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Pragmática AULA 4

Denize de Oliveira Araújo


Marcos Antônio da Silva

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Os atos de fala indiretos:


Austin e Searle

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Conhecer e utilizar formas indiretas de linguagem;


„„ Entender que os atos de fala indiretos são formas de dizer o
que se deseja, mas também formas de apresentar algo mais.
Os atos de fala indiretos: Austin e Searle

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Caro aluno,

Certamente, em algum momento da sua vida, você já ouviu a seguinte expressão/


pergunta:

Essa indireta é pra mim?

E, provavelmente, diante de tal contexto, você também ouviu uma resposta como:

Se a carapuça serviu!

Ou, ainda, já foi parado em algum lugar da rua e ouviu a seguinte pergunta:

Você poderia me dizer as horas?

Enfim, são inúmeros os casos em que nos valemos de formas indiretas de linguagem
para interagir nos mais diversos ambientes sociais. Não pense, entretanto, que
essas formas estão inadequadas ou que não devem ser utilizadas. Na verdade,
são estratégias que utilizamos para solicitar, ordenar, pedir ou exigir determinada
coisa de outra pessoa, sem que para isso o nosso discurso soe “seco”, mal educado
ou “grosseiro”.

Estamos diante dos atos indiretos de linguagem, conteúdo desta nossa quarta aula.

3 TECENDO CONHECIMENTO

3.1 Os atos de fala

Para darmos início a esta aula, de forma bem sintética, relembraremos alguns
pontos discutidos na aula anterior.

A Teoria dos Atos de Fala, atos de discurso ou atos de linguagem, surge a partir
do interesse de um grupo de filósofos em analisar o funcionamento dos atos

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produzidos em contextos naturais de comunicação, ou seja, os atos ordinários


produzidos no uso da linguagem comum/cotidiana.

Ao observarem tal funcionamento, houve uma divisão dos atos de fala em dois
grupos: os atos performativos e os atos constatativos. Os primeiros atos tinham por
característica realizar uma ação no momento em que eram pronunciados, enquanto
os segundos apenas descreviam o estado das coisas, a realidade do mundo.

Após perceberem que, em todos os aspectos, sempre que pronunciamos um


discurso de linguagem, estamos, também, realizando uma ação, estudiosos
como Austin (1990) e Searle (1995) abandonaram a distinção entre constatativos
e performativos e propuseram a Teoria Geral dos Atos de Fala, afirmando que,
sempre que proferimos um ato, nessa ação estão contidos três outros atos: o
locutório, o ilocutório e o perlocutório.

Searle (1995), por sua vez, demonstrou imenso interesse na força ilocucionária
dos atos de fala e, baseado nessa força/intenção que temos ao apresentar nossos
discursos, esse autor classificou os atos ilocutórios em cinco tipos: diretivos,
assertivos, compromissivos, expressivos e declarativos.

O pressuposto que subjaz toda a Teoria dos Atos de Fala é o de que “realizamos
ações por meio dos nossos atos/enunciados/discursos”. Esse ponto, por ser
primordial para o desenvolvimento das pesquisas desenvolvidas por Austin
e Searle, não foi esquecido em nenhum momento da teoria, e nem pode ser
esquecido por você ao longo da nossa disciplina.

Realizada essa breve retomada/revisão do conteúdo visto na aula anterior,


passemos, agora, aos atos de fala indiretos.

3.2 Os atos de fala indiretos

Searle (1995) principia a discussão sobre os atos indiretos, no capítulo 2 do livro


Expressão e Significado, afirmando que os casos mais comuns de significação são
aqueles em que o produtor do texto, oral ou escrito, apresenta o seu enunciado
e quer dizer exatamente aquilo que está marcado na estrutura linguística.

Para o autor, três intenções estão imbuídas na apresentação de um enunciado


dessa natureza:
[...] produzir um certo tipo de efeito ilocucionário no ouvinte,
levar o ouvinte a reconhecer sua intenção e a intenção de
levar o ouvinte a reconhecer essa intenção em virtude do

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conhecimento que o ouvinte tem das regras que governam


a emissão da sentença. (SEARLE, 1995, p. 47).

No entanto, como vimos na introdução desta aula, nem todos os casos são tão
simples e diretos assim. Em algumas situações, é possível que o falante faça
uso de metáforas, de ironias e de insinuações para dizer aquilo que quer dizer e
dizer ainda mais do que está registrado na estrutura linguística do enunciado.

Dessa forma, consoante Searle (1995, p. 48), estaríamos diante de uma classe
importante de casos como a daqueles em que “[...] o falante emite uma sentença,
quer significar o que diz, mas também quer significar algo mais”.

Entretanto, para esse autor, estar diante de um ato indireto é também estar
diante de alguns problemas: “[...] saber como é possível para o falante dizer
uma coisa, querer significá-la, mas também querer significar algo mais”. Por
parte do ouvinte, o problema consistiria em saber como “[...] é possível para o
ouvinte compreender o ato de fala indireto quando a sentença que ouve e que
compreende significa algo mais”.

Buscando, pois, resolver tais problemas de compreensão, por parte do ouvinte


e por parte do falante, Searle (1995) postula a existência de dois atos de fala em
um ato indireto de linguagem: um ato primário e um ato secundário.

Dessa forma, a partir de um exemplo como “Você pode passar o sal?”, o autor
explica que o ato primário está relacionado à intenção do falante ao apresentar
um determinado ato, ao passo que o ato secundário é utilizado para expressar
o sentido literal da sentença.

Assim sendo, quando o falante diz algo como: “Você pode passar o sal?”, ele
quer o sal (ato primário/intenção). O ato secundário seria o de saber se o outro
(o ouvinte/interlocutor) pode realizar a ação de lhe passar o sal.

Explicando ainda a função do ouvinte/leitor diante de um ato indireto, Searle


(1995) explica que cabe ao ouvinte estar munido de um aparato que inclui o
conhecimento das informações compartilhadas e ainda de alguns princípios
norteadores da conversação para que possa compreender os atos (primários e
secundários) presentes no ato indireto.

Além disso, é de fundamental importância a consideração - tanto por parte


do falante quanto do ouvinte - do contexto no qual o ato indireto está sendo
produzido, visto que um mesmo ato indireto, a depender do contexto, pode
ter vários sentidos.

Dessa forma, Searle (1995, p. 50) completa:


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A hipótese que desejo defender é simplesmente esta: em


atos de fala indiretos, o falante comunica ao ouvinte mais
do que realmente diz, contando com a informação de base,
linguística e não linguística, que compartilhariam, e também
com as capacidades gerais de racionalidade e inferências que
teria o ouvinte. Para ser mais específico, o aparato necessário
para explicar a parte indireta dos atos de fala indiretos inclui
uma teoria dos atos de fala, alguns princípios gerais de
conversação cooperativa (alguns dos quais foram discutidos
por Grice (1975)) e a informação fatual prévia compartilhada
pelo falante e pelo ouvinte, além da habilidade do ouvinte
para fazer inferência.

O que percebemos com o posicionamento de Searle, além de todos os aspectos


apresentados para que o ouvinte possa compreender o que o falante tem
por intenção ao apresentar um determinado enunciado, como mencionamos
anteriormente, é que a consideração pelo contexto em que o evento de
comunicação se dá é de tamanha relevância.

Justificando ainda o seu posicionamento, Searle (1995, p. 51) apresenta o seguinte


enunciado, ao qual é dada uma resposta de forma indireta:

Aluno X: Vamos ao cinema hoje à noite?

Aluno Y: Tenho que estudar para um exame.

Observamos que a resposta do aluno Y, em relação ao convite feito pelo aluno


X, não é “sim” nem “não”, mas outra: “Tenho que estudar para um exame”.
Considerando a relação que possivelmente existe entre os interlocutores envolvidos
nesse exemplo, a resposta de Y, ainda que indireta, é suficientemente clara e
direta para que X entenda que a resposta é “não”. Portanto, X entenderá que
“ter que estudar para um exame” e “ir ao cinema” são ações impossíveis de
ocorrerem concomitantemente.

Refletindo, ainda, sobre a condição necessária de se pensar no contexto,


apresentamos o seguinte exemplo e os possíveis sentidos que podem ser
inferidos pelo ouvinte:

Hoje o dia está muito quente, não é?

Dependendo do contexto em que esse enunciado seja produzido, o ouvinte


poderá entender que o falante está:
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Fazendo um convite para tomar uma cerveja.

Chamando para tomar um sorvete.

Fazendo um convite para ir à praia.

Convidando para tomar um banho de piscina.

Solicitando que o ar-condicionado seja ligado.

Pedindo que o ventilador seja ligado.

Fazendo um apelo para que as janelas sejam abertas.

Outros tantos sentidos são possíveis, a depender das relações que envolvem os
interlocutores e do contexto em que o ato indireto é produzido.

Assim sendo, ler e entender os atos indiretos não é tarefa simples e solitária, mas
uma ação complexa que envolve a relação entre os interlocutores. Caso não haja
uma compreensão clara do que está sendo dito, o ouvinte, certamente, voltará
para casa com a seguinte frase “martelando” na cabeça: “O que será que ele/a
quis dizer com aquilo?”.

Verifiquemos, aqui, de forma simples, uma pequena lista de como, por exemplo,
pedir dinheiro emprestado, ressaltando a necessidade da presença do contexto:

Contexto: Diante da necessidade de comprar roupas novas para ir à festa de


uma amiga, Sandra chega para os pais e diz:

„„ Qual dos dois poderia me emprestar uma graninha?

„„ A minha mesada acabou logo cedo este mês.

„„ Nossa, mãe, como eu ficaria feliz se alguém me emprestasse duzentos reais.

„„ Mãe, você ainda tem aquela reserva de dinheiro no banco?

„„ Pai, quando seria possível me emprestar um dinheirinho?

„„ Por acaso você teria como me emprestar algum dinheiro?

„„ Você ficaria com raiva se eu pedisse dinheiro emprestado a outra pessoa?

„„ Como eu ficaria feliz se alguém pudesse me emprestar duzentos reais.

„„ Seria pedir muito se eu pedisse duzentos reais emprestados a você?

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„„ Você se prejudicaria se me emprestasse duzentos reais?

„„ Você faria o favor de me emprestar duzentos reais?

Além dessas formas, outras tantas seriam possíveis, mas, é claro, considerando
o que é apresentado no contexto para a produção dos enunciados. Certamente
você já fez uso de atos indiretos na sua vida, correto? Se já fez, não se preocupe,
pois as formas indiretas de dizer as coisas fazem parte da natureza da linguagem.

Exercitando

1) Você concorda que, no nosso cotidiano, utilizamos mais formas indiretas


de enunciados do que formas diretas? Justifique a sua resposta.

2) Por que é possível dizer que os atos indiretos são formas de dizer o que se
deseja, mas também de dizer algo mais?

4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO

Com o objetivo de que você possa dar continuidade às leituras e, dessa maneira,
aprofundar ainda mais os seus conhecimentos em relação à Teoria dos Atos de Fala,
sobretudo os atos indiretos, indicamos, aqui, duas referências que, certamente,
serão de grande auxílio na construção do seu conhecimento:

SEARLE, J. R. Expressão e significado: estudos


da teoria dos atos da fala. 2. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1995 [2002].

Este livro apresenta toda a teoria dos atos


de fala indiretos, a partir da classificação
dos atos ilocutórios, que são aqueles que
apresentam uma força argumentativa quando
são enunciados. De forma precisa, o autor
explica que nem todos os casos de significação
são tão simples, como os atos diretos, e, nesse Figura 1
caso, expõe os seus comentários sobre os atos
indiretos.

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ARMENGAUD, Françoise. A Pragmática. São


Paulo: Parábola Editorial, 2006.

A autora do livro, de forma concisa e didática,


apresenta a Teoria dos Atos de Fala no capítulo
IV, mais especificamente no ponto II desse
capítulo. Armengaud discute sobre os atos
indiretos e afirma que estes constituem uma
classe dos atos que o falante apresenta para
Figura 2 dizer exatamente o que está dizendo, mas
que também quer dizer algo diferente. Leitura
recomendada e de fácil assimilação.

5 TROCANDO EM MIÚDOS

Os atos indiretos, que estão no interior da Teoria geral dos atos de fala/linguagem/
enunciados, são formas indiretas de dizer mais do que está registrado na estrutura
linguística do enunciado, tendo em vista que, em algumas situações, o falante
apresenta um ato indireto para dizer aquilo que ele realmente tem a intenção
de dizer, mas também para dizer algo além do que está marcado no enunciado.

Vimos, ao longo da nossa quarta aula, que o processo de produção e recepção


dos atos indiretos está diretamente ligado às relações estabelecidas entre os
sujeitos envolvidos no processo comunicativo, daí a relevância extrema de
considerar os contextos em que os enunciados indiretos são produzidos e as
intenções do falante.

Além disso, cabe pontuar, também, que dizer determinadas “coisas” de forma
indireta é uma possibilidade para, em determinadas ocasiões, atenuar a força da
informação apresentada. Dessa forma, dar a notícia do falecimento de alguém
ou informar a um funcionário que ele está sendo demitido, por exemplo, pode
ser uma tarefa extremamente difícil e constrangedora. Então, de forma indireta,
é possível dizer: “Fulano agora está morando com os anjos” e “Nossa empresa
está passando por mudanças bruscas e, infelizmente, você não faz mais parte
do nosso quadro de pessoal”, respectivamente, com a intenção de dizer o que
precisa ser dito, mas de maneira menos desagradável.

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6 AUTOAVALIANDO

Com a finalização da leitura da nossa quarta aula, almejamos que você tenha
condições de refletir, com base no que aprendeu com o conteúdo exposto, sobre
os seguintes questionamentos:

a) Consigo entender que, quando o falante utiliza formas indiretas de


linguagem, ele não se compromete com o que está dizendo? Como
ocorre esse “não comprometimento”?
b) Consigo apresentar, para cada item abaixo, duas formas indiretas
de linguagem?
I) Dizer que perdeu o dinheiro.
II) Informar que foi reprovado.
III) Convidar um amigo para uma festa.
IV) Avisar que chegará atrasado ao trabalho.

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REFERÊNCIAS

ARMENGAUD, Françoise. A Pragmática. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

AUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Porto Alegre: Artes


Médicas, 1990.

KOCH, I. G. V. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Cortez, 2007.

MARCONDES, D. A Pragmática na filosofia contemporânea. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Editora, 2005.

SEARLE, J. R. Expressão e significado: estudos da teoria dos atos da fala. 2. ed.


São Paulo: Martins Fontes, 1995 [2002].

SEARLE, J. R. Os actos de fala: um ensaio de filosofia da linguagem. Tradução


de Carlos Vogt. Coimbra: Almedina, 1984.

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