundo da Ásia Central, estabeleceu-se na bacia do Danúbio em torno dos séculos 8/9, os húngaros
seguramente dispunham de uma rica tradição oral que, no entanto, perdeu-se conforme o país se
cristianizou e adotou a cultura ocidental. Uma nova poesia surge no final da Idade Média, atingindo seu
primeiro apogeu na Renascença e, em seguida, na era do maneirismo. É no século 19, contudo, que vai
ocorrer seu salto qualitativo e os primeiros poetas húngaros a se tornarem conhecidos no exterior
pertenciam à escola romântica.
Na virada dos séculos 19/20, um jovem poeta, Endre Ady, que já havia publicado dois livros
convencionais de versos, subitamente, sob a influência do simbolismo francês, descobre sua voz e dá um
novo rumo à cultura de seu país. O grande inovador continuaria se renovando até morrer precocemente
logo após a traumática derrota da Hungria na Primeira Guerra, guerra que, como se pode ler no poema
aqui traduzido, principiou numa estranha, estranhíssima noite de verão.
Junto com seus contemporâneos e amigos, Mihály Babits (também grande ensaísta e tradutor da Divina
Comédia), Dezsö Kosztolányi (excelente prosador e romancista) e Gyula Juhász, Ady fundou a mais
influente revista literária húngara: Nyugat. O nome quer dizer “Ocidente”, termo cujo sentido mais
geral era o mesmo de hoje, só que então se lhe dava um sentido positivo. Até a revista terminar, algo que
ocorreu no começo da guerra seguinte, todos os poetas e escritores importantes do país estiveram de
uma maneira ou de outra ligados a ela.
A geração seguinte de poetas estreou num país diferente, numa Hungria reduzida à pobreza e à
dissensão interna pelos termos do Tratado de Trianon com que se concluíra ali a Primeira Guerra. O
nacionalismo rancoroso e onipresente, a desconfiança em face das nações vizinhas (e vice-versa), o vírus
do antissemitismo contaminando cada vez mais gente e a democracia local se erodindo, cada qual desses
elementos, tornando mais claustrofóbico o clima do entreguerras, colaborou para a decisão final e
desastrada do regente, o almirante Horthy, e seu governo: a de associarem o destino do país ao da
Alemanha nazista, participando inclusive na invasão, em 1941, da URSS. Os poetas do período viveram,
portanto, num ambiente muito mais politizado e nervoso do que a geração anterior e muitos, como Attila
József e Gyula Illyés, optaram por militar na esquerda clandestina. József que, acossado por uma vida
miserável, pela frustração amorosa e, quase certamente, por um grau de loucura, suicidou-se aos 32
anos de idade, é considerado o maior poeta dessa fase. Illyés, por seu turno, viveu o bastante para se
voltar contra o regime seguinte, precisamente aquele cuja ideologia apoiara na juventude. Lörinc Szabó,
um individualista avesso a associações políticas, ainda assim, às vésperas da Segunda Guerra, deu seu
apoio à direita, embora o tenha feito sobretudo no seu jornalismo, mantendo sua poesia mais ou menos
longe desse contágio. Radnóti e Vas eram dois homens de esquerda, mas sua sorte estava ligada antes à
sua origem judaica à qual, aliás, não se apegavam. Ambos começaram como vanguardistas
literariamente revoltados e foram aos poucos regressando às formas mais refinadas que a tradição
legara. Radnóti foi morto em 1944 pelos nazistas e enterrado numa vala comum. Seus derradeiros
poemas foram encontrados quase um ano depois, quando seu cadáver foi exumado, no bolso de seu
impermeável. Vas sobreviveu à guerra e ao Holocausto para, logo em seguida, ser calado durante uma
década pelo regime comunista cuja implantação foi auxiliada pelos ocupantes soviéticos.
O contexto que acolheu os poetas posteriores, além de não ser mais favorável, vinha carregado das
memórias de horrores recentes. János Pilinszky, recrutado pelo exército húngaro perto do final da
guerra, foi obrigado a servir, por alguns meses, como guarda no campo de concentração de
Ravensbrück. O que viu lá o perseguiu até o fim da vida e deu um substrato particularmente trágico a seu
cristianismo. Sándor Weöres, um dos poetas mais apolíticos do século 20, estreara aos treze anos como
Poesía Húngara Moderna

garoto prodígio e sua obra, o ápice da poesia húngara do pós-guerra, é, apesar, ou melhor, por causa
disso, a mais rica, variada e virtuosística de sua língua. György Somlyó, ele mesmo um grande ensaísta
literário, incorporou uma visão crítica a seus poemas que, como os de Weöres, lançavam mão, sem
preconceito algum, de todas as formas e recursos. Quanto a György Petri, ele se revelou, desde a estréia,
o “enfant terrible” ou o “angry young man” dos prolongados, quase inacabáveis, anos de decadência da
tirania do partido único. Ninguém como ele, explorando as minúcias da língua e do cotidiano,
compreendeu e explicitou tão bem o subsolo de mentiras sistemáticas e de cinismo convertido em
segunda natureza sobre o qual se erigia o regime.
Não é obviamente possível, por meio de uma seleção exígua assim de poetas e poemas, sequer começar a
dar uma idéia da riqueza da poesia húngara moderna. Mas se essa minúscula amostra grátis, insinuando
que um país e uma língua remotos ocultam uma espécie de Toscana poética, servir para abrir o apetite
dos leitores, dirigindo-os a outras antologias e traduções, ela terá cumprido sua missão.