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DIRETORIA GERAL DA INTERCOM 2017-2020

Presidente – Giovandro Marcus Ferreira (UFBA)


Vice-Presidente – Fernando Ferreira de Almeida (UMESP)
Diretora Editorial – Rosiméri Laurindo (FURB)
Diretor Financeiro – Marcelo Briseno (UMESP)
Diretora Administrativa – Sônia Maria Ribeiro Jaconi (UMESP)
Diretora de Relações Internacionais – Roseli Fígaro (USP)
Diretor Cultural – Allan Soljenítsin Barreto Rodrigues (UFAM)
Diretora de Documentação – Adriana C. Omena Santos (UFU)
Diretora de Projetos – Ariane Carla Pereira Fernandes (UNICENTRO)
Diretora Científica – Nair Prata Moreira Martins (UFOP)

Secretaria
Maria do Carmo Silva Barbosa
Genio Nascimento
Thaiane Alves Torres
Ana Clara Toassa Sprengel

Direção Editorial: Roseméri Laurindo (FURB)


Presidência: Muniz Sodré (UFRJ)

Conselho Editorial – Intercom


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Alexandre Barbalho (UFCE)
Ana Sílvia Davi Lopes Médola (UNESP)
Christa Berger (UNISINOS)
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Erick Felinto (UERJ)
Etienne Samain (UNICAMP)
Giovandro Ferreira (UFBA)
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Luiz C. Martino (UnB)
Marcio Guerra (UFJF)
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Maria Teresa Quiroz (Universidade de Lima/Felafacs)
Marialva Barbosa (UFF)
Mohammed Elhajii (UFRJ)
Muniz Sodré (UFRJ)
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Norval Baitelo (PUC-SP)
Olgária Chain Féres Matos (UNIFESP)
Osvando J. de Morais (UNESP)
Pedro Russi Duarte (UnB)
Sandra Reimão (USP)
Sérgio Augusto Soares Mattos (UFRB)
DESIGUALDADES, RELAÇÕES DE
GÊNERO E ESTUDOS DE JORNALISMO

Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez


Organizadores

1ª Edição - SÃO PAULO/SP - Brasil - 2018


Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo

Copyright © 2018 dos autores dos textos, cedidos para esta edição à Sociedade
Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM.

Direitos Autorais reservados de acordo com a Lei 9.610/98

Direção
Roseméri Laurindo

Projeto Gráfico e Diagramação


Life Editora

Organizadores
Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez

Editoras assistentes
Vanessa Heidemann e Raquel de Souza Jeronymo

Revisão
Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez

Ficha Catalográfica

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo / Organizadores:


Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez – São Paulo, SP:
Life Editora, 2018.

434p. ; E-book ; PDF

ISBN: 978-85-8208-114-3
Prefixo Editorial: 8208
Inclui bibliografias.

1. Desigualdades 2. Relações de Gênero 3. Estudos de Jornalismo I. Título


CDD - 360

Proibida a reprodução total ou parcial, sejam quais forem os meios


ou sistemas, sem prévia autorização dos autores.

Todos os direitos desta edição reservados à:


Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM
Rua Joaquim Antunes, 705 – Pinheiros
CEP: 05415-012 – São Paulo/SP – Brasil
Tel: (11) 2574 8477 | (11) 3596 4747
http://www.portalintercom.org.br/ - E-mail: secretaria@intercom.org.br
Apresentação
Leonel Aguiar (PUC-Rio)
Marcos Paulo da Silva (UFMS)
Monica Martinez (Uniso)

É com imensa alegria que realizamos a honrosa tarefa acadêmica de apre-


sentar o livro Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo.
Composto por 24 capítulos, o e-book resulta de uma chamada para seleção de
trabalhos feito pelo Grupo de Pesquisa em Teorias do Jornalismo da Sociedade
Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e está ali-
nhado com o tema do 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação,
que ocorreu em Joinville, Santa Catarina, em setembro de 2018. O objetivo
deste dossiê, produzido por 46 pesquisadoras e 12 pesquisadores, foi congregar
reflexões e contribuições a respeito da interlocução das questões das relações de
gênero com os estudos teóricos do jornalismo.
A perspectiva teórica desta publicação parte do princípio de que as desi-
gualdades sociais – econômicas, étnicas, geopolíticas e, especialmente, de rela-
ções de gênero, tema do dossiê – tencionam e se manifestam no jornalismo de
modo muito mais complexo do que as mazelas que cotidianamente são apre-
sentadas (e representadas) nas pautas noticiosas. Entendemos que esta é uma
questão ontológica para o campo jornalístico. As desigualdades estão na organi-
zação da esfera profissional, nas linguagens constitutivas da prática jornalística,
nas características estético-expressivas e ético-políticas do modo particular de
narração dos fatos pelas notícias e por outros formatos jornalísticos. Em um
sentido mais amplo, a desigualdade remete à ideia de dessemelhança, diferença;
em última instância, ao universo da alteridade, condição sine qua non na demo-
cracia, desde que respeitada, para o desenvolvimento de uma sociedade dialó-
gica e tolerante. Por seu turno, a ideia de relações de gênero, como conceito e/
ou noção, remete a diferentes interpretações no terreno das teorias sociais. Em
suma: os textos aqui publicados, embora concentrados no campo dos Estudos
de Jornalismo, destacam os Estudos das Relações de Gênero como campo do
conhecimento dotado de iminência e urgência no atual estágio da sociedade
democrática.
O e-book está dividido em quatro partes, cada uma com seis capítulos.
A primeira parte, intitulada A mulher no mundo do trabalho: dos conflitos
de gênero às experiências de resiliência, começa com o capítulo Sentido do
trabalho, sofrimento e prazer para as trabalhadoras jornalistas, de autoria
de Alice Mitika Koshiyama e Cristiane Oliveira Reimberg. O trabalho analisa
sete entrevistas realizadas com jornalistas mulheres que abordam o sentido do
trabalho, o ritmo e a pressão da atividade na qual estão envolvidas e o espaço
para criatividade e autonomia. As autoras apontam, entre outras questões, que
o sentido do que é ser jornalista e do trabalho que realizam possui características
da construção social do que é jornalismo. O capítulo 2, A mulher na redação
em Portugal: o processo de feminização do jornalismo, escrito por Alfredo
Vizeu e Ana Paula Bandeira, demonstra como as jornalistas, mesmo não estan-
do no topo da hierarquia institucional, influenciam, de forma progressiva, não
apenas na organização e na distribuição das tarefas de produção da informação,
mas principalmente com um novo olhar para os temas de relevância social. O
capítulo seguinte, Repensar os parâmetros hegemônicos no jornalismo: a
perspectiva de gênero na produção jornalística e na formação profissional,
de autoria de Karina Janz Woitowicz e Paula Melani Rocha, discute como os cri-
térios de noticiabilidade determinam o modo de as temáticas de gênero estarem
ou não inseridas na pauta jornalística e avança na direção de um diálogo entre as
lógicas do mercado profissional e as exigências de formação específica em jorna-
lismo. No capítulo 4, Agenda da imprensa feminista: rupturas e continuida-
des, Viviane Gonçalves Freitas e Lucy Oliveira partem do pressuposto de que
a militância feminista no jornalismo é dinâmica para analisarem as rupturas e
as continuidades na agenda da imprensa feminista no período pós-2010. O cor-
pus de pesquisa é composto pelas publicações Nós, Mulheres da Periferia, Think
Olga e As Catarinas. No capítulo 5, Transformações do jornalismo e relações
de gênero: análise do ciberfeminismo midialivrista dos portais AzMina e
Think Olga, as autoras Katarini Giroldo Miguel e Letícia de Faria Ávila Santos
problematizam os conceitos de ciberfeminismo e de midialivrismo para, a partir
das experiências comunicativas de dois portais ciberfeministas, proporem uma
reflexão sobre as estratégias de mobilização engendradas em rede na temática
das relações de gênero. Vozes do Leste: os jornalismos literários de Svetlana
Alekiévich e Hanna Krall é o título do capítulo 6 no qual Mateus Yuri Passos e
Arthur Breccio Marchetto analisam as especificidades da produção dessas duas
jornalistas e comparam os resultados dessas análises aos de outros estudos sobre
estilo e discurso em jornalismo literário. Para esta abordagem, escolheram duas
obras de cada autora.
A parte II do livro, denominada Diferenças que transcendem: jornalis-
mo e interseccionalidade, começa com o trabalho das pesquisadoras Claudia
Lago, Evelyn Kazan e Manuela Thamani. O capítulo, que recebeu o título Jor-
nalismo e estudos de gênero: e a interseccionalidade, onde está?, investiga
os trabalhos de pesquisa que contêm a interface jornalismo e questões de gênero
nos principais periódicos brasileiros dedicados especificamente ao campo dos
Estudos de Jornalismo: Brazilian Journalism Research e Estudos de Jornalismo e
Mídia. O capítulo 8, com a autoria de Andréa Corneli Ortis, Lauren Santos Ste-
ffen, Mariana Nogueira Henriques e Flavi Ferreira Lisbôa Filho, analisa duas re-
portagens telejornalísticas sobre a primeira atleta profissional transexual do país.
Uma transexual na Superliga feminina de vôlei: representações de gênero
no telejornalismo esportivo é o título do trabalho que realiza uma análise do
discurso para identificar os sentidos construídos nas reportagens selecionadas.
O capítulo 9, Vidas que importam: problematizações acerca de reportagens
veiculadas nas mídias sobre assassinatos de travestis e transexuais no Brasil,
escrito por Adriana Sales, Bruna Benevides e Fábio Morelli, analisa reportagens
sobre corpos trans e questiona a produção das notícias a respeito das vidas de
travestis e transexuais por destacarem apenas suas vulnerabilidades e o contexto
violento em que estão inseridas. Já no capítulo seguinte, Tendências queer nos
estudos brasileiros de jornalismo e gênero, Gean Oliveira Gonçalves aponta
os possíveis diálogos epistemológicos e aproveitamentos metodológicos que os
Estudos de Jornalismo podem ter a partir da Teoria Queer. Ao reunir perspec-
tivas críticas dentro dos Estudos de Gênero, essa teoria demonstra como são
produzidos os sentidos de normalidade e as normas. O capítulo 11 tem como
autoras Dione Oliveira Moura e Hallana Moreira R. da Costa. No texto Mu-
lheres jornalistas e o “teto de vidro gênero/raça/classe” a tensionar a carrei-
ra das jornalistas negras brasileiras, as pesquisadoras fazem um mapeamento
das ações e relatos de experiências de mulheres negras jornalistas do Distrito
Federal, especialmente as que participam das comissões do Sindicato dos Jorna-
listas, e refletem sobre os motivos de a feminização da profissão não ter propor-
cionado para as mulheres – e, menos ainda, para as mulheres negras – os papéis
de liderança no jornalismo. O capítulo 12, que encerra a segunda parte do e-book,
intitula-se Representações e (in)visibilidades da negritude no telejornalismo
brasileiro: o negro e as relações étnico-raciais são notícias na TV?. De autoria
de Beatriz Becker e Rafael Pereira da Silva, o texto apresenta um estudo das rela-
ções étnico-raciais no telejornalismo por meio de uma análise comparativa das
narrativas de dois telejornais, realizando a leitura crítica de 72 edições.
O capítulo 13, O enquadramento biopolítico de mulheres empobre-
cidas em fotografias jornalísticas sobre o Programa Bolsa-Família, abre a
terceira parte do livro, denominada Representações da mulher na mídia: o
universo da política. As autoras, Ângela Cristina Salgueiro Marques e Angie
Gomes Biondi, analisam imagens fotojornalísticas, publicadas nos jornais bra-
sileiros de referência, que retrataram as mulheres beneficiadas pelo Programa
Bolsa-Família e discutem as implicações estético-políticas desses enquadramen-
tos midiáticos. O capítulo 14, Jornalismo, gênero e desigualdades: análise
das notícias sobre a ampliação de direitos das trabalhadoras domésticas
no Brasil e na Argentina, escrito por Danila Cal, Lorena Esteves e Matheus
Nery, avalia como o jornalismo narra as desigualdades que envolvem mulheres
subalternizadas. Para essa tarefa de pesquisa, selecionaram 40 matérias jornalís-
ticas sobre trabalho doméstico publicados nas plataformas online dos jornais
Folha de S. Paulo e Clarín. A seguir, Ana Maria da Conceição Veloso e Patrícia
Paixão de Oliveira Leite apresentam, no capítulo O discurso sexista da Folha
de S. Paulo e da Veja na campanha de Dilma Rousseff em 2010, um estu-
do de caso envolvendo matérias jornalísticas publicadas nos dois periódicos de
maior circulação no país e observam as marcas do discurso de gênero que reali-
zaram o enquadramento dessa cobertura. Já o capítulo 16, O enquadramento
do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff nas revistas semanais:
simplificação, silenciamento de atores e utilização de fontes não identifi-
cadas como recursos retóricos, parte das referências teórico-metodológicas
da framing analisys para estudar o modo como duas das principais revistas se-
manais de informação constituíram estratégias retóricas para estabelecerem o
enquadramento noticioso do período presidencial relativo ao ano de 2015. Os
autores desse trabalho são Marcos Paulo da Silva e Raquel de Souza Jeronymo.
Jornalismo sindical, local, relações de gênero e cidadania: um estudo sobre
a cobertura das eleições gerais de 2010, no Brasil, e seus reflexos no impea-
chment em 2016 é o título do capítulo 17. De autoria de Cláudia Regina Lahni
e Daniela Auad, analisa um conjunto de matérias de um jornal local e de um in-
formativo sindical de metalúrgicos, ambos editados em uma cidade interiorana
mineira, para compreender como o jornalismo lida com a questão de gênero e
a presença da mulher nas eleições. Fechando a terceira parte deste livro, Liziane
Guazina, Ébida Santos e Francisco Verri discutem como o jornalismo reproduz
os valores culturais da sociedade na qual está inserido no texto “Bela, recatada
e do lar” ou embaixadora do “Criança Feliz”: por que a primeira-dama é
pauta?. Para isso, investigam quais os valores-notícia legitimadores da cober-
tura jornalística realizada pelo principal jornal de referência do país que cita a
esposa do presidente da República.
A quarta e última parte do e-book, que recebeu o título Estudos de gênero
no campo jornalístico: visibilidades e invisibilidades, abre com o capítulo das
pesquisadoras Monica Martinez e Vanessa Heidemann que aborda Relações de
gênero e estudos em jornalismo: mapeamento dos trabalhos apresentados
na Intercom. O trabalho visa compreender, no âmbito dos estudos de jorna-
lismo, a produção científica apresentada ao longo dos 40 anos de congressos da
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação que realiza
a interface com os estudos sobre relações de gênero. No capítulo 20, Desigual-
dade, violência e drogas na pauta noticiosa: a tipificação heteronormativa
na narrativa jornalística, as autoras Camila Hartmann e Ada C. Machado da
Silveira buscam compreender como o jornalismo produz sentido sobre a chama-
da “nova classe média” e, para isso, analisam as capas das quatro revistas sema-
nais de circulação nacional entre os anos 2000 e 2015. O capítulo seguinte, O
jornalismo e os silenciamentos na relação de gênero: um estudo a partir do
caso Marielle Franco, apresenta como corpus de pesquisa as notícias publicadas
no dia seguinte ao crime por quatro jornais com amplas diferenças editoriais.
Ao analisarem os jornais Meia Hora, Zero Hora, Folha de S. Paulo e O Globo,
Lídia Schwantes Hoss, Patrícia Regina Schuster e Vanessa Costa de Oliveira re-
alizam uma cartografia do discurso jornalístico em tensionamento com o tema
das relações de gênero. O capítulo 22, O feminicídio íntimo sob a ótica do
jornalismo popular, analisa as notícias sobre crimes contra as mulheres em um
jornal tabloide goiano. De autoria das pesquisadoras Maria Amélia Pedro Saad,
Ivia Maksud e Edinilsa Ramos de Souza, o trabalho demonstra como o discurso
jornalístico perpetua a dominação masculina e tende a legitimar o feminicídio.
O próximo capítulo tem a autoria de Valquíria Michela John, Elyson Richard
Gums e Dieize Carol Coimbra e intitula-se Jornalismo esportivo e a (in)visi-
bilidade feminina: análise da cobertura dos portais espnW e Lance! duran-
te e após as Olimpíadas 2016. O trabalho conclui que, mesmo com um grande
participação de atletas mulheres no evento, há uma hegemonia da cobertura
para os esportes masculinos e para os homens como fontes de informação e co-
mentaristas. O capítulo 24, Jornalismo on-line ao âmbito social: a constru-
ção do discurso humanizado à luz do gênero, busca comprovar a importância
para a sociedade de um manual de jornalismo humanizado como proposto pelo
portal Think Olga. De autoria Paolla dos Santos Souza, Milena Ferreira Hygino
Nunes, Talita da Silva Ernesto e Carlos Henrique Medeiros de Souza, o texto
aponta que é fundamental promover a transformação da desigualdade de gêne-
ro e da violência contra a mulher ainda presente no jornalismo.
Temos de confessar que ficamos surpresos com a receptividade que o cha-
mado para este livro teve, bem como com a qualidade, seriedade e densidade das
pesquisas que nos foram confiadas para integrar a obra. Um sinal, para nós, de
que essa iniciativa de produzir o primeiro e-book do Grupo de Pesquisa em Te-
orias do Jornalismo da Intercom não foi somente bem-vinda, mas considerada
relevante para nossa comunidade científica e que, portanto, pode (e talvez
deva) prosseguir com novas obras. Preferencialmente alinhadas, de acordo com
o resultado desta experiência, com a temática adotada anualmente pelo tema
anual do Congresso da Intercom.
Nunca é demais lembrar que essa iniciativa somente teve espaço graças a
várias ajudas. A primeira delas, certamente, deve-se ao professor José Marques
de Melo (1943-2018), a quem fazemos questão de registrar aqui nossa home-
nagem. A Felipe Pena, que fundou nosso GP em 2008. A Nair Prata, diretora
científica, e Roseméri Laurindo, diretora editorial, que desde o inicio apoiaram
a ideia. Nunca poderemos agradecer o suficiente à secretaria da Intercom, que
desde sempre nos apoia em todos nossos desafios: Gênio Nascimento e Ma-
ria do Carmo Barbosa, nosso muito obrigada. Finalmente, esta obra não seria
possível sem a boa vontade e entusiasmo de nossas editoras assistentes, Vanessa
Heidemann (Uniso) e Raquel de Souza Jeronymo (UFMS). É pensando em
vocês, jovens pesquisadoras e pesquisadores, que canalizamos nossos esforços
na esperança de que deem continuidade, no futuro, à nossa comunidade de
estudos em jornalismo.
Nossa gratidão também a todas as autoras e autores pela presença neste
livro com seus trabalhos de pesquisa, que reúnem a um só tempo o vigor da cria-
tividade acadêmica com o rigor teórico para produzir o enlace entre os estudos
de jornalismo e das relações de gênero.
Prefácio

Dulcilia Schroeder Buitoni


Professora Sênior ECA-USP

Articular gênero e mídia é uma tendência que vem crescendo na pesquisa


em jornalismo no Brasil, após décadas de incursões até certo ponto tímidas e/
ou isoladas. Trabalhos recentes mostram que essa perspectiva temática ainda
não conseguiu a força que foi desenvolvida em outras áreas do conhecimento.
E então, vemos com alegria o surgimento de uma obra que sinaliza caminhos
promissores para a investigação de relações de gênero no jornalismo.
As pesquisas reunidas neste livro denotam o vigor de uma onda emer-
gente que trabalha com as intersecções entre gênero e jornalismo. No Brasil dos
anos 1970, temas sobre a mulher atraíam a atenção principalmente de pesqui-
sadoras, começando a aparecer com alguma frequência. Nas décadas seguintes,
o conceito de gênero foi se ampliando para abranger bem mais do que questões
femininas. Os capítulos de Desigualdades, relações de gênero e estudos de jorna-
lismo, livro organizado por Leonel Aguiar, Monica Martinez e Marcos Paulo
da Silva, caminham nessa linha de maior espectro. Assim, abrangem o mundo
do trabalho, a interseccionalidade dos campos, como raça e transgênero, as re-
presentações midiáticas da mulher, com ênfase na política, a (in)visibilidade na
esfera jornalística e comprovam que as relações de gênero no jornalismo estão
sendo investigadas em diferentes eixos, com muita consistência.
Este e-book vem reforçar a convicção de que jornalismo e relações de gê-
nero formam um campo de pesquisa que vem se tornando prioritário em nossos
dias; a intensidade de seus textos prenuncia uma nova e produtiva onda. A obra
vem a ser publicada em consonância com os tempos atuais, em que as reivindi-
cações das mulheres nos Estados Unidos, Europa e Brasil estão resultando em
movimentos sociais e encontrando grande espaço na mídia. Mesmo com alguns
avanços, inclusive com a conquista de leis que asseguram direitos, ainda con-
tinuam as antigas lutas, acrescidas por novas lutas nascidas em torno de novas
concepções e novas configurações das relações entre os sexos.
Permitam-me voltar no tempo, captando alguns sinais que já antecipa-
vam a emergência dessa força de pesquisa. Alguns nomes são sementes que ger-
minam ainda hoje. O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, publicado na França
em 1949, foi uma pedra fundamental. A “nossa” Clarice Lispector escrevia a
coluna Entre mulheres no jornal carioca Comício e, em 1952, publicou trechos
traduzidos do livro de Simone, bem antes da edição brasileira, que saiu em
1960. Outro marco foi La presse féminine (Paris, 1964), da socióloga e militan-
te feminista Évelyne Sullerot: um estudo de cunho histórico, que descreveu as
fases da imprensa feminina francesa até os dias da cultura de massa pós Segunda
Guerra. Sullerot foi uma das inspiradoras para meus trabalhos de mestrado e
doutorado, que resultaram na publicação de Mulher de Papel: a representação
da mulher pela imprensa feminina brasileira (1981 e 2009).
Aqui no Brasil, outras mulheres contribuíam decisivamente para a temá-
tica de relações de gênero. Três delas foram decisivas para minhas pesquisas em
minha pós-graduação. A psicóloga social Ecléa Bosi fez uma pesquisa de campo
sobre o que liam mulheres operárias: Cultura de massa e cultura popular, leituras
operárias (1972). Miriam Moreira Leite, socióloga e historiadora, fez uma pes-
quisa no final da década de 1970, que foi publicada no livro A condição feminina
no Rio de Janeiro – século XIX (1984); também tem obras sobre Maria Lacerda
de Moura, uma feminista brasileira, que publicava uma revista anarquista nos
anos 1920; e sobre Retratos de família (1993). A historiadora norte-americana
June E. Hahner, que criou o Programa de Estudos sobre a Mulher da Universi-
dade Estadual de Nova York, pesquisou sobre o começo do feminismo no Brasil
e teve dois livros publicados: A mulher no Brasil (1978) e A mulher brasileira
e suas lutas sociais e políticas – 1850 a 1937 (1981). A primeira dissertação de
mestrado por mim orientada, na ECA-USP, trabalha com jornalismo e relações
de gênero: Mãe, obrigada: uma leitura da relação mãe/filho no Suplemento Femi-
nino do jornal o Estado de S.Paulo (1985), de Sílvia Lustig.
Além da universidade, outros atores sociais apareciam nesse cenário de
efervescência de questões que envolviam os papéis da mulher. Na década de
1970, a Fundação Carlos Chagas estimulava pesquisas sobre temas femininos,
chegando inclusive a promover concursos de projetos, quando então seleciona-
va pesquisas para serem financiadas. Também tinha uma equipe de pesquisado-
ras e assessoras, entre elas Maria Malta Campos, Fúlvia Rosemberg, Lia Fukui,
Branca Moreira Alves, Carmen Barroso e Cristina Bruschini. O grupo de pes-
quisa da Fundação Carlos Chagas produziu um vasto levantamento bibliográfi-
co de livros e materiais sobre a condição feminina no Brasil, publicado em 1979:
Mulher brasileira: bibliografia anotada. A bibliografia compreendeu principal-
mente obras acadêmicas: ensaios, pesquisas, estudos publicados sob a forma de
livros, artigos de revistas, teses, obras de referência que estavam disponíveis em
bibliotecas públicas e particulares. Os títulos foram divididos em quatro áreas
temáticas: história; mulher na família; grupos étnicos; e feminismo.
O jornal Mulherio, surgido em março de 1981, foi fruto da preocupação
das pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas, que desejavam divulgar infor-
mações sobre a condição feminina; elas propunham tratar as matérias veicu-
ladas “de uma maneira séria e consequente, mas não mal-humorada, sisuda ou
dogmática”. Na primeira fase, de março de 1981 a setembro de 1983, foram
publicados 15 números, tendo como responsável pelo projeto a pesquisado-
ra Fúlvia Rosemberg e, como editora, a jornalista Adélia Borges. No início,
a publicação do jornal recebeu subsídios da Fundação Ford. Mulherio tinha
um logotipo sugestivo, que imitava o corpo feminino; trouxe muito material
inovador em termos de foto e texto. A jornalista e psicanalista Maria Rita Kehl
fazia parte do conselho editorial e também escrevia artigos. De 1984 a 1988,
criou-se o Núcleo de Comunicação Mulherio, que publicou os 24 números
seguintes, agora sob a responsabilidade editorial da jornalista Inês Castilho.
Foi um período de grande batalha pela autossuficiência do jornal.
Em 1985, um grupo de docentes e pesquisadoras da Universidade de
São Paulo fundou o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher – NEMGE
–, com o objetivo principal de aprofundar, através de pesquisa empírica e es-
tudos teóricos, as articulações entre gênero, etnia e classe social, especialmente
no Brasil. Faziam parte deste grupo fundador as professoras Eva Alterman Blay,
do Departamento de Ciências Sociais, apontada para coordenação do NEM-
GE, Carmen Barroso (FFLCH), Rosa Ester Rossini (FFLCS), Maria Amélia
Azevedo (IP), Ruth Cardoso (FFLCH), Lia de Freitas Garcia Fukui (FFLCH),
Maria Célia Paoli (FFLCH), Elizabeth Lobo (FFLCH), Dulcilia Helena S. Bui-
toni (ECA) e Miriam L. Moreira Leite (FFLCH). O NEMGE teve períodos de
grande atuação, promovendo eventos com universidades de outros estados, rea-
lizando seminários, palestras, campanhas de conscientização para alunos e fun-
cionários da universidade, oficinas de direitos da mulher, propondo e obtendo
financiamento para projetos, colaborando na formação de novos pesquisadores
e publicando resultados de pesquisas e guias educativos.
No âmbito da Intercom, houve um GT dedicado às questões de gêne-
ro. Começou a funcionar no XIX Congresso Brasileiro (1996), em Londrina.
Era o GT 15 Comunicação e Mulher, por mim coordenado. No XX Congres-
so (1997), em Santos, continuava a mesma denominação. Em 1998, no XXI
Congresso, em Recife, tornou-se, por minha proposta, NP 15 Comunicação e
relações de gênero: a ideia era possibilitar a discussão de outros temas e concep-
ções envolvendo as questões de gênero. Já nesse ano, houve mais variedade nos
trabalhos apresentados. O NP 15 Comunicação e relações de gênero esteve em
funcionamento nos Congressos XXII (Rio de Janeiro) e XXIII (Manaus). A
partir de 2001, houve uma reestruturação com a tentativa de reunir em um úni-
co GT gênero, etnia e questões geracionais, que acabou não sendo implantado.
Alguns trabalhos sobre gênero apareceram de 2002 a 2005 no GT Comunicação
e cultura das minorias. Também distribuíam-se por GTs como Jornalismo, Fic-
ção seriada, Comunicação, espaço e cidadania e outros. Atualmente existe o GT
Estéticas, políticas do corpo e gêneros, que pode abrigar pesquisas de comunicação
e gênero. Porém, no momento, não há nenhuma denominação que indique es-
pecificamente jornalismo e relações de gênero. Nesse sentido, a realização deste
e-book pelo Grupo de Pesquisa em Teorias do Jornalismo da Intercom é muito
bem-vinda: além de abrir espaço para pesquisadores, responde a uma demanda
social urgente.
Estudos de jornalismo e estudos de gênero dialogam neste dossiê de 24
capítulos que estimulam e animam convergências e confrontos. Pesquisadores
de grande experiência e jovens pesquisadores mostram que as relações de gêne-
ro são fundantes de nossas ações pessoais, profissionais e sociais e precisam ser
consideradas cada vez mais na comunicação e no jornalismo.
Apresentação.....................................................................................................05
Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez

Prefácio.............................................................................................................11
Dulcília Buitoni

PARTE I – A MULHER NO MUNDO DO TRABALHO: DOS CONFLITOS


DE GÊNERO ÀS EXPERIÊNCIAS DE RESILIÊNCIA................................18

CAPÍTULO 1: Sentido do trabalho, sofrimento e prazer para as trabalhadoras jor-


nalistas - Alice Mitika Koshiyama e Cristiane Oliveira Reimberg......................................19

CAPÍTULO 2: A mulher na redação em Portugal: o processo de feminização do jorna-


lismo - Alfredo Vizeu e Ana Paula Bandeira..........................................................................35

CAPÍTULO 3: Repensar os parâmetros hegemônicos no jornalismo: a perspectiva de


gênero na produção jornalística e na formação profissional - Karina Janz Woitowicz e
Paula Melani Rocha...................................................................................................................53

CAPÍTULO 4: Agenda da imprensa feminista: rupturas e continuidades - Viviane


Gonçalves Freitas e Lucy Oliveira............................................................................................69

CAPÍTULO 5: Transformações do jornalismo e relações de gênero: análise do ciber-


feminismo midialivrista dos portais AzMina e ThinkOlga - Katarini Giroldo Miguel
e Letícia de Faria Ávila Santos.................................................................................................89

CAPÍTULO 6: Vozes do Leste: os jornalismos literários de Svetlana Alekiévich e


Hanna Krall - Mateus Yuri Passos e Arthur Breccio Marchetto.........................................105

PARTE II – DIFERENÇAS QUE TRANSCENDEM: JORNALISMO E INTER-


SECCIONALIDADE....................................................................................123

CAPÍTULO 7: Jornalismo e estudos de gênero: e a interseccionalidade, onde está?


Claudia Lago, Evelyn Kazan e Manuela Thamani...........................................................124

CAPÍTULO 8: Uma transexual na Superliga feminina de vôlei: representações de


gênero no telejornalismo esportivo - Andréa Corneli Ortis, Lauren Santos Steffen, Ma-
riana Nogueira Henriques e Flavi Ferreira Lisbôa Filho...................................................141

CAPÍTULO 9: Vidas que importam: problematizações acerca de reportagens veicu-


ladas nas mídias sobre assassinatos de travestis e transexuais no Brasil - Adriana Sales,
Bruna Benevides e Fábio Morelli...........................................................................................157
CAPÍTULO 10: Tendências queer nos estudos brasileiros de jornalismo e gênero -
Gean Oliveira Gonçalves.........................................................................................................172

CAPÍTULO 11: Mulheres jornalistas e o “teto de vidro gênero/raça/classe” a ten-


sionar a carreira das jornalistas negras brasileiras - Dione Oliveira Moura e Hallana
Moreira R. da Costa.................................................................................................................193

CAPÍTULO 12: Representações e (in)visibilidades da negritude no telejornalismo


brasileiro: o negro e as relações étnico-raciais são notícias na TV? - Beatriz Becker e
Rafael Pereira da Silva............................................................................................................208

PARTE III – REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA MÍDIA: O UNIVERSO


DA POLÍTICA.............................................................................................224

CAPÍTULO 13: O enquadramento biopolítico de mulheres empobrecidas em fo-


tografias jornalísticas sobre o programa Bolsa-Família - Ângela Cristina Salgueiro
Marques e Angie Gomes Biondi..............................................................................................225

CAPÍTULO 14: Jornalismo, gênero e desigualdades: análise das notícias sobre a am-
pliação de direitos das trabalhadoras domésticas no Brasil e na Argentina - Danila Cal,
Lorena Esteves e Matheus Nery..............................................................................................245

CAPÍTULO 15: O discurso sexista da Folha de S. Paulo e da Veja na campanha de Dilma


Rousseff em 2010 - Ana Maria da Conceição Veloso e Patrícia Paixão de Oliveira Leite............262

CAPÍTULO 16: O enquadramento do segundo mandato da presidente Dilma Rous-


seff nas revistas semanais: simplificação, silenciamento de atores e utilização de fontes
não identificadas como recursos retóricos - Marcos Paulo da Silva e Raquel de Souza
Jeronymo....................................................................................................................................278

CAPÍTULO 17: Jornalismo sindical, local, relações de gênero e cidadania: um estudo


sobre a cobertura das eleições gerais de 2010, no Brasil, e seus reflexos no impeachment
em 2016 - Cláudia Regina Lahni e Daniela Auad............................................................294

CAPÍTULO 18: “Bela, recatada e do lar” ou embaixadora do “Criança Feliz”: por


que a primeira-dama é pauta? - Liziane Guazina, Ébida Santos e Francisco Verri......314

PARTE IV – ESTUDOS DE GÊNERO NO CAMPO JORNALÍSTICO: VISIBI-


LIDADES E INVISIBILIDADES..................................................................332

CAPÍTULO 19: Relações de gênero e estudos em jornalismo: mapeamento dos trabalhos


apresentados na Intercom - Monica Martinez e Vanessa Heidemann...........................................333
CAPÍTULO 20: Desigualdade, violência e drogas na pauta noticiosa: a tipificação
heteronormativa na narrativa jornalística - Camila Hartmann e Ada C. Machado da
Silveira.......................................................................................................................................352

CAPÍTULO 21: O jornalismo e os silenciamentos na relação de gênero: um estudo a


partir do caso Marielle Franco - Lídia Schwantes Hoss, Patrícia Regina Schuster e Vanessa
Costa de Oliveira.......................................................................................................................369

CAPÍTULO 22: O feminicídio íntimo sob a ótica do jornalismo popular - Maria


Amélia Pedro Saad, Ivia Maksud e Edinilsa Ramos de Souza........................................383

CAPÍTULO 23: Jornalismo esportivo e a (in)visibilidade feminina: análise da co-


bertura dos portais espnW e Lance! durante e após as Olimpíadas 2016 - Valquíria
Michela John, Elyson Richard Gums e Dieize Carol Coimbra..........................................397

CAPÍTULO 24: Jornalismo on-line ao âmbito social: a construção do discurso hu-


manizado à luz do gênero - Paolla dos Santos Souza, Milena Ferreira Hygino Nunes,
Talita da Silva Ernesto e Carlos Henrique Medeiros de Souza.........................................413
PARTE I
A MULHER NO MUNDO DO TRABALHO:
DOS CONFLITOS DE GÊNERO ÀS EXPERIÊNCIAS DE
RESILIÊNCIA
Sentido do trabalho, sofrimento e prazer para
as trabalhadoras jornalistas

Alice Mitika KOSHIYAMA1


Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP

Cristiane Oliveira REIMBERG2


Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho,
São Paulo, SP

Resumo
Neste capítulo, apresentamos uma reflexão sobre o trabalho das mulheres jor-
nalistas, pontuando a relação psicodinâmica entre sofrimento e prazer, per-
meado pela precarização, intensificação e violência de um lado e pelo senti-
do de ser jornalista de outro. O ritmo acelerado e o desrespeito aos direitos
trabalhistas atingem tanto homens quanto mulheres, mas a situação delas é
aprofundada por discriminações de gênero e uma maior ocorrência de assédio
moral e sexual. É o que mostram as entrevistas analisadas pelas autoras assim
como a revisão de literatura e alguns casos destacados a partir dos anos 1960.

Palavras-chave: Trabalho; Gênero; Jornalistas; Sofrimento; Prazer.

Introdução

Olhar para o trabalho da mulher jornalista, a partir de um recorte emba-


sado por estudos de gênero, faz-se necessário diante das desigualdades que se
manifestam nas relações de trabalho. O objetivo deste texto é dar a voz a essas
trabalhadoras e analisar suas falas, considerando estudos de gênero e trabalho.
Para fazer esse recorte, utilizamos autoras como Heleieth Saffioti (2013), que
já na década de 1960 pensava a situação da mulher no mercado de trabalho, e
Helena Hirata (2005), referência em estudos de gênero e trabalho no Brasil,
na França e no Japão.
1. Doutora em Literatura Brasileira e mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Professora livre-docente de
Jornalismo da ECA/USP.
2. Doutora e mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Analista em ciência e tecnologia da Fundacentro, insti-
tuição de pesquisa federal em saúde e segurança do trabalhador vinculada ao Ministério do Trabalho.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 19


Para tanto, pegamos a íntegra das entrevistas com jornalistas mulheres,
realizadas para a pesquisa de doutorado “O exercício da atividade jornalística
na visão dos profissionais: sofrimento e prazer na perspectiva teórica da psico-
dinâmica do trabalho” (REIMBERG, 2015), e fazemos esse novo recorte, que
não chegou a ser explorado na tese.
Assim, analisamos sete entrevistas realizadas com jornalistas mulheres,
de 25 a 51 anos, que falam sobre o sentido do trabalho, ritmo da atividade
que realizam, pressão, dores, adoecimento, estresse, sofrimento e prazer no
trabalho. Ao usar esse novo recorte, aprofundamos o olhar para o trabalho da
mulher jornalista e podemos perceber como o assédio moral e o assédio sexu-
al no trabalho recaem de forma mais dura sobre as mulheres. A preocupação
em conciliar a vida familiar e de trabalhadora também aparece em suas falas
de forma mais incisiva. Por outro lado, o sentido do que é ser jornalista e do
trabalho que realizam possuem características da construção social do que é
jornalismo.
Também buscamos delinear um olhar ampliado sobre a questão, des-
tacando que as discriminações de gênero marcam o cotidiano das jornalistas
desde que elas ingressaram na profissão. A partir dos anos sessenta do século
passado, a presença delas nas redações muda o cenário da profissão e hoje elas
constituem a maioria. Sua participação no mercado e presença em todos os
locais de trabalho pôs em relevo o problema da discriminação de gênero e do
assédio sexual e moral contra mulheres jornalistas no Brasil. É um fato consta-
tado na linha do tempo de 1960 aos dias atuais.
Estudos feministas embasam a percepção das desigualdades das mulhe-
res na história e na cultura do país, como as pesquisas de Margareth Rago e as
reflexões pioneiras da jornalista e psicóloga Carmen da Silva. Levantamentos
empíricos de casos mostram a violência de gênero na profissão (o mais conhe-
cido é o assassinato da jornalista Sandra Gomide) até o inventário de ações
desrespeitosas enfrentadas no dia a dia de trabalho, constatado em pesquisa de
2017 feita pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo - Abraji. Por-
tanto, a discriminação de gênero atinge as relações de trabalho nas empresas e
na prática profissional diária fora da empresa. E jornalistas mulheres percebe-
ram a importância da denúncia: “Deixa ela trabalhar” é a recente campanha
contra assédio de jogadores de futebol e torcedores nos estádios de futebol
contra jornalistas mulheres. Esses exemplos mostram que não se tratam de ca-
sos isolados e, sim, de uma problemática no trabalho jornalístico que precisa
ser enfrentada e modificada.

20 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Trabalho e gênero

Saffiotti (2013) foi pioneira no Brasil em estudar o trabalho feminino


nos anos 1960 a partir de uma óptica de gênero e classe. O capitalismo não leva
a uma emancipação feminina, em um cenário de marginalização da mulher em
que sua força de trabalho tem um menor valor. A elas são reservadas as piores
ocupações. Os salários são menores. Os cargos de liderança são dominados por
homens. Os conflitos de classes são atravessados pelas contradições de gênero
e de etnia, nos quais as mulheres sofrem mais os efeitos da apropriação privada
dos frutos do seu trabalho social do que os homens.

O aparecimento do capitalismo se dá, pois, em condições extremamen-


te adversas à mulher. No processo de individualização inaugurado pelo
modo de produção capitalista, ela contaria com uma desvantagem so-
cial de dupla dimensão: no nível superestrutural, era tradicional uma
subvalorização das capacidades femininas traduzidas em termos de mi-
tos justificadores da supremacia masculina e, portanto, da ordem social
que a gerara; no plano estrutural, à medida que se desenvolviam as for-
ças produtivas, a mulher vinha sendo progressivamente marginalizada
das funções produtivas, ou seja, perifericamente situada no sistema de
produção. (SAFFIOTI, 2013, p.65-66).

Além disso, a força de trabalho da mulher, em alguns momentos, é mer-


cadoria a ser trocada, em outro, é tão somente valor de uso a ser desempenha-
do na família (SAFFIOTI, 2013, p.96). Na avaliação da autora, “a liberdade
formal dos membros da sociedade capitalista camufla o peso real dos fatores
naturais que cada socius carrega no processo social da competição (SAFFIO-
TI, 2013, p.108). Ela denuncia, nos anos 1960, o uso de critérios irracionais
contra as mulheres como debilidade física, estabilidade emocional e peque-
na inteligência femininas (SAFFIOTI, 2013, p.330) e constata uma peque-
na capacidade reivindicatória, a não ocupação de cargos estratégicos tanto no
mercado de trabalho como nos cargos de direção dos sindicatos (SAFFIOTI,
2013, p.100, 332).
Em uma análise dos tempos atuais, Falquet (2016, p. 42) avalia que “a
crise econômica profunda e prolongada que afeta a maioria dos países veio
lembrar que o mercado de trabalho não tinha se tornado nem um pouco mais
acolhedor para a maioria das mulheres não privilegiadas por ‘raça’ e classe”.
Prevalecem as lógicas heterossexuais, sexistas, classistas e coloniais. Em sua

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 21


avaliação, o neoliberalismo privilegia um modelo que vem sendo desenvolvido
desde a década de 1980 em que a mulher tem que ser “tudo”3 ao mesmo tempo,
com uma apropriação individual e coletiva, em que a opressão é invisibilizada
com ares de liberdade (FALQUET, 2016, p. 44).
Hirata (2005) fala sobre as transformações no mundo do trabalho, a
adoção de políticas neoliberais e os impactos da globalização e dessas questões
sobre a divisão sexual do trabalho, em um cenário marcado pela flexibilidade
e por precariedades, que ao mesmo tempo requer forte envolvimento do tra-
balhador e acena com a insegurança no emprego, seja pelas flexibilizações, seja
pelo aumento do desemprego.
A autora fala em uma bipolarização na qual há profissionais altamente
qualificadas com bons ganhos em um extremo, “e, no outro, mulheres com
qualificação muito baixa, baixos salários e trabalhos sem reconhecimento so-
cial” (HIRATA, 2005, p.116). Também aponta que a questão da competên-
cia é marcada por um debate que traz características e figuras masculinas nas
definições de “criatividade, responsabilidade, iniciativa, capacidades técnicas,
autonomia no trabalho”. Assim, “as mulheres raramente estão presentes em
cargos que requerem tais características. Quando elas possuem tais competên-
cias, são menos remuneradas” (HIRATA, 2005, p.118).

O trabalho da mulher jornalista na visão das entrevistadas

As mulheres são maioria no jornalismo. Dados levantados por Mick e


Lima (2013, p. 33) apontam que elas correspondem a 63,7% do total de jorna-
listas que atuam na área. Entre os profissionais com até 30 anos, essa porcen-
tagem é ainda maior, ultrapassando 69%. Elas vivenciam essas transformações
do mundo do trabalho marcadas pela precarização, flexibilização e intensifica-
ção do trabalho, como mostram as sete entrevistas analisadas neste capítulo4.
As jornalistas tinham, na época da entrevista, entre 25 e 51 anos, e acu-
mulavam experiências em diferentes meios de comunicação como jornal, re-
vista, TV, rádio e Internet. Elas apontaram um cenário em que vivenciavam
longas jornadas de trabalho e que, em alguns casos, não havia direitos traba-
lhistas respeitados como o registro em carteira. Essa precarização era ligada
3. Modelo de sexagem apontado pela autora em que os diferentes papéis se misturam: donas de casa, mães, trabalha-
doras no mercado, trabalhadoras voluntárias e prostitutas.
4. As entrevistas foram realizadas entre dezembro de 2013 e julho de 2014. As jornalistas puderam optar pela iden-
tificação ou não de seus nomes. Quando optavam por não serem identificadas, ganhavam um nome próprio fictício.
Foram entrevistadas as jornalistas Priscilla Nery, Vivian Fernandes, Aline Scarso, Maria, Fernanda Cirenza, Paula
Puliti e Marilu Cabañas.

22 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


ao sofrimento no trabalho, em que reconheciam situações negativas, mas ao
mesmo tempo declaravam grande envolvimento com a profissão. O trabalho
dava sentido à vida, e o reconhecimento e o sentido do trabalho podiam trans-
formar o sofrimento em prazer.
Pensamos o sofrimento e o prazer no trabalho a partir da perspectiva da
psicodinâmica do trabalho, desenvolvida pelo psicanalista e psiquiatra fran-
cês Christophe Dejours (1992, 2012a, 2012b). Em suas obras, o autor mostra
como o sofrimento pode emergir quando a organização do trabalho é rígida
e vai contra os desejos e as necessidades do sujeito, podendo ganhar aspectos
patogênicos e levar à mortificação do sujeito.
Por outro lado, o sofrimento está sempre presente no trabalho e aparece
quando nos deparamos com o real da atividade. Para Dejours (2012b, p. 25),
“o real se deixa conhecer pelo sujeito por sua resistência aos procedimentos,
ao saber-fazer, à técnica, ao conhecimento, isto é, pelo fracasso imposto ao
domínio sobre ele – o real”. O sujeito é confrontado pelo mundo real, de modo
afetivo, e se depara com o fracasso. Ao provar a resistência do mundo, a afetivi-
dade se manifesta ao sujeito. “Assim, é nessa relação primordial de sofrimento
no trabalho que o corpo realiza a um só tempo a experiência do mundo e de
si mesmo”.
Nessa relação psicodinâmica, o reconhecimento pode transformar o
sofrimento em prazer ao imprimir no trabalho o seu sentido subjetivo (DE-
JOURS, 2012b, p.40), e o trabalho pode contribuir para a construção do su-
jeito. No caso do jornalista, o prazer está ligado ao envolvimento que o traba-
lhador jornalista tem com a profissão e ao sentido que atribui ao jornalismo. O
reconhecimento de seu trabalho, tanto pelo outro como por si próprio, quan-
do afere um sentido positivo ao trabalho realizado, faz com que o sofrimento
possa ser transformado em prazer.
Segundo Dejours (2012b, p.105-106), a retribuição esperada pelo sujei-
to no trabalho é de natureza simbólica: o reconhecimento, tanto no sentido
de constatação – “reconhecimento da realidade que constitui a contribuição
do sujeito à organização do trabalho”, quanto no de gratidão pela contribuição
dada. No caso das jornalistas entrevistadas, a questão do sofrimento aparece
tanto ligada à precarização do trabalho e à organização como quando se de-
param com o real da atividade. Em relação ao primeiro aspecto, apontaram a
baixa remuneração; as longas jornadas de trabalho; os trabalhos em feriados e fi-
nais de semana; o não cumprimento de direitos sociais; a pressão para fazer tudo
o mais rápido possível aliada ao risco de ser prontamente substituída; a falta de

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 23


recursos e condições para elaborar uma matéria, inclusive materiais como carro e
equipamentos; a pressão da chefia; a perseguição e o assédio moral.
Já quando se deparam com o real da atividade de trabalho, o sofrimen-
to emerge quando as jornalistas precisam cumprir uma pauta com a qual não
possuem identificação; quando não há liberdade para se expressar ou realizar
uma pauta; quando não conseguem fazer o jornalismo em que acreditam; na
produção de um bom texto; na apuração; na consulta a diferentes fontes; na
falta de reconhecimento da qualidade de seu trabalho; na interferência de in-
teresses comercias.
Só uma das jornalistas apontou, ao responder a pergunta sobre o sofri-
mento no trabalho do jornalista, a questão do sofrimento físico e emocional,
exemplificando como cobranças, estresse e desgaste. No entanto, havia ques-
tões específicas sobre dores, adoecimentos, estresse e assédio moral, em que
esses aspectos foram mais detalhados e também podem ser entendidos como
sofrimentos no trabalho.
Em relação a dores e adoecimentos ligados a situações de trabalho, as
jornalistas relataram dor nas costas, coluna ou ombros; dor de estômago; pres-
são baixa (devido à falta de tempo para comer em dia de fechamento ou deter-
minadas coberturas); dor de cabeça; infecção genital (caso gerado em uma co-
bertura em acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
- MST); faringite (na jornalista que atuava em rádio); tristeza profunda, possí-
vel depressão, crises de ansiedade e desgaste mental; LER (Lesões por Esforços
Repetitivos); além de uma maior tendência a adoecimentos como gripes e à
somatização de doenças após períodos de fechamento ou de intensificação do
trabalho. Houve relatos em que as dores, muitas vezes em consequência do
volume de trabalho e da pressão do tempo, impediram as jornalistas de realizar
atividades pessoais quando não estavam trabalhando.
Tempo, pressão, intensificação e ritmo acelerado aparecem em diferen-
tes momentos das entrevistas. A corrida contra o tempo é um dos principais
fatores relacionados pelas jornalistas quando a questão é a percepção de estres-
se no trabalho, apesar de essa não ser uma categoria utilizada pela psicodinâmi-
ca do trabalho. Também aparecem fatores estressantes como a quantidade de
trabalho a ser realizado; o tipo de cobertura e o risco presente – como mani-
festações por exemplo; a tensão de coberturas de tragédias, grandes acidentes
ou catástrofes; as relações interpessoais com equipe, chefia e fontes (entrevis-
tados); as limitações estruturais e de ferramentas para realizar o trabalho; a
competitividade no ambiente de trabalho.

24 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Outra questão importante relacionada ao sofrimento no trabalho das
jornalistas é o assédio moral, que foi tema de pergunta às entrevistadas, e o as-
sédio sexual, que mesmo sem ser tema de uma pergunta específica, apareceu no
relato de três mulheres. É importante salientar que um dos casos de depressão
e o relato de tristeza profunda estavam ligados a situações de assédio moral.
O assédio moral ocorre “quando a dignidade de alguém é atacada de
modo repetitivo, sistemático e deliberado durante um período prolongado,
geralmente de vários meses” (SELIGMANN-SILVA, 2011, p.502). Essa “prá-
tica desmoralizante recebe adesões dos demais e se propaga de modo a isolar
cada vez mais a pessoa visada”. Segundo Seligmann-Silva (2011, p.503), “o
objetivo é excluir, desqualificar profissionalmente e desestabilizar emocional-
mente alguém que, por motivos os mais diversos, tenha se tornado indesejável
para o/a perpetrador/a do assédio”. Freitas, Heloani e Barreto (2008, p.37)
destacam o aspecto organizacional do assédio moral, pois ocorre no ambiente
de trabalho entre pessoas que são parte de uma estrutura organizacional, en-
contrando o respaldo da organização.
Entre as sete entrevistadas, quatro jornalistas presenciaram situações de
assédio moral, duas não presenciaram e uma naturalizou a questão do assédio
moral como algo recorrente, mas não se lembrava de nenhum caso específico.
Das duas que não presenciaram, uma já ouviu relatos de amigos, e a outra viu
um caso no departamento comercial de onde trabalhava, mas nunca entre jor-
nalistas. Três jornalistas já foram assediadas moralmente. Uma delas chegou
a ter depressão e pensou em desitir da profissão. Em outras ocasiões, ela pre-
senciou casos e viu colegas serem “colocados na geladeira”. A outra jornalista
vítima de assédio moral vivenciou uma situação em que a chefia pedia vários
textos para ela que não eram publicados, além de viver e presenciar muitas situ-
ações de humilhações. O outro caso foi de um assédio moral coletivo, em que o
chefe e aqueles que eram mais próximos dele assediavam os demais jornalistas,
criando um cenário de perseguição e ameaças.
Em relação aos três casos de assédio sexual, uma jornalista foi vítima do
chefe: “Foi uma forma de pressão que me deixava muito nervosa. Ele acabou
me demitindo porque eu não queria nada com ele”. Outra jornalista vivenciou
a situação com um entrevistado em um evento. Ele sentou ao lado da jornalista
e a abraçou: “Para não ficar uma situação chata, eu falei ‘preciso ir ali’ e não vol-
tei mais. Não tive mais contato. Eu desisti da entrevista. Foi uma situação bem
desagradável e constrangedora”. O outro caso ocorreu com um colega de traba-
lho, que costumava piscar e fazer gestos para a profissional que a incomodavam.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 25


Apesar de todas essas situações adversas relatadas e de toda precariza-
ção vivenciada, as jornalistas afirmam ter satisfação no trabalho e atribuem
um sentido positivo ao trabalho do jornalista. Ao serem questionadas sobre o
que era prazer no trabalho delas, relataram: a possibilidade de conhecer coisas
novas, lugares e pessoas; vivenciar realidades diferentes da sua; mostrar para as
pessoas a realidade; o reconhecimento pelo trabalho realizado; fazer uma pau-
ta que sugeriu; situações em que tiveram apoio e infraestrutura para realizar o
trabalho; ver que a matéria feita alcançou as pessoas; acreditar que as reporta-
gens impactam na vida das pessoas; vivenciar uma redação e os diferentes tipos
de pessoas; sair para a rua; entrevistar as pessoas; a aprendizagem com os en-
trevistados; obter conhecimento; ter um resultado positivo na vida de alguém
ou na sociedade em decorrência de uma matéria; o reconhecimento dos entre-
vistados; entregar uma matéria que gostou de fazer; ter o reconhecimento do
público sobre a importância da matéria; sentir que a matéria ficou muito boa.
O próprio sentido positivo que atribuem ao trabalho jornalístico é
importante para que mesmo vivenciando um cenário de precariedade, elas
acreditem no papel do trabalho do jornalista e transformem os sofrimentos
vivenciados em prazer. O que fica visível quando olhamos para as definições
dadas pelas entrevistadas sobre o que significa ser jornalista: ser defensor da
democracia; ser contra qualquer violação dos direitos; ajudar os cidadãos a
entenderem seus direitos e o contexto social; ter um aprendizado de responsa-
bilidade; modificar alguma realidade; tentar fazer alguma coisa pelas pessoas;
dar voz a quem não tem voz; ser um intermediário entre a fonte, que pode ser
uma autoridade ou um especialista, e o público; traduzir um fato que pode ser
de difícil entendimento ao público; ser questionadora; ser uma pessoa curio-
sa; estar aberta ao aprendizado; ser uma pessoa analítica; levar informação de
qualidade; querer transformar o seu meio de atuação; pensar em mudar algu-
ma coisa injusta; fazer algo para o outro.

Sofrimento e prazer no trabalho da jornalista Carmen da Silva

Esse cenário psicodinâmico de sofrimento e prazer no trabalho das jor-


nalistas, mostrado pelas entrevistadas, é uma realidade que pode ser vista com
outras jornalistas e que deve considerar a questão de trabalho e gênero pontu-
adas no início do capítulo. Podemos afirmar que as discriminações de gênero
marcaram a vida cotidiana das mulheres e das jornalistas desde a entrada delas
no mercado de trabalho.

26 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Michele Perrot avaliou as dificuldades e os ganhos da luta das mulheres
pela igualdade, na sociedade e nas academias (PERROT, 2007). A criação das es-
colas superiores de jornalismo, a partir dos anos 1960, atraiu as mulheres para a
profissão, e elas já constituíam maioria no final do século XX (RIBEIRO, 1998).
No entanto, a discriminação de gênero e o assédio moral e sexual no jornalismo
foram questões silenciadas até há pouco tempo. Agora são temas de movimentos
sociais e de estudos e pesquisas acadêmicas no Brasil. Mas isso não significa que
não ocorreram ações pontuais que levantaram a questão da discriminação de gê-
nero no passado. O jornalismo, inclusive, chegou a desempenhar um importante
papel nesse quesito com a atuação pioneira no jornalismo feminino da jornalis-
ta e psicóloga feminista Carmen da Silva, autora de artigos na revista Cláudia,
entre 1963 a 1985, pela igualdade e contra as discriminações. Ela propunha a
mudança de valores, de comportamentos e de relacionamentos de mulheres e
homens, em permanente diálogo com a vida cotidiana. Em publicação para o
público de classe média conservadora, nos anos da ditadura, Carmen conseguiu
sucesso. Com sua morte, em 1985, a seção “A Arte de Ser Mulher”, que ela escre-
via, foi extinta (KOSHIYAMA, 2005).
No contexto histórico do início dos anos 1960, grande parte das pessoas
ridicularizava o feminismo. Carmen da Silva rebatia com bom humor e ótima
redação. Ela gostava do seu trabalho de conversar com as leitoras, ajudá-las a
refletir sobre suas inquietações, desafiar padrões estabelecidos opressivos ou
injustos. Achava-se muito bem remunerada (TOSCANO, 2008) e tinha um
espaço privilegiado na revista.
Para Maryvonne Lapouge & Pisa (1977), revelou que estava impedida
de dizer tudo o que queria e sabia. Tinha de dizer de um modo que pudesse ser
aceito, seja falando de aborto ou de divórcio.

Terminei um artigo sobre a competição, a rivalidade que existe entre as mulhe-


res. Mostro como as mulheres são condicionadas a brigar entre elas. O homem
faz coisas nas ciências, nas artes e nas técnicas, que frequentemente é fruto de um
trabalho em equipe. A mulher não. Ela foi educada para o casamento e a materni-
dade, duas situações que excluem o grupo, que são uma atividade privada, exclu-
siva. Falando de competição, devo-me controlar, porque com certeza a sociedade
em que vivemos, a sociedade capitalista, estimula a competição. E a competição e
a concorrência são a base da livre empresa. E eu não posso falar disso, não posso
dizer: “as estruturas capitalistas, em nossa sociedade atual, ocidental, excitam as
rivalidades... Impossível... (LAPOUGE & PISA, 1977, p.54)5.
5. Original em francês

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 27


Carmen da Silva procurava mostrar os problemas das mulheres como
parte de um sistema de relações entre pessoas e instituições da sociedade.
Questões pertinentes ao cotidiano de homens e mulheres eram também pro-
blemas políticos, religiosos, educacionais, econômicos, culturais e jurídicos.
As mulheres lutavam pela mudança da Constituição de 1946 que impunha
a desigualdade da mulher, definida como um ser semicapaz, tutelada do ho-
mem. Carmen faleceu antes da publicação da Constituição de 1988,

que garantiu a condição de equidade de gênero, bem como a proteção


dos direitos humanos das mulheres pela primeira vez na República Bra-
sileira: No Artigo 5°, I: “Homens e mulheres são iguais em direitos e
obrigações, nos termos desta Constituição”. E no Artigo 226, Parágrafo
5°: “Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos
pelo homem e pela mulher”. (apud BARRETO, 2010).

A jornalista também chegou a expressar o prazer de fazer jornalismo


feminista no texto para as leitoras da publicação alternativa Mulherio, fundada
em 1981 e que já desapareceu. Na última página do número inaugural, incitava
as mulheres a assumirem seus destinos: “As mulheres não podem se isolar. Na
comunicação solidária entre mulheres e no assumir o próprio destino como
um ‘fazer’ reside o milagre: o milagre possível, o milagre nosso” (Abracadabra!
In: Mulherio, março-abril 1981, ano I, número 0).

Sofrimento nas relações profissionais e nas relações de gênero

A profissão jornalística naturaliza o assédio moral. Os casos relatados


pelas jornalistas entrevistadas não se tratam de episódios isolados. Chefes,
quando recebem carta branca para que os subordinados produzam, viram
soberanos autoritários contra homens e mulheres. É o sofrimento que ganha
forma no trabalho jornalístico, conforme depoimento do jornalista Nivaldo
Manzano (2000).
Um caso de assédio moral, assédio sexual e violência de gênero foi o
assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo seu ex-chefe de redação Antonio
Pimenta Neves. Ela viveu um namoro com Pimenta Neves, seu chefe na reda-
ção do jornal Gazeta Mercantil e que a levou para o jornal O Estado de S.Paulo
e a promoveu editora de economia. Ao romper o namoro, ele a matou em
agosto de 2000 (KOSHIYAMA, 2005).

28 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Levantamentos nos meios de comunicação ainda mostram outros re-
gistros de ações desrespeitosas contra profissionais mulheres cometidas no dia
a dia da profissão em pleno século XXI. Grupos de mulheres feministas pro-
testam contra valores e comportamentos da cultura patriarcal e machista em
movimentos internacionais como o #metoo. A reação contra o assédio sexual
computa prejuízos simbólicos e financeiros para os infratores famosos e pode-
rosos nos Estados Unidos.
No âmbito nacional, mulheres têm agido em grupo, como no caso da
figurinista da TV Globo, assediada sexualmente pelo ator José Mayer, seu co-
lega de trabalho. A suspensão dele por tempo indeterminado aconteceu após a
manifestação de protesto conjunto de atrizes e funcionárias da TV Globo com
o movimento: “Mexeu com uma mexeu com todas”.
Em todas as categorias profissionais, denunciar o assédio moral e sexu-
al é, em si, um sofrimento. Desgastante, fator de aflições e desgosto por não
serem levadas a sério ou sofrerem desqualificações, desmentidos e, em alguns
casos, mais perseguições.
Em texto recentemente publicado, “Vozes contra a opressão”, Moretz-
sohn (2018) expõe depoimentos de mulheres. “São relatos de dor, revolta e
superação sobre a experiência de serem perseguidas por chefes, colegas e fon-
tes.” Até tempos recentes, os sofrimentos sequer eram publicamente compar-
tilhados. Para mulheres de diferentes gerações, também é sofrimento lembrar
situações que

“gostariam de ter esquecido, superado ou enfrentado de outra forma,


que muitas vezes as levaram a perder a autoconfiança e a autoestima e
fizeram tantas adoecerem física e emocionalmente, a ponto de, algumas
vezes, desistirem da carreira e até tentarem o suicídio”. (MORETZSO-
HN, 2018).

Lutas contra o sofrimento patogênico no trabalho

Se o sofrimento pode ser transformado em prazer por meio do reconhe-


cimento e do próprio sentido que as jornalistas atribuem ao seu trabalho, por
outro lado, vimos que ele pode ser patogênico e levar ao adoecimento como
nos relatos de tristeza profunda e depressão relatados por nossas entrevistadas
em situações em que vivenciaram o assédio moral. O mesmo se pode dizer dos

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 29


exemplos de assédio tirados da literatura ou denunciados atualmente.
Mas o que fazer para mudar este cenário de discriminações de gêne-
ro, assédio moral e sexual? É importante que as mulheres não se isolem e se
apoiem, fortalecendo os laços de solidariedade e não silenciando os sofrimen-
tos patogênicos vivenciados. É um caminho que começa a ser trilhado. As mu-
lheres estão se unindo ao perceber que podem mudar as condições inóspitas
no trabalho. Cientes dos seus direitos, jornalistas mulheres organizam-se para
informar a categoria e a sociedade sobre as discriminações que sofrem e que
devem ser extintas. “Jornalistas contra o assédio”, de 2016, foi uma campanha
inicial: o grupo criou uma página no Facebook e elaborou vídeos com a partici-
pação de conceituados jornalistas homens falando contra o assédio nos locais
de trabalho.
Em junho de 2017, mulheres jornalistas relataram assédio moral e assé-
dio sexual de chefes, colegas e fontes de informação, em reunião no Congresso
da Abraji, e lançaram uma pesquisa junto com a revista eletrônica Gênero e
Número. O relatório “Mulheres no Jornalismo Brasileiro” foi publicado em
setembro de 2017 e está disponível para compartilhamento e uso na vida quo-
tidiana profissional.

O levantamento, o primeiro do tipo no Brasil, ouviu 42 mulheres em


mesas de discussão em Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e São
Paulo, além de 477 jornalistas de 277 veículos, que responderam a um
formulário pela internet. O cenário encontrado pelos pesquisadores
mostra um ambiente de redações em que as práticas sexistas são natura-
lizadas, segundo a coordenadora do relatório e cofundadora da Gênero
e Número, Natália Mazotte. Para ela, o constrangimento sofrido pelas
mulheres impacta severamente seu trabalho. (MONNERAT, 2017)

Chega! Em maio de 2018, jornalistas revelaram o que estão sofrendo, na


campanha “Deixa ela trabalhar”. São jornalistas mulheres que cobrem eventos
esportivos, declaram ter prazer no que fazem no trabalho, mas sofrem com
agressões, assédios e ofensas perpetrados pelos homens: dirigentes, atletas, tor-
cedores machistas.
A pesquisa “Mulheres no Jornalismo Brasileiro”, ao revelar publicamen-
te a discriminação contra mulheres jornalistas em todas as etapas da execução
do seu trabalho, constatou uma situação que precisa ser mudada a partir da
sensibilização de profissionais e da sociedade para o problema. O que pede
campanhas permanentes e com múltiplos focos. Dessa forma, apresenta ideias

30 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


para aplicação imediata, que devem ser colocadas em prática:

Os resultados da pesquisa mostram que há um longo caminho a percor-


rer para que a igualdade de gênero se estabeleça no jornalismo profissio-
nal. Algumas recomendações simples podem acelerar a transição para
um período de justiça com todas as repórteres, editoras e trabalhadoras
da imprensa brasileira:
1 - Os veículos devem produzir cartilhas para funcionários e colabora-
dores definindo o assédio cometido por uma fonte e indicando os pro-
cedimentos a serem adotados pelas repórteres quando forem vítimas
desses atos.
2 - As redações devem organizar grupos de monitoramento da diversi-
dade de gênero nas redações; esse grupo deve ter um canal de comuni-
cação direto com a direção do veículo e a missão de produzir relatórios
periódicos com análise tanto da cobertura, para identificar desequilí-
brios no gênero das fontes ouvidas, quanto da composição da redação,
para orientar possíveis novas contratações.
3 - Os veículos devem investir em capacitação de todos os repórteres em
temas de diversidade; há cursos, palestras, debates e webinars disponí-
veis que podem auxiliar no combate a este tipo de violência.
4 -Todos os repórteres devem ser orientados a tratar do tema do assédio
junto a suas fontes; é especialmente importante ressaltar o caráter de
violação à liberdade de expressão que essa conduta acarreta.
5 - As redações devem criar um canal de comunicação interno para que
vítimas de abuso e assédio possam fazer a denúncia formal.
6 - As redações devem encarar como pautas relevantes todas as investi-
das inapropriadas de fontes sobre jornalistas mulheres. Estampar o as-
sédio às trabalhadoras, bem como dedicar espaço às reportagens sobre
diversidade de gênero é um passo importante para desestimular o abu-
so”. (MULHERES NO JORNALISMO BRASILEIRO, 2017).

Essas recomendações reforçam o quanto a questão do assédio, seja ele mo-


ral ou sexual, tem dimensão organizacional. Não se trata de ações isoladas e, sim,
de atitudes naturalizadas e silenciadas pela gestão, que muitas vezes se benefi-
ciam de situações como essas para obter mais produtividade por meio da tensão
gerada, para excluir profissionais que desejam descartar e até mesmo se utilizan-
do do machismo da sociedade patriarcal ao fazer da jornalista mulher um obje-
to sexual que pode dar audiência ou conseguir determinada informação com a
fonte pelo fato de ser mulher, numa visão machista que desconsidera o seu saber
profissional, afeta a sua dignidade e a sua subjetividade e sentido profissional.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 31


O sofrimento no trabalho que emerge quando a jornalista se depara
com o real da atividade deve ser aquele ligado ao fazer profissional e que é
facilmente transformado em prazer em um trabalho que tem sentido e reco-
nhecimento, numa relação psicodinâmica em que estão presentes a autonomia
e os laços de solidariedade. Já o assédio moral e sexual são violências no traba-
lho, que ocorrem com o respaldo da organização e precisam ser combatidas.
Da mesma forma, a organização do trabalho deve ser repensada. O que temos
hoje é um cenário marcado pela precarização e intensificação do trabalho, com
o desrespeito dos direitos trabalhistas como o não pagamento de horas extras,
o não cumprimento de banco de horas, a não realização de folga a cada seis dias
de trabalho e uma pressão extrema, marcada por metas inalcansáveis e por pro-
dudividade, que anulam as possibilidades criativas, reflexivas e autônomas que
poderiam levar a um jornalismo de mais qualidade e que realmente cumprisse
os ideais da profissão que dão sentido ao “ser jornalista”.

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34 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


A mulher na redação em Portugal:
o processo de feminização do jornalismo6

Ana Paula BANDEIRA7


Alfredo VIZEU8
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE

Resumo

As mulheres ocupam cada vez mais espaço nas redações em Portugal. Atu-
almente, elas representam 48,2% dos jornalistas, seguindo uma tendência do
mundo ocidental iniciada no fim do século XX. Com base nas teorias do jor-
nalismo, do gênero e do mundo do trabalho, esta investigação busca mostrar
possíveis alterações nas rotinas e processos jornalísticos dentro desse contexto.
Realizamos entrevistas individuais com 21 jornalistas de três jornais portu-
gueses. As análises direcionam para mudanças nas práticas da redação. Elas
dividem com os homens as responsabilidades no ambiente de trabalho. As in-
vestigações de campo mostram que, mesmo sem hegemonia no topo da hierar-
quia, a influência delas aumenta cada vez mais na gestão de tarefas e no olhar
para temas sociais.

Palavras-chave: Jornalismo; Jornalismo em Portugal; Feminização; Gênero


no jornalismo

Introdução

Desde os anos 1980, são inegáveis as mudanças nas redações e nos car-
gos executivos das empresas jornalísticas. A virada do século XX para o XXI
foi marcada fortemente pelo que se tem chamado de feminização da força de
trabalho jornalístico no mundo ocidental (LOBO et al, 2015; MIRANDA,
2014, 2017; GARCIA, 2009). Porém, estudos globais que tratam da cultura
6. Pesquisa realizada durante o estágio sanduíche da primeira autora deste artigo na Escola Superior de Comunicação
Social, em Portugal, em 2017, como parte do doutorado em Comunicação na UFPE, orientado pelo segundo autor.
7. Doutoranda em Comunicação (UFPE), mestre em Jornalismo (UFSC) e graduada em Comunicação Social/Jor-
nalismo (Univali). E-mail: anapaula.bandeira@ufpe.br.
8. Doutor em Comunicação e Cultura (UFRJ). Pós-doutor (PUCRS). Docente do PPGCOM/UFPE. Coordena-
dor do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade. E-mail: a.vizeu@yahoo.com.br.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 35


das redações, tanto no que se refere ao ambiente de trabalho quanto à forma
como as mulheres são tratadas e retratadas nas matérias jornalísticas, conside-
ram serem necessários mais de meio século para que as mudanças iniciadas no
fim do século XX evoluam para uma equidade de gênero nas redações (IFJ,
2009), ainda que, em alguns países as mulheres estejam fortemente represen-
tadas entre os profissionais das redações.
O aumento do número de mulheres nas redações traz questões a serem
pensadas a partir da tríade jornalismo, gênero e sociedade. Este estudo busca,
portanto, compreender as implicações que o aumento da população feminina
no jornalismo traz às práticas e rotinas dentro das redações, por meio das per-
cepções dos profissionais. Trata-se de um fenômeno ligado ao contexto social,
no qual as mulheres passaram a ter mais acesso à educação e integraram o mun-
do do trabalho. E é, sobretudo, pelas lentes do social que se torna possível pen-
sar o jornalismo por meio da perspectiva de gênero (PONTES, 2017, p. 11).

O estudo de gênero

Em novembro de 2017, o jornal americano The New York Times anun-


ciou a contratação de uma editora de gênero9. Função pioneira. Não se refere
a uma seção do jornal para discutir gênero. A proposta é permitir um olhar
transversal sobre gênero em todas as editorias. Seis meses mais tarde, é a vez
do espanhol El País10 criar o cargo de editora de gênero, igualmente focado na
inclusão de mulheres nas distintas histórias trazidas pelo jornal. Ou seja, co-
meça, nos Estados Unidos e na Europa, um movimento editorial que em certa
medida formaliza a importância do olhar da mulher, para a mulher e para as
questões de gênero. Nosso objeto de trabalho, aqui, é o jornalismo praticado
em Portugal. Entretanto, nosso olhar mais abrangente é para a tendência de
feminização das redações, no mundo ocidental, que se iniciou nas últimas dé-
cadas do século XX.
Em artigo publicado pela primeira vez em 1988, Scott (1995) afirmou:
a preocupação teórica com o gênero como uma categoria de análise é algo re-
cente. Emergiu no fim do século XX. Agora que estamos na segunda década
do século XXI (trinta anos após a afirmativa de Scott), retomamos alguns pen-
9. Informação obtida em:< http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/11/1935704-the-new-york-times-
-passa-a-ter-editora-dedicada-a-questoes-de-genero.shtml> e < http://portalimprensa.com.br/noticias/internacio-
nal/79916/new+york+times+anuncia+editora+de+genero >. Acesso em: 03 jul. 2018.
10. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/11/internacional/1526063643_313967.html?id_
externo_rsoc=TW_BR_CM>. Acesso em: 03 jul. 2018.

36 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


samentos da historiadora, que define o gênero em duas partes: (1) um elemen-
to constitutivo e relações sociais baseadas nas diferenças entre os sexos e (2)
uma forma primária de dar significado às relações de poder.
Sob o prisma de um elemento constitutivo das relações sociais, o gênero
implica em quatro elementos: (1) símbolos culturais que evocam representa-
ções simbólicas; (2) conceitos que interpretam o significado dos símbolos; (3)
instituições e organização social; (4) identidade subjetiva. Esses elementos, diz
Scott, se inter-relacionam. Na segunda definição, gênero é uma forma recor-
rente de significar o poder no ocidente, um meio através do qual o poder é
articulado (SCOTT, 1995, p. 86-87).
Na sociedade moderna, temos a necessidade de uma visão mais ampla
sobre gênero, que inclua mercado de trabalho, educação e política (SCOTT,
1995, p.87). Pensar sobre os efeitos do gênero nas relações sociais e institu-
cionais apontados por Scott nos possibilita problematizar as naturalizações,
diferenças e outras nuances do gênero no mundo do trabalho do jornalismo. E
os fatos ocorridos em torno desse fenômeno, como as iniciativas do The New
York Times e El País, demonstram quão atual e relevante é o tema gênero – na
sociedade, em geral, e no jornalismo, especificamente.

Um olhar sobre os jornais

Em Portugal, há seis jornais diários de informação geral com circulação


paga: Correio da Manhã, Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Jornal I, Pú-
blico e 24H (OBERCOM, 2015). O trabalho de campo envolveu três jornais
- Público, Diário de Notícias e Correio da Manhã – e 21 jornalistas (sete de
cada veículo). O Diário de Notícias foi escolhido por ser o jornal diário por-
tuguês mais antigo em circulação, fundado em 1864. O Correio da Manhã
tem a maior circulação do país, com média de 105 mil exemplares por edição
(OBERCOM, 2015)11. Por fim, o jornal Público, veículo considerado de re-
ferência no país, tem a maior circulação entre os jornais considerados “não
populares”.
Como técnica de trabalho nas redações, realizamos entrevistas indivi-
duais em profundidade (DUARTE, 2006; GASKELL; BAUER, 2002) com
homens e mulheres jornalistas ocupantes de cargos de chefia intermediária.
O recorte de profissionais – deixando de fora repórteres e editores-chefes e
11. Média de circulação paga dos jornais portugueses, em 2015: CM (105 mil); JN (53 mil); Público (20 mil); DN
(13 mil). Fonte: Anuário da Comunicação 2014-2015.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 37


diretores de redação - se deu a partir da seguinte constatação de diferentes
pesquisas: as mulheres são, atualmente, maioria ou dividem paritariamente os
espaços nas redações. Apesar disso, estão em menor número em postos de che-
fia (MICK; LIMA, 2013; SUBTIL, 2009; GMMP, 2015, GARCIA, 2009).
A opção foi pela entrevista em profundidade, que permite buscar infor-
mações sobre as rotinas e processos de produção, com as pessoas que põem em
prática os conceitos produtivos (WOLF, 1994). Por ser “um recurso metodo-
lógico que busca, com base em teorias e pressupostos, recolher respostas a par-
tir da experiência subjetiva de uma fonte, selecionada por deter informações
que se deseja conhecer” (DUARTE, 2006, p. 62), a entrevista em profundida-
de permite obter percepções da realidade da mulher no jornalismo.
Foram elaborados conjuntos de perguntas a partir do tripé temático: 1 -
trajetória pessoal e profissional; 2 - ambiente e rotinas de trabalho; 3 - lideran-
ça e processo de produção noticiosa. Como as questões de gênero perpassam
nossos questionamentos sobre trajetória profissional, rotina de trabalho, lide-
rança, vida pessoal e expectativas profissionais, uma vez que buscamos com-
preender a mulher jornalista e sua relação com poder e liderança na redação,
entendemos que nosso corpus deveria ser composto por mulheres e homens, a
fim de uma interpretação mais ampla e contextualizada do problema de pes-
quisa. Assim, entrevistamos um total de 12 mulheres e nove homens.

Contexto histórico

A ascensão das mulheres ao mercado de trabalho se acentuou, no mun-


do ocidental, sobretudo a partir do fim dos anos 1970. Em 2018, a taxa de
participação da mulher no mercado de trabalho mundial é de 48,5%. Entre os
homens, o percentual de atuação no mundo laboral é de 75% - 26,5% a mais
em relação às representantes do sexo feminino. Mas é uma diferença que vem
caindo ano a ano (OIT, 2018).
Nas últimas décadas do século XX, o ingresso de jornalistas mulheres cres-
ceu no mundo ocidental a ponto de tornar as redações jornalísticas ambientes
de espaços equiparados entre profissionais homens e mulheres. O crescimento
vertical na carreira parece natural, à medida que as jovens profissionais recém-
-formadas nos anos 1990 e 2000 passam a estar entre os grupos mais experientes
(sobretudo se pensarmos sob a perspectiva de que o jornalismo é uma profissão
eminentemente jovem). Entretanto, quanto mais altos os postos hierárquicos,
menos mulheres há neles (MICK, LIMA, 2013; GARCIA, 2009).

38 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Alguns elementos podem nos ajudar a pensar nas possíveis razões para
esta realidade. E um deles é o fato de que ainda impõe sobre as mulheres o
protagonismo nas tarefas domésticas e de cuidados com os familiares (PNAD,
201612; MARQUES DA SILVA, 2010), dificultando a dedicação que os car-
gos de gestão demandam. A continuação dessas práticas contribui para que as
mulheres mantenham-se, em alguma medida, secundarizadas no trabalho fora
de casa. “Por conta das tarefas reprodutivas da vida social, muitas mulheres
não progridem verticalmente nas carreiras” (ALVES, 2016, p. 636).
Em 20 anos – de 1995 a 2015 –, o panorama mundial do mundo do tra-
balho feito pela OIT (2016) aponta: 1) as oportunidades de participação no
mercado de trabalho para mulheres são 27% menores que para os homens, em
escala mundial; 2) elas têm mais chance de ficar desempregadas (6,2%, con-
tra 5,5% para os homens); 3) o trabalho familiar e doméstico continua sendo
atribuição muito mais da mulher que do homem (ainda que, nas últimas duas
décadas, o percentual de mulheres dedicadas a esse trabalho tenha diminuído
17%); 4) em nível global, o salário das mulheres é 77% do que recebem os
homens.
Marques da Silva (2010) argumenta que o aumento do número de mu-
lheres em postos de trabalho qualificados não põe fim às desigualdades de gê-
nero. A perspectiva de representação simbólica de Bourdieu (1989) favorece
a discussão sobre a dominação masculina como algo presente em toda a pers-
pectiva existencial e nos valores adquiridos ao longo da história. Apesar das
recentes mudanças da sociedade ocidental contemporânea, incluindo nelas as
conquistas profissionais das mulheres, a dominação masculina ainda “afirma-
-se na objetividade de estruturas sociais e de atividades produtivas, baseadas
em uma divisão sexual do trabalho” (BOURDIEU, 2014, p. 54).
Pesquisas internacionais feitas nos anos 1990 já apontavam para o cres-
cimento do número de mulheres empregadas como jornalistas em veículos
de comunicação (GARCIA, 2009; SUBTIL, 2009; GMMP, 2015; IWMF,
2011). Em escala mundial (GMMP, 2015), 27% dos cargos de chefia nas em-
presas jornalísticas são ocupados por mulheres, enquanto que em cargos de
execução (repórteres, em geral), elas são 35%.
Como possível consequência aos desafios impostos pela sociedade,
algumas jornalistas adotaram a cultura machista da redação como forma de
avançar em suas carreiras (GMMP, 2015, p. 45). Cultura machista resulta-
12.Disponívelem:<https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/
releases/18566-pnad-continua-2016-90-6-das-mulheres-e-74-1-dos-homens-realizaram-afazeres-domesticos-ou-
-cuidados-de-pessoas.html>. Acesso em: 03 jul. 2018.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 39


do de um histórico de esmagadora presença masculina nas redações. O que
nos remete ao “biorritmo” da empresa jornalística, nas palavras de Traquina
(2005) e à teoria organizacional, de Breed (2016), segundo a qual as normas
veladas da organização e absorvidas “por osmose” pelos jornalistas influen-
ciam o trabalho.
“Apesar da presença das mulheres a trabalhar dentro dos media ter au-
mentado em todas as regiões do mundo nas últimas duas décadas [fim do sé-
culo XX], o verdadeiro poder é ainda um monopólio masculino” (GALLA-
GHER, 2004, p. 89). Assim, se o jornalismo é uma profissão historicamente
masculina, essa cultura que perdura e paira sobre as redações pode persistir a
despeito das mudanças estruturais pelas quais a profissão vem passando.

O gênero do jornalismo português

Em Portugal, o jornalismo começou, na segunda metade do século XVI,


como uma ocupação predominantemente masculina. O desenvolvimento do
jornalismo português se iniciou na segunda metade do século XIX (ROCHA;
SOUSA, 2011) como produto de uma sociedade industrial que se estabelecia
nesse período. Os avanços da imprensa, contudo, não possibilitaram o ingres-
so das mulheres na profissão:

A entrada das mulheres no jornalismo industrial será lenta e difícil. Na-


turalmente que a misoginia prevalecente no país será a primeira razão
– a mesma misoginia que afastava as mulheres do voto ou da universi-
dade. Mas esta explicação não é suficiente. Se a profissionalização de
médicos ou advogados, por exemplo, estava vedada às mulheres porque
elas não se podiam formar nestes campos, o mesmo não acontecia com
o jornalismo, que não exigia formação particular. Assim, a definição
da profissão jornalística a partir de um campo de legitimação que, se-
gundo Denis Ruellan (1993), é constituído por dimensões técnicas e
intelectuais da prática jornalística, baseadas nos esforços de distinção
que os grupos profissionais fazem para definir e administrar seu espaço
ocupacional, parece-nos uma pista interessante para percebermos por
que razão as mulheres têm uma tão grande invisibilidade na história da
formação do jornalismo (SILVEIRINHA, 2012, p. 171).

O mercado de trabalho português abriu as portas para as mulheres com


o fim da ditadura e início do governo democrático, no fim dos anos 1970. A

40 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


mudança de regime político representou também alterações no acesso femini-
no à educação (MARQUES DA SILVA, 2010; GARCIA, 2009). A entrada
massiva das mulheres nas redações acontece paralela a um momento de ex-
pansão do próprio jornalismo, à luz da liberdade de imprensa (MARQUES
DA SILVA, 2010). É o que Subtil (2009, p. 3) chama de “viragem no perfil da
profissão e na própria composição social”.
Em 1987, as mulheres representavam 19,8% das redações portuguesas.
Em 1990, eram 25,4%. Sete anos mais tarde, 32,8% e, em 2009, elas somavam
40,7% (GARCIA, 2009). Dados mais recentes (MIRANDA, 2017; OBER-
COM, 2017) reafirmam a tendência de feminização (48% dos jornalistas por-
tugueses são mulheres), da mesma forma que coadunam com as discrepân-
cias apontadas pelos estudos anteriores acerca da chegada das profissionais
mulheres aos cargos de mais alto comando editoriais. Subtil (2009) evidencia
a necessidade de atrelar esse crescimento a um contexto de recomposição da
estrutura social portuguesa, que se dá com incremento de relações de equidade
entre homens e mulheres, observadas, por exemplo, no aumento da escolarida-
de – nos anos 1960, 29,5% dos universitários portugueses eram mulheres. Três
décadas depois, elas eram mais de 60%. Além da chegada massiva das mulheres
ao mercado de trabalho.
Em 2011, a pesquisadora brasileira Paula Melani Rocha e o pesquisador
português Jorge Pedro Sousa empreenderam um trabalho comparativo entre
Portugal e Brasil sob a perspectiva da transformação da profissão e da influ-
ência do gênero no exercício do jornalismo. Chegaram a conclusões como:
1) as mulheres e os jovens ocupam as redações tanto em Portugal quanto no
Brasil; 2) a participação das mulheres muda conforme a natureza do veículo de
comunicação (no Brasil, elas estão em maior número em revistas e setores fora
da redação; em Portugal, atuam sobretudo nas rádios, agências de notícias e
televisão); 3) mulheres ocupam os novos espaços criados no jornalismo.
Essa conjunção de fatores, contudo, é compreendida como não suficien-
te para a redistribuição de poder e sedimentação da igualdade de oportunida-
des entre homens e mulheres (CERQUEIRA, 2008; SUBTIL, 2009; MAR-
QUES DA SILVA, 2010; ROCHA; SOUSA, 2011; LOBO et al., 2015;
MIRANDA, 2017).
A partir das entrevistas realizadas para esta pesquisa, pode-se inferir que
o consenso geral é de que as escolhas da direção para os cargos de chefia são
meritocráticas e que as mulheres já garantiram espaço igualitário em relação
aos colegas homens. Observação semelhante é descrita a partir de entrevistas

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 41


a jornalistas portugueses analisadas por Lobo et al (2015), na qual os respon-
dentes, de forma geral, rejeitam possíveis assimetrias de gênero, uma vez que
“o jornalismo constitui-se como uma exceção entre a maioria dos universos
profissionais e é uma profissão onde a igualdade de gênero foi plenamente
avançada” (LOBO et al., 2015, p. 1153, tradução livre). Ao que as pesquisado-
ras entendem como uma tipificação dos papéis de gênero, incorporados à vida
profissional. “Os profissionais da informação não acreditam, em termos gerais,
nas diferenças devidas ao gênero” (GALLEGO, 2004, p. 63).

Ainda que hoje em dia se tenda a uma equiparação cultural e social en-
tre homens e mulheres, mantêm-se mesmo assim certos tópicos, crenças
e práticas sociais nos quais as mulheres saem maioritariamente desfavo-
recidas: por exemplo, o tratamento das mulheres é mais familiar, menos
rigoroso (GALLEGO, 2004, p. 63-64).

Ao observar, por exemplo, os números e o expediente dos jornais aqui


estudados, observamos que as mulheres atingiram postos de chefia interme-
diária, mas não estão no topo dos cargos jornalísticos das redações, o que mos-
tra que “o acesso das mulheres à igualdade de oportunidades tem sido parcial e
setorial” (MARQUES DA SILVA, 2010, p. 322). No Diário de Notícias, dos
quatro cargos de direção, um é ocupado por mulher – JP, nomeada subdireto-
ra. Nas seis editorias de área, contudo, há paridade: cinco homens e cinco mu-
lheres, entre editores e subeditores. No Correio da Manhã, os quatro cargos
de direção de jornalismo são ocupados por homens. E nas oito editorias, nove
homens e quatro mulheres dividem os cargos de editor e subeditor. É o veículo
onde se observam as maiores disparidades no que se refere à distribuição de
trabalho por gênero. No jornal Público, assim como no Correio da Manhã, os
quatro cargos de direção de jornalismo são ocupados por homens. No Públi-
co, há 12 editorias, nas quais atuam sete homens e dez mulheres13. Portanto,
numericamente é o veículo estudado, em Portugal, com maior número de mu-
lheres em cargos de chefia.

Em Portugal, a taxa de atividade feminina é a mais elevada quando


comparada com outros países europeus, nomeadamente com os países
do Sul da Europa (PORTUGAL, 2008). No entanto, a igualdade de
oportunidades e o percurso para uma cidadania efetiva não têm sido
conseguidos nem através do aumento da educação, nem da sua maior
13. Dados obtidos durante a pesquisa de campo, realizada entre maio e junho de 2017.

42 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


presença no mundo do trabalho pago, que, nos finais dos anos 1990, era
de 75,1% (MARQUES DA SILVA, 2010, p. 322).

Marques da Silva (2010, p. 308) identifica estratégias que passam tan-


to por buscar uma identidade profissional masculina quanto distinguir-se dos
colegas do sexo oposto. Observam-se nas falas dos entrevistados da presen-
te pesquisa situações que poderiam ser consideradas como discriminação de
gênero. No entanto, ainda que nos relatos apareçam questões que remetem
a obstáculos envolvendo o gênero, a maioria das entrevistadas afirma não ter
enfrentado dificuldades profissionais pelo fato de serem mulheres.

Questões de gênero e os valores-notícia: uma proposta de análise

Desde o século XIX existem discussões sobre gênero nas redações, e ao


longo do século XX a temática tornou-se ainda mais complexa. Foram os estu-
dos feministas que estimularam o pensamento em torno da questão de gênero
nas redações, sua relevância, o silenciamento ou a colocação dessa “variável”
em segundo plano no ethos jornalístico e nos ideais de produção da notícia
(PONTE, 2005, p. 160). O debate sobre quem produz se alargou e ganhou
novas dimensões, atualmente, nos estudos sobre o conhecimento jornalístico.
“Agora, ao menos oficialmente, os homens afirmam que a questão de gêne-
ro é irrelevante na sociedade moderna” (STEINER, 2009, p. 117). A autora
discute gênero nas redações, e pensa por meio das formas de assimilação de
métodos, práticas e ética.
Ao raciocínio de Steiner, ponderamos que este pensamento masculino
em relação a não relevância da questão de gênero pode, sim, ser ampliada para
o universo feminino, no sentido de que a naturalização das relações de traba-
lho e das rotinas profissionais entre homens e mulheres também as faz pensar
como ultrapassado levar em conta questões de gênero. Sobretudo em um tem-
po em que as mulheres são maioria nas redações.
RL é um exemplo. Jornalista de 34 anos, é editora do caderno Vidas
(seção conhecida na imprensa portuguesa como “cor-de-rosa”, que lida com
o mundo das celebridades), do jornal português Correio da Manhã. Ao ser
questionada sobre as possíveis alterações nas redações, nas últimas décadas,
em função da chegada massiva das mulheres, RL diz que as redações tendem a
ficar diferentes a partir do ingresso de mais jornalistas mulheres. A jornalista
avalia que as relações atualmente são de paridade e pondera: “Hoje em dia, já

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 43


quase colhemos isso como um não assunto, no sentido em que já é tão normal
[...] as pessoas são pela competência e não por gênero. Acho que quem faz os
produtos são as pessoas, independente de serem homens ou mulheres. O olhar
de cada pessoa é diferente” (RL, 2017, entrevista à autora).
Como ela, outros profissionais apostam nessa igualdade. PV, 37 anos, a
editora de Internacional do jornal Diário de Notícias, afirma: “Um jornalista
é sempre um jornalista. Homem ou mulher segue os princípios da profissão”
(PV, 2017, entrevista à autora). Mas há uma percepção, sobretudo entre as
com mais idade, de que há mudanças substanciais. SD, 43, editora adjunta de
Cultura do Correio da Manhã, veículo no qual ela trabalha desde os 17 anos,
tem uma visão crítica acerca da chegada das mulheres às redações. “A presença
feminina, para o bem ou para o mal, muda a rotina da redação. As mulheres
mostraram que conseguem fazer muitas coisas ao mesmo tempo e são mais
organizadas” (SD, 2017, entrevista à autora). Em seguida observa sob outro
aspecto: “Já trabalhei em seção só com mulheres e elas estavam sempre a picar
[criticar, ser rude, dizer indiretas] umas as outras”. Ao que conclui: “O melhor
é ser misto, com equilíbrio”.
PM, 36 anos, editor da seção Portugal (que aborda políticas de educa-
ção, saúde, justiça, etc), divide as tarefas de edição com uma mulher e, com base
no dia a dia do trabalho, afirma que há mudanças a partir da maior presença
feminina nos jornais. “As mulheres podem ter um olhar fresco sobre alguns
temas, principalmente na editoria Sociedade [seção que trata de comporta-
mento e questões sociais]. As mulheres podem ter um faro mais apurado para
determinados temas sociais” (PM, 2017, entrevista à autora). Pensamento este
complementar ao da editora executiva GH, 47 anos. “Acho que trazemos uma
visão diferente das coisas. Alargamos o campo de visão da redação. Defendo a
igualdade, mas acho que não somos todos iguais, homens e mulheres. Temos
a capacidade de perceber as coisas que dizem mais respeito às pessoas” (GH,
2017, entrevista à autora).
No entanto, fica latente a reticência à pergunta por parte de alguns
profissionais, considerando que, atualmente, as mulheres garantiram seus es-
paços nas redações em números equivalentes ou superiores aos homens. Fica
subentendido, a partir disso, que, sem um olhar mais aprofundado, jornalistas
homens e mulheres podem tender à compreensão de que a presença nas reda-
ções, ou seja, o aspecto quantitativo, é demonstrativo suficiente de que há uma
igualdade de gêneros nas redações jornalísticas.
Dentro das redações, os profissionais não costumam problematizar as

44 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


razões por que hoje há mulheres por todas as editorias, espalhadas por dife-
rentes cargos e com distintas funções. Até mesmo porque muitos já entraram
no mercado à luz dessa realidade pós anos 1990 (a ausência de memória pode
ser mais um sinal do rejuvenescimento das redações). Porém, ao serem estimu-
lados a falar sobre recomposição de gênero, nos permitem apontar três razões
macro para a chegada das mulheres às chefias intermediárias:

(1) Mudança de mentalidade – essa percepção aparece na forma de


apontamentos como “é um reflexo da própria sociedade portuguesa, patriarcal
por muitos anos, até a década de 70 [...] a partir da revolução [Revolução dos
Cravos, em 25 de abril de 1974, que representou o fim do período ditatorial
no país, vigente desde 1933] houve os primeiros passos da emancipação da
mulher” (PM, editor de Portugal do DN, 36 anos, em entrevista à autora).

O período democrático em Portugal trouxe acesso à informação, aces-


so à formação a toda a gente. As mulheres, antes do 25 de abril, não
podiam votar, não podiam sair do país sem a autorização dos maridos.
Com a democracia, mudou muita coisa. Isso, sobretudo na década de
90, depois também da entrada de Portugal na União Europeia, abriu-
-se um novo mundo, muitos fundos estruturais vieram pra Portugal,
mas sobretudo foi o dinamismo que a democracia trouxe, a igualdade.
Hoje, nas universidades, há tantas mulheres como homens. Há cursos
em que há mais mulheres que homens, como o jornalismo. E depois há
a renovação dos trabalhadores e as mulheres passaram a ter seguridade
em mostrar aquilo que valem. Já não ficam em casa só a tomar conta dos
filhos e passar a roupa a ferro para o marido. E isso as permitiu mostra-
rem o que valem e o seu mérito, e por isso foram chamadas para cargos
de chefia. Eu acho que no jornalismo não há [preconceito e machismo],
não me deparei com isso. Aliás, se isso ocorresse eu nunca estaria onde
estou. Agora há uma questão: e nas direções? Por que é que há sempre
mais homens do que mulheres? Ainda falta esse patamar. Mas é um ca-
minho que se faz caminhando. De fato, eu nunca tive diretora mulher,
na época em que passei [tem 27 anos de jornalismo]. (GH, 2017, en-
trevista à autora).

A história do país, para esses profissionais, corrigiu preconceitos ligados


às mulheres. NF tem 45 anos, é editor de Desporto no DN e compara o pas-
sado com o presente:

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 45


Julgo que mesmo historicamente, há muito mais mulheres no jornalis-
mo do que há trinta anos. E é uma questão também das mentalidades,
hoje não há mais aquela coisa retrógrada. Na direção do jornal, agora só
há uma, mas havia três mulheres na direção anterior. Eram um diretor,
um diretor adjunto e três diretoras adjuntas. E vemos isso com normali-
dade. Não me importava nada ser chefiado por uma mulher, desde que
ela fosse competente (NF, 2017, entrevista à autora).

(2) Jornal deixou de ser um ambiente masculino – algumas falas sus-


tentam essa percepção, como a de AP, editor adjunto de Sociedade, no CM.
“O mundo da imprensa era masculino. Agora não. Pode ainda haver no topo
esse reflexo histórico, mas nas chefias intermediárias já não se nota isso [...] as
redações feminilizaram-se, então é uma questão de tempo. Daqui cinco anos as
mulheres estarão na direção do CM”. A editora de Vidas, RL, de 34 anos, tem
12 anos de mercado como jornalista, e recorda já ter trabalhado em redação
“altamente masculina”. Ela refere-se a um jornal esportivo. “Mas até isso [re-
dações esportivas predominantemente masculinas] já sinto mudar [...] desde
que saí da Bola [nome do jornal desportivo] não senti isso em nenhuma outra
redação” (RL, 2017, entrevista à autora).

(3) As mulheres foram para as universidades – para homens e mu-


lheres que trabalham nas redações jornalísticas de hoje, é perceptível que o ca-
minho da universidade está povoado de mulheres. É como pensa PV, 37 anos,
editora de Internacional:

Antigamente, só quem ia estudar eram os homens. As mulheres aceita-


vam o papel de ficar em casa e cuidar dos filhos. Hoje em dia, acho que
sobretudo a partir da minha geração, as mulheres já começaram a ter
vida própria. E foram educadas naquela base de perceber ‘o que é que eu
gosto de fazer e vou lutar por isso e vou ser eu, independente, vou ter a
minha profissão, não vou existir através de um marido, eu posso existir
por mim própria’. E acho que vem daí, porque nota-se também noutras
áreas sem ser no jornalismo (PV, 2017, entrevista à autora).

Outra mulher, da mesma geração, com cargo semelhante em outro ve-


ículo (DR tem 35 anos e é editora de Economia e Política do CM), aponta um
raciocínio na mesma linha:

Culturalmente e historicamente, se formos a pensar 30 anos, não havia

46 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


tantas mulheres a fazer um caminho de formação, de carreira. Nos últi-
mos anos isso tem acontecido. Ou seja, não só as próprias organizações
passaram a dar mais oportunidades às mulheres, como as próprias mu-
lheres mudaram a maneira de estar. Deixaram de querer estar só como
domésticas, como mães, como educadoras e preferiram ir atrás de uma
carreira (DR, 2017, entrevista à autora).

HR, 35 anos, editor de Cultura e Media do CM, lembra também do


fenômeno da abertura de cursos de comunicação e jornalismo em Portugal.
Para HR, os cursos de comunicação já começaram atraindo mais mulheres que
homens dispostos a cursá-los. Assim, infere-se que o jornalismo passou a ser
uma profissão mais “feminina” concomitante ao momento em que o perfil do
profissional passou a ser com formação na área.

Tem muito a ver também com o boom que houve em Portugal dos cursos
de comunicação. Há trinta anos, existia um curso de comunicação social
em Portugal. Atualmente existem dezenas. Como tal, também houve
muitas mudanças para entrar na profissão. Havia há trinta anos poucos
jornalistas licenciados. Atualmente a grande maioria dos jornalistas já
vem com licenciaturas. E cursos de comunicação social são na maioria
compostos por mulheres. Acho que é a partir daí que começou a ter uma
área mais branda nas redações e com os anos de experiência das pessoas
que entraram nessa nova fase, essas pessoas também começam a chegar a
cargos de chefia, independentemente de serem homens ou mulheres. É
uma questão geracional. (HR, 2017, entrevista à autora).

O relatório de tendências 2016 das mulheres no trabalho da Organiza-


ção Internacional do Trabalho (OIT, 2016) foi menos otimista. “Nas últimas
duas décadas, os significativos progressos alcançados pelas mulheres na educa-
ção não se traduziram numa melhoria comparativa na sua situação no traba-
lho” (OIT, 2016, p. 3). Butler (2003) afirma que a chave para entender gêne-
ro seria não enxergá-lo como um papel, tampouco um estático e dicotômico
conjunto de diferenças entre mulheres e homens, mas como um ato relacional.
Considerando que Wolf (1994), ao tratar dos valores-notícia e seus
pressupostos, coloca o público como um dos fatores implícitos nesse que é um
balizador do que vai ou não entrar na pauta dos veículos jornalísticos, temos
de considerar uma pontuação feita por Steiner (2009). A autora afiança que,
num pensamento dicotômico, tem-se que as mulheres jornalistas pensam mais
no público, enquanto que os profissionais do sexo masculino tendem a ter uma

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 47


postura mais “fria” no que tange à recepção. Em certa medida isso se aplica a
gestores homens e mulheres com os quais conversamos, que acreditam existir,
sim, diferença do olhar masculino e do feminino.
Apesar dessas percepções que vão ao encontro do que afirma Steiner
(2009), há um discurso forte (de uma maioria) na defesa de que, independente
do gênero, o que existe são “pessoas com mais sensibilidade para uma área ou
para outra”, como afirmou HR, editor de Cultura e Media, que desde 2010
exerce a função de editor. A colega editora do Vidas, RL, compartilha da opi-
nião de HR. “Acho que quem faz os produtos são as pessoas, independente de
serem homens ou mulheres” (HR, 2017, entrevista à autora).
São avaliações que vão ao encontro do que defende Butler (2003), ao afir-
mar ser necessário tratar o gênero no jornalismo como um ato relacional, a fim
de avançar nas discussões epistemológicas e não de valores natos de homens e
mulheres (STEINER, 2009, p. 127). Ainda assim, é válido pensar num contexto
em que convergem os fatos de (1) as mulheres serem maioria entre os jornalistas
em nações como o Brasil e estarem se aproximando da paridade em outros paí-
ses, como Portugal, e (2) os valores-notícia darem ao público um protagonismo
referenciado pelo cenário de concorrência empresarial e jornalístico. Importante
nesse contexto asseverar que, conforme diz Vizeu (2014, p. 102), os critérios de
seleção dentro da redação são “um componente complexo que se desenrola ao
longo do processo produtivo”, mas não podemos esquecer as escolhas subjetivas
inerentes aos valores-notícia, aos critérios de seleção jornalística.
Ponte (2005) analisou a autoria de matérias sobre crianças e infância, e
depreendeu:

[...] o gênero não é uma variável a ignorar, apesar de ser eminentemente


masculino o imaginário da profissão. Há jornalistas que falam de um
“jornalismo no feminino”, apontando uma maior atenção aos porme-
nores e uma apetência por temas da esfera social, não dissociada de uma
“ética do cuidado” [...]. Como dirá um jornalista, é como se houves-
se uma “ordem natural das coisas, não intencional”, que leva a que um
jornalista homem vá cobrir a criminalidade infantil mas considere que
temas de educação ou saúde serão melhor tratados por jornalistas mu-
lheres, pela sua sensibilidade (PONTE, 2005, p. 161, grifos da autora).

Allan (1998) associa o conceito de verdade a uma invocação “masculini-


zada”, no sentido de que “as orientações dos homens para o ‘mundo dos fatos’
são consideradas as mais ‘apropriadas’ para revelar a verdade imutável do real”

48 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


(ALLAN, 1998, p. 125-126 apud PONTE, 2005, p. 162). Considerando-se
a existência dessa “verdade”, faz-se então coerente a busca pela objetividade.
Discussão que soa um tanto restritiva, à luz do que ponderamos acima, quan-
do nos amparamos em Butler (2003) para tratar o jornalismo mais como um
ato relacional do que de valores natos e dicotômicos entre homens e mulheres.
Mais apropriado, parece-nos, é pensar a objetividade como consciência
das subjetividades inerentes ao trabalho e, ao mesmo tempo, como forma de
manter o profissional vigilante (TUCHMAN, 1978; PONTE, 2005). Sob
essa perspectiva, desprendemos do objetivo e do subjetivo as “possíveis” mas-
culinidades e feminilidades, deixando aos jornalistas a missão de lidar com as
implicações éticas e políticas sobre a realidade (MEDITSCH, 1992, p. 32).

Algumas considerações

O jornalismo é uma profissão cujas portas abriram-se definitivamente


para as mulheres. Pensar sobre gênero no mundo do trabalho jornalístico é
uma forma de ajudar a compreender as relações profissionais e de poder que se
fundam com a chegada e atuação das mulheres nessa profissão que por tantos
anos esteve atrelada ao universo masculino.
A maior incidência de mulheres na profissão contribuiu, em alguma
medida, para uma pluralidade de vozes no fazer jornalístico. Quando nos am-
paramos nas perspectivas construtivistas, que acolhem as notícias como uma
construção social da realidade, permeada pela cultura dos jornalistas (TRA-
QUINA, 2005) e da sociedade onde os profissionais estão inseridos, percebe-
mos que, para além da heteronormatividade, dos valores da empresa e das roti-
nas produtivas, as subjetividades do sujeito jornalista dizem muito do processo
produtivo que leva à notícia.
Adotar gênero como categoria para pensar convenções sociais sobre o
masculino e o feminino ajuda a perceber a incidência desses “hábitos” nas prá-
ticas profissionais e sociais. E na fala dos profissionais percebe-se certa natura-
lização dessas convenções, que inclusive exaltam os diferentes papéis e visões
de homens e mulheres nos ambientes de redação.
A feminização altera a dinâmica estrutural das redações, abre espaço
para ocupação de cargos de chefia por essa maioria de mulheres, mas ainda
assim esbarra em uma barreira social que as vincula à subordinação e inferiori-
dade salarial. Esse conjunto de fatores exige de nós uma leitura atenta às nuan-
ces e complexidades do mundo do trabalho, de modo a tentar compreender a
influência das questões de gênero no dia a dia das redações.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 49


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52 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Repensar os parâmetros hegemônicos no
jornalismo: a perspectiva de gênero na produção
jornalística e na formação profissional
Karina Janz WOITOWICZ14
Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, PR

Paula Melani ROCHA15


Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, PR

Resumo

O presente capítulo aborda a relevância em descontruir os parâmetros he-


gemônicos do jornalismo presentes tanto na cultura profissional quanto nos
conteúdos dos cursos de graduação, bem como oportunizar a inclusão da pers-
pectiva de gênero na cobertura jornalística. O objetivo é debater os critérios
de noticiabilidade e suas implicações sobre o modo como temáticas de gênero
se inserem (ou não) na pauta jornalística, em um diálogo entre as lógicas do
mercado profissional e as exigências da formação na área. A reflexão proposta
é fruto dos estudos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa Jornalismo e Gêne-
ro (CNPq) da Universidade Estadual de Ponta Grossa desde 2010, os quais
apontam a ausência de perspectiva de gênero nas coberturas jornalísticas da
grande imprensa e nos cursos de formação em Jornalismo de Ponta Grossa. O
capítulo propõe ainda o fortalecimento, durante a formação profissional, da
intersecção entre estudos de gênero e elementos que determinam a seleção dos
critérios de noticiabilidade no processo de produção jornalística.

Palavras-chave: Jornalismo; Critérios de noticiabilidade; Gênero; Formação


profissional.

Jornalismo e perspectiva de gênero

A conformação do campo de Jornalismo no Brasil foi travada histori-


camente por lutas políticas e ideológicas, muitas instrumentalizadas nos pe-
14. Professora do Curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de
Ponta Grossa (UEPG). Coordenadora do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Gênero (CNPq) da UEPG.
15. Professora do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Es-
tadual de Ponta Grossa (UEPG). Pesquisadora Colaboradora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo
(LabJor), UNICAMP. Coordenadora do grupo de pesquisa Jornalismo e Gênero (CNPq) da UEPG.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 53


riódicos, como os veículos republicanos, monarquistas, anarquistas, imprensa
convencional, imprensa alternativa, imprensa feminista. Outras foram tra-
vadas entre as deontologias da profissão, mercado e interesses hegemônicos.
Contudo, a participação das mulheres no jornalismo e as lutas que elas enca-
beçaram na conformação do campo em ambas as frentes mencionadas acima,
assim como a imprensa LGBTs, foram minimizadas, descontextualizadas ou,
até mesmo, desconsideradas na construção “oficial” da narrativa histórica do
jornalismo brasileiro.
Um retrato disso é o deslocamento para tópicos específicos – imprensa
feminina; imprensa feminista; imprensa LGBTs – sem diluir suas contribui-
ções para a conformação do campo. Isso remete em, pelo menos, dois hiatos,
um na cultura profissional dos jornalistas e outro no jornalismo com perspec-
tiva de gênero que, embora não sejam sinônimos, não estão dissociados e, em
alguma medida, até se sobrepõem. Porém, reiteramos aqui que a pouca visibi-
lidade dessa participação nos registros históricos da conformação do campo
do jornalismo no Brasil não apaga, de maneira alguma, suas contribuições nos
avanços das transformações da cultura profissional do jornalismo e das cober-
turas jornalísticas.
É necessário fomentar mais estudos nesse sentido, para compreender
a complexidade do processo comunicacional e a feminização do jornalismo,
considerando os atravessamentos históricos, culturais, econômicos e políticos.
Estudos acadêmicos no campo do Jornalismo intersectando jornalismo e gê-
nero no Brasil são considerados recentes e localizados frente às outras temáti-
cas pesquisadas tanto em relação à produção jornalística, recepção, perspectiva
histórica como mercado de trabalho (SILVA, 2014; MARTINEZ, LAGO,
LAGO, 2016; ESCOSTEGUY, 2008).
Levantamento realizado pelo grupo de Jornalismo e Gênero da Uni-
versidade Estadual de Ponta Grossa16 no Portal de Periódicos CAPES17, em
23 de novembro de 2013, na base de dados artigos científicos nacionais e
internacionais, utilizando um conjunto de duas palavras com referência a
estudos envolvendo jornalismo e gênero, aponta indicadores de investiga-
ções sobre o tema (WOITOWICZ, ROCHA, 2016). Para as autoras, os
dados reiteram que estudos de gênero no campo do Jornalismo ainda são
incipientes.

16. O grupo foi criado em 2012 (CNPq) e é coordenado pelas professoras Karina Janz Woitowicz e Paula Melani Rocha.
17. Disponível em: http:// www.periodicos.capes.gov.br/

54 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Tabela 1. Artigos científicos nacionais e internacionais em Jornalismo e Gênero18

Dados: Número de artigos científicos nacionais e internacionais encontrados no sistema de busca do portal
de periódicos da Capes utilizando os seguintes conjuntos de palavras-chave: representações femininas/comu-
nicação; representações femininas/jornalismo; jornalista/mulher; jornalismo/mulher
(WOITOWICZ, ROCHA, 2014, p.137).

Nesse sentido, o presente capítulo busca contribuir com a temática do


livro “Desigualdades, relações de gênero e estudos em Jornalismo”, costurando
a discussão pela cultura profissional e produção jornalística com perspectiva
de gênero, como essas instâncias impactam na concepção dos critérios de noti-
ciabilidade e inovações nas coberturas jornalísticas com viés de gênero.
A reflexão proposta é fruto dos estudos desenvolvidos pelo grupo de
pesquisa Jornalismo e Gênero (CNPq) e pretende estabelecer uma discussão
teórica e dialógica entre estudos de gênero e a percepção dos elementos que de-
terminam a seleção dos critérios de noticiabilidade. Para que isso seja possível,
apontamos a necessidade da inclusão da perspectiva de gênero na formação
do(a) profissional, durante a graduação, utilizando como método um levan-
tamento de documentos (livros, guias e manuais) vinculados aos movimentos
sociais e ao campo jornalístico que apontam para tal demanda. O texto apre-
senta também resultados de pesquisa realizada pelo grupo Jornalismo e Gêne-
ro, em Ponta Grossa, que revelou que ainda é embrionária nos cursos da cidade
a iniciativa de pensar gênero e suas interfaces no exercício do jornalismo. O
capítulo pretende, por fim, apresentar uma revisão bibliográfica, mapeada pelo
respectivo grupo, que aborda justamente a temática sugerida neste capítulo.

Cultura profissional e a produção jornalística

A cultura profissional no jornalismo ao longo do século XX foi majori-


tariamente formada e conduzida por homens. As redações eram um ambiente
masculino, semelhante a outros campos profissionais. Isso não era exclusivo do
Jornalismo. Em um país culturalmente regido pela herança do patriarcado19,
18. Vale destacar que um mesmo artigo pode constar em buscas diferentes.
19. Entende-se por patriarcado um regime ancorado na opressão dos homens sobre as mulheres, sustentado em um con-
junto de relações sociais, hierárquicas e solidárias entre os homens, as quais os habilitam a controlar as mulheres. O siste-
ma assegura aos homens e seus descendentes o controle da produção diária e da reprodução da vida (SAFFIOTI, 1992).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 55


tanto nas esferas privada como pública, legitimado por um Estado solidário, as
interações humanas foram travadas em estruturas hierárquicas também funda-
mentas sobre o gênero.
Há registros da participação de mulheres na produção de periódicos
desde o século XIX (DUARTE, 2016; RAGO, 1995;1996; BUITONI,
2009; ROCHA, KOVOSKI, 2017), mas o acesso ocorre de formal gradual e
somente aumenta o ingresso feminino após a abertura dos cursos de formação
superior, a partir de 1947. Contudo, até o final do século XX as mulheres ain-
da não representavam maioria no mercado de trabalho em Jornalismo no país.
Outro fator a ser pontuado é que o acesso das mulheres às redações ocorreu
com maior facilidade nos veículos considerados mais ligados às chamadas soft
news (ROCHA, 2004; LEITE, 2015), ou seja, nos jornais impressos e emisso-
ras de rádio o percentual feminino era menor quando comparado aos outros
veículos como emissoras de televisão, revistas, agências de notícias e setores
considerados extra redação, como assessorias de imprensa e de comunicação.
Somada a isso, a concentração ocorreu em maior escala na base da pirâmide
do mercado profissional, ou seja, em cargos e funções de menor prestígio em
relação às chefias e direção (ROCHA, 2004; LEITE, 2015; PONTES, 2016).
Houve também um descompasso no movimento de acesso às mulheres
nas redações de acordo com a região do país e localidades com concentração
de veículos de mídia. Na capital São Paulo, por exemplo, em 1995, as mulheres
já constituíam maioria no mercado de trabalho formal e informal, com 64,8%
de presença (ROCHA, 2004). Ao tomar como referência apenas o mercado
formal, em 2013 as mulheres já eram maioria com 54,43%. A cidade de São
Paulo é a que tem maior concentração de jornalistas atuando no país, enquan-
to o estado de São Paulo corresponde ao maior mercado empregatício do país
com 26,45% dos empregos, somente a capital corresponde a 52,9% desse total
(FÍGARO, 2013). Ainda em 2013, de acordo com dados da RAIS (Relação
Anual de Informações Sociais), no país, havia 74.487 jornalistas em empre-
gos formais (com registro em CLT), sendo 44,42% de mulheres e 54,58% ho-
mens. É bom pontuar que o estado de São Paulo também concentra o maior
número de cursos de formação em Jornalismo, somando instituições particu-
lares e públicas, com 47,48% do total no país (MICK; LIMA, 2013). Dados
mais recentes, do The World of Journalism (2017)20, reforçam o perfil jovem
dos jornalistas brasileiros, com idade entre 22 e 35 anos (57,2%), bem como o
crescimento da presença feminina nas últimas décadas (50,8% são homens e
20. Disponível em: https://epub.ub.uni-muenchen.de/32084/1/Country_report_Brazil.pdf. Acesso em: 12 jul. 2018.

56 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


49,2% são mulheres), o que sugere a maior participação de mulheres no mer-
cado profissional, visto que o principal acesso ao contingente feminino foi a
formação superior (ROCHA, 2004).
Assim, percebemos assimetrias de gênero caracterizadas na ocupação
em relação a: 1) mercados formal e informal de trabalho, 2) cargos e funções,
3) regiões do país, e 4) tipos de veículo interferindo também na prevalência de
uma cultura profissional ainda masculina. Não se trata apenas do mapa quan-
titativo do processo de inserção das mulheres no jornalismo, mas também dos
recortes qualitativos que caracterizam esse movimento. Há ainda o paradigma
predominante do jornalismo informativo no século XX, sobretudo a partir
dos anos 1950 no Brasil, o qual foi ditado pela lógica da busca da objetividade
e das duas versões, sobressaindo sempre o lado oficial, detentor de um poder
hegemônico, como legitimador e a falta de polifonia de vozes reverberando
em multiplicidade de tipos e classificações de fontes.
O processo de produção jornalística é guiado pela noticiabilidade, subs-
tanciada pelos critérios de noticiabilidade e valores notícias que, no modelo
informativo, caracterizou-se por uma intrínseca relação com a doxa (SILVA,
2013) e os valores dominantes na sociedade.
Silva (2013, p.82), fundamentado em perspectivas de representação
simbólica, interacionismo e marxismo, mostra que a classe dominante tem in-
teresse em defender a doxa, com a “[...] intenção de estabelecer em seu ‘devido
lugar’ o modo hegemônico de pensar e arguir o mundo”. Assim, o jornalismo
reproduz, mesmo sem querer, esse senso comum na prática diária. No campo
empírico, isso significa que não basta simplesmente pautar um acontecimento
com pluralidade de fontes para a composição da narrativa, mas sim produzir
uma cobertura polifônica com versões oriundas de distintos lugares sociais,
culturais, étnicos, de gênero e mesmo selecionar como acontecimento pautas
invisíveis à lógica convencional e dominante.
A noticiabilidade, absorvida pela cultura profissional, atende aconteci-
mentos que fogem à ordem dominante de conceber a realidade, os quais são
apreendidos por critérios de noticiabilidade e valores notícias, construídos so-
bre o alicerce das normas e valores sociais vigentes.
Silva (2014) diferencia valores-notícias de critérios de noticiabilidade,
aproximando-se da discussão proposta por Wolf (1994). Para a autora, os
valores-notícias correspondem às características do fato em si, já os critérios
de noticiabilidade dizem respeito ao conjunto de valores-notícias tratados du-
rante o processo de seleção, produção e construção do conteúdo informativo.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 57


Assim, o objetivo é centrar no debate sobre critérios de noticiabilidade e suas
implicações sobre o modo como temáticas de gênero deveriam ser inseridas na
pauta jornalística, em um diálogo entre as lógicas do mercado profissional e as
exigências da formação na área.

Demandas de gênero no campo jornalístico

A 4ª Conferência Mundial da Mulher (Beijing, 1995), em sua Platafor-


ma de Ação (ponto J, sobre mulheres e mídia)21, assinala um marco importan-
te no que diz respeito às mulheres e os meios de comunicação, ao destacar o
acesso aos meios como uma alternativa para diminuir as desigualdades. Trata-
-se de entender a comunicação como uma esfera dos direitos humanos e como
um elemento estratégico para conquistar uma maior equidade. Sabe-se, contu-
do, que muito antes de ser referendada em Pequim como um campo relevante
para a conquista da equidade entre homens e mulheres, a comunicação já era
não apenas feita como também refletida e teorizada enquanto um espaço onde
se processam as demandas das mulheres, o que significa a gradativa inclusão da
perspectiva de gênero no jornalismo e nos espaços de mídia em geral.
Em relação à tematização de questões de gênero pelo jornalismo, Gaye
Tuchman (1980), em estudo sobre os impactos da organização do tempo e
do espaço sobre o trabalho jornalístico, já observava que alguns movimentos
sociais são mais acessíveis do que outros e que as mulheres assumiam status pe-
riférico nas notícias, uma vez que as práticas jornalísticas acabam por legitimar
o poder institucional. No contexto brasileiro, Márcia Veiga da Silva (2014)
mostrou, em pesquisa de caráter etnográfico em uma redação de TV, os aspec-
tos subjetivos que orientam os valores-notícia e que permitem afirmar que o
gênero do jornalismo é masculino.
Percebe-se, assim, que as práticas de desigualdade permanecem presentes
e se agravam com as imagens produzidas pelos meios de comunicação, baseadas
em estereótipos e na falta de reconhecimento da diversidade dos grupos sociais.
Esta é uma realidade comum, que tem sido sistematicamente investigada e criti-
cada pelas iniciativas de monitoramento de mídia e estudos acadêmicos que ana-
lisam coberturas jornalísticas sobre temáticas relativas às questões de gênero.22
21. Disponível em: http://www.unwomen.org//media/headquarters/attachments/sections/csw/bpa_s_final_web.
pdf ?la=es&vs=755
22. Entre estas iniciativas, em grande parte desenvolvidas por entidades voltadas aos movimentos em defesa dos
direitos das mulheres, pode-se citar algumas realizadas no contexto latino-americano: PORTUGAL, Ana Maria;
TORRES, Carmen (orgs.). Por todos los medios: Comunicación y Género. Ediciones de las Mujeres n. 23. Santiago
de Chile: Isis Internacional, 1996; TORRES, Carmen (ed.). Género y comunicación: el lado oscuro de los medios.

58 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Diante das limitações do mercado profissional e da busca por alterna-
tivas para o desenvolvimento de um jornalismo com enfoque de gênero, des-
taca-se nas últimas décadas a constituição de redes de comunicação com par-
ticipação expressiva de mulheres vinculadas às lutas pela igualdade de gênero
(SANTORO, 2007). Este trabalho em rede embasa diferentes estratégias de
inserção do debate de gênero na agenda social, com a incorporação gradativa
das mídias. Este fenômeno tem origem na articulação de grupos de mu-
lheres que, desde os anos 199023, passam a se apropriar das tecnologias como
forma de luta política, o que acaba por motivar a criação de redes de jornalistas
com visão de gênero (CHAER, 2007). A partir daí, segundo a autora, se mul-
tiplicaram os portais informativos, agências de notícias, blogs, revistas, rádios
on-line, redes sociais, entre outras iniciativas que se fortaleceram nas últimas
décadas e assumiram o propósito de colocar as demandas das mulheres na pau-
ta da mídia. Para Hasan e Gil (2014, p. 45, tradução nossa),

[…] as redes de comunicação de gênero preocuparam-se especialmente


em destacar as mulheres como sujeitos de informação e comunicação,
acrescentando-as às críticas pela exploração das mulheres como obje-
tos, como imagens ou como discursos que circulam pela mídia.24

As possibilidades de intervenção no espaço público por meio das mídias,
mesmo considerando assimetrias de acesso e de condições de produção (CER-
QUEIRA; RIBEIRO; CABECINHAS, 2009), revelam as potencialidades
para a afirmação das vozes femininas e para as lutas para superar as desigualdades
de gênero. Entende-se que a ocupação de espaços de atuação política contribui
para tensionar as relações de poder e inserir determinadas demandas na agenda
pública, o que passa pela apropriação dos espaços informativos.
Ediciones de la Mujer, n. 30. Santiago de Chile: Isis Internacional, 2000; BONDER, Gloria. Mujer y comunicación:
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de la Mujer, 1995; ALONSO, Martín Oller; MÁRQUEZ, Maria Cruz Tornay (orgs.). Comunicación, Periodismo y
Género: una mirada desde Iberoamerica. Sevilla: Ediciones Egregius, 2016; CHAHER, Sandra; SANTORO, Sonia
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Comunicación Ediciones, 2007; COMISSÃO DE CIDADANIA E REPRODUÇÃO. Olhar sobre a mídia. Belo
Horizonte: Mazza Edições, 2002.
23. Segundo dados apresentados por Hasan e Gil (2014), em 1993 se tem registro da criação do programa APC-Mujeres
en Ecuador, dando origem às primeiras redes de mulheres na internet. Em 1995, o CIMAC impulsionou a criação de re-
des na América Latina, com a Red Nacional de Periodistas de México. En 1998, na Guatemala, é criada a Red de Mujeres
Periodistas; em 2001, a Red Dominicana de Periodistas con Visión de Género; em 2003 a Red de Mujeres Periodistas de
Nicaragua; em 2005 a Red Internacional de Periodistas con Visión de Género (RIPVG); em 2008, a Red Nacional de
Mujeres Periodistas de Perú; e em 2009, a Red Colombiana de Periodistas con Visión de Género.
24. Do original: “[…] las redes de comunicación de género se ocuparon especialmente de destacar a las mujeres como
sujetos de la información y la comunicación, sumándolas a la crítica por la explotación de las mujeres como objetos,
en tanto imágenes o discursos circulantes por los medios”.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 59


O jornalismo com perspectiva de gênero, que se desenvolve sobretudo
no ambiente digital, tem contribuído para repensar os valores-notícia, as fon-
tes predominantes na cobertura jornalística, bem como o próprio uso de uma
linguagem não sexista (SANTORO, 2007). Importantes iniciativas com este
viés podem ser identificadas no Brasil por meio do “Mapa do jornalismo inde-
pendente” da Agência Pública25. Em diversos países, este fenômeno também
se encontra em expansão, acolhendo propostas jornalísticas, em sua maioria
independentes e colaborativas, que se caracterizam como alternativas em rela-
ção às lógicas do jornalismo hegemônico.
A proposta de tematizar o jornalismo com enfoque de gênero justifica-
-se, portanto, pelas demandas em curso na atualidade e pelo crescente interesse
e reconhecimento social e acadêmico dos debates em torno das desigualdades
de gênero. Neste sentido, a partir da necessidade de estabelecer articulações
entre o campo profissional, as demandas sociais e o meio acadêmico, interessa
discutir a inclusão da perspectiva de gênero na formação profissional, proje-
tando impactos na qualificação da produção jornalística.

Jornalismo com perspectiva de gênero na formação de profissionais

Diante da presença crescente do debate sobre igualdade de gênero den-


tro e fora das universidades, surge o questionamento sobre o modo como os
cursos de Jornalismo, que passaram recentemente por alterações curriculares
em razão da adequação às Novas Diretrizes Curriculares26, abordam esta pers-
pectiva no processo de formação.
Esta preocupação motivou o grupo de pesquisa Jornalismo e Gênero a
realizar uma pesquisa junto aos cursos de Jornalismo da Universidade Estadual
de Ponta Grossa (UEPG) e das Faculdades Santa Amélia (SECAL), ambos
localizados em Ponta Grossa (PR) por meio da aplicação de questionários para
todas as turmas no ano de 2015.27 O questionário continha 25 questões, sendo
apenas duas abertas, e foi dividido em dois eixos principais, além de informa-
ções sobre perfil dos informantes, sem identificação: 1) a perspectiva de gênero
25. Entre as experiências jornalísticas, destacam-se: Gênero e Número (http://www.generonumero.media/), Azmina
(http://azmina.com.br/), Catarinas (http://catarinas.info/), Nós, mulheres de periferia (http://nosmulheresdape-
riferia.com.br/), Think Olga (http://thinkolga.com/), entre outras.
26. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=14242-
-rces001-13&Itemid=30192. Acesso em: 01 jun. 2018.
27. Os questionários foram aplicados com a ciência e autorização dos coordenadores dos cursos das duas instituições
(UEPG e SECAL), com o compromisso ético de não identificação dos(as) informantes.

60 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


no ensino; 2) as questões de gênero na produção jornalística.28
Ao todo, foram respondidos 171 questionários (98 de alunos da UEPG
e 73 da Secal) com o objetivo de verificar o contato e o tratamento das ques-
tões de gênero nos cursos de Jornalismo de Ponta Grossa. Sobre o perfil dos
acadêmicos que participaram da pesquisa, 143 se afirmaram heterossexuais, 15
bissexuais e 13 homossexuais. Estudantes do sexo feminino correspondem a
92 (53,8%) e do sexo masculino somam 79 (46,1%). Na questão sobre a iden-
tidade de gênero dos estudantes, o resultado foi de 93 mulheres, 76 homens e
uma travesti. Nenhum estudante assinalou a opção transexual. Os acadêmicos
possuem de 18 a 44 anos, sendo a faixa etária mais frequente de 18 a 22 anos.
Neste texto, serão mencionados apenas alguns resultados dos questio-
nários, de modo a evidenciar as percepções mais evidentes dos estudantes
em relação ao modo como compreendem a prática profissional em relação às
questões de gênero, conforme abordado por Camargo e Woitowicz (2017).
Questões sobre a representatividade das mulheres nas notícias, diversidade
de fontes e uso de linguagem inclusiva foram alguns aspectos abordados nos
questionários.
No que se refere à questão “Na sua opinião, o jornalismo contempla a
diversidade das representações de gênero?”, os resultados da pesquisa indica-
ram uma percepção negativa sobre o tratamento da mídia, totalizando 123
respondentes. Outros 41 questionários informaram que sim e seis pessoas não
responderam, conforme consta no Gráfico 1.

Fonte: As autoras (2018)

28. Os resultados da pesquisa foram trabalhados em projetos de iniciação científica sobre a temática da inclusão da
perspectiva de gênero na formação profissional pelas acadêmicas Gabriela Clair e Bruna Carmargo, sob orientação das
professoras Paula Melani Rocha e Karina Janz Woitowicz, respectivamente.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 61


Este dado encontra-se em sintonia com os estudos feitos acerca das re-
presentações de gênero na mídia, que em geral constatam a invisibilidade das
mulheres e de outras minorias sociais como negros, indígenas, LGBTs, entre
outros grupos, bem como a tendência a um tratamento que reforça estereóti-
pos e hierarquias.
Outra questão apresentada estava voltada à escolha de fontes para a pro-
dução de conteúdos jornalísticos, em que se perguntou se há uma preocupação
em contemplar a diversidade de gênero. Os resultados indicaram a prevalência
desta preocupação, com 120 respostas, e a presença de 44 respostas negativas
para a questão. Seis pessoas não responderam e uma respondeu que a seleção
da fonte depende da pauta. O Gráfico 2, abaixo, ilustra os dados apresentados.

Fonte: As autoras (2018)

Entende-se que a escolha de fontes é uma referência fundamental não


apenas para identificar os lugares sociais ocupados por homens e mulheres
como para observar o papel do jornalismo na manutenção ou na transforma-
ção das representações de gênero. Em estudo realizado pelo grupo de pesquisa
Jornalismo e Gênero em março de 2011, tendo como base os textos com man-
chetes nas capas de seis revistas femininas e uma masculina do grupo Abril
(Capricho, Gloss, Nova, Cláudia, Lola, Women’s Health e Men’s Health) e três
jornais impressos (Diário dos Campos e Jornal da Manhã, de Ponta Grossa, e
Gazeta do Povo, do Paraná), foram identificadas assimetrias no que se refere às
pessoas na notícia, entre outros aspectos de interesse do referido estudo.
Em relação às revistas, considera-se que os veículos segmentos adequam-
-se à sociedade de consumo, uma vez que as estratégias de marketing (inspira-
das no mundo editorial europeu e americano) marcam o tom das publicações.

62 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Com a força do entretenimento como principal referência da maior parte das
revistas, a presença de fontes fica comprometida pelo espaço limitado para in-
formação nas publicações. As mulheres aparecem mais que os homens como
fontes em revistas como a Nova e a Cláudia, principalmente na função de
personagens, enquanto os homens prevalecem como fontes especializadas nas
áreas da saúde e da beleza, predominantemente (ROCHA; WOITOWICZ,
2013).
No que se refere aos jornais, a pesquisa indicou a prevalência de fontes
masculinas nos três veículos. Na Gazeta do Povo, de um total de 54 textos,
foram 144 fontes masculinas a 94 femininas; no Jornal da Manhã, de 48
textos, entre as fontes mencionadas, 70 são do sexo masculino e 22 do sexo
feminino; e no Diário dos Campos, dos 75 textos, foram registrados 62 ho-
mens e 21 mulheres como fontes nas notícias. Neste sentido, percebe-se a
tendência a uma maior visibilidade masculina no espaço dos jornais, bem
como a desigualdades que se reproduzem no ambiente social no que se refere
às ocupações de maior destaque e à pouca presença de mulheres em campos
como a política e a polícia.
De acordo com Rocha e Woitowicz (2013), tem-se uma maior presença
masculina na condição de fontes especializadas nos jornais, que assumem pa-
pel de destaque nas matérias. Observa-se, ainda, que as mulheres são maioria
quando se trata de relatar experiências pessoais, enquanto prevalecem homens
no papel de fonte especializada e assunto principal das notícias.
Estes dados refletem resultados obtidos por diversas outras iniciativas
de monitoramento de mídia que revelaram tratamento desigual entre homens
e mulheres, sendo a escolha das fontes um dos elementos observados. Desse
modo, ao registrar um número representativo de questionários que confir-
maram a preocupação com a igualdade de gênero na produção das notícias,
acredita-se que a etapa da formação profissional pode contribuir para um tra-
tamento mais equitativo entre homens e mulheres na atividade jornalística, se
este aspecto for devidamente trabalhado nos conteúdos regulares dos cursos
de graduação.
Outra questão do questionário indagava sobre a importância ou não do
uso de uma linguagem inclusiva na produção jornalística. A grande maioria
dos estudantes, em um total de 114, respondeu afirmativamente, enquanto 47
apresentaram resposta negativa e 10 não responderam, conforme percentuais
apresentados no Gráfico 3.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 63


Fonte: As autoras (2018)

Diversos são os guias e manuais produzidos por coletivos feministas e


entidades ligadas ao jornalismo que propõem o uso de uma linguagem inclusi-
va, que evite o masculino como referência hegemônica (este movimento, con-
tudo, não parece encontrar o mesmo nível de preocupação no que se refere à
mídia hegemônica). Para tanto, é possível utilizar termos neutros e referenciar
adequadamente mulheres e pessoas LGBT, de modo a evitar a invisibilidade
dos sujeitos representados nas notícias. Entendendo o papel da linguagem na
produção do imaginário social, considera-se que o jornalismo deve incorporar
a preocupação com o uso de termos e expressões no cotidiano da profissão,
desde o momento da formação. Pelos dados apresentados, foi possível observar
que não há consenso sobre o assunto, mas sobressaem as respostas positivas
sobre a linguagem inclusiva.
Um último dado apresentado refere-se à pergunta sobre a importância
ou não da inclusão das questões de gênero na formação do jornalista. Sobre
este aspecto, as justificativas para as respostas revelam a relação entre jornalis-
mo e cidadania.29

As justificativas apontam que o conhecimento sobre gênero contribui


para uma sociedade mais igualitária, inclusiva, com jornalistas que se
posicionam contra o preconceito e a discriminação e que contemplam
as diferenças. Além disso, é nítido o reconhecimento da formação para
um jornalismo de qualidade, que reconhece sua relevância na socieda-
de, através de seu papel de propiciar debates e gerar reflexões para o
público. (CAMARGO; WOITOWICZ, 2017, p. 14)

29. Para um detalhamento das respostas que justificaram a opção afirmativa ou negativa em uma questão aberta, ver
Camargo e Woitowicz (2017).

64 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


As respostas apontaram para o reconhecimento das demandas de gêne-
ro no jornalismo, com 151 resultados afirmativos e 14 negativos, além de 6 não
respondentes, conforme apresentado no Gráfico 4.

Fonte: As autoras (2018)

Os resultados da pesquisa, embora apresentados parcialmente, indicam


que há uma abertura para a inclusão do debate sobre gênero na formação profis-
sional, o que deve refletir a realidade de outros cursos de Jornalismo existentes
no país. Contudo, não se pode afirmar que há, nos próprios currículos, a demar-
cação desta problemática como parte do processo de formação profissional.
Em um estudo que considerou a análise dos projetos pedagógicos, entre-
vistas com coordenadores e professores dos cursos de Jornalismo de Curitiba
e Ponta Grossa (Universidade Federal do Paraná, Universidade Positivo, Gru-
po Educacional OPET, Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Centro
Universitário Autônomo do Brasil, Universidade Estadual de Ponta Grossa
e Faculdades Secal), Bruna Camargo (2017) observa que os projetos pedagó-
gicos praticamente não fazem menção às relações de gênero, sendo identifica-
das disciplinas que abordam indiretamente a temática, tais como aquelas que
discutem cidadania e direitos humanos. Entende-se, no entanto, a transver-
salidade das questões de gênero, que podem perpassar produções práticas e
conteúdos teóricos. A autora identificou ainda diversas iniciativas de projetos
de pesquisa e extensão realizados nas instituições em que as questões de gênero
são trabalhadas, na maioria das vezes por motivação de docentes que possuem
trajetória de interesse na área.

Considerações

As pesquisas desenvolvidas nos cursos de formação superior de Ponta

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 65


Grossa e Curitiba evidenciam que há um espaço nos cursos de Jornalismo para
abordar as questões de gênero, o que remete ao compromisso de ampliar o di-
álogo com setores da sociedade comprometidos com as lutas pela igualdade e
oferecer respostas ao mercado profissional. A mudança de perspectiva precisa
contemplar pautas, personagens e abordagens capazes de melhor representar o
debate de gênero na atualidade, repensando os parâmetros hegemônicos que
sustenta(ra)m, até hoje, a atividade jornalística. A academia deve ser o espaço
de ruptura da cultura masculina, ainda predominante na sociedade, fomentan-
do a transformação dos estudantes em jornalistas profissionais, comprometi-
dos com o interesse público e social, e instrumentalizados pelo conhecimento.

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68 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Agenda da imprensa feminista: rupturas
e continuidades30

Viviane Gonçalves FREITAS31


Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG

Lucy OLIVEIRA32
Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, São Paulo, SP

Resumo
A imprensa feminista, braço da imprensa alternativa, vocaliza a defesa das mu-
lheres como sujeitos políticos, da cidadania e da democracia. Assim, o obje-
tivo deste capítulo é apresentar as rupturas e as continuidades de agenda de
publicações da imprensa feminista, em dois momentos distintos: pós-1975 e
pós-2011. Para tal, por meio da análise conteúdo, via software MAXQDA, ela-
boramos uma comparação entre os temas abordados pelos jornais Nós Mulhe-
res, Mulherio e Nzinga Informativo, que circularam nas décadas 1970 e 1980,
e pelos sites Nós, Mulheres da Periferia, Think Olga e Catarinas, surgidos pós-
2011. Considerando as diferenças contextuais e de plataformas, foi possível
perceber que a imprensa alternativa ainda representa um importante espaço
para o debate de temas silenciados pela grande mídia, ao mesmo tempo em
que a agenda feminista se atualiza de acordo com conquistas e retrocessos de
direitos.

Palavras-chave: Imprensa feminista; Imprensa alternativa; Movimentos fe-


ministas; Agenda.

30. A pesquisa de doutoramento (FREITAS, 2017), ponto de partida deste artigo, foi desenvolvida com bolsa De-
manda Social (CAPES), de 2013 a 2017, no Programa de Pós-graduação em Ciência Política, da Universidade de
Brasília, sob a orientação da professora Flávia Biroli. Agradecemos a Teresinha Pires por seus comentários na organi-
zação deste artigo.
31. Pós-doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (PDJ/CNPq) – Processo
168943/2017-4. Doutora em Ciência Política (UnB) e mestra em Comunicação Social (PUC Minas). Integrante
do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê/IPOL/UnB), do Margem – Grupo de Pesquisa
em Democracia e Justiça (DCP/UFMG) e da Rede de Pesquisas em Feminismos e Política. E-mail: vivianegoncal-
vesfreitas@gmail.com
32. Pós-doutoranda em Ciência Política pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP/
CEBRAP) e pesquisadora da área de comunicação e política. Doutora em Ciência Política (UFSCar) e mestre em
Sociologia (UFAL), integrante do Núcleo de Estudos Comparados e Internacionais (NECI/USP) e do grupo Co-
municação Política, Partidos e Eleições (CPPE/UFSCar), além de professional trainer em softwares de análise mista
de conteúdo. E-mail: lucyjorn.al@gmail.com

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 69


Introdução

No contexto em que as mídias digitais se tornam extensão do cotidia-


no particular, bem como catalisadores de expressões, movimentos e posições
políticas, este artigo busca identificar continuidades e rupturas na agenda da
imprensa feminista brasileira, que surge ainda na vigência do regime ditatorial
militar (a partir da década de 1970) e ganha outras plataformas atualmente
(a partir de 2011). Movido pela apropriação das tecnologias de informação
e comunicação (TICs) feita pelos movimentos sociais, na segunda década
do século XXI (PEREIRA, 2011; RIZZOTTO; MEYER; SOUSA, 2017),
o jornalismo alternativo brasileiro – no qual o jornalismo feminista se inclui
– ressurge com força, vocalizando pautas que passam ao largo da grande im-
prensa. É nesse solo que o debate feminista reencontra terreno fértil para sua
expressão, fortemente ancorada na visibilidade, nas ações em rede, no compar-
tilhamento de ideias, na pluralização da informação, na horizontalidade do
aprendizado e na amplificação de discussões (RIZZOTTO; MEYER; SOU-
SA, 2017).
Assim, a partir do pressuposto de que os movimentos feministas são di-
nâmicos e se movem conforme o contexto e suas atrizes, este artigo tem como
objetivo analisar as rupturas e continuidades na agenda da imprensa alternati-
va feminista em dois períodos políticos distintos: um ditatorial (pós-1975) e
outro democrático (pós-2011). Quanto ao primeiro momento, o ano de 1975
foi marcante e decisivo para as reivindicações dos movimentos feministas
estarem na agenda da discussão pública. A Organização das Nações Unidas
(ONU) instituiu 1975 como o Ano Internacional da Mulher e o período de
1975 a 1985 como a Década da Mulher. O objetivo dessas ações era possibi-
litar uma discussão, em nível mundial, das questões que tinham as mulheres
como protagonistas, por exemplo, saúde, direitos sexuais e reprodutivos, cida-
dania, emancipação e violência. Assim, não foram fatos isolados que impul-
sionaram a retomada dos movimentos feministas, mas uma combinação de
fatores – inclusive, a própria volta às atividades dos movimentos sociais com
diferentes agendas –, que atuava como catalisadora desse momento (SARTI,
2004; PINTO, 2007; 2010). A respeito do segundo período ressaltado acima,
Rizzotto, Meyer e Sousa (2017) apontam o ano de 2011 como um marco para
o ativismo digital dos movimentos feministas brasileiros, apesar de iniciativas
como o blog Escreva, Lola, Escreva, ter sido criado em 2008. Segundo as auto-

70 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


ras, a realização da primeira Marcha das Vadias33 no país naquele ano chamou
a atenção da grande mídia sobre assuntos como machismo e assédio sexual.
Nossa hipótese é de que a agenda dos períodos acompanha as mudanças
políticas nacionais e também dos movimentos feministas, revelando alterações
temáticas em cada período: se antes já não era possível falar de agenda feminis-
ta sem que a perspectiva de raça e classe, atualmente, as plataformas digitais são
utilizadas para a ampliação de vozes e contraposição à hegemonia de padrões,
em especial, dos que se referem ao “ser mulher”, ressaltando sua pluralidade.
Este reencontro entre movimentos, mídia e expressões contra-hegemônicas
desenham uma agenda de continuidade das pautas encontradas nos jornais
feministas das décadas de 1970 e 1980? Quais rupturas e mudanças são per-
cebidas? O que essa agenda nos aponta em termos de mobilização e expressão
dos movimentos feministas contemporâneos? Essas são as principais questões
que temos como desafio abordar neste artigo.
Para tanto, fazemos uma retomada breve da relação entre imprensa al-
ternativa e feminismos, no período compreendido entre os anos 1976 e 1988,
ano de promulgação da Constituição Federal, marco do reestabelecimento
da democracia. Em seguida, apresentamos os achados reunidos por Freitas
(2017) na análise destes periódicos, os quais nos servem de referência para
tipificação da agenda do período atual. Na seção seguinte, apresentamos os
veículos contemporâneos escolhidos e a análise de conteúdo da agenda a partir
do software MAXQDA34. E, por fim, encerramos o artigo com a comparação
entre os achados do período ditatorial com o período democrático recente.

Metodologia

Com vista à comparação, utilizamos as mesmas 22 categorias de análise


de agenda apresentadas por Freitas (2017) para os veículos pós-75 (período di-
tatorial) para analisar os textos dos veículos pós-2011 (período democrático).
Ao questionarem a dicotomia público-privado, essas categorias se apresentam
como políticas, abrangendo desde temáticas como família e maternidade até
a representação feminina nos espaços políticos institucionais (como câmaras,
assembleias e Congresso).
No trabalho de Freitas (2017), as categorias emergiram dos textos jor-
33. Sobre a Marcha das Vadias, ver Gomes e Borj (2014).
34. Software de análise quantitativa, qualitativa e mista, desenvolvido na Alemanha e que permite a codificação dos
textos analisados, bem como testes estatísticos e análises visuais e descritivas do material.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 71


nalísticos analisados, a partir da análise de conteúdo (BARDIN, 2004)35, per-
mitindo unidade temática e capacidade de replicabilidade em diferentes veícu-
los com fins de comparação. Ao todo, na pesquisa sobre o período ditatorial,
foram analisados 4.95236 textos jornalísticos – compreendidos entre matérias,
resenhas, notas, editoriais, artigos e charges – de quatro veículos: Nós Mulhe-
res, Mulherio, Nzinga Informativo e Fêmea. Estes foram escolhidos porque re-
presentavam um panorama de coletivos feministas brasileiros, atuantes desde
a ditadura até a redemocratização
Para representar os casos recentes, escolhemos três veículos de comuni-
cação constantes no Mapa do Jornalismo Independente37, lançado em março
de 2016, pela Agência Pública38. O material traz uma compilação de veículos
primordialmente jornalísticos, que nasceram em rede, coletivos (que não se
resumem a blogs) e que não possuem ligações com grandes grupos de mídia,
políticos, organizações ou empresas. Diante desses critérios, entendemos que
o Mapa seria uma referência que atenderia aos objetivos da pesquisa e sele-
cionamos, entre os 216 veículos listados, aqueles que produziam jornalismo
e se autodeclaravam com conteúdo ou postura feminista. Por fim, chegamos
a três deles – Catarinas (SC), Nós, Mulheres da Periferia (SP) e Think Olga
(SP). Para tanto, realizamos uma pesquisa exploratória de uma amostra do
material dos sites, por meio da qual foi possível perceber que, embora apenas o
Catarinas se autodeclarasse feminista, todos os três coletivos, mesmo em pers-
pectivas distintas, apresentavam discurso feminista explicitado em suas agen-
das. Em outras palavras, todos traziam, em seus textos, a defesa da igualdade
de direitos entre mulheres e homens, o questionamento quanto à dicotomia
público-privado – que remete à divisão sexual do trabalho, à dupla jornada,
às discrepâncias salariais – o silenciamento das vozes das mulheres, além de
chamar atenção para as opressões entre as próprias mulheres, na intersecção de
raça, classe e gênero.
35. A autora pontua o processo da análise de conteúdo em cinco fases, a saber: (i) organização da análise; (ii) codifi-
cação; (iii) categorização; (iv) inferência e (v) tratamento informático.
36. Foram analisadas oito edições do Nós Mulheres (204 textos), 42 números do Mulherio (1.757 textos), quatro
edições do Nzinga Informativo (102 textos) e 177 números do Fêmea (2.889 textos). Não integram o corpus um
número do Nzinga Informativo (n. 5, mar./1989) e do Fêmea (n. 17, jul./1994), não encontrados no momento da
produção da tese
37. Quanto ao conceito de jornalismo independente, seguimos aqui o entendimento de que é o jornalismo que atua
na “na contramão da grande mídia, caracterizado pela pluralidade de vozes e a participação das mais diversas classes
sociais no processo de elaboração e transmissão das notícias, mas também na construção social através do acesso
à informação” (6 COISAS QUE VOCÊ DEVERIA SABER..., 2017, s.p.), assim como a imprensa alternativa de
décadas passadas. Dessa forma, apesar de aparecer aqui, utilizaremos o termo “jornalismo alternativo” para identificar
a imprensa analisada tanto no período ditatorial quanto no atual.
38. Disponível em: <https://apublica.org/mapa-do-jornalismo/>.

72 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Para a análise, foi considerado todo material disponível nos sites até 31 de
março de 2018, incluídos nas abas “notícias” ou “artigos”, dando um universo
geral de 1.272 unidades de textos39. Estas foram classificadas nas 22 categorias
oriundas do trabalho de Freitas (2017), com o uso do software MAXQDA40,
considerando o tema predominante ao qual se referiam. Os resultados desta
análise subsidiaram a comparação entre as agendas dos veículos pós-1975 e
as das publicações do período contemporâneo (pós-2011), apresentadas nas
considerações finais deste capítulo.

Feminismos e jornalismo alternativo no Brasil

Quando ainda a comunicação era analógica e o compartilhamento de


experiências se dava por meios impressos, a imprensa alternativa foi a grande
possibilidade para que as discussões dos grupos progressistas se difundissem
tanto dentro quanto fora do país, chegando, inclusive, às/aos exiladas(os)
políticas(os). Jornais como Versus (1975-1979), Opinião (1972-1977), Pas-
quim (1969-1988) e Movimento (1975-1981) desafiavam a censura, faziam
humor do que era triste, buscavam falar de um Brasil que os grandes jornais
omitiam, inovavam na linguagem e na esperança por dias livres e sem medo. A
imprensa alternativa ou nanica41, muito presente na cena brasileira, nas déca-
das de 1960 a 1980, como uma importante expressão de discurso insurgente
contra o regime militar, deixou sua marca em razão de um perfil de jornalismo
que se diferenciava da grande imprensa, seja pela escassez de recursos ou por-
que denunciavam, de maneira sistemática, as torturas e as violações dos direi-
tos humanos, além de criticar o modelo econômico (KUCINSKI, 1991)42.
Em países da Europa ocidental como a França, um novo movimento
feminista, no começo dos anos 1970, levava às ruas debates como o direito das
39. O corpus ficou distribuído da seguinte forma: 596 textos de Catarinas; 402 textos do Nós, Mulheres da Periferia;
e 274 textos do Think Olga.
40. A codificação foi realizada em pares e teve a participação da estudante de graduação em Educação Especial da
UFSCar Larissa Domingues Caporasso, à qual agradecemos pela contribuição. Sua parceria se deve à experiência que
esta possui em pesquisas de âmbito nacional com análise de conteúdo categorial por meio de software. A escolha do
software se deve à capacidade de processamento de um corpus robusto, bem como a facilidade de categorização em re-
lação a outros instrumentos semelhantes. Além disso, uma das pesquisadoras é professional trainer do software, o que,
além de permitir a licença gratuita do uso, comprova a experiência no uso desta ferramenta para análise de conteúdo.
41. Kucinski (1991, p. XIII) associa o termo alternativa a quatro significados principais: “o de algo que não está ligado
a políticas dominantes; o de uma opção entre duas coisas reciprocamente excludentes; o de única saída para uma si-
tuação difícil e, finalmente, o do desejo das gerações dos anos 1960 e 1970, de protagonizar as transformações sociais
que pregavam”. Já a palavra nanica tem inspiração no formato tabloide adotado pela maioria dos jornais alternativos,
enfatizando sua reduzida escala de valores para reprodução.
42. O autor pesquisou um universo de 150 periódicos, no período de 1964 a 1980. Destes, metade chegaram a um
ano de vida. Mas o restante não passou dos primeiros números.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 73


mulheres ao corpo e ao sexo, o uso da pílula anticoncepcional, a participação
das mulheres na política institucional, nas atividades produtivas e de direção,
além das transformações aceleradas do que se entendia como família. Kucinski
(1991) destaque que tais discussões eram tratadas com escárnio pela imprensa
alternativa de então. O caráter libertário do Pasquim, por exemplo, convertia-
-se em total escárnio quando o assunto em questão eram os movimentos femi-
nistas. Soihet (2005) destaca que o jornal, ao assumir uma postura misógina,
tentando silenciar e desqualificar pela zombaria a luta das mulheres por seus
direitos, colocava-se bem aquém da proposta de se ter um aguerrido combate
ao pensamento retrógrado. As sátiras eram sempre marcadas pelo juízo de que
as feministas assumiam cotidianamente “atitudes consideradas inadequadas à
feminilidade e às relações estabelecidas entre os gêneros”.
Assim, a priorização conferida pela ONU a essa agenda de direitos, com
a institucionalização de 1975, conforme mencionado anteriormente, possi-
bilitou que tais discussões chegassem à arena pública no Brasil, mesmo que
com atraso de alguns anos. Nesse momento, surgia “uma nova combinação de
ideias e desejos de luta, um novo ativismo político, contribuindo para o pro-
cesso de abandono do paradigma clássico de ativismo baseado exclusivamente
no conceito de ‘luta de classes’” (KUCINSKI, 1991, p. 79). Entre os veículos
da imprensa alternativa, a imprensa feminista, foi a de maior sobrevida e ex-
pressividade, destacando-se entre o nicho de jornais que debatiam questões
ainda sem visibilidade, quer seja na grande imprensa, quer seja naquela clas-
sificada como alternativa. As relações de poder existentes e naturalizadas nas
esferas privada e pública ganhavam o caráter político que, até então, não se
considerava.
Cabe salientar que há diferenças significativas entre a imprensa femi-
nina e a imprensa feminista que merecem ser detalhadas aqui. Em primeiro
lugar, quando a imprensa feminina surgiu, no século XIX, os textos eram es-
critos por homens e direcionados para as mulheres, a fim de haver a ampliação
dos papéis femininos tradicionais, vinculados ao lar ou ao convento. Mesmo
ao longo do tempo, o desenvolvimento das sociedades diversificou as temá-
ticas para literatura e artes domésticas, salientando o caráter secundário do
jornalismo que nasceu com a função de entretenimento, utilidade prática ou
didática (BUITONI, 2009). Em contrapartida, a imprensa feminista refere-se
a um jornalismo feito por mulheres, a respeito das mulheres e para mulhe-
res, com o intuito de ser um espelho fiel delas, com suas contradições, desejos,
conquistas, problemas, lutas, questionamentos. As temáticas abordadas trans-

74 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


passam áreas diversas como saúde, educação, trabalho, sexualidade e política
governamental, sem cair em estereótipos e destacando o valor de cada mulher
em sua singularidade (BORGES, 1982).
Godard (2002) considera imprescindível o papel dos periódicos femi-
nistas dentro do campo da imprensa alternativa já que, dessa forma, seria pos-
sível perceber os processos engendrados de reprodução social e de criação de
valor cultural.

Os periódicos feministas têm existência fora do modelo dominante de


publicação capitalista, às margens e em oposição, seja por meio de sua
posição limite no que diz respeito ao mercado ou quanto a seu com-
promisso com a ideologia contestatória. [...] Significativas práticas que
desafiam a ordem simbólica, os periódicos feministas estabelecem con-
tra-instituições que legitimariam modos alternativos de conhecimento
e estruturas editoriais. [...] [As feministas] conscientemente, têm como
objetivo produzir uma posição para um assunto específico de leitura,
uma leitora feminista que se dedique à crítica da leitura dominante
e, por extensão, da publicação e de outras práticas econômicas. (GO-
DARD, 2002, p. 212-213).

Essa perspectiva é respaldada por Leite (2003, p. 240) ao ressaltar que “a


imprensa feminista representou um espaço de experimentação de uma forma
muito especial de fazer política, refletindo sobre as descobertas das mulhe-
res sobre si mesmas e sobre as ideias feministas que floresceram na década de
1970”.
Neste sentido, Freitas (2017) chama atenção para o fato de que essa im-
prensa feminista não era homogênea, podendo-se identificar nichos e espe-
cificidades dentro dos próprios movimentos e em sua atuação via jornalismo
alternativo brasileiro. Para tanto, a autora pesquisou publicações de alguns
grupos feministas que estavam presentes na cena pública entre 1976 e 2014
– escolhidos porque representavam um panorama de coletivos feministas bra-
sileiros, atuantes desde a ditadura até a redemocratização – e constatou, pelos
menos, quatro perspectivas de agendas distintas no debate feminista: a marca
de classe (Nós Mulheres43, 1976-1978), a pluralidade (Mulherio44, 1981-1988),
a identidade racial e de gênero (Nzinga Informativo45, 1985-1989) e a horizon-
43. Acervo da Fundação Carlos Chagas (FCC).
44. Acervo da Fundação Carlos Chagas (FCC).
45. Acervo do Arquivo Edgard Leuenroth, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 75


talidade (Fêmea46, 1992-2014).
No Nós Mulheres, a marca de classe ocorria ao se buscar difundir e associar
as críticas à opressão sofrida pelas mulheres não só a uma relação desigual de gê-
nero, mas também voltada para a exploração com viés de classe, ou seja, o discur-
so tinha um foco evidente na justiça social, desde que ela também se convertesse
em cidadania para as mulheres. Já as pesquisadoras da Fundação Carlos Cha-
gas produziam o Mulherio com a despretensiosa ideia de, por meio dele, fazer
o intercâmbio entre as diversas instituições e pesquisadoras(es) voltados para os
estudos sobre a mulher brasileira que começavam a ser desenvolvidos por todo o
país nos primeiros anos da década de 1980, ressaltando a pluralidade. O Nzinga
Informativo trazia em suas páginas o debate sobre a dupla opressão – racismo e
sexismo – que afetava (e ainda afeta) as mulheres negras, independentemente a
qual classe socioeconômica pertencessem. O Fêmea buscava abarcar as realida-
des desiguais de “mulheres brancas, negras e indígenas; urbanas e rurais; traba-
lhadoras em geral e trabalhadoras domésticas”, tendo como ponto de partida que
as reivindicações feministas se pautavam na ideia de que “sem as mulheres (todas
e cada uma delas) os direitos não são humanos”.
Já na era dos likes e dos milhares de seguidores, em contrapartida com as
tiragens reduzidas dos impressos de quatro décadas atrás, a imprensa alternati-
va brasileira encontra na Internet uma plataforma capaz de hospedar e fomen-
tar as vozes que emanavam das ruas e da sociedade. Um exemplo importante é
o surgimento do Mídia Ninja, formado por comunicadores voluntários e em
rede que, a partir da cobertura “no chão” dos protestos e atos contra o aumento
das passagens em São Paulo, em junho de 2013, passa a se tornar referência do
modo desse novo fazer jornalístico47.
Ao mesmo tempo, blogs com temáticas feministas começaram a se popu-
larizar, alcançando grande repercussão, o que fez como que as ativistas percebes-
sem “a Internet como um novo instrumento de expressão”, com custo reduzido e
expressiva potencialidade como espaço de debates e difusão de ideias. A igualda-
de de gênero também ganha espaço nas páginas do Facebook, como plataforma
independente, replicadora ou divulgadora do conteúdo de blogs e sites.
Cabe ressaltar que os movimentos feministas e, consequentemente, seus ve-
ículos jornalísticos não apenas mudam de plataforma na segunda década do século
46. Acervo do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA).
47. Outro exemplo é o coletivo Jornalistas Livres, que surge a partir da reunião de jornalistas independentes que
começaram a cobrir os protestos de março de 2015 contra a presidenta Dilma Rousseff. O coletivo existe até hoje
e, juntamente com o Mídia Ninja, é um dos principais veículos alternativos de informação na Internet, conforme
Burgos Media Watch (http://media.pburgos.com/).

76 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


XXI, mas também sua agenda, como reflexo do contexto social no qual se inserem,
apresenta temáticas antes impensáveis, como a violência de gênero na Internet. A
seguir, demonstramos com mais detalhes como essa agenda distinta se conformou.

A agenda da imprensa feminista pós-197548

Na segunda metade dos anos 1970, o jornal Nós Mulheres (1976-1978),


com sede em São Paulo, objetivava mostrar que o cotidiano das mulheres traba-
lhadoras tinha valor, inclusive um valor político, de luta e resistência em pleno
período de ditadura militar no Brasil. Uma dessas possibilidades era, segundo o
jornal, a participação das mulheres tanto nas associações de classes, nos sindica-
tos, quanto na política partidária, com a ressalva de que o exercício da democra-
cia ia muito além do momento do voto, sendo construído a cada dia, por meio
da luta pela igualdade de direitos e justiça atrelada à atuação profissional.
O Nós Mulheres representa o espírito das exiladas que participavam dos
círculos de debate na França e chegavam com o desejo de levar a discussão
sobre o feminismo para a classe operária, na perspectiva de compromisso com
ideais democráticos e socialistas (TELES, 1999; MORAES, 2012; WOITO-
WICZ, 2014), circulando no momento da retomada dos movimentos sociais
no Brasil. Tendo Anamárcia Veinsecher como jornalista responsável, o jornal,
que não divulgada sua tiragem, nasceu diretamente dos movimentos de base,
com matriz ideológica clássica das esquerdas, mas com autonomia clara para
a luta feminista, com base marxista, reflexo também de uma base de ativismo
ampla, contando com a participação de clubes de mães engajadas em lutas em
favor de creches na zona sul de São Paulo. Em entrevista a Bernardo Kucinski,
a jornalista Adélia Borges declarou que o Nós Mulheres foi “o primeiro jornal
feminista brasileiro a colocar que o privado também era público e a levantar
questões como a sexualidade, a criança, a privilegiar o ângulo da liberdade”
(KUCINSKI, 1991, p. 80-81).
A politização dos espaços e da vida cotidiana aparece bem marcada nas
oito edições, nos formatos de editoriais, crônicas, cartas, matérias, charges e
notas. É importante destacar que, como dito acima, o contexto em que o Nós
Mulheres circulou ainda era o da repressão do regime militar, apesar de também
ser o da volta dos movimentos sociais à arena pública. Como identificado por
Freitas (2017), a expressão dessa efervescência é nítida nas oito edições que tem,
48. A marca temporal faz referência à institucionalização de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, pela Orga-
nização das Nações Unidas (ONU), citado anteriormente.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 77


entre as principais categorias temáticas de sua agenda, organizações de mulheres
(20%), trabalho (17%) e política institucional (14%). Se somadas, a primeira e a
terceira categorias temáticas perfazem 34%, valor significativamente importante
para um jornal com um perfil mais votado para o debate de classes.
Na década seguinte, os jornais Mulherio (1981-1988) e Nzinga Infor-
mativo (1985-1989) atuaram em vertentes distintas, embora, em certa medi-
da, complementares. O primeiro, que nasceu no interior da Fundação Carlos
Chagas (FCC), tinha como pilar de ação o trabalho de pesquisadoras da fun-
dação que buscavam o sentido da democracia e da cidadania além de suas salas
e dos debates teóricos. Para elas, os movimentos de mulheres e feministas se
faziam nas ruas, com o contato entre os grupos, com a interação pela via do
diálogo, a fim de que os direitos das mulheres também fossem considerados na
agenda dos debates dos primeiros anos da redemocratização, a começar pela
Constituinte. Não é possível desconsiderar que as páginas do jornal também
fomentavam a reflexão quanto à importância da inserção das mulheres nos es-
paços de debates, sendo que, para isso, era necessário que as atividades domés-
ticas não permanecessem como responsabilidade exclusiva delas, mas dividida
entre todos os membros da casa. A temática fora discutida no Nós Mulheres,
com a perspectiva da responsabilização socializada, cobrando do Estado e das
empresas sua participação na desoneração do tempo das mulheres.
Organizações de mulheres (16%), família (13%) e direitos sexuais e
reprodutivos (10%) representam os três maiores índices de abordagem das
42 edições de Mulherio (FREITAS, 2017). O jornal tinha como uma de suas
premissas não ressaltar uma vertente ou um grupo em detrimento dos demais
movimentos feministas ou de mulheres. Sua principal ação era divulgar a atu-
ação dos grupos que, na década de 1980, se espalhavam por todo o país. As
atividades desses grupos em favor dos direitos das mulheres, do debate sobre
a opressão sofrida e como isso era prejudicial para a democracia que, aos pou-
cos, voltava à cena brasileira eram a grande aposta da publicação. Em sua linha
editorial defendia, como os outros três jornais analisados por Freitas (2017),
que não era possível falar de direitos das mulheres e igualdade de condições de
cidadania sem que fossem consideradas como sujeitos políticos, com atuação
efetiva na arena institucional.
O Nzinga Informativo se destaca em relação aos demais por ter sido or-
ganizado por um coletivo homônimo de mulheres negras, com sede na peri-
feria do Rio de Janeiro, que as inseriam como protagonistas dos debates e pú-
blico principal da publicação. A temática é recorrente nas outras publicações,

78 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


em perspectivas diferentes. Dessa forma, é possível perceber o entendimento
interseccional de maneiras distintas sobre a visão dos jornais quanto às opres-
sões que recaem sobre as mulheres.
A valorização da população negra e, em especial, das mulheres negras, é o
ponto central do Nzinga Informativo, que acaba tendo como as três principais
categorias temáticas comunidade negra (62%), organizações de mulheres (8%)
e política institucional (4%), nos cinco números do jornal (FREITAS, 2017).
O peso relativo das três principais categorias temáticas é bem diferente em com-
paração com as dos outros jornais. A predominância observada em relação à
comunidade negra, que engloba temas como discriminação racial, movimentos
negros, mulheres negras, cultura negra e escritoras/es negras/os, é justificada por
ser o Nzinga Informativo um jornal que prezava pela divulgação e valorização
dos ritos e costumes da comunidade negra. Um dos temas significativos do deba-
te trazido pelo veículo é a discriminação racial em andamento na África do Sul,
por meio do apartheid, na época de sua circulação. As críticas à política racial não
eram apenas para chamar a atenção do que acontecia no país africano, mas tam-
bém servia como alerta para a segregação interseccional – raça, classe e gênero –
que ocorria (e ainda ocorre) no Brasil e que restringe o acesso à cidadania plena.
Com isso, é possível perceber temas interseccionais, mas, em especial,
agendas distintas nos três informativos analisados como resumido no quadro
a seguir:

Tabela 1 – Cinco principais categorias temáticas nos jornais analisados49

Fonte: Elaboração das autoras, a partir dos dados de Freitas (2017)

49. Freitas (2017) apresenta as dez categorias temáticas mais frequentes nos três jornais citados acima e no Fêmea, que
aqui foi retirado por não integrar o escopo deste artigo.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 79


A agenda da imprensa feminista pós-2011

Com a considerável redução de custos de produção, além da articulação


em rede e redução das distâncias, a Internet possibilita que novas iniciativas e
veículos feministas ganhem expressividade pós-2011. Do universo mapeado
no Brasil e entendido como jornalismo independente ou alternativo, decidi-
mos por focar em Nós, Mulheres da Periferia (2012-), Think Olga (2013-) e
Catarinas (2016-). Os três sites surgem no período de fomento de novos co-
letivos de informação em rede e dos movimentos de rua, representando um
novo momento do debate feminista, mesmo que a esfera pública ainda não
seja efetivamente tão plural e democrática na Internet.
Em ordem cronológica, o primeiro deles, Nós, Mulheres da Periferia,
tem como data de fundação a do lançamento de um manifesto de mesmo
nome, publicado em 7 de março de 2012, no jornal Folha de S.Paulo. Formado
por oito jornalistas e uma designer50, o site nasce com um objetivo claro: ser
uma fonte de pautas sobre as questões que envolvem as mulheres periféricas –
negras, brancas, magras, gordas, trabalhadoras, mães, diversas. Aqui tratamos
o termo “periférico” no sentido dado pelas próprias autoras do veículo, ressal-
tando o caráter de “bairros afastados do Centro”. Marques e Freitas (2017),
em artigo sobre o site Nós, Mulheres da Periferia, destacam que o texto do
manifesto de fundação chamou a atenção de leitoras e leitores habituais do
veículo impresso, bem como viralizou como um manifesto entre outras mu-
lheres jovens ou não tão jovens, que se sentiram “representadas, lembradas e
retratadas”. Entretanto, apesar da publicação do manifesto e sua repercussão
em 2012, as notícias passam efetivamente a ser produzidas e veiculadas no site
do grupo apenas dois anos depois – em março de 2014, de acordo com o pró-
prio arquivo do coletivo disponível online. Além do núcleo formador, o banco
de artigos é composto por textos de colaboradoras(es) diversas(os).
A inspiração tanto para o texto-fundação quanto para a agenda discuti-
da no site ou na fanpage é a vivência, as visões e as experiências cotidianas das
mulheres periféricas, das quais fazem parte suas fundadoras. Isso se reflete, por
exemplo, na descrição das autoras ao final de muitos textos. Além de nome,
idade, profissão, formação, acrescenta-se o bairro onde moram, ressaltando sua
50. As integrantes do coletivo “Nós, Mulheres da Periferia” são: Jéssica Moreira, 23 anos (Perus, Zona Noroeste);
Semayat Oliveira, 26 anos (Cidade Ademar, Zona Sul); Cíntia Gomes, 31 anos ( Jardim Ângela, Zona Sul); Bianca
Pedrina, 30 anos (Carapicuíba, Grande SP); Mayara Penina, 24 anos (Paraisópolis, Zona Sul); Priscila Gomes, 31
anos (Vila Zilda, Zona Norte); Regiany Silva, 25 anos (Cidade Tiradentes, Zona Leste); Lívia Lima, 27 anos (Artur
Alvim, Zona Leste); e Aline Kátia Melo, 31 anos ( Jova Rural, Zona Norte).

80 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


ligação com zonas ou territórios considerados periféricos em São Paulo – cida-
de onde o coletivo foi criado. Isso demonstra a relevância da clivagem territo-
rial na agenda do coletivo, marcadamente destacada nas palavras do manifesto
de fundação.

Se a periferia tivesse sexo, certamente seria feminino. [...] Somos negras,


brancas, jovens, idosas, mães de outras meninas. Gostamos de fotogra-
fia, balé, funk, teatro. Na entrevista de emprego, o local onde moramos
cria constrangimento. “Sim, tomo ônibus. Trem. Dois metrôs. E ônibus
de novo”. No happy hour, é comum escutar: “Lá entra carro? Essa hora é
perigoso. Quer dormir na minha casa?”. A resposta é não. Saímos cedo,
voltamos tarde, mas sempre voltamos. (MANIFESTO, 2012, s.p.).

Vários textos têm como estrutura narrativa o relato de experiências in-


dividuais destas mulheres no cotidiano das cidades, do trabalho e da periferia.
Entretanto, essa abordagem não reduz o conteúdo a uma perspectiva atomiza-
da e individual, mas, como destaca Ribeiro (2017), o lugar de fala que ocupam
se institui exatamente pela realidade de um coletivo que comunga das mesmas
restrições de acesso e luta pela igualdade de oportunidades, pelo lugar social
ao qual se vinculam.
Nesse sentido, a agenda do site traz esse caráter individual e social, indi-
cador e articulador de temas que perpassam toda a produção do coletivo, como
a dupla jornada de trabalho; o transporte das(os) trabalhadoras(es) (trens e
metrôs); a identidade negra, refletida nos cabelos ou na cor da pele; a socia-
lização diferenciada para meninos e meninas; a discriminação interseccional
de raça, classe e gênero; o ter que provar a cada momento que ser mulher, po-
bre e negra não desqualifica ninguém; além do direito de se expressar por sua
própria voz, sem intermediários. Outro destaque é a proeminência de artigos
e matérias sobre iniciativas artísticas e de jornalismo alternativo como forma
de expressão, resistência e luta das mulheres periféricas. Assim, no universo
de 402 textos analisados, as categorias que mais se destacaram foram “mídia e
produção cultural” (20%), “pobreza e periferia” (15%) e “comunidade negra”
(13%).
O segundo portal analisado foi fundado em 2013. Think Olga intitula-
-se como uma organização não-governamental (ONG), um hub de conteúdo51
que tem como missão empoderar mulheres por meio da informação e retratar
51. Este é um jargão do marketing de conteúdo que descreve um domínio (página) da internet com conteúdo diverso,
voltado para públicos específicos.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 81


suas ações em locais onde a voz dominante não acredita existir nenhuma
mulher, seguindo a linha do jornalismo independente e gratuito. A busca
da atuação por meio da informação justifica-se porque o grupo acredita que
este seja o ponto de partida para a igualdade e que seja preciso elevar o “ní-
vel da discussão sobre feminilidade”. Assim, pretende-se “criar conteúdo que
reflita a complexidade das mulheres e as trate com seriedade e como pessoas
capazes de definir os rumos do mundo”. Interseccionalidade, transparência,
colaboração e inovação são os quatro pilares valorativos que regem as ações
da organização52.
Interessante perceber que o principal mote de suas matérias são fa-
tos e questões que aparecem ligados às mídias digitais e à Internet. Tanto
que o coletivo encabeça diferentes campanhas online contra a violência se-
xual, física e assédio, como forma de concentrar e vocalizar denúncias. São
os casos, por exemplo, da campanha #SomosTodosClaudia53, “Chega de Fiu
Fiu”54 e #MeuPrimeiroAssedio55. Essas iniciativas, bem como a divulgação
de outras violências na Internet, fizeram com que a categoria “violências
contra mulheres” fosse a de maior destaque no site, com percentual de 26%,
no montante de 274 textos. Outras duas mais proeminentes foram “discri-
minação das mulheres” (18%) e “mídia e produção cultural” (15%). A pri-
meira impulsionada fortemente por matérias que tratavam dos estereótipos
femininos e suas representações pelos meios de comunicação, e a segunda,
por artigos que abordavam iniciativas colaborativas na Internet envolvendo
arte, cultura, mídia e ativismo.
Por fim, o terceiro e último veículo analisado foi o Catarinas. Fundado
em 2016, a partir da reunião de jornalistas, ativistas, artistas, blogueiras e dife-
rentes mulheres do estado de Santa Catarina, o site nasceu com o objetivo de
fazer jornalismo com perspectiva de gênero.

52.  Disponível em: <https://www.thinkolga.com/sobre/>.


53. Nesta campanha, o site publicou desenhos enviados em homenagem à Claudia Silva Ferreira, mulher negra arras-
tada e morta pela Política Militar no Rio de Janeiro em 21 de março de 2014. Ao todo, mais de 200 desenhos, gravura
e outros materiais visuais foram enviados e publicados no site.
54. A campanha surgiu depois da repercussão de um texto assinado pela apresentadora da MIX TV Marina Santa
Helena sobre assédio sexual. A matéria gerou o compartilhamento de depoimentos de outras mulheres e homens
sobre assédio na rua, mas também xingamentos e agressões verbais nas mídias digitais contra a apresentadora. Para
se posicionar contra a “normalidade” do assédio sexual na rua, o site lançou a campanha “Chega de Fiu Fiu!”, que
mobilizou os internautas a compartilharem relatos, fez um levantamento online de dados sobre assédio e também
gerou um documentário.
55. Organizada a partir do caso da menina Valentina, de 12 anos, que participou do reality show “Master Chef ” e foi
alvo de comentários pedófilos nas mídias sociais. A hashtag lançada pelo site contra a ação dos pedófilos viralizou e
atingiu, em dois dias, a marca de mais de 80 mil relatos de mulheres assediadas ainda na infância.

82 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


A linha editorial de Catarinas se encontra na intersecção entre o jor-
nalismo como um direito e os direitos humanos como uma premissa
básica para a produção do jornalismo. Também se identifica como fe-
minista, pretendendo o diálogo com as diversas linhas teóricas e po-
líticas do feminismo, mediando suas perspectivas diante da realidade.
Dentro da compreensão ética do exercício profissional do jornalismo,
Catarinas se coloca com uma unidade ativista do jornalismo enquanto
direito e do feminismo enquanto estratégia de ação para a superação
desta sociedade que ainda reserva lugares para as mulheres. (LINHA
EDITORIAL, s.d., s.p.).

Dos três sites analisados, é o único que se intitula feminista, sendo que
o Nós, Mulheres da Periferia fala de “mulheres” e o Think Olga de “feminino”.
Sua agenda concentra-se nos temas de gênero, feminismos e direitos humanos,
mas, com o passar do tempo, essa pauta se amplia pelos 596 textos analisa-
dos, tendo uma aproximação forte com discussões ligadas ao campo político
institucional (como eleições e o impeachment da presidenta Dilma Rousseff )
e também com relação aos movimentos sociais (agrários, urbanos, habitação,
transporte etc). Tanto que muitas de suas matérias tratam de diferentes atos e
manifestações de rua ligadas à defesa de direitos nas mais diferentes vertentes.
Vale ressaltar que, apesar de ser o veículo com menor tempo de existên-
cia, é o de maior produção, o que demonstra um ativismo também por meio da
divulgação de notícias e matérias. Ao todo, as três principais categorias foram:
“mídia e produção cultural” (18%); “direitos sexuais e reprodutivos” (13%) e
“política institucional” (11%).
Com isso, é possível perceber que, nos três sites analisados, a categoria
que se repete em destaque é “mídia e produção cultural”. Em dois deles – Ca-
tarinas e Nós, Mulheres da Periferia –, ela fica em primeiro lugar na frequência,
demonstrando uma alteração importante na agenda: o campo da comunica-
ção, da arte e, em especial, dos projetos colaborativos e online passa a ser um es-
paço importante da luta, vocalização e resistência feminista. A contraposição
poderia ser o site Think Olga que abertamente tem, nas ações online e em temas
de repercussão nas redes sociais, seu principal mote. Entretanto, a principal
categoria averiguada foi “violência contra a mulher”, apesar de muitos desses
casos ocorrerem nas mídias digitais. Apenas no Nós, Mulheres da Periferia a
categoria “trabalho” aparece entre as cinco maiores, demonstrando que a ques-
tão ainda é uma pauta fortemente ligada à periferia. Catarinas também destaca
a questão da política institucional. Por fim, vale destacar a categoria temática

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 83


“discriminação de mulheres”, no Think Olga, fortemente referenciada nas ma-
térias sobre estereótipos e representação das mulheres nos media.

Tabela 2 – Cinco principais categorias temáticas nos sites analisados

Fonte: Elaboração das autoras

Além disso, em comparação com os veículos analisados no período pós-


1975, as categorias “educação”, “família” e “história de mulheres”, que se des-
tacaram anteriormente, não aparecem entre as principais dos sites pós-2011,
assim como “mídia e produção cultural”, que não era principal no primeiro
recorte temporal analisado, mas agora tem uma proeminência alta. Nesse sen-
tido, percebemos rupturas importantes nas agendas dos movimentos de antes
e de hoje, bem como continuidades. É o caso das categorias temáticas “violên-
cias contra mulheres”, “discriminação de mulheres”, “direitos sexuais e repro-
dutivos”, “comunidade negra” e “organização de mulheres”, que se mantiveram
entre as cinco principais, nos seis media, durante os dois períodos analisados.
Outro destaque é que a categoria “custo de vida”, que chegou a repre-
sentar 4% das publicações do Nós Mulheres, sequer pontuou nos veículos do
pós-2011. Nenhum deles publicou matéria que abordasse essa temática, de-
monstrando que é uma questão intrinsecamente pertinente ao período ante-
rior, quando se enfrentava altas de inflação. Nessa perspectiva, a questão da
violência de gênero na Internet é um destaque no sentido de que não apenas é
um tema impossível de aparecer no jornalismo pós-1975 pela inexistência da
rede mundial de computadores acessível individualmente, mas também como
uma marca de que a violência de gênero se espraia em diferentes dimensões
da vida social, entre elas a digital, tornando-se uma questão a ser debatida na
contemporaneidade.

84 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Por fim, cabe ressaltar que, apesar do surgimento de novas proeminên-
cias e declínios de algumas temáticas antes tidas relevantes, as mudanças na
agenda promovidas pelo andamento histórico dos movimentos são percebidas
também na tensão interna dessas próprias categorias. Ou seja, quando anali-
samos os descritores das categorias em cada período, percebemos que muitos
desaparecem e outros apontam para um novo vocabulário dos movimentos
– como é o caso de temas como violência online; representação das mulheres
na publicidade; empreendedorismo feminino e economia solidária; Escola
sem Partido/Escola sem Mordaça; mulheres encarceradas; gordofobia/homo-
fobia/transfobia; sororidade; diversidade; e violência obstétrica. Estes temas
tencionam a própria configuração das categorias que – com vistas à compara-
ção – foram mantidas conforme agenda dos veículos pós-1975.

Considerações finais

Na produção deste capítulo, apontamos e detalhamos, reiteradas vezes,


a importância da prática comunicacional para os coletivos feministas, uma vez
que as mulheres como sujeitos políticos tem, nos diversos veículos, a expressão
de luta e de ruptura. Por essa razão, compactuamos do entendimento de Mar-
ques e Mendonça (2018, p. 42) quanto à formação dos sujeitos, ao percebê-
-los não definidos a priori ou como um efeito da política, mas como “meio de
manifestação concreto e corpóreo da prática política”, sendo a própria política
uma “prática comunicacional e conflitiva de constituição e redefinição cons-
tante de sujeitos, suas ações e formas de agenciamento”.
As mulheres, esses sujeitos políticos que foram retratadas pelos seis me-
dia aqui apresentados – considerando os dois períodos comparados –, não são
meros exemplos de épocas distintas, de debates outros, de maneiras diversas
de engajamento. A representação de agenda que destacamos, mais do que
rupturas ou continuidades, ressalta que “no processo de suas próprias lutas, o
feminismo foi capaz de transformar sua agenda e também sua reflexão sobre
o mundo social” (BIROLI; MIGUEL, 2014, p. 8). Nesse sentido, as tensões
das categorias e a emergência de novas saliências apontam para o deslocamen-
to causados na agenda dos movimentos pelas transformações e reflexões. De-
monstram, ainda, a capacidade do jornalismo alternativo espelhar a realidade
social, trazendo à superfície questões invisibilizadas na grande mídia, em espe-
cial, por ser realizado junto às “fontes”, pelas “fontes”, para fontes, bem como
produzido a partir de um olhar horizontal, vindo do chão, da vivência, da ex-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 85


periência cotidiana dessas mulheres.
Assim, entendemos que novas questões emanam dos resultados encon-
trados, como quais outras categorias temáticas podem ser pensadas para sín-
tese de nosso tempo? Quais agendas resistem, quais se transformam? Como
o jornalismo alternativo, vocalizador dessas demandas, é, ao mesmo tempo,
fonte geradora dessas vozes? Podemos falar de novos feminismos, de novas
agendas, de uma nova comunicação? Reflexões que, com toda certeza, care-
cem de um olhar urgente e ávido de pesquisa, bem como mostram o vigor e a
fertilidade da questão para o desenvolvimento de futuros trabalhos.

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88 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Transformações do jornalismo e relações de
gênero: análise do ciberfeminismo midialivrista
dos portais AzMina e ThinkOlga

Katarini MIGUEL56
Letícia de Faria Ávila SANTOS57
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, MS

Resumo
O presente trabalho reflete sobre os jornalismos praticados por coletivos fe-
ministas de relevância na internet, no caso, nos portais AzMina e Think Olga,
que se caracterizam enquanto conteúdo midialivrista, engajados na pauta da
relação de gênero. Durante o mês de março de 2018, considerando a data do
dia Internacional da Mulher, com uma proposta exploratória, acompanhamos
e caracterizamos os espaços virtuais e as próprias iniciativas, o modelo de ne-
gócios ali empreendido, levantamos os conteúdos produzidos e os compara-
mos. Identificamos uma prática jornalística (e ciberjornalística) que se confun-
de com o ativismo nos próprios modos de fazer e na difusão, estabelece uma
dinâmica de financiamento coletivo pouco sustentável, explora os recursos
tecnológicos, pauta assuntos fora da ordem do dia e não se preocupa com os
preceitos tradicionais de imparcialidade e objetividade.

Palavras-chave: Midialivrismo; Ciberjornalismo; Ciberfeminismo; AzMina;


Think Olga.

Intenções e percurso da pesquisa

Nossa investigação exploratória parte do entendimento que a internet e


a comunicação em rede possibilitam uma renovação da linguagem, dos recur-
sos técnicos, das propostas de interação e participação, assim como da constru-
ção coletiva de informação e opinião, transformando as práticas jornalísticas
(MAZZARINO, MIGUEL, 2016). Nesse sentido, organizações e movimen-
56. Jornalista, doutora em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, docente nos cursos de Jornalismo
e no Mestrado em Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: katarini.miguel@ufms.br.
57. Jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Comunicação, da Universidade Federal de
Mato Grosso do Sul. E-mail: le.lele.avilla@hotmail.com

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 89


tos sociais procuram desenvolver conteúdos com levante social, dando espaço
para temas como representatividade, direitos humanos, relações de gênero e de
poder, questionando a lógica midiática convencional. Uma dinâmica que sina-
liza para um jornalismo midialivrista, que desenvolve a narrativa contestadora
do tempo real, aproveita do potencial tecnológico para difundir a contrainfor-
mação e merece ser explorada. Amparamo-nos na definição de Malini e An-
toun (2013) sobre midialivrismo e ciberativismo para conceituar o fenômeno
e entendê-lo empiricamente, a partir das experiências comunicativas dos por-
tais ciberfeministas AzMina (azmina.com.br) e Think Olga (thinkolga.com),
em uma tentativa que vai além da caracterização e propõe uma reflexão sobre
as pautas, as técnicas, subvertidas da pragmática jornalística e as estratégias de
mobilização engendradas em rede na temática das relações de gênero. Proble-
matizamos também o próprio conceito de ciberfeminismo, buscando enten-
der sua autodefinição e as diferentes interpretações que o situam, por exemplo,
como pensamento pós-feminista, inerente às mulheres net-ativas que se apro-
priam das tecnologias para transmitir um discurso difuso, desafiando os papeis
de gênero, de identidades e dos corpos (CRITICAL ART ESEMBLE, 2006).
No plano empírico, trabalhamos no recorte das características gerais
dos portais, em um primeiro momento, de forma exploratória e descritiva,
examinando as diferentes faces relativas ao sujeito de pesquisa, recorrendo, em
nossa autonomia de pesquisadoras, aos autores que caracterizam o ciberjor-
nalismo e as mídias sociais digitais, como Canavilhas (2014), Palácios (2003)
e Recuero (2009). E reconhecemos que são produções jornalísticas bastante
difusas e não pautadas em preceitos tradicionais do jornalismo tais como ob-
jetividade e imparcialidade, tampouco estabelecem uma periodicidade regular
ou obedecem certa atualidade, daí a dificuldade em colocar um marco tempo-
ral para as análises. De qualquer forma, concentramos a coleta, assim como
o trabalho de acompanhamento e caracterização, no mês de março de 2018,
ampliando a observação no mês de abril para avaliar repercussões, ponderando
o potencial episódico para a cobertura sobre o tema, devido ao Dia Internacio-
nal da Mulher, com o agravante do assassinato da vereadora Marielle Franco
(PSOL – RJ). Em um segundo momento, buscamos levantar, considerando a
especificidade dos espaços virtuais, propriamente as pautas, os tipos de publi-
cações, seus gêneros e formatos, os recursos de visibilidade e mobilização que,
a princípio, extrapolam (ou forjam) o âmbito jornalístico.
Ademais das pesquisas bibliográficas, que são o alicerce para o enten-
dimento do contexto, é prudente ressaltar que não tratamos com métodos rí-

90 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


gidos ou padrões já pré-estabelecidos, já que é próprio do ambiente em rede
as mutações e alterações em curto espaço de tempo. Nesse sentido, o “pesqui-
sador precisa também exercitar sua capacidade de perceber as idiossincrasias
oferecidas pelo campo empírico, questionando-se permanentemente e cons-
truindo uma sensibilidade para a pesquisa” (FRAGOSO, RECUERO, AMA-
RAL, 2011, p.106).
Trata-se de uma pesquisa em andamento que dará subsídios para uma
dissertação de mestrado, em fase inicial, sobre o jornalismo ciberfeminista
praticado por coletivos midialivristas. As respostas são provisórias porque as
próprias perguntas estão em construção. Na nossa hipótese, como se delineia
no contexto a seguir, o jornalismo se transforma em rede e, fora da estrutura
convencional dominada (ainda) por empresas hegemônicas de comunicação,
pode ser um aliado no caminho da igualdade de gênero, para além de influen-
ciar a mídia convencional e repensar o modelo de negócios para produzir in-
formações.

Potência na comunicação em rede: transformações do jorna-


lismo e a proposta midialivrista em uma cobertura feminista

Nos limites dos mundos virtuais e presenciais, nos quais o conceito de


sociedade enraizou-se à visão de tempo como particularidade escassa e neces-
sária de ser otimizada, as interações digitais estão remodelando os padrões de
ativismo coletivo. A era tecnológica, fundamentada não simplesmente por
aprimoradas ferramentas virtuais, permitiu às práticas digitais, espaço nas roti-
nas diárias, envolvendo novas formas de sociabilidade e de comunicação (RE-
CUERO, 2009). Nosso contexto é a cibercultura como cultura da contempo-
raneidade, moldada pelo advento tecnológico que inunda todas as formas de
sociabilidade, e aqui especialmente, responsável pelas mudanças jornalísticas
mais radicais: o jornalismo não tem mais tempo ou espaço definidos.
Uma variabilidade de características levantadas por Shwingel (2012)
tenta moldar o pretenso ciberjornalismo, de acordo com os usos, intenções e
as potencialidades. A interatividade e a multimedialidade, por exemplo, per-
mitem o recurso de várias mídias em um único conteúdo, maior qualidade
de absorção da informação e participação. Já a hipertextualidade, materializa-
da na conexão entre links, gera uma visão sistêmica e a leitura não-linear dos
conteúdos; a customização/personalização, admite uma ampla escolha dentre
as ofertas existentes e a criação de nichos informativos; ademais da memória,

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 91


própria da configuração em rede, que assegura o armazenamento dos conteú-
dos e uma ruptura espacial. Há ainda a instantaneidade que proporciona atu-
alização e a distribuição contínua e em tempo real (PALACIOS, 2003) e a
ubiquidade, permitindo o acesso para produzir e acessar conteúdo de qualquer
tempo-espaço (CANAVILHAS, 2014). Para além da convergência. As rela-
ções de poder entre o público e o consumo não são mais as mesmas; os fluxos
interacionais alteram-se a todo instante, e a convergência midiática cria no-
vas possibilidades comunicativas, “um misto de transformações tecnológicas,
mercadológicas, culturais e sociais” ( JENKINS, 2009, p.29).
E como as variantes comunicativas já não são concentradas nas gran-
des corporações midiáticas, nunca foi tão fácil produzir conteúdo de largo al-
cance, e desenvolver mecanismos de interação na cibercultura (CARDOSO;
CASTELLS, 2005). Em meio às potencialidades da comunicação em rede,
os públicos podem navegar por diversos centros comunicacionais, interagir
virtualmente, reconhecer-se enquanto tribos, elaborar e selecionar conteúdos,
desenvolver estratégias de mobilização, liderando lutas e travando pautas antes
ignoradas por veículos tradicionais de comunicação.
As estratégias, na ótica do ciberativismo denominado por Ugarte
(2008), apoiam-se nas propriedades do discurso, das ferramentas e potenciali-
dades da web e ainda na visibilidade que a amplitude da internet disponibiliza.
O ciberativismo parte, portanto, de um conceito relacionado à transferência
de poderes hierárquicos que não mais ficam centralizados em certas redes e
passam a se distribuir de uma forma mais igualitária. “Um ciberativista é al-
guém que utiliza Internet para difundir um discurso e colocar à disposição
pública ferramentas que devolvam às pessoas o poder e a visibilidade que hoje
são monopolizadas pelas instituições” (UGARTE, 2008, p. 58).
Nesse contexto, está o midialivrismo, a partir da proposta de mídias
relacionadas justamente às mobilizações e aos movimentos de protesto, bus-
cando interações e reivindicações de direitos, pautando temas de interesse co-
letivo e a prática de um jornalismo contra hegemônico que não se preocupa
com os princípios de objetividade e imparcialidade, por exemplo, forjados nos
veículos de comunicação tradicionais. O midialivrismo repensa o modelo de
negócios, a forma de fazer jornalismo e se afasta de interesses corporativistas.
Os conteúdos não atendem grandes audiências, mas nichos e diferentes inte-
resses; dão visibilidade aos posicionamentos, com potencial de engajamento.
Nas palavras de Mallini e Antoun (2013, p.143), o midialivrismo “substitui as
formas democráticas representativas e midiatizadas por núcleos centralizados

92 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


(Estado), e seus órgãos de ação (instituições) por uma democracia de partici-
pação interativa, constituindo uma rede de ação direta”.

Os públicos das mídias destas organizações sabem o que encontram ao
procurá-las como fontes de informação: informação com opinião, po-
sicionamento e crítica. E voltam a estes veículos, agendam-se por meio
deles e acabam por replicar sentidos para seus próprios públicos nas re-
des sociais, gerando uma reverberação infinita, que amplia, relativiza
as temáticas e, ocasionalmente, pauta os meios tradicionais comerciais.
(MAZZARINO, MIGUEL, 2017, p. 119).

Esses movimentos jornalísticos não são propriamente uma novidade, mas


tiveram suas concentrações ampliadas pelas possibilidades interacionais dispos-
tas na cibercultura. Tem suas bases nas lutas antidisciplinares dos anos 1960 e
1970 e buscam sobremaneira a liberação da palavra. Mallini e Antoun (2013)
colocam o midialivrista como o hacker das narrativas, aquele que faz do meio de
comunicação um movimento social em prol das mais variadas causas. A troca de
informações e a possibilidade de interação desenvolvem o poder comunicativo
apesar dos impasses físicos; relacionam pessoas e ideais que, mesmo separados
por telas, conseguem fundar vozes nos espaços públicos (SOUZA, 2015).
Uma dessas causas é a própria produção de informações sobre relação
de gênero, uma linha de significações voltadas ao movimento ciberfeminista,
em que as reivindicações do feminismo não apenas acontecem no ambiente
em rede e são amparadas pelas tecnologias, como se organizam dentro dessa
lógica midialivrista.
O termo ciberfeminismo surgiu dentro de uma conjuntura de reivin-
dicações de direitos e de emancipações, em 1985, pela autoria da escritora
Donna Hawaray, no “Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-
-socialista”. A utilização das novas tecnologias comunicacionais permitiu mais
acesso às campanhas dos movimentos feministas, popularizando as pautas e
construindo novos discursos.

O ciberfeminismo em sua multiplicidade permite tanto o questiona-


mento político através da atuação de redes ativistas (como no caso do
Brasil) bem como a manifestação e construção de novos símbolos, lin-
guagens e representações do feminino perante essas redes tecnológicas
através da atuação de mulheres artistas em diferentes partes do mundo
(LEMOS, 2009, p, 87).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 93


As ondas feministas convertem-se em uma pluralidade, até então não
encontrada, e ganham aspectos mais interseccionais (voltado para o reco-
nhecimento das diferentes identidades sociais), abarcando reivindicações e
fundando vertentes: o feminismo negro, lésbico, o ecofeminismo e até o fe-
minismo radical. A cibercultura permitiu espaços para estas mobilizações e
fez com que as interações sociais pudessem acontecer com maior facilidade e
amplitude pelo uso das ferramentas digitais para a prática compartilhamento
de informações e mobilizações. Como explica Souza (2015, p.24), existe uma
maior união e encontro de mulheres que, “anteriormente à margem da produ-
ção política, artística, entre outras áreas, encontram quem ouça sua voz, apoie-
-a e a compreenda, mesmo estando separada por uma tela e muitas vezes longe
geograficamente”. Não nos compete aqui uma demarcação rígida do conceito,
mas entender sua própria configuração e autodefinição.
A própria Think Olga se define como uma Organização Não-Gover-
namental (ONG) feminista que desenvolve conteúdo relacionado à gênero
e, apesar de não explicitar a prática midialivrista, cita diretamente o empode-
ramento através da informação, e denomina-se enquanto um hub (mistura)
de conteúdos, que utiliza das diversas mídias sociais, como o Facebook, para
propagar informações em rede58. A ONG foi impulsionada com a campanha
ciberativista “Chega de Fiu-Fiu”, realizada em 2013 e ainda em andamento,
que denuncia a naturalização do assédio contra mulheres em espaços públicos,
criando estratégias de mobilização coletiva que se apropriam da visibilidade
das redes para tratar de temas de interesse público e combater violências de
gênero. Com isso, a Think Olga inaugura a uma estrutura comunicativa com
produções jornalísticas e campanhas de escopo ciberfeministas.
O portal AzMina, que agrega a Revista AzMina (azmina.com.br), surge
em 2015 e vem ao encontro do ciberfeminismo ao se caracterizar como “ (…)
instituição sem fins lucrativos cujo objetivo é usar a informação para combater
os diversos tipos de violência que atingem mulheres brasileiras, considerando
as diversidades de raça, classe e orientação sexual”59. Com produções jornalís-
ticas viabilizadas por campanhas de financiamento coletivo, colaborações vo-
luntárias, arrecadações e um lema que indica “sem rabo preso”, AzMina entra
em uma corrente midialivrista que não só estabelece um novo modelo de ne-
gócios para a prática jornalística, mas foge também daquele fazer jornalismo,
declarado imparcial e espelhado. Vai ao encontro das renovações colocadas
58. Disponível em: <http//thinkolga.com/sobre/>. Acesso em: 21 mai. 2018
59. Disponível em: <http://azmina.com.br/quem-somos/>. Acesso em: 21 mai. 2018

94 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


por Malini, Antoun (2013, p.151):

A nova mídia desenvolve sua cobertura como um documentário ficcio-


nal cujo roteiro vai sendo escrito através das fabulações narradas pelos
próprios participantes. Se ela pode abandonar a isenção jornalística e
permanecer veraz, deve ser porque sua evidente adesão ao acontecimen-
to se faz para proveito da vida do jornalismo. Disposta a construir o
acontecimento por todos os meios que o sistema hipermídia é capaz de
operar, recebe uma contrapartida ética endereçada pelo próprio acon-
tecimento para sua atitude, devolvendo-lhe a força da verdade. Porque
nela o acontecimento recebe de volta o esplendor de sua neutralidade
e estranheza, tornando-se de novo um combate, um campo de bata-
lha onde uma cibervitalidade esboça seus primeiros gestos balbuciando
suas primeiras palavras (ANTOUN, MALINI, p. 151, 2013).

Isso posto, na sequência iremos nos atentar as formas de fazer (ciber)


jornalismo no ambiente midialivrista, focado nas causas feministas, com uma
proposta exploratória e reflexiva, a partir das duas estruturas comunicativas
supracitadas.

A experiência dos portais AzMina e Think Olga: estrutura,


conteúdo e modelo de negócios em consonância

A partir dos conceitos relacionados ao ciberjornalismo (SCHWIN-


GEL, 2012; CANAVILHAS, 2014), midialivrismo (MALINI, ANTOUN,
2013) e ciberfeminismo (HARAWAY, 2000), desenvolvemos uma análise
exploratória e comparativa dos portais ciberfeministas Think Olga e AzMi-
na, buscando refletir, em suas divergências e convergências, sobre os tensio-
namentos referentes à produção de conteúdo jornalístico versus estratégias de
mobilização feministas, ademais de analisar as características gerais dos portais
e suas variantes nas redes sociais. Nossa observação se concentrou no mês de
março, por conta do Dia Internacional da Mulher (8) o que, teoricamente,
gera mais pautas relacionadas.
Sobre a estrutura e layout dos portais, Think Olga prioriza temáticas
menos factuais, tanto que não há data de publicação; explora mais campanhas,
apresenta um visual de cores predominantemente branca e rosa, de fácil as-
similação com o feminino supomos, e divide as seções em A Olga (quem so-
mos), Projetos, Artigos (mais proximidade com o jornalismo propriamente),

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 95


Vídeo+Galeria (conteúdo audiovisual), Agenda, Especiais (material informa-
tivo para downloads e Colabore (na tentativa de se manter economicamente).
AzMina segue a mesma dinâmica, mas o layout é mais colorido e iconográfico,
contrasta o rosa com azul, numa posição até binária, e prioriza imagens e notí-
cias em slides rotativos na página inicial, dando mais característica de produ-
to jornalístico. As postagens trazem datas e estabelecem certa cronologia. As
seções são Especiais (no caso com reportagens investigativas), Arquivo, Quem
somos, Assine (visando o financiamento), Republique (disponibilizando e esti-
mulando a difusão dos conteúdos publicados pela revista).
Os dois portais fazem uso das características do ciberjornalismo, usam
das potencialidades em rede para desenvolver conteúdos segmentados, denun-
ciatórios, mobilizadores e explicitamente feministas, voltados a um público
específico, com mecanismos de levante e ação coletiva (estratégias ciberativis-
tas) que fundem informações com campanhas, e questionam o próprio fazer
jornalístico enquanto reprodutor de preconceitos sociais. A Think Olga, por
exemplo, disponibiliza, na seção Especiais, manuais jornalísticos para sugerir
padrões de coberturas nas temáticas de racismo, violência contra a mulher,
pessoas com deficiência, aborto, estereótipos nocivos e LGBT60. Um estímulo
para uma cobertura jornalística mais pluralizada e atenta às nomenclaturas e
abordagens eticamente adequada a cada um dos grupos e causas.
A multimedialidade, ou seja, a utilização de várias mídias para a produ-
ção de um único conteúdo, é recurso do ciberjornalismo explorado em cada
portal com intensidades diferentes. AzMina é mais focada no texto e na ima-
gem para realizar um jornalismo investigativo (como eles definem), interpre-
tativo e dissertativo nas pautas feministas. A Think Olga abusa do audiovisual
para divulgação dos projetos e campanhas para a mobilização virtual colabora-
tiva, tanto que mantém a seção específica Vídeos+Galerias. Além disso, Think
Olga explora as características da ubiquidade e da instantaneidade através da
utilização de lives, vídeos transmitidos em tempo real, de seus debates e entre-
vistas, além de coberturas de manifestações. A prática de compartilhamento ao
vivo, reconhecida dentro da abordagem midialivrista (MALINI, ANTOUN,
2013), procura transmitir conteúdos com realidades mais cruas e sem edição.
Já a hipertextualidade, como possibilidade de visão sistêmica, é utilizada pelos
dois portais; a partir dos links inseridos nos finais de cada texto, é possível
acessar outros conteúdos referentes às matérias produzidas, continuando a in-
formação dentro das possibilidades da memória do site. Um exemplo disso é
60. Disponível em: <http://thinkolga.com/especiais/>. Acesso em: 22 mai. 2018

96 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


a cobertura da AzMina no caso da vereadora Marielle Franco (PSOL -RJ),
supostamente executada por conta do seu trabalho denunciativo de milícias e
violências policiais, que utilizou dos hiperlinks para contextualizar os assuntos
e apresentar outras matérias desenvolvidas com a mesma perspectiva pelo por-
tal, ajudando o leitor a criar sua rota de leitura e interpretar o fato.
Ainda sobre o caso Marielle, AzMina desenvolveu uma série de 11 tex-
tos, entre reportagens, notícias, entrevistas e artigos de opinião sobre o assun-
to, contextualizando as informações, e tensionando o pertencimento político
da mulher na sociedade. A Think Olga, por outro lado, elaborou apenas uma
produção em março sobre o mesmo caso, denominado “Racismo, Presente!”,
um artigo de opinião que aborda a violência contra mulheres negras no Brasil.
Daí uma nítida diferença entre os portais no que se refere ao investimento jor-
nalístico propriamente. AzMina também desenvolveu um conteúdo ilustrati-
vo de forte apelo social sobre o caso Marielle. Com o desenho da vereadora, a
chamada “Quantas mais vão precisar morrer?” faz referência à luta relacionada
à visibilidade da mulher na política e ainda, à violência contra a mulher. Com
a ordem: “imprima e leve na rua” e o uso da hashtag - etiquetas temáticas para
provocar engajamento e desenvolver campanhas, frases de apelo social com
temas de interesse coletivo para ganharem espaço em rede -, #mariellepresente,
as estratégias de mobilização virtual fundam-se na rede para alcançar espaços
físicos e remodelar os espaços de luta.
Outras campanhas de mobilização em rede como #CarnavalSemAsse-
dio e #MamiloLivre são exemplos das estratégias midialivristas que confun-
dem jornalismo com mobilização. A campanha #CarnavalSemAssedio surgiu
em 2018 pela AzMina e desenvolveu um guia para esclarecer o assédio, incen-
tivar o debate, pautar a temática nas redes e transcendê-la, inclusive com apoio
do Ministério Público de São Paulo. Em consonância, #MamiloLivre também
propõe a luta pelos direitos femininos ao questionar a censura ao corpo da
mulher, discutindo a liberdade de gênero nas ruas e nas redes sociais, em uma
tentativa de politizar o corpo, que configura e pluraliza o ciberfeminismo.
A Think Olga traz o ciberativismo desde sua origem. “Chega de Fiu-
-Fiu” foi a primeira campanha da ONG. Realizada pela internet, envolveu a
pesquisa com oito mil mulheres sobre casos de assédios em ruas, ônibus, me-
trôs e outros espaços públicos, aproveitando do potencial das redes para bus-
car, difundir informações e revelar realidades que precisam ser combatidas:
98% das mulheres disseram já ter sofrido assédio, 90% já trocaram de roupa

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 97


antes de sair de casa por medo de ataques e 81% já haviam deixado de fazer
algo, como ir a um lugar, sair a pé, com receio dos assédios61.

Dez dias após a divulgação dos resultados, o blog postou um texto de


agradecimento em que afirma ter tido mais de 10 mil compartilhamen-
tos da página que apresenta as respostas obtidas nas primeiras cinco
horas dela no ar. Por causa disso, o Think Olga recebeu mais de 140
mil visitas no mesmo período de tempo e, nos dias seguintes, o número
de compartilhamentos continuaram crescendo e o debate, que ante-
riormente era considerado pela equipe do blog como quase inexistente
e ignorado pelo público, foi ampliado ainda mais, com novos depoi-
mentos aparecendo e homens que até então não tinham noção do mal
que faziam ao assediar uma mulher se mostrando arrependidos. Essa
resposta inesperada, já que o aguardado por elas era “ser apenas uma
luz sobre um problema – uma primeira exploração em um território
ignorado”, acabou servindo de inspiração e incentivo para que a campa-
nha se transformasse em ações maiores e mais abrangentes e, assim, não
parasse por aí (SOUZA, 2015, p.43-44).

A criação do mapa “Chega de Assédio” foi uma estratégia para identi-


ficar de forma colaborativa os pontos críticos de denúncias; as vítimas podem
compartilhar ou denunciar o caso, marcando no mapa o local, dia e horário do
ocorrido e levantando estatísticas a partir dos recursos multimídias e de geo-
localização próprios da internet e do ciberjornalismo. A campanha também é
transmidiática, na medida em que a problemática se desenrola em diferentes
plataformas comunicativas, cada qual com uma linguagem e atendendo pú-
blicos de interesse. Produziu para impressão e download uma cartilha infor-
mativa combatendo a lógica das cantadas e elogios nos espaços públicos, com
informações e serviços de acolhimento, além do recente vídeo-documentário
“Chega de Fiu-fiu”.
O jornalismo relacionado ao feminismo interseccional do AzMina
prioriza pautas sobre mulheres até então marginalizadas pela mídia hegemô-
nica. Com um recorte denunciatório e interpretativo, produziu, por exemplo,
o especial “Pequenas Esposas” sobre o casamento infantil em comunidades ci-
ganas, fazendo uso da imersão jornalística nas diferentes realidades, relatos de
personagens e entrevistas com ativistas da causa, para pautar temas urgentes e
fora da ordem do dia, como a exploração sexual infantil. Entre as reportagens
do especial estava “Das bonecas ao altar: por que há tantos casamentos infantis
61. Disponível em: <https://thinkolga.com/2018/01/31/chega-de-fiu-fiu/>. Acesso em: 21 mai. 2018.

98 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


entre os ciganos brasileiros”, que traz as histórias das crianças casadas, sob a
égide de uma cultura milenar, para o debate, com pluralidade de fontes (ativis-
tas, historiadores, antropólogos) e personagens, sistematizando a história de
forma literária e com recursos multimidiáticos.

“Shanya* aperta os olhinhos num sorriso de menina, como quem está


pensando duro na resposta. Tem 15 anos, lábios vermelhos e o colo ro-
deado por um vestido de contas amarelas e franjas vermelhas. Passa a
filha de cinco meses de um braço ao outro e repete:
— Meu sonho, assim?
— Isso, o maior sonho da sua vida.
Dá-se por vencida. Não sabe – ou a pergunta não faz sentido no mundo
dela. Largou a escola, casou-se aos 13 anos e era meio que isso aí. Tem
algo mais depois disso e dar filhos ao marido? Um menininho de dois
anos se achega nas duas e brinca com os pezinhos da bebê. Shanya se
sente na obrigação de nos explicar:
— Esse aí é o prometido da minha filha, pra ela ver se casa quando fizer
13 anos.
E os amigos e familiares riem e acham fofo. E o tio, Rogério Almeida,
complementa:
— Quando crescerem eles se acertam, mas a gente promete assim pra
mostrar que gostaria que fosse isso. Em família de brasileiros, as meni-
nas namoram um e depois outro, aqui não tem isso, não. Pode até sepa-
rar depois de casar, mas a virgindade da mulher é garantida no primeiro
casamento. O homem é arretado, liberado, mas a mulher não desperta
o conhecimento.
É Boa Vista do Tupim, cidade de 18 mil habitantes no sertão baiano,
localizada a 327 quilômetros de Salvador. Shanya e a filha pertencem à
comunidade cigana local que, por sua vez, faz parte da nação de cerca de
meio milhão de ciganos brasileiros. Seu grupo étnico, os calon, deixou a
vida nômade pra fincar pé em cidadezinhas nordestinas como aquela há
mais ou menos 25 anos. Largaram carroças e barracas, mas mantiveram
as vestes coloridas, os dentes de ouro, a vida leve e a cultura patriarcal”.
(Trecho retirado da reportagem do portal AzMina62)

A coletânea “Pequenas Esposas” foi desenvolvida por meio do Programa


Bolsas de Reportagem da Revista AzMina, financiamento coletivo (crowdfun-
ding) de grandes reportagens. Também foram financiadas nesses moldes pau-
tas sobre a exploração sexual de meninas nas rodovias brasileiras, a violência
62. Disponível em: <http://azmina.com.br/2017/06/das-bonecas-ao-altar-por-que-ha-tantos-casamentos-infantis-
-entre-os-ciganos-brasileiros/>. Acesso em: 22 mai. 2018.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 99


do sistema judiciário no acolhimento à mulher (seja em relação às denúncias
ou ao recebimento da vítima), a maternidade lésbica e os desafios da presença
de mulheres no exército. Essa estratégia renova (ou ao menos ensaia) um novo
modelo de negócios para a produção jornalística, não pautado em publicida-
de, mas sim no levantamento de recursos por meio de uma rede de conexões
entre os leitores, colaboradores e jornalistas interessadas em desenvolver con-
teúdo de forma independente.
Com menos adesão às reportagens propriamente, a Think Olga utiliza
intensamente as redes sociais, não apenas para replicar o conteúdo do pró-
prio site, mas cunhar linguagens específicas, como a audiovisual, e promover
campanhas como #ConexõesQueSalvam, em parceria com o Facebook, para
combater a violência virtual contra as mulheres, oferecendo informações e ca-
nais de denúncia. O Facebook é também espaço para lives (vídeos ao vivo) e
entrevistas sobre assuntos semanais como a série de vídeos #EuVouContar, que
traz 52 relatos de mulheres que fizeram aborto, em formato de depoimento,
sempre anônimo, aproximando, de maneira testemunhal e fundada nas redes,
o fazer jornalístico da mobilização e do ativismo.
Ambos os portais contam com um modelo de negócios baseado no fi-
nanciamento coletivo e na arrecadação de fundos contínua e intensificada em
campanhas específicas. No caso da AzMina, a possibilidade de opinar nos for-
matos e nas pautas é realidade. Por meio do Conselho Editorial de Leitor@s,
os assinantes fixos podem participar de reuniões de pauta, interferir nos for-
matos e discutir assuntos pertinentes à elaboração editorial. Com uma varia-
ção de 10 a 50 reais, as colaborações fixas e assinaturas do site são uma das
formas de captação de recursos para as produções; dinheiro utilizado, segundo
AzMina, para custear as matérias, salários e custos burocráticos. A produção
do portal AzMina conta com cerca de nove mulheres na equipe e mais 15
colaboradoras, entre jornalistas, publicitárias, psicólogas, advogadas e outras
profissionais, mas sempre mulheres. Na Think Olga existe a seção colabore que
leva para um site de financiamento coletivo onde é possível escolher valores,
frequência e formas de pagamento.
Ainda que seja preliminar colocar o modelo como exitoso, já que os fi-
nanciamentos são muitas vezes pontuais e insuficientes, as iniciativas mostram
resistência e independência na produção jornalística, reforçando a veia midia-
livrista. O documentário “Chega de Fiu-Fiu”, produzido pela Think Olga, foi
fruto de um financiamento coletivo que atingiu a meta em 24 horas. O filme
está disponível on-line e prevê uma campanha de veiculação em lugares públi-

100 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


cos, como escolas municipais e estaduais, órgãos públicos, organizado pelos
próprios cidadãos, para transcender as redes digitais e atingir diferentes espa-
ços públicos.
Essas novas práticas jornalísticas evidenciam as possibilidades e os jor-
nalismos em questão, aproveitando das potencialidades de difusão, amplitude,
visibilidade para desenvolver conteúdo segmentado, interpretativo, engajados
e midialivrista, fugindo do modelo de negócios tradicional e pautado em le-
vantes sociais que não interessam para os veículos tradicionais.

Considerações e achados possíveis

Partindo da internet como espaço infinito de produção, distribuição e


armazenamento de conteúdo, as relações comunicativas desenvolvidas ali, e
que transcendem a ideia virtual, apresentam características relacionadas à fu-
gacidade, pois muitas vezes são dispersas, amplas e não se fixam em padrões
comuns. A abundância de informações cria conflitos comunicacionais, e não
podemos ter uma visão única da internet como espaço apenas de solidarieda-
des e liberdades, porém há possibilidade de um novo tipo de inserção social e
política. A comunicação em rede pluraliza o debate, possibilita engajamento
e interação em diferentes assuntos e ajuda a remodelar os movimentos sociais,
que se apropriam do contexto tecnológico para desenvolver estratégias de mo-
bilização e pautar seus interesses.
O ciberfeminismo, como reivindicação dos direitos de gênero a partir
das condições da internet, utiliza a rede para o levante social, produzindo con-
teúdos e amplificando debates: conquista um espaço de disputas e reconheci-
mentos de questões dos direitos das mulheres, das violências e opressões dos
espaços públicos e das necessidades de diálogo sobre temas pouco explorados
nas mídias convencionais como sexualidade feminina, exploração sexual, abor-
to, machismo, representatividade política, como acompanhamos nos portais
Think Olga e AzMina. Com isso, a prática jornalística se pluraliza, atende gru-
pos e reivindicações e ajuda no delineamento de uma proposta midialivrista,
ainda em curso.

Os públicos das mídias destas organizações sabem o que encontram ao
procurá-las como fontes de informação: informação com opinião, po-
sicionamento e crítica. E voltam a estes veículos, agendam-se por meio
deles e acabam por replicar sentidos para seus próprios públicos nas re-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 101


des sociais, gerando uma reverberação infinita, que amplia, relativiza
as temáticas e, ocasionalmente, pauta os meios tradicionais comerciais.
(MAZZARINO, MIGUEL, 2017, p. 119).

As estruturas comunicativas aqui analisadas são exemplos de veículos


que trabalham entre o híbrido de jornalismo e levante social ciberfeminista,
através da utilização da informação como potencializadora de um jornalismo
engajado com a igualdade de gênero. Além disso, as divergências dos formatos
de produção de conteúdo entre os dois portais mostram como os recursos do
ciberjornalismo podem ajudar a desenvolver diferentes tipos de jornalismo,
mas também mobilizações heterogêneas e necessárias para a construção de um
espaço democrático.
Enquanto o AzMina produz um conteúdo jornalístico semanal, vol-
tado para a multimedialidade e ubiquididade, congregando textos, imagens,
infográficos, em consonância com uma tipologia interpretativa que resulta
em reportagens de profundidade; as produções informativas do ThinkOlga
apropriam-se dos espaços das redes sociais, em especial o Facebook, para de-
senvolver debates em vídeos, entrevistas e conteúdos ao vivo, divulgados em
tempo real, para difundir campanhas e histórias para a conscientização virtual
das pautas de gênero. Notamos também que as estratégias ciberativistas estão
explícitas na cobertura jornalística, a partir das próprias pautas, abordagens,
tons imperativos e nos elementos de visibilidade como as hashtags, descons-
truindo a imparcialidade do jornalismo convencional.
Os dois portais, na esteira midialivrista, ainda propõem formas de fa-
zer jornalismo independentes, por meio de financiamento coletivo, rede de
colaboradores, linha editorial com participação das leitoras, além das formas
de divulgar conteúdos e difundi-los sem amarras pelas redes, incentivando de
forma livre o amplo compartilhamento.
Com essa investigação preliminar, que irá compor uma pesquisa de mes-
trado, esperamos introduzir reflexões sobre as transformações do jornalismo
– seus diferenciais e potencialidades em uma estrutura midialivrista –, especi-
ficamente aquele praticado por grupos e coletivos que defendem interesses das
mulheres, como é o caso do feminismo nativo do ciberespaço. Visualizamos,
em um pano de fundo, como uma reflexão inicial que trará suporte para o
aprofundamento do tema e para novas pesquisas que intentam compreender
maneiras do fazer jornalístico que não buscam uma pragmática da profissão,
mas o comprometimento com a igualdade de gênero.

102 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


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104 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Vozes do Leste: os jornalismos literários de
Svetlana Alekiévitch e Hanna Krall

Mateus Yuri PASSOS63


Arthur Breccio MARCHETTO64
Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP

Resumo
A partir de um close reading Richards (2017) de trechos de A Guerra Não
Tem Rosto de Mulher, Vozes de Tchernóbil e The Woman from Hamburg, pre-
tendemos compreender as especificidades do jornalismo literário produzido
por mulheres eslavas, a partir do trabalho da bielorussa Svetlana Aleksiévitch
e da polonesa Hanna Krall. Buscamos distinguir as particularidades de estilo
e voz de cada autora, suas estratégias narrativo-discursivas. Ao final da análise
percebemos que compartilham um tema-chave: o silenciamento das vozes de
mulheres, a quem ao mesmo tempo muitas informações importantes são nega-
das. Porém, as autoras trabalham com abordagens bastante distintas – Aleksi-
évitch completa as lacunas de informação e cria um ambiente envolvente para
o leitor, enquanto Krall evidencia as lacunas e transmite em sua reportagem
um mundo que permanece cheio de silêncios e enigmas.

Palavras-chave: Jornalismo literário; Jornalismo eslavo; Narrativa e experien-


ciação; Svetana Aleksiévich; Hanna Krall.

Vozes do Leste

A premiação do livro Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nu-


clear, da bielorussa Svetlana Aleksiévich, com o Prêmio Nobel de Literatura
em 2015, de um lado, abriu as portas do mundo para uma mais ampla recepção
do jornalismo literário como uma prática literária de alto reconhecimento pela
crítica e pelos leitores. Por outro lado, o reconhecimento desse valor despertou
interesse, no campo de estudos de jornalismo literário propriamente dito, não
apenas pela produção de Aleksiévitch em particular, mas também pela de ou-
63. Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo
(Umesp). Doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E-mail: ma-
teus.passos@gmail.com
64. Mestrando em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) com bolsa Capes. Gradua-
do em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. E-mail: arthur.marchetto@gmail.com

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 105


tros jornalistas literários que escrevem em línguas eslavas, como russo, ucrania-
no e polonês, entre outros. Até então, apenas o polonês Ryszard Kapuściński
(1952-2007) ocupava certo lugar canônico nesse cenário global de pesquisa.
Nesse sentido, o impacto desse reconhecimento pode ser identificado
em três dimensões principais. A primeira, como já sinalizado, é a valorização
de algumas configurações do trabalho jornalístico, como arte e como literatu-
ra. A segunda, o crescimento de um interesse editorial e acadêmico por jorna-
listas literários oriundos de países eslavos. Finalmente, a terceira é uma atenção
de igual ordem pela produção de mulheres no jornalismo literário.
No Brasil, identificamos a valorização principal de Eliane Brum como
jornalista literária cuja sensibilidade e capacidade empática a singularizam
como repórter e narradora (LIMA; MARTINEZ, 2014). No entanto, con-
siderando o campo de produção de jornalismo literário como um universo
vasto configurado não apenas por um gênero ou forma singulares, mas por
um conjunto amplo e diverso de gêneros discursivos65 bastante distintos en-
tre si, situados em um ponto de intersecção entre o jornalismo e a literatura
(PASSOS, 2016), compreendemos que aos eixos de modalidade textual e de
gênero se acresce o do contexto cultural, a configuração dos sujeitos direta-
mente relacionada à sua experiência do lugar e do momento histórico em que
se formam e atuam – o que, evidentemente, tem o gênero como uma de suas
dimensões. Nos instiga, a partir dessa constatação, indentificar as diferentes
configurações que o jornalismo literário poderia assumir ao ser produzido por
mulheres de cultura eslava, que vivenciaram um processo histórico singular na
União Soviética.

Procedimentos metodológicos

Buscamos neste capítulo compreender especificidades narrativas das


obras de duas jornalistas literárias eslavas. A primeira é Svetlana Aleksiévitch
por meio de suas duas obras traduzidas para o português: A Guerra Não Tem
Rosto de Mulher (2016) e Vozes de Tchernóbil (2016a).
A segunda é a polonesa Hanna Krall – de projeção internacional me-
nor, mas crescente, e bastante reconhecida em seu país. Por ainda não existir
65. Compreendendo gêneros discursivos pelos termos de Bakhtin (2016), que os define como enunciados relativa-
mente estáveis em termos de tema, composição e estilo. Essa noção bakhtiniana não pretende organizar/hierarquizar
gêneros em um conjunto pequeno de nomenclaturas, pois os vê como um campo de infinitas possibilidades: varia-
ções em quaisquer desses três elementos essenciais configurariam novos gêneros, muitas vezes derivados de gêneros
já estabelecidos ou “formas híbridas” que combinam características de um ou mais gêneros ou conjunto de gêneros.

106 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


traduções de sua obra em português, foi selecionado o livro The Woman from
Hamburg and other true stories (2005), única coletânea de suas reportagens
disponível em inglês.
Pretendemos distinguir as particularidades de estilo e voz de cada auto-
ra, suas estratégias narrativo-discursivas e o modo como apresentam o ponto
de vista não-oficial, o que compreendemos como um traço geral do jornalismo
literário (PASSOS, 2016) – em contraponto à reprodução das ideologias li-
gadas a instituições de poder governamentais ou financeiras –, e em especial à
forma de reconstruir a vivência de mulheres para que a leitura permita simular
sua experienciação.
A partir dessa premissa procuramos compreender o trabalho das duas
autoras como mobilizações de gêneros discursivos distintos, e, a partir de
seleção qualitativa, realizamos close readings de trechos dos livros escolhidos
que nortearam as discussões apresentadas. Compreendemos o procedimento
do close reading a partir de Richards (2017), cuja definição o delineia como
leitura atenta às minúcias do texto, buscando identificar nos detalhes e no es-
pecífico pistas para caracterizar estratégias textuais de forma mais ampla. É
preciso, naturalmente, fazer ressalvas quanto a certa limitação das análises pelo
fato de, em ambos os casos, estarmos lidando com traduções e não com os
textos originais. Temos consciência de não lidar com as palavras ou constru-
ções exatas das repórteres, mas sim com escolhas realizadas pelos tradutores no
esforço de reconstruir ou mesmo recriar os textos de Aleksiévitch e Krall em
outros idiomas.

Hanna Krall: lacunas e silêncios

Nascida em Varsóvia em 1935, Hanna Krall é hoje a segunda repórter


polonesa mais traduzida no mundo, ficando atrás apenas de Ryszard
Kapuściński, e influenciando jornalistas de gerações mais jovens como Ma-
riusz Szczygieł, autor de Gottland e um dos mais renomados autores da gera-
ção contemporânea de jornalismo literário polonês.
Krall foi a única sobrevivente de uma família de judeus massacrada du-
rante o Holocausto. Ela foi resgatada de um veículo que transportava morado-
res da cidade para o gueto onde os judeus foram durante muitos anos forço-
samente confinados, e posteriormente abrigada e escondida entre a população
polonesa “ariana” (CULTURE.PL, s/d). Ao contrário de outros escritores
que viveram aquele momento de exceção, como Primo Levi (1919-1987),

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 107


Krall não fez até o momento qualquer trabalho memorial ou de ficção em que
lida diretamente com essa experiência da infância. No entanto, ela reconhece
como uma vivência única e valiosa que, se por um lado a teria tornado “décadas
mais velha” do que pessoas que nasceram no mesmo local poucos anos depois e
não vivenciaram a perseguição ao judeus, por outro lhe daria também maturi-
dade precoce e uma capacidade ímpar de compreender seus personagens – boa
parte deles também judeus (OGIOLD, 2001).
Iniciou sua carreira aos 20 anos no jornal diário Zycie Warszawy e, em
1966, tornou-se correspondente na União Soviética para a revista Polytika.
Parte do trabalho de reportagem que produziu durante a estada de quatro
anos na publicação foi compilada em 1972 no livro Na wschód od Arbatu [A
leste de Arbat, tradução nossa]. Seu primeiro trabalho de grande impacto viria
poucos anos depois, publicado em partes na revista Odra em 1976 e na forma
de livro no ano seguinte – sob o título de Zdążyć przed Panem Bogiem [Ponha-
-se diante de Deus, tradução nossa]. A reportagem tinha como protagonista
Marek Edelman, um dos líderes do Levante do Gueto de Varsóvia, ato de re-
sistência contra o transporte dos moradores para o campo de concentração de
Treblinka.
Ao longo das décadas seguintes, Krall alternaria o trabalho como free-
lancer com empregos fixos em jornais e revistas, desenvolvendo um estilo nar-
rativo que causaria espanto a Tom Wolfe (2005) pelo caráter distinto que apre-
senta em relação à abordagem estílistica que ficou mais fortemente vinculada
ao Novo Jornalismo e ao jornalismo literário – na qual eventos testemunhados
ou relatados eram reconstruídos em cenas minuciosas, com riqueza de descri-
ções de modo a se caracterizar o estilo de vida dos sujeitos retratados. O estilo
de Krall seguiria numa linha diversa, na qual a narração dos acontecimentos
parece ser reduzida ao mínimo, ao essencial, com uma crueza de linguagem não
muito diferente da prosa kafkiana. Não raro com saltos cronológicos de meses ou
anos, e com a passagem de informações essenciais do plano mais evidente do texto
para uma lacuna a ser preenchida durante a leitura, pontas soltas a serem atadas
por cada leitor (ISER, 1976), com um ou outro comentário pessoal. Ao adotar
uma estratégia textual em que o autor não desaparece por trás da história e a
deixa fluir “naturalmente”, em vez disso a evidenciando como uma reconstru-
ção – como artifício que causa estranhamento, como diria Chklovski (2013).
Adotado mesmo em obras de ficção, esse procedimento teria, a seu ver, o papel
de torná-las mais fiéis ao que considera a verdade dos fatos, pois interpretar,
explicar e ordenar logicamente os acontecimentos tornaria o trabalho de re-

108 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


portagem inverídico:

Meu trabalho como repórter me ensinou que histórias lógicas, sem


enigmas e lacunas de informação, nas quais tudo é evidente, tendem
a não ser verdadeiras. Coisas que não podem ser explicadas de modo
algum realmente acontecem. No fim, a vida na Terra é verdadeira,
mas não pode ser logicamente explicada. (KRALL, 2005, loc.2040,
tradução nossa).66

Essa é a abordagem utilizada dos textos de Taniec na cudzym weselu


[Dançando no casamento de outra pessoa, tradução nossa], coletânea de re-
portagens parcialmente reproduzida no livro The Woman from Hamburg and
other true stories, tradução em língua inglesa que utilizamos como fonte e que
reúne também alguns dos textos publicados em Dowody na istnienie [Provas
de existência, tradução nossa]. Ambas as fontes trazem histórias sobre judeus
que viveram o Holocausto ou o cotidiano judaico polonês anterior a 1939,
com base em entrevistas em profundidade – acabando por assumir a feição de
conversas efetivamente e acima de tudo humanas, como é típico da práxis do
jornalismo literário (MARTINEZ, 2016) – que Krall teve com diversos dos
personagens e em pesquisa documental.
A reportagem que dá título ao livro, Ta z Hamburga [A mulher de
Hamburgo, tradução nossa], traz um enredo inicial com alguns paralelos em
relação à distopia The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood. Na obra de
ficção, mulheres férteis são forçadas a agir como barrigas de aluguel para as
esposas de militares que tomaram o poder – e dispensadas após darem à luz.
Situação parcialmente análoga, na reportagem, à de Regina, judia alemã aco-
lhida em meio à perseguição nazista por Barbara e Jan, casal de poloneses que
residia em Lviv, Ucrânia, e durante mais de um ano passa a viver boa parte das
horas de cada dia dentro de um guarda-roupas, para que pudesse se ocultar de
qualquer visita que pudesse denunciá-la. Regina engravida de Jan. Ameaçada
pelo marido, Barbara acoberta o caso e passa a usar travesseiros por baixo da
roupa, simulando uma gravidez. Quando Helusia nasce, Barbara a leva para
apresentá-la aos vizinhos como sua própria filha. Dias depois, quando batiza a
filha – a informação que contém o nome da arquidiocese é o único momento
em que o texto precisa o local onde esse momento da história se ambienta –,
66. No original: My work as a reporter has taught me that logical stories, without riddles and holes in them, in which
everything is obvious, tend to be untrue. And things that cannot be explained in any fashion really do happen. In the
end, life on earth is also true, but it cannot be logically explained (KRALL, 2005, loc.2040).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 109


o casal realiza uma festa para alguns convidados que dura até o amanhecer.
Regina, que não há muito tempo acabara de dar à luz, passa o tempo todo no
guarda-roupas. Meses depois, quando o exército soviético retoma a cidade, ela
desaparece.
A partir daí, há diversos saltos cronológicos que demarcam o modo
como se articula a relação entre as três mulheres – Barbara, Regina e a própria
Helusia. O casal retorna à Polônia e Jan se demonstra obcecado, num primeiro
momento, por encontrar Regina. Em vez disso, é procurado por dois homens
que a representavam e queriam recuperar a criança. Helusia passa a receber
pacotes de Hamburgo com presentes. Barbara se refere a Regina, que os havia
enviado, como madrinha de Helusia. Se num primeiro momento os envios a
incomodam profundamente, posteriormente passa mesmo a pedir à filha que
pedisse alguns itens, como tecidos para seu vestido de primeira comunhão.
Com o tempo, Regina e Helusia passam a se corresponder. Na verdade, Helu-
sia escreve cartas, enquanto Regina envia apenas presentes e cheques, com uma
ou outra fotografia ocasional – mas encontram-se pessoalmente apenas duas
vezes. A primeira quando, aos 25 anos, Helusia descobre que Regina é sua mãe.
A segunda 22 anos depois, quando Regina a convida para passar alguns dias
em sua casa. Os dois encontros terminam com um surto angustiado de Regina,
que em ambos os casos pede à filha que não venha mais vê-la, pois sua presença
a faz reviver as aflições e o medo experienciados do passado.
A estratégia textual de Krall, como dissemos, envolve um distanciamen-
to no tom e um trabalho em torno de lacunas de informação e de pistas para
decifrá-las – mecanismo que, como aponta Wolfgang Iser (1976), promove
um novo nível de interação entre texto e leitor, tornando o processo de leitura
mais ativo. Por um lado, isso faz com que o texto seja articulado de uma forma
bastante distinta daquilo a que convencionamos chamar de reportagem. Isso
porque as personagens não são indexadas no presente da forma costumeira,
especialmente aquelas que mais provavelmente serviram de fonte a Krall. Não
sabemos com que trabalham, como vivem, sua existência de modo mais am-
plo: só interessa ao texto seus papéis no desenvolvimento dessa trama central.
Nesse sentido, chamam a atenção tanto os silenciamentos – um dos ti-
pos de lacuna – quanto as pequenas pistas que podem nos levar a algumas
conclusões. Uma dessas pistas surge quando Helusia confronta Regina pela
primeira vez, e esta começa a repetir obsessivamente algumas frases, como “É
verdade. Eu dei à luz a você. (…) Eu precisei. Eu tive que concordar com tudo.
Eu queria viver. Não quero me lembrar do seu pai. Não quero me lembrar da-

110 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


quela época. Também não quero me lembrar de você.” Enquanto ouve, a filha
desata a chorar (KRALL, 2005, loc. 155).67 Fica subentendido que a relação
entre Jan e Regina não era consensual.
Já os silenciamentos se colocam de forma mais marcada na ação das duas
mães de Helusia e um dos primeiros exemplos podem ser vistos quando Bar-
bara descobre o adultério de Jan:

Num dia de verão, a esposa voltou das compras. O casaco de seu marido
estava pendurado na antesala; ele tinha chegado do trabalho um pou-
co mais cedo do que o costumeiro. A porta do quarto da judia estava
trancada. Certo dia de outono seu marido lhe disse: “Regina está grávi-
da” (KRALL, 2005, loc.92, tradução nossa)68

Krall não evidencia textualmente aquilo que parece óbvio ao leitor. Em


vez disso, o ocultamento da afirmação remete ao silêncio de Barbara sobre o
assunto, mesmo antes de ser ameaçada pelo marido. Algo que é espelhado pelo
comportamento de Regina, que só falava quando lhe dirigiam a palavra, e re-
mete à opressão a que ambas estavam submetidas, seja por medo da persegui-
ção nazista, seja por medo do marido ou, de forma mais ampla, da opressão e
julgamento de uma sociedade machista.
Em outro momento da reportagem, Helusia procura um escritório de
advocacia para processar a mãe – os motivos não ficam claros. A altercação
entre ela e seu advogado é também sustentada a partir de lacunas dialógicas
– apenas a fala o advogado é reproduzida, enquanto as reações de Helusia po-
dem ser intuídas:

Antes de tudo, temos que provar que ela é sua mãe. Você tem teste-
munhas? Não? Bem, então veja… O depoimento da Sra. Barbara S. de-
veria ter sido gravado. Deveria ter sido notarizado. Agora tudo o que
resta é um exame de sangue. Você está determinada a processá-la? Então
por que veio procurar um advogado? (KRALL, 2005, loc.205, tradu-
ção nossa).69
67. No original: “It’s true. I gave birth to you (...). I had to. I had to agree to everything. I wanted to live. I don’t want
to remember your father. I don’t want to remember those times. I don’t want to remember you, either.” (KRALL,
2005, loc. 155).
68. No original: “One summer day, the wife came home from shopping. Her husband’s jacket was hanging in the
anteroom; he had come home from work a little earlier than usual. The door to the Jewess’ room was locked. One
autumn day her husband said, “Regina is pregnant” (KRALL, 2005, loc.92)”
69. No original: “First of all, we have to prove that she is your mother. Do you have witnesses? No? Well then, you see.
The testimony of Mrs. Barbara S. should have been recorded. It should have been notarized. Now all that remains is a
blood test. Are you determined to sue? So why did you come to a lawyer’s office?” (KRALL, 2005, loc.205).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 111


A estratégia narrativa de Krall nos permite sentir e experienciar a opres-
são e o desespero – especialmente nas repetições obsessivas de frases por Regi-
na – justamente por não dizer explicitamente que tal contexto era opressivo,
que tal comportamento era desesperado. A interação do leitor com o texto por
meio das lacunas e as conclusões que tiramos dele é que trazem o envolvimento
com as situações e personagens.

Svetlana Aleksiévitch: memórias, sentimentos

Svetlana Aleksievitch nasceu em 1948 no oeste da Ucrânia. Formada


em jornalismo pela Universidade de Minsk, Svetlana começou sua carreira na
editoria de cartas no jornal das fazendas coletivas, Сельская Газета [ Jornal
Rural]. Posteriormente trabalhou como repórter em outros jornais locais e
como correspondente para a revista literária Неман [Neman]. Sua produção,
conhecida principalmente nas terras eslavas, sempre foi voltada para as tes-
temunhas de eventos dramáticos na ex-URSS e lhe rendeu prêmios como o
Erich Maria Remarque Peace Prize, em 2001, o National Book Critics Circle
Award, em 2006, e o Prémio Médicis Ensaio, em 2013, pelo O Fim do Homem
Soviético (CORREIO BRAZILIENSE, 2015).
Ao longo de sua carreira, Svetlana publicou seis livros. O mais recente é
Время секонд хэнд [Tempo de segunda mão – publicado em português como
Fim do homem soviético], de 2013. Nele, ela abordou a derrocada da União
Soviética em diversas perspectivas, inclusive incluindo conteúdo do peque-
no livro que escreveu em 1993, Зачарованные смертью [Encantados com a
morte], no qual discutiu o suicídio de jovens soviéticos. Ela também publicou
Чернобыльская молитва [Oração de Tchernóbil – publicado em português
como Vozes de Tchernóbil] em 1997, que recolhia depoimentos dos envolvidos
no desastre na usina nuclear. Em 1989 escreveu Цинковые мальчики [Rapa-
zes de zinco] sobre a Guerra no Afeganistão de 1979 a 1989, com o título fa-
zendo referência aos mortos que voltavam dos campos de batalha. Foi no ano
de 1985 que lançou seus dois primeiros livros У войны не женское лицо [A
guerra não tem rosto de mulher], seu livro de estreia, que tratava da perspecti-
va feminina da guerra e Последние свидетели: сто недетских колыбельных
[Últimas testemunhas: cem cantigas nada infantis], um relato sobre crianças
órfãs de guerra.
Svetlana manteve a mesma estratégia de apuração e narrativa ao longo
das suas publicações: colheu depoimentos, costurou todos eles numa colcha de

112 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


retalhos e gerou uma narrativa polifônica sobre a vida interior e não-oficial de
acontecimentos traumáticos para a vida soviética. Na introdução de A Guerra
não tem rosto de mulher, lemos trechos do diário de produção que revelam o
pensamento por trás do processo criativo da jornalista e guiam a interpretação
de seus livros.
A escritora afirma que, durante a infância, ouviu das mulheres de sua
vila, principalmente de sua avó e de sua mãe, uma versão sobre a guerra muito
diferente daquela contada pelos livros, uma abordagem canônica repleta de
palavras “masculinas”. Para ela,

[...] a guerra “feminina” tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação
e seu espaço sentimental. Suas próprias palavras. Nela, não há heróis
nem façanhas incríveis, há apenas pessoas ocupadas com uma tarefa
desumanamente humana. E ali sofrem apenas elas (as pessoas!), mas
também a terra, os pássaros, as árvores. Todos os que vivem conosco na
terra. Sofrem sem palavras, o que é ainda mais terrível (ALEKSIÉVI-
TCH, 2016a, p.12).

Para organizar um formato adequado que desse vazão a essas vozes cala-
das, Svetlana investiu nos depoimentos e criou uma esfera intimista que violou
os entraves que supervalorizavam a versão histórica neutra para chegar naquela
versão repleta de minucias e, segundo a jornalista, daquilo que é humano.

Mais de uma vez me deparei com essas duas verdades convivendo em


uma mesma pessoa: a verdade pessoal, relegada à clandestinidade, e a
verdade geral, impregnada do espírito do tempo. Do cheiro dos jornais.
A primeira raramente consegue ficar de pé diante da pressão da segunda
(ALEKISÉVITCH, 2016a, p.133).

Em seu trabalho, a memória adquiriu um importante papel enquanto


recriação do passado e dos sentimentos. Mesmo atenta para os riscos de altera-
ção, Svetlana afirma que a dor dos relatos aniquila a possibilidade de qualquer
falseamento. Por isso passa a prestar atenção nas minúcias, nos sentimentos,
naquilo que parece pequeno e humano, ao invés dos grandes feitos e do hero-
ísmo.
De um lado, o livro de Svetlana retratou as atrocidades da guerra, suas
torturas e mutilações, a vida dos prisioneiros, o ódio, a morte e o estupro. O
corpo a corpo que marcou a memória de diversas depoentes com os barulhos

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 113


dos ossos quebrando e a brutalidade do conflito. As dificuldades do inverno,
dos serviços realizados... Do outro lado, vemos as minúcias, o amor, a vonta-
de de usar vestidos e maquiagens, a inabilidade dos soldados em lidar com a
menstruação, o vestido de noiva feitos de ataduras. O relato da mulher para
quem ter que usar cuecas era a pior coisa da guerra, o contato com as flores,
a terra e os animais. Todos esses fatores servem para estruturar o que Svetlana
caracteriza como história dos sentimentos e da alma.
No terceiro capítulo do livro, intitulado “Fui a única a voltar para mi-
nha mãe”, Svetlana vai ao encontro de Nina Iákovlevna Vichniévskaia, enfer-
meira-instrutora do Primeiro Batalhão da 32ª Brigada de Tanques do Quinto
Exército. Nina participou de um dos maiores conflitos entre tanques, o emba-
te de Prókhorovka, um enfrentamento de 1200 tanques de assalto entre o lado
soviético e o alemão.
No seu trajeto, encontra dois homens que lutaram no front. A visão de-
les demonstra na prática o que Svetlana introduziu em seu diário; eles enalte-
cem a visão oficia da história e menosprezam as mulheres e seus relatos. Em
primeiro lugar, ao falar da guerra, os homens defendem a guerra sob a perspec-
tiva da pátria, da Grande Ideia e de Stalin.
Em seguida, um dos homens relata como recebeu duas mulheres em seu
pelotão e as enxotou sob a premissa de que era trabalhoso e inútil adaptar o
ambiente militar para elas e tê-las sob seu comando. Mesmo reconhecendo a
importância das mulheres nos conflitos bélicos em toda a história da Rússia,
os homens argumentam que se sentem culpados ao ver uma mulher dividindo
o front com eles.
Svetlana pergunta se elas não estavam salvando a pátria também, como
qualquer soldado estava e um dos homens responde: “Isso mesmo, claro... Eu
iria com uma mulher dessas numa missão de batedor, mas não me casaria com
ela. Pois é... Estamos acostumados a pensar nas mulheres como mãe e noiva. A
bela dama, enfim” e, no fim, afirma que “guerra é coisa de homem. O que foi,
por acaso tem pouco homem sobre quem escrever no seu livro?” (ALEKSIÉ-
VITCH, 2016, p. 117).
Depois de comentários breves sobre a importância da mulher na frente
de batalha como mensageira e enfermeira, sobre Stalin e suas estratégias milita-
res, eles culminam no assunto do amor na guerra. Ao perguntar se existia amor
na guerra, Svetlana ouve dos homens que ele encontrou mulheres bonitas, mas
não as enxergava como mulheres: durante a guerra elas eram irmãs. Mesmo
assim, depois do fim do conflito, não conseguiam ficar com elas. Apesar da má

114 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


fama que alguns tinham delas, o homem afirma que “elas eram, em sua maio-
ria, mulheres direitas. Puras. Mas depois da guerra... Depois da sujeira, depois
dos piolhos, depois das mortes... A gente queria algo bonito. Claro. Mulheres
bonitas...” (ALEKSIÉVITCH, 2016a, p.119). Elas foram desprezadas pelos
homens.
Na continuação desse capítulo, como contraposição ao diálogo, Svetla-
na apresenta uma mulher “masculinizada” que conta a sua visão de guerra com
todos os detalhes. Antes de encontrar a subtenente Nina, Svetlana recebe a
sugestão de confirmar quaisquer informações no Conselho de Veteranos. Na
casa de Nina, a jornalista é recebida com um aperto de mão e nota que a de-
coração e os livros são todos relacionados ao cenário bélico; as bonecas usam
fardas, o papel de parede tem tons militares, os chifres de um alce seguram um
capacete de tanquista.
Depois do primeiro contato, Svetlana reflete sobre como é preciso se
esforçar para acessar a memória pessoal e os sentimentos do indivíduo, espe-
cialmente nesses casos, onde a guerra deixou marcas tão profundas. Em seu
relato, Nina prepara um texto que abandona, para falar da alma. Expõe como
as meninas estavam eufóricas para entrar no exército, mas eram aceitas à con-
tragosto.
O depoimento começa quando Nina relata a curiosidade e o choque
que permeavam as novatas do esquadrão. Descreve como teve que se esforçar
para ser aceita na unidade de tanques devido à sua estatura baixa, 1,60m, e
na dificuldade que isso acarretaria para o cargo – quando um soldado é feri-
do “você tem que arrastá-lo para fora pela escotilha. Você consegue puxar um
rapaz desses? Sabe como são fortes são os tanquistas? Quando você tem que
entrar no tanque, está sob fogo inimigo. (...) Você sabe como é quando um
tanque pega fogo?” (ALEKSIÉVITCH, 2016, p.123).
Nina Vichniévskaia apresenta também preocupações estéticas e práticas
acerca dos penteados e dos uniformes militares feitos exclusivamente para as
medidas masculinas, situações que se repetem ao longo do livro. Além disso,
ela relata as dificuldades de se adaptar ao sistema militar. “Para nós, meninas,
tudo no Exército era complicado. Achávamos muito difícil entender os sinais
de distinção. Quando chegamos ainda existiam losanguinhos, cubinhos, traci-
nhos, e tinha que deduzir qual era a patente”. No fim, “não gravávamos quem
era tenente, quem era capitão, gravávamos outras coisas: se era bonito ou feio,
ruivo ou alto” (ALEKSIÉVITCH, 2016, p.127).
Nina também comenta sobre o a amor, quando descreve o relaciona-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 115


mento entre sua amiga e outro soldado, e sobre a descoberta da sexualidade,
quando um tenente se insinua para ela antes de um ataque perigoso. De todas
as suas amigas, descritas como mais aptas, Nina foi a única a voltar para sua
mãe. Por fim, recita de maneira inesperada um poema que escreveu na frente
de batalha:
Uma moça ousada subiu na blindagem
Estava defendendo sua pátria.
Não se importava com balas, ou com estilhaços
Ardia o coração daquela moça.
Lembre-se, amigo, de sua beleza modesta,
Quando ela for carregada sobre um pedaço de lona... (ALEKSIÉVITCH,
2016a, p.131).

Por fim, conclui o relato refletindo sobre o porquê de ter ficado viva:
“Por que fiquei viva? Para quê? Eu acho… Eu entendo que foi para contar
isso…” (ALEKSIÉVITCH, 2016a, p.132). A pressão que a versão hegemô-
nica e canonizada dos fatos faz é forte. Assim como outras mulheres ao longo
do livro, Nina escreveu para Svetlana pedindo que algumas passagens fossem
suprimidas sob a preocupação de que sua imagem de heroína ruísse.
Em Vozes de Tchernóbil, Svetlana adota uma forma textual que a princí-
pio parece derivar da que Kapuściński empregara em obras como Cesarz [O
Imperador], com o uso de longos depoimentos de seus entrevistados. No en-
tanto, Kapuściński costura os depoimentos com outros longos trechos narra-
tivos em que sua voz autoral se faz sentir. Já Aleksiévitch, com seu estilo mais
consolidado e com uma produção menos suspeita, indexa sua presença em
alguns poucos momentos em que os entrevistados de dirigem diretamente a
ela e em um pequeno capítulo – “Entrevista da autora consigo mesma sobre
a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mun-
do”. Em seu escopo mais amplo, o livro é uma coletânea de monólogos de tes-
temunhas não da explosão do quarto reator da usina nuclear de Tchernóbil,
próxima à fronteira da Ucrânia com a Bielorússia, mas da disrupção de vidas
causada pela explosão e pela contaminação nuclear. São monólogos de agricul-
tores, médicos, aldeões, parteiras, engenheiros, liquidadores, jornalistas, pro-
fessores de pequenas vilas, pais e mães, esposas e maridos, pessoas deslocadas
de seus lares à força ou que continuaram a residir em zonas contaminadas.
Num escopo mais amplo, está em jogo no livro a voz da ideologia do cotidiano
(BAKHTIN, 2012), da voz e dos valores populares que escapam e por vezes
se chocam com as instituições de poder adminstrativo, coercitivo e científico;

116 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


mesmo os especialistas ouvidos cumprem ali menos o papel de analistas do que
o de testemunhas, de sujeitos ativos em meio ao caos.
O livro se abre com “Uma solitária voz humana”, monólogo de Liudmila
Ignátineko, esposa de um dos bombeiros chamados para apagar o incêndio na
usina e selar o reator, de modo a evitar que os danos se agravassem ainda mais.
A narrativa é pontuada o tempo todo por omissões do poder público e de
agentes em posições de chefia: seu marido, Vassíli, foi convocado para apagar
o que acreditava ser um incêndio comum e enviado, como seus companhei-
ros, sem qualquer proteção contra a radiação, sofrendo exposição a uma dose
de radiação quatro vezes superior à considerada letal. A falta de cuidados se
estendeu aos profissionais de saúde do primeiro hospital onde os bombeiros
receberam tratamentos: “Muitos médicos, enfermeiras e, sobretudo, as auxi-
liares daquele hospital, depois de algum tempo, começaram a adoecer. Mais
tarde morreriam. Mas na época ninguém sabia disso...” (ALEKSIÉVITCH,
2016b, loc. 141). A situação de confusão e desinformação se agrava quando
aliada à presença estranha e opressiva do exército, lavando as ruas com um
estranho pó branco e portando máscaras de gás. Logo a ação do poder público
se torna ainda mais autoritária quando os bombeiros são deslocados à força
para Moscou – operação realizada pelas costas de seus familiares, não muito
distante de um sequestro:

À noite, já não me deixaram entrar no hospital. Havia um mar de gente ao


redor… Fiquei em pé debaixo da janela da enfermaria; ele se aproximou e
gritou alguma coisa para mim. Parecia desesperado! Alguém na multidão
entendeu o que ele disse: seriam levados àquela noite para Moscou.
Todas nós, esposas, nos juntamos. Decidimos: vamos com eles. “Que nos
deixem ir com os nossos maridos! Vocês não têm direito!” Lutamos, nos
atracamos com os soldados, que já haviam formado um cordão duplo e
nos empurravam. Foi então que um médico surgiu e confirmou que os
doentes seriam levados de avião para Moscou, e que seria preciso roupas
para eles, pois as usadas na central haviam sido queimadas. Os ônibus
já não circulavam, então atravessamos a cidade correndo. Quando
finalmente voltamos com as sacolas, o avião já tinha partido. Fomos
enganadas de propósito. Para evitar que chorássemos, que gritássemos.
(ALEKSIÉVICH, 2016b, loc. 157)

Liudmila conseguiu se deslocar até Moscou com os sogros – embora


não se recorde do caminho – e localizou a clínica de radiologia onde os bom-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 117


beiros haviam sido alocados; para entrar e rever o marido, precisou subornar
um vigia e ocultar a gravidez. Ali, abraçou-o o quanto pôde; enfermeiros e
médicos procuravam afastá-la dele, mas demoraram a explicar o porquê – “Isso
já não é um homem, é um reator nuclear. Vão queimar os dois” (ALEKSIÉVI-
CH, 2016b, loc. 326) – e testemunhou seu definhamento, o descolamento de
mucosas e da pele; ao final, perdeu também a filha que estava gestando. Esse
monólogo, como os demais, retrata de forma pulsante o drama de Tchernóbil
não em suas dimensões ambientais, mas como tragédia pessoal e psicológica.

Reflexões sobre estilo e voz autoral

Destaca-se as estratégias textuais distintas das autoras. Em A Guerra


Não tem Rosto de Mulher quanto em Vozes de Tchernóbil a operação do texto
de Aleksiévitch se dá por meio de cenas mais longas e descritas com maior
riqueza de detalhes, promovendo o testemunho virtual dos acontecimentos
(KNORR-CETINA, 1999; HARTSOCK, 2015) – a possibilidade de imer-
gir na narrativa e imaginar-se parte dela, experienciar os acontecimentos como
se fosse testemunha ocular deles, envolver-se emocionalmente. Krall, ao con-
trário, promove um distanciamento entre texto e leitor: a fruição de suas re-
portagens se dá numa via mais analítica do que passional.
A distinção pode ficar mais clara ao se observar duas passagens em que
ambas tratam de eventos semelhantes – o afogamento de uma crianças famin-
ta e o abandono de outra em meio à rua e à perseguição pelas tropas nazistas.
O trecho de Svetlana integra o capítulo “Da conversa com o Censor que diz”
em A guerra não tem rosto de mulher:

Existe um trecho na Svetlana, esse aqui no “Alguém nos entregou… Os


alemães descobriram onde ficava o acampamento dos partisans. Cerca-
ram a floresta e fecharam as passagens por todos os lados. Nos esconde-
mos em um matagal fechado, fomos salvos pelos pântanos onde a tropa
punitiva não entrava. Um lodaçal. Ele encobria muito bem tanto as pes-
soas quanto os equipamentos. Passamos alguns dias, semanas, com água
na altura do pescoço. Havia conosco uma operadora de rádio que tivera
um filho havia pouco tempo. A criança estava com fome… Pedia o pei-
to. Mas a própria mãe estava passando fome, não tinha leite, e a criança
chorava. Os soldados da tropa punitiva estavam por perto… Tinham
cachorros… Se os cachorros escutassem, todos nós morreríamos. Todo
o grupo, umas trinta pessoas. Entende?

118 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


O comandante tomou a decisão…
Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma
adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou ali
por um longo tempo… A criança não gritou mais… Nenhum som… E
nós não conseguíamos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para
os outros…” (ALEKSIÉVITCH, 2016, p.32)

Já o trecho de Krall – um depoimento longo, atípico em sua abordagem


– faz parte da reportagem Dybuk [The Dybbuk, tradução nossa70], seleciona-
da do livro Dowody na istnienie [Provas de existência, tradução nossa] para a
coletânea The Woman from Hamburg and other true stories:

Sim, numa conversa ao telefone. Ele estava vivendo em Iowa; liguei para
ele quando cheguei em casa. Achei que não fosse acreditar em mim, que
ao menos ficaria surpreso, mas não se surpreendeu nem um pouco. Ele me
escutou calmamente e depois disse: “Eu sei o que é esse choro. Quando o
atiraram para for a do esconderijo ele ficou na rua e chorou bem alto. Era
aquele choro – o choro da minha criança que foi jogada na rua.”
Era a primeira vez que falei com meu pai sobre meu irmão. Ele tinha
um coração fraco e eu não queria chateá-lo. Eu sabia que meu irmão
tinha morrido, como todos os outros; o que mais eu teria para pergun-
tar sobre isso? Agora descobri que o menino estava escondido em al-
gum lugar com a mãe, a primeira esposa de meu pai, junto com mais
ou menos uma dúzia de outros judeus. Não sei onde, se foi no gueto ou
no lado ariano. Às vezes imagino uma cozinha com pessoas amontoa-
das. Elas estaavm sentadas no chão, tentando não respirar. Ele começou
a chorar. Elas tentaram silenciá-lo. Como se acalma uma criança que
chora? Com doces? Com brinquedos? Eles não tinham nada disso. Seu
choro ficou mais e mais alto, e as pessoas amontoadas no chão estavam
todas pensando a mesma coisa. Alguém sussurrou: “Vamos todos mor-
rer por causa de uma criancinha.” Ou talvez não fosse uma cozinha.
Talvez fosse um porão, um bunker. Meu pai não estava com eles; so-
mente ela estava presente, a mãe de Abram. Ela ficou com os outros.
Ela sobreviveu. Ela foi morar em Israel, talvez ainda esteja lá, eu não
perguntei, eu não sei…
Meu pai morreu. (KRALL, 2005, loc.1521, tradução nossa)71
70. No folclore judeu, existe um espírito humano que vagueia pelo mundo em busca de um refúgio no corpo de
alguém vivo devido aos pecados cometidos na vida pregressa. Esse espírito é conhecido como Dybbuk ou Dibbuk.
71. No original: “Yes, in a phone conversation. He was living in Iowa; I called him after I got back home. I thought
he wouldn’t believe me, that at the very least he’d be taken aback, but he wasn’t taken aback at all. He listened calmly,
and then he said, “I know what that cry is. When they threw him out of the hiding place he stood in the street and
cried loudly. That was the cry—the cry of my child who was thrown out into the street.”
This was the first time I had talked with my father about my brother. Father had a weak heart; I didn’t want to upset

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 119


Para além disso, Krall segue também na contramão de um dos valores
básicos da narrativa do jornalismo literário, a que mais a ancora à prática da
reportagem: a precisão de dados; porém, como afirmamos, utiliza a impreci-
são como trunfo ao promover uma interação mais ativa entre texto e leitor: as
informações continuam ali, mas não de forma evidente – por vezes é preciso
garimpá-las, por vezes intui-las. O mundo que reconstrói textualmente é um
complexo mosaico em cacos no qual cabe ao processo de leitura reunir os pe-
daços e lhes conferir sentido.
A omissão de informações – entre indivíduos, entre pessoas e institui-
ções – desponta como tema comum às duas repórteres: personagens femini-
nas, principalmente, aparecem atiradas a um mundo que não se esforça por
integrá-las, por lhes inteirar dos acontecimentos, que muitas vezes lhes omite
o essencial; elas, por sua vez, precisam silenciar e omitir informações para so-
breviver. A partir dessa representação a história das mulheres eslavas parece
ser, por um lado, a narrativa de seu apagamento pelas sociedades machistas – o
apagamento de sua experiência, de suas conquistas e lutas tanto quanto de sua
opressão – e, por um lado, a de seu silenciamento frente às dinâmicas sociais
em que já se antecipa que seriam apagadas e caladas.
Na materialidade da reportagem, Svetlana Aleksiévitch busca responder
ao silenciamento com voz, com informação – suas obras parecem ter como
missão o preenchimento dos vazios de informação, completar um mosaico
mais complexo. Parecem acreditar no poder do jornalismo para mudar o regis-
tro da História, para revelar o que está oculto, para atribuir novo sentido e en-
tendimento aos eventos. Hanna Krall, por outro lado, não acredita na solução
e no preenchimento das lacunas, na ordenação lógica dos acontecimentos – o
que, como vimos, tornaria as histórias inverídicas a seus olhos. Em vez disso,
registra os silêncios na trama e em seu próprio estilo: em vez de propor seu
trabalho de reportagem como contraponto ou solução para os silenciamentos
– especialmente os silenciamentos de mulheres –, sua preocupação maior é a
de registrar como se dão as interações humanas em torno do silêncio. Nesse
him. I knew that my brother had died, like everyone else; what more was there to ask about? Now I found out that the
boy had been hidden somewhere with his mother, my father’s first wife, along with a dozen or so other Jews. I don’t
know where, if it was in the ghetto or on the Aryan side. Sometimes I picture a kitchen and people crowded together.
They were sitting on the floor, trying not to breathe. He started crying. They tried to quiet him. How do you calm a
crying child? With candy? A toy? They didn’t have toys or candy. His crying grew louder and louder, and the people
crowded together on the floor were thinking the same thought. Someone whispered: “We’re all going to die because
of one little kid.” Or maybe it wasn’t a kitchen. Maybe it was a cellar, or a bunker. My father wasn’t with them; only
she was, Abram’s mother. She stayed with the others. She survived. She settled in Israel, maybe she’s still living there,
I didn’t ask, I don’t know.…
My father died.” (KRALL, 2005, loc.1521)

120 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


sentido, sua proposta de jornalismo literário aproxima-se mais ao campo da
literatura ao exigir do leitor que indague e faça inferências em torno dos in-
gredientes ausentes, em vez de lhe entregar a refeição completa (ISER, 1976).

Referências

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das Letras, 2016.

ALEKSIÉVITCH, S. Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear. São


Paulo: Companhia das Letras, 2016a. (ebook)

BAKHTIN, M. O Freudismo. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2012.

BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. São Paulo: Editora 34, 2016.

CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: TODOROV, Tzvetan. Teoria da


literatura – Textos dos formalistas russos. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

CORREIO BRAZILIENSE. Quem é Svetlana Alexijevich? Conheça a vencedora


do Nobel da Literatura. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/
noticia/diversao-e-arte/2015/10/08/interna_diversao_arte,501775/conheca-a-bielo-
russa-que-venceu-o-premio-nobel-de-literatura.shtml>. Publicado em: 8 out. 2015.
Acesso em: 29 mai. 2018.

CULTURE.PL. Hanna Krall. Disponível em: <https://culture.pl/en/artist/hanna-


krall>. Acesso em: 27 mai. 2018.

HARTSOCK, J. C. Literary journalism and the aesthetics of experience. Amherst:


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ISER, W. Der Akt des Lesens: theorie asthetischer Wirkung. München: Wilhelm
Fink, 1976.

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ciência tal qual se faz. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1999, p. 375-393.

KRALL, H. The Woman from Hamburg and other true stories. New York: Other
Press, 2005. (ebook)

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 121


LIMA, E. P.; MARTINEZ, M. Eliane Brum: new star in Brazil’s Literary Journalism
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Disponível em: <http://www.nto.pl/artykuly-archiwalne/art/3948257,mozg-to-jest-
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SIMS, N. True Stories: a century of literary journalism. Evanston: Northwestern


University Press, 2007.

WOLFE, T. Radical chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2005.

122 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


PARTE II
DIFERENÇAS QUE TRANSCENDEM:
JORNALISMO E INTERSECCIONALIDADE
Jornalismo e estudos de gênero: e a
interseccionalidade, onde está?
Claudia LAGO72
Evelyn KAZAN73
Manuela THAMANI74
Universidade de São Paulo, São Paulo, SP

Resumo

Trabalhos recentes que se voltam ao estado da arte das pesquisas em Jorna-


lismo em sua relação com os Estudos de Gênero (MARTINEZ, LAGO e
LAGO, 2016; LAGO e MARTINEZ, 2017; NONATO e LAGO, 2017)
indicavam “uma relação tênue” entre estes dois campos (BOURDIEU, 1990).
Por outro lado, já apontavam para a possibilidade de consolidação desta rela-
ção, especialmente a partir de trabalhos de discentes de pós-graduação, dispo-
sição esta que parece estar se concretizando não apenas com a defesa de teses
e dissertações, mas com o aparecimento de congressos específicos e dossiês
temáticos na área da comunicação, bem como a incorporação dessa temática
em congressos tradicionais. Também no âmbito profissional o universo das
questões de gênero tem se feito presente, como indicam as campanhas contra
o assédio, como o #deixaelatrabalhar, ou #jornalistasContraoAssédio, denun-
ciando as contradições de uma profissão cada vez mais feminilizada (MICK e
LIMA, 2013). Apesar deste movimento, um olhar exploratório inicial indica
que as pesquisas ainda são tímidas ao enfocar as relações de gênero a partir de
uma perspectiva interseccional (CRENSHAW, 2002), tão cara à boa parte da
produção do campo dos Estudos de Gênero no Brasil e na América Latina.
Este artigo problematiza esta relação, investigando a produção discursiva na
interface Jornalismo e Estudos de Gênero nos principais periódicos dedicados
especificamente aos Estudos de Jornalismo (Brazilian Journalism Research e
Estudos de Jornalismo e Mídia). Com isso espera-se não apenas identificar esta
ausência, mas especialmente indicar teoricamente a importância e necessidade
desse aporte para o enfrentamento das desigualdades que se perpetuam, atra-
vessadas pelas construções de gênero.

Palavras-chave: Jornalismo; Estudos de gênero; Interseccionalidade; Raça-


-etnia; Classe social.
72. Cláudia Lago é professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, vinculada ao Pro-
grama de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da ECA-USP. Email: claudia.lago07@usp.br
73. Evelyn Kazan é mestranda do PPGCOM da ECA-USP. Email: evelynmkazan@gmail.com
74. Manuela Thamani é mestranda do PPGCOM da ECA-USP. Email: manuelathamani@gmail.com

124 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Gênero e jornalismo: ainda uma tênue relação?

Em 2016, Martinez, Lago e Lago apontavam para uma tênue relação


entre os estudos de gênero e os estudos em Jornalismo. Analisando o banco
de dados da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor),
de 2003 a 2014, constataram apenas cinco trabalhos que se referenciavam em
alguma medida no sólido campo dos estudos de gênero. Posteriormente, Lago
e Martinez (2017) analisaram trabalhos publicados de 2014 a 2016 nas revis-
tas A2 da área. Desta feita o objetivo foi ampliar para a Comunicação como
um todo e o foco foi o perfil de pesquisadores/as que se dedicaram à temática.
Neste levantamento, encontraram 13 artigos que se relacionam com os estu-
dos de gênero, envolvendo 17 pesquisadores/as, especialmente das regiões Sul
e Sudeste. Perceberam também a predominância de artigos de alunos/as de
pós-graduação em parceria com orientadores/as, estes/as últimos/as muitas
vezes com pouca trajetória nestes estudos. Significativo também é a presença
de estudos que parecem ser tangenciais aos/as autores/as e não seu foco prin-
cipal de interesse.
Lago e Nonato (2017), analisando novamente a base de dados da SBP-
Jor, desta vez os trabalhos apresentados nas comunicações livres dos congres-
sos anuais da entidade, no período de 2014 a 2016, também apontam para a
pouca presença desta relação entre pesquisa em jornalismo e questões de gêne-
ro. Mais ainda, identificam a quase inexistência, neste ambiente, de pesquisas
que tragam à baila as questões étnico-raciais.
Até aquele momento, portanto, pesquisas sobre a mídia em geral e o jor-
nalismo especialmente, não se detinham de forma significativa em relação às
questões de gênero. Este quase silenciamento tem o efeito de se tornar gritan-
te, se pensarmos que o Jornalismo é uma poderosa “tecnologia de gênero” (DE
LAURENTIS, 1994; BENTO, 2010) que não apenas representa, mas opera
a construção e circulação de representações de grupos, identidades, valores,
com a visibilização de temas e sujeitos e invisibilização de outros. Que constrói
versões naturalizadas de “homem/masculino”, “mulher/feminino”, das sexuali-
dades possíveis e “corretas”, das formas de viver aceitáveis – e as não aceitáveis.
Dos corpos “certos” e dos corpos desviantes, em todas as direções possíveis. E
dos lugares aceitáveis para sujeitos e seus corpos, certos e errados75.
75. Corpos negros, por exemplo, em uma sociedade racista como a nossa, são pouco aceitáveis em inúmeros espaços,
devendo se restringir aos espaços da marginalidade; assim como corpos feminilizados também devem ser contidos –
em que pese que as contenções variam a partir de recortes outros, como raça e classe.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 125


Esta invisibilidade, no entanto, há pouco tempo tem se rompido com a
explosão de pesquisas e do interesse pelos estudos de gênero e sexualidade, em
movimento que os trabalhos anteriores citados já haviam antevisto. A discus-
são furou o telhado de vidro (com o perdão da metáfora) das pesquisas e ga-
nhou amplitude, como pode-se observar, por exemplo, dentro de importantes
congressos da área, que adotam a temática, ou a tangenciam, em seus encontros
anuais (SBPJor 2017 e 2018, Abrapcorp 2018, Intercom 2018). Além disso,
as pesquisas passam a ser visíveis também em periódicos importantes da área,
que ou aderem diretamente ao tema, como a Brazilian Journalism Research,
edição 2018/1, cujo dossiê foi “Gênero e Jornalismo”, ou, ao tratarem temas
relacionados, abrem espaço para as discussões, como a Revista Matrizes, que
no volume 10, número 3, de 2016, traz um tributo a Stuart Hall que discute a
aproximação do feminismo junto aos Estudos Culturais.
Este “boom”, se é que podemos assim denominá-lo, também pode ser
notado nos diversos congressos da área76 que, nos mais variados níveis (da gra-
duação à pós), têm observado um crescente em propostas que entrecruzam
gênero, sexualidades e mídia e especificamente, gênero, sexualidades e jornalis-
mo. Nesse caso, a maioria dos trabalhos parece ser de alunos/as e não de pes-
quisadores/as com carreiras consolidadas, salvo algumas importantes exceções
que há anos dedicam-se ao cruzamento gênero e mídia. Mas esta onda provoca
movimentos nos espaços de pesquisa, estimulando orientadores/as a incorpo-
rar essas perspectivas e obrigando a imersões para manter o diálogo com seus/
as orientandos/as.
Como toda onda, no entanto, esta aponta para um futuro indefinido.
Será que os estudos se consolidarão e ampliarão o escopo teórico-metodoló-
gico, assumindo a necessária relação com os estudos de gênero e sexualidade,
tão importantes em outros campos de pesquisa no Brasil77? Em termos atuais,
qual a feição destes estudos quando realizados em relação com a Comunica-
ção? E com o Jornalismo em particular?
Neste capítulo, pretendemos avançar na resposta à última indagação,
partindo de um pressuposto: o de que as pesquisas são ainda tímidas em abra-
çar certas perspectivas dos Estudos de Gênero e Sexualidade e, especialmente,
bastante incipientes ao incorporar a mirada interseccional, tão cara a estes es-
76. Esta afirmação está ancorada na percepção de uma das autoras (Lago), a partir de sua vivência como organizadora
e parecerista de eventos científicos e publicações. É um tipo de “empiria selvagem”, termo cunhado por Heloisa Buar-
que de Almeida, renomada pesquisadora dos estudos de gênero, que, se não pode ser tomada como dado de pesquisa,
tem sua validade como orientador de percepção e subsídios para hipóteses de trabalho.
77. Para pensar a produção em gênero e sexualidades no país, a partir dos dados da mais antiga publicação devota a
esse campo, a Revista Estudos Feministas, ver Lago e Uziel, 2014.

126 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


tudos atualmente. Apesar de Ann Phoenix e Pamela Pattynama (2006) terem
apontado nos anos dois mil que “interseccionalidade, é certamente uma ideia em
processo de florescimento”, passada mais de uma década, observamos que inter-
seccionalidade ainda é uma perspectiva analítica pouco aprofundada ao que tan-
ge os estudos de gênero no campo da comunicação e do Jornalismo em especial.
Para pensar sobre isso nos debruçamos na produção sobre gênero nos dois
principais periódicos dedicados às pesquisas em Jornalismo (Qualis B1), a Brazi-
lian Journalism Research (BJR), editada pela SBPJor, e a revista Estudos em Jorna-
lismo e Mídia (EJM), editada pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Iniciamos a análise, contudo,
indicando a perspectiva interseccional e o porquê de sua essencialidade.

A perspectiva interseccional

O termo interseccionalidade é atribuído à teórica feminista estaduni-


dense Kimberlé Crenshaw (1989), reconhecida por ter cunhado o conceito
na década de 80. No entanto, a preocupação em interseccionar questões de
gênero e étnico-raciais é bem anterior, sendo um dos seus marcos simbólicos o
ano de 1851, no qual Sojourner Truth, mulher negra, fez seu famoso discurso
intitulado “Não sou eu uma mulher?”, em uma convenção de direitos das mu-
lheres em Akron, Ohio. Com pensamento contundente, ela diz:

Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa
carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas
devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a
subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor
lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu bra-
ço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum
conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e
comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e tam-
bém aguentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a
maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor
de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher? 78

Truth, já naquela época, estabelecia uma linha divisória que evidenciava


que as mulheres, em que pesem serem oprimidas dentro das estruturas patriar-
cais, sofrem opressões de ordens distintas conforme outros importantes mar-
78. GELEDES.Sojourner Truth. Disponível em:<https://www.geledes.org.br/sojourner-truth/>. Acesso em: 24 mai.2018.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 127


cadores sociais. No caso, a raça.
Contextualizando a luta pelos direitos das mulheres, Angela Davis
(2016) reforça que à época do discurso proferido por Truth as mulheres ne-
gras já “aspiravam ser livres não apenas da opressão racista, mas também da
dominação sexista” (DAVIS, 2016, p.70). Ainda em seu debate exploratório
e acadêmico, Davis (2016) nos mostra a evolução das nuances das opressões,
em que apresenta a necessidade de se considerar a intersecção de raça, classe
e gênero para ler e interpretar a realidade. Nessa perspectiva, declara que não
existe hierarquização das opressões, e assim, mesmo sendo marxista, refuta o
pensamento da esquerda ortodoxa, que defende a primazia da questão de clas-
se sobre as demais opressões.
É ampla a contribuição das mulheres negras feministas estadunidenses
para pensarmos as mulheres não como categoria única, e sim partindo de di-
ferentes quadrantes. Esse debate não está, contudo, restrito a pesquisadores
do hemisfério norte. A pensadora feminista brasileira Lélia Gonzalez (1984),
em seu exercício de olhar a interseccionalidade para a construção de narrativas
acadêmicas, nos apresenta uma discussão muito provocativa sobre opressão de
saberes como produto de classificação racial da população. A autora explora
como os privilégios social e racial podem gerar uma produção de conhecimen-
to que é calcada em um racismo estrutural. Ou seja, uma contaminação do
racismo estrutural no que é produzido enquanto reflexão científica sobre a so-
ciedade, promovendo assim problemas epistêmicos.
Gonzalez (1984) refletiu sobre o modo pelo o qual os estereótipos
ocorrem em relação à identificação das mulheres negras na sociedade: mula-
ta, doméstica, mãe preta. E nesse sentido, produz discursos desestabilizadores
da epistemologia dominante, estabelecendo um diálogo com os trabalhos de
Linda Alcoff, que também atua na construção de uma epistemologia contra-
-hegemônica.
Em “Uma epistemologia para a próxima revolução”, Alcoff (2016) realiza
um debate crítico em torno do qual contesta um certo domínio da discursivida-
de ocidental, que vai desconsiderar os conhecimentos das parteiras, o saber mé-
dico dos povos colonizados, e mesmo a própria ontologia dos povos originários,
questionando provocativamente a universalidade deste pensamento:

É realístico acreditar que uma simples “epistemologia mestre” possa


julgar todo tipo de conhecimento originado de diversas localizações
culturais e sociais? As reivindicações de conhecimento universal sobre
o saber precisam no mínimo de uma profunda reflexão sobre sua locali-
zação cultural e social. (ALCOFF, 2016, p.131)

128 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


A perspectiva interseccional aponta para a necessidade de se perceber, em
cada momento ou aspecto analisado, o cruzamento de várias discriminações e
opressões que incidem sobre os sujeitos. O exemplo mais claro, sempre eviden-
ciado, é o das mulheres negras, que sofrem o racismo e o sexismo. Mas outras vias
podem se cruzar nesse processo, como a idade, o local de origem, a sexualidade
– entrecruzamentos que criam realidades muito complexas e que precisam ser
olhados nessa complexidade, sob pena de não se perceber fatores intervenientes
que aguçam a vulnerabilidade dos sujeitos e dos grupos identitários.
A interseccionalidade, definida por Crenshaw (1989) como a interde-
pendência das identidades e relações de poder é uma condição na nossa cons-
tituição como seres humanos. Não somos somente homens ou mulheres, mas
também trans ou cis; idosos, adultos ou jovens; nos encontramos em determi-
nada classe social; entre outras tantas dimensões da diversidade. A definição de
Crenshaw dialoga com Hall (1987), que conceitua esse sujeito que «assume
identidades diferentes em diferentes momentos» como sujeito pós-moderno,
que vai se caracterizar, ainda segundo Hall, por não ter uma identidade fixa.
Parafraseando Beauvoir (1980), com o intuito de desestabilizarmos os
“amadores de fórmulas simples”, a interseccionalidade é elemento fundamental
a ser desenvolvido na práxis e na teoria, se almejamos explicitar as muitas pos-
sibilidades de composição de narrativas dos sujeitos sobre si e sobre o mundo.
Essa é uma perspectiva que pode propiciar a construção de um olhar mais ela-
borado no campo da pesquisa científica. Em seguida, portanto, passamos a
tentar identificá-la no corpus selecionado para análise.

Análise dos artigos na BJR e EJM

Como indicado anteriormente, selecionamos estes dois periódicos por


sua centralidade na publicização das pesquisas em Jornalismo no Brasil. Com
o auxílio das ferramentas de busca dos sites depositários do banco de dados
dos periódicos, pesquisamos o aparecimento da palavra “gênero” em todos os
indicadores de busca no período de 01 de maio de 2015 a 01 de maio de 2018.
Com isso, obtivemos quatro textos na EJM e quatorze textos na BJR. Utili-
zamos apenas a palavra “gênero” porque nos interessava textos que estivessem
realmente colados a essa perspectiva. Dos dezoito textos encontrados em um
primeiro momento, excluímos três por não tratarem de gênero relativo aos

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 129


estudos de gênero, e sim à categorização de tipos de produção jornalística.
Com isto obtivemos um texto na EJM e quatorze textos na BJR. A des-
proporção deve-se ao fato da BJR ter publicado, em abril de 2018, um Dossiê
específico sobre Gênero e Jornalismo, com doze textos. A tabela abaixo indica
os textos e autores/as a publicação e a data e traz um pequeno resumo do texto:
Tabela 1 – Sistematização dos dados

130 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 131
Fonte: As autoras.

Apesar de não ser objeto do texto presente, algumas inferências da ta-


bela podem ajudar a contextualizar o momento. A primeira é a tendência de
crescimento em importância da temática, e o do Dossiê da BJR pode ser perce-
bido como reflexo disso. Apesar da constatação de trabalhos de pesquisadores/
as do nordeste e centro-oeste, e dois internacionais (Portugal e Burkina Faso),
a maioria dos trabalhos é de pessoas do eixo sul-sudeste. Dos 15 trabalhos
analisados, oito são de pesquisadores/as, em carreiras em diversos estágios de
consolidação, que têm desenvolvido pesquisas junto aos estudos de gênero,
enquanto os outros sete são produtos de parcerias entre pesquisadores/as com
aderência ao campo e outros/as, sendo que destes cinco são produtos de rela-
ções de orientação.
A partir da seleção dos textos, realizamos uma leitura exploratória em
cada um deles, buscando perceber as marcas de uma mirada interseccional.
Tendo como horizonte metodológico a análise de conteúdo aos moldes de
Bardin (2011), no entanto não nos detivemos em todos os processos sugeridos
pela autora, basicamente nos restringindo à leitura flutuante que nos permitiu
uma interpretação dos textos a partir de sua lógica interna.
Observa-se que os focos dos artigos são bastante variados, bem como as
construções teóricas e metodológicas postas em circulação. Também são dis-
tintos em sua aderência ao campo dos estudos de gênero, com alguns em bas-
tante diálogo, como o exemplo de Minas de Luta na Mídia: Enquadramentos
e Percepções das Ocupações Escolares em São Paulo, e outros muito pouco, ainda
dentro de uma perspectiva anterior, mais relacionada aos estudos sobre mulhe-
res79, como é o caso do texto O discurso das mulheres fotojornalistas ou ainda
79. Há uma larga bibliografia sobre a construção do campo de estudos de gênero. Martinez, Lago e Lago (2016),
citado, fazem alguns apontamentos nesta direção

132 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


de Gênero e Mídias: autópsia de um jornalismo feminino em Burkina Faso.
Em relação à adoção da perspectiva da interseccionalidade, esta diversi-
dade também aparece com extremos, como o texto Ativismo Digital Materno
e Feminismo Interseccional, que tem a discussão como mote e o uso de biblio-
grafia tradicional destes estudos, contrapondo a textos que ignoram a questão:
Respeita as minas!; Gênero e mídias: autópsia de um jornalismo feminino em
Burkina Faso; A dispersão dos sentidos acerca da “lei anti-homofobia” nos
jornais brasileiros; O discurso das mulheres fotojornalistas. O texto Minas
de luta na mídia, por sua vez, parte da discussão de gênero no contexto da
interseccionalidade e pontua ao analisar a ausência da voz das meninas: “A au-
sência de voz parece ser ainda mais saliente – em razão inversa às situações de
repressão documentadas pela mídia – quanto às jovens negras. Convém lem-
brar que a discussão de gênero, no contexto do qual falamos, deve considerar
a interseccionalidade como importante variável…” (CASTILHO, ROMAN-
CINI, 2018 p. 299), e especialmente no grupo focal, ressaltarem a perspectiva
de estudantes negras e suas falas sobre a invisibilidade. De forma semelhante,
no texto Direitos reprodutivos e jornalismo interroga-se sobre intersecções, como
expresso pelo trecho seguinte, em que se analisa a cobertura da revista IstoÉ: “Em
uma visão geral, é possível classificar a abordagem da revista como positiva
quanto à importância dos direitos civis das mulheres e da igualdade de gênero.
A narrativa é construída sob posicionamentos de mulheres da sociedade, in-
cluindo a temática de raça” (CARDOSO, ROCHA e LIMA, 2018, p.174).
Outros textos, apesar de não se referirem diretamente à bibliografia que
aponta para a perspectiva interseccional, a colocam como um pano (talvez um
véu) de fundo. É o caso de Muita cena e pouca comunicação política?, em que
a perspectiva aparece somente em um momento, e como caráter problemati-
zador da Marcha das Vadias, na menção: “Marcha das Vadias não é consen-
sual entre as feministas...de um lado o feminismo interseccional, de outro o
posicionamento pautado na teoria queer” (PRUDENCIO, RIZZOTTO E
SILVA, 2016, p.97). As autoras não discorrem sobre interseccionalidade para
além dessa constatação da não unanimidade. Ou o caso de “Um Jornalismo Sui
Generis”, em que a intersecção gênero e sexualidade aparece a partir de pro-
blematização explícita no corpus analisado quando, em alguns momentos, as
leitoras lésbicas questionam a revista por voltar-se universalmente ao público
gay, mas, na prática, enquadrar apenas gays homens80, ou seja, evidenciando
80. Em uma discussão que até hoje perpassa o movimento, sobre a pouca visibilidade de outros sujeitos que não ho-
mens gays, e que se expressa, entre outros fatores, na discussão da nomenclatura do próprio movimento atualmente:
LGBT, LGBTQI…

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 133


intersecções outras que, em última medida, desuniversalizam as sujeições. Na
mesma linha, O poder dos media e as políticas públicas, apesar de não se refe-
rir especificamente à bibliografia e nem ampliar a discussão, em certo sentido
aponta para a questão da intersecção quando enfoca a relação sociogeográfica
envolvida no tráfico sexual, ou de O Signo da relação, que, ao abordar sujeitos
em vulnerabilidade, pontua as possibilidades de intersecção, especialmente ao
dar instruções da possibilidade de um tratamento jornalístico adequado a es-
ses sujeitos: “O desejo de exercitar o olhar plural no cotidiano como forma
de compreensão das desigualdades sociais por meio da busca pela diversidade
e pelo cruzamento de diferentes marcadores de diferença (raça/etnia, nação/
localidade, classe social, gênero, geração/idade, deficiência)” (GONÇALVES
e MEDINA, 2018, p. 74). De forma bastante incipiente, por se tratar de um
texto com proposta metodológica, Análise de Categorizações de Pertencimento
nos estudos de comunicação também aponta em direção à perspectiva ao indicar
que “esta perspectiva metodológica é operacional para as pesquisas sobre tópi-
cos como gênero, sexualidade, etnia e identidade” (BRAGA, GASTALDO e
GUIMARÃES, 2016, p.216).
Por fim, temos três artigos que, em comum, problematizam o Jornalis-
mo a partir dos estudos feministas e de gênero e, ao fazer isso, prestam algum
tributo a uma perspectiva ampliada, que pense e pese as possíveis intersecções.
É o caso de Erro, dúvida e jornalismo genereficado, que ao citar Susan Harding
lembra que classe, raça, cultura, crenças e pressupostos de gênero são consti-
tuintes do que o pesquisador apresenta como produto de sua investigação (e,
por extensão, do que o jornalista apresenta). A mesma perspectiva é encontra-
da em Feminino no livro de repórter e em A cultura do estupro entra na pauta. O
primeiro deles – ao enfocar um jornalismo possível a partir de uma objetivida-
de feminista, aos moldes de Haraway (1995), em contraponto à objetividade
androcêntrica do jornalismo ocidental – aponta para a necessidade de pensar
um sistema que preveja a complexidade social (em direção à percepção e res-
peito às diferenças). O segundo, pensando o gênero como categoria analítica e
teórico-epistemológica, frisa a importância de se pensar em outros marcadores
como classe e raça, pois esses “estão articulados a regimes políticos de poder
e saber formulados no âmbito do pensamento dominante, subordinados às
normas sociais hegemônicas até hoje tomadas como ‘naturais’” (STOCKER e
DALMASO, 2018, p.262).

134 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Considerações finais

Este artigo já nasceu se sabendo provocativo. Gênero é assunto amplo e


diz respeito a todas e todos nós. Comporta um leque variado de pessoas que
existem no amplo espaço entre o feminino e o masculino. Ao se interseccionar
com sexualidade, raça, etnia, classe social, faixa-etária e outros marcadores, gê-
nero se configura em um olhar complexo, porém necessário, para o enfrenta-
mento estrutural da nossa sociedade.
Há um crescimento de pesquisas em torno da temática “gênero” e mui-
tas estão efetivamente ancoradas no campo dos estudos de gênero. Mas é ainda
necessário que as/os pesquisadoras/es reconheçam que existem multiplicida-
des nesse objeto de pesquisa, ampliem a mirada interseccional na construção
das narrativas acadêmicas.
Com já mencionado anteriormente, autores/as como Kimberlé
Crenshaw e Stuart Hall são notadamente conhecidos por suas vastas contri-
buições no campo acadêmico, o último especialmente junto à Comunicação.
E tão profícuos como Crenshaw e Hall, há outras mulheres e homens que tra-
balham com a mirada interseccional em suas pesquisas científicas, o que nos
leva a questionar a possível hipótese para a baixa adoção do olhar interseccio-
nal: a inexistência de referencial teórico.
Quando iniciamos nossa pesquisa, tínhamos em mente que a perspectiva
interseccional seria muito pouco explorada nos textos. Na verdade, descobrimos
que ela é ignorada em alguns, mas está como pano de fundo em outros, sem
ser efetivamente trabalhada. E a pergunta inicial, como acontece quando pro-
curamos responder às perguntas, amplia-se: deixar de indagar sobre a presença
da interseccionalidade para pensar nas condições de produção de pesquisas que
olhem para além do que seus pesquisadores/as são capazes de perceber de ime-
diato a partir de seus lugares. Pesquisas que iniciem com o questionamento, por
parte de seus/as agentes, de seu lugar de produção de conhecimento.
Em seu livro Ensinando a Transgredir, a educação como prática da liber-
dade, Bell Hooks (2017), inspirada por Sandra Bartky, reflete sobre o comporta-
mento feminista: “para ser feminista é preciso antes se tornar feminista”. Pensar
questões de gênero ou até mesmo lamentar a condição da mulher não vai signi-
ficar expressão de consciência feminista. É necessária uma mudança de compor-
tamento para conseguir se aprofundar no assunto. Tal provocação nos inspira e
nos leva a uma segunda hipótese: para ter uma mirada interseccional, é preciso

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 135


antes tornar-se interseccional? Isto é, há um processo para a construção dessa
identidade que refletirá nas atitudes de pesquisa? E o que seria esse processo?
Estas perguntas estão por ser respondidas. Mais ainda, estão por ser co-
locadas como inquietações que ajudem a produzir pesquisas que não fechem
os olhos para a complexidade do mundo social. Esperamos, com este texto, ter
contribuído para situar e reforçar este incômodo.

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140 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Uma transexual na Superliga feminina de vôlei:
representações de gênero no telejornalismo esportivo

Andréa Corneli ORTIS81


Lauren Santos STEFFEN82
Mariana Nogueira HENRIQUES83
Flavi Ferreira LISBÔA FILHO84
Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS

Resumo

O capítulo tem o objetivo de analisar como a atleta Tifanny Abreu, primei-


ra transexual na liga profissional de vôlei do país, foi representada em duas
reportagens exibidas nos programas Esporte Espetacular, da Rede Globo,
em janeiro de 2018, e Esporte Fantástico, da Record, em fevereiro do mes-
mo ano. Para operacionalizar os conceitos de representação e gênero, utili-
zaremos como aporte teórico os Estudos Culturais e, como metodologia,
a análise do discurso de linha francesa para identificar os sentidos constru-
ídos nas duas reportagens. Como resultados, foram encontradas três regi-
ões de sentido dominantes: a) biologização, b) normatização e c) receio.

Palavras-chave: Estudos Culturais; Representação; Gênero; Telejornalismo esportivo.

Introdução

Os estudos de gênero e jornalismo vêm ganhando cada vez mais repre-


sentatividade na atualidade, colocando em análise objetos de estudo diversi-
81. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria. Graduada
em Comunicação Social – Jornalismo pela UFSM. Membro do Grupo de Pesquisa Estudos Culturais e Audiovisua-
lidades. E-mail: ortis.andrea@gmail.com.
82. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria. Gradu-
ada em Comunicação Social – Jornalismo pela UFRGS e em Letras - Português/Inglês pela PUCRS. Membro do
Grupo de Pesquisa Estudos Culturais e Audiovisualidades. E-mail: lauren.ssteffen@gmail.com.
83. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria. Gradu-
ada em Comunicação Social – Jornalismo pela UFSM. Membro do Grupo de Pesquisa Estudos Culturais e Audiovi-
sualidades. E-mail: mari.nhenriques@gmail.com
84. Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria.
Orientador do trabalho e líder do Grupo de Pesquisa Estudos Culturais e Audiovisualidades. E-mail: flavi@ufsm.br

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 141


ficados e problematizando as representações midiáticas de gênero enquanto
fonte de poder e de dominação. Os efeitos provenientes ultrapassam a esfera
simbólica e podem ser sentidos na forma de desigualdades sociais cotidianas.
No âmbito esportivo, novas questões tensionam as divisões fortemente demar-
cadas entre feminino e masculino, presentes nas categorizações das equipes,
provocando discussões sobre o uso de critérios biológicos para tais definições.
Para contribuir com os estudos nesse campo, este trabalho tem o ob-
jetivo de analisar como a atleta Tifanny Abreu, primeira transexual na liga
profissional de vôlei do país, foi representada em duas reportagens exibidas
nos programas Esporte Espetacular, da Rede Globo85, em janeiro de 2018, e
Esporte Fantástico, da Record86, em fevereiro do mesmo ano. Tifanny dispu-
tou a Superliga feminina de vôlei em 2017, fato que gerou polêmica devido as
suas possíveis vantagens biológicas em relação às outras colegas de equipe. Para
operacionalizar os conceitos de representação e gênero, utilizaremos como
aporte teórico os Estudos Culturais. Quanto à metodologia, faremos uso da
análise de discurso de linha francesa para identificar os sentidos construídos
nas duas reportagens. Como resultados, foram encontradas três formações
discursivas: a) biologização, b) normatização e c) receio, as quais revelam as
regiões de sentido dominantes presentes no discurso telejornalístico.

O conceito de gênero pelo viés dos Estudos Culturais

O campo dos Estudos Culturais emergiu em meados da década de 1950


e tem como objetivo central compreender os espaços e as condições nos quais
a cultura se forma, transforma, produz e se reproduz, dando voz aos grupos
sociais até então discriminados ou ocultados. Essa ampliação do conceito de
cultura valida, então, as variadas formas de expressão e ratifica a abordagem
crítica e interdisciplinar do campo, que entende e analisa a cultura como um
campo de conflito e negociação de formações sociais de poder e atravessadas
por tensões relativas à classe, gênero, raça e sexualidade. Os movimentos femi-
nistas, por exemplo, concederam vasto material aos Estudos Culturais e seus
temas foram incorporados aos debates sobre gênero na década de 1970.
Entretanto, cabe destacar que mesmo que os estudos de gênero tenham
aparecido no contexto dos Estudos Culturais apenas nos anos 1970, as preo-
85. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jKVRJgdkYsY>. Acesso em: 14 mai. 2018.
86. Disponível em: <https://esportes.r7.com/esporte-fantastico/videos/desempenho-de-tiffany-a-primeira-atleta-
-trans-do-volei-profissional-brasileiro-causa-polemica-21022018>. Acesso em: 14 mai. 2018.

142 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


cupações em torno do tema são anteriores e se relacionam com a emergência
do movimento feminista nos anos 1960. Durante muito tempo, sexo foi con-
siderado o mesmo que gênero, disseminando o chamado determinismo biológi-
co, uma compreensão que se sustenta nas diferenças biológicas entre homens e
mulheres para justificar o fato de a mulher ser considerada inferior ao homem
por ser o seu oposto, o sexo frágil (BEAUVOIR, 1980). Dessa forma, pode-se
afirmar que estudar gênero fez com que inúmeras lutas por igualdade fossem
travadas na sociedade. Essas lutas, também conhecidas como ondas feministas,
aconteceram em quatro etapas, porém, interessa-nos, aqui, dar foco à terceira
onda, que teve início nos anos 1990. Nesse período, o movimento feminis-
ta reivindicava que o gênero também fizesse parte da constituição do sujeito.
Compartilhava a ideia de que não existia uma identidade fixa e estável e que
essa deveria ser articulada ao reconhecimento de diferenças entre as mulheres e
que não pode ter um sentido completamente unificado. Reconhece-se, agora,
que não existem valores universais ao redor da figura da mulher e, dessa for-
ma, os enfoques devem ser individualizados e pensados para além do binômio
homem-mulher.
É nessa onda que teóricas como Judith Butler, Monique Wittig, Angela
Davis e Julia Kristev começam a buscar uma total desnaturalização do gênero,
afirmando que este é construído por dispositivos de poder, discursos médicos,
legais e sociais. No Brasil o tema começou a ser debatido recentemente e um
dos principais nomes é Berenice Bento que, na mesma linha das teóricas an-
teriores, questiona e refuta um sistema binário que “produz e reproduz a ideia
de que o gênero reflete, espelha o sexo e que todas as outras esferas constituti-
vas dos sujeitos estão amarradas a essa determinação inicial” (BENTO, 2008,
p.17).
Entretanto, cabe dizer que a inclusão da transexualidade nos debates
feministas ainda gera polêmica. Há correntes que defendem que mulheres
trans, são, de fato, homens e que roubariam o lugar das mulheres – nascidas
mulheres (cisgênero) - dentro do movimento. Outra linha argumenta que, por
nascerem homens, não teriam vivido a experiência de ser mulher da mesma
forma que as outras mulheres, já que, em algum momento da vida, tiveram
um “nível de privilégio masculino” (ALMEIDA, 2017). Ou seja, permeia por
entre esses grupos uma espécie de lógica legitimadora e diferenciadora entre
as performances das mulheres biológicas das transexuais. Para Bento (2008,
p. 48), “é a legitimidade que as normas de gênero conferem a cada uma delas,
instaurando, a partir daí, uma disputa discursiva e uma produção incessante de

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 143


discursos sobre a legitimidade de algumas existirem e de outras serem silencia-
das e eliminadas”.
Por outra via, é importante pensarmos a questão da transexualidade à
luz da terceira onda. Essa fase, como já destacado, ressalta a existência de di-
ferentes formas de ser mulher, relacionadas à vivência de cada uma delas. A
partir disso, negar que o debate da transexualidade faça parte das lutas feminis-
tas, por acreditar que essas mulheres possuem uma experiência diferente das
“demais mulheres”, é dizer que existe uma experiência comum de ser mulher.
Ideia essa justamente combatida pela terceira onda, que defende os diversos
marcadores sociais que nos diferenciam como mulheres. Dessa forma, o que
se sugere, agora, é que pensemos em um transfeminismo, “um movimento de
e para mulheres trans que entendem que a sua liberação está intrinsecamente
ligada à liberação de todas as mulheres e além” (KOYAMA, Emi, 2011, p.1,
tradução nossa). Ou seja, trata-se de um pensamento que vá, efetivamente,
além de corpos masculinos ou femininos.

Representações de gênero no telejornalismo esportivo

A partir do momento em que os Estudos Culturais se debruçam sobre


as dinâmicas, as vivências cotidianas e as significações dos mais diversos grupos
sociais, torna-se importante compreender os processos e produtos culturais
daí advindos, suas representações e produção de sentidos. Nesse contexto, o
telejornalismo esportivo é uma das instâncias responsáveis por construir uma
imagem da realidade a milhões de brasileiros, narrando modos de existência
através de sons e imagens que têm uma participação significativa na vida das
pessoas, uma vez que pautam, orientam, interpelam o cotidiano dos telespec-
tadores, participando da circulação e consolidação de definições e representa-
ções ideológicas dominantes.
Neste contexto, certos elementos são constantemente reiterados nos
telejornais para retratar identidades de gênero, constituindo-se um quadro
de referência comum compartilhado. Tais construções podem operar como
lugar de reforço de estigmas, atuando para a permanência de estereótipos e
preconceitos por meio de estratégias de redundância (SOARES, 2010). As-
sim, o meio segue o modelo que lhe interessa para manter a estrutura de poder
e anula todos os que rompem ou tentam romper com o modelo social do-
minante. Por isso, o estudo do telejornalismo esportivo torna-se central para
as discussões acerca das representações de gênero, uma vez que se reconhece

144 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


“a capacidade de pôr em marcha processos de identificação que reforçam o
sentido de identidade do indivíduo, quer dizer, sua consciência de pertencer
a uma determinada categoria social ou comunidade” (CASETTI; CHIO,
1999, p.320, tradução nossa). Dessa forma, diante do espaço privilegiado do
telejornalismo esportivo para construir, atualizar e reforçar determinadas re-
presentações, é fundamental perceber quais elementos são reiterados nas nar-
rativas midiáticas no que diz respeito às simbologias de gênero, operando na
construção de expectativas e pressões quanto às características relacionadas a
homens e mulheres.
Nesse contexto, compreender o conceito de representações midiáticas
torna-se fundamental, já que os entendimentos acerca da construção de sen-
tidos sobre Tifanny Abreu passam pela representação dada a ela. O conceito
de representação social foi primeiramente proposto por Durkhein, em 1898,
no mesmo sentido de representações coletivas, ou seja, categorias de pensa-
mentos que determinada sociedade elabora e expressa de sua realidade, tendo
seu surgimento relacionado a fatos sociais (MINAYO, 1995), pois, no século
XX, as sociedades contemporâneas, caracterizadas pela fluidez e intensidade
das trocas comunicativas, têm na mídia um forte vetor de (re)produção dessas
representações sociais. Os meios são mais que apenas difusores de informação,
mas também “são responsáveis pela produção dos sentidos que circulam na
sociedade” (MORIGI, 2004, p. 3). Sendo assim, o que agora chamamos de
representações midiáticas são os modos pelos quais a mídia, através de seus
discursos, palavras, mensagens e símbolos, elabora seus textos verbais ou não-
-verbais e produzem sentidos sobre uma dada coletividade, buscando, desse
modo, trazer nos produtos midiáticos as formas como os grupos sociais se
identificam, pensam as suas relações e se organizam em sociedade.
Ao pensarmos as representações midiáticas relacionadas ao telejorna-
lismo esportivo, podemos perceber, de modo geral, casos expressivos de pre-
conceito em relação ao gênero e à homossexualidade, ainda sendo vista como
tabu pela maioria dos jogadores de futebol, por exemplo. São raros os casos
em que atletas se sentem à vontade para tornar pública a sua identidade de
gênero com medo de represálias de colegas e da violência nas ruas. A hete-
ronormatividade é o padrão esperado e aceito dentro do esporte, criando um
estereótipo machista relacionado com a força e a virilidade do homem. Tais
demarcações parecem ter o objetivo de purificar o esporte, reservando ape-
nas aos heterossexuais a chance de participação, já que a constatação de que
existem homossexuais em campo parece constituir uma marca negativa, o que

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 145


escancara o ambiente machista e misógino que ainda hoje atravessa a prática
esportiva. Se pensarmos esse cenário em relação a pessoas trans, a problemática
é ainda maior.
É com base nessa realidade que inserimos nossa pesquisa ao buscar
analisar as simbologias de gênero construídas no discurso telejornalístico
sobre uma atleta trans. A Análise de Discurso, nesse sentido, irá fornecer as
bases metodológicas para mapearmos os sentidos e os silenciamentos presen-
tes na narrativa telejornalística.

Análise de discurso

A Análise de Discurso (AD) procura compreender como a linguagem


cria sentidos, enquanto trabalho simbólico constitutivo do sujeito e de sua
história. Segundo Eni Orlandi (2009), essa mediação, que é o discurso, torna
possível tanto a continuidade quanto o deslocamento do sujeito e da realidade
em que ele vive. O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da
existência humana.
O jornalismo narra a sociedade para a própria sociedade por meio de
um texto construído a partir de elementos exteriores ou anteriores, como a
história, o senso comum e a cultura. Assim, a análise de discurso não considera
a linguagem transparente, ou seja, não crê na imanência do sentido. Ela não
procura identificar qual o sentido do texto, mas se pergunta como determina-
do texto significa. Ela produz um conhecimento a partir do próprio texto, pois
o vê como tendo uma materialidade simbólica, uma espessura semântica: ela o
concebe em sua discursividade (ORLANDI, 2009).
Um dos pontos de partida da análise é a identificação das formações
discursivas (FDs), ou “uma espécie de região de sentidos, circunscrita por um
limite interpretativo que exclui o que invalidaria aquele sentido” (BENETTI,
2007, p. 112). Portanto, as formações discursivas materializam formações ide-
ológicas, as quais estão intrinsecamente relacionadas com a ordem da história.
Este trabalho utilizará a Análise de Discurso como metodologia, porque
ela se aplica no propósito de identificar sujeitos, desvendar sentidos e analisar
linguagens. A análise de discurso se enquadra em nosso objetivo de pesquisa
ao considerar o telejornalismo esportivo e o produto televisivo como formas
de produção de conhecimento que, através da linguagem, criam, reproduzem
e transportam sentidos.

146 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Formação de sentidos

A partir da análise crítica das duas reportagens exibidas nos programas


Esporte Espetacular, da Rede Globo, e Esporte Fantástico, da Record, sobre a
atleta Tifanny Abreu, primeira transexual na liga profissional de vôlei do país,
encontramos três formações de sentido (FDs) dominantes: a) biologização, b)
normatização e c) receio. As formações discursivas serão exemplificadas por se-
quências discursivas, que estão transcritas de forma literal, mantendo os traços
da língua falada. Já as partes destacadas em negrito são os sentidos dominantes
(SDs) que justificam as formações discursivas encontradas na análise.

a) Biologização
A primeira formação de sentido encontrada nas duas reportagens re-
laciona-se às características biologizantes que são acionadas por repórteres e
entrevistados, principalmente, como forma de oposição à presença de Tiffany
em quadra. Neste ponto, existe uma forte demarcação de binaridade de gê-
nero, opondo traços masculinos e femininos, principalmente relacionados a
características biológicas da estrutura corporal.
Cabe observar, em um primeiro momento, que em ambas as reporta-
gens existe a intenção de sinalizar a mudança de sexo da atleta e de destacar,
em variadas oportunidades, o nome de nascença de Tiffany – o qual ela mesma
não gosta de mencionar – como uma forma de relembrar que em uma época
era homem e depois virou mulher. Exemplo disso é quando, no Esporte Espe-
tacular, a jornalista Fernanda Gentil apresenta a reportagem: “Tiffany Pereira
de Abreu, 33 anos, nasceu Rodrigo”. No Esporte Fantástico, essa construção se
dá por parte do locutor da reportagem que diz: “Já com um visual feminino,
Rodrigo continuou atuando em equipes masculinas”. Além disso, nesse mes-
mo programa, a demarcação da mudança de sexo ainda vem acompanhada de
uma subjugação do feminino, induzindo a pensar que Tifanny só é uma boa
jogadora feminina porque antes era um homem – ideia essa visível na frase da
apresentadora do programa, a jornalista Mylena Ciribelli: “A jogadora de vôlei
Tiffany mudou de sexo, mas ela vem se destacando dentro das quadras bra-
sileiras e aí já viu né... tá sendo cotada pra atuar dentro da seleção feminina”.
Ademais, o uso da conjunção adversativa “mas” indica que apesar dela ter mu-
dado de sexo, ela vem se destacando, criando uma relação de interdependência
entre os dois fatos.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 147


Outro aspecto bastante presente é a marcação da idade em que Tiffany fez
a transição. No Esporte Espetacular, essa formação aparece na fala da entrevistada
Karina Hatano, mestre em medicina esportiva: “Quanto mais tarde se fizer o
tratamento hormonal para mudança de sexo, mais vantagens esse atleta vai
apresentar, porque a ação da testosterona ela vai fazer com que tenha todas essas
formações diferentes do homem, como aumento da massa muscular, aumento
do número de células vermelhas, do coração e, consequentemente, quanto mais
tarde se fizer a cirurgia, o legado dessa testosterona vai ser maior pra atleta.”
No Esporte Fantástico, essa ideia está presente na fala de Ana Paula, ex-jogadora
da seleção brasileira de vôlei: “A Tiffany fez a transição já quando todas as be-
nesses do hormônio masculino já estavam instaladas e finalizadas no corpo
do Rodrigo”. Esse argumento é o principal utilizado para questionar a presença
da jogadora em quadra, com uma ideia bastante essencialista de que, se ela nas-
ceu como um homem, sempre será um homem.
Junto a isso, em diversos momentos das duas reportagens, a diferença
homem x mulher é trazida com força e isso se dá, principalmente, na fala de
outras atletas ao serem questionadas sobre a presença de Tiffany nas quadras.
No Esporte Espetacular, essa ideia aparece na fala de Paulo de Tarso, técnico
do Pinheiros, quando diz “O que a gente quer é que seja analisado porque
existe uma diferença” e também na da jogadora Malu, do Brasília: “Ela é uma
atacante muito forte. Ela se sobressai em alguns momentos sim. Não sei se
tem a ver porque foi homem ou não foi”. No Esporte Fantástico, a marcação
da diferença é ainda mais clara. Ana Paula apresenta-se fortemente contrária
à participação de Tiffany nos jogos com base na biologia: “A puberdade dela
inteira, ela se desenvolveu como sexo masculino. Não é homofobia, é fisio-
logia”. A mesma atleta também afirma que “essa pauta é uma falsa inclusão
que exclui mulheres”. Ou seja, o que está sendo dito é que Tiffany poderia
roubar o espaço das atletas mulheres. Jaqueline, jogadora do Barueri, também
destaca que “a força física que é muito diferente da nossa”. Esse mesmo tele-
jornal ainda apresenta o trecho de uma matéria de um jornalista italiano que
afirma: “Um furacão de músicos e poder, mais perto de seu passado recente
como homem do que seu presente como mulher”. Destacando, mais uma
vez, a construção opositiva e binária de homem e mulher.
Por fim, o que ainda é possível observar é que em nenhum momento
das reportagens foi trazida, em uma perspectiva científica, de que forma os
hormônios atuam no corpo de Tiffany. São apresentados dados, números e
legislações, entretanto, é sabido que a hormonização acarreta uma série de al-

148 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


terações que estão além apenas da questão físico-corporal. Essa abordagem se
dá apenas através de falas da própria jogadora como uma forma de defesa da
sua permanência nas competições. No Esporte Espetacular, Tiffany afirma que
“se eu tivesse a força que eu tinha antes, se eu tivesse o voleibol que eu tinha
antes, realmente, eu não tinha coragem de estar aqui porque eu ia machucar
uma pessoa, mas hoje eu posso atacar o forte que for porque eu não ma-
chuco ninguém do outro lado. Porque eu tenho uma força de mulher forte,
nada mais que isso”. No Esporte Fantástico, a atleta ainda relata algumas alte-
rações físicas que sente: “Uma coisa que se nota muito é o cansaço físico. Eu
necessito dois dias a mais que as meninas pra descansar e eu canso muito
mais rápido que elas. Não tenho muito físico por causa da hormonização
e cirurgia. Depois que você faz a cirurgia, você muda, você se adapta, você
vira totalmente uma mulher, então eu não consigo mais jogar como antes”.
Na fala da atleta, é possível perceber que, além de todas as mudanças físicas,
há também aspectos psicológicos que não são abordados nas construções das
reportagens.

b) Normatização
A segunda formação de sentido encontrada em ambas as reportagens
corresponde ao posicionamento do repórter e entrevistados perante as normas
e questões técnicas que autorizam Tifanny a jogar voleibol. Podemos perceber,
nas duas, que as opiniões se dividem: há àqueles que creem que a atleta está
dentro dos padrões impostos e, também àqueles que acreditam que Tiffany é
dotada de uma força maior e que não está sendo testada como deveria.
Na reportagem veiculada pelo programa Esporte Espetacular, da Rede
Globo, percebemos, inicialmente, que é o próprio repórter, Anselmo Capa-
rica, quem deixa claro que a jogadora não é páreo para disputar a Superliga
Feminina, já que, seu desempenho é superior ao das outras atletas: “Em cinco
jogos, foram 115 pontos, média de 23 por partida, desempenho superior ao
da oposta Tandara, do Osasco e da Seleção Brasileira, maior pontuadora da
competição, com média de 20 pontos”.
O repórter, em contraponto ao afirmado anteriormente, tenta amenizar
o fato de a jogadora ser a maior pontuadora da competição por ter nascido
homem, e traz dados do Comitê Olímpico Internacional, o COI, como forma
de comprovar que a atleta está dentro dos padrões: “Segundo o Comitê Olím-
pico Internacional (COI), não é necessário fazer a cirurgia de mudança de
sexo para disputar competições femininas. Basta ter um nível de testosterona

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 149


abaixo de 10 nanomol por litros de sangue. Tifanny tem apenas 0,2 na-
nomol”. Ainda, finaliza afirmando: “É uma atleta testada regularmente. Ou
seja, está dentro das regras”. Portanto, há dois momentos que demarcam o
posicionamento do repórter: um de que Tifanny Abreu é dotada de mais força
que as demais jogadoras por ter nascido, biologicamente, como homem; e o
segundo que, apesar desse fato, ela está seguindo as regras impostas pelo COI.
Já na reportagem exibida pelo programa Esporte Fantástico, da Record,
as mesmas marcas são encontradas. No entanto, nesta, há forte presença de
entrevistados que são contrários à presença de Tifanny Abreu na Superliga
Feminina, deixando claro que a atleta não poderia estar participando do cam-
peonato. O repórter Mauro Júnior, como forma de aproximar-se dos(as) te-
lespectadores(as), fala diretamente com quem está assistindo e, traz a seguinte
frase: “Pra você ter uma ideia, esta semana na derrota do Bauru para o Praia
Clube por 3 sets a 2, com 39 pontos no jogo, a Tifanny bateu a marca de uma
atleta consagrada na Superliga. O recorde anterior de 37 pontos pertencia a
Tandara, do Osasco”. Ou seja, o repórter traz uma informação que confirma o
fato de Tifanny ser mais forte que as restantes, afinal, ultrapassou a marca de
outra atleta.
O repórter, a exemplo de Anselmo Caparica na matéria do Esporte Es-
petacular, também traz a legislação do COI para comprovar que a jogadora
está, afinal, autorizada a disputar o torneio: “A legislação do COI diz que uma
atleta transgênero está autorizada a disputar competições de alto rendimen-
to entre mulheres desde que a quantidade de testosterona, o hormônio mas-
culino, não passe de 10 nanomol por litro de sangue, no período de um ano
antes da competição”. Portanto, ao mesmo tempo em que tentam demonstrar
que Tifanny está burlando as regras, trazem a legislação para confirmar o con-
trário, que ela está, de fato, apta a jogar. Afinal, Mauro Júnior afirma: “Para
comprovar isso às autoridades, Tifanny teve que apresentar vários exames”.
Na tentativa de dar espaço às outras jogadoras, a equipe entrevista a ex-
-jogadora Ana Paula que apela para suas experiências pessoais como forma de
demonstrar que a atleta não está recebendo o mesmo tratamento que ela, bio-
logicamente mulher, teve ao longo de sua carreira: “No meu primeiro teste de
dopping eu tinha de 16 pra 17 anos e fui testada durante 24 anos da minha
carreira. Ou seja, o parâmetro que foi altamente rigoroso pra mim durante
toda a minha vida, ele foi abandonado pra Tifanny”.
A contribuição da endocrinologista Elaine Costa também foi trazida
na tentativa de comprovar que a jogadora não está no lugar certo: “O nível

150 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


de testosterona pra medir, como critério pra inclusão de transexuais, de
pessoas trans em times, não é parâmetro. Eu acredito que ela tenha vanta-
gens, a começar pela altura”. Ou seja, as marcas presentes na fala da especia-
lista deixam claro que não basta somente medir o nível de testosterona, afinal,
há outras vantagens presentes no corpo de Tifanny, como a altura.
A fala da especialista em relação à altura da jogadora é a deixa para que
o repórter Mauro Júnior traga algumas regras em relação à rede usada nas
competições: “Se a comparação for em relação à altura da rede, faz sentido.
Os homens jogam com a rede a dois metros e quarenta e três centímetros do
chão. As mulheres, a dois metros e vinte e quatro, dezenove centímetros a
menos”. Assim, reafirma o pensamento da endocrinologista de que, de fato,
Tifanny possui uma vantagem referente à sua altura, afinal, a rede em que joga
atualmente possui 19 centímetros a menos que a masculina.
Portanto, através dessas marcas de sentido percebemos que a maioria
das falas destacadas, sejam elas de entrevistados ou dos próprios repórteres,
reafirmam o preconceito pelo qual Tifanny Abreu vem sofrendo desde que
passou a atuar na renomada competição.

c) Receio
A terceira formação discursiva encontrada por meio da análise crítica
das duas reportagens diz respeito ao posicionamento das fontes entrevistadas
com relação à autorização concedida a Tifanny para jogar em uma liga femi-
nina de vôlei no Brasil. Os entrevistados, na maioria das vezes, demonstraram
receio em manifestar uma opinião sobre o caso, seja positiva ou negativa. As
respostas evasivas sugerem que os entrevistados buscaram se isentar de respon-
sabilidade sobre o caso, relegando a outros órgãos e entidades a função de de-
cidir se Tifanny deveria ou não jogar.
Na reportagem que foi ao ar no programa Esporte Espetacular, a fala
do médico João Grangeiro, presidente da Comissão Nacional de Médicos de
Vôlei (CONAMEV), mostra que nem mesmo o presidente de uma comissão
médica especializada no assunto optou por deixar claro seu posicionamento,
mostrando que apenas seguiu passivamente uma diretriz do Comitê Olímpico
Internacional, usando-a como desculpa para não se posicionar: “O que a CO-
NAMEV, na realidade, levou em consideração pra que a CBV pudesse liberar
a atleta foi tão somente a diretriz do Comitê Olímpico Internacional”.
Paulo de Tarso, técnico do clube Pinheiros, também evidenciou no seu
discurso, por meio da repetição do pronome “ninguém”, o reforço de que não

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 151


existe nenhum posicionamento, como se sustentar que ele não é “nada” o dei-
xasse em uma posição neutra, ignorando o fato de que se omitir também é, de
certo modo, uma forma de posicionamento: “O que a gente quer é que seja
analisado esse tipo de diferença. Foi só isso. Ninguém é contra, ninguém
é transfóbico, ninguém é homofóbico, ninguém é absolutamente nada”. Já
Tandara, jogadora do Osasco, terceiriza a responsabilidade, explicando que
quem deve opinar são os especialistas, demonstrando, mais uma vez, o receio
de dar sua opinião não só como jogadora, mas como mulher e ser humano: “É
de encher os olhos sim, com certeza, pela atitude, pela coragem dela, né. Mas,
assim, eu deixo pra que os fisiologistas, os especialistas, que sabem real-
mente disso, que eles se manifestem”. Essa mesma atitude aparece na fala
de Paulo Coco, técnico do Praia Clube, colocando apenas que essa questão
deveria ser mais discutida pelos órgãos responsáveis: “Os órgãos que regula-
mentam o esporte, no caso, o Comitê Olímpico Internacional e a Federação
Internacional, acredito que devam rever, discutir mais, essa normatização”.
A jornalista Fernanda Gentil, apresentadora do programa, mostra em
sua fala que o receio levou ainda muitos profissionais ligados ao esporte a si-
lenciarem diante da temática, deixando de aproveitar o espaço em uma emis-
sora de audiência nacional para trazer à tona um debate fundamental para a
sociedade democrática atual: “Olha, vários profissionais do vôlei procura-
dos pela nossa produção evitaram a polêmica e não quiseram falar. (...)
Também não quiseram opinar o técnico do Osasco, Luizomar de Moura, e
do Rio de Janeiro, Bernardinho. As jogadoras da Seleção Thaísa, Gabizinha e
Vanessa, além da ex-líbero da Seleção, Fabi, também não”.
Na matéria exibida no programa Esporte Fantástico, da Record, também
é possível encontrar a mesma região de sentido na fala dos entrevistados: re-
ceio de opinar, medo de defender um posicionamento. José Roberto Guima-
rães, técnico da Seleção feminina de vôlei, usa uma sequência de orações con-
dicionais para dizer, por fim, que não há problema no fato de Tifanny jogar,
desde que respeitadas tais condições: “Se ela for aprovada pra jogar, se ela
tiver condições, eu não vejo problema nenhum”. Além disso, usa verbos vagos
para se posicionar, dizendo que não cabe a ele decidir, mas tampouco deixa
claro quem deve emitir um parecer sobre o assunto: “Acho que o importante
é pensar no trabalho da seleção daqui a pouco, ver como as coisas vão acon-
tecer, e deixar pra que as pessoas que tenham capacidade pra essa decisão
que decidam”.
Mesmo quando há um posicionamento contrário em relação à autoriza-

152 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


ção concedida à jogadora, sempre há um atenuante no final, evitando a demar-
cação muito pesada de uma posição sobre o assunto. Na fala da jogadora Tan-
dara, essa tentativa de suavização fica clara: “Hoje eu não concordo pelo fato
de ela participar numa Superliga feminina. Não é nem pelo fato de tirar o es-
paço de outras jogadoras que estão chegando ou ameaçar quem tá chegando. É
muito delicado isso”, bem como na fala de Ana Paula, ex-jogadora de vôlei: “A
gente já escuta que no mercado existem agentes esportivos oferecendo atletas
trans que estão aptas já pra atuarem no vôlei feminino. É muito preocupante”.
Tais adjetivos auxiliam a demarcar que o assunto é um tema polêmico, sobre o
qual, mesmo havendo uma opinião contrária, há o medo do julgamento social
de serem classificadas como pessoas preconceituosas. Outra atleta entrevistada
foi Érika, do Barueri, que adotou o mesmo posicionamento, deixando para a
ciência o papel de estabelecer o consenso e definir o futuro de Tifanny, eximin-
do-se de tomar partido de um dos lados. A ciência é, assim, o discurso de poder
evocado para definir o correto, o justo, o aceitável na sociedade: “Eu desejo só
pro ser humano Tifanny boa sorte, que ela consiga, né, fazer aquilo que ela ame
dentro da lei, dentro daquilo que for justo. E o resto depois os médicos ou
quem estuda, cientista, não sei, que podem falar”. Thaísa, atleta do Barueri,
através do uso de orações condicionais sequenciadas, também relega à ciência
a responsabilidade de decidir, apelando a uma entidade abstrata para se eximir
de dar um posicionamento, como se o que a ciência decidir deve ser acatado
sem possibilidade de resistência ou contestação social: “Se os médicos estão
dizendo que ela pode, que ela tem condição e que tá dentro dos critérios,
então ela tá dentro dos critérios. Paciência, tenta bloquear ela e defender”.
José Elias, preparador físico da seleção, também fala em “determinações
científicas”, “investigações” e “parâmetro”, usando uma linguagem científica
em uma tentativa de aproximar o seu discurso de uma neutralidade ilusória:
“Como nós somos regidos pelas determinações científicas, então mais in-
vestigações são necessárias, né. Enquanto isso, o parâmetro que define dá
o direito à pessoa de continuar jogando”.
O receio de se posicionar, evidenciado por meio do silenciamento, da
terceirização da responsabilidade e do uso de expressões evasivas, não deixa
de ser, no entanto, uma forma de posicionamento, que, em vez de estimular o
debate crítico sobre o assunto, contribuindo para dar mais visibilidade para as
questões de gênero na esfera pública, apenas reforça ainda mais a marginaliza-
ção do tema, dificultando o diálogo com a sociedade e o direito à informação
de qualidade.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 153


Considerações finais

Esse trabalho evidencia a necessidade de se pensar as interseccionalida-


des de nossas lutas e as vivências de feminilidade tanto das mulheres cisgênero
quanto das mulheres trans, para que possamos voltar a ter como foco de nos-
sas lutas o desmantelamento do patriarcado, a proteção dos corpos sexuados
e subalternizados. Como afirma Berenice Bento (2008), a transexualidade é
uma experiência identitária caracterizada pelo conflito com as normas de gê-
nero existentes. Como vimos, existe uma regra: homem e mulher, masculino
e feminino, pênis e vagina, só que toda regra possui uma exceção, e essas são,
justamente, as pessoas transexuais.
Precisamos contestar as representações que estão em circulação, cons-
truindo definições alternativas, já que, por mais completa que seja uma repre-
sentação, ela sempre deixará algo à margem e, portanto, sem reconhecimento.
Nesse sentido, o telejornalismo esportivo pode contribuir para dar visibilidade
a outras representações de gênero, refletindo sobre como é possível dar conta
da complexidade de representar tais identidades. Como jornalistas, devemos
buscar novas estratégias narrativas, pautas diferenciadas, sujeitos marginaliza-
dos para contar essas histórias de forma diferente, para mostrar o outro lado,
para dar voz a quem nunca é ouvido. Tornando visíveis sujeitos que diariamen-
te são marginalizados pela sociedade, poderemos contribuir para fortalecer va-
lores essenciais no mundo democrático atual: o respeito e a solidariedade.
É essencial ultrapassar o discurso repetitivo e estereotipado, descons-
truir preconceitos, avançar para debates mais complexos e dar abertura para
reflexões políticas, sociais e econômicas em torno do esporte a fim de poder-
mos cumprir o papel social do jornalismo com o interesse público e mostrar o
potencial do esporte como catalisador social, promotor da cidadania e cons-
trutor da criticidade. É preciso pontuar ainda a autonomia do telejornalismo
esportivo em construir representações que não só reforçam a ideologia domi-
nante, mas também silenciam e atualizam fatos da realidade social. Essa cons-
tatação demonstra que o contexto não determina, mas exerce pressões e fixa
limites, os quais são frutos de condições sociais e históricas específicas. Retra-
tando a diversidade e a complexidade da cultura vivida, percebemos que o tele-
jornalismo esportivo insiste em reiterar permanentemente os mesmos valores
e imagens na intenção de perpetuar a ideologia dominante, manter a ordem
política e econômica, reproduzir preconceitos e estereótipos e marginalizar

154 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


representações alternativas, o que demonstra que toda classe dominante se de-
dica significativamente à produção material de uma ordem social e política.
Dar representatividade a novas narrativas, mais plurais e democráticas,
que respeitem a individualidade dos sujeitos e que deem conta do contexto
social em que estão inseridos é tarefa primordial do jornalismo. Dessa forma,
poderemos tornar essas produções reconhecidas e valorizadas pelo público,
instigando à construção de outros projetos, atraindo apoiadores, auxiliando na
formação crítica da audiência. Como pesquisadores(as) da comunicação, tam-
bém somos narradores(as), e temos o dever de representar quem é esquecido,
intencionalmente, pelos meios de comunicação, contribuindo para a mudança
cultural e para a justiça social.

Referências

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mulher. 2017. Disponível em: <http://justificando.cartacapital.com.br/2017/11/29/
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Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 155


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lima_soares.pdf>. Acesso em: 07 mai. 2018.

156 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Vidas que importam: problematizações acerca
de reportagens veiculadas nas mídias sobre
assassinatos de travestis e transexuais no Brasil
Adriana SALES 87
Bruna BENEVIDES88
Fábio MORELLI 89
Associação Nacional de Travestis e Transexuais - ANTRA
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Assis, SP

Resumo
Quando é que travestis e transexuais são noticiadas? Como são? Por que, ge-
ralmente, se noticia e explora suas vulnerabilidades e situações de violência?
Se consideramos que o trabalho dos jornalistas é importante para a formação
da opinião pública, est@s profissionais são responsáveis – ao menos, deveriam
– pelo compromisso ético no modo como alguns setores da sociedade lidarão
com as diferenças e como elas serão tratadas. Por meio de uma análise de re-
portagens já veiculadas sobre corpos trans e travestis no Brasil, especial aten-
ção às de 2017, pretendemos disparar diálogos ao expormos os discursos ali
presentes, sejam eles pouco compromissados politicamente com as vidas das
vítimas ou aqueles que tratam essas vidas como importantes, as abordando de
modo respeitoso e humano, potencializando, assim, a visibilidade como exem-
plos positivos às práticas jornalísticas.

Palavras-chave: Transfobia no jornalismo; Travestis e Transexuais; Nome so-


cial; Cidadania.

Introdução

Assassinatos na calada da noite, tiros, apedrejamento e facadas, normal-


mente precedidos de espancamentos, métodos de tortura e pouca possibilida-
87. Graduada em Letras pela UFMT, Mestre em educação pela mesma instituição, Doutora em Psicologia pela
UNESP/Assis, Ativista social da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Pesquisadora do Grupo
de Pesquisa de Psicologia e Cultura Queer (PsiCUqueer).
88. Militar, Presidenta do Conselho LGBT de Niteroi, Secretária de Articulação Política da ANTRA, Membro da Di-
retoria da ABGLT; e Autora do Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais Brasileiras em 2017 (ANTRA/2018)
89. Cientista Social pela UNESP/Marília e Mestre em Psicologia pela UNESP/Assis. Professor Colaborador de
Sociologia da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) – Campus de Apucarana. Pesquisador do Grupo de
Pesquisa de Psicologia e Cultura Queer (PsiCUqueer).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 157


de de legítima defesa são alguns dos aspectos que norteiam os crimes contra
travestis e transexuais. A ineficiência não apenas dos registros, mas também das
investigações, foi a razão de a Associação Nacional de Travestis e Transexuais
(ANTRA) mapear, em todo território brasileiro, os registros desses crimes.
Esse levantamento se baseia, principalmente, em reportagens que abordaram
os assassinatos de pessoas travestis e transexuais e, também, em informações
que, por vezes, existem exclusivamente em redes sociais, como o Facebook. Tra-
ta-se de uma força tarefa entre as organizações não governamentais afiliadas à
ANTRA pelo Brasil (juntas somam aproximadamente 120 instituições) em
conjunto com a troca de informações entre a sociedade civil. Tais dados vêm
apontando, de modo alarmante, o avanço brutal destes eventos de morte com
requintes de crueldade.
Esse mapeamento nos dá pistas também de como as redes midiáticas
e de dados da segurança pública tem marcado, de modo resistente, os mui-
tos avanços que o movimento trans brasileiro tem demandado e conquistado:
como o uso do nome social90. As referidas instituições – mídias e segurança
pública – reproduzem a recusa em garantir questões mínimas das estilísticas
das existências e corroboram com os padrões binários e biologizantes da socie-
dade que vivemos na contemporaneidade machista e misógina que produz da-
dos de feminicídio. Valores esses expressos não só na ausência de notícias sobre
conquistas e sucessos de pessoas trans e travestis, mas também pelo fato de que,
quando ocorrem, tratam de situações próximas desses crimes com evidente
desrespeito ao nome social, publicação de imagens de seus corpos violentados
e pela tentativa de culpabilização das vítimas expressa em discursos que visam
demonstrar possíveis envolvimentos com drogas e/ou com prostituição.
De acordo com esses dados, só no ano de 2017 foram 179 assassina-
tos . Todos eles levantados e cadastrados por meio de recursos que a própria
91

ANTRA recorreu a fim de aglutinar dados mais sistematizados dos esparsos


crimes ocorridos em localidades diferentes, mas com motivações semelhantes:
a transfobia92. Este capítulo possui como objetivo trazer algumas reflexões que
90.  Entende-se por nome social o nome pelo qual travestis, mulheres transexuais, homens trans e demais pessoas
trans, se reconhecem e são reconhecidos, identificados e denominados na sociedade, independente do constante em
seus registros civis. Não é apelido, pseudônimo e não é usado por pessoas cisgêneras. (ANTRA, 2018).
91.  O mapeamento completo realizado pela ANTRA é possível ser consultado no mapa sistematizado: https://
www.google.com/maps/d/u/0/viewer?ll=-13.072303542292522%2C-42.23556529999996&z=5&mid=1yMKN
g31SYjDAS0N-ZwH1jJ0apFQ . Acesso em: 15 mai. 2018.
92. Termo que diz respeito a uma série de atitudes ou sentimentos negativos em relação às pessoas travestis, transe-
xuais e transgêneros, devido a sua identidade de gênero. Seja intencional ou não, a transfobia pode causar severas
consequências para quem por ela é assim discriminado. Normalmente é motivada por desconhecimento, alienação,
valores morais baseados em argumentos do senso comum, por vezes com cunho religioso que geram invisibilidade,
ignorância e preconceito.

158 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


foram possíveis a partir da intensa observação dos dados de 2017, cujo foco se
deu sobre o trabalho de jornalistas e suas formas de abordar essas situações a
fim de denunciar violações da população travesti e transexual. Nesse sentido, o
texto abordará, num primeiro momento, a diferenciação entre gênero e orien-
tação sexual – confusão presente em notícias que se referem a travestis, por
exemplo, como homossexuais – e, num segundo momento, a explicitação de
dados que apontam para a necessidade em se preservar os nomes de registro de
pessoas trans e travestis, respeitar seus nomes sociais, bem como suas imagens,
evitando também discursos que contribuam com certa criminalização da víti-
ma e sua consequente impunidade aos criminosos.

Identidade de gênero e orientação sexual

Por se tratar de uma demanda conceitual do movimento feminista, ini-


cialmente, o termo “gênero” esteve ligado diretamente às mulheres cisgêneras.
Apesar de ter começado dessa maneira, tal expressão adquiriu aspectos que
vão além delas. Judith Butler (2014) será quem vai defender o gênero como
performance. Se reconhecemos o gênero de alguém pelo seu corte de cabelo,
vestimentas, maneiras de falar, de andar, de se comportar ou de agir, significa
que os símbolos que nos permitirão dizer que se trata de um homem ou de
uma mulher são estabelecidos socialmente por meio de um processo histórico
que classifica essas diferenças, já que tais distinções são externas ao corpo e
consensualmente estabelecidas pela sociedade, não pelo indivíduo.
Por ser estabelecido socialmente, o gênero pode variar de acordo com
o contexto cultural. No nosso atual contexto, ele é atribuído aos indivíduos
de forma compulsória e subjetiva por meio de processos discursivos, isto é,
um conjunto de práticas institucionais (família, escola, igreja, mídias, políticas
públicas, leis etc.) que designam quem somos, mesmo antes do nascimento, a
partir da genitália e ensinam gradualmente como homens e mulheres devem
se comportar, agir, pensar, sentir, se expressar e se reconhecer na sociedade.
Segue um exemplo: o fato de termos um número massivo de mulheres que
são as principais responsáveis pelos afazeres domésticos e maternos no Brasil,
não é porque elas nasceram com essa função previamente dada pela sua fisio-
logia, não é uma destinação nata, mas porque socialmente isso foi imposto e,
de modo convencionado, essa função passou a ser ensinada aos corpos com
vagina. Não é nada raro vermos forninhos, bonecas ou outros utensílios de
cozinha – sem contar os acessórios ligados à beleza e à higiene – sendo os brin-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 159


quedos com os quais meninas, desde cedo, vão aprendendo seus lugares como
cuidadoras. Nessa dinâmica, as mulheres acabam passando por processos que
docilizam os seus corpos a serem obedientes e destinados às tarefa do lar.
Enxergar o gênero como performance significa ver que ele é resultado de
um conjunto de práticas e regras discursivas que, ao longo dos anos, estabele-
cem condutas sociais distintas para homens e mulheres e dependem direta-
mente dos aspectos culturais e sociais de uma determinada sociedade. Logo, a
direta relação entre mulher e vagina e homem e pênis não é um dado do corpo,
mas da sociedade. No nosso contexto, a definição de gênero desde o nasci-
mento depende menos de nossas vontades individuais e mais de desejos de
produção de vidas coletivas e socialmente aceitáveis a partir de um padrão pré-
-estabelecido. Assim, há certa dificuldade em cogitar e existir de modos mais
plurais quanto ao gênero, pois estamos limitados a um “binarismo de gênero”,
isto é, parece não haver alternativas possíveis para além do masculino e do fe-
minino como performances de gênero, estando o primeiro necessariamente
num corpo com pênis e o segundo num corpo com vagina. É o que a famí-
lia, novelas, escola e igreja, por exemplo, nos ensinam (LOURO, 2010,2016;
FOUCAULT, 2009; DE ALMEIDA, 2003).
Se o gênero não é um dado intrínseco ao corpo, mas um concluso social,
isso quer dizer que afirmá-lo como performance é também ampliar suas possi-
bilidades de ser vivenciado de outras maneiras que não apenas as comumente
ligadas ao que está posto como sendo masculino e ao feminino, assim como a
possibilidade de performá-lo sem a necessária correspondência entre mascu-
linidade e pênis ou feminilidade e vagina. Em outras palavras, se o gênero é
performance temos a possibilidade de o reinventar, o recriar, o embaralhar e
alterar as estabelecidas concepções do que é ser homem ou mulher.
Entretanto, a (in)adequação às performances de gênero estabelecidas
não ocorrem de maneira tão igualitária, simétrica e pacífica. Aquelas pessoas
que correspondem aos gêneros como estabelecidos – reforçando: masculini-
dade = pênis; feminilidade = vagina93 – serão inteligíveis, serão reconhecidas,
protegidas, aceitas, compreendidas, vistas cidadãs. Quando há pessoas que
não se adequam às normas de gênero estabelecidas, recriando feminilidades
93. Gostaríamos aqui de dizer que não compactuamos com os discursos que veem o gênero como uma correspondên-
cia da genitália. Definitivamente, o vemos como uma construção social e sem nenhuma ligação com o genital, e que
se dá no processo de desenvolvimento das pessoas e de suas identidades autopercebidas a partir do meio em que estão
inseridas. Entretanto, ainda há discursos que veem, de forma equivocada, o gênero como resultado de uma configura-
ção genótipa e biológica, que ainda é recorrente e muito presente na maneira como ele é marcado compulsoriamente
no nascimento. Durante este capítulo, nos momentos que a menção à genitália estiver presente será para explicar que
esta relação foi construída sob certa autorização científica, mas não pretendemos reforça-lo como se o exercício do
gênero fosse, de fato, dado pela genitália, mas o é de maneira psicossocial.

160 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


num corpo com pênis, masculinidades num corpo com vagina ou, até mesmo,
inventando uma inédita forma de experienciá-las – alternativa possível, mas
muito raramente executada – serão ininteligíveis, ou seja, incompreendidas,
vistas como possíveis sujeitos de uma sub categoria, aberrações demonizadas e
caçadas, que terão a abjeção e a marginalização como locais para vivenciarem
suas existências, pois deixam de serem vistas e vistos como cidadãos que me-
recem respeito e proteção.(SALES, 2018; PERES, 2015; PELÚCIO, 2009).
A ininteligibilidade de pessoas que performam gêneros diferentes da
norma é o processo pelo qual passam travestis, mulheres e homens transexu-
ais, intersexos, pessoas não-binárias, entre outras expressões de gênero, sim-
plesmente por serem existências que rompem com as performances de gêne-
ro como estabelecidas e reivindicam outras formas de expressar seus gêneros.
Levando-as/os a processos de exclusão e de vulnerabilidades, resultando inclu-
sive em mortes, assassinatos e perseguições como nos mostram as reportagens
que serviram de base para este capítulo.
Assim, quando falamos de identidade de gênero, nos referimos não só
às maneiras tradicionais e estabelecidas de vivenciar o masculino e o femini-
no, mas também às diversas formas possíveis de existir social e culturalmente,
abrindo uma variedade de jeitos não apenas de se vestir, andar, usar o cabelo,
falar, agir ou se comportar, mas também de como configurar e (re)criar corpos
por meio de tecnologias médicas e farmacêuticas, inventando novas configu-
rações corporais.
Identidade de gênero nada tem a ver com orientação sexual. Esta última
diz respeito ao modo como exercemos nossa sexualidade, isto é, qual gênero –
ou gêneros – costuma atrair nossos desejos de se envolver afetiva e sexualmen-
te. A orientação sexual costuma ser identificada como: heterossexual (atração
entre gêneros opostos); homossexual (atração entre gêneros semelhantes) e
bissexual (atração por ambos os gêneros). Uma travesti, por exemplo, possui
uma identidade de gênero feminina, assim, deve ser vista e tratada por meio de
adjetivos, pronomes e artigos femininos; já no que se refere à sua orientação
sexual, ela pode ser considerada heterossexual, no caso de ela se sentir atraída
por homens e também pode se tratar de uma travesti lésbica, caso ela se sinta
atraída por mulheres, como também pode ser uma travesti bissexual, no caso
de ela se atrair tanto por homens quanto por mulheres. Logo, não há relações
diretas entre travestilidade e homossexualidade, como algumas reportagens
apontaram, pois travesti é uma identidade de gênero e homossexualidade/
heterossexualidade/bissexualidade são identidades ligadas à orientação sexual.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 161


Tais confusões são efeitos do que chamamos de cisheteronormativida-
de. Esse é o nome de um regime compulsório e estabelecido socialmente no
qual obriga os corpos com pênis a desempenharem performances masculinas e
os corpos com vagina performances femininas, estando ambos sob pena de so-
frerem constante patrulhamento para estarem adequadas ao que está norma-
tizado e seren submetidos a sanções sociais no caso de inconformidade. Além
disso, é um regime que não só estabelece a heterossexualidade como a única
forma possível de vivenciar nossas sexualidades, mas também de se comportar,
isto é, mesmo no caso de não se tratar de heterossexuais, um casal homoafeti-
vo, por exemplo, deve se comportar de acordo com o modelo hetero, não se
beijando ou trocando carícias em público e, de preferência, que casem, estabe-
leçam contratos monogâmicos e, assim, se afastem de valores sexuais e afetivos
que se distanciem da referência que o casamento heterossexual cristão possui
(MORELLI, 2017). Já no caso das travestilidades e transexualidades, esse re-
gime protege aquelas e aqueles que mais próxim@s estiverem do masculino ou
do feminino, não demonstrando nenhuma característica ambígua ou que, ao
menos, permita identificar que se trata de uma pessoa trans.
O regime cisheteronormativo estabelece uma linha classificatória e hie-
rárquica que protege e acaba garantindo mais cidadania aos heterossexuais e
pessoas que não só tenham seus gêneros correspondentes ao que foi imposto a
partir da genitália do modo convencional, mas também quando os performam
de acordo com o que está estabelecido socialmente para ser reconhecido como
homem ou como mulher. As pessoas que possuem esses corpos considerados
socialmente coerentes com o gênero que foi atribuído no nascimento a partir
de suas genitálias e atendem às performances de gênero normativas são chama-
dos de cisgêneras, e as que cruzam as normas de gênero, e não se reconhecem
como pertencentes ao gênero que foi atribuído, podendo ou não alterar seus
corpos e indumentárias, por exemplo, são transgêneras. Tod@s que rompem
com a heterossexualidade ou com a cisgneridade passam por processos de ex-
clusão, marginalização e abjeção, perdendo direitos e proteção em decorrência
de seus gêneros inconformes. Tal regime é o que nos permite explicar as altas
taxas de perseguição e de assassinatos contra pessoas travestis e transexuais,
simplesmente por romperem com normas de comportamento estabelecidas
socialmente que vivem, em seus corpos e em suas experiências de vida, os efei-
tos das sanções morais.
Nesse contexto, a defesa das identidades de travestis, transexuais, trans-
gêneras, intersexos, entre outras, é política, pois busca não apenas a visibilidade

162 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


de suas existências e o reconhecimento de vidas dignas e urgentes de respeito
e proteção, mas também porque busca ultrapassar esses códigos e dispositivos
que estão presos a verdades de referências ocidentais universais, ampliando,
assim, as referências identitárias e os diversos possíveis modos de existir.
Apostamos, então, nos posicionamentos de resistências, que clamam
por dispositivos embaralhados, andróginos, democráticos, revolucionários e
que subscrevem formas corporais que se contrapõem aos discursos e códigos
que aprendemos como sistemas de verdades. Aqui privilegiamos as potências
rizomáticas94 subversivas, ou seja, as linhas de fuga que ampliam as referências,
que positivam as corporalidades travestis (transbordantes) e as vidas como va-
lor maior.
A escolha por apontar relações tão excludentes e violentas contra a po-
pulação travesti e transexual brasileira tem como objetivo embaralhar alguns
desses códigos mirando os processos de exclusão de direitos, do uso de nome
adequado ao seu gênero (feminino/masculino) e das posições cisheteronor-
mativas que circulam nas mídias jornalísticas e registros policiais. Ao eleger
vozes de pesquisadoras travestis e pessoas que se debruçam sobre a produção
de conhecimento, ao falar com vivência, torna-se fundante entrelaçar concei-
tos, teorias e ferramentas de pesquisa por meio do processo dialógico com ou-
tras vozes de maneira equânime e coletiva. Essas relações sinalizam para defen-
dermos as expressões de vidas trans na perspectiva de corporalidades fluídas,
vibráteis, que não se separam de outros eventos da vida, como crenças, valores,
ética, políticas e vivências psicossociais, pois cada linha, cada dispositivo eleito
como aceitável ou não, marcam qual tipo de sociedade se quer e qual tipo de
corpo não se quer.
Se até aqui consideramos o gênero como um produto discursivo que se
materializa nos corpos, cabem algumas perguntas: quais são os discursos do
jornalismo brasileiro em relação às performances de gênero? Estariam elas re-
forçando as identidades de gênero como estão estabelecidas ou contribuindo
para novas formas possíveis de experienciá-las garantindo respeito? Estariam
eles contribuindo com a redução ou com o aumento dos processos já estabele-
cidos de estigmatização e exclusão de pessoas travestis e transexuais?
O discurso, como o enxerga Michel Foucault (2013; 2014), é permeado
por relações de poder em que os elementos que ganham corpo e poder social
94. Em referência a Deleuze &Guattari (2014), chamamos de potências rizomáticas aquelas práticas e identidades,
como as mencionadas, que rompem com normativas sociais e morais ao abrir precedentes para outros modos de exis-
tir, isto é, aquelas vidas e expressões que escapam e fogem do imaginável e previsível adquirindo, por vezes, contornos
inimagináveis ou, ainda que imagináveis, imprevisíveis e incontroláveis.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 163


são produtos da história de quem venceu na fala, inscrevendo-o no corpo, nas
leis, nas práticas, etc. Assim, somente por meio de uma análise do discurso
presente nas 179 reportagens veiculadas sobre assassinatos de pessoas travestis
e transexuais – análise que será empreendida e sistematizada no tópico a seguir
– é que poderemos ter pistas para as repostas das perguntas acima levantadas

O trabalho de jornalista e o respeito às existências travestis e


transexuais

De acordo com um relatório da ONGTransgenderEurope (2012), o


Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, se apresentando
como extremamente hostil e desafiador para uma população que oficialmente
não tem reconhecida sua cidadania, como são travestis e transexuais. Devido a
essa marginalização cidadã, não existem dados reais, populacionais, demográ-
ficos ou qualquer outro que possa demonstrar, em números, suas existências,
o quanto estão excluídas e como são empurradas para a marginalização. No
Brasil atual, é mais fácil contar as pessoas trans assassinadas, do que fazer seu
levantamento populacional delineando melhor os seus aspectos sociais, tais
como: religião, classe social, raça, escolaridade, entre outros95.
Em 2017, chegamos ao maior índice de assassinatos de pessoas trans dos
últimos 10 anos. Lembrando incansavelmente da subnotificação desses dados,
ocorreram 179 Assassinatos de pessoas Trans, sendo 169 Travestis e Mulheres
Transexuais (94% dos casos foram contra pessoas do gênero feminino) e 10
Homens Trans. Destes, encontramos notícias de que apenas 18 casos tiveram
os suspeitos presos, o que representa 10% dos casos. Diante dos dados, chega-
mos a estimativa de que a cada 48h uma pessoa Trans é assassinada no Brasil
e que a idade média das vítimas dos assassinatos é de 27,7 anos. (ANTRA,
2018). Mesmo assim, ainda é uma batalha fazer com que se acredite que a prin-
cipal motivação desse alarmante índice é o ódio contra pessoas trans e traves-
tis que, na palavra transfobia, apresenta sua melhor definição. Ainda que esta
seja a principal motivação para esses crimes, o fato de não termos nenhuma
lei específica, com termos e cláusulas especiais, faz com que os crimes sigam
impunes assim como as ignorâncias que os motivam.
A negação de tal motivação é exatamente o que nos faz pensar o quanto
95. É nesse sentido que esforços estão sendo realizados para que no censo IBGE de 2020 as populações trans e tra-
vestis contem como identidade a serem levantadas com suas respectivas tabulações sociais. Para saber mais, consulte:
https://antrabrasil.org/2018/05/16/antra-oficia-dpu-e-esta-envia-recomendacao-ao-ibge-sobre-a-populacao-trans-
-no-censo-2020/.

164 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


a transfobia está naturalizada e é permitida em nossa sociedade. A vítima mais
jovem noticiada tinha 16 anos e a mais velha 53 anos. O Mapa aponta que
67,9% das vítimas tinham entre 16 e 29 anos. Quanto mais jovem, mais susce-
tíveis à violência e à mortandade, ao contrário daquelas pessoas que ultrapas-
sam a estimativa de vida de 35 anos (ANTRA 2018) que veem a possibilidade
de ser assassinada/o diminuir com o avançar de sua idade.
Negar a motivação transfóbica destes assassinatos é, antes de mais nada,
jogar a culpa (por terem sido mortas) nas vítimas, ao tentar justificar que fo-
ram assassinadas - de forma quase sempre extrema - por estarem em ambientes
violentos, em sua maioria na prostituição de rua ou sugerir que estavam envol-
vidas em atos ilícitos. É esquecer que foram o Estado e a sociedade, com todos
os seus mecanismos simbólicos de exclusão, que as colocou ali, naqueles luga-
res, a saber: o não-lugar, como gostamos de nos referir no movimento social.
De acordo com a ANTRA (2018), 90% da população de travestis e mu-
lheres transexuais está na prostituição por falta de oportunidades, devido a ex-
clusão familiar, social e escolar. Na média, é aos 13 anos de idade que a maioria
das travestis prostitutas iniciam seu trabalho na rua por terem sido expulsas
de casa ou por estarem em ambientes familiares não acolhedores e violentos.
Vemos ainda que 70% dos assassinatos foram direcionados aquelas que
são profissionais do sexo e que 55% deles aconteceu nas ruas. Desses dados,
80% dos casos foram identificadas como pessoas negras e pardas, retificando
o triste dado dos assassinatos da juventude negra no Brasil. O que denota um
alto grau de racismo e o ódio às prostitutas, em um país que ainda não existe
uma lei que regulamente a prostituição que, apesar de não ser crime, sofre um
processo de criminalização e é constantemente desqualificada por valores so-
ciais pautados em dogmas religiosos que querem manter o controle dos seus
corpos.
Colocando-as ali, naquele único espaço possível de existirem, sem direi-
to a um nome, à educação formal e à possibilidade de concorrer no mercado
formal de trabalho, sem cidadania e sem respeito, é que estamos legitimando
todas as formas de opressão que são impostas a elas e eles. Trata-se de uma luta
para sobreviver com toda a violência perpetrada pela estrutura binária cishete-
ronormativa e cristã que não dá conta desses corpos que as persegue, demoni-
za, silencia e desumaniza. Utilizam-se, assim, da transfobia para caçar pessoas
trans, exatamente como faziam durante a ditadura militar na vergonhosa lim-
peza urbana que promoviam ao perseguir e matar travestis e demais pessoas
LGBTI, por meio da Operação Tarântula (OLIVEIRA, 2016) ou, como mais

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 165


recentemente, o fez o prefeito de São Paulo, em outubro de 2017, ao mandar
prender prostitutas travestis que estavam trabalhando na praça da república96.
Mesmo inseridas nesses espaços e práticas transfóbicos que promovem
violências simbólicas, psicológicas ou mesmo físicas, as travestis e transexuais
têm que se apoderar do seu corpo para garantir a subsistência de suas vidas,
exatamente naqueles mesmos locais, perigosos e marginais. Ora, se elas são
empurradas a estarem nesses locais marginais, muitas vezes de forma precoce
por suas famílias, sem possibilidade de frequentar a sala de aula, tampouco de
abandar esses locais que se tornam fonte de suas sobrevivências, fica a ques-
tão: como podem, ao serem mortas, ter ignoradas exatamente o motivo que
as colocou ali? Como podem não ser abordados os processos de exclusão que
delimitam a esquina como um espaço de trabalho mais adequado do que o
mercado formal?
A mídia exerce um papel fundamental nesse processo ao conferir ou
negar humanidade a essas pessoas, que até então, no imaginário social, não
passam de seres abjetos, com vidas precarizadas e subversivas, que desafiam a
norma binária de gênero e exercem a liberdade de construir e desconstruir, não
apenas seus corpos, mas suas próprias narrativas de ser e existir.
Ao contar o assassinato de uma travesti, o jornalista está dando pistas
para que o leitor, ao ter acesso às essas informações, tenha construída uma ima-
gem pré-determinada sobre quem, como e porque aquela pessoa foi assassina-
da. Consequentemente toda a população trans também passa a ser identificada
por estes mesmos atributos impostos, sem nenhuma possibilidade de resposta
e isso acaba sendo replicado em muitos outros veículos da mídia, perpetuando
estigmas e incentivando a transfobia institucional nos meios de comunicação.
Em muitos casos, ele assume o papel de investigador, juiz e carrasco, jus-
tificando o crime, na maioria dos casos; ora atribuindo culpa à vítima, omi-
tindo ou impondo causas; ora sugerindo envolvimentos em atos ilícitos; ou
ainda dizendo a que gênero aquela pessoa pertence - mesmo sem nenhum
conhecimento a respeito das teorias ou estudos de gênero ou mesmo sem se
importar com a diferenciação entre identidade de gênero e orientação sexual.
Expõem seu nome de registro para justificar o porquê de tê-la tratado no mas-
culino, no caso de travestis e mulheres transexuais, ou no feminino, em relação
aos homens trans e pessoas transmasculinas, demonstrando uma total falta de
compromisso ético com a vítima, seus familiares e amigos/as.
São comuns os casos em que, além da tentativa de apagamento daquelas
96. Fonte: http://www.nlucon.com/2017/10/pm-prende-10-travestis-sem-que-elas.html.

166 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


existências, ainda exponham seus corpos mutilados, desnudos, esquartejados,
sem nenhum pudor. Num sadismo quase sexual, ao fazer questão de desmora-
lizar ainda mais a imagem da vítima e, consequentemente, de nossa população
– que, diga-se de passagem, já é extremamente hipersexualizada e fetichizada.
Isso traz ainda mais sofrimento à memória das vítimas, de forma completa-
mente irresponsável e que não colabora com as investigações, como muitos
pensam. Ao contrário, apenas transforma o assassinato de pessoas trans em um
verdadeiro show de horrores, aberto à acusação, ao julgamento e novamente à
culpabilização das vítimas pelo mal brutal que lhe acometera.
Vivemos em uma sociedade punitiva, especialmente daquelas pesso-
as que ousam desafiar a norma e, exercendo sua liberdade, construir corpos
ilegítimos, como se merecessem aquele fim por serem vistas/os quase como
não-humanos. Assim é exatamente ao viralizar este tipo de material que as/
os jornalistas estariam corroborando com a violência ali apresentada. Ao pu-
blicar este material de forma desnecessária, jornais, mídias sociais ou outros
meios de comunicação não se dão conta que de fato não agregam nenhum va-
lor informativo às matérias, na mesma medida que contribuem com a invisibi-
lização dos processos de exclusão. Desse modo, podem incentivar sentimentos
perturbadores caso não constem informações sobre o conteúdo e ainda violam
direitos post mortem como a honra, imagem, intimidade, privacidade e invio-
labilidade de seus restos mortais, garantidos pelos princípios da dignidade da
pessoa humana por meio da Declaração Universal dos Direitos Humanos de
1948 e também da Constituição Brasileira de 1988.
Não muito diferente da forma como eram retratadas na época da dita-
dura e nos anos seguintes, vemos constantemente se repetir o tratamento que
a mídia impõe sobre as pessoas trans. Deliberando sobre quem somos, refor-
çando estigmas sobre as travestilidades, e criando uma diferenciação higienista
a respeito das pessoas transexuais. Assim, aumentam ainda mais a confusão
sobre que sujeito seria essa travesti vista apenas como marginal, enquanto a
transexual passa por um processo de aceitação quando representada dentro
de um modelo esperado de ser mulher. É a mídia que faz essa segregação, que
marca corpos travestis como subalternos e que devem se manter lá, ao mesmo
passo em que vende a ideia de que a mulher transexual representaria exatamen-
te o oposto, inclusive por ser lida e equivocadamente apresentada sob um viés
patologizante pela medicina, reforçando sua redenção ao adequar-se ao que a
sociedade espera de alguém que performa feminilidade. Nesse processo, é im-
portante observarmos tranversalidades nessas existências marcadas pela exclu-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 167


são que se intensificam quando olhamos pelo viés do recorte de classe e raça.
Nos anos 80, Goulart de Andrade, em seu programa “Comando da Ma-
drugada”97 fez, de forma muito corajosa, uma série de matérias e reportagens
sobre os travestis(sic), referindo a elas no masculino e retratando-as como se
fossem homens cisgêneros gays, sem nenhuma menção a diferença entre orien-
tação sexual e identidade de gênero, temas que ainda eram distantes da reali-
dade nas discussões à época, mas não muito diferente de como vemos até hoje
nas matérias, jornais e na mídia em geral.
O programa fez questão de retratar a população trans exatamente neste
único lugar possível de elas [re]existirem - o não lugar - nas esquinas, guetos
das madrugadas, retratadas como centauros urbanos com hábitos noturnos,
marginalizadas, perigosas, e sempre em extrema vulnerabilidade. Ainda que
não seja muito diferente do que se vê hoje em dia, vivemos um momento his-
tórico no qual há toda uma organização do movimento nacional de travestis
e transexuais. Dentre elas, a ANTRA que tem ocupado grande parte do seu
tempo apresentando novas perspectivas, a fim de contrapor essa imagem que
segue sendo vendida e comprada como se fosse uma marca de nascença ou algo
inerente a ser trans. Imagem essa que ignora toda a problemática que temos
denunciado através de ações afirmativas e lutas coletivas ao redor do país e do
mundo.
Não muito diferente disso, é comum que a mesma imagem seja reforça-
da a cada novo caso de assassinato, o que muito preocupa o avanço das pau-
tas por sobrevivência da população trans. Hoje, lutamos muito mais para não
morrer e combater a violência a que estamos expostas, do que pensar em ganho
de direitos perdidos ou mesmo inserção em espaços. Visto que, muitas vezes, é
feito um trabalho enorme de inclusão, mas o trânsito das pessoas nesses locais
perpassa pelo preconceito que, aliado à ignorância, cria e mantém um ambien-
te não acolhedor e violento, que novamente lhes impõe a exclusão.
Exclusão familiar, escolar, social e em todos os demais ambientes fazem
com que aquelas pessoas que foram incluídas, de alguma forma, acabem nova-
mente sendo expulsas - desta vez de forma simbólica – desses espaços “inclusi-
vos” e voltando para o não-lugar que lhes foi designado. São travadas verdadei-
ras batalhas diárias para o combate a essas violências e violações. O movimento
nacional organizado tem se pautado no combate a essas manifestações de into-
lerância e racismo estrutural, como uma de suas principais bandeiras. E apesar
dos desafios, temos visto uma pequena mudança na situação preocupante em
97. Vídeo disponível online: https://www.youtube.com/watch?v=NkoHPQib2Ro.

168 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


que vemos a população trans inserida.
De acordo com o relatório final do Mapa dos Assassinatos de Travestis
e Transexuais Brasileiras em 2017 (ANTRA, 2018), percebemos uma tímida,
porém importante mudança no reconhecimento das identidades trans, bem
como no uso e respeito do nome social de travestis e transexuais assassinadas
nas matérias que nos informam esses dados. Se em 2016, das 144 pessoas as-
sassinadas, apenas 22% dos casos relatados respeitaram o nome social e identi-
dade de gênero das vítimas; em 2017, este índice aumentou para 68% dos 179
casos. O que sinaliza, apesar de toda a repressão e caça às discussões de gênero
no país, que os estudos, trabalhos, pesquisas, debates, diálogos e resistências
dos corpos e gênero-divergentes, têm conseguido provocar esta reflexão tão
importante para que, mesmo mortas, assassinadas pelo ódio, suas histórias
continuem vivas.


Considerações finais

Qual a intenção de reafirmar um nome masculino em uma pessoa que


se autopercebe98 como sendo pertencente ao gênero feminino e que reivindica
este lugar? O desrespeito ao nome social é recorrente. E o apagamento das
identidades de gênero acaba por denunciar essa confusão entre as identidades
de gênero e orientações sexuais. Negar a identidade é apagar sua existência e as
possibilidades que poderia experimentar.
Existiria aí, uma intenção - talvez motivada pelo desconhecimento, em
manter a população trans exatamente onde está? Para que assim seu assassina-
to continue a passar impune, para que suas existências sejam deliberadamente
apagadas e para que ninguém reclame seus corpos nus, violentados e expostos
nas manchetes dos jornais?
Trazemos essas reflexões para que possamos pensar em estratégias junto
aos meios de comunicação a fim de que possam contribuir de forma positiva
para o resgate da cidadania e na luta contra o preconceito. Tal processo seria
melhor executado e mais eficaz caso houvesse o respeito à dignidade humana,
deixando de expor imagens, fotos, nomes de registro, confusão entre gênero
98. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), sediada em San Jose, na Costa Rica, determinou parâ-
metros garantindo proteção à identidade de gênero autopercebida com a determinação de que seja mais ágil e simples
a adequação do registro civil e da documentação de homens e mulheres trans em todos os países da América Latina
membros da entidade, inclusive o Brasil, além do Caribe. O parecer, que tem o nome de Opinião Consultiva 24,
foi emitido pela Corte em 9 de janeiro de 2018. Fonte: https://www.anadep.org.br/wtk/pagina/materia?id=36383.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 169


e sexualidade. Entretanto, seria ainda mais eficaz se os meios de comunicação
de massa pudessem melhor informar sobre as condições sociais com as quais
vivem pessoas trans e travestis, bem como compartilhar suas conquistas e ban-
deiras de luta, criando, assim, uma verdadeira rede nacional.

Referências

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LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista.


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170 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


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Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 171


Tendências queer nos estudos brasileiros de
jornalismo e gênero99

Gean Oliveira GONÇALVES100


Universidade de São Paulo, São Paulo, SP

Resumo

O presente capítulo tem como objetivo apresentar possíveis diálogos epistemo-


lógicos e aproveitamentos metodológicos que os Estudos em Jornalismo podem
ter a partir da Teoria Queer. A Teoria Queer reúne perspectivas críticas den-
tro dos Estudos de Gênero que sinalizam como são produzidos os sentidos de
normalidade e as normas, bem como os espaços sociais, culturais e políticos de
diferença e de desigualdade. Dessa forma, interessa-nos promover um debate de
como os Estudos do Jornalismo podem se beneficiar ao incorporar ideias, críti-
cas e perspectivas queer tanto nas investigações científicas (na Ciência da Comu-
nicação) quanto nas investigações jornalísticas (na prática da reportagem).

Palavras-chave: Teoria queer; Epistemologia; Metodologia; Pesquisa em jor-


nalismo; Estudos de gênero.

Do LGBT ao queer

Antes de falarmos sobre a Teoria Queer, é preciso compreender quem é


o sujeito político LGBT. É uma sigla que, no Brasil, designa a experiência de
lésbicas, gays, bissexuais, travestis, homens e mulheres transexuais. Internacio-
nalmente, o T indica a presença de pessoas transgêneras no movimento, ou
seja, o espectro de pessoas cuja identidade de gênero não se alinha à designação
de gênero do nascimento, uma vez que existem pessoas cisgêneros, aqueles em
concordância com o gênero designado para elas.
99. Uma versão preliminar deste capítulo foi anteriormente apresentada no 15º Encontro Nacional de Pesquisadores
em Jornalismo, promovido pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), na Escola de Comu-
nicações e Artes (ECA-USP), em novembro de 2017.
100. Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes
da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Bolsista do CNPq sob orientação da Professora Dra. Cremilda Medina.
Jornalista voltado aos direitos da população LGBT, aos temas de gênero e sexualidade na comunicação social. E-mail:
geangoncalves@usp.br.

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É importante compreender que na dimensão de gênero há a identidade
de gênero101, que diz respeito à experiência interna e individual do gênero, pro-
fundamente sentida por cada pessoa, que pode ou não corresponder ao gênero
atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (o que envolve,
por livre escolha, modificação da aparência ou funções corporais por meios
médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero dadas inclusive
pela vestimenta, modo de falar e demais maneirismos.
Já a sexualidade traz à tona a dimensão da orientação sexual102, a capaci-
dade de cada pessoa de experimentar uma atração emocional, afetiva ou sexual
por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gêne-
ro, assim como de ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas.
As denominações identitárias contempladas na população LGBT ca-
racterizam a existência, política, social e cultural, de outros arranjos sexuais e
de gênero não contemplados por um pensamento heterossexual. São identida-
des que ao mesmo tempo são fontes possíveis de existência, de percepção, de
reconhecimento e de prazer, mas também são indicadores de desigualdade, de
vulnerabilidade e de opressão de sujeitos e segmentos populacionais. Portanto,
é fundamental pensar gênero e sexualidade como dimensões complexas com
uma gama de atores culturais, sociais e políticos.
É certo que toda classificação apresenta o risco e o déficit de ser exclu-
dente ou não compatível com a complexidade de interpretações e de como as
pessoas se apropriam e fazem uso dela. O queer, por exemplo, é tomado no
Brasil, muitas vezes como103 uma nova marca identitária: como termo univer-
sal para quem não está de acordo com as definições dominantes de masculi-
nidade, feminilidade e sexualidade, um sinônimo para as identidades LGBT;
ou para aqueles que vivenciam uma fluidez de gênero ou do desejo sexual; ou
ainda como nova identidade daqueles que são estranhos ou dissonantes do que
se espera de quem ocupa uma das identidades LGBT.
Todavia, com a ampla vocalização da teoria e prática feminista desde os
anos 1970, diferentes autoras e autores foram responsáveis por importantes
contribuições conceituais para se examinar as questões de gênero e sexualidade
na contemporaneidade. Entre tais provocações epistemológicas estão os inti-
101. Definição elaborada a partir do documento Princípios de Yogyakarta, carta sobre a aplicação da legislação in-
ternacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero. Documento referencial das
Nações Unidas.
102. Também proveniente do texto dos Princípios de Yogyakarta.
103. No texto “Traduções e torções” (publicado na Revista Periódicus, 1ª edição de 2014), Larissa Pelúcio, professora
da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp, dedica-se a apontar como o pensamento queer
em terras brasileiras se tornou uma teoria de combate com poucos frutos e elaborações no ativismo.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 173


tulados Estudos Queer. Uma vertente de teorias e práticas políticas que a prio-
ri poderia ser definida pela inquietante crítica a normalização das identidades.
Diferente do contexto político dos Estados Unidos, de onde a palavra
é proveniente, no Brasil, queer é uma palavra que ganha sentido, em muitos
espaços, como uma perspectiva de estudos. Temos localmente apropriado o
termo, sobretudo, como achado teórico e conceitual para a produção de saber
no campo do gênero e da sexualidade.
Do inglês, queer é uma palavra com uma carga pejorativa que pode ser
traduzida como estranho, esquisito, ridículo, raro ou extraordinário (LOU-
RO, 2015), mas que é uma injúria, algo similar as ofensas “bicha” ou “viado”
que tantos jovens com comportamentos diferentes das regulações do masculi-
no escutam no Brasil.
Como parte de uma estratégia de valer-se de algo ofensivo, a comunida-
de LGBT dos Estados Unidos realizou, desde os anos 1970, um movimento
de apropriação linguística e passou a utilizar a palavra como fonte de orgulho
para expressar as práticas de vida em desacordo com as normas socialmente
aceitas. Prática semelhante no âmbito do uso social da linguagem também se
dá no Brasil. No entanto, queer, em determinados contextos, nomeia o con-
junto populacional com desejo de romper as amarras do projeto de poder nor-
mativo e regulador que as heterossexualidades constituíram.
Nesse sentido, considero queer uma força, um empreendimento críti-
co que desestabiliza, uma perspectiva política que aponta para a construção
de modelos de masculinidade e feminilidade ao mesmo tempo que possibilita
uma nova mentalidade em torno dos corpos que não se encaixam nesses mode-
los, ou seja, indica a existência e aceitação de quem sempre foi percebido como
estranho às normas de gênero e sexualidade. Queer é a denúncia de imposições
de comportamentos aos corpos de forma que nos coloca a pensar sobre os pro-
cessos de instauração ou de osmose das normas culturais.
Queer também passa a expressar, na opinião de críticos das estratégias
políticas dos movimentos LGBT, uma forma de expressar um desacordo com
lésbicas, gays e bissexuais que atuam ou colaboram para uma política de assimi-
lação ou de limpeza das condutas sexuais dissidentes à hegemonia heterossexu-
al, isto é, àqueles que utilizam o modelo heterossexual como perspectiva legí-
tima de vida a ser seguida. Portanto, queer é tanto uma postura ético-política
quanto uma vertente de estudos das normalizações.
Não é possível pensar, sentir e agir de modo queer sem a influência dos
novos sujeitos históricos que passam a demandar direitos e segurança para seus

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modos de ser e viver nas sociedades pós-industriais:

Se o movimento gay e lésbico tradicional tinha como preocupação mos-


trar que homossexuais eram pessoas normas e respeitáveis, o movimen-
to queer vem para dizer: “olha, mesmo os gays e lésbicas respeitáveis em
certos momentos históricos serão atacados e novamente transformados
em abjetos”. A maior parte das pessoas, sobretudo as que estavam com
o HIV, não faziam parte desse grupo pelo qual o movimento homos-
sexual forjado na década de 1960 lutava. Em sua maior parte, o movi-
mento homossexual emerge marcado por valores de uma classe-média
letrada e branca, ávida por aceitação e até mesmo incorporação social.
(MISKOLCI, 2015, p. 24)

De acordo com o sociólogo brasileiro Richard Miskolci (2009), da


Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), originada a partir dos Estudos
Culturais norte-americanos e do pós-estruturalismo francês, a Teoria Queer
ganha notoriedade como contraponto crítico à política de identidades dos
movimentos sociais, uma vez que a perspectiva de minoria sexual termina por
manter e naturalizar a norma heterossexual.

Os primeiros teóricos queer rejeitaram a lógica minorizante dos estudos


socioantropológicos em favor de uma teoria que questionasse os pressu-
postos normalizadores que marcavam a Sociologia canônica. A escolha
do termo queer para se autodenominar, ou seja, um xingamento que de-
notava anormalidade, perversão e desvio, servia para destacar o compro-
misso em desenvolver uma analítica da normalização que, naquele mo-
mento, era focada na sexualidade (MISKOLCI, 2009, p. 151).

Baseada em uma interpretação do sujeito da filosofia pós-estruturalista,


descontruído e constituído, como mutável, circunstancial e fragmentado, os
estudiosos queer começam a apontar que nada é natural, nenhuma experiên-
cia é dada, as divisões binárias do gênero, e por consequência dos corpos alvos
da sexualidade, como outra dicotomia, são atribuídos a partir de parâmetros
formulados por regimes de verdade:

[...] não é o momento do nascimento e da nomeação de um corpo como


macho ou como fêmea que faz deste um sujeito masculino ou femini-
no. A construção do gênero e da sexualidade dá-se ao longo de toda
a vida, continuamente, infindavelmente. Quem tem a primazia nesse
processo? Que instâncias e espaços sociais têm o poder de decidir e ins-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 175


crever em nossos corpos as marcas e as normas que devem ser seguidas?
(LOURO, 2008, p. 18)

Além das teorizações que problematizam o pressuposto de curso natu-


ral da heterossexualidade e o lugar de desvio da homossexualidade, a Teoria
Queer é marcada pelas obras dos filósofos franceses Michel Foucault e Jac-
ques Derrida. A partir de Foucault, expõe-se o caráter discursivo e repressivo
da sexualidade em nossas sociedades. Mostra-se como a sexualidade se tornou
objeto do poder disciplinar por meio de sexólogos, psiquiatras, psicanalistas,
educadores, de forma a ser descrita e, ao mesmo tempo, regulada, saneada,
normalizada por instâncias sociais como as Religiões, a Ciência e a Justiça na
tentativa de delimitar as formas aceitáveis e as formas perversas da sexualidade.
É por meio das reflexões de Michel Foucault (1988) que se aponta ainda
o movimento contemporâneo de proliferação de identidades, prazeres especí-
ficos em conjunto com os discursos sobre a sexualidade. Já na leitura de Derri-
da, postula-se um método: a analítica da desconstrução. Para o filósofo, a razão
ocidental opera, tradicionalmente, por dualismos: a partir de uma posição se
formula o lugar do “outro”, o oposto ao normal é hierarquizado como inferior.
Acompanhando o pensamento de Derrida, essa lógica pode ser abalada
com um processo estratégico de desestabilização dos pares por meio da de-
núncia da complementariedade e interdependência das oposições de forma
a minar e perturbar o próprio discurso que o afirma. Desconstruir é um ato
analítico de desfazer polaridades e tecer um quadro de referência mais rico e
complexo.
É possível compreender os Estudos Queer como uma empreitada que
expõe a imposição da heterossexualidade como um regime político-social que
regula corpos, um dispositivo de poder com base em marcadores sociais de di-
ferença que efetiva posições sociais de hegemonia e outras de subalternidade,
isto é, uma ordem compulsória que garante privilégios políticos, culturais e
econômicos para uns e não para outros.

Os estudos “queer” sublinham a centralidade dos mecanismos sociais


relacionados à operação do binarismo hetero/homossexual para a or-
ganização da vida social contemporânea, dando mais atenção crítica
a uma política do conhecimento e da diferença (MISKOLCI, 2009,
p. 154).

176 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Como campo epistemológico, a Teoria Queer proporciona ferramentas
para perceber e explorar melhor as relações que implicam a heterossexualidade
como expectativa, demanda e obrigação social, já que ela é fundamentada pela
cultura como natural e ordem legítima da sexualidade, mas não só. Permite
ainda pensar como operações históricas incitam hegemonias e subalternidades
em virtude da imposição social de normas e convenções culturais. Nesta ação,
o poder não é algo associado com um grupo, com uma instituição ou com um
indivíduo, mas um elemento relacional e cultural que é variável e contextua-
lizado.
As confluências de um ativismo político e de um pensamento teórico
em torno da condição marginal das pessoas LGBT produziram este campo
que coloca em xeque os modos como se produz a desigualdade. Neste foco,
olha-se com mais atenção para confluências (raça, classe, gênero e sexualida-
de) e com isso se preocupa com as violências impostas aos trabalhadores do
sexo, aos homens e às mulheres transexuais, às travestis, às mulheres negras
periféricas, às bichas negras e afeminadas104. Sujeitos que lidam com múltiplos
estigmas e são relegados à abjeção em diferentes espaços sociais.

A teoria chega às comunicações e ao jornalismo

Os estudos sobre a visibilidade de grupos vulneráveis, chamados popu-


larmente como minorias, vem se mostrando mais presente no campo da Co-
municação desde os anos 1990. Análises sobre o papel do jornalismo, da ficção
televisiva, da publicidade e outros gêneros e suportes midiáticos tornaram-se o
eixo central das pesquisas de graduação e pós-graduação que percebem que o
discurso midiático, seja ele de consumo, de expressão cultural, de informação
ou de entretenimento, é fundamental para o reconhecimento da pluralidade
social, para a construção de afetos dos sujeitos e a aproximação com os territó-
rios dos indivíduos menos transitados em nossas culturas.
Frente a esse paradigma e pelo diálogo com a literatura antropológica,
sociológica e filosófica, passando pelos estudos culturais e subalternos, e so-
bretudo pelos saberes constituídos pelos movimentos feminista e LGBT, é que
na última década o campo da Comunicação debruça com maior intensidade
sobre a perspectiva de gênero.
As transformações políticas e culturais nos últimos cinquenta anos re-
104. O uso dessas palavras para algumas pessoas pode soar pejorativo. Todavia, o uso em questão é político. Demarca
que há pessoas cuja performance de gênero atrelada à sexualidade às mantêm à parte da aceitação, dos ideais masculi-
nos e que detêm corpos dissidentes.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 177


percutiram na produção do conhecimento. Desenvolveram-se novas percep-
ções, novos sentidos e uma terminologia de gênero. Entre as novas compre-
ensões, toca, principalmente, a noção do gênero e da sexualidade como algo
que é forjado tanto no meio cultural como seria por fatores biológicos. Uma
diluição do peso dado as explicações e paradigmas provenientes das Ciências
Biológicas, da Medicina, das Ciências Jurídicas e de certas vertentes da Psico-
logia, da Psiquiatria e da Psicanálise, enquanto saberes normativos, cuja leitura
disciplinar identifica modos de ser e práticas aceitáveis, saudáveis e normais em
contraposição aquelas que serão objeto de correção, de cuidado ou punição
criminal.
É com a inserção da sexualidade e do gênero na esfera cultural, da cons-
tituição histórica, do sociológico e do antropológico, é que surgiram estudos
que corroboraram para conhecer e respeitar formas de vivências sexual e de
gênero não hegemônicas. No entanto, outros estudos serão alimentados pelo
fato de que é extremamente importante começar a questionar a hegemonia
heterossexual como modelo e regime cultural, social e político.

Um olhar queer sobre a cultura convida a uma perspectiva crítica em


relação às normas e convenções de gênero e sexualidade que permitem
– e até mesmo exigem – que muitas pessoas sejam insultadas cotidiana-
mente como esquisitas, estranhas, anormais, bichas, sapatões, afemina-
dos, travestis, boiolas, baitolas, e por aí vai. Pensem sobre essas pessoas
e ficará um pouco mais claro, espero, por que queer não é sinônimo
de gay ou de homossexual. Também espero que percebam que nada,
ou muito pouco, adianta buscar passar da injúria para uma tabela de
identidades, de forma que fosse possível dizer assim: “eu vou respeitar
fulano, porque fulano é tal coisa”. A ideia não é apenas descobrir a for-
ma correta de chamar alguém, mas, antes questionar esse processo de
classificação que gera o xingamento: a primeira experiência com relação
à sexualidade de todo mundo, seja daquele que foi rejeitado e apren-
deu que não era normal, seja de quem adotou as normas e se inseriu
socialmente de uma forma mais fácil, digamos assim, é a experiência da
injúria (MISKOLCI, 2015, p. 33).

O termo Teoria Queer é atribuído a historiadora italiana Teresa de Lau-


retis, que está radicada nos Estados Unidos. Em uma conferência na Univer-
sidade da Califórnia em 1990 cujo debate deu origem a um especial de uma
revista acadêmica com o título Queer Theory: lesbian and gay sexualities, o
nome surgiu, na fala de Lauretis, como uma tentativa de fechar uma unidade

178 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


para um conjunto de pesquisas, pesquisadoras e pesquisadores muitas vezes
dispersos e até mesmo discordantes. Assinala-se que seria uma corrente nasci-
da a partir dos anos 1990, em virtude da divulgação de livros influenciadores
como Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade (originalmen-
te publicado em março de 1990), da filósofa Judith Butler, e A epistemologia do
armário (lançado em 1990 e ainda não traduzido completamente no Brasil),
da teórica Eve Kosofsky Sedgwick, ambas dos Estados Unidos.

Esses estudos se organizaram a partir de alguns pressupostos: a sexua-


lidade como um dispositivo; o caráter performativo das identidades de
gênero; o alcance subversivo das performances e das sexualidades fora
das normas de gênero; o corpo como um biopoder, fabricado por tec-
nologias precisas. Em torno desse programa mínimo, propõe-se quee-
ring, o campo de estudos sobre sexualidade, gênero e corpo (BENTO,
2006, p. 81).

No Brasil, a Teoria Queer teve entrada por meio do campo da Educa-


ção, espaço privilegiado de reflexão sobre a formação dos sujeitos. A educadora
gaúcha Guacira Lopes Louro articulou pioneiramente e de forma criativa à
realidade brasileira tais reflexões, a partir da experiência dela na Universidade
da Califórnia, em virtude de uma oportunidade de estudos, no fim nos anos
1990.
Desde que aportou no Brasil, ainda na década de 1990, a Teoria Queer
provocou questionamentos quanto às possíveis traduções, ou seja, os modos
como tal estofo teórico seria absorvido e significado para as experiências mar-
ginais brasileiras. Em síntese, os estudos queer no Brasil necessitariam de uma
perspectiva para além do norte global. Não por uma questão geográfica, mas
sim de um conhecimento adequado, relevante e arejado pelas vivências latino-
-americanas. Neste quadro, apontamentos críticos são feitos à teoria queer e
possibilidades epistemológicas estão sendo desenhadas agora que o pensamen-
to queer se torna uma expressão política de alguns movimentos sociais e artís-
ticos brasileiros.

Os estudos queer foram percebidos no Brasil no início dos anos 2000:


como uma teoria de ação/reflexão, capaz de se valer dos aportes de Fou-
cault, Derrida, do feminismo da diferença, dos estudos pós-coloniais e
culturais para desafiar não somente a sexualidade binária e heterossexu-
al, mas a matriz de pensamento que a conforma e sustenta. Certamente,

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 179


não foi recebida assim de forma unânime. Algumas pessoas viram nos
aportes teóricos e conceituais das/dos teóricas/os queer uma possibi-
lidade de atualizar os estudos gays e lésbicos que já se fazia no Brasil
desde a década de 1980 (PELÚCIO, 2014, p. 8).

A professora Guacira, a partir da veiculação do texto Teoria Queer: uma


política pós-identitária para a educação (2001), na Revista Estudos Feministas,
foi responsável pela circulação dessa vertente de estudos na área educacional
brasileira e por uma nova proposta acadêmica que atingiu as mais diversas áre-
as do conhecimento, entre elas, a Comunicação e o Jornalismo.

Como os estudos queer são aplicados na Comunicação?

Em um rastreamento das Teses e Dissertações105 produzidas no Brasil


e disponibilizadas no Portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior - Capes, o termo queer é componente do título, do resumo
ou das palavras-chave de 37 pesquisas de mestrado e doutorado da área de Ci-
ências da Comunicação. Desse total, em apenas um dos resultados a pesquisa
não tinha como enfoque os estudos queer, mas sim o seriado televisivo Queer
as Folk.
Não se trata de constituir um Estado da Arte, todavia, é perceptível,
principalmente, em comparação com mapeamentos sobre comunicação e gê-
nero (ESCOSTEGUY; MESSA, 2008), estudos das homossexualidades na
comunicação social (LAZARIN; RODRIGUES, 2014) e estudos de gênero
na pesquisa em jornalismo (MARTINEZ; LAGO; LAGO, 2016) que uma
vertente queer, ainda que tímida, aparece no campo da Comunicação a partir
de 2006106, com grande impacto em pesquisas mais recentes, de 2015 a 2018,
quando se alcança 26 estudos com esse lócus teórico.
Os estudos queer são apresentados, majoritariamente, nas dissertações,
22 das 26 pesquisas encontradas. Dessa maneira, acredito que há uma onda de
pesquisadoras e pesquisadores em formação que são responsáveis por incorpo-
rar os estudos queer à Comunicação e aos Estudos em Jornalismo.
A pesquisa de gênero nos estudos de Jornalismo vem ganhando proje-
ção, dessa forma é que o referencial queer começa a ser explorado e tensionado
nas diversas experiências de pesquisa. Neste levantamento, a leitura queer para
as questões de gênero e sexualidade são mais marcantes nos estudos sobre ci-
105. Conferir tabela com os registros do levantamento no Apêndice.
106. GOMIDE, 2006.

180 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


nema e documentário (12), mas os estudos em jornalismo (10)107 ocupam a
segunda posição. É possível observar os primeiros usos da Teoria Queer em
trabalhos sobre o Jornalismo como “Identidade Capturada. A Parada do Or-
gulho Gay de São Paulo em 2007 nos Telejornais”, mestrado de Irineu Ramos
Ribeiro, defendido em 2008 na Universidade Paulista” e com “Masculino, o
gênero do jornalismo: um estudo sobre os modos de produção das notícias”,
mestrado de Márcia Veiga da Silva, defendido em 2010 na Universidade Fede-
ral do Rio Grande do Sul.
Parte dessa inserção se deve também as leituras e interpretações de Mi-
chel Foucault, Judith Butler, Teresa de Lauretis, Eve Kosofsky Sedgwick mais
comuns nas Ciências Humanas e Sociais e pela proeminência do trabalho de
Guacira Lopes Louro.
Dentro das universidades brasileiras, é notável que, enquanto campo de
investigação ao estudar a comunicação, as perspectivas de gênero abriram espa-
ço para ensaiar a compreensão de inúmeras complexidades das relações huma-
nas. As teorias de cunho queer acabam por implodir as identidades fechadas
como naturais e imutáveis e permitem denunciar as concepções de masculini-
dade, feminilidade e sexualidade ligadas com uma norma social compulsória.

Tornando queer (queering) o jornalismo

A comunicação social detém a capacidade de apresentar paisagens sim-


bólicas por meio de imagens, descrições e narrativas. Ao olhar o contexto con-
temporâneo com as lentes de gênero, é possível verificar transformações cultu-
rais provenientes das lutas por representação qualitativa nos meios midiáticos,
principalmente, nas narrativas jornalísticas:

Imagens homofóbicas e personagens estereotipados exibidos na mídia


e nos filmes são contrapostos por representações ‘positivas’ de homos-
sexuais. Reconhecer-se nessa identidade é questão pessoal e política. O
dilema entre ‘assumir-se’ ou ‘permanecer enrustido’ (no armário – clo-
set) passa a ser considerado um divisor fundamental e um elemento in-
dispensável para a comunidade. Na construção da identidade, a comu-
nidade funciona como o lugar da acolhida e do suporte – uma espécie
de lar (LOURO, 2001, p. 543).

107. RIBEIRO, 2008; VEIGA DA SILVA, 2010; VEIGA DA SILVA, 2015; FRANCISCO, 2016; CAEIRO, 2016;
BORELA, 2017; INSFRAN, 2017; GONZATTI, 2017; GONÇALVES, 2017; MACHADO, 2017.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 181


As pessoas vivem em meio a múltiplos discursos generificados, muitos
desses discursos são projetados pelo Jornalismo. Assistimos a uma explosão
visível das sexualidades, mas sobretudo, as disputas em torno das fronteiras
tradicionais de gênero e da sexualidade é que expõem os limites entre o que
é masculino ou feminino, entre o que constitui o que é o homem e o que é a
mulher, entre quem é heterossexual e quem é homossexual.
Muito dos teóricos e das teóricas do campo de estudo do jornalismo,
com destaque aos queer, ambicionam uma mudança epistemológica que efeti-
vamente rompa com tais lógicas dicotômicas e com os efeitos de classificação,
de hierarquia, de dominação e de exclusão de corpos. Dessa forma, o que está
em disputa são as narrativas e os meios pelos quais elas se disseminam e são
apresentadas.
Como ato social, repousa no Jornalismo a capacidade de apresentar
sentidos, de constituir diálogos. Desse modo, o Jornalismo é uma forma de
conhecimento de gênero. “O Jornalismo constrói suas narrativas tomando
como base principalmente o discurso tecido pelos envolvidos” (LAGO, 2014,
p.182). Portanto, haverá no Jornalismo discursos de gênero, sentidos em dis-
puta.
Corrobora com essa ideia, os apontamentos de Cremilda Medina
(2006), grande pesquisadora em jornalismo, para quem as mediações jornalís-
ticas são constituídas de três famílias de conteúdos: serviços informativos, a re-
portagem e a opinião assinada. Ao informar, interpretar e opinar, o Jornalismo
pode consagrar ou ampliar os modos de ver e de se relacionar com o mundo.
Como narrativa cultural, o jornalismo detém potências: de apresentar
uma sociedade plural, de interpretar disputas e conflitos, de questionar as po-
sições centrais e as marginais. Tornar evidente a heteronormatividade e pôr
em questão as classificações e os enquadramentos nocivos. Além de explorar
transgressões, singularidades e fluidez.
O alvo direto da Teoria Queer é o regime de poder-saber. Nesse senti-
do, as narrativas jornalísticas são fundamentais. De acordo com a professora
Guacira Lopes Louro (2008), há instâncias e espaços sociais com o poder de
inscrever em nossos corpos sentidos e normas. De forma sutil, a construção
de aprendizagens e práticas dos gêneros e das sexualidades se dá por potentes
pedagogias. As narrativas midiáticas participam dessa construção em virtude
do papel de sedução e do impacto orientador que está presente em telenovelas,
anúncios publicitários, jornais, revistas, filmes, programas de TV, sites e blogs
da internet, entre outros.

182 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Para Louro (2008), a construção dos gêneros e das sexualidades se dá
também por orientações e ensinamentos que parecem absolutos, “especialis-
tas” em família, da escola, da igreja, de instituições legais e médicas são quase
soberanos. Fazem parte das vozes que assentam e reiteram por várias instâncias
normas culturais.
O jornalismo ecoa as orientações que provêm desses especialistas. No
entanto, também é significativo que o jornalismo, muitas vezes, dá projeção às
vozes masculinas, vozes que socialmente estão conectadas ao poder político,
econômico e científico.
Sobre isso, Marcia Veiga da Silva (2010), ao observar as rotinas jornalís-
ticas, diz que o Jornalismo se relaciona diretamente com os saberes legítimos,
que devem ser partilhados e tomados como norteadores nos modos como os
sujeitos aprendem a se constituir e a ler o mundo.

A mídia e o jornalismo estão constituídos por gênero e produzem rela-


ções de gênero e de poder que resultam em saberes acerca disso. Investi-
gar os modos como o jornalismo está perpassado por gênero é o primei-
ro caminho para entender como o jornalismo acaba contribuindo para
o processo de (re)produção de valores e representações hegemônicos
de gênero que, em última instância, refletem a existência de um padrão
heteronormativo. É perceber o jornalismo, por uma ótica de gênero,
relacionado com os modos como se constrói o conhecimento sobre as
coisas (e pessoas) do mundo. (VEIGA DA SILVA, 2010, p. 63)

O Jornalismo teria, portanto, o peso de uma atividade semelhante a es-


cola. Escuta mentalidades e discursos hegemônicos com pouca margem para
derivações de verdade. Os profissionais de Comunicação – em especial, os jor-
nalistas – exercem um papel fundamental na apresentação simbólica do mun-
do. Entre as quais, põe em evidência elaborações sexuais e de gênero a partir de
esquemas binários e heterocentrados.
Guacira Lopes Louro (2015) apresenta um ponto essencial ao debate
sobre as representações jornalísticas. Ela indica que as representações culturais
em qualquer meio são atravessadas por significados atribuídos a partir do que
circula em sociedade. No Jornalismo, não poderia ser diferente, a heterosse-
xualidade é abordada como referência. Dá ressonância a sentidos de gênero.
Dá coerência a profundas imposições culturais. Nesse contexto, muitas das
representações operam pela reiteração do que é hegemônico:

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 183


Distintas e divergentes representações podem, pois, circular e produzir
efeitos sociais. Algumas delas, contudo, ganham uma visibilidade e uma
força tão grandes que deixam de ser percebidas como representações e
são tomadas como sendo a realidade. Os grupos sociais que ocupam
as posições centrais, “normais” (de gênero, de sexualidade, de raça, de
classe, de religião, etc.) têm possibilidade não apenas de representar a
si mesmos, mas também de representar os outros. Eles falam por si e
também pelos “outros” (e sobre os outros); apresentam como padrão
sua própria estética, sua ética ou sua ciência e arrogam-se o direito de
representar (pela negação ou pela subordinação) as manifestações dos
demais grupos. (LOURO, 2015, p. 16)

A produção da heterossexualidade na mídia é acompanhada da rejei-


ção ou assimilação da homossexualidade em termos de conceber discursos dos
modos de ser normal. Sentimento que é rigidamente incutido tanto na pro-
dução das masculinidades quanto nas feminilidades. Exemplo disso é a vigília
das expressões físicas dos afetos entre homens, assim como quais gestos devem
ser empregados por homens e comportamentos adequados para as mulheres.
Há um disciplinamento para os corpos, de modo que o jornalismo mui-
tas vezes, sutilmente, encoraja determinadas posturas, estilos e práticas mascu-
linas na política, no trabalho, no esporte e na cidadania por meio de valores e
orientações em torno do poder, da liderança, da competição e da violência. Já
as posturas, estilos e práticas femininas estão asseguradas pelo modo como as
mulheres são medidas, domesticadas e coagidas em torno da beleza, da famí-
lia, da vida doméstica, do sexo e da saúde. Tais pedagogias são exercidas mais
diretamente em revistas de gênero, mas também estão presentes nas demais
narrativas do jornal, do rádio, da TV e da internet.
O que seria necessário para rever as práticas de gênero no Jornalismo e
nas narrativas? Deslocar sentidos, desnaturalizar ideias, reconfigurar discursos
parecem ser o caminho indicado pela Teoria Queer. Na prática, observo com
mais potência trabalhos de campo, narrativas com lógicas femininas, como as
reportagens em livro O nascimento de Joicy: transexualidade, jornalismo e os
limites entre repórter e personagem, da jornalista brasileira Fabiana Moraes (Ar-
quipélago, 2015), e A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch
(Companhia das Letras, 2015).
Obras jornalísticas cuja autoria não se vale da manutenção da abjeção
de certos corpos, mas que têm como potência justamente ressaltar o lugar e a
importância da voz e dos corpos dos sujeitos nos sentidos cotidianos e históri-

184 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


cos. São textos jornalísticos que escapam das rotas seguras; implodem manuais
e gramáticas; caminham pelo incerto e pelo plural, se aventuram por uma in-
vestigação queer.
Uma investigação queer trata-se de considerar outros modos de fazer
pesquisa e reportagem, ir à margem das limitações dadas pelo Jornalismo e
pela Ciência positiva, precisa, masculina e universal. Essa abordagem investi-
gativa implica ainda em outras proposições: localizar/situar o saber (HARA-
WAY, 1995) e a produção simbólica, bem como se aventurar pela plasticidade
da língua, por outros modos de comunicação.
É com esse investimento metodológico e epistemológico que se apon-
tam outros lugares e possibilidades de gênero que inscrevem desejos e compor-
tamentos, narrativas que rompem as normas fechadas de que tipos de pessoas
podemos desejar ou podemos ser.
É possível olhar para narrativas jornalísticas como possíveis contradis-
cursos ao sistema corpo-sexo-gênero e aos vetores produtores de violências,
desigualdades e exclusões. Em outras palavras, é preciso saber a partir de quem
e de quais saberes se dá o reconhecimento do normal, do adequado, do sadio e,
por consequência, de quem é colocado como sujeito humano.

[...] os movimentos sociais organizados (dentre eles o movimento femi-


nista e os das “minorias” sexuais) compreenderam, desde logo, que o aces-
so e o controle dos espaços culturais, como a mídia, o cinema, a televisão,
os jornais, os currículos das escolas e universidades, eram fundamentais.
A voz que ali se fizera ouvir, até então, havia sido a do homem branco
heterossexual. Ao longo da história, essa voz falara de um modo quase
incontestável. Construíra representações sociais que tiveram importantes
efeitos de verdade sobre todos os demais. (LOURO, 2008, p. 20)

Trata-se de interrogar por quais mecanismos são implementas hierar-


quias e relações de poder. Saber como a diferença é naturalizada através dos
processos culturais, bem como apontar que as classificações dos gêneros e da
sexualidade não dão conta das possibilidades de práticas e de identidades.
Contudo, isso não significa que haja um livre trânsito sexual e de gênero, visto
que há em vigor pessoas em posições marginais.
O que se quer é ressaltar a necessidade do exercício de novas complexi-
dades e compreensões dos gêneros e sexualidades, opondo-se assim aos pensa-
mentos hegemônicos que demarcam corpos com base em representações no-
civas. É entrar em disputa com saberes instituídos em torno das sexualidades,

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 185


gêneros e outras diferenças sociais.
São passos necessários à mediação social, ao Jornalismo, ou seja, para
colocar em questão os déficits da relação com o Outro. A proposta queer é
um dos modos possíveis de pensar caminhos que possibilitam a transgressão, a
perturbação, a intuição criativa e a transformação. A busca pela narrativa que
incita a escuta de todos os sujeitos e que aflora a interação social, um ganho
que somente a evolução tecnológica e técnicas do jornalismo não podem dar
por si só. As circunstâncias da escuta são um caminho eficaz para despoluir
olhares sobre as questões de gênero e sexualidade. Daí advêm a necessidade de
implementar novos afetos e novas solidariedades entre o Eu e o Tu, sensibili-
dades que estejam à margem das certezas.

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Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 187


APÊNDICE

188 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 189
190 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)
Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 191
Fonte: Autor

192 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Mulheres jornalistas e o “teto de vidro gênero/raça/classe” a
tensionar a carreira das jornalistas negras brasileiras

Dione Oliveira MOURA108


Hallana Moreira R. da COSTA109
Universidade de Brasília, Brasília, DF

Resumo

O capítulo apresenta os resultados da Etapa 1 de projeto de pesquisa110, na


qual mapeamos as ações e relatos de experiências de mulheres negras jorna-
listas do Distrito Federal (DF), especialmente as que atuam na COJIRA-DF
(Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial) do DF e no Coletivo de Mu-
lheres do Sindicato dos Jornalistas do DF (SJPDF). Os resultados do estu-
do apontam que i) a manutenção das mulheres jornalistas negras em situação
ainda de maior desigualdade perante às jornalistas brancas e/ou não negras
demonstra que a segregação (ou concentração) horizontal e vertical – presen-
te na carreira da jornalista branca ou negra brasileira é ainda mais acentuada
no caso das jornalistas negras brasileiras e pode ser associado, inicialmente,
com o conceito clássico de “teto de vidro”, contudo, com um diferencial da
interseccionalidade raça/gênero/classe; ii ) as mulheres jornalistas brasileiras
enfrentam, minimamente dois “tetos de vidro”: um teto de vidro de dimensão
mais associada a gênero e/ou a classe (dimensão única ou dupla) (a qual detém
as mulheres jornalistas brancas ou não-negras no processo de ascenção na car-
reira, visibilidade e status profissional e um outro teto de vidro. Este último
teto de vidro o percebemos como possuindo três dimensões (associadas à
interseccionalidade gênero/raça/classe) , o qual denominamos “teto de vidro
gênero/raça/ classe” e que delimita e tensiona a carreira das jornalistas negras
brasileiras.

Palavras-chave: Jornalistas negras; Feminização; Teto de vidro três dimen-


sões; Interseccionalidade; Cojira DF.

108. Doutora em Ciências da Informação, Faculdade de Comunicação, UnB.


109. Graduanda de Jornalismo, pesquisadora de Iniciação Científica, UnB.
110. Projeto de Pesquisa “As Comissões de Igualdade Racial (Cojira) dos Sindicatos dos Jornalistas: perfil e atuação
das jornalistas negras por meio das comissões Cojira e a feminização do jornalismo” (MOURA, 2016). O Projeto
teve início no segundo semestre de 2016 e tem o término previsto para o segundo semestre de 2020, sendo que,
durante o ano de 2018, o desenvolvimento da pesquisa faz parte de processo de estágio de pós-doutoramento junto
à Universidade de Brasília, Brasil, tendo a Professora Doutora Tânia Mara Campos de Almeida como supervisora.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 193


Apresentação

O Projeto de Pesquisa As Comissões de Igualdade Racial (Cojira) dos


Sindicatos dos Jornalistas: perfil e atuação das jornalistas negras por meio das
comissões Cojira e a feminização do jornalismo (MOURA, 2016) teve início
no segundo semestre de 2016 e tem término previsto para o segundo semestre
de 2020, sendo que, durante o ano de 2018, o desenvolvimento da pesquisa
faz parte de processo de estágio de pós-doutoramento junto ao Programa de
Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasília (UnB). Também
no mesmo período, estaremos integrando os resultados desta pesquisa em um
contexto comparativo internacional - Brasil, França e Bélgica Francófona111 –,
quanto à carreira de mulheres no jornalismo nestes três contextos
Como palavras iniciais deste relato, é importante situar que estamos
observando o processo de feminização a partir do proposto por Yannoulas
(2011), o que implica em observar que este fenômeno possui duas faces. Uma
primeira seria a feminilização: um aumento no quantitativo de mulheres em
uma profissão. Uma segunda face seria o processo de feminização propriamen-
te dito, processo no qual são perceptíveis alterações na prática profissional,
alterações estas advindas da maior presença de mulheres em determinado cam-
po profissional (YANNOULAS, 2011).
O aumento de mulheres no jornalismo, ou seja, a feminilização112 –
compreendida como o aumento crescente de mulheres atuando como jorna-
listas é uma realidade em alguns países, como o Brasil (ROCHA, 2004), mas
não é, absolutamente, um fenômeno global. É o que aponta o Global Report on
the status of women in the news media”, editado pela International Women’s Me-
dia Foundation (BYERLY, 2011). O relatório demonstra que apenas um terço
das 522 empresas pesquisadas (33,3%) empregavam mulheres jornalistas em
regime de tempo integral. A edição posterior do relatório (BYERLY, 2013)
atesta, com muita nitidez, que, embora existam avanços, os quais variam con-
forme o contexto, ainda há muito o que se conquistar em termos de igualdade
no campo profissional do jornalismo para as mulheres jornalistas.

111. Este estudo comparativo internacional está sendo desenvolvido por um núcleo fundante composto pelas pesqui-
sadoras doutoras Dione O. Moura (UnB); Paula Melani Rocha, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG);
Bèatrice Damian-Gaillard (Arènes, França) e Florence Le Cam, da Universidade Livre de Bruxelas (ULB, Bélgica).
112. Embora estejamos utilizando aqui uma distinção entre femilização (aumento quantitivo de mulheres em um
campo profissional) e feminização (transformações geradas em um campo profissional a partir da ação da presença
das mulheres nesse campo), como proposto por Yannoulas (2011), estamos cientes, como a própria autora admite,
que tais termos muitas vezes, “na literatura especializada sobre gênero e trabalho, são utilizados, alternativamente
(...) (YANNOULAS, 2011, p.271).

194 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


No contexto brasileiro, o aumento de mulheres em diversos campos
profissionais não foi um fato isolado, relata Rocha (2004). No início do século
XX, o país vivia uma realidade econômica que exigiu a introdução de uma
nova mão de obra no mercado de trabalho, afirma a autora. Os crescimentos
da indústria-urbana e de novos serviços, somados ao declínio da economia ca-
feeira, criaram a necessidade de novas forças de trabalho menos qualificadas e
com baixa remuneração. Desta forma, as mulheres passaram a exercer ocupa-
ções menos qualificadas e os homens foram recolocados em ocupações mais
complexas. O processo de aumento de mulheres nas profissões não foi inicial-
mente uma conquista das mulheres, mas consequência de uma transformação
política, econômica e social do país, conclui a autora.
O fenômeno do aumento quantitativo de mulheres do jornalismo, pelo
menos no contexto brasileiro, não tem implicado, até o momento, segunda
década do século XXI, em uma igual proporção de mulheres, nem de mulhe-
res negras, na liderança dos empreendimentos jornalísticos, o que implicaria
que as mulheres ocupassem cargos de chefia, editoria, diretoria etc, nem de
mulheres nas faixas salariais mais altas. Embora seja possível identificarmos
alguns indícios de feminização do jornalismo brasileiro, ou seja, alterações
nas práticas profissionais advindas da presença de mulheres na profissão. Es-
tes indícios de feminização – alteração do campo profissional – podem ser
percebidos em estudos como o de Del Vecchio-Lima & Souza (2017), o qual
identifica os espaços alternativos na internet como mecanismos para viabili-
zar as mulheres no jornalismo brasileiro e também, dentre outros, no estudo
que realizamos sobre as campanhas de combate ao assédio contra mulheres
jornalistas no Brasil (GUAZINA et al., 2018). Para a questão das mulheres
negras jornalistas, são importantes os estudos acerca das campanhas contra o
assédio e discriminação contra jornalistas negras; histórico e ação das Cojiras;
articulação do Sindicato dos Jornalistas, Federação Nacional dos Jornalistas
(FENAJ) e movimento negro; formação continuada de jornalistas negras e
negros; representação midiática e promoção de eventos, debates e premiações
que valorizem a atuação e papel das e dos jornalistas negras e negros (SILVA,
2008; RICARDO et. al., 2011; SOUSA, 2014; SANTOS, 2016; MOURA,
2016, SARMENTO, 2017; PONTES, 2017).
Voltando ao diagnóstico do aumento quantitativo de mulheres no
jornalismo brasileiro, no que pese tal processo, é ainda visível a despropor-
ção entre o percentual de mulheres no jornalismo e o percentual de mulheres
ocupando funções de chefia na área. Quanto à ocupação de cargos de lide-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 195


rança/chefias por mulheres, a pesquisa de Mick e Lima (2013) aponta que é
desproporcional ao percentual de mulheres jornalistas, considerando que 64%
dos jornalistas brasileiros são mulheres, dados coletados em 2012, por meio de
enquete nacional com 2.731 jornalistas respondentes. Mick e Lima, na mes-
ma pesquisa, concluíram que os jornalistas brasileiros são majoritariamente
mulheres brancas com idade até 30 anos (48% dos entrevistados possuem este
perfil de mulher branca com idade até 30 anos). Ainda na mesma pesquisa,
quanto ao quesito cor/raça, os entrevistados se declararam da seguinte for-
ma: 72% branca, 18% parda, 5% preta, 2% amarela, 2% outros e 1% indígena,
segundo relatam os autores. Apesar de serem maioria nas redações, as mu-
lheres jornalistas brasileiras são minoria nos cargos de chefia. A respeito das
condições de trabalho, a pesquisa apontava que as mulheres jornalistas, mais
jovens, ganhavam menos que os homens; eram maioria em todas as faixas até 5
salários mínimos e minoria em todas as faixas superiores a 5 salários mínimos.

O “teto de vidro gênero/raça/classe”

De acordo com o dossiê realizado pelo Geledés – Instituto da Mulher


Negra em conjunto com organização Criola (GELEDÉS e CRIOLA, 2017),
as mulheres negras representam, dados da segunda década do século XXI, o
principal grupo em situação de pobreza no Brasil. O Dossiê, preparado du-
rante o processo de mobilização para a Marcha das Mulheres Negras contra
o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, relata as situações de violência por
que passam as mulheres negras brasileiras, desde perspectiva de violência de
gênero, violência no contexto urbano, violência obstétrica, vulnerabilidade de
jovens negras, negligência e imperícia no sistema de saúde, intolerância reli-
giosa, racismo na internet e racismo institucional, dentre outras dimensões:
“As mulheres negras representam o principal grupo em situação de pobreza.
Somente 26,3% das mulheres negras viviam entre os não pobres, enquanto que
52.5% das mulheres brancas e 52.8% dos homens brancos estavam na mesma
condição (IPEA, 2011)” (GELEDÉS e CRIOLA, 2017, p.11).
A mulher negra no Brasil está entre os grupos que foram constituídos
por exclusões dentro da exclusão – sobrepostos por múltiplas exclusões em
camada, aí encontramos a ‘mulher negra’, a ‘mulher negra nordestina’, ‘a mu-
lher negra favelada’ ou, por outro lado, a ‘mulher indígena’. São amplamen-
te conhecidos estudos realizados por institutos como o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (IPEA) que demonstram que “após extensa produção bi-

196 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


bliográfica, tanto baseada em dados qualitativos como quantitativos, é difícil
negar os grandes diferenciais raciais observados em quase todos os campos da
vida cotidiana” (SUAREZ, SOARES e PINHEIRO, 2007, p.401).
Devemos considerar que este quadro acima – de extrema vulnerabilida-
de social da mulher negra no Brasil – tem uma sócio-história, ou seja, não é um
dado recente, mas desenvolveu-se a partir do período escravagista, arrefecido
pela ausência de políticas públicas de democratização de acesso aos direitos so-
ciais, como saúde e educação, dentre outros, para a população negra brasileira.
Quadro este que tem uma sócio-história que envolve, inclusive, a construção
do feminismo negro (BAIRROS, 1991; CARNEIRO, 2003; LEMOS, 2016).
Na esfera da Educação, a partir do princípio dos anos 2000, com o início
do processo de implantação das políticas de Ação Afirmativa para negros e
indígenas (MOURA, 2004) tem sido parcialmente alterado o acesso da jovem
negra ao ensino superior universitário no Brasil. Contudo, o ensino superior é
ainda, concretamente, um teto de vidro para a mulher negra portar o diploma
que dá acesso – ou certifica – para o ingresso em determinadas carreiras, a
exemplo do jornalismo.
O relatório do IPEA sobre as políticas públicas no Brasil nos anos
2010/2011, aponta alguns segmentos especialmente marcados pela desigual-
dade na sociedade brasileira. Dentre os setores assinalados no relatório do
IPEA (BRASIL, 2011), disponível para acesso de todos interessados, iremos
destacar a questão da igualdade racial e de gênero, pois são dois grupos ou
movimentos sociais que têm uma longa história de ação política no Brasil, no
que pese a permanência dos indicadores de desigualdade. Quanto à questão
das políticas promotoras da igualdade racial, assinala o Instituto que “no ní-
vel tático e operacional, torna-se fundamental que se desenvolvam meios mais
consistentes para comprometer os órgãos setoriais com a promoção da igual-
dade racial” (BRASIL, 2011, p.314).
Desta forma, a compreensão do “teto de vidro gênero/raça/classe”, o
qual impacta negativamente as condições profissionais da jornalista negra bra-
sileira, pressupõe examinar o cenário socio-econômico e político que sustenta
e mantém barreiras relacionadas à interseccionalidade raça/gênero/classe.
Os estudos de Sociologia das Profissões identificam a existência de con-
centrações horizontais e verticais nos campos profissionais, no que concerne a
ter uma maior ou menor presença de homens e mulheres em determinadas áre-
as da profissão por meio da concentração horizontal e da concentração verti-
cal. No que diz respeito ao jornalismo, Damian-Galliard et al. (2009) indicam

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 197


que “diversos trabalhos têm demonstrado que existe uma divisão de domínios
de especialização jornalística, ou dito de outra forma, uma segregação hori-
zontal entre mulheres e homens”113 (DAMIAN-GALLIAD, 2009, p. 187).
Esta segregação, poderíamos nomear como concentração horizontal, é cons-
truída por certas “dinâmicas de especialização redacionais”, afirma o estudo.
Por outro lado, a segregação (ou concentração) vertical das mulheres em
um campo profissional, a qual funciona – como a bastante conhecida figura de
linguagem do “telhado de vidro” – a interceder contra a ascensão das mulhe-
res é um mecanismo também presente na dinâmica das mulheres jornalistas e
não só no Brasil. Os estudos de jornalismo, como situam Damian-Galliard et
al. (2009), identificaram a presença deste “telhado de vidro”114 (le “plafond de
verre”) como um fator ainda limitante para o acesso das mulheres aos postos
de decisão dentro das redações.

Percurso metodológico

O objetivo geral da pesquisa é identificar a presença da jornalista mulher


negra atuante em prol da igualdade racial nas Comissões de Igualdade Racial
(Cojira), vinculadas aos Sindicatos dos Jornalistas, em diversos estados brasi-
leiros. Como objetivos específicos, pretendemos: identificar o perfil biográfi-
co de jornalistas negras atuantes em diversas Comissões Cojira; identificar a
dimensão de articulações entre a vivência universitária, a vivência sindical e a
vivência no movimento negro na biografia de atuação de tais jornalistas
Para conduzir o processo de investigação em torno dos objetivos acima
elencados, os procedimentos metodológicos incluem entrevistas, biografias,
questionários online e observação de campo. O presente projeto de pesquisa,
em sua primeira etapa, 2016/2017, mapeou as ações e relatos de experiências de
mulheres negras jornalistas do DF, especialmente das que participam da Cojira-
-DF (Comissão de Igualdade Racial) e do Coletivo de Mulheres do Sindicato
dos Jornalistas do DF (SJPDF). O Mapeamento foi feito por meio da análise
de portais jornalísticos, análise de enquetes (SINDICATO, 2016, 2017a), mo-
nitoramento de campanhas e atividades (SINDICATO, 2017b) e realização de
entrevistas. O mapeamento das atividades do Sindicato dos Jornalistas Profis-
113. Do original: “Plusieurs travaux ont montré qu´il existait une répartition des domaines de spécialité journalisti-
que ou, por le dire autrement, une ségrégation horizontale entre femmes et hommes” (DAMIAN-GALLIARD et.
al., 2009,p. 187).
114. Guilaume e Pochic (2007) documentam que a metáfora do “telhado de vidro” tem sido utilizada, desde os anos
1980, particularmente nos países anglo-saxões para reunir as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, em diversos
campos profissionais, para acederem a níveis mais elevados nas empresas.

198 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


sionais do DF, realizado no período 2016/2017, levou-nos a constatar que os
eventos organizados pelo Coletivo de Mulheres Jornalistas do SJPDF tiveram
como objetivo discutir questões raciais e de gênero no âmbito do jornalismo no
Brasil, uma vez que as mulheres são maioria nas redações e assessorias.
A seguir, apresentamos o resultado das entrevistas da Primeira Etapa115
da pesquisa e veremos que tais depoimentos manifestam sinais do “teto de vi-
dro gênero/raça/classe”. As entrevistas estruturadas foram realizadas com três
jornalistas negras da Cojira-DF (COSTA, 2017a; COSTA, 2017b; NUNES,
2017a, NUNES, 2017b; SOAREZ, 2017a, SOAREZ, 2017b), a partir de um
roteiro previamente testado, o qual incluía os seguintes tópicos:
• 1ª Rodada de Entrevistas: O desafio de ser mulher jornalista; a
atuação do Coletivo de Mulheres Jornalistas perante a desigualdade
de gênero; as pautas de atividades do Coletivo; o debate sobre ra-
cismo, feminismo e machismo no jornalismo; situações de assédio
no exercício da função de jornalista; a prática de gaslighting perante
o posicionamento político das jornalistas; o futuro do jornalismo e
os retrocessos nos direitos de cidadania; o movimento de mulheres
jornalistas e as jovens jornalistas do futuro; o papel dos meios de co-
municação alternativos para o movimento das mulheres jornalistas.
• 2ª Rodada de Entrevistas: Retornamos às mesmas entrevistadas
e questionamos, com base nas respostas da 1ª Rodada, os seguin-
tes tópicos: O papel de três instâncias – Universidade, Sindicato e
Movimento Negro – na formação de cada uma delas e de que forma
elas percebem (ou não) a articulação entre tais instâncias no proces-
so de combate à discriminação e na promoção de uma posição de
igualdade para as mulheres jornalistas; a inclusão das cláusulas de
campanhas de conscientização do combate ao assédio de mulheres
jornalistas nos acordos coletivos conduzidos pelo SJPDF; o posicio-
namento do Sindicato em relação à pauta racial. Na 2ª Rodada de
entrevistas, a questão comum foi a relação universidade/sindicato/
movimento negro e algumas perguntas específicas foram acrescidas
para cada entrevistada, conforme algum tópico que vimos necessi-
dade de aprofundar.
115. Na Segunda Etapa do projeto, 2018/2019, iremos entrevistar mulheres jornalistas de Comissões de Igualdade
Racial (Cojira) de outros estados brasileiros. Na Terceira Etapa, 2018/2019, será aplicado um questionário online
dirigido às jornalistas que participam e que participaram das Comissões de Igualdade Racial, em diversos Estados e
também serão realizadas entrevistas. Na Quarta Etapa, de conclusão da pesquisa, 2019/2020, ocorrerá a análise de
resultados, realização de seminários de Extensão e produção do relatório final.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 199


Ao fazer o recorte de gênero em relação ao assédio moral no ambiente
de trabalho, nota-se que em relação às mulheres a frequência é maior e sem-
pre parte de seu superior hierárquico, como ressalta a entrevistada jornalista
Verônica Soarez (SOAREZ 2017a): “Normalmente quem te assedia é o seu
chefe, é quem tem o poder de decisão de demitir ou não”. Podemos ver mani-
festa a interseccionalidade – conceito formulado por Crenshaw (1994) – de
raça, gênero e classe na jornalista negra brasileira: basta observar os indica-
dores sociodemográficos aqui citados, no que diz respeito à mulher negra no
Brasil, ou, mais especificamente, os indicadores que dizem respeito à jornalista
negra brasileira. Este mesmo fenômeno da interseccionalidade raça, gênero,
classe é visto manifesto no depoimento da entrevistada Juliana César Nunes,
co-fundadora da Cojira-DF, quando afirma:

Assim a gente é um todo, não dá para separar, a gente é mulher, é ne-


gra, jornalista, não deixa uma coisa de lado, você acorda mulher negra
jornalista... e várias outros papéis que você desempenha na sociedade,
mãe, militante, negra, enfim. Então, a gente tem toda essa complexi-
dade que nos acompanha desde que a gente nasce e toda nossa trajetó-
ria acadêmica, na escola, e profissional, isso está presente e nos desafia.
(NUNES, 2017a).

A interseccionalidade raça e gênero deste “telhado de vidro gênero/


raça/classe” surge também no depoimento da entrevistada Verônica Soarez
(2017a):

Então, o maior desafio, eu como mulher e negra, acho que o maior de-
safio é a questão da credibilidade da sua chefia dos seus superiores, en-
tendeu? Porque normalmente pelos locais que eu já trabalhei sempre
teve que ter um homem para respaldar um trabalho que eu já sei fazer.
Eu trabalhei numa assessoria de imprensa em que eu era responsável
por tudo e, de uma hora pra outra, veio um outro jornalista homem que
virou chefe sabendo fazer a mesma coisa que eu, sendo que fiquei dois
anos sozinha fazendo tudo e de uma hora para outra já não sabia fazer
mais nada... E é isso, sabe, eu acho que o maior desafio é vencer o ma-
chismo mesmo, porque infelizmente todos os locais em que já trabalhei
tem essa questão do machismo mesmo... os nossos próprios chefes não
dão tal credibilidade e simplesmente eu acho que por ser negra e ser
mulher. (SOAREZ, 2017a).

200 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Juliana César Nunes, assim como as demais entrevistadas, descreve bem
os “telhados de vidro”116 ao afirmar, por exemplo, que os temas que as mulhe-
res levam, assim como as pautas, são tratados sempre como menores, além de
ocorrerem restrições de áreas de cobertura ou de viagens que são mais voltadas
para os homens. A jornalista ainda ressalta que há um esforço enorme na so-
ciedade de apagar os registros e silenciar as vozes da população negra em geral,
portanto, “como jornalista, mulher e negra, é necessário se esforçar muito mais
no sentido contrário e não admitir esses silenciamentos”, afirma a entrevistada.
Leonor Costa (COSTA, 2017b), presidenta do Sindicato dos Jornalis-
tas do DF à época da entrevista, e uma das entrevistadas da Primeira Etapa da
pesquisa, considera o racismo um agravante para as jornalistas negras e destaca
a necessidade de haver pessoas negras atuando em comissões e sindicatos pau-
tando a temática racial, porque ela não é automática no imaginário social e
facilmente passa sem ser notada:

Acredito ser importante o olhar do conjunto da diretoria, para além


dos e das/os diretoras/es que militam com a temática, para as questões
de gênero e raça. Essa não é uma deficiência apenas do SJPDF, mas da
maioria das organizações. Os temas voltados às mulheres e aos negros
são sempre pautados por quem milita no tema específico e, às vezes,
é preciso fazer uma disputa para conscientizar o restante dos colegas
sobre a importância dessas pautas. A gente consegue avançar à medida
que conseguimos atuar ao lado de outras organizações. Entendo que o
sindicato pode, e deve, fazer mais debates e atividades com os jornalis-
tas sobre os problemas que envolvem esse setor da categoria, no caso as
mulheres e os negros. Essas agendas podem ser para além das datas co-
memorativas, como o 8 de março e o 20 de novembro. Também é fun-
damental estar nos espaços para fora do sindicato, dialogando com ou-
tras organizações. Mas vejo que estamos avançando. (COSTA, 2017b).

Estudos sobre a militância sindical de mulheres e o papel desta mili-


tância enquanto fator apoio solidariedade pela emancipação feminina jogam
luz sobre o fenômeno descrito por Leonor Costa no depoimento acima. Ao
analisar a participação de mulheres sindicalizadas em diversas áreas profissio-
116. No roteiro das entrevistas, como pode ser verificado na lista de temas que citamos no corpo do artigo, não inclu-
ímos os termos “telhado de vidro” (metáfora usual para denominar as barreiras à ascensão das mulheres em diversos
campos profissionais, expressão esta sacramentada nos estudos anglo-saxões desde os anos 1980, como situam Gui-
laume e Pochic (2007), como também não incluímos o termo que formulamos “telhado de vidro com três dimensões”
(raça/gênero/classe), pois não queríamos ter o risco de induzir este raciocínio perante as entrevistadas. Foi na análise
posterior às entrevistas que verificamos que os relatos trouxeram tais elementos que podem ser associados à ideia de
barreiras criadas pelos “telhados de vidro”.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 201


nais na França, Le Quentrec (2013) destaca que o processo de feminização das
equipes dirigentes dos sindicatos implica perceber que a militância está rela-
cionada à uma consciência feminista e, por fim, a uma consciência de grupo
(LE QUENTREC, 2013).
Dialogando com o proposto por Le Quentrec (2013), vemos nas entre-
vistas que realizamos, aqui citadas, também manifestações do que podemos
designar como uma consciência feminista e uma consciência de grupo de mu-
lheres jornalistas negras, como relata-nos a entrevistada Leonor Costa acerca
do Coletivo de Mulheres Negras do SJPDF:

Ainda estamos nos organizando enquanto Coletivo de Mulheres. Pre-


cisamos torná-lo mais orgânico e colocá-lo na agenda dos movimentos
importantes do DF que atuam na área, mas a nossa atuação no 8 de
março teve um papel importante, pois mobilizamos muitas jornalistas
para a grande marcha unificada e também levamos nossa contribuição,
como categoria, para as discussões que culminaram no ato. A nossa ati-
vidade específica que marcou o mês de luta das mulheres teve o recorte
racial e foi realizada em parceria com a Cojira. No momento, temos
participado também de atividades da Frente de Mulheres de Esquerda
e do Fórum de Mulheres do DF e Entorno, onde também há várias or-
ganizações de negras pautadas pelo enfrentamento ao racismo. Precisa-
mos estreitar mais esses laços. (COSTA, 2017b).

A entrevistada jornalista Verônica Soarez (SOAREZ, 2017), partici-


pante da COJIRA-DF, acredita que o Sindicato é bastante sensível à pauta ra-
cial, pois está, de certa forma, ligado à Comissão. A jornalista considera a Co-
jira-DF, enquanto representação do movimento racial no jornalismo no DF,
como um agente influenciador por meio da promoção de debates e seminários
e do feedback ao que é veiculado na mídia a respeito da pauta racial, dando seu
posicionamento sobre o assunto abordado pela mídia quando necessário.
Sobre a vivência acadêmica Verônica Soarez (2017b) afirma que é nesse
espaço universitário onde o debate da pauta racial se torna efetivo na socieda-
de:

Na minha época, quando fiz ensino médio, há 20 anos, a questão ra-


cial não era abordada nas escolas e nem na mídia. Com isso, o meu
primeiro contato com a pauta racial foi na Universidade. Penso que
é um espaço no qual as ideias são colocadas e expostas sem o perigo
de sofrer algum tipo de sanção ou represália. É o momento da cons-

202 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


trução de pensamento e de ideias. É muito importante começar esse
contato com a pauta racial desde os primeiros anos de vida dos alu-
nos. Isso vale tanto para as crianças negras quanto para as crianças
brancas. O debate racial tem que ser colocado e discutido por todos.
Mas penso que é no espaço universitário que o debate se efetiva, pois,
como futuros profissionais, poderemos pensar como vamos trabalhar
e quais as possibilidades que poderemos abrir para acabar ou diminuir
o racismo. (SOAREZ, 2017b).

A jornalista Juliana César Nunes (NUNES, 2017b), entrevistada, afir-


ma, quanto ao papel dos Sindicatos dos Jornalistas no debate da questão racial
nacionalmente, que: “tivemos alguns avanços na relação com os sindicatos. A
partir de propostas aprovadas em congressos da FENAJ, os sindicatos se com-
prometeram a incluir o quesito raça-cor na ficha de filiação e também realiza-
ram campanhas de auto-declaracão”.

Considerações finais

Pelo menos no caso das jornalistas mullheres brasileiras, podemos con-


cluir que, ao aplicarmos a clássica metáfora do “teto de vidro” como barreira
à ascensão de mulheres nas empresas, temos indicativos de que há um “teto
de vidro” com características próprias para as jornalistas negras, ou seja, elas
são mais interditadas pelo “teto de vidro” (menor salário, menos posições de
chefia e menos presença em situações de visibilidade no jornalismo – exemplo
de repórteres de TV e âncoras de telejornais) do que as jornalistas brancas, e
de que isso dá-se, dentre outros fatores, pela ação deste “telhado de vidro com
três dimensões (raça/gênero/classe)”.
Em nossa reflexão, com base no processo metodológico descrito aci-
ma, concluímos que as mulheres jornalistas brasileiras enfrentam, minima-
mente dois “tetos de vidro”: um “teto de vidro” de camada única ou dupla
(gênero e/ou classe), o qual detém as mulheres jornalistas brancas no pro-
cesso de ascenção na carreira, visibilidade e status profissional, e um outro
“teto de vidro gênero/raça/classe” que delimita e tensiona a carreira das jor-
nalistas negras brasileiras no processo de ascenção na carreira, visiblidade e
status profissional.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 203


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Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 207


Representações e (in) visibilidades da negritude
no telejornalismo brasileiro: o negro e as relações
étnico-raciais são notícias na TV?

Beatriz BECKER117
Rafael Pereira da SILVA118
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ

Resumo

Pretos e pardos formam 54% da população brasileira, mas são afetados por um
racismo estrutural, comprovado por índices socioeconômicos e educacionais.
A televisão é o principal meio de informação da população brasileira, porém
a invisibilidade do negro no telejornalismo também funciona como instru-
mento de exclusão, impedindo o reconhecimento da diferença e reforçando
estereótipos. Contudo, as narrativas telejornalísticas podem ser estratégicas
para a redução de desigualdades e para a superação do racismo e de preconcei-
tos. Amparado nas contribuições teóricas de Nancy Fraser e na metodologia
da Análise Televisual, proposta por Beatriz Becker, este capítulo reflete sobre
relações étnico-raciais no telejornalismo, a partir de resultados de análise com-
parativa de modos de representação da população negra no Jornal Nacional e
no Repórter Brasil.

Palavras-chave: Mídia; Telejornalismo; Negro; Racismo estrutural; Reco-


nhecimento cultural.

Contextualizações

Negros são reconhecidos como grandes artistas e atletas, personalidades


da moda e protagonistas de comerciais, filmes, ficções-seriadas e telenovelas
na atualidade. A aceitação e a presença da população negra na cultura popular
é hoje bem mais expressiva do que nas décadas passadas (HALL 2016) e, no
Brasil, resulta, em parte, de um conjunto de esforços de movimentos sociais
117. Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (PPGCOM-UFRJ). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Líder do Grupo de Pesquisa
Mídia, Jornalismo Audiovisual e Educação. E-mail: beatrizbecker@uol.com.br
118. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (PPGCOM-UFRJ, Bolsista CAPES, membro do Grupo de Pesquisa Mídia, Jornalismo Audiovisual e Edu-
cação. E-mail: domrafasil@gmail.com

208 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


contra o racismo nos meios de comunicação e de políticas públicas, como o
Estatuto da Igualdade Racial119, sancionado em 2010, visando a garantir aos
negros a igualdade de oportunidades, a defesa de direitos étnicos individu-
ais e coletivos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerân-
cia. Mas se a visibilidade dos negros cresce na mídia e eles podem se tornar
celebridades, antigos padrões de representação cristalizados e formas antigas
de discriminação permanecem, como a contínua demonização da juventu-
de negra na cobertura sobre crimes e desordens em coberturas jornalísticas.
Mesmo que os negros tenham conquistado legitimidade na cultura popular,
eles estão bem menos presentes ou visíveis no mundo do poder corporativo, e
ainda existem limites marcados de suas participações em centros de decisões
políticas e econômicas (HALL, 2016). No século XXI, os negros ainda não
superaram injustiças e desigualdades resultantes do regime escravagista, após
130 anos da Abolição da Escravatura no Brasil. Para Muniz Sodré (2015), a
aspiração ao embranquecimento, materializada em discursos doutrinários que
perpassavam áreas de conhecimento distintas, era uma tentativa de se preser-
var a discriminação contra efeitos colaterais da Abolição da Escravatura. Hoje,
sob a argumentação de que a mistura e a convivência pacífica entre as raças
se manifestam no país, a branquitude e a valorização do mestiço são poderes
silenciosos que agem no convívio social na manutenção de preconceitos e de
hierarquias raciais (SOVICK, 2009). Os resquícios da escravidão podem ser
verificados pela existência de um racismo estrutural120 que abrange aspectos
materiais e simbólicos, comprovado por índices de desigualdade socioeconô-
micos e educacionais e pela representação negativa ou estereotipada de negros
na mídia, os quais, junto com os pardos, representam 54% da população brasi-
leira, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)121.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)122,
divulgada em novembro de 2017, pelo IBGE, no terceiro trimestre deste mes-
mo ano, dos 13 milhões de brasileiros desocupados, 8,3 milhões, ou 63,7%,
119. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm>. Acesso em:
05 mai. 2018.
120. O racismo estrutural é aqui compreendido como um complexo sistema social de dominação, composto por um
subsistema social, formado por práticas sociais e de discriminação no micro (nível local) e por relações de abuso de
poder por organizações e instituições dominantes (nível macro); e um subsistema cognitivo, sustentado por represen-
tações mentais enraizadas em preconceitos e ideologias racistas (Dijk, 2010).
121.Disponívelem:<https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/
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https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/04/negros-representam-54-da-populacao-do-pais-mas-
-sao-so-17-dos-mais-ricos.htm>. Acesso em: 07 mai. 2018.
122. Disponívelem:<https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/
noticias/18013-pretos-ou-pardos-sao-63-7-dos-desocupados.html>. Acesso em: 07 mai. 2018.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 209


eram pretos ou pardos. Em relação aos rendimentos, o ganho mensal dos tra-
balhadores negros era de R$ 1.531, enquanto o dos brancos era de R$ 2.757.
Em 2015, a participação de negros no grupo dos 10% mais pobres do país
correspondia a 75% da população, enquanto no grupo do 1% mais rico da na-
ção a porcentagem de negros e pardos era de apenas 17,8%. Além disso, 73,5%
deles estavam mais expostos a viver em um domicílio com condições precárias
do que os brancos.123 A população negra também é a mais sujeita à violência,
de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)
de 2017124. Cerqueira e Coelho (2017) evidenciam que os problemas sociais
que afligem a população negra não se restringem às causas socioeconômicas.
Os autores apontam que no grupo dos 10% de cidadãos com probabilidade
de sofrerem homicídios, 78,9% destes são negros, e que, aos 21 anos de idade,
pretos e pardos têm mais 147% de chances de serem vítimas fatais do que in-
divíduos de outras etnias (CERQUEIRA E COELHO, 2015). Além disso,
segundo o IBGE, entre a população brasileira com 25 anos ou mais em 2016,
apenas 8,8% de pretos e pardos tinham nível superior, enquanto para os bran-
cos esse percentual era de 22,2%125. O índice de analfabetismo em 2017 era de
7,0% (11,5 milhões de analfabetos), mas para as pessoas pretas ou pardas essa
taxa era de 9,3%, mais do dobro do que a das pessoas brancas, correspondente
a 4,0%126. Entre os jovens de 15 e 29 anos que não estudavam nem trabalha-
vam, 62,9% eram negros. 59,7% das meninas de 15 a 19 anos sem estudo e sem
trabalho tinham pelo menos um filho e 69% destas meninas eram negras127. E
quase metade da população negra vivia na informalidade econômica128.
Esses dados são um retrato de um racismo amenizado pelo mito da de-
mocracia racial e revelam que a população negra continua com acesso limita-
do a direitos e serviços públicos. As transformações históricas modificaram a
estrutura social do país, mas os negros têm menos oportunidades e qualidade
de vida do que os brancos. O regime racializado da representação dos afro-
descendentes, ou seja, uma estereotipagem que reduz, essencializa, naturaliza
123. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/economia/o-tamanho-da-desigualdade-racial-no-brasil-em-um-
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des-que-negros-no-mercado-de-trabalho-diz-mpt>. Acesso em: 12 mai. 2018.

210 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


e fixa a diferença em oposições binárias, divide o normal do anormal, o acei-
tável do inaceitável, o pertencente e o que não pertence, e categoriza o outro
como um ser incompleto ou deficiente (HALL, 2016), tem sido contestado,
mas ainda persiste no século XXI. Esse deslizamento do significado assegura
o fechamento discursivo e a exclusão, gera estereótipos129 e tende a ocorrer
onde existe uma enorme desigualdade de poder. Contudo, as representações
não são estáticas. Práticas socioculturais também são atravessadas por contra-
estratégias ou novos padrões emergentes que tentam intervir na representação,
transcodificando novos significados para imagens negativas (HALL, 2016).
Ações de combate à desigualdade e políticas afirmativas organizadas pelos mo-
vimentos sociais negros no Brasil, que emergiram com maior força a partir da
década de 1970, têm corroborado com transformações neste cenário, buscan-
do implantar políticas de redistribuição de recursos econômicos e o reconhe-
cimento tanto dos problemas causados pelo racismo estrutural quanto da rele-
vância da negritude para a constituição das identidades brasileiras. Entretanto,
este projeto político e simbólico de lutas e ativismo do movimento negro só
pode ser concretizado de forma plena na atualidade com a promoção da justiça
social, por meio da distribuição de recursos produtivos e de renda; do reco-
nhecimento das contribuições de diferentes grupos sociais para as sociedades;
e da diversidade de representações simbólicas (FRASER, 2006a). Assim, uma
relação igualitária entre claros e escuros (SODRÉ, 2015) no Brasil, demanda
a adoção de estratégias capazes de gerar redistribuição econômica e financei-
ra e o reconhecimento da importância da população negra para a cultura e o
desenvolvimento do país. Os meios de comunicação tendem a reproduzir as
relações sociais (RAMOS, 2002) e a invisibilidade do negro na mídia ainda
funciona como instrumento de exclusão no país. No entanto, o combate à in-
justiça social e a superação do racismo também estão imbricados na atuação da
mídia, uma vez que a valorização da negritude nos processos de comunicação
midiáticos colabora para práticas socioculturais mais plurais e democráticas.
Por essa razão, a presença e a representação do negro na mídia são estratégias
fundamentais para o ativismo negro.
Neste estudo refletimos sobre as representações da população negra no
telejornalismo, uma vez que a televisão é o principal meio de informação para
a maioria da população brasileira, como revela a “Pesquisa Brasileira de Mídia
129. Determinados preconceitos socializados, crenças fundamentadas em informações parciais e precárias que dão
lugar à escrita e à leitura seletiva da realidade se tornam estereótipos, conjunto estável de ideias pré-concebidas que os
membros de um determinado grupo compartilham sobre as características de outros, gerando julgamentos e reprodu-
zindo uma certa ordem social (ALSINA, 2009).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 211


2016”, da Presidência da República130. Assumimos como hipótese que os tele-
jornais podem representar a diversidade cultural existente em nosso país, mas
seus procedimentos discursivos muitas vezes são tão engessados que impedem
a adoção da diferença em suas narrativas e reforçam estereótipos e preconcei-
tos sobre o negro. Acreditamos que as narrativas telejornalísticas tomadas pela
perspectiva da inclusão social são relevantes para a promoção do reconheci-
mento cultural da população negra no país. Assim, esta investigação busca
contribuir para o fomento da diversidade na mídia, por meio de uma análise
comparativa das narrativas sobre a negritude do Jornal Nacional, da Rede Glo-
bo de Televisão, e do Repórter Brasil, da Empresa Brasileira de Comunicação
(EBC). Os principais resultados são aqui sistematizados.

A negritude no Jornal Nacional e no Repórter Brasil: uma aná-


lise comparativa

Amparados na metodologia da Análise Televisual (AT) proposta por


Becker (2016; 2012), buscamos entender como as relações étnico-raciais são
noticiadas no Jornal Nacional (JN) e no Repórter Brasil (RB), considerando
que a AT permite realizar uma leitura crítica de conteúdos e formatos audio-
visuais veiculados nesses noticiários. Este percurso metodológico é constituí-
do por três etapas: 1) Descrição e contextualização do objeto em análise; 2)
Análise televisual, reunindo uma análise quantitativa e uma análise qualitati-
va; e 3) Interpretação dos resultados alcançados. São aplicadas seis categorias
na análise quantitativa131 – Estrutura Narrativa; Temática; Enunciadores; Vi-
sualidade; Som; e Edição – e três princípios de enunciação na análise quali-
tativa132 – Fragmentação; Dramatização; e Definição de Identidades e Valores.
130. Disponível em: <http://www.secom.gov.br/arquivos-capacitacao/apresentacao-pesquisa-brasileira-de-mi-
dia-2016.pdf/view; https://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/tv-e-o-meio-preferido-por-63-dos-
-brasileiros-para-se-informar-e-internet-por-26-diz-pesquisa.ghtml>. Acesso em: 12 mai. 2018.
131.  A categoria Estrutura narrativa é utilizada para identificar como o texto audiovisual é organizado e o tempo
de duração dos blocos e das notícias; e a de Enunciadores oferece a possibilidade de identificar os atores sociais que
participam da narrativa, seus modos de enunciação e as diferentes vozes presentes e ausentes nos relatos. A aplicação
desta categoria nos permite verificar neste estudo tanto a participação de repórteres e apresentadores negros quanto o
espaço dedicado a fontes e personagens negras na narrativa audiovisual dos telejornais analisados. A categoria Visuali-
dade nos auxilia a entender como os recursos visuais são empregados e produzem sentidos. A Temática indica os temas
privilegiados e, nesta pesquisa, as pautas sobre negritude e as maneiras como as relações raciais tornam-se notícias. A
categoria Som evidencia como os elementos sonoros, as palavras, os ruídos e as trilhas sonoras estão articulados na
construção de significações do texto. A categoria Edição nos abre a possibilidade de perceber como os códigos audio-
visuais são combinados na atribuição de valores aos acontecimentos noticiados e a atores sociais (BECKER, 2012).
132. A Fragmentação nos indica que o modo de apresentação das notícias não oferece a oportunidade de compreen-
der e realizar interligações indispensáveis para uma ampla apreensão dos problemas e conflitos sociais apresentados,
especialmente em função da curta duração de cada unidade informativa do telejornal. Neste estudo, este princípio
de enunciação nos permite perceber como se manifesta a representação da negritude e as relações étnico-raciais nos

212 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Tal percurso metodológico pode ser utilizado em uma análise comparativa de
dois objetos do mesmo gênero discursivo, observando como os códigos au-
diovisuais são combinados na produção de sentidos em cada um dos produ-
tos ou obras audiovisuais (BECKER, 2012, 2005). Na terceira fase da AT,
a Interpretação dos Resultados, associamos nesta investigação três categorias
para analisar como a negritude e as questões étnico-raciais são construídas nos
telejornais estudados, inspirados nas reflexões de Nancy Fraser sobre justiça
social: 1) Redistribuição; 2) Reconhecimento; e 3) Representação. Segundo a
filósofa norte-americana, a realização da justiça social requer iniciativas que
promovam a redistribuição material de recursos produtivos e de renda, bem
como o reconhecimento cultural e simbólico das contribuições de diferentes
grupos sociais e étnicos, e somente chegaremos a sociedades mais igualitárias
e menos desiguais se o reconhecimento e a redistribuição estiverem integrados
nas políticas e na agenda públicas (FRASER, 2006b). Neste estudo, a apli-
cação da categoria Redistribuição contempla conteúdos noticiosos associados
às demandas por distribuição econômica. Um exemplo são as notícias sobre
dados econômicos, emprego e renda sobre a população negra. A categoria Re-
conhecimento, por sua vez, está vinculada às matérias que estimulam a visibi-
lidade positiva dos negros, reconhecem os problemas causados pelo racismo
estrutural e expressam a importância da cultura negra e de suas contribuições
para a constituição da identidade brasileira, como reportagens sobre celebra-
ções e manifestações culturais. A categoria Representação é aqui adotada para
verificar a presença de negros e os lugares de fala por eles ocupados como fon-
tes institucionais e especializadas em matérias sobre temas importantes que
repercutem na mídia. Assim, buscamos entender os modos como a negritude
é tecida no JN e no RB e como o telejornalismo constrói a nação imaginada
(ANDERSON, 2008). Analisamos um corpus constituído por 36 edições de
cada um dos telejornais referidos, totalizando 72 edições, cerca de 50 horas de
material audiovisual. A coleta do material foi realizada em novembro e dezem-
bro de 2017 e em janeiro de 2018, reunindo duas semanas de edições conse-
cutivas de ambos os noticiários a cada mês, de 13 a 25 de novembro, de 11 a
23 de dezembro e de 8 a 20 de janeiro. A escolha do período inicial da coleta
foi proposital, uma vez que compreende a Semana da Consciência Negra e a
dois noticiários televisivos estudados. O princípio da Dramatização corresponde à natureza ficcional da narrativa
telejornalística, cujo desvendamento é realizado por etapas para que o clímax da narrativa aumente, conferido caráter
dramático à determinados acontecimentos e personagens, envolvendo as audiências e despertando sentimentos de
empatia ou comoção, por meio de técnicas e recursos audiovisuais. O princípio da Definição de Identidades e Valores
nos ajuda a entender os modos como problemas sociais e conflitos são julgados e qualificados, os valores atribuídos a
personagens e as maneiras como indivíduos e tipos e grupos sociais são escolhidos e representados.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 213


celebração do dia de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro. Supomos que
nessas datas comemorativas haveria uma maior visibilidade das relações étni-
co-raciais e que em outros períodos esta temática seria menos recorrente nas
edições dos telejornais estudados. Assim, observamos como e quando a po-
pulação negra é noticiada. A gravação do JN foi feita por meio da plataforma
Globoplay, das Organizações Globo, e a coleta das edições do RB mediante o
uso do programa Apowersoft, no Facebook, na página da TV Brasil na internet
e em canais no Youtube133.
A Aplicação da categoria Estrutura da Narrativa permitiu identificar que
o Jornal Nacional é exibido de segunda-feira a sábado a partir das 20h30 minu-
tos, com tempo de duração entre 35 minutos a 46 minutos, divididos em três ou
quatro blocos. A estrutura narrativa do JN não é fixa e sofre variabilidades, em
função do grau de relevância dos acontecimentos atribuídos pelos editores. No
entanto, o primeiro bloco do telejornal quase sempre é o que tem maior tempo
de duração, reunindo matérias de Política e de Economia e sobre operações poli-
ciais, desastres naturais e grandes tragédias urbanas. No segundo bloco são privi-
legiados conteúdos sobre Saúde, Tecnologia, Consumo, Cotidiano, Previsão do
Tempo e acontecimentos internacionais. As notícias sobre Esporte e Cultura,
bem como matérias mais “leves” tendem a ocupar o último bloco. No perío-
do estudado foram veiculadas em média 17 notícias por dia, totalizando 657
conteúdos jornalísticos. Porém, apenas 54 matérias, correspondentes a 8,2% das
notícias do telejornal, trataram de questões associadas aos negros. O JN produz
em média cerca de 4h15 minutos de conteúdo jornalístico por semana. Durante
as duas semanas de cada um dos três meses analisados foram exibidas 25h16 mi-
nutos de material noticioso, mas o tempo total de reportagens sobre a negritude
neste período foi de apenas 1h55 minutos.
A estrutura narrativa da edição noturna do Repórter Brasil possui ca-
racterísticas distintas daquelas do JN. No período estudado, o RB foi exibido
de 19h45 às 20h30 minutos com um tempo regular de cerca de 41 minutos
diários de duração. O tempo de duração médio da sua produção semanal é de
cerca de 4h05 minutos, totalizando 24h31 minutos de conteúdo noticioso no
período analisado. Este noticiário é dividido em três blocos com intervalos de
2 minutos e oferece matérias com maior diversidade e pluralidade temática do
que o JN. Além de um resumo das principais notícias do dia, o RB apresenta
notícias sobre consumo, cotidiano, educação e cidadania e veicula reportagens
133. Disponíveis, respectivamente, em: <https://globoplay.globo.com>; <https://www.apowersoft.com.br/grava-
dor-de-tela-gratis>; https://www.facebook.com/reporterbrasilnarede>; <http://tvbrasil.ebc.com.br/reporterbra-
sil>; < https://www.youtube.com>. Acesso em: 11 mai. 2018.

214 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


especiais sobre relações raciais e diversidade de gêneros. O RB também oferece
no final de cada bloco um espaço de interação com o telespectador, o qua-
dro “Pergunta do Dia”, que possibilita a participação do cidadão por meio de
povo-fala – breves depoimentos seguidos uns dos outros em resposta a uma
questão –, e da página do noticiário no Facebook, a partir da apresentação uma
notícia sobre um tema específico. Este quadro marca uma distinção importan-
te entre esse telejornal e o JN ao abrir espaço para as audiências. Outra carac-
terística do RB é o giro de notícias internacional, destacando as principais in-
formações do noticiário internacional. O RB produziu no período um total de
782 matérias, e apenas 82 notícias, ou 10,4% do conteúdo jornalístico, foram
dedicadas a questões referentes aos negros. Essas matérias sobre negritude re-
presentam 3h23 minutos, quase o dobro do tempo do total de matérias sobre
relações raciais exibidas pelo JN. O tempo total de matérias sobre a negritude
e relações raciais exibidas nos dois noticiários foi de aproximadamente 5h19
minutos, 63,8% produzidas pelo RB e 36,2% pelo JN. O corpus total desta
investigação, formado por 1.439 matérias, corresponde a 49h48 minutos de
produção noticiosa do JN e do RB. Porém, apenas 136 destas notícias, ou 9,4%
das matérias de ambos os noticiários, continham a presença de negros como
personagens, ofereciam visibilidade à negritude, protagonismo à cultura negra
ou abriam espaço para um debate sobre as relações étnico-raciais no país no
período estudado. A aplicação da categoria Temática nos permitiu ainda ob-
servar que as notícias internacionais foram as que mais ofereceram visibilidade
aos negros no JN, com destaque para a deposição do ditador do Zimbábue,
Robert Mugabe. Os afrodescendentes foram ainda representados em reportagens
sobre esporte, violência urbana e desigualdade neste noticiário. O RB também pri-
vilegiou a representação dos negros em matérias sobre desigualdade e em notícias
internacionais; e destacou conteúdos sobre racismo, cotidiano e consumo.
A utilização da categoria Enunciadores nos auxiliou a identificar a par-
ticipação de repórteres, apresentadores, fontes e personagens negros na narra-
tiva audiovisual dos telejornais analisados. O JN foi apresentado por sete du-
plas de âncoras e por dez diferentes jornalistas, mas entre eles apenas Heraldo
Pereira é negro. Ele apresentou o JN em uma edição de novembro de 2017,
dividindo a bancada com Carla Vilhena, e durante duas semanas de janeiro
com Giuliana Morrone, período em que os âncoras titulares, Wiliam Bonner e
Renata Vasconcelos, estavam de férias. Os principais apresentadores do Repór-
ter Brasil edição noturna são os jornalistas Pedro Pontes e Katiuscia Neri. Ao
longo do período analisado, três duplas de jornalistas compartilharam a ban-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 215


cada, porém, entre esses profissionais somente Luciana Barreto é negra. Em re-
lação à presença de repórteres, das 657 matérias veiculadas pelo JN no período
estudado, houve a presença recorrente das jornalistas Zileide Silva, responsável
por oito matérias, e Maria Júlia Coutinho, que apresenta a previsão do tem-
po. Elas foram as principais enunciadoras de 36 conteúdos jornalísticos, que
representam 5,4% de todas as matérias veiculadas pelo JN nas edições obser-
vadas. No mesmo período, o RB exibiu 782 matérias com a participação de 14
repórteres negros e afrodescendentes em 53 delas, correspondentes a 6,7% do
conteúdo jornalístico estudado. Seis deles têm presença regular no noticiário:
Luanda Belo, Iara Bauduíno, Paulo Leite, João Marcelo, Tatiana Costa e Lu-
ciana Barreto. Os outros jornalistas participaram somente uma ou duas vezes
no telejornal nas edições das semanas analisadas. A pesquisa evidenciou que
nas matérias e assuntos de maior abrangência nacional, como as das editorias
de política e economia, que ocupam a maior parte das produções jornalísticas
do JN, a participação de afrodescendentes é praticamente inexistente. Identifi-
camos apenas uma participação de cidadão negro representante de movimen-
tos sociais em uma matéria sobre relações raciais no Brasil e como especialista.
A população negra só ganha visibilidade em matérias sobre cultura popular,
muitas vezes por meio de curtos depoimentos, em reportagens sobre espor-
tes e celebrações, como o dia da Consciência Negra, e como personagem para
ilustrar matérias pautadas em dados sobre desigualdades sociais no país. Nas
657 matérias exibidas pelo JN, ao longo das seis semanas estudadas, os negros
foram utilizados como fontes de informação 50 vezes e apenas nas 54 maté-
rias sobre negritude. No Repórter Brasil, foram ouvidos 139 afrodescendentes
em 82 matérias sobre questões étnico-raciais e os negros atuaram como fon-
tes outras 20 vezes em matérias sobre assuntos diversos no conjunto dos 782
conteúdos noticiosos observados. Um fato que contribuiu para o incremento
da visibilidade dos negros em ambos os telejornais foi a deposição do ditador
Robert Mugabe, no Zimbábue. Contudo, o RB utilizou pessoas negras como
fontes quase três vezes mais do que o JN.
As características visuais dos estúdios dos telejornais estudados são mui-
to diferentes. O JN é transmitido de uma redação, inaugurada em junho de
2017, imersa em um cenário convergente. A bancada onde os âncoras apresen-
tam as principais notícias do dia tem um design hightech nas cores azul e cinza.
Em segundo plano, é possível ver a redação e os profissionais que produzem
as notícias. Ao fundo, um painel digital com os símbolos do JN e um gran-
de mapa mundial fortalecem a ubiquidade do telejornal. O cenário permite

216 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


a apresentação do jornal por vários ângulos e enquadramentos de câmera, a
inserção de gráficos e infográficos em telas de plasmas durante a apresentação
das notas e possibilita deslocamentos dos âncoras no estúdio. Eles saem de trás
da bancada e fazem chamadas de matérias em pé, de frente para um telão que
viabiliza a entrada de repórteres ao vivo e é também utilizado nas chamadas
de previsão do tempo e de notícias internacionais. O RB é apresentado de um
estúdio bem mais modesto e em formato tradicional: os âncoras ficam atrás de
uma bancada branca e vermelha, posicionada à frente de um fundo vermelho
e cinza, onde um monitor de televisão está instalado ao centro com o logo
do telejornal. Neste aparelho são inseridos infográficos, imagens e artes que
introduzem o tema das matérias que serão chamadas a seguir pelos apresenta-
dores. O estúdio oferece menos mobilidade para os âncoras, que não podem se
movimentar pelo cenário, pois são captados por dois únicos enquadramentos
de câmera: um central e outro lateral. A estética da narrativa do JN e o tipo
de imagens e enquadramentos utilizados tendem a se manter os mesmos ao
longo de todas as edições do telejornal, enquanto no RB há maior variabilida-
de de vídeos veiculados de outras emissoras de TV pública afiliadas da EBC,
retransmitidos por este noticiário. A sonorização das matérias contribui para
a dramaticidade do texto jornalístico, mas esta também é acentuada pelo som
ambiente e ruídos extraídos do próprio acontecimento nas gravações externas.
As vinhetas são o principal elemento sonoro utilizado pelo JN e pelo RB, e
oferecem identidade sonora à ambos os telejornais. São utilizadas para sensibi-
lizar e atrair o telespectador na abertura e na transição de blocos dos noticiá-
rios e para caracterizar reportagens especiais e quadros específicos presentes do
RB, como o quadro “Pergunta do Dia”. No período, estudado o RB apresentou
duas edições deste quadro sobre a negritude.
Na análise qualitativa, a aplicação do princípio de enunciação Fragmen-
tação permitiu verificar que temáticas sobre a cultura negra e as relações étni-
co-raciais têm pouca visibilidade nos telejornais estudados. Os negros tendem
a ganhar destaque no JN e no RB apenas em períodos de celebrações ou em
datas comemorativas e quando institutos de pesquisa ou instituições, como
o IBGE e a Unesco, divulgam dados sobre desigualdade social no Brasil. A
presença dos negros em ambos os noticiários ainda é esporádica, com exce-
ção das edições de novembro observadas, em função da celebração da Semana
da Consciência Negra. Os negros aparecem em reportagens sobre outras te-
máticas na composição de cenas do cotidiano urbano, mas eles não têm voz
em matérias sobre política e economia, pautas recorrentes no telejornalismo

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 217


brasileiro. Esse apagamento da população negra nos noticiários colabora para
acentuar os problemas causados pelo racismo estrutural no Brasil. O princípio
da Dramatização, que busca o envolvimento emocional do telespectador com
a narrativa de diferentes gêneros televisivos se manifesta no telejornalismo, es-
pecialmente, no modo como certos personagens são apresentados nas narrati-
vas. No período analisado, essa estratégia enunciativa foi utilizada de maneira
expressiva na série de reportagens “Em Marcha” sobre o mês da Consciência
Negra, veiculada pelo Repórter Brasil, mas valorizando a cultura e a população
negra. Nesta série e em outras matérias sobre negritude foi possível identificar,
por meio da aplicação do princípio Definição de Identidades e Valores, que o
RB oferece mais visibilidade e protagonismo aos negros. Neste telejornal, eles
foram privilegiados como fontes em matérias sobre relações raciais e racismo.
Embora tenha sido possível identificar a presença da cultura e de pessoas ne-
gras em matérias do JN, a ausência de contextualização de problemas decor-
rentes de desigualdades sociais gera um apagamento do racismo estrutural bra-
sileiro nas edições do telejornal estudadas. Possíveis soluções para a inclusão
social enfrentadas por negros apresentadas em reportagens do JN são quase
sempre apontadas por pessoas brancas, como especialista ou representante
de uma instituição, amenizando os seus desafios e dificuldades, como a maté-
ria sobre mercado de trabalho exibida no dia 20 de novembro de 2017134. As
construções discursivas dessas reportagens tendem a não promover reflexões
críticas sobre as desigualdades socioeconômicas e raciais no país, carregadas de
metáforas eufemísticas. Exemplos são as duas matérias veiculadas no dia 15 de
dezembro de 2017. A primeira ressaltou que, segundo o IBGE, um em cada
quatro brasileiros vivia em situação de pobreza em 2016135. Mas, em seguida,
foi exibida outra matéria informando que metade dos brasileiros superou a
condição econômica de seus pais no ano seguinte136. Desse modo, não hou-
ve um aprofundamento desses problemas e os dados econômicos referidos da
segunda matéria otimizaram as informações apresentadas na primeira reportagem,
sem um reconhecimento da necessária atenção à grande parte da população negra.
Os resultados da pesquisa realizada mostram que do total de 1.439 ma-
térias produzidas e veiculadas por ambos os telejornais no período de análise,
apenas 136 (9,4%) são sobre temas que conferem visibilidade aos negros, ao
racismo e às relações raciais no Brasil. Mais da metade da população brasileira
134. Disponível em: <https://globoplay.globo.com/v/6302407/>. Acesso em: 9 mai. 2018.
135.  Disponível em: <https://globoplay.globo.com/v/6360898/programa/>. Acesso em: 06 mai. 2018.
136.  Disponível em: <https://globoplay.globo.com/v/6360899/programa/>. Acesso em: 08 mai. 2018.

218 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


é constituída por afrodescendentes, porém, menos de 10% das notícias exibi-
das pelos telejornais estudados representam e dão visibilidade a esta popula-
ção. O estudo revela ainda que a maioria dos âncoras e repórteres é formada
por brancos. Os negros também não são privilegiados como fontes à frente
de empresas e instituições públicas e privadas, e não são consultados como
especialistas em matérias sobre política e economia. Vozes de negros têm pre-
sença em matérias sobre esporte, com a presença de atletas e jogadores negros,
em reportagens sobre manifestações artísticas e culturais populares, como na
música e no carnaval, ou quando respondem como ativistas ou militantes de
movimentos sociais. A população negra tende a ser representada de maneira
recorrente por meio de personagens que sofrem pela falta de acesso à educa-
ção, saúde e moradia, o que não contribui para a superação de preconceitos.
Nessas reportagens, o depoimento popular é utilizado para personalizar um
determinado problema social, esvaziando a sua relevância. A representação
da população negra, muitas vezes retratada como marginal, está comumente
associada à violência urbana. A exceção à regra no corpus analisado foram as
matérias internacionais veiculadas sobre a deposição do presidente do Zimbá-
bue, Robert Mugabe, e sobre as celebrações da Semana da Consciência Negra.
Verificamos que entre as matérias exibidas pelo Jornal Nacional e pelo
Repórter Brasil sobre negritude focalizadas nesta pesquisa, 1,3% é vinculada à
categoria Redistribuição, 2,2% à categoria Reconhecimento e 5,8% à Represen-
tação. Esses dados revelam que, embora os telejornais das emissoras pública e
privada estudados sejam uma forma de conhecimento relevante do Brasil e do
mundo, suas narrativas não contribuem de maneira significativa para a supe-
ração de preconceitos imbricados nas relações étnico-racionais no país. Tanto
o JN quanto o RB oferecem ao público em suas edições diárias uma história
do presente sustentada na defesa da solidariedade e na denúncia de injustiças,
exaltando com autoridade a reafirmação de valores morais e o respeito ao ou-
tro. Contudo, há um padrão de enquadramentos de atores sociais que reforça
determinados posicionamentos de sujeitos na cena pública. Desvelamos lacu-
nas nas representações da negritude dos telejornais estudados e observamos
que, com o intuito de compartilhar, o texto jornalístico também segrega e pro-
move exclusões. O número de notícias sobre a população negra é limitado em
relação a outras pautas, e raramente há reportagens sobre a discriminação e o
racismo na sociedade, com exceção da celebração de datas comemorativas. O
JN e o RB permitem a visibilidade de certas atuações dos negros na sociedade
brasileira, porém, não chegamos a identificar um rompimento com a constru-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 219


ção de uma alteridade isenta de conotações negativas, que induz a estereóti-
pos e reduz a complexidade da realidade (ALSINA, 2009). A função da prá-
tica jornalística seria reorganizar o caos cotidiano, explicando ao homem os
acontecimentos do mundo. Contudo, o modelo interpretativo do discurso da
informação sustentado em determinadas tematizações e hierarquizações, sele-
cionando fontes que se manifestam e não se manifestam e difundindo infor-
mações mais favoráveis a um grupo do que a outro, se oferece à leitura crítica
como um território simbólico problemático. A objetividade construída como
matriz do pensamento moderno pressupunha a possibilidade de interpreta-
ções verdadeiras e universais, mas é ilusória. A separação de fatos e opiniões,
não garante a veracidade dos relatos (ALSINA, 2009). O discurso jornalístico
supõe narrar a realidade sem mediação, mas não é neutro nem imparcial, ca-
rece de um enfoque plural dos acontecimentos, esconde o sujeito que fala e
traduz, superficialmente, conflitos socioeconômicos e culturais.

Considerações finais

O reconhecimento da diferença seria uma forma de ampliar os modos


de construção de subjetividades e reorganizar as regras e os jogos de poder
implícitos nas narrativas jornalísticas, tornando-as mais arejadas (RESENDE,
2011). Esse alargamento da mediação do jornalismo não implica a inferiorida-
de de grupos diferenciados, e demandaria maior visibilidade aos afrodescen-
dentes como fontes especializadas de informações em um maior número de re-
portagens e a veiculação de matérias que promovessem o reconhecimento dos
negros e de suas contribuições para o país nos telejornais estudados. De fato, a
(re) produção de preconceitos étnicos ocorre em grande parte, por meio da es-
crita, da fala e da Comunicação. Entretanto, as construções das narrativas dos
telejornais também estão implicadas nas interações com as audiências. Estas
não se manifestam apenas por enunciações de âncoras e repórteres dirigidas ao
telespectador, mas por um conjunto de valores da própria sociedade que en-
dossa as leituras da realidade cotidiana propostas pelos noticiários televisivos.
Os telejornais se autolegitimam como os principais mediadores dos proble-
mas da realidade social e buscam organizar discursivamente os conflitos e as
desigualdades sociais, por meio de notícias que esperamos serem verdadeiras e
capazes de nos oferecer conhecimento dos fatos sociais. A linguagem do tele-
jornal tende a ser apontada como simplificadora, mas é complexa e ambígua,
conformada por diferentes vozes e discursos que convidam à adesão das audi-

220 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


ências (MACHADO, 2000).
No Brasil, as narrativas dos noticiários têm sido orientadas pelas ideolo-
gias hegemônicas e a diversidade cultural tem sido reduzida às homogeneiza-
ções. Os noticiários intervêm na vida social por meio de suas representações da
experiência cotidiana, entretanto, também refletem reivindicações sociais. Os
telejornais não só incorporaram, mas dão visibilidade às diferentes aspirações
da cultura popular nacional; mesmo selecionando e autorizando expressões de
determinados personagens em detrimento de outros, legitimam vozes diferen-
ciadas (BECKER, 2005).
No entanto, as narrativas dos telejornais não causam rupturas de senti-
dos ou provocam desconfortos e sentimentos que possam desestabilizar uma
normatização de crenças e preconceitos de grande parte da própria sociedade
brasileira. Esta aparente contradição se reflete nas maneiras que os telejornais
estudados atribuem valores aos negros e apresentam a negritude em suas nar-
rativas. Assim, inferimos que o tratamento das informações e a abordagem das
relações étnico-sociais não resultam apenas dos modos que a gramática ou a
economia discursiva do telejornalismo constroem a realidade, mas também
da cumplicidade que as audiências estabelecem com as maneiras que os tipos
sociais invocados em matérias e reportagens são representados. A televisão
orienta, mas não determina a maneira como vai ser utilizada, pois seus usos
são construídos nas práticas socioculturais e em contextos e realidades especí-
ficos (FRANÇA, 2006). A mobilidade e a flexibilização da representação das
relações étnico-raciais no telejornalismo estão incrustadas no reconhecimento
da população negra pela própria sociedade brasileira e por outras instituições
e agentes sociais, detentores de poderes de produção e circulação de conheci-
mentos e valores, inclusive as universidades.
A produção científico-acadêmica desempenha papel essencial na repro-
dução ou na superação do racismo em determinados contextos, a partir de seu
acesso e de sua influência sobre diferentes formas do discurso público. Como a
discriminação e o racismo são proibidos, partilha-se a crença de que estas atitu-
des não existem mais como características estruturais da sociedade ou do Esta-
do. Porém, se entendemos o racismo como um sistema de dominação racial ou
étnica, a sua negação, baseada na tolerância étnica e racial em si, também pode
colaborar para a sua reprodução, considerando-se que quando há consenso, há
maior dificuldade de protesto (DIJK, 2010). Entretanto, a noção de racismo
não é de antemão associada à noção de discurso, aqui compreendido tanto
como uma forma de discriminação quanto como instrumento de mudança

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 221


social (FAIRCLOUGH, 2001). O ambiente universitário converge relações
de hierarquia, mas também é um espaço fértil para a emergência de ideologias
antirracistas e de discursos alternativos que podem contribuir para potenciali-
zar a afirmação da diversidade étnica e cultural da sociedade brasileira e para a
transformação de nossas crenças e percepções. Assim, reconhecemos a relevante
iniciativa do Grupo de Pesquisa em Teorias do Jornalismo da INTERCOM de
produção deste e-book para a promoção de reflexões sobre as lógicas discursivas
da mídia e do jornalismo e para a promoção da diversidade. Afinal, verificamos
no Banco de Teses da CAPES que entre 2012 a 2016 foram produzidas 4.241
teses e dissertações na Área de Conhecimento Comunicação, inserida na Gran-
de Área das Ciências Sociais Aplicadas e, por meio da busca pela palavra-chave
“telejornalismo”, constatamos que, entre esses trabalhos acadêmicos, 121 pesqui-
sas foram sobre esta temática específica, mas nenhuma delas propôs discussões
sobre a presença e a representação do negro ou das relações étnico-raciais nos
telejornais. Este trabalho, ao sistematizar reflexões trabalhadas em uma Tese em
desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é uma contribuição para a transfor-
mação dessas dinâmicas e resistências, abrindo possibilidades para outras leituras
sobre a marginalização dos negros na sociedade brasileira e para a reescrita de sua
história na mídia e no país.

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Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 223


PARTE III
REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA MÍDIA:
O UNIVERSO DA POLÍTICA
O enquadramento biopolítico de mulheres
empobrecidas em fotografias jornalísticas sobre o
programa Bolsa-Família137
Ângela Cristina Salgueiro MARQUES138
Angie BIONDI139
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG
Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, PR

Resumo

Este artigo observa os enquadramentos biopolíticos em imagens foto-


jornalísticas que operam como esquemas de inteligibilidade e controle capa-
zes de constranger a autonomia de mulheres empobrecidas beneficiárias do
Bolsa Família. O corpus da pesquisa tem um total de 120 imagens, reunidas
entre 2003 e 2015, dos jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo.
Investigamos as dimensões estéticas, políticas e éticas das imagens de modo
a evidenciar como o governo de corpos femininos, tomados como coletivo
sob o signo da vulnerabilidade, envolve a produção de técnicas e narrativas
que projetam as mulheres empobrecidas como desviantes a serem punidas ou
recompensadas por seus modos de vida constantemente julgados como dignos
ou indignos. Entre a biopolítica e a biopotência presentes nas imagens, podem
as vulnerabilidades nutrir práticas de resistência?

Palavras-chave: Enquadramento; Biopolítica; Mulheres empobrecidas; Fo-


tojornalismo; Vulnerabilidades.

Introdução

Mulheres empobrecidas são marcadas por preconceitos associados ao


137. Este artigo é fruto de pesquisa financiada pelo CNPq e Fapemig. As autoras são gratas aos bolsistas de apoio
técnico da Fapemig, Hannah Serrat e Alexei Padilla Herrero, pelo auxílio na elaboração de várias das questões teó-
rico-metodológicas que fundamentam as discussões deste capítulo. Alguns trechos que integram este texto foram já
abordados em outras produções das autoras (ver MARQUES, 2017, 2018).
138. Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais.
Doutora em Comunicação Social pela UFMG. Pós-doutorado em Ciências da Comunicação pela Université Sten-
dhal, Grenoble III. E-mail: angelasalgueiro@gmail.com
139. Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná.
Doutora em Comunicação Social pela UFMG. Pós-doutorado pela Université du Quebec à Montréal, Canadá. E-
-mail: angiebiondina@gmail.com

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 225


gênero, à classe social e mesmo à etnia. Ao serem percebidas pela sociedade
como “as beneficiárias” de programas assistenciais que contemplam a família
tradicional como unidade de avaliação, encontram, em geral, grandes dificul-
dades para alcançar a autonomia política necessária para formular suas ques-
tões e debatê-las na esfera pública (BIROLI, 2018).
Como evidenciado por Fineman (1991), os distintos discursos sobre
pobreza e empobrecimento caracterizam as mulheres como mães, esposas, cui-
dadoras, esteios essenciais na manutenção da vida em família. Vínculos fami-
liares tidos como “desviantes” (mães solteiras, casais homoafetivos, divórcio,
ausência de contrato matrimonial, etc.) são apontados como casos sem legiti-
midade para obtenção de apoio junto a políticas públicas, uma vez que estas
privilegiam, reiteram e valorizam as normatividades. Assim, uma forma téc-
nica de racionalidade governamental na gestão coletiva das mulheres e mães
empobrecidas consiste em afirmar sua função de reconstitutir e manter o equi-
líbrio do lar e sua estrutura predominantemente patriarcal. Martha Fineman
descreve com detalhes o mecanismo de regulação biopolítica que age sobre o
comportamento das mães:

Quando uma mulher se torna mãe, ela desempenha uma valiosa função
social. Ela está se reproduzindo em benefício do estado, da força de tra-
balho e da família. O significado de sua tarefa tem sido historicamente
a justificativa para submetê-la como “mãe” ao poder do estado. Ela é
supervisionada e julgada de acordo com padrões que não se aplicam
a outros cidadãos. O comportamento das mães é regulado através dos
sistemas normativos que abrangem as ideologias do direito e da família.
Se as mães são encontradas em necessidade, elas podem ser punidas.
Isto é particularmente verdadeiro para as mães pobres e solteiras, mas
todas as mulheres como mães correm o risco de intervenção e subjuga-
ção com base em seu status. A supervisão e controle impostos às mães
pelo estado, e o correspondente sacrifício da privacidade, deveriam for-
mar a base para um direito à justiça para as mães - uma reivindicação
pelos recursos para executar as tarefas que a sociedade exige delas. (FI-
NEMAN, 1995, p.2211).

Se, por um lado, as condições básicas para que tais mulheres construam
dimensões importantes de sua cidadania e de sua autonomia são promovidas
pelas redes de assistência social, por outro lado, há barreiras concretas que difi-
cultam sua inclusão política e social derivadas, sobretudo, de um entendimen-
to comum e naturalizado que aponta os indivíduos em situação de pobreza

226 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


como “massa inútil de despossuídos e dependentes”, incapazes de contribuir
para movimentar as engrenagens da produção e do consumo neoliberais. Nes-
te sentido, a imprensa compreende um dos contextos que fomenta processos
de demarcação de lugares e falas a estes sujeitos, assim como promovem seus
enquadramentos e molduras.
Argumentamos neste trabalho que no contexto brasileiro a pobreza dis-
cursivizada midiaticamente assumiu nos últimos anos uma face feminina e que
esta face é moldada por enquadramentos que podem ser definidos como bio-
políticos, uma vez que influenciam na orientação de julgamentos e condutas
coletivas, intervindo na ação e na autonomia dos sujeitos e, por isso, inventan-
do racionalidades e técnicas de gestão específicas (FOUCAULT, 1980). Sabe-
mos que a noção de biopolítica é cunhada por Foucault em 1976, no primeiro
volume da História da Sexualidade (A vontade de saber), como dimensão que
integra o biopoder. Este não é propriamente um poder sobre a vida ou um
poder da vida, mas um poder sobre a conduta humana: uma junção entre a
normalização dos indivíduos através de tecnologias políticas (disciplina) e a
racionalização da arte de governar orientar a conduta de grupos de indivíduos
e populações (biopolítica)140. Assim, biopoder e biopolítica referem-se a uma
governamentalidade que produz e regula coletividades e subjetividades através
de discursos, práticas e políticas sociais e culturais.
A nosso ver, o modo como o jornalismo e seus discursos estabelecem
como legítimos certos tipos de enquadramentos funcionam como técnica bio-
política de gestão das vulnerabilidades na medida em que eles são configura-
dos a partir de uma norma (frequentemente implícita) segundo a qual códigos
e valores definem não só um sujeito coletivo, mas sobretudo suas condições de
ação e comportamento. Desse modo, enquadramentos biopolíticos definem
categorias de sujeito que, segundo Butler (2004), orientam não só o modo
como grupos conduzem e orientam suas vidas, mas também a forma como os
avaliamos, a ponto de não precisarmos mais entendê-los, apenas julgá-los de
acordo com normas preestabelecidas e frequentemente naturalizadas.
Mouillaud e Porto (1997) já haviam destacado o processo de visibilida-
de jornalística como uma espécie de arena política e social. Na medida em que
há enquadramentos há formação de consensos tácitos sobre o que está dentro
e fora das suas demarcações. Este processo não é iniciado e nem encerrado na
140. “A biopolítica não é uma política da vida (que tem aquilo que vive como objeto e os viventes como sujeitos), mas
uma política da população (das populações), entendida como uma comunidade de seres viventes. Tal política da po-
pulação mede e regula, constrói e produz coletividades através de taxas de mortalidade e programas de planejamento
familiar, regras de higiene e controle de fluxos migratórios” (FASSIN, 2009, p.46).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 227


produção midiática da informação, mas apenas “representa o fim de um traba-
lho social, uma formação que começa à montante dos aparelhos propriamente
da mídia. A manifestação é apenas um dos múltiplos operadores por meio dos
quais uma sociedade se torna visível a si própria” (MOUILLAUD; PORTO
1997, p.42). A visibilidade construída para tais personagens aqui parece se ca-
racterizar por dois aspectos principais; um prático, quando expõe e dá acesso
aos temas, no caso, os pobres e a pobreza, e outro cognitivo, quando concebe
sua configuração para o compartilhamento do que deve ser considerado co-
mum, ou seja, “marcado para ser percebido” (1997, p.38).
Este texto apresenta uma parte da análise de imagens fotojornalísticas
relacionadas às mulheres beneficiadas pelo Programa Bolsa-Família, resultante
da pesquisa realizada entre os anos de 2003 e 2015. Ao todo, foram reunidas
cerca de 120 fotografias de periódicos de circulação nacional que mantinham
bancos de dados digitalizados e acessíveis ao público, como Folha de S. Paulo,
Estado de S. Paulo e O Globo. Tais imagens nos auxiliaram a elencar os enqua-
dramentos midiáticos utilizados para construir os argumentos que alimenta-
ram o debate público acerca desse programa social.
O objetivo da análise de algumas das imagens trazidas aqui se concen-
tra nos modos de apresentação de mulheres pobres, tomadas como exempla-
res nas matérias veiculadas, de modo a compreender as implicações estético-
-políticas que constituem o “aparecer” destes sujeitos nas imagens. Indicamos
que, a despeito da constante utilização de um léxico que geralmente pretende
conferir-lhes visibilidade, as imagens os invisibiliza ainda mais a partir de uma
lógica de registro que considera discursos já enraizados sobre pobreza, assis-
tencialismo, dependência, vulnerabilidade e estigmas de gênero.
Não se trata de depreciar os vários méritos da atuação social do progra-
ma, mas evidenciar as ambiguidades presentes na sua configuração. Sabemos o
quão essenciais são as políticas sociais para sustentar as redes de infraestrutura
que tornam possível manter a vida em meio à precariedade, mas nem sempre
os discursos que as acompanham questionam o paternalismo que naturaliza as
desigualdades. Nas fotografias recolhidas percebemos que, aos sujeitos retra-
tados, só restam utilizar o próprio corpo para evidenciar e narrar suas vidas,
seja em concordância com os enquadramentos apreciáveis pela biopolítica de
gerenciamento da pobreza e das populações precárias, seja para revelar os de-
sencaixes e os modos de captura e controle pelos aparatos governamentais e
midiáticos. Destaca-se que o fotojornalismo, para além de um gênero, atua,
neste caso, como um programa comunicacional que busca reabilitar, através

228 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


das imagens, as funções críticas e sociais investidas nas situações precárias nas
quais as mulheres são apresentadas.
Na análise, sublinhamos que alguns dos elementos plásticos e visuais aos
quais recorrem, tais como o uso frequente do preto e branco protocolar, o en-
quadramento geral ou médio que correlaciona personagem e ambiente, a com-
posição equilibrada que demarca o controle sobre o conteúdo fotografado, a
correlação referencial texto/imagem, entre outros, reiteram as reconhecidas
pretensões realistas e pedagógicas da fotografia de imprensa (LAVOIE, 2010).
Assim, olhar para o corpo feminino produzido discursivamente como precá-
rio e exposto na fotografia jornalística implica tanto em explorar as formas dis-
cursivas de enquadramento que acentuam sua desaparição, quanto em buscar
indícios de resistência, de revelações que possam evidenciar como encontram
modos de dificultar o legendamento de seus rostos e corpos, criando hiatos,
dissonâncias e dissensos entre seu “aparecer” e o registro narrativo (visual e
verbal) de sua exposição.

O fotojornalismo em dois programas de enfrentamento da pobreza

É importante destacar que o fotojornalismo brasileiro, com o intento


de representar as beneficiárias do Bolsa Família, se aproxima do modelo já
bem referenciado e proposto pelo Farm Security Administration (FSA), nos
Estados Unidos dos anos 1930. Ambos valorizam a prática fotodocumental
de modo a partilhar do mesmo investimento no uso de imagens fotográficas
para ilustrar a realidade rural cotidiana e embasar os argumentos das análises
socioeconômicas indicadas pelos seus Programas.
No caso do FSA, as fotografias exerciam a clara função de propaganda
política, usadas como instrumento que favorecia o pacote de incremento eco-
nômico de modernização da agricultura instituída na política do Resettlement
Administration, aspirada pelo presidente Roosevelt. Objetivo diferente do que
ocorre no Bolsa Família: programa criado para transferência de recursos fe-
derais às famílias empobrecidas que, sob certas condições, recebem repasses
mínimos que lhes garantem auxílio no sustento mensal. Contudo, para além
desta diferença fundamental, o Bolsa Família se mostrou em diálogo muito
próximo ao projeto FSA, sobretudo no que se refere ao plano comunicacional
em seu trabalho com a imprensa, e com a fotografia, especificamente.
Em sua pesquisa sobre os modelos de desenvolvimento do fotojorna-
lismo ocidental, SOUSA (2004) sinaliza que o trabalho fotográfico do FSA,

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 229


mesmo sob o controle institucional ao qual estava submetido pela direção de
Roy Striker (chefe do Departamento e idealizador do projeto), apresentou
duas perspectivas distintas na forma de documentar a realidade de miséria da
população rural, que eram provenientes dos diferentes estilos profissionais da
época. De um lado, indica o autor, comparecem fotografias claramente basea-
das na expressão e na ênfase do elemento humano trazidos pelo olhar de Doro-
thea Lange e Walker Evans, principalmente. De outro lado, estariam fotogra-
fias baseadas na descrição das situações concretas e mais ligadas ao ambiente,
como em Russel Lee.

Lee organizou uma documentação escrupulosa e detalhada de um am-


plo leque de aspectos da vida social na empobrecida América profunda.
A sua atenção não se concentra exclusivamente nos sujeitos e menos
ainda na dramaticidade de uma expressão particular, mas na decoração,
nas habitações (exterior e interior), na arquitetura, nos móveis e nos
acessórios (como o rádio), aspectos mais acidentais nas obras de Evans
e, principalmente, Lange. (SOUSA, 2004, p.113)

Ao sublinhar estas duas grandes formas de elaborações fotográficas, o


autor indica que o projeto visual do FSA como um todo acaba estabelecen-
do os parâmetros do que viria a ser o documentarismo fotográfico apropriado
pela imprensa alguns anos depois. O que, de fato, se concretiza e influencia,
inclusive, grandes revistas de notícias como Life, Look, entre outras, ao longo
dos anos.
Ainda que décadas separem esses dois programas, as fotografias produ-
zidas e relacionadas ao Bolsa Família apresentam uma considerável similari-
dade estrutural àquelas da FSA. Em primeiro lugar em nível temático, pois as
fotos sugerem a realização de um trabalho de elaboração prévia de um projeto
de documentação serial da população, que pode ser constatado na extensão
promovida por uma divulgação periódica em anos subsequentes nos jornais
analisados (entre 2003 e 2015), de modo a acentuar a ideia de um acompa-
nhamento de fases e implementação das atividades do Bolsa Família. Em se-
gundo lugar em nível material, pois os registros fotográficos demonstram que
o tratamento dado aos aspectos visuais e plásticos estão conciliados com os
propósitos predefinidos pelo Programa.
No caso brasileiro atual, além de observar o investimento no trabalho
fotojornalístico enquanto um projeto integrante do Programa, ao nos de-
frontarmos com as fotografias, estas duas grandes formas de elaboração visual

230 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


comparecem novamente. Porém, não são tributárias de um estilo profissional,
como visto no FSA, mas a propósito de demonstrar as etapas de implementa-
ção do programa Bolsa Família e a sua vinculação ao que conhecemos como
“feminilização da pobreza”141.
Assim, dois grandes momentos podem ser observados nas fotografias de
imprensa que foram veiculadas. Como o “antes e depois” que atende às dire-
trizes da exemplaridade de um projeto que se cumpre, as mulheres fotografa-
das e que caracterizam as personagens centrais do Bolsa Família na imprensa,
passam de uma situação de “pobreza extrema” à outra considerada melhor, a
do enfrentamento de “dificuldades” e vulnerabilidades (que precisam ser su-
peradas como fraquezas, e não como dimensões que informam as práticas de
resistência), de modo a não apenas demonstrar a eficácia do programa, mas
justificar sua permanência como uma ação de emergência exitosa, mas que ain-
da precisa se manter para melhorar o que persiste das dificuldades enfrentadas
em suas vidas.

Mulheres, mães, vulneráveis

Como primeiro exemplo indicado, a fotografia abaixo (Fig.1) ilustra


uma matéria feita no início de 2003, ano em que o Programa Fome Zero é
apresentado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e pouco a pouco vai
se transformando no Bolsa-Família. No primeiro plano da imagem, vê-se um
jumento, animal típico de áreas rurais, muito usado no transporte de cargas e
pessoas. Logo atrás dele, uma mulher carrega uma grande lata na cabeça. Ao
fundo, é possível notar a presença de elementos que rotineiramente integram
uma paisagem da miséria no Brasil: o solo e a vegetação ressequidos, uma casa
construída pela técnica de taipa à mão (ou pau a pique), como das antigas
construções de moradias humildes dos trabalhadores rurais, além da intensa
luminosidade que reitera a sensação do calor cotidiano, próprio do clima da-
quela região.
A legenda que acompanha a fotografia serve para complementar as in-
formações não evidenciadas de imediato, de modo a ativar o potencial retó-
rico e discursivo da imagem dada (PICADO, 2004, p. 198). A água como o
141. As mulheres são titulares do Programa Bolsa Família (o cartão para recebimento do auxílio é feito em nome
delas), assim como as agentes institucionais da assistência social encarregadas localmente do cadastro e acompanha-
mento das beneficiárias. As teias de relações que unem essas atrizes sociais são movidas por lógicas que se movem
dentro de economias morais, racionalidades biopolíticas e resistências específicas. Não podemos deixar de mencionar
a centralidade das noções de vulnerabilidades sociais, cuidado, responsabilidade e família, todas atravessadas por um
processo ideológico de moralização que abrange a culpabilização, a meritocracia e a cidadania como dádiva.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 231


conteúdo da lata que é transportado, por exemplo, demarca tanto a ambien-
tação seca própria à região árida do Nordeste, quanto enfatiza a condição de
escassez e precariedade de sua gente, que precisa perambular (muitas vezes,
quilômetros) em busca de algum pouco d´água. Vale destacar que a localiza-
ção indicada na legenda também funciona como operador retórico: a cidade
de Guaribas é apontada como o “marco zero” do Programa, primeira cidade a
receber o repasse de verbas e, portanto, a primeira a ser exibida como espécie
de “cidade-piloto” exemplar.

Figura 1 – Foto de José Alves Filho


Fonte: RIBEIRO, Efrém. “Fome Zero expõe a face cruel da miséria”, O Globo, O País, 29/01/03, p.8.
Legenda: Em Guaribas, uma moradora leva na cabeça um galão de água.

Na combinação dos aspectos plásticos que compõem a visualidade desta


imagem, nota-se um enquadramento em primeiro plano no animal, que não
permite maior proximidade à face que conferiria uma identidade singular à
mulher, também protegida pelo pano que cobre sua cabeça. A composição na
vertical, própria ao retrato, organiza os principais elementos (humanos e não
humanos) neste cenário apresentados sob uma iluminação que marca os con-
trates da sombra natural projetada e reiterada pelos tons de cinza que marcam,
plasticamente, uma sensação de aridez e secura. Aparentemente silenciada,
a mulher nordestina figura em meio aos elementos da paisagem que devem

232 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


orientar uma leitura predominante sobre quem são os pobres que devem ser
ajudados pelo governo e onde se localizam. Conforme indica Ledo (1998, p.
68), o uso dos recursos fotográficos, no jornalismo, faz com que nos aproxime-
mos do “sonho da verdade empírica, a confiança na câmera passa a fazer parte
das mentalidades e a ser um artefato aplicável às instituições garantidoras da
ordem administrativa ou policial”.
Outra possível interpretação deriva da foto: a posição intercalada entre
o animal, a mulher, a casa e a paisagem levaria a considerar certo sentido me-
tafórico de uma vida “animalizada”, oprimida, determinada pela ausência de
autonomia, de posse da palavra, de alternativas e escolhas que não sejam aque-
las proporcionadas pelo auxílio “divino” ou pela “benesse” do governo. Deste
modo, nota-se que a imagem retrata a pobreza sem desconstruir os quadros
de sentido que levam a apreender tal situação por uma dimensão moralizante,
que avalia e julga os modos de vida e as existências. O efeito de opressão de-
preendido da primeira foto parece se estender à Figura 2. Neste caso, a mesma
distância do plano não permite conferir à mulher, uma proximidade do rosto
próprio, embora lhe seja dado um nome e idade, junto às filhas, pela legenda.

Figura 2 – Foto: Acervo da FSP


Fonte: MAISONNAVE, Fabiano. “O excluídos do marco zero”, Folha de S. Paulo, Brasil,
12/10/2014, Eleições 2014, p. 8.
Legenda: À espera: Edineide Dias, 25, e as filhas Graziele,4, e Natieli, 5, ainda sem Bolsa Família;
leite, só 3 vezes por semana, diz a mãe.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 233


Ao contrário da anterior, a fotografia colorida propositalmente ajuda
a destacar os diferentes objetos que são apresentados; papelão, roupa, saco
plástico, céu azul intensamente iluminado, casa e chão da mesma cor como
se fossem feitos do mesmo material. A mulher, identificada apenas como uma
mãe, está em pé ao lado das filhas, todas em pose fixada para a câmera. A mãe
destituída de rosto é elemento central de uma retórica e um enquadramento
discursivo que reforçam técnicas governamentais e institucionais de cercea-
mento e controle dos comportamentos e ações das mulheres empobrecidas.

Qualquer processo no qual a “Mãe” seja explicitamente o foco de aten-


ção gera imagens que são significativas para moldar atitudes sociais em
direção à regulação da maternidade através da criação de regras que go-
vernam a reprodução, a guarda dos filhos e outras áreas da lei nas quais a
instituição “Mãe” está implicada. [...] Assim, a ideologia do patriarcado
é a força mais instrumental na criação e aceitação dos discursos sobre a
feminilização da pobreza, pois sobre uma mulher sem marido parecem
recair os castigos e as desventuras reservadas à modos de vida “desregra-
dos”. (FINEMAN, 1991, p.276).

Ao observar estas imagens, ambas podem ser consideradas emblemáti-


cas acerca do registro da situação de mulheres qualificadas como beneficiárias
pelo Programa, sobretudo entre 2003 e 2009 (primeira grande etapa de sua
implementação), pois nesse período os enquadramentos retratam para afirmar
quais são os sujeitos/personagens que, considerados em seus lugares/paisagens
“de pertencimento” econômico e social, seriam merecedores do auxílio. Ao
observar estes materiais e buscar, a partir de suas composições verbo-visuais
(legenda/foto), os aspectos que lhes caracterizam e os inserem no contexto
discursivo sobre o Programa apresentado na imprensa, podemos ressaltar que
as condições e possibilidades de subjetivação permitidas a estas mulheres apa-
recem previamente determinadas por sua inserção geográfica, sua condição de
vida, sua raça e por ideologias que as inserem e as restringem ao contexto do-
méstico, à maternidade, à subserviência do trabalho precário.
Segundo Fineman (1991, 1995), tais ideologias reforçam o entendimen-
to de que os problemas e vulnerabilidades enfrentados pelas mulheres seriam
derivados de seu próprio comportamento, reduzindo sua existência à avaliação
simplista e negativa que julga as mulheres que são mães, em sua responsabilidade
ou irresponsabilidade, de acordo com seus relacionamentos com os homens.142
142. “O que essas mulheres fizeram para merecer palavras tão duras e medidas punitivas? Em grande parte, é o estigma

234 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Figura 3 – Foto: Rosane Marinho
Fonte: RIBEIRO, Efrém. Um ano depois, nos emblemas da miséria, O Globo, O País, 11/01/04, p.14.
Legenda: Maria do Socorro na casa onde mora desde que saiu da palafita.

Exemplar do segundo momento de implementação do Programa, a


Figura 3 apresenta uma mulher, ainda em ambiente doméstico, mas agora
exibindo os signos de consumo como representantes de uma vida sutilmente
melhorada economicamente. A televisão ocupa um papel central na nova mo-
radia de Maria do Socorro, que aparece em sua nova sala – com aparelho de
TV – após sair da palafita. Além disso, pouco a pouco as imagens nos jornais
passam a conferir destaque ao rosto das mulheres e, ainda que esse gesto nem
sempre lhes permita falar, indica uma aproximação ao seu modo de existência
e sua corporeidade como dimensões distintas de uma paisagem naturalizada
de pobreza.
Através de um pequeno conjunto de exemplos, pode-se compreender
tais imagens como uma espécie de síntese de uma narrativa que associa, simul-
taneamente, pobreza, seca, nordeste e dependência originada por um sistema
representativo e de relações estabelecidas a priori que define o seu modo de
apresentação fotográfica e sua figuração em uma moldura enunciativa específi-
de ser pobre que define o castigo. Mas algo mais do que a pobreza está em questão. O alvo geral dessas medidas puni-
tivas são mulheres solteiras com filhos, e os ataques a estas mães são a brecha de abertura de um plano reacionário para
disciplinar mulheres que não estão em conformidade com os papéis que lhes são atribuídos no esquema tradicional da
família. É por isso que todas as mulheres, sejam mães ou não, devem se preocupar com o debate atual sobre a pobreza.
Embora o debate sobre o bem-estar pareça estigmatizar apenas uma forma de maternidade como patológica, a retórica
política reforça, recria e reitera várias premissas fundamentais sobre as famílias que serão usadas contra todas as mu-
lheres. Há naturalmente a forte preferência pelo casamento heterossexual formalmente celebrado que funciona como
uma unidade reprodutiva e é, portanto, o “núcleo” sobre o qual tudo o mais é fundado. [...] A maternidade fora desta
unidade familiar será punida e estigmatizado. Aquelas que não são mães também serão disciplinadas, pressionadas e
penalizadas.” (FINEMAN, 1995, p.2197)

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 235


ca sobre o pobre e a pobreza. Não à toa, suas personagens centrais são mulhe-
res, sujeitos tradicionalmente considerados frágeis por natureza, vulneráveis,
enfraquecidas e oprimidas politicamente, culturalmente, economicamente;
fixadas, inclusive, por clichês e estereótipos visuais que ilustram fartamente a
história do jornalismo143.

Por uma política das vulnerabilidades

O discurso da governamentalidade biopolítica alimenta um entendi-


mento de que a vulnerabilidade deve ser entendida como raridade ou fraque-
za, um acidente infortuito, uma ficção necessária que torna viável certa ordem
social e política, confirma exclusões, perpetua desigualdades. Faz parte desse
imaginário, ou ficção de invulnerabilidade, o fato de que as leis, os enquadra-
mentos midiáticos e sociais, os esquemas valorativos e avaliativos aos quais nos
submetemos designam categorias de pessoas vulneráveis, definidas pela supos-
ta fragilidade física, também por sua autonomia questionável ou habilidade
precária para decidir e fazer escolhas (FERRARESE, 2016; MACKENZIE
et al., 2014).
Os enquadramentos biopolíticos também contribuem para essa ficção
ao produzir noções como risco e mérito, redefinindo a vulnerabilidade como
uma zona de suceptibilidades a múltiplas causas, e ao aproximá-la a uma lógica
de acumulação de deficiências sociais que poderiam ser vencidas a partir do
esforço e mérito pessoais. Assim, negar a vulnerabilidade e exaltar a invulnera-
bilidade tem-se tornado objetivo maior das representações e enquadramentos
sociais e midiáticos a serviço do capital e de um equilíbrio na correlação de for-
ças que favoreça determinados sujeitos, grupos e instituições, enquanto relega
outros ao ostracismo, à humilhação e à morte.
A vulnerabilidade seria, assim, um conceito associado à passividade, po-
breza, violência, desastres, mortes brutais, segurança; a denotar um espectro
de condições negativas, qualidades desabilitadoras e capacidades limitadas, in-
cluindo subdesenvolvimento, pobreza abjeta, violação, injúria, fragilidade, de-
ficiência, dependência, uma falha que impede a auto-realização e a realização
coletiva (COLE, 2016). A frequente oposição entre vulnerável/invulnerável
143. Uma imagem recorrente nos jornais impressos pesquisados entre 2003 e 2013 traz as mulheres beneficiárias em
fotos posadas, sorrindo e segurando o cartão do Programa. Algo muito semelhante pode ser evidenciado nas imagens
do programa FSA: “Apesar de tudo, o que se revela nas fotografias do FSA é, julgamos, um retrato, algo estereotipado
e simplificador da América profunda e dos seus habitantes. Nas fotos, estes aparentam quase sempre tranquilidade,
esperança, calma, resolução, nobreza e heroicidade. Mas sabe-se que houve muitos momentos de cólera e desespero
na América dos anos 30” (SOUSA, 2004, p. 115).

236 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


produz hierarquias sociais e de gênero bem rígidas que acompanham identi-
dades sociais fixas e ancoradas em formas jurídicas ou normativas de distinção
entre sujeitos capazes e incapazes, aptos ou inaptos, funcionais ou desfuncio-
nais. Tentativas de disciplinar aqueles apontados como vulneráveis são colo-
cadas em prática por vários segmentos políticos neoliberais, culminando na
culpabilização individual e isolada e na produção de vítimas.
É importante destacar que vulnerabilidades ontológicas e sociais não
são isoláveis e todas elas se manifestam e se constituem em situações: injusti-
ças estruturais resultam do contexto e de práticas ordinárias, mas também de
instituições, em seus arranjos e circunstâncias, que sempre protegem certos
indivíduos enquanto expõem outros a diferentes formas de eventos e danos
(FERRARESE, 2016). Butler (2004, 2011, 2015), ao comentar acerca da
distribuição desigual da vulnerabilidade entre indivíduos e grupos, destaca
a importância de pensarmos acerca de uma ressemantização desse conceito,
permitindo entrever nas situações de vulnerabilidade a emergência de experi-
mentações singulares que, por não serem captadas e mapeadas pela regra, sus-
citam novos modos de vida fora da regulação disciplinar, atualizam o devir de
um comum que, tentativamente, a comunicação e a interdependência buscam
construir.
Assim, quando Butler (2011, 2015b) define vulnerabilidade, ela o faz
tendo em vista a localização de um sujeito em um conjunto de relações marca-
das por um campo de objetos, forças, processos vitais, instituições e seres que
incidem sobre ele e o afeta de alguma maneira. A vulnerabilidade assim en-
tendida deve ser tomada no plural vulnerabilidades, e nos revela um modo de
estar no mundo e de viver uma vida que se constitui entre nossa passibilidade
(ser afetado pelos acontecimentos) e nossa capacidade de agência (LAUGIER,
2016). Se na ideologia neoliberal os adjetivos vulnerável144 e precário servem
para estigmatizar e regular (muito pela sintaxe do risco e do auto-governo/
auto-controle), como categoria heurística, a vulnerabilidade parece atender a
esforços mais amplos de politizar a injúria e o sofrimento. Sob esse aspecto, o
sujeito político vulnerável não pode ser definido como vítima, dependente,
inativo. Vulnerabilidade não é um conceito essencialmente associado a sofri-
mento, nem define unicamente uma propensão de estar susceptível ao dano.
144. Quando Butler fala dos riscos de se utilizar o conceito de vulnerabilidade para tratar das resistências de grupos
marginalizados, ela aponta que “a noção de vulnerabilidade opera de dois modos: tornando uma população o alvo de
políticas ou protegendo-a: os dois dizem do uso do termo como capaz de estabelecer uma lógica política restritiva de
acordo com a qual ser alvo e ser protegido são as únicas alternativas possíveis. Assim, nesse sentido, o uso do termo apaga
formas de soberania popular e lutas ativas por resistência e transformação social e política” (BUTLER, 2015b, p.144).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 237


Há potencialidades e ambiguidades nessa noção que devem ser consideradas.

Na espessura dos corpos em aliança, a vulnerabilidade biopotente

Uma primeira potencialidade a ser associada à vulnerabilidade é seu não


descolamento de ações de resistência. Butler (2015b) desenvolve o argumento
de que o corpo de grupos vulneráveis pode ser usado como recurso e como ca-
pital para a produção de rupturas quando é exposto de forma deliberada diante
de forças opressoras, incluindo aí o registro e a captura fotográfica. Corpos em
articulação, em aliança, tomam espaços públicos ou rebelam-se isoladamente,
mas em consonância e podem lutar contra sua fixação em categorias, contra a
reificação de enquadramentos que os fixa em posições desprovidas de agência
e soberania. Para ela, corpos reunidos em assembléia performam um ato de
soberania e de resistência através de sua vulnerabilidade e, com isso, a perfor-
matividade dos corpos vulneráveis traz junto consigo uma forma de agir, falar,
expor e demandar que requer outra configuração das relações que tornam as
vidas possíveis e potentes. Por isso, para Butler, corpos expostos publicamente,
juntos, em aliança formam “um povo”: não porque configuram uma unidade,
mas porque performam um ato de expressão e exposição que pode desesta-
bilizar enquadramentos biopolíticos de gestão, uma vez que “quando agimos
e falamos, não só nos revelamos, mas também agimos sobre os esquemas de
inteligibilidade que determinam quem será o ser que fala, sujeitando-os à rup-
tura ou à revisão, consolidando suas normas ou contestando sua hegemonia”
(BUTLER, 2015c, p.167).
O “povo”, ou “um povo”, de acordo com Rancière (1995, 2004) e Butler
(2016) não é uma identidade predefinida, mas envolve o processo político por
meio do qual os sujeitos se tornam corpos coletivos que se fortalecem no pro-
longamento dos atos, da inventividade, do barulho e das vozes que se tornam
falas, passíveis de serem compreendidas, escutadas e consideradas em debates
coletivos.
Na Figura 4, ainda representativa das melhorias dadas pela implemen-
tação do Programa, vê-se uma assembleia de mulheres que revela olhares aten-
tos e vivazes (sem o registro da súplica que é tão comum nas imagens), bocas
abertas articulando palavras e protestos, rostos e gestos que se configuram em
uma expectativa ativa, em uma produção de presença no espaço público da
discussão sobre a fome. Corpos que se juntam para confirmar sua existência
plural e configuram uma situação enunciativa que requer a saída do ambiente

238 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


doméstico e a performance no âmbito da expressão política.

Corpos se reúnem em assmebléia precisamente para mostrar que são


corpos, e para deixar que saibam o que significa politicamente persis-
tir como corpo nesse mundo, e quais requesitos precisam ser satisfeitos
para que esses corpos sobrevivam, e que condições tornam possível a
vida de um corpo, que é a única vida que temos, e que pode finalmente
ser vivível. (BUTLER, 2016, p.63).

A imagem nos lembra a importância de se alterar o imaginário e os en-


quadramentos midiáticos que circundam o sujeito empobrecido isolado, sem
vínculos, sem participação na política, sem voz, e configura, por meio da re-
definição dos enquadramentos imagéticos, conferindo-lhe outra sintaxe para
narrarem suas existências e demandas. Os corpos e rostos femininos que apare-
cem nessa imagem fazer emergir um sujeito político coletivo, mobilizado não
por uma identidade social que declara sua precariedade, mas pelo desafio que
lançam “às formas de poder policial e econômico que sequestram incessante-
mente as chances que uma vida possui de se tornar vivível” (BUTLER, 2016,
p.60), sem contentar-se apenas com a sobrevivência.

Figura 4 – Foto: Ed Ferreira


Fonte: DANTAS, Fernando. “Miséria zero, a próxima etapa”, Estado de S. Paulo, Aliás, 16/01/05, p.I3.
Legenda: Bom rumo: principal programa federal pode ser embrião de políticas públicas que não se limitem à
mera transferência derenda e fiscalizem melhor os resultados.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 239


Por isso, a assembleia permite o aparecimento do rosto como ato de pa-
lavra, um ato de soberania e autonomia que trabalha contra a óbvia e natural
disposição dos corpos e das formas de enunciação. A assembléia, segundo Bu-
tler (2016), abrange uma pluralidade de corpos mobilizados em uma forma
de demonstração de resistência e de igualdade diante de uma crescente desi-
gualdade. Ela fala através de uma pluralidade de faces e corpos que configuram
ações e produzem um povo através de uma “auto-designação compartilhada
com os outros” (BUTLER, 2016, p.59). Um povo e sua formação não ne-
cessitam, segundo Butler, de uma unidade, mas tem sua emergência em um
conjunto de debates nos quais definem o que querem e quais agenciamentos
irão utilizar.
A potência da vida daí se depreende e nos revela uma política da estética
e do comum que se relacionam à forma como os dispositivos utilizados para
a produção das imagens e do texto jornalístico alcançam a possibilidade de
recortar singularmente a experiência comum, instaurando outras partilhas de
espaço e de tempo e promovendo novos modos de aparição sensível dos su-
jeitos. Esse trabalho de mudança dos modos de aparição, das coordenadas do
representável e das formas de sua enunciação altera quadros, ritmos e escalas
proporcionando outras formas de apreender o visível e sua significação.

Considerações finais

O enquadramento biopolítico é uma técnica de governo ou de gover-


namentalidade que formata as cenas de aparência preparando-as para definir
sujeitos e grupos exemplares, considerados como parâmetro, cujo projeto e
modo de vida é tido como antítese do desvio e de existências moralmente jul-
gadas como indignas de consideração e apreciação.
As mulheres beneficiárias capturadas por enquadramentos de controle
no fotojornalismo nos revelam como a expansão da governabilidade neolibe-
ral passa a produzir “um sujeito neoliberal feminino” constrangido entre os
lugares de “alvo”, de “protegido” e de “resistente” (RAGO, 2017). Muitas das
propagandas estatais que dão visibilidade ao Bolsa-Família e seus índices de
sucesso traduzem a emancipação feminina como sucesso econômico indivi-
dual e meritório, pouco revelando as contingências que atravessam o leque
de experiências e escolhas disponíveis à mulher empobrecida. O reconheci-
mento ideológico dessa mulher como responsável, criativa e empreendedora
influencia no modo como configura seu projeto de vida, adaptando-o, não

240 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


raro, muito mais às necessidades da governamentalidade neoliberal do que às
suas próprias.
Assim, se de um lado se conhecem os aspectos positivos promovidos
pelo programa e seus impactos na emancipação de mulheres empobrecidas,
por outro, percebe-se também, junto com Butler (2004, 2011) e Rago (2017),
que a precariedade se tornou um modo hegemônico de governo que tem forte
incidência como governamos a nós mesmos. A precariedade pode ser tanto a
condição de vulnerabilidade que nos aproxima e nos abre às demandas de re-
conhecimento da alteridade, quanto a forma neoliberal de regulação, controle
e poder que orienta e determina nosso campo de ações, ameaçando-nos com a
insegurança e o caos. A governamentalidade neoliberal requer a precariedade
como modo de vida, como princípio organizador e controlador por meio do
qual se enraízam práticas biopolíticas.
Fassin (2006, 2009, 2010, 2015) chama de biolegitimidade o modo
como se dá atualmente o acesso às políticas sociais dos governos. Para o
autor, a produção de direitos, de reconhecimento e de acesso a serviços e
atendimento por parte do Estado estão atreladas ao modo como o Estado
disponibiliza atendimento aos sujeitos precários, ou seja, exigindo deles
enunciados e formulários que atestem um status, uma condição, uma inter-
nalização da dependência e uma total rendição aos aparelhos de correção
e controle. Exibir-se, exibir a precariedade, relatá-la em narrativas de vul-
nerabilidade como destituidora de agência e possibilidade de subsistência,
formulários padronizados e entrevistas com assistentes sociais são exemplos
de processos biolegitimadores em que também o corpo é usado como “fon-
te de direitos”, numa espécie de exigência a priori da pré-condição para o
acesso a políticas sociais. Quanto mais deteriorados forem os corpos e os
locais de moradia, mais aptos parecem estar os sujeitos a receberem benefí-
cios. Os agentes institucionais, não raro, exigem provas narrativas ou físicas
das dificuldades, dos fracassos e da inaptidão para justificar a necessidade,
misturando mérito e compaixão. A fotografia de imprensa, então, continua
a participar como modelo operatório probo, através da qual se baseia a po-
breza exemplar, constituindo o repertório das qualidades morais do pobre e
de suas representações corretas. Assim, afetos e leis, piedade e justiça, passam
a ser delineados em cada um dos casos de vida analisados. Instaura-se uma
modalidade de governo biopolítico na qual exibir os corpos precários se tor-
na fundamental.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 241


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244 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Jornalismo, gênero e desigualdades: análise
das notícias sobre a ampliação de direitos
das trabalhadoras domésticas no Brasil e na
Argentina145
Danila CAL146
Lorena ESTEVES147
Erick Matheus NERY148
Universidade Federal do Pará, Belém, PA

Resumo

Objetiva-se analisar como o jornalismo desafia ou reproduz desigualdades re-


lacionadas a gênero e a hierarquias sociais a partir da investigação de matérias
jornalísticas referentes às mudanças nas legislações sobre o trabalho doméstico
no Brasil e na Argentina, publicadas pelas edições online do jornal brasilei-
ro Folha de S. Paulo e do argentino La Nación. Parte-se de uma fundamen-
tação teórica sobre gênero e desigualdades sociais (DAVIS, 2016; BIROLI,
2018) para pensar o papel político do jornalismo (HABERMAS, 2003; 2009;
MAIA, 2008; CARVALHO, 2012; LAGO, 2010). Como referencial meto-
dológico, utiliza-se a análise de conteúdo aplicada ao jornalismo ( JORGE,
2015). As conclusões apontam que, apesar do contexto de ampliação dos di-
reitos dos trabalhadores domésticos em ambos os países, as coberturas dos jor-
nais analisados basearam-se na reprodução das desigualdades.

Palavras-chave: Trabalho Doméstico; Gênero; Hierarquias Sociais; Folha de


São Paulo; La Nación.

145. O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico - Brasil.
146. Professora adjunta da Faculdade de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cul-
tura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Doutora em Comunicação Social pela UFMG. Líder
do Grupo de Pesquisa Comunicação, Política e Amazônia (COMPOA) e do Projeto de Pesquisa “Mídia, debate
público e negociação de sentidos sobre o trabalho doméstico”, financiado pelo CNPq Edital Universal 2016. E-mail:
danilagentilcal23@gmail.com.
147. Professora da Faculdade de Comunicação da UFPA. Mestra em Comunicação, Cultura e Amazônia pela UFPA.
Pesquisadora do COMPOA e do Projeto de Pesquisa “Mídia, debate público e negociação de sentidos sobre o traba-
lho doméstico”. E-mail: estevesjornalismo@gmail.com.
148. Graduando em Comunicação Social - Jornalismo pela UFPA. Membro do COMPOA e do Projeto de Pesquisa
“Mídia, debate público e negociação de sentidos sobre o trabalho doméstico”. E-mail: nerytheus.study@gmail.com.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 245


Introdução

Como o jornalismo lida com as desigualdades que envolvem mulheres


subalternizadas? E como isso ocorre num contexto de ampliação de direitos?
Considerando o potencial dos media para generalização de processos de deba-
te público e de pré-estruturação da esfera pública (HABERMAS, 2003; 2009;
MAIA, 2008), buscamos nesse capítulo lançar luz sobre essas questões ao in-
vestigar as notícias jornalísticas a respeito das recentes mudanças nas leis volta-
das aos trabalhadores domésticos no Brasil (PEC 66/2012149) e na Argentina
(Ley de Contrato de Trabajo para el Personal de Casas Particulares/2013)150.
O objetivo geral da pesquisa é analisar como o jornalismo configura-se para
desafiar, manter ou reproduzir desigualdades relacionadas a gênero e hierar-
quias sociais a partir da investigação de matérias jornalísticas referentes às mu-
danças nas legislações sobre o trabalho doméstico no Brasil e na Argentina. A
partir de uma abordagem empírica, que relaciona perspectivas do jornalismo
e de gênero, essa pesquisa contribui com uma área dos estudos de jornalismo
ainda pouco explorada no país (MARTINEZ; LAGO; LAGO, 2016).
O Brasil é o país com o maior número de trabalhadores(as) domésticos(as)
do mundo (WENTZEL, 2018). Das domésticas, 92% são mulheres, o que cor-
responde a 14% do total de mulheres empregadas no país (PORTAL BRASIL,
2017). Na Argentina, 97% das domésticas são mulheres, o que equivale a 7% do
total de empregados(as) no país (SOBECK, 2017). A América Latina é consi-
derada uma região com uma situação desafiadora do ponto de vista da ação pú-
blica, da organização de atores sociais, da estruturação do mercado de trabalho,
da (re)organização social e das desigualdades de gênero e raça (BIROLI, 2018;
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2011).
Apesar de vivenciarmos, a partir de 2010, a ampliação de direitos em
ambos os países, com legislações que buscam equiparar os direitos dos traba-
lhadores domésticos aos de outros trabalhadores, é preciso levar em considera-
ção o fato de que, historicamente, esse segmento ocupa um lugar marcado pela
subalternidade e atravessado por questões de gênero, raça e classe (DAVIS,
2016; CAL, 2016; CARNEIRO; ROCHA, 2009). Podemos falar em uma
divisão sexual do trabalho que sustenta o modo como identificamos social-
149. Emenda Constitucional nº 72, de 03 de abril de 2013, mais conhecida como PEC 66 ou PEC das Domésticas.
Altera a redação do parágrafo único do art. 7º da Constituição Federal para estabelecer a igualdade de direitos traba-
lhistas entre os trabalhadores domésticos e demais trabalhadores urbanos e rurais.
150. Sancionada em 2013, a iniciativa revoga a Lei 326/56 e “(...) busca otorgar a las trabajadoras domésticas los
mismos derechos de los que gozan los trabajadores del sector privado; es decir, los trabajadores incluidos en el ámbito
de aplicación de la Ley de Contrato de Trabajo” (PEREYRA, POBLETE, 2015, p. 75).

246 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


mente o que seriam o trabalho e o lugar da mulher: “as hierarquias de gênero,
classe e raça não são explicáveis sem que se leve em conta essa divisão, que
produz, ao mesmo tempo, identidades, vantagens e desvantagens” (BIROLI,
2018, p. 21).
Em relação às tarefas domésticas, há um contexto social no Brasil e na
Argentina que desqualifica esse tipo de trabalho, de tal modo que quem o rea-
liza – ou deveria realizar – seriam as mulheres, em razão de tradicionalmente
as atividades domésticas serem consideradas como “femininas”, e, principal-
mente, as mulheres de classe mais baixa. No Brasil, principalmente, mulhe-
res negras ou pardas. Segundo Carneiro, a trabalhadora doméstica “é um ele-
mento heurístico que organiza simultaneamente as variáveis de gênero, raça e
classe e sobre a qual se exercem formas de subjetivação produzidas em nossos
processos históricos; paternalismo e compadrio como mecanismo/instrumen-
to/tecnologia de normalização e delimitação dos limites em que é possível e
aceitável a aproximação de raça e classe” (CARNEIRO, 2015). De modo com-
plementar a essa perspectiva, podemos citar ainda a desvalorização das tarefas
domésticas no contexto capitalista. Para Davis, “como as tarefas domésticas
não geram lucro, o trabalho doméstico foi naturalmente definido como uma
forma inferior de trabalho, em comparação com a atividade assalariada capita-
lista” (DAVIS, 2016, p. 230).
A partir, então, desse cenário nossa investigação volta-se ao jornalismo,
entendido como um “operador simbólico”, cujas narrativas portam “visões de
mundo” porque “empreendidas a partir da articulação em torno de linguagens
marcadas pelo social” (CARVALHO, 2012, p. 53). Portanto, o jornalismo,
como atividade social, alimenta-se daquelas concepções sociais e históricas ao
mesmo tempo em que possui um papel político fundamental na constituição
de uma “esfera de visibilidade midiática” e na pré-estruturação da esfera públi-
ca (MAIA, 2008). O jornalismo age, assim, na constituição de “uma espécie
de quadro do mundo” (GOMES, 2008, p. 143) e no estabelecimento de um
“quadro dinâmico de interpretações” (MAIA, 2008, p. 189) que alimenta pro-
cessos políticos, enquadramentos sociais e discussões na esfera pública. Desse
modo, o jornalismo pode atuar tanto no sentido do questionamento de desi-
gualdades e hierarquias quanto para cristalizá-las.
Como referencial metodológico, recorremos à análise de conteúdo apli-
cada ao jornalismo ( JORGE, 2015) e analisamos 143 notícias produzidas pelo
jornal brasileiro Folha de S. Paulo (2013-2016) e pelo argentino La Nación
(2013-2016), ambos na versão online, sobre, respectivamente, a PEC das Do-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 247


mésticas e a Ley de Contrato de Trabajo para el Personal de Casas Particulares.
Estruturamos este capítulo da seguinte forma: inicialmente, discutimos
as relações entre mídia, especificamente o jornalismo, e a (re)produção de hie-
rarquias sociais e de gênero, com enfoque para as consequências nas dinâmicas
políticas voltadas ao debate público e aos segmentos representados ou invisibi-
lizados; na sequência, descrevemos os procedimentos metodológicos, apresen-
tamos os resultados e as análises e apontamos as conclusões.

Jornalismo, desigualdades e debate público

Na contemporaneidade, em uma sociedade imersa em um processo de


midiatização, no qual há uma articulação estrutural das tradicionais institui-
ções sociais com a mídia (SODRÉ, 2007), as experiências compartilhadas so-
cialmente são, em grande parte, mediadas por aparatos técnicos. A tessitura
dos discursos, as trocas de informação e conhecimento, as relações são cons-
truídas por meio de dispositivos sócio-tecno-simbólicos, entre eles, os media.
Nesse sentido, a representação de mundo que compõe o imaginário coletivo é
formada por diferentes imagens “difundidas em escala industrial, fazendo com
que nossas referências sejam uma fusão entre o mundo com o qual temos con-
tato diretamente e o mundo que conhecemos pelas telas da TV, pela internet e
pelas páginas de revistas e jornais” (BIROLI, 2011, p. 85).
Nesse contexto, podemos entender os media como esferas de repre-
sentação social e política, como um âmbito diferenciado de (re)produção de
discursos e sentidos, local privilegiado por ser espaço de visibilidade, de “pro-
dução das formas de reconhecimento que constituem o capital simbólico e de
confirmação ou refutação das hierarquias presentes na sociedade e, mais espe-
cificamente, no campo político” (MIGUEL; BIROLI, 2009, p. 57). Portanto,
os enquadramentos, enfoques e destaques nos discursos midiáticos refletem
no debate público e nas dinâmicas políticas voltadas aos segmentos sociais.
No entanto, essa representação midiática de vozes, discursos e segmen-
tos sociais não é convergente ou unânime. Vários discursos atravessam a arena
do debate público cotidianamente, alguns de forma mais massiva que outros, o
que contribui para (re)produção de estereótipos ou sua superação, na direção
de novas gramáticas morais (HONNETH, 2003).
É importante ressaltar que as condições de produção e circulação de dis-
cursos são desiguais, atravessadas por relações de poder, que fazem parte de
um sistema maior de produção e recepção (ativa) de conteúdos. Os media he-

248 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


gemônicos ainda possuem um grande capital acumulado, o que faz com que,
geralmente, tenham maior poder simbólico (BOURDIEU, 1989) na arena do
debate público, consequentemente, com grande potencial para a “propagação
de representações unilaterais e homogêneas da realidade, apresentadas como
sendo a própria realidade ou o que importa dela” (BIROLI, 2011, p. 73). Con-
tudo, para analisar o jornalismo deve-se partir de uma perspectiva complexa
que compreenda não apenas as relações econômicas e políticas com outros se-
tores da sociedade, mas também as rotinas de produção e as relações entre os
media e seus públicos. O fazer jornalístico é, portanto, permeado cotidiana-
mente por contradições pessoais, empresariais e institucionais (TUCHMAN,
1993; SHOEMAKER; VOS, 2011).
Para Lago (2010, p.175), as rotinas de produção e os constrangimentos
a que são submetidas as redações, possuem um valor menor se comparadas à
importância de “apreender e acolher o Outro em sua alteridade”. Para a autora,
impera no jornalismo um acordo velado que envolve empresas e jornalistas
que exclui tudo que não pode ser compreendido pela lente do mesmo, do dis-
curso naturalizado, portanto, “falta ao jornalismo [e aos jornalistas], de modo
geral, um olhar inclusivo”.
Ao estereotipar e invisibilizar sujeitos, vozes e discursos, o jornalismo
tende a reforçar e reproduzir visões de mundo que são naturalizadas pelo ima-
ginário coletivo. Uma delas, e que particularmente interessa a essa pesquisa,
refere-se às hierarquias de gênero, é a “confirmação do ‘pertencimento’ de
mulheres e homens a temas e funções vinculados à esfera pública ou à esfera
privada, de acordo com as definições e relações historicamente definidas para
essas esferas” (MIGUEL; BIROLI, 2009, p. 64), que se refletem em diversas
dinâmicas políticas voltadas, por exemplo, para a garantia e o reconhecimento
de direitos das mulheres.
Apesar do avanço que as mulheres têm conquistado relativos, por exem-
plo, ao tensionamento das delimitações do doméstico/privado e o público/
coletivo e às legislações específicas – no Brasil, podemos citar a Lei Maria da
Penha; Lei do Feminicídio, PEC das domésticas –, a mídia brasileira ainda é
fortemente marcada pelas reproduções de estereótipos de gênero e raça prin-
cipalmente (BASTHI, 2011, p. 14), incorrendo em uma frequente violência
simbólica-midiática.
Uma das consequências desse habitus na comunicação (DE BARROS
FILHO; MARTINO, 2003) é a contribuição para a manutenção de crenças,
valores e atitudes “sexistas, racistas e etnocêntricas, promotoras de sofrimento

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 249


e de profundas desigualdades na sociedade” (BASTHI, 2011, p. 14), com um
agravante para as mulheres pobres e negras que ocupam um lugar socialmente
considerado inferior na escala de privilégios, abaixo de homens brancos, mu-
lheres brancas e homens negros, sendo, portanto, um dos grupos que mais so-
fre violação de direitos humanos.
Inseridas nesse grupo estão as trabalhadoras domésticas. Segundo Bas-
thi, “a atividade persiste como um setor de baixos salários, elevada jornada
de trabalho e alto índice de contratação à margem da legalidade” (BASTHI,
2011, p. 22). De forma semelhante, Carneiro e Rocha (2009) afirmam que
há um silenciamento acadêmico e social em relação aos dramas e aflições aos
quais essas mulheres trabalhadoras domésticas são submetidas.
Assim, a posição atribuída socialmente aos indivíduos que exercem o
trabalho doméstico é marcada pela subordinação e subalternidade. Nessa pers-
pectiva, a tematização jornalística pode ou não estimular o questionamento
de lugares e valores socialmente atribuídos ou o reforço a essas posições, con-
siderando o potencial dos media para generalização de processos de debate
público e de pré-estruturação da esfera pública (HABERMAS, 2003; 2009;
MAIA, 2008; CAL, 2016).

Procedimentos metodológicos

Para compreender, a partir do caso da ampliação de direitos para os tra-


balhadores domésticos, como o jornalismo configura-se para lidar com as desi-
gualdades sociais e de gênero, investigamos a cobertura desse assunto no Brasil e
na Argentina a partir de jornais de referência em cada país. Em relação ao escopo
da pesquisa, foram selecionadas matérias produzidas pelas versões online do jor-
nal brasileiro Folha de S. Paulo151 (2013-2016) e do argentino La Nación152
(2013-2016), no período de três anos após a publicação das leis em cada país.
151. A Folha de S. Paulo surgiu em 1921 e, segundo Moreira (2006), é o jornal de maior circulação nacional. A Folha
defende que sua linha editorial é baseada num jornalismo interpretativo, complexo, desestatizado e humano, com
abordagem aprofundada, crítica e pluralista (MOREIRA, 2006). A Folha Digital – versão online – é o site de maior
audiência dos periódicos impressos nacionais. Em abril de 2018, a página obteve 32 milhões de usuários únicos e 224
milhões de visualizações. 75% dos leitores pertencem à classe AB, 56% são do sexo masculino e 49% têm entre 25 a
44 anos (FOLHA UOL, 2018).
152. O La Nación surgiu em 1870 e, em termos de circulação de exemplares, ocupa o segundo lugar na Argentina,
com uma tiragem média de 163.652 edições semanais (ARUGUETE; KOZINER, 2014). De acordo com Aruguete
e Koziner, “constitui-se como referência de informação sólida e opinião fundamentada. Seus editoriais manifestam
uma preocupação significativa em manter ‘os princípios do liberalismo bem entendido’” (ARUGUETE; KOZINER,
2014, p. 145-146, tradução nossa). O La Nación Digital obteve 31 milhões de usuários únicos e 231 milhões de
visualizações, em abril de 2018. 58% dos usuários são homens. No perfil de visitantes do site, a idade média é 39 anos
e 83% deles pertencem às classes ABC (LA NACIÓN, 2018). Trata-se, assim, de dois jornais com perfis editoriais e
de público semelhantes.

250 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Para seleção das matérias, utilizamos a busca pelas seguintes palavras-chave “em-
pregado(a) doméstico(a)”, “trabalho doméstico” e pelos nomes conhecidos das
leis nos dois países (PEC das Domésticas e Ley de Contrato de Trabajo) nas
plataformas online da FSP e do La Nación. Foram encontradas 143 matérias jor-
nalísticas, sendo 111 na Folha Digital e 32 no La Nación Digital.
Os dois jornais foram escolhidos pela relevância e alcance que possuem
em seus respectivos países. A definição pelas versões digitais está baseada nas
potencialidades que o ciberjornalismo possui, como, segundo Schwingel
(2012), alcance global e ilimitado; flexibilização de tempo e espaço (portanto,
com maior possibilidade de produção de conteúdos mais densos, multimidiais
e contextuais, por meio de hiperlinks); interatividade (inserção do público no
processo de produção); memória (disponibiliza um acervo de todo o conteú-
do produzido, com sistemas de indexação por meios de tags, o que facilita a
pesquisa); e atualização contínua (potencial de atualização instantânea das in-
formações disponibilizadas).
Como método de análise, trabalhamos com a Análise de Conteúdo
(AC). Segundo Bardin, o objetivo da AC é “a inferência de conhecimentos
relativos às condições de produção (ou, eventualmente, de recepção), inferên-
cia esta que recorre a indicadores (quantitativos ou não)” (BARDIN, 2016, p.
45, grifos no original). Esse tipo de análise se desenvolve a partir de três polos:
a pré-análise; a exploração do material; e o tratamento dos resultados, a infe-
rência e a interpretação (BARDIN, 2016). Trata-se de uma metodologia que
sistematiza unidades e contabiliza os resultados para revelar padrões e realizar
inferências que podem não ter sido percebidas pelo leitor habitual ( JORGE,
2015). Para Jorge, a AC “tem grande valia no exame de produtos noticiosos,
seja em que suporte for, pela possibilidade de separar para juntar: picar, cortar
o conteúdo em pequenas unidades, demarcá-las ou etiquetá-las, para depois
reuni-las num todo (...) que faça sentido” ( JORGE, 2015, p. 20).
A partir desse referencial e do material coletado construímos um banco
de dados para análise de conteúdo com as seguintes variáveis: identificação
da matéria; data de publicação; jornal; título da matéria; editoria; formato/
gênero jornalístico; assunto principal; fontes consultadas; detalhamento do
assunto e do sexo no caso de trabalhadores (ou ex-trabalhadores) domésticos
serem fontes; abordagens em relação ao trabalho doméstico; enquadramen-
tos153 sobre a mudança da lei.
153. Entendemos enquadramento, a partir de Entman (1993), como seleção e saliência de um aspecto da realidade de
modo a gerar uma definição/interpretação particular do problema.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 251


Resultados

Na Folha de S. Paulo (FSP), a grande maioria das matérias era de notí-


cias (47,8%) com pouco aprofundamento no assunto. Reportagens represen-
taram apenas 10,8% da cobertura da Folha Digital (FD) e, notas e entrevistas,
11,7% e 2,7% respectivamente. No La Nación (LN), tiveram mais destaque
as notícias (59,4%), seguidas pelas reportagens (37,5%). Notas representaram
3,1% do total e não houve entrevista (Gráfico 01).

Gráfico 01 - Proporção de matérias por gênero jornalístico nos dois jornais

Fonte: Dados da pesquisa.

Em ambos os jornais, as leis de ampliação dos direitos de trabalhado-


res domésticos foram abordadas predominantemente a partir da editoria de
economia/mercado, representando 93,7% na Folha e 81,3% no La Nación
(Gráfico 02). Nesse último, essa questão foi abordada também na editoria de
sociedade/cidades (18,7%), que apresenta temáticas relativas ao cotidiano. Na
Folha, houve incidência de poucas matérias dispersas nas editorias de cida-
des (2,7%), poder (0,9%), empregos e carreiras (0,9%) e suplemento infantil
(1,8%). Essa concentração de matérias na editoria de economia/mercado, já
demonstra a natureza da preocupação lançada pelos dois jornais na cobertura
do tema, focada nas repercussões das leis na economia do país, mas, sobretudo,
do ponto de vista dos patrões. Como afirma a própria Folha, a editoria de mer-
cado “fala sobre negócios empresariais e a repercussão das decisões do governo
no mundo empresarial e no combate aos gargalos da infraestrutura do país”
(FOLHA, 2018, s/p).

252 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Gráfico 02. Proporção de distribuição das matérias de cada jornal por editoria

Fonte: Dados da pesquisa.

De modo mais específico, podemos detalhar a distribuição das matérias


por assunto (Gráfico 03). Na Folha, as temáticas principais foram: “Orienta-
ções ao empregador”, com 22,9% do total de matérias, seguida por “Entenda
a Lei” (17,6%), “Sistema e-social” (15,7%), “Prazos para pagamento de tribu-
tos” (14,8%) e “Impactos na economia/mercado” (11,4%). Se agruparmos em
macrocategorias, teremos o seguinte quadro:

Gráfico 03. Principais assuntos abordados por jornal (%)

Fonte: Dados da pesquisa.

No La Nación, prevaleceram temáticas relacionadas a questões legais e


especificamente “orientações ao empregador”, categoria que correspondeu a
33,8% do total de matérias veiculadas pelo argentino. Em relação à apresenta-
ção das vantagens da nova lei, o La Nación, proporcionalmente, publicou mais

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 253


matérias do que a Folha: 14,1% e 4,3%, respectivamente. O jornal argentino
também abordou de modo mais recorrente do que a Folha as desvantagens da
nova lei, porém com uma diferença proporcional menor do que no item ante-
rior: 11,3% LN contra 7,6% da Folha.
Na Folha, as principais fontes consultadas foram: representantes do
executivo (30,4% do total de fontes), como ministros e representantes da Re-
ceita Federal; especialistas (16,9%), como advogados e economistas; represen-
tantes do legislativo (14,9%) como deputados; e organizações empresariais
(14,2%%), como agência Global Talent, Mary Help e House Maid, que ofere-
cem serviço de terceirização de trabalho doméstico. Trabalhadores domésticos
foram consultados pouquíssimas vezes, sempre mulheres: trabalhadoras em
atividade corresponderam a apenas 4,1% do total de fontes e ex-trabalhadoras
a 2%. Empregadores representaram 6,1% das fontes.
No La Nación, trabalhadores domésticos não foram fontes em nenhuma
matéria. As principais fontes consultadas foram: representantes do executivo
(22,9% do total de fontes), como representantes do Ministério do Trabalho e
da AFIP (órgão equivalente ao Ministério da Fazenda); especialistas (28,6%),
como advogados e economistas; empregadores de trabalhadores domésticos
(14,3%); e organizações empresariais (14,3%), como corretoras de seguro e
escritórios de contabilidade.
Em relação à abordagem a respeito do trabalho doméstico, nos dois jor-
nais, ele foi abordado como atividade feminina (75,5% na Folha e 71,9% em
La Nación). Em menor proporção, apareceu ainda o trabalho doméstico como
uma relação de confiança entre patrão e empregada (10% na Folha e 12,5% em
La Nación).
Uma distinção relevante que observamos entre a cobertura da Folha e
do La Nación diz respeito ao modo como foi enquadrada a mudança da lei
(Gráfico 04). Desconsiderando as matérias que não apresentam perspectivas
em relação à mudança da lei (30,6% na Folha e 21,9% em La Nación), das que
apresentam, na Folha, 65,5% o fazem a partir de aspectos negativos, como:
problema logístico para os patrões; prejuízo para relação patrão-empregada;
problema financeiro para os patrões; interferência exagerada do Estado. Já no
La Nación, a mudança da lei é apresentada majoritariamente (59,6%) a partir
de aspectos positivos, como: possibilidade de melhorar as condições do tra-
balho doméstico; correção de uma injustiça/reconhecimento do trabalho do-
méstico; conquista de vantagens sociais.

254 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Gráfico 04. Ocorrências de enquadramentos sobre a mudança de legislação (%)

Fonte: Dados da pesquisa.

O enquadramento específico mais recorrente nas matérias do jornal ar-


gentino foi “Possibilidade de melhorar as condições do trabalho doméstico”
com 42,6% das ocorrências. Ele destacava principalmente as novas possibilida-
des para a trabalhadora doméstica como jornada de trabalho de 48 semanais,
licença maternidade, férias remuneradas e as mudanças nas condições de tra-
balho. A Folha recorreu a esse enquadramento 12,4% das vezes, principalmen-
te, quando ouviu representantes de organizações sociais e organismos interna-
cionais como a OIT. Ambos os jornais abordaram poucas vezes a ideia de que
as novas leis seriam uma forma de corrigir uma injustiça: 10,6%.
O enquadramento mais acionado pela Folha foi o de que a nova lei seria
um “problema logístico para os patrões”, com 38,1% das ocorrências, como
exemplifica o trecho a seguir: “De acordo com especialistas na área trabalhis-
ta, fazer o cadastro e pagar a primeira guia do novo sistema foram apenas o
início dos desafios que as pessoas terão para cumprir a nova legislação” (FSP,
MERCADO, 16/11/2015, grifo nosso). No La Nación, esse enquadramento
ocorreu em 17% das vezes, mas não a partir da perspectivas dos “desafios”, mas
sim das “obrigações”, como exemplifica o excerto: “Contar con una persona
que trabaje en las tareas de la casa implica nuevas obligaciones a partir de la
vigencia, por ahora parcial, de la ley 26.844, a la vez que se sumarán otras más
en los próximos meses.” (LN, 11/05/2014, grifo nosso).
O segundo enquadramento mais recorrente na Folha e no La Nación
foi o da nova lei como prejuízo para a relação patrão-empregada com 20,4%
das ocorrências no brasileiro e 19,1% no argentino. Um trecho bem represen-
tativo desse enquadramento na Folha é apresentado na matéria “Lei confronta

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 255


relação ‘familiar’ entre patrões e empregados no Nordeste”, quando o texto
jornalístico diz que:

A relação mistura profissionalismo com afeto e amizade, em um regime


trabalhista próprio, baseado na confiança e acordos informais. As folgas
são quinzenais, e a jornada, adaptada às necessidades da patroa. A em-
pregada ganha as refeições, material de higiene e passagens para visitar a
família. A PEC das domésticas ameaça agora desestabilizar essa relação.
(...)” (FSP, MERCADO, 23/04/2013)

A ideia de um “regime trabalhista próprio” é complementada pelas in-


formações sobre a situação de trabalho da empregada doméstica e os ganhos
que ela recebe citados na matéria. A conotação positiva apresentada pelo jor-
nal a respeito dessa relação estabelecida entre patrões e empregada fica clara a
partir afirmação de que a nova lei seria uma ameaça.

Discussão e conclusões

Nos dois países, antes das novas legislações de 2013, os trabalhadores


domésticos não detinham os mesmos direitos dos outros trabalhadores. Eram
considerados uma categoria inferior que, por trabalhar em casas privadas, po-
deria ter uma legislação mais flexível com direitos trabalhistas mais frouxos.
Como afirma Davis (2016), apesar de as tarefas domésticas relacionadas ao
papel da mulher, do âmbito privado e da não geração de lucro caminharem
ao ponto da “obsolescência histórica”, ainda é comum o imaginário coletivo
associar essa modalidade de trabalho a essas condições, reforçando o racismo,
o sexismo e as desigualdades sociais.
Considerando, então, o jornalismo como “operador simbólico” que
mobiliza visões de mundo e que alimenta processos sociais e políticos, como
podemos, a partir da pesquisa realizada, lançar luz sobre as questões levanta-
das no início deste capítulo? Para pensar sobre como o jornalismo lida com
as desigualdades que envolvem mulheres subalternizadas, vamos analisar os
resultados segundo as seguintes categorias: 1) o jornalismo atuando para ques-
tionar/problematizar as desigualdades; e 2) jornalismo atuando para reprodu-
zir/manter essas desigualdades.
(1) Em poucos aspectos das coberturas da Folha e do La Nación po-
demos destacar o questionamento de desigualdades relacionadas ao trabalho

256 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


doméstico. Na verdade, na cobertura da Folha, a partir da análise que empre-
endemos, podemos mencionar como uma possibilidade bastante frágil de fis-
sura num cenário marcado por desigualdades é a presença de trabalhadoras
e ex-trabalhadoras domésticas como fontes em notícias e reportagens. Ainda
que incipiente e pouco substantiva em relação a ocorrência total de fontes, as
trabalhadoras domésticas apareceram em matérias e foram citadas. Contudo,
quando isso ocorreu foi principalmente a partir de falas sobre a rotina de tra-
balho, ou ainda, que não pretendem exigir todos os novos direitos dos patrões
(como, por exemplo, horas extras). Outro ponto que merece ser ressaltado é
que as matérias que mais ouviram trabalhadoras domésticas foram publicadas
no suplemento infantil “Folhinha” e, ainda assim, o enfoque era a opinião das
crianças a respeito das trabalhadoras.
No La Nación, temos a presença de elementos que reforçam uma abor-
dagem mais questionadora de desigualdades quando enquadra a nova legisla-
ção principalmente a partir de elementos positivos do ponto de vista social,
como: possibilidade de melhorar as condições do trabalho doméstico; corre-
ção de uma injustiça/reconhecimento do trabalho doméstico; conquista de
vantagens sociais. Também consideramos interessante mencionar que o argen-
tino buscou abordar o assunto não apenas de uma perspectiva econômica, mas
também social, o que é observado a partir presença de notícias na editoria de
sociedade. Ainda assim, não podemos afirmar que as matérias do jornal atua-
ram para questionar as desigualdades. Apesar de terem mencionado desigual-
dades econômicas e de direitos das trabalhadoras domésticas, elas não foram
ouvidas nas matérias.
(2) A análise da cobertura nos dois jornais mostra que eles atuaram,
principalmente, na reprodução de desigualdades relacionadas ao trabalho do-
méstico e a quem o realiza. Ambos os jornais trataram do assunto como ativi-
dade feminina, sem problematizar os tipos de trabalho domésticos ou a divisão
sexual do trabalho (BIROLI, 2018). Em boa parte das matérias da Folha, os
direitos são colocados como uma concessão, como algo que as trabalhadoras
domésticas ganharam, ao invés de serem considerados uma conquista.
Outro ponto é que tanto o jornal argentino quanto o brasileiro aborda-
ram a mudança de legislação majoritariamente a partir de aspectos econômi-
cos e de mercado. Fica evidente um enfoque a partir do que seria o interesse
dos empregadores: orientações sobre a nova lei, sobre o sistema para cadastro
dos trabalhadores domésticos, questões tributárias etc. Nesse sentido, o enqua-
dramento mais recorrente na Folha sobre a PEC das Domésticas foi o da lei

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 257


como “problema logístico para os patrões”. Percebemos nesses resultados um
reforço às hierarquias sociais existentes tanto no modo de abordagem quanto
no próprio escopo a partir do qual a ampliação de direitos no trabalho domés-
tico é pautada.
A análise comparativa entre a cobertura no Brasil e na Argentina per-
mitiu observar que, no geral, os jornais estudados, que possuem características
editoriais semelhantes, abordaram a temática de modo bastante próximo, o
que nos diz de certo padrão de cobertura a respeito de temáticas que envolvem
sujeitos, especialmente mulheres, em situação de subalternidade.
Os resultados apresentados são, de certa forma, contra-intuitivos quan-
do ressaltamos que se trata de um contexto de ampliação de direitos dos tra-
balhadores domésticos, portanto, um cenário legal favorável a discussões mais
consistentes sobre as desigualdades e seus questionamentos. O que observa-
mos a partir de análise é que os jornais estudados têm o potencial de alimen-
tar o processo de debate público sobre o trabalho doméstico, mas atuam para
manter desigualdades sociais, na medida em que não abrem espaço, de fato,
para posicionamento das trabalhadoras a partir dos seus anseios e perspecti-
vas. Como afirma Lago (2010), o jornalismo tem dificuldade de lidar com o
“Outro” – acrescentamos: não-hegemônico – e de lançar um olhar realmente
inclusivo para esses contextos e sujeitos.

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Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 261


O discurso sexista da Folha de S. Paulo e da Veja
na campanha de Dilma Rousseff em 2010
Ana Maria da Conceição VELOSO154
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE

Patricia Paixão de Oliveira LEITE155


Núcleo de Documentação sobre Movimentos Sociais, Recife, PE

Resumo

Este artigo se propõe a investigar o discurso de dois veículos da mídia impressa


brasileira durante a cobertura da campanha de Dilma Rousseff à Presidência
do Brasil, em 2010: o jornal Folha de S. Paulo e a revista Veja. Meios de grande
circulação no país e ampla tiragem, as publicações lançaram mão de dispositi-
vos discursivos que ressignificaram as marcas culturais e simbólicas do patriar-
calismo, do machismo e da misoginia. Para averiguar os sentidos imersos no
corpus da pesquisa, foi realizado um estudo de caso e utilizado o arcabouço te-
órico-metodológico da Análise do Discurso. Também apoiaram a elaboração
do texto, pesquisas dos campos da economia política da comunicação e dos
estudos das relações de gênero na mídia, na tentativa de desvelar os sentidos
impregnados nas coberturas dos veículos acerca da campanha de uma mulher
à Presidência do Brasil.

Palavras-chave: Discurso; Sexismo; Gênero; Jornalismo; Economia política


da comunicação.

Introdução

As eleições presidenciais no Brasil, em 2010, guardaram peculiaridades


que transformaram aquele momento político em um caso eleitoral interessan-
te do ponto de vista histórico. Afinal, pela primeira vez uma mulher que estava
na disputa apresentava chances concretas de vencer as eleições e tornar-se pre-
sidenta da nação. Com forte acirramento de discursos e embates midiáticos,
154. Doutora em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE). Professora do Departamento de Comunicação da UFPE e coordenadora do Observatório de
Mídia da UFPE.
155.Doutora em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Per-
nambuco. Pesquisadora do Núcleo de Documentação sobre Movimentos Sociais (NuDoc) da UFPE.

262 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


o pleito foi decidido no segundo turno, no dia 31 de outubro, tendo Dilma
Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), e José Serra, do Partido da So-
cial Democracia Brasileira (PSDB), como os dois concorrentes finais. Dilma
venceu as eleições com 56,05% dos votos, contra 43,95% de Serra.
O economista José Serra representou a coligação PSDB, DEM, PTB,
PPS, PMN e PT do B, com um currículo que colecionava vários cargos: foi
deputado federal, senador e ministro do Planejamento e da Saúde, além de
governador e prefeito de São Paulo. Já Dilma, era estreante em campanhas elei-
torais como candidata, mas assumiu cargos no governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT). Foi ministra das Minas e Energia e ministra-chefe da Casa Civil.
Economista, filiada ao Partido dos Trabalhadores, ela ficou à frente de uma
ampla coligação eleitoral, que abarcou as siglas PT, PMDB, PC do B, PDT,
PRB, PR, PSB, PSC, PTC e PTN.
Além das trocas de acusações, intrigas entre partidos, polêmicas, costu-
ras políticas em busca de apoios para o segundo turno, muitos assuntos delica-
dos foram discutidos sem profundidade ao longo da campanha, como a ques-
tão do aborto, por exemplo, que inundou as páginas dos jornais e revistas, não
sem lançar mão de um aparato discursivo religioso. O discurso sexista sobre
Dilma dominou as coberturas eleitorais, utilizado como mais um “argumento”
para fortalecer a oposição à candidata do PT.
Para apreender o corpus de análise, este estudo considerou 111 matérias
e reportagens que referenciaram a campanha de Dilma Rousseff na Folha de S.
Paulo, sete dias antes e sete dias depois do pleito, e 45 arquivos da revista Veja,
incluindo capa, notas, matérias e reportagens, publicados um mês antes e um
mês depois do segundo turno. Aqui serão analisados alguns textos seleciona-
dos, entre os 156 do total, considerados mais representativos sobre os discur-
sos que circularam de forma recorrente na eleição (LEITE, 2016).
Fundada em 1921 – na época foi denominado Folha da Noite –, a Folha de
S. Paulo tem como público majoritário 41% da classe A, sendo que três quartos
fizeram faculdade e 24% também pós-graduação156. Desde 1931, está sob o co-
mando da família Frias. Atualmente tem como presidente Luiz Frias e o diretor
editorial é Otavio Frias Filho. Já a Veja, que teve a sua primeira edição lançada em
1968, pertence ao Grupo Abril, da família Civita, com um leque diversificado de
operações empresariais, entre elas, gráfica, editora com conteúdo digital multipla-
taforma, marketing e eventos, além de logística de distribuição de publicações.
156. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/paineldoleitor/2011/10/991055-leitor-da-folha-e-ltraquali-
ficado-mostra-pesquisa.shtml.> Acesso em: 27 jul. 2015, às 19h.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 263


Um olhar sobre os discursos de Veja e Folha de S. Paulo

Em uma pesquisa exploratória inicial, com a observação primária do


corpus, nota-se a emergência do discurso sexista das duas publicações ao refe-
renciarem Dilma Rousseff. Com a abordagem derrisória157 sobre a estética da
candidata e seu comportamento, sem contar a espetacularização sobre o tema
do aborto, os veículos deixaram aflorar de forma potente legados culturais e
simbólicos do patriarcalismo, do machismo e da misoginia, impregnados nas
relações de poder da sociedade brasileira. Houve, por assim dizer, a ativação
da memória discursiva sobre temas como religião e gênero, que foram trazidos
para o “palco” também pelas reportagens.
A questão veio à tona quando o candidato José Serra divulgou que Dil-
ma Rousseff havia declarado, em 2007, que apoiava a descriminalização do
aborto. Houve uma forte manifestação de religiosos contra Dilma e o PT, com
apoio da mídia, impelindo a candidata a publicar que era contra a descrimi-
nalização dessa prática. Quanto mais o segundo turno se aproximava, mais a
mídia gestava o tema em suas páginas e canais de rádio e TV.
Emerge, então, um importante objeto para a análise, uma vez que os
meios de comunicação, pela sua centralidade no mundo moderno e penetra-
ção em diversas esferas sociais, são também responsáveis pela disseminação dos
valores dos seus grupos controladores para seus públicos. E os discursos midi-
áticos, certamente, são fortes reprodutores de sentidos e ideologias circulantes
em uma sociedade.
Nesse sentido, para tentar deslindar o objeto, optamos pela realização
de um estudo de caso descritivo e interpretativo, que nos levou a apreciar tal
questão quando analisamos criticamente os dados coletados. “Como esforço
de pesquisa, o estudo de caso contribui, de forma inigualável, para a compre-
ensão que temos dos fenômenos individuais, organizacionais, sociais e políti-
cos” (YIN, 2001, p. 21).
De acordo com Robert Stake (2000), a investigação deve considerar: a
natureza do caso; o histórico do caso; o contexto (físico, econômico, políti-
co, estético etc.); outros casos pelos quais é reconhecido; os informantes pelos
quais pode ser conhecido. Todas essas características têm forte relação com a
natureza da observação empreendida neste capítulo, diante da alta quantidade
157. Para Simone Bonnafous (2003, p. 35), derrisão é a “[...]associação do humor e da agressividade que a caracteriza e
a distingue da pura injúria”. Ela diz que esse tipo de discurso é tradicional na política, há muito tempo, mas que chegou
também à imprensa. Entre as características desses jogos discursivos de derrisão estão o “argumento de distinção” e de
“desqualificar o outro” (BONNAFOUS, 2003, p. 35).

264 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


de material analisado (corpus composto por títulos, subtítulos e textos de ma-
térias e reportagens dos dois veículos em tela).
Também foi preciso desvelar os discursos submersos nos textos selecio-
nados, com o recurso ao aporte teórico-metodológico da Análise do Discurso,
considerado o mais apropriado no sentido de que “uma das grandes contri-
buições da Análise do Discurso para o estudo de texto é articular o linguísti-
co ao sócio-histórico, este entendido como exterior constitutivo daquele. Isso
significa que a exterioridade se inscreve no próprio texto e não como algo que
está fora e se reflete nele[...].” (GREGOLIN e BARONAS, 2001, p. 109). Até
porque

[...]para constituir-se, a AD inscreve-se em um campo epistemológico


interdisciplinar, o que faz com que sua relação com estes campos de
conhecimento seja sempre crítica: do Marxismo, interessa-lhe saber
como se dá o encontro do ideológico com o linguístico; da Linguística,
procura descrever os funcionamentos responsáveis pela produção de
efeitos de sentido, considerando as línguas como processo; na enun-
ciação, vai procurar o sujeito, mas interessa-se por um sujeito dotado
de simbólico e de imaginário, cujo discurso mostra as condições de sua
produção. (INDURSKY, 1997, p. 30).

Não se trata aqui de fazer uma revisão bibliográfica sobre a Análise do


Discurso –isso não seria possível nos limites do capítulo –, mas utilizar esse
campo para considerar os discursos embutidos nos textos. Tal método permite
conduzir a observação dos sentidos das palavras e como elas foram rearranja-
das no enunciado, levando em consideração as formas possíveis de olhares so-
bre o discurso. Pois, “na análise do discurso, procura-se compreender a língua
fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral,
constitutivo do homem e da sua história” (ORLANDI, 2003, p. 15).
Nessa perspectiva, ao conduzir o estudo do corpus, interessou-nos en-
tender os contextos principais em voga: a campanha eleitoral em si, o lugar
de fala da mídia e as condições que determinam como a mulher deve ser re-
ferenciada numa sociedade patriarcal como a brasileira. Assim, desvenda-se o
trabalho simbólico da língua fazendo sentido no discurso e os efeitos de sen-
tido possíveis, oriundos desse entrecruzamento de vozes. Pode-se dizer que a
Análise do Discurso permite reconhecer o funcionamento do discurso midi-
ático sobre Dilma Rousseff, no cenário eleitoral de 2010, e conhecer o que ele
ocultou e o que revelou.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 265


A mídia, o poder e a política

Uma das bases teóricas que fundamentam o estudo das articulações en-
tre poder, política e mídia é a economia política da comunicação, a qual deri-
va da economia política. Para Vincent Mosco, essa vertente teórica pode ser
definida como “o estudo das relações sociais, particularmente das relações de
poder, que constituem mutuamente a produção, a distribuição e o consumo de
recursos” (MOSCO, 1996, p. 25). Janet Wasko (2006) resume a preocupação
dos economistas políticos ao afirmar que esses estudiosos documentam e ana-
lisam as relações de poder, as classes sociais e outras desigualdades estruturais.
No artigo “Comunicação, economia e poder: uma visão integrada”, Helena
Sousa (2006) afirma que nas pesquisas da economia política da comunicação:

As questões relacionadas com a produção e com o consumo da infor-


mação e do entretenimento nunca são questões meramente econômi-
cas, políticas, artísticas ou mesmo de natureza editorial. São sim ques-
tões que se prendem com a distribuição do poder na sociedade e com as
consequências dessa distribuição para a constituição do espaço público
e, consequentemente, para a qualidade do sistema democrático e do
ambiente simbólico que nos envolve. (SOUSA, 2006, p. 6).

Segundo César Bolaño (2000), os/as pesquisadores/as da linha mais


crítica da economia política da comunicação põem em relevo as funções de-
sempenhadas pelos grupos de mídia no processo de acumulação de capital
no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo. “A comunicação que se
realiza no processo produtivo de tipo capitalista é uma comunicação hierar-
quizada, burocratizada, compatível com a estrutura de poder na fábrica” (BO-
LAÑO, 2000, p. 41).
Quando observamos a composição dos grupos de comunicação brasi-
leiros percebemos que os enlaces entre o poder político e esses atores fazem
parte de um sistema mercadológico que, desde a sua gênese, configurou-se
para lucrar por meio da “venda” da informação. São hoje potentes indústrias
concentradas, que traduzem uma versão da realidade pela ótica da elite empre-
sarial e política hegemônica para uma suposta massa de “consumidores”. Essa
conjuntura ficou ainda mais problematizada na era das tecnologias digitais ou
da “globalização”.
No bojo desse tipo de desenvolvimento, emerge o fenômeno da oligo-

266 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


polização do setor. Dênis de Moraes (1998, p. 59) considera que essa oligo-
polização pressupõe: “a) amplos mercados consumidores; b) concorrência in-
tensa entre um número cada vez menor de megagrupos; [...] c) reformulação
estratégica das corporações transnacionais, que passam a centralizar as funções
de decisão e os planos de inovação”. O objetivo é a “maior acumulação de capi-
tal ao menor custo possível” (MORAES, 1998, p. 59).
Há uma peculiaridade na organização da mídia brasileira: é marcada
pelo histórico domínio de grupos familiares e das elites políticas. Assim, um
novo ator emergiu recentemente, instaurando mais um elemento no perfil das
empresas jornalísticas no país: a assunção das igrejas, em especial, as evangéli-
cas, que se tornaram detentoras de concessões para operar emissoras de rádio
e televisão (LIMA, 2004, p. 94). Desse modo, “o resultado é um sistema que
privilegia o capital financeiro, presente nos principais negócios, e um mercado
global oligopolizado, o que exacerba a dificuldade de tomada de decisões au-
tônomas” (BRITTOS, p. 55, 2010).
Assim, as relações entre a política e a radiodifusão no Brasil emergem
como um dos maiores obstáculos para que se incorpore, no país, a demo-
cratização dos meios de comunicação, uma vez que, com a ausência de uma
ação mais robusta do Estado, perpetua-se um modelo de mídia cada vez mais
concentrado, como enuncia a pesquisadora Eula Dantas Cabral: “Dada a con-
centração do setor, sua ampla expansão em dimensões territoriais, incluindo
ramificações regionais e locais, os grupos midiáticos exercem uma influência
determinante na elaboração de políticas em suas áreas de atuação” (CABRAL,
2015, p. 20).
A situação também colabora para que uma das faces da concentração
ainda permaneça em voga, como demonstra o pesquisador Venício Lima no
artigo “As Brechas ‘Legais’ do Coronelismo Eletrônico” (2007): “O ‘corone-
lismo eletrônico’ é uma prática antidemocrática com profundas raízes histó-
ricas na política brasileira e perpassa diferentes governos e partidos políticos”
(LIMA, 2007, p. 125). O autor reforça que essa prática constitui-se em um dos
mais fortes gargalos para a efetiva democratização das comunicações no país.
Para ele, com o “coronelismo eletrônico” são reforçados “os vínculos históricos
que sempre existiram entre as emissoras de rádio e televisão e as oligarquias
políticas locais e regionais na maior parte do país” (LIMA, 2007, p. 125).
Os fenômenos apontados por Eula Cabral (2015) e Venício Lima (2007)
são percebidos, em escala mundial, pelo jornalista e pesquisador espanhol Pas-
cual Serrano (2009). Na obra “Desinformación: cómo los médios ocultan el

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 267


mundo”, ele apresenta uma análise profunda sobre o comportamento da mí-
dia, inclusive, na América Latina, revelando como os jornais, rádios, televisões
e internet “desinformam” a opinião pública, com o propósito de promover a
sua adesão à classe dominante. E quando se fala de classe dominante reporta-se
a um modelo hegemônico patriarcal, elitista e mantenedor de uma classe su-
balternizada por grupos detentores de poder e dinheiro – e, porque não dizer,
controle midiático.
Para o autor espanhol, o resultado desse modelo de informação massivo
e empresarial é a divisão da sociedade em duas instâncias: “uma grande maio-
ria que consome grandes meios de comunicação de forma acrítica e se con-
verte em carne de manipulação informativa e uma elite política e intelectual
que consegue compreender as chaves do mundo” (SERRANO, 2009, p. 16,
tradução nossa). Nessas condições, uma parcela da sociedade se vê obrigada a
conviver com a impotência de não fazer com que as suas mensagens cheguem
aos cidadãos (SERRANO, 2009, p. 16, tadução nossa).
Além disso, como enfatiza Serrano, “a seleção das notícias é o argumen-
to mais contundente para recordar que não existe a neutralidade e a impar-
cialidade informativa” (SERRANO, 2009, p. 25-26, tradução nossa). O que
não for voz das elites, do discurso hegemônico, é minimizado. Nessa mesma
linha de pensamento, Moraes (2010, p. 95) diz que é papel da mídia anular
o fluxo de ideias contestadoras, esvaziando análises críticas contraditórias e
excluindo outras vozes no debate. Dessa forma, segundo Moraes, a mídia não
aceita freios, “alegando que exerce uma (hipotética) função social específica, a
de informar a coletividade. Deseja estar sempre fora do alcance de regulações e
controles democráticos, para [...] fazer prevalecer [...] a lógica mercantil e suas
conveniências corporativas” (MORAES, 2010, p. 95-96).

As várias faces do patriarcado nos meios de comunicação

Entre os poderes midiáticos de disseminar fissuras sociais e abismos en-


tre grupos, influenciando a produção mental de acordo com os interesses das
elites, está a massificação das ideias de uma época. Para Mercedes Lima (2009),
os meios de comunicação, especialmente a televisão, reforçam a naturalização
da discriminação da mulher, retratando-a como um ser predestinado a exercer
papéis sociais seculares, como a maternidade, a sexualidade vigiada e reprimida
– quando se trata de satisfazer a si mesma –, o compromisso com o casamento
e a não visibilidade profissional.

268 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Com isso, os veículos de comunicação fixam estereótipos geradores de
preconceitos e discriminações, produzindo e reproduzindo valores e hábitos
consonantes a formações ideológicas sexistas. A mídia reforça um modelo de
superwoman, isto é, da mulher que está inserida no mercado de trabalho, que
cuida dos filhos, do marido e da casa e ainda está sempre arrumada, reforçan-
do modelos de beleza calcados na feminilidade e na juventude. Para Rachel
Moreno (2009, p.13), “a mídia comanda, sem mandar”. Ou seja, para a autora,
manda a mulher ser magra, bela, boba, mãe, enfim. E mais: “ser invejosa, com-
petir com as outras, manda correr em busca da felicidade perfeita que virá a
partir da compra de produtos e valores, da exibição de marcas e etiquetas que
nos identifiquem e qualifiquem” (MORENO, 2009, p. 13). Em outras pala-
vras, “sem tom de mando, a mídia evita a resistência e a rebelião” (MORENO,
2009, p. 13).
Trata-se de um dos sintomas de um mesmo fato, no qual temos ao me-
nos dois fenômenos que devem ser estudados de modo integrado: a) a supe-
rexposição da imagem e do sexo das mulheres e b) a invisibilidade feminina no
protagonismo das notícias (VELOSO, 2013). Sintomas que, desde os anos
de 1980, estão sendo denunciados quando analisamos a relação das mulheres
com os meios de comunicação e temos, como referência, as constatações do
documento da UNESCO, intitulado “Un solo mundo, voces múltiples: co-
municación e información en nuestro tempo”:

Evidentemente, os meios de comunicação social não são a causa fun-


damental da condição de subordinação da mulher. E não dispõem por
si só de meios para reparar isso. As causas têm profundas raízes nas es-
truturas sociais, políticas e econômicas, assim como nas atitudes cultu-
ralmente determinadas, e só se poderá encontrar a solução mediante a
introdução de transformações a longo prazo. No entanto, os meios de
comunicação social têm, em certa medida, o poder de estimular ou re-
tardar essas mudanças. (UNESCO, 1988, p.330-331, tradução nossa).

Dessa maneira, as engrenagens que movimentam as indústrias da co-


municação e a reflexão sobre a relevância da atuação feminina nesse campo
ressaltam a importância da realização de estudos que problematizem a relação
das mulheres com esses veículos em meio aos contextos econômico, simbólico
e cultural. Devemos analisar o papel delas no âmbito da totalidade social, na
qual os grupos de mídia estão produzindo discursos sociais. (MATTELART,
1982).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 269


Não dá para perder de vista que o machismo segue predominando em
um país onde apenas cerca de 13% das cadeiras do Congresso Nacional são
ocupadas pela representação feminina, apesar de o Brasil contar com legisla-
ção própria para garantir maior presença de mulheres na Câmara Federal e no
Senado. E é justamente para compreender como tais fenômenos são reprodu-
zidos que Betânia Ávila (2001) chama atenção para a importância de analisar
o sistema patriarcal em meio ao momento histórico em que ele se apresenta:
“Não levar em conta a questão do patriarcado coloca, por outro lado, um limite
na concepção e nas estratégias de luta por igualdade” (ÁVILA, 2001, p.32-33).
Apesar de ter dado largos passos rumo à “politização da esfera privada”,
a conquista da esfera pública ainda é um desafio para as mulheres. Talvez por-
que “a esfera pública, tanto na dimensão do Estado como em outros planos,
onde também se processam os conflitos políticos, ainda se constitui como um
espaço social onde as desigualdades de gênero, de classe, de orientação sexual
e de raça estão presentes” (ÁVILA, 2001, p. 17). Não tem sido fácil, para elas,
o convívio social em meio à dicotomia entre o público e o privado, principal-
mente porque sua manutenção no ambiente doméstico fundamenta o poder
patriarcal e nem todas as suas aspirações sociais aparecem na arena pública.
Vincent Mosco (1996) revela que, quando teorizamos acerca da posição
das mulheres nas indústrias culturais, devemos pesquisar, dentre outros aspec-
tos, as microestruturas: se os conteúdos as apresentam como sujeitos promo-
tores dos seus direitos humanos. Seguindo essa linha, Ellen Riordan (2004)
orienta que é preciso examinar o lugar ocupado pelas mulheres, não só como
produtoras de conteúdo, mas como personagens de processos sociais alimen-
tados por relações – inclusive subjetivas – entre o capitalismo e o patriarcado.

Dilma Rousseff e o sexismo na Folha de S. Paulo e na Veja

Para analisar os textos das capas, notas, matérias e reportagens no pe-


ríodo pré e pós-eleitoral do segundo turno (sete dias antes e sete dias depois,
no caso da Folha, e um mês antes e um mês depois, no caso da Veja), realiza-
do em 31 de outubro de 2010, títulos e subtítulos foram considerados, uma
vez que os sentidos muitas vezes são apreendidos pela opinião pública nessas
“chamadas” de textos. A pesquisa utilizou o sistema de “busca” nos acervos
dos sites das duas publicações, como método de captura dos arquivos, com
as palavras-chave “Dilma”, “Dilma Rousseff ”, “Serra” e “José Serra” (LEITE,
2016). Seguindo na priorização dos temas relativos a gênero, a análise selecio-

270 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


nou algumas Sequências Discursivas (SD) com sentidos recorrentes no corpus.
a) Sequências Discursivas (SD) analisadas na Folha de S. Paulo
Aqui, serão estudados dois títulos e seus subtítulos com enfoque nos
dois pilares que pretendiam fragilizar a campanha de Dilma Rousseff: a ques-
tão de gênero e o aborto, que são reflexões imbricadas uma na outra.
SD1 – “Voto das mulheres ainda é calcanhar de aquiles de Dilma” (Tí-
tulo - 24/10/2010).
SD2 – “Demógrafo do IBGE calcula que petista teria vencido no
1º turno se não fosse o gap de gênero em seu eleitorado” (Subtítulo -
24/10/2010).
SD3 – “Para arcebispo, o aborto é assunto de eleição” (Título –
27/10/2010).
SD4 – “Dom Raymundo, de Aparecida, afirma que tema é relevante
para o ‘voto consciente’” (Subtítulo – 27/10/2010).
As SD1 e SD2 discursivizam a candidata como não agregadora do
voto feminino, apresentando um “gap” de gênero na campanha, ou seja, uma
lacuna. Ao mesmo tempo em que dá esse foco, o jornal não exalta, nas suas
matérias e reportagens, o fato de Dilma ser mulher. Enquanto tenta apagar a
“novidade” de uma mulher ter chances de chegar ao poder central no país, o
veículo, subliminarmente, reforça que seria natural que as mulheres elegessem
por opção de gênero. Mas tal discursão é apagada. Já as SD3 e SD4 trazem a
“autoridade” da Igreja Católica para tratar o tema do aborto. Dessa vez, foi
Dom Raymundo Damasceno quem assumiu o assunto na Folha, mas vários re-
presentantes da Igreja Católica se revezaram nas páginas dos jornais e revistas,
ocasionando, logicamente, interferências nas eleições, sobretudo com o peso
da palavra “aborto” sobre Dilma Rousseff. O religioso deixa claro que o tema é
relevante para o “voto consciente”.
Outra sequência discursiva parece tentar desconstruir essa visão sobre a
questão do aborto na campanha: é a que traz título e subtítulo que sustentam
uma entrevista de Frei Betto ao jornal. No entanto, o subtítulo deslegitima o
discurso do frade, ao dizer que ele é “eleitor de Dilma”. Assim, abre uma con-
cessão em oferecer uma outra abordagem ao tema, ao passo que deslegitima
por representar a opinião de um apoiador da candidatura do PT:
SD5 – “Igreja introduziu vírus oportunista na campanha” (Título/En-
trevista - 24/10/2010).
SD6 – “Eleitor de Dilma, frade afirma que maneira como aborto é
tratado na eleição planta sementes de fundamentalismo” (Subtítulo –
24/10/2010).
Na opacidade do sentido, essa vinculação de Dilma – logo uma mulher!
– à descriminalização do aborto presentifica a religiosidade incutida na memória

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 271


discursiva brasileira. Assim, a Folha, integrante de uma elite econômica, ganha o
reforço de outro aparelho hegemônico: a Igreja – ou a religião. Entra em cena, com
muita força na campanha, o discurso religioso. A instituição Igreja, sobretudo a
Católica, assume na mídia o seu papel de garantir a hegemonia de classe, opondo-
-se ao discurso contra-hegemônico (naquele contexto eleitoral) de Dilma Rousse-
ff. Desse modo, a religião – assim como a mídia – está circunscrita no discurso eli-
tista, patriarcal e machista. Sem contar que os representantes religiosos são sempre
homens que determinam o que a mulher deve ou não dizer ou fazer.

Sequências Discursivas (SD) analisadas na Veja

As sequências selecionadas da Veja apontam para duas variações do dis-


curso sexista: a descriminalização do aborto como tema da esfera religiosa e não
de saúde pública, assim como ocorreu na Folha, e o discurso derrisório sobre
estética e o comportamento da candidata do PT. A primeira sequência anali-
sada refere-se à capa da Veja, que trouxe o tema do aborto, no dia 13/10/2010.
Nela, há a imagem da candidata Dilma em dois lados opostos (ver figura mais
abaixo), como se fosse em frente e verso, em contradição: uma que defende a
descriminalização do aborto; outra que é contra. A capa fala por si.
SD1 – “‘Acho que tem de haver a descriminalização do aborto. Acho
um absurdo que não haja’. Dilma Rousseff, em 4 de outubro de 2007”.
(Capa/parte vermelha – 13/10/2010).
SD2 – “‘Eu, pessoalmente, sou contra. Não acredito que haja uma mu-
lher que não considere o aborto uma violência.’ Dilma Rousseff, em 29
de setembro de 2010”. (Capa/parte branca – 13/10/2010).

Figura 1 – Capa da revista Veja


Fonte: Veja, 13/10/2010.

272 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


A reportagem interna consta de nove páginas, que discorrem sobre os
“Ditos e não ditos de Dilma” (título), induzindo o sentido de que ela é uma
pessoa sem convicções. Mas há uma página que traz religiosos de credos dife-
rentes, com opiniões sobre o aborto, e, dois deles, declaradamente, desencora-
jando o voto na candidata.
SD3 – “‘O estado tem obrigação de garantir a segurança das crianças
ainda no ventre materno. É inadmissível tratar assassinato como medi-
da de saúde pública’. Wilton Acosta, presidente do Fórum Evangélico
Nacional de Ação Social e Política” (Depoimento - 13/10/2010).
SD4 – “‘O aborto é o mais horrendo dos homicídios. A dona Dilma
tem documentos, programas dizendo que é um absurdo o Brasil não
aprovar o aborto. O recuo é mero oportunismo’. Dom Luiz Gonzaga
Bergonzini, bispo de Guarulhos (SP)” (Depoimento - 13/10/2010).
SD5 – “‘A prática do aborto é um crime aos olhos de Deus. Um espí-
rita tem esse princípio, que é levado em conta na hora de escolher um
candidato. Quem defende o aborto será prejudicado’. Geraldo Cam-
petti, diretor executivo da Federação Espírita Brasileira” (Depoimento
- 13/10/2010).
O discurso da Veja sobre o tema de Dilma e o aborto ganha contornos
mais agressivos do que o da Folha. Para não atribuir apenas à Igreja Católica a
interferência da religião na campanha política, a revista destaca depoimentos
de representantes evangélicos, espíritas e católicos. Nas duas últimas páginas
da reportagem, há uma matéria grande com o título “Voltamos à pergunta:
quando começa a vida?”, e subtítulo “A definição sobre a gênese do ser humano
varia conforme convicções morais, religiosas e científicas”. Com isso, a revista
desliza o tema da política para a ciência, embutindo o cunho religioso, com o
intuito de reforçar, também pelas bases científicas, a criminalização da candi-
data Dilma Rousseff. O discurso sexista de Veja é reforçado por uma matéria
na seção “Moda”, em 6/10/2010. Sob o tema “Vestida para mandar”, a matéria
traz como subtítulo:
SD6 – “Em busca de um estilo para chamar de seu, Dilma Rousseff não
tem mandado bem. Contratou um estilista famoso, mas vacila entre o
brega e o careta. Eleita ou não neste domingo, o que não dá é para dei-
xar esse PAC pela metade”. (Subtítulo - 6/10/2010).
Há um trecho da matéria que, em cima de fotos de Dilma, sempre em
eventos solenes, “consultoras de moda” e “jornalistas de moda” elaboram uma
“crítica” sobre o seu estilo, vestimentas e adereços, em tom de chacota e depre-
ciação:

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 273


SD7 – “‘Baião de dois. Pronta para tomar um chope! Blusa de uma
cor e calça de outra encurtam a silhueta. Os brincos brilhantes jamais
devem sair para passear com o colar de pastilhas’. Regina Guerreiro”.
(Depoimento - 6/10/2010).
Outra sequência traz a imagem de Dilma em uma tribuna:
SD8 – “‘Leve e (quase) solta. O casaco sonha ser Chanel, mas faltam
a imponência do corte, o DNA da textura, e os debruns são frágeis de-
mais’. Regina Guerreiro”. (Depoimento - 6/10/2010).
Sobre um relógio da candidata, na mesma imagem:
SD9 – “‘Elegante e bem executado. Trouxe leveza à imagem da candi-
data. Foi boa a opção de relógio sem cara de brechó’. Erika Palomino”.
(Depoimento - 6/10/2010).
No texto, entre comparações com Michelle Obama e Carla Bruni, ex-
-primeiras-damas dos Estados Unidos e da França, respectivamente, que “até
os acessórios refletem o estilo de governo dos maridos”, a Veja diz, no último
parágrafo:
SD10 – “Todo o esforço de Dilma Rousseff em direção a uma fórmu-
la que favoreça tanto suas ambições de símbolo de autoridade quanto
sua figura matronal – até agora aprisionada em tailleurs nem sempre
bem cortados – é elogiável. Mas ela tem de se entregar mais aos braços
do povo – não aquele de macacão das fábricas, fique claro, mas o do
mundinho fashion. Entre erros e acertos, concessões e teimosias, Dilma
pode vir a encontrar, finalmente, um estilo agradável à visão do mundo,
ainda que não condizente com a visão de mundo dos radicais nem tão
chiques do Planalto. O que não dá, meu amor, é para deixar esse PAC
pela metade”. (Matéria - 6/10/2010).
Esse discurso da seção “Moda” traz estratégias de derrisão que podem
encobrir o sexismo e a misoginia. Dilma, que oscila entre o “brega” e o “care-
ta”, é referenciada como mulher de meia-idade corpulenta (“matrona”), sendo
ridicularizada com um “O casaco que sonha ser Chanel”, e um relógio, afinal,
“sem cara de brechó”. Lembra, ainda, que Michele Obama e Carla Bruni têm
“marido”, e Dilma, não. É um tipo de enfoque de matéria que nunca recairia
sobre um político homem. O preconceito de classe, além de gênero, também
sobressai. Por ser do PT, partido nascido do sindicalismo, a candidata foi asso-
ciada a alguém que não tem gosto refinado, ou seja, não é “fashion”. Também é
camuflado um discurso que simboliza uma certa falta de identidade na candi-
data. Emerge, sob o discurso da Veja, a mulher que precisa procurar “uma fór-
mula que favoreça tanto suas ambições de símbolo de autoridade quanto sua
figura matronal”. Para a revista, Dilma ainda carece de autoridade. Afinal, ela

274 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


é, como disse sempre a mídia, “criação” de Lula, de um homem. Ela é uma mu-
lher, ou seja, não tem “autoridade”. Ao final, a matéria ironiza “O que não dá,
meu amor, é para deixar esse PAC pela metade”. Dilma é considerada a “mãe”
do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, criado pelo governo Lula.

Considerações finais

As representações criadas pelos meios de comunicação, na tentativa de


traduzir as expressões de gênero, muitas vezes, reforçam imagens que evocam
a submissão feminina, ao ampliar suas lentes e apresentar elementos particula-
res da identidade de um determinado grupo de mulheres como características
universais, que podem ser atribuídas a todas as representantes do segmento.
No caso em questão, o “lugar de mulher” da candidata Dilma Rousseff nor-
teou o discurso midiático. Simbolicamente, Dilma Rousseff, a mulher com
chances de chegar ao poder maior de uma nação, é exposta a um lugar de fra-
gilidade, criminalização e clichês femininos.
Ademais, adotando o discurso religioso agressivo, Folha de S. Paulo e
Veja reverberaram e ampliaram, inclusive, a tese da penalização da mulher que
aborta, na tentativa explícita de demonizar o suposto apoio da candidata à des-
criminalização da prática. Nessa trilha, Dilma foi criminalizada e hostilizada.
Não por acaso, o tema do aborto ganhou destaque nas coberturas, sobretudo
quando os veículos lançaram mão do discurso religioso para interpelar a can-
didata, sem abrir o mesmo espaço para o debate acerca da saúde das mulhe-
res que decidem interromper uma gestação, nem discutir as várias nuances do
problema. O contexto social que envolve a questão da interrupção da gravidez
sofreu um apagamento. E, dentre as fontes, homens de diversas religiões foram
convocados para falar sobre Dilma e o tema do aborto.
Outro ponto fundamental, quando olhamos para o objeto, é a tentativa
de desqualificação da postulante, referenciada como se estivesse na contramão
do “modelo” de mulher que os próprios veículos pretendem alçar como ideal
para a disputa de um cargo político. A forma como ela foi retratada por diver-
sos meios de comunicação – não só nas reportagens da Veja e da Folha de S.
Paulo – foi fruto de um jornalismo alicerçado em meio à expansão do modo de
produção capitalista em uma sociedade historicamente patriarcal.
Essa desqualificação de seu lugar de candidata levou a própria Dilma
Rousseff (PT) a reconhecer que estava sofrendo discriminação, tanto no cam-
po político, quanto no midiático, também pelo fato de ser mulher. E provocou

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 275


reações no eleitorado. Se, por um lado, os ataques levaram a candidata a ter
que explicar, para segmentos religiosos, sua posição, por outro, conquistaram a
adesão de mulheres que não se enquadravam no que os veículos apresentavam
como modelo. Uma parte dos(as) leitores(as) talvez tenha percebido que a
ofensiva à imagem de Dilma também acabava por atingir outras mulheres que
não aceitavam que as relações assimétricas de poder e a misoginia estivessem
sendo reproduzidas pelos grupos de mídia.

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Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 277


O enquadramento do segundo mandato da
presidente Dilma Rousseff nas revistas semanais:
simplificação, silenciamento de atores e utilização de
fontes não identificadas como recursos retóricos158
Marcos Paulo da SILVA159
Raquel de Souza JERONYMO160
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, MS

Resumo

Este capítulo volta-se à matriz de referências da framing analisys para estudar


o modo como duas das maiores revistas semanais brasileiras – Veja e IstoÉ –
valem-se de estratégias retóricas como a simplificação, a dramatização, o silen-
ciamento de atores políticos e a não identificação de fontes para estabelecerem
enquadramentos noticiosos semelhantes na cobertura do primeiro ano do se-
gundo mandato de Dilma Rousseff. Como recorte empírico, foram selecionadas
as edições dos meses de janeiro e dezembro de 2015. Conclui-se que o tratamen-
to realizado pelas revistas semanais estudadas, sobretudo em seus processos de
seleção de fontes, hierarquização de informações e utilização de figuras retóricas,
aproxima-se de um modelo de enquadramento noticioso hegemônico nos ter-
mos trabalhados por Gitlin (2003), Porto (2002), Sigal (1974) e Soley (1992).

Palavras-chave: Jornalismo; Enquadramento Noticioso; Estratégias retóri-


cas; Dilma Rousseff.

Introdução

Em outubro de 2014, no pleito presidencial mais disputado desde a


redemocratização do Brasil segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral),
158. Versões preliminares deste capítulo foram previamente publicadas no GP Teorias do Jornalismo do XVI Encon-
tro dos Grupos de Pesquisa em Comunicação, evento componente do XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da
Comunicação, e na Revista Compolítica, v. 7, n. 1, 2017.
159. Professor do Curso de Jornalismo e do Mestrado em Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul (UFMS). Doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com estágio de
doutorado-sanduíche pela Syracuse University (New York, Estados Unidos).
160. Mestranda em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de
Mato Grosso do Sul (UFMS); Jornalista graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela mesma
instituição.

278 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


a presidente Dilma Rousseff (PT) foi considerada reeleita no segundo tur-
no com uma vantagem de apenas três pontos percentuais em relação a seu
então oponente, o senador Aécio Neves (PSDB), diferença materializada
em cerca de 3,4 milhões de votos. O fato político gerado, dentre outros as-
pectos, pela pequena diferença de votos e pela reação imediata da coligação
derrotada (que manifestou o desejo de formalizar um pedido de recon-
tagem de votos) culminou num cenário político inédito (considerando o
período pós-redemocratização) de acirradas disputas programáticas e sim-
bólicas pela agenda do país.
Nessa conjectura, os veículos de comunicação tradicionais, ao lado
da força mobilizadora crescente resultante das redes sociais na Internet,
protagonizaram movimentos de “interpretação, apresentação, seleção, ên-
fase e exclusão de informações” (GITLIN, 2003, p.7) que resultaram em
enquadramentos noticiosos peculiares para a história política recente do
país. Os doze meses de 2015, primeiro ano do segundo mandato de Dilma
Rousseff, compreendem, assim, um período de turbulência que sucede as
apertadas eleições presidenciais de 2014 e antecede a abertura do processo
de impeachment levado a cabo pelo legislativo brasileiro no primeiro se-
mestre de 2016.
Este capítulo volta-se a um quadro de referências teórico-metodo-
lógicas próprio da framing analisys (KUYPERS, 2009; GITLIN, 2003)
para estudar o modo como duas das principais revistas semanais brasileiras
– Veja, do Grupo Abril, e IstoÉ, da Editora Três – valeram-se de estratégias
retóricas como a simplificação, a dramatização, o silenciamento de atores
políticos e a utilização de fontes não identificadas para estabelecerem seus
enquadramentos noticiosos na cobertura política do período. Redigido a
quatro mãos, o artigo apresenta uma problematização de natureza teórico-
-metodológica acerca das estratégias retóricas que culminaram em um mo-
delo de enquadramento noticioso bastante similar nas duas publicações
analisadas.
Por opção metodológica, adotou-se como recorte empírico os exem-
plares do primeiro e do último mês de 2015 de cada revista, de maneira
a analisar os enquadramentos realizados pelos periódicos no início e no
final do primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff. Do ponto
de vista do alcance, Veja e IstoÉ remetem a uma tiragem média somada de
1 milhão e 400 mil exemplares segundo dados da ANER (Associação Na-
cional de Editores de Revistas). Levou-se em consideração para a escolha
das revistas em questão, além da tiragem, o fato de serem as mais antigas
dentre os três periódicos com maior circulação média no país (Veja, Época

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 279


e IstoÉ) e o fato da segunda colocada nesta lista, a revista Época, com diferença
de aproximadamente 70 mil exemplares para a IstoÉ, não contar com banco
de dados digital, o que restringe as possibilidades de pesquisa exploratória. Foi
considerada também a ampla relevância que o assunto teve em ambos os
veículos, que dedicaram mais de 50% de suas capas ao longo do ano para
tratar de assuntos relacionados diretamente ou indiretamente à presidente.
Ao todo, somadas as edições dos dois periódicos escolhidos, foram
analisadas 16 exemplares das revistas. Ainda no terreno do recorte empírico,
optou-se por analisar uma matéria de cada edição, adotando-se como critérios
de seleção os parâmetros de proeminência – da temática “Dilma Rousseff ” no
conjunto de matérias sobre o tema – e de relevância – do assunto no contexto
geral de matérias da edição. São marcadores significativos o fato de a matéria
figurar ou não na capa da revista, a quantidade de páginas que ela ocupa na
edição e a quantidade de vezes que Dilma Rousseff é mencionada ou retratada
na matéria.
Finalmente, como forma de viabilizar o estudo de enquadramento
noticioso, foram considerados alguns pressupostos e concepções já sedi-
mentados no campo das Ciências Humanas e Sociais, particularmente nas
pesquisas em Comunicação, tal como a superação dos paradigmas jorna-
lísticos da objetividade e da imparcialidade (KUYPERS, 2009; GITLIN,
2003; PORTO, 2002; GANS, 2004; TRAQUINA, 2008; SCHUD-
SON, 2010), conceitos que são ainda disseminados pelo discurso de auto-
legitimação da prática jornalística (GOMES, 2009), conforme verificado
na manifestação das políticas editoriais dos dois periódicos estudados. De
outro lado, a pesquisa buscou compreender os mecanismos – técnicos e
simbólicos – que podem ocultar a difusão de tais concepções.

Fontes e canais de informação como recursos retóricos

Adotando-se como base teórico-metodológica a perspectiva da fra-


ming analysis para verificar o modo como as revistas Veja e IstoÉ estabele-
cem suas estratégias retóricas na construção e na formatação do conteúdo
noticioso, volta-se o olhar para os mecanismos de seleção, silenciamento
e ênfase de fontes e canais de informação. A análise das fontes utilizadas
nas matérias examinadas baseia-se no estudo desenvolvido por Leon Sigal
(1974) – que culminou no livro Reporters and Officials – e no conceito de
canais de informação – “caminhos pelos quais informações atingem o repór-
ter” (SIGAL, 1974, p. 120, tradução nossa) – traçado pelo autor, que classi-
fica esses canais em três categorias: de rotina, informais e corporativos.

280 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Na primeira categoria estão inclusos procedimentos oficiais, co-
municados e coletivas de imprensa, palestras, cerimônias e outros tipos
e eventos não-espontâneos. Os “canais informais” incluem, por exemplo,
vazamentos, processos não-governamentais, reuniões de associações ou
convenções sindicais e também matérias publicadas em outros veículos
de imprensa. Finalmente, os “canais corporativos” são as entrevistas e pes-
quisas realizadas por iniciativa dos próprios repórteres, eventos nos quais
os jornalistas testemunham em primeira mão e as conclusões ou análises
tomadas nesse processo (SIGAL, 1974). A última categoria, denominada
aqui como canal “não identificado” é uma tradução livre da expressão “not
as certainable” utilizada por Sigal (1974) e se refere a situações em que não
é possível determinar o canal utilizado para a obtenção da informação ana-
lisada. Os canais de informação localizados na análise empírica das revistas
rementem à seguinte disposição:

Tabela 1 – Canais de informação das matérias analisadas da revista Veja.

Canais de informação Ocorrências Percentual


Rotina 28 38,8%
Informal 3 4,1%
Corporativo 19 26,3%
Não identificado 22 30,5%
Total 72 100%

Fonte: Elaboração própria, baseada no modelo elaborado por Sigal (1974).

Tabela 2 – Canais de informação das matérias analisadas da revista IstoÉ.

Canais de informação Ocorrências Percentual


Rotina 14 22,5%
Informal 10 16,1%
Corporativo 19 30,6%
Não identificado 19 30,6%
Total 62 100%

Fonte: Elaboração própria, baseada no modelo elaborado por Sigal (1974).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 281


Outra categoria de análise das fontes noticiosas utilizadas por Veja
e IstoÉ baseia-se nos conceitos traçados por Lawrence Soley (1992), que
divide as fontes em duas classificações: os “news makers”, que participam
ativamente dos eventos noticiosos; e os “news shapers”, que são procura-
dos pela mídia na busca por “informações privilegiadas, panos de fundo
ou previsões sobre o resultado das histórias que ainda estão em desdobra-
mento” (SOLEY, 1992, p. 2, tradução nossa). Classificam-se como “news
makers” as chamadas “fontes primárias” e como “news shapers” as “fontes
secundárias”, uma vez que se entende que o conceito elaborado por Lage
(2005) para as fontes primárias e secundárias se alinha ao utilizado por
Soley (1992).
Apesar de considerados concorrentes no segmento das revistas se-
manais, os dois veículos utilizaram critérios muitos semelhantes na esco-
lha das fontes e dos canais de informação. Nas edições analisadas, os ca-
nais mais utilizados foram o de rotina e o corporativo, mas destacam-se
as ocorrências nas quais o canal de informação não pôde ser identificado,
representando 30% do total das fontes em ambas as publicações. As fontes
oficiais (atores políticos pertencentes à esfera nacional ou regional, autori-
dades e órgãos ligados ao governo, dentre outros) foram as mais acessadas
por meio do “canal de rotina”. No caso da Veja, a distribuição entre fontes
primárias e secundárias prioriza o primeiro grupo, com 63%, contra 37%
dos chamados “news shapers” (SOLEY, 1992). Já nas edições da revista Is-
toÉ a distribuição foi bem equilibrada, com aproximadamente 54% de fon-
tes primárias e 46% de secundárias.
O “canal corporativo” – entrevistas e pesquisas realizadas por ini-
ciativa dos próprios repórteres – foi utilizado por ambos os veículos em
mais de 85% das vezes para dar voz a fontes secundárias, “especialistas”
consultados para analisar, embasar e comentar informações da matéria. O
“canal informal” foi utilizado para apresentar citações diretas e indiretas
extraídas de redes sociais, vazamentos de informações ou dados oriundos
de outros veículos midiáticos, sendo a última uma prática recorrente na
revista IstoÉ. Outra prática que evidencia o enquadramento adotado nas
matérias analisadas é a utilização de fontes cujo canal de procedência não
é explicitado na matéria, bem como de fontes não identificadas, tais como
“assessores próximos a Dilma”, “um dos conselheiros da presidente” (ma-
téria “Eles disseram não para Dilma”, edição nº 2355, revista IstoÉ), “fac-
ções petistas”; “colaborador próximo ao parlamentar”; e “antigo auxiliar

282 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


de Dilma” (matérias “Mandato novo, problemas velhos”, “A testemunha” e
“Impeachment não é guerra”, edições nº 2407, 2454 e 2455, revista Veja).
Analisando a divisão entre fontes primárias e secundárias, encontra-
-se uma diferença importante entre as duas categorias. No caso das fontes
primárias que figuram nas matérias analisadas, em mais de 60% dos ca-
sos as citações são indiretas. Já no caso das fontes secundárias a situação
se inverte, com mais de 60% de ocorrências com citações diretas. A desi-
gualdade apresentada entre citações diretas e indiretas desequilibra con-
sideravelmente o quadro na medida em que – numa perspectiva retórica
– a representação direta da fala possui um peso simbólico de veracidade
maior do que sua menção indireta, pois esta última redunda num risco
maior de edições e distorções – voluntárias ou não – do(s) jornalista(s)
que redige(m)/edita(m) a matéria.
Quanto às fontes secundárias, no caso da revista IstoÉ, numa gene-
ralização que leva em conta diversas particularidades, pode-se dizer que
todos os atores políticos mencionados se posicionavam de alguma forma
no espectro de oposição ao governo de Dilma Rousseff. Nenhum ator po-
lítico do partido da presidente, o PT, foi ouvido pela revista, e a menção
indireta ao presidente do partido, Rui Falcão, na matéria “A pior travessia”,
da edição nº 2401, refere-se apenas a uma nota oficial. Dentre as fontes
secundárias sem cargos eletivos, vale destacar a presença do jurista Miguel
Reale Jr., um dos signatários do pedido de impeachment de Dilma Rous-
seff, e de Kim Kataguiri, coordenador do MBL (Movimento Brasil Livre),
uma das entidades responsáveis por organizar protestos em todo o país por
meio das redes sociais na Internet, com reivindicações de impeachment e
acusações diretas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido
dos Trabalhadores.
Já entre as fontes ouvidas pela revista Veja, apenas duas delas são re-
lacionadas diretamente ao campo das disputas políticas eleitorais: notada-
mente o senador e presidente do PSDB, Aécio Neves, candidato derrotado
por Dilma Rousseff no segundo turno das eleições para a Presidência da
República de 2014; e Marina Silva, fundadora do partido Rede Susten-
tabilidade, que também foi candidata nas eleições de 2014. No entanto,
mesmo fontes sem cargos políticos e apresentadas muitas vezes sob a alcu-
nha de “analistas” – especialistas ou experts, na tradição norte-americana
– não devem ser vistas como isentas e objetivas, como afirma Soley (1992).
O economista Sergio Vale, por exemplo, mencionado pela revista Veja

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 283


apenas como “economista-chefe da consultoria MB Associados”, utilizado
como fonte secundária em duas matérias – “As promessas e a realidade”,
edição nº 2409, de 21 de janeiro de 2015; e “De volta ao passado”, edição
nº 2456, de 16 de dezembro de 2015 – afirmou em entrevista concedida
ao site InfoMoney, no dia 01 de março de 2015, que via de modo otimista
70% de chances de saída de Dilma. Já o cientista político Rubens Figuei-
redo publicou um artigo em parceria com Fernando Henrique Cardoso,
presidente do Brasil por dois mandatos e filiado ao PSDB, partido que faz
oposição a Dilma Rousseff.
Esses dados respaldam a conclusão de Lawrence Soley (1992) de que,
apesar de os “news shapers” serem muitas vezes apresentados como analistas
isentos, “não há nenhuma razão para acreditar que eles são imparciais e
objetivos” (SOLEY, 1992, p. 19, tradução nossa). Em seu estudo sobre as
fontes jornalísticas no contexto do jornalismo dos Estados Unidos, Soley
(1992) conclui que o grupo de especialistas consultados pelos jornalistas
é muito pequeno, sendo constituído de aproximadamente 90 indivíduos
em todo o território norte-americano. Esse pressuposto respalda em certa
medida os resultados obtidos pela presente análise. Por meio de buscas em
mecanismos de pesquisa na Internet, identificou-se que dos doze “espe-
cialistas” elencados tanto nas matérias da Veja como da IstoÉ, onze deles
puderam ser encontrados com facilidade no mesmo período como fontes
em matérias de pelo menos cinco outros veículos de mídia.

Simplificação, amplificação e personificação como estratégias


argumentativas

Outra manifestação do cenário de representação resultante das esco-


lhas editoriais adotadas por Veja e IstoÉ na cobertura do primeiro ano do
segundo mandato da presidente Dilma Rousseff relaciona-se com a utiliza-
ção de estratégias argumentativas típicas da retórica, a exemplo do empre-
go de figuras de linguagem e de técnicas de argumentação que “cumprem
a função de redefinir um determinado campo de informação, criando efei-
tos novos e que sejam capazes de atrair a atenção do receptor” (CITELLI,
2003, p.19 -20).
No campo das Teorias do Jornalismo, autores como Traquina (2008)
e Wolf (2003) optam por tratar tais estratégias argumentativas no inte-
rior do escopo conceitual dos chamados valores-notícia, denominando-os

284 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


de “valores-notícia de construção” – abordagem que é desconstruída por
outros autores, a exemplo de Silva (2005), que vincula os valores-notícia
ao plano pragmático dos fenômenos ao passo em que as demais etapas da
cadeia de construção e de hierarquização noticiosa se estabelecem no cir-
cuito mais amplo da noticiabilidade. Shoemaker & Cohen (2006), por seu
turno, interpretam a concepção de noticiabilidade como um constructo
de natureza eminentemente cognitiva, o que coloca o conceito de “valor”
em uma perspectiva mais próxima do entendimento de Gans (2004) dos
valores noticiosos como valores ideológicos compartilhados nas salas de
redação.
De um vértice metodológico, todavia, o fato é que as categorias de-
nominadas por Traquina (2008) e Wolf (2003) como “valores-notícia de
construção”, embora conceitualmente se estabeleçam menos como valores
noticiosos ligados aos acontecimentos no plano dos fenômenos (SILVA,
2005) ou como valores ideológicos compartilhados pelo campo jornalís-
tico (GANS, 2004) e mais como estratégias retóricas, são factíveis para
a análise dos recursos de enquadramento adotados por Veja e Istoé. Nesse
sentido, a “simplificação”, ou o fato de o acontecimento ser desprovido de
ambiguidade e complexidade, por exemplo, que Traquina (2008, p. 91)
exemplifica com o “uso de clichês, estereótipos e ideias feitas”, pode ser
aqui relacionada com o estudo das fontes, que comprovou que ambas as
revistas não lançam mão da prática de ouvir “o outro lado”, o que resulta
justamente na simplificação – ou no esvaziamento – das perspectivas apre-
sentadas pelo material noticioso.
Outros “valores-notícia de construção” mencionados pelo autor portu-
guês, como a “amplificação” – que versa que “quanto mais amplificado é o acon-
tecimento”, mais possibilidades tem a notícia de ser notada, quer seja pela am-
plitude do ato ou por suas consequências – ou a “relevância” – que refere-se à
habilidade do jornalista de construir sua narrativa de modo a conceder um valor
simbólico ao acontecimento como se este apresentasse uma relevância única para
todas as pessoas – estabelecem-se como estratégias retóricas identificadas em
matérias como “Que país teremos?” (IstoÉ, edição nº 2402; figura 1), que deixa
implícita que a saída de Dilma Rousseff seria a solução salvadora para todos os
problemas políticos e econômicos instaurados no Brasil no momento apresenta-
do; e “De volta ao passado”, que por meio de recursos gráficos e textuais vincula
num sentido direto a política econômica da presidente da República ao retorno
de problemas estruturais que já estavam superados ou sob controle no país.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 285


Figura 1 – Reprodução de matéria revista IstoÉ, 16 de dezembro de 2015

Fonte: Edição nº 2402, 16/12/2015, páginas 60 e 61, revista IstoÉ.

A figura retórica da “personalização”, ou a valorização das pessoas en-


volvidas no acontecimento, manifesta-se na relação que ambas as revistas
fazem de todos os problemas políticos e econômicos do país no período em
que as matérias foram produzidas – de acordo com os veículos, resultado
não só das decisões personalizadas da presidente, mas de todo o aparato
político e econômico, como ministros, deputados, senadores, mercado fi-
nanceiro, dentre outros – com a figura de Dilma Rousseff, cuja imagem
aparece em 14 das 16 matérias analisadas, mesmo que o assunto não esti-
vesse diretamente relacionado a ela.
Essa prática vincula-se também ao recurso da “dramatização”, ou seja, do
reforço do lado emocional para destacar determinados aspectos das notícias,
prática sublinhada pelo uso de títulos como “O blecaute de Dilma” (IstoÉ, edi-
ção nº 2356 de 28/01/2015), em matéria cujo tema era a possibilidade de um
racionamento energético no país. O recurso também aparece em “A origem do
mal” (Veja, edição nº 2457; figura 2), sobre uma operação da Polícia Federal
que cumpriu mandatos de busca e apreensão em propriedades de vários polí-
ticos, sem, no entanto, efetuar prisões ou apresentar conclusões concretas. Por
fim, a “consonância” refere-se mais uma vez à prática de inserir acontecimentos
em uma “narrativa” mais ampla e já disseminada, relacionada aqui com a cri-
se política e econômica instaurada no Brasil em 2015, pano de fundo para a
maior parte das matérias analisadas.

286 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Figura 2 – Reprodução da matéria “A origem do mal”

Fonte: Edição nº 2457, 23/12/2015, páginas 60 e 61, revista Veja.

Das estratégias retóricas ao enquadramento noticioso


As estratégias retóricas identificadas na cobertura do primeiro ano
do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff pelas revistas Veja e
IstoÉ podem ser interpretadas, no contexto desta pesquisa, como manifes-
tações de um modelo peculiar de enquadramento noticioso. Numa pers-
pectiva conceitual, um dos primeiros autores a valer-se da concepção de
enquadramento como recurso teórico-metodológico no campo das Ciên-
cias Sociais é o sociólogo Erving Goffman, no livro Frame Analysis (1986),
traduzido no Brasil como Os quadros da experiência social: uma perspectiva
de análise. De acordo com Goffman (2012, p. 31):

Qualquer acontecimento pode ser descrito em termos de um enfoque


que inclui um espectro amplo ou um espectro estreito e (...) em termos
de um enfoque em primeiro plano ou distante. E ninguém tem uma
teoria sobre qual abertura e qual o nível que serão efetivamente empre-
gados.

No plano específico da prática jornalística, o sociólogo norte-ame-


ricano Todd Gitlin, anos mais tarde, cunhou algumas das definições até
hoje mais referenciadas sobre enquadramento noticioso no livro The Who-
le World Is Watching, originalmente publicado em 1980. Segundo Gitlin
(2003, p. 7, tradução nossa, itálicos no original):

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 287


Enquadramentos de mídia, largamente silenciados e desconhecidos,
organizam o mundo para os jornalistas que o relatam e, em algum grau
importante, para nós que dependemos de seus relatos. Enquadramentos
de mídia são padrões persistentes de cognição, interpretação e apresenta-
ção, de seleção, ênfase e exclusão, pelos quais manipuladores de símbolos
rotineiramente organizam discursos, sejam verbais ou visuais.

Longe de serem vistos como práticas inocentes, os enquadramentos


são também considerados instrumentos de poder responsáveis pela cons-
trução e manutenção da hegemonia dos modelos econômicos e políticos
dominantes (GITLIN, 2003; PORTO, 2002). Problematiza Mauro Porto
(2002, p. 2):

Tomando como base os argumentos de Hackett, Tankard (2001, p. 96-


97), (...) o conceito de enquadramento oferece um instrumento para
examinar empiricamente o papel da mídia na construção da hegemo-
nia, no sentido gramsciano de uma direção intelectual e moral na so-
ciedade civil.

Dessa forma, a partir de uma abordagem política para explicar o que


é ou não notícia, Todd Gitlin explicita a noção gramsciana de hegemonia
para cunhar o termo “enquadramento hegemônico”, definido por ele como
“um processo histórico no qual uma imagem de mundo é sistematicamente
preterida sobre outras, usualmente através de rotinas práticas” (GITLIN,
2003, p. 257, tradução nossa). Para o sociólogo, os enquadramentos hege-
mônicos seriam utilizados pelos mantenedores dos meios de comunicação
– deliberadamente ou não – para assegurar a manutenção do sistema polí-
tico e econômico dominante do qual eles mesmos são parte.

O trabalho da hegemonia, apesar de tudo, consiste em impor suposições


padronizadas sobre eventos e condições que devem ser “cobertas” pelos
preceitos dos padrões de notícias predominantes. (GITLIN, 2003, p.
264, tradução nossa).

Para Soares (2009), “os enquadramentos podem dominar de tal forma o


discurso, a ponto de serem tidos como senso comum ou descrições transparen-
tes dos fatos, em vez de interpretações”. Valendo-se da discussão apresentada
por Carragee & Roefs (2004 apud SOARES, 2009), o autor afirma que:

288 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Os enquadramentos das elites são geralmente favorecidos, devido a seus
recursos econômicos, à centralização da coleta de notícias em institui-
ções e à tendência dos repórteres a atribuir maior credibilidade a fontes
oficiais do que aos seus desafiadores. (SOARES, 2009, p. 61)

Nessa perspectiva, a preferência pelas fontes e relatos oficiais identi-


ficada por Sigal (1974) e por Gans (2004) fundamenta-se na manutenção
de um enquadramento hegemônico que daria preferência ao status quo,
marginalizando manifestações contrárias a ele. Este pensamento vai ao en-
contro do estudo desenvolvido por Soley (1992), que aponta que fontes
mais enraizadas no status quo atraem mais a atenção da mídia,ao passo que:

As mulheres representam mais de metade da população dos EUA, ne-


gros compõem mais de 12%, enquanto os sindicatos representam cerca
de 20% da força de trabalho, no entanto, membros desses grupos rara-
mente estão entre as fontes escolhidas pelos jornalistas. (SOLEY, 1992,
p. 17, tradução nossa)

Herbert Gans (2004), também no cenário norte-americano, resume


a questão ao afirmar que “as notícias dão suporte à ordem social dos setores
da sociedade públicos, empresariais e profissionais, de classe média-alta,
meia-idade, masculinos e brancos” (GANS, 2004, p. 61, tradução nossa).
Negros e mulheres obtém sucesso na medida em que “se movem para a or-
dem social existente”, e não se apresentam como “separatistas que querem
alterá-la”.

Em sua defesa da democracia altruísta e oficial, as notícias defendem


uma mistura de valores liberais e conservadores. (...) Por outro lado, no
seu respeito pela tradição e sua nostalgia de provincianismo e individu-
alismo, as notícias são descaradamente conservadoras, como também é
sua defesa da ordem social e sua fé na liderança. Se as notícias tivessem
que ser rotuladas ideologicamente, elas seriam liberais de direita ou
conservadoras de esquerda. (GANS, 2004, p. 68, tradução nossa)

Gans (2004), entretanto, evita a visão simplificadora de que as notí-


cias seriam simplesmente usadas como “apoiadoras complacentes de elites
ou estabelecimentos de classe dominante”, mas afirma que elas “encaram
nação e sociedade através de seu próprio conjunto de valores e com suas
próprias concepções de boa ordem social” (GANS, 2004, p.62, tradução

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 289


nossa), que não são cristalizadas, mas podem mudar com o passar do tem-
po e com as transformações da sociedade.
Recai sobre o pesquisador norte-americano Jim Kuypers (2009), na
obra Rhetorical Criticism: Perspectives in Action, porém, a ênfase na per-
tinência de se aliar a análise de enquadramento (framing analysis) à pers-
pectiva da análise retórica. Na ótica do autor norte-americano, o enqua-
dramento midiático constitui um processo no qual os comunicadores, de
forma consciente ou não, atuam de modo a construir pontos de vista que
instigam que os fatos do mundo social sejam interpretados de maneiras
particulares. O enquadramento midiático, nesse sentido, operacionaliza-se
em quatro maneiras com base em estratégias retóricas: define problemas,
diagnostica causas, promove julgamentos morais e sugere soluções. Além
disso, os enquadramentos são geralmente localizados no interior de narra-
tivas mais amplas sobre um assunto ou acontecimento, fazendo delas sua
ideia central (KUYPERS, 2009).

O enquadramento hegemônico nas estratégias retóricas de


Veja e IstoÉ

O cruzamento dos dados empíricos extraídos das edições de janeiro e


de dezembro de 2015 das revistas Veja e IstoÉ com as reflexões de natureza
teórico-conceitual oriundas, sobretudo, da perspectiva teórico-metodológi-
ca da framing analysis em interface com análise retórica (KUYPERS, 2009),
permite abstrair considerações e constatações a respeito das estratégias de
construção de um enquadramento peculiar a respeito do primeiro ano do se-
gundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Nos termos de Citelli (2003,
p.8), cabe à retórica “mostrar o modo de constituir as palavras visando con-
vencer o receptor acerca de dada verdade” – horizonte que dialoga com o
vértice de Gitlin (2003, p. 49-51, tradução nossa), segundo o qual “os meios
de comunicação são holofotes móveis e não espelhos passivos da sociedade”
(GITLIN, 2003, p. 49-51, tradução nossa), direcionando seus “feixes de luz”
para dar destaque a alguns acontecimentos em detrimento de outros.
Ao retomar o conceito de enquadramento noticioso como “padrões
persistentes de cognição, interpretação e apresentação, de seleção, ênfase e
exclusão, pelos quais manipuladores de símbolos rotineiramente organi-
zam discursos” (GITLIN, 2003, p. 7, tradução nossa), reconhece-se que
os enquadramentos são inerentes ao processo de produção das notícias.

290 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Desse modo, sem risco de recair-se numa espécie de “realismo ingênuo”
(GOMES, 2009), é ponto pacífico a compreensão de que uma revista se-
manal – a exemplo de Veja e IstoÉ – possui um número determinado de
páginas impressas, desenvolvendo inevitavelmente processos de seleção
para definir o que será ou não publicado e de que maneira o conteúdo será
apresentado. Esse processo inclui diversas variáveis e começa com a defi-
nição adotada pelos próprios meios de comunicação sobre o que é ou não
notícia – ou seja, os critérios de noticiosos escolhidos.
Outro fator determinante é a escolha das fontes ouvidas pelos jornalis-
tas, visto que “para o repórter, em suma, a maioria das notícias constitui não
o que aconteceu, mas o que alguém diz que aconteceu, tornando a escolha de
fontes crucial” (SIGAL, 1974, p. 69, tradução nossa). Embora auxiliem no
processo de padronização do conteúdo dos veículos (SIGAL, 2074), tais ele-
mentos, entretanto, dependem também de outras variáveis, como os recursos
disponíveis para as coberturas, o formato do produto final e as posições ideoló-
gicas adotadas pelas corporações de mídia. A padronização, os estereótipos e a
rotina de julgamentos praticada nas redações – isto é, a sistematização – fazem
parte, segundo Lippmann (2010), de um modelo de jornalismo industrial que
tem como objetivos principais a economia de tempo e esforço (LIPPMANN,
2010, p. 300), sendo já tão cristalizados que muitas vezes nem mesmo os pró-
prios jornalistas os identificam de maneira consciente.
Quanto à escolha das fontes, na perspectiva específica da análise aqui
desenvolvida, transparecem-se algumas das principais estratégias retóricas
adotadas pelas revistas semanais: os resultados encontrados no estudo, além
de todos os dados pormenorizados nos itens anteriores, respaldam as conclu-
sões oriundas dos estudos de Lawrence Soley (1992) sobre a constituição de
um padrão hegemônico das fontes no jornalismo norte-americano. De to-
das as fontes presentes nas dezesseis matérias selecionadas, apenas 10% eram
mulheres, 6% eram negros e menos de 2% representavam grupos sindicais ou
associações de trabalhadores. Merece destaque, todavia, conforme demons-
tra a análise dos canais de informação, o fato peculiar de a própria presidente
Dilma Rousseff, principal personagem da análise desenvolvida, não ter sido
ouvida diretamente pelos jornalistas em nenhuma ocorrência, sendo suas
falas resumidas a trechos de comunicados oficiais ou até mesmo sem ter a
procedência identificada. O uso de fontes não identificadas ou cujos canais
de comunicação não ficam explícitos na matéria, também foram práticas re-
correntes em ambas as revistas no período estudado.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 291


Para além da utilização de recursos como o silenciamento de atores
políticos – o mais explícito, o da própria personagem principal da cober-
tura, a presidente Dilma Rousseff – e da utilização de fontes não identifica-
das – “assessores próximos a Dilma”, “colaborador próximo ao parlamentar”,
entre outras manifestações –, porém, a análise evidencia também o uso re-
corrente de figuras retóricas de construção textual como a simplificação, a
personificação, a amplificação e a dramatização. Levando-se em conta todas
as características apresentadas, conclui-se que os dois veículos, apesar de con-
siderados concorrentes no segmento das revistas semanais, constroem um
enquadramento bem semelhante na elaboração de seus produtos. Como os
enquadramentos são também interpretados como instrumentos de poder
(GITLIN, 2003; PORTO, 2002; KUYPERS, 2009) e adotando-se como
dado representativo o público numericamente relevante que ambas as revis-
tas atingem, identifica-se uma categoria de “enquadramento hegemônico”
(GITLIN, 2003) sendoutilizada pelos dois veículos comunicacionais.
Isso se confirma na medida em que as publicações expõem seus pon-
tos de vista sem dar margem a opiniões contrárias – o que, da ótica retóri-
ca, constitui uma “modalidade discursiva autoritária”, aquela que se fecha
à polifonia, à polissemia e se manifesta como circunlóquio, “sem qualquer
possibilidade de interferir e modificar aquilo que está sendo dito” (CI-
TELLI, 2003, p.39) –, bem como pela utilização dos argumentos da “ob-
jetividade” e da “isenção” para, como afirma Schudson (2010), “camuflar”
o enquadramento temático e ideológico que os meios exercem sobre seus
públicos. Finalmente, a constatação vai ainda ao encontro da concepção de
Gitlin (2003) de que o trabalho da hegemonia, num vértice gramsciano,
“consiste em impor suposições padronizadas sobre eventos e condições”
que são encobertas nas entrelinhas das notícias predominantes.

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Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 293


Jornalismo sindical, local, relações de gênero
e cidadania: um estudo sobre a cobertura das
eleições gerais de 2010, no Brasil, e seus reflexos
no impeachment em 2016

Cláudia Regina LAHNI161


Daniela AUAD162
Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, MG

Resumo
Ao considerar gênero como categoria de análise, este capítulo apresenta um
estudo que relaciona jornalismo sindical e jornalismo local com a presença da
mulher na mídia e as eleições. Reflete-se sobre o exercício do direito à comu-
nicação e o direito à informação, a partir de uma pesquisa sobre a presença
feminina em jornais durante as eleições de 2010. O objeto da pesquisa foi um
conjunto de matérias sobre eleições, em um jornal local e em um sindical, em
Juiz de Fora (MG), no período de agosto a novembro de 2010, quando da
primeira eleição de Dilma Rousseff à Presidência do País. A pesquisa apon-
tou que, no período eleitoral, jornais ainda apresentam a mulher na política
de forma inferior ao homem. Tal situação, percebida em 2016 especialmente,
contribuiu com o golpe que resultou no impeachment da presidenta Dilma.
Esta assertiva é refletida na obra Mídia, misoginia e golpe, organizada por Elen
Cristina Geraldes e outras (2016).

Palavras-chave: Relações de Gênero; Jornalismo; Direito à Comunicação;


Igualdade; Cidadania

Introdução

No presente capítulo, lembramos de pesquisa sobre mulheres e política


161. Jornalista, é Pós-Doutora em Comunicação (UERJ) e doutora em Ciências da Comunicação (USP). É fundadora e
vice-líder do Flores Raras – Grupo de Estudos e Pesquisas Educação, Comunicação e Feminismos (FACED-UFJF-CNPq).
É Professora Associada da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (Facom-UFJF), onde lecio-
na Comunicação Comunitária e Comunicação, Relações de Gênero e Movimentos Sociais. Email: lahni.cr@gmail.com.
162. Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Fede-
ral de Juiz de Fora (PPGE/FACED/UFJF); é Doutora em Educação (USP) e Pós-Doutora em Sociologia (UNICAMP).
Fundadora e líder do Flores Raras - Grupo de Estudos e Pesquisas Educação, Comunicação e Feminismos (FACED-UFJF-
-CNPq). Site do Flores Raras: http://www.ufjf.br/educacomunicafeminismos/ Email: auad.daniela@gmail.com

294 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


e refletimos sobre comunicação, jornalismo e relações de gênero, percebendo
que a sociedade contemporânea ainda é fortemente machista, misógina, racis-
ta e lesbofóbica. A mídia, se regulada, poderia/deveria fazer a diferença e dar
o contraponto a esses traços que desumanizam todas as mulheres e todas as
pessoas que são percebidas como não sendo homens, não sendo heterossexu-
ais, não sendo cisgêneras e não sendo brancas. Ocorre, de outra feita, que o que
assistimos corresponde ao reforço, na mídia, dos piores fenômenos de acirra-
mento das desigualdades, com bissextos respiros que podemos denominar de
“alternativo no massivo”, como casais de gays e lésbicas em novelas, ou séries
televisivas que rompem com as relações de gênero binárias e ainda atreladas à
heteronormatividade.
Nesse sentido, no que se refere aos 13 anos em que o Partido dos Tra-
balhadores esteve à frente do governo federal (2003-2016), pouco foi o in-
vestimento, em nível nacional, para a Democratização da Comunicação. Vale
lembrar que ações advindas do movimento social popular não deixaram de
pontuar fortemente a necessidade de medidas de Democratização da Comu-
nicação e conseqüente regulação da mídia, ao se notar a oportunidade de reali-
zar tal processo, por ocasião de termos um dito governo popular de esquerda
no Executivo.
Dentre as ações mencionadas163, em agosto de 2012, data que marcou
os 50 anos do Código Brasileiro de Telecomunicações, o Fórum Nacional pela
Democratização da Comunicação e entidades do movimento social popular
lançaram a Campanha Para Expressar a Liberdade. No conjunto das entidades
do movimento social popular citadas, como participantes, estavam a Associa-
ção Brasileira de Radiodifusão Comunitária, a Associação Brasileira de Imp-
rensa, a Central Única dos Trabalhadores, o Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra e a União Brasileira de Mulheres. Todas estas unidas ao
FNDC tinham, então, a seguinte proposta:

Para construir um país mais democrático e desenvolvido precisamos


avançar na garantia ao direito à comunicação para todos e todas. O que
isso significa? Significa ampliar a liberdade de expressão, para termos
mais diversidade e pluralidade na televisão e no rádio. Ainda que a
Constituição Federal proíba os oligopólios e os monopólios dos meios
de comunicação, menos de dez famílias concentram empresas de jor-
nais, revistas, rádios, TVs e sites de comunicação no país. Isso é um en-
163. O presente texto apresenta resultados de pesquisa e reflexões do artigo O direito à comunicação refletido a partir
de pesquisa sobre a presença feminina em jornais, durante as eleições de 2010, de Lahni e Auad (2013).

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 295


trave para garantir a diversidade. Pare e pense! Como o índio, o negro,
as mulheres, os homossexuais, o povo do campo, as crianças, aparecem
na televisão brasileira? Como os cidadãos das diversas regiões, com suas
diferentes culturas, etnias e características são representados?164

A partir dessas premissas, a Campanha Para Expressar a Liberdade esti-


mula o debate em torno do tema e busca assinaturas para um projeto de Lei de
Iniciativa Popular da Comunicação Social Eletrônica. Trata-se de projeto de
Lei que defende a “promoção e garantia dos direitos de liberdade de expressão
e opinião, de acesso à informação e do direito à comunicação”, assim como pre-
tende assegurar a pluralidade de ideias e a diversidade. Cumpre destacar que a
Campanha vai ao encontro do estabelecimento de um Marco Regulatório da
Comunicação para o Brasil.
Situação semelhante foi vivida pela Argentina, onde o governo presidi-
do por Cristina Kirchner enfrentou entraves judiciais com empresas do setor,
em especial o Grupo Clarín, em função da entrada em vigor da Ley de Medio.
Esta lei foi aprovada em 2009, depois de longo debate nacional envolvendo
movimentos sociais, representantes da academia e empresários. A Lei em ques-
tão foi “considerada um modelo para todo o continente e para outras regiões
do mundo por Frank La Rue, relator especial da ONU para a Liberdade de
Opinião e de Expressão” (SOARES, 2013). Apesar dessa positiva avaliação
advinda de tão relevante Organização, de forma lamentável, Mauricio Macri,
o presidente seguinte e eleito em 2015, já iniciou o desmonte da regulação
democrática da comunicação naquele país.
Outro exemplo é o histórico do Canadá quanto à regulação da mídia.
Desde os anos 1910, o país tem mecanismos de participação popular para o
debate sobre políticas públicas de comunicação. No Canadá foram realizadas
inúmeras audiências públicas sobre o setor das indústrias culturais e midiáti-
cas, de modo a influenciar jornais, livros, revistas, rádio, televisão e cinema. Há
pesquisas que apontam os jogos de interesse público e privado pela democrati-
zação da mídia naquele país, em especial no período de 1928 a 1988, vésperas
da publicação da Lei de Radiodifusão de 1991, em vigor até hoje (REBOU-
ÇAS, 2013).
Como na Argentina, no Canadá, na França e em outros países do mun-
do, o que se busca – como por exemplo a partir da Campanha Para Expressar a
Liberdade – é o debate e a definição de um Marco Regulatório da Comunica-
164. Disponível em: <www.paraexpressaraliberdade.org.br>. Acesso em: 08 jun. 2013.

296 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


ção no Brasil, contando sempre com a participação popular.
Não é de hoje que pesquisadoras165 e feministas apontam a necessidade e
reivindicam leis que garantam a visibilidade de mulheres na mídia, de forma a
contribuir para a expressão do que vem ocorrendo no mundo – com mulheres
protagonizando diferentes papéis sociais em diferentes áreas – e, assim, contri-
buam para as múltiplas identidades e cidadania femininas.
Nesse sentido, as Resoluções Aprovadas na 3ª Conferência Nacional
de Políticas para as Mulheres (realizada em 2011, em Brasília) e referenda-
das pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em fevereiro de 2012,
incluem um item específico sobre comunicação, com seis resoluções (além da
comunicação estar presente em resoluções de outras conferências)166.
Também a 1ª Conferência Nacional de Comunicação, realizada em de-
zembro de 2009, foi um importante momento de debate sobre a situação das
mulheres na mídia no Brasil, assim como da comunicação em geral. A referida
Conferência Nacional foi precedida por conferências municipais e estaduais, as
quais apontaram, desde as escutas regionais, locais e específicas, a necessidade
da visibilidade feminina nos meios de comunicação de modo emancipatório e
igualitário. Grande parte das propostas de leis e políticas deliberadas, entretanto,
não foi encaminhada. Ao lado dessa inércia, com a 1ª Conferência, cresceu no
Brasil a reivindicação por um marco regulatório contemporâneo para a comuni-
cação, que poderá favorecer a emancipação feminina a partir da democratização
da comunicação. E, como mencionado, em agosto de 2012, tivemos no País o
lançamento da Campanha Para Expressar a Liberdade, que debate e reivindica
um Marco Regulatório da Comunicação no Brasil. Assim, as tensões estão ex-
postas e as disputas colocadas, o que é, de todo modo, mais interessante do que o
silêncio ou a simples invisibilidade, no tocante à participação e à representação.
Somam-se a isso reflexões e ações por parte de pesquisadoras e de movi-
mentos feministas, após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (em 31
de agosto de 2016) e ações de organismos internacionais, como a ONU. Para
exemplificar, a Organização das Nações Unidas buscou saber o que os países
fizeram pela emancipação feminina, em função do aniversário de 40 anos de
1975, Ano Internacional da Mulher, e 20 anos de 1995, quando foi realizada a
IV Conferência Mundial das Mulheres, em Pequim, na China.
165. Sobre isso “lembramos que, já em 1977, em seu depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito so-
bre a Situação da Mulher, Fúlvia Rosemberg relatou pesquisa sobre a representação feminina (...): ‘todos os estudos
concluem, de forma repetitiva e indignada, que a imagem dos papéis sexuais apresentada pelos diferentes meios de
comunicação é estereotipada, discriminando acintosamente a mulher’.” (Lahni, 1999, 113).
166. As Resoluções Aprovadas na 3ª Conferência Nacional de Políticas Públicas para as Mulheres podem ser lidas no
site da Secretaria de Políticas para as Mulheres – www.spm.gov.br

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 297


Jornalismo e comunicação para a cidadania

Podemos afirmar que a comunicação é a praça pública na atualidade,


daí sua importância para visibilidade e discussões de ideias, grupos e suas ques-
tões. Nos meios de comunicação – no que incluímos tanto os massivos como
os alternativos – as pessoas têm especial acesso à informação, direito previsto
na Constituição Brasileira. No Artigo 5º do Capítulo I da Carta Magna, está
estabelecido: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natu-
reza [...] I- homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações [...]; XIV- é
assegurado a todos o acesso à informação” (CONSTITUIÇÃO, 1988).
Assim, dada a importância da informação na vida em sociedade esta é
considerada um direito porta a outros direitos e, portanto, fundamental para
o exercício da cidadania. Afinal, se alguém não tem informações sobre seus di-
reitos como vai buscá-los? Lembramos que cidadania é aqui considerada como
o exercício de direitos – civis, políticos e sociais –, luta pela manutenção e
ampliação desses direitos (MANZINI-COVRE, 1995).
Conforme Murilo Cesar Ramos (2005, p.245, 246), os direitos civis,
chamados de primeira geração, são aqueles de respeito à personalidade do in-
divíduo (liberdade pessoal, de pensamento, de religião), que obrigam o Estado
a uma atitude de abstenção diante dos cidadãos. Já os direitos políticos, chama-
dos de segunda geração, implicam na participação dos cidadãos e cidadãs na
determinação dos objetivos políticos do Estado. Os direitos sociais, direitos de
terceira geração, implicam em um comportamento ativo por parte do Estado
para as garantias do/a cidadã/o (direito à saúde, ao trabalho, à assistência). A
informação faz parte da primeira geração dos direitos humanos, o direito que
se tem de ser informado, o qual nas democracias representativas de massa ten-
de a ser extremamente amplo, mas “será sempre insuficiente”.
Considerando isso, entre os anos 1960 e 70, a partir da Unesco (órgão
das Nações Unidas que trata de educação, ciência e cultura), “emergiu rica dis-
cussão sobre a comunicação e seu papel para o fortalecimento da democracia”.
O principal momento deste debate foi a apresentação, em 1980, do relatório
da comissão presidida pelo jurista e jornalista irlandês Sean MacBride, com
o título “Um mundo e muitas vozes – comunicação e informação na nossa
época”. Muito se discutiu, mas quase nada se avançou, porque a comunicação
sempre é considerada estratégica para os governos.
Esse debate volta com força, no final do século passado, muito impul-

298 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


sionado pelas novas tecnologias da comunicação, especialmente a internet.
Assim, como Ramos (2005, p. 247, 248), entendemos que se torna imperativo
retomar o debate sobre o direito à comunicação enquanto um novo direito
humano fundamental. Trata-se de um direito de quarta geração, que se “cons-
titui um prolongamento lógico do progresso constante em direção à liberdade
e à democracia”. É nessa linha que trabalha Cicilia Peruzzo (2002, p. 85), para
quem, além dos seus direitos políticos respeitados, “em pleno século XXI, ser
cidadão significa [...] também comunicar-se através dos meios tecnológicos
que a humanidade desenvolveu e colocou a serviço de todos”.
O direito à comunicação é aqui entendido, portanto, tendo em vista a
centralidade desta na sociedade contemporânea, como um direito fundamen-
tal, que vai garantir mais do que a informação (que chega), garantirá o poder
de fala de pessoas e grupos, que precisam ver e ouvir seus temas e ideias em
debate. O objetivo é a pluralidade de vozes e, assim, a visibilidade para a identi-
dade e cidadania democrática de grupos diversos, em especial os minoritários,
como as mulheres.
Afinal, como mencionam Maria Nazareth Farani Azevêdo e Franklin
Rodrigues Hoyer (2011, p. 106, 107), mais de 60 anos após a adoção da De-
claração Universal dos Direitos Humanos, que estabelece que todas as pessoas
são iguais, a igualdade de direitos a todas e todos continua entre os maiores
desafios da humanidade. “No campo dos direitos humanos, os direitos das
mulheres e a promoção da igualdade de gênero são questões centrais”, comen-
tam ao apresentar medidas da ONU para a eliminação das desigualdades de
gênero. Avaliamos que tais ações necessitam do acompanhamento e inclusive
da implantação primeira da comunicação, a partir de marco regulatório e po-
líticas públicas, que, por exemplo, mostrem a mulher na mídia como protago-
nista e emancipada. É nesse contexto que se encontram nossas preocupações,
pesquisas, ensino e militância.
Conforme Manzini-Covre (2001, 30), os meios de comunicação atuam
como ferramentas “fundamentais para a formação da opinião pública no mun-
do atual”, com a capacidade de reforçar ou de abalar a cidadania mediante as
mensagens que veiculam. Norberto Bobbio (1992) também destaca a impor-
tância da informação para o exercício de direitos e para a democracia.
Nesse sentido, o direito à informação jornalística deve ser pensado como
um direito de todos e todas, sendo os conteúdos veiculados em quantidade e
qualidade de modo a favorecer o melhor julgamento possível de cada um. Afi-
nal, nos meios de comunicação – no que incluímos tanto os massivos como os

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 299


alternativos –, as pessoas têm especial acesso à informação, direito previsto na
Constituição Brasileira (1988).
Assinada por países do mundo inteiro, incluindo o Brasil, aprovada pela
Organização das Nações Unidas (ONU) em 10 de dezembro de 1948 e, por-
tanto, chegando aos 70 anos de vigência, a Declaração Universal dos Direitos
Humanos estabelece o direito à informação e caminha no sentido de estabel-
ecer o direito à comunicação. Além de em seu preâmbulo reafirmar o valor da
pessoa humana e a igualdade de direitos de homens e mulheres, em seu Artigo
XIX, a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que toda pes-
soa “tem direito à liberdade de opinião e expressão. Este direito inclui a liber-
dade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir
informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”
(apud DALLARI, 1998, 60).
Assim, dada a importância da informação na vida em sociedade, esta é
considerada um direito porta a outros direitos e, portanto, fundamental para o
exercício da cidadania. Afinal, se alguém não tem informações sobre seus direi-
tos como vai buscá-los? Para a importância do direito à informação correspon-
de a importância do dever de informar, de forma ética e com responsabilidade
social. Este dever cabe aos jornalistas e às empresas de jornalismo.
No sentido da responsabilidade mencionada, quanto aos profissionais,
a atividade é regida pelo Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Ao apre-
sentar e refletir sobre o Código, Luciene TÓFOLI (2008, p. 9) considera que
“o jornalismo só será verdadeiramente ético a partir do momento em que exer-
cer sua prerrogativa de contribuir efetivamente para uma sociedade mais justa,
transparente, humana, solidária, fraterna e livre”. “A ética deve estar em cada
frame e em cada palavra sobre os quais se debruçam os contadores da história
cotidiana da humanidade” salienta a autora.
Embasando a responsabilidade social da profissão, o Código de Ética
dos Jornalistas Brasileiros normatiza a conduta dos profissionais a fim de con-
tribuir para o exercício do direito à informação, estabelecido na Constituição
Brasileira e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Do mesmo, sa-
lientamos o seguinte:

Capítulo I. Do direito à informação


Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o
direito fundamental do cidadão à informação, que abrange o seu direito
de informar, de ser informado e de ter acesso à informação.

300 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é
um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja
impedido por nenhum tipo de interesse [...].
Capítulo II. Da conduta profissional do jornalista
Art. 3º O exercício da profissão de jornalista é uma atividade de nature-
za social, estando sempre subordinado ao presente Código de Ética. [...]
Art. 6º É dever do jornalista:
opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender
os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Huma-
nos;
[...]
XI. defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das
garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adoles-
centes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias; [...]
XIV. combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos
sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orien-
tação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra nature-
za. (Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, 2007 apud TÓFOLI,
2008, p. 11, 12 e 13)

Os conceitos de cidadania, direito à informação e direito à comunica-


ção, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Constituição e o Código
de Ética dos Jornalistas Brasileiros, somados à teoria do jornalismo, destacam a
responsabilidade social dessa atividade para o exercício da cidadania de todos
e todas. Sabemos que as condições de trabalho, muitas vezes, não têm colabo-
rado para que a profissão seja exercida com a reflexão cotidiana nas redações;
entidades representativas, por vezes, não dão conta de garantir este debate por
um jornalismo com ética e responsabilidade social. Para isso, a educação (en-
sino e pesquisa) certamente tem o lugar de destaque para debater jornalismo e
cidadania. Nessa direção, após perguntarmos sobre o espaço da mulher na mí-
dia, na editoria de política (nesta reflexão), perguntamos também como está a
pesquisa sobre mídia, jornalismo e relações de gênero? Como estas pesquisas
e sua divulgação se refletem no ensino, em especial a partir da implantação das
novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para os cursos de graduação
em Jornalismo?

Gênero como categoria de análise

Como se comportariam um jornal local identificado como grande im-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 301


prensa e um boletim sindical, veículo potencialmente contra-hegemônico, em
uma eleição presidencial em que uma candidata mulher aparecia, inicialmen-
te, em segundo lugar nas pesquisas, sendo que ela representava a continuidade
de um governo que tinha grande aceitação popular? Como se comportariam
tais veículos em uma eleição para deputado federal em que estaria uma can-
didata mulher de Juiz de Fora (município base da pesquisa) que foi a primei-
ra candidata à prefeitura, na eleição de 2008, tendo ficado em segundo lugar
com uma expressiva votação167? Essas foram questões motivadoras da pesquisa
“Comunicação, política e relações de gênero: análise da presença da mulher,
em um veículo local da grande imprensa e em um alternativo, no período elei-
toral”. A investigação parte da premissa da Comunicação como Direito e da
reflexão sobre o direito à informação. Como subsídio para a análise e com foco
voltado para a mulher na política, realizou-se levantamento bibliográfico no
qual as fontes foram os anais e as revistas da Intercom (Sociedade Brasileira de
Estudos Interdisciplinares da Comunicação) e da Compós (Associação Nacio-
nal dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação), entre 2003 e 2010.
O objeto da pesquisa foi um conjunto de matérias sobre eleições, no jornal
Tribuna de Minas, de Juiz de Fora - MG (principal periódico da cidade), e no
Informativo do Sindicato dos Metalúrgicos de Juiz de Fora (principal publi-
cação da entidade representativa), no período de agosto a novembro de 2010.
A categoria gênero fundamenta o estudo, à medida que são considera-
das as representações socialmente construídas sobre o masculino e o feminino
para analisar o objeto de pesquisa. Vale mencionar que as mulheres, apesar de
serem maioria numérica na sociedade, são pensadas, na pesquisa, como mi-
noria. Chega-se a tal conclusão quando são tomadas como parte da análise
as desigualdades de gênero e discriminação com relação ao feminino, ainda
hoje vividas por essa parcela da população. Para Joan Scott (2005), os eventos
que determinam que as minorias sejam tomadas enquanto tais ocorrem pelo
processo de atribuição de menos status e desvalorização de algumas qualida-
des inerentes ao grupo minoritário, como se essas qualidades fossem a razão
e também a racionalização do tratamento desigual, tais como características
percebidas no corpo das mulheres ou pela raça.
O olhar que o referencial de Joan Scott possibilita sobre as minorias
é ainda mais potente se se considerar o emblemático texto Gênero: uma ca-
tegoria útil de análise histórica (SCOTT, 1990). Trata-se de produção que
167. Neste texto, apresentamos a análise de conteúdo do jornal local identificado como grande imprensa e do jornal
sindical, objetos de estudo, no que se refere à candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República, em 2010.

302 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


contribuiu para que variados setores das Ciências Humanas reconhecessem
a importância das relações sociais que se estabelecem com base nas diferenças
percebidas entre o masculino e o feminino. A apropriação dos escritos de Scott
permite notar tanto que as mulheres ainda são minorias quanto que as relações
de gênero, do modo como estão organizadas em nossa sociedade, produzem
as desigualdades que tornam esses grupos minorias. Os escritos da autora per-
mitem elucidar como as visões naturalistas sobre mulheres, meninas, homens
e meninos representam obstáculos para o acesso democrático das minorias aos
meios de comunicação, no que se refere ao direito de se verem representadas e
reconhecidas em produções realizadas por elas, para elas e sobre elas.
Gênero é, portanto, assumido como categoria de análise, no presente
texto e na pesquisa, com a intencionalidade de não perpetuar posturas neutras
nos processos de construção do conhecimento e de produção midiática. Tais
posturas tornariam invisíveis grupos de mulheres para quem e por quem polí-
ticas igualitárias de comunicação devem ser formuladas e implantadas. Nesse
sentido, diretrizes da Primeira Conferência Nacional de Comunicação, reali-
zada em dezembro de 2009, devem ser implantadas e a definição de política de
Joan Scott, em seu texto O Enigma da Igualdade, pode começar a ser praticada
ao se trabalhar com a informação e ao se praticar jornalismo. Trata-se de cui-
dar da política e de considerar a igualdade nos meios de comunicação tendo
como norte “a negociação de identidades e dos termos das diferenças entre
elas” (p.29, 2005). Assim, gênero seria adotado como um potente marcador
de diferenças, diante do qual não é possível silenciar.
As posições ocupadas idealmente pelas mulheres são construídas a
partir das relações de gênero que ditam o que é aceito e o que é rechaçado,
segundo padrões masculinos e de femininos estimulados, ou não. O apelo à
maternidade e aos valores considerados tradicionais de feminilidade é algo
percebido como positivo ao lado de uma candidata mulher, bem como é re-
chaçada qualquer possibilidade de comportamento que afaste tal candidata do
ideal feminino segundo os padrões tradicionais vigentes, como, por exemplo,
uma presidenta guerrilheira ou uma deputada federal lésbica.
Por mais que explorar positiva ou negativamente essas identidades não
possa ser determinante exclusivo do comportamento eleitoral, pode influen-
ciar o empoderamento de um grupo minoritário que se veja representado na
informação difundida, via jornalismo, como fundamental exercício de cida-
dania. A informação sobre direitos e a comunicação percebida como seara de
exercício da cidadania podem fazer com que mulheres e outras minorias se

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 303


organizem para reverter sua condição. É importante que mulheres lésbicas se-
jam noticiadas em reportagens que valorizam sua maternidade, por exemplo,
em pautas típicas do Dia das Mães. Por outro lado, é desnecessário a uma can-
didata à Presidência da República que ela apareça fritando ovos em programas
femininos, a fim de provar ao eleitorado que tem atributos típicos ao seu sexo.

Procedimentos metodológicos

A partir da fundamentação teórica adotada e expressa acima, foi reali-


zado o estado da arte sobre Comunicação, Política e Relações de Gênero, cujo
objeto de pesquisa é o corpus composto por artigos publicados na Intercom e
na Compós, em congressos nacionais e em suas revistas, no período de 2003
a 2010.
Conforme os critérios selecionados, dos artigos pesquisados em congres-
sos nacionais da Intercom, foram encontrados um total de nove publicações.
Destas, sete não estavam relacionadas ao tema de pesquisa e foram descarta-
das. Restaram dois artigos: A Mulher nas Eleições 2002 (LIMA, FERREIRA
e VIEITO, 2003) e Estratégias midiáticas de construção de uma candidata
à Presidência – Uma proposta metodológica (Bastian e Gomes, 2010). Nas
revistas da Intercom dos anos 2003 a 2010, apenas três artigos foram encon-
trados e estes não se enquadraram no tema central da pesquisa.
Dos artigos pesquisados nos congressos da Compós, foram encontrados
nove no total e, pela mesma não correspondência em relação ao tema mulher
e política, restou apenas o artigo Gênero e política no jornalismo brasileiro
(MIGUEL e BIROLI, 2008). Já nas revistas da Compós, oito artigos resulta-
ram da busca, sendo que um deles é uma resenha do livro Política, Palavra Fe-
minina, de Raquel Paiva, de 2008. Desses oito artigos somente essa resenha, de
autoria de Alexandre Barbalho, aborda especificamente o tema principal “mu-
lheres e política”. Contudo, por ser uma resenha, também não se coadunou
com os critérios de seleção da presente busca. Verificou-se, portanto, uma au-
sência do tema em publicações acadêmicas das principais associações da área.
Na sequência, realizou-se a análise de conteúdo dos veículos seleciona-
dos como objeto de estudo.
A Tribuna de Minas (www.tribunademinas.com.br) é o principal peri-
ódico de Juiz de Fora – município de cerca de 600 mil habitantes na Zona da
Mata de Minas Gerais. Na ocasião, o jornal era publicado no formato stan-
dard, tendo em média 10 páginas no 1º Caderno (o principal); e seis páginas

304 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


no caderno Dois, voltado para cultura, além de suplementos semanais. O peri-
ódico é publicado de terça a domingo e vendia durante a semana em torno de
15 mil exemplares e no domingo, 20 mil exemplares.
Ao todo foram avaliadas 76 edições da Tribuna de Minas – 136 pági-
nas de política, que reuniram 399 matérias. Na análise quantitativa, buscou-se
identificar fontes e pessoas mencionadas nas notícias, notas e reportagens. Foi
verificado um total de 416 mulheres entrevistadas ou citadas e 1386 homens
entrevistados ou citados nas matérias.
Verificou-se também o número de homens e o de mulheres (proeminen-
tes ou sozinhos) em fotografias. Encontramos 70 fotos com mulheres e 202
fotos com homens. Buscou-se ainda o número de homens e o de mulheres em
títulos nas matérias incluídas dentro da delimitação da pesquisa. Constatou-se
um total de 81 títulos citando mulheres e 154 títulos com homens. Isso, numa
eleição em que duas mulheres estavam entre os/as principais candidatos/as à
Presidência da República – Dilma Roussef e Marina da Silva – e a cidade ti-
nha, pela primeira vez, uma candidata à deputada federal com chances de ven-
cer a eleição. Na análise, foi examinado o número de chamadas de capa sobre
política. Do total de chamadas de política encontramos 36 citando mulheres e
62 com homens. Os dados apresentados indicam uma superioridade numérica
masculina em detrimento da feminina. A seguir, são comentados títulos.
Em 25 de agosto de 2010, quando uma pesquisa avaliou a propaganda
da candidata Dilma como melhor que a de seu principal opositor, José Serra,
a Tribuna de Minas apresentou o título “Dilma festeja; para Serra ela ‘está se
achando’”. Cumpre destacar que aqui há uma avaliação dele sobre ela, colocan-
do-o em vantagem, posto que não se deu espaço para a candidata avaliar seu
opositor igualmente. Em 31 de agosto, na página 4, temos os títulos “Serra
visita MG e adota mudanças na campanha”; e “Dilma reduzirá visitas ao Norte
e Nordeste”. “Visita Minas Gerais e adota mudanças” parece mais positivo do
que “reduz” visitas. Além dessa situação de verbos por vezes com ações mais
fracas dedicados à candidata com mais chances de vitória, também encontra-
mos, no dia 17 de setembro de 2010, na capa da Tribuna de Minas, o título de
chamada “Marina e Dilma debatem infância”, junto a “Lula faz comício hoje
na cidade” e “Anastasia no Aeroporto Regional”. Aqui temos os homens na
política e no aeroporto, temas ligados ao espaço público, com mais status e
assegurado aos homens. Colocar as candidatas mulheres discutindo infância,
tema ligado à maternidade e o que, culturalmente, se espera da mulher, remete
ambas a situações de menos status em relação aos objetivos eleitorais que alme-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 305


jam e com destaque para temas reconhecidos como do espaço privado.
A partir de estudos diversos168, consideramos o potencial contra-hege-
mônico da comunicação sindical. Assim, na pesquisa aqui relatada, analisa-
mos a comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos de Juiz de Fora e Região
(http://stimjf.org.br), que tem sede na área central da cidade e subsede no
município de Santos Dumont. O STIM representa cerca de 10 mil metalúrgi-
cos de oito municípios do estado de Minas Gerais. Em novembro de 2012, o
Sindicato completou 80 anos de sua fundação. Desde 1992 a entidade é filiada
à CUT (Central Única dos Trabalhadores). A comunicação entre o Sindica-
to e os/as trabalhadores/as, na ocasião da pesquisa, se dava, principalmente,
por meio de uma publicação de periodicidade mensal, com tiragem de 5.000
exemplares, o Informativo do Metalúrgico, também nosso objeto de pesquisa.
No período pesquisado, foram produzidos quatro informativos que possuíam
em média quatro páginas.
Observou-se que o Informativo do Sindicato dedicava sempre uma pá-
gina aos assuntos políticos. Ficou evidenciado o apoio à candidatura de Dilma
Rousseff, para a Presidência da República. Apesar disso, não encontramos fo-
tografia da candidata no Informativo, que é citada pela publicação uma vez, no
período. Nos exemplares analisados foram citados também por uma única vez
o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o candidato à
Presidência José Serra (PSDB), o governador eleito do estado de Minas Gerais,
Antônio Anastasia (PSDB), e o senador eleito Aécio Neves (PSDB).
Apesar de ser apresentada em menor número, a candidata Dilma Rous-
seff recebeu um enfoque mais positivo do que os homens no Informativo, o
que se explica devido ao fato de ter o apoio da categoria na eleição. Dentre os
homens, o único que recebeu uma avaliação positiva foi o ex-presidente Lula,
que teve associada a sua imagem à “redução da desigualdade social e a geração
de empregos”, enquanto os demais citados apareceram com enfoque negativo.
A análise dos informativos do Sindicato revela que, apesar de as mu-
lheres serem retratadas de forma positiva e de receberem o apoio das traba-
lhadoras e trabalhadores da categoria, ainda assim é dado pouco espaço a elas.
Apenas uma candidata tem uma foto publicada no Informativo e mesmo assim
em meio a vários homens. Se, por um lado, a principal publicação dos metalúr-
gicos de Juiz de Fora apresenta a característica de sempre ter página que coloca
a política como tema, por outro, parece-nos que o fato de o Sindicato declarar
168. Como as pesquisas coordenadas e orientadas pela Professora Maria Nazareth Ferreira. Para exemplificar, citamos
a obra O Impasse da Comunicação Sindical: de processo interativo a transmissora de mensagens, organizada por
FERREIRA (1995).

306 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


sua posição política, apoiando a candidatura de Dilma Rousseff, poderia con-
ferir a ela mais espaço dentro do Informativo.

Reflexos na exclusão das mulheres

A partir do crescimento do movimento feminista e de investimentos


de governos, no Brasil, percebemos (Lahni e Auad, 2016) um maior número
de estudos sobre relações de gênero e comunicação. Este aumento é bastante
positivo e certamente reflete, também, a eleição e ação de uma mulher como
Presidenta da República e o trabalho de mais de 10 anos da Secretaria de Po-
líticas para as Mulheres do Governo Federal, a qual apresentava programas de
incentivo, como o Prêmio de Igualdade de Gênero junto ao CNPq e o evento
anual Mulher e Mídia (todos iniciados no governo do PT). Este aumento e
um crescimento quantitativo da mulher nos jornais e mídia, em geral, não im-
plicam, infelizmente, em mais qualidade e menos machismo, em função disso.
Logo após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, foi publica-
do o livro Mídia, Misoginia e Golpe, com a participação de pesquisadoras de
todo o País, organizado por Elen Cristina GERALDES, Tânia Regina Oli-
veira RAMOS, Juliano Domingues da SILVA, Liliane Maria Macedo MA-
CHADO e Vanessa NEGRINI (2016). A obra contou com 53 entrevistadas e
entrevistados da academia, política e militância, as quais apresentam consenso
em afirmar que o processo que retirou Dilma da Presidência foi golpe, que a
mídia – em especial a grande imprensa – teve papel fundamental nisso e que
era perceptível a predominância do machismo e misoginia na cobertura e sua
repercussão na imprensa.
Uma das entrevistadas, Amélia Teresa Santa Rosa Maraux, pró-reitora
de Ações Afirmativas da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e vice-pre-
sidenta do Conselho Estadual LGBT da Bahia, salienta que

A mídia teve um papel fundamental. Ela alicerçou a base para a revolta,


para a construção de um imaginário nacional sobre a presidenta Dil-
ma Rousseff e sobre o Partido dos Trabalhadores. E a Rede Globo foi
uma das expoentes da arquitetura do golpe, junto com as outras mídias,
como a Folha de São Paulo, o Estadão, o jornal A Tarde, aqui na Bahia,
a revista Veja, Isto É, Época, enfim, todas estas empresas midiáticas co-
mandadas pelas grandes famílias no Brasil e nos estados. Elas tiveram
um papel importante de criar a dimensão de uma crise nacional sem
resolução. [A mídia] construiu a imagem de fraqueza diante da arti-

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 307


culação política que poderia dar sustentação ao governo. Fortaleceu –
com certeza – uma imagem, um discurso e uma prática misógina com
relação à Dilma Rousseff. (MARAUX, 2016, p.12)

Conselheira Estadual da Mulher de Minas Gerais, autora de Feminis-


mo, que história é essa?, Daniela AUAD, também entrevistada no livro, comen-
ta sobre gênero e a cobertura do impeachment de Dilma:

A questão de gênero, como nessa pergunta está nomeada, é relevante e


estruturante. O golpe é misógino porque as instituições, práticas e con-
textos de construção de nossas subjetividades e identidades, assim como
produção e reprodução do viver, são misóginos. Logicamente que há o
acirramento da expressão dessa misoginia em razão do atual fortaleci-
mento da direita no contexto do golpe. Mas é importante jamais esque-
cer que o machismo, a lesbofobia, a transfobia e, portanto, a misoginia se
apresentam fortemente de variadas formas tanto naquilo que reconhe-
cemos como direita quanto no campo da esquerda, onde, nós, mulheres,
sofremos seguidamente tentativas de silenciamento por parte dos com-
panheiros que historicamente vomitam que debater gênero enfraquece o
debate da luta de classes, que debocham do feminismo e que desmerecem
a categoria gênero nos Programas de Pós, na organização das disciplinas
nos diferentes cursos e outras searas. (AUAD, 2016, p. 80)

Considerações finais

“O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista.” A afir-


mação é da presidenta Dilma Rousseff, em seu primeiro pronunciamento,
após a aprovação do seu impeachment, pelo Senado Federal, em 31 de agosto
de 2016. Entre outros documentos, esse registro é mostrado no documentário
“O Processo”, de Maria Augusta Ramos (lançado e premiado em 2018), que
acompanha o julgamento do impeachment de Dilma. A presidenta foi acusa-
da de manobras fiscais que eram percebidas como usuais para seus antecesso-
res governantes, mas estigmatizadas como crime, quando eventualmente por
ela praticadas. As acusações se deram com base em uma interpretação da Lei
de Responsabilidade Fiscal e, imediatamente após o impedimento de Dilma,
foi aprovada uma lei que assegura que aquelas mesmas ações são consideradas
funcionamento normal da máquina pública. O momento de aprovação dessa
lei e outros episódios da política do País vão ao encontro da avaliação de Dil-
ma Rousseff, sobre o teor misógino, homofóbico e racista de sua deposição.

308 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Não se tratou de um processo legítimo, mas de um golpe para tirar do poder a
primeira mulher eleita por duas vezes presidenta do Brasil. Com isso, foi for-
temente prejudicada a presença das mulheres em todas as esferas da sociedade
e em especial na política institucional, foco do presente capítulo. O violento
ataque à democracia – que desconsiderou a maioria dos votos da eleição pre-
sidencial de 2010 – causou a ampliação do machismo e o aprofundamento
do ódio às mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais, em razão do processo
de impedimento ao qual foi submetida a Presidenta eleita e, por conseguinte,
todas e todos os brasileiros que nela votaram, assim como causou um efeito
cascata de destruição. A retirada da Presidenta Dilma simbolizou e efetivou o
início do esfacelamento de positivas construções de 13 anos que deram ganho
às candidaturas do Partido dos Trabalhadores, à frente do governo federal.
Não era apenas Dilma Rousseff que estava sendo retirada do cargo para o qual
foi eleita. Estavam sendo depostas a valorização, os direitos e as políticas públi-
cas para pobres, mulheres, negros, negras, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e
transgêneros. Ao considerar essa conjuntura como pano de fundo, no presente
capítulo, como mencionado anteriormente, lembramos de pesquisa sobre mu-
lheres e política e refletimos sobre comunicação, jornalismo e relações de gêne-
ro, percebendo que a sociedade contemporânea ainda é fortemente machista,
misógina, racista e lesbofóbica.
A centralidade da comunicação é fator decisivo na construção das
múltiplas identidades e no exercício da cidadania de todas e todos. No que
diz respeito às mulheres, debates e pesquisas apontam o quanto a mídia ainda
as sub-representa e as degrada mais comumente do que as valoriza em suas
expressões e grupos diferenciados.
Neste trabalho analisamos a presença da mulher, enquanto candidata,
em um veículo da grande imprensa e em um da imprensa sindical, no período
das eleições de 2010. A partir de sua metodologia, conceitos e procedimentos
adotados, a pesquisa que o presente texto noticia apontou que tanto a cha-
mada grande imprensa como a imprensa sindical ainda apresentam a mulher
na política, no período eleitoral, de forma quantitativa inferior ao homem.
Quanto aos temas, mesmo a já possível futura presidenta é noticiada tratando
de áreas historicamente consideradas femininas. Além disso, as pesquisas en-
contradas na Intercom e na Compós sobre o tema se mostravam em número
reduzido e também com reduzido ou ausente referencial de relações de gênero.
Este quadro mostra uma lacuna de pesquisa, ensino e prática jornalísti-
ca, que em nada contribui para a emancipação feminina. Ao contrário, a partir

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 309


de reflexões presentes no livro Mídia, misoginia e golpe, percebemos a situação
agravada no processo de impeachment da presidenta Dilma e após o mesmo,
atingindo no cotidiano todas nós, mulheres. O machismo – que violenta física
e simbolicamente mulheres, todos os dias – continua inclusive na esquerda,
mesmo após o golpe, que depôs Dilma Rousseff: no dia 7 de junho de 2018,
o PT lançou o jingle de campanha de Luis Inácio Lula da Silva à Presidência,
com o mote “Chama o homem que dá jeito”.
Assim, considerando a centralidade da comunicação e sua importância
para o exercício da cidadania, entendemos que se fazem urgentes o amplo de-
bate e a definição de um marco regulatório da mídia, que estabeleça o direito à
comunicação das mulheres, fundamental para uma sociedade igualitária, com
respeito a todas as pessoas. É ainda necessário que a esquerda se reveja e não
corrobore com práticas machistas, especialmente na comunicação.

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312 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 313
“Bela, recatada e do lar” ou embaixadora do
“Criança Feliz”169: por que a primeira-dama é pauta?

Liziane GUAZINA170
Francisco VERRI171
Ébida SANTOS172
Universidade de Brasília, Brasília, DF

Resumo

Marcado pelo estereótipo de beleza e de subordinação à figura masculina, o


primeiro-damismo volta à tona no Brasil depois de sete anos ausente. Marce-
la Temer, que atende aos padrões estéticos convencionados, assume a função
com a responsabilidade de ser embaixadora do programa “Criança Feliz”. À
luz da análise dos valores-notícia e dos preceitos metodológicos da Análise de
Conteúdo, busca-se compreender as razões pelas quais Marcela Temer é pauta
e como ela é representada no site do jornal Folha de São Paulo. O período
de análise se estende entre 31 de agosto de 2016 e 31 de dezembro de 2017,
abrangendo um corpus de 119 notícias. As particularidades da cobertura recai
sobre uma preferência pela vida privada, relatando os acontecimentos que en-
volvem seu âmbito pessoal, especialmente as atribuições de esposa, mãe e filha.

Palavras-chave: Noticiabilidade; Valores-notícia; Desigualdade de gênero;


Primeira-dama; Marcela Temer.

Introdução

As primeiras-damas são agentes não eleitos cujas ações, públicas ou


privadas, repercutem midiaticamente. Segundo Abril (1997, p. 192, tradução
nossa173) em geral por “ser a esposa de uma personalidade importante, desta-
169. A expressão refere-se a notícia veiculada pela revista Veja, em 2016. O “Criança Feliz” é um programa do governo
de Michel Temer que tem a primeira-dama como embaixadora.
170. Doutora em Comunicação, Vice-diretora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.
171. Doutorando em Comunicação pela Universidade de Brasília.
172. Doutoranda em Comunicação pela Universidade de Brasília.
173. No original: ser la esposa de una personalidad importante, de destacarse por su belleza, [...] o ocupar el puesto
de primera dama

314 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


car-se por sua beleza [..] ou ocupar o posto de primeira-dama”, traduzindo, na
própria definição, os estereótipos que vinculam as mulheres ao espaço domésti-
co e os homens à liderança. Após a deposição de Dilma Rousseff, Marcela Temer
assumiu o posto de primeira-dama, até então vago, passando a circular entre as
duas esferas. Eleita Miss Paulínia em 2002, na cidade homônima do Estado de
São Paulo, Marcela Temer atende a um estereótipo de beleza: loira, cabelos lisos,
jovem e com 1,72m de altura. Além disso, segue os padrões de moda. Usa saia,
vestido tubinho e de gala, grifes brasileiras e internacionais. Seu guarda-roupa
retorna às páginas de coluna social e de portais de moda, invertendo os precon-
ceitos relativos ao vestuário da ex-presidenta, Dilma Rousseff.
Transitando em funções socialmente estabelecidas de mãe de família,
primeira-dama e gestora, Marcela ganhou notoriedade, também, nas pautas
jornalísticas. O jornalismo, contudo, não se afasta por completo dos padrões
sociais conservadores nem de seus estereótipos. Como define Gans (2014), o
acontecimento interage com valores que são mais duradouros, definidos a par-
tir de uma visão de como o mundo deve ser (COOK, 2011), estabelecendo,
dessa forma, limites e regras necessários para figurar na lista de eventos notici-
áveis. O jornalismo é impactado pelos valores culturais da sociedade brasileira,
ainda marcado pela desigualdade de gênero.
A partir desse contexto, investigamos quais os valores-notícia legitima-
dores da cobertura sobre a primeira-dama realizada pela Folha de S. Paulo en-
tre 31 de agosto de 2016, data da posse de Michel Temer, até 31 de dezembro
de 2017. Trata-se de compreender as razões pelas quais Marcela Temer é pauta
e como ela é representada. Para entender como se desenvolveu a cobertura, pa-
receu-nos adequado observar os valores-notícia salientes, por serem elementos
primários na decisão sobre a relevância da pauta. Os valores-notícia também
servem como lentes, que nos indicam o que ver e o que ignorar na seleção das
notícias uma vez que o acontecimento depende de uma seleção noticiosa afeita
ao modelo de sociabilidade da vida social (SILVA e FRANÇA, 2017), recain-
do sobre critérios de importância.

Os valores-notícia

Tobias Peucer (2004), já em 1690, atentava-se para a necessidade de se


selecionar os fatos mais importantes. Porém, somente na década de 1960 é que
surge a primeira tipificação174, com Galtung e Ruge. Em seu estudo, os pes-
quisadores dinamarqueses concluíram que o noticiário se estrutura em uma
174. Galtung e Ruge foram pioneiros ao tentar compreender a estrutura do noticiário analisando a cobertura em três
países em crise – Cuba, Congo e Chipre

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 315


cadeia iniciada “a partir dos acontecimentos caóticos do mundo e encerrada
na imagem pessoal produzida pelo receptor” (SILVA, 2010, p. 174), tendo em
comum doze características175.
O trabalho deu início a um campo importante à Teoria do Jornalismo.
David White (1999) importou a noção do Gatekeeper da área da saúde para
da comunicação. Nessa abordagem a seleção da notícia depende de “portei-
ros”, formados por indivíduos ou grupos hierárquicos com poder para definir
o que é noticiável e o que não é. Assim, o processo de transformação de um
acontecimento em notícia ocorre dentro de diversos gates que percorrem a re-
dação – repórter, editor da editoria, editor-chefe –, a partir de convenções e
valores que organizam a rotina profissional: “A comunicação de notícias é ex-
tremamente subjetiva e dependente de juízos de valor baseados na experiência,
atitudes e expectativas do gatekeeper” (WOLF, 1999, p. 145).
Para além de um guia que organiza o trabalho de seleção noticiosa, enfati-
zando as características de um evento noticiável (VIZUET e MARCET, 2003),
os valores-notícia operam dentro de um ritual jornalístico que - teoricamente
- protege os jornalistas contra erros e imparcialidades: “Cada notícia é uma com-
pilação de fatos avaliados e estruturados pelos jornalistas” (TUCHMAN, 1999,
p. 77) a partir de uma série de fatores – ethos profissional, objetividade, linha
editorial, valores-notícia – que definem o fazer jornalismo. A prática profissional
decorre da partilha de compreensões e normas que definem o campo (COOK,
2011), homogeneizando padrões de cobertura. Desse modo, “os media não re-
latam simplesmente e de uma forma transparente acontecimentos que são só
por si naturalmente noticiáveis”, pois as notícias passam antes por processos de
“escolha e seleção sistemática de acontecimentos e tópicos de acordo com um
conjunto de categorias socialmente construídas (HALL et al, 1999, p. 224). De
tal modo, funcionando em um mapa cultural de significado, os valores-notícia
operam “como estrutura de retaguarda social profunda e escondida, e requerem
um conhecimento consensual sobre o mundo (SILVA e FRANÇA, 2017, p.10),
aderindo a convenções profissionais, interesses econômicos e ideológicos. O fa-
zer jornalismo, nesse contexto, como destacam Seixas e Marques (2016, p. 10),
“não lida apenas com fatos, mas também com pessoas, lugares e fenômenos em
processo”, reproduzindo valores culturais da sociedade. Isto é, integra um proces-
so social sustentado pelas interações e negociações entre atores e campos sociais
(SILVA e FRANÇA, 2017).
175. Freqüência, amplitude, clareza ou falta de ambiguidade, relevância, conformidade, imprevisão, continuidade,
referência a pessoas e nações de elite, composição, personificação e negativismo.

316 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Em um plano cultural, o noticiário se organiza a partir de significados
compartilhados entre a sociedade, ainda que prevaleçam opiniões e noções he-
gemônicas (BIROLI, 2013). Toma-se como base sentidos pré-estabelecidos
incorporados ao processo produtivo. Em contrapartida, promovem-se narra-
tivas jornalísticas capazes de reforçar ou romper com discursos vigentes, res-
significando o modo de se enxergar e partilhar o mundo. Nesse processo, o
jornalismo se comporta como uma entidade que permite tornar o “mundo a
que eles [jornalistas] fazem referência inteligível a leitores e espectadores”. Ou
seja, de dar sentido a fatos que ocorrem no dia-a-dia. “Um acontecimento só
faz sentido se puder colocar num âmbito de conhecidas identificações sociais e
culturais”, sendo tarefa do jornalismo traduzi-lo para os mapas de significados
intrínsecos a base do “conhecimento cultural no qual o mundo social já está
traçado” (HALL et al, 1999, p. 226). Cabe a esses profissionais transformar
um acontecimento bruto em uma matéria jornalística que atribua uma dimen-
são pública a algo que seria de interesse de uma coletividade. Esse processo
de significação “tanto assume como ajuda a construir a sociedade como um
consenso”, explicam Hall et. al. (1999, p. 226).
Portadores de tais mapas culturais do mundo social, os jornalistas se
reconhecem por práticas profissionais que interagem com consensos sobre
como a sociedade funciona. Compartilhando um ideal jornalístico, dividem
experiências, vivências, métodos e uma rotina profissional que caracterizam a
profissão, definindo o perfil que caracteriza esse profissional da comunicação
e estruturando padrões do que é notícia. Como forma de organizar os acon-
tecimentos desordenados e caóticos do mundo (HALL et al, 1999), os jorna-
listas recorrem a critérios legitimados para distinguir os eventos que merecem
ser reportados e traduzidos. Ainda que não sejam formalmente transmitidos,
codificados ou descritos em qualquer documento profissional, os valores são
partilhados entre os profissionais de diferentes meios de comunicação, estru-
turando as coberturas jornalísticas. Inconscientemente, funcionam como um
marcador de representação que “classificam eventos com os quais os leitores
podem mais se identificar e nos quais se sintam representados” ( JORGE,
2016, p. 08). Esses critérios protegem repórteres, editores e agentes noticiosos,
fornecendo as características de uma potencial notícia. Limita-se assim even-
tuais críticas e questionamentos a parcialidade. Os valores-notícia revelam,
portanto, “não simplesmente o entendimento que os jornalistas têm de como
o mundo funciona, mas também sugerem uma concepção de como o mun-
do deve funcionar” (COOK, 2011, p. 207) a partir de um mapa cultural do

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 317


mundo social. Em sua constituição integram valores dominantes, reiterando
preconceitos e velhas práticas sociais que acompanham o cotidiano das mu-
lheres no Brasil. É nesse sentido que se investiga a cobertura sobre a Marcela
Temer, buscando compreender quais os aspectos contribuem para a seleção e
organização de notícias sobre ela.

As mulheres no espaço político e no jornalismo

A política e o jornalismo são dois campos que se entrecruzam diaria-


mente. O jornalismo expondo os atos políticos e a política agindo também
para e a partir do noticiário. Nos espaços políticos e jornalísticos, partes cen-
trais da democracia, são apresentadas, repercutidas e até mesmo estimuladas
opiniões e juízos de valor sobre os atores e atrizes e espectadores(as) da vida
política. Entre esses atores e atrizes estão as mulheres, as políticas e as não-po-
líticas – no sentido profissional do termo – nem sempre representadas equita-
tivamente em termos de gênero. É a temática da representação que trazemos
para essa discussão.
O gênero, para Joan Scott, “[...] é um elemento constitutivo de relações
sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma for-
ma primeira de significar as relações de poder” (SCOTT, 1989, p. 21). A auto-
ra traz alguns elementos relacionados entre si e que são implicados pelo gênero
nas relações sociais. Entre eles figuram os símbolos culturalmente disponíveis
e que evocam diferentes representações sobre as mulheres, os conceitos nor-
mativos que direcionam interpretações simbólicas, tais como os presentes nas
doutrinas religiosas ou políticas; a representação binária que tenta fixar um
papel inconteste associado à mulher; e a identidade subjetiva, em que o gênero
encontra-se implicado na construção do poder.
Esses elementos que compõem a definição de gênero de Scott ajudam a
perpetuar os estereótipos de gênero, presentes também na mídia. Biroli con-
sidera “os estereótipos como categorias simplificadoras ou atalhos cognitivos
que participam dos exercícios de poder” (2011, p. 75, grifo da autora). São sim-
plificações que correspondem a expectativas normativas sobre comportamen-
tos e que são previsíveis, remetendo aos papéis socialmente estabelecidos. Tais
elementos pertencem a uma dinâmica social complexa, que envolve a atribui-
ção de valores diferentes para as funções tidas como masculinas ou femininas
na sociedade (BIROLI, 2010).
À internalização de determinados padrões associa-se a perpetuação do

318 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


contrato sexual de Pateman (1993). O contrato sexual integra o contrato ori-
ginal, que “é um pacto sexual-social” (p.15), embora seu aspecto sexual (que
trata do poder que os homens exercem sobre as mulheres) sofra um profundo
silenciamento. Para Pateman, o contrato social “é uma história de liberdade”
enquanto o contrato sexual “é uma história de sujeição” (1993, p.16), ambos
criados pelo contrato original e representando liberdade e dominação. Nesse
caso, a liberdade pertence ao homem e a sujeição à mulher, sob a qual o homem
exerce direitos patriarcais criados pelo contrato. Dessa forma, a liberdade civil
não é universal “[...] é um atributo masculino e depende do direito patriarcal”
(PATEMAN, 1993, p. 17).
O patriarcado, segundo Matos e Paradis (2014), pode ser compreen-
dido nos dias de hoje como “[...] uma forma de organização social na qual as
relações são regidas por dois princípios básicos: (1) as mulheres estão hierar-
quicamente subordinadas aos homens, e (2) os jovens estão hierarquicamente
subordinados aos homens mais velhos” (p. 64). Essas relações sustentam-se
pela dicotomia público-privado. Na esfera pública, encontra-se o que é mascu-
lino e civil, como a razão e a impessoalidade; já na esfera privada foram agluti-
nados o feminino e o natural, marcados pela intimidade familiar e doméstica,
opondo-se ao que é público.
Alguns desses elementos que envolvem o público e o privado estabi-
lizam-se por longos períodos da dinâmica social. São os valores socialmente
estáveis que permitem a determinados conceitos e preconceitos circularem e
manterem-se em voga na esfera pública. A filósofa Agnes Heller define valor
como uma categoria primária de prática social, sendo “um modo de preferên-
cia consciente” (apud VIANA, 2007, p. 16). Trata-se de preferência relacio-
nada essencialmente a escolha, que passa a corresponder a um valor “quando é
regulada socialmente (objetivada em costumes e normas), incluindo sua nega-
ção” e quando “contém um momento de generalização que supere sua particu-
laridade (ou seja, o indivíduo quer generalizar suas preferências)” (idem p. 17).
Esse valor é uma atribuição que fornecemos e não uma característica natural
dos seres. A partir dessas concepções, emitimos juízos de valor, divididos em
pelo menos dois: moral e estético. Estes se ligam ao plano de convenções so-
ciais: inclui hábitos, moral e costumes - presentes no jornalismo, muitas vezes
provocando e perpetuando naturalizações.
Frequentemente, as primeiras damas são alvos de juízos morais e estéti-
cos. Esses comportamentos julgadores são “orientados pelo mito a beleza, que
colaboram para reproduzir cotidianamente valores e ideias que correspondem

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 319


a uma feminilidade domesticada” (BIROLI, 2013, p. 91). Assim, a partici-
pação das mulheres na política, e isso inclui as primeiras damas, embora não
sejam agentes políticos eleitos, fica comprometida devido a uma socialização
que atua para inibir a ambição política, atribuindo às mulheres responsabili-
dades maiores ou até mesmo exclusivas pela vida doméstica. Ratifica-se, dessa
forma, a histórica marginalização no mundo do trabalho “a contraface de sua
domesticidade e dificulta a construção de redes que apoiam, promovem e fi-
nanciam a atuação política” (BIROLI, 2013 p. 133-134) das mulheres.
Nesse cenário, os meios de comunicação não são imunes e os estereóti-
pos “são reproduzidos de acordo com as rotinas produtivas dos meios de co-
municação de massa e as perspectivas sociais dos jornalistas, definindo quais
os temas e vozes que constituem as notícias” (BIROLI, 2010, p. 47). Mul-
heres políticas podem ser representadas midiaticamente de diversas formas.
Abril (1997) afirma que aquelas que atuam politicamente se enquadram, na
sua visão, como neutras, pois recebem destaque inferior ao dos homens e tam-
bém ocupam menos espaços de opinião especializada ou sobre assuntos im-
portantes: “O estereótipo a vincula com o espaço doméstico, com os assuntos
privados, deixando o homem a cargo das principais decisões do espaço pú-
blico: o governo, os assuntos macroeconômico e a liderança social” (ABRIL,
1997, p. 192 - tradução nossa176).
As mulheres possuem menos poder político e estão menos presentes nos
espaços de tomada de decisão e essa posição vincula-se ao já citado contrato
sexual, mas também a “representação do mundo social (e, em particular, da
política) feita pela mídia (e, em particular, pelo jornalismo) [que] contribui
para perpetuar tal desigualdade” (MIGUEL e BIROLI, 2011, p. 11). A mí-
dia contribui para naturalizar comportamentos e pertencimentos por meio
de palavras e imagens e também pela seleção de atores e falas, que se tornam
visíveis ou invisíveis. Um dos aspectos centrais da atuação da mídia em relação
a difusão de discursos é a legitimação de determinadas falas em detrimentos de
outras. Para Miguel e Biroli há uma correlação entre a visibilidade midiática
e as hierarquias da política, tendo demonstrado, em pesquisa empírica, que a
mídia noticiosa expõe uma visão comum da política, traduzindo-se em “[...]
um noticiário homogêneo e concentrado em personagens com perfil especí-
fico: homens, brancos, com instrução superior, ocupantes de cargos públicos
ou de confiança” (2011, p. 13). Desse modo, o jornalismo visibiliza somente
176. No original: “El estereotipo la vincula con el espacio doméstico, con los asuntos privados dejando al hombre a
cargo de las principales decisiones del espacio público: el gobierno, los asuntos macroeconómicos, el liderazgo social”

320 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


atores já inseridos no campo político, com recursos para se fazerem ver e ouvir.
Os aspectos relativos ao gênero manifestam-se no reforço dado às hie-
rarquias, configuradas como o curso natural das relações entre homens e mu-
lheres: “a presença mais acentuada dos homens na vida pública, sobretudo nos
papéis e áreas de maior relevância, organiza o noticiário sem que seja objeto de
discussão ou apareça como um problema” (MIGUEL E BIROLI, 2011, p. 14).
Veiga (2010) mergulhou na rotina de jornalistas para compreender os valores
e as concepções de gênero dos jornalistas, tendo revelado em seu estudo uma
relação direta entre o perfil profissional e o tipo de notícia produzida, sendo o
gênero determinante nessa relação. A autora explica que esta percepção não se
deve somente ao fato de os profissionais serem sujeitos constituídos de gênero,
“[...] mas também por serem as notícias igualmente hierarquizadas numa esca-
la de valores, a partir de suas características, que igualmente estavam relaciona-
das aos atributos convencionais de gênero (fortes/leves; sérias/lúdicas; risco/
cuidado, etc.)” (2010, p. 198). Assim, expõe a existência de uma hierarquia de
valores correspondentes, entre pautas e repórteres, estando as concepções de
gênero presentes na idealização das matérias e na escolha de que jornalistas
iriam realizá-las. Com a pesquisa de Veiga, demonstra-se o enraizamento de
estereótipos de gênero e as formas como eles atuam nas representações midiá-
ticas das mulheres, inclusive as que ocupam os espaços políticos.

Por que a primeira-dama é pauta?

O presente trabalho investiga a cobertura sobre a primeira-dama, Mar-


cela Temer, no site da Folha de S. Paulo. A partir do sistema de busca do por-
tal177, consultamos as palavras-chave178 primeira-dama e Marcela Temer, to-
talizando 179 notícias. Excluímos os links repetidos1798, as notícias de outros
veículos, reproduzidas no site da Folha, e as assinadas pelo Sensacionalista180,
definindo o corpus de análise desta publicação em 119 publicações.
À luz dos estudos sobre valores-notícia e dos princípios metodológicos
da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2011, p. 47) analisou-se a cobertura so-
bre a primeira-dama a partir das características encontradas nas 119 notícias
selecionadas. A AC, segundo a pesquisadora francesa, consiste em um con-
177. Foi observado o período entre 31 de agosto de 2016 até 31 de dezembro de 2017.
178. A consulta foi realizada em maio de 2018.
179. Em seções como o Painel e Colunista, o sistema de busca duplica os links quando há mais de uma referência às
palavras-chave, ainda que esteja no título e no corpo de texto
180. O sensacionalista se autointitula um site “isento de verdade”, sendo marcado pelo suas postagens de humor.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 321


junto de técnicas de análise que usa mão de “procedimentos sistemáticos e
objetivos de descrição do conteúdo das mensagens” que viabilizam “a inferên-
cia de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis
inferidas) destas mensagens”. Isto é, constitui-se como uma metodologia de
sistematização de unidades de registros que permitem identificar os “núcleos
de sentidos”, as estruturas e características escondidas em um texto jornalístico,
por exemplo.
Orientado pelos procedimentos de categorização e interpretação de da-
dos da Análise de Conteúdo, categorizou-se as notícias selecionadas conforme
os valores-notícias predominantes à cobertura e a visibilidade, notoriedade e
representações sobre Marcela Temer. Inicialmente, examinou-se a presença e
ausência destas categorias. Posteriormente, observou-se a frequência, revelan-
do quais os elementos mais regulares que legitimam a cobertura sobre a pri-
meira-dama. Em uma primeira análise, o corpus foi dividido em dois grandes
grupos, de acordo com a visibilidade dada à Marcela Temer, seja como perso-
nagem central, o que ocorreu em 55,5% dos casos, ou como personagem se-
cundária – quando sujeita ou vinculada à outros personagens, como o marido,
Michel Temer – que ocorreu em 45,5%.
Em seguida, identificou-se os valores-notícia (SILVA, 2014) predo-
minantes à cobertura: Proeminência (100%), Polêmica (64,7%), Governo
(38,7%), Justiça (21,8%), Entretenimento (19,3%), Raridade (16%), Tragédia
(13,4%) e Impacto (11,8%). Observados esses atributos, foram estruturadas
quatro novas categorias que incorporam as características dos acontecimentos
em que Marcela Temer é pauta às particularidades dos estudos sobre gênero.
Devido à notoriedade de Marcela Temer por ser primeira-dama, os textos mar-
cados predominantemente pelo valor-notícia de Proeminência foram classi-
ficadas nas seguintes categorias nativas que sobressaíram da amostra: 1) pri-
meira-dama, quando Marcela Temer acompanha o presidente ou em agendas
próprias de sua função; 2) gestora pública, quando trata-se de sua importância à
políticas públicas, no caso, o Criança Feliz; e 3) mulher, quando são abordadas
suas atribuições privadas e familiares – mulher, mãe, esposa, filha.
As pautas que abordaram Marcela Temer como mulher foram maioria.
Para compreender as nuances dessas notícias aplicamos para nossa análise as
categorias de Biroli (2010) usadas para discutir a representação que as revistas
brasileiras fizeram de Dilma Rousseff, Heloísa Helena, Marina Silva e Marta
Suplicy entre 2006 e 2007. A primeira delas é Personalidade e Feminilidade,
destacando a personalidade das personagens, que se entende, em sentido am-

322 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


plo, como “[...] um modo de ser próprio a um determinado indivíduo, que o
caracterizaria, incluindo o que se costuma chamar de temperamento, assim
como comportamentos, hábitos e gostos” (2010, p. 287). A segunda é a Corpo-
ralidade, que envolve as “referências aos corpos das personagens, com destaque
para a aparência física” (2010, p. 290), sendo tais referências uma forma de
representar a existência pública das personagens. A terceira é a vida privada,
que consiste “em menções a aspectos da vida entendidos comumente como do
âmbito pessoal, íntimo, doméstico, afetivo, não-público” (BIROLI, 2010, p.
294).

Os papéis oficiais de Marcela Temer: primeira-dama versus gestora

Vago desde que Marisa Letícia deixou a função em 2010, o posto de


primeira-dama voltou a ser ocupado em 31 de agosto de 2016 por Marcela
Temer, com o desafio de ser embaixadora do programa governamental Criança
Feliz181. O programa foi pauta em 17 das 119 notícias que a mencionaram.
Nesse ínterim, as quatro pautas mais abordadas tiveram relação, por ordem de
ocorrência, com temas relacionados à censura182 (25,2%); eventos presidenci-
ais (16,8%), vida pessoal (15,1%) e Criança Feliz (14,4%). Aparecem ainda o
estilo de vida (10,9%) e a clonagem do celular (6,7%) da primeira-dama.

Tabela 1. Tipo e Frequência da Proeminência

Fonte: Elaboração própria.

Em meio às notícias que abordam atividades do âmbito pessoal e as agen-


das oficiais, Marcela é pauta predominantemente pela sua importância ao nú-
181. O Programa Criança Feliz foi lançado em outubro de 2016.
182. As pautas sobre censura respondem a um curto período de tempo: 10 a 18 de fevereiro de 2017, quando o veí-
culo publicou uma série de notícias sobre a suposta censura que estaria sofrendo. A pedido do Palácio do Planalto, a
21ª Vara Cível de Brasília concedeu liminar obrigando a retirada de reportagem que detalhava a tentativa de extorsão
contra a família Temer por um hacker que assumiu ter clonado o celular de Marcela.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 323


cleo familiar. Em 55,4% do noticiado, ela é representada no perfil de mulher,
englobando seu papel de mãe, irmã e filha. Em 32,8%, prevalece-se o status de
“primeira-dama”, enquanto em outros 11,8% retratam a função de gestora públi-
ca. Nota-se que os fatos sobre a intimidade de Marcela são superiores à soma de
notícias que relatam as experiências como administradora pública e primeira-
-dama. Considerando somente as notícias em que Marcela é a personagem cen-
tral, destacamos os dados referentes às notícias com valor de Proeminência. A
ordem dos perfis permanece a mesma, tendo apenas um leve aumento. Assim, o
seu papel de mulher continua o mais destacado, com 60,6%; seguido de “Primei-
ra-dama”, com 21,2%; e, por último, a “Gestora”, com 18,2%.
Sendo gestora, assume uma postura de protagonista perante o “Criança
Feliz”, para o qual foi escolhida como embaixadora. O jornal, ainda que aborde
as polêmicas em torno do programa social, mostra Marcela Temer como coor-
denadora dessa política social, responsabilizando-a pela agenda e efetivação,
num movimento de certa forma contraditório entre as “Marcelas” expostas e
os comportamentos cobrados mais frequentemente na cobertura.

A Marcela mulher

Como dissemos anteriormente, mesmo as referências à Marcela primeira-


-dama revestem-se do caráter privado, de seus gostos e personalidade, ainda que
ela seja tomada como personagem secundária dessas notícias. Apresentamos ago-
ra as categorias utilizadas por Biroli (2010) para expôr formas de representação
de mulheres que ocupam espaços políticos. Veja a comparação na Tabela 3.

Tabela 2. As representações de Marcela como mulher

Fonte: Elaboração própria.


A partir dos valores expostos, detalhamos as categorias a seguir.

324 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


Corporalidade

Demarcada pela referência ao corpo, a “corporalidade” se encontra em


17,6% do total de notícias. Em 21 dessas ocasiões, a beleza de Marcela aliada
ao seu vestuário é estampada no jornal. Em destaque, o estereótipo de uma
primeira-dama na casa dos 35 anos, apresentada como uma mulher com re-
quinte e que atende aos padrões da moda.
Protagonista em 12 notícias das quais foi personagem central, a natureza
física de Marcela é mostrada em ocasiões diferentes. Evidenciada pela capa da
revista Veja, a frase “bela, recatada e do lar”, ganha vida em coluna183 com tom
crítico ao Governo Temer. Aqui, mesmo em em primeiro plano, é subordinada a
figura do marido. A sua aparência também ganha destaque em reportagem que
conta a tentativa de suborno, onde ameaçavam divulgar suas fotos familiares –
segundo especulação da reportagem, seriam imagens íntimas de Marcela Temer.
Em outras ocasiões, e com maior frequência, ela é comparada a outras
primeiras-damas e ganha centralidade na comercialização de roupas femininas.
Para além de uma comparação entre o comportamento esperado de uma pri-
meira-dama, Marcela Temer é associada à beleza de outras mulheres na mesma
função. Em matéria184 no caderno Mundo sobre Melania Trump, ex-modelo e
primeira-dama estadunidense, Marcela Temer é intitulada como “exemplo de
‘primeiro-damismo’ sexy e ocidental”. No mesmo patamar, também citam a
francesa Carla Bruni e a mexicana Angélica Riveira, reforçando visões de beleza
e estilo de vida estereotipadas (ABRIL, 1997). Seus atributos físicos ainda se
submetem a um mercado segmentado com forte impacto ao mundo feminino:
a moda. Sua beleza é associada a um vestido utilizado em cerimônia do Dia da
Independência. A jornalista Mônica Bergamo185, em sua coluna, afirma que a
peça no valor de R$ 618 tinha se “tornado febre entre clientes de grife”.

Personalidade de feminilidade

Com foco nos hábitos e gostos que compõem a personalidade ou modo


de ser de um indivíduo, a Personalidade e feminilidade de Marcela Temer apa-
rece em 32,8% das notícias (39), trazendo-a como personagem central em 12
delas. De recatada à uma figura disciplinada, com capacidade de oxigenar o
183. “Primeira-dama! Tudo loira!”. Veiculada no dia 11 de outubro de 2016.
184. “Estilo da família de Donald Trump levará mais ‘flashes’ à Casa Branca”. Veiculada no dia 16 de novembro de 2016.
185. “Vestido de R$ 618 usado por Marcela Temer vira febre entre clientes de grife”. Veiculada no dia 09 de novembro de 2016.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 325


governo, a personalidade de Marcela é representada entre a posição social de
esposa e mãe e de uma primeira-dama com protagonismo político. A “bela,
recatada e do lar” é abordada pelo seu recato que acompanha a personalidade
de ser de pouca conversa – pelo menos, em público. Em mais de uma ocasião,
a entrevista186 de Michel Temer no Dia das Mulheres sobre o quanto as mul-
heres fazem “pela casa, pelo lar [...] pelos filhos” é rememorada. Acentua-se
uma imagem feminina subordinada à presença masculina, cuja a responsabi-
lidade sobre a família e as tarefas domésticas pesam sobre a figura feminina.
Ainda no âmbito familiar, incorporam-se os sentimentos de Marcela
Temer ao momento vivenciado por Temer. Em meio às acusações contra o
Chefe do Poder Executivo no caso da JBS, Mônica Bergamo187 informa que
o “clima de baixo astral” dela estaria “piorando as coisas para o presidente”.
Uma associação que confunde os limites entre a esfera pública e privada, entre
a função de primeira-dama, de esposa e de ser humano. Quando em posição
com maior destaque governamental, a personalidade suave de Marcela é enfa-
tizada como um divisor de águas em relação à imagem sisuda do presidente.
Os elogios à personalidade e beleza se configuram como uma estratégia de
popularidade ao governo Federal. Reitera-se o papel de subordinada, visto o
desinteresse do Planalto em não “dar à mulher de Temer a aura de formuladora
nem de gestora de programa social”, conforme descrito pela jornalista Natuza
Nery, no caderno Poder188.

Vida privada

As menções a aspectos da vida entendidos como de âmbito pessoal, ín-


timo, doméstico, afetivo, não-público, esteve presente em 55,5% (66) do to-
tal de notícias sobre Marcela Temer. Destas, 40 notícias trouxeram-na como
personagem central. Ainda que exerça outros papéis descritos anteriormente, o
caráter pessoal é sublinhado em toda a cobertura, destacando comemorações
e datas oficiais e a vida íntima da primeira-dama e de seus familiares. Notícias
sobre a viagem de réveillon, a mudança de residência e até a vida de parentes de
Marcela Temer equivalem a acontecimentos governamentais. Uma atividade
familiar como a passagem do ano novo na base militar em Restinga de Maram-
baia é pauta da editoria Poder189, tendo como informação importante o fato
186. “Tenho convicção do que a mulher faz pela casa’, diz Temer no Dia da Mulher”. Veiculada no dia 08 de março de 2017.
187. “Temer demonstra abatimento e preocupa amigos mais próximos”. Veiculada no dia 03 de março de 2017.
188. “Governo adere ao primeiro-damismo para suavizar imagem sisuda e masculina”. Veiculada no dia 06 de outubro de 2016.
189. “Temer tira folga e viaja para Réveillon em base militar no Rio”. Veiculada no dia 29 de dezembro de 2016.

326 Leonel Aguiar, Marcos Paulo da Silva e Monica Martinez (orgs)


de a primeira-dama ter pedido para que a “folga” do presidente se estendesse
até o dia quatro de janeiro. Em outra ocasião, a decisão da família em se mu-
dar para o Palácio Alvorada ganha tons particulares. Ao informar, no caderno
de política190, sobre a reforma e as vontades de Marcela Temer ao mobiliar o
quarto do filho “Michelzinho”, tenta-se conceder dimensão pública a um mo-
mento privado; fato repetido quando Mônica Bergamo191 notícia que a irmã
de Marcela publicou mensagem com “pedidos” para a eleição.
Marcela Temer, em seu âmbito pessoal é exposta também por meio de
reportagem sobre sua mãe. Intitulada “Bela, animada e da balada: como a sogra
de Michel Temer se diverte”21, a matéria é um exemplo. Acompanhando uma
festa de pré-carnaval que Norma Tedeschi participou, a repórter especializada
em coluna social apela para particularidades de uma vida social. Relatando o
horário que foi embora, o estilo de roupa que ela e seus acompanhantes ves-
tiam, as selfies que tirou e o ritmo que a levou para a pista de dança. Tenta a
todo custo criar uma familiaridade que gere interesse pela notícia. Chamando-
-a de “primeira-sogra” e com aspas em que Norma Tedeschi brinca dizendo ter
a permissão da “filha e genro”, reproduz-se um comportamento aceitável de
uma mulher e mãe de uma primeira-dama, subordinada à filha e seu marido.
A vida social de um parente de Marcela Temer acarreta uma curiosidade, no-
vamente, trazendo a cobertura jornalística para o cunho pessoal. Em nenhum
momento dentro do escopo analisado noticiou-se, por exemplo, sobre a mãe
do próprio presidente ou qualquer familiar dele em atividades particulares.

Considerações finais

O padrão de cobertura do veículo revela uma preferência por represen-


tar o lado pessoal de Marcela Temer. Notória pelo papel de primeira-dama, as
atribuições privadas e familiares dela recobrem as pautas que venham a con-
ceder um papel de maior protagonismo governamental. Do total de notícias
envolvendo seu nome, a primeira-dama aparece como personagem central em
55,5% delas. Contudo, quando olhamos de forma mais minuciosa as pautas
abordadas, percebe-se que 40,3% delas são compostas majoritariamente de
aspectos de sua vida pessoal. Faz-se relevante destacar que é Marcela Temer
quem protagoniza todas as notícias que envolvem a vida privada da família
Temer, reiterando a associação entre as mulheres e ambiente doméstico, fami-
190. “Temer se mudará para o Alvorada após adaptar quarto para Michelzinho”. Veiculada no dia 14 de outubro de 2016
191. “Irmã de Marcela Temer posta mensagem com pedidos para a eleição”. Veiculada no dia 29 de setembro de 2016.

Desigualdades, Relações de Gênero e Estudos de Jornalismo 327


liar, enquanto os homens se aventuram no mundo político e não dispõem de
tempo para a vida doméstica. O mesmo não ocorre, contudo, nas pautas que
tratam da participação de Marcela Temer em eventos presidenciais, nas quais
aparece de forma subordinada ao presidente, nesses casos como personagem
secundária. Na função de primeira-dama, Temer é representada como esposa
do presidente, com um estereótipo de beleza e fiel ao comportamento espe-
rado para o cargo. Em pauta, sua forma de se vestir e de se portar, a presença
junto de Michel Temer em agendas oficiais, ações beneficentes e cerimônias
típicas da função. Aqui, exerce um papel institucional de subordinação à figura
presidencial que remete às discussões do contrato sexual de Pateman (1993) e
demarca uma cobertura que corresponde às expectativas normativas de com-
portamento, como destaca Biroli (2010). Entre o papel público (gestora e pri-
meira-dama) e o papel privado (mulher), vislumbramos pistas do que seriam o
contrato social, de liberdade masculina, e o contrato sexual, de sujeição femi-
nina, atendendo ao “direito”do patriarcado, no qual Matos e Paradis (2014),
identificam que as mulheres são hierarquicamente subordinadas aos homens,
justamente pela dicotomia público-privado.
Nos casos em que é abordado o programa social Criança Feliz, a abor-
dagem não varia. Em nenhum momento há a discussão sobre o impacto de
tal política social ou uma análise aprofundada sobre a sua proposta. Inclusi-
ve, o próprio programa pode ser interpretado de uma perspectiva maternal
e feminina, socialmente estabelecida, de cuidado com o outro (nesse caso as
crianças), sempre normativamente associado às mulheres. Percebe-se ainda
que há uma priorização dos conflitos e polêmicas que e