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As críticas (objeções) à ética deontológica de Kant

1 – As regras morais não são absolutas


Kant defende que para agirmos moralmente temos de respeitar de forma
incondicional um conjunto de algumas regras morais (deveres ditados pela nossa razão).
Para Kant, essas regras morais são absolutas, são para serem respeitadas de forma
incondicional, sem exceções, em todas as situações do nosso quotidiano.
Uma dessas regras é o nosso “dever de não mentir”. Para Kant, não devemos
mentir em toda e qualquer situação. Mas quererei eu que este princípio de ação se
aplique universalmente a todos os casos possíveis de ação? Vamos ver um caso em que
é preferível mentir a dizer a verdade, ou seja, em que é moralmente mais correto mentir
a dizer a verdade, sendo o caso de termos de mentir com vista a salvarmos a vida de uma
pessoa (lembre-se de que Kant admitira que não existiam exceções para a violação ou
desobediência a estas regras morais).
Imagine que vai na rua e de repente vê um rapaz a correr aflito na sua direção,
entrando, logo de seguida, numa casa abandonada que se encontrava ao seu lado.
Poucos segundos depois, quando retomava o seu percurso, avista um homem com uma
pistola na mão que lhe pergunta de relance se viu algum rapaz a correr, percebendo de
imediato, naquele momento, que o homem teria a intenção de disparar contra o rapaz
e, provavelmente, de matá-lo. O que diz ao homem? Tem duas possibilidades de ação.
Uma das possibilidades é dizer a verdade ao homem, dizendo-lhe que o rapaz se
encontra mesmo ali ao vosso lado, no interior da casa abandonada, sabendo que as
consequências do que afirmou poderão eventualmente resultar na morte do rapaz.
A outra das possibilidades é mentir, dizendo ao homem que o rapaz seguiu em
frente. Mentir? Mas isso Kant não o permitiria, diria. Exato, não o permitiria. Mas o que
é que para si é moralmente mais correto, dizer a verdade e pôr em causa a vida de uma
pessoa ou mentir e provavelmente salvar a vida de uma pessoa? De acordo com uma das
formulações do imperativo categórico de Kant, como irias querer que todas as pessoas
agissem quando confrontadas com essa situação:
1 – Que mentissem e não pusessem em causa a vida de um jovem
2 – Que dissessem a verdade e pusessem em causa a vida de um jovem.
Vamos colocar as duas na balança da decisão ética. Tenho a certeza de que a
maioria das pessoas concordaria com a primeira das hipóteses.
É claro que Kant iria afirmar que, dizendo a verdade ou pura e simplesmente
mentindo, as consequências são imprevisíveis. Portanto, o melhor é sempre dizermos a
verdade, aquilo que a nossa razão nos ordena. Mas isto é absurdo, porque um caso como
este põe em causa a vida de uma pessoa e, neste sentido, podemos dizer que as
consequências daquilo que afirmamos poderão provavelmente resultar na morte de um
jovem.
Ora, este exemplo revela que nem sempre é moralmente correto termos de
respeitar de forma incondicional as regras morais da nossa consciência racional, tal como
Kant nos tinha dito. Logo, concluímos que as regras morais não são absolutas.

2 – A situação dos casos de conflito


Uma certa pessoa tem de optar entre duas possibilidades de ação (fazer A ou fazer
B). Verifica-se que fazer A é moralmente incorreto e fazer B é moralmente incorreto. O
que faria o defensor da teoria ética de Kant perante esta situação?
Atente na seguinte situação: “Durante a Segunda Guerra Mundial, os pescadores
holandeses transportavam, secretamente nos seus barcos, refugiados judeus para
Inglaterra e os barcos de pesca com refugiados a bordo eram por vezes intercetados por
barcos patrulha nazis. O capitão nazi perguntava então ao capitão holandês qual o seu
destino, quem estava a bordo, e assim por diante. Os pescadores mentiam e obtinham
permissão de passagem. Ora, é claro que os pescadores tinham apenas duas alternativas,
mentir ou permitir que os seus passageiros (e eles mesmos) fossem apanhados e
executados. Não havia terceira alternativa.”
Os pescadores holandeses encontravam-se então na seguinte situação: ou
“mentimos” ou “permitimos o homicídio de pessoas inocentes”. Os pescadores teriam
de escolher uma dessas opções. De acordo com Kant, qualquer uma delas é errada, na
medida em que as regras morais “não devemos mentir” e “não devemos matar” (ou
permitir o assassínio de inocentes, no caso do exemplo dado) são absolutas. O que fazer
então?
Verificamos que a teoria ética de Kant não saberia responder perante uma
situação de conflito, porque proíbe ambas as possibilidades de ação por estas se
revelarem moralmente incorretas. Mas a verdade é que, perante uma situação destas, a
qual por acaso se passou na realidade, teríamos de optar por uma dessas duas
possibilidades. Se a teoria ética de Kant nos proíbe de optar por uma delas, mas na
realidade somos forçados a optar por uma, a teoria ética de Kant revela-se incoerente.
Incoerente porque aquilo que concluímos (existem casos em que temos de mentir)
contradiz aquilo que Kant defende (não devemos mentir nunca e em qualquer situação
e isto porque para Kant as regras morais são absolutas).

3 - Por vezes é impossível decidir sem olhar às consequências da ação

"A teoria de Kant não dá atenção às consequências da ação. Isto significa que
idiotas bem-intencionados que, involuntariamente, causem várias mortes em
consequência da sua incompetência, podem ser moralmente inocentes à luz da teoria de
Kant, uma vez que seriam primariamente julgados pelas suas intenções.
Mas, em alguns casos, as consequências das ações parecem relevantes para uma
apreciação do seu valor moral: pense como se sentiria em relação a uma baby-sitter que
tentasse secar o seu gato no micro-ondas. Contudo, para ser justo com Kant a este
respeito, é verdade que ele considera condenáveis alguns tipos de incompetência."

4 - As emoções e os sentimentos são componentes essenciais da natureza humana, não


podendo ser descartados

Segundo as mais recentes descobertas da neurociência é impossível separar a


racionalidade das emoções. Só somos racionais graças aos centros cerebrais que
processam as emoções - o sistema límbico tem um papel determinante na memorização
e na aprendizagem e no processamento das emoções básicas, como o medo e a
agressividade, enquanto o córtex pré-frontal, quase inexistente nos outros mamíferos,
processa as emoções superiores, indispensáveis no caso das decisões morais. O cérebro
não seria capaz de processar estas decisões sem a interferência das emoções. Aliás,
também não seria capaz de funcionar corretamente ao nível do raciocínio lógico-
matemático: mesmo com um nível tão grande de abstração, as emoções ajudam-nos a
encontrarmos as respostas corretas, é pelo menos o que revelam medições da atividade
elétrica do cérebro de pessoas a resolverem problemas matemáticos, as áreas do seu
cérebro responsáveis pelo processamento emocional estão muito ativas, o que
leva António Damásio a defender que não há raciocínio ou decisão sem as emoções.
A forma como Kant descreve a ação moral aproxima-se, surpreendentemente, da
forma como funciona a mente dos sociopatas (também designados como psicopatas):
são indivíduos incapazes de sentir compaixão pelos outros e que agem friamente na
prossecução dos seus interesses, sem se preocuparem com as consequências das suas
ações na vida dos outros. No entanto, se os sociopatas seguissem o imperativo categórico
nunca usariam as outras pessoas como meios para alcançarem os seus fins.
O problema está em saber se conseguiríamos viver uma vida humana se
seguíssemos a ética Kantiana. Talvez a questão deva ser reformulada: sendo humanos (e
não sendo sociopatas) poderíamos seguir sempre a ética de Kant? Conseguiríamos viver
em família se na base da nossa relação com os nossos familiares não estivesse um
profundo vínculo afetivo?

5 - O amor e a compaixão têm importância ética

"O papel que a teoria de Kant dá a emoções tais como a compaixão, a simpatia e
a piedade parece inadequado. Kant afasta tais emoções como irrelevantes para a moral:
a única motivação apropriada para a ação moral é o sentido do dever.
Sentir compaixão pelos mais necessitados - apesar de, de certos pontos de vista,
poder ser digno de louvor - não tem, para Kant, nada a ver com a moral. Pelo contrário,
muitas pessoas pensam que há emoções distintamente morais - tais como a compaixão,
a simpatia e o remorso - e separá-las da moral, como Kant tentou fazer, será ignorar um
aspeto central do comportamento moral."

6 - O formalismo kantiano é desumano

"A teoria ética de Kant, e sobretudo a sua noção de universalizabilidade dos juízos
morais, é por vezes criticada por ser vazia. Isto significa que a sua teoria só nos oferece
um enquadramento que revela a estrutura dos juízos morais sem ajudar em nada os que
estão perante tomadas de decisão morais efetivas. Dá pouca ajuda às pessoas que
tentam decidir o que devem fazer.
Esta crítica negligencia a versão do imperativo categórico que nos ensina a tratar
as pessoas como fins e nunca como meios. Nesta última formulação, Kant dá, sem dúvida,
algum conteúdo à sua teoria moral. Mas, mesmo combinando a tese da
universalizabilidade com a formulação dos meios e dos fins, a teoria de Kant não oferece
soluções satisfatórias para muitas questões morais.
Por exemplo, a teoria de Kant não consegue dar facilmente conta dos conflitos
entre deveres. Se, por exemplo, eu tenho o dever de dizer sempre a verdade, e também
o dever de proteger os meus amigos, a teoria de Kant não me poderia mostrar o que
deveria fazer quando estes deveres entram em conflito. Se um louco com um machado
me perguntasse onde está o meu amigo, a minha primeira reação seria mentir-lhe. Dizer
a verdade seria fugir ao meu dever de proteger o meu amigo. Mas, por outro lado,
segundo Kant, dizer uma mentira, mesmo numa situação limite como esta, seria uma
ação imoral: tenho o dever absoluto de nunca mentir."
Este formalismo é desumano, porque os seres humanos necessitam, desde a mais
tenra idade, de se sentirem amados, e isto é importante para a formação da autoestima.
As pessoas com uma autoestima saudável tendem a sentir que a sua vida tem sentido,
alcançando níveis de autorrealização superiores em relação às pessoas com uma fraca
autoestima. Isto também se reflete na saúde: as pessoas que se sentem realizadas (no
fundo, que se sentem felizes) têm tendencialmente um sistema imunitário mais robusto
do que as pessoas que se sentem deprimidas e insatisfeitas consigo próprias.
As pessoas que são mais compassivas tendem também a ter uma atitude positiva
em relação à vida, o que lhes traz muitos benefícios ao nível da sua saúde física e psíquica,
porque tendem a sentir-se seguras no seu ambiente e têm níveis de stresse baixos,
porque não têm uma visão conflituosa da vida, o que tem consequências muito positivas
ao nível do sistema cardiovascular (só para citar este exemplo).
Se as pessoas fossem exclusivamente motivadas pela obediência ao dever moral
teriam relações frias e desapegadas, sendo difícil perspetivar a vida familiar sem afeto,
ou aceitar que as pessoas conseguissem ter relacionamentos significativos sem amor.
Casar por amor pode tornar-se numa lei universal? Se sim, não estaríamos perante uma
máxima que contraria a lei moral? É que o amor é uma inclinação sensível...