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2074
o uYro pe job
Obras do traductor

E d it a d a s por LELLO & I RI HAO:

O Problem a Agricolo . . . / v„¡ hr. 600, encad. 800


Estudos historíeos e economicos 1
, i¡
In tro d u c to ao problem a do tre-

balho nacional . . . . I „ „ 400, „ m

Carestia da vida nos campos. . / „ „ 800, „ IfOOO


Do « U ltim atum » ao 31 de Janeiro I

NO PRELO:

Agricultura e tributando. 1 voi.


n 4 r i

l i y 'R O P E J O B
TRADU CQÁO E M VERSO

POR

R a z i l i o T e l l e s

L IV R flR iñ C H R R D R O N , d e L e llo & Irm a o .

e d it o r e s — R ú a d a s C a r m e lit a s , 1 4 4 , P O R T O

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INDICE

Cap. da Vg. Pag.


EXPLICAÇÀO P R E V I A ....................... VII
Prologo. I . . . 1
II . . . 5
i . ° discurso de J o b ....................... Ili . . . 9
» » » E lip ha z . . . IV . . . 13
» » » * . . . V . . . 16
2.° » » J o b ...................... VI . 20
>» » » » ....................... V II . . . 24
1.° » » Bi l d a d . . . . V III . . . 27
3.o » » J o b ...................... IX . . . 30
» » X . . . 34
1.° y> » S o p h a r. . . . XI . . . 33
4.° » » J o b ...................... X II . . . 41
» » XIII . . . 44
» » » » ................ X IV . . . 48
2.° » » E l ip h a z . . . XV . . . 52
5.° » » J o b ....................... XVI . . . 57

» » » » ................ XV II . . . 60

2.° » » B i ld a d . . . . X V III . . . 63

6.° » » J o b ....................... X IX . . . 66
C a p . d a Vg. P ag.

2 .° discurso de S o p h a r . . XX . . . 70
7.° * » Jo b . . . XXI . . . 74
3 .° » » E lip h a z . X X II . . . 79
8.o * Job . . . X X II I . . . 83
» » » » . . . X X IV . . . 85
3.° » B ild a d . . XXV . . . 90
9.° » » Jo b . . . XXVI . . . 91
j> » » » . . . X X V II . . . 94
* » » » . . . . X X V III . . . 97
* » » » . . . X X IX . . . 101
* » » » . . . XXX . . . 104
9 » » » . . . XXXI . . . 108
1.® » » D eus. . . . X X X V II I . . . 115
* * * » . . . . X X X IX . . . 121
2.o » » . . . XL . . . 125
* * » » . . . XL I . . . 128
R é p lic a d e Job ............................ X L II . . . 133
E p ilo g o . . ............................ » . . . 134
D is c u rso d e E liliu . . . . . X X X II a X X X V II 139 a 162
165
174
174
0 L iv ro de J o b (estudo) 175
E x p l i c a g a o p r e v i a

L iv r o DE J o b fo i co m po sto em hebraico p o r um
ju d e u desc o nh c c id o , entre p rin c ip io s d o seculo
v iii e fins d o s ecu lo v n antes d a era christá.
0 o rig in al e as c o p ia s q u e , porventura, d ’elle
se tivessem tira d o n ’essa e pocha devem con­
s id e r a r s e d efinitivam ente p e rd id o s p ara nós.
O ún ico texto que p o s su im o s , c u ja authentici-
d ad e , po rtanto, n ao é po ssive l estabelecer pelo
processo tra d ic io n a l d o co nfronto de manus-
criptos s im ila re s , é o d e n o m in a d o massoretico.
S ob re esse texto ú n ic o se fi zeram as d u a s tra­
duces classicas, a d os Setenta, d o canon
grego, e a d a V u lg a ta , d o can on la tin o ; sobre elle tém in c id id o
as in v e s tig a r e s d os exegetas e d os críticos m o d ern os, a com e­
a r ñ a s de S p in o z a .
C o n sta, na m a io r parte, d ’um a série de pa ra b o la s, o u d is ­
cursos sentenciosos em lin g uag em rythm ica, postas n a bócca de
div e rso s personagens, e d ’ urn prefacio e e p ilo g o curtos, em prosa,
r e p ro d u c id o v e ro s ím il, e m b ora m u tila d a p o r certo, d ’ um a lenda
em q u e J o b representava o papel de pro tago n ista. Ex ceptuando
a d ’E lih u , in te rp o la d a m ais tarde , que re p ro d u zim o s p o r essa
razáo em a pp en d ice , e feitas a lg u m a s reservas ácerca d os qua-
dro s finaes d e sc rip tiv o s de B e h e m o th e L e v ia th a n , a lé m d ’ um a
ou o u tra passagem , in d ic a d a s n a a ltu ra d evid a p o r n otas, 6
p o s itiv o estarm os em frente d ’ um traslad o authentico d o tra-
b a lh o p r im itiv o d o auctor,
P e la fo rm a e, até certo po nto , p o r tal q u a l differenciagáo
e m o v im e n to das figuras, dir-se-hia, p o is , um d ra m a ; p e la ideia,
o in tu ito , a m archa n arra tiv a, a g ra n d io sid a d e d o estylo, é talvez
preferivel qualifical-o d ’e p o p e ia : a e p o p e ia do in fo rtu n io . N o
que nao pode haver d u v id a , no e m tan to , é de que seja um poema
definidor, de q u e pertenga ao g ru p o l im it a d í s im o d a s conce-
pgóes lite r a r ia s em q u e o decalco d a p h y s io n o m ia m o ral d ’ um a
ra?a, ou d ’ um a epoclfa, resa lta fiel, co m o s seus relevos e so m ­
bras poderosam ente accentuados.
E ra intenqáo nossa aproveitar-lhe apenas a lgu n s trechos,
illu c id a tiv o s de m o dos pessoaes d ’encarar o e sp inho so p ro ­
b le m a q u e o patriarcha e o s seus a m ig o s in ú tilm e n te d e b a te m , C
q u e o p ro p rio D e u s busca ¡Ilu d ir co m in o p p o rtu n a auctoridade e
urna p o n tin h a e scan d alo sa de m á fé. C irc u m stan c ia s im periosas,
que n ao ho uv e m e io de rem over, e o d e se jo concorrente de na-
c io n a lis a r urna o b r a prim a q u a si de to d o ig n o ra d a até d a mi-
n o r ia c ulta portuguesa levaram -nos a traduzil- o n a in teg ra, e
a re d u zir a co m in e n ta rio conciso o que d e v ia ser a prim eira
parte d ’u m a o b ra p h ilo s o p h ic a que v in h a m o s d elin ean d o in
mente, h a u n s po uco s d ’annos.
C o m a in v e rsáo de proporgóes entre o nosso p a llid o estudo
e a cre ad o d o g en ial poeta q u e , sob o pse ud o n y m o de J o b ,
n o s a fíirm a ijnpetuosam ente a sua crenga, e canta com eloquen-
c ia v ir il a s u a d ó r , claro q u e s ó té m a g a n h a r os raros espi-
ritos q u e entre n ó s d isp o e m d ’e nvergad ura para desferir largos
v ó o s ña s regioes d o pe nsam ento. V a le m m u ito m a is, para esses,
as a po stro ph e s fulgurantes que o m ysterioso se m ita arranca do
co ra ^áo d ilacerad o e crente d o q u e o s árid o s raciocin io s que o
tradu ctor vae le ntam e nte a lin h a n d o no pap e l, o b s e d ia d o pelo
facto de que o m a l é in co m p re he n sive l, d e r o g a d o desconcer­
tante á coherencia h a rm o n io sa que a i n t u i d o e a razáo hum anas
se obstin aram sem pre em a ttrib u ir á natureza.
N a o se q u e ira ver n ’estas palavras urna a b e r r a d o d o bom
gosto, nem o e n thu siasm o ficticio d ’ um arclieologo d a s lettras
que ph a n ta sia b e lle za onde o te m p o, no seu d o b a r vagaroso,
d evorou a frescura e o c o lo rid o . L ateja n o livro de J o b m ais
seiva, m ais v id a , e até m ais p u ra arte d o q u e 11a a llu v iá o de
«flores brancas» que a nossa litteratura an e m ia d a s ’entretem a
respigar, m ó rb id am e nte , n o s registos d os ho spitaes e n o s ca-
dastros d a s prisOes. A d ó r que b o rb u lh a nelle n áo é das que
ab atein e a n n iq u ila m , das q u e fazem d a creatura o trapo , inerte
o u co nv u lso , lam entavel ou grotesco, de m u ita s poesías e no-
ve llas actuaes, m as das que e stim u la m e e x altam , das que trans­
figuran! a v ic tim a em heroe. S ob a s u a estrin<;a m ordente
p a lp ita exuberante sa ud e, circ ula energía m o ral q u e baste a ge-
ra^óes inteiras d ’enferm ígos; e n áo erem os que exista real
b e lle za onde falta envergadura, o nd e o soffrim ento n áo acorde,
n ’a lgu em , a coragem de o com bater, se o n áo p u d é r d o m in a r.
S ó d ’este m o d o, s ó c o m o in ce n tiv o das m a is nobres virtudes
da a lm a h u m a n a , n o s parece que o m al tenha funegáo n ’ um a
o b ra d ’ arte. P e lo m e no s é in d isc utive l ser e lle o in spirad o r
d a e loq ue ncia torrencial d o in c o g n ito poeta das p arabo las.
P o r isso as traslad am o s em verso, — te n do , p o rén i, o cui-
X
t s n s x n n s S s iK s i

d a d o de previam ente o d e sp o ja r d a rim a , d a sym etria estro-


p h ic a corno em geral é c o m preh e nd ida, de q u a n to , em fim , repre­
senta m e ios secundarios d ’ expressào, p ara só lh e m anter a
p a rid a d e de sylla b a s , as d im en sò es e o system a das pausas,
fa m ilia re s aos poetas po rtug uezes. R e d u z id o assim , com as
tres restricgòes a po n ta d as, ao seu e lem ento p r im itiv o , e a lià s
o u n ico cssencial, isto e, a rythm os entre s i iguaes, o u resolu-
ve is em relances ha rm ó n ic a s s im ple s, elle d is p ò e d a elasticidade
precisa p ara se a m o ld a r ás c a m b ia n te s de s en tid o , p o r m a is sub-
tis e o bscuras, e d a r q u a n to po s siv e l, a 11111 o u v id o m oderno,
a im pressño correspondente ás sono ridad e s d a m usica do texto.
N ’ esta q u e stáo fun d am e n tal de preferencia entre o verso e a
pro sa n a tra n sp osigáo ^pa ra lin g u a s viv as das grandes c r e a r e s
po éticas d o passado , ju lg am o s n ño dever tra n sig ir com o exem-
p lo de Leconte de Lisie e o voto expresso de R e n án , além
d ’o u tro s in sign e s mestres no a ssum pto. N ’uin ignorante do
h e b raico , q u e n ào p a ssa , alé m d ’ isso, d ’obscuro cultor d a prosa
p o rtugueza, uin desaccòrdo táo perem pto riam e n te affirm ado tem
s e u s a r e s d ’ im pe rtin e n cia, e ta lv e z seus laivo s de rid ic u lo . M as
a fid e lid a d e d a v e rs áo q u e n o s a b a la n z a m o s a em prehender,
garantem -n’a a d o illu s tre o rie n ta lis ta francez, q u e , po r motivos,
d iv e rs o s , fom os seguindo passo a passo, e o co m m e n tario de
D illm a n n , cuja le itu ra integral nos fa c ilito u a o bse quiosa ami-
zade d o d r. D uarte Leite. A in te r p r e ta d o das id e ia s , assim
a p u ra d a , estrophe a estrophe, pela c o m p a r a d o das o p in ió e s
d ’e rud ito s c u ja a u cto rid ade na m ateria é in d is p u tav e l, sem du-
v id a satisfará o s m a is e scrupulosos.
Q u a n to á in te r p r e ta d o fo rm a l, é de s u p p ó r qu e desagrade
a o s enten d id o s n a velha litteratura d os hebreus, estribando-se
n o argum ento de q u e a linguagem cadenciada d o texto n áo cor­
responde exactam ente ao n o s s o verso. E ’ procedente o reparo.
A po e sía pa ra b ó lic a , a d o liv ro de Jo b em to d o o caso, resol ve-se
n 'u m a série de d istic o s, ou de phrases co m ple tas, c o n s titu id a
cada urna p o r d o u s m e m b ros, o segundo d os quaes repete, con­
tin u a , c o ntrasta, exem plifica ou dese n volve , n o to d o o u em
parte, a id e ia fo rm u la d a n o p r im e iro ; é s u b stancialm e nte um
parallelism o, urna «especie de rim a de pensamentos», conform e
R e n án , co m m u ita pro prie dad e, a d e n o m in a ,— m a is id e o ló ­
g ica, p o is , d o q u e p las tic a. A lé m d ’ isto, e sob retudo , nem reco-
nhecem o m esm o v a lo r m usical o s v o c ab u lo s sy n o ny m o s do
hebraico e d o portuguez, nem a d iv is á o rythm ica d a s phrases
pela cesura s ’e quivale ñas d u a s lin g uas. M a s a o b je c ^áo é
tam bem d em asiado p ro v a tiv a ; po rq u e , evidentem ente, a prosa
n áo po d e rem ediar o que é de si irre m e d ia v e l, e tem a in d a o
inconveniente m u ito grave d ’e lim in a r a fo rm a , elem ento essen-
c ia l, e á s vezes ú n ic o , d a esthetica d o m o d e lo a interpretar.
P or co nse gu in te , era in d isp e n sa v e l resolverm o-nos: ou ad o p tar
a pro sa, com vantagem d u v id o s a d a litte ra lid a d e e sub versáo
in fa lliv e l d a b e lle z a , ou antepór-lhe o verso, sem in ju r ia d ’ im-
p o rta n cia á exactidáo d os conceitos e com im m e n s o realce do
v a lo r artístico de q u e o aucto r o revestiu. P erante o d ile m m a
fatal n áo hesitam os. E ntre as «forcas c au d in a s» d a g ram m atica,
qu e R enán le m b ra , m u ito a p ro p o sito , a m e ticulo so s collegas
d a A lle in a n h a , e as forcas c a u d in a s d a p ro so d ia co nsagrada pelos
po e tas, preferim os as d a pro so d ia. As pessoas de fino tacto
litte ra rio d ir á o se, p ro ccd cn do a s s im , d e tu rp a m o s o pensa-
m ento e a arte q u e fazcin d o liv ro de J o b um d os m a is adm ira-
ve is po e m as q u e d ’ um cerebro d ’ hom em té m b ro tado.
JO B
(C a p . I da Vg.)

H a v ia na terra cTUs ( ‘) u m hom em c h a m a d o Job:


cste hom em era integro, recto, tem ente a D eus, e
afastava-se d o m al.
E nasceram-Ihe sete filhos e tres filh a s ; e possuia
sete m il ovelhas, tres m il cam elos, q u in h e n ta s ju n ta s
de bois, q u in h e n ta s ju m e n ta s e num erosos se rv o s : e
este hom em era o m a io r dos O rientaes (').
E seus filhos tin h a m p o r costum e irem u ns a casa
dos outros e banquetearem-se, c ad a q u a l n ’u m d ia
certo, e e n v ia v a m m ensageiros a c o n v id a r su as tres
irm as a virem com er e beber com elles. E q u a n d o se
perfazia o turn o dos banquetes, Jo b m andava-os ch a­
m ar, purificava-os, e offerecia de m a n h à u m holocausto

(') P a iz d a A rab ia deserta, v is in h o d a Idum èa.


(2) Beni-Kedcm , fijhos d o O rie n te . E ’ o nom e q u e d avam os
H ebreus á s tribus ara b e s que lia b ita v a m ao oriente d a P a ­
lestina.
p or cada u m d ’elles, d iz e n d o : «T alv ez m eus filhos
peccassem e a ba ndo n assem D e u s nos seus cora^òes.»
A ssim fazia Jo b to d o s os d ia s d a su a vida.

O r a aconteceu que, tendo os filhos de D eus ( ‘) v in d o


à p resenta de Je h o v a h , v eio ta m b e m n o m eio d ’elles
S a ta n a z ( 2).
E Je h o v a h p e rg un to u a S a ta n a z : « D ’o n d e v e n s ? »
E S a ta n a z resp ondeu a Je h o v a h : «D e correr o
m u n d o e de passeiar n ’elle.»
E Je h o v a h disse a S a ta n a z : «Reparaste em meu
servo Jo b ? N à o ha h om e m n a terra corno elle, in ­
tegro , recto, tem ente a D eus, e apartando-se do
m al.»
E S a ta n a z resp onde u a Je h o v a h : «P o rv entura Jo b
tem e D e u s g ratuita m en te. N à o tramaste urna lin h a de

(') Seres celestes que fo rm a vam a córte de L)eus.


(2) Isto é , o c a lu m n ia d o r, o d e tra c to r; ser m align o c u ja fú ñ ­
e lo n a córte celeste era accusar os lio m e n s e apresentar as
COisas p e lo seu la d o m au,
defeza em v o lta d ’elle, em v o lta da sua casa, em v olta
de q u a n to Ihe pertence ? N à o abengoaste a o bra das
su as m áos, e os seus re banhos n à o se alastram por
to d o s os lad os sobre a te r r a ? M a s estende a tua
m áo , toca-lhe nos bens, e vèr-se-ha se te nào renega
face a face.»
E Je h o v a h disse a S atanaz : «Entrego-te q u a n to Ihe
p ertence; sóm ente n a o estendas até á sua pessoa a
tua m5o.»
E S atanaz retirou-se da p resenta de Jeh o v a h .
O ra aconteceu q u e u m 'd ia , e m q u a n to seus filhos e
filh as estavam a com er e a beber em casa de seu ir-
m á o m a is v elho , v e io u m m ensageiro ter com Jo b e
disse-lhe: «O s bois andavam a lav rar, a seu lado
p a sta v am as jum e n tas, senáo q u a n d o os S a b e u s cahi-
ram d ’im p ro v iso e levaram -n’os com sigo. P assaram
os escravos ao fio d a espada, e só eu escapei para
te v ir d a r conta d ’isto.»
E sta v a fa lla n d o a in d a este, eis qu e o u tro chega e
diz : «O s C h a ld e u s fo rm aram tres ba nd o s, arrojaram-se
sobre os cam elos e roubaram - n’os.
P assaram os escravos a o fio d a esp ada, e só eu
escapei p a ra te v ir d a r conta d ’isto.»
E m q u a n to este fa lla v a , chega u m outro e d iz : «Teus
filh o s e tuas filh as estavam a com e r e a beber em
casa de seu irm áo m a is velh o . E eis qu e u m grande
vento se le v a n ta do o u tro lad o d o d e s e rto ; a b a la os
q u a tro á n g u lo s da casa, q u e desabo u sobre esses jo-
vens; e m orreram , e só eu escapei p a ra te v ir dar
conta d ’isto.»
E Jo b ergueu-se, e rasgou a su a capa, e ra p o u a ca­
bera, e prostrou-se n o chao, e a d o ro u , e d is s e : «N u
sa h i d o ventre de m in h a m á e , e n u entrarei n ’elle ( ‘).
Je h o v a h tu d o me deu, Je h o v a h tirou-me t u d o ; seja
b e m d ito o no m e de Je h o v a h !»
Em tudo isto, Jo b n á o peccou e n á o proferíu blas-
p h e m ia a lg u m a contra D eus.

(‘ ) No seg un d o m e m b ro , o au c lo r p a s s a á id e ia d o seio d a
terra, m á e de to d o s o s hom ens.
(C a p . i l d a Vg.)

O ra aconteceu u m d ia que, tendo os filhos de D eus


v in d o á p resenta de Jeh o v a h , S atanaz veio tam bem
com elles apresentar-se a Je h o v a h .
E Je h o v a h p e rg un to u a S a ta n a z : « D ’o n d e v e n s ? »
E S a ta n a z respondeu a Je h o v a h : «D e correr o
m u n d o e de passeiar n ’elle.»
E Je h o v a h disse a S a ta n a z : «R eparaste em meu
servo J o b ? N à o ha hom em na terra corno elle, inte­
gro, recto, temente a D eus, e apartando-se do m al.
Persevera sem pre n a su a piedade, e tu instigaste-me
a arruinal-o seni razáo.»
E S a ta n a z respondeu a Je h o v a h : «Pelle p or pelle
( ') : o h om e m d à tu d o o qu e possue p e la su a pessoa.

(*) P ro v e rb io cujo se n tid o vem a ser que o ho m e m s ó me­


d io crem ente é s en siv el á s pe rdas exteriores, que nao attingem
a sua pessoa.
S enào , estende a tu a m á o , toca-lhe nos ossos e na
carne, e vèr-se-ha se te n à o renega face a face.»
E Je h o v a h disse a S a ta n a z : «Ponho-o nas tuas
m àos; respeita-lhe sóm ente a vida.»
E S a ta n a z retirou-se da presenta de Jehovah.
E feriu Jo b com unía lepra m a lig n a desde a p ianta
dos pés até á cab era, e Jo b , sentado n a cin za , viu-se
fo r ja d o a cogar-se com uni caco.
E sua m u lh e r disse-lhe: « C o m o ! p ois a in d a perse­
veras n a tua p ie d a d e ? D e ix a D eus em paz, e m orrei»
E elle respondeu-lhe : «A cabas de fa lla r com o urna
m u lh e r insensata. N ós recebem os de D eus o bem ;
c o m o recusaríam os receber o m al ?»
Em tu d o isto, J o b nào peccou com o s seus labios.

E tres a m ig o s de Jo b , E lip h a z de T h e m a n , ( ‘) Bil-

(*) P a íz d a Id u m c a , celebre pelos seus s a b io s . As duaa


lo c a lid a d e s seguintes sáo incerta» ; pro vavelm en te , e stavam s i­
tu ad a s n a n ie sm a regiáo.
da d de Suah e S o p lia r de N a a m a , tendo s a b id o as
desgraças qu e tin h a m c a h id o sobre elle, p a rtira m cada
q u a i d o seu p a iz, e c o m b in a ra m trazer-lhe as su as con­
dolen cias e m inistrar-lhe consolaçôes.
E haven do de longe e rguido os olhos, tive ram dif-
ficu ld a d e em reconhecel-o, e elevaram a voz, e cho-
raram , e rasgaram as su as cap as, e atiraram poeira
p a ra o ceu de m o d o a q u e lhes cahisse na cabeça. E
ficaram sentados no c h â o ao lado d ’elle sete d ia s e
sete noites, e n e n h u m o u sa v a dirigir-lhe a p a la v ra , p or­
q u e v ia m qu e a d ô r era excessiva.

E n tâ o J o b a b riu a bócca, e a m a ld iç o o u o d ia do seu


nascim ento.
JO B

(C a p . i n d a Vg.)

E n ta o J o b to m o u a p a l a v r a e d is s e

P ereda o d ia em que nasci,


E a n oite que disse : Foi co nce b id o um

E n i treva se transm ud e a q u e lle d ia ,


D e u s o n ào ¡Ilu m in e d a s alturas,
N à o b rilhe a lu z sobre e lle !

E scurid ào e som bra o reivin d iq ue n!,


N u v e m c alig in o sa o cubra to d o,
U m eclipse o trespasse de p a v o r !

C a v o negrum e e m po lg ue a q u e lla noite,


P a ra o c álc u lo d o a n n o e lla nào conte,
N o co m pu to d os m ezes n ào figure !

A q u e lla noite s c ja estéril, (*)


N ào ro m p a n’e lla um g rito d ’a le g ria !

0) Isto é, que ningucm mais nas^a n’clla,


li)

A m ald ig o em - n ’a o s q u e im p re c a m d ia s , (*)
S ab e m , q u e re n d o , p ro p e llir L e v ia th a n ! (3)

Extingam -se as e stre lla s de s u ’ alva,


F ique e sp eran do a lu z, e a lu z n áo venha,
N á o chegue a ver pestan ejar a a u r o r a ;

P o r n á o fe char o ventre que me trouxe, 10


P o u p a n d o , assim , m eus o lh o s a trab a lh o s !

P o rq u e é que n áo m o rri 110 ventre m aternal,


L o g o ao nascer n áo e x p ir e i!

P o rq u e vieram dou s jo e lh o s esperar-me,


S e off'receram d o u s peitos aos m eus lá b io s ?

’ Stava agora d eita d o , a repousar,


Em paz adorm e cid o,

(*) F eitic c iros a q u e m se a tt r ib u ía o po d er de lo m a r nefastos de te rm in a ­


d o s d ía s , p r o n u n c ia n d o c ontra elles m a ld i c e s a n a lo g a s á s que J o b pro n u n c ia
n ’este m om e nto.
(*) D r a g á o celeste, q u e q u a s i to d a s as as tro n o m ía s m y th o lo g ic a s d o Oriente
n o s re p re se n ta m c o m o prestes a a rre m e tte r p a ra de v o ra r o sol e a lú a . Sup-
punha-se a o s m ág ic o s o po d er d e o a cirrar e d e p r o d u z ir a ssim o s eclipses.
T ra d . de R e n á n : D ra y a o .)
Jun to de g rand es e de reis d a terra,
C o n s tru c to r’s d ’essas ruin as sum p tuo sas, (I)

E d ’o pule n to s, q u e a m o n to a ra m o uro , 15
E q u e de prata encheram suas ca sa s;

O u n ào e x istiria, q u a l ab orto occulto,


C o m o as creangas que n ào v ira m luz.

A s vio lé n c ia s d os m a u s a lli (4) te rm ìn am ,


O ho m e m fa tig a d o a lli descan^a.

V iv e a lli socegado o p rision e iro,


S em q u e ouga m a is a v o z d o seu verdugo.

L à frate rn isam g rand es e pequenos,


Liberto d o senhor ahi ja z o escravo.

P orque se a b o n a lu z a o d esditoso,
V id a aos q u e sentem a a m a rg u ra n ’a lm a , 20

(i) A llu silo p ro v av c l a m o n u m e n to s c o n te m p o rá n e o s en i ru in as.


(4) N o m u n d o d o s m o rto s, residencia su b te rrá n e a , conc eb ida a na loga m en te
ás cave rn as se pulchraes, e on d e os m o rto s c o nserv av am , a o q u e se c r ia , as
m esm as relaçôes q u e d u ra n te a v id a tin lia m tido.
Q u e a m orte ag uard am seni que a m orte venha,
C o m m a is à n c ia a procuram que um thesouro,

E que ficam repletos d ’alegria,


R e ju b ila m , q u a n d o a c h a in o s ep ulc hro ;

— Ao ho m e m c u ja e stra d a se c o b riu de trevas,


E a q u e m D e u s circum dou de sebe in tran spo nive l ?

S u s p iro s sao m eu p à o de cada dia,


E ág u a , q u e sem pre corre, o s m eus g e m id o s ;

T e m o r que eu im agin e, sobrevem -m e ;


D esg rana que eu receie, em m in i rccahe. 25

N ào m a is repouso, seguranza, paz !


S em pre , sem terem fim , torm entos n ovos !
(C a p . V. V g.)

E n tâ o E lip h a z de T h e m a n to m o u a p a la v ra e disse:

S e le fa lla rm o s , nao ir á s aborrecer-te?


M a s q u e m po d e sustar o curso d a p a la v r a ?

A s s im , s a b e d o ria a m u ito s ensinaste,


Insufflaste v ig o r em m á o s enfraqu ecidas ;

T u a p a la v ra rean im ou o s v acillan te s,
C o m m u n ic o u firm eza a jo e llio s q u e trem iam .

E lio je q u e o m al te fere, te perturbas, 5


Q u e a desgraça te o p p rim e , desfalleces.

N á o p u n ha s tu a e sp ’rança n a piedadc,
N a tu a v id a p u ra , co nfiança ?

Q u a l innocente s uc c um b iu ja m a is , — recorda,
O n d e é que os ju s to s foram d e s tr u id o s ?

Q u e m d ò r s c m e ia , in iq u id a d e lavra,
V i c o llier sem pre in iq u id a d e e d ò r
A um h á lito de D c u s dcsapparcce,
A o soprar-lhc o furor c c o nsum id o .

O rugir d o le áo é suffocado, 10
P artid a a d e n tad ura ao le áo s in h o .

M o rre o le á o p o r falta d ’a lim e n to ,


E o s filhos d a le óa s á o dispersos.

F urtivam e nte foi-me d ita urna p a la v ra ,


B ra nd o m u rm u rio , O que o o u v id o rccolheu.

N o cogitar q u e in s p ira m as visóe s nocturnas,


Q u a n d o um pro fun do som no p e za sobre o s hom ens,

U m frém ito e um trem or m e s a c u d ira m ,


E a todos os m eus ossos revolveram .

U m s ó p ro d esliso u n a m in h a p e lle , 15
D a m in h a carne os p e llo s s ’errigaram .

(•) P a ra d a r m a is a u c to rid a d e Á sua d o u tr in a , E lip h a z fin g e !6l-a rc c cb id o


d ’ u m a r e v e la d o celeste.
Surge-mc crn frente um rosto n un ca visto,
A n te os incus o lh o s ergue-se um espectro,
E a p ó s um c iciar, ou$o esta v o z :

a pe ra n te D eus o lio m e m será ju s to ,


O m o rta l, pu ro p ara o q u e o fo r m o u ?

D e u s n á o se fia n o s sc u s p ró p rio s servo s, (?)


E acha p ro tè rv ia n o s seus m esm os a n jo s ;

Q u a n to m a is n o s q u e h a b ita m s ó m ansocs de b arro (I)


C o m aliccrces na poeira,
E a quem s 'e sm ag a c o m o a verm es !

D esapp are cem d a m a n h á p ’ ra a tarde 20


Vào-sc p ’ ra sem pre, seni que alg u e m o note.

A ’ s u a tenda a corda (3) e decepada


S em a lc a nza re n ! a sc ic n c ia , m o rre m .»

(•) Is to c , a o s seres s a n to s q u e ío r m a m a c órte d ’elle , o s m e s m o s cham a­


d o s , n o p r o lo g o , fllhoa de Deus. \
( i) Isto ¿, os c o rp o s , re siden cia d a a lm a h u m a n a .
(*) im a g e m fa m ilia r a o s S e m ita s p a r a sig n ifica r a m o rte . O c o rp o ¿ c o m ­
p a r a d o a urna te n d a , a a lm a « c o rd a q u e se g u ra a te n d a ,
(C a p . v d a V g.)

C la m a , p o i s : ha ve rá qu cm te respo nda ?
P ’ ra q u a l d os santos (*) podes tu voltar-te ?

P o rq u e o p e z a r v ic t im a o to lo ,
A o d e sv a ira d o m ata o frenesí.

E u v i o to lo com raize s la r g a s ;
M a s lo go am aldiQ oei sua m orada.

P e rd id o s sem re m e d io e stáo seus filh o s ;


S em nin g ue m lhes v ale r, n a P o rta (5) o s calcam .

O fa m in to devora-lhe a seara, 5
A sebe íhe d erru ba e o d e s p o ja ;
O o lh a r d o seq uioso os ben s llie afaga.

D a po e ira n áo b ro ta, co m effeito, o m a l,


N em o castigo pode g e rm in ar d o s o l o ;

M a s o ho m e m nasceu para os tra b a lh o s ,


C o m o as c h isp a s d o fo g o (fi) p ’ ra s u b ir a o s ares.

(*) Anjos.
(¿i A P o r ta é o fo r u m d a s cid ad e s do O rie n te ; a h i se a d m in is tra a jus-
tiç a c se effectuaiji lo d o s o s a cto s im p o rta n te s d a v id a c iv il.
(*) A a v e d e p re z a . (C o rre sp o n d e n te á Ir a d u c ç â o fllh o do ra io , n üo a d o ­
p ta d a a q u i.)
Em teu logar cu recorría a D eus,
D ir ig ía a p a la v ra ao P oderoso,

Q u e o p e ra g randes, in s o n d a v e is cousas,
In nu m e rave is m a ra v ilh a s ;

Q u e n a face d a terra e s p a lh a a c h u v a , 10
E faz correr as á g u a s ñas c a m p iñ a s ;

Q u e levanta os h u m ild e s ao fastigio,


E os im m e rso s n o lucto reconforta ;

Q u e desfaz o s c o n lu io s d os hy pócritas,
E frustra a execugáo de seus pro je c to s ;

Q u e o s h a b é is colhe no seu m e sm o a rd il,


E desconcerta o s plan o s d os astutos. (")

Esbarram -se de d ia co ntra trevas,


T a te ia m ao m e io d ia , com o á noite.

D a sua bócca, um g là d io , a ssim D e u s salva o po b re ; 15


D a s m à o s d o hom em forte assim D eus tira o fraco.

(! ) P arece liaver a q u i urna i n t e n d o m a liciosa c o n tra Job.


18
t f i: s i: : i!!f:ir s fi

E n tà o a e sp ’ran q a v o lta ao d e svalid o ,


E a in iq u id a d e feeha a s u a bócca.

F e liz do ho m e m a quem D eus corrige !


O s castigos de D e u s n á o n ’os desprezes.

P o rq ue , se fere, tam bem sana a f ’rida.


S e v ib ra o g o lp e , sua m à o o cura.

Livrar-te-ha d ’an g u stia p o r seis vezes,


E d eix a de attingir-te o m al á sétim a.

Q u a n d o ho uve r fonie, salvar-te-ha d a m orte ; 20


Q u a n d o ho uve r guerra, guardar-tc-ha d a espada.

D o chicote d a lin g u a (*) a n da rás livre ,


C h e g a n d o a a s s o l a l o , n áo te am e d ro ntas.

R irás na fonie e n a d e v a s t a l o ;
N em as feras d a terra tem erás.

C o m as pedras d o c h áo terás um pacto,


C o ’os aniinaes ferozes, u m tra ta d o .

(0 Is to é. d a c a lu m n ia
V e rás n a tua tcn d a a p a z c n th ro n is ad a ,
N ad a faltar n o s tcus p as c ig o s, visitando-os.

V e rás crescer a tu a descendC*ncia, 25


P u llu la re m , com o h e rva , o s teus renovos.

M a d u r o b a ix a rás á s e p ultu ra , -
Feixe de trig o arrecadado a tem po.

D a s nossas reflexóes a h i tens o fr u c to ;


P re sta ouvidos', e collic li^ á o d ’ellas.
(C a p . V I d a V g )

E n tá o Jo b to m o u a p a la v ra e d is s c :

P ro u v e ra a D c u s pezar o nicu resentim cnlo,


E no o utro p rato suspe n de r nicu in fo r tu n io !

M a is que a are ia d o m ar este p e z a ra ;


G o lfa m , p o is , em desordem m e us discursos.

Varam -m e as frechas do O m n ip o te n te ,
Sorve-lhes o ve neno o meu e s p ir it o ;
T e rro r’ s de D eus m e estáo asse d ia n d o .

V endo herva fresca z u rra rá o o nag ro ?


Q u a n d o tcm pe n só m u g irá o b o i ?

M a n ja r in s íp id o e sem sal d a r á pra zer ?


Succo d a m a lv a (i) po d e alg u e m saboreal-o?

O que a m in li’ alm a s ó tocava com desgosto


E ’ para m in i, agora, o p á o q u o t id ia n o !

(i) C o n tro v e rtid a a id e n t if ic a d o d a p la n ta q u e o p o e m a q u iz indicar.


Q u em dera q u e o m eu vo to se cum prisse,
E que D eus me o uthorgasse o que eu espero :

Digne-se, em fim , anniquilar- m e,


Q u e a sua m ào ine corte o fio d a existencia !

N o s soffrim entos que m e vem im p o n d o 10


Esta co nsolaçâo terei, esta alegria :
A o s preceitos do S anto (') n un c a ter fa lta d o !

P a ra a in d a e sperar — onde é que te n ho a fo rça ?


P ara ser paciente — q u a i o m eu destino ?

A m in h a força é de g r a n ito ?
S e rá de bro nze a m in h a carne ?

N ào estarei p riv a d o de q u a lq u e r a u x ilio ?


N áo ’s tá cortada q u a lq u e r via s a lv a d o ra ?

O in fe liz merece o d ó d os seus am igos,


Q u a n d o o te m o r de D e u s , a té , répudiasse.

P érfidos foram m e us irm á o s c o m o a torrente, 15


C o m o a corrente de le vada passage ira,

(>; D e D eus.
(C a p . v i l d a Vg.)

A v id a d o ho m e m sobre a terra é d ’uni soldado,


D ia s d ’uni m e rce n àrio , assim o s d ’elle sao.

T a l um escravo q u e s u s p ira p e la -sombra,


Q u a l jo rn a le iro a m ira posta n o s a làrio ;

M e z e s de d ò r, ta m b e m , tiv e em p a rtilh a ,
N oites la b o rio sa s me tocaram .

Se estou d e ita d o , penso : « Q u a n d o me erguerei ?»


E a noite se p ro lo n g a,
E até o alvorecer sacio-me d ’ angùstias.

C o be rta d 'u rn a crosta e verm es te n lio a carne, 5


C h e ia de p u s e cicatrizes te n ho a pelle.

Correu-m e o te m p o m a is que a lançadeira,


P ’ ra n un c a m a is v ó fta r se m ’escoou.

Lembra-te, D e u s , que é m ero s ô p ro a m in h a v id a ,


E m eus o lh o s n áo m ais ve rào pro sp erid a d e.

Q u e r alguem contem plar-m e ? n áo m ’encontra,


T eus o lh o s , pro cu rar- m e? n áo existo.
C o m o a nuvem que passa e se d is s ip a ,
Q u e m la desceu, ja m a is do inferno (4) sobe.

N ào torna m a is a vèr a sua casa,


N em a sua m o rad a a conhecel-o.

N ào conterei, po ris so , a m in h a bócca ;


N a o ppressào d a m in h ’a lm a fallarei,
C h o ra re i no tra v ó r d o c o r a d o .

Serei o m ar, serei m o n stro m arinilo,


P ara que contra m in i te p re c a v e ja s ?

Se p e n s o : «A cam a vai trazer-ire a lliv io ,


O le ito vai suavisar-m e a d ò r» ;

Assustas-me coni son h os,


C o m v isòe s terrificas-me.

Prefere, p o is , m in h ’a lm a q u e a suffoquem , (il)


M a is que os m e us o sso s me é q u e rid a a morte.

(*) E m he braico acheol, m u n d o s u b te rrá n e o d o s m o rio s . V ó r ac im a :


n o ta 4.
(il) A llu silo á m orte p o r a s p h y x ia e m certas doen^as.
N áo p o n h o grande e m p e n h o em e x is tir ; (m )
Deixa-me ! s á o m eus d ia s leve sopro.

O hom em q u e m é — p ’ra q u e até e lle os o lh o s baix es,


N ’e lle te dignes reparar ?

P ara que o exam ines to d as as m a n h ás,


A cada instante o e x p’rim entes ?

A té q u a n to terás em m im o s o lh o s fitos,
N ao m e d a rá s o tem po d ’e n g u lir s a liv a ?

Se p e q u e i, que t ’im p o rta , ó e s p iá o d o ho m e m ?


P o rq u e m e fizeste a lv o d o s teus golpes,
T ornando-m e um trop é^o p ’ ra m im p r ò p r io ?

P o rq u e d o meu peccado n ao me lim p a s ,


A m in h a in iq u id a d e n ao e x p u n g e s ?

P o is v o u em breve sepujtar-m e n a poeira,


T u has de procurar-m e, e eu ter-me-liei su m id o .

(!!!) P a ssa g em obscur.1.


(C a p . v ili d a V g .)

E n tà o B ild a d de S u a h tom ou a p a la v ra e disse

A té q u a n d o fa rás discurso s d ’esses,


E o teu v erbo será q u a l tu r b ilh à o ?

P orventura o S e n h o r torce o d ir e ito ?


E d eturp a a ju s tig a o O m n ip o te n te ?

F o i p o r terem te us filh o s d e lin q u id o


Q u e os p ò z ña s m á o s d a s u a in iq u id a d e .

M as, recorrendo tu a D eus,


D ir ig in d o ao S en ho r as tuas preces,

D e sd e que seja recta e p u ra a tu a vida,


F ic a certo de que e lle ve la rá p o r ti,
E a m an sáo d a justiga tu a reerguerà ;

E de q u e os teus p rin c ip io s pouco teráo sid o,


Se á m ag n itude d o s teus fins os com parares.
Interroga as a n tig a s geragòes, (')
A ’ sciència d os paes a p p lic a o teu e sp irito.

(P o is so m o s d 'h o n te m , n à o sabem o s n ada,


S à o n osso s d ia s sobre a terra, so m bra .)

E lle s t ’e n sin arào , te fa lla rào , IO


T ir a rà o d a s u ’ alm a estes discurso s :

« M e d ra fora do p án ta n o o p a p y r o ?
P od e sem á g u a prosperar o ju n c o ?

E m q u a n to verde, nin g ue in vai cortal-o,


E antes das outras hervas em m urchece.

T a l o destino d os que D e u s o lv id a ;
A esperanza d o im p io m orrerá.

Será p a rtid a a sua confianza,


C o m o teia d ’a ra n h a é seu a prum o .

Q u e r firmar-se em casa, e e lla n áo resiste ; 15


Pór-lhe a m áo em c im a , e e lla n áo se aguenta.

( ') C o m o E lip lia z , rccorrcndo a urna v isá o p a ra a p o ia r o sen discurso,


B ild a d la n ^ a a q u i p c n sam c n to s seus & c o n ta d o s a n tig o s sabios.
Eil-o chcio de vigo, ab crto ao sol,
O s seus rebentos cobrein-ihe o ja rd im ;

S uas raize s cravam-se entre as pedras,


P ro fu n d a na regiáo d a pe n e dia.

P orein se o arrancaren! do logar,


Este o renega e d iz : N un c a te vi.

D o seu pro ce d im en to é este o fructo :


D e p o is d ’e lle , outros s ’erguerào do so lo .»

D e u s n ào repelle os innocentes, nào,


S u a m ào n un c a estende a m alfeitores. 20

U m d ia , a tu a bócca elle e n ch erà de riso,


De jú b ilo os teus là b io s .

O o p p r ó b r io c o brira teus in im ig o s ;
A tenda d o perverso n ào subsiste já .
{C a p . ix d a Vg.>

E n tá o J o b tom ou a p a la v ra e d is s e :

A s s im é, n a v e r d a d e ! betn o s e i ;
C o m o , ante D eus, te rá d ire ito o h o m e m ? (i)

Q u e re n d o n o s com elle d isputar,


N em urna v e z, em m il, tem os razáo.

A d v e rs a rio sub til e p o d e r o s o !


Q u em Ihe fez frente, e s a h iu sao c s a lv o ?

A s m o n tan has desloca d ’ im p ro v is o , 5


E m seu enfurecer as desm orona.

A térra d o seu le ito faz saltar,


E trem er as c o lu m n a s que a supportam .

O rd e n a ao s o l, e o so l n áo se levanta ;
r ó e d e b a ix o de séllo s as estrellas.

(i) R é p lica iro n ica A p h ra s e p a ra lle la d e E lip h a z : C a p . V , v 17


A rm a , s ó s in h o , o p a v ilh à o d o ceu,
Sobre as cristas das vagas se com praz.

Fez a G ra n d e U rs a, a P le iad e , o G ig a n te , (*)


A occulta regiào do ceu austral.

O p e ra m a ra v ilh as in so n da vcis,
P ro d ig io s que n in g ue m po d e contar. 10

P assa em frente d e m im sem que o presinta,


Perdeu-se ao lo ng e, e n ào o vislu m b re i.

Q u em Ihe segura o brago q u a n d o o estende ?


Q u e m lh e pode d iz e r : «Q u e fazes tu ? »

N a sua ira n à o reconsidera ;


C urvam -se a n t’e lle as hostes d o R a h a b . (2)

E cu p e n saría a in d a em affrontal-o!
A b rir co m elle ju s ta de p a la v r a s ?

O) C o n s te lla d 0 q u e parece id é n tic a á d ’ O rio n , e n a q u a l o O rie n te se m í­


tic o cria v é r u m g ig a n te re v o lta d o c o n tra D e u s , pro v av e lin e nte N e m ro d . (A
id e n t if ic a d o d ’estas c o n s te lla tfe s é d u v id o s a .)
(*) C onstellagflo á q u a l se lig a v a u m « le n d a a n a lo g a ;í do G ig a n te : um
m o n s tro lu c ta n d o c ontra D e u s , e a c o rre n ta d o n o c e u com to d o s o s seus coin-
pan h e iro s. Tracta-se ta lv e z d a c o n s t e lla ^ o d a B ateia. (R e n án t r a d u r R ahab
por D rag áo . R a h a b parece d e sign ar u m m o n s tro m a rin h o , lu c ta n d o c ontra
D e u s , a n a lo g o ta lv e z a o T lh a m a d a s c o sm o g o n ía s assyrio-babylonicas.)
M il vezes c o m razào , nem rép lic a Ihe d ava,
M a s p e d iria , até , p e rd ào ao meu ju iz .

A in d a q u a n d o accorresse á m in h a citaçâo
N à o o u s a ria crêr que o uvisse a m in h a v o z :

D e u s , q u e vem sobre m im d a n u v e m procellosa,


Q u e m u ltip lic a seni razòes as m in h a s f ’rid a s ;

Q u e n à o m e d eix a retom ar a len to alg u m ,


Q u e me sa cia d ’am argura.

Q u estào de força ? d iz : « A q u i’stou eu !»


D e d ire ito ? pergunta : «Q u em m ’in tim a ?»

Se ju s to , a m in h a bocca me farà perverso, (3) 20


Innocente, e lla p r ò p r ia m e d ir á culpado.

’ S tou inno cente , s im ; a v id a n ào m e in t’ ressa,


N ào m ’ im po rta e x istir ( l ).

0) Jo b, por um a hy p e rb o le o u s a d a , suste nta q u e , se plcite assc c ontra


D e u s , a s u a p r o p ria bd cca o tra h iria e d ir ía o c o n tra rio do q u e q u e r dize r.
(«) J o b , desesperando de fazer tr iu m p h a r o seu direito c o n tra D eus,
a ba nd on arse a u m v iolen to m o v iin e n to de c o le ra, e procla m a a lta m e n te a sua
in nocen cia, c o m risco de receber a m orte c o m o p rc^o d a s u a a ud a c ia .
D e n a da valem d is t in g u e s ( í v ) ; eis p o rq u e eu disse :
«E lle m a ta ig ualm en te o ju s to e o p e c c a d o r »

S e a in d a ao m enos m e acabasse d ’um só g o lp e !


M as elle ri-se das torturas do innocente.

E lle a b an d o n a a T e rra á s m á o s de scelerados,


E ao rosto d o s que a ju lg a m tap a com um v e u :
S e n á o é elle, e n táo quem é ?

Foram m eus d ia s m ais velozes que um co rreio, 25


S em conhecercm a ventura, s ’e sv aíram .

C o m o as barcas de ju n c o perpassaram ,
C o m o á g u ia d esp e d id a sobre a preza.

Se m e d ig o : « E s q u e ja m o s esta m água,
Basta de rosto triste e divirtam o-nos.»

Fico a temer que vo lte a m in h a dór,


P o r s abe r que m e n áo perdoarás.

Tenho-m e, d ’a n te m áo , p o r c o nd e m n ado ;
P o rq u e m ’ im p ó r e n táo canceira in ú t il?

(IV ) Isto é, diOcrcn^a de méritos entre os homens.


P o d e ria b a n h a r m eu corpo em neve,
E la v a r m in h a s m àos n ’âg u a com b or (5) ;

Irías mergulhar-me em fo ssa im m u nd a ,


E de m im s ’e n o ja v a a m in h a roupa.

D e u s n áo é m eu ig u a l, p ’ ra q u e o argúa,
P 'r a c o m p a r’cerm os am b o s em justiga.

N áo p o d e e x istir árb itro ,


Q u e estenda sobre n o s a m áo c o ’auctoridade.

Erga de sobre m im a sua vara,


D eixem de perseguir-me os seus te rro re s ;

E sem te m o r a lg u m , e n táo , Ihe f a lla r e i; 35


P o is n áo m e reconhe^o, n á o e stou em m im (6).

(C a p . x d a Vg.)

C a n d a d a de v iv e r está m in h ’ a lm a ;
V o u d a r livre carreira ao meu q u eix um e ,
N o co ra ^áo lance ad o (7) v o u fallar.

(*) C in za s d ilu id a s cm a z c itc , u sa d a s c m y e z de lex ivia o u de sa b áo .


(*) A consciencia de J o b e s tá tr a n q u illa ; a causa d a sua p e r t u r b a d o está
íó r a d ’e lle . F oi D eus q u e , po r urna m a n o b ra d e sleal, in cito u c o n tra elle os seus
e s p a n to s, c o n i o firn d e Ihe tir a r a libe rda de d 'e s p ir íto necessaria á sua defeza.
(T) J o b c o n tin u a a crfir que a o u s a d ia d o s seus discursos se rá p u n id a con»
a m orte,
E u d ig o a D eus : N à o m e condem nes,
Faze-me, antes, saber po rque é q u e me h o stilizas.

A c h a rá s tu prazer em o p p rim ir,


Em reje itar a tu a p r o p ria o b ra ,
O c o n lu io d o s m a u s favorecendo ?

T e rás, acaso, tu o lh o s de c a rn e ?
A ’ g uisa d os h u m a n o s ve rás tu ?

O s teus d ia s seráo qu a e s o s d os ho m ens ?


T eus a n n os, com o os d ia s d os m ortaes,

P ara q u e m in h a s c u lp a s tanto in q u ira s ,


P a ra q u e meu peccado a ssim apures,

E m b o ra sa ib a s q u e n ào sou c ulpa d o ,
E q u e nin g ue m á tu a m áo pode eximir-se ?

T u a m ào m e creou, e affeigoou em v o lta ;


E q u e r ’s-me destruir !

C o m o arg ila , recorda, tu me m o delaste ;


E ao p ó qu e r’s devolver-me !
N ào m e m ugiste corno um le ite , 10
E coagulaste corno um q u e ijo ?

T u , de pelle e de carne me vestiste ;


T u , de tendòes e d ’ossos me teceste.

P ’ra m im de v id a e graga foste p ró d ig o ;


E pro vid en te, p ’io m eu s ò p ro o lhastc.

E o que n ’a lm a escondías vé-se agora,


E is a sorte que tu me reservavas (8) !

E ras v ig ia attento, se eu peccava ;


F alta a lg u m a s a b ia s perdoar-me.

Estivesse eu c ulpa d o , m al de m im ! 15
P o is n à o o uso, innocente, levantar a fronte,
V exado, e d a m iseria m in h a expectador.

Erga a cabega, e és le ào a pcrseguir-me,


T u v o lta ria s a affrontar-tne.

(*) J o b a fíc cta crfir n ’ ura p la n o p c ríiü o d e D e u s , q u e , a p rin c ip io , qucrc-


ria cnchel-o de b e n s , c em se guida tractal-o c o m in to lc ra v el rigor.
C o m n ovos testem unhos (V ) me a to rm entarías,
C o n tra m ím redobravas de fu ro r;
D áo-m e assalto , un ía a urna, le gióes d ’ad versários.

P orque foste arrancar-me ao ventre que me trouxe


M o rto a h i, n e n h u n s o lh o s m e teriam visto.

C o m o se n un ca eu e xistirá, assim seria,


D e lá teria lo go transitad o ao tú m ulo .

N ào sáo m eus d ías n a d a ? T re g u a s !


P e rm itte q u e eu m e alegre p o r um pouco,

A ntes que parta, seni e sp ’ ranga de regresso,


P a ra o p a iz de trevas e d ’ horror,

P a iz soturno e triste,
O n d e o negrum e e a co nfusáo im peram ,
E o ple n o d ía é s im ilh a n te á noite.

(V) M a le s , flagello«.
(C ap. x i d a V g.)

E n tá o S o p h a r de N a a m a to m o u a p a la v ra e d isse:

P a la v re a d o n á o terá respo sía ?


O heroe de lin g u a le v a rá a m e lh o r ?

N ào d eix a esse aranzel m etter urna palavra,


E ficavas-te a rir n áo retrucando nós.

E n tá o d iría s : « C ry s ta llín o o meu discurso,


S o u , com effeito, pu ro ante os teus o lh o s.»

E u qu e ría que D eus ta m b e m fallasse , 5


A b riss e o s lá b io s p ’ra te desm entir.

T ’explicasse o s m y stérios d a sabe d oria,


Q u a n to in s o n d a v e is s a o p ’ra o n o sso enten d im e nto ;
V e ría s ter-te re le v a d o , em parte, a culpa.

D a sc ié n c ia de D eus pensas ter visto o fun d o !


D a s u a o m n ip o te n c ia assig n a la d o o te r m o ?

E ’ m a is a lta q u e o ceu : com o attíngíl-a tu ?


M a is fu n d a que o in fe rn o : com o a s o n d a rá s ?
S u a b ito la é m a is c o m p rid a d o que a (erra,
E m a is larg a q u e o m ar.

Q u a n d o elle agarra o d e lin q u e n te , o prende,


Reúne o trib u n a l, quem o estorva ?

E lle sabe in d ic ia r os m alfeitores,


A p o n ta o crim e o nd e n in g ue m suspeit$.

V endo isto, o p a rv o ficaria a ter ju izo ,


C ria d 'o n a g ro transform ava-se n ’um h o m e m .

Se até D eus, p o is , o coragáo aleares,


E p ara elle o s bracos estenderes,

D a s tuas m á o s o criine sacudires,


E a in iq u id a d e n á o m orar n a tu a tenda,

T u a fronte erguerás, e n táo , sem m an c ha ,


S erás in a b a la v e l, sem receio a lg u m ;

E sque ce rás teus soffrim entos,


Ser-te-háo n a m e m o ria ág ua s passadas.
O p o rv ir dar-te-ha m a is lu z do que o meio-dia,
D a s trevas d ’ hoje ha de surgir-te um arrebol.

P o rq u e a n d a rá com tigo sem pre a confianza,


O lh a r á s em redor, deitando-te tra n q u illo .

D escansarás, sem q u e ha ja alguem que te am edronte,


N à o fa lta rá queiji o teu rosto acaricie.

M a s h á o de c o nsum ir se o s o lh o s d os perversos,
T o d o o soccorro lhe s será in te rc e p ta d o ;
S ó p ro de m o rib u n d o : sua e sp ’ ranga é isto.
(C a p . x i i d a Vg.)

E n tá o Jo b tom ou a p a la v ra e disse :

D e facto, o m u n do se resum e em vós,


E com vosco a sciéncia m orrerá.

C o m tu d o , ta m b e m tenho in te llig é n c ia ,
E u n á o vo s s o u , em n ada, inferior.
E a quem é q u e o utro tanto n ào succede ?

D e v o ser a irrisáo d os m eus am igo s :


C h am e i p o r D e u s , e o u v i urna risada,
E u que sou ju s to , que n áo te n ho m ácu la.

D esp re zo ao in fo rtu n io ! a ssim pensa o fe liz ; 5


A quem o p é v a c illa acolhem -n’o desdens.

N o e m tan to , reina a paz ña s tendas d os b a n d id o s ;


A seguranza n o s q u e investem co’o Senhor,
T ra z e m seu D e u s n a sua m áo . (*)

Pl ls to é, q u e n ä o rcconh cccm o u tr o d e u s a n ä o ser a p r o p ria violencia :


D e a tra m ih i dene (E n e id a, X , 773).
C o n su lta os a n im ae s, e elle s seráo te us m estres ; (2)
F a lla á s aves do ceu, e e lla s dar-te-háo linóes.

C o nversa co m a T erra, (i) e e lla t’ e n s in a rá ;


O s peixes m esm o te d iráo os teus discursos.

Q u a l d ’estas creaturas desconhece


Q u e foi a m áo d ’Iahve h ( 11 ) que as p ro d u ziu ,

Q u e e stá n a sua m áo to d ’a lm a v iv a 10
E o alentó d os h o m e n s ?

A s pa la v ra s discerne-as o o u v id o ,
O p a la d a r esco lhe o s alim e n to s.

S ó nos c abe llos brancos ha sciéncia,


Reflex áo, s ó na v id a pro lo n g ad a .

(*) Jo b rc lo m a a q u i o p e n sa m e n to expre sso lo g o ñ a s prim e iras palavras


d o seu disc urso , e v a i p ro v a r q u e a d o u tr in a de S o p h a r n a d a tem de rara
nem de m ara v ilh o sa .
Il A T erra é to m a d a , n ’ esta p a s s a te lli, c o m o u m ser a n im a d o . A au-
th e n tic id a d e d o v ersículo é c o n te s ta d a p o r v a rio s críticos.
(II) O e m p re g o in s o lito d o v o c a b u lo Ia h v e h , e m vez d e E l , S c h a d d a i e
o u tro s preferidos p e lo a u c to r d o p o e m a p a ra d e s ig n a r D e u s , fa z s u p p ó r que
a n d o u a q u i a inflo dum sc ho lia sta , je h o v ista fervente.
O saber e o p o d e r n ’E IIe (3) residem ,
Pertencem -lhe o co nse lho , a in telligén cia.

O que elle d e m o liu , nin g ue m o reconstrue ;


A quem e lle prendeu, n in g ue m o livrará.

Q u a n d o as ág ua s rep re za, e lla s s ’estancam ; 15


E d evastam a T erra q u a n d o as solta.

A e lle cabem fo rta le za e d iscriçâo ,


D ’elle dependem c o nd ucto r e c o n d u zid o . (4)

R e d u z á h u m ild a d e os senadores,
E d os ju íz e s faz a lie n a d o s .

L iv ra o v assalo d os g rilh ó e s que o s reis lh e lançam ,


E cinge os lo m b o s d ’estes c o ’u m a corda.

A rrasta os padres d e s p o ja d o s de vestidos,


L an ça p o r terra os poderosos de lin h ag e m .

( ') Is to ó , ein D e u s , su je ito h a b itu a l d o disc urso . J o b q u e r p ro v a r com


e s la lo n g a ttrude sob re a g ra n de za d e D e u s q u e n ä o 6 m e n o s elo q u e n te
q u e S o p h a r.
(*) Isto 6, a especie h u m a n a in te ir a , jo g u e te d o erro. (R e nan tra d u z
seductor e teduzido.)
C o rta a palavra aos h o m e n s m a is seguros, 20
E aos a n c iáo s sub trah e a sisudez.

D is s e m iiia a ve rg o nh a sobre os nobrés,


E a cintura d o s fortes torna la ssa . (:‘)

T ir a d a s o m b ra e e x h ib e as pro fun de zas,


O s te n ta á luz o ab ysm o tenebroso.

E ngrandece as nagoes, perdendo-as em s e g u id a ;


A ’s fronteiras arranca e reco n duz o s povos.

T u rv a aos chefes d a T erra o entendim ento,


N ’ um deserto sem trilh o o s tra z pe rdido s.

E lle s palp am a som bra, n áo a l u z ; 25


C o m o a é b rio s o s faz desatinar.

(C a p . x m d a V g.)

V iram isto o s m eus o lh o s , — r e p a r a i!


Isto o uviu e a n n otou o m eu o u v id o .

T u d o q u a nto sa bé is, tam bem eu s e ¡ ;


E u n á o vos so u inferior, em n ada.

I*) Isto é, redul-os A im p o te n c ia n o c o m b a te , c o rta n d o o c in to q u e Ibes


fccgtirn o b v e stido s a m p io s , (o u redul-os ¡i p o b re z a , se c u n d o o u tro s in te rp re ta n !.
C o m D e u s é que pretendo conversar,
D ebater, perante e lle , a m in h a causa.

P o rq u a n to , s ó sa b é is pregar m entiras,
C e rzir apenas, todos, frioleiras.

M e lh o r faríe is em g uard a r s ilén cio ,


P assarieis, a s s im , p o r c irc u n s p e c to s .

O u v i, vos peço, a m in h a correcçào,


A o p le ito d os m eus lá b io s attendei.

O u s a is , p o r D eus, ía z e r in iq u a s práticas,
E , em nom e d ’e lle , e nunciar m e n tir a s ?

E n tá o , quereis to m a r o seu p a rtid o ?


A d v o g a d o s de D e u s sereis, acaso ?

S e o s coraçôes vo s perscrutasse, g o s ta r ie is ?
P ensais que o ¡Ilu d ís com o se illu d e um ho m e m ?

Será elle o p rim e iro a condem nar-vos,


Se vos achar, a occultas, facciosos.

N áo vos espanta a sua m a g e sta d e ?


N á o v irá o sobre vo s o s seus te r ro re s ? .
V ossas scntenças sâo razö e s de cin za,
F e itas de arg ila säo vossas trincheiras.

D eixae-me ! hei de fallar,


H a ja o que houver.

P o rq u e hei de a m in h a carne segurar n o s dentes,


N a m in h a in äo p ô r a m in h ’a lm a ? ('•)

S em pre me h a de m a ta r ; de b o n i j á n a d a espero. 15
S ó quero, á sua face, defender m e us actos.

U m facto basta p ’ ra me dar v icto ria :


N à o ter ing re sso ju n c to d ’ elle o im p io . (7)

(in) E scutai, p o is , m in h a s palavras,


P re stai o o u v id o aos m eus discursos.

( 0 Locugtfes prov erb ia c s, c u jo s e n tid o é : Tornei o m e u p a rtid o , estou


re so lv id o a m orrcr, n à o ten lio m a is c o n s id e r a r e s a g u a rd a r. (N a fo rm a in­
te rro g a tiv a , a q u i a d o p ta d a , o s e n tid o é e s te : P o rq u e hei d e e s ta r com
m £do de fallar, p o rq u e nflo d ire i t u d o o q u e p e n so ? O te x to parece t*r
soffrido a q u i revisflo.) '
C) E lle flu c tu a entre d u a s c ontra l i c ú e s : d u m la d o a cre d ita, se guind o
urna o p in ilo m u ito em v o g a n o O rie n te s e m itic o , q u e n ingu em p od e v 6r D eus
sem m orrer ; d o o u ir o , tranquillisa- se a o pe nsar q u e D e u s n flo p o d e reve-
lar-se a o im p io .
(Ili) V ersiculo in te rp o lla d o , pro v av e lm e n te c o m o t r a n s i c ^ o p a ra o vers^
im m e d ia to .
E is me p r o m p to ; o rdenei a m in h a causa,
S ei que a ju s tiça de m eu lado está.

N ào ha ve rá quem q u e ira d is p u ta r co m m igo ?


V e n h a , em me ca la r e m orrer consentirei.

P oupa-m e, D eus, sóm ente a duas cousas, 20


Se n à o q u e r ’s q u e m ’ esquive à tu a face :

Q u e m e nào a cabrunhe a tu a m ào,


E me n áo allu c in e m teus terrores.

Accusa-me em seg uida, e responder-te-hei,


O u deixa-me fa lla r, e responder-me-has. (8)

M e u s crim es enum era,


M in h a s in iq u id a d e s dá-me a conhecer.

P o rq u e é que assim o ccultas o teu rosto ? (°)


P orque me tratas tu com o in im ig o ?

F o lh a q u e o ve n to leva, intentas assustar ? 25


P a lh e ira sécca pro pe llir,

(*) O q u e segue i urna especie de d isc u rso c o n tra d ic to rio q u e J o b , re-


d u z id o a o desespero e re so lv id o a jo g a r a v id a , d ir ig e a D eus.
(*) E lle suppöe que D eus e s tá c o n fu n d id o e n a d a te in a re sp o n d e r á
p e rg u n ta a u d a c io s a que Ihe d irige ,
P a ra que lavres co ntra m im sentenças duras,
D o s m eus d elictos de r ap a z me peças c o n ta s ? ( 10)

M ettas m eus pés em cêpos,


T o d o s os m eus a ta lh o s espiones,
M e circum des o s passos co m b a liza s,

A m im , m ad e iro pôdre a desfazer-se,


V e stid u ra que a traça e sb uracou ?

(C ap. x i v d a Vg.)

O h o m e m , n a sc id o d a m u lh e r,
T e m v id a curta e c he ia de cuidad os,

F lô r a p e n a s aberta, lo go m u rcha,
C o m o s o m b ra fu g iu , n áo d u ra nada.

E v a is sobre um tal ser a b rir o s o lh o s !


Eis quem levas com tigo a ju lg a m e n to !

C o m o d o im p u ro po derá s a liir o puro%?


N áo 6 po ssive! ; nem um s ó I

(">) N á o se se n tin d o c u lp a d o d e c rim e a lg u n i, J o b s u p p d e que D e u s faz


re v iv e r c o n tra elle c u lp a s que te ria c o m m e ttid o , sem sabe r, n ’u m a id a d e em
q u e n áo tin h a consciencia d e si.
S e o hom em tem co ntado s os seus d ia s , 5
Se o núm ero d o s m ezes Ihe m arcaste,
Se Ih e ergueste barreira in tra n s p o n iv e l,

R e tira d ’elle os o lh o s , deixa-o descansar,


G o z a r , q u a l jo rn a le iro , o firn d o seu labor.

A árv o re a in d a po d e ter e s p ’r a n ^a ;
Q u a n d o a cortarem , torna a reflorir,
C o n tin u a a la n z a r vergónteas novas.

E se a raiz Ih ’envelhecer n a terra,


E o tronco Ih ’estiver n o c h áo , prostrado,

A o c he iro d ’ág u a , lo go reverdece,


C o m o re m o ja , e veste-se de ram os.

M a s o ho m e m que m o rre, fica inteiri^ado ; 10


L o g o q u e o ho m e m ex p irou , o nd e é q u e e stá ?

Lago que s ’e x h a u riu , p e rde n do as águas,


R io que s’ estancou, ficando sécco,

O ho m e m que se d e ito u , n á o s ’e rg u e rá;


E m q u a n to o ceu pe rd u re , n áo desperta,
N áo sahe do seu dorm ir.
Se quize sse s, n o inferno, ao m enos prcservar-me,
N ’elle encobrir-me até q u e passe a tu a ira,
Fixar-me um p ra zo em que de m im te lem bres !

P o ré m , urna vez m orto, o ho m e m torna á v id a ? . . . ( 1!)


N o decorrer d o meu serviço m ilita r
F ique i á espera de que fosse libertado.

Cham ar-me-has — d iz ia — e responder-te-hei, (**) 15


D a o b ra das tuas niños terás, talv e z, saudade.

M a s tu , m eus passos ( ,:t) todos v a is seguindo,


D e cada falta m in h a tira s nota.

'S tá se lla d a n ’um ròlo ( n ) a m in h a culpa,


A juntaste n ’um feixe o s m eus delictos.

O1) Jo b flu c tu a ’ e n tre ' o de sesp ero c a co nfia n za. U rnas v eze s in ip re s .
siona-o o fa cto d e n u n c a ter re susc ita do u m Iioine ni ; o u tra s , pensa que
D e u s p o d e ria m u ito beni chamal-o á v id a , e com para-se n o in fern o a u m
so ld a d o d e s e n tin e la á espera d e q u e o re nd an t. |E’ claro q u e e s ta u ltim a
p a rte d a n o ta de R en a n tem de se alte ra r d ’h a rm o n ia c o m o s e n tid o a d o ­
p ta d o a q u i.i
(,s> J o b , nos m o m e n to s e m que conserva a e s p e r a n ç a d e q u o D eus se
le m b ra rá delle n o in fe rn o , ju lg a o u v ir já a v o z de lle, q u e o c h am a .
(>*) A r e c o r d a d o d a severidade d e D eus fa z re cahir J o b 110 desespero.
(T ex to c o n tro v e rtid o , e ta lv e z a lte ra d o .)
<><) A s c a rta s, os d o cu m e n to s officiaes s ilo , n o O rie n te , m e ttid o s n ’ um a
b o ls a que é se llad a. (N ota p r e ju d ic a d a p e lo s e n tid o q u e se a d o p t o u a q u í.)
A m o n ta n h a q « e alue, abate a pouco c po uco , ( ,5)
D o lo ga r j> n d e estava o b io c o é rem ovido .

A s àgtias v ào cavan do a pedra,


0 rio dcsfaze ndo o s o lo m a rg in a i, , '
V ais d estruindo , a ssim ta m b e m , a e sp ’ ranga ao ho m cm .

Sem rem edio o trituras, e e lle vai-se, 20


Alteras-lhe as feigòes, ( ,c) e a ssim o expulsas.

E s tim a d o s seus filh o s ? n à o o sabe.


D esp re za do s ? ta m po uc o o n ào conhece.

S u a carne só v ib r a ao seu soffrer,


S u ’a lm a apenas gem e a s u a dòr.

(,s) J o b conc hic p o r u m d e sa n im o re sign ad o, c consola-sc d a c a d u c id a d c


do h o m c m com o e s p e c tá c u lo d a s de struiqò cs len tas d a n atu re z a .
("'/ A llusA o á s d o c n ^ a s terriveis d e q u e J o b se vfi oppresso . ( E ‘ m ais
pro v av e l q u e o poeta a llud ísse á s m odi(ica 0 es im pre ssas a o ro s to h u m a n o
pela m orte.)
(C a p . x v d a Vg.)

E n tá o E lip h a z de T h e m a n to m o u a p a la v ra e disse:

C o m b a ló fo saber contesta o s a b io ?
O seu pe ito encherá de v e n tan ías ? (i)

E ’ co m p a rle n d as vas que se defende,


C o m phrases que n áo pro vam cousa a lg u m a ?

A pie dad e, és tarnbem quem a destroe,


E a m e s q u in h a o respeito p ’ra co m D eus.

Denuncia-te a bócca o teu peccado, 5


M a u g ra d o a teu fa lla r in sid io so .

E ’ tu a bócca, n áo sou eu, q u e te condem na,


E s táo d e p o n d o contra ti teus p ró p rio s láb io s.

Serás o prim o g é n ito d os ho m ens ?


O u nascerias a n te s d os o u te ir o s ? (‘ )

( I) A ' le t t r a : rento leste, v e n to d o deserto.


(M A llu sflo á S ab e d o ria d iv in a , n as cid a , se g u n d o a s ideias d o s H cbrcus
a n te s d e to d a s a s c rc atura s. A s rnesm as expressOes s ’e n c o n tra m n o s Prover­
bios, V II I , 25.
A ssististe a o c o nse lh o d o S e n h o r?
C h am a ste para ti to d a a sc ién c ia ?

Q u e sabes tu , en tào, q u e n ào s a ib a m o s ?
Q u e nog ào tens que n ó s n ào a lc a n c e m o s ?

Ha tam bem entre n ó s cabe llos brancos, 1Ü


V e lh o s, m a is que teu p a i, che io s de d ia s.

D esd e nh as, p o is , c o n s o la r e s d e D eus.


E as m eigas fa lla s que te d ir ig im o s ?

P ara onde te leva o coragào ?


E esse feroz (*) o lh s r — q u e q u e r d iz e r ?

C o m o ousas v isar D eus n a tu a cólera,


E contra elle vociferas ?

Q u e ser é o ho m e m p ’ra se crér im m a c u la d o ?


0 fillio d a m u lh e r, p ara se te r p o r justo ?

D e u s n ào se fia nos seus p ró p rio s santos (3), 15


Nem o s ceus (*) té m pu re za ante o s seus o lh o s ;

(*) E ’ preciso s u p p ò r a q u i u m j 0R 0 m u d o d e J o b , irrita d o com a hypo-


c risia d o d isc u rso d ’ E lip h a z . (A traduc<;3o litte ra l seria : p isca r os olhos, ba-
ter a s p a lp e b r a s i
(3I Is to é , n o s seus anjos.
(«) Isto é , o s seres q u e c o m p ó e m a c órte celeste.
Q u a n to nào é perverso c a b o m in a v e l
O que beb e , com o ag ua, a in iq u id a d e !

V o u instruir-te, escuta-me :
V o u contar-te o que v i,

O que o s sabios p u b lic a m , n ào occultali],


T erem o u v id o a seus m aiores,

U nic a raga pura a quem foi d a d a a terra,


E entre a q u a l o extrangeiro n un c a estanciou :

«A angustia absorve o s d ía s d o m alv a d o ,


E o s an n o s q u e o oppressor tem de viver.

R u m o r ’s s in istro s Ihe reb o a m n o s o u v id o s , *


E m p le n a p a z eré v ir sobr’ elle o a s so lado r.

S ente receio d ’em ergir d a s trovas,


A ’ e sp a d a se tem p o r co nd e m n ado .

V ag ueia atraz d o pao, n áo sabe onde encontral-o


C o n he ce o s d ia s turvos q u e l h ’cstao g ua rd a d o s.
--------------------- •\

55

A afflicçào e a m is èria o aterrorisam ,


O assaltam , q u a l um rei p ro m p to p ’ ra a guerra.

P o rq u a n to co ntra D e u s a lço u a m ào , 25
C o n tra o O m n ip o te n te se atre v e u ;

C o n tra elle investili de eolio erguido,


U n in d o , em tecto espesso, as bossas d os escudos. (5)

Invadira-lhe o rosto a nediez,


Engrossara-lhe os lo m b o s a gordura.

E is po rque m o ra em burgos assolados,


E m casas que se foge d ’h a b ita r, (il)
D estin a da s a ser m o n tóe s de ruinas.
*

A s s im , n ào s ’e nrique ce, nem Ihe d u ra a sorte ;


N ào s ’in c lin a m p ’ra a terra o s fructos de seus campos.

N à o s a h ir á d a s trevas, 30
O fo go ha de q u e im a r seus nov ed io s, ^
A ir a de D eus, d ’ um s ô p ro , o le va rá.

(*) Is to é , fa is a n t la tortue, c onform e a con tecía n a poliorce ticn d o s an-


tig o s. (A ju n e ç â o d o s escudos p o r c im a d a s c ab cça s d o s gue rre iros lem brav a
a c a r a p a ç a d a s ta rta ru g a s , n a fo rm a c n a protccçflo.)
(Il) A q u e o s fran cczcs chaînant m aisons hantées.
N ad a espere d o m a l... O treslo ucado ! . . .
O m a l, sóm e n te, co lh erá de pre m io .

S eu d e stin o ha de ter um fini precoce,


N un c a v irá a ser verde a sua palm a.

D esprende, com o a v in h a , a m argo s cachos,


D e ix a c a h ir a flòr, c o m o a o liv e ira .

P orque a fac^áo d o ím p io é infecunda,


E o fogo a b raza a tenda d o corrupto.

E lle in c u b o u o m al e procreou desgrana,


E acalentou m entira no seu peito.
(C a p . x v i d a V g.)

E n tá o Jo b tom ou a p a la v ra e disse :

D is c u rso s d ’esses te n ho o u v id o j á b astan tes;


S o is , todos v ó s , co n s o la d o r’s in tole rave is.

J á concluiste o ôcco p h ra s e a d o ?
O q u e é que te o b rig a v a a redarguir ?

E u p o d ia tam bem fa lla r assim ,


S e tivesse a voss’ a lm a , ein v e z d a m in h a .

A rra n ja ria co ntra v ó s p a lav ra s, 5


S obre v ó s (*) a cabeça a b an aría,

Levar-vos-hia com a bócca refrigèrio,


E a p ie dad e d os m e us lá b io s com o a llív ío .

M a s — fa llo , e a m in h a d ò r n ào adorm ece,


S e m e calo, d o q u e é q u e me a lliv io ?

(*| 0 movimento da cabeça è tolnado aqui corno um signal d’apparcntö


compaixâo, que occulta, na rcalidade, o sarcasmo.
’S to u exhausto de forças ;
T ornaste o m eu am biente em s o lid áo .

C o m o a um fardo, a ssim m e rem oveste ;


M e u soffrim ento é te ste m un h a falsa
Q u e se m e ergue defronte e m ’ in c rim in a .

A s u a fu ria acossa-me e lacera-mc, (*) 10


N o m eu encalço vem rin g in d o os dentes,
E afiando co ntra m im seus o lh o s torvos.

A b re m a bócca p ’ ra me devorar,
C o m v ilip e n d io batem-me na cara,
Junctam-se todos para m e aggredir.

D e u s entregou-m e ao im p io ,
A ’s m á o s de scelerados m e atirou.

Eu v iv ía em socego, e is q u a n d o m e sacode ;
Agarra-me a cabeça, e deixa-me em boceados ;
Fez-me d o corpo crívo d os seus golpes.

Rodeiam -m e, em co rd áo, seus sagittário s,


A travessa-m e o s rin s sem piedade,
Esparge p e lo solo a m in h a b ilis .

(J) O e s p irito p e rtu rb a d o de J o b c o nfun de a q u i, n ’ u m a serie d ’im aR c n s ter-


riv e is, D e u s e os s e u s in im ig o s , p a s s a n d o brusc am e n te d ’urna Id c ia a o u tra .
Vai-me ab rind o n o corpo brecha sobre brecha ; 15
G u e rre iro im pe tu oso , ava n g a contra m iin.

U m c ilic io cozi s o b r’esta pelle,


N a p o e ira esta fronte (I) sepultei ;

T e n h o o rosto v e rm e lh o de chorar,
Ñ a s p álp eb ras, te n d id o escuro veu ;

C o m tu d o , n ào h a c u lp a em m in h a s m àos,
S em pre n a m in h a prece (3) ho uve pureza.

0 ’ T erra, n à o encubras o meu sangue,


N ào se abafe o meu g rito de vinganga !

T e n h o no ceu, a ín d a , um confidente, 20
N o em pyreo um fiador.

E stào de m in i zo m b a n d o os m eus am igos,


V o lta d o s p ara D e u s m eus o lh o s choram ,

P ara que d è razào ao ho m c m contra D eus,


E ao filho d ’ ho m cm contra o seu an tag on ista. ( ‘)

(I) A ’ Ic ltru : o meu conto, im ag em en ergica sug g e rid a p e lo to u ro d e rru ba do.


(*) Is to é , n o m e u c u lto .
I4) J o b , irrita d o com o s seus a m ig o s , c o n tra os q u a e s n à o tem n e n h u m re­
c u rs o , volta-sc p o r urna c o m m o v e n te c o n t r a d ic h o p a r a D e u s , tom ando-o p o r
se u á rb itro , e m b o ra seu a d v e rsa rio a o m esm o te m p o . (A rb itro n a d u p la con­
te n d a d e J o b com D eus in ju s to c com o s s e u s am ig os.)
P o is v e jo approxim ar-se o term o d o s m eus a n uo s ;
Sigo um a ta lh o onde n áo ha retroceder.

(C a p . x v i i d a Vg.)

T e n h o a v id a arrazada,
A p a g a d o s m eus dias,
A g ora, s ó me resta a sepultura.

T e n h o n a m in h a frente, s im , m otejadores,
E d ev o em seus debates de p o u za r m eus o lh o s !

S e m in h a garantía, ó D e u s !• co ntra m im p ro prio ;


E m bater-me n a m áo (5) — q u a l o utro c o n s e n tía ?

A ’ razáo lhe s fechaste o e n te n d ím e n to ;


N áo d eix arás, po rísso , q u e triu m ph em .

O ho m e m q u e atraig oa o s seus am igo s 5


V e rá perder-se a lu z n o s o lh o s de seus filhos.

Tem-se fe ito de m im a fá b u la das gentes,


U m ser a q u e m se a tira ás faces um escarro.

(*l Era este o signal por que unía pessoa se constituía cançâo d’outra.
E x tinctos pela d ó r ie n h o o s m eus o lh o s,
R e d u z id a s a so m b ra , as m in h a s form as.

A gente honesta an da, p o r is s o , estupefacta,


Isto rev o lta co ntra o im p io o innocente.

N o em tanto, o ju s to persevera n o seu trilho,


D u p lic a de constancia o ho m e m de m áo s puras.

P od e re is in sistir q u a n to q u ize rd e s, (6) 10


N á o reconheqo em vo s sabedoria.

O m eu te m p o passou ; baquearam -m e projectos,


A spiragdes d o cora^áo.

F azeis d a noite d i a ;
P o ré m , q u a n to esse d ia evoca as tr e v a s ! (7)

(«) O s a m ig o s de J o b , irrita d o s c o m a s suas p a la v ra s v ehem entes, amea-


C avam retirar-se. (N o ta de R en a n á sua t r a d u e g ä o : E n tá o , c o lta i! pefo-cos
cu, n áo a d o p ta d a p o r n ós .)
(*) J o b encontra urna p ro v a d a insen satez d o s seus a m ig o s n o fa cto de
Ihe que re rem in sp ira r a lg u m a esp e ra n za, n ’u m e s ta d o ’em q u e já n á o h a eyi*
d e t e n ie n t e lo g a r p a ra a esperanza.
Q u a n d o s ó conto no inferno ter m orada,
Q u a n d o o meu le ito jà nas trevas (H) estendi ;

Q u a n d o cham ei ao tù m u lo meu pae,


M in h a m àe , m in h a ir m à , á p o d rid à o ;

O nd e estaria, en tào, a m in h a e sp ’ r a n ç a ? 15
E sta e sp ’ rança — quem é que a po d e v è r ?

E lla desee aos ferrolh os d o inferno


A o te m p o eni que no p ó se tem d e s c a n ç o !. . .

(*) J o b considera-sc d o m ic ilia d o já n o *chcol.


E n tá o B ild a d d e S u a h tom ou a p a la v ra e d is s e :

P ro s e g u irá s co rrendo atraz de ph ra se s?


Sé co m e d id o , e deixa-nos fallar.

P o rq u e razSo nos tractas com o b ru to s ?


N o s tens na co nta d ’ a n im ae s e s tú p id o s ?

D esgranado, q u e a ira p rò p ria despedaza,


Q u e ría s vèr, p o r ti, d espo vo a da a terra,
D o seu logar, ver o rochedo tran sfe rid o ?

C o m tu d o , a lá m p a d a d o m a u ha de extinguir-se,
D e ix a rá de Iu z ir o fogo d o seu lar.

H a de n a sua tenda a lu z escureccr-sc,


O seu b ra n d an , p o r c im a d ’e lle , ha de apagar-se.

S uas firm es passadas hfio de ser m a is c u rt is,


O seu conselho m e sm o o la n zará p o r terra.

P o rq u e os pés vai m etter d entro d e m a lh as ,


C a m in h a rá p o r c im a d a arm a d ilh a .
Lagos Ihe apa n h a rào os calcanhares ;
A rede co m firm eza o prenderá.

Urna corda Ih ’e stá te n did a s o b a terra, 10


N a senda que p a lm ilh a , o cculto um algapáo.

D e cada la d o assaltam -n’o terrores,


Vào-n’ o seguindo a passo e passo.

O m a l abre sobre e lle a g u e la esfom eada,


E sp re ita n d o o m o m e nto em q u e e lle titub e ia.

D a sua pe lle com erá boceados,


C om er-lh'os-ha o p rim og én ito d a m orte. (‘ )

D a tenda em que d o rm ía a sua confianza,


S e rá arran cad o e entregue ao rei d os terror’s p á n ic o s . (*)

O utre m irá na sua tenda resid ir, 15


Chover-lhe-ha d o ceu enxofre n a m orada.

E m b a ix o , se Ihe seccam as raízes,


E m c im a , suas frondes sáo cortadas.

0) As doenças sâo c o nc eb ida s pelos poetas s e m ita s c o m o fllh a » d a


m o r ie : o p rim o g é n ito d a m orte designa urna d o en ça q u e u ltra p a ssa todas
a s o u tra s em h o r ro r. (P rov av e lm en te, a ele phan tiasis.)
1*1 A m o rte , o u urna especie de P lu tâ o , rei d a s rcgiôes in fe r n a o s , con ­
cebid o n á o c o m o u m pe rson agem rea!, m a s c o m o u m ser d ’im ag in a çâo .
D a terra s ’e x p un g iu sua m e m ò ria ;
F ic a sem nom e n a p ia n u ra vasta.

E ’ d a lu z b a ld e a d o p ara as trevas,
D o círculo d a terra posto fóra.

N ào tem n a sua trib u filhos, descendentes,


Sobrevivente a lg u m n a sua a ld e ia.

Isto h a de s u rp re ’ender as g e r a jò c s lo n g in q u a s , (i) 20


N as geragòes de perto suscitar horror.

E is a sorte d o in ju s to ;
D os q u e D e u s n ào conhece — eis o destino.

(i) E ste versículo a d m itte urna d u p la i n t e r p r e t a l o : c r o n o lo g ic a e to-


p o g rap h ica .

h
(C a p . x i x d a V g .)

E n táo Jo b to m o u a p a la v ra e d isse:

A té q u a n d o e staréis a a ttrib u la r m in h ’alm a,


C o m taes discurso s a o p p rim ir- m e ?

P e la d é c im a v e z que me in sultáis,
M e v in d e s , sem pudo r, exauctorando.

Q u a n d o m esm o eu tivesse d e lin q u id o ,


C o m m ig o , s ó , ficava o m eu delicto.

C o m o é que e n táo o u s a is fallar-m e d ’a lt o ?


Quer®reis convencer-me d ’ ig n o m in ia ?

F o i D e u s — sabei — quem m eu d ire ito v io lo u ,


E q u e m ña s su a s tram as m ’ envolveu.

C la m o co ntra a oppressilo, nin g ue m m e d à resposta ;


D ’e lla tento a p p e lla r, ninguem me fa z justiga.

A estrada m e cercou d ’ um m u ro in tra n s p o n iv e l,


N o m eu c a m in h o sem eou cscuridáo.
D a m in h a g lo ria me despiu,
T irou-m e a c ’ roa d a cabega.

D e cada la d o vai-me d e m o lin d o ; m o rro ! . . .


C o m o àrvore, arran cou a m in h a e sp ’ ran^a,

Incendeu co ntra m im o seu furor,


C o m o seu in im ig o m e tractou.

S uas trop as avangam re u n id a s ;


V ém contra m im a b rin d o urna passagem,
• E em to rn o á m in h a tenda assentam cam po.

R e trah iu do m eu la d o os m eus irm à o s ;


D e m im se retiraram m eus am igo s.

A m in h a parentela abandonou-m e,
Q u a n to s m e c o nh e c ia m , m ’esqueceram .

C o m o extranho me v ira m hóspedes e servos


A seus o lh o s passei p o r um desconhecido.

C h a m c i o meu creado, e n ào m e respondeu ;


A Ihe im p lo ra r com m in h a bócca, até , desci.
M in h a m u lh c r tcn i n o jo d o m eu h álito ,
A os das m in h a s entranhas (i) c he iro m a l.

A te o s p e q u e n ito s m e d esdenham ,
Q u a n d o pro cu ro erguer-ine, fazem troça.

T o d a a gente d a casa m e a b o m in a ,
Voltam -se contra m im os que eu am ava.

A ’ pe lle e á carne os ossos m e ad he riran i ; 20


C o m a pe lle n o s dentes (') m e afastei.

D ó ! p ie d a d e ! ao m enos vo s, am igo s m e u s ;
P o is a m ào do S en ho r me está affrontando.

P o rq u e , im ita n d o a D e u s , m e perseguís,
D a m in h a carne sois in s a c ia v e is ?

O h ! q u e m me dera estas p a la v ra s vèr escriptas,


N ’ um liv ro escriptas, e gravadas

(I) D eve cntcndcr-se os descendentes d e J o b c x c lu in d o os filhos, visto


terem m o rr id o n o desastre a q u e se refere o prefacio d o poe m a.
(') Expressflo pro v erb ia i e q u iv a le n te a : Perdi lu d o , n à o fique i coni cousa
a lg u m a s â c sa lv a. IA in t e r p r e t a d o d'este se g un d o m e m b ro d o v ersículo C
m u ito c o ntro v e rtid a.;
C o m b u ril e com c h u m b o , (2)
Q u e p ara sem pre n ’ um a rocha s ’esculpissem .

P orque sei e x istir meu ving a d o r, 25


Q u e sobre a terra, e m fim , ha de a p p a r’cer.

Q u a n d o esta pe lle ho uve r c allid o em trapos,


T o d o lim p o de carne, verei Deus. (3)

Vél-o-hei p o ; m in i p rò p r io ;
H à o de miral-o o s m eus, n ào outros o lh o s ;
M e u s rin s se ralam já d ’iin p a c ié n c ia .

E n tá o d iré is : «P orque é que o perseg uim os ?»


E se ha de a c h a r co m m igo o b o n i direito.

Q u a n d o esse d ia vier, tem ei a e sp a d a ;


D eus pune a ssim peccados com o o vosso,
E que h a urna justiqa aprenderéis.

(*) Deitava-se C hum b o n o s sulcos fe itos p e lo b u r il ñ as m a te ria s du ra s,


p a r a os to rn a r m a is visiveis.
(*) J o b abandona-se .1 esperan za de vCr D e u s descer u m d ia á térra, q u a n d o
esteja r e d u z id o a esquele to , p a r a o v in g a r d o s seus adv ersarios. (O s cinco
versíc ulos finaes d ’estc c a p itu lo s ñ o m ilito c o n tro v e rtid o s, e de nu n cia ra gra n ­
d e s p e r t u r b a r e s d o te x to p r im itiv o , in tro d u c id a s m u it o p r o v a v e lm c n tc p o r
a lg u e m q u e tin h a em v ista a de feza d a crenga n ’ u m a v id a jtost m ortem .)
(C a p . x x d a V g.)

E n tá o S o p h a r de N a a m a tom ou a palav ra e d isse:

O pensam ento ínsprra-mc rcsposta


t ^ u e me refaz d o a b a lo interior.

S o u a lv o de censuras dep rim e n te s ; #


M as, 110 ín tim o d o ser, o e sp ir’to acode-me. (•)

A caso ig no ras que d ’antígas eras,


D esde que á térra foi la n zad o o ho m e m ,

A v ic tó ria d o m au tem sid o bre ve , 5


A alegría d o im p ío m o m e n tán e a ?

M e s m o que a ttin ja ao ceu s u a estatura,


E a c abe ra Ihe v á tocar as nuvens,

M o rre p ’ra sem pre, c o m o lix o v il,


Q u e m o v ía , pergunta : «O n d e é q u ’está ?»

0) O s h e b rc u s c onc eb iam a ¡ntelligencia c o m o ím p c sso a l, v e n d o n 'e lla unía


especie d e r e v e la d o do es p irito d e D e u s . (V é r a d e a n te : p g . 91.)
S o n h o que s ’e v o lo u , n ào reapparccc ;
C o m o v isà o n octurna s ’evadiu.

O lh o s que o tenham visto, d eix arào de vèl-o,


S u a m o rada nem de g o lp e o descortina.

Seus filhos tèrn d ’ o lh a r p ’ lo s q u ’e lle em pobreceu, 10


E a sua m ào , restituir sua fortuna.

O vigo r juv.enil os ossos Ih ’ in u nd a v a ,


E n a po e ira, ju n c to d ’e lle , irà d o rm ir.

P orque na bócca o m al Ihe p o z dogura,


E d e b a ix o d a lin g u a o escondeu,

D e vagar o p ro v o u , (2) sem o e xp ellir,


N o p á la to o reteve com v o lù p ia ;

O com er Ihe será veneno ña s entranhas,


Ha de tornar-se-lhe n o co rpo em fel de víboras.

E lie e n g u liu riq u e zas , tem de vom ita!-as ; ^ 15


Será D eus m e sm o q u e m Ih ’as v à tira r d o ventre.

C o m o un i r e b u fa d o q u o se dc ix a d c rre le r n a bócca.
A pegonha de v íb o ra s sorveu,
L ín g ua d 'á s p id e o ha de victim ar.

N unca v e ja correr p ’ ra seu regalo


M a n a n c ia e s de n ata e niel.

O a lh e io h a de rep ór, sem m ais s ’e n g o r g ita r ;


R e s t it u id o to ta l, n áo g o za rá seus bens.

P o rq u e o p p rim iu e d espo jo u o s po bres, #


S aq u e o u casas, n áo as soube erguer.

As cub icas do ventre n áo Ihe deram p a z ;


N em o q u e m ais estrem ecía sa lv ará.

N a d a escapava á sua g u lo d ice ;


N áo Ihe ha de, p o is , d u ra r sua fortuna.

A s u a e x u be ránc ia inverte-se em p e n u ria ;


Fervem s o b r’e lle os botes d a necessidade.

E is c o m o e lle ha de saciar o ventre :


D e u s Ihe d a rá tigóes d o seu furor,
Este o p a o q u e Ihe vai chover em cim a.

D e b a n d a ao v e r arm as de ferro,
P a ra c a h ir n o arco de b ronze.
D o ferim ento arranca a setta.
R e tira o d a rd o d o seu figad o ;
O s e spantos d a m orte o obse diam .

E stáo vo tad os á ru in a o s seus th eso uros;


Sem que ninguem o atice, o fogo o s tragará,
E o que restar d a sua tenda ha de engulir.

O s ceus Ihe g rita rào a in iq u id a d e ,


E co ntra elle a terra ha de insurgir-se.

O s réd d ito s d a casa ir-se-lhe-hao,


Fundir-se-hào n o d ia d o furo r d iv in o .

Este o q u in h á o que D e u s reserva a o m a u ;


A hernnga que lh e assigna o O m n ip o te n te .
(G ap. x x i d a V g.)

E n tá o Jo b tom ou a p a la v ra c disse :

E scutai, escutai m in h a s palavras,


E ste a lliv io , se q u e r, me concedei.

«
D e ix a i q u e p o r m eu turno tam bem falle,
E d e p o is seg uire is com zo m b a rias .

P o rv e n tu ra, é d ’ um ho m e m que m e qu e ix o ?
C o m o n ào perderei o sangue- frio?

O lh a i p ’ra m im , pa s m a i, 5
E po nd e a m ào na bócca.

F ico to d o a trem er ao pensar n ’ isso,


E d ’ horror se a rrip ia a m in h a carne.

C o m o é po ssive l que os perversos vivam ,


S e façam v e lh o s, p ro gred in d o em força ?

A fa m ilia prospera em vo lta d ’e lle s ;


Vai-lhes crescendo a p ro le sob os o lh o s.
A casa está-lhes livre de revezes,
A vara d o S en ho r n ’elle s n ao toca.

N ad a perdem seus touros do v ig o r genésico,


S u a s to uras concebem sem lhe s v ir aborto.

A fa m ilia é reb an ho q u e dispersa,


A ndam -lhe em to rno os filhos a brincar.

T ocam guitarra e tam borín», (I)


A o som d a frauta se divertem .

P assa m o s d ia s no p ra z e r;
E descem aos infernos de relance. (*)

E tin h a m d ito a D e u s : «Vai-te p ’ra lo n g e ;


N áo qu ere m o s saber d os teus c a m inh os.

Q u em é o O m n ip o te n te , p ’ra o s e rv irm o s ?
Q u e lucrarem os nós em lh e re z a r ? *

N ao lhe s está, n a m áo , segura a f ’lic id a d e ?


(P a ra longe de m im o vo to d o s a c r ile g o !)

II) N,1o é m u ito se gura a id e n t if ic a d o d ’estes in stru m e n to s.


Urna m o rte repentina considerava-se urna v e n tu ra .
Vè-se a m iu d e extinguir-se a lám p a d a d os m aus,
C a h ir s o b r’elle s o castigo que m erecem , (2)
D eus conferir-lhcs um q u in h á o d a sua ira ?

Q u em o s ve q u a l p a lh e ira v o lita n d o ao vento,


P e llíc u la de trig o e n v ó lta em v e n d a v a l?

« P oré m D e u s — me d iré is — o s p u n irá n o s filh o s * ;


M a s d e v ia punil-os percebendo o s paes,

Vendo-lhes a ru in a com os p ró p rio s o lh o s, 20


B e b e n d o , elle s ta m b e m , a cólera de D eus.

Q u e lhe s im p o rta sua casa urna vez m ortos,


Urna vez preenchida a co nta d os seus m e z e s ?

Q u e m ousa a D e u s dictar sabe d oria,


E lle q u e ju lg a o q u e ha m a is em inente ?

M orre um ho m e m cercado de confortos,


Pieriam ente fe liz e socegado.

Dáo-lhe caudaes de leite as cercas d os rebanhoá,


O tutano d os ossos pinga-lhe g ordura.

(*) Jo b re e d ita q u a s i te x tu a lm e n te , p a r a a s re futar, a s iin a g o n s usadas


p o r seus a m ig o s p a ra m ostra r q u e o s m a u s silo sem pre c astigad os.
E x p ira um o utro em a m a rg u ra d ’ alm a,
S em ja m a is tcr s a b id o o q u e é ter sorte.

A m b o s se deitam em po e ira igual,


O s m esm os verm es o s d e v o ram , am bos.

M u ito bem a d iv in h o o s pensam entos


Q u e contra m im vo s fazem ser in justos.

A ssim , d iz e is : «O n d e a m o rad a d o ty ra n n o ?
Q u e é d a tenda onde o s im p ío s resid iam ?*

P orque n á o ides perguntal-o aos tra n s e ú n te s ? (3)


O s casos que vos citam n áo p o d é is negar.

«Poupa-se o m a u —d ir ia m — qu a nd o bate a h o r a ; (n ) 30
Im pune sahe n o d ia d o furo r d iv in o .

Q u c m vai langar-lhe em rosto as suas o b ra s ?


Q u em Ihe d á troco ig u a l p o r q u a nto fez ?

(3| A o s v iaja n te s attribu ía- sc n in a experiencia m a is c o m p le ta do governo


do m undo, p o r te re n i visto c o m o a s co u sa s se p a s s a v a m nos differentes
paizes.
(Il) A ’ le ttra : no d ia d a p e rd ifáo . V ersículo d ’in te rp re ta tfío d iff id i, o u
p o r q u e esteja a lte ra d o , o u p o r q u e se tc n lia s u p p rim íd o u m ou don« v e rsi"
c u lo s antecedentes,
Conduzem -n’o com p o m p a ao seu co val,
Parece estar de vela ao seu ja z ig o . (4)

O s to rróes d o v a lla d o sáo-lhe le v e s ; (5)


A rrasta o m u n do i'nteiro atraz de si,
T u rb a s de precursor’s tiv e ra já .» (6)

Q u e v a le m , p o is , essas banaes consolagóe * ?


V o ssas respostas s ó a b rig a m fa ls id ad e .

(*) Is to é , re p o usa n ’ u m m a n s o lcu , en c im ad o pela s n a e s ta tu a , segundo


o eos! u m e cgyp cio . T a lv e z h a ja tam b em a lg u m a a llu s á o a in scrip góe s com-
m in a to ria s c ontra os profan adores, a n a lo g a s á s q u e se lé n o sa rc o plia g o do
reí de S id o n , E s c h m u n a z a r.
Ia) O s lo g a re s h a b itu d e s d e s e p u ltu ra c ra m o s v alles v lsin hos d a s cida-
des.
1“ ) O c x e m p lo do fm p io m o rren do na p ro s p e rid a d e convid a a tu rb a a
scguil-o n ’u m c a m in h o on d e Ihc nAo fa lta ra m já antecessores.
(C a p . x x n d a V g.)

E n tà o E lip h a z de T h e m a n tom ou a p a la v ra e^disse:


\

O ho m e m p o d c rá ter préstim o p ’ra D e u s ?


N áo p o d e ; o s áb io só é útil a si pròprio .

D e que serve ao S en ho r tu a justiga ?


Q u e bem Ihe faz teu proceder perfeito ?

Julga s ser p o r te m o r que te castiga ?


Q u e te leva co m sig o a ju lg a m e n to ?

T u a m a lic ia nao será ¡ Ilim it a d a ?


T uas in iq u id a d e s n áo seráo seni conta ?

Q u e ria s, sem razáo , p e n h o r de teus ir m á o s ;


D e s p o ja v a s os ñus de seus vestidos.

N áo d avas de beber ao fa tigad o ;


T u ; ao fa m in to recusavas páo .

Ñ a s m áo s do v io le n to ia ca h in d o a terra,
D ’e lla tornava posse (*) o ho m e m que se teme.

(') E stas desgranas, n o pe nsam en to d ’E lip lia z , acontecían! p o r c u lp a de


J o b . J o b , c o m cffeito, v isto ser ju íz , tin lia p o r dever im pedil-as.
D espediste a v iú v a m à o s vazias,
O s bragos d a o rp h a n d a d e esm oreceste.

E is po rque estás m ettid o entre a rm a d ilh a s , 10


P or terror im prev isto perturbado,

Im m e rso em trevas em que n áo v £s n ada,


N o d ilu v io das ág u as sub m e rg id o .

N á o m o ra D e u s n o s pín caro s d os ceus ?4


O lh a as estrellas — a que a ltura estào I

« D ’ isto que s abe rá — disseste — D e u s ?


C o m o ha de elle ju lg a r n a escura n oite ?

N uve ns o encobrein, privam -n’ o de v£r,


«N o circuito d o ceu (*) a n da entretido.»

Q u e r’ s, p o is , c o m p a rtilh a r n o s ve lh o s erros, 15
Im ita r esses h o m e n s sem justiga,

Q u e a v io lé n c ia arrebatou de g olpe,
E as ág ua s, (3) pela baze, d estruiram ;

(*) Isto é : n á o c u id a d o que se passa n a terra.


(!) A l l u d o a o d ilu v io , o u a q u a lq u e r o u t r a le u d a do n iesm o genero.
Q u e d iz ia m a D e u s : «Retira-te de n ó s ;»
E perguntavam de que D e u s lhe s s e r v iria ?

E fora D eus q u e m lhe s encheu de bens as casas.


P ara longe de m im o vo to d o sacrilego 1

O s ju s to s vêr-lhes-hào a ru in a e fo lgarào ;
O s innocentes d ’elle s h à o de escarnecer :

«Eil-os feitos em p ô os nossos in im ig o s !


— D ir à o — 0 fogo c o n s u m iu suas riq u e za s.» 20

Reconcilia-te co m D e u s e salvar-te-has,
V o lta rào para ti os tem pos prósperos.

D a sua bócca acceita o cn sin a m e n to ,


G ra v a n o coragáo suas palavras.

D a tu a tenda e x p u ls a a in iq u id a d e ,
T o rn a ao O m n ip o te n te , e erguer-te-has.

Arrem essa á poeira barras d ’o uro ,


M e tal d ’O p h ir á s pe d ras d a torrente.
E o teu o uro será Q u e m tu d o po d e, 25
D e u s será para ti m o n táo de prata.

’S ta rás, en táo, de bem c ’o O m n ip o te n te ,


S em te m o r erguerás p ’ ra e lle a face.

Rezar-lhe-has, e ha de attender-te ;
T eus votos (*) todos cu m p rirás.

O que intentes será c ’road o d ’éx ito ,


A lu z refu lg irá n o s teus c a m inh os.

Se te h u m ilh a re m , ficarás de c im a ;
P o is D eus a ju d a q u e m seus o lh o s baixa.

O p rò p rio d elin que n te será s alv o,


S a lv o — po rque h a pureza cm tu a s m áo s . (5) 30

(«) I s t o é : D e u s h a de attender-te sem pre. D a m n a b it te quoque votis.


V ir g ., E g l. V , 80.
1‘ ) Is to é: gra ba s a o s te u s m é rito s c c m a ttc n c a o a ti. V 6r adean te ,
P* %
(C a p . x x i i i d a Vg.)

E n tá o Jo b tom ou a p a la v ra e disse :

C o n tin u a o m eu pra n to a ser urna revo lta !


C o m tu d o , o m eu gem er n áo vale o meu to rm e nto.

O h ! soubesse eu o nd e encontral-O ,
Se eu podesse abeirar-ine d o seu throno !

Perante elle e x p o n a a m in h a causa,


M in h a bócca e n ch eria d ’argum entos.

S ab e ria as razó e s q u e tem a oppór-m e, 5


V e ría o que m e tin h a a responder.

E m vez de me atacar com fo rça app a ra to sa,


Q u ize s se antes prestar-me um pouco d ’attençâo,

V e ria a q u i a defender-se d ’e lle um ju s to ,


E eu ficaria s a lv o , em fim , d o m eu ju iz .
M as, vou ao O riente ? a h i n ào ’ stà ;
V iro-m e ao O ccidente ? n ào o encontro.

Exerce o im p è rio ao Norte ? n ào o avisto;


E ’ n o S u l q u e se a b y sm a ? n ào o enxergo ?

E ’ q u e e lle m u ito bem m e sabe o in tim o ; (*) 10


S ah ire i o uro pu ro , e x p’ rim entando-m e !

S em pre no seu encalgo a n d o u meu pc ;


N a sua esteira fui sem d esviar.

N ào me apartei d a s ordens de seus là b io s ,


M e tti no seio as leis d a s u a bócca.

‘ H a n ’elle urna intengào : q u e m vai d issua dil- o ?


0 que s u ’a lm a appetcceu, pòe-n’o em acgào.

D a rà , p o is , cum p rim e n to ao m eu d e s tin o ,


E q u a n to s dentro em si n ào g u a rd a rà !

P orisso m ’e sq u iv e i, co nfuso, A sua face ; 15


D ’elle m ’escondo a p a v o ra d o , ao pensar n ’ isso.

0) Job finge que Deus, resolvido a pcrdcl-o, s’csconde para n3o ouvir
as provas da sua innoccncia, provas de tal modo convincente« que, se qui*
zesse ouvil-as, scria obrigado a render-se a cllas.
D e u s tornou-me a p p r e n s iv o o coraçâo,
O O m n ip o te n te consternou-me ;

P o isq ue a m in h a desd ita n áo m e subverteu,


E a s s im , p o r m in h a culpa, as trevas me co briram .

(C a p . x x i v d a V g.)

P o rq u e é que o O m n ip o te n te n áo c o m b in a o s tem pos


De m o d o a que os seus servos po ssam vêr ju s tiç a ?

M u d a m , no em tanto, o s ím p io s o s m arcos d os c a m p o s, (*) '


P or s eu , m an d am pascer o g a d o que roub aram .

V á o tangendo ante si o ju m e n to d o o rp h áo ,
C o m o penhor exigem o b o i d a v iú v a .

F o rçam o po bre a desviar-se d o cam in h o ,


D ’ elles a n da m íu g in d o o s m íseros d a terra.

Estes — o lh a i — sáo c o m o o nagros no deserto, 5


In d o , cada a lv o ra d a , em b usca d ’ a lim e n to ;
A esteppe é q u e Ihes d á o p áo de que precisam.

(*) U ni d o s c rim es q u e o s hom e ns po d e ro so s c o m in c tlia m era deslocar


as pe dras q u e se rv iam de d iv isa s, em d e trim e n to d o s seus v is in h o s traeos,
q u e n âo se atre viam a reclam ar.
A c o m id a nos c a m p o s v á o co lh er,
R a p iñ a r aos v inh ed o s d o oppressor.

P assam a n oite a tiritar,


Sem d is p ó r d ’a g asa lh o co ntra o frío.

S a o trespassados pe las c h u v a s d a m o n ta n h a ;
P o r falta d ’ um a s y lo , abragam-se ao rochedo. (3)

T ira m do pe ito á s m áes o o rp h á o — scelerad#s 1


R e c la m a m de p e n h o r o s m iseraveis.

Esses a quem fizeram po bres, a n d a m ñus,


E co nd uze m , co m fo m e , os feixes de seu am o.

E ntre o s m u ro s d a s g ra n ja s prem em -lhe a aze ito n a


A o carregarem sobre a prensa (i) estáo co m séde.

G e m id o s de q u e m m orre elevam-se d os b u r g o s ;
E s tá a gritar vin d icta o sangue d os fe rid o s ;
E estas e n orm idad es n áo co m in o ve m D e u s !

(*) C om o fin i d e Cobrir a o m e n o s urna p a rte d o co rpo .


(I) Subcntende-se : d ’c sprcm er a s uvas.
O u tro s — a quem a lu z é o d io s a , (4)
O s trilh q s que e lla ac la ra , n áo conhecem ,
N a o v á o n o s rastros d ’ella.

Ergue-se o assassino ao lu z ir d ’a lva,


M a ta o fraco e o pobre,
C o m o um la d rá o , a n d a a ron d ar de noite.

O o lh a r d o que adultera e sp ia o lusco- fusco ; 15


«N áo m e ve rá nin g ue m * d iz elle,
E occulta o rosto.

O utro s salteiam casas p e lo escuro,


Conservam-se de d ia sequestrados,
N á o sabem o q u e v e n h a a ser a luz.

D e n s a caligem (5) lhe s parece a m a d ru g a d a ;


Vendo-a, conhecem o terror q u e a treva infunde.

I4) D c p o is de ter d e sc rip to a v id a d o s salte ad ore s q u e ex ccutam os


c rinie s em ple no d ia , J o b passa a urna o u tra cathego ria de scelerados, os
q u e preferern a n o ite para p e rp e tra r a s suas m alfeitorias. (V ersículo talv e z
accre sce ntado, e o s d o u s se guintes alte rados./
(5) P o rq u e a m a d ru g a d a os fa z de scobrir. (H a o u tra in te r p r e ta d o ,
ig u a lm e n te acccitavel.)
S à o co rpo leve á superficie d ’água,
E ’ m a ld ita n a terra a sua heranga,
O c a m in h o d a s v in h a s (6) n un c a tom am .

Sorve as ág ua s d a neve o estío sécco;


S ssim o in fe rn o traga o s peccadores. (7)

Esquece-os, m e sm o , o ventre m aternal ;


Fazem d os verm es as d elicia s ;
N áo h a q u e m d ’elles se recorde ;
S à o , c o m o a árvore, partidos.

O s h o m e n s d u ro s q u e d evo ram a esteri), (8)


Q u e em fa v o r d a v iú v a n áo fizeram nada.

M a s nem p o r isso D e u s Ihes ñ e ga larg o s dias,


Q u a n d o n á o criam j á v iv e r, eil-os de pé.

Dera-Ihes D eus socego e a confianza,


V elando-lhes as send as co m seus o lh o s.

{*) Isto é , n 3 o le v a m a v id a fe liz d a s p o p u l a r e s q u e pa ssa ra ni d o es­


ta d o d o b e d u in o bn n d o le iro a o s d a s trib u s a g ríc o la s c sedentarias.
C) J o b c oncede a o s seus a m ig o s q u e chcg a ta m b e m a o s perversos o seu
t u r n o d e m o rre rcm . M a s n ’ísto n á o p od e e lle vfir u m c astig o d e D e u s ; por-
q u a n to i esta a so rtc c o in m u m do s h o m e n s , e lon ge de ser triste e p re m a ­
t u ro o íim d o s m a u s , parece, a o c o n tra rio , q u e D e u s Ihes p ro lo n g a a v id a e
to rn a a m o rte tflo suav e q u a n to possivcl.
(•) A m u lh e r e s té ril, po r nAo ter filho q u e a d e fen da , 6 to m a d a c o m o o
ty p o d a fraq u e za .
S u b ira m a l t o ? vào-se d ’im p r o v is o ;
S s n ào su b ira m , m o rre m corno o s outros,
E seccam com o as p o n ía s das espigas.

Se n ào é assim , q u e m e convengam de m e n tirà,


Q u e alguem red uza a n a d a o m eu discurso.
(C a p . x x v d a V g .)

E n tá o B ild a d de S u ah tom ou a p a la v ra e disse :

Pertencem-Lhe (*) o po der e o te r ro r;


N o seu a lto logar (2) m antem a paz.

Q u e m lh e pode contar as le giòes ? *


Sobre q u e m se n ào ergue a sua lu z ?

C o m o , p o is , deante d ’ elle o ho m e m será re c to ?


C o m o s e ria pu ro o filh o d a m u lh e r ?

N em a lú a , a seus o lh o s , é bem clara,


N em as estrellas chegam a ser lím p id a s ; 5

C o m o ha de sél-o o ho m e m , s im p le s verm e,
O filh o d ’ ho in e m , p o d rid áo extrem e !

(») B ild a d , de se sp e ra n d o d e vencer a ¡m piedade o b s tin a d a d e J o b , e para


lhe m o s tra r q u a n to é in sensata a sua p r e t e n d o d e c hcg ar a té a o thron o d e
D e u s , de ixa d e o to m a r d e p a rte , c limita-se a e x a lta r d ’u m m o d o ge ral o po­
de r div in o .
(*) Is to é , n o c eu, entre a s p o te n c ia s celestes.
E n tá o J o b to m o u a p a la v ra e disse

C o m o a fraqueza sabes am p arar,


P restar a u x ilio ao brago sem v i g o r !

C o m o , levar c o nse lh o á ig n o rán cia,


Fazer correr candaes de sa p ié n c ia 1

T uas pa la v ra s a q u e m é q u e visa m ?
Q u a l e sp ir’to fa llo u p o r tu a bócca ? (*)

A s som bras m o rtuária s estremecem


S o b as ág ua s e o s seus habitadores. (2) 5

0) O c p o is d ’cstc com eqo iro n ic o , J o b , p a ra d e m o n strar a B ild a d q u a n to


as suas licfles v in h a m fó ra de p ro p o sito , c nc c ta p o r scu tu rn o urna bri-
Ih a ntc c x p o siíflo dos esplen dores d iv in o s . E stas a m p li f i c a r e s acérca de
D eus eram urna especie d o lo g a r c o m m u n i h a b itu a l d a elo q u e n c ia p a ra b o ­
lic a. C a d a q u a l s ’esforcava, á c o m p ita , p o r s ’exercitar n'cllas.
(*) A llu s á o a a lg u n a lenda > n a lo g a á do la g o A s p h a ltite , s e g u n d o a q u a l
v arios g ig a n te s re v o lta d o s c ontra D e u s te ria m s id o s e p u lta d o s ñ a s aguas.
O inferno, perante E lle , fica n u ;
D ean te d ’E Ile o ab ysm o s ’escancara. (i)

S ob re o v a zio estende o norte,


Suspe nd e a T erra sobre o n ada.

D e n tro d os n im b o s mette as águas,


E em b aix o as nuvens n áo se rom pem .

O c c u lta a face d o seu throno


Pondo- lhe em frente a sua nuvem .

R isc o u um c írc u lo ña s águas


Lá o nd e a lu z confina a treva. (3) 10

A s c o lu m n a s d o em pyreo sobresaltam-se
E se e nchem de p avo r, q u a n d o am eaça.

C o m sua força faz tremer o m ar,


E tritura o R a h a b ( ‘) com seu saber.

(I) A Icttra : n à o tem tam p a.


(*) Im aginava-se o h o riz o n te terrestre ccrcado to d o po r à g i li .
(«) V èr a c im a pag. 31. (R e nan tra d u z : D ra g à o .)
O seu alento pacifica o ceu,
Fez sua m á o a C o b ra fu g itiv a : (5)

— D a sua o b ra e is o resum o.

D ’e lla sóm ente n o s chegou leve r u m o r;


Q u e m , p o is , s u p p o rta o trov ejar d o seu p o d e r ?

(►) A c o n s tc lla ^ào d o D ra g S o . VCr a c im a , p g . 10. (E ’ o d ra g á o a que


se a tt r ib u ia o s eclipses.)
J o b c o n tin u o u a in d a a sua p a ra b o la ( 6) e d isse:

Ju ro p o r D e u s , que me confisca o m eu direito,


P elo S enho r, q u e pöe m in h ’a lm a em a m a rg u ra !

E m q u a n to em m im arfar o meu alento,


Ñ as n a rin as tive r o seu e sp irito, (7)

N ào d irà o in ju s tiç a lá b io s meus,


N áo proféré m entira a m in h a lin g ua .

Longe de m im a id e ia de vo s dar razào ! 5


S ustentarei m in h a in n o cência até m orrer.

P r o p u z justificar-m e, d ’ isso n áo d esisto ;


N em um só d ia o co raçào m e lança em rosto.

(•) E sta pa la v ra de sign a a q u i o s d isc u rso s se ntenciosos e ry th m ico s, cm


g érai. J o b , d c p o is de te r re sp o n d id o a o s a ta q u e s d e c ad a u m d o s scus
a m ig o s c d e o s te r r e d u z id o a o s ile n c io , dirigc-lhcs, a to d o s , u m discurso
collectivo.
(T) S ô p r o d iv in o , um v e rsa lm en te esparso, q u e c o n s titu e a v id a de todos
OS seres.
M e u in im ig o p o r c u lp a d o seja tido,
M e u ad v ersário, h a v id o com o d e lin q u e n te . (s)

P o is o ím p io q u ’espera, q u a n d o for cortado,


Q u a n d o a s u ’a lm a D eus lhe arranque f ó r a ?

V a i D eus p re sta M h e o u v id o s ao gem er


N o d ia em que s o b r’e lle a a n g u stia c a ih a ?

Sente e lle jú b ilo em pensar no O m n ip o te n te ? 10


C h e io de confiança, in v o c a sem pre D e u s ?

V o u explicar-vos a co nd ucta d o Senhor,


A s injun cçôes d o O m n ip o te n te , desvendar-vos.

T e n de s, com v o sso s o lh o s , tu d o v is t o ;
P o rq u e e stais p re su m in d o em bagatelas ?

E is a he ran ça q u e D eus reserva ao ag gressivo , (n)


A sorte que ao perverso a s sig n a rá o A ltis s im o :

(*) J o b v o lta c ontra os seus a dv ersarios oe p rin c ip io s q u e tin h a m , con ­


tr a elle m e s m o , in v o c a d o . A d m ittc q u e D eus é severo p a ra com o m a u ;
m a s o m a u nflo é elle, sáo os s e u s falsos a m ig o s . Q u a n to a elle, tem es­
p e ra n z a (v è r a c im a , pag. 82) ; m a s seus am ig o s é q u e n flo té m n a d a a es­
perar.
(II) E stes e os vers. se guintes, a té a o 23 in clu sivo , tin h a m provavcl-
m en te o u tr a form a o rig in a ria . H o u v e , p o is , a lt e r a d o u lte rio r.
E ’ para o g là d io que Ihe cresce a d csce n dên cia ;
N ào h ào de ter fartura em p ào os seus renovos.

A peste e n g u lirá os seus sobreviventes ; 15


N ào-n’o-hào de carpir, sequer, suas viúv as .

Se accum ular d in h e iro com o terra,


S ’e m p ilh a r o s vestidos c o m o la m a ;

D o que e m p ilh o u , irá vestir-se o justo,


O seu d in h e iro , o íntegro o terá.

C o n stru íu casa com o a traça ergueu a sua,


C o m o arm a o seu tugurio o g u a rd a d o ja r d im .

O p u le n to se d e ita ; m as n áo torna !
A b riu o s o lh o s , n ’esse instante expira.

A ttingem -n’o terror’s com o um d ilu v io ;


Arrebata-o de n oite um fura c áo . 20

O vento leste agarra n’ elle e o leva,


Varre-o d o seu logar.

Lança-lhe D eus em c im a d a rd o s , sem descanço,


A os g o lp e s d a m áo d ’e lle a b a la , e sp a v o rid o ,
A ’ sua fuga dar-se-háo s alv as de palm as,
Saudar-se-ha seu destrocar com assobios.

(C ap. x x v m d a Vg.)

T g m a prata locaes o nd e s ’explora,


E o o u ro , sitio s onde se jo eira.

O ferro tira se d o s o lo , •
R ocha fun d id a prod'uz cobre.

O ho m e m recalcou das trovas (®) os lim it e s ;


V ai pe s q u iza r as m a is escusas pro fundczas,
Ñ as pe num bras d a m orte as pe d ras escondidas.

Longe de transitad o cava g ale rías


Q u e o pé d os vivos n áo c o n h e c e ;
Suspende-se e o s c illa o nd e n áo h a v iv ’a lm a . (,0j

A térra d ’o nd e sahe o p á o 5
C o m o p o r fo go é re v o lv id a ñas e ntranhas.

S á o suas fragas le ito de saphiras,


Acha-se n’e lla o o uro em pó.

('•’) O a u c to r descrcve a q u i o s tra b a lh o s das m in as tacs c o m o se prati-


cavam n o seu tem po.
t10) Suspendia-se o s m in c iro s a u m a c o rd a p a ra tra b alh arcm ñ a s pa re ­
d e s d a m ina.
A s á g u ia s desconhecem -lhe o c a m in h o ,
N em a vista do abutre a descobriu.

N un c a a trilh o u a pata de fouveiro,


O le áo nenhum rastro a llí d eixou.

O hom em chega a p ó r a m áo m e sm o em gran ito,


A rra z a o s m ontes p ’ lo sopé.

R o m pe canaes n a p e n e d ia ; 10
N á o ha th eso uro q u e os seus o lh o s n áo contem plem .

S ab e im p e d ir a infiltraqáo d a s águas,
F az v ir á lu z q u a nto ja z ia ignoto.

M a s a sabe d oria ( “ ) — o nd e encontral-a ?


M a s o lo g a r d a in telligén cia — onde é ?

N áo pode o hom em calcular-lhe o c u s to ;


N áo se d epara em térra de viventes.

O a b y s m o d iz : «E m m im n áo ’s tá » ;
E d iz o m a r : «N áo ’s tá c o m m ig o *

«•*> Tracta-sc a q u í d a S ab ed oria personificada e consid erad a c o m o urna


especie do assessor d a div in d a d e . C o m p a ra i l'rovcrbioa, c h p . V III.
N ào se consegue a p e zo d ’o u ro , 15
N ào se d à prata em càm b io d ’ ella.

D ’o uro d ’O p h ir n ào é pe za d a em troca,
N em d a sa p h ira e d a preciosa onyx.

0 o uro e o vidro n ào se lhe com parani,


N ào se co m pra com va zo s d ’o uro fino.

O coral e o crystal sào n ada ju n c to d ’ e lla,


M a is qui* as pérolas to d as vale a sua posse.

N ào a iguala o to p à z io d a E th ió p ia ,
N à o pode equiparar-se ao o u ro puro.

D ’onde é q u e , e n tào, v ira a sabe d oria ? 20


O nd e é , p o is , o lo g a r d a in telligcn cia ?

Jaz e sco n did a aos o lh o s d os que vivem ,


P ara as aves d o ceu e lla é m ystério.

O pégo e a m orte d ize m :


«N ós apenas o u v im o s fa lla r d ’ella.»

E ’ s ó D eus quem lhe sabe o seu roteiro,


E lle a in d a , o lo ga r o nd e se o c c u lta ;
P o isq u e as o rla s d a T erra elle d iv is a ,
Q u a n to ha sob o ceu devassa tudo.

Q u a n d o s u s tin h a o s ventos n a b a la n ç a,
Q u a n d o o pe zo das águas tenteava,

Q u a n d o à c h u v a traçava a sua lei,


A o re lám p a g o im p u n h a o seu trajecto ;

N ’esse m o m e n to a v iu e pro clam ou,


A in q u ir iu , a fun d o u ;

E disse ao hom em :

« O te m o r d o S e n h o r, e is a sabedoria.
E vitar o m a l, e is a q u i a in telligôn cia.»
C a p . x x i x d a Vg.)

Jo b c o n tin u o u a in d a a su a pa ra bo la e d is s e : ( ,á)

O h ! q u e m me to rn a rá tal q u a l eu era o utr'ora,


N o s d ia s em que D e u s me tin h a em protecçâo,

S ob re a cabeça m e lu z ia a sua lám p a d a


C o m seu fu lg o r varre ndo a treva ante os m eus passos.;

T a l com o eu era n o s incus d ia s o uto m n a e s, ( l3)


Q u a n d o a affeigáo de D e u s na tenda me a d c ja v a ;

Q u a n d o co nim igo e stava a in d a o O m n ipo te n te ,


E e u , rod ead o p o r m e us filh o s ;

Q u a n d o c u la v a v a o s pés em nata,
M e v in h a a rocha a b o rb u lh a r caudaes d ’a z e ite ;

t»* J o b esquece os seus a m ig o s c a c a b a , c o m o tin h a c o nic sa d o , po r urna


la m e n t a d o sobre a s s u a s desv en turas.
0*) Isto é, d a m in h a id a d e m a d ura.
Q u a n d o eu s a h ia até á P o rta d a cidade,
E o m eu logar na pra<;a p ú b lic a a s s u m ia ! ( u )

A o verem-me, escondiam-se m ancebos,


V e lho s erguiam-se, e de pé ficavam ;

O s g rand es d avam tréguas aos c o lló q u io s ,


P u n h a m a m ào na bócca ;

E m m ud ecia a v o z d os chefes, 10
Ficava-lhes a lin g u a presa ao p à la to ;

#
Cham ava-m e d ito s o o o u v id o que m e o u v ia,
P roclam avam -m e a g lò r ia o s o lh o s que me viam .

la em soccorro ao triste que s o lta v a gritos,


E ao o rp h à o q u e nào tin h a alguem q u e o ajudasse.

E ra quem recebia as b en g ào s d o q u e m orre,


E o cora^ào d a v iú v a e n c h ia de conforto.

('•) Jo b fig u ra seniprc com o um rico b e d u in o q u e h a b ita o c a m p o e


q u e se dirig e de te m p o s a tem po s á c id a d e , o n de g o z a v a d ’u m a g ra n de con ­
s id e r a d o . R ecord em os a in d a que a ¡torta re pre sen ta v a , ñ as cid ad e s do
O rie n te , o a g o r a e o f o r u m d a s cid ad e s gregas e la tin a s . A hi h a v ia urna
la rg a pra«;a q u e servia a u m te m p o d e m ercado, d e lo c a l d a assem b lcia po­
p u la r , d e trib u n a l. E stav a m n 'c lla d is p o s to s ban cos em q u e o s anciflos se
íe n t a v a m p a ra julg ar.
A n d a v a , com o em roup a , e n v o lto em in n o c è n c ia ,
T in h a a m in h a ju s tiç a por frontal (III) e m anto.

Era o s o lh o s d o cego 15
E os pés d o còxo.

E u era o pai d os pobres,


E stud ava com ze lo a causa d o incógnito.

A o injusto quebrava- lhe a m a x illa ,


E a preza d ’entre os dentes lh e arrancava.

E d iz ia c o m m igo : «M o rro no meu n in h o , ( ,5)


Hei de chegar a d ia s , com o a a re ia , bastos.

E s tá m in h a r a íz á beira d ’água,
O o rv a lh o passa a n oite nos m eus ram os.

Ha de me ir sem pre a g lò r ia reflorindo, 20


M e u arco, (IC) em m in h a m à o , reverdecendo.»

Ouvia-m e a assistència, e o vo to m ’ esperava,


M antinha-se c a la d a a té q u e eu decidisse.

(lu) N 3 o é fá c il id e n tifica r esta peça de vestuario. R en a n tr a d u z : t ia r a .


t1*) Is to 6, n a m in h a c asa p ro spera e n o sc io d a m in h a fa m ilia.
0*) 0 arco é to m a d o a q u i pe lo s y m b o lo d a força.
D e p o is de eu c o nc luir, nin g ue m d iz ia n ad a ;
O s m eus discursos docem ente a hum edeciam .

S u s p ira v a p o r m in i corno p o r c huva,


C o m o para ag uaceiro a b ria a bócca.

Q u a n d o ficavam descontentes, eu sorria* Ihes ;


R e c o lh ia m coni à n c ia o s raios d o meu rosto.

C o s ta v a de os ir vèr, to m an d o o logar d ’ho n ra ,


C a m p e a n d o conio um rei cercado p o r seus g uard as, 25
C o m o um c o nso lad o r p o r entre o s a flic tiv o s .

(C a p . x x x d a Vg.)

E agora so u lu d ib rio de novatos,


A c ujo s p a is n ào m e dignei
P ó r entre os càes d o meu- reb anho .

D e q u e m e se rv iria gente d e b il, (” )


Q u e ja m a is conlieceu m aturid ad e ,

(, ; i J o b , c u i t u d o o q u e segue, afíecta a p are n ta r o s p a is d o s seus con ­


trad icto re s c o n i estas ra $ a s inferiores c se lvagens, especie d e r ig a n o * cujos
d e rra d e iro s sob re v iv e n te s m o r ria m d e fonie nas rey.iòes lim itr o p h e s d a Palcs-
t in i; g e nte m iserav e l e d e s titu id a d e v ig o r p h y sic o , e d e q u e to d o s desdt-
n h a v n m servir-se m esm o p a r a os m a is liu m ild e s trab allio*.
E m a c ia d a p o r m iseria e fom c,
C o a g id a a reiouçar n ’essas charnecas,
N as terras q u e a cultu ra a b a n d o n o u ,

C o lh e n d o as fo lh a s tenras d o s arb usto s, (Is)


Ñ a s raize s d a giesta a c h a n d o o pao ?

D o m e io d os h o m e n s a escorraçam , 5
C o m o atraz de ladráo , se g rita ao vél-a ;

Em ravinas selváticas se acouta,


Ñ as cavernas d a terra, entre penhascos ;

P or entre as m o itas ouvem -n’a zurrar,


Congrega-se, em m o n tóe s, sob o s sarçaes ;

F ilh a d ’a n ó n y n io s, o riu n d a d 'in s e n s a to s ,


D a terra onde sz m o ra e x p u lsa a chicotad as !

E agora sirvo d ’ a lv o á s su a s trov as,


D e seus m o rdaze s dito s sou assu m p to .

P assa longe de m im ho rro risad a, 10


N áo evita ao meu rosto o seu escarro.

í 1*) Is to é , re d u /id a a ta l gra n d e m iseria q u e v a i tir a r o su s te n to aos


no m o s le n ro s d a s arvores, com endo-os A g u is a d e sa la d a . »0 a rb u s to a que
se refere o vers, e o b jc c to d e la rga discussAo.t
E ’ que E lle á v id a a co rda me so lto u , (IV)
D iste n d eu freio ás m in h a s desventuras.

Irrom pe á m in h a dextra (,9) in fin d a turba,


M o v e ligeiro o s pés p ’ra me investir,
A p la n a co ntra m im sendas funestas. (*°)

O c a m in h o d a v id a me destroe,
T ra b a lh a , de concerto, em me a rr u in a r ;
E n ao ha quem Ihe p o n h a entrave alg u m . (v)

C o m o p o r larg a brecha, e lla s ’engo lfa.


P or entre os m eus escom bros trip u d ia .

A ssediaram -m e os terrores ; 15
C o m o em ra ja d a , se nie fo i prerogativa,
M in h a ve n tura, com o n uve m , perpassou.

E agora em queix as se desfaz m in h ’a lm a ,


O s d ia s d o in fo rtu n io m ’ em polgaram .

(IV>* Is to é, D e u s . A in te r p re îa ç â o t!os vers. I I a 13 é m u ito d isc u tid a .


Isto é, levanta-se p a ra m e a cc usa r. N o i p r o c e r o s , o a cc u sa d o r man-
tinha-se à d ire ita d o acc usa do . iP o r tu rb a entende-s; a q u i a m assa d o s fla­
g e llo » e terrores la n ç a d a po r D e u s sob re J o b . A n o ta de R en a n é c o m p a tiv e l
com este sentido.)
(») E lle com para-sc a urna p ra ça cercada.
(V) T al vez q u e o te x to a q u i esteja p e rtu rb a d o .
Vara-me a n oite o s ossos, e o s a rr a n c a ;
O m a l que me corroe, n áo adorm ece.

A d ó r desfigurou- m e;
’Stá-me ap a rta n d o c o m o a m in h a túnica.

A ’ vasa me arro jo u o O m n ip o te n te ,
C o m a p o e ira e a c in z a me co nfundo .

B rado po r ti, ó D eus, e n áo me a tte n d e s ;


E m pé n a tu a frente, olhas-me frió.

M e u in im ig o d uro te fizeste,
T u a m á o cruelm ente me fustiga.

S ob re as azas d o vento m ’elevaste,


A o s ó p ro d a to rm e nta, dem oliste.

P o is sei bem que m e estás le v a n d o á m orte,


A o logar o nd e o s v iv o s v áo junctar-se.

S ú p p lic a s v á s ! . . . Estende a sua m á o ; (VI)


Q u e lucro em protestar contra os seus g o lp e s ?

(VI) V ersículo talv e z a lte ra d o ; a sua in te r p r e ta d o é c o n te s ta d a .


Q u e me fez ter chorado o d e sd ito so . 25
E do po bre me h a v e r c o m p a d e c id o ?

Esperei a ve n tura, e tive a d esventura ;


C o n ta v a com a lu z, e trevas me surgiram .

Refervem-me as c n tra n h a s seni rcpouso.


Vieram-me em c im a o s d ia s d a desgrana.

A n d o to d o crestado, n ào porém d o sol.


N a p re s e n ta d o p o v o levanto-m e e grito.

S o u irm à o de chacaes ;
D a s filh a s d a ave stru z (2I) o parceiro me fiz.

T e n h o a pe lle tisna d a , a c a h ir em farrapos,


O s o sso s calcinado s p o r fo go de dentro. 30

%
Tornou-se-me a g uita rra (vii) in strum en to de luto,
N a frauta s ó m o d u lo to ada piangente.

(C a p . x x x i d a Vg.)

E u, coni m eus o lh o s , tinha fe ito uni pacto :


A tster-:ne d ’attentar n ’ um a d o n ze lla.

(-'i Is to é , s im ilh a n te a o s n n im a c s q u e so lta m u m g r ito piange n te.


(VIH A m esm a o b s e r v a d o 'q u e n a p g . 75, n o ta I.
1U9
■IllIUlUUliMil

(Q u a l destino irá dar-me, d o a lto , D eus ?.— d iz ia —


Q u e sorte o O m n ip o te n te me farà, do ceu ?

N áo ’s tá guard ad a a ru in a a o peccador,
0 in fo rtù n io , a q u e m o b ra in iq u id a d e ?

N à o ve D eus to d o o m eu procedim ento,


E todos os m eus gestos n ào regista ?;

Se cam inh e i no rum o d a m e n tira, 5


Se o m eu pé s ’e stugou atraz d a fraude,

lE m b a la n ç a fiel me peze D eus,


E a m in h a integridade n o ta rá!»

Se o meu pé d e s v io u d a estrada recta, (vili)


Se o coraçào me foi no rastro d ’o lh o s , (**)
Se a lg u m a n ó d o a à s m ào s se m e prendeu ;

— Fructo que eu sem car, e x tra n h o o com a,


P ela ra iz s ’extirpe o q u e me nasça !

(K) Is lo 6 : S e , e m v e z d e se g u ir a lei d e D e u s , cu tivessc s e g u id o o ju iz o


carna l d o s o lh o s d o ho m e m .
'.Villi A ’ Ie ttr a : tr a ç a d a p o r U em .
Sc m u lh e r s e d u ziu m eu coragäo,
Se a p o rta do v is in h o (**) a n d e i r o n d a n d o ;

— M in h a esp osa ain d a (ix) m o a o g rào a lh e io ,


O utro s, quaesquer, s o b r’ella se dcbrucein !

P o rq u a n to , é esse um a tten tad o horrendo,


U m crim e castigado po r ju ize s ,

U m fogo que d evo ra, e x term in a nd o , (x)


E que a m in h a fo rtun a asso larla.

S e deneguei justiga ao meu escravo,


O u m in h a serva, ao litig ar co m m igo ;

(Q ue hei de fazer — d iz ia — ao levantar-se D e u s ?


Q u e lhe responderei q u a n d o investigue o c a s o ?

Q u em me cnge nd ro u n o ventre, n áo o e nge ndraría ?


O m esm o c ria do r n áo nos forinoti n a m a d re ?)

Se recusei ao pobre o que pe d ia ,


Se fiz m urchar o s o lh o s d a v iiìv a ;

(* ) Is to i : Se Ihc espici a sa h id a p a ra c o m m e tte r u m ad u lte rio .


• IX) M o e r o g rilo era tra b a llio c o m m e ttid o a o s Ín fim o s escravos.
<X> A e x p re s s io d o o rig in a i é , p o r v e n tu ra , m a is energica : até a o in fe rn o
S e o m eu trago de p à o com i s ó s in h o ,
Sem n ’elle o seu q u in h à o n ào ter o o rp h à o ;

(Sem pre em m im , desde a in fàn c ia , achou um


D esde o ventre m aterno, a v iú v a um g uia .)

Se um ho m e m vi m orrer sem agasalho,


E co m que se c o brir n ào ter o pobre,

Sem m e terem seus rin s abengoado,


C o m a là d os m e us an ho s, a q u e c id o s ;

S e levantei a m à o contra o p u p ilo


Q u a n d o eu me v ia triu m p h a r n a P o rta ; (*‘)

— D o meu h o m b ro , o m eu brago se d esligue,


D a nuca se despegue a m in h a e sp àd u a !

P o rq u e o s golpes de D eus sem pre te m i,


A n te a sua grandeza vi meu nada.

S e no o uro estribei o m eu a p ru m o ,
S e disse ao o uro pu ro : Em ti descango ;

<«) Is to é , n a p re s e n ta d o s ju iz e s . VÉr a c im a , p g . 102, n ota.


S e me aleg rou o acervo de riquezas,
O e ràrio que estas n iáo s ac c um u lara m ;

S e ao vèr o so! no seu d e slum bra m e n to ,


E a lú a transcorrer co m e sp lend or,

M e u c o ra ç âo , a occultas, pa lp ito u ,
E a pp ro x im e i d a bócca (25) a m in h a m áo ;

(E ’ este a in d a um crim e c a pital ;


T e ria renegado o D eus do c e u !)

Se folguei co m desastres d ’ in im ig o ,
S ’exultei p e lo m al que o attin gili ;

Se perm ítti peccar m in h a garganta,


P e d in d o a m orte d 'e lle a p ra g u e ja r;

S e entre os d a m in h a te n d a a lg u m n ào d is s e :
• A ’ sua m eza quem se n ào fa rto u !*

(N ào ficava ao relento, nun ca, o peregrino,


A o transeunte, sem pre, tive a porta fra n c a ;)

A U usào á a d o r a l o d o s a s tr o s , in u ito v u lg a ris a d a entre o s Arabes


S ’en co b ri, com o todos, m in h a s culpas,
S e disfarcei no pe ito a in iq u id a d e ;

S e, fugindo a mostrar-me n a assem bleia,


O desprezo d a s trib u s recciando,
M e fechei, sem tran sp ór meu l i m i a r . . . ;

(Q ue m dera houvesse alguem que m ’e scu tasse ! (**) 35


E is nieu signal : respo nda o O m n ip o te n te !
M e u ad v ersário assigne a sua rép lica !

P regada no m eu h o m b ro p 7) a levarci,
C o m o um d ia d e m a , a cingirei n a fronte ;

D irei ao meu ju iz m eus passos todos,


C o m o um prín cipe , a ltivo o irei buscar.)

Se a m in h a terra brad a contra m im ,


Se lág rim a s gottejam sulcos m eus ;

S e o s fructos Ihe com i seni n’ a ter pago,


S e o seu p ro p rie tàrio victim ei,

i**) J o b interrom pe-se p a ra de clarar q u e est.1 p ro ra p to a a s s ig n a r to d o s os


p ro te sto s q u e acaba de ía z e r ; e q ue rc ria q u e D e u s fizcsse o m c s m o . O u so do s
d e ba te s e s crip to s existia n o E R yp to. D iod. S ic., i, 75.
i31! Is to é : lon ge d e a o c cu lta r po r raedo d a s revelaçôes vergon hosas que
a h i se c o n tivessem ç o n tra m im , mostral-a-hei a ltiv a m e n te c o m o u m t it u lo de glo­
ria,
Nasgam-me n ’e lla , em vez de trigo, a b ro lh o s, 40
E jo io p o r cevada.

( F in d a m a q u i o s d is c u r s o s d e J o b . ) (X I)

(XI) E sta ¡ndicaqAo, v isiv clm c n tc d e mAo c s tr a n h a , e a lé m d ’is s o excepcional


n o s livros b íb lico s, de n u n cia b e m a intcrpcIla^A o inten cional do discurso d ’E lih u ,
q u e vai n 'e ste v o lu m e em a p p e n d ic e . E ’ do c ré r q u e o a u c to r d ’ella seja precisa­
m ente o m esm o q u e a lin h a v o u essa ta rd ía e de scórada ré p lic a As a p o stro p h e s elo
qu e n te s d e Job.
(C ap. x x x v m d a V g.)

E n tá o D e u s respondeu a Jo b ( l) d a n u v e m procel­
losa (2) e d isse:

Q u e m é que a ssim m a c u la a C reagáo (I)


C o m discurso s v a zio s de c ritè r io ?

Cinge os teus lo m b o s com o um h o m e m , (3)


Eu v o u interrogar-te, e v a is me responder.

Q u a n d o eu langava ao m u n d o as bazos — onde estavas ?


Indica-m ’o, se d ’isso tens a co m prc’ensáo.

Q u em deu á T erra as d im cn s ó e s, — sabel-o-has ?


C ordel em c im a l h ’estendeu ? 5

0» N S o se m en c io na a q u í E lih u , sem d u v id a p o rq u e o seu d isc u rso ío i inlcr-


p c lla d o de pois de c o n c lu id o o poe m a.
i*) D e u s , n o pe nsar d o s H e b rc u s, n a o se rcvelava a o hom em sen3o encoberto
p o r n u v en s e a n n n n cia d o p e lo Irovflo.
(I) A ’ lettra : o P la n o , q u e R e n á n tra d u z Providencia.
\*) Is lo é , prepara-te p a ra responder. J eh ovali defere o desejo ta n ta s vezes
expresso p o r J o b , a saber q u e D eus condcsccndesse cm mcdir-sc com elle.
S eus aliccrces em que sào firm ad o s ?
S u a p e d ra a n g u lar, quem a assentou ?

Q u a n d o as estrellas d a m a n h à cantavam junctas,


Q u a n d o o s filhos de D eus b ra d a v a m ju b ilo s o s ? (‘ )

Q u e m fe charía o mar p o r m e io de portas


Q u a n d o , irrom pe nd o , e sp adan o u d a v u lv a ? (5)

Q u a n d o lh e dei a névoa por sendal,


E p o r fachas a n u v e m te n e b r o s a ?

Q u a n d o lim ite s p ró p rio s Ihe tracei, 10


F e rro lh os e batentes Ihe d is p u z,

E Ihe disse : A té a q u i v iràs , n ào m ais a lém ,


T e u o rg ulh o so encapellar m orreu a q u i.

M andaste, d esde que és, no alvorecer,


0 seu posto ensinaste ao arrebo l,

P ’ ra que as o rlas d a T erra segurasse


E sacu disse d ’ella os m a lfe ito re s ? (ft)

í 4) S obre o s filh o s de D eus, vfir a c im a , p g . 2, n ota 1.


(*l Suppflc-se haver o m a r ir r o m p id o d o sc io d a terra.
4*1 A terra é c onc eb ida c o m o u m tapete e s te n d id o . A a u ro r a , illum inando-a
s u b ita m e n te d ’u m e x tre m o a o u tro , assusta com e s ta a p p a r i l o re p e n tin a os m a l­
ic i tores, pondo-os cin fu g a , do racsino m o d o q u e se p e g a n ’ u m tapete pelos q u a tro
c a n to s sa c u d in d o d ’elle o pò.
D e s p o n ta , — e o m u n do é barro im presso com s in e le ; (“)
O universo apparece em trajes luxuosos.

O scelerado vé fugir-lhe a sua lu z, (s) 15


O bra$o a erguer-se para o crim e, é derrubado.

A ’s nascentes do m ar (9) terás d e s c id o ?


Ñ as profundas d o abysm o , p a s s e ia d o ?

J á entreviste o s ád d ito s d a m orte ?


O lim ia r das trevas Io b rig a s te ?

T o d a a extensáo do m u n d o a b a rc a ría s ?
F a lla , po ís sabes tudo.

A os páram o s d a lu z sabes cam inho,


E o p a íz onde a treva estaciona,

P ’ ra dem arcar a cada o seu d o m in io , 20


E conhecer o tr ilh o á sua casa ?

(*1 A a u ro ra fa z sob re o in u n d o o cffcito d 'u m sinete sob re ba rro s ig ila d o ,


d a n d o fo rm a e relCvo .1 sup erficie d a té rra , q u e é d u ra n te a n o ite u m c o in o calios
In d is tin c to . O s O rie ntao s c a r im b a v a m com urna argila g o rd a á g u is a de céra.
(*) A n o ite é o d ia d o s m a lfeito res, p o r ser ella que Ihes fornece o m eio d ’exe*
c uta re in a s s u a s m a lfeito ria s.
<•; O s H ebreus c ria m q u e n o fu n d o d 'u m p o ^ o , ou d ’ um a fo n te, havia nascen-
tes q u e o alinie n tav a m .
D e certo o s a b e s ; antes d ’e lla s foste.
T eus d ia s so m m a m j á táo g ran d e n ú m e ro !

N os th eso uros d a neve te perdeste,


D o g ra n iz o já viste o s arsenaes,

Q u e reservei p ’ ra o s te m p os torm entosos,


P ara o d ia d a guerra c d a b atalha ?

P o r qual vereda a lu z se d issem in a ,


E n a térra o levante se diffunde ?

Q u e m á s bátegas d ’água (lü) a b riu gotteiras,


Q u em á s frechas d o raio, a tr a je c tó r ia ? 25

— P a ra a chuva cahir ña s solidóes,


N o deserto o nd e falta o ser hu m a n o , (“ )

Irrigar a pla n ic ie im m e n sa e nua,


E fazer que reponte herva n o s prado?.

T e rá um pai a c h u v a ?
Q u em é q u ’engendra as gottas do ro c io ?

|>°) As chuvas q u e c ah ia m c m filetes c o n tin u o s suppunlia-se cscorrega-


rem p o r p e q u e ñ a s g o tte ira s q u e D e u s Ih e s d ls p o z e ra n o firm am ento.
0*) D e u s in siste n ’i s t a c ircu m sta n cia p a r a h u m ilh a r o lio m c m , m o strá n d o ­
me q u e a T erra n âo foi c ria d a nem p o r elle, n c m p a ra elle.
Q u a l a m adre d o g è lo ?
E a nevada d o ceu — quem a p ro cria ?

A s a g u a i corno pedra s’endurecem , 30


A p ia n u ra o n d u lo s a c o alh a lo d a .

D a P lè ia d e (,2) serás q u e m cerra o s vínculo s,


O u ao G ig ante ( ,3) fo lg a o s seus g rilh ò e s ?

E ’s q u e m a te m p o fa z nascer os astros, (li)


M a n d a erguer-se a G ra n d e U rsa ( u ) e o s c a c h o rrin h o s ?

S abes as le is d o ceu ?
E ’s quem Ihe prescreveu a acgào n a T e r r a ?

D a n d o o rd em á s n uvens, poderias
D esp en h ar sobre ti torrentes d ’á g u a ?

A ’ tu a v o z desfilarào relám p ago s ? 35


Respondem -te : «A q u í estam os ?»

(>3) Is to é : o q u e m a n tc m urna a o p é da o u tra a s respectivas estrel­


las.
(**) V é r a c im a : pg. 31 (n o ta.)
(II) E ’ disc u tiv e l se o a u c to r q u iz referir-se a o s p la n e ta s , o u á s constclla-
$ óe s brilhantes.
(>4) O s cachorros d a U rsa M a io r sS o a s tres estrellas q u e lhe fo rm am a
c auda.
Q u em p o z sciéncia ñas e n tran has d ’ h o m e m ?
Q u em á sua razáo deu p ro fu n d e za ? (m )

Q u e m das nuvens faria a co nta e x a c ta ?


Q u em as urnas d o ceu (15) pode inverter,

E , a s s im , fu n d ir o pó em m assa dura,
D a r á s g leb as d o cam po co he sáo ?

E ’s quem para o leào agarra a preza,


E aos le òe sin h os cala o appetite,

Q u a n d o ja ze m d eitados nos c o vis, 40


Se m ettem nos m assiqos, d ’e m b usc a d a ?

Q u em ao corvo prepara o alim en to ,


Q u a n d o o s filh in h o s p ara D e u s cro citani,
E v ào d ’a q u i p ’ ra a lé m , fu g in d o à fonie ?

(n i) Por m o tiv o s p h ilo lo g ico s, c p o rq u e de sto a do contex to, h a quem


ju lg u e n llu d ir o a u c to r, n ’este v e rsíc u lo , a certas a p p a rc n c ia s q u e a s nuv en s,
e em gc ra l a a th m o s p h c ra , p o d e m revestir.
(,J) O s H c b re us e o s A rabe s rcpresentavam -sc a s n u v en s q u e tra z e m a
c h u v a c o m o od res o u billias chelas d 'á g u a .
D a c a b ra m o n te zin a a é p o cha d o parto
C onheces, — e observaste a cor<;a q u a n d o pare ?

Contaste-lhes os m e z e ? d a pre nh ez ?
Sabes o te m p o em que a m b a s se a lliv ia m ?

A jo e lh a m p ’ra d c p ó r a sua cria,


E quitam -sc de dores.

O s filhos crescem fortes ao ar livre ;


Váo-se c u id a r d a v id a , a o s paes n ao v o lta m .

Q u em ao onagro d eix a a lib e rd ade ?


Q u em de pe ias liv ro u o asno m ontez,

A quem dei po r m o rada a térra esteril,


P or d o m ic ilio a regiáo s a lg a d a ?

D esd e nh a o ala rid o das cidades,


N áo presta o u v id o á v o z do conductor.

Corre a m o n ta n h a em busca de pascigo,


R e sp ig a a m enor fev’ ra de verdura.
O bo¡ selvagem (iv) quererá servir-te ?
A noite p assará no teu curral ?

V a is tu prendel-o ao régo co’ um a co rda ? 10


Irá de traz de ti g rad and o as le ivas ?


Sendo tá o forte, vais fiar-te n ’elle,
D e ix a r ao seu c u id ad o os te us labo res ?

C o m elle contas p ’ra g uard a r teu gráo ,


D a tu a e irá recolher o trig o ?

Bate incessante a aza d a avestruz,


E é a z a p ie d o s a, é a za ao m e no s ?

D e ix a o s o vos n a térra ao desam paro,


Incum be o areal de o s aquecer.

N á o c u id a de que um pé v e n h a esm agal-os, 15


V e n ham calcal-os an im ae s sylvestres.

C o m o se d ’o utrem , é cruel p ’ ra os filh o s ;


De ter soffrido em v áo p o uc o s ’ im po rta.

(IV) P arece que o a n im a l aquí d e sig n ad o , n o te x to , n üo ó o b ú fa lo ,


c o m o in te rp re ta R e n á n , c m e n o s a in d a a rh in ocerontc d a V ulgata.
P orque D eus Ihe negou sabedoria,
N á o Ihe d cu seu q u in h á o d ’enten d im e nto.

M a s eis que a ç o ita o s flancos, to m a im p u lso ,


E ri-se de cavallo e c a valleiro .

E ’s quem a força incute no cavallo,


S o lía s crinas Ih ’ estende n o pescoço,

E , assim q u a l g a fa n h o to , o faz dar p u lo s ?


Seu n obre resfol’gar infu n de o pán ic o .

C o ’a pa ta escarva o c h â o , d a força a ltivo ,


C orre ao encontro d 'a rm a s in im igas.

Ri-se d o m édo, n áo trepida


P eran te a e sp a d a , nem recua.

Sobre o seu dorso a a lja v a estruje,


O d a rd o e a lança resplancíecem.

Frem e, relincha, e ngole a terra,


V ib ra o cla rin i, n áo se contcm .

S ò a a tro m b e ta , d iz : «P artam os !»
D e lo ng e a s p ira o b a ta lh a r ,—
C h e fe s tro a n d o , hostes b ra m in d o .
P o r teu saber é que o falcáo (V) desfere o vóo,
D esd ob ra as a z a s d e m an d an d o o s u l ?

P o r o rd em tu a é que se lib r a a ág u ia ,
V a i ña s a ltu ra s in stallar o n in h o ?

H ab ita as b renhas, p o r m o rada escolhe


D e n te s de fraga, am e ias de reductos.

D e là e sp ia a preza !
O o lh a r trespassa ao longe o descam pado.

S eus filhos regorgitam de s a n g u e ir a ;1 30


O n d e qu e r q u e haja m ortos, n un ca falta.

E Je h o v a h , dirigindo-se a Jo b , d is s e :

Q u e r d is p u ta r c ’o O m n ip o te n te o crítico ?
Q u e m assim repta D e u s , respo nda e n táo.

E Jo b respondeu e disse :

E u sou n a d a ; q u e te hei de r e s p o n d e r?
N á o te n ho m ais que p o r a m áo na bócca.

F a lle i p o r urna v e z , . . . n áo redargúo ! 35


P o r d u a s ! . . . nem p a la v ra ajuntarei.

(V) M a is a o falcáo v u lg ar do q u e a o a ;o r , c onform e tra d u z c m ou tro s , p a ­


rece c o n v ir o tra ^ o caracte rístico c s u in m a rio p o r q u e o p o e ta q u iz designar
essa av e de ra p in a.
(C ap. X L d a V g.)

E D eus fa llo u a in d a a Jo b d a nu ve m procellosa e


disse :

C ing e o s teus lo m b o s conio uni hom em ;


R esp on d e ; v o u interrogar-te.

Q u e r ’s , p o is , a n n iq u ila r mi n h a justiça,
E , p o r defeza tu a, condemnar-me ?

T e rás um b raço com o D eus,


T ro v e ja rá s com v o z ig u a l?

Adorna-te de g lò r ia e m agestadc, 5
Cobre-te d ’esp len d or m agnificente ;

D à livre curso aos teus accessos d ’ira,


H u m ilh a o in so len te c o ’um o lh a r ;

D ’ um o lh a r o soberbo pu lvérisa,
O s perversos tritu ra n’ um relance,
126
j:;i:::;:;:::::::;

Abysm a-os todos jun cto s na po e ira,


Estende-lhes na face eterna som bra ;

E tam bem e u , en tào, te lo uvare i,


D ire i que a tu a m áo sabe ajudar-tc.

R e pa ra em B e hem oth, (,fi) q u e eu fo rm e i, com o a ti ; 10


Nutre-se d ’ herva com o o boi.

Reside-lhe n o s rin s a sua força,


N o s m úsculo s d o ventre o seu vigor.

A c a u d a é recta e forte, com o um cedro,


O tecido das côx as s'entrelaça.

O s ossos sáo tubo s de b ronze,


O s m e m b ro s sào b arras de ferro.

D a s obras d o S en ho r elle é a p r im e ira ;


D oou-lhe a sua espada ( n ) o C reador.

(*•) F o rm a h e braisad a do n o m e eg ypc io d o h y p p o p o ta m o (P c h c m o u tì. A


m a io r p a rte d o s caractercs q u e segucm npplicam -se, c o m efleito , a c s tc a n i­
m a i ; m a s, na descripqao, o a u c to r d e ix a se guir liv re m en te a p h a n ta sia , parc-
c en do fazer o rc tr a to d ’ u m m o n s tro p h a n ta s tic o , c o n io le M artlchore, la Co-
catrice d a idadc- m edia, e tc . (T u d o leva a crór q u e a s descripQAc» d ’este a n i­
m a i e d e L e v ia th a n sflo a ddigfles a o p o e m a ; e talv e z d o p r o p rio a u c to r .
(UJ A llu sS o à s de feza s q u e guarnecem a g ue la d o h ip p o p o ta m o .
A s m ontanhas fornecem-lhe a c o m id a ; 15
B rincam -lhe em to rno o s a n im ae s d os cam pos.

S o b o s lotos se deità,
N o recesso de charcos e juncaes.

O s lotos cobrem-n’o de som bra,


Envolvem -n’o o s v im e iro s d a torrente.

S e o rio tran sb o rd ar, n ào vai fug ir p o r isso ;


Se um Jo r d á o Ihe chcgasse á g ue la, n áo tem ía.

O usa alguem atacal-o p e la frente,


Langar-lhe a corda, perfurar-lhe as ventas ? (,8)

P ux a rás L eviathan (,9) com a n zo l ? 20


N a s u a corda v a is prender-lhe a lin g u a ? (20)

Passar-lhe-has um ju n c o ña s n a r in a s ? (21)
O u espetas-lhe um g a n c h o (2Z) na q u e íx a d a ?

(»») E ' d ’ u so n o O rie nte passar u m a n n e l n o focinho d o s a n im a e s c aptiv os.


(O te x to do versículo parece e s ta r p e rtu rb a d o ).
(,9) Este n o m c de sign a o croc odilo. M a s , c onform e já fizem o s observar
a c im a (p g . 126», im p o rta vCr a q u i m e n o s o re tra to d ’u m a n im a l de te rm in a d o do
q u e o d ’ um a a lim a r ia p h a n ta s tic a , d ’u m a especie d e dragSo.
|*°) A lin hn d o pe sca do r é c o m p a ra d a a q u i a o freio q u e se pOe na b&cca
d o s a n im a e s d e carga.
(n ) O s pescadores, d e p o is d e terem a p a n h a d o u m pcixe, tran sp ortam - n ’o
passando-lhe u m ju n c o ñ a s n arin as.
(**) Os pescadores d o E g y p to té m a in d a o c o stu m e , q u a n d o a p a n h a ra m
u m g ra n de pcixe q u e pre te n d e n ! vender v iv o, de llic m e tte r u m a n n e l ñ as guc l"
ra s c d e o fix ar na p r a ia com o a u x ilio d ’u m a corda.
Desfaz-se em rogos p ’ ra com tigo ?
P a la v ra s m eigas te d ir ig e ?

C e le b rará c o m tigo algum c o n v e n io ?


P a ra sem pre se o'origa a obedecer-te ?

C o m e lle b rin ca rás , com o se fosse um pássaro ?


Atas-lhe um fio p ’ ra recreio de teus filh o s ?

O s parceiros (23) com e lle n e gociam ? 25


Repartem -n’o entre si os c h a n a n e u s ? (?1)

Crivas-lhe a p c lle a zarg unchadas ?


Furas-lhe o cráneo com h a rp áo de p e s c ad o re s ?

Póe-lhc tu, s ó , a m áo em cim a,


E n áo te lc m b ra s de tentar n o v a faganha.

E is se g orou a tu a e x p e c ta tiv a :
A o vCl-o, succum biste de terror.

(C a p . x L i d a Vg.»

E se a u d a z n áo existe q u e o provoque,
Q u em o u s a rá, de fronte, resistir- m e?

(*0 C o r p o r a q io o u g re m io de elasse, d e pescadores sem dtiv id a.


(**i T en do os C h a n a n e u s o u P h c n ic io s e s ta d o po r m u ito te m p o de posse
do com m ercio, a p a la v r a c h a tta m u ficou se n d o s y n o n im a d e m ercador, ag-
sim c o m o choldeu. m a is tard e, d ’a s tr o lo g o ,:::
D e quem s o u d e v e d or, p ’ ra Ihe ser g r a to ?
Q u a n to h a sob o ceu, é tu d o meu.

N âo me despeço a in d a d os seus m e m b ros, (**)


D a sua fo rça, d a b e lle za d a arm adu ra.

A b arra do v e stid o — (w) quem Ih ’ergueu ?


A d u p la d e n tad ura v is ito u ?

Q u em lh e a b riu os batentes d a q u e ix a d a ? (r )
P a ira o terror em vo lta dos seus dentes. 5

Sob erb as sâo as lin h a s das escam as,


S à o renques de c a rim b o s conchegados.

U m a liga-se a o u tra intim am ente,


N em um sôpro entre as d u a s passaria.

A dhéré cada q u a i á que está p róx im a,


Seguram-se entre s i, n ào se desprendem .

D e u s re to m a a de sc rip çâo de Lcv iathau.


(*•) Is to é, a sua carapa ça .
IV) Is to é, a s u a m a x illa .
F azem b rilh a r a lu z o s seus espirros,
O s o lh o s sao as p álp e b ra s d a aurora.

D a bócca emergem-lhe brandóes,


C h is p a s de fo go Ih ’esfusiam .

D a s n a rin as escapa-Ihe fum aça,


S ao p a n e la a ferver sobre ju n q u ilh o . (vi)

In fia m m a o h á lito carvóes,


Sahe-lhe d a fauce a labareda.

A força habita-lhe o pescoço,


F u la o terror deante d ’ elle.

A s escam as d o co rpo sáo pregadas,


C o m o in crustad as n 'c lle , in a m o v iv e is .

S eu coraçào tem so lid e z de pedra,


A rije za d a m ó inferior. (*®)

Q u a n d o se ergue, o s m ais b ravo s se ap a v o ra m ,


E largam-se a fug ir allucin ad os.

(v i) M u it o fu m a re n to q u a n d o arde.
P I A m ó c om punha- sc de d u a s p o d ra s sob rep osta s c cncaixadas
n a o u ïr a , fíc a n d o a m a is d u ra d isp o sta p o r baíx o.
Se o a ta c a ro n com espada,
E s p a d a , frecha, d a rd o n áo resistem.

R e puta o ferro, p a lh a ,
M a d e ira podre o b ronze.

A fílh a d o arco (w) nao n ’o faz fugir,


P ed ras d a fu n d a sào p ’ ra e lle argueiros.

A c la v a se lh ’ a n to lh a haste de c o lm o , 20
D o re tiñ ir d a la n ç a está-se rindo.

E ’ g uarn e cid o o ventre d ’aceradas pontas,


E v o c a n d o urna grade assente sobre o lim o .

F az o pego ferver c o m o caldeira,


E to rn a o m ar c a ço ila de perfum es. í 30)

D eix a a p ó s si um rastro lu m in o s o , •
Parece o ab ysm o ter c abe llos brancos.

(» ) Is to é , a frcclia.
A llu s á o a o cheiro d ’a lm is c a r q u e o cro c o d ilo d iffun do.
N á o encontra n a térra o seu senhor,
C read o com o fo i p ’ ra n áo temer.

O lh a de frente q u a n to s o b rep uja,


E lle é o rei d os anim aes selvagens.
(C ap. x u i d a Vg.)

E J o b respondeu a Je h o v a h e d isse:

Eu sei que tu d o podes,


E que n e nh um d esign io excede as tuas forças.

«Q uem a ssim m a n c ha, seni critèrio, a C re a ç ào ?» (•)


F a lle i, é certo, d o que n ào percebo,
D e pro d ig io s que ig n o ro e m e ultrapassam .

« E u vou fa lla r, escuta-me ;


Interrogar-te vou : responde-m e.* (2)

T in h a o u v id o fa lla r de t i, sóm e n te ;
M a s agora os m eus o lh o s te contem plam .

P orisso me retracto e faço penitencia


N a c in za e n a poeira.

i 1) J » b , in te rd ic to e c o n i o e s p irito im p re ssio n ad o com a s terriv cis apos-


tro p h e s d e D e u s , repete a s p a la v r a s m esm as d e D e u s , q u e a ín d a g u a rd a no
o u v id o , e q u e , p e la p r e o c c u p a lo q**c Ihe c a u sa m , Ihe tlra m q u a lq u e r p e n ­
sa m en to seguido.
t 'i A niesm a o b s e r v a d o .

t
(C a p . XL! i d a V g , c o n tin .)

E d ep o is q u e d irig iu estas p ala v ra s a Jo b , Jehovah


disse a E lip h a z de T h e m a n : «E stou irritad o contra
ti e contra os teus d o u s a m ig o s , p o rq u e náo fallastes
de m im seg und o a verdade, com o o fez meu servo
Jo b .
O r a agora, ide to m a r sete bezerras e sete carneiros,
vinde ter em seguida com meu servo Jo b , e offere-
cei-os em h olocausto. 0 meu servo J o b rezará p or
v ós, e em attengáo a elle, náo vos p u n ire i pela vossa
lo u c u ra ; p orq u e náo fallastes de m im conform e a ver-
dade, com o o fez m eu servo Jo b .»
E lip h a z de T h e m a n, e B ild a d de S u a h , e S o p h a r de
N a a m a fo ram , pois, e fizeram com o Je h o v a h lites or­
denara, e Je h o v a h attendeu á s oragOes de Job.
E para recom pensar Jo b p o r ter rezado’ em favor
d e seus a m ig o s, Je h o v a h restabeleceu-o na sua antiga
posigáo, e restituiu-Ihe em d u p lic a d o q u a n to Ihe ha-
v ia pertencido. Com effeito, to d o s os seus irm áos,
todas as su as irm ás, to d o s os que o tin h a m conhecido
o u tr’ora, vieram ter com elle, com eram com elle o pao
em su a casa, aprcsentaram -lhe as suas condolencias,
e consolaram -n’o de todos os m ales qu e Je h o v a h ti-
n h a feito pezar sobre elle; e c ad a q u a l Ihe deu urna
k esita '(') e u m annel d ’ouro.

(*) M o e d a d a e pocha patriarchal.


E Jeh o v a h abençoou os ú ltim o s tem pos de Jo b a in d a
m a is d o qu e os p rim eiros, e elle p o ssu iu q u ato rze m il
o v e lh as, seis m il cam elos, m il ju n ta s de b o is e m il
jum entas.
E teve sete filhos e tres filhas, e ch am o u á prim eira
Pomba, á se g u n d a Cassia, á terceira Boccia de cos­
metico. O-
E em to d a a terra n a o h a v ia m ulheres tá o bellas
com o as filh as de Jo b , e seu pai lhes deu h erança en­
tre os seus irm áos.
E Jo b vive u d ep o is d ’isso cento e q u a re n ta annos,
e v iu seus filhos e os filhos de seus filhos até a q u a r­
ta geraçâo.
E J o b m orreu velilo e sa c ia d o de dias.

(*) Trata-se a q u i d o f a r d noir, c o m p o sto s o b re tu d o de a n ­


tim o n io , com que as m ulheres d o O riente pin ta m as palp eb ras
e as sobrancelhas.
■ A P P E N D IC E

O discurso de Elihu
(C a p . x x x ii d a V g.)

E os tres a m ig o s de Jo b cessaram de Ihe re sp o n ­


der, p orq u e este persistía em dizer-se justo.
E n tá o s’in flam m o u a colera d ’E Iih u , O filho de Ba-
rakel o B u zita, (*) da R a ^ a de R a m ; (3) inflam m ou-se,
prim eiro, contra Jo b , p orq u e este p retend ía sustentar a
sua innocencia perante D e u s ; inflam m ou-se tam be m
contra os seus tres a m ig o s, p or n á o terem achado
resposta conveniente a dar-lhe, e p or o terem , todavía,
c onde m nado. O ra , E lih u náo p u d e ra até a q u i replicar
a Jo b , porque os outros interlocutores eram m a is ve-
Ihos d o q u e elle. M a s , v e ndo q u e j á n á o tin h a m res-
p osta a lg u m a na bócca, sentiu v io lenta in d ig n a g áo .

(‘ ) Este personagem n áo figurou no p r o lo g o ; n áo é , tam-


pouco, m e n cio n ado no e p ilo g o , sendo esta urna d a s razó e s que
fazem crér que to d o o d isc u rso seguinte é d ’ o u tra m áo.
(*) T r ib u d a A r a b ia deserta, párente d a de U s.
(3) N om e a liá s desconhecido.
E n tá o E lih u , filho de B arak el o B u z ita , to m o u a
p a la v ra e disse :

S o is v e lh o s e eu sou n ov o ;
R a z á o p o rq u e tre m i, tiv e receio
D e vos m an ifestar m eus sentim entos.

Eu d iz ia com m i g o : « O s d ia s v áo fallar,
O s larg o s a n n o s revelar o q u e é sciéncia.

M a s a sc ié n c ia é um e sp ir’to d a d o ao ho m e m , (•)
E ’ o sópro de D eus q u e o fa z intelligente.

N áo é a idade que n o s to rn a circum spectos,


N áo sáo o s v e lh o s q u e d iscernem a justiga. (I)

E is p o rq u e d ig o : «Ouvi-m e,
V o u , eu ta m b e m , expór-vos o que p e n s ó .» 10

(*) O s H e b rc us concebían« to d a s a s fo r ja s phy sicas e m o ra c s do hom em


c o m o u m effeito d o sA pro d e D eus.
(I) A llusA o ao s tres in terlocuto res de Job.
Soffri-vos os discursos,
Prestei o o u v id o ao vosso arrazoar,
A té dardes p o r finda a d iscussáo.

Fui-vos s eg uin do attentam ente,


M a s , declaro-o, n e nh um de vo s reíutou Jo b ,
N en hu m Ihe soube rebater o s argum entos.

E n ao d ig aes : «Este ho m e m é a scié n c ia m esm a,


S ó D e u s , e n a o o h o m e m , po d e su b ju g a l- o .»

E m b o ra se nao tenha d irig id o a m im ,


Saberei responder-lhe bem m e lh o r que vos.

Eil-os in tim id a d o s ! j á n ào d á o resposta :


T iraram -lhes o v e rb o . 15

E sperei que acabassem de fa lla r,


Q u e e m m udecessem , n a da m a is dissessem .

V o u ta m b e m respo n de r p o r m in h a conta,
V o u , eu ta m b e m , expór-vos o que sei.

P o rq u e estou cheio de discursos,


Suffoca-me o e s p ir ’to que m ’e le v a o peito.
M e u ventre e com o um v in h o e n v a silh a d o ,
C o m o um odre de m o sto que se fende.

E u vou fa lla r p o r desabafo,


M e u lá b io s vou a b rir e responder.

N á o farei accepgáo a lg u m a de pessoa,


N áo buscarei lis o n je a r quem qu e r q u e seja.

N á o sei lis o n je a r;
S e o fago, o C read or me leve n ’esse in s ta n te !

(C ap. x x x iii d a Vg.)

O u v e p o is , J o b , m in h a s p a la v ra s — pego-te,
A o s m eus discurso s todos presta o uvido s.

E is que abro a m in h a bócca,


Q u e a m in h a lin g u a d iz p a la v ra s s ob o pála to .

E lla s e x p rim e m rectid áo de coragáo,


D ir á o m eus lá b io s o q u e penso com franqueza.

E ’ o e sp ir’to de D eus, que m e crcou,


D o O m n ip o te n te o s ó p ro , q u e m e vivifica.
Responde-m e se podes ;
Prepara os argum entos, tem-te prom pto.

P erante D eus sou teu ig u a l,


D o m esm o lo do fui tirado.

O s m eus terror’s, ao m e no s, n ä o t’ e sp antaráo ;


D a m in h a m agestade o pe zo n áo t ’esm aga. (2)

S im , tu disseste aos m eus o uvido s,


E das tuas p a la v ra s o iç o a in d a o so m :

«S ou pu ro , exem pto de peccado ;


N áo h a em m im in iq u id a d e , s o u sem m ancha.

D e u s busca contra m im m o tiv o s d ’ó d io , 10


C o m o seu in im ig o e lle m e trata.

E lle metteu-me o s p é s em cepos,


T o d o s o s passos m ’e sp io n a .»

Respondo-te, — n ao foste ju s to em dize r isto ;


P o rq u e o S en ho r excede m u ito o ser h u m a n o .

(*) A llu s fio a u m d o s p c n sa m e n to s alle g a d o s p o r Jo b com m a is írcqucncSa, a


sa b e r q u e a sua d e íe za n üo ó liv re , q u e a p a rtid a nflo 6 ig u a l entre elle e D eus,
p o r este o e s m ag a r com terrores c com v isó es q u e Ihe tiram a p resen ta d ’c sp irito
P o rq u e d is p u ta s contra elle ?
A n in g ue m e lle d iz a causa d os seus actos.

D eus fa lla ao ho m e m urna vez,


D u a s até !... (m a s n áo o escutam !)

A p r in c ip io por s o n h o s e v isó e s nocturn as, 15


Q u a n d o sobre os m o rtaes e stá p e za n d o o s o m n o , (II)
Q u a n d o elle s dorm em n o s seus Jeito s:

A b re o o u v id o ao ho m e m n’ esse instante,
E n ’e lle g ra v a as su a s ad verténcias,

A fim 0e o affastar das su a s obras m ás,


E de o curar d o seu o rg ulho ,

P ’ra lh e salvar a a lm a d o c o vai aberto,


S u a v id a , d o d ard o que a am eaga ;

D e p o is p o r d ó r, q u e o tem pre gad o em sua cam a,


P e lo despe d azar c o n tin u o d os seus ossos.

O h o m e m g a n h a e n táo desgosto ao a lim e n to , 20


O coragáo detesta-lhe o m a n ja r m ais fino.

*11) R c m cnisccncia do C a p . i r , 13.


A carne se Ihe vae a o lh o s vistos,
Seus ossos d esn ud ado s se d is s ip a m ;

S u ’a lm a fica p ró x im a d a tu m b a ,
E sua v id a entregue aos Exterm inadores. (3)

M a s s ’encontrar um a n jo intercessor,
Entre os in n u m e ra v e is se r’s celestes,
Q u e Ih ’ensine o q u e deve de fazer,

D e u s tem d 'e lle pie dad e, e d iz ao a n jo :


« D a descida ao co vai o p o u p a r á s ;
S a t i s f a r ò o b tiv e ».

M a is frescor q u e na in fa n c ia a d quire a sua carne,


V o lta aos d ia s em que era adolescente.

F az oragáo a D e u s , e D e u s o favorece;
C o m jú b ilo c o ntem pla a face d o A ltiss im o ,
E o A ltis s im o a in n o c e n c ia Ihe devolve.

E lle vae-se a ca n ta r p o r entre os h o m e n s :


« D e lin q u i, á ju s tig a fiz aggravo,
S eg und o o m eu errar nao fui tratado.

(*> Is to í\ a o s a n jo s q u e cx c cu ta n i a s ving an ^a s divinas.


D e u s im pedii) m in h ’a lm a de dcscor á co va,
Ferm itte-m e g oza r d a lu z , a in d a .*

O ra e is com o D eus procede


D u a s , tres ve zes com o hom cm .

P ’ra o retrahir d o tú m ulo ,


P ara o illu m in a r co ’a lu z d o s vivos.

’S tá p o is attento, J o b ; escuta-me ;
Cala-te, e deixa-me fa lla r.

Se tens a lg u m a coisa q u e d ize r, responde-mc,


F a lla , po rque desejo descobrir-te justo.

Se n a d a tens, escuta-me,
Cala-te, e c u t ’e nsinare i s abcd oria.
(C a p . x x x i v d a V g.)

E lih u proseguiu e disse:

S á b io s , o u v i m ín h a s p a la v ra s ;
Prestae-me o u v id o s , sapientes ;

A s p a la v ra s discerne-as o o u v id o ,
O pa la d a r escolhe os a lim e n to s, (ni)

A ju s tiç a trate m o s d ’encontrar,


E ntre nós p ro cu re m o s o q u e é b o m .

« ’S to u innocente — d is s e Jo b ; 5
D e u s me nega a ju s tiça q u e m e deve.

M a n ie n d o o m eu d ire ito , passo p o r d olo so,


S em m a n c h a e m b ora, a m i n h a f rid a sangra sem pre.»

N a ve rd a d c, este J o b q u e ho m e m n ào é !
A b la s p h é m ia , com o á g u a , está b ebendo !

A n d o u na c o m p a n h ia de m a lv a d o s ,
E lle foi c a m a rad a de sacrile g os;

d ii Rem iniscencia do C a p . x i i , I I .
P o rq u a n to disse : «D e que serve ao hom em
V iv e r coni D eus c m boa in tc llig ê n c ia ?»

O uv i- m e , p o is , ho m ens sensatos ; 10
Longe de D eus a in iq u id a d e !
D o O m n ip o te n te , a in ju s tiç a !

D á a cada um seg un d o as su a s o bras,


F az cada uni m anter o prcço d os seus actos.

N áo e n á o , D eus n áo p o d e com m etter o m al,


O O m n ip o te n te n áo fa ls e ia o b o n i direito.

O governo d a T e rra — q u e m l h ’o o u th o rg o u ?
Q u em confiou a o s seus c u id a d o s o U n iv e rs o ?

Se táo sóm e n te a si se c o n s id ’ rasse,


S e retirasse a si seu s ô p ro e o seu e sp ir’to,

E x p ira ría n ’esse instante toda a carne, 15


D e n o v o o ho m e m entraría n a poeíra.

E m nom o d a razáo , escuta isto,


A o rum o r d o q u e d ig o presta o u v id o s .

G o v e rn a ria o m u n d o o que a ju s tiça o d e ia ?


O u s a s tu c o nd e m n ar o ju s to , o po deroso ,
Q u e d iz aos reis : «O v a ld e v in o s ! *
E d iz aos príncipes : «B a n d id o s !*

Q u e náo faz accepgáo das pessoas d os grandes,


N áo o lh a o rico antes do po bre ;
P o rq u e das su a s m áo s sao um e o utro a obra ?

S ú b ito , pela noite , m orrem o s tyrannos, 20


A cordam em tu m u lto o s p o v o s, e vag ueiam ,
N áo sé vi* m áo que o leve, e o po d eroso vaí-se.

’S tá posto o o lh a r de D e u s no proceder d o h o m e m ,
D istin ctam e n te , e lle Ihe nota os passos todos.

N áo h a trevas, nem som bra


O n d e po ssa esconder-se quem faz m al.

D eus n á o precisa ver um ho m e m duas vezes


P ara p ro n u n cia r s o b r’e lle o seu ju izo .

Sem exanie, e lle parte o s poderosos,


E em lo ga r d ’elles póe a outros ;

P o rq ua n to Ihes conhece o p ro c e d e r; 95
Precipita-os de noite , (4) e o s despedaza.

(«) Is to é , n a hora crn q u e m e n o s o esperam .


E lle o s fu lm in a com o a m alfeitores,
A ’ vista d ’ um a turba que o s contem pla.

P o rq u a n to , d ’e lle retirando-se,
N ào te n do em conta os seus preceitos,

Lhe fizeram chegar o g rito d o indigente,


O forçaram a o u v ir o b ra d o d o in fe liz.

Q u e m acha q u e d ize r se D eus perdoa ?


M a s qu e in po d e affrontal-o, q u a n d o o ccu lta o rôsto , <5)
Sobre as naçôes e o s in d iv id u o s ,

P ara p ô r cobro ao im pe rar d o im p io , 30


lm pedindo-o que seja o lá te g o d o p o vo ?

H a v ia este im p io d iio a D e u s :
«F u i p u n id o , e n áo to rn o a peccar m ais ;

Mostra-me tu o que n áo v e jo ;
Se com m etti in iq u id a d e , n áo r e in c id o ? » (r>

(*l D e u s o c c u lta o ró sto sob rc urna n a ^ à o , q u a n d o en tra a seu re speito em


d e »ig n io s im p e n e tra v e is e lhe p r e p a ra revolucOes inesperadas.
t‘ ) Q u e r d iz c r : e s lc im p io n à o q u iz c r a subm ettcr-se aos p rim e iro s castigos
d e D e u s , nem reconhecer q u e b e n i o s pod era te r m erccido po r c u lp a s q u e ig n o ­
ra va . E ’ pro v av e l q u e . s o b a s fei^Oes d 'c s tc im p io , E lih u q u e ira in directau icn tc
d e s ig n a r Job.
V ai D eus pedir-te o vo to p ’ra p u n ir tal ho m e m ?
I r á dizer-te : «S ê ju iz em meu lo ga r ?
F alla conform e te pareça.»

Q u e as pessoas sensatas m e respondam ,


Q u e o hom em de saber m e preste o uvido s.

Jo b n áo fa llo u segundo a s c iôn cia, 35


Seus discurso s n áo sào conform es á razáo .

P o is bem ! que Jo b pro siga sendo posto á p ro va,


P o isq ue as suas respostas foram as d ’um m au.

A seus crim es junctou im p ic d a d e ;


Está-se a rir n a nossa cara,
Fatig a D e u s com seus discursos.
(C ap. x x x v d a Vg.)

E liliu tom ou a in d a a p a la v ra e disse : (7)

P od e rás crcr q u e te as sis tiu razao ,


Q u e soubeste ante D e u s justificar-te,

Q u a n d o disseste : « Q u e me faz m in h a inno cencia ?


Se tivesse peccado o que soffria m a is ?»

V o u responder-te
E ao m e sm o te m p o a teus am igo s.

C o n te m p la o s ceus e considera-os ; 5
V ô tu as n uve ns : a q u e a ltura estào de ti ! (IV )

S e peccas, que Lhe (R) p o d e fazer isso ?


S e teus c rim e s se a ju n c ta m , q u e Ih ’im p o rta ?

(*) E sta d e s c o n tin u id a d e de discursos p o d e rla fazer pensar, á p rim e ira vista,
q u e a s div e rsas pa rte s d o a rra z o a d o d ’ E lih u fo ra n i c o m p o sta s successivamente-
M a s está m u it o n o h a b ito do s O rie ntae s inserir, va ría s vezes, n o decorrer d ’u m dis­
cu rso a fo rm u la : « D isse » , eq uiv ale nte a* *
11V) R em eniscencia d o C a p . x x n , 12. Ig u a l o b se rv a çâ o p a ra os d o u s vers, se
g u in tc s . C f. C a p . XXII, 13.
f*i O u so de d e s ig n a r D eus p e lo p ro n o m e d a 3.“ pessoa era b a stan te triv ia l nos
a n tig o s H e bre us. O p r o p rio n o m e d 'E lih u (E lle 6 o m e u D eus) é u m ex e m p lo d ’isto-
Se és ju s to , que pro veito d ’ isso tir a ?
Q u e vantagem Ihe d à tu a in n o c e n c ia ?

T e u peccado só teus iguaes pode attingir,


T u a justiga só v a le r aos filh o s d ’h o iu e m .

O s fracos, é ve rd ad e, gem em na o ppressào,


E s tào g rita n d o s ob o brago d os m ais fortes.

N iio tinharn d ito : «O n d e e stá D e u s , que m e creou, 10


Q u e in u n d a a noite d ’h y m n o s d ’a leg ria , ('•')

Q u e n o s instrue m e lh o r q u e a o s anim aes d o s campos,


Q u e nos to rn a m a is s a b io s q u e as aves do ceu ?»

E is o s que b ra d a m , c nao sao o uvido s,


S o b o pezo d os m a u s que o s tyrannisani.

D e u s , coin effeito, n ào a tten d e ao triv ia l,


O O m n ip o te n te p ara ahi n ào v o lta o s o lhos.

Q u a n d o o censuras p o r de n ó s n ào se occupar,
T u a causa expozeste ; espera o seu ju izo .

I9) Is to é, q u e m u d a o in fo rtu n io em alegría.


M a s , po rque a ín d a n ào s ’exerce a sua cólera, 15
P o rq u e affecta ig no rar as nossas culpas,

Jo b se apressa em la n ça r discursos váo s


M u ltip lic a r p a la v ras sem sciéncia a u th én tica.
(C a p . x x x v i d a Vg.)

E lih u disse a in d a :

E spera um po uc o , e dar-te-hei liçôe s,


T e n h o razòes a in d a a apresentar p o r Deus.

T rarei de longe os m eus p rin c ip io s , (10)


D a re i razào ao C reador.

N áo sào, de facto, m e ntiro sos m eus discurso s :


Palla-te um ho m e m de sc ié n c ia co nsum m ada.

D eus é g ran d e, e a n in g u e m , c o m tu d o , e lle repelle ; 5


P or sua forte in te llig ê n c ia é q u e elle é grande.

N ào deixa o m a u viver,
A os fracos fa z ju s tiça .

D e sobre os justos n áo d esvia o s o lh o s,


Fal-os sentar no th ro n o co m o s reis,
Exalta-os p ara to d a a e ternidade.

I,0i E lihu aprcseiita-se c o m o d e v e n d o revelar u rn a d o u tr in a p ro fu n d a e inespe­


rada. E is a razfio po rq u e pe d e te m p o p a ra se co nc e n tiar.
Se veem á s vezes a c a h ir em ferros,
Ficam presos nos la ç o s d a d e s g ra ç a ; ( " )

Faz-lhes vêr q u e o m er’ceram p o r seus actos,


P o r ser o rg u lh o , pelos seus pe ccados ;

Abre-lhes o o u v id o á s ¿uas rep rim e nd as, 10


D iz-lhes q u e renuncien! á in iq u id a d e .

S e elles o o uve m , se elle s se s u b m e tte m ,


F in a lis a m seus d ia s n a v e n tura,
Seus an n o s no prazer.

M a s se o n áo o uve m , m orrerào p o r arm as,


E x p ira ráo sem d a r p o r isso.

Sentem no co raçâo d e s p e ito o s im p io s ,


N á o rezam , ao lançal-os D e u s n o s ferros ;

M o rre m , po risso , em sua ju v e n tu d e ,


E ’ sua v id a c o m o a d os h ie ró d u lo s . ( ,2)

M a s D e u s liv ra o h u m ild e que padece ; 15


E ’ p e lo soffrim ento q u e Ihe d à conselhos.

(«) T u d o o que se segue, se refere in d ire c tam e n te a Job.


(»*) H ie ró d u lo s d o s tem plos d a S v r ia , v o ta d o s a in fam e s p r o s titu y ó o s , e a
m o rte prccocc.
A ti tam bero, far-te-ha passar d ’estreito cárceere
P ara um espago livre e sem lim it e s ;
H á o de cobrir-te a m e za m a n ja r ’s succulentos.

E ncheras a m e d id a de crim es d ’ um m a u ;
Soffrcste*lhe a sentenga e a pe n alid ade .

A ir a de D e u s n áo contes c o n ju ra r co m m u lta ,
Perde a fé d ’escap ar p o r uro grande resgate !

C u id a s que faga caso d a s riqu ezas tuas ?


O s th eso uros d o m u n d o e o o uro n áo lh e im po rtam .

N á o cham es, p o is , a noite com teus vo to s, 20


A n oite ero q u e , de g o lp e , o s p o v o s se a n n iq u ila m . (13)

Guarda-te d ’ in sistir ero táo c ulp o sa ideia,


O u s a n d o preferir a roorte á desventura.

D eus é s u b lim e em seu p o d e r ;


C o m o dar-lhe ligoes — q u e m é que sabe ?

('*) A llu sS o á s pa ssagens cm que J o b fa z ia v o to s p o r q u e viesse a «norte d u m


p r o m p to ju lg a n ie n to d e D e u s . O ju iz o de D e u s presume-sc se m p re q u e s'cxerce
de n o ite p o r gra n d e s c a la m id a d e s que v ib ra sob re o s reis c os povos- V6r
a c im a p a g . 149.
158
r jiiiit ü iii t 's u ,

Q u e i» vai traçar-lhe a v ia que deve seguir ?


Q u em Ihe p o d e dize r : «F izeste m al ? » (v)

A ntes m edita em exaltar-lhe as o bras,


Q u e os h y m n o s d os h u m a n o s ce le b risam .

D eus é g ran d e de m ais para que o co nheçam o s ; *25


N áo se pode aos seus a n n o s c a lc ula r o núm ero.

A ttrah e a si e m a n a çô e s d a s águas,
Q u e se fun d e m em chu va e form am seus vapores ;

•Espalham -n’as as nuve n s em seg uida ;


Em g ó tta s se d e sp e n h a m sobre a tu rb a hu m an a.

E c o m o c o m pre ’en de r o lacerar das nuvens,


O e sta lle ja r d a sua te n d a ? ( ,4)

O r a s ’e m b ru lh a n a c o rtin a d os relám p ago s,


O r a no fun d o m a r ( 15) parece que se occulta.

(V ) R en icn isccn cia d o C a p . I X , 12.


tM) A s n u v en s q u e Icvaiu o ra io sAo repre sen tadas c o m o ten das o n de D eus
s ’e scon de p a ra la n z a r a s su a s frechas.
<•*( Tracta-se a q u i d a s a lte rn a tiv a s de lu z c d e trev as, q u e t é m lo g a r ñ as
tem pesta de s. A s n u v en s sAo co m p a ra d a s a u m m a r so m b río c profun do.
Servem-lhe as tem pestades quer para os pu n ir,
Q u e r p ara d a r aos ho m ens a lim e n to farto.

C aig a a m áo de faiscas lu m in o sas,


Arremessando-as co ntra o s in im igo s.

O estrondear d a sua m archa o an n un cía,


O susto d os re b a n h o s trahe-lhe a chegada. (I6)

(C ap . xxxvn d a Vg.)

P o r m im , o coragáo me p u ls a n ’esse instante,


E s a lta fóra d o logar.

O u v i, ouvi-lhe o e stro n de ar d a voz


E o r ib o m b o que sahe d a s u a bócca.

E n che com e lle to d a a a b o b a d a d o ceu,


V á o até aos confins d a T e rra ( ,:) os seus relám p ago s.

A v o z Ihe ruge lo go a seguir ao r e lá m p a g o :


C o m sua v o z s o b e rb a t r o a ; .
Q u a n d o e lla se ouve, j á n áo tem n a m á o o raio.

( w) O s a n tig o s a ttr ib u ia m a o s re banh os u m p re se n tim e n to d a tro v o a d a .


V irg ., tíeorg.. I , 373 e seg.
(,; ) A T erra é c onc eb ida c o m o u m ta p e te e s te n d id o : a s e x trem ida de s da
T erra s á o , de certa m a n c ira , a s o rlas d o ta p e te . V ér a c im a . p a g . 116.
C o m v o z m a ra v ilh o s a D eus trov eja,
F a z g rand es coisas im p o s siv e is de saber.

A ’ neve d iz : «C a lie sobre a terra.»


C o m m a n d a o s aguaceiros e as vio le n ta s chuvas.

Ñ a s m ào s d os ho m ens assim póe a lg e m a s (1X)


P a ra ficarcm conheccndo o C read or.

Recolhe o a n im a l e n táo ao seu co v il,


V ai re p o usa r n a sua toca.

Irrom pe o te m p oral do seu retiro occulto, (iu)


T raze m o frió as b risas borcacs.

O g é lo forma-se ao arfar de D eus, 10


A a g ua se contralle e se co m prim e.

E lle carrega as n u v e n s d ’ h ú m id o s vapores,


L e v a ante si as nuve n s que contem seu ra io :

(•»i Is to é, condcm na-os á in a c tf o p e lo frío c pela im p o s s lb ilid a d c d e traba-


lliarein n o s cam po s.
('•» "especie d e a ntro s d ’ E o lo , o n d e re p o u sa m o s ventos. C o m p a ra i acim a
p a g . 158 c F’ s a lm o C x x x v (V g. C . x x x iv i, 7.
A o seu c o m m a n d o , vào-se em d irecçôes d iv e rs a s
A fini d ’ executar as ordens que Ihes d à,
Sobre a parte d a terra, o nd e se ha b ita .

Q u e r pretenda p u n ir as creaturas,
Q uer, mostrar-lhes e n tào m isericòrdia.

J o b , presta o u v id o a tu d o isto;.
Ergue-te, e co nside ra os pro d ig io s de D eus.

Sabes que intentos Ihe président a o s inilagres,


P orque d a s su a s nuve n s faz c hisp a r o fogo'? 15

C o nhe ces tu a lei d ’e q u ilib rio das nuvens.


O s arcanos de Q u em possue saber p e rfeito ?

P or que m o tiv o as tuas roup as s e ráo qu eutes


Q u a n d o a terra descança ao ve n to d o M e io d ia ?

S ab e rás, corno elle, m arte la r as nuvens,


I)ar-lhes a so lid e z d ’um e sp elh o m e tà llic o ?

Explica-m e o que se llie ha-de r e s p o n d e r !. . .


M as calem o-nos antes, néscios q u e nos so m o s !
P o r fa v o r! q u e nin g ue m Ihe d ig a estes d is c u rso s ! 20
Q u a l ho m e m pro curo u, jà m a is , a sua p e r d a ? (*°)

N o in stan te em q u e o so l cîcsapparece.
Q u i a s u a lu z s ’csconde atraz das nuvens,
P erpasse o ve n to , e fica pu ro o ceu. (2I)

V em d o septentriâo , de g o lp e , uni ra io d ’o uro ,


O ’ a d in ir a v jl esp len d or de D e u s !

N un c a o a ttin g ire m o s : g ran d e p e la força,


P ’ io d ire ito e a ju s tiç a , e lle a nin g ue m responde.

Q u e os lio m e n s, p o is , o te m am !
N ào hoirra, co’ um o lh a r, d a terra o s s a b io s todos.

(*•) A H u sáo á s pa ssn g c n s cm q u e J o b , com o risco d ’in corrcr n a m o rtc , pe­


d ia q u e o s seus disc u rso s fossem lev ado s a o th ro n o de D eus.

(*') E lih u parece querer d iz e r c o m is to q u e n á o entrevem os a d iv in d a d e


se náo d e fú g id a c n o m c io d e m u ita s nuv en s.
V a r ia n te s

Ve r s o s corrigipos

N o ta s C o m p le m e n ta re s
Varian tes

I II , 5. Nuvera ca lig in o sa o cub ra, inteiro,


—, 6. P ara o c álcu lo d o a n n o s’ eliniine,
—, 7. N ’e lla n áo ro m p a um g rito d ’a le g r ia !
—, 9! N ào chegue a vér o c ilia r d a a u ro ra ;
— , 1 1 . N á o e x p ire i lo go ao nascer!
— , 12. M e fizeram d ous pe ilo s um convite?
— , 13. ’S ta v a agora esten d id o , a repou/.ar,
— , 14. Q u e essas ru in a s soberbas construíram ,
— , 16. O u n áo e x is tiría , tal occulto ab orto ,
— , 18. M o ra a llí socegado o p rísio ne íro,
— , 23. E a q u e m D e u s p ò z em volta sebe in tra n s p o n ív e l ?
— , 25. D esgrana q u e eu receíe, é lo g o um facto.

IV , 2. M a s quem p o d e conter o im p u ls o d a palavra ?


—, 8. A ntes, q u e m d ò r sem eia, in iq u id a d e lavra,
T e n h o visto co llier in iq u id ad e e dòr.
— , 1 1 . M orre o le áo, d esde que a p re za falta,
— , 14. Iin p r im in d o aos m eus ossos fu n d o ab a lo .
— , 16. A nte crs m eus o lh o s ergue-se um p h a n ta s m a ,
E d e p o is d 'u m c ic ío , ougo esta v o z :
— , 17. P erante D e u s o hom em será recto,
— , 19. T endo no pó o s alicerces,
E que sao, com o verm es, e s m a g a d o s !
—, 20 . Yáo-se p ’ra se m p re , e n áo se d á p o r ¡sso.
— , 21. E ’ dece pad a a co rda á sua tenda,

V, 3. M as lo g o a casa Ihe am ald ig oe i.


—, 7. M a s é p ara tra b a lh o s q u e nasceu o hom em ,
—, 8. In v ocaría o O m n ip o te n te ,
— , 14. A n d a m co m trevas a esbarrar de d ia ,
C o m o á noite , ao in e io d ia a tatear.
— , 16. E fecha a sua bócca a in iq u id a d e .
—, 4. Has d e vér assistir a p a z n a tu a tenda,

V I, 3. ü o lfa m - m e , p o is , viole n to s o s discursos.


—, 4. O O m n ip o te n te vara-me de frechas,
— , 10. N o s soffrim entos que m e e stá im p o n d o
Urna co nsolagáo me resta, urna alegria:
— , 13. V ereda que me salve n áo m e fo i c o rta d a ?
— , 14. T o d o o in fe liz merece o d ó d os seus am igos,
H a ja e m b o ra ao te m o r de D e u s renunciado.
— , 15. F o ra m pérfidos m eus irm áo s com o a torrente,
- , 16. Q u e va i ro la n d o tú rb id a p ’lo s g é lo s , '
— , 17. N o tem po d a estiagem vai-se em bora;
A o pegar d o c a lo r desapparece.
— , 20. C h egando-lhe ao reb ord o cstacam interdictos.
— , 22. D o s ben s qu e po ssu ís cedei-me parte ;
— , 3. A o po der d o s c o ntra rio s subtrahi-m c,
— , 26. R a zô es d o exasperado sào ir .r à s d o vento.
— , 28. N ào vos irei m e n tir n a vossa cara.

V II, 1. A v id a d o ho m e m sobre a terra e do so ld a d o ,


—, 4. Se estou d e ita d o , se is m o : « Q u a n d o in ’e rg u e re i? »
E a n oite se protraile,
—, 9. C o m o a n u v e m , p a ssa n d o , se d is s ip a ,
— , 10. Nem a sua m o rad a o reconhece.
—, 12 . M o nstro m a rin ilo sou , serei o m ar,
—, 16 . O meu apego á v id a nao é grande;
N áo s â o m eus d ia s leve s ò p ro ? D eixa-m e !
— , 20. M e tornei p ara m im p rò p rio um e s to rv ilh o ?

V ili, 3. D c tu rp arà a ju s tiç a o O m n ip o te n te ?


—, 5. M a s , a p p e lla n d o tu p ’ra D eus,
—, 6. D esde q u e te n has urna v id a recta e pura,
— , 10. E lle s t’e n s in a rà o , te h áo de fa lla r,
E x tra h ir d a s u ’ a lm a estes d iscurso s:
— , 1. N á o v a i n in g u e m cortal-o e m q u a n to verde,
E é a p rim e ira das hervas, a seccar.
— , 13. T a l o futuro d os q u e D eus o lv id a ;
O s a n h e lo s d o ím p io m orreráo.
— , 19. D e p ois d ’e lle , o u tro s v áo b ro ta r d o s o lo .»

IX , 9. Fez o G ig a n te , a P lé ia d e , a G ra n d e U rsa,
— , 10. O p e r a m a ra v ilh as transcendentes,
— , 15. M il ve zes coni razào , n ào lhe d a ria réplica.
A ntes, ia p e d ir clem en cia ao m eu ju iz .
— , 18. Q u e n áo me deix a, u m só m o m e n to , respirar,
— x 24. E sobre o rosto d os que a ju lg a m la n ça um veu:
— , 27. Se d ig o : «R e calq u e m o s esta m agua,
— , 29. P a ra que me hei de im p ô r canceira in ú t il?
— , 33. Q u e estenda sobre n o s a m ào c o ’in tim a tiv a
— , 35 . E com tra n q u illid a d e , en tào, Ihe fallarei ;

X. 5. Seráo ig uae s aos d ’ ho m ens o s teus d ia s ?


S e rá o teus a n n o s d ia s de m ortaes,
—, 8. T u a m ào m e creou, e m ’e sc u lp iu em v o lta ;
— , 14. F a lta a lg u m a soubeste remittir-me.
— , 21. A ntes que parta, sem qu'espe re regressar,

X I, 7. D a s u a o m n ip o te n c ia a s s ig n a la d o o s té r m in o s ?
— , 10. C o n v o c a o trib u n a l, q u e m o e m b a ra ç a ?
— , 14. N ào te m o rar n a te n d a a in iq u id a d e ,

X II, 8. A lé os peixes v âo dizer-te esses d iscurso s.


— , 13. D o c o nse lh o e a r a z à o m antem a posse.
—, 18 . D esata ao sú b d ito o s g rilh ó e s que os reis lhe lançant,
— , 19. L e va o s pad re s de rastros, sem vestidos,
D e rru b a o s poderosos de lin h a g e m .
— , 21. D is s e m in a o ve x am e so b re os nobres,
— , 2*1. R o u b a a o s cliefes d a T e rra a perspicàcia,
N ’ u m deserto in calcado o s tra z pe rdido s.
X III, 3. A n t’elle, p ro d u zir a m in h a causa.
—, 5. A n d a rie is m e lh o r se vo s calasseis,
—, 9. Se vos sondasse as a im a s, g o s ta rie is ?
P e n s a is em illu d il- o , com o a um ho m e m ?
— , 11. N áo v o s fa z m èdo a sua m agestade?
— , 12. V o ss a s sentenças n áo sáo m ais q u e cin za,
Nem m a is que a r g ila sáo vossas trincheiras.
— , 15. S em pre j n e h a de m atar ; n a d a espero de b on i.
— , 16. N áo ter o ím p io ju n c to d ’e lle ingresso.
— , 18. S ei que te n ho a ju s tiça a meu favor.
— , 20. P o ré m , ó D e u s , e v ita d u a s cousas,
— , 21. Q u e m 'e s te ja o p p r im in d o a tu a m ào ,
E tira n d o o socego o s teus pavores.
— , 23. E n u m e ra os m e us crim es,
O s m eus peccados dá-me a conhecer.
— , 27. T e n h a s m eus pès m e ttid o em cêpos,

X IV , 12. O ho m e m que se d eito u, n à o s ’ergue m ais;


— , 20. Sem rem éd io o tritu ra s , e elle parte,

XV, 5. Denuncia-te a bócca a in iq u id a d e ,


—, 9. Q u e m a is alcanças, que n ào alcance m o s?
—, 12 . V e lh o s, m a is qu e teu p a i, fartos de d ia s .
— , 16. O que bebe, com o ág u a , a im p ie d a d e !
— , 22. ’S tá roccioso d ’e m e rg ir das trevas,
Tem-se j á c o m o v íc tim a d a espada.
— , 23. V a g u e ia a tra z d o p á o : o nd e encontral- o?
C o n lie ce o s dias tu rv o s quo o esperam .
34. E o fogo a b raza a tenda ao c o rro m p id o .

X V I, 4. E u ta m b e m po d eria a ssim fallar,


S e a v o s s ’a lm a estivesse em vez d a m inha.
7. M as - fa llo , e a m in h a d ò r n ào se attenua,
Calo-m e, em que me s in to a lliv ia d o ?
18. C o m tu d o , em m in h a s m ào s n ào ha delieto,
S em pre no meu rezar h o uve pureza.
22. P r’ a q u e faça ju s tiç a ao ho m e m co ntra D eus,

X V IÍ, 2. E em seus debates d evo ter o o lh a r p o u za d o !


4. A razò e s lhes fechaste o s e n tim e n to ;
5. V e rá o s o lh o s de seus filh o s d esm aiare m .
7. E o s m e m b ro s a un ía s o m b ra red uzido s.
11. 0 m eu te m p o fin d o u ; baquearam -m e projectos,
13. Q u a n d o s ó conto nos in fe rn o s ter m orada,
Q u a n d o o meu Ieito já nas som bras estendi ;

ì 16. E lla desee aos fe rrolh os d os infernos

X V 111, 4. D e sg ra çad o , que a ira p rò p ria dilacera,


Q u e r ’s v è r, p o r tu a c ausa, a terra e re m isad a,
7. O seu conselho m e sm o o pre cipitará.
16. H ào d e , c m b a ix o , seccar s u a s raizes,
S er cortadas, cin c im a , as su a s frondes.
19. N á o tem na sua trib u filh o s , prole,
4. Q u a n d o m esm o eu tivesse transgredido,
C o m m ig o , s ó , fica v a a transgressáo.

* 8 . A estrada m e ve do u com m u ro in tran spo nive l,


y 16. C ham ei o m eu creado, e nem resposta deu;

y 20. C oni a pe lle dos dentes vo lte i costas.

t 21. P o rq u e a m áo d o S e n h o r m ’ está p u n in d o .

XX, 6. E a cabeqa ña s nuve n s vá tocar-lhe,

> 7. P ’ ra sem pre m orre, com o lix o v il,


~~y 20. N un c a o d e ix o u tr a n q u illo o ventre cubigoso ;

X X I, 6. Fico to d o a trem er pe n s a n d o n ’ isso,


y 8. V ai-Ihes crescendo a pro le á sua vista.
» 9. N unca o s attinge a vara do S enho r.
» 18. C osco de trigo a re m o in h a r no v e n d a v a l?

X X II, 8 . D 'c lla tornava posse o ho m e m q u e é te m id o.

» 9 . O s bragos d a o rp h a n d a d e cntorpeceste.

X X III, 2. C o m tu d o , a m in h a m áo ab afa o m eu lam ento.

X X IV , 2. P o r seu, fazem pascer o g ad o q u e ro u b a ra m .


16. O u tro s , em sendo escuro, a rro m b a m casas,
20. O p rò p rio ventre m aternal esquece-os;
21. O s h o m e n s d u ro s qu e d e v o ram , m e s m o , a estéril,
22. Q u a n d o n áo criam j á viver, e is se levantam .
23. D eus outorgou-lhes co nfiança e paz,
24. S u b ira m a lto ? Vào-se de repente;

X X V I, 8. D e n tro das nuvens mette as ág ua s,


E e lla s p o r b aix o n ào se rom pem .
* 12. E s p e s in h a o R a h a b com seu saber.

X X V II , 4. Nem esta lin g u a fa lla rá m e n tira.

> 5. I l e i de affirm ar m in h a in n o c e n c ia até m orrer


» 7. M e u a d v e rs àrio , h a v id o p o r faccino ro so.

» 13. E is a he ran ça que D e u s reserva ao truculento ,


16. S e a c c um u lar d in h e iro conio pó,
» 18. A casa q u e elle fez é casulo d a traça,
E ’ clioça que co nstrue o g u a rd a do ja rd im .

X X V III, 7. N em a v ista d o abutre a s u rp re ’endeu.

4. T a l corno eu era no o u to m n o d os m eus d ia s .


9 . O s g ra n d e s d e sistiam de fallar,
14. C o m o de ro up a, m e v e stía d ’ innocéncía,
16. E stud ava coni zè lo a causa ao d e s v a lid o .
20. O a r c o , n a m in h a m áo , reverdecendo.»
23. P or m im , com o p o r c h u v a , estavam su s p ira n d o ,
C o m o p a ra ta rdía s ág u a s , boq uiab e rto s.
XXX, 7. S u rp re ’endem-n’a a zurrar p o r entre as m o itas,
—, 9. E agora me tornei s u a cangào,
D e seus m o rdaze s d ito s , o assum pto.
— , 10. Afasta-se de m in i ho rro risad a,
— , 12. M o ve , a trig ad a , o s pès p ’ ra me investir,
— , 16. E ag o ra se d esfaz m in h ’a lm a em queix as,
— , 18. T a l q u a l a m in h a tù n ic a , m e aperta.

X X X I , 10. O utro s s o b r’e lla po ssam debrugar-se!


— , 27. O coragáo, a occultas, m e bateu,
— , 30. S e d eix ci d e lin q u ir esta garganta,
— , 38. S e d os m eus sulcos lág rim a s g o tte ja m ;

X X X V IH , 24. E o levante n a térra se diffunde ?


— , 27. F a ze r a herva rep ontar n o s prados.
— , 32. Q u e m faz s urgire m a seu te m p o o s astros,
— , 34. S ob re ti d espe n ha r torrentes d ’á g u a ?
— , 35. V á o responder-te: <'Eis-nos a q u i ?»

X X X IX , 15. P ossam calcal-os a n im ao s sylvestrcs.


— , 20. S eu rcsfo lg ar so b e rb o in fu n d e o pán ic o .
— , 23. S ob ro o seu dorso t ’lin ta a a ljava,
— , 32. Q u i z o censor reptar o O m n ip o te n te ?
Q u em d esa fia D e u s , respo nda entáo.
VERSOS CORRIGIDOS

PAO. US.

12— 9. T e m o r q u ’ eu im agin e, sobrevem ;


23 — 8. C o m v o sso a m ig o irieis traficar.
2 6 — 7. A té q u a n d o terás em m im os o lh o s fito s?
8 4 — 4. E ’ no S u l q u e se a b y s m a ? n áo o enxergo.
86 — 8. R e c la m a m de penhor o s sem -arrim o.
8 8 — 5. A s s im o in fe rn o traga o s pcccadorcs.
» — 9. S á o , c o m o as árvores, pa rtid o s
89 — 4. N áo sendo assim , q u e me convengam de m entira,
9 1 — 6. Fazer co rrer caudaes de s a p ie n c ia !
9 — 11. A s c o lu m n a s d o em pyreo sobresaltan!

NOTAS COM PLEM ENTARES

IV , 9. E ste e o s d o u s ve rsículo s seguintes s á o tim a especie de para-


plirase d o qu e o s antecede.
— , 13. -No c o g it a r .. . » A traduegáo exacta s e r ia : confttsño d'ideias.
V, 5. V e rsículo o b sc u ro , d ’ intcrpretagáo d uv id o s a.
V II, 12. « . . .p re c a v e ja s?» A ’ lettra: P ’ra que m'estejas d ’a la la ia ?
I X , 4. .teus o lh o s .» Isto é aos o lh o s de D eus.

*
O Livro de Job
(E stu d o )
C o m o q u a si todos o s rap a zes portugueses, ao m e no s d os que
pertencem á sua geraçào, o aucto r d ’estas lin h a s foi e ducado na
r e lig iá o catholica pela m ais terna e a m ais sinceram ente pie do sa
das m àe s. N à o é sem urna dôce com m o çào in tim a que recorda
o tem po em que ju n to d ’e lla e rg uia as m ào s perante a im agem do
C h risto , e la n ça v a ao céu n ’ uin s o n h o v ag o a sua prece ingenua
e fervorosa. E sta re lig io s id a d e in fa n til, n e v o a q u e fluctua inde­
cisa e tenue, p r in c ip io u a condensar-se, a d q u irin d o precisào e
co nsistencia, q u a si lo go d e p o is que a m orte lh e le vo u o seu pri-
m e iro g u ia e sp iritu a l, e p o d e ria tam bem d ize r, o p rim e iro c o
m a is constante d o s seus culto s. N o s incidentes precursores
d ’ um a fu tu ra v id a to rm e ntosa, ao ru ir precoce d a s chim eras
d ’ um a juv e n tu d e confiante, fo i a crença o sacrario o nd e o seu
desgosto se p ô d e ac o lh e r e d is s ip a r, e m ais tarde, nas estrinças
d ’ um a doe n ça p e rtin a z e cruel, n o s repetidos assalto s d a e s tu ­
p id e z e d a v ile z a , fo i essa som bra q u e rid a o regaço o nd e pôde
reclinar a fronte fatigada.
O v u lto m eigo a in d a h o je lhe app are ce ña s ho ras, d ia a dia
m a is arrastadas, de fa d ig a ou de tèdio. A crença irisa d a , essa
evolou-se-lhe de v e z p o r v o lta d os seus dezeseis an n os. De
q u a l m aneira, n ào se torna preciso e sm iu ça r; basta que se zr -
c h iv e a q u i a circum stancia de que se lh e d ilu iu e a p a g o u na
id a d e em q u e a in te llig e n c ia critica d e sp o n ta , e s ó d e p o is d ’ um a
lu c ta , concentrada e c o ntin ua, que se pro lo n g ou bastantes mezes.
Perdeu-a — eis o q u e im po rta. M as, se d ’e n tào em deante nào
pòde acceitar n e nh um credo, c onservou d ’essa epoca u m d uplo
sentim ento ab so lutam ente rebelde aos brutaes d e sm e n tido s dos
factos, e á m a is acerada e s u b til d a s an aly ses: a ad m iraqào pro­
fu n d a pela n a ture za, e a s y m p a th ia in v o lu n ta ria pelos hom ens.
Ha ta lv e z a lg u m a coragem em d e c la ra r assim o auctor, com
tal franq ue za, n ’um p a iz c o a lh a d o d ’exem plares inferiores ou
degradados d a especie, que n ào conseguiu desprender-se d ’um a
affectividade q u e se lh e deve representar com o r id ic u la , senào
até com o im p o s siv e l. M a s a fra nq ue za n áo é syn o ny m o de can"
d ura; e é com vistas ulte rio re s, se lhe fò r d a d o , e estiver resol-
v id o a escrcver as suas « M e m o r ia s » , que esta declaragào fica
n ’ este lo ga r consignada.
C la ro q u e , relativam e n te aos hom ens, se tratava d ’ um a sym ­
p a th ia inconsciente, irrac io n a d a, incoercivel, segura com p ro d i­
g io s a te n a c id a d e á s raize s re cón ditas d o seu sèr, e p o r isso exer-
cendo-se ao acaso, ao sabo r d o m e n o r incidente q u e surgia.
A s s im é q u e se lh e affigurava ¡inm erecida m iseria o q u e n ào pas­
sava m u ita s ve zes de vicio , d e sle ix o , h y p o c risia , e q u e um rosto
a b a tid o e p a llid o , um a n d a r v a c illa n te e le nto, um fa lla r arras-
ta d o e s u m id o , lhe bastavam p ara vèr n a pessoa que os e x h ib ía
urna v ic tim a innocente d os cegos b a ld ó e s d a sorte e d a insensi-
b ilid a d e o btusa d os hom ens.
M a is tarde, com a reiterada lig áo d os factos, m o derou um
tanto as m a n ife s ta r e s d ’essa b o n d a d e in stín ctiva pelos outros,
buscou p ò r m a is p rud e nc ia e sagacidade no exercío d ’ um sentí-
m ento m a is que n e nh um suggestivo d ’illu s ò e s , gragas ao seu
incom paravel p o d e r id e a lis a d o r, sem , to d av ía , lograr subjugal-o.
E sta pa rticu la rid a d e d a s u a estructura m o ral era indisp en savel
accentual-o com v ig o r, po rque illu c id a inco ngruencias, e até
m esm o contradicgòes apparenfes, d ’apreciagào e de conducta,
que á p rim e ira vista pareceriam extravagancias, e c o n trib u ir à
para se com prehender as ph ase s successivas d a sua v id a psy-
chologica até á q u e h o je co nside ra definitiva.
A par d ’essa in c l i n a d o , espontanea e irresistive l, que o levava
a pór-se ao la d o d os perseguidos e d os que soffrem , fosse qual
fosse, de resto, o m o tivo d a p e r s e g u ilo e do soffrim ento, urna
segunda existia, m a is po d ero sa p o rven tu ra , e q u ilib ra n d o ou su­
b o rd in a n d o a influencia d a prim e ira . C o n s is tía e lla n a conscien­
c ia m u ito v iv a d a sua p e rso n a lid a d e m o ral, d a s u a individuali-
dade e in d e pe n de n c ia, exteriorm ente re ve lada, n o s gestos, na
lin g u a g e m , n a attitu de , p o r um cu id a d o pe rm anente de nao hu-
m ilh a r nem co nsentir que o h u m ilh a ss e m , e de ser e q u ita tiv o e
justo para co m to d o s , sem e xcluir adversario s. N áo se refere a
¡n im ig o s, porque fo i seu in v a ria v e l costum e votal-os, conform e a
sua cathegoria so c ial, o seu grau d ’ in te llig e n cia e d ’ instrucgáo,
ao esquecim ento e ao desprezo. In im ig o d ’ um ho m e m qu e já m a is
o d io u , nem sequer m e lin d ro u algueni gratu itam en te — s ó um per­
verso, um enferm o d ’a lm a , o u um im b é c il; e co m exem plares
teratologicos ou frustes d a especie d e lib e ro u nao perder te m p o ,
ou consagrar-lhes s ó o estrictam ente in d isp e n sa v e l p ara satisfa-
ze r a sua c urio sid ad e scientifica. A fe a lda d e, se j á Ihe descosta
o e sp irito, fere-lhe a s e n s ib ilid d d e e o senso esthetico a po n to
de se Ihe to rn ar, m u ito depressa, in tole rave l. Se o coagissem a
ter constantem ente deante d o s o lh o s, a in d a q u a n d o lo ng e de
c o n v iv io , essa e flo resc e n cia d efo rm ad a, o u apenas desgraciosa,
q u e de relance e de fú g id a , tem s u rp re h e n d id o c m vario s typos
¡solados, n á o hesita em confessar que em breve o m atariam náo
sabe ao certo se a p ie dad e se a repulsa.
Fo¡ in n ú m e ra s vezes accusado d ’excessos de susceptibilida-
de em relaçâo a creaturas e acçôes q u e n áo m ereciam táo con-
sideravel d is p e n d io de nervosidade e de colera. O s seus accu-
sadores, q u a si sem pre a m ig o s b ene vo lo s, n áo sabiam q u a nto era
im m e re cid a a censura, po rque n á o com preh e nd iam co m juste za
o q u e se p a s s a v a no coraçào d o censurado. A s reacçôes brus­
cas d ’ um te m peram ento nervoso, radicalm ente espontaneo, náo
seguiam n a direcçâo que o s seus censores im agin avam .
N a rea lid a d e , tal ou tal ho m e m , este ou a qu elle facto, em si
m esm os, po uca ou n e nh um a im p o rta n c ia Ihe m e reciam ; a custo,
d uran te um pe rio d o de te m p o n áo in fe rio r a qu arenta annos,
isto é , d esde a sua adolescencia, dou s ou tres casos, d u a s ou
tres figuras m ais extranhas Ihe prenderam a attençào p o r m u ita s
h o ras successivas. N á o eram o v illá o e o perverso, em particu­
la r, q u e Ihe so llicita v a m o exam e, Ihe pro vocavam a ira, e Ihe
in flam m avam o p ro te sto: eram a perversid ade e a v illa n ia , eram
as im m e n s as e tenazes forças m a lfa ze ja s, c u ja o m n ip o te n c ia se
v ia forçado a co m prov ar na n atureza e no ho m e m , sem as poder
e xp licar, sem conseguir harm onisal-as em alg u m a s d a s conce-
p çôe s religiosas conhecidas (á excepçào d o m a zd e is m o ), nem
co m q u a lq u e r das d o u trin a s p h ilo s o p h ic a s correntes. N ’outros
te rm o s: n áo c o m preh e nd ia, em q u a lq u e r d os system as vulgari-
sado s de crenças o u id e ias, a fun cçào e a necessidade d o m a l;
co m o , em tenra id a d e , o revo ltavam já certos soffrim entos d ’ um a
c la m o ro sa in iq u id a d e .
U rna vez — p ara citar s ó e xe m p los ty p ic o s — fo i testem unha
o c u la r d ’ esta scen a: um h o m e m , um pae, fa z ia v ir a urna sala
urna creanza de treze a qu ato rze an n os, fechava-se p o r dentro
co m e lla , ordenava-lhe q u e tirasse d os h o m b ro s um corpete do
v e stid o , e em s e g u id a applicava-lhe, n ’um accesso v io le n to de
fu ria , innum eraveis c h ib a ta d a s ña s costas, q u e apenas o tecido
leve d a c a m isa protegía. E p o r q u é ? P o rq u e a creanza tin h a , ao
que parece, d esrespeitado urna creatura ab je cta, m u lh e r casada,
que trahia o m a rid o co m o aucto r d ’este castigo barbaro.
C o m o com prehender is to ? C o m o a d m ittir em nom e d a sele-
cgào e d a lucta pela v id a , ou em nom e d ’ um D eus ju s to e b o m ,
to d o piedade e m iserico rd ia, o u em nom e d a necessidade m oral
d o , soffrim ento, esse attentado m o nstruoso co ntra a fraqueza
d e s p ro te g id a ? P o d e , o u s a alguem affirm ar q u e acgóes d ’estas
representem um beneficio de q u a lq u e r o rdem , s e ja m aterial
s e ja m o r a l? A creanza, m o ralm en te, recebeu urna lig ào o ppor­
tu n a e s a lu ta r, po rque brutalm e nte a forgaram a ter, o u a fingir,
c o n s id e r a d o p o r um ente ig n o b il n o caracter, a lé m de nada
attrahente n a figura, q u e falta aos seus deveres d ’ esp oza, com
descaro e fe lo n ía ? E m aterialm e n te , no po nto de v ís ta d ’um
aperfeigoam ento d u b ita tiv o d a especie, ha ve rá um s a b io , táo
destituid o de senso co m m um e de justiga, q u e se atreva a ga­
ran tir que a h u m a n id a d e obteve um lucro p o s itiv o co m o soffri­
m ento im p o sto a urna creanga incohsciente, o u antes, d ig n a de
respeito p e la sua in s tin c tiv a rep ugn a n c ia em lis o n g e a r urna
creatura in fe r io r?
M as, se p o r urna repercussáo p ro vid en c ia l o u m e canica des-
co nhecída, h o uve um lucro fin a l, um g a n h o d e fin itivo e incon-
testavcl, d e p o is d a s torturas infligidas a urna creanga de treze
a n n os, em favor do aperfeigoam ento d a e sp ecie, — occorre natu­
ralm ente perguntar se ha ve rà ho m e m bem d o tad o , no e sp irito e
na a lm a, que se reso lva a conhecèl-o, o u em to d o o caso a agra-
decèl-o á sa b e d o ria, transcendente o u im m an e nte, pessoal ou
a n o n y m a , q u e se teim a em descobrir n a N ature za ?
O b te r a m a is leve parcella de vantag em á custa de qu em , por
inex periencia e p e la id a d e , a in d a se conserva innocente e puro,
se pode c o nstituir necessidade visceral d o U nive rso , será para
a sua in te llig e n c ia facto perfeitam ente c o m p re h e n s iv e l? A ac-
ceitagào de s im ilh a n te desconcerto n áo excederá a capacidade
d o seu enten d im e nto e o po d er d a sua vo n tade , a d espe ito de
nào im p o rta q u a l D eus, Je h o v a h ou o IncognosciveI, a despeito
de n ào im po rta q u a l rac io c in io , th eo log ico o u m e tap hy sico , a
d espe ito de n ào im po rta q u a l p e rsp ec tiva , o p a ra iz o o u o p ro ­
gresso in d e fin ido d a esp ecie?
A o s que objectem que se trata a q u i d 'u m e p iso d io fa m ilia l
p o uc o frequente, d ’ um a d ’essas a n o m a lía s m oraes q u e a socie-
d a d e consegue re p rim ir, le m b ra o aucto r um o utro facto, de si­
g n i f i c a l o q u e nem vale a pena encarecer. E m sub stancia, se­
g u n d o os jo rn a e s d o tem po o referiram , reduz-se a is to : «Foi
um d ia e n v ia d o ao a m p h ith e a tro de a n a to m ia d a E scola M e d ica
d o P o rto o cadaver de urna rap a rig u ita d ’ uns sete a n n o s , l i t e ­
ralm ente coberto de largas ecchyinozes, sem eado de ulceras
ho rriv e is , com m a n ife s ta r e s evidentes de gangrena, n o s tecidos
sobrepostos a diversas a r t ic u la r e s e s alie ncias d o esq ue leto.
V in h a p ara ser a u to p s ia d o , em co nse que n cia d ’haver m o tiv o s
p ara crér q u e a creanza s uc c um b ira á d ure za e á co n tin u id a d e
d os m aus trato s. O exam e estabeleceu q u e a m orte pro viera,
c o m effeito, d a s lesfies verificadas, e jun tam en te d ’ um a m iseria
p h y s io lo g ic a pro fun dam en te accentuada. O r a a m àe , abom ina-
vel m egera q u e éx ercia a in d u s tria d ’entremetteuse entre gente
po n d erosa, v iv ia em c o n d içô e s razo ave is de fo rtu n a ; e p o r ou­
tro lado as te stem unhas in q u ir id a s dep oze ram q u e essa in d us­
trio sa creatura, que n ào tin h a a po b re za a attenuar a hediondez
d o seu delieto, « m o ia a pe qu en ita de p a n c a d a s ». A culpabili-
d a d e n á o p o d ia ser, p o rta n to , d u v id o s a , sendo a m u lh e r presa e
in te rro g ad a ; d e p o is d o qu e , d e p o is d o q u é . . . ve io para a rua.»
E a par d ’esses, dezenas de e p iso d io s que p e la v id a fóra
se le m b ro u de ir registando . . .
— H a D eus — persistem em affirm ar as a lm a s p ie do sas, e
repetem , curvando-se reverentes, os ho m ens que se d ize m seus
representantes sobre a terra. Admitta-se p o r agora que a ssim é.
M a s , se e lle consente que taes in fa m ia s se pra tiq u e m — e, com
certeza, nem um s ó d ’esses crentes se le m b ra rá de o contestar—
evidentem ente, o m a is elem entar instincto de ju s tiç a o s devia
im p e d ir de o reconhecer ; se algum m ysterio se o ccu lta p o r traz
d o m artyrio d ’ um a creança p e la p ro p ria fera q u e a gerou, até
urnas e n tran has m enos religiosas q u e as suas os d e v e ria m for-
ç a r a rcp e llir esse m ysterio, e a abster-se de render culto ao
seu auctor.
N áo se pretende, n ’este m o m ento , contestar a n in g ue m a
realid ad e d o S ér s upre m o , o u m e lh o r, d e te rm in ar o c o ntheudo
p o s itiv o d ’ essa id e ia . A o fim especial a q u i v is a d o basta a
affirm açâo , p o r p a la v ra s e actos, de m ilh ó e s d ’ h o m e n s que se
a jo e lh a m e re za m , q u e n ’ esse ente acreditam e e sp e ra m ; basta
a c o m prov açào d o facto inco ntestavel d ’e x istir em toda a parte
urna E greja, á s vezes um ho m e m s ó , que se d iz e m interpretes
d a sua p a la v r a d iv in a , executores da s u a v o n ta d ç transcendente.
O q u e se pretende, d a d o q u e esse E n te existe, e é o q u e , a
p ro p o sito d a sua essencia, explicam pad re s e doutores, — isto é,
o m nisciente e o m n ip oten te — o q u e se pretende é r e iv in d ic a r a
m a is c o m p le ta lib e rd ade de ju iz o ácerca d a sua justiga e m ise ­
ric o rd ia . N á o se fa lla j á de senso artistico p o r n ào ferir susce­
p tib ilid a d e s d os crentes, sem pre d isp o sto s a vèr iro n ia onde
n à o existe, na realid ad e, m a is q u e urna exigencia de lo g ica ,
urna im pe rativ a r e c l a m a l o de d ia lé ctica .
Conceda-se, p o is , que D e u s existe, q u e D e u s é o m nisciente
e om n ip oten te , po rq u e , em fim , o C o sm o s reve la, n a sua c o m p li­
c a d o e g ra n d eza estontcantes, a In te llig e n c ia e o P o d e r. M u ito
bem : n à o se c o ntra d ita, n ’este m o m ento , esse p rin c ip io b a zila r
de to d o s os d o g m a s e confissOes; n ào se procura d escortinar o
residuo que ja z no fun d o d ’essa resposta ancestral ao tem eroso
p ro b le m a d o U niverso.
M as é forgoso tam bem que lhe concedam q u e , se D e u s tudo
p re v iu e d is p o z tu do , se tu d o sabe e tu d o po d e, essa acuidade
infinita de v is à o , essa energia ¡Ilim ita d a de P o d e r n ào s ’exerce-
ram , nem exercem n o sentido d ’ assegurar a o s ho m ens bem-estar
e paz d ’e sp irito. Se estas suas creaturas, fracas, descontentes,
in q u ie ta s , entram no p la n o d ’a lg u m a perfeigào geom etrica ou
m e canica do m u n d o com o parte essencial, corno engrenagem im-
pre sc in d iv e l, ficaram , com certeza, fóra d a c o nip a ix ào e d a bon-
d a d e d ’essa e n tid ade suprem a q u e o concebeu e executou. D eus
n à o pensa n ’e lla s, n ào faz d ’ e llas caso alg u m , sendo-lhe po r igual
indifferente a ira feroz d o verdugo e o d o lo ro s o gem id o d a v i­
ctim a. 0 U niverso nào evolve p ara um d e stin o ethico — ao con­
trario d o q u e pensava o n obre e sp irito d ’ A n th c ro — p ara um firn
su p e rio r de b e lle za m o ral, de santidade.
— T u d o isto é tr iv ia l, a eterna la m u ria sobre as m iserias
d ’esta v id a , a esteril e fa stid io sa elegia ácerca d ’ in e v itav e is in­
fo rtu n io s : é costum e observarem os críticos e scientistas, alm as
fortes parece, im preg nadas das id e ias m ecanicistas contem po­
ráneas.
D ’accòrdo. M a s , precisam ente p o r serem eternas e triviaes
é que a ho m ens d ’e d u caçào scientifica co nv in h a e x am in ar de
perto essas m iserias. R e p ro d u zin d o o pensam ento de Pascal,
s ó o que é v ulg a r interessa; po rque s ó a vu lg a rid ad e n o s des­
venda o que ha de p ro fun do e d ’ essencial na N ature za . Se a
desgraça, o u to rturas de coraçào ou soffrinientos d o co rpo , con-
stituisse accidente, fo rtuito e raro, e em to d o o caso sem pre re-
d uc tiv el a culpas e d e s m a n d o s de re s p o n s ab ilid ad e p e sso a l, ta lv e z
n ào valesse a pena com effeito, nem fosse le g itim o e correcto ar­
gum entar co m excepçôes e co m actos de in ic ia tiv a p r o p ria con­
tra a excellcncia, geral e fu n d a m e n tal, d a v id a h u m a n a . Sendo,
p o rén i, justam en te o contrario d ’isso q u e succede, o d esd em e
a indifferença n ào sào resposta co nd ig n a da im p o rta n c ia da ques-
tà o ; de sorte q u e se to rn a um d os m a is crueis s u p p lic io s , para
o ho m e m em quem o h a b ito de pensar n ào e m b o to u de to d o os
sentim e nto s, o espectáculo inco m p re he nsive l d a reproducçào
in term in av el d a s m e sm as d òre s im m e re cid a s e d o s m esm os
atten tad os im p u n e s .
A essa m assa de indifférentes n ào será intem pe stivo recordar
que existe R o m a e um pap a, urna E g reja com d o u trin as e cere­
m o n ia s e uni clero com urna d is c ip lin a e um chefe, m an ien d o
sem rebuço pretençôes a serem o orgào u n ico d o verbo e da
v o n tade de D eus. Se p ara esses a lh e is ta s superficiaes D eus nào
passa d ’u m a abstraeçào ou d ’ um m y th o , R o m a e o P a p a é que
niio sào m y tlio s nem a b stracçôe s; e n ào foi certam ente urna ra-
zà o p u e ril, nem um erro crasso, extrem e, d efinitivam ente de­
m o n strad o , d a ignorancia d os seculo s qu e fizeram d ’ um hom em
e d ’um a cidade o m ais fo rm id a v e l po der q u e tenha já m a is go-
ve rn ad o os p o v o s. O ra, o q u e responde essa E g reja a quem
expóe desasso m b rad am e nte as suas d u v id a s ácerca d a m iseri­
c o rd ia e ju s tiça d ’ um D e u s que d eix a o m u n do entregue á rap in a ,
á v io le n c ia , á in iq u id a d e ? — « M y s te r io , recóndito s d esignio s d a
P ro v id e n cia , veredas in s o n d av e is d a S a b e d o ria d iv in a » : e res-
p o stas sim ilhan te s.
P ara a d u lto s experientes d a v id a , todos m a is ou m enos in-
cursos c m transgressées á m o ral q u e a rc lig iâ o préconisa, a in-
ju n e çào s u m m a ria d a E g reja — «R e s p c ita os decretos de C im a » —
e a seductora pro m e ssa d ’ um a c o m pe n saçào alé m d a m orte com-
prehende-se que se Ihes im p o n h a e o s satisfaça. M a s para tan­
to s m ilhares de v ictim as, p e q u e n in a s , indefensas, innocentes,
to talm e n te ignorantes a in d a do que sejam o peccado e o m a l ,—
n áo será irris o ria , tragicam ente cruel e a b su rd a , essa consola-
çSo que Ihes offerece?
A E g reja c a tto lic a , a priin eira d a s egrejas, senào pela gran­
d e z a d o seu d o m in io , pela força d a sua d is c ip lin a e o rg anisaçào ,
e sob retudo pela sua influencia na parte m a is intellige n te e c ulta
d a h u m a n id a d e , manifcsta-sc p o rta n to , c o m o o D e u s q u e ella
d iz representar, im potente ou cu m p lic e ña s atrocidades que to­
d os o s d ia s la n ça m unía nodoa re p u lsiv a e in d e lcv el n o s e sp le n ­
dores d a c iv ilis a ç à o , de que tanto se o rg u lh a o e uropeu. E se#
esta inferencia Ihes é irresistive lm e nte im po sta pela situ a çâo
precaria d a E g reja deante d o ten eb roso p ro b le m a do m a l, com o
interpretar urna a ttitu de ab sten cio n ista, e q u iv a le n d o , no fund o ,
a urna to lerancia com piacente em face d ’e lla ? C o m o conceder
que ta n to in c re d u lo , im b u id o de sufficiencia p ro p ria , repleto
d ’ um a confianza ind e fin ida e cega na in fa llib iiid a d e do seu cri­
te rio scientifico, n ào s ’ esforce corajosam ente p o r d e m o lir o que,
a seus o lh o s , n à o deve passar de c id a d e lla secular de supersti-
gòes e p re co n c e ito s ? n áo c o m b ata sem h e s it a r e s e sem tré-
g u a s os seus d o g m a s , a s u a m o ral, a sua d is c ip lin a , o seu cle­
ro? Q u e tacito reconhecim ento é esse d e q u e a E g re ja , erro e
ty ra n n ia e s p iritu a l p ara s i, significa p ara os outros, par«* a
im m e n sa legiào d os ignorantes e in fe lize s, a lib e r ta r io e a ver-
dade ?
P o rq u e — n à o ha m e io d e o contestar— o que urna tal neu-
tra lid a d e e ab stengào sub in te n de m vem a ser q u e a E greja já nào
é para ninguem o p p re ssào e p re ju izo , m as sym b o lo m o rto, espe­
ctro in o ffe n sivo ; q u e e lla p ro p ria se apercebeu d a sua inani-
d a d e , que sabe m u ito b e m que n ào representa n a d a , p e lo m o tivo
de n à o po d er h o je ser, fun d am e n talm e n te , o que a socied ad e se
to rn o u ; que n ào pode fug ir, exactam ente com o e lla , á corrente
m aterialista, te m p oral e a th eista q u e , desde a e pocha d a Renas-
cenga, o rien ta e in s p ira o s s a b io s , s e d u z e arrasta as m u ltid óe s.
M a s ha m a is a lg u m a cousa. O que, n o in tim o , o s livres pen­
sadores d o n o sso te m p o s u b lin h a m , n ’este d esapego palp av e l
pela c h a m ad a questáo religiosa, reduz-se á convicgáo inconfes-
sada de q u e elles, com o os pad re s, sáo im po te n te s ou cum plices
no desconsolo e n a an a rc h ia que v áo a lastra n d o , o ra s ile n cio ­
sos, ora resfolegando com fu ria, po r b a ix o d o v e rn iz de conforto
c d ’o rd em s o c ia l em que v iv e m o s ; q u e e lle s , ho m ens d ’ indaga-
gáo, c o m o os padres, h o m e n s de trad ig áo , perderam de to d o a
fé em si e n ’um d e stin o s u p e r io r; que sáo irm ào s pela fadiga e
a d ese sp e ran za, ro tu lo s de ty p o s dive rso s para o m esm o n ih ilis ­
m o in telle ctual e a m esm a a lg id e z s e n tim e n ta l; que a sciencia
e a re lig ià o , e:n s u m m a , am e a zam dissolver-se n o m e s m o sce-
ptic ism o a rid o e no m e sm o s o m b rio desespero.
O seu a n ta g o n ism o é só de superficie e fo rm ai. N a realidade,
s à o , u n s e o utro s, ve ncid os que se p e rd o a m , e se abraqam ; sào
d espe nhad o s d a m esm a regiào id e a lis ta , d 'e n co n tro á m esm a
m u ra lh a de b ronze, ve dan d o o accesso ao sa nc tua rio d o E n i­
gm a; sào co ndem nado s, p o r isso, a contentar-se com pobres
m ig a lh a s do que s u p p u n h a m r e v e la d o in fa lliv e l e descoberta
in a b a la v c l, Icaros a rastejar, d ’a z a s partidas, n a terra d ’o nd e ,
heroicos e crentes, h a v ia m desfe rid o o v ò o audacioso.
— « U m p a p a — desab afav a c o m n osco um d ’esses resignados
m e la n c ó lic o s — n ào im po rta q u a l, desde que seja intelligente e
tenha a cultu ra d o seu secu lo , é forzosam ente um incredulo , o
p rim e iro , o m a is firm e, o m a is im penitente d os incrédulos. E lle
n ào o declara, sem d u v id a ; m as é-o, e n ào pode d eix ar de o
ser. D e to d o s o s h o m e n s q u e g o v e m a m outros, n e nh um sente
pe lo seu s im ilh a n te m ais d e s p re zo ; po rque nin g ue m , conio
e lle , s o n d o u com m a is s u b tile za e persp icacia a v ile za , a cobar­
d ía , a e stupid ez hu m a n a s. O registo d os terrores, d a s m entiras,
das torpezas d a po bre a lim a ria , v io le n ta e fraca, q u e p u llu la e
p a ra sita sobre a casca d o G lo b o , n in g ue m o possue nem m ais
co m p le to , nem m a is pre ciso, nem m ais m in u c io s o , d o que elle —
o prin cipe d a E greja, o successor d o pescador g a lile u , o repre­
sentante n a T erra d o D eus v ivo. C o m o ha de, a s s im , crear-se
illu s ó e s — esse re p ositorio o p u le n to , esse a rc h iv o inexgotavel
de to d as as enferm idades e v icio s q u e flagellam esta raga de sé-
res, que todos so m o s, m a is v o lu v e is d o q u e a o n d in a , m ais
d estruido re s que g afa n h o to s ?
« H a , seguram ente, q u in z e seculos que elle tem na m áo as
c o nsc ie n c ia s; q u e elle e s p io n a e disseca a lm a s , ausculta e des­
cortina coragóes. C o m o p o d e ria , po is, um ho m e m (Testes náo
ter a n ausea d o im m e n s o caudal d ’ ig n o m in ia s q u e , desde entáo,
n á o tem cessado, um ún ico instan te , de c o rre r? D e m asiad as ve-
z e s as s u rpre h en d eu , as consciencias, na candura d os seus ins-
tin ctos ve rg o nh oso s, n o s seus im p u ls o s irre p rim iv e is de per-
versidade e de b a ix eza, p ara crér que é p ara taes ab o rto s que
D e u s v ig ia d a s a lturas, tem um inferno e um p a ra izo d ispostos
d esde to d a a e ternidade. E ' d em asiado a n tig a e larg a a sua
experiencia p ara crér im m o rtal um p o uc o de b arro sujo e q u e ­
b ra d iz o , q u e tantas vezes viu prostrado a seus pés, a gottejar
im m u n d ic ie s la c rim o so , a im p lo ra r urna lavagem de perdáo e
d ’agua-benta. S e, n’ este recanto pe rd id o d o espago, o herdeiro
d a veneravel cade ira de S . P edro representa a lg u em , este al-
g u c m só pode se r um D e u s sarcasta e d e sp re za d o r, de tem pera­
m e n to cruel e jo v ia l.
« Lembrou-se, ha tem pos, um p u b lic is ta d ’affirm ar q u e o V a­
ticano desistirá definitivam ente de rehaver o po der te m p o ra l,
que a unificagáo d a Ita lia , em 1870, ac a bo u p o r Ihe subtrahir.
Erro p ro fu n d o ! A R o m a pap al n áo desiste d o q u e Ihe é d e todo
in d isp en sa vel, d o q u e fo i desde a q u e d a d a R o m a p a g á a sua
preoccupagáo ab so rv en te , e m ais tarde o seu c u id a d o e xclusivo,
po rque é a sua razáo ú n ic a de ser. R o m a n áo espera, n áo pode
esperar um « r e in o de D e u s » que o a n n o 1:000 náo v iu surgir;
n á o acre d ita, n á o Ihe é p o s siv e l acreditar n ’ um s o n h o v á o e in­
consistente, no anceio d ’ um id e alista n e vro sad o , n ’um a inira-
gem ta lv e z fa scin ado ra, m as falsa, d a existencia, n ’ um id e a l
accessivel a p e n a s a um e sco l de grandes a lm a s , radicalm ente
¡naccessivel á la stim o s a m e d io crid a d c d a especie. E a Rom a
que lhe im p o rta m m e ia d u z ia de a lto s e sp irito s e de nobres ca­
rac te re s ? A m a io ria , a m a io ria — e is o de q u e R o m a carece; e
a m a io ria só reclam a d u a s c o u s a s : que lhe deem de com er, e
que lhe tirem o tra b a llio de pensar.
« D e s d e a R e fo rm a, d esde o m ille n a rio porventura, que Rom a
a b an d o n o u a crenga em q u a lq u e r seu papel transcendental, e
lhe su b stitu iu o d ’exercer sobre os ho m ens um im p e rio secular,
unicam ente. V iu-a alguem levar, na E u ro p a , a influencia d os
seus padres alé m das fronteiras o nd e estacaram o d o m in io das
le giòes e a a u cto rid ade d os p re to re s,— a lé m de R h e n o e do
D a n u b io ? N a realisag áo d ’este cesarism o theocratico serviram-
Ihe o u tr ’o ra o g la d io , a fo gueira e o a n a th e m a ; d e p o is , verifi­
cados a inefficacia e o o d io so d ’estes processos escandalosam ente
s u m m a rio s , as p ro p ria s arm as com que era h u m ilh a d a e aggre-
d id a : a dem ocracia e a s cién cia. E ’ a este phenom eno curioso
q u e estam os as sis tin d o d esde o u ltim o qu a rte l d o seculo passa-
d o , e parece h a v e r ain d a livres pensadores q u e nao lhe m edem
o a lc a n c e ! Q u a n to m ais arguto e previdente o pontífice que,
n ’esse in tu ito , im p r im iu urna inflexào a u d a c io sa á sincera e forte,
m a s estreita e in h á b il, p o litic a de P io IX !
• E ’ s in g u la r que se n áo tenha rep arad o n ’a qu elle rosto de
lin h a s angulosas e finas, n’a q u e lla s feigòes a rre pan had as por um
rictus constante d ’ iro n ia e desdem , n ’a q u e lla m ascara contorcio-
n a d a e m o b il, n ’a q u e lla especie de resurreigào, sobre o s o lio
p o n tific io , d o peccador o bstin a do e sécco que escreveu o « D ic­
c io n a rio p h ilo s o p h ic o » ! Se o terrivel E s p irito que arrebatou
Jesus para o deserto — n a in te r p r e ta d o parado x al de D o sto ie w sk y
— tiv e r d ’encarnar a lg u m d ia n ’ um p a p a , será dccerto n 'u m a
figura esp hyng ica c d e lib e ra d a , conio essa, que reso lva occu l­
tar a sua im m e n sa d e s o la d o in terio r e realisar fríam ente o seu
p la n o .
«D ¿senganem o- nos - resum ía o s c e p tic o — o m u n do é èrm o,
a h u m a n id a d e v e rm in a , o m al ía ta lid a d e q u e nem s a b io s nem
D o u to re s já n la is co m preh e nd e ram , ou co m preh e nd e ráo já m a is ,
e co ntra o qual a p ro p ria d iv in d a d e se desfez e d is s ip o u . em fum o
e c in z a .— »
A o q u e o auctor d ’estas l¡nhas retruco u: S iin , é in d u b ita v e l,
foi a m oral que n ia to u D eus. M as a S cie ncia, um d ia , o ving ará.

O p ro b le m a q u e , p o r a lto e d e s o rd e nad am e n te , esbocei


n ’esse extracto d ’um e studo a com pletar em o ccasiào de m a is
tr a n q u illid a d e , form ulou-o co m vigorosa e lo q uc n cia , ha vinte e
seis ou v inte e sete seculos, o p o e ta do liv ro de Jo b . Q u e m se­
ria o g en ial d e s c o n h e c id o ?
A ’ s im ilh a m ja de to d as as grandes c r e a r e s po é tic as, a obra
è , n a sua im p e rso n a lid ad e de superficie, essencialm ente pessoal ;
e o auctor, urna d 'c s s a s raras org anisa^óe s artísticas, synthese
e resum o em alto relèvo d a sua raga ou d a sua e p o c h a — um Es-
c h y lo , um D an te , um Shakespeare — qu e ¡nventam o s ym b o lo
a d eq ua do e acham a expressáo defin itiva para e stados d ’a lm a ,
g e n e ra lisa d o s e m al d e fin id o s, d os seus n acionaes e co ntem po ­
ráne o s, q u a n d o n áo m e sm o d ’outros ho m e n s, e x tra n h o s á sua
n a ^ á o e a o seu tempo.
N a pureza d o seu ideal de m o ra lid a d e , no seu h o rro r pela
astro latria, « c rim e c a p ita l» conform e elle p ro p rio a qualifica,
era um jud e u auth e ntico , d o m e lh o r sangue, lib e rto a in d a , fe liz­
m ente, d o estreito fan atism o je h o v is ta , v icio e força d ’esse
p o v o s in g u la r. Era o tam b e m , seg un d o a le n d a , na resig n açào
e apego á v id a com que acceita a a d v e rs id a d e ; segundo o
po e m a , n a im p o s s ib ilid a d e de p o r em d u v id a o v a lo r do seu
conceito d o d iv in o , na sua paix ào ardente pela d is p u ta , na ener­
g ia in d o m a v e l com que se o b s tin a em defender o « s e u d ir e ito » .
P or m a is de urna sabia rem iniscencia d a s c o sm o g o n ía s baby-
lo nic a s. affiorando, de o nd e a onde, p o r entre os logares co m ­
m u n s d a th eo lo g ia das p a ra b o la s , p e la s fréquentés a llu s ò e s ou
referencias claras a d o u trin a s e tradiçôe s em voga na P ale stina
e na Idu m ê a , conclue-se q u e po s su ia toda a c ultura d o te m p o e
do m eio g eo g raph ico em que nasceu e re sid iu. M as n a sim pli-
cidade d o culto, n a indepe n de n cia d o ju iz o (com quan to dentro
d os lim ite s d a sua concepçào transcendental), n o a r r ô jo com que
in te rp e lla a d iv in d a d e , n’ um a corno subterranea revo lta com
que repelle a in ju s tiç a d o in fo rtu n io , n a paizagem severa em
que o d ra m a decorre e no q u a d ro n aturalista que o rem ata, ado-
ravel de ing enuidade e pittoresco, revela-se o an tig o n ó m ad a,
de còrpo robusto e d ’alm a livre , reçum a a n ostalg ia d o deserto,
¡Ilim ita d o e seductor, re p o n ía a a g u d a saudade d o vagabundear
sa dio entre as d u a s so le m n id a d e s nocturnas, — a d o erm o s ile n ­
cio so, e a d o firm am ento constellado.
O seu deus reveste, de q u a n d o em q u a n d o , urna physiono-
niia m o ral proem inente, á s vezes q u a si e x c lu s iv a ; urna sub til
m etaphysica irrom pe em germen (C a p . X V III), e sp iritu a lis a n d o
as feiçôes accentuadam entc a n th ro p o m o rp h ica s d o seu d espo ta
celeste, g e n u in o patriarcha se m ita; n ’ um d os m a is notaveis d is ­
tic o s — agradavel surpre za p ara um m o d e r n o !— uni s u b ito cía-
ráo de p o s itiv id a d e , urna intuigáo b rusca d a realid ad e o bje ctiv a,
perpassa ( a n á o ser o echo d ’um a hypothesc c h a ld a ic a ) com o
lu m in o sa an tecipagáo do e s p irito he lle n ic o . T o d a v ia , os tragos,
m ú ltip lo s e grosseiros, d ’um ve lho ancestro n ó m a d a no perso-
nagem que passeia, desprcoccupado, n o « c irc u ito d o em pyreo»,
o u faz desabar sobre a térra a sua colera, sáo a in d a m u ito fres­
cos e v iv o s ; n á o m orreu de to d o no espago ethereo o canto m e ­
lo dioso das «e stre llas d a m a n h á * ; o s vagos elohim , q u e a tribu
o u tr ’ora a d iv in h a ra n o seu peregrinar pelas s o lid ó e s , circulam
a in d a nos flancos e em to rno á coróa d os o ute iro s, segredam
ju n to á s nascentes das fontes entre o s ram os d os arb usto s, dcs-
lis a m n o ar tra n q u illo d a tarde ou rem oin ham ña s espiraes da
torm enta.
N a m in h a o p in iá o , é um sem i-barbaro, im preg n a do forle-
m ente d os acres a ro m a s d a steppe, rescendendo um tanto a sua­
ves perfum es d a c id a d e . C iv ilis a d o no e sp irito, é no coragáo
u m p rim itiv o , q u e , s u rg in d o n o lim ia r de d u a s e po chas, o sc illa,
d e s lu m b ra d o e co n fu s o , entre a defeza d ’ um passado que se
extingue e a acceitagáo d ’um futuro q u e alvorece. E ’ um pen­
sado r co nturb ad o e indeciso q u e a n iá sorte arranca a o ho ri­
zonte claro d a charneca, para onde o s seus instinctos incessante-
m ente o reco nduzem , e c o nd e m n a. entre d o is cre púsculo s h is to ­
ríeos, a carpír-se e a m e d itar. E ’ , n ’ um a pa la v ra , um b eduino
e m ine nte que ad opta e aprecia a v id a sed e n taria; sem pre, 110

e n tan to, um beduino.


Vem-lhe ta lv e z d ’a h i o g ósto pelas viagens. P o rq u e é irre-
fragavel, apezar d o voto contrarío d ’algu n s, q u e o nosso poeta
v ia jo u . N áo o bstante as rem inisce ncias a q u e fiz atraz a llu s áo ,
po d e affírmar-se que n un c a esteve n a C h ald c a . M a s , e qu a nd o
m e sm o se recuse auth e nticidad e á s d escripgöes de L eviathan
e B e he m o th , te n ho por certo q u e visito u o b a ix o N ilo , onde,
com as velas in fu n ad as, v iu sing rar as «b a rc a s de ju n c o » ; e,
visto conhecer o m ar, o s tra b a lh o s d os m in eiro s e o s canaes
que o hom em « ro m p e u n a p e n e d ia », é po sitivo que percorreu,
senáo a P h e n ic ia , o vasto tracto de p a iz que vae d a A rabia
deserta ao S in a i e ao M a r V e rm elh o. N áo é im p ro v av e l pois,
c onform e a sagaz conjectura de R e n an , e m b ora outros commen-
tad ore s a n á o p a rtilh e m , que estanciasse p o r largo tem po em
T h e m a n , e n'este centro fam o so d a sabe d oria p a ra b o lic a com-
pozesse o seu poem a.
Levaram -n’o a em pre he n de r estas la rg a s, e entáo perigosas
excursòes a curio sidade d a s u a in te llig e n c ia , an cio sa d ’impres-
s ö e s in é d ita s e de novas perspectivas, e o tem peram ento a m b u ­
la to rio , na app are n cia adorm e cid o e que um in cide n te qu alq ue r
d espe rto u, d o ben-israelita ancestral.
N áo Ih ’as im p o ria m tam b e m occu pa^öes in e rc a n tís ? A hy-
pothese seria, actualm ente , urna in ju r ia e um disparate . Anthero
d o Q u e n ta l, p o r e x ., um m e rcad o r— que desco nch avo irrespei-
to s o ! E n táo , p o ré m , n áo seria d ’c x tran h ar : o com m ercio nada
tin h a de repugnante á d istine g áo pessoal nem á c ultura d ’ es-
p irito . N o p ro p rio poem a se lé q u e a o p in iá o d ’esses ho m ens
— e n áo se v ia ja v a , em regra, senáo por m o tiv o de negocios —
ácérca d os acontecinientos e co stum e s sociaes era o u v id a sem pre
com respeito e soffreguidáo.
N áo e stou longe de crér que os com m erciantes, fo r ja d o s a
deslo cam cntos lo n g in q u o s, com frequencia e com d em ora, por
urna organisav'ào econo m ica ru d im e n tär e p o r falta de bons
rneios de transporte, se d evam contar entre o s ho m ens m a is ins-
tru id o s do seu te m p o. N áo favorecem n uiito a supp o sig áo as
virtudes q u e o auctor se confere na sua a u to b io g ra p h ia . a que
m e lh o r se ch a m aría confissáo — é incontestavel. M a s as riqu e ­
zas de que se d iz p o ssu id o r, nem to d as pertencentes á cathego-
ria de bens rústicos, afo ra o conhecim ento d os m etaes e d a s pe-
d ra s preciosas, d ifíc ilm e n te se concebe q u e nao fossem a d q u i­
rid a s no com m crcio , c o m o n áo é , ta m po uc o, fác il de perceber
q u e os segundos fossem integralm ente s ub vertido s n a cntastro-
phe descripta na le n d a, que o prefacio rep ro du z e m u tila .
C o m o qu e r que se ja , o nosso poeta era rico. A p o b re za, a
n áo ser leva d ’e m igrantes e c aptivo s o u pessoal de guerra e de
transportes, n áo v ia jo u em tem po a lg u m ; nem as su a s virtudes
e desgranas, p o r d ram aticas e m eritorias, se prestaran! já m a is á
contextura de creagóes q u e p ro vo q ue n!, deco rrid o s m a is de m il
a n n os, o exam e pro fun do d os exegetas e a a d m ira g áo d o s enten­
d id o s n a grande Arte. Urna catastrophe q u alq u e r, m a te ria l ou
m o ra l, desfechando sobre um pobre é apenas urna b aíega a mais
no chover torrencial d a in v e r n ia ; é tr iv ia lid a d e q u e , p o r ausen­
c ia de contraste, n áo surpre h en d c nem c o m m o ve . U n ía fortuna
inesperada, sim , era s u rp re za e commoQáo. M as o nd e se v iu a
fe licid ad e prestar-se a entrecho d ’ um p o e m a ? Q u a n d o é q u e um
h o m e m fe liz se g u in d o u a heroe d ’ um a o bra- p rim a? A fortuna
goza-se; n á o se p in ta nem se canta.
Era rico, certam ente; e n o caracter, o que o grande orientar
lista , M estre de q u a n to s a v e lh a litte ratu ra d á prare r, d e n o m in a
um «g e n tilh o m c m ». N á o era um nobre, um aristócrata á e u r o p e ia
— im po rta bem accentuar. Faltam -lhe o tem peram ento e o g o s to
m ilita re s ; faltam -lhe a a p tid áo e a necessidade consequente do
com m ando; faltam -lhe o desprezo so b e ra n o d a v id a , o am or
tem erario e v o lu p tu o so d o perigo. o innato desdem d o soffri-
m e n to . U m aristócrata e uro pe u seria in c a p a z de se carpir, e em
caso a lg u m , de se h u m ilh a r. Desforça-se p o d c n d o ; ru m in a ca­
lado a sua d ò r, se n ào ha m e io de a e vitar. N ño h a crença d i­
v in a , nem conceito de m oral q u e o o brig ue m ao q u e ju lg a ser
d erog açâo á coragem e altiv e z d a sua casta. Q u a n d o m esm o a
sua fé relig io sa tivesse algum d ia — q u e , 11 a m in h a o p in iá o , nunca
teve — a tenacidade e a energia que n’ um s e m ita, n ’ um jud e u em
p a rtic u la r, se o bserva, ja m a is a sua a lm a inteiriça se resolvería
a curvar-se deante d ’ um a tyrannia g ra tu ita ; e a sua intellige n cia
esp ontane a, a dobrar-se perante um ab su rd o flagrante. Se tem
que as aguentar, iro nisa ou e n raive c e : submetter-sc, contricto,
é que n u n c a ! D eus p ara elle é o p rim e iro , o m a is em ine nte , o
m a is po d eroso d os n obres; m as é, no fim de contas, seu par.
E se, em vez de par, é um d e s p o ta , se d ’e lle esta co nvicçâo se
apodera — adeus cre n ça! A ntes reprobo d o que v il. N áo foram
raros os b lasp he m a d o res e o s irreverentes entre os aristócratas
d a E u ro p a ; nem o foram o s ath eu s, entre os seus m e m b ro s
¡Ilustrados.
E ra, p o is , um «g e n tilh o m e m » , em lin g uag em po rtugueza, um
c a v a lh e iro , com o tam bem o é o seu he roe : ve ridico, le a l, in te ­
gro, casto, e q u ita tiv o , generoso, h o s p ita le iro , affavel, c o rajo s o :
n ’u m a p a la v ra , um chefe de fa m ilia , um am o e um c id ad áo
e xe m p lare s. Se n ào fosse o desprezo q u e , sem rebuço, trans-
parece n ’ um a re p lic a aos am igo s, e o o rg u lh o q u e n áo esconde
n a a po lo g ia , repassada de funda s a ud ad e , d o « o u to m n o d os
seus d ia s » — u n ic o traço, fu g itiv o m as seguro, em qu e a nobreza
do ty po se m ostra — seria, em to d o o rigor d a expressáo, um
dem ócrata.
A s u a n a c io n alida d e in co n fun d ive l até n ’ este sen tim e n to , com
e x trao rd in aria v ehem encia affirm ado em m a is d ’ um a passagem
d o poem a, poderosam ente so b resahe ; po rque o jud e u fo i, e con­
tinua sendo, a n a ^áo m a is d em ocrática que se conhece n a H isto ­
r i a , — a m a is a lh e ia , a m a is fechada po ris so , aos instinctos e ao
ideal de nobreza.
O in fo rtu n io , ca h in d o sobre elle de im p ro v is o , transform a
n ’um justo, resig n a do e s u b m iss o conform e o relato d a lenda,
a rg um entado r e revoltado seg un d o o texto d o p o e m a , o antigo
g e n tilh o m c m . A desgrana levanta-lhe e depura-lhe a in d a o cará­
cter d ’eleigáo, aprofunda- lhe e aviva-lhe m a is a intelligencia
persp icaz. C o m e lle o d ra m a e m po lg ante c o m e ta ; e no seu
d ese n ro lar apparecem a to d a a lu z as q u a lid a d e s e o s defeitos
d o se m ita; as lacunas e os plenos d a sua estructura m ental avul-
tam , n ’um a fu lg u r a rá s intensa de m agica, ao nosso o lh a r embe-
vecido.
N áo é fa b u la g áo , artificio de factura, a catastrophe q u e Ihe
sob rev e m , a certa a ltu ra d a existencia. Sél-o-ha n o s term os
precisos d a lenda, q u e j á d issem os ter s id o re p ro d u zid a e trun­
cada no pre fa cio ; m as sobrevem-lhe n a re a lid a d e , m u ito pro-
vavelm ente, de chofre e n’ um conjuncto de revezes, suggerindo-
lh e a e v o c a d o d ’essa h is to ria edificante, e a id e ia d ’enxertar
n ’e lla a sua pro p ria . P orque — n áo será in ú til a in s iste n c ia — o
poem a é ind iscutive lm e n te pessoal, urna a uto b io g ra p h ia precio­
sa, um registo fiel d ’occorrencias q u e se d :r a m com o auctor,
urna pag ina de M e m o ria s , sen tid a e v iv id a com um vigo r e urna
verdade poucas vezes ig ualad os.
S ó o « In fe rn o * d o D an te , o « H a m le t» d o S hake sp eare, al-
gun s q u a d ro s avulso s de D o s to ie w s k y , foram a ssim táo intensa,
táo febrilm ente v iv id o s ña s a lm a s d ’ esses tres « m o n s tr o s » de
g e n io , representam , a s s im , pedamos d o c o r a d o arra n c ad o s do
p e ito , ensanguentados e frcm cntes. H a expressóes q u e o m ais
e spontaneo e o pule n to estylista n un c a seria c a p a z de tira r d a
sua facun d ia litte raria, o b s e r v a r e s psych olo gicas q u e n e nh um
h o m e m e x tra n h o á d ó r seria susceptivel já m a is de fazer; e nem
urnas nem outras escasseiam nos discursos d o heroe.
B ro taria m , desabafo irre s is tiv e l, no decorrer d a crise to rtu­
ra n te ? S eriam escriptos m ais tarde, q u a n d o o a p a zig u am e n to
vem acalm ar a ag ita ^áo , o u q u a n d o a a lm a se h a b itú a , e m b o ­
t á n d o l e , á c o n tin u id a d e d o s o ffrim e n to ? A v iole n cia e a des-
o rdem , que n áo parece in te n c io n a l, d ’alg u m a s phrases e d ’al-
g u n s e p iso d io s característicos tornam a prim eira hypothese
ve ro s ím il, ao m enos para esses e p is o d io s e p h ra s e s; a arte
perfeita, no sentir das m elhores aucto rid ade s 110 assu m p to , que
d o m in a a o b ra in teira, a iro n ía co:n que Jo b abre m ais que un ía
resposta aos seus co ntradictores, v a ria s dig re ssóe s e raciocin io s
d e m a n d a n d o reflexáo e urna serenidade re la tiv a , in d u ze m n o s a
s u p p o r p ro v av cl a segunda. P ara um crítico europeu co ntem po ­
ráne o poucas tarefas ha ve rá m a is e sp in h o s a s d o que determ inar,
para unía o rganisagáo m ental táo d iscordante d a sua, o estado
interior m a is favoravel á concepqáo e execugáo d ’ um a obra a r ­
tística. O e uro p e u, sem pre um reflexivo e um cerebral, em bora
a p a ix á o v iole n tam e n te o sacu da, co m prehende m al esse te m ­
peram ento arre batad o , in tu itiv o , o u m e lh o r, e x p lo siv o q u e nos
d o u s ram os sem itas fa m ilia re s á c u ltu ra o c cid en ta l, p a rticu lar­
m ente n o ju d e u , contunde brutalm e nte a nossa ló g ic a , ig n o ra de
to d o o nosso m e th o d o , desdedí ha a nossa exig en cia de h a rm o n ía
e o n o sso senso fun d am e n tal d a s propor^Oes.
A té na lo ucura u m cerebro occidental é coherente, e intro duz
ry th m o se é po e ta ; c até no seu estado n o rm a l d ’e q u ilib r io , um
cerebro sem ita, ju d a ic o ao m e no s, se n o s afigura a lie n ado .
A lé m d ’ isso, ninguem sabe, m esm o no rein ad o d ’ E zechias,
em que tanto se escreveu n a P ale s tin a , q u a l a technica de com-
posigáo litte raria, usad a pelos escriptores que co lla b ora ra m na
vasta c o m p ila d o d o «V e lho T e s ta m e n to » . Q u e fo ra m , n a ge-
n e ra lid a d e , editores pouco attentos e h a b éis, a lé m de m ediocres
artistas — prova-o á saciedade a cerzidura deficiente e grosseira
que liga, o u antes, d eix a soltos e a descoberto o s m ateriaes,
v g ., d o H exateuco; m as o s seus h á b ito s correntes de tra b a lh ar
é que de to d o se ig n o ra. O ra, e dentro d o especial conceito es-
thetico d a raga, o nosso g en ial an o n y m o é um artista consum-
m a d o , na d is p o s ig áo e n a linguagem d a s estrophes, é urna orga-
nisagáo finam ente litte raria, em extrem o sensivel á sonoridade
d os rythm os c m e ticulo sa n a pureza d o h e b ra ic o ; e a s s im , q u a n ­
d o nos fossem co nhecidos, o s m o dos u s u a e s d e c o m po sig áo ado­
ptado s p o r ¡Ilustres co ntem po ráne os d ’esse rei, p o r um Isaías
so b re tu d o , pouco ou n a d a illucidari'am a q u e s táo que fo rm u la ­
m o s acim a.
Se a tensáo p a ssio n a l, d a m esm a o rd e m é c la ro , correspon-
desse a estados p sy c h olo gic os id én ticos, ou entretanto sim ilares,
n ’ um e uro pe u c n ’um s em ita, as b io g ra p h ia s d ’a lg u n s d os nos-
sos to rturad o s, d ’um B yron, d ’ um M u sse t, d ’ um L e o p a rd i, d ’ ins-
p ira g á o im pe tu osa e d o e n tia , p e rm ittiria m ta lv e z resolvél-a.
S en d o p o rém , pe n só eu, d e m a sia d o in c o m p le ta e rem o ta a ana-
lo g ia, tem os fatalm ente q u e n o s confinar em conjecturas. E a
q u e se a ccom m o da m enos m al á s in d icag óes d a d a s a c im a em re­
sum o é que o livro de J o b n áo representa a realisag áo progres-
s iv a c lenta d ’um p la n o a n te c ipa d o , nem , ta m po uc o, em e rg i«
d ’ um jacto d ’ inspiraqáo in in te rru p to , lo go a seguir condcnsado
n ’ um a serie de discursos rythm icos. O s m a is eloquentes, o s de
Jo b , em q u e , p e lo seu notavel po d er de c o ntagio, a em ogáo accu-
sa m a n a n c ia l inconsciente e inco ercive l, é de p re su m ir q u e fo s­
sem im p ro v isa d o s em m om entos d ’e x a lta^áo , interm itiente e
in tole rave l, p o r o rd em diversa d a que vieram a receber n a o b ra
escripta E ’ a in d a provavel q u e n áo c o nstituisse m to d o s , ou in­
tegralm ente n o em tanto, d iá lo g o s com pessoas quaesquer, no sen­
tid o litteral d ’essa pa la v ra , n n s urnas vezes m o n o lo g o s, outras
vezes rép lic a s s ub je ctiv a s a objeegóes de sentim entos e de cren-
qas enraizad o s no cora^áo d o p o e ta ; que fossem , p rim itiv a m e n ­
te , o ra d esabafos lyricos, ora deb ate s co ntrad icto rio s entre as
o p in iö e s acceitcs antes sem esfor^o e as d u v id a s que a so m b ría
n o v id a d e d a s it u a d o presente Ihe suggere. O s arrazoad o s dos
tres am igo s sáo m u ito provavelm ente, n a sua m a io ria , coordena­
do po sterior, rac iocin ad a e tra n q u illa , d ’essas v e lhas o p in iö e s
que p a rtilh a v a , e q u e a d e s d ita o forqou a debater com sig o e
co m terceiras pessoas, lig a d o s p o r h a b éis d is tic o s aos trechos
que d a in s p ir a d o p rim itiv a resaltaram , palp itan te s de calor e
de belleza.
N áo q u iz a c im a affirm ar, p o rta n to , q u e as tres figuras sejam
mera fic<;áo, pu ro artificio de factura, d e stin a d o a s y m b o lis ar es­
colas p h ilo s o p h ic a s , a e xp ór d o u trin a s q u e houve inten^áo de
com bater. E stou conve n cid o , ao co ntrario , de que o grande
Incognito e sg rim iu, n a rea lid a d e , co m adversarios d a s suas
id e ia s pessoaes, de que teve de aturar, em carne e o ss o , « c o n ­
soladores im p e rtin e n te s», q u e a sua d e lic a d e za n ativa e um le­
g itim o im p u ls o de represalia ju s tic e ira o fizeram d is s im u la r sob
o s nom es d os tres peregrinos d o prefacio.
N áo 6 este um d os aspectos m e no s interessantes, urna das
m enores q u a lid a d e s p o r que nos e m po lg a e sed uz a larg a huma-
nid a d e do poem a. N áo ju lg o q u e se po ssa a q u i tergiversar : os
tres visitantes indiscretos existiram , os tres id u m e u s curiosos
viv eram , os tres forasteiros carpidores a ttrib u la ra m , com as suas
adm oestagóes e s abe r intem pestivos, a a lm a d o a m ig o , q u e urna
atroz desventura lan ce ia, a perversidade e a e stu p id e z in ju ria m ,
e a parentela m esm a d esa m p a ra . E lip h a z de T h e m a n , o pedante
e o hy po crita, em cu ja m ascara austera se v is lu m b ra um con­
tentam ento m a lig n o ; B ild a d de S uah, o sectario estreito c des-
caroavcl, s altan do sobre o co rpo d a v ic tim a no in v e stir pela
unica estrada que Ihe ensinaram a b ater; S o p h a r de N aam a,
novillo o b tu s o e s u b altern o, echo sub serviente e m o n oton o das
ob ju rg ato ria s d os p r im e iro s — sáo tres figuras c o nh ecidas, sáo
tres rostos fa m ilia re s d a sociedade d o po e ta . T a lv e z r e la c e s
an tig a s, se o nosso a n o n y m o esteve em T h e m a n , m as certa­
mente r e la c e s d ’ in tim id a d e . P o r esta razáo , é bem possive!
que os tres arabes d a lenda n áo tivessem in te rv in d o , lit e r a l­
mente, ña s parlendas im po rtun a s e na r e t a lia d o m e s q u in h a e
cruel que o ¡ilustre désco nhe cid o Ihes a ttrib u e . M a s q u e , á p in ­
tura tragada em esbogo, os tres extrangeiros tivessem fornecido
o m o d é lo , ou s u g g e n d o , em to d o o caso, ao poeta a interven-
gáo de conterráneos seus, triv ia l na v id a hu m an a ña s su a s horas
afflictivas, e dessem , po risso , ao poem a a sua tram a, a lé m d®
um co m plem ento in d isp en sa vel, e um e p iso d io fe lic is s im o ao
qu adro severo e g ra n d io so o nd e se contorce e protesta a des­
v e n tu r a — parecc-me extrem am ente ve ro s ím il. Urna calain id ad e
d ’orige m só im p e s so a l, terrifica e m b ora, n áo seria com pleta,
po rq u e raram ente se p ro d u z , nem bastante exp re ssiva para a
envergadura excepcional d o he roe ; faltava-lhe a crueza fria
d os tres verdugos encartados, o trip u d io ju b ilo s o d a co bardía e
d a in v e ja , a d e s illu s áo supre m a d o re p u d io de parentes e d ’ami-
g os. A g ora, sim , 6 que a am argu ra attinge o m á x im o . A bando­
n a d o p o r D e u s , escarnecido pelos h o m e n s : a g o ra , s im , d e d ilh a
o poeta «a ly ra to d a», e n áo d eix a outra a lte rn a tiv a ao Prom etheu
sem ita que n á o seja negar o «se u d ir e ito » , ou negar D eus. E
c o m tu do , rem ate fruste, desfecho in e s p e ra d o : n áo h a reconci­
l i a d o p o s sivel entre a m b o s, e D eus e J o b re c o n cilia m - s e !. . .
A lg un s retoques é de p re su m ir q u e viessem ulteriorm ente
augm entar a perfeigáo d ’um liv ro q u e , para o nosso g o s to e as
nossas preferencias intellectuaes, s ó e n c o n tra pa ra lle lo », em toda
a litteratura b ib lic a , no «E c c le siaste s» e no « C a n tic o d o s c án ti­
co s» D o « H a m le t» , culm inante c r e a d o de Shakespeare, sabe­
m o s nós que foi p o r elle retocado e revisto m ais ta rd e ; é impos-
sive l que o m e sm o ca rin h o paternal e a m esm a certeza in tim a de
se haver procreado urna o b ra im m o rre d o ira náo tivessem ex­
pu rg ado o « Jo b » , d e p o is de co ncluid o, d os pe q u e ñ o s senóes inse-
parav eis d a in s p ir a d o nia¡s fe cunda e d a m a is correntia execu-
do. O s q u e m aculam o texto m assoretico, graves algu n s, dc-
vem , pois, considerar-se e xtranhos ao aucto r; sáo deturpagOes
ou em endas que o ze lo sectario o u a in curia de co pia introduzi-
ram , sáo precedente lo n g in q u o d os ris o n h o s d isparates com que
o pedantism o d ’ um B e n Jo n s o n se p ro póe co rrigir o texto do
« H a m le t» .
A critica m o d ern a m ais d ’um a passagem tem re s titu id o á sua
p rim itiv a in te g rid a d e ; outras, de n áo m eno s v u lto e sig n ific a d o »
tem os de as acceitar com o as lé m o s , re s alv a d o sóm ente o d ire ito
de lhe s negar a paternidade d o a d m ira ve l cantor d o in fo rtun io
im m erecido , d o in c o n ip ara vc l interprete d os sentim entos e aspi-
raçôes d a sua raça.
L em bram os acim a q u a nto é diíficil a um curop eu , p rin c ip a l­
mente se é tam bem contem poráneo, representar-se urna confor-
m a çào psychica táo d ive rsa d a sua, e po rtan to dcfinil-a com bas­
tante im p a rc ia lid ad e e juste za, c o m qu an to apenas ña s lin h as
essenciaes, as ún ic a s q u e ao nosso o b je ctiv o interessam . G u a r ­
d a d a , porém , a reserva im po sta p o r essa exterio risaçào d ’ im-
pressóes in e vita vc lm e n te s ub jectiva s, poderem os resum il-as, po­
sitivam ente, d ’estc m o d o : crença no v alo r m o ra l, intrínseco e
preponderante, d a e xiste ncia; concepçâo p s y c h o m o rp h ica d a ori-
gem e conservaçào d o U nive rso . E com o traços negativos,
coexistentes e c o rrelativos aos p rim e iro s : in capacidad e de re-
presentaçào m ecanica d a s cousas, in a p tid á o para fo rm u la r um
rac io c in io com plex o, im p o s sib ilid a d e de pro se g uir, co m se*
q uencia e re g ularid ad e , o pensam ento. A in d u c ç ào , a dedu-
cçâo, o d epuram ento d ia lé ctic o , a contraprova experim ental,
excepçào feita d ’a lg u m a s observaçôes elem entares ao alcance
de toda a gente, s á o m o dos d ’a ttin g ir e d em on strar a verdade
que inútilm e n te se buscaría no poem a. Basta dem orar um pouco
a attençào nas suas passagens de mais, justificad o renom e para
que n o s saltem aos o lh o s a q u e lla s p a rticu la ridad es d a inentali-
dade do poeta.
A q u e s tào d e b a tid a , com effeito, é um a q u e s tào de facto,
p r im e r a m e n te ; e d e p o is , um a q u e s tào id e o lo g ica . U m europeu
procuraría resolver a p rim e ira p e la c o nsulta im p a rc ia i à expe­
riencia d a v id a coeva e d a h is to ria p o s itiv a ; a seg un d a pela
c ritic a m ethodica d os conceitos de m o ralid a d e e de um a pre­
tensa saneçào d iv in a . M a s o m anejo abstracto das id e ia s ex-
cede a lo g ic a rud im e n ta r, e é estructuralm ente in co m p ative l com
a re p re s e n ta d o e m o tiv a (ou im a g in a tiv a ) d o in u nd o , peculiares
aos qu a tro personagens que d is c u te m ; e aos casos concretos
que J o b allega m u ito a pro p o sito , bazeando-se no testem unho
in s u s p e ito d os v iajan te s in stru id o s, o s tres am igo s só respon-
dem com sub te rfugio rid ic u lo (E lip h a z , x x n ) , coni a defeza au ­
t o r i t a r ia d o seu credo (B ild a d , x x v ) , ou com pro vavel sile n ­
cio (S o p h a r), em que se p a lp a o despeito e o em barazo.
E videntem ente, a consulta d os factos n áo tem preza n ’esses
esp iritos rebeldes á o b s e r v a d o desintercssada; m enos a in d a
a tem o exam e d a s ideias.
S eria e x ig ir de m a is, ta lve z, q u e apu rasse m o sentido e o
co n th e u d o real d a m o ra lid a d c que pregam nos seus discursos.
D eftiais, ta lv e z, seria exigir que d u vida ssem d o caracter abso­
lu to e universal d o facto e tilico, e pezassem a assergáo, insis­
tentem ente rep etid a ou pre su ppo sta, de que determ inados m o­
d os de sentir e de proceder sào a r a z á o e o fim d a v id a hu m an a,
in ju n c g áo e c um prim cn to d a v o n tade d ’um S er exterior e supe­
rio r á N ature za . N áo ha le v a r urna cabega de sem ita, a d ’ um
ju d e u sob retudo , a vér n a m o ralid a d e um phenom eno social
co m o outros m u ito s , variavel e restricto po rtanto , nem a d is s o ­
ciar a q u e lle s dou s p rin c ip io s b a zila re s , dou s ax io m as para elle,
da sua construcgáo id e a tiv a. M o ra l la ic a , tal com o um grego
a co ncebía, independente de q u a lq u e r revelagáo e de q u a lq u e r
sancgáo s ob ren atu ral, seria a b su rd o e sacrileg io p ara o s nossos
dispu tan te s, que sáo, p o is , m o d é lo s a ca b a d o s d o seu E th n os.
O s d e sm e n tido s a urna co rrespondencia im a g in a ria entre os
successos exteriores e ccrtos sen tim e n to s e regras de conducta
accum ulam -se, irrefragaveis, na v id a pessoal d o crente, e na
existencia c o lle c tiv a ? N ào c uida em d is c ip lin a r o s sentim entos.
rectificar os preceitos que a tradicçâo e a e du caçâo lhe impoze-
r a m f o u em re p u d ia r a crença n’ um D e u s que a ssim a n n iq u ila a
s u a o b ra , m enos a in d a em reduzil-o á s funcçôes d ’ um a causali-
d a d e apenas p h ysica. Se h a d erog açào á lei m o ra l, nào a
a d m itte nem c o m prehende; desiste de se exp licar o seu po rqué
e p ara q u é . P o is q u e nin g ue m tem co nse gu id o até h o je negar
factos, vé-se co ag id o a co m prov al- a; no fu n d o , persúade-se
de que a d erog açào é s ó apparente, de q u e p ara alé m subsiste
urna ordein m o ral in v is iv e l, m ysteriosa, in teg rad a, po rém , sem ­
pre na que se lhe representa n orm al. « H a n’e lle unía in ten çào »
— affirm a o poeta n ’ um dos seus disticos n otaveis. Q u a l venha
a ser essa intençào, nem elle nem hom em a lg u m a d esc o brira m ;
m as de que h aja, acaba p o r convencer-se, d e p o is d ’esteriI d iv a ­
g a r a travcz d ’ inconsistentes hypotheses.
O p p r im id o sob o pe zo esm agad or dos seus m a le s, é certo que
n áo recua deante ,da invectiva e d a b la s p h e m ia ; n áo tre pid a em
to rn ar D eus c u m p lice ñas « e n o rm id a d e s » e crim es fustigados
n ’um ca p itu lo fam o so (x xiv). M a s nem po risso se resolve a dis-
pensal-o, ou a jo eirar o s m an d am e n to s de que n o s faz, no final
d a sua u ltim a p ara bo la , vibrante e com m ovente resum o.
L eva niesm o a sua a u d a c ia e a sua co nvicçào n a existencia
real d a virtu de ao po n to de sustentar que no ple ito in ic ia d o náo
é D e u s , m as e lle , quem «tem a ju s tiç a a seu fa v o r». Q u a n to ha,
p o rém , de contrad icto rio e d ’ in fa n til em c o n v id a r a d iv in d a d e —
de q u em , n o seu p ro prio system a, to d a a m oral d e riv o u , poden-
d o po is alteral-a, e na q u a l n e nh um a o b rig a ç ào se re c o n h e c e -

A q u e in ça ju s tiç a a o lio m e in c o n tra D e u s » , ÍXVl, 22»


em pretender que se e lla confesse incursa em transgressáo, náo
cabe n a sua ba lb ucía n te d ia lé ctica , nao fere a sua lim ita d a susce-
p tib ilid a d e ao illo g is m o , n áo entra no cam p o estreito, e m b ora
intensam ente ¡Ilum in a do , d a sua v isào in te lle c tu a l-
E eis-nos, assim , n o po nto n o d a l d o pro b le m a, q u e as « cir-
cum stancias im p e rio sa s » le m b rad as, no pre am b u lo d ’esta vcrsáo,
m e fo rçam , co m pezar meu, a tratar em breves linhas.
O poeta sente com lucidez irrep re he n sive l, persuado-m e, a
co ntrad icçào visceral entre a sua concepçào d o d iv in o e o seu
ideal de perfeiçâo, entre a sua m oral e o seu D eus. Sente aín da
qu e , seja q u a l fó r o desfecho d o seu d ram a, u m a n o d o a cahiu,
in a p ag a ve l, nos esplendores d a c re a çào ; um a feia injustiça
m a n c h o u , irreparavelm ente, o a lv o tecido d a sua fé r e lig io s a ;
inconcebivel rasg áo d estruiu, sem rem edio, a u n idad e q u e so-
nhara indestructivel entre D eus e as creaturas.

« E lle a b a n d o n a a T erra á s m á o s d e scclerados,


E sob re o rosto d o s q u e a ju lg a m la n ç a u n i v e u . » (IX, 24)

« C o m o é po s«:vel q ’ie os perversos v iv an t,


Se fa ça m v elh os p ro g re d in d o cm fo r ç a ? » (X X I, 7 )

« M a s n e m p o r is s o D e u s llies nega la rg o s dia s,

Q u a n d o n á o criam já v iv e r, cis se le v a n ta n i. • (XXIV, 22)

N ’estes v e rsículo s, alé m d ’outros q u e seria fa c ilim o evocar,


D e u s , se n à o é a ín d a im m o ra l aos o lh o s d o poeta, é inilludivel-
m ente im m o ra lista .
Já n á o seria m a quelle s e scán d alo s p ú b lic o s p e io leve para as
su a s re sp o n sab ilid ad e s de g u a rd a, v ig ilan te e ciu m e n to, d a pro­
p ria lei que p ro m u lg o u . T o d a v ía , teríam a s u a attenuante na
e xistencia venturosa d os innocentes. A culpa de D eus reduzir-
se-ia a urna in d ulg en cia excessiva, estéril q u a n d o nao pe rnicio ­
sa, pelos peccadores endurecidos, de resto d esc u lp av e l em par­
te, visto com o ta m b e m eram seus filhos. A té a q u i p o d e ria che-
g a r a transigencia d o nosso heroe, com quanto

« T o d o clic a tre m e r pe n sa n d o n ’isso . » (X X !, 6)

M a s D eus é irrefragavelm ente im m o ra l. N áo se lim ita a co m ­


prom etter, p o r urna c o m place ncia d e p loravel, a ordem m oral que,
desde o com eço e p o r urna vez, decretou á v id a h u m a n a ; fre­
quentem ente a a n n iq u ila , e— o que é in c o m p o r ta v e l!- e m m uitos
casos a invertc. « F a z d a n oite d ia » , p ara me servir da expres-
sáo de que o poeta se serve, d irig in d o se aos am igos.

« D e sp re zo a o in fo rtu n io ! a ssim pe nsa o fe liz.

A q u e m o p é v a c illa acolhcm -n’ o desdens. » (Xll, 5)

• N o c m ta n to , re ina a p a z ñ a s te n d a s do s b a n d id o s ,
A se gula n ç a n o s q u e in v e ste m c o ’o S en hor,

T razern seu D eus na s u a m á o . * (ib ., 6)

« M a s elle risse d a s to rtu ra s do innocente » ( I X , 23)

« E o q u e n 'a lm a e s con días vé-se agora,


E is a so rte q u e tu m e re se rv a v a s! » (X , 13)

« P o rq u e é q u e o O m n ip o te n te n á o c o m b in a o s tem po s
D e m o d o a q u e o s seus se rv os possam vér ju s tlç a ? * (x x iv , I)
Estes e o u tro s ry th m o s celebres n ào a d m itte m interpreta-
çào div e rsa. S o b re tu do o q u adro d o a m b ie n te de d e s o laç ào ,
(xix, 13 e seg.tcs) em que a inno cencia é esquecida ou in sultad a,
fornece á nossa a p reciaçào um argum ento d e c isiv o . D eus, « v e ­
la n d o as sendas» d os in c ré d u lo s, « o u th o rg a n d o a confiança e a
p a z » , a ho m e ns de fraude, de v io le n cia e de rap in a , e ao m esm o
te m p o , n’ um contraste o d io s o c d issolve n te , entregando «os sem-
a rrim o» a b a nd o le iro s, «m e rg u lh a n d o em fossa im m u n d a », aim as
d ’e s c o l,— o D eus sem ita n ào vale, m o ralm ente, m a is q u e o Z eus
h e lle n ic o ; é , com o e lle , im m o ra l, uni ty ra n n o s c m pie dad e e seni
ju s tiça .
A co ntrad icçào de que a cim a fa lle i sente-a, p o is , o nosso In ­
cognito com luc id e z im peccavcl c com in d ig n a ç ào e surpre za do-
lorosas. O que n ào sabe, o que n áo pode 6 resolvel-a.
ü y r a continuam ente dentro, c em vo lta d ’e lla . N ’este esforço
gigantesco e an c io so p o r desfazer o n ó inextricavel reside, pre­
cisam ente, o segredo d o e n canto e d a in v o lu n ta ria s y m p a th ia
q u e o poem a e o poeta acordam no nosso e s p irito d ’ary ano s.
E reside ta m b e m — en tran d o a in d a , p o r este la d o , o liv ro de
J o b no eyelo d a s crcaçôes fund am e ntao s d a hu m a n id a d e supe­
rio r— na s in g u la rid a d e d ’ um a situ a çào pessoal an alo g a á das
poucas a lm a s e sc o lhida s, n ’estes nossos d ia s de p ro fu n d a crise
in te lle c tu a l, de seccura e a lg id e z de coraçào. O p ro b le m a que,
haverá uns v inte e sete seculos, o illu stre d esconhecido agitou,
propòem -n’o e lla s a si q u asi cm term os id é n tic o s , c com o m e s ­
m o resultado ne gativo .
N ào a re s o lv e — d iz ia eu — essa co ntrad icçào im m an e nte, essa
fatai a n tin o m ia entre D eus e a m oral. N egar D eus é-lhe impos-
sivel. D o p rim e iro ao u ltim o verso, n e nh um equivo co , nenhunia
hesitagáo, n enhum a reticencia, a in d a q u e fu g itiv a , a seu res-
peito. A seus o lh o s de crente é um a x io m a , n a nossa lingua-
gem de critico, um p o stula d o, de que n ao lh e é possivel prescin­
d ir. N egar a m o ral, isto é , negar-lhe, senáo urna o rigem sobre­
na tu ra l, ao m enos sancgáo terrestre —■po rque a v id a além-tu-
m u lo é id e ia organicam ente anti-judaica — é, se m e n ao engano,
expediente que p o r instantes lh e occorre e o o b s e d ia .

« D e n ad a v a lc m d is tin c íó c s ; cis p o rq u e cu disse :


E lle m a ta ig u a lm e n te o ju s to c' o pc c c a d o r. » (IX, 22)

« M o rre u m ho m e m cercado p ’ lo c o n fo rto , (XXI, 23i


E x p ira u m o u tro em a m a rg u ra d 'a lm a , » (ib ., 25)

- A m b o s se de ita m em pocira ig u a l,
O s m esm os verm es os de v o ra m , a m b o s . * (ib ., 26)

Está-se v e n d o : é o d esco nso lo triste, o scepticism o confor­


m a d o , a fadiga incipiente , in s ta lla d a d efinitivam ente m a is tarde,
do pensador do « Ecclesiastes » .
C la ro que n ào e urna s o l u t o ; é uni desfallecim ento m o ­
m entaneo. O seu d ram a in tim o , só em parte form alm ente ex-
te rio risad o conform e notei,seg ue a co nh ecida curva e v o lu tiv a dos
crentes, qu aesquer q u e sejam o p a iz e a epocha, sobre quem urna
catastrophe cahiu. Subitam ente c o lh id o pelo em bate, gem e, re-
trahe-se, ensimesma-sc, inve stiga o horizonte. F e ito e scrupuloso
exam e á consciencia, de que sahe « o u ro p u ro » consoante as suas
expressòes, c o m prov ad a a gratu itid ad e d o castigo (porque o m al,
p ara o sem ita, é expiagáo), estabclecido, p e lo seu e p e lo exem-
p lo extranho, o desconcertó d a vida s o c ial, d em o n strada p o is a
co m pleta inversáo d a lei m o ra l,— pe rgunta, s u c c uinb id o , se va-
lerá a pena ser um justo. M as, la m in a d ’ago, apenas encurvada
lo go erecta, retom a a sua attitude affirm ativa, a sua confianza
a b so lu ta n a verdade d ’essa lei.

« No emtanto, o justo persevera no seu trilho,


Duplica de cons'incia o homem de m3os puras. * (xvu, 9)

O d ile m m a , que presente inexoravel, n áo offerece urna sa-


h id a — é fó r a de d u v id a . D ’ essa e strirg a — é evidente — só
D e u s em pessoa, só o p ro prio a u cìo r d a lei m o ral, pode tiral-o.
D o e pilo g o, em pro sa, claram ente se in d u ^ que E lle inter-
viera ta m b e m n a solu cáo que a le n d a n o s tra n sm ittiu . M a s a
difficuldade aqu i era m e n o r; nem e x is tia, em rigor, difficulda-
de. E .n b o ra Ihe ig n o re m o s o corpo d o relato , é in d u b ita v e l,
para m im , q u e o p a iriarc h a m a n ie v e inalterada a p o stura pa­
ciente de que nos reza o pre fa cio ; q u e nem p o r um m om ento
d esm entiu a reso lugáo , h u m ild e e heroica, de acceitar o s a c ri­
ficio c o m b in a d o n o ceu entre Je h o v a h e o D etracto r; e que,
po rtanto , a controversia suscitada pelos tres id u m e u s em torno
á desventura d o a m ig o ou v isa v a , com o no po e m a , a persua-
dil-o de c u lp a , o u e n iáo , reconhecendo-lhe a inno cencia, a in-
sinuar-lhe « o d ir e ito * de se revo ltar contra a injustig a. Sahin-
d o Jo b triu m p h an te , em q u a lq u e r d a s conjecturas, d a rude prova
a que o s tres acoly tos de S ata n a z o subm ettem , a in te r v e n g o
de Jeh ova h n a le nd a , e que o e pilo g o fe lizm en te conservou, é
in te llig iv e l e é fácil.
N o poem a é o bsc ura e d if f id i, seja q u a l fór, das d u a s solu-
góes d a d a s n ’e lle , a preferida.
C o n fo rm e a segunda (cap. x l ii , 6), Jo b «retracta-se e faz pe­
nitencia n a c in z a c n a p o e ira » . Retracta-se e penitencia-se de
q u é ? — de se haver reconhecido, em fim , c u lp a d o ? Inco n ciliav el
com to d o o texto d o p o e m a , em que pertinazm ente pro clam a o
« s e u d ir c ito » . D e se ter excedido n a s accusaçôes q u e náo
p o u p a a D eus, p o r in frin g ir, o u inverter a lei m o r a l? Incom-
p a tiv e l com a segura interpretaçào d a d a ao curso m oralm ente
desordenado d ’esta v id a , com a sua incontestavel inno cencia, e
co m o seu presentim ento ju s tiss im o de n áo h a v e r m e io , um a
vez co nsum m ad o o que se po d e d e n o m in a r a trocidad e , d ’expun-
g ir d a creaçào táo negra m a c ula . E ’ de to d o in v e ro s ím il q u e o
poeta n áo visse caberem m e lh o r a D e u s , d o que a s i, a retra-
ctaçào e a penitencia.

« Foi D e u s — sabe i — q u e m m c u d ir c ito v io lo u . * (xix, 6)

E ’ concludente. A in d a n a hy po the se de h a v e r n /E lle «u m a


in te n ç â o » , a in ju ria ao « s e u d ir e ito » n áo d e ix av a de ser um fa­
cto, clam oroso, b ruta l, p ara sem pre inscripto n a h is to ria m oral
d o U niverso.
Se é authentica, um a a d d içào tardia do auctor, a parte do
poem a que vae d o vers. 9, xl, em deante, a s olu çào que estou
d isc utin d o 6, com o acim a a q u a lifiq u e i, « in e s p e ra d a e fr u s te » , o
arrependim ento lastim avel d ’ um v e lh o , já m u ito longe da mallea-
b ilid a d e e in tre pide z m entaes que Ihe in s p ira ra m «ph ilo so ph e -
m as » tá o notaveis pela in tu iç â o e pela fo rm a lap id a r.
Acceitando-se porém a prim eira, e do texto quer da estrophe

« Fallei po r u m a ve z, n 3 o re d a rg ú o ;
P o r d u a s , nem palavra a juntar ei», (XXXIX, 35)

q u e r d o com eço do e p ilo g o (em prosa)

« E d e p o is q u e d ir ig iu estas palavras a J o b , . . . »
n áo podem os fug ir á conclusáo de que fosse a d a v irü id a d e do
poeta, — D eus, sein fazer a m in im a a llu s ào ao p ro b le m a em de­
bate, illu d in d o - lh e m e sm o o po n to essencial, que o força a obe­
decer á in tim a ç ào d a sua victim a, responde p o r urna pergunta de
m au gosto e um desafio im pertinente (xxxix, 32), com o se fossem
a sua om n ip oten cia e o m n iscie n cia o them a a esclarecer e a des­
lin d a r. E Jo b , q u e , n a segunda so lu çào , fica interdicto e a tre­
m e r perante o despo ta d o ceu, declara-se, n ’csta, um «n in g ue m »;
e sem perder a sua lin h a , to d o cortezia e respeito, delibe ra singe-
lam ente calar-se. C o n v e n c id o ? D e m ane ira a lg u m a : vencido.
Se nem D eus em pessoa d erram ou a sua lu z transcendental
sobre a treva d a questño, com o po d eria elle — creatura m odesta
— illu cid al- a? Acerca d a existencia de D eus — reparem os— du-
v id a a lg u m a ; acerca d a lei m o ral, a m esm a certeza in a b a lav el.
A co ntrad icçâo co ntinua de p é ; o m ystcrio subsiste.
P a ra um sem ita, e para um p h ilo so p h o profano com o era o
n osso poeta, um tal remate com prehende-se: é ve ridico e é leal.
O livre pensador jud e u nao consegue desenvencilliar-se d o d ile m ­
m a: prescindir d a m o ra l, o u negar D e u s . E m b o ra lhe sin ta a
o p p o siçào d os dou s term os, acccita-o com o im p o s iç ào ineluctavel.
J á disse atraz d ’onde me parece derivar essa* im potencia.
Urna suggestáo co m ple m e n tar, a d esenvolver um d ia , e ahi
deixo a m in h a hypothèse para exam e de p h ilo s o p h o s e d ’eruditos.

U m solo e steril, razo a perder de v ista , e s ó interro m p id o ás


vezes por um o u o utro espinhago, d ’arestas duras e cortantes na
transferencia do ar puro; m osqueando-lhe de onde a o nd e o tom
pardo ou a lv a d io , un ía flora red uzida a herva rasteira c alguns
arbustos enfezad os; im prim indo-lhe occasionai m o vim e n to, urna
faun a escassa e b ra v ia , q u e perpassa em v ò o ra p id o no azul,
surge das b rc n ha s aos saltos, corta em carreira a p la n ic ie ; o de­
serto, em su m m a , uniform e e im m u tave l, v a zio e m u do , sem rum o­
res, sem m atizes, sem crepúsculos, o nd e n ao canta o v e io alegre
d ’ um arro yo, nem s on h a o cspe lho cry stallino d ’ um a taga;
P or c im a d ’e lle , um ceu, b ru ñ id o e m e tálico, a d espe d ir des-
lum bram e n tos, ou cegó e sin istro , a despejar e stam pid os e chu-
vas torrenciaes; ta m p a de b ro n ze ou de treva, a que s ó o luzir
d ’a lv a e o sc in tilla r das estrellas em prestam , em n oites calm as,
a lg u m a paz e dogura;
E ntre a m b o s, urna atm osph era o u dorm ente e abafad iga, ou
agreste e regelante, d a nd o , pela carencia de v ap o r d ’ag ua, rigo­
roso desenho aos perfis, e á s im pressóes a g u d a n itid e z;
N ’um a p a la v r a : um m o d esigual e inclem ente, e to d av ia
m o n oton o , cuja variedade m a is q u e s o b ria Ihe exaggera a unida-
de de conjuncto — eis um d os elem entos em que o transcenden-
ta lism o se resolve.
Urna raga d ’ hom ens, o riginariam ente m a l d o tad a para urna
estricta representagáo in telle ctual d o m u n do exterior, m a l d is ­
posta para as creagóes juridico-politicas, m al s e rv id a p e lo seu
instrum ento glottico para o s raciocinios abstractos, n a q u a l o ca­
rácter energico, desde seculos m o d e la d o p e lo deserto e o n om a­
d is m o , desconhece as co m plicagòes e as gradagóes q u e Ihe im ­
p rim en! as p o pu losas cid a d e s e as p a iza g e n s opule ntas ; um typo
h u m a n o , e m iiin , cu ja intellige n cia rig id a e pobre, de cepa, n áo foi
a m assada e enriquecida p o r un ía n atureza exuberante, e cuja alm a
forte e s im p le s, a v u lta n d o n a fra que za cerebral, no a m b ie n te in­
a n im a d o , na sing eleza e d ispe rsáo d a v id a pa s to ril, torna prepon-
derante e fixo o facto m oral, invade e sub o rd in a a esphera d o es­
pirito , c o n s titu in d o , q u a si s ó , a personalidade e a consciencia —
e is o segundo elem ento e x p lica tivo da concepçào transcendental.
A sua génese, o seu processus de form açâo é , p o is , claro :
n a s o lid à o m oría, o ty po d a v id a é fatalm ente o sér h u m a n o ; no
regim en n ó m a d a , o sêr hu m a n o pouco m ais é d o que cm o çào.
U m conhecido m ecanism o m ental fa rà o resto.
D eus vem a ser, d ’ este m o d o , um fillio d o deserto c d o ho­
m em s o lita rio ; nasceu na A ra b ia d o norte e no coraçào do be­
d u in o . D ’a hi tirou a sua origem , e só a hi po d e viver. A sua
tra n sp lan taçào p a ra a E uro pa — essa ab su rd a chim e ra de R o m a —
fèl-o estiolar-se e m orrer. S ó n a a lm a do ju d e u , no caso cm que
o seu isolam ento perdure, conseguirá manter-se v iv o . P orque no
ju d e u , corno n o arabe, o cerebro n ào d is p ó e de auto n o m ia e am ­
p litu d e ; n à o conhece um instincto p ro p rio , susceptivel de neu­
tr a lis a ^ e m u ito m enos sobrepór-se á e m o tiv id a d e m oral e aos
instinctos anim aes. E ’ um authentico escnavo, interprete su b o rd i­
n a d o qu a nd o m u ito , das in spiraçôe s d o sentim ento e das or/iens
im pe rativas d a p a ix ào . Sem activid ade exclusiva, sem funcçâo
independente com o o cerebro e uropeu, n a d a m a is faz d o que
e x p rim ir, corporisar ás vezes, em palavras sonoras e em ima-
gens rutilantes, essas forças obscuras que n o s in d iv id u o s e nos
p o v o s definem o caracter e c o nd uze m a existencia.
A in d a ao m e no s q u e , das duas soluçôes que n o s offerece do
seu d ra m a , o grande Incognito, n a piena posse de si m esm o,
preferiu a m u d e z altan eira d o ve n cid o á b a ix a retractaçào do
convencido.
Em endas

(T e x to )

P ag. L in .

13 1 IV da
33 1 II
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95 4 69
102 4 a agora
122 2 o rhinocerontc
152 6 3
160 4 118

O s pe q u e ñ o s e rro s d e calx a o le ito r o s c orrigirá.