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RECURSO ESPECIAL Nº 257.832.

4/3-01
Recorrente: Márcia Maria Funchal da Silva
Recorridos: o Ministério Público de São Paulo e Outros
CONTRA-RAZÕES DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE SÃO PAULO, pela
Procuradoria de Justiça de Interesses Difusos e Coletivos

Egrégio Superior Tribunal de Justiça

Colenda Turma

Eminentes Ministros

I- Resumo dos autos e dos argumentos recursais

Por meio do v.acórdão de fls. 4073/4082, com


declaração de voto vencedor do Exmo.Revisor às fls.4083/4085, houve
por bem a Colenda Décima Câmara de Direito Privado do Tribunal de
Justiça do Estado de São Paulo, em negar provimento, por votação
unânime, a todos os recursos de apelação interpostos em face da
r.sentença de fls.3.696/3733, que foi mantida, assim, em toda a sua
integridade.

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A r.sentença de Primeira Instância, mantida pelo
v.acórdão recorrido, proibiu os réus de continuar a praticar qualquer
ação, seja publicitária, de venda, promessa de venda, recebimento de
valores ou mesmo de modificação física do imóvel descrito na inicial,
sob pena de multa diária, condenando-os ainda, a indenizarem os
prejuízos causados aos consumidores adquirentes, inclusive danos
morais, no importe de R$ 1.000,00 para cada um.
Entendeu o Egrégio Tribunal de Justiça, para assim
decidir, que restou sobejamente comprovado nos autos, que a Promorar
estava alienando frações ideais de um terreno, onde seria edificado um
conjunto habitacional pela Habitar, sem terem sido cumpridos os
requisitos legais para tanto, quais sejam a aprovação da Prefeitura com
relação aos projetos de construção, a aquisição definitiva do imóvel e o
registro da incorporação imobiliária no Cartório de Registro de Imóveis,
como manda o art.32 da Lei nº 4.591/64, tratando-se de empresa com
fins lucrativos travestida de Associação, havendo legitimidade do MP
em defender o interesse dos consumidores presentes e futuros, e dever
solidário de todos os réus de reparar os prejuízos causados aos
consumidores, sendo correta a desconsideração da personalidade
jurídica das empresas, em virtude do abuso de direito constatado nos
autos, e aplicando-se ao caso o CDC.
Interpostos embargos de declaração às
fls.4089/4091, pelo réu Alberto Teixeira, foram os mesmos rejeitados
pelo v.acórdão de fls.4095/4097, por votação unânime, por se entender
que o v.acórdão embargado analisou todas as questões levantadas,
explícita ou implicitamente, não havendo nenhuma omissão a ser
sanada.
Inconformada com o v.acórdão que confirmou a
r.sentença condenatória, recorre a ré Márcia Maria Funchal da Silva

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para este Egrégio Superior Tribunal de Justiça, alegando que, apesar
de ser sócia da Promorar e ter ingressado na Habitar em 1997, não
teria o MP alegado nem demonstrado nos autos a sua participação nos
fatos, não tendo a mesma concorrido para os mesmos, pelo que não
teria legitimidade para figurar no pólo passivo da presente ação. O
v.acórdão, assim, teria violado o disposto no art.3º do CPC.
Alega, ainda, suposta ilegitimidade ativa do MP,
porque o número de consumidores seria limitado, inexistindo interesses
individuais homogêneos a serem protegidos, mas sim meros interesses
individuais, uma vez que cada contrato possuiria o seu valor e a sua
forma de pagamento. Assim, teriam sido violados os artigos 81, § único,
III e 82, I, do CDC.
Contra-Razões por duas consumidoras às
fls.4124/4126 e 4128/4130.
É a síntese do necessário.

II- ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO AO ART.3º DO CPC por ilegitimidade


passiva “ad causam”da Recorrente

a- Falta de Prequestionamento do art.3º do CPC e da matéria nele


tratada – Súmulas 211 deste E.STJ e Súmulas 282 e 356 do E.STF

O v.acórdão recorrido não analisou a ocorrência de


suposta violação ao art.3º do CPC, não tendo a Recorrente
apresentado embargos de declaração, para provocar o necessário
prequestionamento desta questão federal.

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Além de não ter sido prequestionada a análise de
tal dispositivo legal propriamente dito, também não houve
prequestionamento da matéria pelo mesmo tratada, e que a Recorrente
ora almeja ver apreciada por este E.Superior Tribunal de Justiça,
relativa à sua específica participação nos fatos objeto desta ação.
Com efeito, o v.acórdão de fls. 4073/4082, com a
declaração de voto vencedor do Exmo.Revisor às fls.4083/4085,
confirmaram a condenação solidária de todos os réus, de forma muito
bem fundamentada, por terem eles dirigido as empresas Promorar
(Incorporadora) e/ou Habitar (construtora), que firmaram com inúmeros
consumidores de São Vicente, contratos de venda de frações ideais do
terreno especificado na inicial, e de construção das unidades
autônomas, respectivamente, sem o prévio e necessário registro da
incorporação imobiliária, bem como sem a aquisição da propriedade ou
de quaisquer direitos reais sobre o bem pela Promorar e, ainda, sem a
obtenção de prévia autorização dos projetos de construção pela
Prefeitura.
Todos os réus participaram de ambas ou de uma
destas empresas, incorporadora e construtora respectivamente, na
qualidade de Diretores, assumindo, ainda que sucessivamente,
responsabilidades a elas inerentes sobre os negócios e/ou obras objeto
desta ação e obtendo lucro pelo recebimento das prestações dos
consumidores (fls.02/39), de forma que aplicou-se ao caso o disposto
no artigo 7º, § único, do CDC, segundo o qual tendo mais de um autor a
ofensa, todos responderão solidariamente pela reparação dos danos.
Relativamente à Recorrente, como constou
expressamente da inicial, em 01º de junho de 1996, ingressou como
sócia da Habitar, no lugar do anterior Diretor Alberto Teixeira (fls.17),
quando ainda estavam sendo realizados os contratos de construção

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entre a Habitar e os consumidores, com a anuência da Promorar
(Incorporadora), tanto que a ação civil pública foi ajuizada em 15.07.98
(fls.02), formulando-se pedido de liminar, para que fosse a Habitar,
dentre outros pedidos, obrigada a parar de realizar tais contratos e,
ainda, de realizar obras no terreno, vez que, àquela época, já havia
construído no local casas e levantado dois prédios (fls.02/39).
Assim, se a Recorrente entendia cabível uma
análise mais detalhada de sua participação nos fatos objeto desta ação,
deveria ter apresentado embargos de declaração, para esgotar todas as
possibilidades processuais prévias existentes para tanto, antes de
ingressar com o presente recurso especial.
A Recorrente, no entanto, conformou-se com a
análise de sua participação feita da foram como feita pelo v.acórdão
recorrido, deixando de apresentar embargos de declaração, o que
efetivamente poderia ter feito, nos termos do art.535 do CPC.
Desta forma, deixou de esgotar a matéria junto à
Instância inferior, não tendo o v.acórdão recorrido, desta forma, tratado
da suposta violação ao art.3º do CPC, ou mesmo dos atos específicos
praticados pela Recorrente, o que torna inadmissível o presente recurso
especial, por suposta violação ao art.3º do CPC, nos termos da Súmula
211 deste Egrégio Tribunal, bem como das Súmulas 282 e 356 do
E.STF, aplicáveis também ao recurso especial, segundo as quais,
respectivamente, “É inadmissível o recurso extraordinário quando não
ventilada, na decisão recorrida, a questão federal suscitada”, e “O
ponto omisso da decisão, sobre o qual não foram opostos embargos
declaratórios, não pode ser objeto de recurso extraordinário, por faltar o
requisito do prequestionamento”.

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b- Reexame de prova – Óbice da Súmula 7 deste E.STJ

Realmente, a Recorrente alega suposta


ilegitimidade para figurar no pólo passivo da ação, mas, na realidade, o
que pretende, é fazer valer a sua tese de que não teria contribuído ou
participado dos fatos objeto desta ação, o que, evidentemente, envolve
matéria de fato probatória, que não pode ser reexaminada nesta via,
nos termos da Súmula 7 deste Egrégio Superior, segunda a qual “A
pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial”.

Assim conforme já está de há muito assentado, “A


instânica especial recebe a situação fática da causa tal como a retrata a
decisão recorrida” (RSTJ 78/247).

“Recurso especial. Impossibilidade de considerar


elementos de fato diversos daqueles em que se assentou o acórdão
recorrido. Destina-se o recurso a velar pela exata aplicação do direito
aos fatos que as instâncias ordinárias soberanamente examinaram”
(STJ-3ª Turma, Ag.3.742-RJ-AgRg, Relator Min.Eduardo Ribeiro,
j.4.9.90, negaram provimento, v.u., DJU 9.10.90, p.10.895).

“Recurso especial. Inadmissibilidade, se envolve


matéria de fato de que não cuidou o acórdão. A bse empírica para o
julgamento do especial é a fornecida pelas instâncias ordinárias” (STJ –
3ª T., Resp 8.284-MG, Rel.Min.Eduardo Ribeiro, j.13.8.91, não
conheceram, v.u., DJU 2.9.91, p.11.811).

c- Mérito

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A Recorrente possui inquestionável legitimidade
passiva para figurar no pólo passivo desta ação, porquanto conforme
constou da inicial e se tornou incontroverso nos autos, se tornou sócia
da Habitar em 01º de junho de 1996, ingressando na sociedade no
lugar do anterior Diretor Alberto Teixeira (fls.17).
Ao contestar a ação, não impugnou a sua
participação específica nos fatos, assumindo, pelo contrário, a defesa
das rés Promorar e Habitar, procurando colocar a culpa nos
consumidores (fls.3244/3268), conforme, inclusive, reconhecido pelo
MM.Juiz de Primeira Instância (fls.3720), deixando, ainda, de arguir em
embargos de declaração contra a r.sentença, sua suposta ilegitimidade
passiva “ad causam” (fls.3767/3768).
Quando do ajuizamento da ação, era a Recorrente
quem estava agindo pela Habitar e, pois, recebendo as prestações
pelos contratos de construção firmados pelos consumidores e dando
continuidade à obra, apesar de inexistir alvará da Prefeitura para tanto
(fls.02/39).
Portanto, se dentre os pedidos formulados na
inicial, se encontravam o de paralisação da obra, o de não mais se
firmar contratos de construção, o de proibição do recebimento das
prestações daqueles contratos já firmados, e o de indenização pelos
danos causados aos consumidores, fica evidente a necessidade e o
cabimento de a Recorrente não só constar do pólo passivo da ação,
como também de arcar com todas as condenações que lhe foram
impostas, devendo responder, solidariamente, com os demais réus, nos
termos do art.7º, § único, do CDC.

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III – ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO AOS ARTIGOS 81, § único, III e 82,
I, do CDC – Ilegitimidade Ativa do MP, para a defesa de Interesses
Individuais Homogêneos.

a- Falta de prequestionamento

Com efeito, o v.acórdão de fls. 4073/4082,


incluindo-se a declaração de voto vencedor do Exmo.Revisor às
fls.4083/4085, não analisou, especificamente, o disposto nos artigos 81,
§ únicos, inciso III, e 82, I, do CDC, os quais tratam da legitimidade do
MP, para a proteção de interesses ou direitos individuais homogêneos.

A Recorrente também não ingressou com embargos


de declaração, visando provocar uma análise sobre estes artigos pelo
E.Tribunal de Justiça “a quo”, ou mesmo visando provocar uma análise
mais específica sobre esta legitimidade do Ministério Público.

Assim, não houve análise da questão federal


suscitada, explícita ou implicitamente, pelo v.acórdão recorrido, e nem
foram interpostos embargos de declaração para tanto pela Recorrente.

Observe-se que na declaração de voto vencedor,


analisou-se apenas a legitimidade do MP para a proteção de interesses
“metaindividuais”, que são os difusos ou coletivos (artigo 81, § único, I e
II, do CDC) , e não os individuais homogêneos (fls. 4083), objeto da
irresignação recursal.

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Portanto, por falta do necessário
prequestionamento da matéria de ordem federal suscitada, é o caso de
se negar seguimento ou de não conhecimento do presente recurso, nos
termos das Súmula 211 deste Egrégio Tribunal, bem como das Súmulas
282 e 356 do E.STF, aplicáveis também ao recurso especial, segundo
as quais, respectivamente, “É inadmissível o recurso extraordinário
quando não ventilada, na decisão recorrida, a questão federal
suscitada”, e “O ponto omisso da decisão, sobre o qual não foram
opostos embargos declaratórios, não pode ser objeto de recurso
extraordinário, por faltar o requisito do prequestionamento”.

b- Mérito

Caso o presente recurso venha a ser admitido por


alegada violação aos artigos 81, § único, inciso III, e 82, I, do CDC, o
que se admite somente para efeitos de argumentação, será o caso de
se lhe negar provimento, pelas razões a seguir expostas.
A presente a ação civil pública foi proposta para a
tutela de interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos
(fls.02/39), tendo sido neste sentido também proferida a r.sentença de
Primeira Instância (fls.3696/3733), confirmada pelo v.acórdão recorrido
(fls.4073/4085).
Realmente, visou-se a tutela de interesses difusos,
ao se pretender e obter a proteção de todos aqueles possíveis
consumidores, pessoas indeterminadas, que poderiam vir a contratar
com as empresas rés Promorar ou Habitar, a aquisição de frações

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ideais ou a construção nelas de unidades autônomas, no terreno
descrito na inicial (art.129, III, da CF, c/c o art.81, § único, I, do CDC).
Assim, ao acolher neste sentido o pedido do Autor,
condenando os réus a não mais praticarem qualquer ato contratual ou
de publicidade tendo por objeto o empreendimento descrito na inicial,
exerceu o Poder Judiciário típica tutela de interesses difusos,
entendidos como tal aqueles transindividuais , de natureza indivisível,
de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por
circunstâncias de fato (art.129, III, da CF, c/c o art.81, § único, I, do
CDC).
Visou-se, ainda, a tutela de interesse e direitos
coletivos, de todos os consumidores que já haviam firmado contratos
com a Promorar e a Habitar, ao se pleitear e obter provimento
jurisdicional determinando aos réus, a proibição de receber quantias
relativas a tais contratos, bem como a parar com todas as obras já
iniciadas no local (fls.02/39 e 3732).
Sob estes aspectos, aqueles que já haviam
contratado com a Promorar e a Habitar são titulares de direitos
transindividuais de natureza indivisível, constituindo-se em um grupo de
pessoas ligadas com a parte contrária por uma relação jurídica base
(art.129, III da CF, c/c o art.81, § único, inciso II, do CDC).
Relativamente a tais provimentos jurisdicionais,
para a tutela de interesses difusos e coletivos, não se insurgiu a
Recorrente e nem qualquer outro réu, tratando-se, pois, de matéria
transitada em julgado, e tornada imutável pelos efeitos da coisa julgada
material.
A Recorrente se insurge apenas, com relação à
tutela da terceira classe de interesses objeto desta ação, que são os

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interesses individuais homogêneos de todos aqueles consumidores que
sofreram danos pelos atos ilícitos praticados pelos réus.
Ao pleitear na inicial, e obter, a condenação dos
réus à devolução de tudo o quanto foi pago pelos consumidores, bem
como a condenação daqueles a ressarcirem todos os prejuízos
materiais e morais causados a estes últimos, visou e obteve o Ministério
Público a tutela de interesses individuais homogêneos, entendidos
como tal os decorrentes de origem comum (art. 129, IX, c/c o art.127,
“caput”, e com o art.81, § único, inciso III, do CDC).
Com efeito, o Ministério Público possui inequívoca
legitimidade processual para vir a Juízo pleitear por esta tutela.
O interesse social envolvido e ferido por esta ação,
e a grande dispersão do número de lesados, bem evidenciam esta
legitimidade.
Realmente, como muito bem observado pelo
MM.Juiz “a quo”, a presente a ação versa sobre bem de primeiríssima
necessidade do ser humano, qual seja, a moradia, sem a qual não é
possível se conceber uma existência digna.
Segundo constou da inicial e foi definitivamente
julgado pelas Instâncias Inferiores, os réus lançaram ampla publicidade
em São Vicente, voltada a pessoas humildes e de baixa renda, inclusive
aos operários portuários e aos servidores públicos municipais, firmando
com os mesmos contratos de venda de frações ideais vinculadas a
futuras unidades autônomas que seriam construídas, mediante
pagamentos à vista e em prestações (Promorar), bem como firmaram
contratos de construção desta unidades autônomas, também mediante
o pagamento de prestações mensais (Habitar), tendo chegado a
receber por isso o valor de Cr$ 4.075.920,000,00 (quatro bilhões e
setenta e cinco milhões e novecentos mil cruzeiros).

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Ocorre que tal publicidade, e tais contratos, de
venda e de construção, foram realizados pelos réus antes de tomadas
as providências legais mínimas necessárias previstas na lei nº 4591/64,
tais como a obtenção de autorização da Prefeitura para construir no
local, a aquisição de direitos reais sobre o imóvel pela Incorporadora, e
a obtenção do prévio registro da incorporação (fls.3696/3733).
E o que é pior, conforme também definitivamente
julgado, os réus agiram com alta dose de má fé, porquanto a Promorar
se apresentava ao público consumidor travestida de suposta
Associação, sem finalidade lucrativa, quando, na realidade, tratava-se
de empresa em típica atividade de incorporação imobiliária, com
evidente intuito lucrativo, tanto que adquiriu o terreno por Cr$
1.500.000.000,00 (hum bilhão e quinhentos milhões de cruzeiros),
auferindo com a venda de 408 frações ideais do terreno o lucro de Cr$
2.575.920.000,00 (dois bilhões, quinhentos e setenta e cinco milhões e
novecentos e vinte mil cruzeiros).
A Habitar, por sua vez, cujos donos eram ou foram
os mesmos da Promorar, além de firmar contratos de construção com
cada consumidor, recebendo prestações por isso, sabedora de que a
Promorar não tinha obtido o prévio registro da incorporação imobiliária e
nem a aquisição de direitos reais sobre o terreno, começou a construir
na área, onde chegou a edificar dois prédios e várias casas, sem a
obtenção de prévia autorização da Prefeitura.
Assim, houve um plano preparado por todos os
réus, visando à obtenção de vantagem indevida, induzindo os
consumidores em erro, mediante fraude, prejudicando-os em seu
patrimônio e em sua boa-fé, frustrando-lhes o sonho tão esperado, de
adquirirem a casa própria.

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Ludibriaram, assim, população de baixa renda, já
tão sofrida neste País, com a falta de auxilio governamental em tantas
áreas.
Inquestionável, portanto, a relevância e o interesse
social dos interesses defendidos por meios desta ação, os quais se
encontram, inclusive, protegidos por normas constitucionais expressas,
constituindo-se a proteção da propriedade, sua função social e a
proteção do consumidor, em direitos fundamentais garantidos pelo
art.5º, “caput” e inciso XXXII, da CF, e em princípios a serem
observados pela ordem econômica (art.170, II, III e V, da CF), sendo
certo, ainda, que a dignidade da pessoa humana não pode existir sem a
moradia, e muito menos quando o cidadão de baixa renda é enganado,
levado a empregar os seus parcos recursos na ilusão de realizar o
sonho de aquisição da casa própria (art.1º, III, da CF), tratando-se de
golpe que em muito prejudica o desenvolvimento nacional, provocando
o aumento da pobreza, da marginalização e das desigualdades sociais,
o que contraria flagrantemente os objetivos fundamentais da República
(artigo 3º, II e III, da CF), e realça a legitimidade da intervenção do
Ministério Público, como legítimo defensor dos interesses sociais, nos
termos do art.127, “caput”, c/c o art.129, IX, da Magna Carta.
Ou seja, a proteção dos interesses individuais
homogêneos neste caso, prevista no art.81, § único, III, do CDC, em
virtude de sua relevância social, tem fundamento constitucional,
tratando-se de função a que o Ministério Público está legitimado a
exercer pelo art.129, inciso IX, da CF, por ser compatível com sua
finalidade institucional (art.127, “caput”, da CF).
Mas não é só.

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Houve um grande número de lesados, a justificar o
pedido do MP, de reparação dos danos patrimoniais e morais pelos
mesmos sofridos, por meio da presente ação civil pública.
Segundo constou da inicial, e se tornou
incontroverso nos autos, foram vendidas a 408 pessoas frações ideais
do terreno em questão (fls.02/39 e 3696/3733).
Como se trata de indenização por prejuízos
sofridos, e como de acordo com o art.17 do CDC, equiparam-se aos
consumidores todas as vítimas do evento, deve-se levar em
consideração, ainda, que como cada um destes 408 contratantes
possuem as suas respectivas famílias, com esposas, filhos, etc,
versando a ação sobre o direito de moradia que a todos interessa,
muito embora o número de 408 lesados já seja elevado o suficiente
para legitimar uma ação civil pública, a verdade é que o número de
prejudicados no caso é muito superior a estes 408, havendo enorme
dispersão de lesados.
E, como o prejuízo sofrido por estes consumidores
tiveram uma origem comum, vez que decorreram do mesmo tipo de
ação praticada pelos réus, tendo por base os mesmos tipos de contrato
e o mesmo empreendimento, não há dúvida que, na fase de
conhecimento, poderiam ser tratados conjuntamente, de forma a se
fixar a responsabilidade genérica dos réus pelos danos causados, nos
termos do art.95 do CDC.
Para que a ação civil pública, para a proteção de
interesses individuais homogêneos, se torne viável, basta que haja
homogeneidade de origem do direito alegado, como ocorre neste caso,
nada impedindo que, em fase de liquidação e cumprimento da
r.sentença, venha a ser apurada a relação de causalidade com cada
consumidor, e o valor de seu prejuízo específico que, obviamente, pode

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variar, já que cada qual poderá ter pago um determinado número de
prestações, etc., como, aliás, prevê o art.97 do CDC.
Neste caso, o pedido indenizatório formulado por
meio de uma única ação, atende, ainda, o relevante interesse público
em se garantir o acesso de todos à Justiça, evitando-se um grande
número de processos sobre o mesmo fato e, ainda, decisões
divergentes sobre uma mesma matéria, atendendo-se, finalmente, ao
princípio da economia processual.
Ou seja, quer pela natureza do interesse público e
social tutelado nesta ação, quer pela grande dispersão de lesados, não
há como se negar a legitimidade extraordinária do MP para, por meio
desta ação civil pública, perseguir, além da proteção a interesses
difusos e coletivos, a proteção a interesses individuais homogêneos, de
forma a serem os consumidores lesados devidamente ressarcidos e
indenizados, em razão das práticas abusivas mencionadas na inicial.
Na esteira deste posicionamento, já firmou o
Egrégio Supremo Tribunal o seu entendimento, editando a Súmula 643,
que pode ser aqui aplicada por analogia, asseverando que “O Ministério
Público tem legitimidade para promover ação civil pública cujo
fundamento seja a ilegalidade de reajuste de mensalidades escolares.”
Tal como a educação, a moradia se reveste de igual
interesse público social.
O Supremo Tribunal Federal vem, ainda,
proclamando, sistematicamente, o seu entendimento unânime, no
sentido de que o MP tem legitimidade para a proteção de interesses
individuais homogêneos de consumidores:

“A legitimidade do Ministério Público para a defesa de


direitos individuais homogêneos nas relações de

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consumo já foi reconhecida em diversas oportunidades
por esta Corte. 2. Agravo regimental improvido. “
AI-AgR 438703 / MG - MINAS GERAIS
AG.REG.NO AGRAVO DE INSTRUMENTO
Relator(a): Min. ELLEN GRACIE
Julgamento: 28/03/2006 Órgão Julgador:
Segunda Turma - Publicação DJ 05-05-2006 PP-00027 -
EMENT VOL-02231-05 PP-00835
Parte(s) AGTE.(S) : NACIONAL COMÉRCIO E
EMPREENDIMENTOS LTDA ADV.(A/S) : SÉRGIO
CARVALHO E OUTRO(A/S)
AGDO.(A/S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE
MINAS GERAIS - A Turma, por unanimidade, negou
provimento ao agravo regimental, nos
termos do voto da Relatora. Ausentes, justificadamente,
neste julgamento, os Senhores Ministros Celso de Mello e
Gilmar Mendes. Presidiu, este julgamento, a Senhora
Ministra Ellen Gracie.2ªTurma, 28.03.2006.

“Ministério Público: legitimidade para propor ação civil


pública quando se trata de direitos individuais
homogêneos em que seus titulares se encontram na
situação ou na condição de consumidores, ou quando
houver uma relação de consumo. É indiferente a espécie
de contrato firmado, bastando que seja uma relação de
consumo: precedentes. “
RE-AgR 424048 / SC - SANTA CATARINA
AG.REG.NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO
Relator(a): Min. SEPÚLVEDA PERTENCE
Julgamento: 25/10/2005 Órgão Julgador: Primeira Turma -
Publicação - DJ 25-11-2005 PP-00011 - EMENT VOL-02215-04
PP-00721 -
Parte(s) - AGTE.(S) : BCN LEASING ARRENDAMENTO
MERCANTIL S/A - ADV.(A/S) : LUIZ RODRIGUES WAMBIER
E OUTRO (A/S)
ADV.(A/S) : ROGERIO AVELAR - AGDO.(A/S) : MINISTÉRIO
PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA - A Turma
negou provimento ao agravo regimental no recurso
extraordinário, nos termos do voto do Relator. Unânime.
Ausente, justificadamente, o Ministro Carlos Britto. 1ª Turma,
25.10.2005.

16
No mesmo sentido vem se pronunciando esta
Egrégia Corte de Justiça::

“PROCESSUAL CIVIL E DIREITO DO CONSUMIDOR.


RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. VIOLAÇÃO
DO ART. 535, II, DO CPC, NÃO-CONFIGURADA.
LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO PARA A
TUTELA DE DIREITOS INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS.
LEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM DA
CONCESSIONÁRIA DO SERVIÇO DE TELEFONIA
CELULAR. DIREITO À INFORMAÇÃO. FORNECIMENTO
DE FATURA DETALHADA. IMPOSSIBILIDADE DE
COBRANÇA. EXEGESE DO ART. 3° DA LEI N° 7.347/85.
OBRIGAÇÕES DE FAZER, DE NÃO FAZER E DE PAGAR
QUANTIA. POSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO DE
PEDIDOS. PRECEDENTES.
1. Ação civil pública proposta pelo MINISTÉRIO PÚBLICO
DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS que busca a
condenação da empresa concessionária de telefonia celular,
AMERICEL S/A, ao fornecimento, sem nenhum encargo, de
fatura discriminada dos serviços prestados, além da
devolução, em dobro, dos valores cobrados pelo
detalhamento da conta telefônica. A sentença julgou o
pedido formulado pelo Parquet procedente,
reconhecendo-lhe a legitimidade ad causam para a tutela
de direitos individuais homogêneos. No mérito, condenou
a ré a emitir faturas de modo detalhado e em caráter
definitivo, tendo por paradigma as da TELEBRASÍLIA, além
da restituição em dobro dos valores cobrados a título de
taxa pela expedição de contas telefônicas discriminadas.
O acórdão recorrido manteve o decisum de primeiro grau
em todos os seus termos. Opostos embargos de
declaração, foram estes rejeitados. Recurso especial da
AMERICEL no qual se alega ofensa aos arts. 535 do CPC,
81 e 82 da Lei nº 8.078/90, 13 e 29, I e IV, da Lei nº 8.987/95,
2º, IV, e 3º, V, VI e IX, da Lei nº 9.427/97 e 3º da Lei nº
7.345/85.
2.....
3. Os interesses dos consumidores/assinantes da linha
telefônica são de natureza individual, o que, todavia, não

17
afasta seu caráter homogêneo, na medida em que a
relação jurídica de consumo se aperfeiçoou por meio de
pactos de adesão formulados unilateralmente pela
AMERICEL, o que coloca os usuários em situação
homogênea, no que se refere à eventual violação de
direitos. Portanto, vislumbrada a tutela de interesses
individuais homogêneos, tem incidência o art.81 do CDC
(Lei n° 8.078/90), além do art. 82 deste Diploma, que
legitimou o Ministério Público, dentre outros entes, a agir
na defesa coletiva dos interesses e direitos dos
consumidores.
4.....
5.....
6. Esta Primeira Turma, no julgamento do Recurso
Especial n° 605.323/MG, emprestou nova interpretação
ao art. 3° da Lei n° 7.347/85, reconhecendo a viabilidade
da cumulação de pedidos em sede de ação civil pública.
Conferir: (REsp n° 605.323/MG, Rel. Min. José Delgado,
Rel. p/ acórdão Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 17/10/2005;
REsp n° 625.249/PR, Rel. Min. Luiz Fux, 1ª Turma, DJ de
31/08/2006). Não obstante os precedentes tratarem da tutela
coletiva do meio ambiente, não seria razoável deixar de
estender a mesma exegese conferida ao art. 3° da Lei n°
7.347/85 também às hipóteses em que a ação civil
pública serve à proteção dos direitos do consumidor.
8. Recurso especial não-provido.
(REsp 684.712/DF, Rel. Ministro JOSÉ DELGADO,
PRIMEIRA TURMA, julgado em 07.11.2006, DJ 23.11.2006 p.
218)

III – Conclusão

Assim sendo, por todas as razões expostas, requer


esta Procuradoria de Justiça seja negado seguimento ao presente
recurso, nos termos do art.542, § 1º, do CPC ou, ainda, nos termos do
art.557, ambos do CPC, deixando-se de conhecer do recurso ora
contra-razoado, se ultrapassadas aquelas fases.

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No mérito, no entanto, caso venha a ser conhecido,
requer esta Procuradoria de Justiça seja negado provimento ao recurso,
mantendo-se o v.acórdão impugnado em toda a sua integridade, por
medida de Justiça !

São Paulo, 02.04.07

DORA BUSSAB CASTELO


Promotora de Justiça Designada em Segunda Instância

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