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o AVANÇO DO TRABALHISMO ESTANCADO?


(1978)

É um privilégio proferir a conferência de 1978 no Marx Memo­


rial, e quero utili zá-Ia para examinar alguns fatos relevantes dentro da
classe trabalhadora britânica durante os últimos cem anos. Nessas oca­
siões , tornou-se um hábito, há muito consagrado, tomar os textos de
Marx e Engels como ponto de partida. Mas nâo farei isso por dois mo­
ti\'o ~ . Em primeiro lugar, como se sabe, Marx e Engels não falaram
muito sobre a classe trabalhadora britânica do período entre o final
da Primeira Internacional e a década de 1880. E, pelo que eu saiba,
nào disseram mais nada sobre ela, há exatos cem anos. De fato, nesse
mesmo dia (17 de março de 1878) surgiu num jornal norte-americano
o primeiro de uma série de cinco artigos sobre os trabalhadores euro­
peus, escritos por Engels. Essa série mencionava muitos países, da Rús­
sia a Portugal, mas não continha uma só palavra sobre a Grã-Bretanha.
Manteve silêncio total - sem dúvida um silêncio pesaroso - a respei­
to das cenas trabalhi stas reconhecidamente pouco inspiradoras neste
pais, há um século . Em segundo lugar, e de maneira mais relacionada
ao assunto, o que eu gostaria de destacar é algo que uma análise mar­
xista isolada nos ajudará a entender, mas que os textos de Marx não
o fazem : o futuro do trabalhismo e do movimen(o trabalhista, como
aa pred isse, parece ter chegado à estagnação neste século, por volta
de 25 a 30 anos atrás. Desde então, tanto a classe trabalhadora quanto
o movimento trabalhista têm atravessado períodos de crise ou, se pre­
ferirem uma abordagem mais delicada, têm passado por períodos dE
adaptação à nova sit-uação. A maioria de nós, engajada na luta do dia­
a-dia, não prestou a devida atenção a essa crise, embora seja qua,e im­
possível ignorar alguns de seu s aspectos. tvleu propósito é abordá-Ia
de uma perspectiva a longo prazo, qua nto às mudanças de estrutura
do capitalismo britânico, e do proletariado dentro dela . Vejo a nossa
tarefa, enquanto marxist as, e a minha, enquanto conferencista no Marx
Memorial, como a de pessoas que aplicam os métodos e a nálise geral

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de Marx à nossa própria era, de modo concrelo, e entendo que o pro­ tivo declínio, dentro da população assalariada , dos tra balhadores bra­
p rio Marx tam bé m teri a visto a situação dessa forma. çais no sentido literal da palavra.
Na década de ) 870 tin ha-se como certo que a grande maioria do Trata-se de um fenômeno bem geral em países industrializ.ados.
povo britãillco cons istia em tra balhadores braçais e suas fa mílias ­ Na Grã-Bretanha, entretanto, o declínio mostra-se partictLlarmente mar­
e isso significava trabalh adores braçais fora da agricultura . P reciso ape­ cante, por uma razão histórica peculiar. Cem anos atrás, o setor de
nas acrescen tar qu e a maioria , até da população rural, consistia em trabalho dos colarinhos-brancos, em sentido amplo, empregava um nú­
proletár ios, isto "é, em o perários assalariados. A Grã-Bretanha de en­ mero irrisório de assalariados; é provável até que fosse relativamente
tão era peculiar e provavelmente única quanto a es tes dois p ro ble mas: menor do que em outros países com uma burocracia, pública e priva­
no tam a nh o e na porcentagem enormes de sua classe trabalhadora bra­ da, substancial. Por exemplo: em 1871, as "ocupações do comércio"
çal e no tamanho e na porcentagem relativamente pequenos de sua po­ como um todo empregavam menos de 200 mil, em 12 milhões, enquanto
p ulação rural, onde se observava um campesinato insignificante. Tal em 1911 já somava m 900 mil. Por volta de 1976, da população econo­
quadro teve conseqüências políticas significativas, que de certa forma micamente ativa, cerca de 45rJ?0 poderiam ser classificados como
ainda se faz.em sentir. Enquanto, em grande parte de outros Estados não-braçais.
dessa época, a introdução de um sistema de votação democrática ain­ Aqui, portanto, está a primeira maior ocorrência dos últimos cem
d a deixaria os trabalhadores braçais em minoria, na Grã-Bretanha (as­ anos . Mas examinemos melhor os trabalhadores braçais. Há cem anos,
sim acreditava-se), imediatamente, eles constituiriam a maioria. Em a indústria dependia a tal ponto do trabalho manual que hoje teríamos
1867, o estatístico Dudley Baxter estimou os trabalhadores braçais fo­ di ficuldades para entender, uma vez. que a tecnologia da Revolução In­
ra da agricultura em pouco menos de 700/0 da população. Dessa for­ dustrial (da qual a Grã-Bretanha foi a pioneira e que transformou este
ma, do ponto de vista das classes dominantes, era absolutamente es­ país na "oficina do mundo"), pelos padrões modernos, podia ser con­
sencial ganhar ou manter de qualquer jeito o apoio político de uma siderada extremamente subdesenvolvida. Na verdade, como Raphael
parte importante da classe trabalhadora. Essas classes dominantes não Samuel nos relembrou em tempos recentes, foi uma "justaposição da
esperariam contrabalançar um partido do proletariado com consciên­ tecnologia a vapor com a manual". Para empregar um termo atual,
cia de classe independente, mobiliz.ando a maioria dos camponeses, pe­ foi de mão-de-obra intensiva, em sua maior parte. As habilidades ma­
quenos artesãos e caixeiros a favor ou contra a classe trabalhadora. nuais, do tipo que se associa aos artesãos pré-industriais, sem dúvida
T inh am que entrar num acordo, pois, dos tempos do Segundo Ato de foram suplementadas ou aceleradas, até certo ponto, pela energia e pelo
Reforma em diante, havia de fato uma maioria operária. maquinário, os quais, porém, de forma alguma os substituiriam. Ape­
Eu deixaria de lado, por enquanto, a questão sobre se aquilo que nas no final do século as máquinas-ferramenta automáticas foram in­
era entendido corno "trabalhadores braçais", nas décadas de 1860 e trodu zidas nas fábricas da Grã-Bretanha, de modo sério. Outras ope­
1870, seria o que hoje consideramos como classe trabalhadora ou pro­ rações, com perícia QU sem perícia, dependiam quase por completo da
letariado. No entanto, o que quer que fossem, tinham as mãos sujas; força humana. Na prática, cada tonelada de carvão - que fornecia
e, durante a maior parte dos últimos cem anos, os trabalhadores bra­ a maior parte da principal energia para tudo - era movimentada por
çais , em sua definição mais ampla, não cresceram, mas declinaram. homens com pás e picaretas.
Em 1911, somavam cerca de 75rJ?0 da população; em 1931, por volta Essas características da produção britânica do século XIX fiveram
de 70%; em 1961, 64rJ?0; c, em 1976, pouco mais da metade. duas conseqüências. Em primeiro lugar, o crescimento da produção
É claro que isso não quer diz.er que decresceu o percentual de pro­ vinculava-se a uma expansão da força de trabalho a tal ponto que, ho­
letários no sentido técnico, ou seja, de gente que ganha a vida venden­ je, torna-se difícil visualizar. Assim, entre 1877 e 1914, quase dobrou
do s ua força de trabalho por salário, mais seus dependentes. Pelo con­ a tonelagem de carvão produz.ida nas minas da Grã-Bretanha, aconte­
t rá rio, corno Marx predi sse, nesse sentido a proletariz.ação continuou cendo o mesmo com o número de mineiros. Em plena Primeira Guer­
a au me ntar. Não podemos medir com exatidão a porcentagem de "em­ ra Mundial, algo como 1,25 milhão de homens (mais suas famílias) fo­
pregado res e proprietários" no século XIX, mas, em 1911, incluía me­ ram convocados somente para a produção de carvão britânico. Na Grã­
nos de 7% da população economicamente ativa e, desde então, decres­ Bretanha da atualidade, os recursos energéticos, muito mais amplos,
ceu (depois de ficar mais ou menos estável até 1951) para algo em tor­ incluem carvão, óleo, gás, eletricidade e energia nuclear, utilizando ape­
no dos 3,5070 nos meados da década de 60. Com isso, durante este sé­ nas urna fração de sua enorme força de trabalho. O exército de traba­
cul o, temos um crescimento da proletarização combLll ado com o rela­ lhadores cresceu sem parar. Mas, em segundo lugar , o relativo atraso
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na mecani zação, pelos padrões do século XX, forneceu aos trabalha­ Contudo, por volta de 1939, os hom ens em Harl and e Shorts , em Bel­
dores b ritânicos, com habilidade manual e experiência indispensáveis fast, se recu savam a aceitar pagamento por peça, como seus avós ti­
(e nisso se incl uem out ros além dos manufatureiros aprendizes), uma nham feito nos sindicato:; manufatw'eiros dos tempos de M arx. Fo­
onsideTável força para negociações coletivas. O sindicalismo britâni­ ram esses homens que espalharam o sindicalismo na indústria de mo­
co , po r isso, já estava forte, ou potencialmente forte, mesmo nas in­ to res; que mantiveram a típica indúst ria de engenharia como uma por­
dústrias nas quais, em outros lugares, ele era bem fraco, a exemplo ção de sindicatos manufatureiros sepa rado s; e, incidentalmen te , que
das fá bricas de algodào. O sindicaüsmo foi reconhecido pelo governo fizeram mulheres e não-manu fatureiros se organizarem no T & GW U,
há pouco mais de um século e desde então, deixando de lado áreas e o qual dess a forma se tornou o sindicato majoritário da indúst ria de
indústrias específicas, nào se fez qualquer tentativa sistemática e con­ motores. Foi essa persistência do sindicalismo múltiplo em tantas fá­
sistente para esmagá-lo como um todo, ou se obteve sucesso em subjugá­ bricas que transformou a coordenação intersindical popular, executa­
lo por qualquer período de tempo. Concomitantemente, a peculiar es­ da por pessoas como caixeiros de lojas, numa força tão formidá vel den­
trutura do sindicalismo britânico também refletia - e ainda reflete ­ tro da cena industrial britànica.
esse passado histórico.
Por conseguinte, ao contrário de vários outros países, nossos sin­ Sublinhei essas seqüências históricas, m as elas se vinculam a uma
dicatos não constituem um pequeno número de gigantes, cada um co­ transformação históri ca maior. Há um século a classe trabalhadora
brindo, em teoria, todos os trabalhadores dentro de uma indústria es­ mostrava-se pro fundamente estratificada, embora isso não a impedis­
pecífica. Embora esse padrão de sindicalismo industrial fosse favore­ se de se ver como classe. As próprias pessoas que eram a coluna dorsal
cido, e por uns tempos advogado, como militância pelos socialistas, d o sindicalismo, talvez com exceção dos mineiro s, co nstituíam (e eram
não obteve muito sucesso. Mesmo nas estradas de ferro, como sabe­ vistas como) uma ari stocracia trab alhista, que olhava de cima para a
mos, não foi eliminada a rivalidade entre os sindicatos industrial e se­ massa daqueles a quem consideravam sem especialização ou "meros
torial. Em vez disso - ou melhor, lado a lado com essas tendências tra balhadores". Porém, as modificações indu striai s, primelro, amea­
industriais - , temos a coexistência de sindicatos de manufatureiros e çaram e, depois , erodiram essa superioridade, a partir de três pontos .
os grandes "sindicatos gerais" (nessa escala, um fenômeno peculiar E m primeiro lugar, o aumento de emprego no terciári o - empregos
à Grã-Bretanha), que aos poucos absorveram os não elegíveis ou não liberais e de co larinho branco - originou uma nova forma de aristo­
desejados pelos sindicatos de manufatureiros - aqueles fracos demai s cracia do trabalho, que se identificava diretamente com a classe mé­
para formá-los, e inúmeros outros. De certa forma, essa tendência, que dia. Apenas depois da Segunda Guerra Mundial (pelo menos fora do
de início se estabeleceu no período da grande greve portuária de 1889, setor público) os colarinhos-brancos e os profissionais liberai s se orga­
continua a se reafirmar. Cada vez mais, os sindicatos menores tende­ nizaram como massa em sindicatos, e cada vez mais dentro do TUC,
ram a se amalgamar a outros maiores. Mas enquanto na primeira me­ isto é, no movimento trabalhista consciente. Em segundo lugar, com
tade deste século co nseguiam-se ve r esses amálgamas como um enca­ o aumento da tecnologia mode-rna, criou-se um estrato de profis sio ­
minhamento para uma espécie de sindicalismo industrial, nos últimos nais liberais e técnicos recrutados, de maneira isolada, mais de áreas
vi nte anos elas começaram a se assemelhar muito mais à formação de externas do que a partir de promoções internas entre aqueles que mos­
novo s conglomerados do tipo "sindicato geral" - como na fusão do travam experiência fabril. Por iss o aumentou a lacuna entre a aristo­
AUEW com os fundidores, e dos projetistas e o ETU com os encana­ cracia trabalhista e oS estratos médios. Por outro lado , a tecnologia
dores . Inversamente, a enorme força potencial do trabalhador tipo "ar­ e a organização indust rial modernas ameaçaram a posição privilegia­
tesão" continuou a se fazer sentir no sindicalismo, de maneira parti­ da da aristocracia trabalhista pelo fato de , crescentemente, transformá­
cular no grande complexo da metalurgia, da engenharia e das indús­ la em (ou substitu i-Ia por) trabalhadore;; menos habilitados, que ope­
trias elétricas , que continuaram a se expandir, da mes ma forma quc ravam máquinas especializadas ou desempenhavam tarefas especiali­
se contraíram as anügas indústrias de emprego em massa do século XIX, zadas, denlro de uma divisão do trabalho cada vez mais elaborada.
a exemplo das indústrias têxteis, de mineração e de transporte. Na dé­ Em outras palavras, como l"larx predissera e como os capitalistas sem­
cada de 30 e durante a guerra, quando o sindicalismo de massa chegou pre pretenderam, a habilidade foi transferida, cada vez mais , dos ho­
a essas indústrias, de início foi por meio dos manufatureiros - muitas mens para as máquinas ou para os objetivos do fluxo de produção.
vezes , como no caso da indústria aeronáutica, os homens ainda traba­ De fato, a aristocracia trabalhista ameaçava dissolver-se . Assi m, os aris­
lhavam , e às ve zes pensavam, nos velhos termos do orgulho artesão. tocratas do trabalhismo não foram apenas forçados a se apartar dos

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estralOS méd ios, como tamb ém a se aproximar de outros es tratos da sindicali smo, 1I0 enorme e inint en up to aumemo do nú mero de mem­
bros de cooperat ivas, que passou de m eio rnilhào,eru 1880, para três
classe trabalhadora, em bnr. 1 , lias vantagens econômicas (di fe rentes de
milhões, em 1914, m as também nos as pectos não-po líticos d a vida da
sua posição na eSIrutura ~n~ l . d) nào sofressem um enfraquecimento sé_rio
clas se trabalhad ora; no crescime nto do fu tebo l como esporte de massa
até a Pri mei ra G uerra M undial. Tendiam a uma radicalizaçào, espe­
e proletário. no Blackpoo l como a ind a o conhecemos hoj e. nas lan­
cialmeIlte no grande co mplexo de indústrias nas quais a mecanização,
chonetes de peixe-com-bata ta-frita - tudo isso p rod uto das décadas
a prod ução em massa e modificações semelhantes na organização da
de 1880 c 1890, e até d a de 1870; no famoso boné imortalizado pelos
indústria produziram uma confrontação mais direta entre os trabalha­ quadrinhos de Anely Capp [Zé do Boné], que é eduardia no , num sen ti­
do res habilitados e as novas ameaças, dentro do crescente complexo do amplo; e um pouco mais tarde (eles não haviam se desenvolvi do
das ind ústrias m etalúrgicas. muito an.tes da Primeira Guerra Mundial) na s casas populares, no ci­
Ago ra gost aria de observar que minha explicação sobre esse pro­ nema, no palais de danse.
cesso difere um pouco da de Engels, embora na realidade não entre
em con fl ito com ela. Engels, que escreveu sobre esse problema na dé­ Ao mesmo tempo , a natureza do capitalismo britân ico modificara­
cada de 1880 (em especial no novo prefácio de seu Conditíons of the se proflm damente, de qua tro maneiras . Primeira, como se supõe, so­
·o,-king Class), ressaltou dois pontos: primeiro, a formação de uma freu transformações , enq uanto sistema de produção, pela tecnologia,
aristocracia trabalhista "relativamente confortável" e ideologicamen­ pela produção em m assa e pela enorme concentração da unida de pro­
t e m oderada, na Grã-Bretanha; segundo, o monopólio mundial do ca­ dutora, isto é , a fáb rica onde as pessoas trabalhavam . E m 1961 , cerca
pital ismo industrial britânico, que ofereceria benefícios para todos os da metade de todos os trabalhadores em estabelecimentos manufa tu­
traba,l hadores britânicos, embora esses benefícios fossem despropor­ reiros trabalhava em fábricas com mais de quinhentos o perá rios ; por
cionais para a aristocracia trabalhista. Mas "mesmo a grande massa volta de um q uarto, em estabelecimentos com mais de dois mil ; e me­
tinha pelo menos um ganho temporário, de vez em quando".1 Ele es­ nos de 10070 em unidades de cinqüenta pessoas ou menos. Segunda,
perava uma radicalização da classe trabalhadora como resultado do o surgimento do capitalismo monopolista, com um setor público de
declínio do monopólio mundial britânico, embora não previsse que is­ massa, concentrou ainda mais o emprego e, em particular, criou )lm
so aconteceria entre a aristocracia trabalhista dos "antigos sindicatos", vasto setor de emp regos governamentais e públicos como nunca existi ­
mas da emergência da organização trabalhista entre as massas, desor­ ra no século anterior. Hoje, aproximadamente 30 070 de todas as pe~­
soas trabalham no setor público (como empregados de governos, au­
ganizadas até então, cujas mentes estavam "livres dos 'respeitáveis' pre­
to ridades locais, em indústrias nacionalizadas) , e a proporção é cres­
conceitos que tolhiam os cérebros dos 'velhos' sindicalistas melhor aqui­
cente . Vale dizer que, para cada dois empregados do setor pri vado (es­
nho ados".2 O que ele não avaliou bem foram as ocorrências na pro­
to u omitindo empregadores e autônomos), existe praticamente um no
dução capitalista que iriam radicalizar a própria ex-aristocracia traba­
setor público. T erceira, deduz-se que os fato res que determinam as con­
lhista, de qualquer modo, nas emergentes indústrias do século XX. Po­ dições dos trabalhadores não são mais , em nenhum sentido, aqueles
rém , por volta de 1880, essa situação ainda não era muito visível. da competi ção capitalista. O setor capitalista não ma is se revela aq uele
T udo isso não quer dizer que a classe trabalhadora tornara-se uma q ue o merca do livre dominava , uma vez que Se encontra am plame nte
ún ica massa homogênea, embora de vários modos ela tenha se torna­ monopolizado ; e o setor público , enquanto empregador , enquanto p ro­
do mais coesa, pelo crescim ento de uma consciência de classe, pelas vedor de todos os tipos de serviços e remunerações sociais, e enquanto
reivindicações políticas que uniam os trabalhadores de todos os estra­ ger ente da eco nom ia , _determina aqueles fatore~ de modo muito am­
t os e seTOres (exemplos disso, no terreno de governos locais , eram a p lo , ou peLos menos determina os limites de nt ro dos quais se fixam es­
educação , a saúcIe e a segmidade social) por um estilo de vida e pa­ ses fatores. E são as decisões p olíticas, não-lucrativas, que determina m
d rões co muns, e, para uma illtnoria , pela ideologia trabalhista e socia­ a prática do setor público . E quarta , o padrão de vida reul da maioria
li sta . Esse " estilo" com um , se é q ue se pode chamar assim, de vida dos trab alhadores sofreu uma revolução para melhor . Muitas d essas
proletária b ritànica começou a emergir há quase um século, formand o­ tendências podem ser rasu eadas desde o per íodo entre a morte de Marx
se nas décadas de 1880 c 1890 e permanecendo dominante alé que se e a Primeira Guerra M undial; n o en ta nto. as trans fo rmações realmen ­
iniciou sua erosã o. na década de 50. Não estou a penas pensando no te mais im p ortantes ocorreram a partir de 1939.
surgimen to do moviment o socialista e do Partido T rabalhista como o Dent ro da classe trabalhadora isso deu o r igem a n u merosa.~ modi­
partido de massa dos tra balhadores britânicos, nas modificaçôcs no ficações, meio diferentes da crescCnle divisão en tre a classe operária

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b raça l, q ue cada vez m ais tendia a votar em seu partido de classe, e te, a nacionalidade-mai.!.-religião il l<U1 d e~I). Aqui , como o próprio Marx
o estrato d os co larinhos-b rancos qu e, pelo menos fora do setor públi­ comprecndera, havia um a i"orça que di vic.Ua pro flllld am~ nte a classc
co, era predominantemente conservador até mais ou menos os últim os tra balhadora britânica , ao rncno,; de modo potcncial; C0l110 reslcmu ­
vinte anos, dura nte os qua is também começou a se urganizar na linh nho, ex iste a história po llLica dc McrseY'i id c. Se as ri valida des cntre os
do sindical ismo e - talvez num sentido mais restritu - a virar politi­ torccdores do Sheffield U nitcd c do Shcfficld WedlJes da ~ , ou do No!
camente para a esquerda . Devo mencionar algumas dessas modificações. ting bam sbire Co unt y c do Notünghmmhi re fore~t , mai s do q ue div i·
Primeira, h á cem anos, a classe trabalhadora o rganizada era qua­ di r desracaram a unidade bas ica do, trabalhadores naquelas c id ade ~ .
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se to tal mente masculi na , como notou o próprio E ngels. exceção feita por ouLro lado lodos sabemos qlll: os to rcedores c1o ~ Ra llge rs e do Cl:! ·
aos tra balh ad ores da indústria têxtil. Até então, as mulheres ganl1a­ tic . o u LiverpooJ e Evenon , ou Heart s e Hibs , di\l idem -~e por linh a"
vam po r tarefa e tra balhavam basicamente antes e depois do casamen­ de religiosidadc·naciona lidade. Ainda, o que majs ..:hama a ateIlcão nas
to (em 191 4, a penas cerca de 10070 das mulheres casadas Linham um classes trabalh adoras britânicas e o quão pouco - eu diria , quão cada
desses empregos), e eram vistas como despreparadas e tratadas como VCl menos - elas foram afetadJs po r esse racha nacional ate a dCeada
mão-d e-o bra barata. A grande maioria - 44%, em 1881 - trabalha­ de 50, a despeito do fato (mais d o que óbvio) dc que escoceses , galeses
va como empregada doméstica . Mesmo em 1911, quando esse serviço, e irlandeses sem pre tiveram org ulho de nâo se rem ingleses; e assim por
enquanto ocupação, começou a diminu,i r, ainda havia 1,5 milhão de diante. Ao contrário , digamos, dos poloneses na A lemanha imperial,
mpregadas domésticas. E xistiam as "arrumadeiras" e as "de todo ser· os irlandeses na Grã-Bretanh a, quando sc organizavam de alguma for ­
viço" . Em bora já houvesse um notável afluxo de mulheres para a in­ ma , aderiam a sindicatos totalmente britânicos c apoiavam o partido
dústria, e mais ainda para escritórios e lojas, no quarto de século ante­ totalmente britânico de sua cla~ :, ,:; . -:111 Lodos O~ cventos, depo is que a
rior a 1914 as mulheres continuavam a receber tratamento de traba­ Irlanda se tornou independcntc . Ate quc o movimento trabalhi <;ta, co­
lhad ores de segunda classe, e a reivindicação de salários iguais não tc­ mo um todo, cntrasse em sua crise atual, nào existia nenhuma basc
e ne nhuma repercussão séria senão depois da Segunda Guerra Mun­ significati\'a para partidos nacionais na Escócia e em C a le,. e até a imi­
dial. E mesmo que o emprego das mulheres casadas que trabalha\·am gração cm massa do antigo impéri o depois da Segun da Gucrra i\ lu n­
por ta refa aumentasse um pouco entrc as duas grandes guerras (em dial , dir-s·e -ia que o racismo da clas~ e t rabalhadora provavelmente cra
1931, 13 010 de todas as mulheres casadas tinham um emprego dessc ti­ menos irnportante na Grã-Bret a nha do que , por exe mplo, na Fr;:mça
po) , a prát ica só se tornou normal depois da Segunda Guerra Mun­ - mesmo que St. admita um sent imento antiirlandb e, a partir do im­
dial. Desde 1951, a proporção de mulheres casadas, tecnicamente des ­ cio do ~éculo XX , alguns precou-:ei! o ~ antj-semilas localiLados. Por tudo
critas como "ocupadas", aumentara de cerca de um quinto para apro­ isso . a rivalidade parecia uma força e111 declin.io por três quartos de
ximadamente a metade. Isso traduzia uma grande modificação na com­ séc ulo, depois de 1878. Desse po nlO em diant c ha ou t ra ocorrência sig ­
posição da classe trabalhadora. nificati va e pouco bem -vinda do ú ltimo quartel do século passaJo.
H á um século, geograficamente, embora houvesse muita mobili­ Existem, ..:o ntuclo , outra., d i\·isóes dentro da cla.ssc trabaLhadora.
dad e e mjgração, a classe trabalhadora constituía uma coleção de co­ Há cem anos havia três pi'incipais dife renças ~ e toriai s dentro da classc
munidades loca lizadas. E la ainda permanece enraizada localmente, nu­ traba lhadora: aquela entre as indusrrias e ramiii caço e ~ , e mprC5 a~ ou lo
ma proporção muito maior do que as classes médias, como qualquer calidades particularcs dentro d t' urna industria (Ty nes id c e a S udoc<;[ c);
pelisoa pode perceber assim que um sindicalísta de Birmingham ou de aq ucla entre os vários grau:; c 1I 1\'CI\ <.!t: trab aJJ) ador,:;~ ( ·l1lanufatur-:i
Ga teshcad , sem mencionar Clydebank ou Swansea, fala com seu sota­ ros" e "operarias" ); c aq uela e lll re grupo~ ri\" ais del1lfo do mes mo 11\ .
que típico . Mas , no geral, essas diferenças locais não contrariam o sen­ vei o u grau , a exemplo d os diferclllcs gr up os es peciali tados. Há um SI!­
tido de uma única consciência de classe, mas são parte dela. As dife­ culo, os di fe renciais locai, e rcg i o lla L~ eram grandes c pllw avc lmcl1tc cres­
renças en tre os o perários de Lancash ire c Yorkshire não impediram ­ centcs. A partir de 1900 , a tcnd énc ia era que clim..i.rHn \ ,;:m, cmbo ra , UH
e co nseg uiram até destacar - suas caracteristicas com uns como ope­ época em que algumas n.:giõe' c,la\'OIll relat ivamente Pfl'l spcras c out réll>,
rários. Até as diferenças crescentes - especialmente no entreguerras muilo pobres (como no cnu egu err::J!», pu dessem aum e/lw r llluiLO na p ra­
- ent re as a ntigas áreas industriais do norte, no sécu lo X1X, da Es tica pOI causa do desL·mp rcgo . Tcdr icamcntc, o '1 11r~i m e llt \J do bt auo
ci a, de Gales e das novas áreas in dustriais do centro e do sudeste. nao capit<:llista monopoliq a c do I.! mpr"go llll ~l'l M l1ub ll',:' ) IC llt!tn m a igua ­
p rod uziram maiores divisões de sentimentos ou a!itude~ . A única ex­ lar os diferenciai s. Na prc\L ica , l~ <.:o isas eram mOJi \ complicada s. Mas
ceção era a nacionalidade (ou, no exemplo do principal grupo emigran­ este não eo lugar para discut i r· m,.. ôses prob lem as em maiores delalh es.

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A exemp lo das di ferenças setoriais en tre grupos rivais do mesm o rios e as condicões ainda cram, em grande parte, fixa dos por COS Lumes
nivel, esses dife renciais tinh am uma longa história. Causaram con fli­ e convenções, sendo apenas parcialmente calculados a partir do l1J.CJ­
tos principalmente qua ndo algu ns grupos tcntaram manter um mo no­ cado . A burguesia pagava o menos que conseguia; e mesmo que pu­
pólio de empregos particulares para eles próprios, em detrimento dos desse pagar mais, achava que devia haver um teto que os salário ~ dos
outros , em parte porque o progresso técnico solapou seu monopólio trabalhadores nunca deveriam ultrapassar. Os burgueses podia m pen­
natural de longo trei namento e espec ializações , e em parte porque em sa r e agir dessa maneira porque os próprios trabalhadores achavam que
tempos de desemprego havia mais pressão para preencher um núm ero "um dia de trabalho justo valia um di a de paga mento justo", depen ­
limitado de vagas . Assim, amargas dis putas por demarcações nos esta­ dendo do tipo de operário que fossem. E seus lim ites eram bem mo­
leiros do nordeste atingiram o auge na década de 1890, e até hoje essa destos. H oje , nenhuma dessas observações ainda é verdadeira. As ve­
indústria e essa área conhecem bem o problema. À medida que a anti­ . lhas hierarquia, foram solapadas pelas mudançi'ls tecnol ógicas , e os di­
ga divisão do trabalho se ia tornando tecnicamente obsoleta, esses gru­ ferenciais foram sendo consumidos, em especial pelo desen volvi mento
pos rivais (o u potencialmente competidores) de operários especializa­ de mudanças complexas nos pagamentos de salários, sem planejamen­
dos quase sempre tenderam a se mesclar - por exemplo, a absorção to sistemático, difusas e imprevisíveis, que não mais ofereciam uma
de caldeixeiros. trabal hadores de estaleiros e ferreiros. Mas esse tipo vantagem automática para a habilidade - pagamentos por resultados,
de setor ialismo ainda não se extinguiu . Na verdade até cresceu, pois horas extras sis temáticas e alguns dos efeitos da negociação sobre a
o moderno desenvolvimento industrial reparte o setorialismo profis­ produtividade. Especialmente durante o grande período de desenvol­
sional e possibilita às diferentes indústrias ou aos grupos de trabalha­ vimento depois da Segunda Guerra Mundial, os trabalhadores também
dores executarem essencialmente os mesmos processos ou processos al­ aprenderam que os limites para suas reivindicações podiam ser bem
ternati vos. Por isso, em 1878, não poderia haver nenhuma sobreposi­ mais altos do que a maioria deles nem sequer pudera imaginar; e os
ção entre, por exemplo, tipógrafos e jornalistas; no entanto, com a mo­ empregado res tendiam a fazer concessões, jamais cogitadas. Acho que
derna tecnologia, que permite a um jornalista digitar diretamente para essas tendências podem ser traçadas desde o período eduardjano, pois
a im pressora, essa sobreposição é possível e acontece. Colocar merca­ conseguimos detectá-los em certos argumentos sindicalistas.
do rias em contêineres provoca conflitos potenciais e reais entre estiva­ Tudo isso sugere que as antigas estratificações da classe trabalha­
dores , motoristas de caminhão e ferroviários, que simplesmente não dora perderiam seu significado, e que - com todas as sobrevivências
podiam existir, como não existiam, em 1878 ou mesmo um pouco mais das antigas divisões e tensões - os interesses comuns da classe traba­
tarde. E assim por diante . Alguns mineiros te riam preferido a desati­ lhadora deveriam.prevalecer de forma crescente. E i s~o provavelmente
vação da indústria de energia nuclear, mas os operários dessa indús­ aconteceu mesmo na primeira metade deste século. Mas seria um erro
tria presumivelmente não concordariam. Portanto, eu observarja que pensar que esse quadro tornou a cl asse trabalhadora mais homogênea.
esse tipo de setorialismo, depois de um período em que pro vavelmente Ao contrário, a mim parece que agora vemos uma divisão crescente
ele tende a declinar, tenha revelado crescimento desde a Segunda Guerra de trabalhadores em setores e gr upos, cada um perseguindo seus pró­
M undial. E essa é uma situação perigosa. prios interesses econômicos, sem ')c importar com o resta nte . Neste ca­
O terceiro tipo de seto rialismo - a estratificação - quase nem so . o que há de novo é que sua hab ilid ade em fazer essa d ivisão não
pod ia ser visto há um sécu lo, basicamente por dois motIvos. Em pri­ mais se relaci ona a cri té rios tradici onais, tais como sua-quali fi cação
meiro lugar, os estratos favorec idos (a exemplo da assim chamada aris­ técnica e sua estagnação na escalada social. Na verdade, agora aconte­
tocracia trabalhista) ainda conseguiam bastante sucesso ao restringi ­ ce co m freqüên cia (como esporadica mente já oco rria há um c;écu lo) de
rem a ent rada de olltras pessoas em suas p rofissões, ou mantinham-se grupos de trabalhadores entrarem em greve, l1ào se im portando com
numa posição fa vorecida por serem , com o um Lodo , os únicos com o efeit o sobre o restanLc - por exemplo , operários especializados so­
acesso a uma organização e fetiva. De fato, qu.ase não há dllvida de bre os sem especia]j?ação - , e ocorre que a força de um grupo repou­
que, nesse periodo, o sin dica lismo reforçava a exclusividade. SomenLe sa não na quan tidade de pcrdas que ele possa ca usa r ao empregador,
no pe ríodo de liderança sociali ~ [ a (de início muito lenta mente, mas de­ mas na inco nveniência que possa causar ao publko, isto é. a outros
ois mais depressa, a partix da grande agitação nabalhista ant es da P ri­ operári os, como por exemplo a [,lIta de energia c cohas simi lares. Trara­
meira Guerra Mundial) é que os sin dicatos transform aram-se em fato­ se de uma conseqü ência na tural do sistema ca pitalista do Estado mo­
res de igualdade, mais do que de crescimento. dos diferenciais de )0 ­ nopolis ta , no qual o alvo básico da pressào não é a co nla bancá ria dos
cal, de profissão e de grau. Em segundo lugar, há um séc ulo . os salá­ empregadores privados ma.>, direl3 ou in diretamente. a vontade politi­

(1
27
ca do governo. No final das contas, essas fonnas de lutas seto riais não ce mais elementar dessa situação: o sindicalismo . Sem dúvida, ele cres­
apenas criam um atrito potencial e m~e gr~po~ de trabal.hadoIcs, mas ceu com regularidade neste último sécuJo , embora não tenhamos da­
lambém arriscam -se a enfra quecer a wRuencla do mOVlmento traba­ dos comparativos para antes da década de 1890; digam os que, de 13 0J0
lhista como um to do . O sentimento de so lidariedade de classe se enfra­ da força de trabalho , em 1900, tenha subido para 45 % logo após a
q uece a lém da conta pelo fato de que a renda real de uma família po­ Segunda Guerra Mundial (1948). Mas depois disso permaneceu estag­
de, na verdade, não mais depender do trabalho de apcnas um só traba­ nado por um bom tempo, ou até caiu um pouco; e mesmo que tenha
Ihador , porém pode atreJar-se ao faLO de seus cônjuges também traba­ crescido nas décadas de 60 e 70, hoje é apenas um pouco maior (per­
lharem e do tipo de emprego que eles tenham, ou pode depender de centualmente) do que em 1948 - 46 0!0. E mais, quase nunca presta­
vár i o~ out ros fa tores, não d iretam ente determinados pela luta sindi­ mos atenção no seguinte: é muito mais baixo do que na Dinamarca,
aI. Em resu mo, não restam muitas dúvidas de que o setorialismo estc­ Suécia e Bélgica, onde atinge cerca de 70%, e um pouco mais baixo
ja cresce ndo , embora ex ista uma boa quantidade de razões morais c do que na Itália. É claro que agora a composição do sindicalismo
materiais para haver solidariedade, e dela haja poucos e dramáticos modificou-se - há muito mais mulheres c- t-rabalhadores de colarinho
exemplos - como na época do Ato de Relações lndustriais de 1970-71 branco - mas o ponto aonde qu ero chegar , infelizmente, é que 35%
c na greve dos mineiros. dos empregados não pertencem a nenhum sindicato profissional, e que
Exis te uma última divisão dentro da classe trabalhadora quc de essa porcentagem não diminuiu durante trinta anos. Para resumir: a
ce rta forma lembra as divisões de cem anos at rás, embora hoje as con­ gcã:-Brctgn ha. local de orige m do sindicalismo, está hoje muito atrás
dições sejam bem diferentes. Trata-se da divisão entre aqueles quc con­ de alguns outros países.
seguiram tirar vantagem total das grandes melhorias econômicas e so­ Se examinarmos a expressão política da consciência de classe, que
ciais da era pós-guerra e os que não conseguiram - se preferirem, aque­ significa, na prática, apoio para o Partido Trabalhista, o quadro é ainda
les que poderiam, há um século , ser chamados de "os pobres". Essas mais perturbador. O número, bem como a porcentagem, dos eleitores
pessoas são a~ que permaneceram em ocupações dc baixa renda, vir­ do trabalhismo (incluindo os comunistas) cresceu sem interrupção (ex­
tualmente abaixo das faixas dos sindicatos efetivos; um quarto de to­ ceto em 1931) entre 1900 e 1951 , quando atingiu um pico de 14 mi­
das as do nas-de-casa que retiram mais da metade da renda familiar da lhões ou um pouco menos de 49°70 de todos os votos . Depois disso caiu
seguridade social e ganham menos de quarenta libras por semana; as para 44 070, em 1959 e 1964; subiu pára mais de 48°70 em 1966; e depois
pessoas que vivem em acomodações alugadas de particulares contra caiu de novo. Na eleição de 1974 estava bem abaixo dos 40%. E o mctis
aqueles que po ss uem suas casas próprias e os que alugam casas de go­ importante, el!Ulúmeros absolutos, os trabalh istas (mais os comunis­
vernos municipais - em 1975, 17 0!o dos trabalhadores não qualifica­ ~ois de 1951, quase sempre perderam mais de um milhão de
do s eram inquilinos de proprie~ário s particulares, contra 11 070 dos tra­ votos em relação àquele pico ; em 1974, apuraram-s e cerca de 2,5 mi­
balhadores especializados -; os pobres que vivem pi o r e pagam mais. lhões a menos do que em 1951, menos do que em qualquer eleição des­
E , ao considerarmos isso, não devemos esquecer que , peios padrões e 1935. É claro que essa tendência também afetou os conservadores,
internacionais, os salários britânicos declinaram mai s do que outros, que conseguiram sua maior votação (13, 5 milhões) em 1959. Mas isso
e que o sistema des eguridade social britânico, do qual nos orgulháva­ não serve de consolo.
mos la nio nos anos imediatamente po~tcriores à guerra, provavelmen­ Não existe uma maneira simples de medir as mudanças nos mais
te declinou ainda mai s do que os sistemas de seguridade social de vá­ altos graus da consciência de classe. No entanto, se tomarmos o núme­
rio::. países euro peus . Os pobres pioraram des proporcionalmente e são ro de associados ativos de todas as organizações socialistas como um
os q ue menos recebem ajuda direta dos setores consagrados a isso, den ­ critério muito rústico (diferente do ativismo no sindicato profissional),
tro das organizações tra balhis t~s. H á cem an os, o movim ento tJ·aba­ então eu também suspeito que, logo no início da década de 50, ho uve
lhis ta recomenda va suas fo rm as de luta e de organi za ção para qual­ um declínio, talvez rompido no final da década de 60. Po rém, neste
quer pessoa - sindicatos, cooperativas, etc. Mas, na época, isso não período mais recente, uma proporção muito alta do ~ novos ati vistas
era acessivel a q ualquer pessoa, apenas a estra tos de t rabalhadores fa ­ socialistas, dentro e fora do P artido Comunista e de outros grupos mar­
vorecidos . E cu me pergunto se, hoje , não há uma complacência simi­ xist as, provavelment e n ão se compunha de trabalhadores bra çai s, mas
la r ent re alguns setores do movimento. de es tuda n1es e de colarinhos-brancos ou profiss ion ais libera is . É lógi­
A que ponto o desenvolvimento da consciência de classe dos tra­ co que temos de obse rva r que até a década de 50 grande número (tal­
balhado res britânicos reflete eS' . -.nnências'? Vamos observar o índi­ vez a maioria) desses n ovo"S ativistas socialistas, muitas vezes de fa­

28 29
mil ias operár ias c colarinhos-bra ncos , nào conseguiu chegar às uni ver­ gra ma . Nào consegui ram . Con seguiram os anos Wilson - e muitos
sidades. deles perderam a fé e a t!~pe rança num partido de massa do povo
trabalhador.
Ten ho a imp re~são de que , durante aproxi madamente os primei ­ Ao mesmo tempo o movimento sin dica l to rnou-'iC mais miJitante .
ros setenta anOs deste último século, Marx e Engels ltão ficariam nem E ainda assim, com exceção das gra ndes luras de 1970- 74, foi um a mi­
um po uco surpresos nem desapontados com as tendências de desen ­ litância qu ase totalmente econQmici&ta ; c um movim ento não é nece~­
vol vime nto na classe trabalhadora britânica. Não ficariam muito sur­ sariam ente menos ccon omicista e lim itado po rq ue ó m ilitant e, ou lide­
presos po rq ue as tendências revclava m-se como eles haviam previsto rado pela esq uer da , Os períodos de máxima ati vidade de greve desde
(ou poderi am prever) com base na análise do próprio Marx sobre o 1960 - cm 1970-72 e 1974 - , foram aqueles em que a porcentagem
dese nvo lvi mento do sistema fabril , por exemplo. Embora eu ache que de greves po r salários foi a mai s alta - mais de 90 % em 1971-72. E ,
iri am ficar um pouco surpresos com a velocidade com que o setor ter­ co mo tenlei sugerir a ntes , honestamente, a cons ciênc ia economicist a
ciário se desenvolveu, ainda assim não seria tanto quanto a surpresa em sindicatos à s vezes acaba, de fato, confrontando os tra balhadores
em relação à formação de uma nova aristocracia conservadora, com­ ent re si, em vez de estabelecer padrões de solidariedade mai s amplos.
posta de colarinhos-brancos. Uma vez que não esperavam muito da
classe trabalhadora britânica além do que de fato parece ter aconteci ­ Minha conclusão é que o dese nvolv imento da classe trabalhadora
do , eles não teriam ficado muito desa[lontados com o crescimento de na última ge ração ocorreu de forma a levantar inúmeras questões sé­
um partido político de massa, baseado na consciência de classe, sepa­ rias sobre seu futuro e o futuro do movimento . O que torna essa situa­
rado dos part idos da burguesia, que de forma crescente, em bora vaga, ção mai s trágica ainda é o fato de que, hoje, es tamo s num período de
desti na va-se a substituir o capitalismo pelo socialismo. Obviamente! crise mundial do capitalismo e, mais especificamente, de cri se ~ de
como vocês e eu, Marx e Engels poderiam querer que a classe traba­ colapso , quase poderíamos di zer - da sociedade capitalista britânica.
lhado ra britâni'ca fosse um pouco mais revo lucionária e, como nós, te­ É um momento em que a classe trabalhadora e seu movimento deve­
riam ficado bem desdenhosos da liderança trabalhista; mas as coi sas , riam estar em posição de ofereccr uma alternativa clara c de liderar
pareciam estar se movimentando, em geral, na direção correta . No en ­ os povos britânicos para essa alternativa.
tanto , nos últimos trinta anos, esse movimento parece ter estagnado, Não podemos confiar numa simples forma de determinismo his­
exceto por uma tendência : a "nova" aristocracia trabalh ista do s técni­ tórico para restaurar o futuro do trabalhi smo britânico, que começou
cos de colarinho branco e profissionais liberais sindicalizou-se; e estu­ a vacilar há trinta anos. Não há indício s de que o movimento je vá
dantes e intelectuais - setores de onde essa aristocracia era muito re­ recuperar automaticamente. Por outro lado, co mo já falei, não há ra­
crutada - também se radicaliz aram a um grau maior do que antes. zão para um pessimismo, também automático . Os homens, como Marx
Para explicar tudo isso, eu já sugeri alguns dos fatos relevantes disse (a palavra alemã vale para homens e mulheres), fazem sua histó­
na estrutura econômica e social do país e em suas populações traba­ ria dentro das ci rcunstânc ias que a história armou para eles e dentro
lhadoras. Mas os marxistas não são determini stas econômicos e sociais, de seus limi tes - mas são eles quefazel11 a sua hi stória. Contudo, se
e simples men te não funcionaria dizer que essa crise da classe trabalha­ O tnt balhismo e'o mo vimento socialista quiserem recuperar sua alma,
do ra e do movimento socialista era "inevi tável", e que nada poderia seu dinamismo e sua iniciativa histórica, nós, enquanto marxi stas , te­
ter sido feito a esse respeito . Já vimos Cjue a estagnação da marcha co­ mos que fa zer aquilo que Marx certamente teria feito: precisamos re­
meçou antes das mudanças drás ticas do s últimos vinte anos; que mes­ conhecer a nova sit uação na qual nos encontramos, a fim de analisá-Ia
mo no auge da "sociedade afluente" e no grande boom do capitalis­ real!stica e co ncretamente, a rim de analisar as razões (históricas e ou­
mo, em meados da década de 60, existiam sinais de uma recuperação tras) tanto dos ú acassos quanto do s sucessos do movimento trabalhis­
rea l de ímpeto e dinami smo: a volta do crescimento dos sindicatos pro­ ta e a fim de formula r não apenas o que gostaríamos de faze r, mas
fi ssi onais, para não mencionar as grandes lutas trabalhistas, o aumen ­ o que pode ser feito . Deveríamos ter feito mesmo quando esperáva­
to significativo do vo tO trabalhista em 1966 e a radicalização do s estu­ mos que o capitalismo britânico entrasse num período de forte crise.
dantes, intelectuais e outros, no final da década de 60. Se quise rmos ão pod emos nos dar ao luxo de não agora, que a crise já, começou.
exp Ucar a estagnação ou a crise, tcremos que observar o Partido Tra­
balhist a c o p róp ri o mo vimento trabalhi sta. Os tr abalhadores e o cres ­
ceme estrato estranho aos operários braçais pediam um líder e um pro­

30
3J
II

o VEREDICW DA ELEIÇÃO DE 1979


(1979)

Considerando que já se passou um ano desde o início da discus­


são séria e calorosa sobre a "Estagnação no Futuro do Traba lhi smo?" ,
parece razoável que o autor do artigo original devesse, agora, tecer co­
mentários sobre O debate . 1 Espero que ninguém imagine que cu quci­
ra ter a última palavra . A discussão deve e vai continuar, rois as que~­
tões le va ntadas são importantes demais para serem eoga\etada~ e, da­
da a amarga experiência da última eleição, ficou mai s Llaro do que nun­
ca que o movimento trabalhista britãnico ainda não encontrou respos­
tas satisfatórias para elas. Nem esta segunda int erven ção rretende e.\ a­
gerar o significado do primeiro artigo . Ess e artigo originou-se de uma
conferência no Marx Memorial, proferida no inicio de 1978, e não ti­
nha a intenção de ser uma afirmação política (exceto no sentido de que
todos os marxistas tentam unir a teoria à prática), mas de faze r um
apanhado histórico do que sucedera à classe trabalhadora britãnica du­
ra nte os últimos cem anos. Não teria havido diseu <;são alguma se <1,
pessoas envolvidas no movimento, e sobretudo as pessoas com respon­
sabilidades efetivas, enquanto funcionários públicos sindicalizados ou
empregados de comércio também sindicalizados, n~io ti\ esse m recollhe­
ci do que, desse apanhado, emergiram questões importantes c urgentl',
pa ra o nosso movimento, e nada aconteceria Sé as [)e~ s oa~ nào ~t.' ti\-c'i­
sem inco modado com tais questões.
O ponto relevante nào é nem se o futuro do traba lhi smo C'it,H!nOll
sob alguns aspe~tos, mas se essa refreada estáscndo c() 1I1 pcn~ad~, Oll
ma is do que compensada, por outros fatos relc\ ante, dentro do lllll\ i­
mento trabalhista britânico . Quanto à estagnaçltll, illkli / llH:nI C, 11,[0
há qualquer dúvida. No arti go original Imam Imllccida, alguIlla, ill­
dicações so bre a queda de apoio elcilOJal ao Panicl o TraballJi, ra , ,o­
bre o declínio quanto ao núm cro de af"i1iacocs c sob rc a c,lag lla ç~i o 1'1.'­
la tiva às afiliações dos sin dicotó,. h~o rockria ter sido su[)lemclltad o
por dados sobre o declí nio do apoio )illdi ca l ao Part ido Tra ba lh i, la,
como indicam os paga mentos da arrecadação do partido. Infelizmen­ antiga ala direitista bajuladora dentro do Partido Trabalhista parla­
te a eleição geral de 1979 confirmou essa análise . mentar. Em quinto lugar (outra vez, uma observação de Royden Har­
, Resum indo a questão: o trabalhi smo polarizou o menor número rison) , aí está a emergência de uma esquerda trabalhista nova e politi­
de votos desde 1931. No entanto, os votos perdidos não foram canali­ camente mais promissora, tal como a exemplifica Benn.
zados , em númer os significativos, para candidatos da esquerda socia­ Na prática, portanto, a conjunt ura para um avanço no trabalhis­
lista ou comunista . E ntre os eleitores da classe trabalhadora especiali­ mo reside, em sua essência, no movimento industrial. Em a nos recen­
zada, o trabalhismo conseguiu um mínimo de votos a mais do que o tes , isso se traduziu sobretudo por meio de um movimento salarial (o
conservadorismo . Ao que tudo indica, aproximadamente um terço dos que é reconhecido na discussão) , o qual teve que lidar principalmente
sindicalistas votou de fato nos conservadores. Desde 1974, a transfe­ com o caráter, as possibilidades e as limitações da ação sindical. Não
rência de sindicalistas para o Partido Conservador parece ter sido algo pretendo discutir em detalhes as guinadas políticas para a esquerda den­
por volta dos 70/0; de trabalhadores sem especialização, 6,5%; e de tra­ lro do Partido Trabalhista ou em qualquer outro. Aqui, sem dúvida
balhadores especializados, não menos que 1i % . Quase 10% dos elei­ nen huma, houve um avanço bem-vindo. A maior parte da antiga di­
tores que votaram pela primeira vez preferiram a direita. Essas ocor­ reit a tra balhista foi , de fat o, excluída do Partido Trab alhista ou da
rências desastrosas não foram compensadas pelo bom desempenho do política. A esquerda trabalhista de Tony Benn, ao contrário daquelas
tr abalhismo na Escócia, pelo voto dos emigrantes , pela resi stência das que a precederam por um longo tempo, po ss ui um programa de verda­
mulheres ao apelo conservador (a transferência delas foi de apenas 3% , de , que inclui uma política para atacar os problemas econômicos da
comparados aos 9,5% dos homens), e pelo fato interessante de que o Grã-Bretanha. Sem dúvida é o único programa desse tipo que vem de
voto trabalhista com efeito aumentou significativamente entre os me­ um partido grande, afora a proposta de Mrs Thatcher e de Sir Keith
nores grupos de profissionais liberais e gerenciais. (Esses dados foram Joseph, que atrasa o relógio da economia para 1865 , mais ou menos .
compilados por pesquisas de opinião, mas não há por que imaginar As possibilidades de uma ação conjunta por parte de socialistas e co­
que estejam incorretos.) O que torna tais resultados mais desaponta­ mun istas, na verdade, são melhores do que foram durante muitos anos,
dores ainda é que a porcentagem de eleitores na verdade cresceu um e seu principal obstáculo provavelmente seria o sectarismo de alguns
pouco. Gente que nunca se dispusera a votar antes respondia à pesqui­ grupos menores, de uma esquerda infelizmente fragmentada. Hoje, po­
sa de opinião - e escolhia o Partido Conservador. Enfim , a eleição rém, essas ocorrências bem-vindas representam o que está acontecen­
de 1979 não foi nada confortável. do dentro de um Partido Trabalhista duramente derrotado, cujos mem­
A fim de contrariar essas tendências negativas , diversos partici­ bros ativos somam um número perigosamente pequeno - talvez pou­
pantes do debate, a começar por Ken Gill, desviaram a ateI1Ção para co mais de trezentas mil pessoas - que não representa necessariamen­
ocorrências positivas. Em primeiro lugar, e no sentido mais genérico, te su as bases; e dentro de um Partido Comunista e de outros grupos
a classe trabalhadora britânica, "sem mostrar vocação para o poder, de esquerda que não estão crescendo (só para não empregar termos
tornou evidente que não quer ser governada do jeito antigo" (Royden mais drásticos). Além disso, é cedo demais para contar com o ovo na
Harrison). Está claro que esse é um fator fundamentalmente novo na galinha em rela,ção à recente guinada para a direita na liderança de al­
política britânica desde a guerra, e que até agora o capitalismo da Grã­
guns sindicatos , os quais, como Stan Newens assin alou, "ainda po­
Bretanha mostrou-se incapaz - ou não mais capaz - de atender à de­
dem produzir retrocessos dramáticos nos altos escalões do TUC e do
manda , dentro da economia britânica . Em segundo lugar, e de modo
Partido T rabalhista " . Certamente engana-se quem fechar os olhos às
mais específico, existe uma maré crescente na militância e na luta in­
perspectivas de um avanço futuro, mas esse avanço pertence a um fu­
dustrial, que atingiu o auge em 1970-74, mas que continuou ou se man­
Luro aind a incerto.
teve el altos índices . Em terceiro lugar, evidencia-se a força política
Por outro lado, o movimento sindical mostra-se poderoso, efeti­
dessa militância, como ficou demonstrado pelo papel do TUC (Trades
Union Congress) nos programas e na queda do governo Heath, em 1974; vo, bastan te militante nos anos recentes e, de modo claro, vem se de­
as esq uerdas preferem não mencionar as dificuldades que essa militân­ senvolvendo e modificando depressa. Também não se pode negar que
cia causou ao governo trabalhista, em 1978-79. Em quarto lugar, esse m ovimento possua podero.sa base popular. Na verdade , a mudan­
argumenta-se que essa militância produziu uma guinada para a esquerda ça do cent ro de gravidade dos sindicatos, de uma estrutura de funcio­
na liderança do movimento sindical, acompanhada de uma esquerdi­ nalis mo público para uma estrutura de fábricas e estabelecimentos co­
.a ção dentro do P artido Trabalhista - até pela abdicação virtual da merciais, mostra-se uma característica dos últimos vinte anos - e até

34 35
recente mente \inha se acel erando . Nota-se o contraste entre a fraque­ classe ; de questão indllstrial para queqão pol,íim" (Royden Harrison).
7.a d o lado político do ~OVimef11O comparado ao pode r c ao dinami s­ ra z tempo que is<;o acontece; capitalista~ e governo trabalharam ba­
mo do lado industrial. E naluralljue a esquerda tendesse a superesti­ seados nessa suposição. No entanto, existe uma grande diferença entre
mar a:; po ssibilidades e a ~ ubestimar os limites da a<;ão puramente in­ os períodos em que a questão salarial, nessa forma, fez parte de um
dustrial. Havia pouca coi~a a mais com que 'ie congratular. rebrotar polítieo mais amplo ela clas~c trabalhadora, como entre 1918
As conquista~ do lIlovimento sindical, em particular no período e a Greve Cieral ( o voto trabalhista cresceu de cerca de dois para oito
1969-74, foram de rato muito marcantes c os partieipantes da dLseus­ milhões, ent rc 1918 e 1929), e períodos como o atual, quando aq uele
são têm acertado ao me criticarem ror não falar muito delas. Prova­ rebrotar não acontece . Em suma, o sindicalismo isolado nào basta, co­
velmente é verdade, como argumentou Steve Jefferys, do Partido So­ mo os marxistas desde o próprio Karl Marx já argumentaram contra
ciali sta dos Trabalhadores, que essas conquistas garantiram a ~ obrevi­ o~ sindicalistas e outros . A fase atual de militância é esmagadoramen­
veneia da consciência da classe trabalhadora, do tipo forte e tradicio­ te ~indicali~ta e economicista, especialmente no que di z respeito aos
nal (embora fosse e seja limitada), apesar do declínio das antigas in­ sa lários . Não há uma discordância real sobre o assunto . O que não fi­
dústrias do século XIX, que forneceram suas principais bases, e do de­ cou claro é "o tipo de relação que existe entre os salários e a luta polí­
clínio numérico dos antigos trabalhadores (masculinos) especializados, tica" (Pete Carter), e até que ponto a luta salarial deve estar integrada
que desempenharam um papel tão crucial nisso tudo; e também a des­ à luta mais ampla, da qual constitui apenas parte. Creio que esse é o
peito da grande melhoria nos padrões de vida, os quais, na década de problema fundamental que ataca o movimento trabalhista atual.
50, os observadores da classe média imaginavam que produziriam um Como Roger Murray nos relembra , é claro que para "a luta sala­
"aburguesamento". Essas conquistas tornaram possível a integração rial continuar, indiferente. ( .. . ) acho que a denúneia do economicismo
de um número crescent e de colarinhos-brancos e trabalhadore~ não­ das lutas salariais ... embora de certa forma correta, é pouco benéfi­
bra<;ais ao movimento trabalhista e, de certa forma, à classe trabalha­ ca". Isso preci sa ser dito . Seria um curioso tipo de movimento traba­
dora. Embora cerca de 40 0io dos sindicalistas sejam hoje colarinhos­ lhi sta aquele que não prestasse atenção ao objeti\'o pelo qual os traba­
brancos, isso não provocou uma queda na militância. Atualmente não lhadores realmente batalham - pelo qual, com crise c inflação, eles
são apenas os tradicionais trabalhadores braçais que praticam a ~oli­ são quase que forçados a batalhar. iVlas obviamente não há perigo dis­
dariedade sindical e se recusam a romper um riquete. Tornou-se pos­ ~o. O perigo repousa mai s na racionalização do economieismo mili­
sível integrar um número bem creScente de mulheres trabalhadoras (mui­ tante como uma estratégia geral.
tas vezes em tempo parcial) ao movimento trabalhista organizado. E Suas limitações foram postas em discussão, mas não por alguns
as conquistas também possibilitaram as vitórias no período 1969-74. a tivistas da frente industrial. Aí está o setorialismo. "As lutas salariais
Mesmo assim não foram ultrarassados os limites dessa renovada isoladas e conduzidas seforiall71el1le podem dividir, e realmente di vi­
"consciência sindical profissional", os quais têm sido en fat izados pe­ dem, o movimento trabalhista, isolam-no de outros setores, e ajudam
lo declínio paralelo do movimento da classe pol,úco. Tem-se argumen­ Ilél guinada para a direita" (Roger l' vlurray). Se hoje o setorialismo
tado que a ação sindical não se divorciou da política porque também moqra-se mais fort e dentro do movimento sindicalista profi ssional do
liderou lutas não-econômicas (a exemplo daquela para o pagamento que 110 passado, como eu su geri, é uma questão histórica sobre a qual
total de leitos hospitalares), e porque as esquerdas dos sindicatos e os r o <;so muito bem ter-me en ganado . Não vale a rena discuti-la aqui .
ativistas de esquerda assumem posições políticas. Até certo ponto iss o P~ rmanece o fato de que o ~e toriali s mo - talvez de um típo diferente
é verdadeiro, embora a esmagadora maioria das greves políticas de anos do pa~ s ado - e\iste hoje , e de que (empregando as pala vras de Roy­
recentes tenha, de fato, acontecido por motivos econômicos , direta ou d Cl1 Harrison), " sob' as condi<;ões de capitali smo de Estado e monopo­
indiretamente contra as tentativas governamentais de limitar a livre ne­ li sta, as conseqüências do setorialismo tendem a se tornar mais d esa­
gociação e de cercear direitos sindicais. Também se argumenta que aque­ g radáveis e mais separatistas". Todos nós sabemos disso, menos os ati­
les limites são políticos no sentido de que, de certa forma não especifi­ vo ~ camaradas d a indústria.
cada, regenerariam o movimento político, ampliariam o apoio de mé\s<;a Também exi ste a tcndencia de o sindicali s mo "direto " aceitar o
a um programa socialista e unificariam o povo trabalhador do raís . s i ~ tell1a capitali sta corno ele é e de concentra r-se em conseguir o máxi­
Pelo meno~ até agora não há muitos indícios de tais acontecimentos . mo dele. b~ a tem sido sempre a fraqueza do movimento sindical da
Não basta dizer que "agora a 'questão salarial' sofre transforma ­ Grã- Bretanha, "uma ODo s i~ão que nunca vira governo " na~ palavra s
ções a olhos vistos, passando de questão setorial para uma que~tão de
d e- R. H. Tmmey há muito tempo, e uma fra queL<l da ['o rma típica de
36
?07
"sindícalismo" na consciência da classe trabalhadora britânica, a qual dora . Apesar de tudo, existem hoje cerca de 350 mil empregados no
impediu essa cl asse de "revelar sua vocação para o poder" (Royden comércio. E as respostas não aparecem se adicionarmos os vários seto­
H arrison) . E, por isso , a cl asse trabalhadora pode ser levada facilmen­ res da população que, por uma razão ou outra, conseguem encontrar
te a integra r-se ao cap italismo . P elo menos a importante greve de 1978 o apoio da esquerda para suas reivindicações setoriais.
foi descrita na discussã o como "um exercício das forças de mercado Um partido de classe trabalhista (com todas as suas limitações)
dentro da tessítura do capitalismo" (Mike Le Cornu). Aqui, há enor­ tom ou-se o partido de massa da classe trabalhadora britânica (ou, uma
mes perigos. O a pelo para se abolirem todas as restrições sobre a livre vez que somos um Estado multinaciona1, das classes trab alhadoras bri­
negociação de salários conseguiu, naquele momento, tornar-se um tânicas) por oferecer unidade à consciência dessa classe como um to­
slogan importante, mas devemos nos lembrar de que o apelo para a
do. e por oferecer, como um plus à defesa de interesses materiais ou
abolição de restrições sobre as livres operações do mercado (do qual de outros especiais, confiança, auto-respeito e esperança numa socie­
representa uma forma especial) em geral costuma ter implicações polí­ dade diferente e melhor. Como isso surgiu? Por que milhões de traba­
lhadores e outros, depois de 1918, e novamente durante e depois da
ticas bem diferentes.
Segunda Guerra Mundial, voltaram-se para o trabalhismo? Por que
Em terceiro lugar existe o fato de que a ação sindical - mesmo
existem, até hoje, certos grupos - os escoceses, as mulheres, um mo­
a ação militante - pode estar muito divorciada da consciência políti­
desto porém crescente setor das classes médias - que, em graus varia­
ca. Os estivadores que entraram em greve de solidariedade a seus ca­
dos , resistiram e não se voltaram na direção do conservadorismo? Es­
maradas presos em 1972 eram os mesmos homens que haviam protes­
sas questões não foram analisadas e estudadas de maneira adequada
tado contra o fato de Heath ter demitido Enoch Powell e que zomba­
pelas esquerdas. Talvez um estudo desse tipo pudesse auxiliar nosso
ram de Bernadette Devlin às portas da prisão de Pentonville. Um triste
movimento a encontrar um caminho para progredir de novo. É bem­
sinal disso é o fato de mais de um terço dos sindicalistas votarem no
vinda a discussão na Marxism Today e em qualquer outro lugar por­
Partido Conservador em 1979, muitos deles, sem dúvida, participan­
que reconhece uma séria crise no desenrolar desse movimento. Mas não
tes da ação industrial. Mais triste ainda é lembrarmos que houve épo­ há razão para se acreditar que a hesitação do trabalhismo, enquanto
ca em que a afiliação, a formação e os votos dos sindicatos para o Par­ movimento político de massa, seja historicamente inevitável ou que não
tido Trabalhista costumavam ser uma coisa só . poss a ser revertida.
Daí poderíamos concluir que apenas a força e a militância do sin­
dicato, embora importantes, não compensam, e isoladas não conse­
guem compensar, os retrocessos do movimento trabalhista em outros
aspectos.

Mas o que se pode fazer a respeito? É claro que esse deve ser o
tema da próxima etapa do debate. Até agora, a discussão fez emergir
uma série de sugestões gerais e algumas propostas mais específicas, em
especial quanto à maneira de vincular a luta industrial às reivindica­
ções e lutas mais amplas, mas não acho que alguém acredite que fo­
ram encontradas respostas satisfatórias. E elas não poderão ser encon­
tradas enquanto se espera que a classe trabalhadora britânica e seu mo­
vimento sejam diferentes do que foram, e se tornaram, historicamen­
te . Não podem ser encontradas enquanto nos concentrarmos em seus
setores mais avançados - tanto nos membros ativos dos Partidos Tra­
balhis ta e Comunista, como nos outros partidos e grupos. O teste da
vangua rda repousa em sua habilidade de conduzir exércitos. Não se
consegue achar respostas só pelo fato de se concentrar em um aspecto
da luta traba lhista - a luta industrial, na qual consistiu naturalmente
uma gr ande parte da discussão - mesmo que, agora, isso seja a coisa
que mais se assemelhe a uma mobilização de massa da classe trabalha­

38 39
III

o DEBATE SOBRE O AVANÇO DO TRABALHISMO

ESTANCADO? (1981)

o debate, iniciado com minha conferência no Marx Memorial em


1978, desenvolvido na Marxism Today e reunido em O avanço do tra­
balhismo estancado?, mobilizou não apenas outros intelectuais acadê­
micos, o que é bastante comum, mas pessoas envolvidas em todos 0S
níveis da atividade política e sindical, desde ramificações locais até par­
lamentares e desde as bases operárias até as lideranças nacionais. Isso
não acontece com freqüência, pois a teoria e a prática, os escritores
e os homens de ação não se entendem como deveriam. O primeiro ponto
que eu gostaria de assinalar é que isso mostra que a teoria não deve
ficar represada num aquário superaquecido, onde especialistas intelec­
tuais ficam nadando como se fossem raros peixes tropicais. Algumas
teorias não se restringem a lidar com o mundo real como o conhece­
mos, e com problemas e tarefas palpáveis com os quais se confrontam
aqueles que querem melhorá-los ou modificá-los . Mas, quando a teo­
ria enfrenta esse mundo e essas tarefas, desaparece a tela que separa
aqueles cujo trabalho é escrever dos outros. Todos nós falamos a mes­
ma linguagem e contribuímos para a discussão .
Quanto ao assunto central deste debate, ninguém, a sério, pode
negar que hoje o movimento trabalhista britânico esteja uma bagunça
considerável. Encontra-se num estado de crise e confusão muito mais
profundo do que se poderia prever facilmente há uns três anos. Nesse
sentido, o argumento central de "Estagnação no Futuro do Trabalhis­
mo?" não é facilment~ contestado, e de fato nenhum dos novos con­
tribuintes ao debate discordou dele. QuaIsquer que seja o caminho ao
qual o trabalhismo nos conduza no futuro, certamente não provocou
a vanço algum desde 1978. Trouxe a derrota eleitoral, seguida pelo que
provavelmente seja o governo britânico mais reacionário deste século,
e certamente (com exceção da Turquia) o governo mais reacionário da
Europa, até o presente momento. Trata-se também de um governo es­
petacularmente desastroso, que intensificou a parcela britânica na cri­

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e capitalista mundial, a ponto de já ser, d iferenciando-se de outros países ultimamente. Contra isso acumulam-se os sinais de decadência. O vo­
capitalistas, pior a crise de 1929-33, qu ase com certeza. to nacional trabalhista soma a porcentagem mais baixa do eleitorado
O desemprego já se co m para ao d o período 1929-33 e continuará desd e 1931. Em números absolutos esse voto mostra uma curva des­
a crescer. Ao contrár io da década de 30, a rede de benefícios sociais cen dente inexorável de picos de quase 14 milhões , em 1951, para 11,5
está sendo simultaneamente desmantelada - exemplos disso são as es­ milhões, em 1979, com exceção de uma leve alta em 1964-66 . Se o po­
colas e os serviços de saúde - , enquanto as construções públicas e pri­ vo não vota no trabalhismo, não pode haver nenhum governo traba­
vadas, que então estavam explodindo, virtualmente pararam. A estru­ lh ista, fato às vezes ignorado por militantes entusiasmados. Os parti­
tura da p rodução industrial britânica está sendo demolida quase além dos ou g~ os à esquerda do Partido Trabalhista não têm um eleitora­
da esperança de uma restauração. Poucos operários que elegeram That­ d"õ,iiãCional ou 10cal J igniTicativo. N o presente, o própr io Partido Tra­
cher não lamentam amargamente tê-lo feito, e até amplos setores de balhista, em termos de seus quaaros individuais ativos, não é um par­
capitalistas britânicos buscam, desesperados, alguém em quem se tido de massa, mesmo considerando o recente influxo de ativistas. No
apoiar. Dad as as circunstâncias, poder-se-ia esperar uma maior onda momento, provavelmente o Conservador seja, mais do que aquele, um
de a poio ao trabalhismo, liderada por um movimento trabalhista uni­ pa rtido de massa. Ninguém pode afirmar que o Partido Comunista ou
do, confiante na vitória. outros partidos e organizações marxistas estejam numa expansão sig­
E m vez disso encontramos um movimento trabalhista confuso e nificativa. A radicaliza ão política de um setor de 'ovens a ós 1968
dividido, desagregado por divisões e lutas internas, e isolado de vários não teve continui a de. ~ pLima vera e 1981, durante um encontro
de seus antigos apoios. A meio caminho de um governo desastroso e de representantes que reuniu cerca de 150 intelectuais de esquerda, não
profundamente impopular, no qual ninguém na Grã-Bretanha ou no havia uma única pessoa com menos de 25 anos . Quanto aos sindica­
exterior acredita - nem mesmo a maioria de seus membros - , a cren­ lOS , com seu poder e sua capacidade de resistir aos ataques que rece­
ça no trabalhismo como um governo alternativo também sucumbiu. bem, mantêm-se apesar de tudo como a parte mais impressionante do
O fato de que, em tempos como estes, Warrington, um dos mais sóli­ movimento trabalhista. Mesmo assim, sua relativa força realça a fra­
dos bastiões trabalhistas da Inglaterra, quase poderia ter sido perdido queza polftica do movimento. Pela primeira vez, desde 1923, o eleito­
para o candidato de um terceiro partido que nem mesmo fingiu fomen­ rado trabalhista nacional é hoje menor do que o número de sindicalis­
tar uma política alternativa, e para um homem pessoalmente associa­ tas afiliados ao TUC (mesmo no desastroso ano de 1931 era maior) .
do à CEE, que obviamente não é uma causa popular, deve-se ao voto O t rabalhismo atual não consegue mobilizar nem mesmo os membros
popular de não-confiança no trabalhismo. Nem é preciso continuar a do movimento sindical para sua causa. Na verdade, em 1979, um terço
explicação. Uma vez que essa situação permanece, seria absurdo afir­ dos sindicalistas parece ter votado nos conservadores; e se a eleição
mar que o trabalhismo reassumiu seu avanço, ou que parece estar de Warrington serve de exemplo, mesmo que não tivessem votado nos
reassumindo. co nservadores, muitos deles não mais votariam no trabalhismo.
Constatado esse quadro, continua sendo tão vital como era há três Na década de 70, esse contraste entre um movimento político tra­
anos analisar desapaixonadamente o que levou o trabalhismo à atual balhista incerto e em declínio e um crescente movimento industrial, mi­
situação crítica. Não pode haver reversão na sorte do trabalhismo, a lita nte e aparentemente imbatível, capaz de frustrar e resistir a gover­
não ser, como diz Jack Jones, que "recusemos a repetição de slogans nos, é que encorajou várias das boas ilusões sobre o potencial político
e de generalizações do passado, e que também recusemos a negação deste último. Se usarmos a metáfora lançada co rretamente por Ray ­
de avaliar realisticamente os fatos do presente" . Todos os que contri­ mond Williams, as pessoas agiram como se o pássaro do trabalhismo
buem para a presente discussão estariam preparados para aceitar os p udesse voar com uma asa só . E de fato essas pessoas às vezes sentem­
fa tos da situação e os resultados de um diagnóstico realista? Não te­ se tentadas a argumentar que a asa política, de alguma forma, poderia
nho m uita certeza. regenerar-se pela batida da asa industrial. Essas ilusões, que foram
Nessa instância, os fatos são fortes demais para serem negados. acompanhadas por uma certa idealização da ação popular, não mor­
Duas indicações aparentes do avanço do trabalhismo têm sido e po­ reram por completo, pois baseavam-se na observação perfeitamente ver­
dem ser mencionadas: os sindicatos britânicos (como Steve Jefferys d adeira de que "a organização vinda de baixo" é uma parte necessária
apontou corretamente) começaram a a~mentar seus quadros de novo de qualquer estratégia, tanto política quanto industrial, da esquerda.
na década de 70, depois de um quarto de século de estagnação, e pode Mas não basta dizer que o caminho para a recuperação do trabalhis­
ser que os quadros do P artido Trabalhista também tenham aumentado mo deve ser encontrado simplesmente pelo "trabalho real com o que

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e fundamental: respeito aos piquetes, coletas para quem está em gre­ \ a liosa (e vindo dele. bel1l au tl)Tit ari a) contribui ção de Jack Jones, que
ve ação solidária, reconstrução da independência dos comitês de co­ nuo ha um a manei ra aUlomcilica de se desv anecerem as diferenças en ­
m~rciáIios, construção de organizações de união popular a fim de ge­ tre os sindicatos e o Partido Trabalhista , as quais se desenvolveram
neralizar a luta anticonservadorismo" (Jefferys). Embora todas essas com o passar dos an os e ainda existem, especialmente em tempos de
tarefas sejam importantes, não são suficientes. governo trabalhista. Uma série concreta e limitada de objetivos políti­
E também a grande ilusão dos anos 70, de que o sindicalismo mi­ cos tem que ser ajustada, e com a qual se comprometam ambos os la­
litante era suficiente, não se salva pela argumentação de que teria sido dos. mesmo quando não representem aquilo que cada um preferiria,
suficiente se os sindicatos apenas não tivessem mostrado tão pouca vi­ se fosse deixado a própria sorte. E terceira, alguns debatedores admi­
são: se não tivéssemos "falhado ao represar a força popular do movi­ tiram o rato, pouco palatável mas inegável, "de que os ressentimentos
mento para clarear a perspectiva socialista de classes" (novamente, em relação ao poder sindical realmente cresceram" (Wainwright) até
Jefferys), ou se os sindicatos não tivessem "agido com negligência co­ entre os que apóiam o trabalhismo e provavelmente dentro dos qua­
mo políticos, no sentido de fazer campanhas sobre as necessidades so­ dros dos sindicatos. Não podemos fingir que isso não influiu na derro­
ciais mais amplas do povo trabalhador e de outros grupos oprimidos" ta do governo trabalhista em 1979, nem negar, pois tal ressentimento
(Wainwright). ~ certo que poderia ter havido mais represamento e cam­ continuou, de modo paradoxal, mesmo enquanto o poder sindical di­
panhas mais amplos, se bem que a necessidade de ambos não constitui minuía, numa época de declínio e desemprego , o que ainda constitui
exatamente uma descoberta nova entre os socialistas. Mas fica claro um fator político significativo.
nas posições tanto de Jefferys, quanto de Wainwright que a força da Podemos argumentar sobre uma porção de assuntos. Assim, acre­
militância "não é suficiente, ante uma crise capitalista mundial e uma dito que Jack Jones tinha razão, em contraposição a Hilary Wain­
Grã-Bretanha dominada por capital multinacional" (Jefferys), e que wright, em sua análise das falhas políticas do movimento nos anos 70.
o poder dos sindicatos, por si só, é essencialmente "o poder de nego­ A falha dos sindicatos não se deveu ao fato de que viam os governos
ciar a respeito dos contratos de trabalho" (Wainwright) - pode-se e os conselhos trabalhistas como forma de suprir as outras necessida­
acrescentar, no interesse de grupos particulares de trabalhadores. Lo­ des "de todos os trabalhadores", além daquelas nas quais a negocia­
go, embora boa parte da ação sindical tenha se ampliado politicamen­ ção coletiva poderia tratar diretamente, limitando-se por isso "a lutar
te, só pode ser uma parte da luta trabalhista, mesmo sendo uma parte pelos interesses dos assalariados , e ponto final" . Em si, isso era mais
fundamental, crucial e formidável. Inevitavelmente, há muito interes­ do que suficiente, uma vez que a ação sindical isolada apenas conse­
se vital para os trabalhadores, enquanto cidadãos , e para os cidadãos gue atingir objetivos limitados, embora indispensáveis. Por sua capa­
não diretamente representados pelos sindicatos, que não pode ser ne­ cidade de mobilizar os trabalhadores, os sindicatos podem participar
gociado pela ação industrial, de modo adequado ou de jeito nenhum, de modo intenso em campanhas mais amplas e, por sua peculiar posi­
e que, conseqüentemente, precisa ser buscado de outras maneiras . É ção dentro do Partido Trabalhista, podem auxiliar na elaboração do
claro que todos reconhecem o fato, em princípio, e (com exceção dos programa dos governos trabalhistas. Os sindicatos, enquanto estrutu­
sindicalistas) sempre o fizeram desde que os sindicatos britânicos, há ra mais maciça de auto-organização dos cidadãos, podem alargar os
mais de oito anos, reconheceram que necessitavam de um partido, in­ horizontes daquilo que imaginamos como "política", além da repre­
clusive os socialistas, para suplementar sua ação. Hoje, certamente, se ntatividade institucional, parlamentar ou de outras formas de repre­
isso é reconhecido. Entretanto, na prática, a tentação de pensar em sentação (i.e., indiretas) de ação política, que atuam para ou em bene­
termos puramente industriais parece não ter sido vencida por completo . f'icio das (às vezes, contra as) pessoas, porém apenas de vez em quan­
Essa tentação também leva as pessoas a subestimarem ou a justi­ do permitem a elas que ajam para si próprias. No entanto, os sindica­
ficarem as possíveis contradições dentro do setor industrial do movi­ lOS não podem substituir o movimento político mais amplo do traba­
mento, assim como os atritos entre sindicatos e outras parcelas do mo­ lhismo, do qual são apenas uma parte, mesmo sendo uma parte cru­
vimento. Boa parte do debate sobre "a estagnação" mexeu com um cial . É preciso haver u~a certa " divisão de trabalho" . A falha, tanto
aspecto dessas dificuldades, principalmente com o setorialismo sindi­ dos sindicatos quanto do partido , no período em que havia uma "divi­
cal. Não quero prolongar esse debate, uma vez que, na prática, três são que se aprofundava entre a liderança do Partido Trabalhista e o
coisas parecem ser amplamente aceitas pelos participantes . Primeira, moviment o sindical " residia - a despeito dos esforços contrários por
está claro que o setorialismo levanta problemas muito sérios, tenha ou parte de pc s ~oa~ como J ones - no fato de que os líderes trabalhistas
não crescido em tempos recentes. Segunda, está claro, não apenas pela I.' \ecuta vam Uma políti ca que os trabalhadores não esperavam de seu

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paTtido . e os sindicatos, por sua vez, perseguia~ seus próprios interes­ Porém sentem-se tentados a ignorar - até que um desastre eleito­
ses estreitoS, independentemente dos governos, Inclusive governos tra­ ral torne essa distração dramática - o problema básico: como fazer
balhistas, e assim aj udavam a levar a derrota tanto aos governos con­ com que os povos britânicos, que rejeitam completamente o thatche­
servadores quanto aos trabalhistas. rismo, voltem outra vez para o trabalhismo? No momento atual
Contudo , embora haja muito mais para ser dito sobre o setoria­ percebe-se que não estão fazendo isso, a despeito do fato de o Partido
Iismo e outros problemas sindicais, vários aspectos das dificuldades tra­ Trabalhista não apenas ser o partido dos trabalhadores, mas a alterna­
bal histas são igualmente ou talvez mais urgentes. Até agora isso não tiva óbvia de partido de governo.
emergira de maneira tão clara para a discussão. Esse problema exibe três aspectos. Precisamos analisar, primeiro,
Desde 1979, a ilusão de salvação através da militância sindical vem qual a base do avanço que o trabalhismo teve entre 1900 e 1950, e se
sendo substituída por outra série, provavelmente mais perigosa, de ilu­ essa base ainda se mostra suficiente para garantir a retomada desse avan­
sões baseadas no fato de que o único aspecto dinâmico do movimento ço. Segundo, temos que analisar as razões do declínio do apoio políti­
nos últimos tempos tem sido o marcante avanço da esquerda dentro co ao trabalhismo, em especial nos últimos quinze anos. E terceiro,
das organizações do Partido Trabalhista. De fato, esse é um fenôme­ devemos considerar politicamente os meios para reverter esse quadro.
no marcante e bem-vindo. A posição atual da esquerda dentro do par­ O trabalhismo basicamente cresceu e se tornou um partido de go­
tido, baseada em sua força e organização planejada entre os ativistas verno enquanto (como o nome diz) partido de uma classe trabalhadora
em partidos representativos e sindicatos, e baseada em mudanças cons­ braçal, consciente de que necessitava de um partido político de classe.
titucionais (tais como a reescolha dos candidatos e o novo método pa­ A maioria dos estudos que investigam os motivos pelos quais as pes­
ra eleger os líderes do partido), teria sido quase inconcebível até há uns soas votam no trabalhismo chegou às mesmas conclusões , em suas es­
dez anos. A próxima vitória trabalhista, espera-se, dará mandato a uma sências , que McKenzie e Silver, em 1968: "Quando se perguntava aos
maioria parlamentar de esquerda, sob liderança socialista, que não ape­ eleitores da classe operária, que votavam no Partido Trabalhista , com
nas estará comprometida com uma política socialista conforme o ma­ que se 'pareciam' os partidos, eles tendiam a responder esmagadora­
nifesto do partido (como foi formulado pela Conferência), mas tam­ mente em termos de classe"; ou Westergaard e Resler: "Perguntando­
bém não mais será capaz de se desviar dela, desde que o novo governo se por que tinham votado desse modo , os operários braçais que apoia­
trabalhista esteja em curso . No entanto, pressupõe-se que a guinada vam o trabalhismo em geral referiam-se ao fato de que o partido é ­
do partido para a esquerda e sua promessa de permanecer fiel a seus ou supõe que seja - o partido da classe trabalhadora". Durante a maior
compromissos garantirão, elas mesmas, a próxima vitória trabalhista.
parte deste século, os trabalhadores braçais formaram uma maioria subs­
Essa ilusão é mais perigosa do que as da década de 70, porque
tancial dos povos britânicos , mas enquanto durante meio século os ope­
ignora completamente o principal problema, qual seja: o partido me­
rários dirigiram-se mesmo para seu partido de classe, no auge da pros­
lhor e mais esquerdista não basta, se as massas não o apóiam em nú­
peridade do trabalhismo (1945-66) entre 35 e 400/0 deles (ainda) não vo­
mero suficiente. Na Grã-Bretanha, infelizmente, os novos e velhos mar­
lavam no Partido Trabalhista. O declínio da sorte do trabalhismo de­
xistas têm bastante experiência a esse respeito. O sindicalismo, com to­
das as suas limitações, nunca consegue ignorar as massas porque, se pois de 1951 não pode portanto (pelo menos no início) ser explicado
ele organiza milhares de pessoas , deve representá-las o tempo todo e por um declínio numérico do proletariado braçal.
precisa mobilizá-las boa parte do tempo. Mas conquistar o Partido Tra­ Contudo, o Partido Trabalhista não cresceu apenas como um par­
balhista para a esquerda pode ser feito a curto prazo sem consulta às tido dos trabalhadores braçais . Ele atraía desproporcionalmente os po­
massas. Na teoria, pode muito bem ser conseguido por uma pequena vos minoritários da Grã- Bretanha, não apenas porque a Escócia e Ga­
minoria de umas poucas dezenas de milhares de socialistas engajados les eram proporcionalmente mais industrializados do que a Inglaterra,
e gente da esquerda trabalhista, por meio de encontros, por esboços e os irlandeses na Grã-Bretanha eram esmagadoramente operários, mas
de resoluções e votos. A ilusão do inkio dos anos 80 era a de que a também porque escoceses, galeses e irlandeses eram populações mino­
organização consegue substituir os políticos . Hoje existem muitas de­ ritárias. O partido também atraía um setor pequeno, porém crescente,
zenas de milhares de tais ativistas, e seu número vem crescendo porque de intelectuais e estratos médios "progressistas", como o herdeiro de
os sucessos da esquerda dentro do partido incentivam suas esperanças. Um finado liberalismo radical , o partido da educação, da razào e do
Sentem-se tenta dos, como eu sugeri a Tony Benn , a encarar o proble­ progresso de uma sociedade socialmente mais justa e, de modo amplo,
ma reen cetan do o avanço do trab alhismo "num sentido organizacio­ Como o partido da paz. Talvez isso nào tivesse maiores significados
nal meio tacanho". eleitorais mesmo em 194 5; no entanto, o movimento " de avanço do

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liberalismo" não foi desprezível, como atestam as histórias políticas membros do NUR e do ASLEF, '" embora as lideranças do ASTMS es­
de famílias como as dos Foot e dos (Wedgewood) Benn. Mais signifi­ tejam muito mais à esquerda do que nos outros dias.
cativa foi a virada de um número crescente de colarinhos-brancos de Além disso, até a "velha" classe operária não é mais o que era
baixos salários e a diminuição de profissionais liberais no trabalhis­ há uma geração, sem falar nas modificações em sua composição, a qual
mo, de forma notável em 1945, pois esses grupos (com algumas exce­ meu artigo original tentou esquematizar. Em geral, como J ack Adams
ções como a dos professores), antes, tinham-se mantido afastados dos apontou corretamente:
operários. Em suma, o trabalhismo também cresceu como um "parti­
do popular", potencial ou de fato, para uma mudança progressista. o apoio de massa para o avanço político e a manutenção da consciência
Mas existe um terceiro elemento. Desde 1918 o partido compro­ de classe ... decaiu ... Entre as pessoas mais velhas encontro, com freqüên­
metera-se com um objetivo socialista, e é quase certo que a maioria cia. uma resposta simpática e um claro entendimento de classe nas dis­
dos que apoiavam o trabalhismo dentro da classe operária também acre­ cussões. Isso é menos forte nas gerações mais recentes, embora vários jo­
ditava, embora imprecisamente, que a sociedade capitalista teria que vens estejam evidentemente procurando uma alternativa radical.
terminar, e que uma sociedade nova e melhor deveria substituí-la, não
apenas uma versão menos injusta da sociedade de então. Nesse senti­ De modo mais específico, ocorreram mudanças que desencoraja­
do, em política, a classe trabalhadora britânica, ao contrário da classe ram o velho tipo de consciência política. Assim, os valores individua­
trabalhadora norte-americana, tornou-se - e espera-se que se mante­ listas da sociedade de consumo e a busca de satisfações pessoais e par­
nha - socialista. Os historiadores que subestimaram esse aspecto da ticulares acima de tudo têm sido levados todos os dias, durante uma
ascensão do trabalhismo, especialmente entre 1918 e 1945, estavam equi­ geração, até suas salas de estar, pela mídia (Adams tinha razão ao cha­
vocados. O argumento da direita trabalhista, de que a cláusula 4 era mar a atenção para a mídia, mas eu não enfatizaria tanto as distorções
prejudicial, em termos eleitorais, mostrou-se falso e equivocado. Era e inclinações das notícias e da propaganda quanto à atmosfera cons­
uma farsa, pois a direita rejeitaria o socialismo da cláusula 4 de qual­ tante de comerciais e de programas de entretenimento aparentemente
quer maneira, e não apenas porque pensava que poderia perder votos a poIíticos). De mais a mais, o enfraquecimento da influência do pró­
por sua causa; e estava equivocado porque não impediria o trabalhis­ prio velho movimento trabalhista fez com que alguns trabalhadores fi­
mo de ganhar as eleições gerais desde a década de 50 . Nem impedirá. cassem menos resistentes a "infecções", a exemplo do racismo. Bem
Ao contrário, pode-se argumentar que os maiores avanços do traba­ ou mal, não podemos simplesmente voltar ao que Steve Jefferys cha­
lhismo tiveram lugar quando eram estimulados por grandes ondas de ma pejorativamente de "consciência de classe de Andy Capp" dos anos
esperança numa sociedade melhor, como em 1945, quando o voto tra­ 40. Por falar nisso, nunca sugeri que pudéssemos, embora, com todos
balhista cresceu até perto dos 50070. A esperança numa Grã-Bretanha os meus senões, eu sentisse muito.
transformada não foi nem será um apelo apenas para os trabalhadores E mais: não podemos simplesmente esperar que os antigos apelos
braçais. Ao contrário, numa época de crise nacional, de quase deses­ para o socialismo tenham a mesma ressonância que no passado. Hoje
pero nacional, pode ser um apelo muito mais amplo. quase não há ninguém que veja os diversos países socialistas como mo­
A base original do avanço do trabalhismo enfraqueceu-se. Hoje, delos para um socialismo britânico, nem se inspire, como antes o fa­
a classe dos trabalhadores braçais do tipo antigo, provavelmente, cons­ ziam os operários britânicos, no que viam como "o primeiro Estado
titui uma minoria e, com certeza, uma proporção menor do povo. As­ operário" na União Soviética. Depois de conviver por trinta a quaren­
sim, mesmo supondo-se que todos os antigos apoios da classe traba­ ta anos com diversas indústrias nacionalizadas, o apelo para naciona­
lhadora afluíssem de volta ao partido, não se voltaria a 1945. E con­ lizar mais algumas pode de fato ser válido e necessário, porém não dá
quanto a "nova" classe trabalhadora de colarinho branco, de técnicos mais a impressão de uma solução automática para os problemas dos
e de empregados menos categorizados esteja agora de fato grandemente trabalhadores, que dava quando WilI Lawther proclamou, em 1944:
organizada em sindicatos, e uma parte deles (especialmente no setor "O que pode ser conseguido através da propriedade pública? Ganha­
público) tenha sem dúvida se radicalizado, sua "consciência de clas­ ria a completa confiança dos mineiros e de suas famílias. Seriam varri­
se" não é necessariamente a mesma que aquela dos antigos trabalha­ das gerações de suspeitas e ódios e desenvolver-se-ia uma atitude intei­
dores braçais, e sua atração espontânea por um "partido da classe tra­
balhadora" é menor. Pode-se apostar que a porcentagem dos mem­ • AST MS: Associalion of SciCnlifi c. Technical and Managerial Slaffs; NUR: National
nion of Rai lwaym en; ASLEF: Associated Sociely o f Locomolivc Engeneers a nd Fi re·
bros do ASTMS que votam no trabalhismo é menor do que a dos men . (N .T.)

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ramente nOva em relação à indústria de mineração". A causa do so­ mo obteve maioria porque oferecia a esperança de mudanças, e per­
cialismo permanece tão fo rte quanto antes, mas deve ser inquirida de deu não apenas porque, como todos os governos desde então, provou­
um jeito novo, com propostas muito mais claras no que diz respeito se incapaz de enfrentar a crise da economia britânica, mas também por­
ao t ipo de sociedade que queremos, e o que o socialismo pode conse­ que fez quase o oposto daquilo que os eleitores do trabalhismo e os
guir . além das repetições de velhos slogans que, embora válidos, não sindicalistas esperavam de um governo trabalhista. Não há como ne­
mais contêm as mes mas convicções. Esse aspecto foi tocado por Ro­ gar o desapontamento e a desmoralização dos apoios tradicionais do
bin Blackburn, de forma correta e vigorosa. Não podemos confiar em trabalhismo. No entanto, uma vez mais, o xis do problema não repou­
nosSO passado. sa no " sólido" voto trabalhista, que quase não se modificou entre 1964
Essas observações bastam para semear dúvidas sobre a afirmação e 1970, mas no fracasso em aproveitar a oportunidade de 1966 para
de que tudo aquilo que nos separa de um próximo governo trabalhista ampliar de novo o apoio trabalhista, e mesmo em manter o apoio en­
consiste em um bom programa de esquerda para o trabalhismo e na tão obtido temporariamente. O avanço do trabalhismo não pode ser
prova de que o programa do partido não será traído. Entretanto, o retomado enquanto pensarmos simplistamente em termos de pessoas
ponto de vista de que isso seja a chave mestra para que se reassuma como aquelas que formam o amplo, mas decadente, bloco de homens
o avanço do trabalhismo baseia-se num diagnóstico mais específico da e mulheres ainda dentro do campo das velhas lealdades, apelos, dis­
derrota e da crise do trabalhismo, o que é um engano. Com a única cursos e argumentos "do movimento", ou, ainda menos, em termos
exceção de 1966, o voto trabalhista continuou a cair inexoravelmente da minoria de ativistas devotados. Uma enorme massa de potenciais
desde 1951. O partido perdeu ou venceu as eleições não por causa do eleitores do trabalhismo, mesmo entre os membros dos sindicatos. não
movimento de seus próprios apoios, mas por causa das mudanças dos mais figura entre aqueles.
votos nos conservadores e em outros partidos. O trabalhismo venceu De que !J1odoo avanço pode ser retomado? Que pode, comprovou­
em 1964 porque o voto conservador caiu em cerca de 1,7 milhão; per- . se em recentes exemplos de partidos que tiveram sucesso (pelo menos
deu em 1970 porque esse voto, o conservador, cresceu quase o mesmo por uns tempos) em romper a estagnação, o declínio e o isolamento
número; ganhou em fevereiro de 1974, e de novo em outubro, porque político, que não se restringem ao trabalhismo britânico. Mas foi con­
nas duas vezes caiu em mais de um milhão; e perdeu em 1979 porque seguido por partidos que avançaram não apenas enquanto partidos de
os votos conservadores aumentaram em mais de três milhões. Os vo­ classe, e menos ainda enquanto grupos e alianças setoriais de pressão
tos para os partidos que alcançaram o terceiro lugar também subiram de interesses m~oritários, mas enquanto "partidos do povo", com os
e desceram, como ioiôs. O próprio voto trabalhista não variou mais quais-sepõc1e identificar a maioria do povo interessado em reforma
do que uns duzentos mil entre as eleições (omitindo-se a de 1966),1 e eem mudança paulatina, enquanto porta-vozes da nação em tempos
continuou de-crescendo sempre.
de crise. Isso não significa que eles não mais se baseiem no movimento
Tudo quanto aconteceu ao trabalhismo na década de 70 claramente
trabalhista. A unidade entre socialistas e comunistas, que persiste con­
não foi devido às reações dramáticas da massa de verdadeiros eleitores
tra a oposição dentro e fora do Partido Socialista Francês e que se realça
do trabalhismo ao governos trabalhista ou a outro, mas ao resultado
pela participação comunista no governo do presidente Mitterrand, foi
das reações de pessoas que talvez devessem ter votado no trabalhismo,
a condição essencial para o seu triunfo. Mas isso não quer dizer que
e no entanto não votavam mais. Os governo trabalhistas não foram
derrotados em virtude de cisões dos eleitores do partido, desaponta­ um partido assim afasta-se de seu programa. O Partido Socialista Fran­
dos com suas marcas mais altas: em 1951, dois milhões a mais do que cês (PSF) conseguiu maioria absoluta com um programa à esquerda
em 1945 votaram no trabalhismo, e, mesmo em 1979, o governo de tudo até agora sugerido pela esquerda do trabalhismo britânico. Po­
Callaghan perdeu com um pouco mais de votos do que ganhara em tencialmente , o Partido Trabalhista é um partido assim. Precisa apren­
1974. Z Isso diminui um pouco o folclore que se criou a respeito da trai­ der de novo a agir como tal.
ção aos programas como razão para a derrota trabalhista. Existe, po­ Isso não significa que o Partido Trabalhista devesse ser e agir co­
rém, uma exceção importante: o período Wilson, de 1964 a 1970. Ne­ mo aquilo que o próprio Tony Benn vê como a primeira e principal
le, e somente nele, encontramos um crescimento de 0,8 milhão de vo­ condição do reviver do trabalhismo: "um partido amplo" conduzindo
tos para o trabalhismo em 1966, seguido por uma queda pouco maior um amplo movimento. Não significa simplesmente um reconhecimen­
em 1970. Por quê? to da diversidade dentro do partido, mas uma consciência da diversi­
Em nenhum momento os governos Wilson tiveram um programa: dade das classes e de outros grupos da população, e das aspirações e
que merecesse esse nome; portanto, não poderiam traí-lo. O trabalhis­ interesses daqueles que organizam a ampla frente progressista que tem

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de levar o trabalhismo à vitória. Significa não apenas que tanto a es­
programas "que os trabalhadores possam compreender e lutar por
querda quanto a direita do trabalhismo, mesmo às turras, pertencem
eles" ; que é desastroso quando um líder trabalhista não implementa
, a um amplo movimento e têm o direito de estar aí, algo que tem sido
" políticas que causem mais impacto na opinião da classe trabalhado­
mais prontamente reconhecido no movimento sindical do que no Par­
ra"; que '~por causa de boa parte do trabalho crítico que se desenvol­
tido Trabalhista. Terry Duffy e Tom Jackson são líderes trabalhistas
ve agora pertencer a uma variante intelectual acadêmica, não há muita
tanto quanto Alan Fisher, Arthur Scargill e Ken Gill; representam cor­ compreensão do que deve ser feito por parte do pessoal dos sindica­
rentes de opiniões legítimas dentro do movimento, por mais que quei­ lOS " ; que "os trabalhadores necessitam ver e sentir o progresso para
ramos modificar tais opiniões. E o movimento como um todo seria en­ ganhar confiança" , que "se ganha o interesse das massas pelas lutas
fraquecido se houvesse cisões entre a esquerda ou a direita. por coisas que o povo vê como justificáveis e possíveis". Talvez Jones
Mas também significa que precisamos distinguir com clareza en­ lenha se concentrado um pouco demais nas campanhas (necessárias)
tre aspectos individuais e opinião de grupos. Não suponho que alguém sobre "as políticas simples, claras e limitadas", que podem ser encara­
de esquerda se aflija por aqueles indivíduos da ala direitista que du­ das como as que trazem vantagens imediatas. As pessoas não querem
rante anos deixaram o partido e encontraram um abrigo mais de acor­ somente empregos para os que saem das escolas; querem um mundo
do com suas preferências, e presumivelmente mais próspero, em outro melhor e mais justo para seus filhos, e confiança num partido que tra­
lugar - os Shawcross, Roben, e o restante. Não suponho que a perda balh ará para isso, além de qualquer programa imediato, E o trabalhis­
de Roy Jenkins, como pessoa, tenha sido muito pranteada. Mas é um mo precisa ter um apelo não apenas para o povo trabalhador, mas pa­
engano pôr de lado a cisão coletiva dos soáaldemocratas e a fundação ra todos que precisam desse mundo melhor e mais justo. Mas, apesar
de novo partido como um escape. Representa a perda de um impor­ disso , Jones estava fundamentalmente correto.
tante setor da classe média de centro-esquerda, que há muito namora­ O futuro do trabalhismo e o avanço do socialismo dependem da
va o trabalhismo, e em muitos casos operava ativamente para o traba­ mo bilização de gente que se lembra da data de lançamento dos Beatles
lhismo mais do que para alguns outros partidos. Como está claro ago­ e não da data dos piquetes de Saltley; gente que nunca leu o Tribune
ra, potencialmente representa um enfraquecimento eleitoral significa­ e que não tem o mínimo interesse pela liderança representativa do Par­
tivo do Partido Trabalhista - o quanto, ainda não está claro. Em su­ tido Trabalhista, exceto (se apoiar o trabalhismo) no caso de ser per­
ma, representa uma porção de gente que deveria apoiar o Partido Tra­ turbada pelo fato de que, enquanto os britânicos soçobram após mais
balhista, e que novamente precisa ser conquistada para isso, seja qual de dois anos de thatcherismo, o partido pareça gastar muito de seu tem­
for nossa opinião sobre o Bando dos Quatro . E quem imagina que um po em lacerações mútuas. As pessoas podem estar enganadas, mas a,
Partido Trabalhista sem tais apoios vai ser, pelo menos, uma força mais razão pela qual essas lutas não são remotas e incompreensíveis não foi
forte, mais comprometida e mais unida para o socialismo, deveria pa­ explicada de maneira a satisfazê-las. O futuro do trabalhismo e do so­
rar para pensar. Como historiador e como marxista com memória po­ cialismo depende de homens e mulheres, colarinhos azuis, brancos, sem
lítica de mais de meio século, conheci uma porção de partidos fortes, colarinhos, que vão do primário ao doutorado, que infelizmente não
comprometidos, grandes, pequenos e minúsculos, com programas ad­ são revolucionários, mesmo querendo uma Grã-Bretanha nova e me­
miráveis, exceto enquanto parcelas ocasionais de coalizões às quais eles lho r. Neste século, o trabalhismo avançou com o apoio dessa gente,
estavam algemados muito mais por seus parceiros burgueses do que que aceitou a liderança da esquerda quando isso fazia sentido aeotro
os que apoiavam Benn precisavam estar, por terem que conviveL cQm de sua própria maneira de pensar. Se o trabalhismo quiser avançar de
os que apoiavam Healey. Além do mais, a experiência da esquerda in­ novo , não se pode esquecer disso. Pois, se essas pessoas não votarem
felizmente sugere que, nestes tempos, mesmo um partido socialista com­ no trabalhismo - o que constitui um indicador mínimo de apoio polí­
prometido não escapará das divisões' e brigas internas. tico - então o trabalhismo não se recuperará de seu longo declínio.
Como nos lembrou Jack Jones, o partido que restaurar o avanço Existem apenas três modos possíveis de evitar essa conclusão . Po­
do trabalhismo deve pensar a política em termos de gente comum den­ demos supor que ainda exista uma enorme massa de homens e mulhe­
tro e fora do movimento, e não simplistamente em termos dos..ati; is­ res identificada com "o movimento" e que automaticamente apoiaria
tas que são atípicos, .como se eles gastassem muito mais tempo e ener­ qualquer liderança e qualquer política porque representam o trabalhis­
gia no movimento do que a maioria dos homens e mulheres. Podemos mo, quando chega a hora de votar. Seríamos imprudentes se continuás­
ou não concordar com Jones acerca do Contrato Social, mas ele esta­ semos a confiar nisso. Entretanto , milhões continuarão leais, aconte­
va coberto de razão em repisar , incansavelmente, que precisamos de ça ° que acontecer, mas eles não serão suficientes. Também podemos

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supor que em alguma parte exista um vasto, desconhecido e in explora­ IV
do reservatório de vo tos de esq uerda. No momento, não há nenhuma
evidência que legitime essa visão. P or último, podemos apostar na fa­
lênci a do capitalismo e da política britânicos , o que levaria a uma crise COM VISTAS AO ANO 2000:

na qual as massas se voltariam para a esquerda. Uma vez que estamos POLÍTICA DE DECLÍNIO ? (1982)

numa crise como essa, na qual o capitalismo britânico está falindo ;


uma vez que a política tradicional e o preceito do sistema de classe se
mostram visivelmente incapazes de se portarem como antigamente, es­
se não consti! ui um cenário implausível . Mas se até agora essa crise
mostrou alguma coisa, é que as massas pelo que se saiba não se volta­
ram para o trabalhismo ou para a esquerda, nem parece que fariam
isso a utomaticamente.
Mesmo com o declínio do voto trabalhista, o trabalhismo ainda
poderia formar o próximo governo, se o curioso sistema eleitoral bri­
tânico produzir uma maioria parlamentar, porque o voto antitraba­ Durante um século, o declínio e a queda da Grã-Bretanha foram
Ibista está suficientemente dividido entre conservadores, liberais, so­ esperados como certos e corretos, com resultados que dependiam das
ci aldemocratas e quem mais houver. Não há dúvida de que os políti­ esperanças e preferências dos profetas. Embora a Alemanha imperial
cos, comentaristas, oscilometristas já estão ocupados, computando as e os Estados Unidos pudessem substituir a Grã-Bretanha como impé­
possibilidades em suas calculadoras de bolso . Nessas circunstâncias, rio mundial, relegaram-na à segunda divisão como potência industrial.
um governo trabalhista comprometido ainda conseguiria muita coisa. Aqueles dois países sonhavam com o poder mundial através das suas
Mas não nos enganemos . Nessas circunstâncias, os problemas para se marinhas. O modelo do século XX de controle americano global, ago­
reverter o declínio do trabalhismo e reassumir o seu avanço ainda não ra meio embaçado, foi copiado da versão britânica do século XIX (paz
fo ram resolvidos nem sequer abordados . A tarefa ainda estaria lá para americana), assim como, em sua época, o modelo britânico inspirara­
nós a enfrentarmos. E não teríamos desculpas se fracassásemos . se em memórias de outro império, em cujo declínio e queda, apesar
de Gibbo n, prestou-se pouca atenção.
Engels, o primeiro de uma longa linhagem de socialistas esperan­
çosos, tinha expectativas de que o proletariado britânico reconhecesse
Seu destino histórico desde que não estivesse mais acomodado aos lu­
cros ou superlucros do monopólio mundial e, mais tarde, imperial. Mas
tanto quanto se comemora o declínio imperial britânico, lamenta-se
(como o fizeram apaixonadamente as classe médias anglófilas e libe­
rais da Europa central - Sigmund Freud é exemplo disso) que tenha
aco ntecido o fato que parecia inevitável a todos, ,menos para a maioria
dos britânicos, que quase não conseguiam acreditar nele. Algo parecia
destinado a acontecer. Não aconteceu. E agora enfrentamos o eviden­
te declínio da Grã-Bretanha, fortemente acelerado nos últimos quinze
anos - com uma boa ajuda do governo britânico, desde 197<t - com
Conseqüências a longo prazo para os negócios políticos e sociais deste
país. E quais seriam?
A mais óbvia dessas conseqüências é a desindustrializa~ão. É cla­
ro que estamos familiarizados com a desindustriãIiz ãçàÕ completa, que
acabou sendo o destino comum dos velhos centros mineiros, como Cor­
nualba ou Gales do Norte, cujas economias hoje dependem do turis­
mo. A dificuldade é imaginar que isso, acontecendo em Merseyside ou

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