Vous êtes sur la page 1sur 9

Jogo de bolinhas de gude: conflitos e desafios na negociação de regras

Autores:
Maria de Fatima Aranha de Queiroz de Melo, prof. Dr da UFSJ
Elaine Almeida de Andrade,
Ana Luisa Brandão Leal,
Fernanda Rodrigues Ferreira,
Lílian Medeiros da Silva,
Roselne Santarosa Souza, (graduandas de psicologia UFSJ)

Colaboradora:
Yone Maria Paiva Rogério, técnica administrativa da UFSJ

Nana.andrade.psic@gmail.com

1. Per-correndo possíveis caminhos do jogo de bolinhas de gude

Vinculada ao LAPIP (Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial), a


Brinquedoteca da UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei) desenvolve
inúmeros trabalhos contemplando o tripé ensino-pesquisa-extensão acerca da temática
do lúdico. É a partir deste campo de atuação que apresentamos o estudo ainda em
andamento sobre o jogo de bolinhas de gude, como parte da pesquisa sobre brinquedos
e jogos cujas traduções (Law, 1997) a partir das mesclas de materialidade e socialidade
(Law e Mol, 1995), são encontradas na região de Minas Gerais. Utilizamos a abordagem
da Teoria Ator-Rede para seguir estes movimentos que vão dando contorno específico a
objetos tradicionais que podem estar em vias de extinção, por estarem articulados numa
rede cujos nós estão esgarçados, ou, em outros casos, verificar como estes objetos se
mantêm potentes em sua capacidade de aglutinação (Latour, 2006).
Em Brougère (2000), como em Benjamin (1984), ressalta-se a dimensão social dos
objetos lúdicos, sendo estes definidos como portadores de significados impregnados
pela cultura de determinado tempo e lugar. Através deste último autor, várias pesquisas
têm sido desenvolvidas com relação a esta articulação entre brinquedo e cultura,
abrindo-se uma gama de possibilidades de investigação sobre a atividade de
brincar/jogar e sobre o brinquedo/jogo, de como estes funcionam social e
simbolicamente. Jogos e brinquedos, em sua concretude, fazem uso de artefatos em
torno dos quais ações são desenvolvidas, conferindo-lhes um sentido lúdico que evoca,
com o humano, uma relação simétrica (Latour, 2001), uma vez que estes atuam como
desafiadores de destrezas e estratégias cognitivas, afetivas e sociais. Para Elkonin
(1998), o jogo insere a criança numa forma de atividade lúdica em que figuram regras
como fonte organizadora das ações entre os participantes, tendo a capacidade de
desenvolver as trocas comunicacionais, as ações coordenadas entre parceiros, a
superação do egocentrismo cognitivo e a evolução da conduta arbitrada. Da mesma
forma, Piaget (1977, 1978), aborda o jogo numa perspectiva genética, explicando a sua
evolução desde as primeiras condutas lúdicas da criança, como parte de um processo de
socialização no qual, progressivamente, os sujeitos vão sendo capazes de descentrar-se
do seu próprio ponto de vista, superando o egocentrismo tanto ao nível da cognição
como ao nível dos afetos.
O foco de nosso estudo é sobre o jogo das bolinhas de gude que continuam presentes no
universo lúdico das crianças observadas nesta região. Devido à escassez da literatura
impressa em torno destes objetos lúdicos, buscamos informações em fontes eletrônicas
como blogs e sites de áreas e conhecimentos diversos que se somaram às demais
referências bibliográficas de autores de várias áreas de conhecimento que têm
privilegiado as interfaces disciplinares, assim como os campos de fronteira entre os
saberes acadêmicos e aqueles tecidos na vida cotidiana, uma flexibilidade oferecida pela
Teoria Ator-Rede (Latour, 2006). Numa segunda etapa da pesquisa, paralelamente ao
levantamento bibliográfico e iconográfico sobre o brinquedo/jogo, são realizadas as
observações em campo onde se pretende analisar: a dinâmica do jogo, as estratégias dos
jogadores; as negociações de regras; as relações entre parceiros e o ambiente físico-
social; outros agentes que contribuem para a constante transformação e tradução
peculiares a este jogo, nos grupos a serem acompanhados.

2. Mapeando a história do jogo

Em se tratando do levantamento histórico, não foi possível definir a origem das bolinhas
de gude. As fontes, na maioria sites e blogs, apontam um jogo milenar, que
provavelmente surgiu com a própria civilização. Consta, nos mesmos sites, que,
aproximadamente há 3.000 anos a.C, foram encontradas, num túmulo de uma criança
egípcia, bolinhas de gude feitas de pedras semi-preciosas. Diversos jogos com pequenas
esferas foram registrados na Grécia e em Roma. Tem-se a notícia de que o imperador
César Augusto, de 96 a 98 d.C, gostava de ver, na rua, a partida com esses objetos.
Costa (2008) revela que o Museu Britânico, em Londres possui, em suas galerias,
bolinhas encontradas em Creta, de aproximadamente 2000 anos a.C. Acessando o
acervo referente às primeiras civilizações em diversos pontos do planeta (regiões da
Grécia, do Egito, da África e em Roma), percebe-se a afinidade dos habitantes dessas
regiões com o trabalho em pedra para utilização diversa. Disponibilizadas pelo British
Museum, tivemos acesso às imagens de outras bolas do período 2000 a.C. a 1700 anos
d.C., oriundas da Grécia, possivelmente as mencionadas pela jornalista Costa (ibidem).
Elas possuem o tamanho aproximado das atuais bolas de gude, porém não encontramos
as modalidades brincadas pelos povos antigos.
Na galeria de jogos deste museu, são também expostas quatro bolas de vidro com o
nome de “Glass gaming counters”, encontradas em um túmulo em meados da década de
60, provavelmente fabricadas em regiões próximas ao Mar Mediterrâneo (Egito ou
Síria) na Idade do Ferro, 40-20 anos a.C. Por aquelas regiões estarem sob o domínio dos
romanos neste período, as informações disponíveis no site
www.britishmuseum.org/explore/highlights/highlight_objects/pe_prb/g/glass_gaming_c
ounters.aspx apontam para o fato de que estas bolas teriam chegado à Inglaterra como
um presente de um líder de Roma a uma nobre família inglesa. As quatro bolas de
vidro, ou os contadores de vidro, entretanto, são objetos citados por fazerem parte de
uma coleção de 24 bolas, compondo um jogo de corrida.
Os dados obtidos até então reforçam os possíveis berços das bolas de gude: Egito e
Oriente Médio, Grécia e o Império Romano de onde, através de legionários,
espalharam-se por outros continentes. Esse percurso pode ter sido linear ou não, uma
vez que, dispondo da mesma matéria prima, os grupos podem ter criado cada um à sua
maneira, tanto a bola como suas funções. O continente africano também é apontado pelo
site www.wiki2buy.com.br/wiki/Brinquedos devido a presença milenar das bolinhas de
gude. Embora se tenha poucos dados da origem das bolas de gude na África, sabe-se,
entretanto, da sua utilização no campo político, uma vez que há registros recentes de
eleições cujos votos são contabilizados com as bolinhas de gude devido ao alto índice
de analfabetismo no país. A bolinha lançada com a foto e a cor do candidato
caracterizaria o voto do cidadão. Tal método foi adotado desde 1965 (Rezende ,2006).

2
Localiza-se no Egito, ainda que de forma inexata, a origem mais remota das bolinhas.
Alexandre “O Magno”, nascido na Macedônia, região da Grécia onde também foram
encontrados rastros deste brinquedo, invadiu o Egito por volta de 332 anos a.C. e a
Grécia mais tarde também fora invadida e dominada por Roma, sugerindo que nestas
relações de contato tenham proporcionado trocas entre culturas e tradições (Kishimoto,
1993).
A historia de Roma nos é familiar porque, ainda hoje, temos no Brasil a herança das
marcas intensas do domínio romano realizado em alguns paises europeus: a religião
católica é herdeira viva dessa influência sócio-histórica que basicamente foi trazida por
Portugal. O jogo de bola de gude, portanto, pode ter sido objeto das trocas realizadas em
movimentos entre grupos culturais, sejam eles de dominação ou mesmo pela expansão
comercial.
Apesar do suposto encontro consideravelmente tardio entre a bola e o vidro, Lorenzi
(2004) afirma a antiguidade deste último que teria surgido juntamente com a
constituição da crosta terrestre. De formação natural, o vidro seria oriundo de magmas
não cristalizados, sendo sua emergência bem anterior ao brinquedo em questão. Embora
não se precise o surgimento do vidro na humanidade, percebe-se a imbricação dos
lugares em que matéria prima e produto se encontraram. Disponível em
www.tutomania.com.br/saiba-mais/como-e-quando-surgiu-o-jogo-de-bolas-de-gude,
encontramos a informação de que a primeira bola de gude de vidro teria sido encontrada
1 ano a.C, embora este dado pareça desconsiderar os contadores de vidros que teriam
surgido, como vimos, alguns anos antes. Através de informações obtidas neste site,
verifica-se que a primeira manufatura de bolas de gude de vidro teria surgido em Roma
no séc. XV.
No Brasil, o jogo de bola de gude recebe nomes variados, de região pra região: peteca,
berlinde, birosca, búlica, bola de vidro e outros (http://pt.wikipedia.org/wiki/Berlinde).
No dicionário Aurélio (1993), encontraremos o termo bola como algo referente à
propriedade esférica, algo feito de borracha. Em
www.sandraguinle.com.br/brincDetalhe.php?sessao=Brincadeiras&codigo_brincadeira
=4, gude deriva da palavra “gode” que remeteria a idéia de pedras lisas e arredondadas.
De acordo o site http://en.wikipedia.org/wiki/Marble na Inglaterra, bola de gude é
traduzida por marbles. Acredita-se que este nome tenha sido uma derivação da palavra
“marble” que é um tipo de rocha, o mármore, muito usada na antiguidade, com a qual
eram feitas ainda algumas bolas. Os portugueses a conhecem como berlinde, nome
difundidoo em muitas regiões brasileiras.
Conforme o http://www.folhadeseupaulo.com/2008/03/campeonato-mundial-de-
bolinha-de-gude.html, acontece desde 1992, na Inglaterra, uma competição de nível
mundial do jogo de bolinha de gude. No Brasil, a chegada desse jogo, de acordo
Mefano (2005), realizou-se pela via dos portugueses trazendo as marcas da cultura
européia. Uma das modalidades dos jogos de bola de gude citada por José Costa (1950),
o “jogo do papão”, mencionado em
http://www.qdivertido.com.br/verfolclore.php?codigo=12 remete ao mito folclórico do
bicho do papão, assustador e comedor de criancinhas, caso essas não fizessem o que os
adultos pediam para ser feito. O mito do bicho papão, entretanto, não parece ser uma
exclusividade dos portugueses, pois, em outros países da Europa e anteriormente, entre
os mulçumanos, já se fazia uso dessa lenda para “educar” os filhos (ibidem).
No site do SEBRAE (http://www.sebrae-
sc.com.br/novos_destaques/oportunidade/default.asp?materia=12290) costa que até o
ano de 2006 havia apenas três empresas de bolas de gude no Brasil, instaladas todas em
São Paulo. O SEBRAE registra, em sua página virtual, algumas dificuldades

3
encontradas por um dos empresários fabricantes da bola de gude que alega ter ficado
seis meses com seus funcionários parados por falta de consumidores. O fato de essas
indústrias estarem alocadas na região metropolitana de São Paulo é também intrigante,
uma vez que a estrutura urbana dessa região não parece ser convidativa para esse jogo.
As três indústrias brasileiras que fabricam bolas de gude são a Tok Bol, a Costero e a
Embalado, sendo que estas duas últimas dispõem de site para visitação. A Costero, que
vem funcionando desde 1952, seria a indústria mais antiga no ramo.
Como estratégia de vendas, essas indústrias fabricam bolas de vidro de formas
diferentes, facilitando o seu uso para variadas coisas. As bolas não são objetos
exclusivos das crianças, pois podemos encontrá-las como artefato de decoração, em
cortinas, abajures, colares, bonecos entre outros brinquedos e objetos variados.
O estado do Ceará parece ser o maior consumidor mundial de bola de gude de acordo o
blog “canguçu sports” disposto em
http://cangussusports.blogspot.com/2009/05/bolinha-de-gude-voce-ja-jogou.html, onde
se considera o fato de que a venda das bolinhas está sujeita ao fenômeno da
sazonalidade, paradoxalmente porque o jogo costuma ocorrer entre os meses de
dezembro a março, época de chuvas o que favorece a brincadeira na rua, pois se acredita
que, para jogar bola de gude, é necessário que a terra esteja mais fofa para se fazer os
buracos e marcar o chão. Na cidade de Nova Trento em Santa Catarina, foi registrado
pelo site http://www.parana-
online.com.br/colunistas/67/21084/?postagem=BOLINHAS+DE+GUDE um
campeonato de “tilica”, nome dado à bola de gude. O torneio, segundo o site citado,
agrega a participação de várias idades, de crianças a senhores. O historiador Barreto
(2007) aponta a cidade de Aracaju e outras, no estado de Sergipe, como palco do que
aparentemente seria uma modalidade do jogo apelidada de “jogo do marraio”. Segundo
ele, este jogo adquiriu características peculiares em Sergipe, diferenciando-o daqueles
jogados em outras regiões. O “jogo do marraio” seria uma modalidade traduzida aqui no
Brasil, desconhecida pelos ingleses, americanos e franceses. Richie Chevat (1996),
segundo fontes no site supracitado, em seu artigo “The Marble Book”, registra
aproximadamente 50 modalidades do jogo de bolinha, não constando nesta classificação
o “marraio”. Sabe-se que as crianças, em sua apropriação dos jogos, possuem a
liberdade para alterar, criar e transformar as regras, dependendo da relação entre os
parceiros e em suas posturas diante destas. Tal adequação do jogo é o que Queiroz e
Mello (2007), a partir de Law (1997), chama de tradução: a maneira como algo se
transforma num campo de atuação, como é apropriada “decodificada” (grifo nosso) e
atrelada a outros sentidos e coisas. Nessa perspectiva, ao nomear o jogo de bola de gude
como jogo de vidro, Barreto (ibidem) também reflete elementos dessa tradução.
Conhecer e registrar as várias traduções pelas quais foram passando os jogos, portanto,
é uma maneira de tomá-los como mensageiros da memória coletiva: muitos deles
podem desaparecer, enquanto outros emergem em função das estratégias e acordos
estabelecidos pelos brincantes nos vários grupos, tempos e espaços.
Em busca de decifrar o termo marraio, seguimos as pistas deixadas pelo mesmo e
encontramos, em http://www.webartigos.com/articles/8911/1/dicionario-de-termos-
nordestinos--parte-2/pagina1.html, um pequeno dicionário nordestino. A palavra “bola
de marraio” é descrita como sinônimo de bola de gude. Em outro contexto, encontra-se
em http://www.fcclrio.org.br/marraio/ApresentaMarraio.html a justificativa do nome da
revista Lacaniana Marraio relacionando-o com o seu suposto sentido no brincar entre as
crianças. A princípio, remete-se à complexidade do jogo de bola de gude, fazendo uma
alusão à política na qual ocorrem negociações, habilidades pessoais, trapaças e,
sobretudo dominação. A seguir, defende-se o nome marraio para a revista pelo sentido

4
encontrado em dicionários como sendo “o parceiro que joga por último”. Numa leitura
psicanalítica, faz-se a associação com o lugar conferido pelo “Outro”, ou seja, quando a
criança pronuncia marraio, não é ela que está por si só determinando seu lugar, mas o
está demandando deste “Outro”. Na clínica, o marraio também será realizado pela
inserção da criança em um jogo simbólico, no interjogo com o analista.
Disponíveis em http://www.myspace.com/marraio, dados sobre a formação de uma
banda de três jovens cariocas que recebe o mesmo nome da estratégia do marraio, que
teve o seu início marcado pelo encontro de dois deles na cidade de Nova Friburgo. Os
músicos concordam que marraio é uma maneira estratégica de atrair para si a
possibilidade de ganhar o jogo. No universo infantil e no musical, para estes jovens,
marraio teria em comum a fusão de elementos diversos como “sons, palavras e ritmos”.
Embora não seja explorada pela banda tal comunhão entre o marraio e a música,
considera-se pertinente a relação estabelecida, uma vez que o atrito das bolinhas produz
um sensível som em meio aos gritos e xingamentos que podem ecoar na tentativa de ser
o primeiro a enunciar marraio. No blog “Na Era do Rádio”, Gonçalves (2008) comenta
que essa questão dos sons misturados no ambiente do jogo é mencionada não somente
pela gritaria da meninada, como também pelos barulhos da rua, seja de sons de carro,
pessoas cantando, alto falantes, blocos de carnavais e outros que parecem construir o
cenário desse jogo de/na rua. Para homenagear a estratégia de sua inspiração, a banda
Marraio compôs uma música que trata das estratégias do marraio, no jogo de bolinhas
de gude.
Além da revista psicanalítica, da poesia e da música, a palavra-metáfora marraio ganhou
expressão também na literatura. Lopes (2007) faz um paralelo entre a dinâmica do
marraio da bola de gude e o que ele chama de marraio da vida adulta. No livro, o autor
não discute o jogo de bola de gude, mas faz alusão a fatos diversos que evidenciam a
esperteza, as estratégias humanas, numa visão às vezes crítica e/ou humorística. Em
entrevista concedida ao Jornal da Serra, Lopes (2008), ao ser perguntado sobre o motivo
do titulo do livro, comenta uma possível influência dos ingleses sobre a expressão usada
no jogo de bola de gude pelas crianças de Nova Friburgo. Segundo o escritor, no dia
posterior do lançamento do livro, havia recebido um e-mail de um amigo que afirmava
que “marraio-ferido-sou rei” seria uma versão do “My right fellow, I’ll do so ray”,
expressão usada por filhos de ingleses que se instalaram no Rio de Janeiro para
trabalhar em fábricas em data não mencionada pelo autor. Percebe-se em comum a
semelhança de sons entre as duas expressões, embora não tenha ficado claro em qual
contexto as crianças falavam essa frase, não havendo como explorar a relação entre elas.
Barreto (2007), ao comentar sobre o registro de 50 modalidades dos jogos de bola de
gude classificas em um livro inglês, ressalta o fato de que o marraio, jogo peculiar do
Brasil, seria desconhecido pelos ingleses. Mas, se por um lado, os ingleses não possuem
registrado o jogo do marraio, podem ter contribuído para sua inserção no Brasil através
do encontro fortuito entre as crianças das duas nacionalidades.
Não obstante toda essa popularização do marraio e sua notável expressão no Rio de
Janeiro, convém acrescentar que, na terra do samba e do carnaval, o marraio saiu das
ruas e ganhou destaque em 1993, nas passarelas cariocas, com o enredo “Marraio feridô
sô rei” que privilegiava não somente o jogo de bola de gude, como também outros jogos
de origem milenar (Farias, 2007).
Carvalho (1990) afirma que uma modalidade do jogo de bola de gude gera outra que
gera outra e assim sucessivamente. Dessa forma, encontram-se jogos com
denominações e regras diferentes de região para região, embora com poucas mudanças:
Este autor não só observou como também participou dos jogos de bolinhas de gude no
bairro de Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro. Ele verificou nestes jogos a

5
predominância de meninos com idades que variam entre oito e quatorze anos. As
crianças de sete anos apresentavam dificuldades para acompanhar o jogo, seja devido à
complexidade das regras, seja por seu desenvolvimento motor.
Piaget (1932/1994) já havia constatado a dificuldade das crianças com sete anos em
relação às regras do jogo, uma vez que elas, nesta faixa etária, ainda não teriam
desenvolvido suficientemente a cooperação e por estarem voltadas para o próprio eu,
numa condição de egocentrismo. Esta condição as limitaria no estabelecimento de novas
regras, uma vez que, para elas, as regras se apresentariam como algo dado de fora, fixas
e sagradas, não sujeitas à negociação entre os pares.
O jogo de bolinha de gude em Ipanema, ainda que jogado mais expressivamente por
meninos de pouca condição socioeconômica, não era tido como um jogo de segregação
social, já que as crianças de classe econômica superior também participavam dos jogos,
sem por este fator criar conflitos. Foram registrados por Carvalho (ibidem): o jogo do
“triâgulo”, jogo comum também na cidade de Bocaiúva, no norte de Minas e em São
João del-Rei, zona da Mata do mesmo estado; “barca presa” que, de acordo Soffiati
Neto (1977, apud Carvalho, 1990), seria o mesmo jogado em Niterói com o nome de
“oca” ou “roda”; do “papão”, jogo ao qual nos referimos como herança portuguesa, e
que Soffiati Neto havia registrado no estado do Espírito Santo comparando “papão”
com a conhecida búlica jogada no estado do Rio de Janeiro.

3. A pesquisa no campo

O “jogo da lua”, similar ao “jogo do triângulo”, conforme identificação de Carvalho


(ibidem), é também jogado por alguns meninos em São João del-Rei. Em ambos os
jogos, risca-se, à frente do triângulo ou da meia lua, uma linha a aproximadamente
cinco ou seis passos de distância, sendo esta linha determinante no (e somente no) início
do jogo. O “jogo da lua” não foi mencionado em nenhum dos sites consultados, mas
encontramos nele expressões como “marraia”, uma outra variação do “marraio”,
mantendo sentido idêntico àquele encontrado em Nova Friburgo. A novidade trazida
por Carvalho (idem) é que, quando alguém grita “marraia”, outro pode gritar “pro
resto”, o que lhe garantirá a posição de estar no penúltimo lugar para jogar a bola.
No grupo de meninos do bairro Nossa Senhora de Fátima da cidade de São João del-
Rei, embora não gritem nenhuma dessas expressões, segue-se a regra básica de gritar,
antes do jogo, “sou o último”, “penúltimo” e assim sucessivamente. Além desta,
percebem-se outras diferenças no processo que antecede o jogo da “meia lua”, para o
“triângulo” jogado em São João del Rei. Entre os meninos de Ipanema observados por
Carvalho (1990), à medida que os jogadores lançam suas bolinhas, os demais podem
cricá-las. Se o jogador tiver êxito na jogada, pode levar para si a bolinha cricada. O
último a lançar tem com este gesto o que poderíamos chamar de imunidade, uma vez
que ele pode cricar as bolinhas dos companheiros sem que a sua seja cricada no
primeiro momento. Depois, quando todas as bolas foram lançadas, os meninos gritam
novamente quem irá começar, e a ordem segue de forma crescente: quem grita
“primeiro”, “segundo” e consecutivamente, Carvalho (1990). Por último, marraia só
vale para a primeira partida, pois, nas outras, começa quem possuir mais bolinhas. Em
São João del Rei, no grupo observado, ser o último significa também ser o primeiro no
segundo momento do jogo. E, até que o último jogue sua bola, ninguém poderá cricar.
Caso isso aconteça, deve-se reiniciar o jogo. Ao contrário do “jogo da lua”, jogado em
Ipanema, as crianças em todo reinício de jogo manifestam a posição que querem estar
pra lançar a bola. Devido à complexidade do marraio, pode-se concordar com Barreto
(2007), considerando-o uma espécie de jogo dentro do jogo. Numa das partidas

6
observadas em São João del-Rei, esse jogo de quem começa a jogar levou
aproximadamente uns dez minutos, até porque, na combinação deles, como não se pode
cricar, muitos dos meninos optavam por cricar de propósito para que se reiniciassem os
lances de bolinha e eles pudessem ter mais chances. Em Ipanema, o jogo observado por
Carvalho (ibidem) pode terminar antes mesmo de começar, já que vale o cricar.
O jogo do quadrado explorado por Piaget (1932/1994), em Genebra e Neuchâtel, na
Suíça, apresenta características idênticas ao “jogo de meia lua”, como reconhece
Carvalho, possuindo mais semelhanças com o “jogo do triângulo”, em alguns aspectos,
do que com o “jogo da lua”. Assim como nos jogos já citados, Piaget comenta o
processo em que as crianças negociam quem irá começar o jogo, uma vez que a
primeira criança se beneficiará mais por ter maior possibilidade de “cricar” ou “bater”,
termo descrito pelo autor. Como o marraio também não era conhecido por essas
crianças, elas estipulavam maneiras democráticas para deliberar quem começava.
Definiam-se os primeiros critérios aparentemente através de uma brincadeira usada no
Brasil como “uni duni tê” ou similares, ou até numa espécie de briga de pisões de pé:
quem não tivesse o pé pisado começava e depois seguia pela ordem ou pela maneira
comumente usada em São João del Rei que, de certa forma, é o marraio. Jogava-se a
bolinha no risco em frente ao quadro e quem chegasse mais perto podia começar. Piaget
só não comenta como seria a ordem do lançar ou “atirar” a bola próxima ao risco, lugar
de destaque do marraio.
Piaget (1932/1994) e Carvalho (1990), nos respectivos trabalhos sobre o jogo em
questão, percebem ainda o valor e a importância de cada bolinha dentro do jogo. Para
Piaget (ibidem), as bolas que se colocam dentro do quadrado são chamadas de “carron”
e têm menor valor do que aquelas usadas para acertar a bola do parceiro, as chamadas
“corna”. Manter a “corna” em mãos é uma maneira de proteger a bola melhor em
contraposição àquela que está no quadrado, mais sujeita a apropriação do adversário.
O nome dado a cada bola é então definido pela forma, pela espessura e pelo custo
comercial. Em Carvalho (1990), a bola considerada a melhor chama-se “coco”,
enquanto que as bolas mais comuns ou mais simples recebem o nome de “azulzinhas”
“friozinhas” ou “cascabulhos”. Em São João del Rei, entre as crianças observadas, nada
se percebeu sobre os nomes dados às bolinhas. Durante o jogo, nota-se que, em dada
ocasião, algumas podem ser melhores que outras, por causa do tamanho e do peso.
Neste caso, os jogadores podem trocar suas bolinhas usando a palavra “troks”, pois esta
estratégia permite que eles se defendam dos adversários, colocando uma bola menor
para que seja mais difícil de “matar”, ou que ataquem colocando uma bola mais pesada
para obter êxito ao atingir a bolinha do outro. Estes meninos relataram ainda que é
comum retirar a esfera da roda da bicicleta para utilizarem como bola de gude. Como só
foi observado o jogo “de brincadeira” entre eles, verificamos que, ao final, quando as
bolas eram devolvidas aos seus donos iniciais, havia o cuidado de recolher
primeiramente algumas bolinhas. Segundo eles, a maioria das bolas com que jogavam
era de pouco valor. Tinha criança que chegava sem bolinha nenhuma e aguardava que
alguém pudesse lhe emprestar algumas para que pudesse entrar no jogo. O jogo “de
brincadeira” não tirou, no entanto, a tensão do jogo nem os palavrões que
constantemente são proferidos, podendo em alguns momentos ocorrer o choro pela
perda de alguma bolinha para o adversário.
Carvalho (ibidem), que também não desconsidera a emoção do jogo “de brincadeira”,
ressalta a tensão gerada quando se joga a valer. A importância de cada bolinha é vista
nas negociações: as bolinhas mais leves, mais comuns e mais baratas eram aquelas
colocadas pra rolar, arriscando-se o dono a perder ou ganhar. As bolas com as quais eles
“atiravam” ou reservavam para um momento do “troks” eram mantidas e protegidas até

7
quando fosse possível. A aposta, dessa forma, podia variar: havia quem apostasse até
cem bolinhas para conseguir o “coco” do outro. Várias pessoas depõem sobre essa
amarga experiência do jogo, de sair com sacola cheia de bolinhas e voltar sem nenhuma,
chorando, ou xingando e ainda temendo apanhar ao chegar sem as bolinhas em casa. No
blog “fundo do baú” (http://fotolog.terra.com.br/nder:1219) Derani em agosto de 2009 a
partir de uma foto de uma criança jogando bolinha de gude cria um espaço para os ex-
jogadores que rememoram suas experiências. O jogo a valer tanto podia custar as
bolinhas do adversário como dinheiro mesmo, valores geralmente muito baixos. Este
“comércio” do jogo a valer pode justificar o receio das mães quando estas crianças vão
pra rua, ou mesmo a restrição colocada pelas escolas ao não permitirem e nem
incentivarem este jogo. Entretanto, a Escola Geneticista Dulce Oliveira, da cidade de
Perdões, Minas Gerais, postou no dia cinco de agosto, em seu blog
http://dulceoliveiracnec.blogspot.com/2009/08/campeonato-de-bola-de-gude.html,
imagens do jogo e do vencedor do campeonato de bolinha de gude, realizado, conforme
a fonte, dentro da própria escola. Embora não tenha mencionado qual ou quais foram as
modalidades e como se realizou o estabelecimento de regras nos jogos do campeonato,
destaca-se a importância conferida a este jogo de rua que vai para dentro da escola. É a
fusão dos espaços público e privado, constatando ser possível a apreensão inclusive de
um jogo a valer, marcado pelo troféu que “oficializava” e consentia o câmbio.

4. Conclusão

As informações até então discutidas não esgotam as possibilidades de melhor conhecer


acerca do jogo de bolas de gude. Na tentativa de mapear historicamente este jogo e
investigá-lo nas versões encontradas em Minas, pudemos flagrar a antiguidade e a
contemporaneidade deste jogo, embora acreditemos que os dados, ainda escassamente
levantados possam abrir novas possibilidades de investigação sobre estes objetos
lúdicos que funcionam, ao mesmo tempo, como mensageiros da memória coletiva e
deflagradores de estratégias e destrezas entre os jogadores. Através de diversas histórias
que se cruzam em vários campos disciplinares, nos foi possível percorrer os caminhos
realizados por um jogo milenar que ainda é capaz de mobilizar encontros, reforçando e
criando vínculos, registrando histórias aparentemente sujeitas ao esquecimento.

5. Referências Bibliográficas

A VOZ DA SERRA. Nova Friburgo/RJ/Brasil: Girlan Guilland, 29 de fevereiro de


2008.
BARRETO L. A., (2007) Bola de gude, jogo do marraio, disponível em
<http://www.infonet.com.br/luisantoniobarreto/ler.asp?id=58399&titulo=Luis_Antonio
_Barreto>, acesso em 26/08/09.
BENJAMIN, W. (1984) Reflexões: A criança, o brinquedo, a educação. S. Paulo:
Summus.
BROUGÈRE, G. (2000) Brinquedo e cultura São Paulo: Cortez.
CARVALHO, J. J. de. (1990), “O jogo das bolinhas de vidro: uma simbólicada
masculinidade”. In: Anuário Antropológico 87. Brasília, UnB/Tempo Brasileiro.
COSTA, C. (2008) "HowStuffWorks - Como jogar bola de gude". disponível em
http://criancas.hsw.uol.com.br/bola-de-gude5.htm , acesso em 22 de agosto de 2009.
DANNEMANN, F. (2008) Bolinha de gude, disponível em
http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=875756,
acesso em 22/08/09.

8
ELKONIN, D. B.(1998) Psicologia do Jogo. São Paulo: Ed. Martins Fontes.
FARIAS, J. C. (2007) Tema do enredo e o enredo do tema, disponível em
http://www.papodesamba.com.br/site/index.php?a=noticia&ncat=8&nid=8711, acesso
em 12 de setembro de 2009.
FERREIRA, A. B. de H. (1993) Novo dicionário da língua portuguesa - Século XXI.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2º ed., , ISBN 85-209-0411-4.
GONÇALVES, G. (2008) É tempo de quê?, disponível em
<http://marraioferidosourei.blogspot.com/2008/03/tempo-de-qu.html> acesso em
30/08/09.
KISHIMOTO, T. M. (1993) Jogos infantis. O jogo, a criança e a educação. Petrópolis,
RJ: Ed. Vozes.
LOPES, A. L. L.( 2007) Marraio feridô sô rei. Rio de Janeiro: Europa.
LATOUR, B. (2001) A esperança de Pandora. Bauru, SP: EDUSC.
___________ (2006) Changer de societé. Refaire de la sociologie. Paris: La
Découverte.
LAW, John & Mol. A.M. (1995) Notes on materiality and sociality. In: The
Sociological Review . v. 43, n.2, pp. 274-294.
LAW, J. (1997) Tradução/Traição – Notas sobre a Teoria Ator-Rede. Disponível em:
www.comp.lancs.ac.uk/sociology/papers, acesso em 25 de setembro de 2005.
LORENZI, E. S.de. (2004) Vidros bactericidas no tratamento microbiológico de água.
Dissertação de Mestrado em Engenharia Química. Florianópolis: Universidade Federal
de Santa Catarina.
PIAGET, J. (1994). O juízo moral na criança (E. Lenardon, Trad.) . São Paulo:
Summus. (Original publicado em 1932).
PIAGET, J. (1977) O julgamento moral da criança. São Paulo: Ed.Mestre Jou.
__________(1978) A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem
e representação. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
REZENDE, S. (2006) Eleitores votam com bolinha de gudes, disponível em
http://www.sidneyrezende.com/noticia/3226+internacional+eleitores+votam+com+boli
nhas+de+gude, acesso em 30/08/09.
QUEIROZ E MELO, M. F. A. (2007) Voando com apipa: esboço para uma Psicologia
Social dobrinquedo à luz das idéias de Bruno Latour.Tese de Doutorado, Programa de
Pós-Graduação em Psicologia Social, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro.