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Outubro . 2016 . Ano II .

Nº 2

Luciano
Massoco
Sumário Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

Autores e Idealizadores
Editores
Me. Ana Valquíria Prudêncio
Dra. Gladis Franck da Cunha
Dra. Marilda Machado Spíndola
Me. Tiago Cassol Severo

Projeto Gráfico
Cleper Ravanello
Andressa Aline Borges

Editoração
Jones Daniel Porsche

Centro de Ciências Exatas, da Natureza e Tecnologia


Universidade de Caxias do Sul

Dois professores inesquecíveis para


01 guardar nos corações e mentes p. 4

Propelentes sólidos para foguetes:


avaliação teórica do desempenho da
02 mistura nitrato de potássio/açúcar p. 10

A importância do ensino de evoluação


03 para o pensamento crítico e científico p.14

Eficiência energética em sistema eletromotriz


de ventilação: uma análise comparativa
entre motor de indução trifásico x motor
04 de imã permanente p. 22

Atuação do Design Estratégico junto


05 aos saberes artesanais p. 38

Relações entre o perfil cultural


e psicológico de estudantes universitários
06 e a habilidade de interpretação de gráficos p. 46

Uma breve discussão sobre estratégias


07 e processos de dispersão em Ostracoda p. 54

2
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II
Editorial

Este segundo número da RICA traz como uma novidade a seção “Suplemento
Especial” que foi criada para publicação de Anais de resumos apresentados em
Outubro . 2016 . Ano II . Nº 2 eventos especiais organizados e sediados no Campus Universitário da Região
Luciano
Massoco dos Vinhedos (CARVI) tais como: Mostras, Semanas Acadêmicas, Seminários,
Congressos, etc. Nesse sentido, tais eventos deverão primar pelo seu caráter
científico e interdisciplinar, abrangendo áreas que vão das ciências e pedagogia até
engenharias e tecnologia. Estes resumos estarão disponíveis apenas na versão on-
line da revista.

Também como novidade foi criada a seção “Orientações aos Autores” que apresenta
modelos em Word em dois formatos DOCX e DOC, com todas as informações
1

Professora Me. Ana Valquíria Prudêncio necessárias para a estruturação do artigo. Nele são descritas as características
Professora Dra. Gladis Franck da Cunha de artigos e tamanho recomendado para cada seção, formatação, estilo de fonte,
Professora Dra. Marilda Machado Spíndola
Professor Me. Tiago Cassol Severo inclusão de figuras, formatação das referências. Enfim, sugere-se que os autores que
Editores da Revista Interdisciplinar utilizem este modelo para escrever e submeter seus artigos para RICA, atendendo
de Ciência Aplicada as especificações da revista.

Neste número, a seção “Modelo de Professor” está marcada pela emoção ao


homenagear dois professores da UCS que atuaram no Centro de Ciências Exatas,
da Natureza e Tecnologia, mas que por força da natureza nos deixaram de forma
prematura e inavisada. O artigo intitulado “Dois professores inesquecíveis para
guardar nos corações e mentes” abre mão do estilo adotado em textos científicos
ou acadêmicos para homenageá-los de forma mais sensível ou poética e deseja que
os leitores também possam ser tocados pelos seus exemplos de vida.

Nas “Comunicações Curtas” temos um artigo que trata de propolentes sólidos para
foguetes, descrevendo o método de utilização de softwares de simulação para
prever o desempenho de um propelente sólido. O segundo artigo desta seção
aborda o ensino de evolução, enfatizando sua importância para a formação do
pensamento científico e buscando alternativas de solução para a problemática do
ensino de evolução, que ainda reside na dicotomia entre ciência e religião.

“Artigos Completos” traz três artigos. O primeiro apresenta um método de análise,


dimensionamento e especificação da eficiência energética de um sistema de
ventilacão industrial empregado em uma indústria de móveis planejados.O segundo
tem como tema central a atuação, por meio do design estratégico, na integração de
manufaturas ou técnicas artesanais de pequenos municípios gaúchos, explorando
contemporaneamente suas potencialidades produtivas. Já o terceiro analisa as
dificuldades evidenciadas por estudantes de engenharia na resolução de tarefa, que
envolveu a memória trabalho.

O “Artigo de Revisão” de Cláudia Pinto Machado tem seu foco nos mecanismos
de dispersão utilizados por Ostracodes. Que são organismos encontrados
em praticamente todos os tipos de ambientes aquáticos, desde a plataforma
continental até planícies abissais, bem como em reservatórios de águas de epífitas.
Neste trabalho é apresentada uma nova possibilidade de foresia para a dispersão
dos ostracodes marinhos, por meio de tartarugas.

Para finalizar a seção “Indo além” traz a solução para o problema apresentado no
número anterior e propõe um novo desafio aos leitores.

Assim, apresentado o número 2 da RICA, desejamos que aproveitem a leitura e


participem das próximas edições!

3
Modelo de Professor

Dois professores
inesquecíveis para guardar
nos corações e mentes
Ana Valquíria Prudêncio
Cícero Zamboni
Resumo: O presente artigo abre mão Abstract: This article pays tribute to
Douglas Onzi Pastori do estilo adotado em textos científi- two teachers of UCS who left us su-
Eloice C Pavoni cos ou acadêmicos para homenagear ddenly way. Despite their short live to
Gladis Franck da Cunha
Marilda Machado Spindola de forma mais sensível ou poética dois the present day, they left legacies that
Tânia Morelatto professores amigos e colegas que nos affected hearts and minds of the col-
Tiago Cassol Severo
Centro de Ciências Exatas da Natureza e
deixaram de forma inesperada e pre- leagues and friends from theirs works.
Tecnologia (CENT-CARVI-UCS) coce. Apesar de terem vivido por um This honor also aims to share with rea-
Bernardete Schiavo Caprara período relativamente curto, ambos ders the experiences of some of these
Centro de Ciências Sociais e da Educação
(CCHE-CARVI-UCS) deixaram como legado de vida exem- friends and colleagues, who are also
plos de competência, humanidade e touched by his life examples.
conhecimento que enriqueceram a tra-
jetória de vários colegas e alunos com Keywords: Luciano Antônio Massoco;
os quais conviveram. Cada um deles a Silvana Fehn Bastianello; examples of
seu modo está nos corações e men- life; honor of RICA.
tes daqueles que tiveram a felicidade
de conviver com estas pessoas ímpa-
res. Neste sentido, a homenagem aos 1. Introdução
professores Luciano Antônio Massoco Charles Dickens (1812-1870), o
e Silvana Fehn Bastianello quer não mais popular dos romancistas ingleses
apenas lembra-los, mas deseja que os da era vitoriana, escreveu “Um conto
leitores também possam ser tocados de Natal” [1], publicado pela primeira
pelos seus exemplos de vida e assim vez em dezembro de 1843. Este conto
possam também mudar seu jeito de se tornou um dos maiores clássicos na-
olhar o mundo e a buscar sempre a talinos de todos os tempos e uma das
grandeza no sentido de ir para além de mais célebres obras de Dickens. Neste
si mesmo, sem medo de ao cometer er- conto, a personagem Ebenezer Scroo-
ros, corrigir o percurso e seguir adiante. ge é um homem avarento que abomina
Este artigo está estruturado a partir do o Natal e inferniza a vida de Bob Crat-
depoimento de cada um dos autores chit, o seu pobre, mas feliz empregado,
de modo que diversas experiências que deveria aparecer para trabalhar
pessoais e únicas possam ser compar- normalmente, sem atrasos, no dia de
tilhadas para que permaneça vívida na Natal. Ele é então visitado pelo seu an-
memória a presença destes professo- tigo sócio, que está no inferno e o avisa
res inesquecíveis. de que será visitado por três espíritos
do Natal: do passado, do presente e do
Palavras-Chave: Luciano Antônio futuro. Por mais que os fantasmas do
Massoco; Silvana Fehn Bastianello; passado e presente tenham se empe-
exemplos de vida; homenagem da nhado é somente o fantasma do futuro
RICA. que consegue fazer Scrooge mudar ao
fazê-lo defrontar-se com sua própria
morte solitária, na qual seu corpo mor-

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Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

to jazia abandonado na enormidade de 2. Luciano Antônio Massoco Pessoalmente, lembro do Massoco


uma casa vazia, sem um homem, uma (Um gigante pela própria praticamente todo dia desde a sua par-
mulher ou uma criança que recordasse tida. Sinto falta das nossas conversas,
alguma ação generosa sua. Este conto,
natureza!) do seu humor, muitas vezes ácido, mas
além de muito lido, já serviu de inspira- 2.1. Um amável crítico por natureza! inteligente. Lembro dos happy hours
ção para filmes, animações, musicais e em um bar de Bento Gonçalves onde
O Luciano (Massoco) foi, sem dú-
peças teatrais por trazer a tocante ideia eu, ele e o prof. Renato Hansen resol-
vida, um importante elo construtor do
de que embora a morte chegue para víamos todos os problemas da cidade e
Campus Universitário da Região do Vi-
todos, são infelizes aqueles que desa- do mundo Hansen. Esteja aonde esti-
nhedos. Graças aos seus esforços e de
parecem no esquecimento daqueles ver amigo, desejo a mais profunda paz
outras pessoas, hoje contamos com os
com quem conviveram. e saiba que sentimos sua falta. (Cícero
cursos de engenharia e design no CAR-
Este artigo, representa o oposto, VI e a infraestrutura que os acomoda.
Zanoni)

ele traz as lembranças de duas per-


Por ter sido o primeiro diretor do
sonalidades marcantes Luciano Antô- 2.2. Um engenheiro mecânico que
CENT (Centro de Ciências Exatas da
nio Massoco, um gigante pela própria
Natureza e de Tecnologia), foi respon- falava sobre educação!
natureza, e Silvana Fehn Bastianello,
sável por implementar e viabilizar as Pensar no Massoco é lembrar
uma pequena notável, que de manei-
condições para que o CARVI ocupasse muitas coisas, das conversas, dos de-
ras diferentes imprimiram sua perso-
a posição de destaque dentro da UCS sabafos, do sonhar com uma educação
nalidade no Centro de Ciências Exatas,
e mudar os paradigmas dos cursos su- melhor, e porque não seres melhores
da Natureza e Tecnologia (CENT) e na
periores da Meso Região onde Bento e mais comprometidos, de pensar na
RICA no sentido da busca do mais bem
Gonçalves está inserida. instituição, UCS, como o lugar que se
feito, do ir além. Quando convivemos
com pessoas especiais nos modifica- Crítico por natureza, o Lucia- queria pertencer, de falar dos alunos e
mos e uma parte destas pessoas passa no também foi uma pessoa amável e das coisas, lembro da minha inquietu-
a fazer parte e viver em nós mesmos. simpática, característica que o tornou de de pensar que a educação deveria
Assim seguem abaixo os depoimentos inesquecível como professor e colega, permear pelas várias áreas do saber e
dos autores deste artigo que foge ao deixando saudades em todos aqueles um dia começamos a falar em unir os
estilo científico mas registra sentimen- que tiveram o prazer de conhecê-lo. conhecimentos de um Engenheiro Me-
tos ou experiências pessoais e únicas cânico e sua paixão pela sala de aula e
para que possam ser compartilhadas.
Esta homenagem quer que permane-
ça vívida na memória a presença des-
tas pessoas inesquecíveis, não apenas
para lembra-los, mas para que os leito-
res também possam ser tocados pelos
seus exemplos de vida e possam mudar
um pouco mais no sentido de sempre
buscar a grandeza e ir para além de si
mesmo, sem medo de errar, mas tendo
sempre a coragem para corrigir o per-
curso e seguir adiante.

Figura 1: Foto do Prof. Massoco publicada pela Câmara Municipal de Vereadores de Bento Gonçalves em
sua nota de pesar de 11/08/2014.

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Modelo de Professor Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

por vários sábados. 2.4. Energia, dinamismo e talento 2.5 A vontade de transformar,
Isso ocorreu em 2004, quando nos incrível para liderar! construir e fazer diferente!
reuníamos, eu, o Massoco e mais dois Foram diversas as vivências boas Nossas poucas palavras são ape-
colegas para pensar numa especializa- com o Prof. Luciano, não lembro de nas um alento a memória daqueles
ção juntando as várias áreas do conhe- algo específico, mas sim dele, que, que partiram sem despedidas. O pro-
cimento, um falava o outro respondia e antes de tudo, era um colega simples, fessor Massoco, pouco mais de dois
assim depois de vários encontros, nas- amigo, queria saber se estava tudo anos, deixou significativos rastros de
ceu a Especialização em Gestão Estra- bem, empático...sempre autêntico, sor- sua passagem. Minha memória evoca
tégica em Educação, que no Carvi está riso espontâneo. sua fala forte e precisa, sua vontade
na terceira edição, mas já foi ofertada de transformar, de construir, de fazer
em Canela e Vacaria. O Massoco tra- Lembro bem, principalmente dos
primeiros anos em que trabalhamos diferente. Um personagem ilustre que
balhou em quatro edições e foi sempre marcou pelos seus feitos e por suas
o professor homenageado em todas, juntos, por vê-lo sempre com muita
energia, dinâmico, decidido, e com um ideias inovadoras. No meio acadêmico,
ele também atuaria na oferta em curso, o Massoco construiu parte de sua vida
mas foi dar aulas em outro plano. talento incrível para liderar, ele puxava
a equipe toda, animava, dava respon- e contribuiu significativamente para a
Ele dizia que eu era louca em cha- sabilidades, cobrava, mas sabia cobrar formação de muitos outros, hoje en-
mar um engenheiro mecânico para com gentileza sem omitir se não esta- genheiros. Cumpriu a missão, embora
falar sobre educação, um Engenhei- va de acordo. Como sabia bem o que tenha partido tão cedo. (Marilda Machado
ro Mecânico, com cara de professor, queria da gente, ensinava, e como se Spíndola)
grande no tamanho, mas maior ainda aprendia com ele...
no seu entusiasmo pela vida, pelo co-
nhecimento e que encantava a todos Ele sempre quis que o Centro fos-
com sua fala. Ou seja, ele falava para se “o melhor”, que se destacasse no
engenheiros e para educadores com que oferecia, que crescesse, com cur-
muita desenvoltura não tinha medo e sos, serviços, qualificação de funcioná-
era um entusiasta da inovação. Sabia rios e ficava feliz com a gente quando
do que falava e de onde falava. Faz fal- crescíamos, tanto pessoal quanto pro-
ta. (Bernardete Schiavo Caprara) fissionalmente, e mais... tinha uma per-
cepção muito à frente das coisas!
Em compensação, quando ficava
2.3. Um gestor e professor eficiente! estressado ou bravo, caminhava com
Quando entrei na UCS em 2001, muita pressa, a passos mais largos ain-
o Luciano era diretor do CENT. Muito da, para quem o conhecia era visível o
proativo, habilidoso e carismático, bus- seu estado emocional.
cava com determinação um ensino de Deixou muitas saudades quando
qualidade. Sempre que conversávamos saiu da Direção do CENT, quando soli-
sobre propostas de projetos de exten- citou redução de Carga Horária, pois já
são ele dizia: “O que você precisa? ”... víamos ele bem menos por aqui, apesar
não demorava uma semana e estava disso aquela pessoa alegre e de passos
tudo organizado. Graças ao apoio in- largos, disposto, sempre nos abanava
cansável dele, pude dar início ao proje- de onde estivesse, vinha sempre tro-
to GINCARVI - Gincana de Tecnologia car uma palavra ou dar um Oi, nem que
do CENT, que hoje encontra-se na sua fosse para reclamar de algo, mas de re-
9 edição. Além disso, ele promoveu o pente nos deixou para sempre... isso foi
aumento da infraestrutura dos labo- triste demais, pois sabemos que perde-
ratórios de engenharia e estabeleceu mos um grande colega! Para mim foi
parcerias com empresas através do uma perda enorme, sem palavras para
ATUE, impulsionando o avanço tecno- descrever! (Eloice C. Pavoni)
lógico do CENT. Saudades do Colega e
Amigo! (Tânia Morelatto)

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Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

3. Silvana Fehn Bastianello afastava dos círculos de formação do Professora que tinha na agressi-
(Nossa pequena notável!) espírito local). vidade e no amor maternal uma for-
Silvana era a mulher estrangeira ma de método, pois não tinha alunos,
3.1. Uma pequena carta numa terra que não valorizava o design mas sim filhos e não sabia ensinar nem
O discurso científico deve falar so- gráfico. aprender de outro modo a não ser esse
bre a verdade, assumir a posição que apaixonado, hoje colhe um curso que
Porém, persistentemente, com
cabe à verdade. E quando se fala a muito lhe orgulhava, colegas que muito
uma crença inabalável de formação,
verdade, trata-se basicamente de um a respeitavam, e alunos que estão mu-
permaneceu, turma após turma de
enunciado que se opõem à mentira dando o perfil criativo da cidade e da
Composição Visual, projeto gráfico,
e ao erro. Ou seja, há uma valoração região.
análise e produção gráfica, TCCs, no
inerente ao discurso científico, à sua processo de institucionalização do Vê-la trabalhar e mudar e enfren-
forma de expressão: o artigo acadêmi- design gráfico na terra das videiras e tar as adversidades conosco foi um
co. Porém, a verdade de uma amizade dos móveis seriados. Hoje, após seu prazer. Hoje esse prazer assume notas
cabe na forma da ciência? É possível ser falecimento, sabemos que o crescente mais escuras na forma das saudades.
verdadeiro, caso ainda se faça questão número de agências de publicidade e E as saudades assume a forma de um
de seguir tal axiologia, quando se jus- escritórios de design que oferecem o compromisso na manutenção e desen-
tapõe afetividade e discurso científico? design gráfico como diferencial de pro- volvimento da alta qualidade gráfica
Ou então a pergunta definitiva: qual a jeto, tem em seus métodos e matérias que acabamos conquistando no apren-
melhor forma de falar sobre o afeto de primas de trabalho, os pequenos dedos dizado coletivo a partir do convívio
uma amizade? e o olho preciso dessa professora que continuo que tivemos, qualidade que
Não é possível saber sem expe- fez da sua vida uma pequena batalha se expressa no fortalecimento do pen-
rimentar. Adotarei, portanto, a pri- de sobrevivência: primeiro para sair de samento e dos afetos que unem quem
meira pessoa do singular para conju- casa do interior de Santa Maria, depois por aqui ficou, nós, professores e alu-
gar verbos, e farei da subjetividade o para sair do estado e lecionar em terras nos de design. (Douglas Onzi Pastori)
fundamento da emissão discursiva da quase que estrangeiras (Joinville), e en-
verdade para versar sobre um objeto tão, se estabelecer na Universidade de
especial, uma amiga. A forma de ex- Caxias do Sul.
pressão, uma pequena carta. Se esta
posição ocupa o antípoda do artigo
científico, com ela provarei que a ver-
dade pode habitar outros lugares, se
formar de outros modos, sem aban-
donar os valores positivos a ela que
oriundam.
Meu objeto, a colega Silvana Bas-
tianello, professora do curso de De-
sign da Universidade de Caxias do Sul,
chegou ao campus de Bento Gonçal-
ves quando da implantação do curso
de design gráfico, que logo entrou em
processo de oclusão devido à baixa
procura pelo processo de formação,
vindo a ser absorvido pelo curso de-
sign de produto, fundindo-se no curso
vigente de design. Ou seja, tempos de
turbulência que este espírito aguerrido
teve de superar para sobreviver numa
terra onde a referência familiar por ve-
zes diz mais do que a pessoa em si (sua
natalidade, a cidade de Santa Maria, Figura 1: Foto do Prof. Massoco publicada pela Câmara Municipal de Vereadores de Bento Gonçalves em
sua nota de pesar de 11/08/2014.

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Modelo de Professor

sa Semana Acadêmica da UCS CARVI Coordenadora do Curso de Design


3.2. A ciência por trás da beleza! CENT. A mesma sempre teve um pare- tive muita dificuldade em vencer o
cer positivo e sensível a nossas ideias, grande desafio de conseguir fazer sua
Colega da Silvana há alguns anos, muitas vezes, essas quadradas provin- substituição nas várias disciplinas que
ela sempre me chamou a atenção pelo das de um mundo cartesiano de ângu- ela ministraria no segundo semestre de
seu senso de humor em comentários los retos e com poucas curvas. A pro- 2016. Não foi um desafio totalmente
sarcásticos, mas elegantes que pro- fessora Silvana conseguia aproveitar vencido, porque tivemos que cancelar
nunciava com uma voz doce e suave. nossas ideias cartesianas e transformar uma destas disciplinas até encontrar
Contudo, quando passamos a construir em algo mais sensível, mais humano, outro professor com mesmo domínio
a RICA nossos laços afetivos se estrei- mais elaborado e sublime. Lembro que dos seus conteúdos conceituais e pro-
taram e pude ver seu olhar atento aos sempre foi proativa e sempre trans- cedimentais. Fica ainda nesta edição
detalhes do Design Gráfico. Todos que mitiu seu conhecimento de uma for- da RICA o registro da sua orientação
tiveram acesso à versão impressa da ma espetacular com seus estagiários de TCC que deu origem a um dos arti-
RICA vol.1 nº1 comentaram o quanto e estudantes, que muito trabalharam gos, bem como a concepção gráfica e o
ela era uma revista bonita, em grande em parceria com nossos projetos. A desafio para continuar fazendo bonito!
parte tem a mão da Silvana nesta be- professora Silvana nos deixa, mas sua (Ana Valquíria Prudêncio)
leza pois ela orientou a criação deste visão mais elaborada e bonita de um
projeto gráfico do Cleper Ravanello e mundo fica em nossos corredores, sa-
da Andressa Aline Borges. las e corações. (Tiago Cassol Severo) 4. Considerações finais
Silvana também me fez enxergar Muito ainda deveria ser escrito se
um pouco deste mundo quando está- quiséssemos homenagear estes dois
3.4. Uma saudade ficou, um vazio
vamos fazendo as correções no arqui- colegas e amigos da forma como
vo para impressão desse volume, pois no corredor!
merecem, mas não é fácil colocar em
ao sugerir que reduzíssemos a margem Querida Sil: que vida loka! Ficou prosa sentimentos e emoções eivados
inferior ela foi categórica: as coisas es- a lembrança do nosso último abraço, pelas saudades. A montagem deste
tão assim por um motivo. Ou seja, há trocado rapidamente antes da viagem texto foi marcada pela emoção, não
toda uma ciência por trás da beleza e a Caxias, poucas horas antes da sua foi muito fácil selecionar e colocar aqui
se todos gostaram da revista isto não última partida. Uma saudade ficou, um as fotos que relembram estas pessoas
foi obra do acaso, mas do conhecimen- vazio no corredor, principalmente para tão queridas.
to, da pesquisa e da atenção aos de- aqueles que te admiravam de perto.
Assim, acabamos por ser sucintos
talhes. Depois deste evento, também Não conseguimos concluir nossos pro-
pela simples impossibilidade de domi-
passei a olhar o mundo com um pouco jetos, ficou faltando o fechamento da
nar um pouco da dor de lembrar quem
de mais cuidado aos pequenos deta- revista, outras coisas mais…enfim, nos
tão cedo nos deixou. Mas, a versão da
lhes tentando descobrir os seguredos fizeste uma surpresa. (Marilda Machado
RICA para impressão trará duas capas,
da escolha das cores, fontes e imagens Spíndola)
que também se constituirão em um tri-
das publicações impressas e, mesmo
buto afetivo para guardar nos corações
que não as entenda sei que não estão
ali por acaso. Como me disse Silvana:
3.5. Muito mais que uma colega de e mentes.
elas têm um porquê! Saudades “riqui- trabalho! Há culturas que recebem a morte
nha”! (Gladis Franck da Cunha) Este é um texto impossível de es- com alegria, infelizmente não somos
crever no momento! O que está escrito assim e a montagem deste artigo, em
aqui é apenas a compilação de algumas vários momentos nos levaram às lágri-
3.3. Uma visão mais elaborada e das minhas poucas falas, organizadas mas, porém queremos deixar aqui não
bonita do mundo! por colegas da revista. Se ainda não a dor, mas o exemplo de vida que nos
escrevo ou falo pouco sobre Silvana é legaram.
A professora Silvana sempre foi
de um profissionalismo exemplar. Em porque ainda dói demais tê-la perdido. A professora Silvana foi um exem-
inúmeras situações tive a sua contri- Ela era para mim bem mais do que plo de que é possível endurecer-se
buição em meus trabalhos voltados a uma colega de trabalho, era a madrinha sem perder a ternura como diria Che
UCS que foram desde a concepção da do meu filho, um menino que ainda Guevara! Assim, apesar de ser tão
nossa própria RICA até seus trabalhos não completou um ano de idade. Mas exigente, sem deixar escapar nenhum
na organização da arte visual de nos- também ela era colega e, no papel de detalhe, ela inspirava carinho e muitos

8
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

de seus orientandos e colegas viraram podem continuar agindo com entusias-


seus grandes amigos! Sua figura miúda, mo e autonomia. Oh, pedaço de mim
com menos de 1,60 m e voz suave, im- Contudo a saudade destes que- Oh, metade amputada de mim
pressionavam pela força e disposição ridos e inspiradores amigos persiste. Leva o que há de ti
que continha. Assim, se num momento Para dar vazão a este sentimento va- Que a saudade dói latejada
era capaz de fazer uma crítica contun- mos recorrer a um dos maiores poetas É assim como uma fisgada
dente que incomodava bastante, pas- brasileiros: Chico Buarque de Holan- No membro que já perdi
sado o impacto e percebendo que ela da, que nos versos da canção “Peda-
tinha razão se ficava com vontade de ço de mim”, composta para Ópera do Oh, pedaço de mim
abraça-la. Malandro, escrita em 1978 [2] explora Oh, metade adorada de mim
Em relação ao Prof. Massoco, so- todos os significados possíveis para o Lava os olhos meus
licitamos aos leitores que atentem aos sentimento da saudade. Esta canção Que a saudade é o pior castigo
textos escritos aquele que foi nosso foi composta para registrar a morte do E eu não quero levar comigo
primeiro Diretor. Ou seja, ele foi nosso filho de Zuzu Angel, Stuart Angel Jo- A mortalha do amor
chefe e era bastante exigente, apesar nes, assassinado pelos militares duran- Adeus
(Chico Buarque, 1978 [4])
disso não tínhamos o ímpeto de cri- te a ditadura militar na década de 70 e
ticá-lo para desabafar e reduzir o es- pode ser interpretada quase como um
tresse, como é comum acontecer. Pelo hino a todos que perderam entes que- 5. Referências
contrário, todos que se lembram dele ridos, vítimas de um destino que altera [1] DICKENS, Charles. Um Conto de Natal. Trad. Ade-
incluem palavras eivadas de afeto. Sur- a ordem natural do ciclo de vida [3]. milson Franchini e Carmen Seganfredo. Porto Alegre:
L&PM Pocket, 2011.
preendente não é mesmo? Um chefe Assim sendo, finalizamos este arti- [2] WIKIPÉDIA, Ópera do Malandro. S.d. Disponível
por quem tivemos e ainda temos ca- go de forma poética, já que os versos em: https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%93pera_do_
rinho. Um chefe que alguns chamam de Chico Buarque retratatam várias Malandro, acesso em 07/10/2016.
de irmão e ainda mantém sobre suas formas de sentir saudades e podem re- [3] MORAIS, R. Pedaço de mim com Chico Buarque –
mesas de trabalho a foto desse grande fletir as diferentes saudades que os au- recordação. Blog do Roberto Moraes, 2014. Disponível
em: http://www.robertomoraes.com.br/2014/02/
amigo (não é mesmo Renato Hansen?). tores deste artigo, bem como aqueles pedaco-de-mim-com-chico-buarque.html, acesso em
Contudo, como todo chefe o Mas- tantos outros admiradores destas duas 07/10/2016.

soco também era perigoso, pois basta- personagens podem estar sentindo: [4] HOLANDA, C. B. Pedaço de mim! Disponível
em LETRAS: https://www.letras.mus.br/, acesso em
va chegarmos com uma ideia boa que
07/10/2016.
ele já dizia: “Então vamos! ” “Não va-
mos nos queimar por pouco, sejamos Pedaço de Mim
grandes! ” Ou seja, nos sentíamos com- Oh, pedaço de mim
pelidos a deixar nossos medos para Oh, metade afastada de mim
trás e a ir em frente! Prezados leitores Leva o teu olhar
percebam o perigo disso! Todavia, ele Que a saudade é o pior tormento
sempre se colocou como parceiro nes- É pior do que o esquecimento
tas empreitadas enfrentado conosco É pior do que se entrevar
os perigos e, se tantas coisas foram
construídas, elas se deveram, em parte, Oh, pedaço de mim
a este companheirismo sem medo que Oh, metade exilada de mim
ele emprestava. Leva os teus sinais
Para nossa felicidade, sua partida Que a saudade dói como um barco
não deixou somente a saudade porque Que aos poucos descreve um arco
seu espírito empreendedor contami- E evita atracar no cais
nou a todos com quem conviveu e as
ideias inovadoras continuam surgindo Oh, pedaço de mim
e sendo efetivadas. Assim, embora Oh, metade arrancada de mim
tendo nos deixado tão cedo este ho- Leva o vulto teu
mem talentoso, com quase dois metros Que a saudade é o revés de um parto
de altura e voz de trovão, deu suporte A saudade é arrumar o quarto
às mudinhas que cresceram fortes e Do filho que já morreu

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Comunicações
Curtas
Propelentes sólidos
para foguetes
Avaliação teórica do desempenho
da mistura nitrato de potássio/açúcar
Rafaela Baldissera
Douglas Moraes Soares
Resumo: A propulsão de foguetes é ram avaliados. Os resultados demons-
Tiago Barreto Gedoz uma área bastante desafiadora onde traram que os valores de velocidade de
Tânia Morelatto conceitos de física e química podem exaustão característica e temperatura
Tiago Cassol Severo
Matheus Poletto ser amplamente explorados. Para pro- de combustão obtidos para a simu-
Grupo Gincarvi Jr. de Tecnologia em jetar um motor de foguete que utiliza lação da queima do propelente estão
Foguetes
Centro de Ciências Exatas, da Natureza e de
propelente sólido uma série de fato- de acordo com os valores encontrados
Tecnologia (CENT) res deve ser avaliada, uma vez que os na literatura, enquanto que o impulso
Universidade de Caxias do Sul (UCS) compostos utilizados na formulação do específico apresentou valor ligeiramen-
Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, Brasil.
propelente são explosivos e devem es- te inferior. Os produtos da reação de
tar balanceados para melhores resulta- queima do KNSu são em sua maioria
dos de propulsão. Este trabalho utiliza dióxido de carbono, monóxido de car-
softwares de simulação para prever o bono e água. A simulação utilizada para
desempenho de um propelente sólido prever o desempenho do propelente
utilizado em foguetes, onde o impulso sólido para foguetes é uma alternativa
específico, a velocidade de exaustão segura e viável para desenvolver moto-
característica, a temperatura de com- res foguete.
bustão e os produtos gerados com a
combustão do propelente a base de Palavras-chave: Foguete, propelente
nitrato de potássio e açúcar (KNSu) fo- sólido, impulso específico.

Abstract: Rocket propulsion is a very


challenged field in science. To design a
solid-propellant rocket motor a lot of
factors must be considered because
the compounds used in the propellant
formulation are explosives. This work
uses computer simulation to predict
the performance of a solid rocket pro-
pellant based on the results of speci-
fic impulse, characteristic exhaust ve-
locity, combustion temperature and
combustion reaction products of po-
tassium nitrate/sugar (KNSu). The re-
sults demonstrated that characteristic
exhaust velocity and combustion tem-
perature presents values similar to the
literature, while the specific impulse
showed lower values when compared
with the literature values. The reaction
products from KNSu combustion are
Figura 1: Seção transversal de um motor de foguete que utiliza propelente sólido

10
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

mostly carbon dioxide, carbon mono- quanto que o nitrato de potássio age no bocal de saída do foguete ocor-
xide and water. The simulation used como oxidante. Diversos experimen- re em apenas uma dimensão.
to predict the performance of a solid tos são realizados utilizando esse tipo Para avaliar o comportamento do
rocket propellant is a safe and viable de propelente [1-5], uma vez que ele é motor e do propelente na geração do
alternative to be used to design rocket barato, não requer equipamentos com- impulso do foguete foi utilizado o SRM
motors. plexos para sua produção e apresenta 2014 (Solid Rocket Motor Performan-
bom desempenho durante sua queima ce). Este programa permite escolher
Keywords: Rocket, solid propellant, quando comparado a propelentes mais uma pressão máxima desejável para a
specific impulse. avançados como o perclorato de amô- câmara do motor e a partir de dados
nio. como as dimensões do motor e do
1. Introdução O objetivo deste trabalho é prever grão do propelente pode-se estimar
o desempenho de um motor de fogue- a desempenho do foguete. A pressão
Motores de foguetes que utilizam
te que utiliza propelente sólido a base máxima escolhida na câmara do mo-
propelentes sólidos constituem um
de KNSu utilizando softwares de simu- tor foi de 1000 psi, ou seja, a mesma
método eficaz de propulsão [1]. Estes
lação para otimizar o projeto do futuro pressão utilizada para a simulação no
propelentes são utilizados por cons-
motor sem a necessidade de constru- ProPEP 3.
trutores amadores de foguetes, mas
ção e teste de vários motores.
também podem ser utilizados em apli-
cações espaciais e militares. 3. Resultados e discussão
O propelente sólido é uma mistura 2. Desenvolvimento A Tabela 1 apresenta os parâme-
complexa e estável de compostos oxi- A formulação do propelente utili- tros teóricos obtidos com a queima do
dantes e redutores. Em um motor de zada para as simulações foi baseada na KNSu utilizando o software ProPEP 3.
foguete o propelente que irá gerar a literatura [6]. O KNSu é normalmente Os valores obtidos nesse trabalho são
propulsão para o mesmo está contido produzido através de uma mistura de comparados com valores obtidos em
em uma câmara de combustão [2,3]. 65% em massa de nitrato de potássio outros estudos que também utilizaram
Esta câmara consiste em um vaso de e 35% em massa de açúcar. Os parâ- KNSu como propelente.
pressão que é projetado para suportar metros teóricos obtidos para a queima Tabela 1 – Diversos parâmetros utilizados para
as elevadas pressões geradas pelos ga- do propelente foram encontrados utili- comparar o desempenho de propelentes
ses oriundos da combustão do prope- zando o software ProPEP 3 (Propellant
lente [2]. Performance Evaluation Program) ver- parâmetros Unidade
KNSu KNSu KNSu
[7] [4]
Cada parte do propelente dis- são 1.0.1, com pressão na câmara do
posta na câmara é chamada de grão motor igual a 1000 psi (68 atm). A mas- Impluso
específico
s 130 164,4 115,9

[2]. Quando o grão é ignitado deverá sa de propelente considerada na simu-


Velocidade de
queimar de maneira contínua e homo- lação foi igual a 1 kg. Para a simulação Exaustão
m/s 946,7 913,4 924,6

gênea, gerando calor e formando mo- no software ProPEP 3 foram adotadas


Densidade g/cm3 1,80 1,888 1,888
léculas gasosas de baixa massa mole- as seguintes condições [3]:
cular [4]. Os gases fluem através de um • Os produtos gerados com a com- T combustão K 1720 1720 1722
bocal convergente-divergente propor- bustão do propelente são homo-
Calor
cionando a impulsão ao foguete [2,5]. gêneos; específico
1,044 1,0437 1,0437

A Figura 1 mostra o design típico de • Os gases provenientes da com-


um motor de foguete que utiliza pro- bustão obedecem à lei dos gases
(Cp/Cv)

pelente sólido. ideais;


O propelente constituído por sa- De maneira geral, todos os resul-
• A razão do calor específico (Cp/Cv)
carose e nitrato de potássio, conhecido tados obtidos nesse trabalho apresen-
dos gases de combustão é cons-
como KNSu, é um propelente tradicio- taram proximidade a outros valores
tante em todo o motor;
nalmente utilizado em minifoguetes. encontrados na literatura [4,7], a única
Os componentes para produção do • Nenhum calor é trocado através exceção é o impulso específico. Prova-
combustível são de fácil obtenção e da parede do motor e o fluxo de velmente esse comportamento pode
este propelente produz um impulso calor é adiabático; ser resultante de diferentes condições
específico relativamente elevado [6]. • A variação da temperatura e da de contorno adotadas por outros au-
O açúcar atua como combustível, en- pressão é somente axial e o fluxo tores para determinação dos parâme-

11
Comunicações
Curtas
tros teóricos. A velocidade de exaustão
característica é normalmente utilizada
para comparar a performance de di-
ferentes sistemas de propulsão para
foguetes [8]. Esta velocidade pode ser
relacionada com a eficiência da com-
bustão na câmara do motor e é essen-
cialmente independente das caracte-
rísticas do bocal [8]. A velocidade de
exaustão característica obtida através
do software ProPEP 3 é semelhante Figura 2: Variação da força em função do tempo
para a simulação do foguete utilizando KNSu
aos outros valores encontrados na lite- como propelente
ratura, bem como os valores de den-
A reação de queima do propelente
sidade, temperatura de combustão e
envolve a oxidação da molécula de sa-
também da relação do calor específico.
carose presente no açúcar pelo nitrato
A variação da força com o tempo de potássio. A reação, além da libera-
total de voo do foguete obtida atra- ção de energia, gera diversos produtos.
vés da simulação no SRM 2014 está A reação proposta obtida com auxílio
mostrada na Figura 2. A força máxima do software ProPep 3, pode ser ob-
obtida é de 559N depois de transcor- servada conforme a equação química
ridos 0,45s do lançamento. De acordo abaixo:
com a simulação, após transcorridos
C12H22O11 + 6,4 KNO3 → 3,88
menos de 0,1s do lançamento a força
CO2 + 5,32 CO + 7,97 H2O + 3,13 H2
atinge aproximadamente 400N, o que
+ 3,21 N2 + 3,06 K2CO3 + 0,28 KOH
demonstra que um elevado impulso é
obtido em um curtíssimo período de Sob as condições de temperatura
tempo, resultando em uma elevada e principalmente pressão em que esta
aceleração do foguete com a queima reação ocorre, a maioria dos produtos
do propelente. No entanto, após 0,5s gerados está na forma de gás. Estes
a força começa a diminuir e o tempo gases contribuem para aumentar a
para a queima total do propelente, de pressão na câmara do motor e à me-
acordo com a simulação, é de aproxi- dida que são expelidos auxiliam ainda
madamente 1,1s. mais na impulsão do foguete.
A Figura 3 mostra um lançamento
realizado pela equipe Gincarvi Júnior
da UCS. Pode-se verificar o foguete
na base de lançamentos instantes an-
tes de ser lançado, Figura 3(a), e depois
de transcorridos 1-2 segundos do lan-
çamento, Figura 3(b) e Figura 3(c), res-
pectivamente.
O teste de lançamento foi positivo
e o motor do foguete suportou a ele-
vada temperatura dos gases gerados,
bem como a pressão exercida dentro
da câmara do motor. Observa-se tam-
bém a grande quantidade de gases li-
berados com a queima do propelente
KNSu. As maiores quantidades de ga-
ses liberados, segundo a reação ante-
Figura 3: Teste de lançamento utilizando KNSu como propelente
rior, são vapor de água, monóxido de

12
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

carbono e dióxido de carbono, respec- 6. Referências


tivamente [9]. [1] CARTER, M.G. An investigation into the combus-
O gás nitrogênio é inerte, enquan- tion and performance of small solid-propellant rocket
motors. Final Thesis Report. University of New South
to o gás hidrogênio formado pode se Wales. 2008; 1-34.
combinar com o oxigênio do ar produ- [2] ALIYU, B.K.; OSHEKU, C.A; OYEDEJI, E.O.; ADE-
zindo água. O carbonato de potássio TORO, M.A.; OKON, A.A.; IDOKO, C.M. Validating a
e o hidróxido de potássio apresentam novel theoretical expression for burn tine and average
thrust in solid rocket motor design. 2015, v. 5, n., p.
certa reatividade, mas não são consi- 1-11.
derados tóxicos. Ressalta-se ainda que [3] KUMAR, M.P; PALEKAR, S.G. Design and per-
traços de outros gases tóxicos podem formance analysis of aluminized sugar aided rocket
ser formados, tais como, metano, NOx, propulsion using MATLAB. International Journal of
Science and Research. 2015, v. 4, n. 10, p. 624-627.
entre outros, no entanto sua quantifi-
[4] OLAOYE, O.S.; ABUDULHAFEEZ, O.A. Design and
cação requer equipamentos mais avan- performance characteristics of a rocket using potas-
çados e medições in situ. sium nitrate and sucrose as propellants. International
Journal of Science and Research. 2014, v. 3, n.8, p.
1892-1897.
4. Conclusões [5] SCIAMARELI, J.; TAKAHASHI, M.F.K.; TEXEIRA,
J.M. Propelente sólido compósito polibutadiênico: I -
Os resultados mostraram que os influência do agente de ligação. Química Nova, 2002,
valores de velocidade de exaustão e v. 25, p. 107-110.

temperatura de combustão obtidos [6] FOLTRAN, A.C.; MORO, D.F.; da SILVA N.D.P.;
FERREIRA, A.E.G.; ARAKI, L.K.; MARCHI, C.H. Burning
durante a simulação estão de acordo rate measurement of KNSu propellant obtained by
com os valores encontrados na litera- mechanical press. Journal of Aerospace Technology
tura. O impulso específico apresentou and Management. 2015, v. 7, n. 2, p. 193-199.

valor inferior, provavelmente em fun- [7] NAKKA, R. KN-Sucrose propellant chemistry and
performance characteristics. Richard Nakka’s Experi-
ção de adoção de diferentes condições mental Rocketry Web Site. 1999.
de contorno adotadas para determina-
[8] SUTTON, G.P.; BIBLARZ, O. Rocket Propulsion
ção dos parâmetros teóricos. Elements. John Wiley & Sons. 2000.
Os produtos da reação de queima [9] BALDISSERA, R.; GABRIEL, L.; POLETTO, M. Pro-
do propelente são em sua maioria di- pelentes sólidos para foguetes - Avaliação da geração
de gases tóxicos com base nas reações de combustão.
óxido de carbono, monóxido de car- 5º Congresso Internacional de Tecnologias para o
bono e água. O teste de lançamento Meio Ambiente, Bento Gonçalves, 2016.
foi bem-sucedido, o que demonstra
que a simulação utilizada para prever
o desempenho do propelente sólido
para foguetes é uma alternativa segura
e viável para desenvolver motores fo-
guete.

5. Agradecimentos
Os autores agradecem a Universi-
dade de Caxias do Sul por apoiar este
projeto de pesquisa.

13
Artigos
Completos
A importância
do ensino de evolução
para o pensamento
crítico e científico.
Ariane Pegoraro
Luana Gonçalves Soares
Resumo: A evolução é um conceito da evolução pode trazer importantes
Mariluza Zucco Rizzon chave na compreensão das ciências da subsídios para o desenvolvimento tec-
Eliete Dal Molin vida e tem como ideia central a muta- nológico inserido no desafio da susten-
Fabiana Martins Fernandes
Luciana Bonato Lovato bilidade dos seres vivos. Contudo em tabilidade. Com o objetivo de destacar
Mestrado Profissional em Ensino de Ciências pleno século XXI ainda encontra muita a importância do estudo da evolução
e Matemática
Gladis Franck da Cunha
resistência, especialmente em virtude para a ciência aplicada, este artigo foi
Mestrado Profissional em Ensino de Ciências de falta de conhecimento e de aspec- elaborado pelas mestrandas da discipli-
e Matemática tos religiosos. Esta resistência deve ser na Tópicos atuais em Biologia Molecu-
Centro de Ciências Exatas, da Natureza e
Tecnologia levada em conta uma vez que o estudo lar, Genética e Evolução do Mestrado
Profissional em Ensino de Ciências e
Matemática, que foram desafiadas,
a partir dos respectivos projetos de
pesquisa, a responder à questão: Qual
a importância do ensino de evolução
para o desenvolvimento científico? Os
argumentos desenvolvidos sugerem
que o ensino de evolução pode contri-
buir de forma direta com uma educa-
ção crítica e científica porque integra
diferentes áreas e estrutura uma visão
de mundo. Contudo, para enfrentar os
desafios impostos aos educadores da
área científica, sua formação docente
deve incorporar as discussões sobre
os conteúdos específicos e seus dile-
mas e conflitos com outras visões de
mundo, para que não seja cometido o
erro conceitual de confundir questões
teológicas e científicas, pois o conceito
teológico de criação não é um conceito
científico e os conhecimentos cientí-
ficos sobre evolução não respondem
aos questionamentos religiosos, cons-
tituindo-se, portanto em áreas distin-
tas da educação.
Figura 1: Nesta charge um gorila aos prantos reclama ao fundador da sociedade de
prevenção à crueldade com os animais, Sr. Bergh: “Este homem quer reivindicar o
meu pedigree. Ele diz ser um dos meus descendentes”. Admoestando Darwin, o Sr
Bergh diz: “ Ora Sr. Darwin, como você pode ofendê-lo desta maneira? ” [2]

14
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

Palavras-chave: ensino de evolução, 1. Introdução que indicam a aceitação da evolução,


diferentes visões de mundo, formação especialmente, os processos de mi-
A evolução é um conceito chave na croevolução [4]. Apesar de ainda ser
docente.
compreensão das ciências da vida, mas um tema controverso do século XXI,
para a maioria dos estudantes univer- o estudo da evolução pode trazer im-
Abstract: Evolution is a key concept sitários ela se constitui em conteúdos
in understanding of life sciences and portantes subsídios para o desenvolvi-
que foram abordados apenas durante mento tecnológico inserido no desafio
it central idea is the mutability of liv- o Ensino Médio, quando é o caso. Ape-
ing beings. But in the XXI century is da sustentabilidade.
sar de sua importância, a ideia central
still a lot of resistance, especially due de que os seres vivos sejam mutáveis Nesse sentido, o presente arti-
to lack of knowledge and religious as- desde a publicação do livro “A origem go, objetiva destacar a importância
pects. This resistance must be taken das espécies”, até os dias de hoje ainda do estudo da evolução para a ciência
into account as the study of evolu- encontra muita resistência [1]. aplicada, especialmente no que tange
tion can contribute significantly to the à natureza mutável dos seres vivos, sua
A figura 1 mostra uma das mui- interdependência e relações com o am-
technological development inserted in
tas charges pejorativas sobre as ideias biente.
the sustainability challenge. In order
evolutivas de Darwin publicada em
to highlight the importance of study-
jornais ingleses após a publicação do
ing the evolution of applied science, 2. Estruturação do artigo
livro “A origem das espécies” em 24 de
this article was prepared by Masters
novembro de 1859 [2]. A não aceita- Este artigo apresentará argumen-
students of the discipline Tópicos at-
ção deste fato pode ser atribuída a três tos em favor do ensino de evolução.
uais em Biologia Molecular, Genética
fatores: falta de conhecimento sobre a Para tanto, as mestrandas da disciplina
e Evolução in the Master Professional
natureza da ciência; falta de conheci- Tópicos atuais em Biologia Molecu-
in Science and Mathematics Teaching,
mento sobre evolução; aspectos reli- lar, Genética e Evolução do Mestrado
which were challenged, from their re-
giosos. No caso das religiões há mui- Profissional em Ensino de Ciências e
search projects, to answer the ques-
tas variações desde aquelas que ainda Matemática foram desafiadas a res-
tion: How important is the teaching of
defendem que a Terra seja plana, ou ponder à questão: Qual a importância
evolution to scientific development?
os que negam a Terra plana, mas de- do ensino de evolução para o desen-
Developed arguments suggest that the
fendem o Geocentrismo. Tais religiões volvimento científico? Foram também
teaching of evolution can contribute
tem muita abrangência de modo que, desafiadas a responder esta questão a
directly to a critical and scientific edu-
em pesquisa recente foi revelado que partir dos respectivos projetos de pes-
cation because it integrates different
um entre quatro americanos (25%) quisa. Assim, os quatro subtítulos dos
areas and structure a worldview. How-
acreditam que o Sol gira em torno da resultados se relacionam às temáticas
ever, to address the challenges facing
Terra [3]. Por outro lado, há os adeptos das pesquisas das seis mestrandas, que
educators in the scientific field, their
do “design inteligente” que aceitam as estão trabalhando com projetos sobre
teacher training should incorporate
descobertas científicas sobre evolu- corpo humano, sustentabilidade, feiras
discussions on the specific contents
ção, sem cair no extremo oposto ao de ciências e água.
and their dilemmas and conflicts with
criacionismo, ou seja, o materialismo
other worldviews, that is not made the Neste mestrado, o contexto dos
evolucionista.
conceptual mistake of confusing theo- projetos é o Ensino de Ciências, o qual
logical and scientific questions, as the Em estudo interdisciplinar realiza- deve incluir habilidades e competências
theological concept of creation is not a do na Universidade Estadual de Londri- para aprender a conhecer, aprender a
scientific concept and scientific knowl- na (UEL), no Paraná, em 2006 e 2007, fazer, aprender a viver com os outros
edge about evolution not respond to verificou-se que entre 920 estudantes e aprender a ser. Assim, cada autora
religious questions, constituting them- universitários de vários cursos como enfatizará como o ensino ou os conhe-
selves thus in different areas of educa- Ciências Biológicas, Filosofia, Física, cimentos sobre evolução contribuirão
tion. Geografia, História e Química, 8,9% para que tais habilidades e competên-
não aceitam a evolução e acreditam na cias sejam desenvolvidas com educan-
Keywords: teaching of evolution, versão da Bíblia para a criação, porém dos da educação básica. Ariane trata
different worldviews, teacher training 57,7% aceitam a evolução e acreditam da importância deste conhecimento
que isso não descarta a existência de para conscientização sobre hábitos
um Deus. No total, mais de 90% dos alimentares saudáveis. Luana desta-
entrevistados escolheram alternativas ca que as relações entre os processos

15
Artigos
Completos
gético e fácil de assimilar. Outro fator go, Segatto salienta que “a obesidade
evolutivos e os problemas ambientais decisivo para a sobrevivência da nossa é uma condição mal compreendida.
que enfrentamos pode levar os edu- espécie em detrimento de outros ho- Ela não pode ser explicada apenas
candos a questionar as relações da minídeos foi o domínio do fogo, pois os como fruto de escolhas pessoais ina-
espécie humano com os ambientes na- alimentos, quando cozidos, liberavam dequadas. Nem pela preguiça ou pela
turais e alertar para a necessidade de um maior valor calórico. Consequente- falta de amor-próprio. É resultado de
busca de alternativas sustentáveis para mente com um maior ganho calórico os uma intrincada combinação de fato-
nossa sobrevivência. Mariluza destaca homens puderam conquistar todas as res biológicos, psicológicos, sociais e
que o conhecimento dos processos in- partes do planeta. culturais”[6]. Conhecer as pesquisas e
vestigativos realizados por Charles Da- Com a evolução da cultura surgiu a teorias sobre a obesidade é de suma
rwin possibilita desafiar os educandos agricultura, o ser humano, então, passa importância, uma vez que o número
a realizarem pesquisas fundamentadas a produzir os produtos necessários a de pessoas acima do peso cresce em
pela metodologia científica. Eliete, Fa- sua subsistência. “O invento da agricul- países ricos e pobres. O autor ainda
biana e Luciana partem das teorias de tura, entre 10 e 15 mil anos atrás, foi ressalva que o Brasil vive um paradoxo,
origem da vida e seguem pela evolução um marco histórico na evolução do ho- pois em 8% dos lares, simultaneamen-
humana, mostrando que a água per- mem. Momento que o homem deixa te, moram algumas pessoas obesas e
meia todos os processos evolutivos, de ser nômade passando a ser seden- outras desnutridas.
bem como é fundamental para a so- tário. ”[5]. Com a Revolução Industrial, Vive-se uma realidade preocupan-
brevivência humana, buscando sensibi- os espaços utilizados para a agricultura te, pois quando uma população sofre
lizar os educandos para a importância perderam para a urbanização e come- grave desnutrição, uma grande parce-
da preservação dos recursos hídricos. çou a ocorrer a escassez de alimento, la dos indivíduos morre. Além disso,
As discussões e conclusões foram surgindo, assim, a indústria dos alimen- os estudos evolutivos sugerem que a
escritas a “sete mãos”, retomando a tos, que ampliou a sua disponibilidade humanidade passou por vários perí-
essência de cada uma das reflexões in- de forma marcante, a partir do início odos de fome, assim, somos os des-
dividuais e sugerindo alternativas para do século XIX. Assim, a maior dispo- cendentes daqueles que tinham orga-
que o ensino de evolução não seja ex- nibilidade, aliada ao sedentarismo e às nismos capazes de estocar o máximo
cluído da educação básica, nem gere mudanças de comportamento, mudou de energia. Quando uma criança sofre
conflitos com diferentes áreas, tais não somente o perfil alimentar da nos- desnutrição ainda no útero da mãe ou
como o ensino religioso. sa espécie, mas também a sua saúde. nos primeiros anos de vida, é bastante
Neste contexto, o estudo da evo- provável que se torne obesa no futuro.
lução tem demonstrado que as alte- Por tais motivos, num projeto educati-
3. Resultados vo, no qual um dos focos é a melhoria
rações na cultura alimentar humana
3.1 Alimentação: Evolução ou sempre redundaram no desapareci- da saúde humana, o estudo da evolu-
Extinção da Espécie Humana? mento de grupos humanos que não se ção pode ressaltar a importância da
adaptaram. Na atualidade, há pessoas busca de alternativas tecnológicas e
O ato de “comer” perpassa sim- comportamentais, que indiquem ou-
que não são afetadas pelos alimentos
plesmente o ato de suprir energeti- tros caminhos culturais ao ser humano,
hipercalóricos e pelo sedentarismo,
camente o corpo. Comer ao longo da visando sua própria sobrevivência en-
permanecendo magras e saudáveis,
evolução do homem sempre represen- quanto espécie.
porém as pessoas não resistentes que
tou um ato simbólico cultural, um mo-
estão se tornando obesas, estão mor-
mento de aumentar os laços familiares
e sociais. Vários são os estudos reali-
rendo antes e, talvez, sejam eliminadas 3.2 O ensino da evolução e o
da população. Haverá somente este desafio da sustentabilidade
zados, em diferentes países, que mos-
caminho?
tram que o hábito alimentar de todos O ensino de Evolução Biológica
os ancestrais do Homo sapiens passa- Uma pesquisa divulgada pela Re-
é considerado um eixo integrador de
ram por uma mudança lenta e gradual. vista Época [6], alerta para a Síndrome
conteúdos da área biológica, tornando-
Por muitos séculos a alimentação se Metabólica, onde “uma pessoa pode
-se um componente considerável dos
dava basicamente pela coleta de vege- ser muito gorda, mas ter genes que
currículos de Biologia do Ensino Mé-
tais como folhas, raízes, tubérculos. De não favorecem a elevação dos níveis
dio. As Orientações Curriculares para
coletores, passaram a ser caçadores, de colesterol e triglicérides ou magra
o Ensino Médio - OCEM [7] sugerem
sendo a caça um recurso mais ener- e pode ter os genes que fazem esses
que os conteúdos de Biologia sejam
níveis aumentarem muito”. Nesse arti-

16
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

abordados sob o enfoque ecológico- Ao compreender que a evolução curiosidade. Estas devem estar devi-
-evolutivo. As OCEM salientam ainda biológica é um processo lento, depen- damente anotadas para então serem
que o tema origem e evolução da vida dente de um ambiente e da interação investigadas.
sejam tratados ao longo de todos os constante dos seres vivos que nele Quanto maior forem as evidências
conteúdos de Biologia, não represen- habitam e, além disso, que requer um encontradas, maior será a “certeza” que
tando uma diluição do tema, mas sim longo tempo para se estabelecer é suas ideias ou então “teorias”, são váli-
uma articulação com outras áreas. possível analisar com maior criticidade das e dignas de um aprofundamento
A teoria da evolução foi também que também somos o resultado deste maior. Teorias científicas não nascem
fundamental para a consolidação da processo. Desse modo, como qualquer prontas, cabe aos cientistas e pesqui-
Biologia enquanto ciência [8], pois ao outra espécie viva precisamos nos sadores aprofundá-las e reformulá-las.
postular que os seres vivos são relacio- adaptar às mudanças ambientais, mas Teorias são ideias que tentam explicar
nados entre si por provirem de um an- não há garantia de sucesso e, como já e interpretar os fatos, são modelos de
cestral comum, áreas que antes eram ocorreu com inúmeras outras, pode- como o mundo funciona. Segundo Karl
consideradas independentes passaram mos nos extinguir para sempre. Este Popper (1902-1994), “as teorias são re-
a integrar a Biologia como forma de ex- conhecimento pode contribuir para a des lançadas para capturar aquilo que
plicar e compreender a diversidade de percepção de que a espécie humana denominamos o ‘mundo’: para racio-
espécies e as relações de parentesco se encontra numa encruzilhada que nalizá-lo, explicá-lo, dominá-lo. Nossos
entre elas. Assim, a evolução funcio- pode levá-la ao colapso ou à sustenta- esforços são no sentido de tornar as
na como eixo articulador das subáreas bilidade, dependendo de suas escolhas malhas de rede cada vez mais estrei-
que compõem a ciência de referência, e atitudes. tas” [11].
como Zoologia, Citologia e Botânica Todas as perguntas em ciências,
[9], e contribui para a compreensão de 3.3 A importância do ensino de observações, experimentações, inter-
diversas disciplinas biológicas, como evolução para mostras cientificas e pretações de resultados são possíveis
a Biologia Molecular, Fisiologia e Eco- tecnológicas. e tem sentido graças às teorias. Sem a
logia [10]. Ao aprofundarmos este as- teoria da evolução, por exemplo, não
pecto, podemos fazer uma investiga- Uma mostra científica e tecnoló-
teríamos como explicar a diversidade
ção sobre como o estudo da evolução gica tem como objetivos levar os edu-
do mundo natural, numa visão cien-
pode trazer importantes subsídios para candos a desenvolver projetos científi-
tífica e não criacionista. Porém, para
o desenvolvimento tecnológico, aten- cos, proporcionando a investigação, a
chegarmos a uma teoria é indispensá-
dendo ao desafio da sustentabilidade. observação, os registros de materiais
vel que o cientista ou pesquisador seja
coletados, experimentações e elabora-
É de extrema importância que o observador, tenha registros de todas as
ção de conclusões referentes ao tema
professor consiga relacionar os con- evidencias encontradas e investigadas,
pesquisado. Neste contexto, a história
teúdos sobre evolução com os fatos compartilhe suas descobertas para
dos processos investigativos realizados
reais que vivenciamos hoje, mas esta que outros possam também analisar,
pelos evolucionistas pode servir de pa-
não é uma tarefa fácil. Ao estabelecer criticar ou comprovar.
râmetro atitudinal e procedimental.
relações entre os processos evolutivos O naturalista e evolucionista Char-
e os problemas ambientais que enfren- Darwin sugere pela primeira vez,
les Darwin, durante suas viagens a bor-
tamos, é possível entender mais sobre com um esboço de um esquema em
do do Beagle, por exemplo, fez vários
a interação da espécie humana com os seu primeiro caderno de anotações a
registros descritivos e gráficos sobre
ecossistemas naturais e sua capacidade “diversificação dos seres vivos”, mar-
suas observações e as enviava para ou-
de transformar o ecossistema planetá- cando um momento ímpar no processo
tros especialistas, também naturalistas,
rio. Uma abordagem interessante seria científico: o nascimento de uma teoria.
solicitando aconselhamento e opiniões
fazer com que os educandos relacio- Ele passou as duas décadas seguintes
[12]. Darwin costumava apresentar
nem as transformações atuais com os reunindo evidências que sustentassem
suas descobertas, ideias e argumen-
vários eventos de extinção em massa e explicassem sua recente descoberta
tos como hipóteses, depois procurava
em decorrência de alterações ambien- [11]. Neste modelo os estudantes po-
maneiras de testá-las, a fim de verificar
tais drásticas, levando-os a questionar dem se espelhar para dar início às suas
se elas podiam ser confirmadas ou não
a interação da espécie humana com os próprias investigações científicas e tec-
[12]. Esta postura científica foi crucial,
ecossistemas naturais e sua capacidade nológicas. A observação de um fato,
uma vez que suas ideias poderiam der-
de transformá-los de acordo com sua por mais simples que seja, pode gerar
rubar os principais pilares da ciência de
vontade, inteligência ou ambição. diversos pontos de vista, discussões e
seu tempo e isso não poderia ser feito

17
Artigos
Completos
origem aos coacervados, que teriam tecnológicas, a humanidade deixou de
de forma leviana. Assim, ao estudar a possibilitado a primeira forma de vida utilizar métodos simples, como carre-
história de Charles Darwin como um no planeta. Assim, os estudos evoluti- gar baldes com água para abastecer
pesquisador perspicaz, eficiente e res- vos indicam com clareza que nosso pla- suas casas e passou a usufruir de sis-
ponsável, é possível “descobrir” que neta não teria se transformado em um temas de abastecimento canalizado,
durante qualquer investigação cientí- ambiente apropriado para a vida sem a que garantem o acesso a água que se
fica e tecnológica, as hipóteses serão água. Desde a sua origem, os elemen- torna potável ao passar pelas etapas
norteadoras para que se chegue ao tos hidrogênio e oxigênio se combina- de purificação nas estações de trata-
veredito inicial, serão o guia de todos ram para dar origem ao elemento-cha- mento. Contudo, em muitos locais do
os testes e experimentos a serem reali- ve da existência da vida. planeta Terra a tecnologia não tem sido
zados. Somente dessa forma é possível O que sabemos é que mesmo com suficiente para evitar ou amenizar a es-
abandonar o conhecimento advindo a evolução dos organismos durante cassez da água provocada pela ação do
do senso comum, onde o empirismo milhões de anos, a água continua sen- homem, por fenômenos climáticos e
ingênuo predomina, e construir o co- do um constituinte essencial para a desequilíbrios ambientais.
nhecimento em bases científicas, onde manutenção e sobrevivência das dife- O acesso a água potável ou pu-
o empirismo consciente e crítico per- rentes espécies de seres vivos e está rificada é uma necessidade que tem
mite a descoberta e possível aplicação presente em todas as formas de vida acompanhado as diferentes civiliza-
tecnológica das ciências naturais. conhecidas. Ou seja, ela é um recurso ções desde as épocas mais remotas.
renovável que faz parte da evolução Os povos primitivos procuravam ha-
3.4 O ensino de evolução e das diferentes civilizações, pois além de bitar locais próximos a uma fonte de
a sensibilização para o uso garantir a vida e a sobrevivência, pos- abastecimento de água, para garantir
sui significados entre os mais variados a própria sobrevivência e também de
sustentável dos recursos hídricos.
costumes e crenças. As significações seus rebanhos.
A criação do mundo e a origem da simbólicas da água estão presentes em Os estudos evolutivos e antropo-
vida são assuntos que geram curiosida- todas as culturas desde as mais antigas lógicos evidenciam que a presença ou
de e controvérsia entre as pessoas. A tradições, permeadas de conteúdos ausência de água escreve a história, cria
origem da vida ainda é uma questão em mágicos. Através de mitos e religiões, culturas e hábitos, determina a ocupa-
aberto. A formação da crosta terrestre, estas alegorias sobre a água eram re- ção de territórios, vence batalhas, ex-
segundo estudos geológicos, ocorreu lacionadas com o símbolo e a origem tingue e dá vida às espécies, determina
cerca de 4,4 bilhões de anos, ou seja, da vida, meio de purificação e cerne de o futuro de gerações. Em linhas gerais,
160 milhões de anos após a formação regeneração humana [14]. Com o cres- a educação para a sustentabilidade
do nosso planeta. Antes a Terra era cimento e desenvolvimento tecnológi- da água não pode, dessa forma, estar
provavelmente estéril, pois sua super- co da população humana, começaram centrada apenas nos usos que fazemos
fície era formada por rochas em fusão. a surgir os problemas, não só relativos dela, mas na visão de que ela é um bem
No entanto, sabemos que há cerca de à quantidade de água disponível, como que pertence a um sistema maior, inte-
3,5 bilhões de anos, já havia na Terra também à sua qualidade. Assim, os re- grado, que é um ciclo dinâmico sujeito
Primitiva atividade de organismos uni- cursos hídricos passaram a ser valori- às interferências humanas.
celulares, as cianobactérias [13]. zados não só pela sua capacidade de
Compreender as propriedades físi-
Em 1924, Alexander Oparin su- satisfazer às necessidades básicas, mas
co-químicas da água, o ciclo hidrológi-
geriu, a partir de experimentos, que a também pela qualidade que este bem
co, a dinâmica fluvial, os aquíferos, bem
primeira forma de vida muito provavel- apresenta em relação aos parâmetros
como os riscos geológicos associados
mente tenha surgido na água, especifi- organolépticos.
aos processos naturais é essencial para
camente no oceano primitivo. Oparin Ao longo de milhares de anos, nos- que possamos entender a dinâmica
acreditava que na atmosfera primitiva sa espécie ocupou territórios, cresceu da hidrosfera e como esta se refletiu
aconteciam fortes tempestades com e se desenvolveu com base nesse bem e pode ainda interferir nos processos
descargas elétricas que solidificavam a natural tão importante e valioso. No evolutivos e sobrevivência das espé-
crosta terrestre. Com essas descargas, entanto, ao longo da história, modifi- cies na Terra.
gases como metano, amônia, hidrogê- cações aconteceram na relação do ho-
Desta forma, o tema água deve
nio e vapor de água reagiam entre si, mem com a natureza e, por consequ-
estar presente no contexto educacio-
formando grandes moléculas que pre- ência, na sua relação com a água. Com
nal, tanto na educação formal como na
cipitavam no oceano primitivo e deram o passar do tempo e as descobertas

18
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

não-formal, com enfoque na ética e na 4. Discussão e conclusões e atitudes indispensáveis à vida diária
formação do cidadão consciente do lu- dos cidadãos. Para isso, é necessá-
gar que ocupa no mundo, num mundo A importância das aulas de Ciên- rio que se promova nas escolas, uma
real, dinâmico, que parte do local e se cias é entendida quando se analisa a cultura metodológica voltada a práti-
relaciona com o global, onde todas as relevância do conhecimento científico cas que permitam o desenvolvimento
coisas podem tomar parte de um pro- para compreensão do mundo nos tem- dessas habilidades nos estudantes. O
cesso maior, de um sistema integrado. pos atuais, a fim de garantir a manu- ensino de evolução pode contribuir de
Assim, segundo Compiani e Carneiro tenção da vida no planeta Terra, bem forma direta com estes propósitos por
[15], é possível sair do paradigma da como, do ser humano com saúde e ser uma Ciência que integra diferentes
causalidade tão enraizado no Ensino qualidade de vida. Em outras palavras, áreas e estrutura uma visão de mun-
de Ciências e praticar um ensino mais a “educação científica” por meio do do. Contudo, apesar da importância da
contextualizado, situar espaço-tempo- ensino de Ciências pode nos ensinar a evolução biológica para a constituição
ralmente os fenômenos, ou seja, levar conviver de forma sustentável neste e da Biologia enquanto Ciência, seu en-
em conta seu aspecto histórico e assim com este planeta. sino na educação básica é permeado
compreender a complexidade do con- Segundo a Teoria da Aprendizagem por desafios. Nesse sentido, deve ser
texto e causalidade de um fenômeno. Significativa de Ausubel [17], quando destacada a importância de a forma-
Segundo o Biólogo evolucionista proporcionamos novas possibilidades ção docente incorporar discussões que
Ernest Mayr [16] a evolução é o con- de aprendizagem, devemos vinculá- envolvam as relações entre conteúdos
ceito mais importante de toda a Bio- -las aos conhecimentos anteriormente específicos e os dilemas e conflitos que
logia, pois demonstra como houve um adquiridos pelos educandos em sua a interação dos mesmos com outras vi-
crescimento e aperfeiçoamento das es- vivência, facilitando a compreensão sões de mundo é capaz de trazer [20].
pécies, e que estas estão unidas a uma das novas informações, o que dá signi- A teoria da evolução, ao postular
única árvore genealógica. Baseando-se ficado real ao conhecimento adquirido, que os seres vivos são relacionados
nestes preceitos, promover a populari- tornando a aprendizagem significativa, entre si e provirem de um ancestral
zação da relação da água com a origem através do crescimento e modificação comum, integrou áreas que antes eram
da vida e a evolução dos seres vivos, do conceito subsunçor. Assim, para consideradas independentes, as quais
permite uma importante reflexão so- este autor, os conhecimentos prévios passaram a explicar e compreender a
bre os estudos que sugerem que a vida dos educandos devem ser valorizados, diversidade de espécies e as relações
teve início no ambiente marinho (onde para que possam construir estruturas de parentesco entre elas. Por tais moti-
há a maior biodiversidade do planeta e mentais que permitam descobrir e re- vos, no âmbito do sistema educacional
é base da maioria das teias e cadeias descobrir outros conhecimentos, ca- brasileiro, a evolução biológica é um
alimentares, seja diretamente como racterizando, assim, uma aprendizagem dos temas articuladores dos currícu-
fonte de alimentos ou indiretamente prazerosa e eficaz. Neste sentido, atra- los das disciplinas escolares Ciências
como produtor de O2 atmosférico). vés da promoção da investigação cien- e Biologia, o que pode ser observado
tífica, pode-se abandonar a prática da nos principais documentos oficiais do
Assim, o estudo da evolução pode transmissão de conteúdos e possibilitar
contribuir para sensibilizar os educan- governo, que versam sobre a educação
ao educando sentir, refletir, questionar básica. Entretanto, apesar da impor-
dos em relação à importância da água e conduzir a construção do seu conhe-
para vida e a necessidade da conser- tância da evolução para a Biologia, nos
cimento, por meio do confronto entre diferentes níveis educacionais, diversos
vação dos recursos hídricos. Ou seja, o senso comum e as teorias científicas.
se os educandos não compreenderem estudos apontam que seu ensino nas
Tal proposta pedagógica coaduna com escolas ainda não é satisfatório, sendo
por si mesmos o significado da água a Organização das Nações Unidas para
para a vida, de nada valerão todas as um dos temas mais complexos e polê-
a Educação, Ciência e Cultura - UNES- micos trabalhados em sala de aula. A
informações científicas que receberem. CO [18] a qual declara que a educação
Refletir sobre as suas origens é essen- persistência de algumas ideias errôneas
científica deve ser trabalhada em todos sobre o processo evolutivo, mesmo em
cial se desejamos buscar soluções para os níveis de escolaridade, sendo requi-
a continuidade da vida! profissionais experientes que afirmam
sito essencial para a democracia do co- terem travado contato com o tema em
nhecimento. várias disciplinas durante a graduação,
Reis [19] orienta que a educação revela as dificuldades teóricas ligadas à
científica deve proporcionar conhe- apropriação de um tema tão complexo,
cimentos e desenvolver capacidades com ideias recorrentes que resistem à

19
Artigos
Completos
probabilísticas, seleção natural ou o 5. Referências
alteração. Tal situação permite ainda que a teoria científica mais recente su- [1] LIGNANI, L. B.; AZEVEDO, M. J. C. Aceitar o fato
inferir o quanto seu aprendizado pode gerir de melhor. Já a Teologia pergunta e questionar as teorias: desafios para o ensino da
evolução. Ciência Hoje, São Paulo, v. 55, n. 321, p.28-
se mostrar problemático para educan- por aquilo que Tomás de Aquino chama 31, julho, 2015.
dos no ensino básico [20]. de causas “primárias”: “Qual é a fonte
[2] THE GUARDIAN. The best Darwinian sites on the
extramundana do ser?”, “Qual é o sig-
A raiz desta problemática do en- web. Science, 09/02/2008. Disponível em: https://
nificado e o desígnio da criação?”. Nem www.theguardian.com/science/2008/feb/09/darwin.
sino de evolução reside ainda na di- websites acesso em 03/10/2016
os registros fósseis, nem a seleção na-
cotomia entre ciência e religião, que
tural respondem a tais questões. E não [3] WILLEMART, R. H.; MARQUES, A. C. Por que é tão
permeia os atores sociais e, por conse- difícil aceitar a evolução? Ciência Hoje, São Paulo, v.
porque sejam ferramentas defeituosas,
guinte, a Escola. No século XXI esta di- 53, n.315, p. 24-27, junho, 2014.
mas porque não são as ferramentas
cotomia ainda permanece bem vívida, [4] SOUZA, R.F.; CARVALHO, M.; MATSUO, T.; ZAIA,
adequadas para esta tarefa. Confun- D.A.M. Evolucionismo X Criacionismo: aceitação e
pois se de um lado noticiou-se que o
dir questões teológicas e científicas é rejeição no século 21. Ciência Hoje, São Paulo, v.43,
Papa Francisco I declarou que as te- n.256, p. 37-41, Janeiro/Fevereiro, 2009.
cometer um erro de categoria, pois o
orias da Evolução e do Big Bang são [5] SANTOS, A. B. D.; NASCIMENTO, F.S.D. Transfor-
conceito teológico de criação não é um
reais e Deus não é “um mágico com mações ocorridas ao longo da evolução da atividade
conceito científico. São os ideólogos agrícola: algumas considerações. Centro Científico
uma varinha” [21], por outro, também
contemporâneos do cientificismo os Conhecer - ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Goiânia, vol.5,
circulam notícias de que deputados da n.8, 2009. Disponível em: http://www.conhecer.org.
que “não enxergam o xis da questão”
Câmara Federal e do Rio de Janeiro br/enciclop/2009B/transformacoes.pdf acesso em
no tocante à evolução. A evolução não 01/11/2015
querem que o MEC proíba o ensino de
refuta Deus, assim como o eletromag- [6] SEGATTO, C. Os magros são mais saudáveis?
evolução nos cursos de Ciências Bioló-
netismo não refuta a consciência mo- Nem sempre. As surpreendentes descobertas
gicas [22]. sobre as razões e consequências da obesidade que
ral. E o Papa Francisco não é o primeiro avança no Brasil e no mundo. Revista Época. São
Uma interessante ultrapassagem a reconhecer isso. Paulo. Fevereiro de 2009, Disponível em: http://
dialética desta questão, que poderia revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,E
Assim sendo, não se pode querer RT62212-15257-62212-3934,00.html acesso em
contribuir para um ensino de qualida- 04/11/2015.
transformar o Criacionismo em conhe-
de e desenvolver a educação científica,
cimento científico, pois faz parte do [7] BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria Na-
como subsidiária da tecnologia parti- cional de Educação Básica. Orientações Curriculares
Ensino Religioso que deve tratar das
dária da sustentabilidade ambiental é para o Ensino Médio. Brasília: MEC/SEF, volume 2, p.
questões teológicas, nem se deve pri- 135, 2006.
dada por Anthony Mills em publicação
var o Ensino de Evolução aos estudan-
on-line da organização Aleteia, que [8] RIDLEY, M. Evolução. 3. ed. Porto Alegre: Artmed,
tes, uma vez que ela tem bases cien- p. 752, 2006.
se constitui como uma rede sobre fé
tíficas, ou seja, é testável, possui uma [9] SELLES, S. E., FERREIRA, M. S. Disciplina Escolar
Cristã que encoraja o debate e diálogo
história e uma metodologia investigati- Biologia: entre a retórica unificadora e as questões
com todos [23]. Nesta publicação, Mills sociais. In: MARANDINO, M.; SELLES, S. E.; FERREI-
va, cujo conhecimento contribui para a RA, M. S.; AMORIM, A. C. (Org.) Ensino de Biologia:
destaca que o problema não é Darwin,
construção do pensamento científico. conhecimentos e valores em disputa. Niterói: EDUFF,
mas a noção moderna de que a teolo- 2005.
gia só pode discutir o que a ciência não [10] FUTUYMA, D. J. Biologia Evolutiva. 3.ed. Ribeirão
consegue explicar, pois quando alguém Preto: Ed. FUNPEC, p. 829, 2009.
professa a sua religião a partir das la- [11] AMABIS, J.M. BITNER-MATHÉ, B.C. Darwin e a
cunas do conhecimento científico, ine- teoria da evolução. Ciência Hoje, São Paulo, v. 44, n.
261, p.34-39, julho, 2009.
vitavelmente, será esmagado quando
essas lacunas se fecharem. Sugere que [12] WAIZBORT, RICARDO. Bisbilhotando a caixa pos-
tal de Darwin. Ciência Hoje das Crianças, São Paulo,
é melhor seguir Tomás de Aquino, que ano 21, n. 194, p.12-15, setembro, 2008.
fez uma distinção de natureza entre [13] PACHECO, J. A. F. Quando a vida surgiu no
questões teológicas e natural-cientí- universo? Ciência Hoje On-line, Publicado em
ficas, já que tanto a Teologia quanto 11/09/2014 | atualizado em 11/09/2014, dispo-
nível em: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-
a Biologia Moderna perguntam: “Por -ch/2014/318/quando-a-vida-surgiu-no-universo
que há seres humanos?”. Mas elas en- acesso em 25/11/2015.

tendem a questão de forma diferente. [14] CHEVALIER, J. GHEERBRANT, A. Dicionário de


símbolos, mitos, sonhos, costumes, gestos, formas,
Para a primeira, a pergunta significa: figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio,
“Como e quando os seres humanos 1988, p. 996.
entraram em cena?”. As respostas para [15] - COMPIANI, M.; CARNEIRO, C. R. Os papéis
essas perguntas podem invocar leis didáticos das excursões geológicas.

20
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

Enseñanza de las Ciencias de La Tierra, v.1.2, p.90-8,


1993.

[16] FONSECA, A. T. Resenha: MAYR, Ernst. Biologia,


ciência única: reflexões sobre a autonomia de
uma disciplina científica. Varia hist. vol.22 no.36
Belo Horizonte July/Dec. 2006. Versão on-line,
disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pi-
d=S0104-87752006000200019&script=sci_arttext
acesso em 15/11/2015.

[17] AUSUBEL, D. P. A Teoria da Aprendizagem


Significativa. Rev. PEC, Curitiba. V.2, n.1, p.37-42,
jul.2001-jul.2002. Disponível em: http://portaldopro-
fessor.mec.gov.br acesso em 03/05/2015.

[18] UNESCO. A reforma curricular e a organização


do ensino médio. 2000. Disponível em: http://desen-
volve.org/biblioteca/b1reformanm.htm acesso em:
12/02/ 2015.

[19] REIS, P. Ciência e Educação: Que relação? Intera-


ções, n.3, p.160-187, 2006.

[20] SOUZA, E. C. F.; DORVILLÉ, L. F. M. Ensino de


evolução biológica: concepções de professores protes-
tantes de ciências e biologia. Revista da SBEnBio, n.
7 outubros de 2014; V Enebio e II Erebio Regional 1I.
Disponível em: http://www.sbenbio.org.br/wordpress/
wp-content/uploads/2014/11/R0784-1.pdf acesso
em 25/11/2015.

[21] Hype Science. Ponto para a Igreja Católica: Papa


Francisco declara que teorias da Evolução e do Big
Bang são reais. Sem data de publicação. Disponível
em: http://hypescience.com/papa-francisco-evolucao-
-big-bang/ acesso em 25/11/2015.

[22] M.Portal. Projeto proíbe professores de falar


sobre política, teoria da evolução e gênero nas escolas.
Publicado em 7 de Setembro de 2015. Disponível
em: http://portalmetropole.com/2015/09/projeto-
-proibe-professores-de-falar-sobre-politica-teoria-
-da-evolucao-e-genero-nas-escolas.html acesso em
25/11/2015.

[23] MILLS, A. O papa acredita na evolução: Os ideó-


logos do cientificismo não enxergam o xis da questão
quando o assunto é a criação. Aleteia, publicado em
17 de junho de 2014, disponível em: http://pt.aleteia.
org/2014/06/17/o-papa-acredita-na-evolucao/
acesso em 25/11/2015.

21
Artigos
Completos
Eficiência energética
em sistema eletromotriz
de ventilação:
uma análise comparativa entre
motor de indução trifásico x motor de
imã permanente
Eng. Eduardo Thies
Engenheiro eletricista – Móveis Bertolini
Resumo: No Brasil, não só a deman- Abstract: This paper presents a meth-
Prof. Eng. Cícero Zanoni da por energia aumenta, mas existe odology for analysis, design and speci-
Prof. Do Curso de Engenharia Elétrica, um claro crescimento dos valores das fication of the energy efficiency of an
Universidade de Caxias do Sul/CARVI
tarifas médias aplicadas ao setor indus- industrial ventilation system employed
trial, limitando ainda mais a competi- in an industry of customized furniture.
tividade do setor secundário. Desta To analyze the energy performance
forma, mesmo em setores industriais of the end use was employed PDCA
em que a energia elétrica não se apre- methodology, described in ISO 5000,
senta como um item de custo elevado, in order to obtain indicators to direct
é esperado que aumentem também efforts to reduce electricity costs, fo-
as ações de racionalização do uso da cusing on exhaust systems. The results
energia. Nesta perspectiva, este traba- obtained with the combination of au-
lho apresenta um método de análise, tomatic dampers and change in greater
dimensionamento e especificação da efficiency motor speed with the ex-
eficiência energética de um sistema haust system were satisfactory, since
de ventilacão industrial empregado em the possibility of return on investment
uma indústria de móveis planejados. of time to be smaller than originally de-
Para análise do desempenho energé- signed.
tico de uso final foi empregada a me-
todologia PDCA, descrita pela Norma Keywords: energy efficiency, electric
ISO 50.001, com o objetivo de obter motor, exhaust systems,
indicadores para direcionar os esfor-
ços para reduzir custos com energia
elétrica, com foco nos sistemas de
exaustão. Os resultados obtidos com a
combinação dos dampers automáticos
e a variação de velocidade com motor
de maior rendimento no sistema de
exaustão foram considerados satisfa-
tórios, visto a possibilidade do tempo
de retorno de investimento ser menor
do que o inicialmente projetado.

Palavras-Chaves: eficiência energéti-


ca, motores, sistemas de exaustão.

22
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

1. Introdução mais a competitividade do setor secun- ma de diminuir as cargas instantâneas,


dário no Brasil. substituição de gerador de energia (ho-
O consumo de energia elétrica no rário de ponta), entre outros.
Brasil vem crescendo consideravel- Desta forma, mesmo em setores
mente. Isso se justifica em função do industriais onde a energia elétrica não No caso específico da indústria
crescimento econômico experimenta- se apresenta como um item de custo moveleira, onde foi realizado este es-
do nos últimos 6 anos e, conseqüente- elevado, é esperado que aumentem tudo e implantação das medidas de efi-
mente do aumento da distribuição da também as ações de racionalização do ciência energética motriz, o consumo
renda per capita da população brasilei- uso da energia no setor. médio mensal de energia é decorrente
ra. da distribuição de cargas alimentadas,
ilustrada na Figura 1.
Segundo dados preliminares do 2. Justificativa
Balanço Energético Nacional - BEN de Neste gráfico pode-se constatar
Entre os vários custos gerenciá- que as maiores parcelas de consu-
2012 (ano base 2011), o consumo fi- veis de uma empresa, a energia vem
nal de energia elétrica aumentou 2,6% mo estão nos sistemas motrizes (MIT
assumindo uma importância crescen- dos exaustores centrífugos e do com-
[1]. É um valor menor do que o cresci- te, motivada pela redução dos custos
mento apontado em 2010, onde esse pressor), sendo responsáveis por 50%
decorrentes do mercado competitivo, do total das cargas. Confrontando os
valor foi de 4,5%. No que diz respeito pelas incertezas das disponibilidades
ao consumo industrial de eletricidade, números nacionais com os do estu-
energéticas futuras e por restrições do de caso, considerando também os
os dados do BEN 2011 apontam que, ambientais [2].
aproximadamente, 60% da energia motores com potencias inferiores à 5
O elevado consumo apresenta- cv, comprova-se que este percentual
elétrica é utilizada apenas para funcio-
do pelos sistemas motrizes, os quais chega bem próximo aos 60% da média
namento de sistemas motrizes, o que
chegam a 28,5% do total do consumo nacional.
significa dizer que o maior consumo de
nacional [3], torna este uso final o prin-
eletricidade no setor industrial, deve-se
cipal foco de atuação de programas de
às aplicações que envolvem conversão
eficiência energética voltados ao setor
de energia elétrica em mecânica, re-
industrial. Esses gastos com energia
presentando um importante item nos
elétrica representam uma parcela sig-
custos de produção.
nificativa nos custos de produção, e
Segundo o Plano Nacional de consequentemente são fatores a con-
Energia (PNE 2030), divulgado pela siderar na otimização dos recursos.
Empresa de Planejamento Energético
O uso racional da energia elétrica
(EPE), nas próximas duas décadas o
pode ser enquadrado como uma das
consumo de energia por parte do setor Figura 01: Distribuição de cargas de energia elétri-
medidas de reduções de custos da em-
industrial brasileiro apresenta, mesmo ca em uma indústria
presa, visto que quando se faz neces-
que abaixo da média nacional, um cres-
sário aumentar a produção isto implica
cimento expressivo. Neste trabalho
em aumento de demanda e consumo
são apresentados possíveis cenários 3. Objetivos
de energia elétrica. Nem sempre esse
econômicos mundiais e nacionais sobre
aumento é planejado com a antece- Como estudo de caso, serão apli-
os quais foram traçadas tendências do
dência necessária a fim de prever um cados os conceitos básicos da Norma
crescimento da demanda de energia no
provisionamento anual completo, uma ISO 50.001 em uma indústria de mó-
Brasil, correlacionados com os dados
vez isto depende da demanda de con- veis planejados, descrevendo o pro-
apresentados. Em todos os cenários
sumo que o mercado impõe aos pro- cesso de análise e, eventual troca de
apresentados, o consumo energético
dutos. Nesse sentido, é comum haver equipamentos ou inserção de novas
industrial no Brasil apresenta forte ten-
um crescimento acima do esperado, e tecnologias que possibilitem menor
dência de crescimento – valores entre
para compensar isso é possível adotar consumo de energia, sem perder pro-
87,40% e 187,20% no período, depen-
medidas preventivas a fim de evitar in- dutividade ou afetar a qualidade dos
dendo do cenário apresentado. Não só
vestimentos em infra-estrutura fabril produtos manufaturados. Desta forma,
a demanda por energia aumenta, mas
que seriam necessários para cobrir es- pretende-se que estes procedimentos
existe um claro crescimento dos valo-
ses acréscimos de produção, tais como possam ser replicados em outros seto-
res das tarifas médias aplicadas ao se-
aumento da demanda contratada, cria- res industriais brasileiros.
tor industrial brasileiro, limitando ainda
ção de horários alternativos como for- Dentro do escopo deste trabalho,

23
Artigos
Completos
motores C.A. são basicamente os mes- 4.1.1 Motores de indução trifásicos
com propósito de gerenciamento do mos e obedecem às leis propostas por
O enrolamento do estator de uma
consumo de energia no ambiente in- Ampère e por Faraday (indução eletro-
máquina de indução é excitado com
dustrial, a aplicação dos conceitos bási- magnética) [5].
correntes alternadas, de forma que só o
cos da Norma ISO 50.001 servirá para Em aplicações industriais, o motor estator é ligado à rede de alimentação.
obter indicadores a fim de direcionar mais empregado é o motor de indução O rotor não é alimentado externamen-
os esforços para reduzir custos com trifásico (MIT). Este tipo de máquina te e as correntes que circulam nele, são
energia elétrica, com foco nos sistemas ganhou grande espaço em diversas induzidas eletromagneticamente pelo
de exaustão. Dado as suas parcelas de aplicações industriais devido à sua ro- estator [4], daí o seu nome de motor
contribuição significativas no soma- bustez, baixo custo, facilidade de trans- de indução. O motor de indução pode
tório das cargas consumidoras desta porte, limpeza e simplicidade de co- ser visto como um transformador [5]
unidade, o objetivo principal foi, atra- mando – com sua construção simples, generalizado em que a potência elé-
vés da interpretação dos indicadores, custo reduzido, grande versatilidade de trica é transformada entre o rotor e o
atuar na implementação ou substitui- adaptação às cargas dos mais diversos estator juntamente com uma mudança
ção tecnológica, diante das alternativas tipos e melhores rendimentos [4]. Seu de frequência e um fluxo de potência
propostas, valendo-se da dinâmica do estator é formado por chapas de aço mecânica.
ciclo PDCA. de alta qualidade e a superfície interna
Existem basicamente dois tipos de
tem ranhuras para acomodar um enro-
motor de indução, o de anéis - também
4. Fundamentação teórica lamento trifásico, cujos eixos dos faso-
chamado de rotor bobinado ou ainda
res de tensão estão defasados de 120
4.1 Motores Elétricos rotor enrolado [6] - e o do tipo ‘gaiola
graus elétricos.
de esquilo’, assim denominado primei-
Motor elétrico é a máquina desti- A Figura 2 ilustra as possibilidades ramente pelos americanos por ter sua
nada a transformar energia elétrica em de construção dos motores de corren- estrutura semelhante ao de uma gaiola
energia mecânica. Os motores elétri- te alternada. de esquilo - Squirrel Cage [4].
cos podem ser de motores de corrente O motor de indução do tipo gaiola
contínua (C.C) e motores de corrente de esquilo, amplamente usado, é com-
alternada (C.A.). Nos motores C.C. ou posto fundamentalmente por duas
C.A., a conversão eletromecânica de partes: rotor e estator. O enrolamen-
energia se processa através da intera- to de um motor de indução ao qual a
ção de campos magnéticos. Os prin- energia elétrica é conectada é distri-
cípios físicos básicos que explicam o buído ao redor do estator e produz
funcionamento dos motores C.C. e dos no entreferro um campo magnético
girante que roda em sincronismo com a
frequência da rede elétrica. Conforme
o campo magnético gira, o fluxo mag-
nético “corta” os condutores dos enro-
lamentos do rotor gerando uma tensão
elétrica nos mesmos e por consequên-
cia uma corrente nestes enrolamentos,
a qual produz um fluxo magnético que
se opõe ao criado no estator [7].
As correntes que circulam nas bar-
ras da gaiola de esquilo ou das bobinas
são induzidas pelo campo magnético
gerado no estator da máquina [6]. Os
enrolamentos são na realidade barras
sólidas de alumínio que são fundidas
nas ranhuras do rotor, e colocadas em
curto-circuito por anéis de cobre, ou
alumínio nos de tamanhos menores.
Figura 02: Tipos de motores elétricos de corrente alternada

24
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

Diferentemente de uma máquina sín-


crona, o rotor em si de uma máquina
de indução não gira em sincronismo;
há um ‘escorregamento’ do rotor em
relação ao fluxo síncrono da armadura,
dando origem às correntes induzidas
no rotor e, portanto, ao conjugado. Os
motores de indução operam em veloci-
dades inferiores à velocidade mecânica Figura 04: Evolução do rendimento dos motores
síncrona [5]. elétricos de indução. Fonte: WEG

energética dos motores elétricos de


4.2 Carregamento de motores de indução com rotor gaiola de esquilo,
indução determinando um rendimento nominal
Figura 03: Medição da corrente de trabalho de um
mínimo que compreende uma faixa de
Um fator determinante nas análises motor de indução 1 a 250 cv. Paralelo a isso, a Portaria nº
dos motores já instalados ou a serem 488, de 08 de dezembro de 2010, re-
dimensionados, é saber qual potência 4.3 Rendimento e perdas
visa os requisitos de avaliação da con-
de fato a aplicação exige, uma vez que O rendimento nominal dos moto- formidade para esses motores e em
o valor do rendimento em motores elé- res de indução trifásicos [4] define-se seu artigo 4º estabelece [8] “[...] que a
tricos varia exponencialmente de acor- como sendo o “[...] percentual da po- partir de 12 (doze) meses, contados da
do com a mesma. A essa variação de tência de entrada convertida em po- data de publicação desta Portaria, os
potência é dado o nome de percentual tência mecânica”. O motor obtém o motores elétricos de indução trifásicos
de carga dos motores [4], ou o quanto maior rendimento dentro da faixa de rotor gaiola de esquilo, do tipo aberto,
da potência nominal é realmente soli- operação que vai de 80% a 110% da deverão ser fabricados e importados
citada pelo processo. Assim, conhecer carga nominal. Desta forma, sempre somente em conformidade com os Re-
o rendimento torna-se indispensável que possível, deve-se evitar deixar o quisitos ora aprovados”.
para a análise do consumo de energia motor funcionando sob carga muito
elétrica, pois a potência nominal dos inferior à sua potência nominal, uma
motores elétricos refere-se à potência 4.4 Motores de imãs permanentes
vez que isto acarreta baixo rendimento
mecânica fornecida na ponta do eixo e um baixo fator de potência, ambos A partir da década de 80, com o
para movimentar a carga. indesejados. advento dos ímãs de Neodímio Ferro
O método mais simples e por isso Boro (NdFeB), de elevada energia, hou-
mais usual, para analisar a carga de ve um aumento no número de aplica-
motores é por meio da corrente de tra- ções industriais [4], como por exemplo
balho, comparando-a com os valores as aplicações usando os motores sín-
especificados em função do carrega- Onde: cronos de imãs permanentes. Motores
mento pelos fabricantes, e descrito na síncronos a ímãs permanentes (Per-
η - rendimento do motor [%]
placa de identificação de cada motor. manent Magnet Synchronous Motor
Pm – potencia mecânica útil no eixo [W]
Essa medição é feita com multímetro -PMSM) alimentados por inversor de
alicate diretamente na caixa de ligação Pe – potencia elétrica de entrada eixo [W] frequência podem ser utilizados na in-
do motor ou na saída do dispositivo de Pp – somatório das perdas [W] dústria, onde a variação de velocidade
manobra e/ou controle deste, como na O aumento percentual no rendi- com torque constante e alto desem-
Figura 3. mento dos motores trifásicos de indu- penho são requeridos, como em com-
ção (gaiola de esquilo) no decorrer dos pressores, ventiladores, etc. Os moto-
anos foi fundamental para o início dos res da linha “Wmagnet” do fabricante
trabalhos de eficientização energética WEG, possuem ímãs permanentes de
na indústria. A evolução tecnológica é terras raras de NdFeB inseridos no ro-
ilustrada na Figura 4. tor, ao invés da convencional gaiola de
A Portaria Interministerial nº 533, esquilo, eliminando assim a perda por
de 08 de dezembro de 2005, estabe- efeito joule no rotor [9], que responde
lece os níveis mínimos de eficiência por uma parcela significativa das per-

25
Artigos
Completos
por desconhecimento ou proposital-
das totais. Com isto, são obtidos níveis mente, sob alegação de se manter uma
de rendimento muito superiores aos potência de reserva que iria aumentar
mínimos exigidos pela norma NBR- a confiabilidade do acionamento.
7094. No que diz respeito aos sistemas
O motor de imãs permanentes motrizes sobredimensionados, as ra-
possui enrolamento de estator trifási- zões para tal seleção envolvem:
co, similar ao motor de indução, e no • Desconhecimento das característi-
rotor são montados os imãs permanen- cas da própria carga e de métodos
tes, conforme a Figura 5, ao invés da para determinação destas;
“gaiola de esquilo”. • Aplicação de sucessivos fatores
Figura 06: Motor de imãs permanentes e inversor
Estes motores não são projetados de frequência: conjunto Wmagnet (fabricante de segurança em várias etapas do
para serem ligados diretamente à rede WEG).
projeto;
elétrica, apresentando uma configura- • Expectativa de aumento de carre-
ção única de seis polos e frequência gamento;
elétrica variável. Os motores de 1800
5. Sistemas motrizes
• Desconhecimento de motores
rpm e 3600 rpm, apresentam, respec- A especificação e dimensionamen-
com fator de serviço;
tivamente, frequências de 90 Hz e 180 to de um sistema motriz envolvem a
Hz, devendo ser acionados através de seleção de um motor elétrico, o acopla- • Permitir margem de segurança em
inversor de frequência conforme a Fi- mento motor-carga, seu acionamento processos vitais;
gura 6. Segundo a WEG Equipamentos e a forma de transmissão de energia • Substituição de motores danifi-
Elétricos S/A [10]: para a carga. Este sistema é normal- cados por outros com potências
Os imãs permanentes eliminam a necessi- mente determinado pelo critério do maiores, devido à inexistência de
dade de indução de corrente no rotor (corrente menor custo inicial, não considerando motores de reserva iguais;
de magnetização), portanto, sem carga o motor
apresenta um valor de corrente muito baixo,
os custos de operação do equipamen- • Redução do nível de produção;
apenas para suprir as perdas. Além da corrente to durante sua vida útil. Além disso, há
Por todos esses motivos, é im-
de magnetização, o motor Wmagnet também uma tendência generalizada de se es-
não necessita da compensação de escorrega-
prescindível conhecer bem as carac-
pecificarem motores com potência sig-
mento, pois a velocidade do eixo não varia com terísticas da carga a ser acionada, para
nificativamente superior à necessária,
a carga. depois sim, verificar se o sistema pode
ser objeto de eficientização energética.
O sistema motriz, como dito anterior-
mente compreende, além do motor
elétrico, o seu acionamento envolven-
do dispositivos de proteção, comando
e controle, transmissão mecânica e
a própria máquina acionada. Assim, o
motor elétrico selecionado deve ter
condições de acionar a máquina dentro
das exigências de conjugado, potência
e velocidade, atendendo ainda às ca-
racterísticas de confiabilidade, segu-
rança, eficiência energética e vida útil
elevada, entre outras.
Quando uma carga mecânica ne-
cessita de determinada potência, afir-
ma-se que essa carga requer um de-
terminado valor de conjugado a uma
dada velocidade de rotação. Assim,
matematicamente, existem inúmeras
combinações deω (velocidade mecâni-
Figura 05: Detalhes do motor de imã permanente WMagnet. Fonte: WEG

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Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

ca, em rad/s) e de Tmec (torque mecâ- dá-se em conjunto com um redutor, o cas (componentes de frequência
nico, em N.m) de modo a resultar no qual faz o acoplamento motor-carga, acima da frequência fundamental).
mesmo valor de Pm (potencia mecâ- impondo também determinado torque. Dependendo da frequência de
nica, em watt). A curva de conjugado Controlar a velocidade de um chaveamento e de particularida-
em função da rotação apresenta tal motor acionado por um inversor de des do controle, o motor poderá
dependência, sendo, portanto, uma frequência significa simplesmente pro- apresentar aumento de perdas e
característica fundamental para o pro- gramar ou colocar uma referência de temperatura, aumento dos níveis
cesso de seleção do motor adequado velocidade numa entrada do inversor, de vibração e ruído e perda de
ao acionamento, visando um funciona- sem ter informação real se essa velo- rendimento. Não existe normaliza-
mento estável, econômico e satisfató- cidade programada está presente no ção quanto aos valores limites de
rio ao sistema. eixo do motor [12]. Em sistemas que distorção harmônica de tensão e
não requerem muita precisão ou que corrente [12], nem tampouco uma
norma que especifique o procedi-
6. Variação de velocidade dos são acoplados a cargas conhecidas e
constantes, o comando de velocidade mento de ensaio do rendimento do
motores elétricos sistema (inversor + motor). Contu-
pode ser suficiente para atingir as es-
Durante décadas as necessidades pecificações projetadas. do, a experiência adquirida até o
dos processos de aplicações industriais momento, permite que se façam
No entanto, em sistemas que re-
que exigiam velocidade variável eram as seguintes considerações:
querem maior precisão no valor da ve-
limitadas pela tecnologia disponível, • O motor de indução, quando
locidade no eixo do motor é necessá-
pelo custo e manutenção dos compo- alimentado por um inversor de
rio inserir um sensor que informe, em
nentes empregados. Nestas condições, frequência PWM, tem seu rendi-
um sistema de malha fechada, qual o
os sistemas mais utilizados com velo- mento diminuído, em relação a um
valor real da ‘variável’ rotação da má-
cidade variável foram implementados motor alimentado por tensão pura-
quina. Os valores obtidos pelo sensor,
com motores de indução de velocida- mente senoidal, devido ao aumen-
realimentam um regulador no inver-
de fixa, e necessitavam de um segundo to nas perdas ocasionadas pelas
sor que atuará no sentido de diminuir
dispositivo que utilizavam componen- harmônicas;
a diferença entre o valor desejado
tes mecânicos, hidráulicos ou elétricos. (programado) e o valor lido no eixo da • Em aplicações de motores de in-
No início dos anos 80, com o ad- máquina. É assim que o sensor, conti- dução de gaiola com inversores
vento da eletrônica de potência e o nuamente, está informando ao inver- de frequência, porém, deve ser
barateamento de circuitos integrados, sor o valor real da variável, para este avaliado o rendimento do sistema
o dispositivo de conversão de ener- poder corrigir dinamicamente o desvio (conjunto inversor + motor) e não
gia elétrica para mecânica continuou do valor programado. Os inversores de apenas do motor;
sendo o motor de indução, mas os frequência possuem basicamente duas • Cada caso deve ser analisado em
dispositivos secundários foram substi- estratégias para controlar a velocidade: particular, para serem considera-
tuídos por dispositivos eletrônicos de a. Controle escalar: baseado na es- das as características do inversor
variação de velocidade, os quais foram tratégia de comando chamada e do motor, tais como: frequência
chamados de inversores de frequência. “V/F constante”, que mantém o de operação, frequência de chave-
A velocidade síncrona de um mo- torque constante, igual ao nominal, amento, condição de carga e po-
tor de indução pode ser alterada pela para qualquer velocidade de fun- tência do motor, taxa de distorção
mudança do número de pólos ou da cionamento do motor; harmônica do inversor;
variação da frequência da linha e o b. Controle vetorial: baseado no cál- • O aumento da frequência de cha-
escorregamento pode ser mudado culo das componentes vetoriais veamento diminui o rendimento do
variando a tensão da linha, variando a que microprocessadores execu- inversor e aumenta o rendimento
resistência do rotor ou ainda aplicando tam milhares de ciclos por segun- do motor;
tensões de frequência adequadas aos do “Id” (corrente de magnetização • Motores de alto rendimento ali-
circuitos do rotor. Convém esclarecer - produtora de fluxo) e “Iq” (corren- mentados por inversores de fre-
que mesmo com todas as alternativas te produtora de torque). O motor quência mantem seu rendimento
disponíveis para variação de velocida- de indução submetido a uma ten- superior, em comparação com
de, existem aplicações em que não se são senoidal PWM, proveniente motores standard alimentados por
justifica a implementação de inversor de um inversor de frequência, inversores.
de frequência e, por vezes a aplicação estará sujeito a tensões harmôni-

27
Artigos
Completos
7.1 Ventiladores centrífugos
• Em termos de qualidade de ener- Um ventilador centrífugo consiste
gia, ainda é aconselhável coletas em um rotor com pás chamado impe-
de medidas das distorções har- lidor, uma carcaça de conversão de
mônicas da planta fabril antes da pressão e um motor de acionamento.
implementação de inversores de O ar entra no centro do rotor em mo-
frequência de maior porte. Existem vimento de entrada [15], sendo acele-
considerações normativas sobre rado pelas pás e impulsionado da peri-
rendimento de motores alimenta- feria do rotor para fora da abertura de
dos por inversor de frequência. É o Figura 07: Comparativo de rendimento x rotação
descarga.
entre um motor de indução e um motor de imã
caso da “MG1 Part 30”, da Norma permamente. Fonte: WEG
NEMA, a qual indica que o ren- Os ventiladores centrífugos po-
dimento do motor cairá, quando 7. Ventilação industrial dem operar [16] pequenas vazões e
operado em um controle. grandes pressões. Nestes a trajetória
A ventilação industrial é a opera- de uma partícula no rotor se realiza em
• Os harmônicos presentes elevarão ção realizada por meios mecânicos que uma superfície que é um plano perpen-
as perdas elétricas, que reduzirão o visa o controle de parâmetros [13], tais dicular ao eixo. Um exemplo é visto na
rendimento e acarretarão aumento como temperatura, distribuição do ar, Figura 8.
também da temperatura do motor, umidade, e eliminação de agentes con-
reduzindo ainda mais o rendimento Normalmente, as instalações dos
taminantes ou poluentes, entre eles:
do motor. Já a IEC 60034-17 [12], ventiladores operam com rotação
gases, vapores, poeiras, névoas, micro-
diz que: constante e para variar a vazão, no
organismos e odores.
caso para diminuir, são utilizados dam-
Os sistemas de ventilação se classi- pers que fecham os dutos nos pontos
As características de desempenho das ficam em sistemas de ventilação geral e
aplicações com motores de indução ali- de captação ou dutos principais.
mentados por inversores de frequência
em sistemas de ventilação local exaus-
são influenciadas por todo o sistema, tora. O sistema de ventilação geral,
compreendendo a fonte de alimentação, como o próprio nome induz, propor-
o inversor, o motor, a carga mecânica e o ciona a ventilação de um determinado
equipamento de controle. Devido à com-
plexidade das interações técnicas entre os
ambiente, de um modo geral e global.
sistemas e as várias condições de opera- O sistema de ventilação local exaus-
ção, está fora do escopo da especificação tora realiza-se com um equipamento
técnica a quantificação de valores numé- captor de ar próximo à fonte poluidora
ricos relacionados com tais aplicações.
Não existe método simples para calcular
[14], isto é, que produz poluente nocivo
as perdas adicionais e não pode ser feita à saúde, de forma a remover o ar da
qualquer afirmação genérica sobre seu fonte poluidora para a atmosfera. O ar
valor. Figura 08: Ventilador centrífugo com transmissão
da fonte poluidora é removido através por correias e polias
de sistema de exaustão, devendo ser
Uma comparação em termos de tratado, com a finalidade de ser con-
rendimento e velocidade pode ser feita venientemente entregue à atmosfera, 7.2 Eficiência através de estratégias
levando em conta os motores de in- sem qualquer risco de poluição am- de controle de vazão
dução trifásicos e os motores de imãs biental.
permanentes, conforme a Figura 7. Tipicamente, uma vez que um
Segundo a ABNT – NBR 10131, sistema de exaustão foi projetado e
O exemplo é de um motor de 200 de 1987, os ventiladores se classificam instalado, o exaustor opera a uma ve-
cv – 3600 rpm, de um compressor. A de acordo com a forma do rotor em: locidade constante. Na prática, há oca-
linha mais escura representa a curva centrífugos ou radiais, mistos e axiais siões em que uma mudança na vazão
de rendimento do motor de imãs per- [14]. é desejável, pois são adicionados ou
manentes ao variar a velocidade. Em
retirados pontos de captação de resí-
comparação com o MIT, nota-se um
duos. Normalmente o fluxo de ar deve
melhor rendimento em todas as faixas
ser aumentado por inclusão de equipa-
de frequência.
mentos que necessitam de captação
de pó e a redução no fluxo acontece

28
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

quando há ociosidade dos equipamen- to da eletrônica de potência é possível


tos onde aconteceria a captação [13]. substituir métodos clássicos de contro-
Para variar o fluxo de ar nos dutos do le de vazão (damper), por acionamentos
sistema de exaustão, podem ser usa- de velocidade variável, ou ainda aliar os
dos os seguintes métodos: dois métodos em conjunto com um
• Mudança na relação de transmis- transdutor de pressão no duto princi-
são motor versus rotor: a troca de pal. Ao se utilizar o acionamento ele-
polias da relação é a maneira mais trônico, é muito importante conhecer a Onde:
simples de variar a vazão. Só é característica conjugado-velocidade da
P – pressão (total, estática ou dinâmica);
adotada quando uma alteração de carga, para uma correta especificação
Q – vazão;
volume do ventilador é necessária do sistema de acionamento.
N – rotação do ventilador;
em caráter permanente, dado o
trabalho envolvido nesta alteração; W – potencia do ventilador.

• Controle com damper: alguns ven-


tiladores centrífugos são projeta- 8. Metodologia
dos com a possibilidade de regu- Diante deste cenário, para minimi-
lar a vazão fechando ou abrindo zar os impactos na produção, reduzin-
dampers na saída ou entrada do do o valor da fatura de energia elétrica,
ventilador, mudando assim a curva propõe-se utilizar os preceitos básicos
característica do sistema; da norma ISO 50.001 para realizar es-
• Palhetas na entrada do rotor: são tudos de melhorias em eficiência ener-
palhetas de seções curvas posi- gética com enfoque nos sistemas de
cionadas na entrada do ventilador. Figura 09: Comparação entre métodos de controle exaustão, por serem estas as maiores
Quando estão abertas o fluxo é de vazão cargas nominais instaladas na fábrica.
máximo, e ao se fecharem, criam Para isso, serão detalhados a seguir, os
uma turbulência na entrada do passos do ciclo PDCA dentro do con-
Para contemplar este efeito, a cur-
alojamento do rotor que muda as texto deste estudo de caso.
va característica do ventilador, conse-
características da curva de venti-
quentemente, deverá ser recalculada
lador;
para uma condição média de operação 8.1 Planejar
• Acionamento por velocidade variá- [16]. Este procedimento é realizado
vel: é o método mais caro, porém o O planejamento das ações visa
recorrendo-se à definição da pressão
que oferece infinitas possibilidades estabelecer as análises técnicas e eco-
total e às relações de similaridade das
de velocidade de vazão dinamica- nômicas que serão realizadas na etapa
máquinas de fluxo. As equações resul-
mente. Ao reduzir a velocidade do do diagnóstico. Nesta etapa também é
tantes são chamadas de Leis dos Ven-
ventilador para necessidades de criada a linha de base do diagnóstico,
tiladores. Essas leis estabelecem [17]
fluxo menores, reduz-se também isto é, relata-se as condições operacio-
uma relação linear, quadrática e cúbica
em relação cúbica a potencia do nais atuais dos sistemas a serem anali-
de vazão, pressão e potência em rela-
motor. sados em termos de serviço prestado e
ção à rotação, e são mais frequente-
consumo de energia.
A Figura 9 ilustra uma comparação mente usadas para calcular mudanças
entre os métodos de controle de vazão na vazão, pressão e potência de um
em relação ao consumo de energia. A ventilador quando o seu tamanho, ve- 8.1.1 Perfil atual de energia
análise deste gráfico comparativo, in- locidade ou densidade do fluído forem Neste estudo de caso, a identifi-
dica que o método de controle de ve- alterados. cação das maiores cargas e a análise
locidade é o que mais se aproxima da Assim, tal tese considerando pri- dos perfis de operação, foram feitas
curva da potência requerida pelo ven- meiramente apenas mudanças na ro- por meio de medições de corrente de
tilador. Assim, a possibilidade de operar tação (sistema constante) em deter- consumo das cargas no quadro geral
o ventilador em velocidade variável ca- minado ventilador e em determinado de distribuição.
racteriza-se numa forma de melhorar a sistema utilizando ar numa dada den- As cinco linhas de exaustão juntas
eficiência energética dos sistemas de sidade, resulta nas equações simplifica- somam 187,5 kW de potência nominal
ventilação. A partir do desenvolvimen- das as seguir: instalada, tendo suas partidas aciona-

29
Artigos
Completos
mente 78,5%. tre da tubulação de exaustão;
das por soft-starter . Logo após partir Em estudo inicial, percebeu-se • estudar viabilidade e tempo de
o MIT, este dispositivo não tem mais que o exaustor com motor de 45 kW, retorno de investimento de outro
atuação sobre o funcionamento do nomeado como VENT0675, que reali- tipo de motor que possua rendi-
motor, ou seja, independentemente se za a sucção do equipamento da Linha mento superior (e potência a ser
há a necessidade de sucção a ser feita Esquadrabordas B4 (apresentado na definida), implementando além dos
ou não, irá operar na velocidade nomi- Figura 10), apesar de operar em dois dampers automáticos nos dutos
nal. Tem-se aí, um ponto a melhorar. turnos inicialmente, permanece um pe- principais, o controle de velocida-
Na Figura 10, vê-se uma foto de um ríodo de tempo considerável em que de. Se a hipótese for escolhida, ain-
dos ventiladores centrífugos antes da a sucção não necessitaria estar sendo da poderão ser realocados os mo-
montagem dos dutos. efetuada, pois os equipamentos aten- tores, retirando assim do processo
didos por esse sistema de exaustão o de menor rendimento dentre to-
estão em regime de setup, limpeza ou das as linhas de exaustão.
ainda manutenção. Ainda existe a pos- O estudo de viabilidade econô-
sibilidade de fechamento localizado mica e eficácia das hipóteses deverá
por grupo deste equipamento, ou seja, contemplar um monitoramento dos
conforme o tipo de peça a ser feita tempos efetivos de produção de cada
neste equipamento alguns grupos não máquina, ou seja, identificar e quanti-
teriam necessidade de operação, po- ficar os tempos em que as máquinas
dendo então ter seus respectivos du- poderiam estar com a exaustão inope-
tos fechados. Existem também alguns rante. Deve-se levar em conta também
dutos correspondentes específicos que a linha base de consumo é influen-
de limpeza, que poderiam ser abertos ciada pelo acréscimo de cargas e/ou
somente no momento de limpeza da aumento dos níveis de produção, po-
máquina. rém pode-se estipular que ao final do
Figura 10: Exaustor centrífugo motor de 45 kW
(VENT0675). Neste contexto, podem ser ana- estudo de caso, as ações de eficientiza-
lisadas várias hipóteses de controle, ção energética sejam suficientemente
Os ventiladores realizam a sucção verificando a viabilidade econômica de capazes de suprir qualquer acréscimo
do pó de diversas máquinas distribuí- cada uma delas: de carga ou aumento de produtivida-
das em toda fábrica, com tubulações • Implementar o fechamento auto- de.
que foram sendo alteradas ao longo mático dos bocais e, em conjunto,
dos anos conforme crescimento da variar a velocidade do motor, uti- 9. Desenvolvimento e descrição
área de ocupação da fábrica e inclusão lizando controle eletrônico de ve-
de equipamentos que necessitavam do trabalho
locidade que possua entradas digi-
de exaustão. Em consequência disso, tais, levando em conta um controle 9.1 Implementação do plano de
a análise de todas as linhas se torna que use uma entrada de tempo ação
um pouco complexa porque em al- real em determinados horários (por
guns pontos da rede existe a passagem A implementação do plano de ação
exemplo, horário de ponta);
de dutos de exaustão de um mesmo envolve uma série de medidas para ob-
• idem ao anterior, com fechamento tenção de resultados eficazes. Através
exaustor que passam por setores di-
dos dutos principais, ou seja, fe- das análises das hipóteses de controle
ferentes. Por isso a análise inicial será
chando o duto principal na entrada do sistema de exaustão apresentadas
feita em uma linha em específica de
de cada equipamento, assim, sem no item 5.1.1, o controle por damper
45 kW. Esse ventilador é exclusivo de
necessitar de um controle indivi- automático nos dutos principais foi o
duas máquinas somente, instaladas em
dual sobre cada bocal de captação passo inicial, em seguida fez-se o es-
2008.
do pó; tudo e implementação da variação de
Utilizando apenas um multímetro
• implementar o fechamento dos velocidade com substituição tecnológi-
alicate, pode-se ver que a corrente de
bocais e, em conjunto, variar a ve- ca do motor em questão. Esses passos
consumo deste motor é 64,8 A, sendo
locidade do motor, utilizando um são detalhados a seguir.
a corrente nominal do motor para esta
controle em malha fechada com
tensão nominal 81,3 A obtêm-se um
transdutor de vazão no duto mes-
fator de carregamento de aproximada-

30
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

9.1.1 Controle do sistema de exaustão Tabela 01: Potência consumida em cada situação radores da máquina, pois como visto na
de operação numerada.
por damper Figura 12, são inúmeros bocais que de-
Medição Situação
Potência
veriam ser controlados, assim, corre-se
Nas duas máquinas em que o Cons. (kW)
o risco de haverem falhas involuntárias
exaustor de 45 kW realiza a sucção do 1 Sistema em plena carga 33,7
(o operador poder esquecer de atuar
pó, denominadas pelos números 0710 Fechamento do damper da
2
máquina 0710
23,2 um ou mais dampers) e isso compro-
e 0720, um monitoramento foi realiza-
meteria os resultados. As tecnologias
do colocando-se um horímetro, o qual 3 Fechamento total (0710 e 0720) 18,1
atuais usadas em empresas européias
somava o tempo em que haviam peças 4
Fechamento do damper da
31,3
máquina 0720 adotam este fechamento dos dutos
a serem processadas no interior de
aliado à variação de velocidade através
cada máquina, por meio de sinal iden- Com o teste de fechamento manu- de controle com inversores de frequ-
tificado no CLP desta. Estas amostras al foi possível constatar que esta me- ência. Esta análise deve ser feita base-
foram feitas em dias aleatórios de pro- dida imediata seria viável, sem grandes ada na Lei das Afinidades, que rege o
dução, contemplando produções de investimentos e, assim, a implantação comportamento dos ventiladores cen-
peças diferentes, em que o tempo de do damper automático foi efetuada trífugos [17].
setup pode variar. nos dutos principais das duas máqui-
Os resultados apontaram a possibi- nas atendidas pelo exaustor de 45 kW
9.1.2 Hipóteses combinadas para o
lidade de fechamento total dos bocais (máquinas 0710 e 0720) (Figura 12).
controle do sistema de exaustão
em 33% do tempo nas duas máquinas Diferentemente do teste manual, onde
em que este exaustor de 45 kW realiza uma chapa de metal obstruiu totalmen- Com a implementação do fecha-
a sucção do particulado. Em seguida, te a sucção, no damper com atuador mento automático dos bocais princi-
para efetuar a medição com analisador pneumático é necessário manter uma pais já em operação e com resultado
de energia, foi feito o fechamento ma- distância de segurança (de 3 a 5 mm) positivo constatado em medições de
nual do duto (simulando um damper) entre a chapa metálica de obstrução e corrente de consumo do motor de in-
que realiza a sucção de apenas um dos as paredes internas do duto. Por essa dução do exaustor VENT0675, o pas-
dois equipamentos. A análise, resultou abertura que percorre toda circunfe- so seguinte foi estudar a viabilidade
nos gráficos ilustrados na Figura 11. rência interna dos dutos, ocorrem per- de implantação do controle de veloci-
das de sucção e, portanto, o resultado dade com o motor existente ou com
do consumo de corrente do motor com um motor de tecnologia mais recente,
fechamentos simultâneos dos dois com rendimento superior ao atual, re-
equipamentos resultou em 43A, ou duzindo assim o tempo de retorno de
seja, um valor pouco maior do que os investimento.
40A encontrados com os fechamentos Para inserir a variação de velocida-
simultâneos feitos de forma manual. de controlada por inversor de frequên-
cia no sistema VENT0675, é necessário
Figura 11: Leitura de potência e corrente por fase, em
tempo real. adquirir o inversor de frequência, inde-
pendentemente de usar o motor atual
Foram obtidos com o fabricante ou outro de maior rendimento e/ou
dados do cálculo utilizado para de- potência diferente. Para esse estudo
terminação de potência necessária na foram feitos os seguintes orçamentos:
instalação, a qual foi de 53 cv (39 kW). • inversor de frequência para motor
Estes resultados foram planificados, com potência nominal de 60 cv;
resultando assim a TABELA 01.
• motor de maior rendimento dispo-
nível no mercado: imãs permanen-
tes;
Figura 12: Damper automático com atuador pneu-
mático (Maq. 0710). • motor de maior rendimento com
potência nominal diferente do mo-
O objetivo de implantar o damper tor atual
automático é obter um regime de tra- • (MIT de 60 cv), a ser estudado qual
balho que independa da ação dos ope- valor que possa vir a suprir futura-

31
Artigos
Completos
Tabela 03: Resumo da proposta: damper com
variação de velocidade.
mente demanda maior em parque
RESUMO DA PROPOSTA
fabril novo.
Com damper aliado a variação de
Assim, fez-se estudo com fornece- Indicadores Antigo Com damper
velocidade

dores de motores de rendimento acima Custo unitário (R$/kWh) 0,265


do atual motor, e diante das situações Dias de operação / ano 260 (3900hs)
de demanda do processo, foram apre- Horas de operação / dia 15
sentadas propostas de fornecimento Wmagnet Drive System
de motor com maior rendimento e de Alternativas propostas - Automático
60 cv 75 cv
potências diferentes, sendo ofertado kWh consumido 33,7 26,5 20,75 20,27
o motor síncrono de imãs permanen-
Consumo anual (kWh) 131.430,00 103.350 80.925,00 79.053,00
tes. Este motor possui rendimento
Redução consumo de energia (R$/ano) - 28.080,00 50.505,00 52.377,00
96,5 %, contra 93% dos motores de
(kWh/ano) - - 7.683,00 7.683,00
indução gaiola de esquilo de mesma Economia com remanejo de motores
capacidade instalado nessa aplicação. (R$/ano) - - 2.035,96 2.035,96

O consumo estimado pelo fabricante, Venda de motor usado 60 cv (R$) - - 2.000,00 2.000,00

optando pela inclusão da variação de Investimento previsto (R$) - 1.000 28.330,00 32.665,70

velocidade, está exposto na Tabela 02 Retorno de investimento (ano) - < 2 meses 2,1 anos 1,9 anos

com dados estimados pelo fabricante


do motor Wmagnet. No item 5.1.1, na descrição das 9.1.3 Implementação do controle de
Tabela 02: Dados estimados pelo fabricante do hipóteses de controle para o sistema velocidade
motor Wmagnet.
de exaustão, não foi considerada a hi- A partir dos resultados esperados,
Consumo
Consumo
com variação
pótese de controle de velocidade com optou-se pelo motor de 75 cv por ter o
Situação c/ dampers
(kW)
velocidade inversor de frequência utilizando o MIT menor tempo de retorno e garantia de
(kW)
atual de 60 cv, pois haveria o risco de rendimento superior ao motor de indu-
Sistema em plena carga 33,7 32
a implementação resultar em uma per- ção trifásico. Também com o objetivo
Fechamento do damper da
máquina 0710
23,2 11,4 da de rendimento do motor, conforme de aproveitar esse mesmo sistema em
Fechamento do damper da
estudos apresentados [12], pois a apli- um futuro parque fabril, onde há pos-
máquina 0720
31,3 14,2
cação em questão exige uma faixa de sibilidade da potência necessária ser
Fechamento total (dampers
frequência baixa em uma situação es- maior do que os atuais 60 cv.
18,1 11,4
0710 e 0720) pecífica que não tenha necessidade de
Os dados técnicos deste motor
sucção em nenhuma das duas máqui-
podem ser vistos na Figura 13. No de-
Fonte: WEG nas. Além disso, com a inserção de um
talhe, a data de fabricação de janeiro
motor novo seria possível um remanejo
Aplicando uma média ponderada de 2012.
de motores usados, tirando de uso um
levando em conta os dados da Tabela dos motores de indução mais antigos, Para controlar a velocidade do
02I e os valores de demanda do pro- fabricado de 1987. exaustor por meio de sinal das duas
cesso (obtidos com horímetro insta- máquinas atendidas pelo sistema de
Outra consideração é que o tipo
lado em cada máquina), obtém-se um exaustão, de forma a atuar o damper
de motor escolhido para substituição,
consumo médio de 20,27 kW, contra e, simultaneamente, variar a velocida-
só pode ser alimentado através do in-
26,5 kW do sistema de fechamento de conforme as quatro situações possí-
versor de frequência por possuir con-
com dampers. O estudo pode ser com- veis, foi instalado no painel elétrico do
figuração fixa de seis pólos. Logo, o
preendido melhor analisando o quadro inversor de frequência um CLP. Para
custo considerado na Tabela 03 inclui
representado na Tabela 03, que apre- esse CLP, criou-se um programa que
o inversor de frequência para controlar
senta um resumo das possibilidades recebe na entrada os sinais 0 e 24 Vdc
o motor.
com alguns resultados esperados con- de acordo com o estado de operação
siderando a situação daquele momen- das duas máquinas. Neste programa
to. em ladder, a impostação de valores de
velocidade para o inversor obedece à
lógica binária conforme Tabela 04.

32
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

Figura 13: Dados de placa do motor de imã perma- Figura14: Painel elétrico externo (coluna esquer- quência. Elimina-se a necessidade do
nente implementado. da) e interno da implementação (coluna direita).
transdutor, porém caracteriza mesmo
assim um sistema autônomo, que inde-
pende do fator humano.

10.1 Variação de velocidade


A Tabela 03 foi uma estimativa,
porém o realizado foi diferente porque
no momento da instalação foi utilizada
uma polia motora de menor diâmetro.
Figura 15: Motor instalado no VENT0675. Isso porque para poder usar a mesma
polia, foi necessário modificar as suas
dimensões devido a diferença da car-
caça entre o MIT de 60 cv (carcaça
225) e o motor modelo Wmagnet de
75 cv (carcaça 200). Estes resultados
podem ser vistos na Tabela 05.
Fonte: Autor Tabela 05: Resultado parcial, com polia motora
menor

Tabela 04: Lógica de controle de velocidade do Consumo (kW)


motor
Situação damper +
somente
Rotação do motor (RPM) 300 1200 1400 1800 variação
dampers
velocidade
Frquência (Hz) 15 60 70 90

10. Resultados e discussões


Sistema em plena carga 33,7 12
Sinal máquina 0710 0 0 1 1
Fechamento do damper da
23,2 10
Sinal máquina 0720 0 1 0 1 máquina 0710
Algumas implementações existen-
tes no mercado são feitas com a utiliza- Fechamento do damper da
máquina 0720
31,3 4,5
ção de um transdutor de vazão fixado
Este estado por sua vez, é deter- Fechamento total (dampers
na tubulação principal. Isto se aplica de 18,1 0,2
minado por duas condições: esteira 0710 e 0720)
forma usual quando o sistema realiza
transportadora ligada e presença de
sucção de várias máquinas. Assim, se A rotação do rotor do exaustor é
peças no interior da máquina. A combi-
houver fechamento ou abertura dos dada por (5) a seguir.
nação desse estado das duas máquinas
dutos (automático ou manual) o trans-
nas entradas do programa irá definir
dutor de vazão informa para o controle
qual saída atuará do CLP, que por sua
que houve uma diferença de vazão na
vez são as entradas de velocidade do
rede, e a lógica de controle atua, au-
inversor de frequência. Os parâmetros
mentando ou reduzindo a velocidade.
de velocidades do motor foram esta- Onde:
Porém, a atuação dos dampers deve
belecidos no inversor de frequência NM – Velocidade do motor;
anteceder essa ação. Considerando
por teste empírico. O inversor de fre- NR – Velocidade do rotor
que o custo do transdutor de vazão or-
quência, display e demais dispositivos
çado foi de R$5.800,00 e nesse estu- DPM – Diâmetro da polia motora (acoplada
inseridos no painel elétrico podem ser ao motor)
do de caso são somente duas máquinas
vistos na Figura 14 e o motor de imãs DPC – Diâmetro da polia conduzida
que influenciam o controle de tomada
permanentes é visto na Figura15. (acoplada no mancal comum ao rotor)
de decisão (qual velocidade o exaustor
deve operar?). A informação é conside-
Desta forma, para a plicação em
rada direta, pois ao mesmo tempo em
questão, obtém-se o seguinte valor
que o sinal da máquina atua o damper,
para velocidade do rotor:
envia o sinal para o CLP. Este, por sua
vez, através do programa irá atuar suas
saídas correspondentes, que são as en-
tradas multi speed do inversor de fre-

33
Artigos
Completos
• em relação ao resumo da proposta o rotor do sistema de exaustão está
Como a polia motora era de diâ- apresentado na Tabela I, o investi- girando na mesma velocidade antiga,
metro menor, durante todo o primeiro mento necessário para a colocação ou seja, velocidade nominal quando o
mês (março) o sistema operou com a do sistema em funcionamento au- motor está em 1800 rpm. Dados cole-
velocidade do rotor reduzida, com va- mentou, pois foram contabilizados tados no início e fim dos primeiros seis
lores obtidos através de (5): os valores do CLP, armário elétrico, meses amostrados, indicaram também
dispositivos de manobra e demais outros valores que apresentam valores
dispositivos de controle; concretos de economia acumulada,
• através dos parâmetros “Conta- conforme a Tabela 07.
Como a polia motora era de diâ- dor de kWh” (P044) e “Número Uma implementação auxiliar foi
metro menor, durante todo o primeiro de horas em operação” (P043) do feita através dos valores dos tempos
mês (março) o sistema operou com a inversor de frequência CFW-11 foi de uso de cada máquina, fornecendo
velocidade do rotor reduzida, com va- possível obter o valor da potência aos gestores da produção dados per-
lores obtidos através de (5): média de 10,77 kW, fazendo a di- centuais de quanto tempo cada má-
visão conforme (6): quina está operando de fato, visto que
os sinais coletados nos contadores do
programa elaborado no CLP indicam
TABELA VI – Resumo da implementação damper + variação de velocidade.
Indicadores Março Abril

valores individuais
Custo unitário (R$/kWh)
de cada0,265
equipamen- 0,265

Assim, a exaustão mesmo de for- Dias operação / ano 245 dias (4655hs) 245 dias (5145hs)

to operando,
Horas de operação/ dia
valores em 19
que o 21equi-
ma visual mostrou-se insuficiente na Wmagnet 75 cv Wmagnet 75 cv
pamento está inoperante (não separa
Alternativa implantada

captação do pó das duas máquinas. E Inserindo os valores em (6), obte- Média em kWh 10,75 (polia menor) 16 (polia  ‘original’)

ve-se: seRedução
é por setup ao sist. de
Consumo anual (kWh)
antigo máquina, limpeza ou
50.041,25 82.320

para ter-se um parâmetro mensal, a em relação

manutenção) e(R$/ano)
ainda valores totais
24.132,62 de
(kWh/ano) 106.832,25 91.066,5

recolocação da polia foi feita somente


Redução consumo de energia 28.310,54
Economia com remanejo de (kWh/ano) 13.965,00 15.435,00
operação. motores Com isso,
(R$/ano) obtêm-se valores
após um mês de operação do sistema
3.700,73 4.090,27
Venda de motor usado 60 cv (R$) 2.000,00 2.000,00
percentuais de (R$) utilização 36.665,70 do equipa-
com motor de imãs permanentes, ob-
Investimento realizado 36.665,70
Retorno de investimento (anos) ≈  1,08 ≈1,21
mento, quede CO2
Redução em emissão podem (t/ano) ser11,28usados 9,62
8
como
tendo assim um histórico de consumo
sendoA médiao derendimento daabrilmáquina.
que pudesse ser usado em termos de
16 kWh obtida no mês de é o panorama definitivo, pois
quando há sucção nas duas máquinas o rotor do sistema de exaustão está girando
na mesma velocidade antiga, ou seja, velocidade nominal quando o motor está em
comparações entre polias motoras de Tabela 07 –coletados
1800 rpm. Dados Economiano inícioefetiva acumulada
e fim dos primeiros nos
seis meses amostrados,
indicaram também outros valores que apresentam valores concretos de economia

diferentes diâmetros, num período de primeiros seis meses.


Com esse valor e levando em con-
acumulada, conforme a Tabela VII a seguir.

TABELA VII – Economia efetiva acumulada nos primeiros seis meses.

amostragem que englobou todas as ta as demais considerações necessárias Mês Potência


média [kW]
Horas
trabalhadas [hs]
Consumo
evitado [kWh]
Economia
efetiva
possíveis situações de produção. já citadas, é apresentada a Tabela 06, [R$]

com objetivo de analisar o tempo de


Março 10,75 451,6 10.364,22 2.746,51
Para montagem dos resultados Abril 16,44 433 7.664,1 2.030,98

obtidos, no mesmo formato de quadro retorno de investimento real para cada Maio 16,18 516,6 9.143,83 2.423,11

resumo da estimativa apresentada na situação, sempre comparando com a Junho 13,91 468,7 9.275,57 2.458,02

situação antiga de potência consumida


Julho 14,50 511 9.806 2.598,77
Tabela 03, foram coletadas informa- Agosto 12,60 540 11.394 3.019,41

ções mais reais possíveis quanto: de forma contínua de 33,7 kW e o pa- TOTAL 14,06 (média) 2.920,9 hs 57.647,72 kWh R$15.276,8

norama do mês atual. 8

• dias úteis que a empresa trabalha


- Adotado o Fator de Emissão para cálculo de MDL do ano base de 2011, publicado pelo Ministério
de Ciências e Tecnologia no site http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/74689.html

por ano: são 245 dias, já desconta- Tabela 06 – Resumo da implementação damper +
variação de velocidade. 10.2 Remanejo de motores
das as férias coletivas; TABELA VI – Resumo da implementação damper + variação de velocidade.
Indicadores Março Abril

• operação diária de 19 horas no Custo unitário (R$/kWh) 0,265 0,265 Foram remanejados dois motores,
retirando assim do processo o de me-
Dias operação / ano 245 dias (4655hs) 245 dias (5145hs)

mês de março, onde a média de Horas de operação/ dia 19 21

horas/dia foi feita através do so-


Alternativa implantada Wmagnet 75 cv Wmagnet 75 cv
nor rendimento dentre todas as linhas
de exaustão, um MIT do sistema de
Média em kWh 10,75 (polia menor) 16 (polia  ‘original’)

matório de horas dos dois turnos Consumo anual (kWh)


Redução em relação ao sist. antigo
50.041,25 82.320

de trabalho (descontadas duas ho-


(kWh/ano)
Redução consumo de energia (R$/ano)
106.832,25
28.310,54
91.066,5
24.132,62
exaustão VENT732.1, o qual possui
ras de operação do gerador), com
Economia com remanejo de (kWh/ano)
motores (R$/ano)
13.965,00
3.700,73
15.435,00
4.090,27
tecnologia antiga empregada na sua
as horas extras semanais;
Venda de motor usado 60 cv (R$)
Investimento realizado (R$)
2.000,00
36.665,70
2.000,00
36.665,70
fabricação em 1987, época em que o
Retorno de investimento (anos) ≈  1,08 ≈1,21
rendimento não era item obrigatório
• operação diária 21 horas no mês Redução em emissão de CO2 (t/ano)8 11,28 9,62

a constar nas placas de identificações


de abril, onde a média de horas/dia A média de 16 kWh obtida no mês de abril é o panorama definitivo, pois
quando há sucção nas duas máquinas o rotor do sistema de exaustão está girando
dos motores.
aumentou devido ao início de um na mesma velocidade antiga, ou seja, velocidade nominal quando o motor está em
A média de 16 kWh obtida no mês
1800 rpm. Dados coletados no início e fim dos primeiros seis meses amostrados,

terceiro turno de trabalho;


indicaram também outros valores que apresentam valores concretos de economia
A maioria dos fabricantes pos-
de abril é o panorama definitivo, pois
acumulada, conforme a Tabela VII a seguir.

TABELA VII – Economia efetiva acumulada nos primeiros seis meses. sui um sistema a base de troca, onde
quando
Mês há sucção
Potência Horas nas Consumo
duas máquinas
Economia
média [kW] trabalhadas [hs] evitado [kWh] efetiva
[R$]

Março 10,75 451,6


34 10.364,22 2.746,51

Abril 16,44 433 7.664,1 2.030,98

Maio 16,18 516,6 9.143,83 2.423,11

Junho 13,91 468,7 9.275,57 2.458,02


Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

o cliente entrega seu motor usado na do gerador, isso porque o percentu- tor (inversor de frequência) variava a
compra de um motor novo, e é o que al menor de carregamento consome velocidade durante o horário de fun-
pode ser levado em consideração nes- menos combustível. Anteriormente, o cionamento do gerador.
te caso. consumo era de 175 litros de óleo die- Para confirmar a influência do in-
No sistema de exaustão deste mo- sel a cada noite de utilização no horá- versor nas anomalias de tensão detec-
tor, foi colocado o motor que até então rio de ponta. O consumo diminuiu para tadas pelos acionamentos, instalou-se
estava no VENT0675, um MIT com aproximadamente 145 litros por noite, um analisador de medidas elétricas na
rendimento de 93%. A corrente elétri- e considerando média de 21 dias úteis entrada do inversor de frequência, e
ca de consumo do motor antigo era de mensais, e valor do óleo diesel R$2,00 posteriormente no QGBT. Nesta oca-
64 A, e efetuando a troca, mantendo ao litro, essa diminuição do consumo sião, fizeram-se testes simulando as
todas as demais características do con- de óleo diesel gerou uma economia di- possibilidades reais e registrando em
junto inalteradas, este consumo baixou reta de aproximadamente
O remanejo
R$2.551,18 ao ano.
R$1.260,00
efetuado resultou em uma economia direta de aproximadamente
que horário foram feitas, para depois
para 58 A. Adaptando (7) para cada por mês.
7.3 ECONOMIA COM O GERADOR comparar o efeito de cada ação com o
caso, tem-se as duas situações: Com
Outra basedasnas
consequência implementações
implementações que geraram uma economia re-no
consumo de energia elétrica, foi a economia no consumo de óleo diesel do gerador,
resultado da medição:
alizadas, a Tabela
isso porque com percentual menor de08 mostra
carregamento consome o menosganho
combustível.
Anteriormente, o consumo era de 175 litros de óleo diesel a cada noite de utilização • somente exaustor (inversor de 75
obtido commédiatodas de 21 dias as implementações,
no horário de ponta. O consumo diminuiu para aproximadamente 145 litros por
noite, e considerando úteis mensais, e valor do óleo diesel R$2,00
cv) ligado;
ao litro, essa diminuição do consumo de óleo diesel gerou uma economia direta de
considerando
aproximadamente R$1.260,00 o tempo de análise de
por mês.
• somente máquina que sinalizava
um ano.EXECUTIVO
anomalia quando exaustor ligado,
7.4 RESUMO

a) Para o motor antigo (MIT 60 cv de


Com base nas implementações realizadas, a TABELA VIII mostra o ganho
Tabela
obtido com08:
todasResumo executivo daso tempo
implementações
realizadas.
as implementações, considerando de análise em um ano.
em horário de ponta;
1987 – rendimento nominal desconhe- TABELA VIII – Resumo executivo das implementações realizadas.
• máquina e exaustor inoperantes;
cido) ECONOMIA DE INVESTIMENTO GASTOS

• máquina e exaustor ligados;


AÇÃO ENERGIA [R$] EVITADOS
[R$]

Estas medições contemplaram pe-


Variação velocidade + 91.066,5
R$36.665,70 R$24.132,62
damper [kWh/ano]

Remanejo de motores 9.812,25


[kWh/ano]
- R$2.551,18
ríodos em que a fonte de energia era
TOTAL 100.878 kWh/ano R$36.665,70 R$ 26.683,8 a concessionária e também horário de
b) Para o motor retirado (MIT 60 cv de
E fazendo-se um somatório dos gastos evitados, inclui-se a economia com
óleo diesel (aproximadamente 6.125 litros/ano), o equivalente a R$11.943,75, e ponta, onde a fonte era o gerador. Um
2008 – rendimento nominla de 93%) Fazendo-se um somatório dos gas-
chegando-se assim num valor de gastos evitados de R$ 38.627,55.
A demanda contratada não foi diminuída devido à variação de processos resultado parcial pode ser visto na Fi-
dentro da fábrica, ou seja, a diminuição do consumo registrado nesses pontos foi

do ponto em que foi colocado o motor tos evitados, inclui-se a economia com
suficiente para suprir a demanda de novas cargas em outros setores que vão
aumentando de forma sazonal e bem dinâmica.
gura 16.
de imãs permanentes: óleo diesel (aproximadamente 6.125 li- Figura 16: Resultados das medidas.
tros/ano),
7.5 DISCUSSÃO o equivalente a R$11.943,75,
efrequência
chegando-se assim num valor de gas-
O efeito da inclusão de uma carga não-linear do porte do inversor de
de potência nominal de 75 cv, percebeu-se inicialmente em um

tos evitados de R$ 38.627,55.


equipamento que possui diversos servo-acionamentos e servomotores, e que

A demanda contratada não foi di-


Logo, a redução no consumo nessa minuída devido à variação de proces-
modificação é a subtração de (8) com sos dentro da fábrica, ou seja, a dimi-
(9), obtendo assim o valor de 2,67 kWh. nuição do consumo registrado nesses
E usando (10), obtem-se: pontos foi suficiente para suprir a de-
manda de novas cargas em outros se-
tores que aumentam de forma sazonal Constatou-se uma contribuição
e bem dinâmica. significativa do inversor de frequência
O remanejo efetuado resultou em O efeito da inclusão de uma carga nos distúrbios totais da rede elétrica
uma economia direta de aproximada- não-linear do porte do inversor de fre- interna da planta, que se refletem so-
mente R$ 2.551,18 ao ano. quência de potência nominal de 75 cv, bre um monitoramento que o software
foi percebiso em um equipamento que destes acionamentos de servomotores
possui diversos servo-acionamentos e fazem na qualidade da energia. Por
10.3 Economia com o gerador servomotores, que trabalha também outro lado, esta máquina que possui
Outra consequência das imple- em horário de ponta, onde a fonte de esses acionamentos, servomotores,
mentações que geraram uma econo- energia elétrica passa a ser o gerador. inversores de frequência, motores de
mia no consumo de energia elétrica, foi Os dispositivos de controle dos ser- 200 Hz, também contribui para a in-
a economia no consumo de óleo diesel vomotores de uma máquina operatriz clusão de tensões de diferentes frequ-
apresentavam alarme quando o exaus-

35
Artigos
Completos
do trabalho, sobre as ações de efici- tor de imãs permanentes. Contudo,
ências da fundamental (harmônicas 9). ência energética, é fundamental o co- mesmo o assunto eficiência energética
Iniciou-se então um estudo paralelo, nhecimento do processo passível de sendo desmembrado em sistemas de
para verificar a necessidade de imple- melhoria, não apenas em análises pon- exaustão está longe de ser esgotado.
mentação de filtros específicos para a tuais, mas sim através de estudos que Exemplo disso é a qualidade de energia,
tensão harmônica de maior contribui- aliem ações de eficientização a cada visto que levando em conta as demais
ção no distúrbio, especificamente, a 5ª particularidade dos processos. No caso linhas de exaustão existentes, a viabi-
harmônica (filtro passivo) ou filtro com dos sistemas motrizes, é recomendável lidade de implementação de variação
correção dinâmica (filtros ativos). Ainda não atuar sobre os motores somente, de velocidade, passa obrigatoriamente
a definir, se em ambas fontes (inversor mas também agir tirando proveito de por estudo específico de qualidade de
de frequência do exaustor e máquina situações do processo, como o realiza- energia, com foco na inclusão de car-
operatriz) ou de forma individual. Uma do no estudo de caso apresentado. gas não- lineares e por consequência o
publicação direcionada ao assunto de O ciclo PDCA, programa de refe- surgimento de harmônicas.
qualidade de energia, [18] descreve cir- rência da Norma ISO 50.001, conti- Convém, no entanto, ressaltar que
cunstância semelhante: nuará sendo utilizado como base para os estudos que apontarem resulta-
sequencia do estudo apresentado, que dos dos tempos das demais linhas de
[...] o filtro harmônico passivo LC é cha- não pode ser dado como concluído, exaustão em que estas poderiam per-
mado de filtro não compensado, porém
há, genericamente, um outro tipo de filtro visto as demais cargas citadas ainda manecerem inoperantes, já poderão
passivo, chamado de filtro de harmônicas são passíveis de melhorias. A este pro- definir de antemão a implementação
compensado, que é particularmente reco- pósito, segue um resumo executivo do de dampers, também automáticos,
mendado para instalações onde seja utili- ciclo PDCA: com baixo investimento e sem influên-
zada uma fonte de substituição de ener-
gia, como, por exemplo, grupos geradores. • P: estudo das cargas, levantamen- cia na qualidade de energia.
to das possibilidades de redução Ainda há de se ressaltar que quan-
A esse respeito, a fim de evitar ou dentre as hipóteses levantadas do se trata de eficientização ou mesmo
limitar a intensidade de ruídos causa- demonstrado no item “8.1 PLA- a otimização, é imprescindível um tra-
dos pela introdução das harmônicas na NEJAR”; balho de conscientização, pois há uma
rede, seguindo recomendação do fabri- preocupação com os maiores consu-
• D: execução das ações, demons-
cante [9] de que “[ ...] entre 0 e 240 rpm midores. Contudo, um somatório de
tradas no item “9.1 IMPLEMENTA-
o acionamento através da opção PM pequenos desperdícios também pode
ÇÃO DO PLANO DE AÇÃO”;
Sensorless apresenta ruído magnético gerar um carregamento maior sobre as
de maior intensidade característico do • C: verificação dos resultados, de-
fontes de energia, sejam elas elétricas,
método de controle”, a rotação mínima monstrados entre os itens “10.1 à
a gás ou óleo diesel.
foi estabelecida em 300 rpm, ocasião 10.3 - RESULTADOS”;
Como consequência indireta, a me-
em que os dutos principais das duas • A: discussões, correção das etapas
todologia utilizada além de servir como
máquinas estão fechados. Essa teoria do ciclo, definição de novos limites
base para execução da eficientização,
se comprova em outras medições efe- e futuras implementações
privilegiou equipamentos de crucial
tuadas, onde em um período de amos-
importância para o funcionamento da
tragem percebeu-se que quanto menor 11. Conclusões fábrica, pois as verificações pontuais
é a velocidade imposta ao inversor de
Os resultados obtidos com a com- incidiram em cuidados específicos, in-
frequência, maior é a distorção de har-
binação dos dampers automáticos e fluenciando assim no aumento da con-
mônica resultante. Nestas condições,
a variação de velocidade com motor fiabilidade destes equipamentos. Esta
ainda por trazer economia de energia
de maior rendimento no sistema de metodologia continuará sendo usada
elétrica considerável com uma rotação
exaustão foram considerados satisfa- na gestão de energia, possibilitando
inferior (conforme diferenças aponta-
tórios, visto a possibilidade do tempo assim um acompanhamento com regis-
das entre os meses março e abril), uma
de retorno de investimento ser menor tros e implementações que caracterize
rotação mínima deve ser estabelecida
do que o projetado inicialmente. um programa de melhoria contínua.
de modo a não acumular particulado
(pó e demais resíduos de MDF) no in- O tema eficiência energética é
terior dos dutos. muito abrangente, e nesse trabalho
Ressaltando os aspectos que en- os esforços foram concentrados nos
volvem perspectivas de continuidade resultados da implementação do mo-

36
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

12. Referências
[1] EPE, 2011. Relatório anual Balanço Energético
Nacional 2011. Disponível em: https://ben.epe.gov.br.
Acesso em: 26 de ago. 2012.

[2] HADDAD, J. e outros, Eficiência Energética – Teo-


ria e Prática - 1a ed. - Eletrobrás/PROCEL Educação.
UNIFEI, 2007.

[3] EPE, 2010. Relatório anual Balanço Energético


Nacional 2010. Disponível em: https://ben.epe.gov.br.
Acesso em: 26 de jun. 2011.

[4] WEG Equipamentos Elétricos S/A – Treinamentos/


Módulo 6: Apostila de Eficiência Energética em Aplica-
ção de Motores Elétricos. Jaraguá do Sul, 2006.

[5] FITZGERALD, A.E. - Máquinas Elétricas / Charles


Kingsley, Stephen D. Umans; tradução de Anatólio
Laschuk. - 6a ed. - Porto Alegre: Editora Bookman,
2006.

[6] DEL TORO, V. - Fundamentos de Máquinas Elé-


tricas; tradução Onofre de Andrade Martins – 1aed.
- Rio Janeiro: Editora LTC, 1999.

[7] GENERAL ELETRIC, 2010 – Notas Técnicas Mo-


tores NT-01. Disponível em: http://www.geindustrial.
com.br/downloads. Acesso em: 15 set. 2011

[8] INMETRO, 2011. Rendimentos nominais mínimos.


Disponível em: http://www.inmetro.gov.br/legislacao/
rtac/pdf/RTAC001643.pdf. Acesso em: 20 mai. 2011

[9] WEG Equipamentos Elétricos S/A – Catálogo


Wmagnet Drive System, Rev. 08, 05/2011.

[10] WEG Equipamentos Elétricos S/A – Guia Rápido


Wmagnet Drive System, 2012 - Ver: 00, 11//2011,
código 50033441).

[11] BARBI, I. – Eletrônica de Potência – 5a ed. –


Florianópolis: Editora do Autor, 2005.

[12] WEG Equipamentos Elétricos S/A – Guia Técnico


Motores de Indução Alimentados por Inversores de
Frequência, 2009. Disponível em: http://catalogo.
weg.com.br/files/wegnet/WEG-motores-de-inducao-
-alimentados- por- inversores-de-frequencia-pwm-
-027-artigo-tecnico-portugues-br.pdf. Acesso em: 30
abr. 2012.

[13] AMCA, 2011. Air Moving and Control Associa-


tion. Disponível em: http://www.amca.org/. Acesso
em: 07 jun. 2012

[14] MOREIRA, A. B.- Análise da Operação de Siste-


mas de Ventilação Industrial – Ceará: Universidade
Federal do Ceará, 2006.

[15] PROCEL, HVAC Handbook, 2006. – Conserva-


ção de Energia. Disponível em: http://pt.scribd.com/
doc/25841679/HVAC-Handbook-PROCEL-Conserva-
cao-de- Energia. Acesso em: 30 ago. 2011.

[16] VIANA, C. N. A., Manual de Eficientização Indus-


trial – Módulo Ventiladores e Exaustores. ELETRO-
BRÁS/PROCEL, Rio de Janeiro, 2002.

[17] OTAM, Ventiladores Industriais – Boletim técnico


No 2: Lei dos Ventiladores. Disponível em: http://www.
otam.com.br/seguro_c_form_login.php. Acesso: 20
set. 2011

[18] MORENO, H. Harmônicas nas Instalações Elétri-


cas – PROCOBRE, São Paulo, 2001.

37
Artigos
Completos
Atuação do
Design Estratégico junto
aos saberes artesanais
Taís Balbinot
Acadêmica do curso de Design
Resumo: Sob a ótica do design, a ex- Abstract: From the perspective of de-
Universidade de Caxias do Sul, Campus Uni- ploração de um determinado territó- sign, the operation of a particular terri-
versitário da Região dos Vinhedos (CARVI). rio propõe o desenvolvimento local, tory proposed local development, cre-
gerando valor para o espaço. Em se ating value for the environment. In this
tratando de pequenos municípios do context, this article is focused on the
Rio Grande do Sul, o design tem a performance through the strategic de-
oportunidade de atuar estrategica- sign, integration of craft manufactur-
mente permitindo o desenvolvimento ing or techniques of small towns in Rio
dos mesmos por meio da integração Grande do Sul, exploring contempora-
de manufaturas e técnicas artesanais. neously its productive potential across
Neste contexto, o presente artigo tem the need for new business in these
como tema central a atuação, por meio regions, and adverse market opportu-
do design estratégico, na integração de nity, the mass production of industrial-
manufaturas ou técnicas artesanais de ization. The objective of this project is
pequenos municípios do Rio Grande do to present a study that addresses the
Sul, explorando contemporaneamente strategic design, the historical relation-
suas potencialidades produtivas fren- ship of design with the authorial bias
te a necessidade de novos negócios crafts. The identification and contextu-
nestas regiões, e a oportunidade mer- alization of potential craftsmen, trends
cadológica adversa a produção seriada and prospects for consumption are
da industrialização. O objetivo deste also contemplated. As a contribution,
projeto é apresentar um estudo que the proposed business model includes
aborda o design estratégico, a relação visual identity, furniture collection for
histórica do design com o artesanato, residences, packaging, point of sale
e modelos de atuação da disciplina em and communication suggestion.
arranjos produtivos empresariais, arte-
sanais e de viés autoral. A identificação Keywords: design, crafts, strategy,
e a contextualização de potenciais ar- small towns.
tesãos, tendências e perspectivas de
consumo, também são contempladas.
Como contribuição, o modelo de ne-
gócio proposto contempla identidade
visual, coleção de mobiliário para resi-
dências, embalagens, sugestão de pon-
to de venda e comunicação.

Palavras-chave: design, artesanato,


estratégia, pequenos municípios.

38
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

1. Introdução do aos modelos fechados de design in- Revolução Industrial iniciada na Ingla-
dustrial da primeira metade do século terra infringiu as leis vigentes e substi-
Sob a ótica do design, a explora- XX – e design quente – relacionado às tuiu os teares manuais pela produção
ção de um determinado território pro- correntes desencadeadas a partir dos mecanizada, de forma que, segundo
põe o desenvolvimento local, gerando anos 60 em que valorizavam formas de Schneider [6], antigos camponeses e
valor para o espaço. Em se tratando de produção artísticas e artesanais. artesãos transformaram-se em uma
pequenos municípios do Rio Grande classe social de trabalhadores assala-
do Sul, o design tem a oportunidade De acordo com Krippendorff [3], a
sequência de movimentos adversos à riados operando aparelhos e máquinas.
de atuar estrategicamente permitindo
o desenvolvimento dos mesmos por linearidade dos sistemas fechados ga- A produção em série, oriunda des-
meio da integração de manufaturas e nhou forças e libertaram o design da ta revolução, denigriu drasticamente a
técnicas artesanais. Estas pequenas indústria, consentindo sua capacidade qualidade dos produtos, desencade-
regiões apresentam uma economia aberta de agregar valores semânticos ando uma série de movimentos refor-
fortemente fundamentada no setor aos objetos e de aplicar suas habilida- mistas que defendiam a naturalidade
primário da agricultura, de modo que des comunicativas. Sob esta perspec- das peças, o convívio e a colaboração
anseiam por novas oportunidades de tiva, o design assume um caráter muito entre artistas e artífices, em busca do
negócios que possibilitem utilizar mão mais participativo, estabelecendo ca- resgate e preservação das técnicas
de obra disponível no local. Apresen- nais de comunicação entre assuntos manuais [6]. Ainda de acordo com Sch-
tando diversificadas soluções constru- tangíveis e intangíveis, levando razões neider [6], os movimentos radicais ao
tivas, a intermediação do design per- e conteúdo que se distinguem em um funcionalismo ganharam força a partir
mite a potencialização e agregação de mercado saturado de mercadorias. de 1960 em todo o território mundial.
valor às produções, colaborando com Manzini e Vezzoli [4] complemen- Atribuindo características comunicati-
o município e delineando exclusividade tam que o design contemporâneo deve vas e expressivas às produções, temas
à cada peça. projetar a integração e a articulação relacionados às funções emocionais e
entre produtos, identidade visual, ser- simbólicas tornaram-se o centro das
Ao mesmo tempo, a sociedade atenções. É neste mesmo período que
pós-industrial desafia os segmentos viços e comunicação de uma empresa,
ou seja, seu sistema produto-serviço. a multiculturalidade brasileira, atra-
mercadológicos a buscar a diferencia- vés de suas distintas histórias, povos
ção e a inovação por meio de produtos Através destas competências, o design,
em seu nível estratégico, atua como o e materiais, torna o território nacional
e serviços que lhe proporcionem mais extremamente favorável a atuações de
qualidade de vida no seu cotidiano. A elo entre as empresas e a sociedade.
Esta relação entre produtos e con- design. Nos últimos quinze anos, estas
exclusividade e história das atividades oportunidades estão sendo aproveita-
manuais vislumbra uma aproximação sumidores está relacionada, segundo
Zurlo (apud [5]), com a busca de valo- das por meio de iniciativas que promo-
com este mercado, propondo uma vem encontros entre design e produ-
pausa para a contemplação do natural, res subjetivos que provocam emoções,
e que ultrapassam a fronteira do sim- ções nacionais. Organizando Arranjos
Al-Assal [1], diretor da Agência Voltage Produtivos Locais (APLs) ou associa-
explica em entrevista concedida para o ples consumo. O olhar interdisciplinar
do design estratégico estimula novas ções, muitos designers propõem negó-
site Revista Exame, que “o consumidor cios estratégicos que promovem mate-
está buscando uma vida com menos soluções sociais para pequenos muni-
cípios do Rio Grande do Sul de modo riais e técnicas locais, através de uma
estresse e estímulos”. relação de troca de conhecimentos.
que a coletividade atue no processo de
criação de valor, mudando o foco da Segundo o Serviço de Apoio à
2. Fundamentação forma do produto para um conjunto de Micro e Pequena Empresa (SEBRAE)
O complexo pensamento pós-mo- fatores a serem articulados. [7], um APL corresponde a uma aglo-
derno declina as racionalidades que se Desde que o homem criou seu meração de empresas em um mesmo
concretizaram na era industrial, influen- primeiro instrumento em pedra las- território, que apresentam especialida-
ciando de maneira geral as diferen- cada, a produção manual foi a única des produtivas comuns, e que mantêm
tes áreas do saber. As consequências maneira de construir o que precisava. um vínculo de interação, cooperação
científicas, tecnológicas, formativas O desenvolvimento de ferramentas e e aprendizagem entre si e entre ou-
e sociais frente a nova abordagem da habilidades, desencadeou em milênios tros atores locais. Diversos APLs são
disciplina do design, foram classificadas seguintes o surgimento do profissio- criados e/ou conduzidos por profissio-
por Maldonado [2], em seu livro Design nal artesão, responsável pela criação e nais da área de design, que através de
Industrial, como design frio - associa- execução das peças. No século XVIII, a metodologias específicas identificam

39
Artigos
Completos
traduzem estas características em pro- produtos com análises complementa-
oportunidades de atuação nestas áreas dutos contemporâneos e adaptados as res, como a de referencial dimensional
e propõem o desenvolvimento de um necessidades do consumidor pós-mo- buscado junto a Panero e Zelnik [14].
projeto. A atuação do designer como derno. Ainda sob orientação de Bonsiepe [13],
articulador, sugere a troca mútua de Estes modelos de atuação, corro- explana-se cenários para a geração de
conhecimentos, a exemplo de Dijon de boram com o tema central deste pro- alternativas utilizando-se a ferramenta
Moraes que atuou em três APLs brasi- jeto, estimulando, por meio do design estratégica de Mapa de Polaridades.
leiros atualmente ativos: Coleção Ubá estratégico, a identificação e desenvol- Complementando o sistema, Seragini
Móveis de Minas, Projeto Goiânia De- vimento de potenciais negócios junto a por Negrão e Camargo [15], orientam
sign, e Oficina de Design – Móveis do manufaturas e artesãos de pequenos o desenvolvimento das embalagens, e
Oeste de Santa Catarina. Nestas atua- munícipios do Rio Grande do Sul. Bonsiepe [13] auxilia na estruturação
ções, Moraes [8] orienta-se pelas pre- de Ponto de Venda.
missas de que sejam utilizadas somente
3. Metodologia
matérias-primas existentes nas micro e 3.1. Coleta de dados
pequenas empresas participantes, que Com a função de conduzir o pro-
não sejam adquiridos maquinários e cesso projetual de acordo com os obje- Para poder propor um sistema
ferramentas que inviabilizem a inserção tivos do autor, a metodologia utilizada produto-serviço eficaz, faz-se neces-
de design, e que as referências cultu- flexibiliza-se fazendo uso de distintos sário identificar aptidões artesanais
rais sejam inseridas através de signos modelos, autores e etapas. A nível ma- e compreender suas particularidades
e ícones que representem o território. cro, o projeto em questão orienta-se técnicas e objetivos futuros. Diante
pelo Metaprojeto proposto por Mora- disto, parte-se da área do estado do
No que tange a relação do de- Rio Grande do Sul, na qual identifica-se
sign com o artesanato, destaca-se a es [8]. As informações pertinentes são
obtidas através de pesquisas qualitati- a produção agrícola como a principal
atuação de designers junto a órgãos economia dos pequenos municípios.
públicos como o SEBRAE [7], onde vas, documentais e de observação jun-
to a instituições como o Instituto Brasi- Ao mesmo tempo, observa-se que o
desenvolvem um conjunto de ações artesanato supre necessidades cotidia-
interdisciplinares que buscam ampliar leiro de Geografia e Estatística (IBGE),
Órgãos municipais e artesãos locais. nas e por vezes auxilia na complemen-
a capacidade produtiva dos artesãos, tação da renda.
melhorar a qualidade e estrutura téc- Os resultados obtidos são ainda expla-
nica do artefato, e promover a inserção nados através das ferramentas Canvas Em nível mundial, a predominância
e a permanência do produto artesanal e matriz SWOT. da agricultura em pequenos municípios
no mercado. Informações mercadológicas são causa inquietude frente ao êxodo ru-
coletadas nas macrotendências da ral dos jovens, e ao envelhecimento da
Os designers Heloisa Crocco e população local, tornando estes terri-
Renato Imbroisi atuam individualmen- Box1824 e em relatórios de tendências
da WGSN [10], que complementadas tórios sedentos por novas oportunida-
te desenvolvendo cuidadosos traba- des.
lhos junto a potenciais comunidades por painéis semânticos propostos por
artesanais. Nestes espaços, buscam Baxter [11], buscam identificar e cons- Os dados adquiridos sobre o ter-
revitalizar produtos regionais, forta- truir personas através da técnica de ritório gaúcho, permitem identificar
lecer pequenos negócios, e manter a Mapa de Empatia. Estas etapas pos- o pequeno município de Monte Belo
personalidade local nos artefatos [9]. sibilitam o cruzamento e a integração do Sul como um excelente panorama
As intervenções dos designers têm objetiva das informações, permitindo para a inserção de novas propostas.
como principal objetivo fortalecer o a elaboração da proposta de negócio Com 70% da economia alicerçada na
artesanato local e despertar nos arte- pelo uso da ferramenta 5W1H, e a agricultura, os problemas são decor-
sãos o sentimento de pertencimento. construção de uma lista de requisitos rentes e políticas públicas começam a
O design autoral também busca nas com as narrativas de negócio, marca e ser construídas como incentivo à ativi-
técnicas de produção manual carac- produto. O avanço no projeto delineia dades artesanais.
terísticas singulares para os produtos a sua missão, visão e valores, a produ- Considerar o território local, e suas
confeccionados, cada detalhe execu- ção de sua storytelling. disponibilidades e acessos, são indis-
tado pelo saber das mãos carrega uma A contribuição projetual de identi- pensáveis durante uma proposta que
história, resgata a cultura de um local e dade visual e comunicação é orientada prevê a interação entre personagens
aproxima o usuário ao objeto. Desig- Wheeler [12], ao mesmo tempo em locais. Frente a esta necessidade, de-
ners como Paula Dib e Sérgio Matos, que Bonsiepe [13] conduz a criação de senvolveu-se um modelo de atuação,

40
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

para orientar a ação deste autor na tencentes ao negócio e o panorama in- raízes que compõem sua própria iden-
atual e futuras intervenções em muni- terno e externo de cada atividade. tidade. Estas projeções ressaltam que
cípios: As condições materiais e produti- os lares buscam sintonia com o entor-
a. diagnóstico local - busca verificar a vas trabalhadas pelos artesãos orien- no, com interesse na origem dos ma-
história, as pessoas, a cultura e os tam para que a proposta considere teriais, dos produtos e dos recursos,
anseios dos artesãos, bem como as o uso da madeira aliado a técnica do ao mesmo tempo em que o retorno
técnicas e materiais por eles traba- crochê ou da dressa, enfatizando desta ao básico e simplificado ganha espaço
lhados; forma cada uma das habilidades, com através da valorização das habilidades
b. tendência de mercado e consumo uma linguagem clara e sem excessos. do fazer manual, construindo uma re-
- coleta e análise de informações Cabe ressaltar que durante as en- lação de confiança nas mãos, onde o
contemporâneas e tendenciosas trevistas a apresentação do objetivo tato, as texturas e o processo artesanal
fazendo uso de materiais dispo- projetual do negócio despertou nos permitem aproximar o consumidor ao
nibilizados por empresas da área artesãos o sentimento de valorização e produto.
de pesquisa, como a Box1824 e orgulho de seu trabalho. Estes estudos permitem identificar
WGSN; Para o avanço deste projeto à fase o atual e futuros cenários mercadoló-
c. análise de cases – analisar modelos de elaboração do modelo de negócio, gicos, através da construção de três
de negócios existentes e relaciona- faz-se necessário um estudo direcio- perfis de consumidores, as chamadas
dos ao tema estudado e tendên- nado a tendências mercadológicas de personas: Persona 1 – As memórias de
cias identificadas; comportamento e consumo, que per- Cibele; Persona 2 – A pausa de Octá-
d. definição e desenvolvimento da mitam delinear o público-alvo e sua re- vio; Persona 3 – A conscientização de
estratégia - planejamento e exe- lação com o fazer artesanal. Maria Clara.
cução do sistema produto-serviço As personas construídas, relacio-
sob orientação de metodologias nam-se diretamente com as tendências
específicas.
3.2 Mercado e Personas
de mercado identificadas e buscam nos
Através da etapa de diagnóstico As informações pertinentes ao elementos naturais e na contraposição
local, analisou-se informações cole- atual contexto de tendências foram dos produtos industrializados o seu
tadas junto a Prefeitura Municipal de adquiridas por meio da consulta a duas refúgio e bem-estar. Estes elementos
Monte Belo do Sul e identificou-se tradicionais ferramentas virtuais espe- permitem a associação com a origem
três técnicas atrativas na participação cializadas em pesquisa de tendências e essência individual, com a pausa ao
deste projeto, por apresentarem boas de consumo, comportamento e inova- acelerado ritmo cotiado e com a apro-
oportunidades produtivas e resultados ção: a Box1824 [16] e a WGSN [10]. ximação a origem e história do produto
imediatos: A tradicional tanoaria do A Box1824 [16] destaca que o consumido.
município, oportuniza o desenvolvi- mundo caótico se encontra locado sob Seguindo este tendencioso movi-
mento de projetos variados e é seden- um ritmo inalcançável de atualizações, mento, modelos de negócios foram se-
ta por novas opções, uma vez o adven- notificações e curtidas, desencadean- lecionados como fonte de estudo para
to do uso do inox e do poliestireno nas do, desta forma, um tendencioso movi- uma análise aprofundada. A atuação de
vinícolas, diminuiu expressivamente as mento de desaceleração nomeado de cases como Heloisa Crocco, Paula Dib,
vendas. Ao mesmo tempo, o artesana- Quiet Bliss. Este movimento propõem Nani Marquina, Sixay e Naomi Paul fo-
to de palha de trigo e de crochê, des- uma redução no ritmo, nos excessos, ram analisados em nível de modelo de
tacam-se por carregar uma história, o na poluição visual, sonora e de infor- negócio, identidade visual e coleção de
saber tradicional e a exclusividade do mação, para um comportamento que produtos, permitindo um completo re-
feito à mão, despertando uma curio- valorize a reconexão individual e com latório com dados relevantes que per-
sidade para o fazer contemporâneo, o mundo ao redor. mitem avançar a etapa de definição do
estimulando a geração de renda e a
Complementando estas previsões, projeto.
transferência do saber à futuras gera-
a WGSN [10] propõe em cenários ten-
ções.
denciosos para 2017/2018, um olhar
A partir da definição dos artesãos, mais autêntico nas relações de consu-
entrevistas com roteiro semiestrutu- mo, onde estímulos devem possibilitar
rado foram realizadas no período de um estilo de vida livre e com pausas,
28 de março a 18 de abril, permitindo que evolua e conecte os indivíduos à
identificar os elementos principais per- natureza, os movendo em direção às

41
Artigos
Completos
Além da integração dos artesãos, De acordo com as primeiras frases,
4. Definição do projeto as coleções desenvolvidas necessitam os Sabores conectam-se às áreas de
ser consumidas, portanto a forma de preparo, seja para rememorar algum
A coleta e análise das informações comercialização deve estar atrelada acontecimento ou para buscar novas
obtidas, reafirmaram a oportunidade aos anseios do público-alvo, conside- experiências. É na cozinha e na varan-
de atuação estratégica do design em rando seu estilo de vida, e propondo, da gourmet em que o manuseio dos
pequenos municípios do Rio Grande de forma contemporânea, a revitaliza- alimentos exaltam a peculiaridade de
do Sul. Através da exploração de suas ção do fazer artesanal, permitindo a ele cada ingrediente, envolvendo e aproxi-
características locais, é possível de- uma pequena pausa no cotidiano. mando as pessoas.
senvolver o território, gerando renda e
Propriamente relacionado com o O Concepts Fazeres descrito na
trabalho, e contribuindo culturalmente
atual contexto, o ex-prefeito, escritor Storytelling, estabelece conexões com
na valorização e resgate do saber ar-
e profundo conhecedor da história o compartilhamento e com a busca de
tesanal de cada região. É neste cená-
de Monte Belo do Sul, Leonir Olímpio informações, é na receptividade, no
rio, de características peculiares, que
Razador, enfatizou, durante a etapa de acolhimento e na comunicação entre
Monte Belo desponta como uma in-
entrevista que “a sociedade contempo- pessoas que se descobre e perpetua-
teressante área de atuação inicial, suas
rânea está perdendo três valiosos as- -se os conhecimentos, seja no hall de
aptidões emergem por novos projetos
pectos, que são os sabores, os fazeres entrada, nos corredores, no living, no
que estimulem o desenvolvimento de
e os valores”. Estes poderosos dizeres jardim, na varanda ou no escritório.
negócios.
inspiram e orientam a construção con- Ao mesmo tempo, os Valores re-
A benevolência dos personagens ceitual do projeto, através de cenários. lacionam-se com a intimidade, com o
locais permite a integração harmôni-
Para o âmbito residencial, aborda- indivíduo em sua pessoalidade, é no
ca e contemporânea das atividades, é
do nesta primeira atuação - em vista lavabo, no banheiro, na área de servi-
através de suas limitações produtivas
das tendências mercadológicas que di- ço e no dormitório, que o olhar interno
e facilidade de acesso às matérias-pri-
recionam para “casa” - os três valores ganha força.
mas, que o modelo de negócio (figura
aproximam-se do consumidor fazendo
1) oportuna a fazer o novo com o que
uso da ferramenta Storytelling, a qual
já trabalham.
também toma como referencial os per-
Figura 1 – Modelo de Negócio Coleção MomBelo
(Fonte: a autora)
fis das personas construídos nas etapas
anteriores, apresentando-se conforme
a narrativa da figura 2.

A sistemática adotada neste mo-


delo, elenca a Tanoaria como contato
principal, graças a uma série de fatores
como cadastro de pessoa jurídica, es-
trutura física, localização e equipe da
mesma. O modelo também prevê que
os artesãos devem se reunir semanal-
mente para alinhamento e administra-
ção de assuntos, e que o autor deste
projeto deve participar sempre que
necessário na orientação e condução
do negócio.
Figura 2 – Storytelling Projeto Docere (fonte: a autora)

42
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

de possíveis e futuras produções ar- e experiências. São nestes ambientes


4.1 Identidade visual tesanais ou manufaturas. A simbologia que o morador passa mais tempo, que
inspirou-se no elemento ‘linha’ reve- há maior circulação de pessoas, e que
Avançando na contribuição de
renciando pureza e essência. É a par- recebe as visitas, entendendo-se que
projeto, faz-se necessário a construção
tir da pureza da linha, que se obtém a produtos locados nestes ambientes
de uma identidade visual que possa re-
forma geométrica de um triângulo, que ganham maior visibilidade, a que é ex-
presentar toda a essência relacionada
auxilia positivamente na comunicação tremamente positivo por se tratar de
(figura 3).
de uma marca com o mercado por re- uma coleção inicial.
Figura 3 – Malha construtiva e versão final do presentar força, crescimento e solidez.
logotipo Por este mesmo motivo, opta-se
Na marca, o triângulo é replicado e pela execução de produtos que se
rotacionado, permitindo a construção adaptem facilmente aos diversificados
de formas que se relacionem a diver- ambientes, aumentando a aplicação e
sas técnicas artesanais e aos Concepts. consequentemente o possível consu-
Contrastes e alinhamentos buscam mo. Busca-se também, que a Coleção
evidenciar a naturalidade das técnicas, desenvolvida crie uma composição en-
construindo uma linguagem sólida, ele- tre si, de forma que seja possível adqui-
gante e harmônica. rir todos os produtos; ou que possam
Complementando a comunicação ser compostos com outras propostas,
de marca, para cada Concept desen- permitindo a aquisição de forma indi-
volveu um partner construído a partir vidual.
do símbolo utilizado no logotipo. E alia- Para a geração de alternativas da
do ao partner, a cada coleção recebe coleção, foram construídos dois ce-
uma nomenclatura que deve relacio- nários criativos com as características
nar-se com o território de aplicação do opostas e enquadradas na narrativa
projeto. Para este projeto, com atuação de produto. A Coleção Mombelo exe-
em Monte Belo do Sul, o nome escolhi- cutada a partir da técnica da madeira
do - MomBelo - relaciona-se ao nome com aplicações em dressa, é composta
do próprio município, apresenta boa por aparador com luminária decorativa,
fonética, de fácil memorização e pro- mesa de centro, mesa lateral e nicho
Frente a diversos estudos, a pala- núncia. (figura 4).
vra Docere é eleita como a identifica- A fim de consolidar a marca e sua
ção deste projeto. Derivada do latim, comunicação com o mercado, as in-
apresenta a tradução literal ‘ensinar’, formações pertinentes a identidade
associando-se ao novo, a troca de co- visual foram detalhadas em Manual
nhecimento, ao princípio e a essência, de Identidade Visual, juntamente com
sua pronúncia também remete a pala- aplicações institucionais – cartão de
vra italiana ‘conocere’, conhecer. visita, folha timbrada, envelope, pasta
A partir desta fundamentação, e adesivo – e aplicações promocionais
realizou-se a combinação da palavra a direcionadas a coleção - difusor de am-
possíveis taglines, de modo que, por bientes, bloco de anotações, pen drive
e caneta. Figura 4 – Coleção MomBelo - dressa (Fonte: a
questão fonética e de fácil percepção autora)
sobre o artesanal, identificou-se a pala-
A utilização das aplicações de dres-
vra ‘Artisan’ como melhor opção, ape- 4.2. Coleção de Produtos sa em rebaixes executados na madeira,
sar de ser uma palavra inglesa apresen-
Partindo dos Concepts de am- tem por intuito propiciar um efeito de
ta uma pronúncia intuitiva e torna claro
bientes residenciais propostos para o unicidade e fusão das duas técnicas. O
o segmento abordado.
desenvolvimento de Coleções, iden- contraste entre o dourado da palha de
Para a construção gráfica (figura tifica-se que como primeiro projeto trilho e a madeira, levam sofisticação
3), também se considera a importância cabe uma Coleção voltada para os Fa- e elegância a ambientes, exaltando a
dos Concepts Sabores, Fazeres e Valo- zeres, pois nestes ambientes ocorre o produção artesanal feita com esmero.
res, atingindo neste nível uma relação compartilhamento de conhecimentos O objetivo também é explorar a pureza

43
Artigos
Completos
decorada com os itens orientados. 6. Referências
da técnica, cordões de palha costura- Por fim, fortalecendo a atuação [1] AL-ASSAL. Marketing – Tendências. Revista Exame.
dos entre si com linha permitem o efei- proposta, a comunicação do Projeot São Paulo: Abril, 2011. Disponível em: <http://www.
exame.abril.com.br//>. Acesso em 10 mar.2016.
to. Docere e da Coleção MomBelo tam-
[2] MALDONADO, T. Design industrial. Tradução:
A Coleção Mombelo executada a bém ocorre através de materiais im- José Francisco Espadeiro Martins. Portugal: Edições
partir da construção de peças em cro- pressos - catálogo, trends, posts/mol- 70, 1999.
chê aliadas a madeira, é composta por duras – e de meio virtual - site e página [3] FRANZATO, C. A forma das ideias: concept, design
aparador com luminária decorativa, no facebook. As informações contidas e design conceitual. In: Congresso Internacional da
Associação de Pesquisadores em Crítica Genética.
mesa lateral, banco e prateleira, con- nestes materiais compreendem uma Anais, X edição, 2012.
forme figura 5. A aplicação do crochê breve descrição do projeto, seguido
[4] MANZINI, E.; VEZZOLI, C. O desenvolvimento de
junto a madeira tem por intuito explo- de comentários sobre o local em que produtos sustentáveis: os requisitos ambientais dos
rar o efeito do alçamento dos fios, apli- a Coleção foi desenvolvida, e então a produtos industriais. São Paulo: Editora da Universida-
de de São Paulo, 2002.
cado em detalhes, a técnica possibilita apresentação dos produtos conforme
exclusividade e mantem integridade o Concepts. [5] COSTA, F.C.X.; SCALETSKY, C. C. Design Manage-
ment & Design Estratégico: uma confusão conceitual?
com a madeira. Disponível em: <//http:www.ddimkt.xpg.uol.com.br//>.
Acesso em 23 abr.2016.
5. Considerações finais
4.3. Embalagem, PDV e [6] SCHNEIDER, B. Design – uma introdução: o design
no contexto social, cultural e econômico. São Paulo:
Comunicação Este projeto permitiu a construção Editora Blücher, 2010.
do Projeto Docere, e vertendo deste
Em vista do modelo de negócio a Coleção MomBelo, que integra três
[7] SEBRAE. Termo de referência para atuação do sis-
tema SEBRAE em arranjos produtivos locais. Brasília:
proposto neste projeto, entende-se artesãos do pequeno município de Sebrae, 2003.
que a embalagem tem a importância Monte Belo do Sul. O Projeto valoriza a [8] MORAES, D. Metaprojeto: o design do design. São
de acondicionar, proteger e identificar mão-de-obra disponível no local e gera Paulo: Blucher, 2010.
as peças, pois em lojas de decoração renda ao envolvidos. [9] CROCCO, H. Revista Espaço Design. Entrevista
e boutiques os produtos são expostos de 2013. Disponível em: <http://www.revistaed.com.
para a comercialização sem embala- Compreende-se ainda, que em br//>. Acesso em 15 mar.2016.

gem. Portanto, desenvolveu-se uma curto espaço de tempo mais pessoas [10] WGSN. Lifestyle & Interiors Forecast A/W17/18.

embalagem com linguagem clara e ob- deverão se envolverem na confecção Disponível em: <http://www.wgsn.com//>. Acesso em
05 abr.2016.
jetiva, em papelão na cor pardo e com das peças, e novos produtos poderão
um adesivo contendo informações so- ser desenvolvidos, contribuindo ex- [11] BAXTER, M. Projeto de Produto: guia prático
para designer de novos produtos. São Paulo: Edgard
bre a coleção. pressivamente com o desenvolvimento Blücher, 2000.
local.
Conforme citado, os produtos [12] WHEELER, A. Design de identidade de marca.

desenvolvidos serão comercializados As peças desenvolvidas, aproxi- Porto Alegre: Editora Bookman, 2008.

através de lojas de decoração e bouti- mam-se do consumidor, fornecendo [13] BONSIEPE, G. Metodologia experimental: dese-
nos detalhes naturais da cor, da textu- nho industrial. Brasília: CNPQ/ Coordenação Editoral,
ques, diante disto, é válido o desenvol- 1984.
vimento de uma proposta que oriente ra, do odor e da construção, o estímulo
[14] PANERO, J.; ZELNIK, M. Las dimensiones
a exposição dos produtos, a fim de para a pausa e a contemplação. humanas em los espacios de interiores: estándares
manter a unicidade e fortalecer a iden- O resultado obtido neste projeto antropométricos. México: Ed. G.Gili, 2001.

tidade. piloto, vislumbra futuras oportunida- [15] NEGRÃO, C.; CAMARGO, E. Design de Emba-
lagem: Do Marketing à Produção. São Paulo: Editora
A sugestão elaborada consiste em des de atuação no desenvolvimento Novatec, 2008.
um tablado na cor branca para acomo- de novas coleções que façam uso de
[16] BOX1824. Quiet Bliss. Disponível em: <//ht-
dação dos produtos, e na ambientação outros Concepts, na identificação de tp:www.box1824.com.br//>. Acesso em 05 abr.2016.

das peças com o uso de objetos deco- novas ações frente a outros municípios
rativos em cerâmica, pequenos verdes, do Rio Grande do Sul, e na potencia-
porta-retratos e livros, elementos pro- lidade de externar as ações, inclusive
mocionais desenvolvidos para a Cole- para outros estados e países.
ção MomBelo também são sugeridos. Por fim, conclui-se que o projeto
Se por limitação de espaço físico ou apresenta uma solução útil, vislum-
outra eventualidade, não seja possí- brando em disciplinas multidisciplina-
vel a inserção da proposta completa, res, oportunidades, assim como nos
a peça deverá obrigatoriamente estar instiga o Design Estratégico.

44
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

Figura 5 – Coleção MomBelo – crochê (Fonte: a autora)

45
Artigos
Completos
Relações entre
o perfil cultural e psicológico
de estudantes universitários
e a habilidade de interpretação
de gráficos
Gladis Frank da Cunha
Mestrado Profissional em Ensino de Ciências
Resumo: A compreensão sobre o fun- Palavras-chave: Aprendizagem
e Matemática cionamento cerebral pode contribuir humana. Neuroeducação.
Centro de Ciências Exatas, da Natureza e para a configuração de estratégias di- Interpretação de gráficos. EEG.
Tecnologia
Lucas Furstenau de Oliveira dáticas capazes de explorar as manei-
Especialização em Neurociências Aplicada à ras através das quais o sistema nervoso
Linguagem e à Aprendizagem
é capaz de aprender, reconfigurando as
Abstract: In this article, we analyzed
Marilda Machado Spindola the responses of engineering students,
Mestrado Profissional em Ensino de Ciências relações entre ensino e aprendizagem.
e Matemática when they were asked to correlate the
No presente artigo, analisaram-se as
Centro de Ciências Exatas, da Natureza e core information of a text with one of
Tecnologia respostas dadas por estudantes de en-
three observed graphs during a collec-
Cíntia Paese Giacomello genharia, quando foram solicitados a
Centro de Ciências Exatas, da Natureza e tion of EEG signals. Furthermore, the
Tecnologia relacionar a informação central de um
relationship between the right answers
Alien Mavi Frantz texto com um entre três gráficos apre-
Licenciatura em Ciências Biológicas and the information relating to cultural,
Augusto Poletto Cutulli
sentados, durante uma coleta de sinais
emotional and physical constants of a
Engenharia Eletrônica eletroencefalográficos. Além disso, as
Leonardo Cechet Moro questionnaire of research answered by
relações entre as respostas certas e
Engenharia Elétrica each participant were correlated sta-
as informações relativas aos aspectos
tistically using the Pearson Chi-square
culturais, físicos e emocionais, constan-
test. The difficulty in solving the task,
tes de um questionário preenchido por
which involved working memory,
cada participante foram correlaciona-
showed positive correlations, which
das estatisticamente pelo método do
highlight aspects relevant about the
Qui-quadrado de Pearson. As dificul-
cognitive processes, involved in this
dades evidenciadas na resolução da
action. It is suggested that basic edu-
tarefa, que envolveu a memória traba-
cation should develop better capabili-
lho, apontaram correlações positivas,
ties of the episodic buffer, of the pho-
que evidenciam aspectos relevantes
nological loop and of the visuospatial
aos processos cognitivos envolvidos
sketch, enabling participants to better
nesta ação. Sugere-se que a educação
withstand the emotional stress related
básica deve desenvolver melhor as ca-
to the unusual environment.
pacidades do buffer episódico, da alça
fonológica e do esboço visuoespacial,
habilitando os participantes a resisti- Keywords: Human Learning. Neuro-
rem melhor ao estresse emocional re- educational approach. Interpretation
lacionado ao meio ambiente incomum. of graphs. EEG.

46
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

1. Introdução A abordagem investigativa adota- entre o corpo e seu meio; o segundo,


da no presente artigo leva em consi- situado no hemisfério esquerdo repre-
A área da Neurociência tem sido deração as bases biológicas do conhe- senta os fonemas, suas combinações e
responsável por descobertas significa- cimento humano e do funcionamento as regras sintáticas de ordenação das
tivas sobre o funcionamento do cére- cerebral e visa o desenvolvimento de palavras em frases, o terceiro conjun-
bro, incluindo processos de interesse práticas pedagógicas que explorem to, também presente no hemisfério
para a área da Educação, pois respon- da melhor maneira as possibilidades esquerdo, coordena os dois primeiros,
dem pela aprendizagem humana. A cerebrais, a fim de desenvolver habili- produzindo palavras a partir de concei-
compreensão destes processos pode dades e competências que favoreçam tos ou conceitos a partir de palavras [7].
contribuir para a configuração de es- a aprendizagem de conteúdos comple- Pinker [8] também ressalta que possu-
tratégias didáticas capazes de explorar xos. ímos faculdades cognitivas e intuições
as maneiras através das quais o sistema inatas, além de uma lógica, um banco
nervoso é capaz de aprender, recon- O avanço tecnológico no seu con-
junto proporcionou um grande incre- de dados mental e a linguagem, sendo
figurando as relações entre ensino e que todos esses aspectos suportam
aprendizagem. mento à velocidade das ações humanas
e está demandando alternativas peda- as especializações mais avançadas da
Alguns autores consideram que gógicas, que viabilizem a educação para mente, quando o sujeito é submetido
esta abordagem possa ser definida a ciência. Quando almejamos uma edu- à aprendizagem formal.
como Neurodidática [1]. Em relação cação científica, devemos investigar o Alguns neurocientistas descrevem
aos processos de aprendizagem, já fo- funcionamento cerebral relacionado à o cérebro como um sistema dinâmico
ram identificados efeitos associados a elaboração de conceitos complexos e que nasce com um estoque básico de
diversos fatores tais como diferenças níveis de abstração elevados. saber e começa a dirigir perguntas ao
culturais e de gênero. Sobre o aspecto exterior. Experimentos com animais in-
da influência cultural, observaram-se Damásio [6] esclarece que cada
conjunto das áreas sensoriais se comu- dicaram que a hereditariedade é impor-
alterações estruturais no cérebro hu- tante na estruturação do equipamento
mano em função do aprendizado dife- nica com uma série de regiões inter-
postas, de modo que a comunicação básico para a construção neuronal,
renciado [2]. pois é através do fluxo das informações
entre os setores de entrada de estí-
Também se observou que a ida- mulos e os de saída, não é direta, mas provenientes dos sentidos e da intera-
de influencia os resultados, quando o mediada por uma arquitetura complexa ção dinâmica e constante com o meio
processo de aprendizagem for aplicado de neurônios interligados. A atividade que se define a forma como o sistema
sobre conteúdos formais complexos destas redes neurais interligadas cons- nervoso irá se desenvolver, capacitan-
e de ordem espacial [3; 4; 5]. As des- trói e manipula as imagens da mente. do-o para diferentes aprendizagens e
cobertas de padrões de organização Com base nessas imagens interpreta- talentos. A transposição destes acha-
e funcionamento do pensamento hu- mos os estímulos apresentados aos dos para a espécie humana é viável,
mano têm possibilitado a criação de córtices sensoriais iniciais, de modo a apesar de termos recursos, como a lin-
novas hipóteses sobre o processo de organizá-las na forma de conceitos. guagem, que viabilizam aprendizagens
aprendizagem que atingem os sistemas mais complexas.
motores e cognitivos. Não “sabemos” ver sem conceituar
o que é visto, logo não há percepção Em outras palavras, a multiplicida-
Há ainda muito a ser investiga- “pura”, pois estamos sempre interpre- de dos estímulos exteriores influencia
do sobre o cérebro humano. Um dos tando os estímulos. Ao interpretar usa- a complexidade das ligações entre as
desafios deste campo investigativo mos razão e emoção de forma que não células nervosas e como elas se co-
é descobrir técnicas que permitam apenas definimos como também quali- municam entre si [1]. Que importância
identificar efeitos causados por estes ficamos o mundo, que somos capazes isso tem para a didática? Quais são os
diferentes fatores socioculturais ou de de assimilar. caminhos possíveis para o desenvolvi-
gênero na atividade cerebral durante mento de talentos necessários a cons-
realização de atividade cognitiva. Por A linguagem desempenha um pa-
trução dos conhecimentos científicos?
tais motivos, julgou-se interessante as- pel central nestes processos e se suge-
Perguntas como essas podem se cons-
sociar medições da atividade cerebral re que envolva a interação entre três
tituir em objetos de estudo da neuro-
com dados relativos ao perfil sociocul- conjuntos de estruturas neuronais. O
didática ou da neuroeducação, pois,
tural e educacional dos voluntários da primeiro, composto de numerosos sis-
segundo Friedrch e Preiss [1], quando
pesquisa, buscando correlações signi- temas neuronais dos dois hemisférios,
são fornecidos os estímulos intelectu-
ficativas. representa interações não linguísticas
ais de que o cérebro precisa, as capaci-

47
Artigos
Completos
com 28 estudantes. 2.2 Descrição do experimento
dades mentais podem se desenvolver Esta pesquisa visou relacionar o O experimento proposto nesta
e o aprender é facilitado. perfil dos participantes com a capaci- pesquisa consta da captura de sinais
Efetivamente, a intersecção entre dade de interpretar um texto e asso- por Eletroencefalografia durante a
didática e educação com neurociências ciá-lo corretamente a uma imagem de exposição ao estímulo visual de três
tem se apresentado como requerendo gráfico de linha. Partiu-se da hipótese gráficos de linha (descendente, ascen-
um novo paradigma. Investigações que de que interpretar imagens seria uma dente e constante), cada um deles re-
pretendem estabelecer pontes entre atividade de relativa facilidade para lacionado a um texto de quatro linhas
os conhecimentos oriundos das áreas acadêmicos que desenham ou utili- sobre custos do pão. No presente ar-
acima precisam atender vários requisi- zam softwares gráficos, mas decidiu-se tigo, analisaram-se as respostas dadas
tos com relação ao rigor na obtenção explorar mais detalhadamente o perfil por estudantes de engenharia, quando
dos dados para que seus resultados se- dos pesquisados, incluindo questões foram solicitados a indicar qual gráfico
jam considerados válidos [9]. sobre leitura, padrão de atividade físi- apresentado estaria representando a
ca, cultura e vários outros aspectos da informação central de um texto, que
Em vista do acima exposto, partiu-
formação educativa, além de seus es- foi lido sem a visualização simultânea
-se da perspectiva que, aliada ao co-
tados emocionais. dos gráficos.
nhecimento cerebral, a investigação do
perfil dos pesquisados pode oferecer A exposição aos gráficos e leitura
dados importantes para compreensão 2. Material e métodos do texto foram realizadas no interior de
dos seus processos cognitivos. Pode uma Gaiola de Faraday, com os volun-
ser percebido empiricamente através 2.1 Perfil dos participantes
tários conectados a um equipamento
da prática docente que diferentes per- Os participantes desta pesquisa de eletroencefalografia, pois os seus si-
fis cognitivos apresentam diferenças foram estudantes dos cursos de enge- nais cerebrais estavam sendo captura-
nos processos de aprendizagem. Por nharia elétrica, eletrônica, de produção, dos, durante os períodos de exposição
isso a compreensão dos processos que mecânica e química da UCS/CARVI, aos gráficos. Estes sinais bioelétricos
levam a construção destes diferentes todos do sexo masculino. A faixa etá- cerebrais serão modelados matemati-
perfis deve ser uma questão central ria ficou compreendida entre 18 e 30 camente e analisados para futura pu-
da educação. Ou seja, ao se destacar anos ou mais, sendo que a maioria dos blicação. O detalhamento sobre a exe-
o papel da interação com o meio no participantes ficou entre 18 e 29 anos cução do experimento é apresentado
desenvolvimento das habilidades cog- (78,5%). Ao preencherem o questioná- a seguir.
nitivas para a construção do raciocínio rio, 22 participantes declararam serem
lógico e abstrato, torna-se justificável naturais da serra gaúcha e 6, de outras 2.2.1- Preparação.
o entendimento sobre como se dá a regiões do Estado. Como esperado, 20
construção do conhecimento na via dos participantes (71,43%) declararam Nesta etapa, os participantes fo-
cultural. que sua cultura pessoal predominante ram informados sobre todos os pro-
Nesse contexto, buscou-se in- se relaciona com a imigração italiana. cedimentos do experimento, iniciando
vestigar as relações entre o percen- pela necessidade de uso de equipa-
Apenas 2 dos 28 participantes dis-
tual de acerto das respostas dadas as mento especial como uma touca com
seram que dedicam seu tempo somen-
questões propostas no experimento eletrodos modelo 10-20 (Sistema Jas-
te aos estudos, enquanto os demais,
sobre interpretação de gráficos e a per), colocação de gel a base de água
além de estudar, também trabalham.
experiência prévia de estudantes dos para contato com a pele que permite
Nenhum dos participantes declarou
cursos de Engenharia do Campus Uni- maior transferência de energia entre
ter usado medicamentos ou drogas de
versitário de Região dos Vinhedos da o escalpo e o equipamento EEG. A
efeitos psicotrópicos, assim como nin-
Universidade de Caxias do Sul (CAR- aquisição dos sinais de EEG é realizada
guém se declarou triste ou deprimido.
VI/UCS), incluindo características dos numa sala com temperatura adequada
Todos declararam que assistem e com iluminação indireta. A coleta é
seus perfis, com questões sobre algu- televisão, variando apenas a frequên-
mas habilidades cognitivas, motoras realizada no interior da Gaiola de Fa-
cia com que o fazem. Somente um dos raday (produto resultante da pesquisa
e seu estado emocional no momento participantes informou que estava com
da investigação. Assim, entre junho de desenvolvida pelo professor Alexandre
sono, enquanto os demais se qualifica- Mesquita junto ao Laboratório de Bios-
2011 a junho de 2012 pesquisou-se a ram como bem-dispostos no momento
habilidade de interpretação de gráficos sinais do Centro de Ciências Exatas,
da coleta de dados. da Natureza e Tecnologia do Campus

48
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

Universitário da Região dos Vinhedos 2.2.3- Leitura de um texto


da Universidade de Caxias do Sul).
Após a apresentação dos três grá-
Para medição dos sinais, os parti- ficos a captura dos sinais era interrom-
cipantes foram posicionados em uma pida e o participante recebia um tex-
cadeira com encosto para tronco e to impresso, contendo a descrição de
cabeça no interior de uma Gaiola de uma situação relacionada a preços que
Faraday, com temperatura adequada e sobem, ficam estáveis ou decrescem,
iluminação indireta. Nestas condições, como apresentado na tabela 01, para
ficaram sentados da maneira o mais que o evento descrito fosse relaciona-
confortável possível, conectados ao do a um dos gráficos.
conjunto de eletrodos aderidos ao es-
calpo, através de uma touca (figuras 1 e
2). Antes do início da captura dos sinais Figura 2: Detalhe da conexão da touca com o
Tabela 01 – Textos relacionados a descrição de
uma situação relacionada a variação de preços
é feita a gravação do sinal cerebral de equipamento de captação de sinais cerebrais.
base para ser armazenado como me- TEXTO 1:
dida de referência (sinal de base). Para 2.2.2- Exposição inicial aos gráficos O Propan, serviço de consultoria
esta gravação é solicitado que o par- especializado em panificadoras,
ticipante da pesquisa feche os olhos e Após a preparação do voluntário
no interior da Gaiola de Faraday, os divulga em sua página na Internet
relaxe. a tabela de composição de custos
equipamentos para a apresentação
O procedimento de captura de visual dos estímulos e para a coleta do pão francês. Segundo o Propan
sinais cerebrais por EEG é totalmen- dos sinais eram ligados e a exposição a variação de custos é uma média,
te indolor e não acarreta riscos para aos gráficos iniciada assim que o par- que pode variar em até 20%. Em
a saúde ou integridade física, nem ticipante atingisse um estado relaxa- relação aos insumos, o “Propan”
sequelas imediatas ou tardias, como do, com pulsação radial dentro dos tem verificado um aumento nos
comprovado em pesquisas anteriores padrões de normalidade individual em preços da farinha de trigo, principal
[10]. O sistema de aquisição de sinais estado de repouso. componente do pão.
eletroencefalográficos estará sendo
adaptado ao novo experimento pro- Figura 03 – Gráficos relacionados TEXTO 2:
a variação de preços, apresentados aos O Propan, serviço de consultoria
posto considerando a abordagem de
acadêmicos durante a medição de si- especializado em panificadoras,
Montgomery [11].
nais cerebrais na Gaiola de Faraday. divulga em sua página na Internet
Os estímulos apresentados cons- a tabela de composição de custos
tam de três gráficos retilíneos, com o do pão francês. Segundo o Propan
mesmo padrão de coloração e dimen- a variação de custos é uma média,
sões, variando apenas na inclinação da que pode variar em até 20%. Em
reta (ascendente, descendente e hori- relação aos insumos, o “Propan”
zontal) como mostra a figura 03. tem verificado a manutenção nos
preços da farinha de trigo, principal
As imagens propostas como es- componente do pão.
tímulos foram apresentadas em uma
tela de monitor LCD de 14 polegadas, a TEXTO 3:
qual era posicionada a 90 cm do sujei- O Propan, serviço de consultoria
to, que foi instruído a ficar com a mus- especializado em panificadoras,
culatura relaxada e com olhos abertos, divulga em sua página na Internet
evitando movimentos bruscos da ca- a tabela de composição de custos
beça, enquanto observava os gráficos. do pão francês. Segundo o Propan
Os estímulos (representações dos a variação de custos é uma média,
gráficos) foram apresentados um a um que pode variar em até 20%. Em
ficando expostos durante dois segun- relação aos insumos, o “Propan”
dos (2s) cada, intercalados pela ausên- tem verificado uma queda nos
Figura 1: Exemplo de indivíduo conectado ao
conjunto de eletrodos aderidos ao escalpo, por cia de estímulo durante um tempo de preços da farinha de trigo, principal
meio de uma touca.
cinco segundos (5s). componente do pão.

49
Artigos
Completos
análise quantitativa. Nas três primeiras rior de uma gaiola de Faraday.
Esta leitura foi realizada com o par- perguntas os participantes informaram Os resultados obtidos foram ana-
ticipante ainda acomodado na Gaiola faixa etária, naturalidade e cultura pre- lisados estatisticamente pelo méto-
de Faraday e conectado aos eletrodos, dominante. Na sequencia responde- do descritivo com cruzamento sobre
porém a porta era mantida aberta e ram sobre vários aspectos relacionados o teste de chi-quadrado de Pearson,
uma lâmpada era ligada para oferecer a leitura de livros, a prática de desenho considerando que valores menores
melhores condições de leitura. A cada ou pintura à mão livre, bem como uso que 0,05 indicavam forte associação
voluntário foi dado o tempo que o de softwares gráficos, assistência a te- entre as variáveis estudadas.
mesmo julgou necessário para leitura levisão ou filmes legendados.
do texto. Terminada a leitura, um dos Os participantes também foram
3. Resultados
pesquisadores questionava qual gráfi- questionados sobre o seu uso de tec-
co representava o evento descrito no nologias de comunicação (e-mail, msn, Inicialmente, o experimento bus-
texto e anotava a resposta. twiter, etc.). Em relação às atividades cou identificar as relações positivas
físicas, responderam se realizavam entre as áreas ativadas no encéfalo
2.2.4 - Reexposição aos gráficos atividades ao ar livre e esportes indivi- durante a execução da tarefa de in-
duais ou coletivos, indicando com qual terpretação de gráficos com a expe-
Concluída a leitura de um dos tex- frequência praticavam. Também infor- riência prévia em desenhos e gráficos
tos acima, os gráficos foram reapresen- maram se trabalhavam ou não e como produzidos a mão livre ou através de
tados, na mesma ordem anterior, com estavam se sentindo física e emocio- softwares.
duração de um segundo (1s). Entre a nalmente. Por fim, como é de praxe Esperava-se que indivíduos com
reapresentação de cada gráfico foi dei- neste tipo de pesquisa, responderam este tipo de experiência ativassem áre-
xado um intervalo de ausência de estí- se usavam algum tipo de medicamento as diferentes em comparação aos indi-
mulo com duração de cinco segundos ou droga com reconhecido efeito psi- víduos sem este tipo de prática. Além
(5s). Os sinais foram capturados com o cotrópico. disso, pressupôs-se que a simplicidade
mesmo protocolo utilizado na primeira
dos gráficos e dos textos não represen-
apresentação.
2.3- Variáveis analisadas. taria qualquer dificuldade e que todos
acertariam a resposta. Todavia, foi sur-
2.2.5 - Repetição do questionamento As relações entre as respostas preendente o fato de apenas pouco
certas e as informações relativas aos mais da metade dos acadêmicos terem
Após a reexposição aos gráficos, aspectos culturais, físicos e emocio- acertado completamente a resposta,
os participantes foram novamente nais, constantes do questionário pre- enquanto os demais acertaram parcial-
questionados sobre qual gráfico re- enchido por cada participante foram mente ou erraram.
presentava o evento descrito no texto avaliadas. Considerou-se que, para a
lido, anotando sua resposta. Utilizou- Entre os 28 estudantes de En-
execução das tarefas, os participantes
-se o seguinte critério para análise da genharia pesquisados, 15 correla-
necessitaram memorizar a imagem dos
resposta: a) acerto total, quando ambas cionaram corretamente o texto com
gráficos e a ordem de apresentação.
respostas oral e escrita estavam corre- o respectivo gráfico, quando foram
Após o que, interpretar e memorizar a
tas; b) acerto parcial, quando apenas questionados logo após a leitura do
informação central dos textos (queda,
uma das respostas estava correta; c) texto, reafirmando a resposta depois
aumento ou manutenção dos preços
erro, quando ambas as respostas esta- da segunda exposição aos gráficos.
da farinha de trigo), respondendo a
vam incorretas. Quatro participantes mudaram a res-
qual gráfico o texto remetia.
posta após a segunda exposição aos
Posteriormente, foram reexpostos gráficos, porém, apenas dois a corrigi-
2.2.6 - Preenchimento de um ao estímulo devendo novamente me- ram, sugerindo que os outros dois ha-
questionário. morizar a forma e ordem de apareci- viam acertado a primeira resposta por
Antes da exposição aos gráficos mento dos gráficos para relacioná-los casualidade. Assim sendo, ao somar
cada candidato respondeu 21 ques- ao texto lido. Assim, através das res- estes dois casos aos demais participan-
tões que visaram caracterizar seu perfil postas a este questionamento, anali- tes que erraram e os outros dois aos
sociocultural. As perguntas formuladas saram-se as capacidades de interpreta- que acertaram, houve um total de 11
através de um questionário escrito ção de gráficos e textos, bem como sua respostas erradas (39,29%) contra 17
ofereciam alternativas de respostas, memorização, durante o procedimento certas (60,71%).
que se constituíram em dados para de captura de sinais cerebrais, no inte-

50
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

Entre os participantes que erraram conceito de tecnologia de comunica- quadro da formação dos conhecimen-
a resposta, 9 não mudaram sua esco- ção. tos e da inteligência que faz com que
lha após a reexposição aos gráficos, en- Vinte e cinco dos 28 pesquisados se levantem muito mais próximos das
quanto 2 haviam acertado a resposta afirmaram que realizam algum tipo grandes questões biológicas, porque
quando questionados oralmente, mas de atividade ao ar livre, embora, com todo o conhecimento comporta uma
mudaram e erraram após a reexposição maior ou menor frequência todos de- organização e não é devido a simples
aos gráficos. Diante destes resultados, claram que assistem televisão, o que registros exógenos. Ele resume que
no presente artigo exploram-se as re- evidencia uma homogeneidade da todo o conhecimento é muito mais
lações entre o perfil dos participantes, amostra. assimilável às variações fenotípicas,
cruzando com o fato de terem acerta- tal como as concebemos, enquanto
O índice de acerto ou erro apresen-
do ou não a resposta e buscando iden- produtos de interações entre os geno-
tou significância estatística com dois
tificar as correlações positivas, as quais mas e o meio e enquanto relativas às
aspectos: cultura, onde os, declarada-
evidenciam aspectos relevantes aos “normas de reações” dos genótipos (p.
mente italianos, apresentaram maior
processos cognitivos envolvidos nesta 18). Vê-se aqui que Piaget aceita que
índice de acertos (p = 0,041); sentir-se
ação, deixando a análise dos sinais ob- as diferenças genéticas afetam o de-
fisicamente indisposto havendo maior
tidos por EEG para outro artigo. senvolvimento da inteligência, mas que
frequência de erros entre os declara-
Os dados cruzados entre as va- independentemente do caso, ela so-
damente indispostos (p = 0,004)
riáveis de faixa etária e naturalidade mente ocorrerá se as interações entre
mostram que a maioria dos participan- os organismos e o meio propiciarem o
tes é natural da serra gaúcha e possui 4. Discussão e conclusões desenvolvimento de uma organização.
idade até 29 anos, com p= 0,037. Os Desde 1990, considerada a déca- As neurociências têm demons-
participantes com 30 ou mais anos res- da do cérebro, a área da Neurociência trado que esta organização envolve a
ponderam que nunca ou quase nunca passou a investigar as relações entre o criação e configuração de redes neu-
pintaram, denotando assim uma signifi- funcionamento do cérebro e a aprendi- rais. De acordo com Tokuhama-Espi-
cância de 0,046. Justamente, foi este o zagem humana, incluindo processos de nosa [14] a premissa básica é que as
grupo de participante com maior índi- interesse para a área da Educação. Os habilidades fundamentais, tais como
ce de respostas erradas, pois entre os conhecimentos advindos das pesqui- a leitura e a matemática, são extre-
6 participantes com 30 anos ou mais, sas em neurociências permitem afirmar mamente complexas e exigem uma
apenas 1 acertou a resposta. Em con- que a multiplicidade dos estímulos ex- variedade de vias neurais e sistemas
traposição, todos os participantes com teriores influencia a complexidade das mentais para funcionar corretamen-
idade entre 22 e 25 anos acertaram a ligações entre as células nervosas e o te. Nesse sentido, Piaget destaca a
resposta, sendo naturais da serra gaú- modo como elas se comunicam entre importância da assimilação cognitiva,
cha, todos trabalhadores, mas nenhum si. pois nenhum conhecimento, mesmo
se qualificou como cansado ou com O aprimoramento das teorias perceptivo, constitui uma simples có-
sono no dia da coleta de dados. educcionais deve combinar o conheci- pia do real, porque comporta sempre
O uso de softwares gráficos apre- mento científico sobre o funcionamen- um processo de assimilação, no senti-
sentou uma correlação altamente signi- to cerebral com as teorias de aprendi- do lato de uma integração a estrutu-
ficativa com o curso dos participantes zagem. Como salienta Macedo [12], a ras prévias, que podem permanecer
(p = 0,003), de forma que todos os es- aplicação pedagógica de obras como a inalteradas ou que são mais ou menos
tudantes da Engenharia Elétrica usam de Piaget, por exemplo, supõe o estu- modificadas por esta mesma integra-
esta ferramenta com maior ou menor do, a pesquisa e a crítica constantes do ção, mas sem descontinuidade com o
frequência. Curiosamente, também foi professor, visando refletir e reconstruir estado precedente, ou seja, sem serem
positiva a correlação entre uso de sof- o ato de educar de forma articulada destruídas, apenas acomodando-se à
twares gráficos e uma maior frequên- com os seus pressupostos epistemo- nova situação. Esta assimilação a es-
cia de assistência a filmes legendados, lógicos e descobertas empíricas, coor- truturas prévias pode explicar porque
em vez dos filmes dublados (p = 0,036). denando a teoria e a prática a fim de os estudantes que tiveram formação
preservar seus pontos comuns e suas básica que incluiu atividades de dese-
Quase todos os participantes res-
diferenças. nho, também tiveram maior facilidade
ponderam que não usam tecnologias
de memorização da sequência dos grá-
de comunicação, embora utilizem Piaget [13] destaca que a psicolo- ficos apresentados.
e-mail, celulares e redes sociais da in- gia do desenvolvimento nos deu um
ternet, indicando que desconhecem o Na presente pesquisa, a execução

51
Artigos
Completos
tiveram maior dificuldades em fazer a pecular que aumentou a chance de que
do experimento pelo participante re- retenção da memória trabalho relacio- fossem armazenados na alça fonológi-
quereu memória trabalho, que permite nada a alça fonológica e esboço visuo- ca. Por outro lado, a identificação do
reter temporariamente a informação espacial. Contudo, os dois participan- gráfico correto requer uma habilidade
nova que é utilizada em processos tes que corrigiram a resposta após a visuoespacial, neste caso, para asso-
como compreensão, aprendizagem e reexposição aos gráficos, sugerem que ciar o texto ao gráfico seria necessário
raciocínio. Conforme modelo proposto retiveram as informações da alça fono- fazer a transposição da informação da
por Alan Baddeley, largamente aceito lógica. alça fonológica, que estaria guardando
pelos neurobiólogos, a memória traba- Sabe-se que a memorização exige a informação do texto, para o esboço
lho se divide em quatro subconjuntos: uma recriação dos caminhos neurais visuo espacial, capaz de armazenar a
o centro executivo, que constitui um envolvidos na percepção dos estímulos imagem esperada do gráfico.
sistema de controle de atenção, a alça e que as redes nervosas são plásticas Nesse contexto, o buffer episó-
fonológica, o esboço visuoespacial e o e se estruturam a partir da experiên- dico, provavelmente, seria importan-
buffer episódico [15]. cia. Uma possível explicação para forte te, pois guarda as relações relevantes
A alça fonológica processa as in- relação entre faixa etária e alta porcen- entre os dados. Seguindo esta linha
formações da linguagem e da audi- tagem de erro é uma formação básica de raciocínio, os erros podem ter sido
ção, enquanto o esboço visuoespacial num período em que o ensino de artes causados pelas seguintes fontes:
retém as imagens e, dependendo do foi, praticamente, excluído dos currícu- 1. Dificuldade de linguagem para
tipo de informação a ser processada, a los escolares, de modo que os alunos, compreender o texto;
participação destas áreas será diferen- neste período, não exercitaram as ha- 2. Capacidade reduzida da alça
te na memória trabalho. O buffer epi- bilidades de desenho e pintura. fonológica, que não conseguiria
sódico, componente acrescentado ao A obrigatoriedade do ensino de ar- guardar as informações relevantes;
modelo em 2000, é responsável por tes voltou às escolas brasileiras a partir 3. Dificuldade de transposição da
guardar a relação entre os elementos da década de 1990-2000, coincidente- alça fonológica para o esboço
armazenados na alça fonológica e es- mente a maior porcentagem de acer- visuoespacial, neste último caso,
boço visuoespacial. tos se observou nos participantes com devido a problemas com o buffer
Em nossos experimentos, todos faixa etária 22 e 25 anos. O ensino da episódico.
os componentes foram recrutados, as- Arte numa ótica contemporânea tem Ao considerar estas três possi-
sim como o córtex pré-frontal, pois é como um de seus objetivos contribuir bilidades, sugere-se que a formação
plenamente aceito o fato de que este para a formação de indivíduos capa- básica dos estudantes deveria incluir
apresenta um papel essencial nos me- zes de perceber com mais detalhes o atividades que relacionem textos a
canismos da memória de trabalho visu- mundo que está à nossa volta. Neste imagens, desde o Ensino Fundamental.
al. contexto, trabalha, entre outras coisas, Do mesmo modo, os cursos universi-
com o registro gráfico de imagens e tários também devem oferecer ativida-
Quando se apresenta uma infor- formas que fazem parte da vida coti- des que desafiem os estudantes a ex-
mação perceptiva a ser memorizada, diana, além de explorar a criatividade plorar habilidades criativas e maneiras
o cérebro codifica esta informação, ao possibilitar uma intervenção criativa diversificadas de registro de informa-
depois mantém uma representação ao permitir que sejam criadas formas e ções, que envolvam imagens gráficas
ativa da informação durante um pe- cores, a partir da imaginação de quem ou mapas conceituais, por exemplo.
ríodo. Provavelmente, os resultados faz tais registros gráficos. Nossos da- Tais estratégias contribuem para o de-
referentes às repostas apresentadas dos reforçam a ideia de que a formação senvolvimento da memória, como um
pelos participantes da pesquisa refle- básica não pode apena se restringir às todo. Por exemplo, a leitura e escrita
tiram diferenças nas suas capacidades disciplinas que são historicamente con- exigem a ação conjunta de neurônios
de retenção da informação perceptiva cebidas como científicas, pois é neces- das áreas motoras, da linguagem e do
(identificação correta da sequência de sário que sejam explorados vários tipos raciocínio. Se ampliarmos estas tarefas
apresentação dos gráficos). de habilidades para que o desenvolvi- para elaboração de desenhos explica-
É importante ressaltar que a maio- mento cerebral se dê de forma mais tivos, também estaremos explorando
ria dos participantes que erraram am- ampla. outros aspectos relacionados à visão
bas as respostas se incluiu na faixa etá- Nesta pesquisa, o fato dos dados como uma observação mais detalhada,
ria de 30 anos ou mais. Neste sentido, terem sido apresentados aos estudan- além de explorar as áreas de associa-
pode-se inferir que tais participantes tes na forma de texto nos permite es- ção e emoção das regiões frontais do

52
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

cérebro. ou figuras com diferentes cargas emo- descobertas da neurociência sobre a vida cotidiana. 3.
ed., Vieira e Lent, Rio de Janeiro, 2002.
A memória é a capacidade de reter cionais, o efeito na memória tende a [3] HARWANT, S.; O’BOYLE, G. and M. W. Sex Diffe-
e recuperar informações, permitindo ser facilitado para essas palavras ou rences in Matching Circles and Arcs: A Preliminary EEG
que o indivíduo se situe no presente figuras. Ou seja, níveis moderados de Investigation. Laterality: Asymmetries of Body, Brain,
and Cognition -Volume 2, Number 1 / March 1, 1997.
considerando o passado e o futuro. Ela emoções potencializam o processo de [4] ROBERTS, J. E.; BELL, M. A. Sex Differences on a
fornece as bases para o conhecimento, codificação e, subsequentemente, a Mental Rotation Task: Variations in Electroencepha-
habilidades, sonhos, planos e anseios. performance da memória; todavia, ní- logram Hemispheric Activation between Children and
College Students - - Department of Psychology, Virgi-
É, portanto, um aspecto central da in- veis extremos de emoções prejudicam nia Polytechnic Institute and State University, 2000.
teligência e existência humanas [16]. essa performance [19]. [5] ROBERTS, J. E.; BELL, M. A. Two- and three-dimen-
sional mental rotation tasks lead to different parietal
Del Nero [17] explica que, no ar- Cabe lembrar que a visualização laterality for men and women. Department of Psycho-
mazenamento de informação, são for- dos gráficos propostos como estímulos logy, Armstrong Atlantic State University, 2003.

madas sinapses e sintetizadas proteí- se deu em uma tela de um notebook [6] DAMÁSIO, A. O erro de Descartes: emoção, razão e
o cérebro humano. São Paulo, Companhia das Letras,
nas. As sinapses ou conexões nervosas posicionado a 90 cm do participante 1996.
apresentam intensidades diferentes da pesquisa. Cada estudante partici- [7] DAMÁSIO A.; DAMÁSIO, H. O cérebro e a lingua-
fazendo com que determinados estí- pou uma única vez da coleta de dados gem. In: Percepção: como o cérebro organiza e traduz
a realidade captada pelos sentidos. Mente e cérebro.
mulos sejam mais intensamente perce- e como forma de reduzir a ansiedade Edição Especial nº 3, Ediouro, 2005.
bidos que outros, de acordo com as vi- do ambiente e processo de coleta de [8] PINKER, S. Tabula Rasa – a negação contemporâ-
vências particulares de cada indivíduo. dados, no início de cada sessão foi nea da natureza humana. São Paulo, Companhia das
Letras, 2002.
Para este autor, as cenas do mundo dado um tempo inicial delimitado por
[9] TOKUHAMA-ESPINOSA, T. Mind, Brain, and
são percebidas pelo cérebro como os- cada estudante, quando não havia mo- Education Science: A Comprehensive Guide to the New
cilações. Ao longo do nosso desenvol- nitoramento até que o mesmo se de- Brain-Based Teaching. San Francisco University of
Quito, W. W. Norton & Company, 2010.
vimento cognitivo, aprendemos a cor- clarasse familiarizado com os aparatos
[10] SPINDOLA, M. M. Habilidade Cognitiva Espacial:
relacionar as oscilações provenientes e à peculiar sensação associada aos medida com eletroencefalografia. Porto Alegre, UFRGS,
do mundo com as nossas oscilações eletrodos colocados no escalpo. Toda- 2010. Tese (Doutorado). Universidade Federal do
Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em
cerebrais. As oscilações cerebrais uni- via, esta não é uma situação cotidiana Informática na Educação.
ficadas constituem a mente. Assim, por na vida dos participantes, os quais além [11] MONTGOMERY, D.C. Design and Analisys of
meio da atividade sincronizada de dife- de tudo estavam sendo submetidos, de Experiments. Arizona State University, 2001.

rentes redes neuronais somos capazes certa forma a uma situação de avalia- [12] MACEDO, L. Ensaios construtivistas. São Paulo:
Casa do Psicólogo, 1994.
de criar imagens mentais e transmiti-las ção de conhecimentos. [13] PIAGET, J. [1967]. Biologia e conhecimento. 1ed.
usando uma linguagem. Assim, apesar dos participantes Porto: Rés ed., 1978.

A dimensão emocional do apren- terem sido solicitados a resolver uma [14] TOKUHAMA-ESPINOSA, T. What Mind, Brain,
and Education (MBE) Can Do for Teaching. Johns
dizado tem ocupado cada vez mais tarefa simples, o fato de estarem no Hopkins University, School of Education, winter, 2011.
espaço nas discussões envolvendo os interior de uma Gaiola de Faraday, co- Disponível em: http://education.jhu.edu/PD/newho-
rizons/Journals/Winter2011/Tokuhama2, acesso em
processos de cognição [18], pois, entre nectados a um eletroencefalógrafo, 17/08/2016.
outros aspectos cognitivos, as emoções pode ter gerado certo nível de estres- [15] BADDELEY, A. The episodic buffer: a new compo-
desempenham um papel importante se que dificultou o funcionamento da nent of working memory? Trends in Cognitive Sciences
- Vol. 4, No. 11, nov. 2000. disponível em: http://nbu.
na capacidade de retenção da memória memória trabalho, considerando seus bg/cogs/events/2002/materials/Markus/ep_bufer.pdf,
trabalho, uma vez que o córtex frontal diferentes sistemas. Neste caso, uma acesso em 20/05/2013.

está envolvido nestes processos em formação educacional capaz de melhor [16] TOMAZ, C. Memória: mecanismos celulares. Ciên-
cia Hoje. São Paulo, v. 16, n. 94, p. 6-7, 1993.
seres humanos. Em experimentos em desenvolver as habilidades do buffer
[17] DEL NERO, H. S. O sítio da mente: pensamento,
que foi apresentada uma sequência de episódico, da alça fonológica e do es- emoção e vontade no cérebro humano. São Paulo :
slides representando eventos estres- boço visuoespacial favoreceu os parti- Collegium Cognitivo, 1997.

sores e potencialmente emocionais, cipantes a sofrerem menos influências [18] OECD (Organização para Cooperação e Desenvol-
vimento Econômico), Understanding the Brain: The Bir-
como um assalto ou ameaça, com a do estresse emocional relacionadas ao th of a Learning Science (ISBN 978-92-64-02912-5),
intenção de simular uma situação de ambiente não usual das condições de Chapter 1, 2007.disponível em: http://www.oecd.org/
edu/ceri/38813448.pdf, acesso em 08/abril/2013.t
testemunho real dessas situações hou- pesquisa.
[19] PERGHER, G. K.; GRASSI-OLIVEIRA, R.;
ve prejuízo no desempenho em testes 5. Referências ÁVILA, L. M.; STEIN, L. M. Memória, humor e
emoção. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul, vol.28 no.1
de recordação e reconhecimento para [1] FRIEDRCH, G.; PREISS, G. Ciência do aprendizado. Porto Alegre Jan./Apr. 2006. Disponível em: http://
as informações apresentadas nos sli- In: Como o Cérebro Aprende. Mente e cérebro. Edição www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0101-81082006000100008 acesso em
des. Contudo, quando a emoção foi Especial nº 8, Ediouro, 2006.
03/10/2016.
[2] HOUZEL, S. H-. O Cérebro Nosso de Cada Dia –
manipulada apresentando-se palavras

53
Artigos
Completos
Uma breve discussão
sobre estratégias e processos
de dispersão em Ostracoda.
Cláudia Pinto Machado
Centro de Ciências Exatas, da Natureza e
Resumo: A classe Ostracoda constitui
Tecnologia um grupo de pequenos crustáceos que
se caracterizam por possuir o corpo
completamente envolvido por uma ca-
rapaça bivalve secretada pela epider-
me. Suas carapaças são comumente
preservadas em sedimentos e possuem
excelente potencial como indicadores
paleoambientais e estratigráficos. Os
ostracodes ocupam os mais diferentes
habitats aquáticos e terrestres úmidos.
Diferentes mecanismos de dispersão
são utilizados por este grupo em rela-
ção ao ambiente em que se encontram.
O foco da discussão deste trabalho es-
tará nos modos de dispersão passiva e
nos seus possíveis agentes influencia-
dores. Ostracodes não-marinhos pos-
suem várias estratégias relacionadas
ao stress ambiental dos corpos d’água
continentais, como por exemplo a par-
tenogênese e a resistência dos ovos
à dessecação. As estratégias para es-
pécies marinhas ainda não estão bem
documentadas experimentalmente,
mas algumas evidências são resgata-
das, bem como a influência do homem
na introdução não-intencional de es-
pécies. Neste trabalho é apresentada
uma nova possibilidade de foresia para
a dispersão dos ostracodes marinhos,
por meio de tartarugas.

Palavras-chave: Ostracoda, disper-


são, mecanismos, foresia.

Abstract: Ostracods occupy the most


Claudia Pinto Machado diverse humid aquatic and terrestrial
Graduada em Ciências Biológicas (UNISINOS) habitats. This group uses different dis-
Mestre em Biologia Animal (UFRGS)
Doutora em Ciências, área de concentração em Paleontologia (UFRGS). persal mechanisms in relation to the
Doncente do CENT/CARVI/UCS environment in which they are. Non-

54
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

marine ostracods have several strate- microcurstáceos têm sua distribuição O presente trabalho tem o obje-
gies related to environmental stress at fortemente influenciada por fatores tivo de apresentar uma revisão geral
continental bodies of water, such as físico-químicos das massas d’água. A sobre alguns dos principais processos
parthenogenesis, and the resistance of salinidade, a profundidade e principal- e mecanismos de dispersão que pode-
eggs to desiccation. Strategies for ma- mente a temperatura estão entre os riam estar envolvidos na distribuição
rine species are not well documented fatores mais importantes por influir di- dos ostracodes bentônicos.
experimentally, but some evidence is retamente na fisiologia destes organis-
retrieved, as is the influence of man in mos, sendo os gradientes latitudinais
unintendedly introducing the species. de temperatura N-S um significativo 2. Dispersão em Ostracodes não-
A new possibility of phoresy through obstáculo para a dispersão a longa dis- marinhos
marine turtles for the dispersion of ma- tância [5]. O sucesso destes microcrustáceos
rine ostracods is presented here. Os ostracodes bentônicos pos- em ambiente dulceaquícola deve-se,
suem pouca mobilidade natatória e em grande parte, à resistência e à ca-
Keywords: Ostracoda, dispersal, me- o principal modo de dispersão deste pacidade de diapausa dos ovos, bem
chanisms, phorery. grupo ocorre passivamente. Disper- como ao seu modo de reprodução par-
são ativa pode ocorrer através da co- tenogenética, que é muito mais comum
1. Introdução lonização “passo a passo” por meio de em ostracodes não-marinhos [8]. Des-
pequenas “caminhadas” [6, 7]. de Sandberg [9], sabe-se que os ovos
A classe Ostracoda constitui um
Muitas espécies bentônicas estão de ostracodes não- marinhos encistam
grupo de pequenos crustáceos que
amplamente distribuídas e os fatores e podem resistir à dessecação e assim
se caracterizam por possuir o corpo
e mecanismos relacionados à sua dis- dispersar-se através do vento, insetos
completamente envolvido por uma ca-
tribuição ainda não estão totalmente aquáticos, peixes, anfíbios e aves entre
rapaça bivalve (Fig. 1). A carapaça, se-
esclarecidos. Uma série de opiniões, outros. Ovos resistentes à dessecação
cretada pela epiderme, é composta por
por vezes divergentes, estão em dis- podem permanecer viáveis de 50 a
carbonato de cálcio e quitina. Apresen-
cussão em relação à dispersão desde 100 anos, estando adequados, assim,
tam crescimento descontínuo, através
grupo em ambientes límnicos, estuari- à dispersão passiva [10]. Podem ser
de uma série de mudas, que podem
nos ou marinhos. Desta forma, o foco transportados pelo vento e sobreviver
chegar a oito, possuindo tamanho que
da discussão deste trabalho estará nos a temperaturas extremamente baixas
pode variar de 0,5 a 2 mm no tamanho
modos de dispersão passiva e nos seus ou altas [11], como ocorre comumente
adulto [1].
possíveis agentes influenciadores. na família Cyprididae [10].
Suas carapaças são comumente
preservadas em sedimentos e possuem
excelente potencial como indicadores
paleoambientais e estratigráficos. Em-
bora tenham surgido no mar, no Or-
doviciano, o registro fóssil indica que a
partir do Carbonífero, estes crustáceos
passaram também a colonizar habitats
não-marinhos [2]. São encontrados em
praticamente todos os tipos de am-
bientes aquáticos, desde a plataforma
continental até planícies abissais, bem
como em reservatórios de águas de
epífitas. Algumas espécies, inclusive,
são consideradas semiterrestres ocor-
rendo em ambientes úmidos nas proxi-
midades de cachoeiras, musgos, sera-
pilheiras e lama [3].
A maioria das espécies faz parte
do meiobentos, embora também exis-
tam espécies plantônicas [4]. Estes
Figura 01: Glyptobairdia coronata. Valva esquerda. Escala: 100 µm.

55
Artigos
Completos
rem na água dos tanques de bromélias ra como um habitat conveniente para a
Muitas espécies, como os repre- foram registradas por diversos autores introdução de espécies exóticas.
sentantes dos Darwinulocopina, pos- [18, 19, 20, 21, 22]. Lopez et al. [22] re-
suem a capacidade de incubar seus alizaram testes experimentais visando
3. Dispersão em Ostracodes
ovos e juvenis e carregá-los até a eclo- analisar as interações foréticas entre
de Elpidium sp. e a rã de bromélia Hyla Mixohalinos e Marinhos
são [1]. Segundo Grigg e Siddiqui [ 12],
esta habilidade aumentaria as chances, truncata (Hylidae). Os resultados de- Poucas espécies bentônicas, como
ao menos teoricamente, de um único mostraram que de quatro a mais de 20 as do gênero Polycope e alguns cipri-
animal colonizar uma nova localidade, espécimes de Elpidium frequentemen- dáceos marinhos, são capazes de nadar
ampliando desta maneira o sucesso do te estavam aderidos à rã por emergên- a curtas distâncias. As espécies mari-
grupo em ambientes aquáticos conti- cia d’água. nhas bentônicas não possuem estágio
nentais. Resultados consistentes com esta larval plantônico [26] o que lhes confe-
Um dos fatores chave do sucesso pesquisa também foram observados re pouca mobilidade durante seu ciclo
deste grupo é o uso de outros organis- por Seidel [19], onde foram encontra- de vida. A maior parte da fauna não é
mos como vetores foréticos. O trans- das valvas de Cyclocypris (Cypridae) natante e sofre dispersão passiva [13,
porte por aves é bastante provável aderidos às rãs e salamandras. Lopez 27].
devido à registros de ovos e animais et al. [22] também destacam que ostra- A maioria dos Podocopida realiza
encontrados nas patas de aves aquá- codes podem ser ingeridos por girinos posturas unitárias ou em agrupamen-
ticas, presos às suas penas e mesmo e sair ilesos pelo trato digestivo destes tos. Cuidado parental dos ovos até o
em resíduos fecais [13, 14, 15]. Evidên- anfíbios. O mesmo também foi obser- segundo e terceiro instares pode ocor-
cias desta associação foram encontra- vado em testes experimentais realiza- rer em Cytherocopina, tais como Xes-
das por Green et al. [16] em estudos dos com ratos [23]. Segundo estes os toleberis, Cyprideis e Metacypris [1].
sobre endozoocoria de invertebrados autores, isto poderia ampliar a possibi- Algumas espécies mixohalinas
em aves migratórias. Estes autores re- lidade de dispersão dos ostracodes via também possuem habilidade de re-
gistraram a presença de um indivíduo fezes de vertebrados que bebem água sistência à dessecação dos ovos, bem
vivo de Candona simpsoni nas fezes de de bromélias. como cuidado parental até instares
aves, mesmo após a amostra ter per- Registros de ostracodes aderidos mais avançados. Este é o caso de
manecido por seis dias em ambiente aos corpos de insetos hemípteros (No- Cyprideis salebrosa [28], espécie am-
refrigerado. tonecta e Sigara), também foram regis- plamente distribuída com ocorrência
Outros autores sugerem a parti- trados por Meutter et al. [24], podendo da Argentina ao Kansas (E.U.A). Para
cipação dos peixes na colonização de ser um importante agente de transpor- Sandberg [9], o sucesso de dispersão
novos locais. Segundo Grigg e Siddiqui te através do voo entre distintos cor- desta espécie pode estar associado às
[12], os peixes poderiam estar envolvi- pos d’agua. aves e suas rotas migratórias.
dos no processo de dispersão, uma vez O homem, como agente passivo, Os ovos de ostracodes marinhos
que já foram encontrados ostracodes tem influído grandemente na distribui- são de paredes simples e pouco re-
vivos ou seus ovos em fezes, mesmo ção dos invertebrados aquáticos, inclu- sistentes à dessecação, característica
após terem passado pelo trato diges- sive dos ostracodes [8, 25]. menos necessária ao ambiente mari-
tivo destes vertebrados. Embora ex- Estudos que investigaram a rela- nho que sofre menores mudanças am-
perimentações práticas, que avaliaram ção do cultivo de arroz com a introdu- bientais quando comparados com os
o material ejetado da alimentação de ção de espécies de Ostracoda no norte corpos hídricos continentais [13; 10].
peixes com ostracode dulciaquícolas da Itália, identificaram a presença de Com base nesta característica, Tee-
(e.g. Heterocypris incongruens e Cypri- várias espécies endêmicas da América ter [13], argumenta que é duvidosa a
dopsis? sp.), não tenham encontrado do Sul, Àfrica e Ásia (Chlamydotheca participação de agentes como peixes,
espécimens vivos (carapaças descalci- incisa, Chrissia sp., Cypretta turgida, aves e vento na dispersão de ovos de
ficadas, fragmentadas e com sinais de Dolerocypris sinensis, Hemicypris den- ostracodes marinhos. Em relação às
solução ácida), não é descartada a pos- tatomarginata, Isocypris beauchampi, aves, o autor ainda argumenta que a
sibilidade real de dispersão [17]. Strandesia spinulosa e Tanycypris pe- profundidade em que ostracodes ma-
Evidências de ostracodes aderidos lúcida) [8]. Este trabalho demonstrou a rinhos bentônicos vivem, bem como a
à pele de rãs, serpentes, salamandras influência do homem como agente de falta de correspondência entre as rotas
e invertebrados aquáticos que ocor- dispersão passiva e o papel da rizicultu- de aves migratórias e os padrões de
distribuição dos ostracodes de águas

56
Revista Interdisciplinar de Ciência Aplicada - Volume II - Ano II

marinhas rasas tornariam esta hipótese As correntes superficiais poderiam biontes, desde que os fatores ambien-
improvável. carregar os ostracodes vivos em algas tais e a duração da jornada não sejam
De fato, evidências empíricas so- ou até mesmo em outros materiais flu- limitantes a estes organismos durante
bre as estratégias de dispersão dos tuantes (ex. pedaços de madeiras, gar- o seu transporte, como já proposto por
ostracodes em ambiente marinho são rafas, etc) para novos habitats, como outros autores [13, 26] para os ostra-
raras na literatura, no entanto algumas atóis e ilhas oceânicas [6, 32]. codes em geral.
evidências serão apresentadas a seguir. Organismos epibiontes são muito Uma possível relação entre rotas
Embora os ovos de ostracodes comuns no ambiente marinho, como de dispersão de E. imbricada e a colo-
sejam pouco resistentes, as carapaças por exemplo a presença de cracas em nização de ostracodes nas ilhas oceâni-
dos ostracodes marinhos normamel- baleias e tartarugas, as quais podem cas brasileiras, neste sentido, são passí-
mente não o são, apresentando-se abrigar uma complexa comunidade veis de investigação futuras.
normalmente bem calcificadas. Korni- epibiontica. Altas abundâncias de os- Atividades humanas, como as re-
cker e Sohn [17] registraram a presença tracodes em carapaças da tartaruga lacionadas à navegação, têm influen-
de um espécimen de Polycopsis sp. em de pente, Eretmochelys imbricata, tem ciado na distribuição dos organismos
Dicrolene intronigra (peixe da família sido registrada em estudos sobre as vivos no ambiente marinho. Alguns au-
Ophidiidae) e quatro espécimes de Kri- comunidades macro e meiofauna des- tores sugerem que o intercâmbio entre
the sp. em Nezumia hildebrandi (peixe tes “microhabitat” [34]. Os espécimes as faunas dos diferentes oceanos pos-
da família Macrouridae) no trato intes- encontrados frequentemente estão sa ser facilitado pela água de lastro de
tinal de desse peixes marinhos bentô- associados a micro e macroalgas, bem navios [5, 13, 27]. Embora a literatura
nicos em 1.000 m de profundidade. como a detritos acumulados nas cara- sobre o assunto registre a presença de
Segundo estes autores, os peixes po- paças das tartarugas. A presente auto- ostracodes em água de lastro [42, 43,
deriam facilitar a dispersão de espécies ra analisou o material de Côrrea et al. 44, 45] frequentemente não há identi-
através de possíveis barreiras físicas. [34] registrando a presença de vários ficação em nível específico do material
espécimens pertencentes ao gênero estudado, o que tem dificultado maio-
Transporte passivo ao longo da
Xestoleberis. res estudos sobre a introdução de es-
linha de praia por correntes costei-
ras são sugeridas por Grigg e Siddiqui É reconhecido na literatura que as pécies exóticas.
[12]. Esta hipótese parece ser plausível tartarugas marinhas têm importante Outros tipos de introduções não
apenas para espécies adaptadas aos potencial de dispersão de alguns taxa intencionais de espécies (e.g. o miodo-
interstícios de sedimentos marinhos das comunidades epibiontes de micro copida, Eusarsiella zostericola) também
aquosos de praias, como por exemplo e macroinvertebrados para amplas re- foram registrados no sul da Inglaterra
as espécies intersticiais Semicytherura giões geográficas [34, 35, 36, 37]. e Holanda, através da importação da
sagittiformis e Semicytherura uzushio E. imbricata é uma espécie com ostra norte-americana, Crassostrea
e outros poucos taxa especializada distribuição circunglobal em águas tro- virginica [46] e até mesmo a presença
neste tipo de habitat, como Microloxo- picais e subtropicais do Atlântico, Índi- de espécies de ostracoda (Cythero-
concha, Parapolycope e Cobanocythe- co e Pacífico [38]. No Brasil, as prin- morpha curta, Leptocythere darbyi e
re [29, 30]. cipais áreas de desova encontram-se Loxoconcha sp.) em cordas e amarras
As algas macroscópicas aquáticas na região nordeste e são conhecidas de embarcações, com sobrevida de um
são viáveis meios de dispersão, lem- como áreas de alimentação as ilhas de dia fora d’água [12].
brando-se que algumas espécies de Fernando de Noronha-PE, Atol das Ro-
ostracodes marinhos são comumente cas-RN, Abrolhos-BA, Reserva Biológi-
encontradas em algas como Turbinaria, ca Marinha do Arvoredo/SC e na Ilha
Zostera, Sargassum e Caulerpa sp., en- de Trindade [39, 40]. Ocorrência de
tre outras [6, 12, 13 31, 32]. formas imaturas de E. imbricata foram
registradas no Arquipélago de São Pe-
Parece haver uma certa preferên-
dro e São Paulo [41].
cia de algumas espécies fitais por um
tipo particular de alga [33], assim como As tartarugas marinhas, neste
prováveis adaptações morfológicas, contexto, podem possuir um papel im-
tais como carapaças arredondadas, portante como agentes de dispersão
região ventral convexa [12] e modifica- (Fig. 02), não só dos ostracodes, mas Figura 02: Tartarugas marinhas como possíveis
ções de patas e partes bucais [7]. também de outros invertebrados epi- agentes de dispersão para os Ostracoda.

57
Artigos
Completos
O homem de modo geral em to- [9] SANDBERG, P.A. 1964. The ostracode genus
Cyprideis in the Americas. Stockholm contribution in
4. Considerações finais dos os ambientes aquáticos tem atu- geology, 12, 1–178.
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A explicação para a distribuição do grupo aqui discutido, seja através cods of the World. Heidelberg, Ed. Springer. 608p.
dos ostracodes dulceaqüícolas parece da agricultura, aquacultura de organis- [11] SOHN, I.G. 1996. Possible passive distribution of
ser relativamente fácil devido às suas mos marinhos, água de lastro de navios ostracodes by high-altitude winds. Micropaleontology,
particularidades, tais como a latência e aderidos à sua superfície, entre ou- 42(4): 390-391.
dos ovos e a sua a resistência à desse- tros. Estas atividades têm aumentado [12] GRIGG, U.M.; SIDDQUI, Q.A. 1993. Observations
cação, o que permite a dispersão pelo on distribution and probable vectors of five Cytherace-
a amplitude das taxas de introdução an ostracod species from estuaries and mudflats near
vento, correntes e mesmo por outros de espécies aquáticas, quando com- Dartmouth, Nova Scotia, Canada. In: MCKENZIE,
animais [27]. Entretanto, cabe ressaltar paradas com as taxas dos processos K.G.; JONES, P.J. (eds.). Ostracoda in the Earth and
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que as espécies deste tipo de ambiente naturais [25]. Esta é uma questão alar-
[13] TEETER, J.W. 1973. Geographic distribution and
frequentemente possuem tolerâncias mante, pois a literatura já tem registra- dispersal of some Recent shalow-water marine Ostra-
ecológicas que não favorecem a sua do o efeito danoso da introdução de coda. The Ohio Journal of Science, 73(1): 46-54.
sobrevivência em novos ambientes, espécies exóticas para o equilíbrio dos [14] FRISCH, D.; GREEN, A. J.; FIGUEROLA, J. 2007.
principalmente no que se refere à mu- ecossistemas locais, como por exem- High dispersal capacity of a broad spectrum of aquatic
invertebrates via waterbirds. Aquatic Sciences, 69:
dança de temperatura, salinidade, oxi- plo a introdução do mexilhão dourado 568–574.
gênio dissolvido e outros fatores físicos (Limnoperna fortunei) no Brasil. [15] GREEN, A. J.; FIGUEROLA. J., 2005. Recent
e químicos [10]. advances in the study of long-distance dispersal of
Evidências de ostracodes sobre aquatic invertebrates via birds. Diversity and Distribu-
5. Referências tion, 11: 149–156
o corpo de animais já foram registra-
[1] HORNE, D.J., COHEN, A., MARTENS, K. 2002. [16] GREEN, J. A.; FRISCH, D.; MICHOT, T.C.; ALLAIN,
dos na literatura em vários grupos tais Taxonomy, morfology and biology of Quaternary and L.K.; BARROW. W.C. 2013. Endozoochory of seeds
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muitos casos em foram encontrados Ostracoda (Crustacea) From The Oceanic Island Of
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