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História da Língua Portuguesa UNIDADE 02 AULA 05

Alessandra Gomes Coutinho Ferreira


Joseli Maria da Silva
Rosa Lúcia Vieira Souza
Rosângela Vieira Freire

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

A produção literária
galego-portuguesa

1 Objetivos da aprendizagem

„„ Conhecer as poesias conservadas nos cancioneiros


medievais e sua importância sócio-histórica;
„„ Compreender a complexidade da língua galego-
portuguesa através dos textos literários;
„„ Identificar os arcaísmos que apontam o passado da língua literária.
A produção literária galego-portuguesa

2 Começando a história

Na aula anterior, estudamos os vocabulários herdados de outros idiomas que


enriqueceram a língua portuguesa e os processos gramaticais que caracterizam
a morfologia. Nesta aula, destacaremos os textos literários galego-portugueses
que têm como base os falares da Galícia e do norte de Portugal e que foram
produzidos durante um período de aproximadamente 150 anos, isto é, do final
do século XII a meados do século XIV.

Esses textos literários ficaram conhecidos como cantigas trovadorescas, por


serem poesias cantadas, produzidas por um trovador que compunha não só a
poesia como a melodia das cantigas. Historicamente, essas produções literárias
coincidem com a nacionalidade da Península Ibérica, formalizando uma nova
língua falada que difere do latim. Essa arte trovadoresca galego-portuguesa
origina-se da arte dos trovadores provençais, surgida no sul da França, no início
do século XII, que cantavam o sofrimento amoroso — cantigas de amor — e
transcenderam-na através de outros tipos de cantigas, como as cantigas de
amigo. Este conteúdo também é contemplado na disciplina Literatura Portuguesa
I, pois não se pode compreender a história da língua portuguesa sem levar em
consideração o estudo dos textos literários.

Você, caro aluno, deve estar se perguntando: como essas cantigas transmitidas
oralmente chegaram até nós, em uma época em que inexistia a imprensa? E como
era a língua literária desses textos? Para responder a esses questionamentos,
faz-se necessário conhecer os cancioneiros que conservaram a diversidade da
poesia trovadoresca.

3 Tecendo conhecimento

Os cancioneiros medievais portugueses representam, documentalmente, o


primeiro período da história da língua portuguesa. Silva (2006, p. 25) pontua
que “a poesia trovadoresca mostra certa unidade que levou a denominá-la de
língua galego-portuguesa”. Essa “documentação poética” é constituída por dois
grandes tipos de cancioneiros: o cancioneiro profano e o cancioneiro religioso,
também conhecido como mariano.

O cancioneiro profano é constituído por três grandes cancioneiros, o Cancioneiro


da Ajuda, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa e o Cancioneiro da Biblioteca
Vaticana, pois o Livro de Trovas de D. Afonso ou El-Rei e o Livro de Trovas de D. Dinis
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se perderam ao longo do tempo. São textos literários de uma longa tradição


oral divulgada por trovadores e jograis, o que revela que o conhecimento dessa
época pertencia ao ouvido.

De acordo com Lopes (2011), o Cancioneiro da Ajuda é um rico manuscrito


inacabado, pois algumas de suas iluminuras estão com a pintura incompleta
e outras apenas com os traços de desenhos. Possui 310 cantigas de um único
gênero: as cantigas de amor. E sobre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional e o
Cancioneiro da Vaticana, o autor afirma:
Os outros dois manuscritos, conhecidos como Cancioneiro
da Biblioteca Nacional (também chamado Cancioneiro
Colocci-Brancuti, o mais completo, guardado em Lisboa,
na BNP) e Cancioneiro da Vaticana (guardado na Biblioteca
Apostólica Vaticana), são manuscritos copiados em Itália,
nas primeiras décadas do século XVI, sob as ordens do
humanista Angelo Colocci, e a partir de um cancioneiro
anterior, muito certamente medieval, hoje desaparecido.
Uma das cópias mandadas fazer por Colocci destinar-se-ia
a uso próprio (como parecem comprovar as numerosas
anotações que faz nas suas margens), enquanto a outra se
destinaria eventualmente a qualquer oferta. (LOPES, 2011).

As figuras abaixo retratam um fólio do Cancioneiro da Ajuda e um fólio do


Cancioneiro da Biblioteca Nacional em que fora fixada a cantiga de amor Que hoje
maior coita tem, de Vasco Praga de Sandim.

Figuras 1 e 2
Cancioneiro
da Ajuda e
Cancioneiro da
Biblioteca Nacional

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A produção literária galego-portuguesa

Para conhecermos um pouco sobre a língua literária galego-portuguesa, vamos


ler a transcrição dessa cantiga.

Quem hoje maior coita tem

Vasco Praga de Sandim

Glossário
Quem hoje maior coita tem
d’amor eno seu coraçom Coita – sofrimento, mágoa
de quantos Del cuitados som, Cuitados (coitado) – infeliz, triste
Nostro Senhor lhe ponha i Lhe ponha i conselho – lhe dê
conselho,se a El prouguer, remédio para isso
atal per que lha tolha em.
Prouguer – aprouver, agradar
E creed’ora ũa rem: atal per que lha tolha em – (remédio)
ca nom é outre se eu nom, tal que lha tire
que mi a tive dê’la sazom Rem – coisa
que eu primeiramente vi,
Ca – que
per bõa fé, atal molher,
que dá mui pouc’ora por en. dê’la sazom – desde o momento
per bõa fé – fórmula de juramento
Mais pero, enquant’eu viver, (realmente, por Deus)
sempre a já mais amarei por en – por isso
doutra cousa, e rogarei,
mais – mas
o mais que eu poder rogar,
a Deus que El mi a leix’oir pero – no entanto, contudo
falar e mi a leixe veer. doutra coisa – mais do que qualquer
outra coisa
E se o Ele quiser fazer oir – ouvir
log’eu coita nom sentirei;
ca – pois, porque
ca ainda vos mais direi:
logo mi haverei a quitar logo mi haverei a quitar/de nunca já
de nunca já coita sentir coita sentir – logo deixarei de sentir coita
enos dias que eu viver.

A cantiga de amor revela um eu-lírico masculino questionando quem sente o maior


sofrimento amoroso em seu coração. Ele roga os cuidados divinos para que essa
dor passe logo, pois, desde que viu “a tal mulher”, apaixonou-se perdidamente,
exaltando que, enquanto viver, irá amá-la perdidamente. E só deixará de sofrer
se assim Nosso Senhor permitir. A coita amorosa é tema comum das cantigas de
amor, pois retratam amores proibidos, porque as damas desejadas eram casadas,
o que provocava todo o lamento do eu-lírico.

Segundo Tavani (1988, p. 21), mais de 1.679 poemas chegaram até nós, pertencentes
a três grandes gêneros poéticos: cantigas de amor (poemas mais cultos, de
influência provençal, nos quais falam vozes masculinas que sofrem por um amor
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não correspondido); cantigas de amigo (poemas também de amor, com traços


populares, em que falam vozes femininas); e cantigas de escárnio e maldizer (poemas
satíricos, algumas vezes muito grosseiros). A especificidade da produção poética
apresenta uma diferente utilização da língua, isto é, a língua dos trovadores
medievais representa uma estilização da língua falada dos dois lados do rio
Minho e preserva arcaísmos e convencionalismos literários.

Arcaísmos Figura 3

São palavras ou expressões antigas que


caíram em desuso. Ao estudar a língua,
podemos nos referir aos arcaísmos
linguísticos – em que verificamos traços
fonéticos, morfológicos, sintáticos e
léxicos antigos na língua – e aos arcaísmos
literários – que podem ser visualizados
nas obras literárias como um recurso de
estilo. Ambos são expressões da época
em que foram escritos.

As palavras do glossário da cantiga Quem hoje maior coita tem revelam alguns dos
arcaísmos literários presentes nessa cantiga. Em relação à antiguidade dos textos
literários, o Cancioneiro da Ajuda é o mais antigo, mas não o mais importante.
O Cancioneiro da Ajuda foi copiado em fins do século XIII
ou princípios do século XIV. Embora seja o mais antigo dos
códices de poesia profana, é ele o menos rico quanto ao
número de textos conservados, largamente superado no
particular pelo Cancioneiro da Vaticana e, principalmente,
pelo Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (antigo
Colocci-Brancuti), copiados ambos na Itália, provavelmente
nos primeiros anos do século XVI. (TEYSSIER, 1997, p. 21).

Teyssier (1997) mostra a importância dos copistas na conservação dos textos


literários, pois foram textos transmitidos por uma tradição manuscrita, produzidos
nos conventos, que sobreviveram até nossos dias à custa de cópias que os foram
progressivamente modificando. Portanto não podemos esquecer as pontuações
de Silva (2006, p. 36) sobre a evolução das cópias:
não se pode perder de vista que os códices do século XVI
foram copiados na Itália e têm de ser avaliados, considerando
as possíveis modificações linguísticas introduzidas ao longo
do tempo, o que os distingue do códice ducentista do
Cancioneiro da Ajuda. (SILVA, 2006).
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A produção literária galego-portuguesa

Códice

Palavra originária do latim codex. Seu significado remete ao que se


compreende como livro, isto é, na Idade Média, representava os manuscritos
gravados em madeira. É um suporte da escrita que substituiu o rolo de
pergaminho e mais tarde foi substituído pelo livro impresso.

Os copistas tentavam representar foneticamente os sons das palavras que


escreviam. Muitas vezes cometiam erros e duplicavam a grafia, dependendo do
ouvido e do conhecimento de cada um. Em alguns textos literários, verifica-se
o mesmo som grafado de diferentes maneiras. Eis alguns exemplos:

Cãaes – cães

Caualeyro – caualleiro

O – ho

Em cyma – em cima

Bacharees – bachares

A vos – a uos

Segundo Hauy (2008, p. 99), a colocação dos termos na oração obedecia, na


maioria das vezes, à ordem indireta. Para ele, “era comum a posposição do sujeito
ao verbo e a anteposição do complemento verbal”. A fim de verificar a afirmação
de Hauy, analisaremos a “Cantiga Paralelística”, de Martin Codax. Esse tipo de
cantiga representa uma produção poética de caráter folclórico, em que vozes
femininas exercem papel fundamental na estrutura dos versos.

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Cantiga Paralelística
Martin Codax Glossário

Eno sagrado, em Vigo Eno – no


Baylava corpo velido:
Amor ey! Sagrado – “lugar sagrado”, nesse caso
seria o adro da igreja, possivelmente, a
En Vigo, no sagrado primitiva igreja de Santa Maria de Vigo,
Baylava corpo delgado:
na Galiza. Nesses lugares, costumavam
Amor ey!
bailar as jovens casadoiras.
Baylava corpo velido,
Vigo – antiga vila de Vigo, na Galiza;
que nunca ouver’ amigo:
Amor ey! importante cidade portuária.

Baylava corpo delgado, Corpo velido – pessoa formosa


que nunca ouver’ amado:
Delgado – fino, delicado
Amor ey!
Ouver’ – houvera
Que nunca ouver’ amigo
Ergas no sagrad’, em Vigo: Amigo – namorado, amado
Amor ey!
Ergas – exceto, salvo
Que nunca ouver’ amado
ergas em Vigo, no sagrado:
Amor ey!

Segundo Hauy (2008, p. 109), as cantigas “paralelísticas mais primitivas apresentam


um tema puramente circunstancial, sem continuidade narrativa e, muitas vezes,
com o refrão sem nexo semântico com a estrofe”.

Além dos cancioneiros profanos estudados, outro tipo de cancioneiro se destaca


no período analisado. Trata-se do cancioneiro religioso ou cancioneiro mariano.
Este apresenta um conjunto de mais de 420 cantigas religiosas, de louvor à
Virgem Maria e da narrativa de seus milagres, atribuídas ao rei de Leão e Castela,
Afonso X, o sábio, a partir de 1252. Essas cantigas foram escritas em uma língua
complexa, baseada nos falares da Galícia e do norte de Portugal, nas quais se
verifica o uso de arcaísmos.

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A produção literária galego-portuguesa

Afonso X, o sábio

Rei de Castela e Leão, de 1252 a 1284; teve um importante papel na


evolução cultural europeia, legando-nos uma vasta obra poética, histórica,
científica e jurídica. De sua obra poética, têm-se as cantigas profanas e as
cantigas de Santa Maria.

Figura 4
Afonso X,
o sábio, e
sua corte.

Exercitando

1) Ao lermos cantigas medievais, podemos encontrar variantes literárias de


uma mesma cantiga. Como se pode explicar esse fato?

2) Diferencie o cancioneiro profano do cancioneiro religioso enfatizando o


uso da língua.

3) Releia a cantiga “Quem hoje maior coita tem”, de Vasco Praga de Sandim,
e destaque exemplos de arcaísmos linguísticos.

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4 Aprofundando seu conhecimento

Esse passeio pela produção literária Figura 5


galego-portuguesa convida-nos a
conhecer outras poesias do período
estudado que, no espaço desta aula,
não foram contempladas. Há uma
base de dados disponível on-line aos
investigadores da língua portuguesa
e ao público em geral, que apresenta
a totalidade das cantigas medievais
presentes nos cancioneiros galego-portugueses, com as imagens presentes
nos manuscritos, bem como a música (quer medieval, quer versões
contemporâneas que tomam os textos das cantigas medievais como
ponto de partida).
Figura 6
Se a intenção for conhecer um pouco mais sobre
a história dos cancioneiros medievais, o livro de
Osvaldo Humberto e Leonardi Ceschin apresenta
informações importantes sobre a sociedade
ibérica medieval, bem como a análise de trinta
e três cantares (cantigas de escárnio e maldizer),
exibindo os detalhes dos aspectos do cotidiano
de uma complexa sociedade que vivenciava
profundas transformações.

5 Trocando em miúdos

Os dados literários fornecidos pela documentação dos cancioneiros medievais


são considerados como representantes da manifestação da variante literária
poética da primeira fase do português arcaico. Percebemos que os primeiros
textos literários foram transmitidos oralmente e depois fixados através da escrita
pelas mãos dos copistas medievais. E por esse motivo, encontramos tantas
variantes ortográficas, muitas vezes em uma mesma poesia, pois a grafia era
essencialmente fonética.

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A produção literária galego-portuguesa

A análise das cantigas de amor e de amigo demonstraram muitas palavras que


caíram em desuso – os arcaísmos – e seu estudo contribui significativamente
para a compreensão da evolução da língua galego-portuguesa, que mais tarde
será subdividida em galego e em português. O conjunto da lírica medieval
galego-portuguesa é essencial para o conhecimento do léxico da época e para
o estudo dos fatos fonéticos desse período.

6 Autoavaliando

Ler cantigas medievais portuguesas não é tarefa fácil, pois estamos diante de
uma língua que em muito difere da língua portuguesa do Brasil. Como estudiosos
dessa língua, somos desafiados a desbravar as fronteiras linguísticas e literárias
dos cancioneiros profanos e religiosos versados em galego-português.

Com o intuito de verificar a complexidade dessa língua e a importância sócio-


histórica, analise a cantiga abaixo apontando o tipo de cantiga, o conteúdo
temático e palavras ou expressões que caíram em desuso.

Cantiga d’Amor
Afonso X, o Sábio Glossário

XXVII Par Deus – fórmula de juramento


corrente nos textos arcaicos
Par Deus, senhor, Senhor – senhora
enquant’eu ffor Ffor – estiver
de vós tam alongado, Alongado – distante
nunc(a) em mayor Coyta – pena, sofrimento
coyta d’amor, Coytado – cheio de sofrimento
nen atam coytado Atam – tão
foy eno mundo Foy – houve, existiu
por sa senhor Sa – sua
homen que fosse nado, Fosse nado – nascido
penado, penado Nulha ren – coisa alguma
Ssem – sentido, senso comum
Se [n] nulha ren Guisado – justo, inevitável
sen vosso ben, Ca – porque
que tant’ey desejado Hu – onde
que já o ssem Afficado – atormentado
perdi por em, Ouve gasalhado – tive consolação
e viv’ atormentado,
ssem vosso bem,
de morrer en
ced’ é muy guisado,
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penado; penado.

Ca, log’aly
hu vos em vy,
fuy d’amor afficado
tam muyt’ en mi
que non dormi,
nen ouve gasalhado
e, sse m’este mal
durar assy,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.

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Referências

CARDEIRA, Esperança. O essencial sobre a História do Português. Lisboa:


Editora Caminho, 2006.

HAUY, Amini Boainain. Séculos XII, XIII e XIV. In: História da Língua Portuguesa.
Segismundo Spina (Org.). Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2008.

LOPES, Graça Videira; FERREIRA, Manuel Pedro et al. (2011). Cantigas Medievais


Galego Portuguesas [base de dados on-line]. Lisboa: Instituto de Estudos
Medievais, FCSH/NOVA. Disponível em: <http://cantigas.fcsh.unl.pt>. Acesso
em: 10 jul. 2013.

SILVA, Rosa Virgínia Mattos e. O português arcaico: fonologia, morfologia e


sintaxe. São Paulo: Contexto, 2006.

TAVANI, G. Ensaios portugueses: filologia e linguística. Lisboa: IN – CM, 1988.

TEYSSIER, Paul. História da Língua Portuguesa. Tradução de Celso Cunha. São


Paulo: Martins Fontes, 1997.

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