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A Mulher Nua

Desmond Morris
Índice
AGRADECIMENTOS 3
CONTRA-CAPA 4
ORELHA 5
INTRODUÇÃO 6
1. A EVOLUÇÃO 10
2. CABELOS 14
3. TESTA 34
4. ORELHAS 49
5. OLHOS 61
6. NARIZ 80
7. BOCHECHAS 92
8. LÁBIOS 100
9. BOCA 117
10. PESCOÇO 126
11. OMBROS 135
12. BRAÇOS 143
13. MÃOS 154
14. SEIOS 171
15. CINTURA 192
16. QUADRIS 202
17. BARRIGA 207
18. COSTAS 217
19. PÊLOS PÚBICOS 226
20. GENITAIS 238
21. NÁDEGAS 257
22. PERNAS 273
23. PÉS 288
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 298
Agradecimentos
Quero expressar meu especial agradecimento à minha
mulher, Ramona, por seu incansável encorajamento e
suas críticas construtivas; a meu colega Clive Bromhall,
por muitas e valiosas discussões; à Random House e a
Marcella Edwards, Caroline Michael, Dan Franklin e Ellah
Allfrey por sua competência editorial; a Nadine Bazar, por
sua cuidadosa pesquisa iconográfica; e a Davi d Fordham,
pelo projeto para o caderno de fotos.
Contra-capa
Há 5 mil anos, senhoras da elite do antigo Egito
faziam questão de raspar a cabeça para ostentar perucas
com cabelos femininos de povos subjugados. Na região
hoje conhecida como Alemanha, durante as tempestades,
mulheres exibiam as nádegas nuas à porta de casa. para
afastar desgraças: exclusivos da raça humana, os
hemisférios glúteos seriam uma visão capaz de repelir os
demônios, desprovidos desse detalhe anatômico. Já na
Inglaterra vitoriana, a barriga tinha conotação sexual tão
forte que seu nome nem sequer podia ser pronunciado, dai
a criação do eufemismo dor de estômago".

O escritor e zoólogo inglês Desmond Morris — autor


do bestseller mundial O macaco nu - reúne essas e muitas
outras observações curiosas em A mulher nua. Neste
revelador estudo sobre o corpo feminino, o autor descreve,
dos cabelos aos pés, cada parte da anatomia, suas funções
e sua evolução, explicando como certas características
foram valorizadas ou desprezadas, conforme os costumes
de cada época.
Trafegando na fronteira da zoologia com a história e a
sociologia, Morris desnuda, enfim, os processos que
levaram a mulher a se transformar naquilo que ele define
como "o mais extraordinário organismo existente no
planeta".
Orelha
Toda mulher tem um corpo belo.
Brilhante fruto de milhões de anos de evolução, de
surpreendentes ajustes e refinamentos sutis, ele é o
organismo mais extraordinário existente sobre o planeta.
Em diferentes épocas e lugares, as sociedades
humanas tentaram melhorar a natureza, modificando e
embelezando o corpo feminino de muitas maneiras.
Neste novo estudo, Desmond Morris dirige seu talento
e sua atenção para a forma feminina e conduz o leitor
numa excursão "da cabeça aos pés".
Esclarecendo as funções evolutivas das
características biológicas da mulher, Morris explora os
avanços e limitações criados pelas sociedades humanas no
intuito de atingir o controle e a perfeição do corpo feminino.

Escrito a partir da perspectiva de um zoólogo e


apoiado na inigualável experiência de Desmond Morris
como observador do animal humano, A mulher nua
apresenta fatos científicos, histórias interessantes e
conclusões instigantes que provocam reflexão.
Introdução
Este livro conduz o leitor numa viagem pelo corpo
feminino, explicando muitos de seus aspectos pouco
conhecidos. Não se trata de um texto médico, nem de uma
análise psicológica, mas de uma abordagem zoológica, que
celebra a mulher na forma como ela existia no mundo real,
em seu ambiente natural.
Muito mais do que o macho, a fêmea humana passou
por mudanças drásticas no curso de sua evolução. Perdeu
muitas dos atributos femininos de outros primatas e, na
forma da mulher moderna, tornou-se um ser único de
uma espécie extraordinária.
Toda mulher tem um corpo belo — belo porque é o
brilhante coroamento de milhões de anos de evolução,
fruto de surpreendentes ajustes e sutis refinamentos que o
tornam o mais extraordinário organismo existente no
planeta. Apesar disso, em diferentes épocas c lugares, as
sociedades humanas tentaram melhorara natureza,
modificando ou embelezando o corpo feminino de muitas
maneiras- Algumas dessas elaborações culturais foram
agradáveis, outras foram dolorosas, mas todas buscaram
tornar a fêmea humana ainda mais bonita do que já era.
O conceito de beleza tem variado muito, e cada
sociedade humana desenvolveu idéias próprias sobre o que
considera atraente. Algumas culturas apreciam figuras
esguias, outras preferem as formas mais arredondadas;
algumas gostam de seios pequenos, outras os apreciam
vastos; algumas apreciam cabeças raspadas, outras
valorizam longas e luxuriantes cabeleiras. Mesmo na
cultura ocidental, o instável mundo da moda continua
criando novas prioridades.
Por isso, à medida que viaja da cabeça aos pés da
mulher, este livro explica os interessantes atributos
biológicos que todas as fêmeas humanas partilham, mas
também discute as muitas maneiras pelas quais esses
atributos foram exagerados ou suprimidos, aumentados
ou reduzidos. Dessa forma, tenta oferecer um quadro
completo do mais fascinante tema do mundo: a mulher
nua.

No aspecto pessoal, este livro reflete o fascínio que me


motivou durante toda a vida pela evolução e pela condição
da fêmea humana. Há alguns anos, isso me levou a criar
uma série para a televisão americana chamada The Human
Sexes, na qual analisei detalhadamente a natureza do
relacionamento entre machos e fêmeas da espécie humana
ao redor do mundo. Quanto mais eu viajava, mais
aborrecido e furioso ficava com a maneira como as
mulheres eram tratadas em muitos países. Apesar dos
avanços conquistados pelo movimento feminista no
Ocidente, em outras partes do mundo milhões de
mulheres ainda são consideradas "propriedade" do homem
e membros inferiores da sociedade. Para elas, o movimento
feminista simplesmente não existiu.
Para mim, um zoólogo que estudou a evolução
humana, essa tendência à dominação masculina não tem
coerência com o modo como o como sapiens se
desenvolveu ao longo de milhões de anos. Nosso sucesso
como espécie se deveu à divisão do trabalho entre machos
e fêmeas, em que os machos se especializaram na função
de caçadores. Como viviam em pequenas tribos, isso
significava que, com os machos longe, caçando, as fêmeas
ocupavam o centro da vida social, coletando e preparando
o alimento, criando os filhos e organizando a tribo.
Enquanto os homens se concentravam em sua tarefa
crucial, as mulheres aprenderam a lidar com vários pro-
blemas ao mesmo tempo. (Essa diferença de personalidade
ainda persiste.) Nunca houve a pretensão de um sexo
dominar o outro. Um confiava totalmente no outro para a
sobrevivência. Havia um equilíbrio primevo entre homens e
mulheres. Eles eram diferentes, mas iguais.

Esse equilíbrio se perdeu quando a população


humana cresceu, vilas e cidades foram construídas e os
habitantes das tribos se tornaram cidadãos. Ocupando o
centro das sociedades humanas, a religião desempenhou
um papel fundamental nesse processo. Em tempos antigos,
a grande deidade era sempre uma mulher, mas, quando a
urbanização se espalhou, a Grande Deusa passou por uma
desastrosa mudança de sexo e se transformou num
autoritário Deus Pai. Ao longo das eras, com um Deus
vingativo dando-lhes apoio, homens rudes passaram a
garantir sua segurança e sua condição social superior às
custas das mulheres, que foram empurradas para uma
condição social inferior que nada tinha a ver com sua
herança evolutiva. Foi essa origem que as sufragistas e,
mais tarde, as feministas quiseram recuperar. Pode-se
imaginar que essas mulheres estivessem exigindo um novo
respeito social e novos direitos. Mas, na verdade,
simplesmente estavam buscando recuperar seu primitivo
papel. Na maior parte do Ocidente, elas conseguiram, mas
em outras regiões do planeta a subordinação feminina
ainda é uma realidade.
Depois da serie The Humam Sexes, essa questão
passou a me preocupar cada vez mais, e, por ocasião de
uma nova edição de meu livro Bodywatching, de 1985,
decidi que, em vez de seguir o origina! e tratar de ambos os
sexos, dedicaria o novo livro exclusivamente ao corpo
feminino. Em Bodywatching, examinei cada parte do corpo
humano. Mantive esse esquema neste livro, levando 0
leitor por uma viagem de inspeção anatômica da cabeça
aos pés, ou, para ser mais exato, dos cabelos aos pés.
Parte do texto original de Bodywatching foi aproveitada,
mas muito pouco. Embora tenha partido de um livro
anterior, A mulher nua acabou se revelando uma obra
inteiramente nova.
Apresento em cada capítulo o aspecto biológico de
uma determinada parte do corpo feminino e então passo a
examinar as várias maneiras como diferentes sociedades
modificaram esses atributos biológicos. Foi uma ab-
sorvente viagem de descobrimento, e quem me dera que,
aos 18 anos, eu soubesse tudo o que sei agora — depois de
escrever este livro — sobre a complexidade do corpo
feminino.
1. A Evolução
Para o zoólogo, o ser humano é um macaco sem
cauda com um cérebro enorme. O que mais surpreende
nele é seu incrível sucesso como espécie. Enquanto outros
macacos se escondem em seus últimos refúgios, aguar-
dando a chegada das correntes que irão aprisioná-los, 6
bilhões de humanos ocupam quase todo o globo,
espalhando-se tanto e com tal velocidade a ponto de
mudar drasticamente a paisagem como uma praga de
gafanhotos gigantes.
O segredo desse sucesso é sua capacidade de viver em
agrupamentos cada vez maiores, onde, mesmo na mais
alta densidade populacional, são capazes de se adaptar às
tensões da vida e continuar procriando sob condições que
qualquer outro macaco acharia insuportáveis. Além dessa
capacidade, existe ainda uma curiosidade insaciável que os
faz buscar sempre novos desafios.
Essa combinação mágica de sociabilidade e
curiosidade foi possível graças a um processo
evolucionário chamado neotenia, que permite aos
humanos manter caracteres juvenis na vida adulta.
Outros animais brincam quando são jovens, mas perdem
essa qualidade quando amadurecem. O homem continua
brincando e se divertindo por toda a vida — é um Peter
Pan que nunca cresce. Naturalmente, quando se tornam
adultos, os homens dão nomes diferentes a essa
brincadeira: chamam-na de arte ou pesquisa, esporte ou
filosofia, música ou poesia, viagem ou divertimento. Como
as brincadeiras infantis, todas essas atividades envolvem
inovação, risco, exploração e criatividade. E são elas que
nos tornam verdadeiramente humanos.
Homens e mulheres não seguiram essa tendência
evolutiva da mesma maneira. Ambos percorreram esse
longo caminho em direção ao "adulto infantil", mas
avançaram num ritmo um tanto diferente e com diferentes
características. Os homens são ligeiramente mais infantis
em seu comportamento; as mulheres, em sua anatomia.
Eis alguns exemplos;
Aos 30 anos, os homens têm quinze vezes mais
chances de sofrer um acidente que as mulheres. Isso
ocorre porque eles conservam mais que as mulheres 0
elemento de risco da brincadeira infantil. Embora
freqüentemente crie problemas para os homens, esse era
um atributo valioso nos tempos primitivos, quando, para
ter sucesso na caça, os machos eram obrigados a correr
riscos. Além disso, as mulheres primitivas eram valiosas
demais para serem expostas ao risco da caçada, ao passo
que os machos eram menos necessários, e por isso se
especializaram em atividades arriscadas. Se alguns deles
morressem em ação, isso não reduziria a capacidade de
procriação das pequenas tribos. Mas, se algumas
mulheres morressem, a taxa de natalidade ficaria
imediatamente ameaçada. É importante lembrar que, em
tempos primitivos, havia tão poucos seres humanos no
planeta que a taxa de natalidade era extremamente
importante.
Existem mais homens inventores do que mulheres. A
disposição para o risco não é apenas física, mas mental. A
inovação sempre envolve risco: o de experimentar algo
desconhecido em vez de se apegar a tradições testadas e
confiáveis. As mulheres precisavam ter cuidado. No papel
de centro da sociedade tribal, com responsabilidade sobre
quase tudo exceto a caça, as mulheres não podiam
cometer erros graves. No curso da evolução, elas se
especializaram em fazer várias coisas ao mesmo tempo,
tornaram-se ótimas na comunicação verbal e
desenvolveram mais o olfato, a audição, o tato e a visão
das cores. E ficaram mais resistentes às doenças — como
mães, sua saúde é de vital importância.
Tudo isso se deve a uma diferença entre o cérebro da
mulher e o do homem: eles conservam mais aspectos
"infantis" que elas. Os homens tornaram-se mais
imaginativos e, às vezes, mais perversos. As mulheres
tornaram-se mais sensíveis e carinhosas. Essas diferenças
se adaptam ao seu papel na sociedade. Eles se
complementam, e a combinação resultou cm sucesso.
Fisicamente, a história foi bem diferente. Por causa
da divisão de trabalho durante a evolução, os homens
precisavam ser mais fortes e mais atléticos para a caça. O
corpo masculino contém em média 28 quilos de músculos,
enquanto o feminino tem 15 quilos. O corpo do homem é
30% mais forte, 10% mais pesado e 7% mais alto que o da
mulher. Devido à sua importância para a reprodução, o
corpo feminino tinha que ser mais protegido da fome. Por
isso, o corpo arredondado da mulher contém em média
25% de gordura, enquanto o masculino tem apenas 12,5%.
Essa grande retenção de gordura na fêmea era uma
característica fortemente infantil, e com ela vieram muitos
outros úteis atributos juvenis. O homem adulto foi
programado pela evolução para proteger seus filhos. Para
vingar, a prole tinha que ser protegida durante seu lento
crescimento, e para isso precisava da atenção de ambos os
pais. A reação paterna ao corpinho gordinho de seus bebês
era tão forte que podia ser explorada pela fêmea adulta.
Quanto mais características de bebê apresentasse, mais
proteção ela conseguia receber de seu macho,
O resultado foi que a voz da mulher permaneceu num
tom mais agudo que a do homem. A voz grave masculina
opera a 130 - 145 vibrações por segundo, enquanto a voz
aguda da mulher opera a 230-255 vibrações por segundo.
Em outras palavras, a mulher manteve uma voz
semelhante à das crianças. A mulher também conservou
características faciais juvenis e cabelos de aspecto
evidentemente infantil. Enquanto o homem adulto de-
senvolveu uma fronte, um queixo e um nariz mais
marcantes, além de bigode, barba e pêlos no peito, a
mulher conservou sua face lisa e delicada de bebê.
Portanto, para resumir, à medida que o homem e a
mulher percorriam seu trajeto evolutivo em direção a uma
neotenia cada vez maior, o homem se comportava de uma
maneira cada vez mais infantil e mostrava menos
mudanças físicas, enquanto a mulher desenvolvia mais
atributos físicos e menos qualidades mentais infantis.
É importante ressaltar o grau de diferenciação entre
homens e mulheres. Tenho me dedicado a listar as várias
diferenças entre os sexos, mas é fundamental lembrar que
tanto homens quanto mulheres são cem vezes mais
neotênicos em todos os aspectos que machos e fêmeas de
outras espécies. As diferenças entre homens e mulheres
são verdadeiras e muito interessantes, mas muito leves.
Vou tratar delas neste livro apenas porque é importante
deixar claro desde o início, que o corpo feminino é mais
avançado — ou seja, mais neotênico — que o masculino
em muitos aspectos. Entender isso nos ajudará a
esclarecer muitos atributos da anatomia feminina que
vamos encontrar nesta viagem da cabeça aos pés. Não
explica tudo, porque muitos desenvolvimentos evolutivos
especializados ocorridos na anatomia feminina, em
especial nas características sexuais e reprodutivas,
tornaram o corpo da mulher um organismo altamente
evoluído e maravilhosamente refinado. Como veremos.
2. Cabelos
Hoje não existe praticamente nenhuma mulher que
deixe os cabelos crescerem como a natureza queria. Se
alguma delas fizesse isso, acabaria com uma cabeleira na
altura dos joelhos ou, se tivesse pele escura, com uma
imensa floresta cobrindo-lhe a cabeça. Como nossos
ancestrais remotos lidavam com esses extravagantes
penteados antes de inventarem as facas, tesouras, pentes
e outros utensílios é uma questão que nunca é discutida
pelos antropólogos, talvez porque não tenham resposta
para ela. Muitas vezes, quando seres pré-históricos são
descritos nos livros, as ilustrações mostram, em sua
imaginativa reconstrução, mulheres que parecem ter feito
uma misteriosa visita ao cabeleireiro antes de posar. Seus
cabelos são sempre curtos demais. A menos que o
cabeleireiro, e não a prostituição, seja a profissão mais
antiga do mundo, há algo de errado nisso, e o erro esconde
um dos maiores mistérios da anatomia feminina: por que a
fêmea humana desenvolveu essas madeixas ridiculamente
longas? No antigo mundo tribal, essa exagerada cobertura
capilar seria um estorvo enorme, assim como uma cauda
de pavão. Qual foi a vantagem evolutiva desse de-
senvolvimento excessivo?
Ainda mais estranho é que, exceto pelo topo da
cabeça, pelas axilas e pelos genitais, a fêmea humana
quase não tem pêlos. É verdade que, sob uma lente de
aumento, é possível ver minúsculos pêlos cobrindo-lhe
toda a pele, mas à distância eles são invisíveis, e sua pele
é funcionalmente nua. Isso torna seus cabelos longos
ainda mais extraordinários.
Não é muito difícil traçar a origem desse padrão
capilar. Quando um feto de chimpanzé tem cerca de 26
semanas de idade, exibe uma distribuição capilar muito
semelhante à de um adulto humano. O fato de que nos
humanos, esse padrão tenha sobrevivido na vida adulta é
outro exemplo de neotenia. Ao contrário dos macacos, que
desenvolvem um pelame antes de nascer, nós preservamos
o padrão capilar fetal durante toda a vida. Os homens são
menos evoluídos que as mulheres nesse aspecto, pois pos-
suem um corpo mais peludo, além de bigode e barba, mas
ambos os sexos se mantêm funcionalmente nus na maior
parte da superfície corporal. Mesmo ao mais peludo dos
homens, os pêlos do peito não dariam qualquer conforto
numa noite gelada nem evitariam uma insolação em dias
de intenso calor.
Portanto, parece que a natureza nos dotou de um
padrão capilar muito estranho se comparado ao de outros
animais. A explicação fetal pode nos dizer onde o
adquirimos, mas não é capaz de explicar que vantagem ele
nos deu em termos da sobrevivência da espécie. Como
sempre, quando não existe uma explicação óbvia,
abundam especulações.
Os defensores da teoria aquática da origem humana
acreditam que perdemos nossa pelagem porque
precisávamos nos adaptar à natação, mas conservamos
nossos cabelos para proteger o topo da cabeça dos raios do
sol. Eles também sugerem que os longos cabelos femininos
tiveram outra uti1idade: os bebês podiam agarrar-se a eles
quando nadavam com as mães. Os críticos da teoria
aquática a julgam infundada. Se a mãe mergulhasse em
busca de comida, era pouco provável que permitisse que
os filhos a acompanhassem. Além disso, se nossos
ancestrais evoluíram num tórrido clima africano, é
provável que não mantivessem os cabelos compridos e
flutuantes, mas muito mais curtos e eretos — mais
semelhantes aos penteados que vemos hoje em cabeças
africanas.
Entretanto, a idéia de manter a cabeleira, como
proteção tem algum mérito, em ambientes aquáticos ou
não. Se os humanos primitivos se dedicavam à caça e à
coleta nas savanas africanas durante o dia, precisavam
proteger-se contra o forte calor do sol tropical. Uma vasta
cabeleira lhes proporcionaria essa proteção, e o resto do
corpo pelado aumentaria drasticamente o resfriamento
proporcionado pelo suor. (O suor refresca cinco vezes mais
a pele nua do que um corpo peludo.) Se outros animais
africanos conservaram a pelagem, foi provavelmente
porque eram mais ativos ao amanhecer e ao anoitecer,
quando o sol não é tão forte. Os primitivos humanos eram
animais tipicamente diurnos, como outros macacos.
Isso pode explicar o penteado de estilo africano —
uma cabeleira espessa que cobre o crânio, protegendo o
cérebro do superaquecimento —, mas não esclarece o
mistério da existência de longos cabelos flutuantes nas re-
giões frias do norte. Alguns antropólogos afirmam que os
cabelos compridos ajudavam a manter o corpo dos
habitantes das regiões frias aquecido durante o inverno —
como uma capa natural pendente dos ombros. À noite,
quando dormiam, a longa cabeleira pode ter funcionado
como um cobertor. Isso pode até lhes ter dado a idéia para
suas primeiras roupas, feitos de peles de animais
enroladas no corpo. Mas, se isso fosse verdade, por que os
humanos dos paises frios não fabricaram um casaco de
peles para proteger-se?
A explicação mais provável é que o bizarro padrão
capilar humano funcionasse como uma bandeira da
espécie — um sinal que nos diferenciaria de todos os
nossos parentes próximos (parentes que desde então
eliminamos). Se tentarmos imaginar um pequeno grupo de
nossos remotos ancestrais antes que eles fabricassem
roupas ou qualquer tipo de instrumento cortante, é claro
que eles deviam parecer muito diferentes de tudo o que
existia no planeta. Com corpos pelados, encimados por
longas capas de cabelos ou jubas eriçadas, eles seriam
imediatamente identificados como membros daquela nova
espécie que caminhava sobre as patas posteriores. Talvez
essa seja uma maneira singular de classificar uma espécie,
mas um rápido exame dos outros macacos pode nos
mostrar com que freqüência estranhos padrões capilares
surgiram como sinais de identificação das espécies. Há
uma rica variedade de crinas, penachos, jubas, barbas,
bigodes e tufos de cores brilhantes. Os primatas são
animais predominantemente visuais, de modo que exibir
evidentes sinais visuais seria a maneira mais rápida e
eficiente de se distinguirem das outras espécies.
Com seus corpos pelados e cabelos longos, nossos
ancestrais humanos podiam ser avistados à distância e
facilmente diferenciados dos primos de corpo coberto de
pêlos. De mais perto, seria então possível fazer a distinção
entre os sexos. Os machos, com suas faces peludas,
jamais seriam confundidos com as fêmeas imberbes.
Mas existe outra razão para o padrão capilar dos
humanos, além de servir para identificar a espécie e o
gênero. À medida que começaram a sair de sua terra natal
na África e foram obrigados a se adaptar a diferentes am-
bientes, esses humanos passaram a diferir cada vez mais
dos que ficavam em terras tropicais. A necessidade de
adaptar-se a diferentes climas os colocou num caminho
evolucionário que levou ao desenvolvimento de vários e
diferentes tipos raciais. Lutando pela sobrevivência em
desertos áridos e quentes, em zonas de clima moderado ou
nas geladas cerras do norte, seu corpo precisava mudar
para sobreviver. E, uma vez conquistadas essas mudanças,
era importante que elas não se perdessem. Como ocorre
com qualquer outra tendência evolutiva, era necessário
impor barreiras que reduzissem os cruzamentos inter-
raciais. As raças tinham que se diferenciar o mais possível.
Uma das maneiras mais rápidas de fazer isso era variar o
padrão capilar humano. Cabelos crespos, cabelos
encaracolados, cabelos ondulados, cabelos lisos, cabelos
loiros — variações desse tipo podiam diferenciar
rapidamente um grupo humano dos outros.
Esse processo começou a ganhar impulso desde um
estágio muito primitivo, à medida que os humanos foram
se espalhando pelo globo. Não resta dúvida de que
estávamos evoluindo para constituir um novo grupo de
espécies intimamente relacionadas — humanos tropicais,
humanos desérticos, humanos temperados, humanos
polares e assim por diante. Nossos diferentes estilos de
penteado foram o primeiro sinal de que esse processo
estava ocorrendo. Mas, antes que ele chegasse muito longe,
a história humana sofreu uma reviravolta. Graças à nossa
inteligência avançada, tornamo-nos incrivelmente móveis.
Inventamos barcos e navios, domamos cavalos e os
montamos, inventamos a roda e construímos carruagens,
fabricamos trens e carros, ferrovias e rodovias, e depois
aeroplanos. As diferenças raciais estavam ainda num
estágio muito preliminar de desenvolvimento. Apenas duas
delas tinham feito progresso: as relacionadas ao calor e à
umidade (diferenças na pigmentação da pele, na densidade
das glândulas sudoríparas e aspectos semelhantes) e as
relativas ao sinais visuais: os padrões capilares.
As populações modernas praticamente não precisam
adaptar o corpo ao clima. Essas adaptações se tornaram
quase obsoletas. Aprendemos a controlar o ambiente com
roupas, lareiras e aquecimento central, com refrigeração e
ar condicionado. As diferenças que sobreviveram entre as
raças não são mais importantes. Quanto aos diferentes
formatos de cabelos que surgiram como mecanismos
isolantes, ajudando a manter os diferentes tipos afastados,
hoje não passam de uma chateação. Como não nos
mantemos mais afastados, mas nos misturamos em todas
as partes do mundo, eles só levam à desarmonia. No
futuro, quando as populações estiverem ainda mais
misturadas, esses mecanismos de isolamento deverão
desaparecer totalmente. Mas, enquanto isso, precisam ser
compreendidos. Se continuarmos imaginando —
erroneamente — que os cabelos refletem profundas
diferenças raciais, eles continuarão a nos causar
problemas. Podem chamar a atenção, mas, apesar disso,
são comuns e superficiais, e como tal devem ser vistos.
Tratando agora especificamente dos cabelos das
mulheres, é claro que suas longas madeixas e sua face lisa
devem ter criado um atraente contraste visual. Se, como
discutimos, o crescimento excessivo dos cabelos evoluiu
originalmente como um sinal visual, não deve nos causar
surpresa que, ao longo dos séculos, eles tenham sido alvo
de tanta atenção, positiva e negativa. Os cabelos foram
exibidos, escondidos, penteados, cortados, alisados,
ondulados, presos, soltos, coloridos e enfeitados de
milhares de maneiras diferences. Representaram um
pouco de tudo: de glória da feminilidade a motivo de tabus
religiosos. Nenhuma outra parte do corpo feminino passou
por tantas e incríveis mudanças culturais.
Antes de analisar essas mudanças mais
detalhadamente, convém dizer que existem cerca de 100
mil fios de cabelo numa cabeça humana. As loiras têm
cabelos mais finos e, como compensação, um número de
fios ligeiramente superior à média — geralmente cerca de
140 mil. As morenas têm cerca de 108 mil fios, enquanto
as ruivas, que possuem cabelos mais espessos, têm
apenas 90 mil.
De modo geral, cada fio cresce durante cerca de seis
anos. Então, passa por uma fase de repouso de três meses
antes de começar a cair. Em qualquer tempo, 90% dos fios
estão crescendo, enquanto 10% estão descansando. No
período de uma vida humana, cada papila capilar produz
cerca de doze fios, um depois do outro. Ao contrário de
muitos outros mamíferos, os humanos não têm trocas de
pêlo. Nossos cabelos se mantêm no mesmo volume em
todas as estações.
Na média, cada fio cresce 13 cm por ano, mas, entre
adultos jovens e saudáveis, pode chegar a 18 cm por ano.
Então, nesses jovens, se não forem cortados, os fios podem
atingir mais de 1 metro antes de começar a cair. Nenhum
outro primata apresenta tal crescimento, e essa é uma das
características únicas da espécie humana.
Há uma curiosa exceção a essa regra: em alguns
casos, em vez de cair depois de seis anos, os cabelos
simplesmente continuam crescendo cada vez mais, até
chegarem ao chão. Em alguns casos, crescem além disso.
Em uma americana, os cabelos atingiram 4 metros de
comprimento, mas o recorde mundial pertence a uma
chinesa cujos cabelos chegaram a 5 metros. É como se o
impulso genético para desenvolver cabelos humanos mais
longos tivesse escapado de controle, criando indivíduos
supercabeludos.
Mesmo sem considerar esses casos extremos, era
natural que, com tanto cabelo a seu dispor, o ser humano,
sempre inventivo, se sentisse tentado a experimentar
diferentes formas e estilos. Sabemos, por algumas das
mais antigas imagens de Vênus, que isso ocorre há pelos
menos 20 mil anos. Algumas gravuras rupestres mostram
claramente diferences penteados, inclusive cabelos
elaboradamente repartidos no meio da cabeça e. em um
caso, uma trança caída sobre o ombro direito.
Analisando os primeiros períodos históricos, é
possível ver como os estilos foram mudando devagar, com
penteados bem característicos de cada época. Na era
moderna, com a chegada dos salões profissionais de
cabeleireiros e dos sistemas de comunicação global, a
velocidade dessas mudanças se acelerou drasticamente.
Hoje, no século XXI, são tantas as influências, que
não existe mais um único modelo predominante. Com a
individualidade na ordem do dia, existem mais penteados
c cortes do que nunca. A ânsia de imitar celebridades
ainda cria tendências de curto prazo, mas são tantos os
modelos a copiar que ninguém mais pode afirmar que um
estilo predomine. Os cabelos curtos e práticos da executiva,
as longas madeixas flutuantes da pop star, os cabelos
cuidadosamente desarrumados das atrizes de Hollywood,
os cabelos espetados do rebelde — são todos modelos que
encontramos lado a lado nos jornais e revistas. E dar um
nome a todos esse estilos é criar estereótipos injustificados,
porque dentro de cada estilo existem incontáveis e sutis
variantes.
Este não é o lugar para listar todas essas criativas
variações, mas é importante registrar que, ao longo dos
séculos, ocorreram poucas "estratégias de penteados
femininos". Elas não dependem dos caprichos da moda,
mas das possibilidades básicas do que pode ser feito com
os cabelos femininos. Algumas dessas estratégias se
desvaneceram na história e hoje parecem muito estranhas.
Outras ainda estão em uso.
A estratégia mais simples é optar por um ar natural.
Quando a adota, a mulher usa os cabelos soltos e naturais
o tempo todo, em casa ou na rua, nas ocasiões especiais e
no dia-a-dia. Ela lava, escova e penteia os cabelos, mas
não tenra modelá-los ou dar-lhes alguma forma especial.
Embora seja a mais básica das estratégias, ela é hoje
relativamente rara. Ainda pode ser encontrada em
sociedades pouco sofisticadas ou em culturas em que a
simplicidade se tornou uma doutrina social. A pobreza
seria um fator para a sua adoção, mas, mesmo quando
não têm dinheiro para comprar produtos para os cabelos
ou freqüentar um salão de cabeleireiro, as mulheres não
deixam de arrumar os cabelos. Enrolar, frisar e trançar
não custa quase nada e ajuda a matar o tempo.
Para mulheres que têm um trabalho físico
extenuante — nos campos ou nas fábricas, por exemplo —,
um estilo prático é o ideal. Os cabelos são presos por
razões de conveniência, para que não caiam sobre os olhos
ou se embaracem. Quando não estão trabalhando, elas
soltam os cabelos e os deixam cair naturalmente. Essa foi
uma estratégia muito usada pelas camponesas no passado
e ainda hoje é adotada por muitas mulheres, que, mesmo
não se dedicando a trabalhos físicos, acham que prender
os cabelos num rabo-de-cavalo pode ser uma forma de
controlar cabelos rebeldes, tanto no trabalho quando em
casa.
Mas, em sua grande maioria, as mulheres,
especialmente as que vivem em sociedades urbanas,
nunca se contentaram com soluções práticas e naturais.
Há séculos, têm optado por alguma forma de penteado,
prendendo, cortando, modelando, tingindo, ondulando,
alisando, mechando ou enfeitando os cabelos. Essa é a
estratégia mais comum, principalmente em países onde há
muitos salões de cabeleireiro, mas proibida em países em
que há estritas normas religiosas ou onde a beleza
feminina é tabu.
Duas das principais estratégias no cuidado dos
cabelos são o corte e o alongamento. Os cabelos longos
mostram mais as mudanças escolhidas e fazem a mulher
parecer mais alta.
Uma maneira de ter cabelos longos é usar uma
peruca. Essa é uma estratégia que tem no mínimo 5 mil
anos. No antigo Egito, as mulheres da classe superior
raspavam a cabeça e usavam uma peruca ornamentada
em público. As damas romanas não raspavam a cabeça,
mas também gostavam de usar perucas como
demonstração de status. Essa predileção criou moda: a de
que os cabelos com os quais as perucas eram feitas
tinham que ser de mulheres de povos conquistados em
batalha — uma versão romana do costume de escalpelar
os inimigos.
As perucas foram banidas pela Igreja na Idade Média,
mas reapareceram na era elisabetana. Isso aconteceu em
grande parte porque os primeiros cosméticos danificavam
tanto os cabelos e a pele que era necessária uma espessa
cobertura. Mas a moda da peruca só atingiria seu ápice no
século XVIII, quando, com um exagero atrás do outro,
surgiram penteados nunca vistos. Algumas dessas perucas,
sempre primorosamente decoradas, chegavam a ter 75 cm
de altura. A altura das portas teve que ser aumentada
para permitir que as damas passassem por elas. O assento
das carruagens teve que ser rebaixado. Cabeceiras
especiais foram criadas nas camas para que a mulher
pudesse deitar-se e descansar sem tirar a enorme peruca.
Na Ópera de Paris, as perucas só eram permitidas nos
camarotes, porque sua presença na platéia impediria a
visão do palco. Nenhum outro estilo de penteado teve tal
impacto sobre a sociedade. Como o custo de fabricar e
manter uma peruca era muito alto, os maridos tinham que
ser extremamente generosos para financiá-las. Por isso, as
perucas passaram a ser uma demonstração de riqueza.
A única mulher que podia pôr um fim a essa moda
extravagante era Madame Guilhotina, que decepou as
cabeças aristocráticas sobre as quais se exibiam as
enormes perucas. Depois da Revolução Francesa, a peruca
nunca se recuperou totalmente. Houve momentos em que
ela ressurgiu brevemente sob uma forma ou outra — como
as divertidas perucas da década de 1960, fabricadas de
material sintético e em cores brilhantes e artificiais —,
mas seus dias de glória tinham ficado para trás. Em
tempos mais recentes, quando são usadas, as perucas
devem ser tão semelhantes aos cabelos naturais a ponto
de passarem despercebidas.
Há mulheres (especialmente aquelas cujos cabelos
ficam mais ralos com a idade) que nunca aparecem em
público sem uma boa peruca. Algumas celebridades
também adotam essa estratégia, não porque tenham
problemas com os cabelos, mas por conveniência. Mesmo
que os cabelos estejam em bom estado, às vezes é mais
fácil usar uma peruca do que perder tempo arrumando os
cabelos. A grande vantagem disso é que as elegantes
perucas podem ser cuidadas e penteadas sem a presença
da dona. Voltando à estratégia dos cabelos compridos, um
notável exemplo do passado recente é um penteado que
ficou popular na década de 1980. Em lugar da peruca, o
cabelo natural era penteado de forma a parecer o mais
volumoso possível. Pura obter essa exuberante cabeleira,
era preciso "secar os cabelos de baixo para cima com a
cabeça abaixada, modelá-los com mousse e por fim
pulverizá-los com muito spray fixador". O resultado, que
desafiava a gravidade, foi maldosamente descrito por um
crítico como "uma das maravilhas arquitetônicas de nossa
época". Às vezes batizado de "estilo Dolly Parton" (uma
famosa cantora country americana), o penteado ficou
muito popular nas pequenas cidades norte-americanas e
nos Estados do sul do país, onde com freqüência se ouvia
dizer que, "quanto mais alto o cabelo, mais perto de Deus".
Uma das razões dessa popularidade era que esse volume
todo fazia as feições parecerem mais delicadas, e portanto
mais atraentes. Era também um penteado extrovertido e
afirmativo, dando à mulher um ar mais confiante. Para
seus críticos, porém, era chamativo e vulgar, nada mais do
que uma maneira de compensar as imperfeições. E tinha
um grave defeito: podia ser uma inegável propaganda de
feminilidade, mas também era anti-sexual, porque os
homens hão podiam correr os dedos pelos cabelos, nem
desmanchá-los carinhosamente.
Mais recentemente, surgiu uma forma mais
sofisticada de alongamento: mechas que são coladas aos
cabelos naturais para fazê-los parecer mais longos. Esse
recurso é utilizado quando a mulher se cansou dos cabelos
curtos ou quando os cabelos naturais não crescem tanto
quanto ela desejaria. Técnicas modernas tornaram
praticamente impossível detectar a presença dessas
mechas, embora algumas delas sejam visíveis,
propositalmente falsas e funcionem quase como uma meia
peruca.
A segunda estratégia importante é diminuir o
tamanho ou o volume dos cabelos naturais, seja por meio
de um corte, seja usando-os rigorosamente presos.
Algumas mulheres usam os cabelos presos num penteado
sóbrio em ocasiões sociais, mas soltos e naturais na vida
cotidiana. Nas últimas décadas, muitas mulheres querem
parecer "livres e naturais" a maior parte do tempo, mas
gostam de se arrumar para ocasiões especiais, como
casamentos, enterros e grandes eventos e celebrações. No
intuito de criar uma aparência de pessoas de alta classe e
disciplinadas, prendem os cabelos, querendo dizer: "Sou
importante, sou séria e não permito familiaridades".
Algumas mulheres vão ainda mais longe e nunca
usam os cabelos soltos em público. Mantêm-nos presos
num coque o tempo todo, a não ser na privacidade do lar.
É o que se pode chamar de estilo "governanta" ou "diretora
de escola". Mulheres que precisam impor sua autoridade
costumam amplificar esse ar de controle e poder mantendo
os cabelos colados ao crânio. Isso as torna menos
femininas e evita passar a impressão de relaxamento ou
liberdade. Sem um fio fora do lugar, os cabelos não podem
ser despenteados ou acariciados. Isso as faz parecer literal
e metaforicamente impecáveis, inacessíveis c intocáveis.
Há mulheres que optam por usar os cabelos tão
curtos que não é possível prendê-los nem soltá-los. O
pouco cabelo que resta fica solto, e não precisa ser preso
para facilitar o trabalho físico, nem pode ser mudado em
diferentes contextos sociais. As melindrosas da década de
1920 foram as primeiras a adotar essa moda, que
reapareceu nos anos de 1960 no trabalho do cabeleireiro
Vidal Sassoon.
Evidentemente, a mensagem que se quer passar com
o estilo curto é a de uma mulher ativa e independente, que
faz dos cabelos uma demonstração de molecagem elegante,
e não uma exibição de futilidade feminina. A desvantagem
porém é que na prática esses cortes dos anos 1920 e 1960
se revelaram mais difíceis de cuidar fora do salão de
cabeleireiro.
O penteado curto ressurgiu novamente na década de
1970, quando, numa forma mais austera, tornou-se uma
estratégia feminista, uma demonstração de assertividade
nos locais de trabalho, onde as mulheres queriam ser
tratadas com mais respeito por seus colegas homens. Na
década de 1990, os penteados curtos suavizaram-se e
ganharam um toque mais feminino. O estilo da mulher
executiva pós-feminista está comunicando: "Continuo
disciplinada, mas não preciso abrir mão da minha
feminilidade para ocupar um lugar de destaque no mundo".
A moda dos anos 1990 caminhou na corda bamba,
oscilando entre o estilo agressivo e masculinizado e o
modelo ornamentado. O objetivo era combinar um controle
refinado com uma sensual liberdade. Esse é o novo desafio
para o profissional cabeleireiro do Ocidente no início do
século XXI.
Numa forma mais drástica de redução dos cabelos,
algumas mulheres se aventuram a cortar o cabelo rente à
cabeça, o que elimina a "soltura natural" mesmo na
privacidade. Para mulheres bonitas, esse estilo pode pa-
recer uma provocação, como se ela dissesse; "Veja, não
preciso de cabelos bonitos para ser atraente", o que pode
ser visto como uma demonstração de vaidade. Mas
também de rebeldia, manifestação de alguém que ignora
as convenções e se recusa a seguir a moda, como as
conformistas. As mulheres que não gostam desse corte o
vêem como uma tentativa de se exibir com táticas de
choque. E os homens podem se sentir ameaçados e frus-
trados no desejo de acariciar suaves madeixas flutuantes.
Algumas mulheres adotam um corte ainda mais
drástico e raspam completamente a cabeça. Em algumas
culturas, isso era um castigo. Em outras, um sinal de
escravidão ou de submissão voluntária a uma divindade.
Em outras ainda, uma imposição a todas as mulheres em
cerimônias fúnebres especiais. Entre os fenícios, a mulher
que se recusasse a raspar a cabeça em sinal de luto tinha
que se oferecer como prostituta no templo. Recentemente,
na França, um estilista convenceu todas as suas modelos
a raspar a cabeça para mostrar que uma mulher moderna
não precisa ser "prisioneira de seus cabelos". Para os
homens, esse corte raspado (de Joana D'Arc a roqueiras
punk) não tem quase ou nenhum sex appeal, uma vez que
nega totalmente a sensualidade dos longos cabelos
femininos.
Devido ao seu poder de seduzir os homens, a
exposição dos cabelos femininos — em qualquer estilo —
tem sido proibida em algumas culturas. Exige-se que a
mulher cubra ou esconda os cabelos para eliminar seu po-
tencial erótico. A forma mais branda dessa "cobertura"
puritana é usar algum tipo de chapéu. A exigência de que
a mulher cubra a cabeça ao entrar numa igreja católica é
uma reminiscência da época em que ela era obrigada a
esconder os cabelos durante qualquer cerimônia religiosa
cristã. Um resquício moderno desse antigo costume é a
convenção social de usar chapéus em ocasiões formais,
como casamentos e funerais.
Em comunidades religiosas, passadas e presentes,
exige-se que as mulheres cubram a cabeça completamente
quando estiverem em público e só soltem os cabelos na
privacidade do lar, quando não haja estranhos presentes.
Em sociedades que praticam rigidamente o islamismo, por
exemplo, isso é uma lei. Se, por descuido, a mulher
permitir que uma pequena parte dos cabelos seja exposta
sob o tradicional véu, pode ser açoitada pelos homens da
igreja. As comunidades cristãs também impuseram
normas relativas à exposição dos cabelos. No passado,
essas regras quase sempre se aplicavam às esposas
devotas, cujos cabelos não podiam ser vistos em púbico, e
ainda hoje são seguidas pelas freiras.
Um extraordinário exemplo desse costume de ocultar
os cabelos por razões religiosas ainda sobrevive hoje em
Nova York. nas comunidades de judeus ortodoxos. Nelas, a
mulher deve cobrir totalmente os cabelos, que só podem
ser vistos pelo marido, na privacidade do quarto de dormir.
Apesar disso, as mulheres dessas comunidades
desejam se integrar à vida nova-iorquina e resolvem esse
dilema de uma maneira engenhosa. Usam perucas
caríssimas, praticamente iguais a seus cabelos naturais.
Quando usam essa peruca, que chamam de sheitel, sua
aparência não muda. Qualquer observador com certeza
acharia difícil dizer que elas estão usando uma peruca.
Dessa forma, a regra religiosa é obedecida sem sacrifício
da imagem.
É evidente que os cabelos convidam à experimentação
mais do que qualquer outra parte do corpo feminino. Isso
ocorre porque é fácil mudá-los; essas mudanças podem ser
feitas rapidamente, e não são definitivas. Quando os
cabelos crescem, pode-se tentar um novo estilo. Acima de
tudo, os cabelos são muito visíveis, e a menor alteração é
imediatamente percebida.
No simbolismo dos cabelos femininos existe uma
simples dicotomia: o contraste entre os cabelos naturais,
longos, soltos e acessíveis e os cabelos curtos, sóbrios e
rigidamente penteados. Os cabelos longos podem ser vistos
como símbolo de sensualidade, liberdade de espírito,
rebeldia pacífica e criatividade. Os cabelos curtos têm sido
associados a disciplina, autocontrole, eficiência,
capacidade de adaptação e assertividade. Evidentemente,
são generalizações, mas é surpreendente como elas
correspondem aos fatos em muitos casos. O maior prazer
da mulher em relação aos cabelos, porém, é que eles estão
sempre disponíveis, permitindo-lhe expressar seu estilo
pessoal e sua individualidade, assim como seu estado de
espírito. Desde que o mundo obscuro das práticas
religiosas sexistas não interfira, a mulher pode usar os
cabelos como um maravilhoso meio de se expressar e se
apresentar ao mundo.
Além das inúmeras opções de corte e penteado, há
ainda a questão da modificação da cor dos cabelos. As
cores naturais, que vão do preto ao loiro-claro, são, como
os tons de pele, fruto de uma adaptação às condições
climáticas do ambiente. Cada cor — preto, castanho, ruivo
ou louro — tem um significado que reflete essa adaptação
e um encanto próprio. Portanto, é surpreendente descobrir
que, quando as mulheres decidem mudar a cor dos cabelos,
exista uma cor que predomine sobre todas as outras. De
cada cem mulheres que tomam a decisão de mudar
radicalmente a cor dos cabelos, mais de 90% decidem ficar
loiras. Mas por que tantas mulheres de cabelos escuros
querem parecer escandinavas, quando tão poucas
escandinavas querem tingir seus cabelos de preto ou
castanho? É claro que isso nada tem a ver com o clima. Nem
com raça, já que a maioria das caucasianas têm cabelos
escuros. Então, qual é a atração dos cabelos loiros, um apelo
tão forte a ponto de criar a bizarra situação de termos no
mundo mais loiras artificiais do que verdadeiras?
Parte do poder de atração dos cabelos loiros reside no
fato de eles serem finos e leves, mais suaves ao toque e
portanto mais sensuais nos momentos de íntimo contato
corporal. Por entre os dedos ou no contato com o peito do
homem, a suavidade dos cabelos evoca a maciez da carne
feminina. Assim nesse aspecto, as loiras são mais
femininas que as ruivas ou as morenas.
Na verdade a feminilidade das loiras se estende a todo
o corpo. A mulher loira tem uma penugem fina e suave
nas partes em que a morena precisa usar uma lâmina de
barbear ou creme depilatório. As axilas e o púbis das loiras
são cobertos por pêlos mais delicados. A sedosidade de
seus pêlos púbicos é muito diferente da aspereza dos pelos
das morenas. Em momentos de extrema intimidade,
portanto, a loira leva uma ligeira vantagem sobre as
morenas.
Diante do argumento de que é a suavidade dos
cabelos loiros que leva tantas morenas a clarear os cabelos,
alguém poderia contrapor que qualquer vantagem que se
obtenha será apenas por associação. O clareamento não
torna o cabelo mais fino nem mais macio. Ele apenas
parece mais fino. Eis portanto outra vantagem de ser loira,
e ela é apenas visual: a mulher loira passa uma imagem
mais juvenil do que a morena. E essa imagem projetada
por uma mulher adulta, aumenta seu poder de sedução,
transmitindo fortes sinais de que ela deseja ser cuidada.
As loiras passam uma idéia de juventude porque, em
grande parte da humanidade, os bebês são mais loiros que
os pais, de modo que a combinação entre "olhos azuis" e
"madeixas loiras" ficou indelevelmente associada à infância.
Nem é preciso dizer que isso é bom para cabeleireiros
e fabricantes de perucas. Dos impérios do mundo antigo
aos salões da Europa barroca, gerações de mulheres de
cabelos escuros acorreram a seus estabelecimentos em
busca dos mais modernos estilos e produtos, com a
pretensão de se tornarem um pouco — ou muito — mais
loiras do que a natureza as fez. Praticamente desde o
amanhecer da história, o clareamento dos cabelos fe-
mininos foi uma indústria importante.
Alguns dos recursos utilizados para satisfazer as
exigências sociais e alourar os cabelos eram perigosos e
até mesmo letais. Os antigos gregos usavam uma pomada
de pétalas de flores amarelas, uma solução de potássio e
pós colorantes que deixava os cabelos opacos na tentativa
de dar-lhes a sensual aparência alourada. As damas
romanas tingiam os cabelos com um sabão germânico
especialmente importado do norte, mas era mais provável
que escolhessem o caminho mais fácil de usar uma peruca
loira. Essas perucas primitivas eram feitas de cabelos
naturais dos europeus do norte que os romanos
conquistavam em sua expansão. A moda se espalhou tanto
que o poeta romano Marcial zombou dela nos seguintes
versos:

Os cabelos dourados que Gala usa


São dela — quem imaginaria?
Ela jura que são dela, e eu juro que é verdade
Porque sei onde ela os comprou.

À medida que os séculos foram passando, cada vez


mais truques eram usados para clarear os cabelos. Cascas
de plantas, sementes, sabugos e resíduos do vinagre foram
muito populares nos primeiros tempos. Uma das receitas
mandava esfregar os cabelos vigorosamente com açafrão.
Outra recomendava gemas de ovos cozidos com mel,
seguidas de uma longa exposição ao sol forte. As mulheres
elisabetanas polvilhavam os cabelos com pó de ouro ou
quando precisavam ser mais econômicas, aplicavam neles
raspas de ruibarbo diluídas em vinho branco. Algumas
vezes, corriam o risco de embeber os cabelos com ácido
sulfúrico ou alumina. Para algumas mulheres, esses
tratamentos químicos resolviam o problema dos
indesejáveis cabelos escuros: ficavam completamente
carecas e eram obrigadas a usar uma peruca loira pelo
resto da vida.
As receitas foram se tornando cada vez mais
complexas. Em 1825, um tratado denominado A arte da
beleza ensinava a suas leitoras a fórmula para obter
cabelos da cor do linho: Ferva 1/4 de galão de lixívia;
adicione 1/2 onça de raízes de celidônia e gengibre-
dourado, 2 dracmas de açafrão e raízes de lírio, e 1
dracma de cada uma das seguintes flores verbasco, giesta
e hipérico. A solução obtida deve ser aplicada
regularmente nos cabelos .
É claro que, ano após ano, século apos século, a
mulher foi se preparando para superar qualquer obstáculo
que a impedisse de adquirir as desejáveis tonalidades
douradas. Mas, como acontece com muitos conceitos de
moda, foi inevitável que o clareamento dos cabelos
adquirisse um sentido colateral de exagero e exibição.
Mesmo na época romana, a aparência que ele
proporcionava nem sempre era a de uma virgem
imaculada. A artificialidade das perucas e tinturas reduziu
o valor simbólico da coloração. Num dado momento,
tornou-se sinônimo não de inocente feminilidade, mas de
sensualidade profissional: a marca da prostituta.
As prostitutas romanas eram muito organizadas.
Tinham que obter uma licença para trabalhar, pagavam
impostos e, por exigência da lei, usavam cabelos loiros. A
terceira esposa do imperador Cláudio, a ninfomaníaca
Messalina, ficava tão excitada com a possibilidade de fazer
um sexo brutal e repentino com estranhos que saía para a
sua caçada noturna usando uma peruca de prostituta.
Corriam boatos de que tal era a violência com que fazia
sexo que muitas vezes perdia a peruca loira e retornava ao
palácio real totalmente reconhecível.
Outras damas romanas logo passaram a imitá-la na
cor dos cabelos, e os legisladores foram incapazes de
reprimir a nova moda. A obrigatoriedade do uso da peruca
loira para as prostitutas caiu por terra, mas um elemento
de fraqueza e abandono hoje associado às loiras
sobreviveu ao longo de séculos, ressurgindo repetidamente
como o reverso da imagem de virginal inocência.
Geralmente, a diferença que se. estabelecia era a seguinte:
loiras verdadeiras são anjos e loiras falsas são promíscuas.
O fato de as loiras artificiais terem tido muito trabalho
para parecer atraentes significava que o sexo ocupava sua
mente por muito tempo, e a loira falsa se reproduziu em
diferentes arquétipos: garota fácil, bomba sensual,
prostituta, bonequinha de luxo, loira burra. Cada geração
tem um nome para ela, e cada geração tem suas
superloiras.
No início da Primeira Guerra Mundial, a loira
platinada entrou em cena. Em 1937, quando Jean Harlow
morreu, aos 26 anos, deixou uma longa sucessão de
estrelas de cinema loiras, que continuam dominando a tela
até hoje. A grande maioria das personalidades femininas
surgidas em Hollywood foram louras — geralmente, mais
por força da cosmética do que da genética. Algumas
passaram por sacrifícios para aperfeiçoar o visual: Marilyn
Monroe chegou a clarear os pêlos púbicos para fazê-los
combinar com suas madeixas platinadas. Muitas se
mantiveram fiéis à velha associação entre o sol e o
dourado de seus cabelos — eram mulheres alegres e
calorosas, vitais e intensas. Freqüentemente elas se dão
mal, mas isso também faz parte de seu natural poder de
sedução: sua loira vulnerabilidade.
Em defesa das morenas, um comentarista do final da
década de 1960 afirmou: "Se um homem tem boas
intenções em relação a uma garota, deseja que ela seja
natural. Nada artificial atrai um homem sério. De modo
geral, ele prefere uma loira como amante e uma morena
como esposa. Morenas têm mais integridade".
3. Testa
A testa é uma região da face que desempenha um
importante papel na linguagem corporal. Como afirmou
um especialista cm expressões faciais no século XVIII, "de
todas as partes da face, a testa é a mais importante e mais
característica". Hoje, essa afirmação pode parecer
surpreendente, porque, como se dá muita atenção à
maquiagem dos olhos e dos lábios, eles tendem a dominar
o rosto feminino e ofuscar as outras partes. No entanto, é
pouco provável que alguém tenha travado uma conversa
cara a cara sem transmitir sinais inconscientes na testa,
na forma de um mover das sobrancelhas ou de um franzir
da pele — movimentos indicativos de mudanças de humor.
Antes de examinar esses sinais e descobrir de que
forma a testa feminina difere da masculina, convém
perguntar por que afinal temos testa. Se observarmos
atentamente a face de um chimpanzé e a compararmos
com o rosto humano, a diferença na fronte é
surpreendente. Nos macacos, a testa quase não existe. Nos
humanos, ela se eleva verticalmente acima das
sobrancelhas. No chimpanzé, ao contrário, a linha dos
cabelos se junta às sobrancelhas, que quase não têm pêlos.
Na verdade, a região frontal do macaco é totalmente
diferente da dos humanos.
Quando olhamos a face de um chimpanzé ou de
qualquer outro macaco, a impressão que se tem é que eles
possuem imensos e proeminentes ossos superciliares que
os protegem de danos, enquanto nós, humanos, perdemos
essa proteção. Isso é uma ilusão. Se tocarmos o osso
imediatamente acima dos olhos, sentiremos a
proeminência do crânio, que continua lá para nos proteger.
Nossos supercílios são menos evidentes, não porque
desapareceram, mas porque nossa fronte se estendeu para
abrigar um cérebro muito maior. O cérebro de um
chimpanzé tem um volume de cerca de 400 cm3, enquanto
o cérebro humano ocupa um volume mais de três vezes
maior: 1.350 cm3. Foi a expansão do cérebro humano,
principalmente na região frontal, que nos deu uma testa.
Essa área de pele exclusivamente humana acima dos
olhos deu a nossos ancestrais uma região a mais para a
transmissão de sinais visuais. Por isso a pele da fronte,
embora bem esticada sobre o osso, não é totalmente
imóvel. Ela é capaz de leves movimentos — sutis, mas
claramente perceptíveis.
É fácil detectar esses movimentos porque, quando se
mexe, a pele cria rugas. Além disso, a face humana
conservou duas tiras de pelos na fronte.
Conhecidas tecnicamente como supercílios, mas
chamadas comumente de sobrancelhas, funcionam como
sinalizadores que ajudam a tornar os movimentos da pele
ainda mais visíveis à distância.
Já se disse que a principal função das sobrancelhas é
reter o suor e a chuva, impedindo que eles escorram para
dentro dos olhos. E embora elas tenham alguma utilidade
nesse aspecto, funcionando como calhas , sua principal
função é sem dúvida transmitir as aceleradas mudanças
do nosso estado de espírito.
Estudando todos os sinais de mudança de humor no
rosto, fica evidente que existem seis movimentos da testa,
cada um ligado a um determinado estado emocional. São
eles:
Baixar as sobrancelhas. Esse movimento não é
estritamente vertical, e sim um franzimento. À medida que
baixam, as sobrancelhas também se movem ligeiramente
para dentro, aproximando-se. Isso enruga a pele entre elas
e forma pequenas dobras verticais. O número dessas
dobras varia de indivíduo para indivíduo, e cada adulto
tem um franzido característico de uma, duas, três ou
quatro linhas. Quase sempre elas se formam
simetricamente de cada lado do espaço entre as
sobrancelhas (conhecido como glabela), cada uma mais
longa ou mais forte que a anterior.
As marcas horizontais da testa tendem a se suavizar
quando as sobrancelhas baixam, mas podem não
desaparecer completamente. O processo de
envelhecimento envolve uma fixação cada vez maior das
linhas de expressão temporárias. Os vincos da pele, que
na juventude aparecem e desaparecem a cada mudança de
humor, se gravam permanentemente na pele à medida que
os anos passam. Um forte vinco num rosto que não está
franzido é o resultado de inúmeros movimentos desse tipo
realizados pelo indivíduo ao longo da vida.
Esse franzir das sobrancelhas ocorre em duas
diferentes situações, que podem ser grosseiramente
rotuladas como de agressão e de proteção. Num contexto
agressivo, o movimento se processa em diferentes graus de
intensidade, que vão da simples desaprovação ou
determinação até o aborrecimento e a raiva violenta. Num
contexto de proteção, o movimento ocorre sempre que
existe uma ameaça para os olhos.
Entretanto, em momentos de perigo, franzir as
sobrancelhas não é proteção suficiente. Nessas ocasiões,
as bochechas também se elevam. Juntos, esses dois
movimentos oferecem a máxima proteção possível aos
olhos, que se mantêm abertos e atentos. É um movimento
típico de um rosto tenso, que prevê um ataque físico, ou
exposto à forte iluminação, da qual os olhos se protegem.
Essa contração também ocorre freqüentemente
quando o indivíduo ri, chora e em momento de forte
repulsa, o que sugere que essas situações talvez devam ser
consideradas uma espécie de superexposição.
È a função de proteção ocular que explica a origem
desse franzimento da testa. Sua utilização cm contextos
agressivos parece ser secundária, surgida da necessidade
de defender os olhos de contra-ataques que uma atitude
agressiva poderia provocar. Costumamos ver num rosto
franzido a imagem de ferocidade, e não de auto-
preservação, mas isso é um erro. Pode ser feroz, mas não
tão intrepidamente feroz a ponto de não levar em conta a
necessidade de proteger órgãos tão vitais como os olhos. A
verdadeira face de agressão, ao contrário, exibe um par de
olhos fixos e bem abertos, mas essa é uma ocorrência
relativamente rara, uma vez que atos de franca hostilidade
raramente escapam de uma retaliação.

Erguer as sobrancelhas. Como o movimento anterior,


esse não é estritamente perpendicular. Quando se erguem,
as sobrancelhas se movem ligeiramente para fora,
afastando-se. Isso estica a pele entre elas e faz desaparecer
as rugas verticais que ali se formaram. Ao mesmo tempo,
porém, toda a pele da testa se estica para cima, criando
longas marcas horizontais. Essas linhas, em número de
quatro ou cinco na maioria dos casos, são mais ou menos
paralelas. Às vezes, dez rugas chegam a se formar, mas é
difícil precisar seu número porque as linhas superiores e
inferiores em geral são fragmentárias. Na maioria dos
casos, apenas as linhas do meio se estendem de lado a
lado da testa.
É isso que se costuma chamar de "testa franzida",
geralmente atribuída a pessoas "preocupadas". Seus
significados, porém, vão muito além disso. Vários autores
as descreveram como sinal de surpresa, encantamento,
felicidade, ceticismo, negação, ignorância, arrogância,
pressentimento, dúvida, incompreensão, ansiedade e medo.
Um crítico musical fez um comentário que ficou famoso: o
de que uma certa cantora de ópera "tinha que pegar
qualquer nota acima de lá com as sobrancelhas". Com
todas essas interpretações, a única maneira de entender o
significado desse movimento é buscar sua origem.
Erguer as sobrancelhas é um movimento que
partilhamos com outros primatas. Para eles, como para
nós, a expressão parece ter se originado da necessidade de
melhorar a visão. Esticando a pele da testa e erguendo as
sobrancelhas, aumentamos imediatamente nosso campo
de visão. Para usar uma expressão conhecida, trata-se de
um "abridor de olhos".
Entre os macacos, parece ser uma reação a situações
de emergência, utilizada sempre que o animal é
confrontado com algo que o faz querer fugir. Mas ela só
ocorre se, ao mesmo tempo, algo o impede de escapar.
Esse "algo mais" pode ser muita coisa: uma conflituosa
necessidade de atacar, uma incontrolável curiosidade de
ficar e ver o que é essa coisa tão assustadora ou qualquer
outro impulso de ficar em condito com a urgência de fugir.
Veremos que esse conceito de "fuga frustrada" se
aplica perfeitamente ao contexto humano. Homens e
macacos se comportam de maneiras muito parecidas. Uma
pessoa preocupada, com a testa franzida, é essencialmente
alguém que gostaria de escapar, mas por alguma razão
não pode fazer isso. O indivíduo sorridente que mostra
essas marcas na testa também está levemente assustado.
Existem elementos de retraimento corporal nessa postura.
A risada pode ser verdadeira, mas aquilo de que se ri é
algo muito perturbador. Isso não é raro. O humor pode
nos levar ao limiar do medo e a um riso nervoso. A pessoa
arrogante que ergue as sobrancelhas também gostaria de
escapar ao desagradável ambiente circundante.
Quando comparamos essa expressão com o
movimento de baixar as sobrancelhas, surge um problema.
Vamos supor que estamos diante de algo ameaçador:
podemos baixar as sobrancelhas para proteger os olhos ou
erguê-las para aumentar nosso campo de visão. Ambos os
movimentos serão úteis, mas temos que escolher um deles.
O cérebro precisa perceber qual a necessidade mais
importante e passar a instrução para o rosto. Observando
os macacos, vemos que numa situação de agressividade as
sobrancelhas se franzem; em momentos de medo, elas se
erguem; e em momentos de submissão, voltam a se franzir.
Algo semelhante ocorre com os humanos.
Quando os seres humanos estão muito agressivos e
podem provocar uma retaliação imediata, ou quando estão
cansados e com medo de um ataque iminente, sacrificam a
visão e protegem os olhos baixando as sobrancelhas.
Quando estão dominados por uma leve agressividade, mas
com muito medo, ou numa situação em que não parece
haver perigo iminente de um ataque físico, eles sacrificam
a proteção pela vantagem tática de enxergar mais
claramente o que está acontecendo. Então, erguem as
sobrancelhas,
Além dessas funções principais, estes dois
movimentos podem ser usados deliberadamente em
contextos menos graves. Podemos erguer as sobrancelhas
mesmo quando não estamos apreensivos simplesmente
para mostrar a outra pessoa que estamos preocupados
com ela. Mas tais refinamentos e modificações não seriam
possíveis se não fosse o significado original do movimento.
Como ocorre com os vincos provocados por uma
fronte franzida, as marcas arqueadas causadas pelo
movimento de erguer as sobrancelhas também podem ficar
indelevelmente gravadas quando a pessoa envelhece. A
pele de nossa fronte revela as marcas de todas as caretas
que fizemos ao longo dos anos. Se vivemos nervosos ou
ansiosos, a pele da testa vai ficando marcada por finas
linhas em arco. A elasticidade da pele diminui à medida
que envelhecemos, e, como uma folha de papel enrugado
que tentamos alisar, nossa fronte também se recusa a
recuperar o aspecto liso que tinha na juventude, mesmo
em momentos de relaxamento e calma.
Essas marcas na testa de uma mulher são um sinal
de que ela não é mais jovem. Indica também uma
personalidade excessivamente ansiosa. "Velha e nervosa"
não é uma imagem que uma mulher queira passar.
Portanto, precisa fazer alguma coisa para corrigir o dano,
ou pelo menos disfarçá-lo.
Uma maquiagem pesada pode ajudar, mas não
resolve o problema. Uma franja espessa pode servir de
cobertura, mas só até que uma rajada de vento a tire do
lugar. Para mulheres que dependem da aparência. é ne-
cessária uma ação mais drástica. Má muitos anos, a opção
cirúrgica tem sido o lifting da face É drástica, mas eficiente,
porque a pele é tão esticada que nunca mais será capaz de
exibir a menor ruga.
Desde a década de 1990, uma alternativa mais
moderna para eliminar rugas é a injeção de Botox. Ela
paralisa a fronte, que se torna incapaz de qualquer
movimento, por mais forte que seja o estado emocional. O
Botox é na verdade um veneno, uma neurotoxina gerada
pela bactéria que produz o botulismo. É injetada
diretamente nos músculos que causam as rugas,
desativando-os por um período de três a cinco meses.
Nesse tratamento cosmético, a substância é usada em
quantidades tão pequenas que praticamente eliminam o
risco. Embora ainda não tenha sido aprovada pelas
organizações médicas oficiais, parece que é a forma mais
popular de tratamento cosmético no momento.
O problema dessa solução é que ela deixa a testa lisa
demais, incapaz de mostrar qualquer emoção. Isso pode
criar uma aparência de máscara -um rosto jovem, mas
rígido. Ainda será preciso encontrar uma solução médica
mais perfeita.
Sobrancelhas enviesadas. Esse movimento é uma
mistura dos dois anteriores: uma sobrancelha é abaixada
enquanto a outra é erguida. Não é uma expressão muito
comum, porque muitas pessoas têm dificuldade de exe-
cutar o movimento.
A mensagem que ela transmite é tão conflitante
quanto a própria expressão. Metade do rosto parece
agressivo, enquanto a outra metade passa a impressão de
medo. Por alguma razão, essa reação contraditória é mais
freqüente nas mulheres do que nos homens. O estado de
espírito que ela traduz é geralmente o ceticismo. A
sobrancelha erguida funciona como um ponto de
interrogação em relação ao olhar feroz.

Rugas entrelaçadas. As sobrancelhas são erguidas e


ao mesmo tempo apertadas uma contra a outra. Como o
anterior, esse é um movimento complexo, composto de
dois elementos: erguer e baixar. A contração é semelhante
ao movimento de sobrancelhas abaixadas e produz curtos
vincos verticais no espaço estreito entre as sobrancelhas.
O movimento para cima é semelhante ao das sobrancelhas
erguidas, produzindo rugas horizontais ao longo da testa.
O entrelaçamento das duas expressões produz um cruza-
mento de rugas.
Essa expressão está relacionada à forte ansiedade e à
dor. Também é observada em alguns casos de dor crônica.
Uma dor forte e aguda produz uma contração, com as
sobrancelhas abaixadas, mas uma dor constante
provavelmente produzirá essas rugas entrelaçadas. Um
bom exemplo desse movimento é a expressão utilizada nos
anúncios de remédio para dor de cabeça.
Na origem, esse movimento parece ser uma tentativa
de as sobrancelhas responderem a um duplo sinal do
cérebro. Uma mensagem ordena "Erga as sobrancelhas",
enquanto outra diz "Abaixe-as". Diferentes grupos de
músculos começam a pressionar em direções opostas. O
primeiro grupo consegue empurrar as sobrancelhas um
pouco para cima, mas o segundo grupo, embora tente
forçá-las para baixo, só consegue pressioná-las uma
contra a outra.
Em alguns casos, mas não em todos, as extremidades
internas das sobrancelhas são empurradas mais para
cima que as extremidades externas, o que resulta numa
"expressão oblíqua de sofrimento". Essa forma exagerada
de movimento cruzado é mais marcante em pessoas que
tiveram experiências trágicas. Se mulheres com histórias
menos trágicas tentam forçar as sobrancelhas para cima,
numa posição oblíqua, talvez não tenham sucesso, mesmo
que as sintam tentando mover-se. Teoricamente, seria
possível dizer quanto infortúnio há na vida passada de
uma mulher simplesmente pela facilidade com que ela
adota a posição das sobrancelhas oblíquas.

Piscar as sobrancelhas. As sobrancelhas sobem e


descem numa fração de segundo. Esse breve piscar é um
sinal aparentemente universal de comprimento. Foi
registrado não apenas em europeus, mas também cm
populações de regiões que não tiveram influência européia,
como Bali, Nova Guiné e Amazônia. Tem sempre o mesmo
significado: o reconhecimento amigável da presença do
outro.
O movimento geralmente é executado a uma certa
distância, no momento do encontro, e não durante
demonstrações de maior intimidade, como o aperto de mão,
o abraço ou o beijo. Quase sempre, acompanha um aceno
de cabeça e um sorriso, mas também pode ocorrer sozinho.
Na origem, foi uma adoção momentânea da postura
de sobrancelhas erguidas numa situação de surpresa.
Combinada com o sorriso, torna-se um sinal de surpresa
agradável. A extrema brevidade do movimento, não mais
do que uma fração de segundo, indica que a surpresa
desaparece rapidamente, deixando que o sorriso amigável
domine a cena.
Como já dissemos, o erguer de sobrancelhas contém
um elemento de medo, e pode parecer estranho que ele
participe de uma saudação entre amigos. Entretanto, todo
cumprimento, por mais amigável que seja, tem um caráter
social de imprevisibilidade. Não sabemos como o outro vai
se comportar, nem se ele mudou desde a última vez que o
vimos. Isso inevitavelmente dá ao encontro um leve e
efêmero elemento de medo.
Além de ser uma saudação, esse leve movimento de
sobrancelhas é freqüentemente usado durante uma
conversa para enfatizar algum ponto. Cada vez que uma
palavra é enfatizada, as sobrancelhas piscam. Para a
maioria de nós, isso não é muito comum, mas em algumas
pessoas esse movimento se torna freqüente e exagerado. E
como se elas ressaltassem as surpresas da comunicação
verbal.

Erguer e baixar as sobrancelhas com uma pausa. As


sobrancelhas sobem, param momentaneamente nessa
posição e depois descem. É essa breve pausa que distingue
esse movimento do piscar rápido que indica saudação e
ênfase.
Esse movimento é parte de uma reação mais
complexa, que envolve movimentos da boca, da cabeça,
dos ombros, braços c mãos. Cada um desses elementos
também pode ocorrer separadamente, ou em grupos de
dois ou três. Embora possa ocorrer isoladamente, o
movimento que contém uma pausa na posição das
sobrancelhas em geral se faz acompanhar de um esgar, em
que os cantos da boca baixam momentaneamente. Essa
combinação costuma ocorrer na ausência de outros
elementos.
Ao contrário da piscadela das sobrancelhas, portanto,
esse é um movimento associado a uma expressão triste, e
não alegre. Na maioria das vezes, significa uma surpresa
medianamente desagradável. Se duas pessoas que se
conhecem estão sentadas uma ao lado da outra e uma
terceira pessoa se aproxima e faz alguma coisa que causa
desconforto, uma das duas primeiras pode fazer esse
movimento com as sobrancelhas para indicar de-
saprovação e surpresa.
Ele também costuma acompanhar a fala de certos
indivíduos. Quase todos nós, quando falamos
animadamente, fazemos repetidos movimentos corporais
para enfatizar o que dizemos. A cada ênfase verba!,
acrescentamos uma ênfase visual. A maioria das pessoas
usa as mãos ou a cabeça, mas outras se servem das
sobrancelhas para essa ênfase. Esse é um movimento
típico do queixoso contumaz, que parece perpetuamente
surpreso pelas vicissitudes da vida, mas não é exclusivo
dessa personalidade.

Abandonando a questão dos movimentos e passando


à anatomia das sobrancelhas, existe uma importante
diferença entre os sexos: as sobrancelhas femininas são
mais finas e menos densas que as masculinas. Essa di-
ferença provocou muitas "melhorias", e as sobrancelhas
das mulheres tornaram-se artificialmente ainda mais finas
e menores.
Isso vem sendo feito há séculos mediante várias
técnicas, como raspar, depilar e pintar. No princípio, a
desculpa era que esses procedimentos ajudavam a
espancar o mal; depois, dizia-se que eles protegiam o
corpo das doenças e, em particular, evitavam a cegueira;
mais tarde, alegava-se que coroavam a mulher mais bela.
Em todos os casos, a intenção era fazer as sobrancelhas
parecerem exageradamente femininas.
No século XX, o auge do costume de depilar as
sobrancelhas ocorreu no entre-guerras, nas décadas de
1920 e 30, quando "o lápis de sobrancelhas estava
presente em qualquer nécessaire, disponível em cinco
fascinantes tonalidades". Depois de reduzir a espessura
das sobrancelhas, utilizava-se o lápis para enfatizar o fino
arco de pêlos que sobrevivera.
Para algumas mulheres, o uso de uma pinça era
considerado muito grosseiro. A ponta de metal da pinça
poderia quebrar o fio, que com isso cresceria mais rápido.
Para elas, o método preferido é amarrar um fio fino ao
redor de cada pêlo antes de arrancá-lo, o que garante a
remoção da raiz. Esse método é popular na Ásia e no
Oriente Médio.
Se uma mulher achasse que suas sobrancelhas
ocupavam uma posição feia na testa, poderia removê-las e
pintá-las em outro formado. Quando fazia isso, as novas
sobrancelhas quase sempre eram desenhadas acima das
verdadeiras. No final do século XVIII, dizia-se que
"sobrancelhas levemente arqueadas combinam com a
modéstia de uma virgem". De fato, sobrancelhas
artificialmente alteadas dão à mulher uma aparência de
criança inocente de olhos bem abertos. Sobrancelhas
muito baixas podem dar à mulher uma aparência tão
sinistra que se diz que ela tem "sobrancelhas de bruxa".
A forma artificial das sobrancelhas tem variado muito
ao longo dos séculos e de pessoa para pessoa. Desenhar as
sobrancelhas de acordo com a moda da época e, ao mesmo
tempo, fazer com que elas se harmonizem com o rosto tem
exigido muito cuidado. Um especialista no desenho de
sobrancelhas afirma que "o desenho ideal é o que tem dois
terços do comprimento numa curva ascendente e um terço
numa curva descendente". Mas é claro que ele deve ser
adaptado às características de cada rosto, obedecendo a
sutilezas estéticas.
O exemplo mais bizarro de sobrancelhas falsas talvez
venha da Inglaterra do século XVIII. Na época, a moda
ordenava que as sobrancelhas fossem raspadas e
substituídas, e a extravagância estava justamente na
natureza dessa substituição: as sobrancelhas falsas eram
feitas de pele de rato.
Com tanta preocupação em melhorar a aparência
feminina, a decisão de não depilar as sobrancelhas e deixá-
las na forma natural era vista como um sinal de pouca
sensualidade. Esperava-se que as mulheres que
trabalhavam em condições impróprias a manifestações de
sensualidade deixassem as sobrancelhas intocadas. Na
década de 1930, um caso polêmico envolveu um hospital
londrino, cuja diretora não permitiu que uma enfermeira
depilasse as sobrancelhas. A jovem apresentou queixa,
alegando que a proibição era um cerceamento à sua
liberdade, mas a decisão da diretora foi mantida pelo
conselho do condado. Assim, os pacientes do hospital
foram protegidos do estímulo erótico que representaria um
par de sobrancelhas delicadamente depiladas. (Quem
adoraria essa decisão é o profeta Maomé, que afirmou:
"Maldita seja a mulher que [...] depilar as sobrancelhas".)
Finalmente, convém mencionar as sobrancelhas tão
unidas que criam uma linha ininterrupta de pêlos. Não
são muito comuns, e, quando existem, raramente deixam
de ser depiladas. Qualquer mulher que nasça com essa
forma de sobrancelhas prefere sofrer para depilar os
indesejáveis pêlos que cobrem o espaço acima do nariz. Há
várias razões para isso. Primeiro, esse excesso de pêlos na
testa é uma característica masculina. Segundo, há algo de
"animal" em ter pêlos onde não devia haver nenhum.
Terceiro, se os pêlos permanecerem ali, darão a impressão
de um rosto permanentemente fechado. E, quarto, uma
antiqüíssima superstição afirma que a mulher que tiver
sobrancelhas unidas deve ser uma vampira.
Juntas, essas maldições fazem qualquer mulher
correr em busca de uma pinça. Para manter suas sinistras
sobrancelhas unidas, ela teria que estar "acima da moda".
Essa mulher existiu no século XX: a famosa pintora
mexicana bissexual Frida Kahlo. Para ela, as sobrancelhas
unidas e espessas se tornaram uma marca pessoal, que
ela reproduziu fielmente em seus auto-retratos. "Pairando
acima de seus penetrantes olhos negros como um pássaro
no vôo", assim elas foram descritas. Como afirmou um
crítico: "Frida Kahlo pode ter sido uma mulher
interessante e criativa, mas tinha apenas uma sobrancelha,
que se estendia de um lado a outro do rosto como a
Grande Muralha da China, e, como tal muralha,
provavelmente era avistada da Lua".
É incrível que essas reações sejam causadas pela
simples presença de uns poucos pêlos pretos acima do
nariz. As sobrancelhas costumam passar tão
despercebidas que só paramos para prestar atenção nelas
quando algo estranho acontece. Nos anos recentes,
excetuadas as idiossincrasias de Frida Kahlo, só numa
ocasião pesadas sobrancelhas femininas foram con-
sideradas aceitáveis e, por um período, até mesmo
populares. Isso aconteceu na década de 1980, quando o
movimento feminista entrou numa fase em que as
mulheres passaram a acreditar que parecer um homem
era uma boa maneira de competir com eles. Foi nessa
época que a jovem atriz Brooke Shields apareceu nas telas
exibido sobrancelhas que foram descritas como "lagartas".
Elas não se uniam no meio, como as da Kahlo, mas eram
tão espessas quanto as de um homem, o que lhe dava um
olhar feroz e determinado. Desde então, à medida que as
mulheres foram fazendo mais sucesso como mulheres, e
não como pseudomachos, suas sobrancelhas voltaram à
forma arqueada e fina que foi preferida durante séculos.
Como Shakespeare afirmou em Conto do inverno: "Não é
por terdes sobrancelhas negras. Dizem até que
sobrancelhas escuras são as que melhor assentam nas
mulheres, desde que não sejam muito espessas, mas
apenas um semicírculo ou meia-lua traçados a pena".
4. Orelhas
As orelhas femininas nunca foram bem tratadas: têm
sido ignoradas ou mutiladas. Os pós e pinturas que
costumam ser aplicados ao rosto as ignoram. Enquanto
um rosto meticulosamente enfeitado ocupa o centro do
palco, as orelhas são esquecidas c muitas vezes
escondidas sob os cabelos. E, quando se revelam, têm
servido apenas como campo de testes para a criação de
jóias. Nas raras ocasiões em que as orelhas são objeto de
cirurgia plástica, a solução é torná-las ainda mais
imperceptíveis. É o que ocorre quando orelhas
proeminentes são coladas à cabeça. Mas, antes de analisar
mais detalhadamente os abusos culturais perpetrados
contra as sofridas orelhas femininas, convém examinar a
biologia e a anatomia dessa parte do corpo.
A parte visível da orelha é bastante modesta. No curso
do processo evolutivo, ela perdeu as extremidades
pontiagudas e a mobilidade. As extremidades sensíveis
desapareceram, curvadas numa borda roliça. Mas nem por
isso ela deve ser tratada como um resíduo inútil.
A principal função do ouvido externo — uma trompa
de carne e sangue — é coletar o som. Não somos capazes
de eriçar as orelhas como outros animais, nem de torcê-las
para descobrir de onde vem um barulho repentino, mas
ainda podemos detectar uma fonte sonora. O que os
humanos perderam em flexibilidade da orelha ganharam
em mobilidade da cabeça. Quando um cervo ou um
antílope ouvem um som alarmante, erguem a cabeça e
torcem as orelhas em todas as direções. Quando ouvimos
um som desse tipo, giramos a cabeça, o que funciona
quase da mesma maneira.
Embora nossas orelhas pareçam rígidas, ainda
conservam um mínimo dos movimentos que originalmente
possuíam. Se retesar os músculos da região auricular e se
olhar num espelho, você terá um vislumbre desse mo-
vimento de proteção: suas orelhas tentarão se colar ao
crânio. Animais que possuem orelhas grandes e móveis
quase sempre as achatam quando estão lutando, na
tentativa de mantê-las a salvo de um ataque. Nós,
humanos, ainda fazemos isso automaticamente: a pele da
cabeça se retesa em momentos de pânico, mesmo que
nossas orelhas permaneçam em sua habitual posição de
repouso.
A forma da orelha é importante para a perfeita
transmissão dos sons ao tímpano. Uma pessoa que teve a
infelicidade de ter as orelhas decepadas com certeza
possui uma audição bem menos eficiente. Os canais
auditivos e o tímpano constituem um "sistema ressonante",
no qual alguns sons são enfatizados à custa de outros. A
forma aparentemente aleatória da orelha — suas dobras e
curvas — na verdade foi especialmente criada para evitar
distorções desse tipo.
Uma função menos importante da orelha é o controle
da temperatura. Os elefantes balançam suas enormes
orelhas quando estão com muito calor. o que os ajuda a
resfriar o corpo. Há uma profusão de vasos sangüíneos
próximos à superfície da pele, e o calor que se perde desse
jeito pode ser importante para muitas espécies. Para nós, a
quentura das orelhas desempenha um papel secundário
na regulação térmica, mas tornou-se um sinal social. Se
uma mulher sente um forte calor num momento de
conflito emocional, suas orelhas podem ficar vermelhas.
Esse rubor tem sido objeto de comentários desde tempos
muito remotos. Há quase 2 mil anos, Plínio escreveu:
"Quando nossas orelhas se avermelham e queimam,
alguém está falando de nós na nossa ausência". E
Shakespeare faz Beatriz perguntar, quando outros estão
falando dela: "Que fogo é esse em minhas orelhas?"
Finalmente, nossas orelhas parecem ter adquirido
uma função erótica com o desenvolvimento de macios
lóbulos carnosos. É uma função que não está presente em
nossos parentes mais próximos e parece ser uma ca-
racterística exclusivamente humana, decorrente do
aumento de nossa sexualidade. Os primeiros estudiosos
da anatomia humana viam na orelha um apêndice inútil",
"uma parte da face aparentemente sem utilidade, a não ser
a de poder ser furada para carregar ornamentos". Mas
estudos recentes sobre o comportamento sexual revelaram
que, um momentos de forte excitação, os lóbulos das
orelhas se intumescem e se enchem de sangue, o que os
torna mais sensíveis ao toque. Ter os lóbulos das orelhas
acariciados, sugados e beijados durante o ato sexual é
uma forte estimulação para muitas mulheres. Segundo
Kinsey e seus colegas do Instituto de pesquisas Sexuais de
Indiana, há alguns casos raros de mulheres que con-
seguem atingir o orgasmo em conseqüência da
estimulação das orelhas.
No centro da orelha abre-se o canal auditivo, um
conduto estreito de cerca de 2,5 cm, ligeiramente curvo, o
que o ajuda a manter aquecido o ar existente no seu
interior. Esse aquecimento é importante para o funcio-
namento adequado do tímpano, que se situa na
extremidade do canal e é um órgão extremamente delicado.
Além de manter o tímpano aquecido, o canal também o
protege de danos físicos. O preço que pagamos por essa
proteção, porém, é a presença em nosso corpo de um
recesso profundo, que não conseguimos limpar com os
dedos. Podemos limpar todo o nosso corpo com relativa
facilidade, livrando-o da sujeira e de pequenos parasitas,
mas, se um objeto invadir nosso canal auditivo, teremos
problemas. A tentativa de remover a sujeira com
bastonetes pode danificar o tímpano. Por isso, precisamos
de uma proteção especial contra intrusões desse tipo. A
evolução nos proporcionou a resposta para isso na forma
de pêlos que impedem a entrada de insetos maiores e da
cera que repele criaturas menores. A cera cor de laranja,
com um gosto amargo que repele os insetos, é produzida
por 4 mil minúsculas glândulas ceruminosas, que na
verdade são glândulas apócrinas altamente modificadas —
do tipo que produz o suor de cheiro forte nas axilas e no
interior das pernas.
Não cabe aqui detalhar o funcionamento do ouvido.
Resumidamente, diremos que as vibrações sonoras
atingem o tímpano e se convertem em impulsos nervosos
que são transmitidos ao cérebro. O tímpano é incrivel-
mente sensível, capaz de detectar a menor vibração. Essas
vibrações são então transmitidas ao ouvido médio através
de três pequenos ossos de formas estranhas (martelo,
bigorna e estribo), que amplificam a pressão das ondas
sonoras 22 vezes. O sinal amplificado então passa ao
ouvido interno, onde entra em ação um estranho órgão em
forma de caracol e cheio de fluido. As vibrações produzidas
nesse fluido ativam milhares de células ciliadas — cada
uma sintonizada com uma determinada vibração —, que
identificam as freqüências que compõem um som e
transmitem essa informação ao cérebro por intermédio do
nervo auditivo.
O ouvido interno também contém órgãos vitais para o
equilíbrio. São três canais semicirculares, cada um
relacionado a um tipo de movimento: os movimentos para
cima e para baixo, os movimentos para a frente e os
movimentos laterais. A importância desses órgãos cresceu
radicalmente quando nossos ancestrais começaram a se
pôr de pé e adotaram a forma de locomoção bipedal. Um
animal que se apóia sobre quatro patas é relativamente
estável, mas a posição ereta exige constantes e sutis
adaptações do equilíbrio. Esses órgãos do equilíbrio são de
fato mais vitais para a nossa sobrevivência do que as
partes do ouvido que lidam com os sons. Uma pessoa
surda pode sobreviver com maior facilidade do que a que
perde o sentido do equilíbrio.
Um dos aspectos desagradáveis da nossa audição é
que ela começa a declinar desde que nascemos. Um bebê
pode detectar freqüências de ondas sonoras de 16 a 30 mil
ciclos por segundo. Na adolescência, o alcance máximo cai
para 20 mil ciclos por segundo. Aos 60 anos, declina para
cerca de 12 mil, e continua caindo cada vez mais à medida
que os anos passam Para os muito idosos, é um problema
ouvir uma conversa numa sala cheia de gente, embora eles
sejam capazes de ouvir uma única voz num local si-
lencioso. Isso ocorre porque, com o alcance cada vez
menor da adição, é difícil distinguir diferentes vozes
quando várias pessoas falam ao mesmo tempo.
Os modernos sistemas de som funcionam a
freqüências superiores a 20 mil ciclos por segundo. Por
isso, uma mulher de meia-idade que tenha pagado uma
fortuna para instalar um sistema desse tipo deve ficar
chateada ao descobrir que os únicos membros da família
capazes de apreciar tudo isso são seus filhos mais jovens.
Ela já terá sorte se conseguir detectar qualquer freqüência
acima de 15 mil ciclos por segundo.
Nossos ouvidos têm uma grande sensibilidade ao
volume do som. Como outras espécies, evoluímos num
mundo relativamente silencioso quando os sons mais altos
eram roncos e gritos. Não havia nada mais alto para ferir
nossos sensíveis tímpanos, e por isso não criamos
nenhuma proteção especial contra sons muito altos. Hoje,
graças a nossa infinita engenhosidade, temos explosivos
de alto poder e uma enorme variedade de equipamentos de
som poderosíssimos, capazes de danificar nossa audição.
Nossos ouvidos servem como um lembrete de que vivemos
num mundo muito diferente daquele do qual nos
originamos.
Voltando ao ouvido externo, há muito tempo se afirma
que é possível identificar um indivíduo pela forma da
orelha. No último século, chegou-se a pensar em utilizar
essa propriedade para identificar criminosos, mas um
método concorrente — o das impressões digitais —
prevaleceu, e a identificação auricular foi esquecida.
Entretanto, é verdade que não existem duas pessoas com
orelhas precisamente iguais. Treze regiões da orelha foram
classificadas, das quais duas merecem especial menção.
A primeira é o lóbulo. Além das variações de tamanho,
ele tem uma característica importante. As pessoas têm
lóbulos "soltos" ou lóbulos "colados". A diferença entre eles
é que os lóbulos soltos pendem do ponto de contato com a
cabeça. Um médico que se deu o trabalho de examinar
1.171 orelhas de europeus descobriu que 64% delas
tinham lóbulos soltos e 36%, lóbulos colados.
A segunda parte que merece menção é a pequena
saliência na borda da orelha, chamada tubérculo de
Darwin. Ele está presente na maioria das orelhas, mas
quase sempre é tão pequeno que mal se consegue percebê-
lo. Se apalpar a parte interna da borda partindo de cima,
você o encontrará a mais ou menos um terço do caminho.
E uma protuberância minúscula, mas Darwin estava
convencido de que é remanescente de nossos primórdios,
quando tínhamos orelhas pontiagudas que podiam se
mover à procura dos sons mais fracos. Em outras palavras,
esses "pontos são vestígios de orelhas que um dia foram
eretas e pontudas". Cuidadosas pesquisas revelaram que
eles estão presentes de uma forma mais evidente em cerca
de 26% dos europeus.
São detalhes como esses que tornam possível a
identificação de criminosos, mas o uso de impressões
digitais alcançou tal avanço que é difícil dizer se as formas
da orelha teriam alguma utilidade. Infelizmente, os únicos
a realizar estudos detalhados sobre as partes da orelha
são os modernos fisionomistas, com suas alegações
românticas de que é possível determinar o caráter e a
personalidade de uma pessoa pela leitura de suas propor-
ções faciais. Seus comentários fantasiosos, que perderam
qualquer credibilidade no início do século XX,
surpreendentemente ressurgiram na década de 1980,
quando foi possível ler que uma orelha grande é sinal de
um indivíduo realizador; que uma orelha pequena e bem-
formada pertence a um conformista; e que uma orelha
pontiaguda revela um oportunista. Essas e centenas de
outras "leituras", às vezes detalhadas, são um insulto à
inteligência humana, e sua popularidade no final do século
XX é difícil de entender.
Criminologistas que estudam detalhes faciais afirmam
que o formato da orelha não pode ser previsto pelas feições
do rosto. Diante de um rosto redondo ou de um rosto
anguloso, é impossível prever se ele possui orelhas
arredondadas ou angulosas. Os somatologistas discordam.
Alegam que os endomorfos (os mais rechonchudos) e os
ectomorfos (Os mais ossudos) possuem diferentes tipos de
orelhas. As orelhas dos endomorfos seriam coladas à
cabeça., com lóbulo e aurícula (a concha da orelha)
igualmente bem desenvolvidos. As orelhas dos ectomorfos,
ao contrário, teriam a aurícula projetada lateralmente e
mais desenvolvida que o lóbulo. A explicação para essa
controvérsia talvez seja o fato de que os criminologistas
consideram apenas a cabeça, enquanto os somatologistas
levam em conta todo o corpo.
Simbolicamente, vários significados têm sido
atribuídos à orelha. Por ser uma aba de pele ao redor de
um orifício, tem sido considerada símbolo dos genitais
femininos. Na Iugoslávia, por exemplo, uma expressão de
gíria para a vulva é "a orelha entre as pernas". Em
algumas culturas, a mutilação das orelhas foi usada para
substituir a circuncisão feminina. Em regiões do Oriente,
jovens púberes eram obrigadas a passar por um ritual de
iniciação em que buracos eram perfurados em suas
orelhas. No antigo Egito, a mulher adúltera tinha as
orelhas decepadas com uma faca afiada — outro exemplo
de sua relação com os genitais.
Pelo fato de as orelhas serem vistas como genitais
femininos em muitas diferentes culturas, não surpreende
que algumas divindades tenham nascido pela orelha.
Karna, filho do rei-sol hindu, Suria, teria nascido dessa
forma. Acredita-se que isso significa que sua mãe, Kunti,
tinha parido virgem. Algumas lendas também afirmam que
Buda nasceu da orelha de sua mãe.
Na obra satírica de François Rabelais Gargantua e
Pantagruel, publicada cm 1653, Gargantua também vem
ao mundo dessa maneira incomum. Quando Gargamelle
está prestes a dar à luz, "a criança salta e, entrando pela
veia cava, vai subindo, passando pelo diafragma e pelos
ombros, onde essa veia se divide em duas, e daí toma a
direção esquerda, saindo pela sua orelha esquerda". O
autor admite que é difícil acreditar em tal fato, mas se
defende afirmando que não há na Bíblia nada que
contradiga essa forma de nascimento, e que, se Deus
quisesse, "todas as mulheres poderiam parir seus filhos
pela orelha".
Um simbolismo completamente diferente atribui à
orelha o significado de sabedoria — porque é ela que ouve
a palavra de Deus. Isso tem sido apresentado como
desculpa para puxar as orelhas das crianças quando elas
desobedecem. Por trás do castigo está a idéia de que essa
ativação da orelha é capaz de despertar a inteligência que
ali dorme.
Algumas dessas estranhas superstições explicam o
antigo costume de furar as orelhas para nelas colocar
brincos. Essa forma primitiva de mutilação tem se
mostrado persistente e é um dos poucos tipos de
deformidade artificial que se mantém populares no mundo
moderno. Hoje, a maioria das mulheres que furam as
orelhas o fazem com propósitos puramente estéticos, sem
saber o que isso significou no passado. Em tempos
remotos, isso tinha diversas explicações.
Como o demônio e outros espíritos malignos estão
sempre tentando entrar no corpo humano para dominá-lo,
é necessário proteger todos os orifícios pelos quais eles
possam ter acesso. Acreditava-se que o uso de amuletos
da sorte nas orelhas era a melhor proteção contra os
demônios.
Como as orelhas são a sede da sabedoria, acreditava-
se que os sábios têm orelhas muito grandes, especialmente
os lóbulos. Brincos pesados, que empurrem os lóbulos
para baixo e os façam parecer mais longos, aumentariam a
sabedoria e a inteligência. Um estudo de primitivas
esculturas hindus, budistas e chinesas revelou que reis e
rainhas sempre possuíam lóbulos alongados.
Outras crenças primitivas diziam que usar brincos
curava defeitos de visão ou protegia contra afogamentos.
Durante um longo período, essas diferentes e
originais razões para o uso de brincos foram esquecidas.
Na era moderna, quase todos os brincos, tribais e urbanos,
são puramente decorativos e usados apenas por motivos
estéticos. Nas culturas tribais nas quais lóbulos longos
estiveram na moda a mutilação geralmente começava na
infância: os bebês já tinham as orelhas perfuradas. Esses
pequenos furos eram posteriormente alargados, ano após
ano, de modo que as orelhas pendessem cada vez mais
para baixo. Na puberdade, só as meninas de longas
orelhas eram consideradas belas. As realmente bonitas
tinham que apresentar orelhas na altura dos seios. Se,
nesse processo, a longa alça de carne se rompesse ao peso
dos ornamentos, a beleza da jovem estaria imediatamente
perdida. Em algumas culturas, ela era considerada feia
demais para se casar.
Surpreendentemente, encontramos exemplos desse
extremo alongamento das orelhas femininas em todo o
mundo. O costume parece ter nascido independentemente,
em lugares tão distantes quanto Bornéu e Brasil, África e
Camboja. Nas ilhas da Nova Guiné, se uma menina ou-
sasse ignorar esse costume, seria ridicularizada por "ter
orelhas de porca".
Em algumas tribos, uma festa é dedicada ao ritual de
furar as orelhas das jovens. Em certas culturas, os
pesados brincos que pendem das orelhas das mulheres
casadas só podem ser retirados quando o marido morre.
Então, durante o funeral, são removidos em sinal de luto.
O tamanho dos ornamentos chega a ser assustador.
Numa tribo, cinqüenta argolas de bronze de 10 cm de
diâmetro são penduradas em cada orelha. Em outra,
pesadas argolas de cobre vão sendo acrescentadas até que
seu peso atinja 1 quilo. Em outra ainda, potes de geléia ou
latas de alimento, que as nativas imploram aos ocidentais,
são inseridos no lóbulo da orelha.
Em séculos passados, o mundo ocidental se chocou e
se horrorizou com essas formas excessivas de mutilação.
Em 1654, John Bulwer dedicou todo um capítulo de seu
livro A View of lhe People of the Whole World (Uma visão
dos povos de todo o mundo) para atacar "as modas ou
certas estranhas invenções dos povos para remodelar as
orelhas". Nele, acusava as mulheres que "julgam muito
atraente ter as orelhas vergonhosamente perfuradas", que
fazem nelas furos e neles "colocam um chumbo, cujo peso
as estende, a ponto de fazê-las pender à altura dos ombros,
um buraco tão grande que um braço poderia passar por
ele". Para Bulwer e sua época, qualquer tentativa de
melhorar ou modificar a forma humana era uma ofensa a
Deus.
Essa desaprovação em nada alterou esses costumes
tribais. Eram uma parte muito importante da sua história
cultural para serem abandonados. Em alguns casos,
influências externas podem ter posto fim a formas mais
extremas de mutilação, mas em muitas outras sociedades
remotas eles ainda sobrevivem intocáveis no século XXI.
Apesar da extravagância de sua moda, o mundo
ocidental nunca apresentou nada capaz de competir com
os lóbulos estendidos dessas sociedades tribais. Os
exemplos mais extremos que podemos oferecer são encon-
trados no breve florescimento do rock punk da década de
1970. Querendo chocar, os punks enfiavam objetos
bizarros nos lóbulos das orelhas grosseiramente
perfurados. Grandes alfinetes de fralda eram os
ornamentos preferidos, mas correntes onde penduravam
um pouco de tudo, de lâminas de barbear a lâmpadas
elétricas, também eram usadas pelas tropas de choque da
nova onda. Mas eles eram impacientes demais para
esperar o lento e gradual alongamento dos lóbulos
praticado nas outras tribos.
Mais tarde, no final do século XX, com o drástico
aumento dos piercings, as orelhas das mulheres ocidentais
passaram a carregar múltiplos brincos. Em vez de um só
furo, a orelha era perfurada várias vezes, em toda a borda,
para que uma série de brincos pudessem ser atarraxados
a ela.
Hoje, porém, a maioria das mulheres usa ornamentos
simples, facilmente removíveis: são brincos de pressão ou
pingentes presos a um único furo pequeno. Ao contrário
dos brincos tribais, não são usados o tempo todo, mas
substituídos diariamente para combinar com outros
ornamentos. Algumas mulheres possuem apenas uns
poucos pares, mas outras são viciadas em adquirir
grandes quantidades de brincos. A detentora do recorde
(segundo o Guinness Book) é uma americana da
Pensilvânia que reuniu uma coleção de 17.122 pares. Se
usasse um por dia, levaria quase meio século para usar
todos.
5. Olhos
Há muitos séculos os olhos femininos tem sido foco
de grande atenção. Sabe-se que há mais de 6 mil anos usa-
se maquiagem nos olhos. No antigo Egito, cosméticos
negros cobriam as pálpebras, e, no primeiro ano da era
cristã, o satirista romano Marcial fez o seguinte
comentário mordaz: "Você pisca para os homens com
pálpebras que tirou de uma gaveta pela manhã". Em
praticamente todas as civilizações importantes na história
do mundo, inúmeras e sutis variações de sombras
coloridas têm sido aplicadas às pálpebras, aos cílios e à
pele ao redor dos olhos. Sombras, delineadores, aparelhos
para curvar os cílios, cílios postiços e lentes de contato co-
loridas — todos esses recursos são usados para embelezar
os olhos femininos. Mas, antes de analisar todas essas
melhorias, que tal examinarmos o olho em seu estado
natural?
Os olhos são os mais importantes órgãos dos sentidos.
Calcula-se que 80% das informações que recebemos do
mundo exterior entrem por essas notáveis estruturas.
Apesar de tudo o que falamos e ouvimos, continuamos
sendo animais essencialmente visuais. Nisso não diferimos
muito de nossos parentes próximos, os macacos. Toda a
ordem dos primatas é predominantemente visual, com os
dois olhos colocados na frente da cabeça, proporcionando
uma visão binocular do mundo.
O olho humano tem apenas cerca de 2,5 cm de
diâmetro, e no entanto faz a mais sofisticada câmera de
tevê parecer um utensílio da Idade da Pedra. A retina, que
é sensível à luz e se situa no fundo do olho, contém 137
milhões de células que enviam mensagens ao cérebro,
dizendo-lhe o que está vendo. Dessas, 130 milhões são
células arredondadas responsáveis pela visão em branco e
preto; os restantes 7 milhões são células cônicas que
permitem a visão em cores. A todo momento, essas células
sensíveis à luz podem processar 1,5 milhão de mensagens
simultâneas. Sendo tão complexo, não surpreende que o
olho seja a parte do corpo a apresentar o menor
crescimento entre o nascimento e a idade adulta. Até o
cérebro cresce mais que o olho.
No centro do olho situa-se a pupila negra — a abertura
através da qual a luz penetra para chegar à retina. A pupila
aumenta de tamanho com a luz fraca e diminui com a luz
forte, e com isso controla a quantidade de luz levada à
retina. Sob esse aspecto, o olho funciona como uma câmera
de diafragma ajustável, mas também possui uma outra
curiosa função. Se o olho vê alguma coisa de que gosta
muito, a pupila se expande mais que o normal, mas,
quando vê algo desagradável, contrai-se ao tamanho de
uma cabeça de alfinete. É fácil entender essa segunda
reação, porque a maior contração da abertura da pupila
reduz a iluminação da retina e "apaga" a imagem
repugnante. Difícil é explicar a dilatação da pupila que
ocorre diante de uma visão atraente. Isso deve interferir na
precisão de nossa visão, deixando que luz demais flua para
a retina. É provável que o resultado seja um brilho
ofuscante, em vez de uma imagem precisa e nítida.
Entretanto, isso pode ser uma vantagem para os jovens
amantes quando olham no fundo das pupilas do ser
amado. Podem ver uma imagem vaga banhada em um halo
de luz — muito diferente da imagem nua e crua.
Em séculos passados, as cortesãs da Itália pingavam
gotas de beladona nos olhos antes de receber um visitante.
Isso dilatava muito as pupilas e as tornava mais atraentes,
porque dava aos homens que as olhavam a falsa
impressão de que eram amados (mesmo que eles
estivessem diante do rosto devastado e envelhecido de
uma libertina).
Ao redor da pupila fica a íris colorida, o disco contrátil
responsável pelas mudanças de tamanho da pupila. Essa
função é desempenhada por músculos involuntários, de
modo que nunca conseguimos controlar deliberadamente o
tamanho da pupila. É isso que faz. da expansão e da
contração da pupila um sinal confiável de nossas reações
emocionais às imagens visuais. Nossas pupilas não
mentem.
A cor da íris varia consideravelmente de pessoa a
pessoa, mas isso não se deve à variedade de pigmentos.
Pessoas de olhos azuis não têm um pigmento azul:
simplesmente possuem menos pigmento que outras, o que
cria a tonalidade azulada. Quem exibe um anel castanho
escuro ao redor das pupilas tem uma quantidade generosa
de melanina nas camadas frontais da íris. Se a melanina
ali presente é menor e o pigmento fica quase todo
confinado às camadas mais profundas da íris, os olhos
serão mais claros, variando do verde ao cinza ou azul ã
medida que o pigmento diminui. A coloração violeta se
deve ao sangue que corre por entre a íris.
Olhos claros são portanto quase uma ilusão óptica.
Indicam uma perda de melanina e parecem ser parte da
palidez gerai do corpo que ocorre à medida que a pessoa se
move da zona equatorial em direção a regiões menos
ensolaradas. Esse efeito é mais intenso quando
comparamos os bebês da raça branca com os da raça
negra. Quase todos os bebês brancos têm olhos azuis
quando nascem, ao passo que os de pele morena e negra
têm olhos escuros. Mas, à medida que eles crescem, os
brancos desenvolvem a melanina na parte frontal da íris, e
seus olhos escurecem pouco a pouco. Apenas numa
porcentagem muito pequena isso não ocorre e os olhos
permanecem azuis.
Cobrindo a pupila e a íris existe uma camada
transparente, a córnea, e ao redor dela a parte que
chamamos de "branco do olho", que tecnicamente tem o
nome de esclerótica. Essa parte não-óptica do olho é uma
característica exclusivamente humana. Só no homem a
parte branca do olho é visível. A maioria dos animais tem
olhos redondos e "fundos". O mesmo ocorre nos primatas
inferiores, mas alguns macacos já apresentam a pele ao
redor dos olhos ligeiramente esticada para trás e para os
lados, o que cria "cantos". Esses olhos ainda estão mais
próximos da forma circular do que da oval, mas nos
primatas superiores os olhos são mais elípticos, mais
próximos da forma humana. Entretanto, não existem partes
brancas visíveis, e a área exposta de cada lado da íris é
marrom-escura. Nos humanos, a brancura dos olhos os
torna mais evidentes. O efeito dessa pequena mudança
evolutiva é que, em situações de sociabilidade, pequenas
mudanças de direção são facilmente detectadas, mesmo ã
distância.
Circundando a parte visível dos olhos, as pálpebras
são margeadas por cílios curvos e têm bordas oleosas.
Essa oleosidade é fruto de secreções de diminutas
glândulas, visíveis na forma de minúsculos folículos na
raiz dos cílios. É o ato de piscar que umedece e limpa a
córnea. O processo é auxiliado pela secreção das lágrimas,
produzidas pelas glândulas lacrimais, que ficam
embutidas sob as pálpebras. As lágrimas são drenadas
através de dois canais lacrimais — também visíveis como
pontos um pouco maiores nas bordas das pálpebras. Esse
canais se situam na extremidade interna das pálpebras,
um na pálpebra superior e outro na pálpebra inferior. Os
dois canais se unem num único cubo que transporta as
lágrimas "usadas" para o interior do nariz. Quando uma
irritação dos olhos ou uma forte emoção fazem a glândula
lacrimal produzir mais lágrimas do que os canais são
capazes de drenar, nós choramos, e o excesso de lágrimas
se espalha pelas faces. Essa é uma segunda característica
exclusiva dos olhos humanos, porque somos o único
animal que chora quando está emocionado.
No canto interno do olho, entre os dois canais
lacrimais, existe uma pequena protuberância rosada. É o
vestígio de nossa terceira pálpebra, hoje totalmente inútil.
Em muitas espécies, porém, são órgãos de alguma fun-
cionalidade. Alguns animais os usam como um "limpador
de pára-brisa" que pisca para limpar o olho; em outros,
são coloridos e piscam para dar algum sinal; em outros
ainda, são totalmente transparentes e usados como óculos
de sol naturais. Os patos mergulhadores têm esses órgãos
transparentes e espessos, e os empurram para fora da
córnea quando estão nadando debaixo d'água. Se nossos
ancestrais fossem mais aquáticos, ou subaquáticos,
desfrutaríamos hoje de outros prazeres.
As pestanas, que nos proporcionam uma franja de
proteção acima e abaixo dos olhos, têm uma característica
excepcional: não embranquecem com a idade como os
cabelos e os pêlos do corpo. Cada olho tem cerca de
duzentos cílios, em maior quantidade na pálpebra superior
do que na inferior, e cada cílio dura entre três e cinco
meses antes de cair e ser substituído. Os cílios têm o
mesmo tempo de vida que os pêlos das sobrancelhas.
Os orientais possuem uma proteção adicional para os
olhos: o epicanto, uma prega cutânea sobre a pálpebra
superior que dá aos olhos o formato oblíquo. Essa prega
está presente no feto humano em todas as raças, mas só
entre os orientais se conserva na idade adulta. Alguns
bebês ocidentais nascem com olhos puxados, mas esse
formato muda gradualmente à medida que o nariz se afina
e toma outra forma com a idade. Entre os povos orientais,
o epicanto parece ter se conservado como adaptação ao
frio. Neles, todo o rosto é mais gordo, mais achatado e
mais adequado às baixas temperaturas, e essa prega
cutânea ajuda a proteger a delicada região dos olhos
contra um ambiente hostil.
A forma dos olhos orientais é indiscutivelmente
atraente, mas muitas mulheres no Extremo Oriente não
têm essa opinião, e hoje os hospitais estão cheios de
jovens com os olhos cobertos de bandagens depois de se
submeterem ao bisturi do cirurgião para ter olhos
ocidentais.
Quase não há diferença entre os olhos de homens e
mulheres. O olho feminino é ligeiramente menor e mostra
uma proporção maior da parte branca. Em muitas
culturas, as glândulas lacrimais são mais ativas em
mulheres emotivas do que em homens igualmente
emotivos, mas é difícil dizer se isso se deve a uma
diferença biológica ou a uma educação que exige que os
homens não demonstrem suas emoções. Entretanto,
parece ser uma diferença mundialmente disseminada para
ser apenas produto da cultura.
Uma informação sobre as lágrimas: além de
lubrificantes para a superfície exposta do olho, elas são
também bactericidas. Contêm uma enzima chamada
lisozima, que mata as bactérias e protege o olho de
infecções.
A visão deficiente deve ter sido uma calamidade para
muitos de nossos remotos ancestrais, não só devido à
imprecisão na obtenção de informações visuais mas
também porque a constante tensão de tentar enxergar
causa fortes dores de cabeça. O infortúnio persistiu nas
primeiras civilizações, e, com a invenção da escrita, tornou-
se ainda mais agudo. Muitos velhos mestres precisavam
que os mais jovens lessem para eles.
Sêneca, mestre na arte da retórica que viveu em
Roma na época de Cristo parece ter sido a primeira pessoa
a tentar resolver esse terrível problema. Conta-se que,
apesar da vista fraca, conseguia ler tudo o que encontrava
nas bibliotecas de Roma usando um "globo de água" como
lente de aumento. Essa engenhosa solução deveria ter
levado à invenção dos óculos, mas não foi isso o que
aconteceu. Só no século XIII o filósofo inglês Roger Bacon
registra a seguinte observação: "Se alguém examinar letras
ou outros objetos diminutos por meio de um cristal ou
vidro [...] e se ele for cortado como o menor segmento de
uma esfera, com o lado convexo voltado para o olho, será
capaz de ler muito melhor as letras, e elas lhe parecerão
maiores". Em seguida, afirma que tal vidro poderia ser útil
para os que tivessem vista fraca. No final do século, na
Itália, surgiram finalmente verdadeiros óculos de leitura,
embora não se saiba se essa invenção foi influenciada por
Bacon. Em 1306, um monge em Florença fez um sermão
que incluía a seguinte frase: "Não faz ainda vinte anos que
a arte de fabricar óculos, uma das artes mais úteis do
mundo, foi descoberta...". Mais ou menos na mesma época,
Marco Pólo conta ter visto velhos chineses usando lentes
para ler, de modo que fica claro que, no século XIV, o uso
de óculos se disseminou. No século XV, surgiram as lentes
para corrigir miopia, e, no século XVIII, Benjamin Franklin
inventou as lentes bifocais. As primeiras lentes de contato
a dar bons resultados foram fabricadas na Suíça em 1887.
Essa breve história dos óculos não tem apenas
interesse médico, mas estético, porque mudou a aparência
dos nossos olhos. Os óculos tornaram-se parte da
expressão facial. Aros superiores pesados davam a
impressão de uma fronte cerrada, fazendo a pessoa
parecer mais feroz e dominadora. Aros circulares
produziam um olhar amplo, como se a curva do aro subs-
tituísse sobrancelhas arqueadas. Não havia disfarce, como
numa maquiagem sutil. Os óculos não faziam parte do
rosto, e no entanto era impossível não notar a influência
de suas linhas, da mesma forma que uma máscara altera
toda a expressão de quem a usa.
O efeito dos óculos escuros é especialmente forte.
Num contexto social, os movimentos oculares, visíveis em
contraste com o branco dos olhos, são uma constante
fonte de informações, bloqueadas com o uso de lentes es-
curas. Olhos penetrantes, olhos instáveis, olhos atentos ou
desatentos, dilatados ou contraídos — tudo isso fica oculto,
e o interlocutor pode apenas imaginar o que está
acontecendo por trás da máscara dos óculos.
O que eles escondem? Suponhamos uma reunião
social. O que nos dizem exatamente os movimentos
oculares? Em tais reuniões, os subordinados tendem a
observar os superiores, e os superiores tendem a ignorar
os subordinados, exceto em circunstâncias especiais. Se
uma pessoa submissa e agradável entra numa sala, seus
olhos vão oscilar de um lado para outro, observando todos
os presentes. Se ela avistar um indivíduo de condição
superior, lançará sobre ele um olhar atento e observador.
Sempre que alguém contar uma piada, fizer uma
afirmação controversa ou manifestar uma opinião pessoal,
os olhos do subordinado vão procurar o superior para
observar sua reação. A figura dominante geralmente se
mantém indiferente a essas trocas e dificilmente se dá o
trabalho de olhar para o subordinado durante uma
conversa generalizada. Mas, quando lança uma pergunta a
alguém, o faz com um olhar direto. A pessoa em quem esse
olhar se fixa não consegue sustentá-lo e, enquanto
responde, olha para outro lado.
Essa é claramente uma situação em que cerros
indivíduos têm poder sobre outros e querem exercê-lo.
Quando amigos de igual condição se encontram, os
movimentos dos olhos são bem diferentes. Nesse caso,
todos usam movimentos oculares de "subordinados",
embota não o sejam. Isso acontece porque a melhor
maneira de demonstrar amizade com a linguagem corporal
é evitar uma atitude hostil e dominadora. Por isso, ficamos
atentos a nossos amigos, acompanhando-os com o olhar
como se eles fossem superiores. Quando eles falam ou se
movem, olhamos para eles; quando falamos e eles nos
observam, olhamos para eles de vez em quando, para
checar suas reações ao que dizemos. Dessa maneira, um
amigo trata o outro como um poderoso, e, com isso, o faz
sentir-se bem.
Se uma mulher dominadora deseja agradar a alguém,
pode fazer isso adotando deliberadamente a linguagem
corporal amistosa de um igual. Quando se dirige a um
empregado ou serviçal com a intenção de manipulá-lo,
pode acionar deliberadamente um olhar atento. Esses
truques raramente são usados por indivíduos superiores, a
não ser em situação especiais (como uma campanha
eleitoral).
Um olhar fixo e prolongado, do tipo olhos nos olhos,
só ocorre em momentos de intenso amor ou ódio. Para a
maioria de nós, um olhar direto sustentado por mais de
alguns segundos é muito ameaçador, e logo desviamos os
olhos. Entre amantes, a confiança é tanta que eles se
olham sem o menor temor. Quando olham nos olhos do
ser amado, estão verificando inconscientemente o grau de
dilatação da pupila. Se enxergam profundos poços escuros,
sabem intuitivamente que seus sentimentos são
correspondidos. Se vêem uma pupila diminuta, podem se
sentir intranqüilos ao perceber que nem tudo vai bem no
relacionamento.
Passando do amor ao ódio, o olhar fixo de uma pessoa
furiosa é intimidador. Em tempos remotos, quando as
superstições eram comuns, acreditava-se que seres
sobrenaturais vigiavam os atos humanos e influenciavam
seus resultados. Se essas divindades vigiavam os homens,
é porque deviam ter olhos, e, como tinham muito o que
vigiar, era provável que tivessem muitos olhos e fossem
onividentes. Quando os deuses eram bons, os humanos
sentiam-se protegidos, mas também havia deuses maus e
demônios — espíritos do mal com olhos malignos — cujo
olhar podia causar um desastre.
A crença no poder dos olhos maléficos se espalhou e
ainda hoje sobrevive em algumas partes do mundo. O
olhar maldoso transformou-se na figura do Olho do Diabo,
um poder maligno e até mortal que podia atingir a vítima
sem aviso. Se caísse sobre alguém, algo terrível acontecia.
Às vezes, uma mulher comum era possuída pelo Olho do
Diabo contra sua vontade. Desde então, todos sobre os
quais seu olhar recaía seriam vítimas de alguma desgraça.
Muitos amuletos e talismãs eram utilizados para proteger
as pessoas dessas ameaças. Alguns desses objetos
protetores funcionavam segundo o princípio de que uma
imagem fortemente sexual podia distrair o Olho do Diabo e
mantê-lo ocupado.
Surpreendentemente, com essa idéia em mente,
muitas igrejas cristãs da Europa medieval exibiam
imagens de genitais femininos sobre as portas, para evitar
que os demônios entrassem no edifício. Para intensificar a
proteção, os genitais eram geralmente representados
abertos por duas mãos. Logicamente, a maioria dessas
imagens foram removidas ou escondidas durante a era
vitoriana, mas algumas ainda sobrevivem. Um amuleto
que sobreviveu é a ferradura, que também é colocada
numa casa para trazer boa sorte. Se todo mundo soubesse
que, como amuleto de proteção, a ferradura era símbolo
dos genitais femininos, ela também já teria desaparecido.
Como se acreditava que os piores efeitos do Olho do
Diabo eram causados pela inveja, era importante não
prodigalizar elogios a alguém que pudesse ser vulnerável.
Uma mãe ficava horrorizada se um estranho elogiasse seu
bebê, e teria que pendurar um amuleto da sorte no berço
da criança ou executar algum outro ritual de proteção.
Mesmo hoje, principalmente nas regiões mediterrâneas,
essas precauções supersticiosas ainda são levadas a sério.
Abandonando os olhos fantásticos dos espíritos do
mal e chegando aos olhos verdadeiros de uma mulher,
muitas mensagens podem ser lidas em suas várias
expressões.

Baixar os olhos. Olhos baixos são às vezes sinal de


modéstia. É o comportamento natural dos subordinados
que não ousam encarar seus superiores. Uma pessoa
verdadeiramente modesta não move os olhos para a
esquerda e para a direita, mas baixa-os para o chão. Há
nesse ato, assim como no gesto de baixar a cabeça, a idéia
de reverência e submissão.

Erguer os olhos para o céu. Esse é outro movimento


usado deliberadamente como um sinal. Se os olhos se
mantêm um segundo nessa posição, expressam uma
"alegação de inocência". Usado hoje só de brincadeira, esse
movimento dos olhos baseia-se na idéia de olhar para o
céu em busca de que o divino seja testemunha da
inocência.

Olhar feroz. Esse é um olhar usado freqüentemente


pela mãe que tenta dominar os filhos sem dizer uma
palavra. O olhar feroz é uma versão mais complexa do
olhar fixo. Os olhos encaram a "vítima" bem abertos, mas o
cenho se mantém franzido. Trata-se de uma contradição, e
duas partes do rosto precisam opor forças, porque olhos
arregalados geralmente são acompanhados de
sobrancelhas erguidas. Por essa razão, não é uma
expressão que se mantenha por muito tempo. Durante o
olhar feroz, as pálpebras superiores são fortemente
pressionadas para cima e quase desaparecem sob as
sobrancelhas abaixadas. Isso dá ao olhar uma expressão
inconfundível. A mensagem do olhar feroz é de raiva e
surpresa.

Olhar de soslaio. Esse é um movimento usado para


olhar alguém sem se dar a perceber. Também é um sinal
de timidez ou de reserva. "Estou muito assustado para
encarar você, mas não consigo deixar de olhá-lo" é a
mensagem que ele contém. A expressão "olhar de
esguelha" descreve perfeitamente esse gesto.

Olhar desfocado. Isso ocorre quando estamos muito


cansados ou sonhando acordados. Alguém que queira
mostrar que está sonhando com algo especial (um novo
amor, por exemplo) pode ficar olhando por uma janela com
um olhar desfocado para impressionar os presentes.

Olhos arregalados. Abrir os olhos a ponto de mostrar


o branco acima e/ou abaixo da íris costuma ser uma
reação a uma surpresa moderada. Esse movimento
aumenta o campo de visão e abre caminho para uma
maior receptividade a estímulos visuais. Como ocorre com
muitas reações automáticas dos olhos, uma versão
"representada" é às vezes usada como sinal de falsa
surpresa.

Olhos apertados. Basicamente uma proteção contra o


excesso de luz ou possíveis danos, o movimento voluntário
de apertar os olhos também tem uma versão deliberada.
Trata-se de uma forma arrogante, na qual fica evidente
que a pessoa não está sofrendo com a exposição à luz ou
temendo uma ameaça. Essa expressão de dor artificial
implica que os presentes são a causa de uma angústia
mais ou menos permanente. É uma expressão de desgosto,
de desprezo pelo mundo ao redor. A prega de pele dos
olhos orientais às vezes cria uma falsa impressão de
arrogância, porque parece que a pessoa está apertando os
olhos deliberadamente.

Olhos brilhantes. O brilho dos olhos transmite uma


mensagem inteiramente diference e é algo difícil de imitar
(a não ser para atores profissionais). A superfície luminosa
e cintilante dos olhos fica levemente umedecida por uma
secreção das glândulas lacrimais causadas por uma forte
emoção, mas não suficientemente forte para produzir
lágrimas. Esse é o olhar dos apaixonados, dos fãs, da mãe
orgulhosa e do atleta triunfante, mas também o olhar da
angústia, da aflição e da tristeza — em resumo, de
qualquer forte emoção que seja reprimida pouco antes do
choro.

Olhos úmidos. Chorar é um forte sinal social. O fato


de sermos capazes de chorar enquanto outros primatas
não choram tem despertado considerável interesse. Há
quem afirme que isso se deve ao fato de nossos ancestrais
terem passado por uma fase aquática há milhões de anos.
As baleias choram quando sofrem, e há relatos de que as
lontras também choram quando perdem os filhotes.
Afirma-se ainda que as lágrimas são um produto da evo-
lução da função de limpeza dos olhos em mamíferos que
voltaram ao mar.
Essa explicação aquática parece lógica. Se há milhões
de anos o homem passou por uma fase aquática, quando
produzia lágrimas como uma reação à longa exposição à
água do mar, é possível que tenha conservado esses olhos
lacrimosos quando voltou à terra firme como caçador. Isso
explicaria por que ele é o único primata a ter essa
capacidade. Uma outra possibilidade é que o clima seco
das savanas tenha aumentado a produção de lágrimas, e
que o choro seja resultado da função de limpeza. Contra o
argumento de que os outros mamíferos que habitam
regiões secas não choram quando estão tristes, pode-se
dizer que todos eles possuem faces peludas, nas quais as
lágrimas se perderiam. Só no rosto sem pêlos da espécie
humana as lágrimas brilhantes funcionariam como um
forte sinal visual,
Uma explicação completamente diferente parte da
idéia de que as lágrimas, como a urina, têm uma função
excretora. A análise química das lágrimas produzidas pela
tristeza e das lágrimas produzidas pela irritação dos olhos
revelou que os dois líquidos contém diferentes proteínas.
Isso indicaria que o choro emocional é primordialmente
uma maneira de limpar o corpo do excesso de substâncias
químicas produzidas pelo estresse, o que explicaria por
que "chorar faz bem": a melhora de humor seria fruto de
uma mudança química. A visão de faces banhadas de
lágrimas, que estimularia as pessoas a abraçar e confortar
o sofredor, seria então uma exploração secundária desse
mecanismo de excreção. Mais uma vez, é difícil conciliar
essa teoria com a ausência de lágrimas em animais como
os chimpanzés, que passam por momentos de forte tensão
em disputas no mundo selvagem.

Piscar os olhos. Deixando o tema dramático do choro e


abordando o tema mais mundano da piscadela, hoje
existem várias maneiras diferentes de piscar. A piscadela
normal, o movimento das pálpebras que limpa e umedece
a superfície da córnea a freqüentes intervalos durante o
dia, leva mais ou menos 1/40 de segundo. Em estados
emocionais, quando a produção de lágrimas aumenta, as
piscadelas também se tornam mais freqüentes. É por isso
que a freqüência das piscadas pode ser usada como um
indício do estado de espírito.
Eis algumas das diferentes maneiras de piscar:
Piscar repetidamente. Isso ocorre quando alguém está
à beira das lágrimas. Trata-se de uma tentativa
desesperada de prender as lágrimas antes que elas
comecem a rolar. Por causa disso, também é usado como
um sinal de tristeza.

Piscar exageradamente. É uma piscadela mais lenta e


maior em amplitude que a piscadela normal. É um sinal
melodramático de falsa surpresa, usado apenas com um
gesto "teatral". A mensagem que ele passa é a seguinte:
"Não creio no que meus olhos vêem, e por isso estou
limpando-os com uma imensa piscadela para ter certeza
de que é isso mesmo que estou vendo".

Adejar as pestanas. Os olhos se abrem e fecham


numa fração de segundo, num tremor semelhante ao que
tenta evitar o choro. A diferença é a abertura dos olhos,
que são arregalados numa expressão de falsa inocência. É
outro gesto teatral.

Piscar para alguém. Esse é um gesto deliberado que


significa cumplicidade entre duas pessoas. A mensagem
que ele transmite é: "Eu e você partilhamos
momentaneamente um segredo que exclui os demais".
Entre amigos, significa que ambos estão de acordo sobre
alguma questão, ou que desfrutam de uma intimidade
maior do que a que têm com as outras pessoas presentes.
Entre estranhos, o gesto geralmente implica um convite
sexual, entre pessoas de sexos diferences ou do mesmo
sexo. Como sugere um entendimento particular entre duas
pessoas, a piscadela pode ser usada abertamente para
"provocar" um terceiro e fazê-lo sentir-se excluído. Usado
em segredo ou abertamente, o gesto é condenado pelas
regras de etiqueta. Uma autoridade no assunto declarou
que, na Europa, isso não é coisa de uma mulher de classe.
Muitas mulheres acham difícil piscar de uma maneira
convincente e se sentem desajeitadas quando o tentam.
Por alguma razão ainda desconhecida (a menos que a
dificuldade esteja na maquiagem dos olhos), é muito mais
fácil para os homens piscar de uma maneira convincente.
Piscar para alguém talvez signifique que desejamos
partilhar um segredo apenas com uma pessoa, enquanto o
outro olho se mantém aberto para o resto do mundo, que
fica de fora da troca pessoal.

Como os olhos femininos transmitem muitas


mensagens, não surpreende que toda uma cosmética
tenha se desenvolvido para embelezá-los. No Egito, a
pintura dos olhos já era bastante sofisticada 5 mil anos
antes de Cristo. A galena, um minério de chumbo, era
utilizada para pintar traços pretos que exageravam a
forma das pálpebras. A malaquita, um óxido de cobre, foi
usada para fabricar a famosa maquiagem verde que era
aplicada na região dos olhos na forma de uma pasta. Além
de decorativa, funcionava como uma proteção contra o
brilho do sol. Um produto puramente decorativo para
maquiar os olhos era preparado com ovos de formigas.
É claro que, para as mulheres egípcias daquele tempo,
a maquiagem dos olhos era cara e consumia muito tempo.
Novas pesquisas revelaram que, 2 mil anos antes de Cristo,
a fabricação de cosméticos era um processo muito mais
complexo do que se acreditava. Além das cores preto e ver-
de, já conhecidas, hoje se sabe que há 4 mil anos, graças a
uma química bastante avançada, as damas egípcias
tinham a seu dispor o púrpura, o amarelo, o azul e três
tipos de branco. Dois dos brancos também agiam como
antibióticos. Além disso, o preto era encontrado em duas
tonalidades, uma fosca e outra brilhante.
Para aplicar esses cosméticos nos olhos, a mulher
usava um bastonete de ponta arrendada, feito de madeira,
bronze, hematita, obsidiana ou vidro. Muitos desses
bastonetes, assim como potes de cosméticos lindamente
decorados, foram encontrados em salas de maquiagem e
de banho de mais de 3 mil anos atrás.
A maquiagem dos olhos da mulher egípcia incluía um
estranho elemento: uma linha negra horizontal que partia
do canto externo do olho até a orelha. Esse elemento
altamente decorativo tinha um significado mágico porque
era a imitação das linhas do olho do gato, um animal sa-
grado para os antigos egípcios.
Essa obsessão pela maquiagem dos olhos no Egito
durou milhares de anos. Mesmo no período em que a
grande civilização já declinava, a rainha Cleópatra ainda
experimentava novas combinações de cores, pintando as
pálpebras superiores de azul-escuro e as inferiores de um
verde brilhante. As coisas eram bastante diferentes na
antiga Grécia, onde as mulheres respeitáveis deviam exibir
a pureza e a graça de suas formas naturais. Embora tenha
sido a língua grega que nos legou a palavra "cosmético (de
"kosmetikos", que significa "elaborada decoração"), apenas
as cortesãs gregas desfrutavam dos prazeres da
maquiagem. Nelas, era aceitável realçar as pálpebras com
um pincel mergulhado em incenso preto e delinear os
olhos com kohl. Embora muitos homens gregos
usufruíssem da companhia dessas mulheres, as cortesãs
eram desprezadas pelos autores puritanos da época, um dos
quais afirmou que, ao acordar pela manhã, "uma mulher
dessas pareceria ainda menos atraente que um macaco .
Os antigos romanos eram menos austeros a esse
respeito. Ovídio, que escreveu a primeira obra sobre
cosméticos, registra o uso de sombras pretas para os olhos,
feitas de cinzas de madeira, e sombras douradas produ-
zidas a partir do açafrão. O dramaturgo romano Plauto
afirmou que "uma mulher sem pintura é como comida sem
sal".
Depois da queda de Roma, a maquiagem
praticamente desapareceu dos olhos femininos na Europa
e só ressurgiria muitos séculos depois. Quando isso
aconteceu, era uma prerrogativa das mulheres de vida fácil.
A Europa seguia a tradição grega. A maquiagem dos olhos
só ressurgiu inteiramente no início do século XX, quando
uma forte reação ao puritanismo vitoriano começou a
ganhar impulso. O ano de 1910 assistiu à publicação de
um notável pequeno volume intitulado The Daily Mirror
Beauty Book, um manual de beleza que aconselhava traçar
uma linha a lápis para alongar os olhos e descrevia um
aparelho para curvar os cílios, para fazê-los "parecer
estrelas".
Depois da Primeira Grande Guerra, as décadas de
1920 e 30 viram esse comércio de cosméticos florescer
numa indústria de massa. As mulheres, recentemente
emancipadas, estavam decididas a se embelezar segundo
seu próprio gosto e a rejeitar qualquer interferência de
figuras autoritárias masculinas. Essas jovens foram
fortemente influenciadas pelo cinema, que dava seus
primeiros passos. As atrizes dos primeiros filmes em preto
e branco eram obrigadas a enfatizar os traços faciais para
torná-los mais visíveis para a platéia.
Uma atriz em particular, Theda Bara, influenciou a
indústria de cosméticos ao lançar a moda dos olhos
pesadamente maquiados. Helena Rubinstein, pioneira da
moderna cosmética, tirou a idéia das sombras coloridas do
teatro francês e, com seu conhecimento do antigo Egito,
experimentou o kohl para criar a dramática máscara de
Theda Bara para o papel de Cleópatra.
Foi o começo de uma revolução na cosmética. Em
poucas décadas, o inusitado de Hollywood tornou-se lugar-
comum em todo o mundo. No início da década de 1960, o
Egito serviu novamente de inspiração para a maquiagem
dos olhos. Dessa vez, foi Elizabeth Taylor a fazer o papel de
Cleópatra. No épico de 1963, seus olhos pesadamente
maquiados inspiraram jovens de todo o mundo — e
sombras, delineadores e cílios postiços entraram na moda.
No final da década, o olhar desafiador de Cleópatra
deu lugar a uma aparência mais natural, mas os
cosméticos para os olhos não desapareceram. Na verdade,
essa suposta aparência natural era totalmente artificial. A
maquiagem ostensiva do início da década foi substituída
por uma sutil ingenuidade, criando um ar de "inocência
infantil". Um anúncio proclamava que "Para olho nu, uma
face nua". O truque era que essa face nua se conquistava
com o mais demorado e mais cuidadoso procedimento
cosmético na história da maquiagem.
Desde então, a maquiagem dos olhos sempre esteve
presente — às vezes sutil, outras vezes nem tanto —, com
as pálpebras, a linha dos olhos e os cílios recebendo maior
ou menor atenção de acordo com os ditames da moda. No
mundo ocidental, pelo menos, não parece haver limites
para essa área da "modificação" feminina. Mesmo em
países onde dogmas religiosos impõem a sujeição das
mulheres, obrigando-as a cobrir o rosto em público, a
maquiagem dos olhos recebe a mesma atenção de
sempre — ainda que só possa ser apreciada na privacidade
do lar. Como escreveu uma autora iraniana, "as mulheres
podem ser obrigadas a parecer feias pelos chefes de Estado
islâmicos, mas, ironicamente, a indústria cosmética cresce
cada vez mais". É evidente que o desejo feminino de
realçar a beleza dos olhos continua tão forte hoje como era
nas antigas civilizações.
6. Nariz
O nariz é uma parte muito pequena da anatomia
feminina, mas tem uma importância desproporcional ao
seu tamanho. É uma parte do rosto que não é capaz de
expressar-se, a não ser franzindo-se em sinal de repug-
nância. Apesar disso, sempre despertou muita atenção.
Seu formato tem sido referência de beleza, e por isso a
cirurgia plástica para modificar o nariz feminino tem tido
muita procura há mais de meio século. Por que isso
acontece? O que há de tão especial nessa parte da
anatomia feminina?
É evidente que, na evolução da espécie,
características como quadris amplos, pele saudável e
fartos seios ganharam muita importância como sinais de
beleza feminina, mas que vantagem evolutiva pode haver
na forma exata de um nariz feminino? Para entender isso,
é preciso primeiro examinar a biologia básica do nariz.
Se compararmos o nariz humano com os de nossos
parentes próximos do mundo animal, fica evidente que
nosso nariz, com a ponte saliente, a ponta alongada e as
narinas voltadas para baixo, é único. Os macacos não
possuem nada parecido. Os que têm o focinho mais longo
também possuem uma face alongada. Nós temos um nariz
protuberante num rosto achatado, uma característica
estranha que exige uma explicação.
Alguns anatomistas apresentaram um argumento
pouco convincente: no curso da evolução, à medida que o
rosto humano foi se achatando, o nariz permaneceu onde
estava, como uma rocha que fica exposta quando a maré
baixa. É difícil aceitar essa suposição. Há algo tão positivo
na independência do nariz em relação às feições que o
cercam, que o "órgão proeminente", como ele é chamado,
deve nos proporcionar alguma vantagem biológica. Várias
hipóteses foram levantadas.
A primeira teoria vê a probóscide humana como um
ressonador. Seu crescimento é interpretado como um
movimento de apoio cada vez maior da vocalização
humana. O nariz teria se desenvolvido à medida que a voz
e a fala evoluíram. Para ilustrar essa propriedade, ê
preciso falar tapando o nariz. A perda da qualidade vocal é
drástica. É por isso que os cantores têm tanto pavor de
pegar um resfriado. Mas talvez a voz clara dos humanos só
precise dos grandes seios nasais — as cavidades nasais
ocultas — para ressoar com clareza. Se for esse o caso,
precisamos de outra explicação para a protuberância do
nariz.
Uma segunda teoria vê o nariz humano como um
escudo: uma armadura óssea que ajuda a proteger os
olhos. Se apoiarmos a ponta do polegar no osso malar, um
dedo no supercílio e outro na ponte do nariz, vamos sentir
a mão pressionando as três procrusões defensivas do olho.
Esse triângulo ósseo protege o olho, que é mole e
vulnerável, de um golpe frontal.
Uma terceira teoria, bastante fantasiosa, vê o nariz
como uma defesa contra a água. Há quem afirme que
nossos ancestrais passaram por uma fase aquática há
milhões de anos. Durante esse período, nosso corpo teria
sofrido diversas adaptações. O nariz seria uma proteção
contra o influxo de água quando mergulhávamos. Vale
lembrar que, quando pulamos na água, apertamos o nariz,
mas não precisamos fazer isso quando mergulhamos de
cabeça. Isso é verdade, mas seria muito mais provável que
tivéssemos desenvolvido válvulas nasais, como as baleias.
Apenas um pequeno passo evolucionário seria necessário
para que o homem tivesse um nariz capaz de se fechar
debaixo d'água. Se isso tivesse ocorrido, não teríamos
necessidade de desenvolver um nariz alongado com
narinas voltadas para baixo. Válvulas nasais seriam muito
mais úteis a um macaco aquático.
Mas talvez o formato do nariz humano o ajude a
funcionar como uma proteção diferente: contra a poeira e
os resíduos carregados pelo vento. Ao abandonar a
tranqüilidade das árvores e se aventurar por planícies
descampadas e outros ambientes mais hostis, nossos
ancestrais devem ter encontrado um ambiente adverso e
cheio de ventos, onde um nariz seria de grande utilidade.
Essa teoria vê o nariz como um aparelho de ar condici-
onado obrigado a suportar uma carga cada vez maior à
medida que nossos ancestrais se deslocavam para regiões
mais frias e secas do planeta. Para entender isso é
necessário dar uma olhada dentro do nariz.
Quando o ar é inalado pelas narinas, dificilmente está
nas condições ideais para passar aos pulmões. Os
pulmões são exigentes quanto à qualidade ideal do ar que
gostariam de receber: 35º de temperatura, 95% de
umidade e livre de poeira. Em outras palavra, deve ser um
ar temperado, úmido e limpo, para evitar que o delicado
revestimento dos pulmões se resseque ou se danifique. O
nariz consegue isso de uma maneira notável: fornecendo
mais de 14m3 de ar condicionado a cada 24 horas.
Se um paciente de um hospital perder o uso do nariz
por qualquer motivo, seus pulmões estarão, gravemente
prejudicados em um ou dois dias. Tentativas de criar um
nariz artificial enfrentaram muitas dificuldades, o que
prova a extraordinária eficiência da engenharia do nariz
humano.
A superfície interna das complexas cavidades nasais é
coberta por uma membrana mucosa que segrega cerca de
1 litro de água por dia. Essa superfície úmida está sempre
em movimento, porque incrustados nela existem milhões
de minúsculos pêlos chamados cílios, que oscilam 250
vezes por minuto, renovando metade da cobertura mucosa
a cada minuto. Por força da gravidade, essa mucosa
desliza pela garganta, onde é engolida. Enquanto isso
acontece, o ar que passa pelas cavidades nasais vai se
aquecendo e tornando-se mais úmido. O pó e os resíduos
de sujeira aderem à mucosa e são eliminados com ela.
Assim os pulmões estão seguros para a próxima inspiração.
Daí podemos concluir que, à medida que nossos
ancestrais abandonaram seu habitat tropical e úmido e se
aventuraram por outras terras em busca da caça, seu
nariz passou a ser mais exigido. Num clima quente e
úmido, por exemplo, 76% da umidade são provenientes do
exterior, e o nariz só contribui com 24% Num clima quente
e seco, porém, apenas 27% da umidade vêm do ar, ao
passo que 73% precisam ser produzidos pela mucosa
nasal. Isso significa que, para se manter eficiente nas
savanas áridas ou desertos, o nariz precisa ser mais alto e
mais proeminente do que numa floresta úmida.
Um cuidadoso mapeamento revela que é possível
classificar as pessoas segundo um índice nasal, dividindo-
as em grupos correspondentes à temperatura e à umidade
do local onde vivem. Isso não significa classificá-las por
"raças". Pessoas de pele escura que vivem em regiões
quentes na África ocidental, por exemplo — apresentarão
um nariz mais achatado que as pessoas de pele escura que
vivem nas regiões mais secas da África oriental. A forma do
nariz é apenas uma indicação do tipo de ar que nossos
ancestrais respiraram e de nada mais.
Resumindo, portanto, o nariz humano é um aparelho
ressonador e um escudo ósseo que se tornou mais
protuberante e mais longo à medida que nossa espécie
abandonou o quente e úmido Jardim do Éden,
conservando sua função de condicionamento do ar. Mas
não é só para isso que serve o nariz: ele é o principal órgão
do olfato e do paladar. A função olfativa é realizada por
dois pequenos conjuntos de células capazes de detectar os
cheiros. Do tamanho de uma pequena moeda, situam-se
acima das fossas nasais. Cada um deles é constituído por
5 milhões de células que nos dão uma sensibilidade muito
maior aos odores do que em geral imaginamos. Somos
capazes de detectar substâncias diluídas numa proporção
de uma parte da substância para bilhões de partes de ar.
O nariz feminino tem uma extraordinária
sensibilidade aos odores masculinos. Pesquisas realizadas
na década de 1970 identificaram mais de duzentos
diferentes compostos químicos que podem ser encontrados
no suor, na saliva, nos óleos da pele e nos fluidos genitais.
Surpreendentemente, descobriu-se que as mulheres que
apreciam relações sexuais freqüentes, durante as quais,
inevitavelmente, aspiram diversos cheiros masculinos,
possuem uma fisiologia mais equilibrada. Apresentam
ciclos sexuais mais regulares e menos problemas de
fertilidade — tal é o poder do nariz.
As mães também são capazes de reconhecer seus
bebês pelo cheiro corporal. Se, numa experiência simples,
diversas mães forem colocadas em linha com os olhos
vendados, e seus bebês transportados diante da fila um
por um, cada mãe será capaz de distinguir seu filho entre
todos os outros. As mulheres jovens geralmente se
surpreendem ao descobrir que possuem essa sensibilidade.
Mais uma vez, é uma demonstração de quanto a capa-
cidade do nariz humano tem sido subestimada. (Apenas
para registro: só metade dos jovens pais foram capazes do
mesmo feito.)
Não temos consciência dessa alta eficiência do nariz
porque ignoramos e anulamos cada vez mais suas funções.
Vivemos em cidades onde os odores naturais tornam-se
imperceptíveis, usamos roupas que eliminam nossos
cheiros corporais e enchemos o ar de aerossóis capazes de
eliminar cheiros e disfarçar odores. Ainda pensamos no
olfato como algo primitivo e bárbaro — uma capacidade
antiga que é melhor esquecer e abandonar.
Apenas em algumas áreas especializadas — a dos
provadores de vinhos e perfumes, por exemplo — existe
um esforço de educar o nariz a desenvolver plenamente
seu potencial.
Convém agora explicar por que dissemos que o nariz é
também um órgão do paladar. A língua é o principal órgão
do paladar, mas tem uma capacidade muito limitada. Só é
capaz de distinguir quatro sabores: doce, salgado, amargo
e ácido. À medida que mordemos, mastigamos e engolimos
os alimentos, todos os outros sabores de nossa
variadíssima culinária na verdade são detectados não na
superfície da língua salivante, mas pelas células olfativas
situadas acima das fossas nasais. Quando levamos o
alimento à boca, as partículas odoríficas chegam a essas
células diretamente pelas cavidades nasais, ou
indiretamente pela própria boca. Um alimento pode ter um
sabor desagradável (na língua) e um cheiro delicioso (no
nariz).
Essa é portanto a biologia do nariz, mas como ela
pode nos ajudar a entender a forte ligação entre a forma
do nariz e a beleza feminina? Uma resposta pode ser
encontrada na protrusão óssea do nariz humano. Se, como
dissemos, ele protege os olhos de golpes violentos, então os
homens primitivos, que eram caçadores, precisariam de
uma proteção maior que as mulheres primitivas, que
coletavam alimentos. Nas tribos primitivas, as mulheres
adultas eram valiosas demais para serem expostas numa
caçada. Os homens adultos eram mais dispensáveis, mas,
ainda assim, se tinham que enfrentar os perigos de uma
caçada, precisavam da maior proteção possível. Essa
proteção podia ser adquirida se eles desenvolvessem um
crânio mais pesado, sobrancelhas mais espessas, fortes
ossos malares e um nariz mais protuberante. Por isso, em
média, o nariz dos homens acabou se tornando maior que
o das mulheres.
Além disso, a capacidade atlética dos homens,
desenvolvida na perseguição das presas, aumentou a
importância do nariz como condicionador do ar. Mais uma
vez, houve uma pressão evolutiva para que o nariz dos ho-
mens se tornasse maior que o das mulheres.
Essas diferenças criaram uma equação: nariz menor
= nariz feminino. A partir daí, qualquer mulher que
nascesse com um nariz muito delicado era considerada
superfeminina, e qualquer mulher que nascesse com um
nariz muito grande se sentiria feia.
Isso não foi tudo. Outro fator favoreceu a pequenez do
nariz feminino. Quando bebês, todos nós temos o nariz na
forma de um minúsculo botão. Durante a infância, esse
botão cresce proporcionalmente ao resto da lace e atinge
seu tamanho máximo na idade adulta. Daí se conclui que
um nariz pequeno é um nariz infantil. Acrescente-se a isso
um "culto à juventude" e o resultado é óbvio: quanto
menor o nariz, mais bela é a mulher.
Portanto, para parecer jovem e feminina é preciso ter
um nariz pequeno. Para a maioria das mulheres, isso não
é problema — a natureza lhes foi favorável. Outras, porém,
sentem-se desfavorecidas pela genética por terem que viver
com um nariz grande e masculino. Há duas razões
possíveis para isso. Elas podem ter sido desfavorecidas
simplesmente em conseqüência das variações individuais
que ocorrem em todas as populações. Mas também é
possível que seus ancestrais recentes tenham vindo de
uma parte do mundo onde um nariz grande era uma
adaptação valiosa ao clima. Narizes provenientes de
regiões desérticas, como o Oriente Médio e o norte da
África, são maiores que a média; os das regiões úmidas,
como de certas partes da África tropical, são mais largos
que a média. Se forem viver em outras partes do mundo,
onde o clima seja mais temperado, algumas dessas
mulheres podem achar que seu nariz não é bastante
feminino e desejarão tê-lo menor. Até o século XIX, elas
pouco podiam fazer, mas o aparecimento de técnicas
avançadas de cirurgia plástica vieram em seu socorro.
A cirurgia plástica surgiu da necessidade de
reconstruir o rosto dos soltados feridos durante as duas
grandes guerras do século XX. Com os avanços técnicos,
percebeu-se que os mesmos procedimentos podiam ser
utilizados por razões puramente estéticas, sempre que
alguém estivesse infeliz com o rosto que a natureza lhe
dera. Reduzir o tamanho do nariz feminino tornou-se a
mais popular das cirurgias plásticas.
O termo técnico para essa cirurgia é rinoplastia —
que vem de rhino, o termo grego para nariz. A cirurgia é
realizada dentro do nariz, para que não haja cicatrizes
externas. O procedimento mais comum implica a remoção
da saliência óssea que torna o nariz muito protuberante e
adunco. Uma serra cirúrgica especial remove essa
saliência, e o perfil nasal se reduz drasticamente. Mas
existem cirurgias menos comuns, como a redução da
batata do nariz, o estreitamento das narinas e a elevação
da ponta do nariz.
Como quase sempre acontece com essas "melhorias"
corporais, as primeiras clientes da cirurgia plástica do
nariz foram as estrelas do show business. Em 1923, a
famosa atriz de teatro Fanny Brice convocou um renomado
cirurgião plástico a seu apartamento no Ritz, onde ele
realizou uma rinoplastia que reduziu seu nariz
proeminente a dimensões diminutas. Seu produtor ficou
horrorizado. Segundo ele, Fanny perdera "um nariz de 1
milhão de dólares". Dorothy Parker, famosa por seus
comentários cáusticos sobre as celebridades da época,
afirmou que Brice (que era judia) tinha "cortado fora o
nariz por ódio à sua raça", contra o que a atriz se defendeu
energicamente. Mais tarde, na década de 1960, quando fez
o papel de Fanny Brice em Funny Girl, Barbra Srreisand se
recusou bravamente a operar seu imponente nariz, e o
incidente sobre a cirurgia plástica de Fanny foi omitido no
roteiro do filme.
Mas Streisand, dona de uma forte personalidade, foi
uma exceção. Na segunda metade do século XX, a
rinoplastia se tornou cada vez mais popular no mundo
ocidental porque um número cada vez maior de atrizes
modelos e mulheres de todas as condições sociais
passaram por uma plástica para reduzir o nariz. No início
do século XXI, o número de rinoplastias já ultrapassava
centenas de milhares.
Mesmo em países onde o nariz grande é uma
característica comum, a moda pegou. Em Israel, por
exemplo, cirurgiões plásticos são cada vez mais
requisitados para a rinoplastia. Além das mulheres
israelenses, jovens do Egito, da Jordânia, da Arábia
Saudita e dos países do Golfo acorrem às clínicas
israelenses em busca da operação.
O procedimento popularizou-se nos lugares mais
inesperados. No Irã, onde por imposição do rigoroso regime
islâmico as mulheres cobrem os cabelos em público e
expõem apenas o rosto, ou parte dele, o número de
rinoplastias está crescendo em proporções assustadoras.
No início do século XXI, a redução do nariz se tornou tal
obsessão para as jovens iranianas que mais de cem
cirurgiões plásticos chegavam a realizar 35 mil rinoplas-
tias por ano. Uma adolescente de Teerã afirmou: "A moda
chegou a tal ponto que as pessoas que não operam o nariz
usam um curativo para chamar a atenção". A desculpa
das adolescentes é que, de acordo com a lei islâmica,
"Deus ama os belos". Mas é claro que, com quase todo o
resto do corpo coberto, o nariz se tornou um foco de
atenção.
Em algumas regiões da África tropical, uma operação
diferente está ganhando popularidade. Depois dela, o nariz
largo e chato das mulheres nativas se estreita e recebe
uma ponte mais firme. É o equivalente nasal do
alisamento dos cabelos, uma cirurgia com a qual as jovens
africanas tentam parecer mais européias. Uma tendência
semelhante foi relatada recentemente no Extremo Oriente.
No Vietnã e na China, as cirurgias que ocidentalizam o
nariz estão sendo realizadas em grande número.
Para o uso de jóias, o nariz nunca foi tão popular
quanto as orelhas, o pescoço, o pulso ou os dedos. Em
algumas sociedades tribais, o septo nasal era perfurado
para que nele se pudesse pendurar um ornamento, mas
esse costume nunca se generalizou. O piercing nas narinas
tem uma longa história, que começa no Oriente Médio
cerca de 4 mil anos atrás. Ainda é prática corrente entre os
berberes e beduínos nômades do Norte da África e do
Oriente Médio, onde o marido costuma presentear a
esposa com uma argola de ouro que ela deverá usar no
nariz no dia do casamento. O tamanho da argola indica a
riqueza da família, e, se mais tarde ocorrer o divórcio, a
mulher rejeitada pode usar o aro de ouro no nariz para
garantir sua segurança.
A tradição de usar argola no nariz foi levada do
Oriente Médio para a Índia durante o período mongol, no
século XVII, quando o costume era perfurar a narina
esquerda, escolhida porque esse lado estava relacionado à
procriação e ao nascimento. Acreditava-se que, se usasse
uma argola na narina esquerda (muitas vezes ligada à
orelha esquerda por uma corrente de ouro), a mulher teria
um parto menos doloroso.
Na década de 1960, os hippies do Ocidente gostavam
de viajar para o Oriente "em busca de si mesmos", e, ao
ver as mulheres nativas com argolas no nariz, decidiram
adotar essa maneira exótica de mutilação.
Na Inglaterra, a moda foi adotada pelos punks dos
anos 1970, mas ainda era vista como uma tendência
exótica. Mais tarde, por volta do final do século XX, talvez
devido à influência cada vez maior dos filmes de Hollywood,
os pequenos piercings ganharam popularidade. Em muitos
lugares houve reações violentas de patrões contra
empregados que usavam esse novo tipo de ornamento
feminino, mas com o tempo o costume foi perdendo seu
caráter de rebeldia, e hoje, já no século XXI, começa a de-
clinar.
Quanto à maneira de cumprimentar com um toque de
nariz contra nariz, tem sido rara socialmente. Na Europa,
o contato entre duas pessoas pelo nariz sempre foi
considerado grosseiro e incivilizado. O melhor que um
nariz pode esperar é um puxão ou um soco. E o pior foi
uma punição particularmente brutal, na qual uma faca
era inserida nas narinas, o que fazia o nariz se partir ao
meio. Esse castigo era aplicado, no século IX, àqueles que
não pagassem impostos.
Hoje, embora os coletores de impostos tenham
aposentado as facas, ainda mostramos uma relíquia desse
método primitivo quando dizemos que o fisco "nos deu
uma facada".
No mundo ocidental, o nariz só recebe toques gentis
na vida privada. No ato sexual, os amantes esfregam o
nariz do parceiro contra o próprio nariz, uma carícia que
entretanto nunca saiu do âmbito da intimidade Em certas
ilhas do Pacífico, esse toque também ocorre num contexto
social. Eis, segundo Malinowski, a maneira como um
nativo de Trobriand descreve o ato sexual: "Eu a abraço
com todo o meu corpo, esfrego meu nariz no dela, sugo o
seu lábio inferior e ela suga o meu. Então, tensos de
paixão, misturamos nossas línguas, nos mordemos no
nariz, nos mordemos nas bochechas, nos mordemos no
queixo, acariciamos as axilas e as virilhas...".
Num contexto social, os povos do Pacífico utilizavam o
contato nariz a nariz quase da mesma maneira que
usamos o beijo. Costuma-se descrever esse contato como
"esfregar um nariz contra o outro", o que é um erro. O
movimento de esfregar geralmente se reserva aos
encontros eróticos do tipo descrito por Malinowski. Em
público, o que ocorre é um toque na ponta do nariz, um
gesto que se baseia na idéia de inalar a fragrância do corpo
do outro.
Como cumprimento formal, o toque no nariz às vezes
obedece a um rígido código de comportamento. Em uma
tribo das ilhas Salomão, no sul do Pacífico, existe uma
lista das partes do corpo que podem ou não ser tocadas
pelo nariz. O contato de nariz com nariz, assim como de
nariz com bochecha, só é permitido entre pessoas da
mesma condição social. Quando um jovem encontra uma
pessoa mais velha, o contato deve ser de nariz com pulso.
Quando um cidadão cumprimenta um grande chefe, deve
tocar os seus joelhos com o nariz.
Esses cumprimentos estão em declínio. O modo de
vida mais cosmopolita, a mistura de culturas, o
crescimento do turismo e do comércio internacional —
tudo isso contribuiu para uma uniformidade dos gestos de
cumprimento, c o onipresente aperto de mãos se espalhou
por todo o planeta. Hoje, quando maoris de alta casta de
encontram, combinam um vigoroso aperto de mãos com
um leve toque no nariz. O novo ocupa o lugar da tradição.
7. Bochechas
Desde épocas muito remotas a parte macia e lisa do
rosto feminino tem sido considerada sede de beleza,
inocência e modéstia. Isso ocorreu em parte porque a
forma arredondada do rosto de um bebê — uma
característica exclusivamente humana — sempre
despertou forte amor paternal. Essa antiga ligação entre
bochechas macias e amor intenso deixou uma marca em
nossos relacionamentos adultos. Em momentos de ternura,
tocamos, beliscamos ou beijamos as faces do ser amado,
numa reminiscência do amor puro entre pais e filhos.
Assim como a mãe pressiona levemente as bochechas do
bebê contra o rosto, os namorados dançam de rosto colado
e velhos amigos se beijam na face. Simbolicamente, a
bochecha é a parte mais suave de todo o corpo feminino.
A bochecha é também a parte do corpo que revela
mais claramente as emoções. É nas faces que as
mudanças emocionais são mais evidentes. O rubor da
vergonha ou do constrangimento sexual se inicia no centro
das bochechas — em dois pontos que ganham uma cor
vermelho-escura — e só então se irradia pela superfície do
rosto. Depois, se o rubor se intensifica ainda mais, espalha-
se para outras áreas, como o pescoço, o nariz, os lóbulos
das orelhas e o colo. Mark Twain certa vez declarou que "O
homem é o único animal que se ruboriza. Ou deveria..." —
como se fossem os terríveis pecados do ser humano que o
fizessem ruborizar-se de vergonha.
Na verdade, é em outros contextos que o rubor ocorre.
A pessoa que enrubesce costuma ser jovem, tímida em
sociedade, e geralmente não tem do que se envergonhar, a
não ser de sua inexperiência e indesejada inocência.
Como ocorre muitas vezes num clima de erotismo, o
rubor é visto como uma demonstração de inocência
virginal. A "noiva ruborizada" é um clichê nas cerimônias
de casamento — e nesse caso o rubor resulta de um
constrangimento pelo fato de todos os presentes estarem
imaginando a iminente perda da virgindade. Como o rubor
está (ou estava, antes que a educação sexual moderna
trouxesse uma maior abertura e franqueza sobre o
assunto) intimamente ligado a uma situação de namoro ou
flerte entre pessoas jovens, criou-se uma conexão entre ele
e a atração sexual. A mulher que não cora não tem
consciência de sua sexualidade ou já perdeu a vergonha. A
mulher que cora diante de um comentário de conotação
sexual obviamente tem consciência de sua sexualidade,
mas ainda preserva uma certa ignorância. Portanto, poder-
se-ia dizer que o rubor é basicamente um sinal de
virgindade. Nesse contexto, era significativo que as jovens
oferecidas nos mercados de escravos corassem quando
enfileiradas diante de potenciais compradores.
A vermelhidão do rosto também é um sinal de raiva. A
tonalidade que se instala é diferente, um rubor difuso que
se espalha por todo o rosto. A disposição da mulher
enfurecida é de ataque. Ela pode lançar ameaças terríveis,
mas é a vermelhidão da pele que indica sua frustração. As
faces de uma mulher verdadeiramente irada se tornam
muito pálidas à medida que o sangue foge e ela se prepara
para a ação. Esse é o rosto de uma mulher pronta para
atacar a qualquer momento. Mas se ela está com medo,
suas faces também empalidecem, porque ela está prestes a
fugir — ou reagir, se for encurralada.
Modernamente, o rosto bronzeado de uma mulher
caucasiana é sinal de status, porque indica que ela tem
condições de passar férias numa praia. Essa é uma
situação relativamente recente. Antigamente, nenhuma
jovem da alta classe seria vista com a pele bronzeada.
Naquela época, o bronzeado significava apenas uma coisa:
a labuta no campo. Moças das classes superiores
consideravam a pele bronzeada repugnante, c tomavam
todo o cuidado para evitar o sol mesmo num simples
passeio pelo parque, quando usavam um chapéu de abas
largas ou uma sombrinha.
Em alguns períodos da história, essa repulsa ao sol
levou as mulheres a usar maquiagem para empalidecer o
rosto. Em casos extremos, elas se sangravam para chegar
à palidez. Todas essas práticas acarretavam riscos. A
maquiagem branca usada no século XVI era especialmente
danosa, porque continha óxido de chumbo. O repetido uso
dessa pintura ocasionava um acúmulo de veneno no corpo,
que mais tarde podia causar paralisia muscular ou até
mesmo a morte.
Em outras épocas, quando um rosto rosado era um
sinal de vigor e boa saúde, as faces eram pintadas com
ruge. Quando não usavam ruge, as jovens beliscavam as
bochechas antes de um importante acontecimento social
para fazer o sangue afluir a elas.
O blush ainda é um cosmético muito usado hoje,
embora essa seja uma tendência que vai e vem ao sabor da
moda, à medida que os fabricantes de cosméticos lançam
novidades no mercado. Além da aparência de saúde, esse
tipo de maquiagem traz também a lembrança do rubor
inocente da adolescência, o que lhe dá uma dupla
vantagem num contexto sexual.
No século XXI, depois de uma forte campanha contra
o excesso de sol devido ao risco de câncer de pele, o
bronzeado voltou a ser um mal. As jovens hoje evitam se
torrar ao sol e, quando se expõem, usam um bom protetor
solar. Mais uma vez, a face pálida volta a ser um
símbolo — dessa vez de consciência e preocupação com a
saúde. Mas ainda há quem se recuse a abandonar o culto
ao sol, e assim as mulheres se dividem entre as cautelosas
pálidas e as bronzeadas despreocupadas. Veremos que
grupo prevalecerá.
Os problemas de pele que o sol pode acarretar não
são nada comparados com um creme que, na Itália do
século XVII, era vendido com o nome de "Aqua Toffana" ou
"Manna de San Nicola di Bari". Uma certa senhora Giulia
Toffana oferecia esse especial tratamento de pele, que se
tornou particularmente popular entre as esposas que
queriam se livrar de seus maridos. Vendido em pó ou em
creme, era uma fórmula venenosa que continha arsênico e
outros ingredientes letais. A senhora Toffana sempre
visitava suas clientes para lhes explicar o uso adequado do
produto. Recomendava que nunca ingerissem o cosmético
e que o aplicassem nas faces pouco antes de uma relação
amorosa. Com isso, a boca do marido, pressionada contra
as faces, absorveria uma quantidade do veneno suficiente
para matá-lo. Depois, o motivo do óbito era sempre
"excesso sexual". O ardil funcionou por muito tempo. A
senhora Toffana foi responsável por mais de seiscentas
mortes e a criação de mesmo número de viúvas saudáveis,
o que fez dela a maior envenenadora de todos os tempos.
Seus crimes só foram descobertos em 1709, quando ela foi
presa, torturada e estrangulada na prisão.
Assim como a cor, a forma das bochechas também é
importante. Um rosto com covinhas sempre foi
considerado atraente na Europa, onde se dizia que elas
eram marcas do dedo de Deus. As covinhas não são muito
comuns hoje, e parece que sempre foram bastante raras.
Entre os gregos antigos, a forma das bochechas
também era importante como padrão de beleza. Havia até
um gesto especial para indicar isso. Consistia em colocar o
polegar sobre uma bochecha e o indicador sobre a outra e
descer suavemente a mão em direção ao queixo.Durante o
movimento, os dedos se aproximam, sugerindo uma forma
atilada para o rosto. Era esse rosto ovalado que os gregos
consideravam ideal de beleza feminina. Os gregos
modernos ainda interpretam o gesto da mesma maneira.
Pressionar a língua contra a bochecha a ponto de
distorcê-la é um gesto que significa descrença. A idéia que
lhe deu origem é a de que essa seria a única maneira de a
pessoa evitar uma crítica que estaria "na ponta da língua".
Fazer esse gesto era uma grosseria, proibida
principalmente às crianças. Com isso, durante o primeiro
período vitoriano, a palavra inglesa "cheek" (bochecha)
ganhou nova acepção e passou a significar também
"atrevimento", "desfaçatez".
Outro gesto, quase restrito à Itália, é pressionar o
indicador na bochecha e girá-lo como se fosse uma chave
de fenda. Na Itália todos o conhecem. De Turim, no norte,
à Sicília e à Sardenha, no sul, tem sempre o mesmo
significado: "Bom!" Na origem, era um cumprimento ao
cozinheiro, a indicar que a massa estava al dente, mas
com o tempo seu significado se ampliou e passou a incluir
qualquer coisa boa.
Juntar as palmas das mãos e apoiar a face sobre elas
é um gesto que todo mundo entende. Nasceu do fato de
que o momento que caracteriza o sono é aquele cm que o
rosto toca o travesseiro. É interessante notar que, quando
alguém está cansado ou entediado, mas tem que
permanecer sentado a uma mesa, apóia a face sobre a mão
como se tentasse segurar o peso da cabeça. Se um
professor ou conferencista constatar essa postura em seus
ouvintes, pode contar que não está agradando. Uma
demonstração ainda mais evidente de aborrecimento ou
tédio é contrair os cantos da boca com força. Ele também
significa descrença e é essencialmente um gesto de forte
sarcasmo.
Em algumas regiões mediterrâneas, beliscar a própria
bochecha é sinal de algo excelente ou delicioso. Quase em
toda parte, o mesmo gesto, só que na face de outra pessoa,
é um sinal de afeição que vem sendo usado há mais do 2
mil anos, tendo sido muito popular na Roma antiga,
Normalmente, é um adulto que belisca a bochecha de uma
criança (que quase sempre odeia isso), mas o beliscão
também pode ser usado como uma brincadeira entre
adultos.
O tapinha na bochecha é uma brincadeira um pouco
mais irritante, que pode desagradar quando praticado com
demasiado vigor. Quando não existe afeto, o gesto pode se
transformar facilmente numa verdadeira bofetada,
deixando a vítima atônita, sabendo que foi insultada, mas
sem poder fazer nada diante de um gesto que poderia ser
amigável.
O tapa no rosto tem uma longa tradição. Era a
maneira clássica de uma dama responder à atenção
indesejada de um cavalheiro. Na essência, não passa de
uma tempestade em copo d'água — um estalo que faz
barulho, mas causa tão pouco dano físico que não chega a
provocar uma reação imediata ou um ato agressivo da
parte da vítima. Embora provoque um choque, ele se dilui
logo depois.
Na outra ponta da escala emocional estão o beijo e o
toque na face. O beijo é um ato recíproco, adequado
apenas a pessoas de igual condição. É uma versão mais
leve do beijo na boca, e generalizou-se em muitos países
como parte do ritual de cumprimentos nas reuniões
sociais. Quando a mulher usa batom, o gesto se resume à
pressão de bochecha contra bochecha, combinada com o
estalar de um beijo, sem contato do lábio com a face. A
freqüência do cumprimento obedece a variáveis culturais.
No meio teatral e em ambientes sociais mais festivos, sua
freqüência é quase excessiva, mas em ambientes de baixa
renda ele é extremamente raro, a não ser entre membros
de uma mesma família. Esses usos variam de um país
para outro. Em certas regiões, como a Europa oriental, por
exemplo, o tradicional beijo leve na boca continua
vigorando.
Mutilações nas bochechas nunca foram muito
comuns devido à necessidade de mobilidade facial. Em
tempos remotos, as mulheres que perdiam um ente
querido arranhavam as faces ate fazê-las sangrar, com a
intenção de demonstrar seu sofrimento. John Bulwer
relata que esse costume deu origem a uma lei: "As damas
romanas tinham o hábito de arranhar as faces em sinal de
luto [...] de modo que, ao tomar conhecimento do fato, o
Senado publicou um edito, ordenando que, dali em diante,
nenhuma mulher podia arranhar o rosto em sinal de luto
ou tristeza, já que as faces são a sede da modéstia e da
vergonha".
As decorações tribais para o rosto incluem uma
variedade de pinturas, tatuagens, incisões e perfurações. A
não ser pelo uso rotineiro de pó e ruge, quase não se vêem
adornos faciais no mundo ocidental, embora um breve
ressurgimento deles tenha ocorrido nos anos 1970 com o
movimento punk rock em Londres, quando era possível ver
mocinhas com um alfinete de segurança enfiado na
bochecha, quase sempre próximo à boca. Essas mutilações
selvagens dos primeiros punks foram desaparecendo aos
poucos, e mais tarde foram postos à venda falsos alfinetes
de segurança, que davam a impressão de estar enterrados
na carne sem realmente feri-la.
A única outra forma de decoração facial é a pinta, ou
"sinal de beleza", que se tornou moda nos séculos XVII e
XVIII. Tudo começou com a necessidade de ocultar
pequenas imperfeições, mas a pinta logo ganhou vida
própria como decoração cosmética. Conta-se que Vênus
nasceu com uma pinta natural na face, e qualquer mulher
da moda que a imitasse só teria a ganhar em beleza. Essa
foi a desculpa de que as mulheres precisavam para cobrir
manchas, verrugas ou marcas de varíola com um círculo
preto, ou disfarçar a imperfeição com um lápis preto.
Esse tipo de decoração tornou-se tão popular que
mesmo as mulheres que possuíam uma pele perfeita a
adotaram, até que a pinta passou a ser um elemento
puramente decorativo. Com o tempo, tornou-se tão
essencial nos meios cortesãos a ponto de se dizer que
"toda mulher moderna devia usá-la sempre, a menos que
estivesse de luto". No final do século XVI, um francês de
língua afiada em visita a Londres afirmou: "Na Inglaterra,
as jovens, as velhas e as feias estão todas remendadas, a
menos que estejam acamadas. Cheguei a contar mais de
quinze remendos sobre uma face enrugada e escura de
bruxa..."
No início do século XVIII a moda tinha adquirido tal
complexidade que a posição das pintas ganhou significado
político: as damas do Partido Whig (ala direita) decoravam
a face direita, enquanto as damas do Partido Tory (então
ala esquerda) decoravam a face esquerda.
Com o tempo, os sinais de beleza deixaram de ser
pintas e se transformaram em estrelas, crescentes, coroas,
losangos c corações. Esses excessos logo desapareceram,
mas uma ocasional e única pinta ainda se vê de tempos
em tempos — sobrevivente solitária de um passado de
exagero.
Modernamente, com algumas notáveis exceções, essa
moda desapareceu, e hoje. as marcas do tosto feminino
recebem outro tratamento. Como uma face lisa passa a
imagem de juventude e saúde, é importante para uma
jovem que quer se manter atraente esconder espinhos,
cravos, asperezas, rugas ou outros defeitos de pele. Se a
maquiagem não disfarçar o problema, faz-se necessário
algo mais drástico. Com essa finalidade, novos
procedimentos foram desenvolvidos pela cirurgia plástica.
Um deles é a abrasão da pele, ou, em termos técnicos,
microdermoabrasão. Por esse método, a pele do rosto é
praticamente queimada. Um jato de cristais de dióxido de
alumínio é aplicado ao rosto, removendo as camadas
externas da pele. Depois de cicatrizada, a pele torna-se
muito fina — se o tratamento foi um sucesso.
Outro procedimento é o peeling químico. Uma fina
camada de um gel esfoliante é aplicada no rosto e, cinco
minutos depois, cuidadosamente removida. Esse gel ácido
remove as camadas externas da pele que está danificada.
Um terceiro método emprega uma combinação
altamente tecnológica de ultra-som, microcorrentes e
tratamento com laser.
Em todos esses casos, é preciso repetir o
procedimento algumas vezes, e os resultados nem sempre
são perfeitos, mas novos avanços no tratamento estão
surgindo o tempo todo, e logo chegará o dia em que
qualquer mulher poderá ter uma face perfeitamente lisa —
por um certo preço.

8. Lábios
Existe algo muito estranho nos lábios humanos. No
mundo animal, o homem é o único a ter lábios curvados
para fora. Não percebemos isso porque não nos damos o
trabalho de compará-los com os lábios de nossos ancestrais
primatas, mas, se observarmos atentamente a boca de um
chimpanzé ou de um gorila, logo veremos que a superfície
macia e brilhante fica escondida.
Por que os humanos têm os lábios virados do avesso?
Mais uma vez, a resposta está na nossa evolução. À
medida que nossa anatomia e nosso comportamento
tornaram-se progressivamente mais infantis, preservamos
cada vez mais as características de bebê. Nossos lábios
carnudos e visíveis faziam parte dessa tendência. Como a
fêmea humana é um pouco mais evoluída
anatomicamente — ou seja, mais juvenil — que o homem
nesse aspecto, seus lábios são, em média, mais
protuberantes. E por isso acabaram se tornando alvo de
muita atenção.
Mas, antes, vamos analisar como se desenvolveram
esses superlábios. Sua origem não está no bebê humano,
nem no bebê chimpanzé, mas no minúsculo embrião do
chimpanzé. Quando o feto tem apenas dezesseis semanas,
possui uma boca humanóide, com lábios grandes e
carnudos. Dois meses depois, por volta de 26 semanas, os
lábios já desapareceram. A boca do chimpanzé tomou a
forma em que permanecerá pelo resto da vida. Portanto,
para sermos precisos, devemos dizer que os lábios humanos
não são apenas infantis: são embrionários.
Ao contrário do bebê chimpanzé, o bebê humano não
se desvia do projeto fetal e, assim que nasce, aponta um
par de lábios recurvos para o mamilo da mãe, por onde
suga o leite de seus fartos seios. O bebê chimpanzé, por
sua vez, prende sua boca muscular de lábios finos à longa
teta da mãe e suga o leite como um fazendeiro ordenha
uma vaca.
Portanto, os lábios do avesso, uma exclusividade da
espécie humana, são perfeitamente adequados à sua
primeira tarefa de sugar os seios também únicos da fêmea
humana. Mas a história não termina aqui. Se terminasse,
os lábios do bebê virariam sozinhos para dentro quando
ele começasse a ingerir alimentos sólidos, e assim ele
exibiria os lábios finos típicos dos primatas quando
chegasse à idade adulta. No homem adulto, eles se tornam
de fato um pouco mais esticados e finos, e, em condições
primitivas, podem até desaparecer sob uma barba hirsuta.
A fêmea humana, porém, exibe um par de lábios
fartos e macios por toda a vida adulta — ou pelo menos
até ficar bem velha, quando os lábios se afinam. Enquanto
for jovem e o sexo lhe ocupar a mente, ela tratará de
cuidar dos lábios como um símbolo sexual. Ela os
umedece, os cobre de batom, faz biquinho, sopra beijos.
Antes mesmo de seu primeiro beijo de amor, eles já
desempenharam um papel fundamental na sua
apresentação como mulher.
O que torna os lábios tão sensuais visualmente? Em
sua forma, em sua textura e em sua coloração, eles imitam
os outros lábios femininos, os lábios vaginais.
Quando a mulher se excita sexualmente, os lábios
vaginais se intumescem e se tornam mais vermelhos. Ao
mesmo tempo, no rosto, seus lábios ficam mais túrgidos,
mais vermelhos e mais sensíveis. Essas mudanças
ocorrem em uníssono, como parte da revolução fisiológica
que acompanha uma forte excitação sexual. Um dos
principais fatores desse processo é o fluxo do sangue em
direção à superfície da pele. A pele dos indivíduos
sexualmente ativos brilha quando os vasos capilares se
distendem em função do maior suprimento de sangue.
Esse sangue extra aflora mais rapidamente do que pode
refluir, e, com isso, a superfície da pele se torna cada vez
mais sensível ao toque. Isso é particularmente verdade nos
lábios. Os vasos sangüíneos tornam os lábios mais
intumescidos e mais visíveis graças ao contraste entre sua
tonalidade cada vez mais vermelha e a carne branca ao
seu redor.
Intuitivamente, as mulheres das sociedades
primitivas começaram a usar esse mimetismo. As
prostitutas do antigo Egito usavam um ocre vermelho para
realçar os lábios. Um desenho em papiro que data de 1150
a. C. mostra uma cena num bordel tebano, na qual uma
mulher seminua segura um espelho e aplica uma pintura
nos lábios com um longo bastão. Ao lado, um cliente
inteiramente nu, exibindo uma enorme ereção, estende a
mão na direção dos genitais da mulher. A relação entre o
rubor dos lábios femininos e a atividade erótica tem
portanto mais de 3 mil anos.
O uso de algum tipo de pintura labial é mais antigo
que isso, pois existem evidências de que ela já existia 4 mil
anos atrás, na cidade de Ur, hoje sul do Iraque, onde uma
soberana, a rainha Puabi, foi enterrada com um grande
suprimento de maquiagem para ser usado na outra vida.
Seus cosméticos — tintas vermelhas para os lábios, assim
como verdes, brancas e pretas, presumivelmente para os
olhos — foram armazenados em grandes conchas, ou em
imitações de conchas feitas de ouro ou prata.
Os primeiros batons eram fabricados triturando-se o
óxido de ferro vermelho até obter um pó, que era então
misturado com gordura animal. Mais tarde, no século IV
a.C, os gregos realizaram experiências que parecem ter
resultado na adição de tinturas vegetais, saliva humana,
suor de carneiro e até mesmo fezes de crocodilo. No século
II, a tecnologia já tinha avançado, e as mulheres palestinas
podiam escolher entre o laranja-brilhante e o cereja-escuro.
Desde então, a coloração artificial dos lábios foi um
popular recurso de beleza feminina, embora algumas vezes
tenha sido condenada por autoridades puritanas. Sob
regimes ditatoriais que tentaram reprimir os prazeres
sexuais, a pintura dos lábios foi proibida. Em casos
extremos, mesmo sem pintura, os lábios foram
considerados excitantes demais para serem vistos em
público, e as infelizes mulheres foram obrigadas a escondê-
los por trás de véus.
Acredita-se que a ocultação dos lábios das mulheres
seja uma prescrição da fé islâmica, mas não é. Esse é sem
dúvida um costume nos países muçulmanos, mas não tem
nada a ver com os ensinamentos de Maomé. Na verdade,
foi imposto às mulheres por uma sociedade machista. Não
se trata de um preceito religioso, mas de uma proibição
sexista, fruto de uma sociedade em que a mulher é tratada
como propriedade do homem.
As igrejas cristãs têm tido uma atitude ambivalente
em relação aos lábios femininos. Em algumas épocas, elas
se mostraram liberais, mas também houve períodos de
repressão, quando lábios artificialmente coloridos eram
vistos como obra do demônio e uma ofensa à obra de Deus,
o corpo humano em seu estado natural. Um clérigo do
século XVII condenou os lábios pintados por considerá-los
"um sinal de prostituição", uma armadilha capaz de
propagar o fogo da luxúria no coração dos homens que ti-
vessem a infelicidade de pousar os olhos sobre eles.
Os políticos geralmente se mantiveram afastados
dessas questões, mas, num determinado momento do
século XVIII, na Inglaterra, viram-se na obrigação de
aprovar uma lei proibindo o USO do batom, porque certos
homens ansiosos temiam ser ardilosamente atraídos para
o casamento pela visão dos lábios femininos pintados.
Essa proibição absurda criou um problema para as damas
da época. A solução que elas encontraram foi chupar um
picolé de groselha ou beliscar os lábios pouco antes de
entrar numa festa.
Apesar de sucessivas proibições da Igreja e do Estado,
os cosméticos para os lábios se recusaram a desaparecer e,
ao longo da história, sumiram ou ressurgiram ao sabor da
moda. Num exemplar da Ladys Magazine do final dos anos
1820, verifica-se que um novo desenho labial foi adotado:
o arco de cupido. Para obtê-lo, os lábios eram aumentados
verticalmente em vez de crescerem no sentido longitudinal,
com uma profunda fenda no lábio superior, bem abaixo do
nariz. Isso dava à boca da mulher uma aparência infantil e
transmitia aos galantes cavalheiros da época a atraente
mensagem de que aquelas belas senhoritas precisavam de
proteção.
Nos tempos atuais, o uso do batom sustenta uma
importante indústria, que cresceu ininterruptamente
durante o século XX. No fim da era vitoriana, os lábios
pintados de vermelho foram confinados às infamantes ca-
sas de prazeres em função da pudicícia e da hipocrisia da
época. Inúmeros clientes eram atraídos por suas cores
convidativas e depois voltavam para suas pálidas esposas.
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o batom
iniciou sua lenta escalada social, passando dos bordéis
aos teatros e daí para as bocas das mais ousadas
freqüentadoras da sociedade boêmia. Depois da guerra,
nos agitados anos 1920, os lábios pintados de vermelho se
popularizaram nos salões de baile. Nos anos 1920 e 1930,
o batom era usado pelas estrelas da florescente arte do
cinema e logo se tornou uma norma social.
Uma das primeiras estrelas do cinema, Clara Bow,
reintroduziu os lábios de cupido, mas de uma forma mais
audaciosa, quase um coração. Em 1925, Bow chegou a
estrelar um filme intitulado My Lady's Lips (Os lábios de
minha mulher). Na década de 1930, mulheres de
personalidade mais forte entraram em cena e impuseram
um novo estilo: a boca rasgada. Depois disso, a boquinha
de coração desapareceu.
Com o advento da Segunda Guerra Mundial, pelo
menos entre as jovens, usar um batom vermelho-brilhante
era um sinal de patriotismo, porque alegrava os bravos
soldados. Cartazes de recrutamento exibiam lábios de um
vermelho vivo, uma promessa de apoio feminino a
qualquer um que estivesse disposto a defender seu país.
Em 1945, com o fim da guerra, iniciou-se um período
de austeridade. A paz retornara, e o batom era então um
acessório trivial, apresentado apenas em uns poucos tons
de vermelho. Nunca se tinha ouvido falar de batom de outra
cor. Na década de 1950 tudo isso mudou. Na França e na
Itália, os fabricantes de cosméticos introduziram o titânio
branco na fórmula do batom para produzir cores mais
pálidas, e com isso ampliaram enormemente o espectro de
cores. As revistas de moda da época gozavam de grande
influência e tinham o poder de lançar uma nova cor a cada
ano — a cor que se tornava a coqueluche da
estação e depois desaparecia, substituída pela "ultima
novidade".
Nos anos 1960, com a chegada da pílula
anticoncepcional e uma mentalidade mais aberta para a
sexualidade, as mulheres puderam se expressar melhor
como indivíduos. Em lugar de uma única cor dominante,
uma enorme variedade de cores foi posta à sua disposição,
inclusive diversas tonalidade pálidas.
Com o surgimento do feminismo, na década de 1970,
isso mudou rapidamente. Por algum tempo, pintar os lábios
era o mesmo que ceder ao desejo masculino, e uma nova
forma de puritanismo veio à tona. Os lábios das feministas
eram naturais. Ao mesmo tempo, as mulheres protestavam
violentamente contra a Guerra do Vietnã, e, quando não
pertenciam ao movimento feminista, às vezes adotavam
cores proibidas, como o azul, o púrpura ou mesmo o gótico
preto.
Quando a Guerra do Vietnã terminou e as jovens
conquistaram uma maior igualdade social, os austeros
modelos que lembravam uniformes foram abandonados, e
as mulheres se sentiram livres para voltar a parecer
mulheres. Durante os anos 1980 e 1990, o batom
vermelho retornou mais uma vez.
No início do século XXI, as mulheres passaram a
expressar seu desejo sexual com uma franqueza nunca
vista, e com essa confiança sexual e essa liberalidade
cresceu a exploração erótica dos cosméticos para os lábios.
Foram criadas três estratégias básicas: lábios mais
vermelhos do que nunca, lábios de cor natural com o
brilho do gloss ou uma combinação dos dois — muito
vermelhos e muito brilhantes. Agora, a tônica era a
individualidade. As mulheres deixaram de ser escravas de
uma única moda. Uma cantora pop pode se apresentar
com os lábios pintados de vermelho-vivo e, no próximo
show, subir ao palco com os lábios rosa-pálidos brilhantes
ou sem nenhum batom.
Os publicitários lançam mão de estimulantes
descrições: lábios ultra-brilhantes, lábios suculentos,
lábios deliciosos, lábios molhados. As fotos mostram lábios
femininos tão úmidos que é impossível evitar a mensagem
biológica subliminar: se a forte excitação sexual gera
secreções genitais, os novos batons devem sugerir essa
mudança fisiológica. Os fabricantes de batons criaram
superlábios. A mensagem está clara para quem quiser ver:
as mulheres estão mostrando que gostam de sexo e não se
importam que saibam disso.
Por mais impressionante que seja, toda essa
tecnologia ocidental para embelezamento dos lábios
femininos torna-se insignificante diante das mutilações
labiais de certas sociedades tribais. Entre o povo surma,
que habita o sudoeste da Etiópia, a mulher adulta é
conhecida como "mulher-prato". Pouco depois que ela
completa 20 anos, seis meses antes de se casar, um dos
lábios é cortado e um pequeno prato, chamado labret, é
inserido na boca. Isso estica o lábio para fora num anel de
carne avermelhada. Assim que for possível, a jovem retira
o prato e o substitui por outro ligeiramente maior, depois
por um maior ainda, até ser capaz de exibir um lábio
quase do tamanho de um prato de jantar. Nos primeiros
tempos, o prato tinha a forma de cunha e era esculpido em
madeira, mas mais recentemente a moda determina que
ele seja circular e de cerâmica. Quando a mulher está
sozinha, comendo, dormindo ou na companhia de outras
mulheres, tem permissão para tirar o labret, e, quando faz
isso, o lábio cortado e esticado fica pendurado. Quando os
homens estão presentes, porém, o prato deve estar no
lugar, e seu tamanho denota o valor da mulher. O
tamanho do prato que uma jovem consegue tolerar será a
medida de sua beleza e irá determinar quantas cabeças de
gado ela vale quando sua mão for oferecida em casamento.
Essa forma bizarra de alargamento dos lábios existiu
em muitas tribos africanas, não apenas entre os surmas,
mas também entre os macondes do Quênia, os lobis de
Gana e os sara-kabas e os ubândgis da bacia do Congo.
Surpreendentemente, essa forma extrema de ornamento
corporal foi descoberta por antigos exploradores numa
parte completamente diferente do mundo, a costa
ocidental do Canadá, onde as mulheres dos tliguites, na
Colúmbia Britânica, exibiam grandes discos labiais. Mais
uma vez, as mulheres que tinham os maiores discos eram
as que desfrutavam de mais status.
A técnica varia de uma tribo para outra. Algumas
esticam apenas um lábio, outras os dois, enquanto outras
pregam um pino de madeira acima e abaixo dos lábios. Em
todos os casos, a intenção é alargar os lábios e chamar a
atenção para eles. Entre os ubândgis, foi levantada a
hipótese de que os chefes da tribo instigassem o
procedimento para deter os mercadores de escravos árabes,
que achavam as mulheres com esse ornamento feias e iam
buscar escravas em outra tribo. Embora tenha sido ampla-
mente divulgada, essa história parece não ter muito
fundamento. O mais provável é que, como outras tribos
que adotavam esse costume, os ubândgis achassem os
lábios esticados um sinal de beleza, e que a repulsa dos
mercadores de escravos fosse apenas um bônus.
Outras tribos usavam técnicas diferentes. Os shilluks
do Sudão preferem os lábios tingidos de azul e os ainus do
Japão gostam de lábios tatuados. As tatuagens de estrelas
na infância e as tatuagens em preto e azul quando as
mulheres atingem a idade adulta se espalham da boca em
direção às orelhas. Em algumas tribos das Filipinas, uma
goma de mascar feita de nozes de bétele era usada para
tornar os lábios encarnados.
Quando os primeiros exploradores puseram os olhos
nesses extravagantes lábios, acharam difícil creditar que
eles resultassem de sacrifícios que as mulheres dessas
tribos infligissem a si mesmas: "...elas nascem com os
lábios inferiores desse tamanho, que caem até o peito e
mostram aquela chaga do lado que pende para fora e que,
quando o calor do sol é extremo, apodrece, de modo que
elas não têm outra maneira de se curar senão jogando sal
continuamente sobre ela!" Esse relato foi feito por John
Bulwer em 1654, em um dos primeiros livros
antropológicos já publicados. É evidente que não lhe
ocorreu que os problemas de saúde decorrentes desses
imensos lábios resultavam do corte do lábio para a
colocação de grandes discos.
A cirurgia plástica dos lábios, que já foi tão comum
nas tribos africanas, não seria vista nas sociedades
urbanas por muitos séculos, mas recentemente
reapareceu na Califórnia, numa nova forma. Atrizes de
Hollywood, cientes do apelo sensual de lábios grossos e
suculentos, começaram a procurar diferentes
procedimentos cirúrgicos para "melhorar" seus lábios. Sem
entrar em detalhes técnicos, os pontos principais desse
tipo de cirurgia plástica podem ser resumidos nos
seguintes (embora novos procedimentos estejam sendo
introduzidos o tempo todo):
O procedimento menos drástico é a aplicação de uma
série de injeções de colágeno ou gel hialurônico cm vários
pontos do contorno dos lábios. O efeito dura de três a seis
meses, o que permite a uma atriz, por exemplo, usar os
novos lábios para um determinado papel.
Uma intervenção mais duradoura requer uma
intervenção cirúrgica, com a abertura de um canal que
atravessa os lábios de um canto ao outro. Esse espaço oco
que é preenchido com um material capaz de ser absorvido
pelo tecido labial. Esse preenchimento pode ser feito com
materiais sintéticos, com Alloderm, implante sólido
retirado da pele desidratada de pessoas mortas, e com a
própria gordura da paciente, que é extraída das nádegas,
purificada e depois injetada nos lábios.
Finalmente, a forma mais extrema de intervenção: a
cirurgia plástica dos lábios. Trata-se de uma remodelação
permanente e precisa ser realizada num centro cirúrgico.
Leva cerca de uma hora e tem a desvantagem de deixar
cicatrizes, que, embora fiquem escondidas dentro da boca,
são sentidas.
"Todas essas intervenções têm um dos seguintes
objetivos: preencher os lábios ou projetá-los para fora. A
obtenção de um ou outro resultado dependerá da
colocação precisa das substâncias. Às vezes, um procedi-
mento para preenchimento dos lábios tem o efeito de
eliminar a forma de arco de cupido do lábio superior. Em
lugar da fenda natural, a linha superior se curva
ligeiramente sob o nariz, dando ao lábio uma aparência
artificial.
O risco desses procedimentos cirúrgicos é que, depois
de modificados os lábios, eles podem não se harmonizar
com o rosto. Certas atrizes adquirem lábios tão
protuberantes que ofuscam todas as outras feições do
rosto (e que algumas vezes são chamados com sarcasmo
de "beiços de truta"). Os que criticam essas intervenções
acham que, a não ser no caso de lábios excessivamente
finos, as mulheres deviam pensar duas vezes antes de se
submeter a uma cirurgia desse tipo. Mas essa é uma
opinião que não parecer estar sendo levada em conta,
porque o século XXI está testemunhando uma rápido
crescimento dessas cirurgias, que começaram na
Califórnia e se espalharam pelo mundo todo. Não há
dúvida de que, se os cirurgiões e dermatologistas
executarem bem o seu trabalho e evitarem armadilhas
como as mencionadas, o rosto feminino pode se tornar
muito mais sensual, tal é o impacto erótico da forma dos
lábios.
Até aqui, consideramos os lábios apenas do ponto de
vista estético, mas, naturalmente, essa não é sua única
função. Numa recente pesquisa sobre os dez pontos de
contato mais importantes do corpo da mulher, os lábios
foram considerados a zona mais erógena. Não os seios ou
os genitais, mas os lábios. É verdade que, em estágios
mais avançados da relação sexual, a estimulação do
clitóris tem maior probabilidade de conduzir ao orgasmo,
mas, na fase das preliminares, é o contato com o lábio o
fator de maior excitação, segundo as mulheres
entrevistadas para a pesquisa. Isso pode explicar por que,
tradicionalmente, as prostitutas dizem ''nada de beijo",
embora permitam todo tipo de contato genital. Indagadas
sobre esse tabu, elas respondem que não permitem o beijo
na boca não por razões de higiene, mas porque ele é
"muito pessoal", uma afirmação que diz muito sobre o
significado dos lábios femininos. Isso também talvez
explique por que, em alguns países, como o Japão, a
tradição não recomenda beijar em público.
O beijo na boca tem uma origem curiosa. Quando os
amantes unem os lábios com a boca aberta e um começa a
explorar o interior da boca do outro com a língua, estão
realizando um ato que remonta a épocas primevas.
Quando as mulheres das tribos precisavam desmamar os
filhos e introduzir alimentos sólidos, costumavam mastigar
o alimento até torná-lo macio e liquefeito. Então,
colocavam a boca aberta sobre a boquinha do bebê e,
usando a língua, transferiam para ele o alimento. Quando
cresciam, os bebês passavam a experimentar o alimento
com sua própria língua assim que o contato boca a boca
era feito. Dessa forma, esse movimento exploratório da
língua se ligou indelevelmente ao ato de amor.
Deste longínquo início nasceu o beijo de amor entre
adultos. Esquecemos como chegamos até aqui porque hoje
é extremamente raro encontrar exemplos sobreviventes
desse ritual primitivo de alimentação. Ele ainda ocorre em
algumas tribos remotas, mas é desconhecido ou foi esque-
cido cm quase toda parte.
Vale lembrar que, devido à grande sensibilidade dos
lábios femininos, seu contato com diferentes partes do
corpo masculino durante a relação sexual é menos
altruísta do que pode parecer. De acordo com o estudo
clássico sobre a sexualidade feminina realizado por Kinsey
e seus colegas, publicado há mais de meio século, algumas
mulheres são capazes de chegar ao orgasmo durante
prolongados beijos na boca, e isso pode ocorrer mesmo
sem qualquer contato genital.
Umas poucas mulheres também são capazes de
atingir o orgasmo aplicando os lábios ao falo masculino.
Pode parecer que elas estejam apenas excitando o homem,
mas as terminações nervosas da mucosa dos lábios
femininos são tão refinadas que cada toque no corpo do
amado envia de volta um forte estimulo sexual. Nesse
aspecto, como em muitos outros, a fêmea humana é a
mais desenvolvida de todos os primatas.
O contato oral-genital — que hoje sabemos não é uma
invenção da sociedade ocidental "decadente", mas
desempenhou um importante papel nas atividades sexuais
de muitas culturas por milhares de anos — está
fortemente relacionado ao prazer oral do bebê ao sugar os
seios maternos. Quando uma amante suga o pênis do
parceiro, os movimentos de sua boca lhe recordam o
prazer que sentia ao sugar os seios da mãe. A impressão
deixada pela primeira fase oral permanece com ela de
alguma forma por grande parte de sua vida adulta.
Vale acrescentar que, para Freud, o prazer oral adulto
reflete uma privação infantil. Segundo essa teoria, um
bebê ao qual tenha sido negada a recompensa
normalmente oferecida pela mãe passará o resto da vida
tentando compensar essa perda. Em casos extremos,
talvez isso seja verdade, mas o que Freud não considerou
foi que os prazeres experimentados em qualquer fase da
vida são capazes de estabelecer padrões de comporta-
mento para o futuro. Um indivíduo que sugou o seio
materno, como faz a maioria dos bebês, dificilmente
perderá a chance de experimentar maneiras adultas de
recapturar esse prazer — simplesmente porque não houve
nenhuma privação infantil. A atitude negativa de Freud em
relação a adultos que gostam de beijar, fumar, comer
doces e tomar bebidas quentes não é difícil de entender,
porque sua boca era fonte de interminável sofrimento. Ele
tinha câncer do palato, que precisou ser removido em
grande parte em trinta e três cirurgias. Portanto, ele deve
ser perdoado por essa postura contra esses adultos que ele
considerava "oralmente dependentes, com fixação em seios
e infantilizados" simplesmente porque, ao contrário dele,
eram capazes de desfrutar dos prazeres orais.
Finalmente, é importante examinar os lábios
femininos como emissores de sinais faciais. As mudanças
de humor provocam quatro diferentes movimentos dos
lábios: abertos e fechados, para a frente e para trás, para
cima e para baixo, tensos e frouxos. Combinadas de
diferentes maneiras, essas quatro mudanças nos dão um
enorme espectro de expressões. As mudanças são
efetuadas por um conjunto complexo de músculos que
funcionam basicamente da seguinte maneira:
Ao redor dos lábios existe um forte músculo circular,
o orbicularis oris, que se contrai para fechá-los. É esse
músculo que trabalha quando os lábios estão apertados ou
adotam qualquer outra expressão contraída. Costuma-se
vê-lo como um simples esfíncter, mas isso seria subestimá-
lo. Se o músculo todo se contrai, os lábios se mantêm
fechados, mas se suas fibras mais profundas são fortemente
ativadas, a contração pressiona os lábios fechados contra os
dentes. Por outro lado, se suas fibras superficiais são
ativadas, os lábios se fecham e se projetam para a frente.
Portanto, o mesmo músculo,
operando de maneiras diferentes, pode gerar os lábios
suavemente contraídos que convidam a um beijo ou os
lábios tensos de quem espera levar um tapa na cara.
A maioria dos outros músculos da boca trabalha
contra esse músculo circular central, lutando para manter
a boca aberta em outra direção. Simplificando muito, o
músculo levator ergue o lábio superior e ajuda a criar
expressões de dor e desdém. O músculo zygomaticus
empurra a boca para cima e para baixo em expressões
alegres, no sorriso e na gargalhada. O músculo triangularis
empurra a boca para baixo e para trás, gerando a
expressão de tristeza. O músculo depressor empurra o
lábio inferior para baixo, ajudando a formar a expressão de
aversão ou de ironia. Existem ainda o músculo levator
menti, que ergue o queixo e projeta o lábio inferior para
fora em expressões de desafio, e o buccinator, ou músculo
do trompete, que comprime as bochechas contra os dentes.
Ele é usado não apenas para soprar instrumentos
musicais, mas também ajuda na mastigação dos alimentos.
Quando sente uma dor aguda, pavor ou raiva, o ser
humano usa outro músculo, o platysma da região do
pescoço, que puxa a boca para baixo e para os lados em
função da tensão do pescoço que antecipa um ferimento
físico.
Para complicar ainda mais as coisas, diversas
vocalizações acompanham as expressões da boca. Elas
provocam uma abertura maior ou menor da boca, o que
introduz um novo elemento nas sutis expressões faciais.
Tomemos como exemplo as expressões contrastantes de
raiva e medo. A principal diferença está no movimento dos
cantos da boca. Na raiva, eles são empurrados para a
frente, como se avançassem sobre o inimigo; no medo, eles
se retraem, como se fugissem de um ataque. Mas esses
movimentos opostos dos cantos da boca podem existir com
a boca aberta emitindo um som ou com a boca fechada e
em silêncio. Na raiva silenciosa, os lábios são pressionados
um contra o outro, com os cantos da boca para a frente;
na raiva ruidosa, acompanhada de um berro ou de um
ronco, a boca se abre, expondo os dentes superiores e
inferiores, mas ainda com os cantos da boca para a frente,
gerando uma abertura quase quadrada. No medo
silencioso, os lábios se retraem e se retesam ate formar
uma fissura horizontal, com os cantos da boca puxados o
máximo para trás; no medo ruidoso, acompanhado de um
grito ou de uma arfada, a boca se abre inteiramente,
esticando os lábios para cima e para trás ao mesmo tempo.
Como o medo retrai os lábios, a pessoa que grita expõe
menos os dentes do que a que rosna.
As expressões de felicidade também têm versões
abertas e fechadas. Quando são empurrados para trás e
para cima, os lábios podem se manter em contato, o que
resulta num sorriso silencioso. Mas eles também podem se
separar e produzir o amplo sorriso no qual os dentes
superiores são expostos. Quando se acrescenta o som da
risada, a boca se mantém aberta e os dentes inferiores
também podem se revelar, mas, devido à curva para cima
dos lábios esticados, os dentes inferiores nunca são
inteiramente expostos como os superiores, por maior que
seja a gargalhada. Se uma mulher ri e expõe totalmente os
dentes inferiores, podemos duvidar da sinceridade de sua
expressão vocal.
Outra característica da expressão alegre é a prega de
pele que aparece entre os lábios e a bochechas. Essas
linhas diagonais, causadas pela elevação dos cantos da
boca, são dobras nasolabiais que variam consideravel-
mente de indivíduo para indivíduo. Elas "personalizam" o
sorriso, um importante fator para o fortalecimento dos
laços de amizade.
O sorriso triste ilustra outra sutileza das expressões
femininas, qual seja, a capacidade de combinar elementos
aparentemente incompatíveis para transmitir estados de
espírito complexos. No sorriso triste, todo o rosto se
compõe numa aparência de olhos brilhantes e de bom
humor, a não ser pelos cantos da boca, que se recusam a
se erguer na posição adequada. Em vez disso, caem para
criar o "sorriso heróico" da mulher que está sendo
assediada ou o sorriso irônico da professora que recusa
um pedido. Existem muitas outras expressões mistas, que
oferecem ao rosto feminino um rico repertório de sinais
visuais.
9. Boca
A boca feminina funciona o tempo todo. Outros
animais usam a boca para morder, lamber, sugar,
mastigar, engolir, tossir, bocejar, rosnar, gritar e grunhir,
mas a fêmea humana acrescenta a essa lista outras
funções. Ela usa a boca também para falar, sorrir, rir,
beijar, assobiar e fumar. Por isso, não surpreende que a
boca tenha sido definida como o campo de batalha do
rosto".
Dentro dos lábios, a boca contém um elemento
essencial: a língua. Sem ela, as mulheres não poderiam
falar e perderiam uma de suas grandes qualidades, que é a
capacidade de se comunicar verbalmente melhor do que
qualquer outro animal no mundo, melhor ainda do que o
homem. Pesquisas sobre o cérebro confirmaram algo de
que muitos já suspeitavam: as mulheres são, por natureza,
mais fluentes que os homens. Essa é uma afirmação
evolucionária, e não cultural. Quando diante de uma
tarefa verbal, uma parte maior do cérebro da mulher é em-
pregada em registrar uma solução. As mulheres primitivas
foram as comunicadoras da vida tribal (enquanto os
homens ficavam fora da tribo, abatendo as presas com
pouco mais do que um grunhido a romper o silêncio), e as
mulheres atuais herdaram essa qualidade, o que lhes dá
uma grande vantagem.
O papel da língua na fala às vezes é subestimado. A
laringe recebe o crédito, mas esse erro é rapidamente
corrigido quando se tenta falar com a língua presa no
assoalho bucal. Qualquer pessoa que tenha visitado um
dentista sabe disso.
Naturalmente, a língua também desempenha um
papel primordial na alimentação, estando envolvida nos
atos de experimentar, mastigar e engolir. Sua superfície
rugosa é coberta de papilas que contêm entre 9 e 10 mil
receptores gustativos, que são capazes de distinguir quatro
sabores: doce e salgado na ponta da língua; azedo dos
lados da língua; e amargo na parte posterior da língua.
Costumava-se pensar que todos os sabores são percebidos
na parte superior da língua, mas hoje se sabe que não é
isso que ocorre. Existem receptores dos sabores doce e
salgado em outras partes da boca, em especial na parte
superior da garganta, enquanto os receptores do azedo e
do amargo estão no céu da boca, no ponto onde o palato
duro se junta ao palato mole.
Acredita-se que essas sensações de paladar existem
porque era importante para nossos ancestrais reconhecer
quando uma fruta estava doce e madura, manter um
equilíbrio correto do sal e evitar certos alimentos pe-
rigosos — que apresentariam um sabor excessivamente
amargo ou ácido. Todos os sutis sabores de nossos
alimentos derivam de uma mistura desses quatro sabores
básicos, com a ajuda dos aromas que percebemos com o
olfato.
Além dos sabores, a superfície da língua também
reage à textura dos alimentos, ao calor e à dor. Durante a
mastigação, a língua rola o alimento na boca, em busca de
caroços ou pedaços maiores. Quando julga que todos os
pedaços foram devidamente triturados ou rejeitados, ela
participa da função crucial de engolir. Para fazer isso, a
ponta da língua pressiona o céu da boca e sua parte
posterior se arqueia para catapultar a mistura de alimento
e saliva para dentro da garganta em direção ao estômago.
Não reparamos nesse complexo movimento muscular
porque ele é automático, tão elementar, de fato, que os
bebês são capazes de executá-lo antes mesmo que ele seja
necessário, quando ainda estão no ventre da mãe.
Quando a refeição termina, a língua funciona como
um palito gigante, tentando desalojar partículas
indesejáveis de alimento que possam ter ficado presas
entre os dentes.
Por estar protegida dentro da boca, a língua
raramente foi alvo de alguma "melhoria" cosmética.
Entretanto, no final do século XX, a boca das mulheres
sofreu uma estranha e nova intrusão, na forma dos
piercings. Tentando encontrar novas maneiras de obter a
desaprovação dos adultos, os jovens se submetem à dor de
ter a língua perfurada para a inserção de piercings de
metal. Embora prejudique a clareza da dicção, essa forma
de mutilação tem sido adotada até por cantoras pop.
Além de seu papel como símbolo de revolta social, o
piercing na língua parece oferecer apenas uma vantagem.
De acordo com o parceiro de uma usuária, o beijo na boca
sem piercing é como um filé sem mostarda.
Uma desvantagem ainda não percebida foi descoberta
no verão de 2003, quando uma inglesa de férias em Corfu
foi atingida por um raio atraído pelo piercing de metal na
língua. A corrente percorreu todo o corpo e ela quase
morreu. A língua ficou gravemente ferida, e a jovem ficou
temporariamente cega e incapaz de falar durante três dias.
Mais tarde ela declarou que precisava de férias para
recarregar as baterias, mas o piercing tinha levado isso ao
pé da letra.
Dentro da boca ficam os dentes, que na espécie
humana são utilizados quase exclusivamente para a
alimentação. A mulher pode usá-los uma vez ou outra
para cortar um fio, mas, ao contrário de outras espécies,
praticamente só os utiliza para se alimentar. Dê a um
macaco um objeto estranho e ele quase de imediato o
levará à boca para explorá-lo com os lábios, a língua e os
dentes. Depois ele vai manipulá-lo com seus dedos hábeis,
mas há uma dependência entre o contato digital e o oral,
em que a oralidade desempenha o principal papel. Isso
também ocorre nos bebês humanos, cujos pais precisam
estar sempre atentos para que eles não enfiem objetos
perigosos na boca.
À medida que amadurecemos, porém, a boca vai
perdendo seu "papel exploratório", que é realizado quase
exclusivamente pelas mãos. Essa mudança também ocorre
quando ê preciso lutar. O macaco, quando está furioso,
agarra o adversário e o morde. O homem ataca o inimigo
na cabeça, soca, chuta e o agarra num corpo-a-corpo. Só
morde como um último recurso. O mesmo ocorre na hora
de matar uma presa. Mais uma vez — com a ajuda das
armas —, as mãos assumiram a tarefa da mordida letal
tão comum entre os carnívoros. Com essa passagem da
boca para a mão, os dentes humanos se tornaram
bastante modestos comparados com os das outras
espécies. Nossos caninos não são mais presas de pontas
afiadas. São apenas ligeiramente mais longos que os
outros dentes, com a ponta rombuda a lembrar nossos
ancestrais.
A mulher adulta possui 32 dentes, 28 dos quais já
estão estabelecidos na puberdade, depois de substituir
gradualmente os pequenos dentes de leite da infância. Os
últimos quatro dentes, os dentes do siso, só nascem
quando nos tornamos adultos. Em muitos casos, alguns
deles — ou mesmo todos — não aparecem, de modo que a
boca de um adulto pode ter de 28 a 32 dentes.
Existem leves diferenças entre os dentes do homem e
da mulher, principalmente nos incisivos superiores. Os
dentes masculinos geralmente são mais angulosos e
rombudos. Como as mulheres possuem uma arcada me-
nor que a dos homens, seus dentes tendem a ser
levemente menores.
Além da função de partir e mastigar os alimentos, os
dentes também são capazes de agarrar, apertar, triturar,
roer, ranger, rilhar e bater com o frio. Os dentes se
apertam em momentos de intenso esforço físico ou quando
a pessoa antecipa uma dor. Essa é uma expressão que
podemos ver no rosto de um lutador e na criança que está
prestes a receber uma injeção. É uma reação primitiva a
uma possível dor física. Se um soco atingir o rosto de uma
pessoa que está de boca aberta, com certeza causará mais
dano, fazendo os dentes se chocarem, com o risco de
quebrá-los ou deslocar a arcada inferior.
Ranger, ringir e rilhar os dentes é praticamente a
mesma coisa, o que nos leva a pensar por que a língua
precisa de três palavras para definir uma ação que é tão
raramente usada na vida real. Entretanto, muitos
indivíduos rangem os dentes quando dormem, o que indica
uma raiva reprimida. Mais uma vez, trata-se de uma
reação primitiva que ressurge como uma espécie de "sonho
muscular", no qual o indivíduo frustrado morde simbo-
licamente o inimigo na segurança do sono.
Embora o esmalte dos dentes seja a substância mais
dura de todo o corpo humano, a queda de dentes é muito
comum no mundo atual. As causas parecem bastante
óbvias. Uma bactéria que sobrevive na boca, o
Lactobacillus acidophilus, adora carboidratos, e, se
partículas de alimentos açucarados ou farináceos ficam
presas aos dentes ou às gengivas, rapidamente fermentam
em ácido lático. A bactéria adora esse ácido ainda mais e
começa a se reproduzir, acelerando muito o processo, até
que a saliva se torne anormalmente ácida. A acidez corrói
a superfície do dente, fazendo pequenos furos no esmalte.
Todo esse processo foi confirmado de várias maneiras. As
crianças que cresceram no tempo da guerra na Europa,
quando quase não havia açúcar refinado ou farinha,
apresentaram menos cáries. Animais alimentados com
uma dieta rica em açúcar não perdiam dentes quando o
alimento era ingerido por um tubo, sem contato com os
dentes. Além disso, chimpanzés que vivem soltos na
floresta têm excelentes dentes, ao passo que aqueles que
recolhem alimentos perto de povoados humanos
apresentam dentes estragados.
No entanto, existem alguns fatos estranhos sobre a
resistência dos dentes. Alguns indivíduos parecem ser
quase imunes à queda mesmo quando tem uma dieta
excessivamente doce, enquanto outros perdem dentes ape-
sar de todo o cuidado tanto com a alimentação quanto
com a higiene. A lógica indica que os dentes incisivos
centrais inferiores estariam mais sujeitos a reter alimentos
e, portanto, a sofrer um ataque maior de ácido lático.
Surpreendentemente, são eles os mais resistentes à queda.
No mundo ocidental, quase 90% das pessoas possuem
incisivos centrais inferiores sadios. Por outro lado, mais de
60% perderam os molares superiores. Apesar dos grandes
avanços da odontologia, os dentes continuam guardando
alguns mistérios.
O olhar ocidental sempre considerou uma dentadura
branca e saudável uma marca de beleza, mas muitas
culturas têm outra visão. Alguns povos costumavam
remover os incisivos centrais para enfatizar os caninos, o
que tornava a boca mais ameaçadora e feroz — quase um
rosto de Drácula. Essa técnica foi utilizada em regiões da
África, da Ásia e da América do Norte. Outro método para
fazer os dentes parecerem selvagens é dar-lhes pontas
afiadas. Isso também ocorreu em muitas partes, da África
ao Sudeste Asiático e às Américas. Pedras preciosas ou
metais eram entalhados no dente como demonstração de
status. Muitas dessas operações e mutilações eram
executadas em épocas especiais da vida na tribo,
especialmente na puberdade e no casamento, o que
implica que a boca era usada simbolicamente como
"genitais deslocados".
Em algumas regiões, o impacto dos dentes foi
reduzido em vez de exagerado. Em Bali, por exemplo, os
jovens eram submetidos a um doloroso lixamento para
arredondar a ponta dos caninos e fazer a boca parecer me-
nos animal. Em outras culturas orientais, as mulheres
enegreciam os dentes ou os tingiam de vermelho-escuro,
fazendo-os desaparecer da vista e criando uma expressão
infantil, como se de repente tivessem regressado ã fase
desdentada da infância. Dessa forma, conseguiam parecer
mais submissas a seus machos.
Como no Ocidente ter dentes cada vez mais brancos e
brilhantes é um fator essencial de beleza (uma beleza que
hoje pode ser favorecida por modernas técnicas de
branqueamento), é difícil para um ocidental aceitar que
dentes pretos sejam atraentes. Afinal, se o branco é a cor
dos dentes jovens e saudáveis, como o escurecimento pode
ser considerado uma marca de beleza?
A resposta, na época de Elizabeth I da Inglaterra,
estava no preço do açúcar. Só os muito ricos podiam se
dar o luxo de comer doces, fazendo com que os dentes
ficassem cariados e descoloridos. Portanto, se a pessoa era
pobre demais para estragar os dentes dessa maneira,
tinha que fingir o contrário. Daí surgiu a idéia bizarra de
que escurecer os dentes proporcionava uma aparência de
alta classe e fazia a mulher mais bela perante a sociedade.
Afinal, a própria rainha tinha dentes escuros de tanto
comer confeitos açucarados.
Dentes pretos também foram moda no antigo Japão.
Eles eram tingidos dessa cor como parte de uma elaborada
maquiagem usada pelas mulheres de alta casta. Dizia-se
que dentes pretos (chamados ohaguro) tornavam uma
dama especialmente bela. A tinta era obtida pela diluição
de limalha de ferro em saquê ou chá. Essa moda atingiu o
auge no século XVII e entrou pelo século XIX, até que, em
1873, a imperatriz passou a exibir dentes brancos. Desde
então, a moda de dentes pretos entrou em rápido declínio.
Em outras partes do Oriente, mascar bétele também
causava o escurecimento dos dentes. Folhas de bétele,
nozes de palmeiras e uma pasta obtida a partir das
conchas do mar eram misturadas até constituir uma mas-
sa que era mascada como o tabaco. Pedaços de nozes eram
cobertos com a pasta e depois embrulhados nas folhas de
bétele. Mascado repetidamente, esse pacote funcionava
como um estimulante que também avermelhava os lábios e
escurecia os dentes. Seu uso se disseminou tanto no
Sudeste Asiático que as mulheres nativas diziam: "Só os
cães, os fantasmas e os europeus têm dentes brancos".
Sua popularidade começou a declinar no século XIX,
primeiro nas cidades e depois nas áreas rurais. Como o
bétele geralmente só deixava os dentes marrons, em
alguns países — o Vietnã, por exemplo — as mulheres que
queriam ter dentes pretos para ficar ainda mais belas
precisavam se submeter a alguns procedimentos. Pintar os
dentes com verniz preto era a solução, mas não tão
simples, porque a saliva removia o verniz. Por causa disso,
a aplicação do verniz tinha que obedecei a um ritual que
envolvia vários tratamentos e restrições, entre elas a de
não comer nenhum alimento sólido por uma semana e
tomar líquidos apenas por um canudinho. Para as
adolescentes, havia um ritual de puberdade, depois do
qual a jovem era considerada suficientemente bela para se
casar. Se alguém lhes perguntasse qual a razão disso, elas
respondiam que dentes brancos só serviam para selvagens
e animais.
No fim do século XX, as mulheres modernas do
Ocidente mostraram os primeiros sinais de interferência
na superfície branca dos dentes. Não havia nenhum dente
preto à vista, mas a nova moda pedia "jóias dentais".
As pioneiras dessa moda chegaram a ponto de fazer
pequenos furos nos dentes para incrustar neles
minúsculos diamantes. O sorriso brilhante se transformou
num sorriso ofuscante. Mas esse procedimento era
drástico demais para a maioria das mulheres, e a moda
não pegou. Então, algumas celebridades, entre elas uma
das Spice Girls, ousaram exibir um dente de ouro. Logo foi
possível ter uma capa dental provisória de ouro. Depois, a
moda de incrustar pequenas jóias nas unhas passou para
a boca, e as jóias nos dentes de repente se tornaram
populares. Seu sucesso se deve ao fato de que a colocação,
feita com cola dental, leva apenas três minutos, e a pedra
pode ser facilmente removida. Minúsculos cristais na
forma de corações, flores, círculos ou estrelas, de 2 a 4
mm de tamanho, são exibidos por um dia ou por um ano.
Algumas jóias são ostentosas, outras são discretas,
dependendo do dente em que foram aplicadas. Embora
sejam decorativas, o fato de terem maculado o sorriso
branco provavelmente faz delas não mais que uma moda
passageira.
Os dois principais elementos da boca — os dentes e a
língua são mantidos úmidos pelas secreções de três pares
de glândulas salivares. As duas que estão embutidas nas
bochechas são conhecidas como glândulas parótidas e
produzem cerca de 25% da saliva; as duas situadas sob a
mandíbula, abaixo dos dentes molares — as glândulas
submandibulares —, são as mais produtivas, responsáveis
por cerca de 70% da saliva; e as duas situadas sob a
língua — as glândulas sublinguais — contribuem com os
restantes 5%. A produção diária de saliva varia entre 600 e
1.500 ml. Mais alimento significa mais saliva, e medo e
uma forte excitação significam menos saliva.
Quando sai dos condutos das glândulas salivares, a
saliva está livre de bactérias, mas depois de circular pela
boca algumas vezes ela terá coletado entre 10 milhões e 1
bilhão de bactérias por centímetro cúbico. Ela as adquire
dos minúsculos fragmentos de "caspa úmida" que estão
sempre presentes na boca à medida que velhas camadas
de pele se desprendem e são substituídas por novos
tecidos.
A saliva tem várias funções. Ela umedece o alimento e
torna-o acessível aos receptores gustativos, uma vez que
não se pode sentir o sabor do alimento seco. Ela também
lubrifica o bolo alimentar antes que ele seja engolido, e
dessa forma facilita sua passagem pelo esôfago. Seu poder
lubrificante é aumentado pela presença de uma proteína
chamada mucina. Depois que o alimento é mastigado por
algum tempo, uma enzima da saliva chamada ptialina
começa a quebrar o amido em maltose. A ptialina também
funciona como um antigermicida oral, assim como outras
lisozimas que ajudam a limpar a boca e os dentes. A saliva
também contém elementos químicos que criam um meio
levemente alcalino, ajudando a reduzir o ataque ácido ao
esmalte dos dentes. Finalmente, a ação lubrificante da
saliva melhora a qualidade da voz, como sabe qualquer
pessoa que tenha tentado falar com a boca seca.

10. Pescoço
No Ocidente, os homens costumam olhar o pescoço
da mulher simplesmente como algo que segura a cabeça.
Eles sabem que a pele do pescoço é sensível a carícias e
que beijá-lo suavemente pode excitar a parceira durante as
preliminares do sexo, mas, além disso, quase não lhe dão
atenção. Com certeza o pescoço não é considerado uma
zona erógena importante.
A situação é muito diferente no Japão, onde a
exposição da parte posterior do pescoço é* vista como um
forte estímulo sexual — equivalente a expor os seios no
Ocidente. É uma ação que se espera de uma gueixa, mas
que é rejeitada pelas esposas respeitáveis.
Tradicionalmente, toda gueixa era treinada na arte de
expor elegantemente a nuca, e ainda hoje podemos
constatar isso entre as poucas gueixas remanescentes de
Quioto. Suas roupas têm uma gola alta na frente e baixa
atrás, expondo a nuca e as costas. Como afirmou um
comentarista, homens de todo o mundo parecem apreciar
a linha ondeada da nuca feminina, mas no Japão ela
mergulha nas costas.
Quando aplica sua maquiagem branca (que inclui um
ingrediente vital: excrementos de rouxinol), a gueixa deixa
uma margem de pele aparecendo junto à linha dos cabelos.
Isso enfatiza a artificialidade da maquiagem e excita o
homem, porque chama a atenção para a pele sob a másca-
ra branca. Segundo um observador, o significado erótico
desse costume é aumentado pela forma especial da nuca,
"um V perfeito de pele nua que lembra as partes íntimas
da mulher".
Existe uma frase em japonês para descrever a beleza
da linha da nuca feminina — komata no kmagatta hito —,
mas seu significado mudou. Como a maquiagem é
deliberadamente aplicada de modo a imitar a forma dos
genitais, a frase hoje significa "uma gueixa com adoráveis
genitais".
Uma curiosa teoria tenta explicar o desvio da atenção
erótica dos japoneses dos seios para a nuca. Afirma que,
tradicionalmente, as crianças japonesas passam mais
tempo agarradas às costas da mãe do que acarinhadas em
seus seios. Essa, além do fato de que os seios das
mulheres japonesas são relativamente pequenos, seria a
razão para a fixação masculina na nuca.

Anatomicamente, o pescoço tem sido descrito como a


parte mais sutil do corpo humano. Além de conter
conexões vitais entre boca e estômago, nariz e pulmões,
cérebro e coluna, o pescoço abriga os principais vasos
sangüíneos que ligam coração e cérebro. Cercando essas
conexões existem complexos grupos de músculos que
permitem que a cabeça execute toda uma gama de
movimentos que transmitem importantes mensagens nas
interações sociais.
Tradicionalmente, a figura feminina é dotada de uma
gracioso "pescoço de cisne", enquanto a figura masculina
exibe um "pescoço de touro". Essas diferenças são
bastante reais. O pescoço feminino é mais longo e mais
delgado, enquanto o masculino é mais curto e mais grosso.
Isso ocorre em parte porque a mulher tem um tórax mais
curto — e seu osso esterno é mais baixo em relação à
coluna que o do homem — e em parte porque a
musculatura do homem é mais forte. Não há dúvida de
que essa diferença se estabeleceu durante a longa fase
caçadora da evolução humana, quando os machos, que
possuíam um pescoço mais forte, levavam vantagem em
situações de violência física.
Outra diferença de gênero em relação ao pescoço é a
presença do pomo-de-adão, que é muito mais evidente nos
homens que seu correspondente no pescoço das Evas. Isso
ocorre porque as mulheres têm cordas vocais menores — o
que lhes dá uma voz mais aguda e exige uma caixa vocal
menor. As cordas vocais femininas têm cerca de 13 mm,
enquanto as masculinas chegam a 18 mm. A laringe da
mulher é cerca de 30% menor que a do homem, e fica
colocada mais alto na garganta, o que a faz menos proemi-
nente. Essa diferença laríngea não surge até a puberdade,
quando a voz masculina "'engrossa". A voz da mulher
adulta é mais infantil, mantendo uma freqüência entre
230 e 255 ciclos por segundo, enquanto a voz masculina
adulta atinge entre 130 e 145 ciclos por segundo.
Por alguma razão, as prostitutas experientes têm uma
laringe maior e um registro vocal mais grave que outras
mulheres. Por que sua profissão as tornaria mais
masculinas vocalmente? Não se sabe ao certo, mas há
quem tenha levantado a hipótese de que sua vida sexual
mais ativa seria capaz de provocar algum desequilíbrio
hormonal.
Como o pescoço feminino é mais delgado que o dos
homens, os artistas têm exagerado essa diferença criando
imagens superfemininas. Desenhistas que retratam
mulheres atraentes quase sempre estreitam e alongam o
pescoço mais do que a anatomia permitiria. As agências de
modelos também selecionam moças que tenham o pescoço
mais longo e mais fino que a média.
Em uma cultura esse interesse por mulheres de
longos pescoços foi levado a extremos. A tribo padaung, da
Birmânia, se orgulha de ser conhecida na Europa por suas
"mulheres-girafas". Na língua nativa, a palavra padaung
significa "aquela que usa aros de bronze". O costume da
tribo exige que as mulheres comecem a usar anéis de
bronze no pescoço desde tenra idade. Para começar, cinco
anéis são colocados ao redor do pescoço, um número que
vai crescendo ano a ano. A mulher adulta chega a exibir
entre vinte e trinta colares, mas o objetivo é atingir 32 —
um feito raramente realizado. Os aros de bronze também
são usados nos braços e pernas, de modo que uma mulher
adulta pode carregar de 20 a 30 quilos de bronze. Apesar
dessa carga, as mulheres da tribo caminham por longas
distâncias e trabalham no campo.
O aspecto mais surpreendente desse costume é o
comprimento que o pescoço feminino pode atingir
artificialmente. O recorde documentado é de 40 cm. Os
músculos do pescoço são distendidos com tal força que as
vértebras cervicais se afastam de uma maneira totalmente
anormal. A crença é que, se os pesados aros de bronze
forem removidos, o pescoço não será capaz de suportar o
peso da cabeça. Os europeus, fascinados por essa
distorção cultural do corpo humano, exibiam essas
mulheres-girafas em espetáculos de circo — até que
exibições desse tipo deixaram de ser consideradas
socialmente aceitáveis.
Para as mulheres da tribo padaung, a principal
preocupação não é, como se poderia imaginar, a distorção
corporal ou a restrição de movimentos provocada por esse
bizarro ornamento, mas a dificuldade de encontrar
dinheiro para pagar os caros anéis de bronze. Uma solução
encontrada recentemente foi escapar para a Tailândia,
onde elas podem cobrar 10 dólares para tirar uma foto ao
lado de um turista. Para alguns observadores, isso
representa um deplorável retorno aos espetáculos
circenses de antigamente, mas também se pode
argumentar que, dado o alto custo dos anéis, isso pelo
menos mantém vivo um antigo costume tribal.
Se perguntarmos aos historiadores da tribo como esse
costume começou, eles nos dirão que, em tempos remotos,
as mulheres corriam o risco de serem atacadas por tigres,
o que as obrigava a usar grossos anéis no pescoço para se
proteger. Atualmente, as mulheres da tribo ignoram essa
lenda e afirmam que chegam a esses extremos
simplesmente parque esses ornamentos as deixam mais
belas. Quem somos nós, ocidentais, com nossos piercings
na língua, no umbigo e nos genitais, para criticá-las?

Em círculos ocultistas, o pescoço sempre foi uma


parte do corpo de grande importância. Não é por acaso que,
na mitologia vampiresca, a mordida se dá sempre na
lateral do pescoço. Em alguns cultos, como o dos vodus do
Haiti, acreditava-se que a alma humana reside na nuca, e
foi o significado místico do pescoço que gerou o uso de
colares nos primeiros tempos. Eles eram mais que meros
ornamentos, tendo a especial função de proteger essa
parte vital do corpo humano de influências hostis, como o
mau-olhado.
O mais antigo colar conhecido não foi usado por
nenhuma mulher moderna, mas por uma neandertalense.
De fato, o colar é uma forma muito antiga de ornamento
corporal. Dois colares pré-históricos foram encontrados na
França: o de La Quina, feito de dentes e ossos de animais,
foi datado de 38.000 a.C, e o da Grotte du Renne, feito de
dentes entalhados de animais, foi datado de 31.000 a.C.
No oeste da Austrália, no sítio arqueológico de Mandu
Mandu, foi encontrado outro extraordinário colar primitivo
de 30.000 a.C. Finalmente, em Patnia, na região de
Maharashtra, na Índia, foi descoberto um colar datado de
23.000 a.C., feito de contas circulares, manufaturadas
com conchas de ostras. Esse poucos exemplos mostram
claramente que usar um colar não era um traço cultural
isolado, mas um costume que já estava bem disseminado há
trinta milênios.
Alguns dos primeiros colares eram feitos de objetos
simples, como espinhas de peixe, mas um exemplar
excepcional encontrado na França e fabricado há mais 11
mil anos, na Idade da Pedra Lascada, era feito de dezenove
fragmentos de ossos lindamente entalhados, dezoito deles
na forma de uma cabeça de cabra e um na forma de uma
cabeça de bisão. Isso prova o cuidado que mereciam os.
artefatos usados no pescoço.
O pescoço também se tornou foco de certos rituais de
ocultismo. Descobriu-se que, pressionando a artéria
carótida, que passa pelo lado do pescoço e transporta o
sangue para o cérebro, a pessoa ficava tonta e confusa —
uma presa fácil à sugestão. O que acontecia, na verdade,
era que o cérebro estava sendo privado de oxigênio, mas,
para os iniciados nos rituais religiosos, essa condição
podia ser convenientemente atribuída a forças so-
brenaturais.
Uma forma muito mais saudável de manipulação do
pescoço foi desenvolvida por Matthias Alexander, que criou
uma terapia corporal hoje conhecida como "técnica de
Alexander". Baseia-se na idéia de que, modificando a
postura do pescoço em relação aos ombros, é possível
curar não apenas certos sintomas físicos, mas também
vários distúrbios psicológicos. Alguns críticos argumentam
que esse conceito dá ao pescoço um poder quase místico
sobre o resto do corpo, mas existe uma explicação simples
para os resultados que a técnica obtém. Como no mundo
urbano as pessoas passam muito tempo curvadas sobre
uma mesa ou sentadas numa cadeira, o pescoço vai
perdendo sua posição natural ereta. Se, com a técnica de
Alexander, essa postura for restabelecida, o resto do corpo
recupera automaticamente o equilíbrio. Está então
estabelecida a base pata a restauração de um tônus
muscular sadio, que por sua vez pode produzir um estado
mental mais saudável. Na realidade, não é nada mais
místico do que o treinamento postural que um bailarino
recebe. Em ambos os casos, o pescoço parece ser a chave
para a correta postura corporal.
Quanto aos gestos, são relativamente poucos os que
se concentram no pescoço. O mais conhecido é a mímica
em que a pessoa usa a mão como uma faca prestes a
cortar a garganta. Esse gesto tem dois significados in-
timamente relacionados. Se praticado com raiva, indica o
que a pessoa gostaria de fazer com o outro. Se apresentado
tomo um pedido de desculpas, mostra o que a pessoa
deveria fazer a si mesma. Num outro contexto, executado
por uma atriz quando percebe que a cena não está boa,
significa simplesmente: "Corta!"
Igualmente comum é o gesto que finge um
estrangulamento, em que a pessoa agarra o próprio
pescoço com as duas mãos e finge sufocar. Como o gesto
anterior, esse também tem dois significados: pode
significar "Quero esganar você" ou "Quero me esganar".
Outro gesto popular é o que significa "Estou por aqui".
Com a palma da mão virada para baixo, a pessoa bate o
indicador várias vezes contra a garganta, tentando dizer que
está tão cheia de alguma coisa que não a suporta mais.
Mais importantes do que esses gestos localizados são
os muitos movimentos do pescoço que determinam
diferentes posições da cabeça. Alguns deles buscam
adaptar o corpo ao ambiente. É o que acontece quando a
pessoa vira a cabeça para olhar alguma coisa, apruma-a
para ouvir um som ou empina-a para cheirar o ar. Mas
outros têm a função de transmitir sinais visuais; é o que
acontece quando a pessoa faz um sinal positivo ou negati-
vo com a cabeça, sacode-a, inclina-a, arremessa-a para
trás ou aponta alguma coisa com ela. Nesses e em muitos
outros movimentos do pescoço, não há diferenças entre
homens e mulheres, mas existem três casos em que uma
mensagem especificamente feminina é transmitida.
O primeiro é o aceno da cabeça, com o qual a mulher
diz "Venha comigo" ou "Venha aqui", substituindo o
chamamento com o dedo indicador. Ele ocorre geralmente
quando a mulher deseja fazer um sinal sem ser muito
explícita. É o movimento de cabeça usado
tradicionalmente pelas prostitutas a um possível cliente
que hesita em se aproximar. Hoje, é usado às vezes entre
um casal como um convite brincalhão ao sexo, no qual a
mulher provoca o parceiro "bancando a prostituta".
Outro gesto é aquele em que a mulher abaixa a
cabeça e a mantém nessa posição. É uma maneira de
alhear-se ao mundo exterior, mas, como provoca uma
diminuição da altura, tem um quê de subordinação.
Quando a mulher baixa repentinamente a cabeça para
esconder o rosto, passa a imagem de modéstia e timidez.,
mas quando baixa a cabeça e ergue o olhar, passa a
impressão de falso pudor.
Um terceiro movimento, que costuma ser observado
quando a mulher está num estado de espírito amigável ou
amoroso, é aquele em que ela pende a cabeça para um
lado e a mantém nessa posição, enquanto encara o
companheiro a curta distância. É um movimento que tem
origem na infância, quando ela apoiava a cabeça no corpo
da mãe ou do pai em busca de conforto e proteção.
Quando ela faz isso na vida adulta, é como se estivesse
apoiando a cabeça no ombro de um protetor imaginário.
Mas a postura corporal madura e sensual contradiz esse
gesto infantil, dando a ele uma conotação de falsa timidez.
Se o movimento surge num clima de flerte, tem um ar de
falsa inocência e coquetismo. A mensagem é: " Sou apenas
uma menina em suas mãos e gostaria de descansar a
cabeça em seu ombro". Num contexto de submissão, pode
ser lido como: "Perto de você, me sinto uma criança, tão
dependente como eu era quando descansava a cabeça no
colo de meu pai". Entretanto, não é um gesto explícito,
mas apenas sugestivo.
Existem muitos outros movimentos e posturas
produzidos pelos músculos do pescoço como sinais sociais
específicos, mas os poucos mencionados aqui são
suficientes para ilustrar sua sutileza e complexidade.
Qualquer um que tenha sido obrigado a usar um colarinho
de gesso depois de um ferimento sabe como a pessoa se
sente limitada quando não pode se expressar com essa
parte do corpo.
11. Ombros
Os ombros femininos são mais estreitos, mais
arredondados e mais macios que os masculinos. Podem
não ser tão fortes quanto os largos ombros dos homens,
mas sua forma suavemente arredondada — resultante de
uma camada subcutânea de gordura — lhes dá uma
qualidade erótica sempre que aparecem despidos. E a
moda das roupas de ombros descobertos contém a
promessa de, a qualquer momento, deslizarem pelos
ombros e revelar os seios.
Os cantos arredondados dos ombros femininos —
poeticamente descritos como "duas pérolas eróticas, uma
de cada lado" — são dois pedaços de carne quase
hemisféricos, e por isso evocam o apelo sexual primitivo
contido na forma das nádegas. Esses pares de hemisférios,
que exercem uma forte atração sobre os homens, se
repetem não apenas nos seios, mas também nos joelhos e
ombros quando a mulher adota determinadas posturas.
Quando a mulher dobra as pernas e abraça-as firmemente
junto ao peito, os joelhos, se expostos, formam um par de
suaves hemisférios aos olhos masculinos. Da mesma
forma, quando ombros nus são arqueados, também
evocam o par esférico, atraindo ainda mais o olhar dos
homens. Além disso, uma típica pose glamorosa, na qual a
mulher apóia o queixo num ombro nu, enfatiza e chama a
atenção para a curva e a maciez dos ombros. Dessa forma,
os ombros, embora não exerçam uma função sexual
primária, podem transmitir leves sinais eróticos.
Antes de examinar como diversas culturas
modificaram a linha natural dos ombros femininos, vale a
pena fazer uma breve descrição da biologia dessa parte da
anatomia humana.
A principal função dos ombros é oferecer uma forre
base para os múltiplos movimentos dos braços. Antes
mesmo que nossos ancestrais adotassem a postura ereta,
nossas "patas dianteiras" já tinham se tornado muito
versáteis. Os ossos do ombro são capazes de movimentos
de cerca de 40 graus, e, com a ajuda de seus músculos
complexos, ajudam os braços a balançar, se erguer, se
torcer e girar de um surpreendente número de maneiras.
O ombro da mulher corresponde em média a 7/8 do
masculino. Mais importante é sua espessura. Nesse
sentido, a diferença é maior, o que reflete a fraqueza
relativa da musculatura dos ombros femininos.
É claro que essa diferença de gênero gerou muitas
especulações culturais. Se os ombros femininos são
estreitos, estreitá-los ainda mais deveria aumentar a
feminilidade. Entretanto, embora esse exagero seja
possível em outras partes da anatomia feminina, é difícil
aplicá-lo à região do ombro, e isso raramente foi tentado.
Uma exceção aparece na obra antropológica de Jonn
Bulwer, escrita no século XVII e intitulada A View of the
People of the Whole World (Uma visão dos povos de todo o
mundo), na qual ele mostra uma jovem com ombros
anormalmente pequenos. "Ombros estreitos e contraídos
eram tão apreciados pelas mulheres de antigamente que
elas interferiam na posição deles e os adotavam
diligentemente como um sinal de grande elegância e beleza.
[...] Uma bela mulher esbelta era aquela [com] ombros
atrofiados."
Por outro lado, mulheres que queriam se afirmar
adotaram ombros artificialmente largos, o que aconteceu
em vários momentos de nosso passado recente. O artifício
era visível nas roupas da mulher emancipada da década
de 1890, que mostrava seu anseio de igualdade sexual e
seu desejo de "ombrear" com os homens. Os historiadores
da moda registraram essa mudança: "Os ombros
ligeiramente estofados evoluíram para as ombreiras e daí
para enchimentos que pareciam pequenos sacos, até que,
por volta de 1895, se transformaram em grandes balões
tremulando acima dos ombros". Essas mulheres de
ombros largos competiam com os homens graduando-se
em universidades, trabalhando fora de casa e praticando
esportes até então vedados a elas. Sob esse vestuário
masculinizado, porém, elas continuavam usando
espartilhos e anáguas.. Eram masculinas em público e
femininas na vida privada.
A segunda onda de ombros largos surgiu na década
de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, quando
modelos de estilo militar eram adotados mesmo por civis.
Eles exibiam uma linha que se estendia além dos ombros.
Era um modelo adequado para um tempo de guerra, na
qual as mulheres desempenhavam um importante papel.
A terceira onda chegou nos anos 1970, com o
movimento de liberação feminina, inicialmente, assumiu
um estilo "terrorista chique". Eram pseudo uniformes com
ombreiras, nos quais, mais uma vez, os ombros quadrados
davam à mulher um ar de força masculina. Também foi
possível detectar uma mudança nos modelos de glamour.
A estrelas do cinema não mostravam mais afetação ou
meneios, mas passos firmes. Garotas de ombros largos
passaram a ter oportunidades que lhes teriam sido
negadas dos anos 1960 para trás. Como resultado dessa
tendência, o fisiculturismo surgiu e ganhou adeptas.
Algumas décadas antes, uma mulher musculosa seria vis-
ta como um mico de circo, mas no clima feminista ela se
tornou símbolo da nova força das mulheres, que tinham
ombros fortes para prová-la.
Foi na década de 1980 que o uniforme feminista deu
lugar ao terninho preto. Escritores do período descrevem
esses ternos com "ombros à Joan Crawford", uma volta às
rígidas ombreiras dos anos 1940. Mas esses enchimentos
ficaram ainda mais exagerados à medida que uma nova
geração de executivas começou a ganhar assento nas salas
de diretoria. Os ombros da década tiveram tal impacto que
os jornalistas competiam na criação de novas frases. "A
ombromania está tornando difícil achar espaço num ele-
vador", disse um deles.
"As fábricas de ombreiras do Bronx estão abrindo
novas linhas de montagem depois de anos de inatividade";
"As mulheres estão tão agressivas que voltaram aos
ombros definidos do tempo de guerra"; "Modelos de
ombros naturalmente largos são as preferidas"; "Mulheres
de ombros largos são duronas que exigem seu espaço"; "As
mulheres nunca mais vão poder voltar para casa, porque
os ombros não passam pela porta" — eram comentários
ouvidos em meados dos anos 1980.
Quando se iniciou a nova década, os ombros
femininos se suavizaram novamente. O movimento
feminista (pelo menos no Ocidente) tinha caminhado
bastante para que a mulher pudesse desfrutar sua
condição de fêmea, em vez de bancar o macho. A forma do
ombro agora dependia do corte de um determinado modelo,
e não mais de um ditame social.
Curiosamente, embora nos anos 1990 as mulheres
fossem livres para vestir o que quisessem, o conceito dos
ombros largos sobreviveu como um rótulo verbal, embora
não fosse mais uma realidade. Ainda em 1994 um artigo
sobre o crescente domínio das mulheres executivas no
mundo da publicidade intitulava-se "Por que as ombreiras
estão de volta ao poder?". "Nessa época, as ombreiras
estavam fora de moda, mas o conceito sobrevivia como
uma metáfora do triunfo das mulheres num mundo
masculino.
Um aspecto dos ombros masculinos que as mulheres
têm dificuldade de imitar é sua altura em relação ao chão.
O ombro do homem é em média 13 cm mais alto que o
feminino. Por isso, os homens sempre foram capazes de
oferecer um ombro amigo a uma mulher que quisesse
chorar suas mágoas. Com as lágrimas e a vulnerabilidade
fora de moda, a mulher moderna ainda enfrenta o poder
dos ombros masculinos. Como esses ombros foram
evolutivamente conquistados com a atividade da caça,
parece-lhes injusto que o homem sedentário de hoje ainda
exiba essa superioridade física. Infelizmente, a evolução
atua num ritmo muito lento. Mais l milhão de anos será
necessário para corrigir as coisas, e enquanto isso os
ombros dos homens continuarão oferecendo um
travesseiro para as mulheres. A única esperança de
igualdade está no uso de saltos altos. O problema é que
saltos muito altos criam instabilidade e a necessidade de
uma mão masculina como apoio, o que anula a pretensão.
Por enquanto, pelo menos fisicamente, as mulheres serão
obrigadas a olhar para cima para falar com um homem,
embora mentalmente tenham adotado uma postura
bastante diferente.
A mobilidade dos ombros é extraordinária. Mesmo
quando não estão envolvidos no movimento dos braços,
são capazes de subir, descer, girar e encolher. Alguns
desses movimentos são eloqüentes na linguagem corporal,
mas para entende-los é preciso examinar as razões pelas
quais a mulher primitiva adotava uma ou outra postura.
De forma geral, os ombros ficam abaixados e para
trás quando o estado de espírito é de calma e atenção, e
levados para o alto e pura a frente em momentos de
ansiedade, alarme ou hostilidade. A mulher resoluta e con-
trolada mantém os ombros baixos e retos. Mulheres que se
sentem dominadas, com medo ou com raiva tendem a
subir os ombros num ato de defesa. Se alguém ameaça
atacar uma mulher na cabeça, ela automaticamente tenta
proteger-se enfiando a cabeça nos ombros, uma postura
que se tornou sinônimo de qualquer situação desagradável.
Daí decorre que, quando a mulher tem um dia
estressante, cheio de decepções ou irritações, costuma
manter os ombros erguidos e tensos. Essa postura pode
ser útil se ela for atacada com um bastão, mas não terá
qualquer utilidade se ela estiver sendo agredida com
palavras. No final de um desses dias, ela terá os ombros
ligeiramente mais curvos do que pela manhã, quando
começou o dia. Se essa situação se repete dia após dia,
semana após semana, ela poderá adquirir uma postura
curvada, com os ombros permanentemente erguidos e
contraídos. O pescoço alongado que ela possuía quando
criança lentamente se encolhe e afunda nos ombros até
desaparecer. Na velhice, o queixo chegará a tocar o peito.
Mulheres de sucesso (o que significa ter sucesso não
só para o mundo exterior, mas para elas mesmas) não
passam por esse gradual declínio e são capazes de exibir
uma postura ereta aos 90 anos. Cheias de confiança e oti-
mismo, tiveram poucos golpes na vida capazes de fazê-las
adquirir uma corcunda. Para outras — e são a maioria —,
as ansiedades da vida foram tantas que elas não
conseguiram evitar a permanente tensão dos ombros.
Dois principais movimentos dos ombros tem origem
nessa postura defensiva. Um deles é o movimento com que
sacudimos os ombros quando rimos. Se estamos no
domínio de nossas emoções e algo nos faz rir, deixamos
escapar uma risada sem acrescentar a ela qualquer
movimento corporal. Esse é um gesto que guardamos para
as ocasiões sociais, quando, além de nos divertirmos,
queremos mostrar nossa alegria aos que nos cercam.
Como ocorre uma leve elevação dos ombros quando rimos,
podemos exibir melhor nosso bom humor exagerando esse
gesto, fazendo os ombros subirem e descerem rapidamente
no ritmo da risada.
A razão pela qual as pessoas "se sacodem" quando
riem é que a base do humor é o medo. O humor nos choca
de uma maneira segura, e revelamos nossa surpresa e
nosso simultâneo alívio com uma risada. A elevação dos
ombros que acompanha a risada é parte do primitivo
elemento de medo. Na verdade, essa sacudida dos ombros
está denunciando a presença do medo. Mas nada grave. Se
fosse grave, os ombros permaneceriam erguidos.
A contração dos ombros tem uma origem semelhante.
Nesse gesto, os ombros se erguem e se curvam para a
frente por um momento antes de voltar à posição anterior.
As palmas das mãos viram para cima, como se
implorassem, e os cantos da boca descem.
Às vezes, os olhos se voltam para cima, evitando o
olhar do interlocutor. Essa combinação de movimentos
indica uma perda momentânea de poder, uma impotência
simbólica, a aceitação de uma incapacidade.
Na maioria das vezes, encolher os ombros significa
ignorância ("Não sei"), Indiferença ("Pouco me importa"),
impotência ou resignação ("Não posso fazer nada"). São
todos sinais negativos, uma admissão de incapacidade, e
com ela uma perda momentânea de poder. No momento
em que o poder diminui, os ombros se elevam. Essa
adoção formal de uma postura tensa não significa que a
pessoa esteja seriamente estressada ou se sinta inferior ou
ameaçada pelo interlocutor. Significa apenas que ela não
sabe lidar com aquela questão específica.
O uso desse gesto varia de uma cultura para outra.
Em alguns países mediterrâneos, esse movimento de
ombros é muito comum. A menção passageira a uma
restrição governamental, à imposição de um imposto ou a
um congestionamento do trânsito basta para provocar a
imediata elevação dos ombros, prolongada e silenciosa — o
que expressa a total impotência da pessoa diante de uma
loucura inconcebível. Seu gesto está dizendo: "Esses
golpes não param de cair sobre meus pobres ombros, e eu
os ergo dessa maneira para me proteger. Mas de que
adianta?". Nos países setentrionais, dar de ombros, assim
como outras reações gestuais, é considerado um gesto
indelicado e bastante raro. Mas, quando ocorre, tem raízes
semelhantes.
Entretanto, nem sempre a elevação dos ombros é uma
postura defensiva. Elevar e curvar os ombros para a frente,
com os braços envolvendo o corpo, é uma forma de
"abraçar o vazio". É o gesto pelo qual a pessoa abraça a si
mesma na ausência de alguém para abraçar. Nesse caso,
os ombros estão mostrando a postura que adorariam se o
ser amado fosse abraçado de verdade. Outra versão do
movimento ocorre quando a pessoa ergue os ombros para
fazê-los tocar o queixo ou a bochecha. A cabeça descansa
sobre o ombro, na tentativa de demonstrar ternura pelo
ser amado.
12. Braços
Os braços são a parte menos erótica do corpo
feminino. Se um homem pensa em tocar uma mulher sem
qualquer desejo sexual — para chamar sua atenção, por
exemplo, ou guiá-la numa direção —, o melhor ponto é o
braço. Qualquer outro ponto seria demasiado íntimo.
Vale lembrar que, em termos evolucionários, os
braços humanos são nossas pernas dianteiras. De fato,
para qualquer criatura de quatro patas, eles devem
parecer um par de pernas inúteis penduradas. Mas,
quando nossos ancestrais assumiram a postura ereta
apoiados nas pernas traseiras, as pernas dianteiras foram
drasticamente aliviadas do peso que carregavam e
puderam se especializar em múltiplos propósitos
manipulativos. Nossas patas dianteiras transformaram-se
em sofisticadas garras, e nossas pernas dianteiras
tornaram-se seus criados, dotados de uma incrível mo-
bilidade.
Os braços têm dupla qualidade: força e precisão. Se
as mãos precisam agir com força — para trepar, atirar,
golpear, socar —, os fortes músculos do braços, como o
bíceps e o tríceps, entram em ação. Se o polegar e os dedos
estão trabalhando com delicada precisão, o braço opera
como um guindaste móvel, colocando a mão na posição
ideal para que a tarefa seja executada.
O braço conta com três ossos: o pesado úmero do
braço e o rádio e a ulna (ou cúbito) do antebraço. Esses
ossos são visíveis no ombro, no cotovelo e no pulso, mas
no resto do braço ficam cobertos pelos músculos. Os dois
ossos do antebraço se cruzam quando a mão gira, virando
a palma para cima, o que significa que sua posição mais
relaxada é a da palma voltada para baixo. Para quem não
sabe qual é o rádio e qual é a ulna, vale dizer que a ulna é
ligeiramente mais delgada e alinha-se com o mindinho,
enquanto o rádio é mais espesso e alinha-se com o polegar.
Os principais músculos do braço e os movimentos
que eles produzem são os seguintes:
O deltóide é o grande músculo que recobre a
articulação do ombro, e sua função é erguer o braço e
afastá-lo do corpo lateralmente. O bíceps é o músculo que
se situa na parte anterior do braço, e sua função é flexioná-
lo. O triceps é o forte músculo que se situa na parte
posterior do braço, e sua função é estendê-lo.
O trabalho muscular permite fortificar esses
músculos a um grau surpreendente, como mostram os
braços malhados exibidos em competições de
fisiculturismo feminino, que dão a impressão de imensa
força. Muitos homens afirmam que não os acham
atraentes, e a razão disso parece ser o excesso de esforço
necessário para desenvolver essa musculatura, o que im-
plicaria uma obsessão que beira o narcisismo. Uma
campeã de fisiculturismo parece estar mais interessada no
que vê no espelho do que no corpo de um companheiro
masculino.
Outro problema com o braço super-desenvolvido é
que ele parece muito masculino. Os braços da mulher são
mais curtos, mais fracos e mais finos que os do homem, e
é inevitável que braços excessivamente desenvolvidos
percam suas qualidades femininas.
O antebraço masculino mais longo é o reflexo de um
papel evolutivo: o de atirador c lançador. Por isso, os
homens são melhores arremessadores de dardos que as
mulheres. O recorde masculino nesse esporte é de 96,72
metros, e o feminino, de 72,40 metros, uma diferença de
33%, muito superior à média em eventos desse tipo, que é
de 10%,
Outra diferença de gênero diz respeito à articulação
do cotovelo. Na mulher, o braço fica naturalmente mais
próximo ao tronco. Devido aos ombros mais largos, os
braços do homem pendem mais afastados do corpo.
Quando oscilam soltos no espaço, têm um ar muito
masculino, mas se um homem prende os braços junto ao
corpo, afetando os antebraços, seu corpo parece afeminado.
Isso ocorre porque, nas mulheres, o ângulo do cotovelo é 6
graus maior que o do homem. Portanto, a postura dos
braços nos oferece significativos sinais sexuais que não
podem ser atribuídos a um condicionamento social.
Se o cotovelo se choca com um objeto duro, ocorre
uma ferroada, seguida de uma dor considerável por algum
tempo. É o nervo ulnário, que passa pela articulação do
cotovelo, que causa a aguilhoada dolorosa e, por um
momento, incapacita o braço.
Outro detalhe anatômico do braço que merece
menção são as muito amaldiçoadas, muito depiladas e
muito desodorizadas axilas. Essa pequena zona pilosa
desempenha um papel químico importante e reflete uma
grande mudança nos hábitos sexuais da espécie humana.
Quando nossos ancestrais se acasalavam, com a fêmea
sobre as quatro patas, as axilas ficavam afastadas do rosto
do parceiro. Quando mais tarde assumimos a postura
ereta, e homem e mulher passaram a adotar
predominantemente a posição sexual frontal, o nariz ficava
próximo à região dos ombros. E ali se situavam as axilas, o
lugar ideal para o desenvolvimento de glândulas sudo-
ríparas. Sua presença é exclusiva da espécie humana, em
ambos os sexos.
A mulher possui mais glândulas sudoríparas que o
homem, e os odores produzidos por um e outro diferem, o
que indica que elas atuam como sinais sexuais entre
parceiros amorosos. De fato, recentes pesquisas revelaram
que, tendo os olhos vendados, os homens se excitavam
mais sexualmente cheirando o suor da axila da mulher do
que com qualquer caro perfume produzido comercialmente.
Essas glândulas sudoríparas são glândulas apócrinas,
e sua secreção é levemente mais oleosa do que o suor
comum. Elas só se desenvolvem na puberdade, quando o
surgimento dos hormônios sexuais ativa-as e ao mesmo
tempo provoca o crescimento de pêlos nas axilas. A função
dos pêlos é manter as secreções glandulares na região
axilar, o que intensifica o sinal que elas transmitem.
Um velho costume inglês, transmitido de geração a
geração, determinava que o homem que quisesse seduzir
uma mulher usasse um lenço limpo junto à axila, por
baixo da camisa, antes de iniciar a dança. Depois, devia
tirar o lenço e acenar com ele para refrescá-la. Na verdade,
o que ele fazia era espalhar o odor de sua glândulas
apócrinas na esperança de que ela fosse seduzida por ele.
Na Áustria rural o truque funcionava de maneira
diferente. A mulher colocava uma fatia de maçã sob as
axilas enquanto dançava e, quando a música parava, a
oferecia ao parceiro. Quando ele comia a maçã, expunha-
se automaticamente ao aroma sexual da mulher Esse
truque também era conhecido na Inglaterra elisabetana,
quando uma maçã inteira descascada (conhecida como
"maçã do amor") era colocada na axila da mulher até se
embeber de seu suor, quando então seria oferecida ao
amado, que inalaria sua fragrância.
Mais tarde, no século XVI, o impacto sexual da
fragrância das axilas femininas parece ter-se feito sentir
na corte francesa. Uma linda princesa, Marie de Clèves,
esposa do horroroso príncipe de Condé, sentindo-se aca-
lorada depois de uma vigorosa dança na corte, retirou-se
para uma das salas adjacentes ao salão de baile do Louvre
para trocar a camisa molhada de suor. O duque d'Anjou
(que logo se tornaria o rei Henrique III da França), que
também sofria com o calor, entrou nessa sala e, julgando
que a camisa de Marie fosse um guardanapo, usou-a para
enxugar o rosto suado. De acordo com um cronista da
época, seus sentidos foram profundamente afetados por
esse ato. No momento em que inalou sua fragrância, o
duque, que já era admirador secreto da princesa
adolescente, foi tomado por uma incontrolável paixão. Com
isso, ganhou coragem para quebrar seu silêncio e
confessar a ela seu amor. Nascia uma paixão maldita, que
lhe causaria muito infortúnio nos anos seguintes.
Considerando a forte indústria que se alimenta da
venda de desodorantes, essas histórias parecem muito
estranhas. Se o ser humano carrega um estímulo sexual
tão forte sob os braços, por que se daria tanto trabalho
para eliminá-lo lavando, esfregando e desodorizando as
axilas e, no caso das mulheres, depilando-as? A resposta
está no vestuário. O homem da história do folclore inglês,
banhado e usando uma camisa limpa para a dança,
produz secreções frescas das glândulas sudoríparas.
Embebido nelas, seu lenço limpo carrega realmente um
forte odor sexual. É o sistema primitivo em ação.
Infelizmente, hoje, com o corpo coberto de camadas de
roupas, nossa pele suada pode se transformar facilmente
numa estufa para a propagação de milhões de bactérias. O
odor natural do corpo se torna mau cheiro. A sensação
desagradável que isso nos causa nos faz preferir usar
desodorantes do que correr o risco de transformar o que
seria um estímulo sexual numa catinga corporal.
Desde o século 1 a.C., o poeta romano Ovídio, em seu
livro sobre a sedução, A arte do amor, advertia as damas
de que "carregavam um bode nas axilas".
Pesquisas recentes mostraram que as secreções
axilares de homens e mulheres diferem quimicamente e
têm um odor que atrai o sexo oposto. Diz-se que a
secreção masculina tem um odor almiscarado, resultado
do hormônio masculino. Entretanto, em sua forma pura e
fresca, as secreções masculinas e femininas não são
conscientemente detectadas pelo olfato humano. Elas
parecem atuar num nível inconsciente, fazendo-nos sentir
o estímulo sem saber bem por quê.
Nem todos os orientais possuem esse sistema
glandular. Entre os coreanos, no mínimo metade da
população não tem glândulas sudoríparas. Elas também
são raras no Japão, onde não se consegue detectar
nenhum odor axilar em 90% da população. Na verdade,
entre os japoneses, o forte cheiro nas axilas é visto como
uma doença, a osmidrosis axillae. Houve um tempo em
que indivíduos que sofriam dessa "doença" eram dispensa-
dos do serviço militar. Na China, apenas 2 ou 3% da
população têm algum odor debaixo dos braços. Devido às
diferenças raciais, os orientais geralmente acham o odor
natural dos europeus e africanos muito forte e até mesmo
ofensivo.
A remoção dos pêlos nas axilas é uma prática
relativamente recente, introduzida no Ocidente na década
de 1920 pela florescente indústria cosmética. Anúncios
diziam às mulheres que, se quisessem ser mais perfuma-
das e atraentes, deviam se livrar das "armadilhas de
cheiro" que eram os pêlos nas axilas. Em pouco tempo, as
mulheres ocidentais aderiram em massa. Hoje, calcula-se
que menos de 1% das mulheres rejeite a depilação como
um procedimento rotineiro.
De vez cm quando ocorre uma fraca rebelião contra
esse tipo de "mutilação". O famoso guia dos amantes, The
Joy of Sex (A alegria do sexo), publicado em 1972, opunha-
se fortemente à depilação: "As axilas — um local clássico
para beijos. Não devem ser depiladas sob nenhum
pretexto". A depilação "podia ser perdoada em locais de
clima quente, onde não havia água encanada, mas hoje é
simplesmente vandalismo ignorante". E acrescentava um
curioso conselho: "A axila pode ser usada no lugar da pal-
ma da mão para silenciar o parceiro no momento do
clímax" — talvez para que o odor das axilas fosse
plenamente apreciado.
Não se sabe quantas mulheres podem ter abandonado
a depilação depois desse conselho, mas parece que o guia
sexual acreditava haver uma tendência nesse sentido no
início dos anos 1970: "Uma nova geração começou a
perceber que é sexy manter os pêlos nas axilas". A julgar
pelos filmes e pelas fotos publicadas em revistas a partir
dessa década, a moda mundial ignorou essa suposta
tendência. Recentemente, quando uma famosa atriz de
Hollywood ergueu o braço para acenar para a multidão e
exibiu uma axila peluda, o fato foi comentado em todas as
colunas de fofoca, que o consideraram repulsivo.
Apesar disso, os últimos anos do século XX
assistiram à chegada de uma revista intitulada Hair to
Stay (Pêlos para ficar), que se definia como "a única revista
do mundo para os que amam as mulheres naturalmente
peludas". Entretanto, tinha que admitir que lutava uma
batalha difícil: "Nos anos 90, as mulheres que decidem não
depilar as axilas são ridicularizadas e submetidas a
situações constrangedoras. São vistas como lésbicas,
feministas radicais ou hippies que não saíram dos anos
60". Tudo isso era um erro, afirmava a revista, porque, "de
um ponto de vista psicossocial, a remoção dos pêlos é uma
revolta contra a sexualidade". Os pêlos das axilas, dizia,
"funcionam como uma antena transmissora, enviando
sinais que convidam ao ato sexual". Para pôr mais lenha
na fogueira, chegou a afirmar que, ao exibir uma axila
depilada, uma mulher adulta se oferece simbolicamente
como uma criança e portanto encoraja uma perversão
sexual. Convenientemente, a revista não percebia que,
com esse argumento, acusava os homens que se mantêm
bem barbeados de estimular a pedofilia — já que meninos
não têm barba.
A verdade é que a remoção dos pêlos faz com que
homens e mulheres pareçam mais limpos e mais jovens,
ajudando-os a eliminar o cheiro corporal. Como a vida
moderna, principalmente nos centros urbanos, nos obriga
a manter uma excessiva proximidade em situações que
nada têm de sensuais, existem motivos de sobra pata
eliminar os primitivos sinais sexuais. Por isso, parece
provável que a depilação corporal continue a prosperar,
não importa o que digam os rebeldes. Apenas se
pudéssemos voltar a uma vida tribal de seminudez seu
argumento seria válido.
Voltando à postura dos braços, existem quatro
movimentos principais: para baixo, para cima, para o lado
e para a frente. A postura de braços abaixados é neutra, e
os músculos ficam totalmente relaxados e inativos. Como
parte da locomoção bipedal, balançamos os braços quando
caminhamos, mas, a menos que estejamos participando de
um desfile militar, não colocamos nenhum esforço nesse
ato. Mesmo depois de uma longa caminhada, quando os pés
doem e os músculos das pernas estão exaustos, os braços
continuam oscilando levemente, descansados e relaxados.
Só quando os afastamos do corpo eles sentem a tensão do
esforço.
A postura de braços erguidos é mais difícil de
sustentar por qualquer período de tempo. É um gesto de
triunfo e vitória, muito apreciado por políticos e astros do
esporte. Com os braços erguidos, eles cumprimentam seus
fãs e comemoram uma alta posição com uma postura
elevada. Levantar os braços os faz parecer mais altos e
mais fortes, e também os torna mais visíveis nos
momentos em que eles mais desejam ser vistos. Entretanto,
a posição não se mantém por mais do que alguns
segundos. Se tentarem manter essa postura por horas —
ou mesmo por minutos —, logo serão vencidos pelo
cansaço.
O gesto ganha um significado totalmente diferente
quando um assaltante com uma arma na mão ordena:
"Mãos ao alto!". Nesse caso, os braços se erguem num
gesto de defesa, e não de vitória. Entretanto, existe uma
sutil diferença na angulação dos braços. Na postura de
vitória, os braços em geral se mantêm esticados e, quando
se dobram, angulam-se ligeiramente para a frente. Na
reação a uma ameaça, os braços se flexionam ligeiramente
nos cotovelos c se mantêm na posição vertical. A essência
dessa postura defensiva é que ela deve mostrar mãos
vazias e desarmadas, postadas o mais longe possível do
corpo, onde alguma arma pode estar escondida.
A postura de braços abertos é um convite distante ao
abraço. Uma mulher que aviste um amigo querido a
alguns passos de distância abre os braços até poder fechá-
los num abraço emocionado. Essa mesma postura é vista
depois que uma artista de circo completa um número de
grande dificuldade. Ele abre os braços, e a platéia
imediatamente responde com aplausos. O artista revela o
desejo de abraçar o público, que responde com o único
gesto que é capaz de realizar de seu lugar na platéia. O
gesto de bater palmas é uma forma muito modificada do
"abraço no vazio", na qual o sentimento se converte no
som de um abraço simbólico.
A postura de braços para a frente é mais complexa.
Pode significar rejeição se as palmas das mãos estiverem
empurrando para fora; ou agressão, se os punhos
estiverem cerrados; ou um pedido de esmola, se as palmas
estiverem voltadas para cima. Como a posição de braços
abertos, pode ser também um convite ao abraço, além de
transmitir muitos outros sinais, de acordo com a posição
das mãos.
Os sinais que envolvem os braços incluem ainda
diversas formas de aceno e saudações. Quando uma
importante figura feminina acena de um balcão, seu gesto
pode ser visto de grande distância. Sua forma exata indica
algo de seu estado de espírito. O aceno de uma rainha é
um gesto de poder pacífico. A saudação de punho cerrado
de uma líder rebelde, ao contrário, é sinal de poder
revolucionário. A saudação nazista era um gesto de rígida
lealdade. A saudação militar — com os cotovelos
flexionados e a mão tocando o quepe — é um gesto que
estiliza a intenção de remover o elmo, um movimento de
paz que visa cancelar o sinal de hostilidade. E por aí vai.
Os braços são usados para transmitir sinais de longa
distância, com menos precisão do que a que se pode
transmitir com os dedos ou expressões faciais. Nesse
sentido, os braços femininos funcionam como inestimáveis
bandeiras corporais.
No contato pessoal, o braço é quase sempre foco de
ações amigáveis e assexuadas. Se quisermos ajudar uma
pessoa idosa a atravessar a rua, nós a pegaremos pelo
braço para guiá-la. Se orientamos alguém a passar por
uma porta, nós a conduzimos com um leve toque no
cotovelo. Se queremos chamar a atenção de alguém,
tocamos seu braço. Se em qualquer desses casos
tocássemos a cintura, o peito ou a cabeça, nosso gesto
estaria imediatamente sob suspeita. Os braços são a parte
mais neutra do corpo, sem qualquer significado íntimo.
Sejam homens ou mulheres, amigos podem dar os braços
quando caminham juntos, mas se houver qualquer outro
toque durante a caminhada, o gesto prontamente
transmitirá um sinal de intimidade.
As tatuagens nos braços não têm sido raras, mas a
forma mais comum de adorno sempre foi o bracelete.
Como esse é um ornamento que sempre foi usado por
mulheres, há quem acredite que esse costume teve origem
como uma maneira de exagerar a forma delgada do braço
feminino. Outra explicação seria que os braceletes e
pulseiras atraem os homens porque são algemas
simbólicas, sugerindo a escravidão da mulher pelo homem.
13. MÃOS
As mãos femininas são superiores às masculinas num
aspecto: são mais flexíveis. Podem ser menores e não ter a
mesma força que as mãos do homem, mas possuem maior
delicadeza* quando se trata de manejar objetos pequenos.
Sempre que um trabalho preciso dos dedos se faz
necessário, as mãos femininas são imbatíveis. Um exemplo:
o teclado do piano foi concebido para mãos masculinas,
colocando as mulheres em imediata desvantagem. O
resultado é que a maioria dos grandes pianistas são
homens. Mas, num teclado ligeiramente menor, mais
adequado ao tamanho da mão feminina, a maior
flexibilidade dos dedos faria as mulheres pianistas
suplantarem facilmente os homens. Da mesma forma, os
alpinistas relatam que a flexibilidade feminina se equipara
à força masculina, dando a ambos os sexos o mesmo
potencial para escalar paredes rochosas.
Mas como isso aconteceu? Qual é a história evolutiva
das mãos femininas? O que aconteceu quando, milhões de
anos atrás, nossos ancestrais se puseram de pé sobre as
patas traseiras e libertaram as patas dianteiras?
O principal elemento dessa história — o segredo do
sucesso das mãos humanas — foi o desenvolvimento dos
polegares opostos. Livres da tarefa de locomoção, tanto no
solo quanto nas árvores —, as mãos puderam se dedicar
unicamente à manipulação. Esse foi um dos principais
passos na evolução da espécie. A espécie humana ganhou
destreza — e transpôs o limiar para um mundo onde nada
estava a salvo de seus dedos.
No aspecto físico, os homens têm uma força manual
cerca de duas vezes maior que a das mulheres. Essa é
uma das maiores diferenças de gênero, e reflete quanto
mãos fortes eram importantes para o caçador primitivo.
Em média, o homem tem uma força manual de cerca de 40
kg, que com treinamento pode chegar a 54 kg ou mais. A
força manual era particularmente importante para fabricar
armas e outros implementos primitivos, para atirar objetos
longe e para outras atividades como martelar, rasgar,
prender e carregar. Mesmo hoje, tarefas que dependem de
mãos grandes e fortes são predominantemente masculinas.
Quase não há mulheres trabalhando em carpintaria.
A força é apenas metade da história de sucesso das
mãos. A outra metade, igualmente importante, é a precisão.
A força se adquire opondo-se o polegar contra todos os
dedos. A precisão se conquista opondo-se apenas as
pontas dos dois dedos. Nessa tarefa, a mulher é superior
ao homem. As mãos masculinas, embora capazes de
grande precisão se comparadas às mãos de polegares
curtos de outras espécies, não podem competir com as
mãos delicadas, ágeis e frágeis da fêmea humana. Por isso,
no passado, as mulheres sempre foram excelentes em
tarefas de costura, tecelagem e em todas as formas de
trabalho decorativo. Antes da invenção do torno, elas
dominavam a arte cerâmica, na qual dedos ágeis eram
importantes para modelar e decorar os potes. Como a
olaria era a principal forma de arte na pré-história,
durante todo esse longo período da história humana as
mulheres, e não os homens, foram artistas dotadas de
grande criatividade — um fato geralmente desconsiderado
por arqueólogos e historiadores da arte.
A situação não mudou muito, embora hoje a natureza
das tarefas tenha se atualizado. Basta olhar para o interior
de uma fábrica de equipamentos eletrônicos para ver
centenas de ágeis mãos femininas manipulando mi-
núsculas peças. Costurar e tecer talvez estejam menos em
evidência, mas a destreza feminina continua sendo um
talento.
Essa diferença de precisão não se dá apenas pelo fato
de a mulher ter dedos mais leves e finos. As juntas dos
dedos femininos são mais flexíveis, uma característica que
pode resultar de fatores hormonais. Argumenta-se que
essa destreza foi uma adaptação adquirida na coleta de
alimentos, uma especialidade feminina. A coleta de
alimentos exigia arrancar raízes, escolher sementes, colher
nozes e frutos, tarefas mais adequadas aos dedos rápidos
e flexíveis das mulheres do que às mãos fortes e
musculosas dos homens.
Com a divisão de trabalho ocorrida durante nossa
evolução, essa especialização nunca mais foi tão
acentuada. As mãos femininas ficaram razoavelmente
fortes e as mãos masculinas tornaram-se capazes de
tarefas bastante precisas. A mulher mais forte de um
grupo sempre foi mais capaz de partir uma peça de carne
ou (hoje) destampar uma garrafa que o homem mais fraco.
Por outro lado, os marinheiros se mostraram capazes de
manejar bem uma agulha quando estão em alto-mar. E
existem alguns exímios harpistas. Mas, na Idade da Pedra
Lascada, a diferença era significativa: força para os
homens e precisão para as mulheres.
De todas as partes do corpo humano, as mãos talvez
sejam as mais ativas. Como peças de um mecanismo
complexo, elas são insuperáveis. Calcula-se que, durante
uma vida, os dedos se flexionam e se esticam no mínimo
23 milhões de vezes. Mesmo os recém-nascidos possuem
uma notável força nos dedos, e as mãos raramente param
quietas. Ainda no berço, eles dobram e contorcem os
dedinhos, como se antecipando o futuro prazer da
manipulação. Mais tarde, as mãos revelam outras
capacidades: digitar cem palavras por minuto, executar
músicas num teclado a uma velocidade incrível, pintar
obras-primas, ler em braile e até recitar poemas na
linguagem dos surdos. Comparadas ao Rolls Royce que é a
mão humana, as patas das demais espécies não chegam a
ser uma bicicleta.
O par de mãos humanas contém nada menos do que
54 ossos. Em cada mão, são 14 ossos digitais, 5 ossos
palmares e 8 ossos no pulso.
A sensibilidade da mão ao calor, à dor e ao toque é
grande, porque existem milhares de terminações nervosas
por centímetro quadrado. A força muscular das mãos e
dos dedos não vem apenas da musculatura da mão, mas
também dos músculos do antebraço.
Na superfície da mão existem três tipos de linhas: as
linhas de flexão, as linhas de tensão e os sulcos papilares.
As primeiras, as linhas de flexão, são marcas que refletem
os movimentos da mão. Elas variam ligeiramente de um
indivíduo para outro, o que há séculos tem garantido a
sobrevivência dos quiromantes. Como outras práticas
artificiosas como a frenologia e a astrologia, a quiromancia
perdeu terreno no século XX, e hoje nada mais é que a
exibição de feira que merece ser. Um legado da
quiromancia que tem alguma utilidade é a denominação
das várias linhas da mão. As quatro principais linhas são:
a linha da cabeça e a linha do coração, que atravessam a
palma, e a linha da vida e a linha do destino, que correm
ao redor da base do polegar. Nos macacos, a linha da
cabeça e a linha do coração são uma só, mas nos
humanos a independência do indicador é tal que partiu a
linha em duas. Entretanto, uma em cada 25 pessoas ainda
exibe uma única linha, chamada "linha dos símios".
O suor das mãos não é comum. Quando a pessoa
dorme, as glândulas sudoríparas da palma cessam sua
atividade, por mais quente que esteja a cama. Na verdade,
elas não reagem ao calor como as glândulas sudoríparas
de outras partes do corpo. Só reagem a um aumento de
tensão. Se as palmas estão completamente secas, a pessoa
está relaxada. À medida que a pessoa se torna mais
ansiosa, as palmas se umedecem cada vez mais, pre-
parando-se para a ação física que o organismo prevê.
Infelizmente, o corpo humano desenvolveu essa reação
numa época em que a tensão era principalmente de
natureza física, mas hoje as tensões são em sua maioria
psicológicas, o que faz as palmas umedecerem sem ter o
que agarrar. Mãos suadas são portanto remanescentes de
um passado remoto que o moderno homem urbano pode
perfeitamente dispensar.
Durante a famosa crise dos mísseis de Cuba nos anos
1960, quando o mundo ocidental ficou em suspenso,
temendo uma guerra nuclear, todas as pesquisas de
laboratório sobre o suor das palmas das mãos tiveram que
ser temporariamente suspensas. O aumento generalizado
de tensão fez com que as taxas de sudorese crescessem
tanto que era impossível conseguir que algum dos sujeitos
da pesquisa relaxasse. Tal é a sensibilidade das palmas
das mãos.
As impressões digitais apresentam três padrões
básicos: curvas (muito comuns), espirais (medianamente
comuns) e arcos (bastante raros). Não existem dois seres
humanos com impressões digitais idênticas. Contrariando
a crença popular, mesmo gêmeos têm impressões digitais
diferentes. As impressões digitais são usadas para
identificar indivíduos há séculos. Há mais de 2 mil anos os
chineses usavam os dedos como molde para seus selos de
autoridade. Como uma assinatura pode ser falsificada, não
sei por que não seguimos esse antigo costume chinês.
Modernamente, a classificação das impressões digitais
para a detecção de crimes se tornou altamente sofisticada,
com a técnica de "contagem das cristas" e a atenção a
minúsculos desenhos chamados de "lagos", "ilhas",
"esporas" e "cruzamentos". Um criminoso não tem como
evitar a identificação tentando alterar as impressões
digitais. Mesmo que sejam raspadas, elas voltam a apa-
recer, e não se alteram com a idade.
Há diferenças raciais nas impressões digitais. Os
caucasianos, por exemplo, têm menos espirais e mais
curvas que os orientais, mas as diferenças são muito
pequenas.
Quanto à coloração das mãos, três aspectos
despertam interesse. Quando pessoas de pele clara se
expõem ao sol, as costas das mãos ficam bronzeadas, mas
as palmas se recusam a escurecer. Acredita-se que isso se
deva à necessidade de manter os gestos altamente visíveis.
Mesmo indivíduos da raça negra têm palmas claras.
Qualquer pessoa que já tenha feito bolas de neve sabe
que, depois de certo tempo, as palmas ficam vermelhas.
Esse parece ser um mecanismo destinado a evitar que a
pele sensível das palmas congele. Devido ao frio
prolongado, um aumento drástico do fluxo sangüíneo
aquece as mãos. É uma reação notável e complexa. A
reação inicial das mãos à neve fria é a vasoconstrição, que
reduz o fluxo de sangue na superfície da pele. Esse é o
comportamento normal do corpo como um todo, que evita
que o sangue quente dissipe o calor vital. Ela é a mesma
em todo o corpo, não importa quanto dure a exposição ao
frio, mas as mãos atuam de maneira diferente. Depois de
cerca de 5 minutos, elas passam da vasoconstrição a uma
forte vasodilatação. Os vasos sangüíneos da palma e dos
dedos de repente se expandem, colorindo a mão de
vermelho. Depois de mais 5 minutos, o processo se reverte.
Se a pessoa conseguir suportar as bolas de neve por uma
hora, vaí perceber que as mãos passam do azul ao
vermelho a cada 5 minutos. Trata-se de um sistema
defensivo emergencial que provavelmente desenvolvemos
na Idade do Gelo, quando mãos congeladas podiam
significar desastre. Aquecendo as mãos a cada 5 minutos,
o sistema evita o congelamento, que poderia causar danos
irrecuperáveis, e conserva o precioso calor do corpo.
Uma das crenças mais extraordinárias sobre as mãos
é o suposto aparecimento espontâneo de chagas nas
palmas, um sofrimento com que pessoas santas repetiriam
o sacrifício de Cristo na cruz. A grande maioria das 330
pessoas registradas que exibiram feridas sanguinolentas
pertencia à Igreja Católica, entre elas algumas freiras.
Curiosamente, nesse aspecto as mulheres superam os
homens numa proporção de 7 por 1. O fenômeno vem de
manifestando há mais de setecentos anos, desde o século
XIII.
As autoridades da Igreja sempre se mostraram
intranqüilas com relação a essas alegações. O que se
coloca cm dúvida não é a existência das feridas, mas a
natureza milagrosa do fenômeno. Na maioria dos casos, as
feridas começam a sangrar, depois secam e em seguida
voltam a sangrar. O fenômeno obedece a um horário rígido:
o sangramento se dá entre 1 e 2 horas da tarde e se repete
entre 4 e 5 horas, todas as sextas-feiras.
Excluída a possibilidade de mutilação deliberada, a
explicação mais provável para essas chagas é uma
infecção virótica localizada. Crianças que usam piscinas
públicas costumam pegar verrugas — pequenos tumores
epidérmicos de origem virótica que precisam ser removidos
cirurgicamente. Verrugas semelhantes podem aparecer
nas palmas das mãos, embora sejam menos comuns.
Quando ocorrem, porém, geralmente provocam coceira e
sangram. A pessoa que tem a ferida pode não se lembrar
de tê-la coçado. Depois a ferida se fecha, mas o processo é
muito mais lento que o de um corte normal. Devido à
presença do vírus, a cura não é perfeita, e mais cedo ou
mais tarde a ferida volta a sangrar, tornando-se cada vez
maior. Uma cirurgia faz-se necessária para removê-la
permanentemente. Assim, é fácil perceber que um
ferimento de menor importância pode incendiar a
imaginação de uma devota e se transformar na milagrosa
repetição do sacrifício de Cristo. — Mas há uma falha
quase fatal: as chagas surgem no centro da palma, ao
passo que na crucifixão de Cristo os pregos perfuraram os
pulsos. Desde o século IX artistas religiosos alimentam
esse erro, produzindo pinturas e esculturas que mostram
pregos enterrados no centro das palmas de Cristo. parece
que o erro — que para eles não passa de licença
artística. — tem sido ampla e dolorosamente copiado pelos
supostos santos. É bastante significativo que os poucos
que sangraram nos pulsos tenham aparecido muito
recentemente, depois que se tornou conhecida a
verdadeira localização das chagas de Cristo.
Voltando aos dedos, devemos dizer que cada um tem
características próprias.
O primeiro é o polegar, sem dúvida o mais importante
dos dedos, já que permite o movimento de agarrar. Seu
papel fundamental é reconhecido desde a Idade Média,
quando a indenização pela perda de um polegar era quatro
vezes maior que o valor pago pela perda de um mindinho.
Hoje, se alguém perde o polegar, a cirurgia moderna pode
ajustar o indicador para que ele funcione em oposição aos
outros dedos, restaurando em parte o movimento de
preensão.
Em tempos antigos, o polegar — pollex em latim —
era dedicado a Vênus, presumivelmente devido a seu
significado fálico. No Islã, era dedicado a Maomé. O
polegar tem três significados gestuais: aponta uma direção,
expressa um insulto fálico e indica, que tudo está. bem.
O segundo dedo, o indicador, é o mais independente e
importante dos outros quatro dedos. É o mais usado em
oposição ao polegar em atos de delicada precisão. É o dedo
que puxa o gatilho, que aponta o caminho, que disca o
telefone, que chama, que pede atenção, que aperta o botão.
Graças à sua função indicativa, o indicador também
recebe o nome de índex, índice e mostrador. Houve época
em que ele foi chamado de "dedo napoleônico" ou "dedo da
ambição", mas sua denominação mais estanha é a de
"dedo do veneno". Em tempos antigos, era proibido usar o
indicador para qualquer tipo de medicação, porque se
acreditava que ele era venenoso.
Os católicos dedicam o indicador ao Espírito Santo; os
islâmicos, a Fátima.
Apesar de sua importância, o indicador é um dos
menores dedos, superado em muitos casos pelo médio e
pelo anular. Em 45% das mulheres, porém, é o segundo
dedo mais longo, relegando o anular para o terceiro lugar.
Surpreendentemente, isso ocorre apenas com 22% dos
homens. A razão dessa significativa diferença de gênero é
um mistério.
O médio, terceiro e mais longo dos dedos, tinha vários
nomes antigamente, sendo conhecido como "o famoso", "o
impudico", "o infame" e "o obsceno". A razão para a
maioria desses nomes é sua utilização no mais famoso dos
gestos grosseiros de Roma. Nesse gesto, os outros dedos se
dobram e apenas o médio permanece esticado e ereto. Os
dois dedos dobrados de cada lado simbolizam os testículos,
e o médio, o falo ereto. Esse gesto sobreviveu durante 2 mil
anos desde que surgiu nas ruas da antiga Roma. Seu uso
por mulheres, pelo menos no mundo ocidental, cresceu
muito nos últimos anos, porque a maior igualdade sexual
trouxe consigo uma maior igualdade gestual. No passado,
gestos obscenos eram uma exclusividade dos homens, mas
hoje as mulheres mais assertivas não se sentem constran-
gidas de se expressar dessa maneira.
No ambiente religioso, o dedo médio tem significados
bastante diferentes. No catolicismo, é o dedo dedicado a
Cristo e à salvação; no islamismo, dedicado a Ali, marido
de Fátima.
O quarto dedo, o anular, vem sendo usado há mais de
2 mil anos em cerimônias de cura. Nas civilizações do mar
Egeu, era encapsulado numa dedeira de ferro magnético e
usado em rituais de cura. Mais tarde, essa idéia foi
adotada pelos romanos, que o chamavam de digitus
medicus. Eles acreditavam que por esse dedo corria um
nervo que ia direto ao coração, e sempre o usavam para
fazer misturas porque achavam que nenhum veneno
poderia tocá-lo sem dar aviso ao coração. Essa superstição
durou séculos, com o nervo que se ligava ao coração ora
sendo substituído por uma veia, ora por uma artéria. Na
Idade Média, os boticários ainda usavam religiosamente
esse dedo para misturar suas poções, e insistiam que
todos os ungüentos deviam ser esfregados no corpo com
ele. O indicador devia ser evitado a todo custo. Para alguns,
simplesmente passar o anular por cima de uma ferida era
suficiente para curá-la. Por isso, ele acabou sendo conhe-
cido como o "dedo da cura". Em algumas partes da Europa,
ele ainda ê visto como o único dedo adequado a coçar a
pele.
Se existe algum valor prático nessa superstição é que,
por ser o menos usado, o anular é provavelmente o dedo
mais limpo. A razão de sua relativa inatividade é que sua
musculatura o torna o menos independente dos dedos. Se
alguém fechar o punho e tentar esticar um dedo de cada
vez, perceberá que o anular é o único que se recusa a se
esticar totalmente — ou faz isso com grande dificuldade.
Se algum dos dedos que o ladeiam se esticar ao mesmo
tempo, não há problema, mas sozinho ele se sente fraco
demais para fazer o movimento. Por isso, tem menos
probabilidade de tocar algo perigoso e, portanto, seria o
mais seguro para uso médico. Além disso, é difícil usá-lo
para mexer alguma coisa sem manter os outros dedos
presos pelo polegar.
Foi por essa falta de independência que o anular foi
escolhido como o dedo que carrega a aliança de casamento.
Esse costume originou-se na idéia de que a esposa se
comprometia a ser menos independente como o dedo
simbolicamente escolhido. A escolha da mão esquerda teve
origem semelhante: essa seria a mão mais fraca e
submissa, adequada ao que era então considerado o papel
da esposa. Só porque esses fatos foram esquecidos é que
esse dedo ainda é escolhido no ritual do matrimônio. Se o
verdadeiro significado machista fosse mais conhecido,
criaria um conflito para muitas noivas modernas.
Devido a essa função de levar a aliança, ele foi
chamado pelos romanos de digitus annularis. No
islamismo, foi dedicado a Hassan, e para os cristãos ele é o
"dedo do amém", porque as bênçãos são feitas com o
polegar (o Pai), o indicador (o Filho), e o médio (o Espírito
Santo), seguidos pelo anular (amém).
O quinto dedo, o miudinho, é chamado em latim de
minimus ou aurícularis: mínimo porque ele é o menor de
todos, e auricular devido à sua ligação com a orelha. Alega-
se que ele foi chamado de "dedo auricular" pelo fato de ser
suficientemente pequeno para ser usado para limpar a
orelha, mas existe um argumento mais moderno.
Antigamente, acreditava-se que, fechando os ouvidos com
os dedos mínimos, era possível aumentar as chances de
uma experiência mediúnica, de uma visão profética ou de
algum outro evento sobrenatural. Qualquer pessoa que
tenha estado numa sessão espírita provavelmente
participou de uma versão moderna dessa superstição, na
qual os participantes se dão as mãos formando um círculo.
Nesse momento, o médium geralmente avisa que o contato
deve ser feito com os dedos mindinhos, porque essa era a
maneira antiga de criar uma ligação mediúnica.
Nos Estados Unidos, o nome usado popularmente
para identificar o dedo mínimo é "pinkie". Usado
primeiramente pelas crianças de Nova York, mais tarde foi
adotado por adultos de outras cidades. Acredita-se que a
denominação teve origem na Escócia, onde as crianças se
referem a qualquer coisa pequena como "pinkie", e
transportada para Nova York pelos colonizadores
escoceses. Entretanto, o nome original de Nova York era
Nova Amsterdã, e também pode ser significativo que a
palavra holandesa para "pequeno" seja "pinkie". As
crianças costumam usar a palavra numa rima que
utilizam para firmar uma promessa solene. Quando fazem
disso, entrelaçam os dedos mindinhos para materializar o
ato. Esse é outro costume que se originou da antiga
ligação do mindinho com o sobrenatural. Em alguns
países da Europa, quando duas pessoas acidentalmente
pronunciam a mesma palavra ao mesmo tempo, de
imediato gritam "Snap!" e entrelaçam os mindinhos,
fazendo um voto silencioso, que se realizará se nada for
dito antes que os dedos se soltem. Mais uma vez, a
superstição reflete a crença no poder sobrenatural do
mindinho. A palavra "Snap!" também tem relação com os
dedos, porque é o substituto verbal para a ação de estalar
os dedos, outra ação que tem origem supersticiosa.
Acreditava-se que o estalo do indicador contra o polegar
tivesse o poder de espantar os maus espíritos (é por isso
que não é de bom tom estalar os dedos para chamar
alguém), e isso seria necessário quando duas pessoas
pronunciavam a mesma palavra simultaneamente.
Num contexto que nada tem de mágico, o costume de
curvar o dedo mindinho quando a pessoa está bebendo de
uma xícara ou de um copo há muito é considerado símbolo
de afetação. Na origem, nada poderia estar mais longe da
verdade. As primeiras pinturas religiosas mostram o dedo
mínimo curvado e afastado dos demais, mesmo quando a
figura feminina em questão não está bebendo. Alega-se
que esse era um sinal de que as mulheres que serviam de
modelo para as imagens religiosas desfrutavam de uma
incomum independência sexual. Essa crença de que um
mindinho "independente" simboliza a liberdade sexual deu
origem a uma nova moda lançada pelas primeiras
feministas do final do século XIX. Elas curvavam
deliberadamente o dedo mindinho quando bebiam para
mostrar que apoiavam a idéia de direitos iguais em
questões sexuais. Disseminado como moda, esse gesto foi
perdendo seu significado original de igualdade sexual,
tornando-se meramente o gesto adequado a fazer na
presença de outras pessoas. Daí passou a ser símbolo de
gentileza e acabou adquirindo um significado quase oposto
ao original.
Juntos, os cinco dedos são capazes de uma imensa
gama de gestos e sinais, alguns deliberados e simbólicos,
outros inconscientes e expressivos. Em todo o mundo,
mesmo hoje, as mulheres usam menos os gestos sim-
bólicos que os homens, mas empregam mais os gestos que
acompanham a conversação e enfatizam as palavras. Além
disso, a mão feminina pode se transformar numa garra,
numa lâmina, numa agulha, num punho cerrado ou num
leque, de acordo com as emoções do momento. Depois que
uma conversa acaba, é difícil lembrar precisamente o que
os dedos andaram fazendo, mas a mensagem dos gestos
chega ao interlocutor num nível subliminar.
O uso de adorno nos dedos femininos é popular pelo
menos há 6 mil anos — talvez muito mais. Por volta de
2.500 a.C, os ourives do Oriente Médio já tinham atingido
um alto estágio na manufatura de anéis, que desde então
sempre gozaram de grande prestígio. Originalmente, os
anéis eram usados não apenas como elementos
decorativos. Acreditava-se que eles tinham poderes de
proteção, trazendo boa sorte, protegendo contra os maus
espíritos e propiciando saúde e até mesmo imortalidade (já
que um anel não tem começo nem fim).
Uma vantagem dos antigos anéis que não levamos cm
consideração hoje é que, antes da invenção do espelho,
eles eram mais apreciados do que qualquer ornamento
para a cabeça ou o pescoço porque ficavam claramente
visíveis para quem os usava. Mais tarde, trouxeram outra
vantagem para as mulheres que queriam se livrar de
maridos indesejáveis: podiam conter pequenas câmaras
cheias de venenos letais.
A pele das mãos femininas tem recebido relativamente
pouca atenção, com a interessante exceção da aplicação de
desenhos de hena. Parte importante das cerimônias de
casamento, essas pinturas foram muito populares no
Norte da África, no Oriente Médio e em algumas regiões da
Ásia durante séculos. A hena é uma tintura castanho-
avermelhada extraída das folhas de um pequeno arbusto.
Os intricados desenhos pintados nas mãos da noiva
tinham a finalidade de espantar o Olho do Diabo, um
espírito maligno que gostava de aparecer nas ocasiões
felizes com a intenção de destruí-las. Acreditava-se que a
hena tinha a virtude de purificar a noiva de qualquer
contaminação mundana e imunizá-la contra os ataques do
demônio e de seus agentes.
Na noite anterior ao casamento, a noiva, cercada
pelas amigas mais íntimas, entregava as mãos a uma
artista chamada hennaria, que passava horas pintando os
desenhos tradicionais. Depois, enfaixava as mãos da noiva
e colocava-as dentro de dois sacos bordados para que a
pintura secasse sem borrar. Para a cerimônia, as mãos
eram desenfaixadas, exibindo os belos desenhos. A pintura
durava cerca de quatro semanas, depois das quais podia
desbotar ou ser renovada. Hoje, o costume sobrevive por
motivos puramente decorativos em algumas partes da
Europa e da América, mas a dificuldade na elaboração dos
desenhos evitou que a moda pegasse.
A pele das costas das mãos femininas pode acarretar
um sério problema às mulheres mais velhas. Se a mulher
rejuvenesceu o rosto com cremes firmadores ou com uma
cirurgia plástica, que a fazem parecer vinte anos mais
nova, sua verdadeira idade pode ser revelada por mãos
enrugadas e manchadas. Antigamente, ela podia usar
luvas, mas esse acessório não está mais em moda.
Medidas mais severas se fazem necessárias para adequar a
aparência das mãos à sua jovem figura, e hoje ela tem à
sua disposição uma infinidade de caros procedimentos,
alguns de efeito bastante duvidoso, como a
microdermoabrasão, o peeling ácido, infusão de vitaminas,
aumento da absorção de oxigênio, cera quente e
tratamento a laser. O tratamento mais radical é o
equivalente do lifting da face. O lifting das mãos é um
procedimento que retira gordura das coxas e injeta-a nas
costas das mãos, o que as faz estufar e parecer muito mais
jovens, mas tem que ser repetido várias vezes, e, mesmo
assim, só dura mais ou menos um ano.
Finalmente, existem as unhas das mãos, tecido morto
que cresce em média 1mm a cada dez dias — quatro vezes
mais rápido que as unhas dos pés. Essa taxa de
crescimento significa que, se não fossem cortadas, as
unhas atingiriam 1 cm em cem dias. Em épocas primitivas,
esse comprimento seria desgastado pelo uso.
Modernamente, é preciso cortá-las e lixá-las para mantê-
las num comprimento conveniente.
Em diferentes épocas e culturas, muitas mulheres
têm ignorado as conveniências, permitindo que as unhas
cresçam para mostrar que não precisam fazer nenhum
trabalho manual. Essa demonstração de status é valori-
zada pela aplicação de esmaltes coloridos, que chamam
mais atenção para o fato de que aquelas mãos nunca
pegaram no batente. Na China antiga, as mulheres da
nobreza deixavam as unhas crescer e as pintavam de ouro.
Mais tarde, como isso prejudicava os movimentos da mãos,
elas limitaram a demonstração aos dedos mindinhos,
mantendo as unhas dos demais dedos muito mais curtas.
Outra solução foi usar unhas curtas para o uso cotidiano e
aplicar unhas postiças exageradamente longas em
ocasiões especiais. Esses dois costumes sobrevivem ainda
hoje na Europa. Muitas mulheres usam unhas postiças
em eventos sociais e depois as removem para trabalhar.
Alguns indivíduos excêntricos permitiram que as
unhas crescessem assustadoramente, tornando os
movimentos corriqueiros com as mãos extremamente
difíceis. Discar um número de telefone, por exemplo, torna-
se uma tarefa impossível. Uma mulher de Dallas se
orgulhava de exibir um total de 380 cm de unhas, das
quais a mais impressionante media 71 cm. Suas preciosas
unhas custavam-lhe de oito a dez horas na tarefa de pintá-
las. Depois de carregá-las por 24 anos, ela finalmente
decidiu cortá-las. Em seguida entregou-se ao prazer de
poder coçar-se e de dar um abraço em alguém.
As unhas femininas não crescem retas, mas se
curvam, e é isso que pode causar problemas. Uma mulher
da Geórgia, nos Estados Unidos, cometeu uma
contravenção e precisou tirar as impressões digitais na
delegacia. Quando o policial descobriu que isso seria
impossível com aquelas unhas de 15 cm de comprimento,
ordenou que elas fossem cortadas. A mulher se recusou a
cortar as unhas e teve que passar quatro noites na cadeia
enquanto a polícia tentava descobrir outra maneira de
obter suas impressões digitais.
Longas unhas podem facilmente se transformar em
armas de destruição. Uma mulher de Connecticut,
sentindo-se ultrajada ao descobrir seu parceiro na cama
com outra mulher, usou as unhas para se vingar. Foram
necessários 24 pontos para fechar a ferida na bolsa
escrotal.
Nos últimos anos, a pintura artística incrementou a
moda de longas unhas pintadas. Surpreendentemente,
existem hoje mais de 60 mil sites na internet dedicados a
esse assunto, e até mesmo uma enciclopédia de pintura
artística das unhas para quem quiser levar o assunto a
sério. Existem vários estilos de pintura, assim como unhas
de gel, unhas marmorizadas, unhas acrílicas, piercings de
pedras semipreciosas para unhas... A lista é infinita.
Muitas mulheres acham a pintura artística muito
exótica e adotaram um novo estilo: as unhas manicuradas
à francesa, que têm a aparência das naturais, mas com as
pontas destacadas por uma faixa branca. Outra moda é usá-
las curtas e pintadas de um esmalte quase negro. E assim a
moda continua criando novidades.
É fácil rir desses exageros decorativos das unhas
femininas, mas uma tradição que permanece há mais de 6
mil anos de uma forma ou de outra dificilmente
desaparecerá do dia para a noite. Desde que a mudança
não interfira na mobilidade e flexibilidade das mãos, não
há mal algum. E mesmo quando a moda prejudica os
movimentos manuais, o impacto social da decoração pode
ser tão gratificante para as mulheres que a adotam, que
compensa a perda de destreza. (Desde que não tenham a
sorte de uma mulher de Massachusetts, que teve a longa
unha presa na bilheteria automática de um
estacionamento e precisou esperar que a polícia viesse
libertá-la.)
14. Seios
Os seios tem despertado maior interesse erótico por
parte dos homens do que qualquer outra parte do corpo
feminino. Concentrar a atenção diretamente nos genitais
seria demais. Os seios são um meio-termo — uma região
proibida, mas não muito chocante.
Inúmeros nomes têm sido criados para os seios em
muitas línguas, mas em português eles costumam ser
chamados de mamas, peitos, pomos ou tetas.
Os seios femininos tem duas funções biológicas, uma
parental e outra sexual. Para a primeira função, eles
funcionam como duas gigantescas glândulas sudoríparas
que produzem um suor modificado que chamamos de leite.
Os tecidos glandulares que produzem leite incham durante
a gravidez, tornando os seios maiores e os vasos
sangüíneos que irrigam esses tecidos mais evidentes na
superfície da pele. À medida que vai se formando, o leite
passa por canais que levam a um reservatório chamado
seio lactífero, situado no centro da mama, por trás da
aréola amarronzada que circunda os mamilos. De cada
seio lactífero partem de quinze a vinte tubos, os ductos
lactíferos, em direção a cada mamilo.
Quando o bebê mama, pega o mamilo e a aréola na
boca apertando a pele escura com as gengivas e fazendo o
leite brotar do mamilo. Se espremer apenas o mamilo, não
produzirá o leite desejado, e pode reagir a essa frustração
mordendo o mamilo, o que não faz bem nem para a mãe
nem para o filho. Uma mãe experiente logo descobre que
pode evitar a dor causada pela mordida enfiando uma
parte maior do seio na boca do bebê.
A aréola que circunda o mamilo é um detalhe
anatômico curioso da espécie humana. Nas mulheres
virgens e naquelas que ainda não são mães, a aréola tem
uma coloração rosada que muda na gravidez. Cerca de
dois meses após a concepção, ela começa a se alargar e
escurecer. Na época do aleitamento, já exibe uma cor
marrom-escura, e mesmo quando o bebê é desmamado
não volta a apresentar o tom rosado virginal. A função das
aréolas parece ser de proteção. Elas contêm pequenas
glândulas, chamadas glândulas ou tubérculos de
Montgomery, que crescem durante a gravidez e segregam
uma substância oleosa. A olho nu, essas glândulas têm a
aparência de pele de galinha. A secreção das glândulas de
Montgomery protege o mamilo e a pele circundante — um
cuidado muito necessário à superfície dos seios.
O leite produzido pelos seios contém proteínas,
carboidratos, gordura, colesterol, cálcio, fósforo, potássio,
sódio, magnésio, ferro e vitaminas. Contém também
anticorpos que aumentam a resistência do bebê a doenças.
O leite de vaca é o substituto adequado ao leite materno,
mas tem um nível de fósforo bastante alto, o que pode
interferir na ingestão de cálcio e magnésio. Alguns bebês
apresentam reações alérgicas às proteínas bovinas.
Sabiamente, um maior número de mulheres estão
alimentando seus filhos no seio — o que tem a vantagem
extra fortalecer os laços emocionais entre a mãe e o bebê.
O leite materno é ideal para o desenvolvimento do
bebê, mas a forma dos seios está longe de ser perfeita para
a amamentação. O bico de uma mamadeira tem um
formato mais adequado à sucção do que o mamilo. Se isso
parece ser uma falha evolucionária, convém lembrar que
os seios femininos têm uma dupla função — parental e
sexual —, e é a função sexual que causa o problema. Para
entender como os seios deveriam ser, vamos dar uma
olhada nos seios de nossos parentes mais próximos,
macacos e chimpanzés.
Em todos os outros primatas, as fêmeas que não são
lactantes têm peitos chatos. Quando são lactantes, a
região ao redor dos mamilos se intumesce um pouco
devido à produção de leite, mas raramente toma a forma
hemisférica dos seios humanos. Nos peitos que se
aproximam da forma humana durante o período em que
contém um generoso suprimento de leite, o
intumescimento desaparece assim que termina a lactação.
Os "seios" das fêmeas primatas são unicamente parentais.
A espécie humana é diferente. Embora aumentem de
tamanho quando estão cheios de leite, os seios femininos
continuam protuberantes durante a vida adulta mesmo
que não exerçam sua função alimentar. Até uma freira tem
seios protuberantes, mesmo que eles não sejam usados
durante toda a vida.
Um exame da anatomia dos seios revela que a maior
parte de seu volume é constituída de tecido gorduroso,
enquanto apenas uma pequena parte é de tecido glandular
ligado à produção de leite A forma arredondada dos seios,
resultado do tecido gorduroso, exige uma explicação que
ultrapassa sua função de aleitamento. Embora seja claro
para um biólogo que essa explicação tem a ver com a
sexualidade, muitas mulheres recusam essa interpretação,
julgam ofensiva a idéia de que alguns aspectos do corpo
feminino possam ter evoluído até sua forma atual para
atrair o macho. Ignorando o fato de que a atração física
está envolvida em sua concepção, elas insistem que os
seios têm apenas a função parental e usam sua enge-
nhosidade para encontrar explicações não-sexuais para a
forma arredondada dos seios. Assim surgiram sete
sugestões:

O tecido gorduroso protege as glândulas mamárias.


Isso pode ser verdade durante a lactação, mas não explica
o persistente arredondamento dos seios em outros
períodos. E também não explica por que as fêmeas de
outras espécies primatas não precisam dessa ajuda.
O tecido gorduroso mantém o leite morno. Mais uma
vez, isso só é necessário durante a amamentação.

A forma arredondada dos sãos os torna mais


confortáveis para a alimentação do bebê. Simplesmente
não é verdade. Basta pensar no formato de uma
mamadeira.

A forma arredondada funciona como um sinal visual


que informa aos homens que aquela mulher será uma boa
fonte de alimento para a prole. Mais uma vez, não é
verdade. Mulheres de seios pequenos podem amamentar
com mais facilidade que as de seios enormes.

O tecido gorduroso é uma importante maneira de


estocar gordura para quando o alimento for escasso. Sim, é
verdade, mas por que concentrar esse estoque no peito, já
que seios fartos fazem com que a mulher tenha mais
dificuldade para correr? O corpo feminino tem uma
generosa camada de gordura na maior parte de sua
superfície, e essa reserva de gordura dispersa é a maneira
mais eficiente de ela se proteger contra a eventualidade de
uma fome. Além do mais, a gordura do seios representa
apenas 4% da gordura total do corpo, eéa que diminui
menos quando a mulher perde peso.

O tecido gorduroso compensa a falta de uma capa


maternal de pêlos à qual o bebê possa se agarrar quando
se alimenta. Não é verdade. Como qualquer mãe sabe, o
bebê tem que ser segurado junto ao seio, e, de qualquer
forma, um macio hemisfério de carne dificilmente ajudaria
a tornar o mamilo mais acessível.
A forma hemisférica dos seios é, de acordo com um
autor, "não-funcional, a ponto de ser antifuncional". Quando
todas as outras justificativas parentais falham, esta é a
última saída para aqueles que se recusam a aceitar que a
forma dos seios femininos é sexual.

A inevitável conclusão é que a forma hemisférica dos


seios não é parental, mas um sinal sexual. Isso significa
que teorias que consideram o interesse masculino pelos
seios femininos como "infantil" ou "regressivo" não têm
fundamento. O homem que reage aos seios de uma virgem
ou de uma não-lactante está respondendo a um primitivo
sinal sexual da espécie humana.
Não é difícil traçar a origem do par de seios como
símbolo sexual. As fêmeas das outras espécies primatas
emitem sinais sexuais com o traseiro enquanto caminham
sobre quatro patas. Seu traseiro protuberante excita os
machos. Os sinais traseiros emitidos pela fêmea humana
partem de outro par de hemisférios, as nádegas. Elas são
capazes de enviar fortes sinais eróticos quando a mulher é
vista de costas, mas ela não anda de quatro como as
outras espécies, com a região frontal escondida da vista.
Ela caminha ereta e é vista de frente na maioria das
situações sociais. Quando se coloca frente a frente com um
homem, as nádegas estão fora de seu campo de visão, mas
o par de falsas nádegas que ela traz no peito lhe permite
continuar transmitindo o primitivo sinal sexual sem dar as
costas ao interlocutor.
Essa função sexual dos seios tornou-se tão
importante que começou a Interferir na função parental
primordial. Os seios cresceram tanto em seu esforço para
imitar as nádegas que ficou difícil para um bebê
abocanhar o mamilo, Em outras espécies, os mamilos são
alongados, de modo que o bebê macaco não tem
dificuldade para levar a longa teta à boca e sugar o leite.
Mas o bebê humano pode se sufocar na montanha de
carne que circunda o modesto mamilo, e as mães precisam
tomar certas precauções que não são necessárias em
outras espécies. O dr. Spock aconselha: "Às vezes, você
pode precisar apertar o seio com um dedo para dar espaço
para o nariz do bebê respirar". Outro livro sobre bebês
comenta: "Pode surpreendê-la que o bebê pegue na boca
também o círculo amarronzado ao redor do mamilo. Tudo
o que você precisa fazer é ter certeza de que ele consegue
respirar. Em sua ansiedade, ele pode obstruir as narinas
com o tecido do seio ou com seu próprio lábio superior".
Cuidados como esses não deixam dúvida sobre o duplo
papel dos seios humanos.
Mulheres que têm seios pequenos costumam temer
não serem capazes de amamentar. Na verdade, elas podem
ser mais capazes de amamentar do que as mulheres de
seios fartos. Isso ocorre porque elas possuem menos tecido
gorduroso, que dá aos seios a sensual forma arredondada,
mas que pouco tem a ver com o suprimento de leite.
Quando a mulher engravida, o tecido glandular aumenta
mesmo na futura mamãe de seios pequenos, e seus bebês
terão mais facilidade de sugar e menos probabilidade de
sufocar.
Em seu papel sexual, os seios femininos atuam
primeiro visualmente, depois como estímulo ao tato.
Mesmo à distância, os seios permitem distinguir a silhueta
de uma mulher adulta da de um homem. De mais perto,
os seios são um sutil indício de idade. A forma dos seios
muda gradualmente da puberdade à velhice, e essa lenta
alteração no perfil dos seios pode ser resumida nas "sete
idades do seio feminino:

Os mamilos da infância. Só o mamilo se destaca nesse


estágio pré-pubere.
Os botões da puberdade. No início da fase reprodutiva,
quando a menstruação começa e os genitais já apresentam
pêlos púbicos, a região ao redor do mamilo começa a
inchar.

Os seios pontudos da adolescência. À medida que os


anos adolescentes passam, aumenta o tamanho dos seios.
Nessa fase, tanto o mamilo quando a aréola se projetam,
criando uma forma mais cônica.

Os seios firmes da juventude. A idade ideal do animal


humano do ponto de vista físico é de 25 anos. Nessa fase,
o corpo atinge sua melhor condição, e todos os processos
de crescimento estão completos. Durante essa década, os
seios femininos assumem uma forma mais arredondada e,
apesar do tamanho e do peso, ainda não começaram a cair.

Os seios fartos da maternidade. Com a maternidade e


o repentino aumento de tecido glandular, os seios fartos de
leite começam a pender para baixo, em direção ao peito. A
margem inferior do seio forma uma prega oculta.

Os seios caídos da meia-idade. À medida que a fase


reprodutiva se aproxima do fim, os seios caem um pouco
mais sobre o peito, mesmo tendo perdido o peso da fase de
lactação.

Os seios pendulares da velhice. Com a idade avançada,


o encolhimento geral do corpo leva a um achatamento dos
seios, que continuam caídos sobre o peito, mas com a pele
cada vez mais enrugada.
Esses estágios de envelhecimento dos seios podem
variar muito. Em mulheres mais magras, o processo tende
a ser mais lento, enquanto nas mais gordas ele se acelera.
A cirurgia plástica pode erguer os seios e deixá-los
artificialmente firmes depois da juventude. Os sutiãs
podem dar a mesma impressão, desde que os seios não
estejam visíveis. Ao longo dos anos, as mulheres
encontraram diversas maneiras de prolongar a impressão
de seios firmes e protuberantes com o intuito de estender
a fase na qual são capazes de transmitir o sinal sexual
primitivo da espécie humana.
Às vezes, a sociedade exigiu que a sexualidade
feminina fosse suprimida. Os puritanos conseguiam isso
obrigando as mulheres a usar coletes apertados que
achatavam os seios e davam um contorno infantil ao corpo
adulto. Na Espanha do século XVII, as jovens foram
vítimas do uma indignidade ainda maior, tendo os seios
achatados por placas de chumbo pressionadas contra o
peito, numa tentativa de impedir que a natureza seguisse
o seu curso. Essas cruéis imposições só serviram para
reforçar o significado sexual da forma arredondada dos
seios. Para que a sociedade chegasse a tais extremos para
negá-la, é porque ela devia ser de fato poderosa.
Felizmente, a maioria das sociedades prefere cobrir os
seios em vez de esmagá-los, aceitando isso como suficiente
sinal de modéstia. Nesse caso, a simples remoção da
cobertura tem funcionado como forte estímulo erótico, fato
que tem sido explorado por artistas e fotógrafos de várias e
diferentes maneiras. Para um pintor, é fácil criar um seio
perfeito: pode inventar a forma que quiser. Mas se a forma
se afastar muito da natural, o sinal sexual fica distorcido e
o impacto se perde. Mas se a forma hemisférica for
ligeiramente acentuada, será possível criar seios ainda
mais estimulantes que os reais.
Para o fotógrafo a tarefa já não é tão fácil. Limitado
aos seios reais, sua única esperança é criar a impressão de
maior volume com uma iluminação especial ou colocando
as modelos em posturas adequadas. Para captar a imagem
de seios volumosos, ele precisa ter como modelo uma
jovem cujos seios tenham alcançado seu ponto máximo de
desenvolvimento, pouco antes que o aumento de peso
comece a fazê-los cair. Existe um conflito de forças, porque
o aumento de tamanho que produz a forma esférica plena
também acarreta um peso que começa a empurrar os seios
para baixo. Só existe um momento na vida da mulher em
que os seios têm um máximo de protuberância com um
mínimo de flacidez, e é nesse momento que a câmara pode
captar as imagens mais eróticas.
Curiosamente, fotógrafos que trabalham para revistas
especializadas em fotos eróticas descobriram que só existe
um tipo de jovem com os seios perfeitos que eles buscam.
Ela é um pouco mais jovem do que poderíamos esperar,
porque ainda não chegou aos 20 anos, e seus seios
atingiram o tamanho máximo um pouco antes que a média
das mulheres: eles exibem a perfeita forma arredondada,
mas ainda mostram a firmeza da extrema juventude. Essa
especial combinação oferece as imagens que fazem a fortu-
na das revistas masculinas.
Depois que os seios da mulher — e seus outros
encantos físicos e mentais — atraíram um parceiro e o
contato sexual começa, as qualidade táteis dos seios
entram em jogo. Nas preliminares do sexo, o homem
acaricia oral e manualmente os seios. Isso o excita muito
mais do que à mulher, e é" possível que um estímulo
adicional esteja ocorrendo nesse momento. Já
mencionamos que os círculos amarronzados ao redor dos
mamilos contêm glândulas que secretam uma substância
oleosa durante a lactação. Essa substância parece ser um
suave lubrificante para a pele da região do mamilo, e não
há razão para duvidar disso. Mas o fato de as glândulas da
aréola serem, originalmente, glândulas apócrinas sugere
que, durante a atividade sexual, essa região dos seios
talvez seja capaz de transmitir sinais odoríferos ao nariz do
homem. As glândulas apócrinas são as responsáveis pelos
odores sexuais das axilas e dos genitais, e, embora os
homens não tenham consciência dos aromas eróticos que
elas produzem, suas secreções causam um forte impacto
inconsciente que aumenta a excitação sexual. As
glândulas da aréola podem muito bem fazer parte desse
sistema primitivo de sinais aromáticos sexuais, e podem
explicar por que o homem, ao explorar o corpo da parceira,
passa tanto tempo cheirando a pele ao redor dos mamilos.
À medida que a excitação cresce, os seios da mulher
passam por várias mudanças marcantes. Os mamilos
ficam eretos, chegando a crescer 1 cm. Os seios se
intumescem de sangue, e seu tamanho aumenta cerca de
25%. Essa turgidez tem o efeito de tornar a pele mais
sensível ao contato corpo-a-corpo do parceiro.
Com a aproximação do orgasmo, duas importantes
mudanças ocorrem. As aréolas se intumescem e incham
tanto que começam a ocultar o mamilo, dando a falsa
impressão de que uma mulher muito excitada perde a
ereção do mamilo. Ocorre também uma erupção da pele
semelhante à rubéola na superfície dos seios e em rodo o
peito. Essa "erupção sexual" foi observada em 75% das
mulheres submetidas a uma detalhada pesquisa sexual. É
bem menos comum em homens, mas apareceu em 25%
dos homens que participaram da mesma investigação. Sua
ocorrência é mais provável, em ambos os sexos, no
momento imediatamente anterior ao orgasmo. Nas
mulheres, porém, às vezes aparece um pouco antes dele,
enquanto nos homens ela nunca surge antes do último
momento. Embora essa erupção não seja possível sem
uma forte excitação sexual, o contrário não é verdade.
Muitas pessoas de ambos os sexos nunca exibiram essa
erupção apesar de uma vida de intensa atividade sexual e
orgasmos plenos. Não se sabe a razão dessa diferença. Um
fator que favorece a erupção é um clima quente. No frio,
indivíduos que costumam apresentar a erupção não a têm.
Quando está muito quente, porém, a erupção pode se
estender além do peito, cobrindo da testa às coxas.
Um dos fatos que temos como certo é que as fêmeas
humanas possuem apenas dois seios, mas nem sempre
isso é verdade. Uma em cada duzentas mulheres possui
mais que dois. Esse fenômeno e chamado de polimastia.
Não há nada de sinistro nisso, e os seios adicionais
geralmente não são funcionais. Às vezes, nada mais são do
que mamilos adicionais; outras, pequenos botões sem
mamilos. Muito raramente se vê uma mulher com mais de
dois seios produzindo leite. O caso mais extraordinário é o
de uma francesa apresentada à Academia Francesa de
Medicina cm 1886 por um professor. Ela tinha nada
menos que cinco pares de seios plenamente lactantes.
Alguns meses depois, em uma das mais estranhas
disputas médicas, um acadêmico rival foi capaz de
apresentar uma mulher polonesa que tinha dez seios
funcionais.
Esses seios extras são vestígios de nossa
ancestralidade: como a maioria dos outros mamíferos,
nossas remotas ancestrais possuíam vários pares de seios,
com os quais amamentavam toda a ninhada. Quando as
ninhadas humanas se reduziram a um filho,
ocasionalmente dois, os número de mamilos diminuiu.
Muitas mulheres famosas tinham mais de dois seios.
Júlia, mãe do imperador romano Alexandre, tinha vários
seios e por isso foi chamada de Júlia Mamaea.
Surpreendentemente, uma observação mais detalhada
revela que a famosa estátua da Vênus de Milo, que está
exposta no Louvre, exibe três seios. Esse fato costuma
passar despercebido porque o terceiro seio não tem
mamilo e não passa de uma pequena protuberância
situada acima do seio direito, próxima à axila. Dizia-se que
a infeliz esposa de Henrique VIII, Ana Bolena, também
tinha um terceiro seio — um fato fielmente registrado em
livros sobre anormalidades médicas. Nesse caso, porém, o
suposto terceiro seio bem podia ser uma mácula de
"bruxaria". Houve um tempo em que se acreditava que as
bruxas tinham mamilos extras com os quais alimentavam
seus seguidores. Mulheres suspeitas de bruxaria eram às
vezes examinadas em busca de sinais de seus métodos
malignos. Os caçadores de bruxas cristãos examinavam as
mais recônditas fendas de uma suspeita em busca de um
mamilo oculto. Uma verruga, uma mancha um pouco
maior ou mesmo um clitóris ligeiramente mais volumoso
podia ser suficiente para levar a mulher à morte da
fogueira. Os rumores sobre o terceiro seio de Ana Bolena
podem ter sido propositalmente espalhados depois de sua
morte para justificar que ela era má e merecia morrer.
A figura polimástica mais famosa da historia é
Diana — ou Ártemis — de Éfeso. Sua grande escultura
mostra várias fileiras de seios. Algumas versões da estátua
chegam a mostrar mais de vinte. Serão mesmo seios? Um
olhar mais atento revela que nenhum desses seios tem
mamilo ou aréola. Recentemente, o culto dessa deusa da
Anatólia foi estudado com mais cuidado, fazendo surgir
uma interpretação inteiramente nova. Para resumir o caso,
o peito de Diana seria um lugar muito menos
aconchegante do que há tanto tempo se supõe. Parece que
os sacerdotes da deusa deviam ser eunucos: para servi-la,
tinham que se castrar e enterrar os testículos perto do
altar. Foram encontradas inscrições que revelam que,
depois de algum tempo, testículos de touro substituíram
os testículos dos sacerdotes nas cerimônias de castração.
Seus imensos testículos eram extraídos e preservados em
óleos aromáticos, e depois cerimoniosamente pendurados
no peito da sagrada estátua. A estátua original era de
madeira, mas foram feitas cópias em pedra, com a penca
de testículos colocada em seu devido lugar. Foram cópias
imprecisas da estátua que deram origem ao erro de que a
Grande Mãe possuía muitos seios. A razão pela qual o
peito da deusa é coberto de testículos era a crença de que
os milhões de espermatozóides neles contidos seriam
capazes de fertilizá-la. Isso permitia que ela se tornasse
mãe sem perder a virgindade, um tema que seria repetido
em relação ao nascimento de Cristo.
Um mito inteiramente diferente envolve a antiga
nação de mulheres guerreiras conhecidas como amazonas.
Não se sabe se elas existiram realmente, mas, segundo
antigos escritores, existiu uma comunidade feminina
muito temida pela forma como suas guerreiras atacavam as
povoações vizinhas munidas de arco e flecha. Conta-se que,
para tornar mais fácil o uso do arco, o seio direito de todas
as jovens púberes era queimado. Apesar da lenda, todas as
obras de arte representam essas guerreiras com dois seios.
Se as amazonas existiram mesmo, é mais provável que,
para a batalha, usassem um colete de couro que achatasse o
seio direito. A palavra "amazona" vem do grego amazôn,
que significa a (sem) e mazós (seios).
Curiosamente, em anos recentes as mulheres
ocidentais começaram a mutilar os seios com propósitos
eróticos e decorativos. São casos raros, mas
suficientemente disseminados para alarmar os sociólogos,
um dos quais declarou que a nova moda de "inserir
piercings nos mamilos, no umbigo e nos lábios, assim
como o uso de correntes e jóias", poderia facilmente es-
timular uma legislação que proibisse o costume africano
de circuncisão feminina. O uso de piercings faz parte da
síndrome de aprisionamento do mundo das práticas
sexuais exóticas. Nas sociedades tribais, a mutilação do
seio é extremamente rara, pelo motivo óbvio de que ela
prejudica a amamentação.
Menos danosas eram as decorações eróticas dos
mamilos de tempos primitivos. Há 3 mil anos, oo Egito, as
mulheres das castas superiores cobriam os seios com
pinturas em ouro. Na Roma de 2 mil anos atrás, as mulhe-
res preferiam pintar os mamilos de vermelho para
apimentar os encontros eróticos. A ninfomaníaca
imperatriz Messalina, esposa do imperador Cláudio, era
famosa por seus mamilos pintados de vermelho, como co-
mentou o satirista Juvenal: "Todas as noites ela se
encapuzava e, na companhia da criada, o deixava para
representar sua desavergonhada mascarada. [...]
Desnudava os mamilos pintados e abria aquelas coxas que
assistiram ao nascimento do nobre Britannicus".
Entre as deliberadas ações destinadas a chamar a
atenção para os seios femininos estão as posturas que
projetam os seios para a frente e movimentos de dança
que sacodem ou enfatizam a sua forma. A mais extrema
delas foi uma dança praticada nos antigos espetáculos de
burlesco em que as dançarinas giravam ambos os seios na
mesma direção e depois na direção oposta.
A forma mais simples de exploração sexual dos seios
é, naturalmente, sua exposição em lugares onde eles
deveriam estar cobertos. Isso ocorre nas sociedades
urbanas de todo o mundo. "Fazer topless" é um ato provo-
cativo que sempre atraiu muita atenção masculina. Às
vezes, os homens em questão eram policiais uniformizados,
como acontecia nas praias do sul da França nos anos
1960, onde muitas jovens, decididas a obter um bronzeado
mais uniforme, resolveram ir à praia num traje de banho
que tinha apenas a parte de baixo do maiô e suspensórios
que passavam pelos bicos dos seios, os chamados
monoquínis. No início, travaram-se batalhas entre
constrangidos policiais e mulheres seminuas, mas em
pouco tempo as autoridades perderam a guerra, e o
topless acabou sendo permitido.
O primeiro maiô topless foi introduzido pelo
controverso estilista austríaco Rudi Gernreich em 1964.
Nos Estados Unidos, um desses trajes foi usado por uma
dançarina de cabaré em seu número de dança, lançando a
primeira performance topless. Outras casas noturnas logo
seguiram o exemplo, mas no ano seguinte a oposição
religiosa cresceu, e a polícia percorria os cabarés,
prendendo as dançarinas topless por "conduta indecorosa".
Elas eram então libertadas e voltavam ao trabalho. Em
1966, alguns restaurantes de Nova York lançaram
garçonetes topless, mas em poucos dias a Prefeitura da
cidade as colocou fora da lei. Em 1969, Ronald Reagan
tomou uma atitude semelhante na Califórnia. Só na
década de 1970 a resistência ao topless começou a decair.
Mesmo então, foram estabelecidos limites sobre como,
quando e onde ele podia ser usado.
Curiosamente, um ato tão natural e assexuado como
a amamentação às vezes cria um escândalo em ambientes
urbanos. Em 1975, três mulheres americanas foram
presas por amamentar seus bebês num parque de Miami.
Seu crime foi classificado como "atentado ao pudor". As
objeções a essas prisões aumentaram nos anos seguintes,
c hoje amamentar em público é legalmente permitido em
quase toda a América do Norte.
Na década de 1980, observou-se uma outra forma de
exposição pública dos seios. Exigindo igualdade sexual,
grupos de mulheres expunham deliberadamente os seios
em locais públicos, insistindo em serem tratadas como os
homens, que podiam tirar a camisa sem problemas. (Por
outro lado, alguns homens se recusavam a usar colarinho
e gravata nos restaurantes de alto padrão porque as
mulheres não eram obrigadas a isso.) Essa extrema
reivindicação de igualdade sexual não era exatamente o
que os reformadores sociais tinham em mente quando
tentaram abolir as desigualdades de gênero.
Quando o século XX se aproximava do final, seios nus
já eram exibidos em jornais, revistas, filmes e, mais tarde,
também na televisão. Nos shows de strip-tease, eles eram
literalmente esfregados no nariz dos clientes. Com tudo
isso, embora os seios nus ainda causem um certo impacto,
parte de seu misterioso poder de sedução se perdeu.
Convém enfatizar que essa atitude mais permissiva
em relação ao topless se restringe ao mundo ocidental.
Mesmo no século XXI, mulheres ocidentais em férias se
viram em apuros por ignorar esse fato. Recentemente, em
2003, uma adolescente inglesa foi condenada a oito meses
de prisão, ou uma multa de 2.800 euros, por expor os
seios numa boate na ilha grega de Rodes. Ela foi acusada
de "desrespeitar os valores morais locais", o que prova que
o tabu sobrevive.
Antes de abandonar o tema da exposição dos seios
femininos, um fato extraordinário merece menção. Diz
respeito à aprovação de uma lei que determinava que os
seios fossem exibidos em público — o extremo oposto de
todas as outras medidas legais sobre o assunto. Essa lei
foi aprovada em Veneza no século XV e aplicada às
prostitutas que se punham à janela tentando atrair
clientes. As práticas homossexuais eram tão comuns na
época que algumas mulheres se travestiam com a intenção
de atrair os homens que buscavam parceiros masculinos.
Isso ofendeu de tal forma as autoridades que tentavam
abolir a sodomia (punida com a morte), que as prostitutas
foram obrigadas a exibir totalmente os seios para provar a
que sexo pertenciam. Quando saíam de casa, havia uma
ponte onde elas se punham de pé, desnudando o corpo da
cintura para cima. A ponte ficou tão famosa que ganhou o
nome de Fonte delle Tette.
Uma breve referência se faz necessária para
esclarecer o mal-entendido sobre antigas imagens da
Deusa Mãe representadas apertando os seios com as mãos.
Acreditava-se que elas estariam chamando a atenção para
os seios. Hoje sabemos que não era isso. Essas figuras,
geralmente encontradas em túmulos, eram imagens de
luto. Em tempos primitivos, as mulheres realizavam um
ritual de luto que incluía bater no peito e apertar os seios.
Um efeito colateral disso era que, se elas estivessem
amamentando, um jato de leite jorrava dos seios. É
possível que esse ato tenha sido incorporado a certos
rituais. Antropólogos descobriram, surpresos, que em
certas sociedades tribais, as mulheres lactantes reagiam
de maneira semelhante a um súbito choque, agarrando os
seios e fazendo-os jorrar leite.
Finalmente, resta uma inevitável questão: o que as
mulheres fazem em relação aos seios para passar uma
imagem mais jovem e mais sexy. Durante séculos, elas
usaram espartilhos apertados para realçá-los. Entretanto,
embora esses corpetes melhorassem a forma dos seios,
também restringiam os movimentos. Quando as mulheres
começaram a reivindicar um papel mais ativo na sociedade,
exigiram também roupas que permitissem maior liberdade
de movimentos. Um dos primeiros passos nessa direção foi
dado no início do século XX, quando o sufocante corpete
foi separado em duas partes: uma superior, o sutiã, e
outra inferior, a cinta. Mais tarde, a cinta também
desapareceu, mas o sutiã veio para ficar. Hoje, o sutiã e as
calcinhas são as peças favoritas da roupa de baixo
feminina.
Há divergências entre os historiadores da moda sobre
quem inventou o sutiã. Mary Phelps Jacob (uma mulher
da sociedade nova-iorquina conhecida profissionalmente
como Caresse Crosby) insistia que foi ela a autora da
invenção, da qual obteve a patente em 1914. A idéia lhe
teria surgido no ano anterior, quando se vestia para ir a
uma festa e descobriu que o espartilho era incompatível
com o decote de seu belo vestido de noite. Num rasgo de
criatividade, usando dois guardanapos e alguns cordões,
uniu as duas peças no que seria o primeiro sutiã.
Na verdade, ela estava apenas reinventando a peça,
porque suportes para os seios já tinham aparecido na
França desde o final do século XIX, e desde 1907 eram
chamados de "brassière". O costureiro francês Paul Pioret
reivindica a honra de ter inventado o sutiã: "Em nome da
Liberdade, proclamei a queda do espartilho e a adoção da
brassière. [...] Libertei o busto". E ele não foi o único. A
estilista inglesa Lucile (Lady Duff-Gordon), que introduziu
o termo "chic" no mundo da moda, alega que foi ela que,
em 1911, "inventou a brassière em oposição ao odioso es-
partilho".
A verdade é que todos eles participaram de uma
tendência geral que assistiu à libertação gradual do corpo
feminino das antigas limitações. E receberam estímulo de
uma fonte improvável. Durante a Primeira Guerra Mundial,
a indústria de guerra, alarmada com a quantidade de
metal que estava sendo desperdiçada na fabricação de
espartilhos, iniciou uma campanha para abolir o seu uso e,
dessa forma, estimulou a adoção do sutiã. Mais tarde, foi
divulgado que 28 mil toneladas de metal haviam sido eco-
nomizadas, "o suficiente para construir dois navios de
guerra".
O novo sutiã tinha duas funções bastante distintas.
Protegia os seios, evitando que eles balançassem nos
movimentos rápidos do corpo, e também os fazia parecer
mais firmes e redondos, e portanto mais sexy. Quando
algumas feministas queimaram sutiãs no fim da década de
1960, protestavam contra essa segunda função.
Algumas historiadoras do feminismo alegam que a
queima de sutiãs nada mais foi do que um golpe de
publicidade dos antifeministas para ridicularizar o
movimento. Essa afirmação causa estranheza, porque,
embora a queima tenha sido exagerada pela imprensa, no
final dos anos 1960 e início da década de 1970 houve de
fato um movimento contra o uso do sutiã, lado a lado com
a revolta contra o excesso de maquiagem, o uso de batom
e outras formas de feminilidade explícita. Nessa época,
quando as feministas lutavam para que as mulheres
fossem tratadas como iguais, havia o sentimento de que os
homens deviam aceitar as mulheres como eram, sem
embelezamentos. Como o uso do sutiã era parte desse
embelezamento, tinha que ser abolido. Essa fase não
durou muito, porque o desconforto de dispensar o sutiã foi
inaceitável para a maioria das mulheres, e, com isso, a
queima de sutiãs foi rapidamente esquecida.
Em sua função erótica, o design do sutiã sempre
buscou criar uma forma hemisférica, mas houve um
curioso período na década de 1950 em que os estilistas
substituíram a forma arredonda por um busto pontiagudo,
obtido com "um bojo na forma de torpedo, que desafiava a
natureza e a gravidade", ainda mais aumentado com o uso
de enchimentos. Mas esses seios agressivamente
pontiagudos logo deram lugar ao suave arredondado dos
seios dos anos 1960 e nunca mais reapareceram no guarda-
roupa comum. Só voltaríamos a vê-los de novo em 1994,
num show de Madonna, onde ressurgiram como um par de
ogivas de foguete.
Segundo uma lenda de Hollywood, um dos sutiãs
mais sofisticados foi criado pelo bilionário Howard Hughes
para a atriz Jane Russell. Para um determinado papel
num filme, ele queria que ela exibisse seios de forte apelo
erótico sem recorrer ao topless. Para obter esse efeito,
contratou os serviços de um engenheiro especializado no
projeto de pontes, que inventou um protótipo de sutiã que
erguia e ao mesmo tempo separava os seios. O resultado
foi tão impressionante que provocou sérias tentativas de
proibir o filme por obscenidade. (Essa é a história que vem
sendo repetida, mas recentemente uma idosa Jane Russell
declarou que, na verdade, nunca usou o famoso sutiã.)
Tanto os antigos espartilhos quanto os modernos
sutiãs podem realçar os seios, mas, quando a mulher tira
a roupa, um recurso mais drástico pode ser necessário. E
aí entra em cena o cirurgião plástico. A colocação de
implantes para fazer os seios permanecerem redondos e
firmes começou nos anos 1960. O primeiro implante de
uma prótese de silicone foi realizada por um cirurgião
plástico do Texas em 1963. A cirurgia se tornou cada vez
mais popular nas décadas de 1970 e 1980, até que na
década de 1990 houve um boom desse procedimento, com
mais de 100 mil cirurgias por ano. Calcula-se que, no ano
de 2002, mais de 1 milhão de americanas tiveram os seios
aumentados pela cirurgia. É um número assustador para
qualquer tipo de cirurgia plástica, o que revela a força dos
seios como símbolo sexual.
Infelizmente, os seios obtidos por cirurgia nunca são
totalmente convincentes ao olhar ou ao tato. Às vezes, são
perfeitos demais e não possuem o movimento e a
suavidade que deveriam ter. Por isso, o século XXI está
assistindo ao início de uma tendência contrária. Em 2001,
nada menos que 4 mil mulheres americanas se
submeteram a uma nova cirurgia para remover os
implantes de silicone. Isso alarmou alguns cirurgiões
plásticos que enriqueceram como criadores de superseios,
mas parece estar havendo uma volta aos seios naturais,
ainda que eles sejam menores.
Espera-se que, neste período pós-feminista, os
homens estejam começando a escolher suas parceiras
mais pela personalidade do que pelo tamanho do busto,
mas infelizmente nem sempre isso acontece. Algumas mu-
lheres admitem que estão removendo seus implantes
simplesmente porque eles já cumpriram sua função.
Adquiridos para conseguir um marido de alta condição
social, eles se tornam desnecessários quando a mulher se
acomoda na vida de casada.
Algumas mulheres lamentam ter se submetido a esse
tipo de cirurgia para agradar a um marido potencial. Uma
advogada resumiu o motivo da "reversão" cirúrgica dizendo
que, depois do divórcio "a primeira coisa de que me livrei,
depois de seu cão malcheiroso, foi do maldito busto. [...]
Senti que meu QI saltou vinte pontos".
15. Cintura
Um dos sinais mais claros que identificam o corpo
feminino é a forma de ampulheta de seu tronco. Essa
cintura fina parece ainda mais delgada pelo volume dos
seios e dos quadris, mas, mesmo sem esse contraste, a
cintura feminina é mais fina que a masculina.
A maneira mais comum de expressar a curva da
cintura é medi-la em proporção aos quadris. Os resultados
são interessantes. Para uma mulher adulta, a proporção é
de 7:10, enquanto para o homem adulto é de 9:10, uma
diferença que se mantém apesar das diversidades
culturais. Se uma determinada sociedade acha uma figura
mais volumosa atraente e outra prefere figuras mais
delgadas, isso não afeta a proporção entre cintura e
quadris. Homens e mulheres, gorduchos ou magrelas,
continuam apresentando uma acentuada diferença no
tamanho da cintura.
Livre do aperto das cintas e dos espartilhos, a cintura
das mulheres de hoje tem em média 71cm. Jovens de
corpo delgado, como as modelos e misses, têm em média
61 cm de cintura, enquanto as atletas de esportes que
exigem força muscular apresentam uma cintura um pouco
mais larga, de cerca de 74 cm.
Naturalmente, para que o corpo feminino revele um
belo contorno, esses números precisam ter uma relação
harmoniosa com as medidas de busto e de quadril. É a
proporção entre essas três medidas que gera o contorno
típico do corpo feminino.
Uma jovem eleita num concurso de beleza costuma
ter uma figura perfeitamente equilibrada, com medidas
idênticas de busto e quadril. Geralmente, a típica rainha
de beleza mede 91-61-91 cm. Uma modelo preferida pelos
estilistas atuais provavelmente medirá 76-61-84 cm. Essa
modelo pode ter um rosto belíssimo e saber vestir uma
roupa, mas não terá o contorno de ampulheta que atrai o
olho primitivo do macho.
A típica mulher inglesa tem um problema um pouco
diferente, já que suas medidas são 94-71-99 cm. Seu
quadril, sendo 5 cm mais largo que o busto, apresenta o
que chamamos de "2 polegadas a mais". Essa diferença é
ainda maior em outros países europeus. Na Alemanha e na
Suíça, é de 6 cm, e na Suécia e na França, de 8 cm.
A situação se inverte nas garotas que ilustram as
revistas americanas. As medidas de uma típica pin-up são
94-61-89. Em lugar do excesso de quadris, são 2
polegadas a mais no busto. Seus seios são do mesmo
tamanho que os das européias, mas parecem maiores
porque a cintura e os quadris são menores. Geralmente,
são consideradas "peitudas", mas isso é só uma ilusão
criada pelo tamanho da cintura e dos quadris.
Pode-se argumentar que "estatísticas" como essas são
desatualizadas e irrelevantes. Os organizadores dos
concursos de beleza não ousam mencioná-las na nossa
sociedade pós-feminista, mas a verdade é que elas
continuam a desempenhar um papel fundamental nas
relações humanas. Numa recente pesquisa, várias
silhuetas femininas de proporções variadas e em tamanho
natural foram expostas em fila num shopping center, e os
homens que passavam por ali eram solicitados a dizer de
qual delas eles mais gostavam. A grande maioria escolheu
a figura curvilínea de cintura fina e proporções
equilibradas. O veredicto desses homens selecionados
aleatoriamente reforça a opinião de que a imagem da
mulher curvilínea de cintura fina está demasiadamente
arraigada na psique masculina para ser varrida por uma
postura cultural moderna.
Como aconteceu com outras partes do corpo feminino,
houve exageros. Acreditava-se que, se uma cintura fina era
feminina, então uma cintura finíssima devia ser
superfeminina, e no passado muitas jovens sofreram para
conseguir essa condição.
A razão para a cintura fina despertar tanto interesse é
simples e biológica. Depois que a mulher tem seu primeiro
parto, a cintura sempre se alarga um pouco. Mesmo que
ela consiga, com um regime alimentar rigoroso, recuperar
o corpo esbelto que tinha antes da gravidez, a cintura
nunca mais vai ser tão fina como era. Isso acontece devido
às irreversíveis mudanças que ocorrem na região
abdominal quando ela se torna mãe. Calcula-se que,
depois de vários partos, a cintura da mulher aumente de
15 a 20 cm em média. Por isso, a cinturinha fina tem sido
há séculos símbolo de virgindade — de uma mulher que já
está preparada para o sexo mas ainda não o experimentou.
Essa condição exerce tal atração sobre o macho reprodutor
da espécie que muitas mulheres, mesmo aquelas que já
não a possuem, anseiam recuperá-la, mesmo que de uma
maneira simbólica.
Para conseguir isso, há séculos a mulher espreme a
cintura com cintas apertadas e espartilhos, dando margem
a acaloradas discussões. Os argumentos não são nada
simples. Não se trata de um debate entre puritanos e
hedonistas, como ocorre em relação a tantos aspectos da
moda feminina.
Entre os que se opunham radicalmente ao culto da
cintura fina obtida por esses acessórios havia religiosos e
liberados. Voltando ao século XVII, foram os puritanos os
primeiros a atacar. Defendiam vigorosamente a teoria de
que qualquer tentativa de mudar a obra da natureza no
corpo feminino era uma ofensa a Deus. Em 1654, John
Bulwer vociferava contra "os perigosos modismos e
desesperados artifícios em relação à cintura". Descrevia
um espartilho como "uma moda perniciosa inimaginável" e
lançava ameaças às mulheres que "se apertavam para
conseguir uma cintura fina, e não se contentavam
enquanto não pudessem rodeá-la [com as próprias mãos]".
Se ignorassem seus conselhos, elas estariam "abrindo a
porta para a tuberculose e para uma putrefata decadência".
Essa idéia foi repetida inúmeras vezes nos anos
seguintes. O subtítulo de um livro sobre os perigos de
apertar a cintura, publicado em 1846 pelo escritor
americano Orson Fowler, referia-se "aos males infligidos à
mente e ao corpo quando se comprimem os órgãos,
retardando e enfraquecendo dessa forma as funções vitais".
No lugar da putrefata decadência de Bulwer, Fowler
prometia a insanidade e a degeneração.
Outros críticos menos extremados também revelaram
seu temor de complicações médicas provocadas pelo
aperto dos espartilhos. Entre as doenças relacionadas
escavam dores de cabeça, desmaios, hérnia, mau
funcionamento do fígado, aborto, dificuldades respiratórias
e problemas circulatórios. Alguns chegavam a ponto de
incluir deformidades ósseas, câncer, insuficiência renal,
malformações fetais, epilepsia e esterilidade. Um autor
vitoriano listou nada menos que 97 doenças que, segundo
ele, podiam ser causadas pelo uso de corpetes apertados.
Todas essas advertências em relação à saúde eram
desnecessárias, porque a maioria das jovens que usavam
espartilhos eram suficientemente sensatas para não
apertá-los demais ou usá-los por longos períodos de tempo.
Era óbvio que o espartilho muito apertado podia prejudicar
a respiração e a circulação, além de causar dores de
cabeça, desmaios e falta de ar. O uso prolongado também
podia enfraquecer os músculos das costas, de modo a
provocar dor quando o espartilho era removido, Mas um
espartilho não muito apertado, usado apenas em ocasiões
especiais, podia criar a cintura fina desejada sem causar
doenças, e era isso que a maioria das jovens fazia, apesar
das histórias de horror.
Um ataque completamente diferente veio das
liberadas dos tempos modernos. Para elas, a idéia de usar
qualquer roupa apertada era um insulto a liberdade
feminina. A limitação física não era apenas prejudicial ao
corpo, mas também símbolo de uma prisão mental em
relação ao macho. O espartilho apertado seria um
instrumento de tortura imposto às mulheres submissas
como parte da opressão masculina.
Se a mulher moderna queria ondular o corpo de
maneira provocante numa pista de danças, não podia
tolerar nenhuma roupa apertada. Se queria ter igualdade
sexual durante as preliminares, tinha que ser tão flexível e
solta quando seu parceiro. Se queria ter uma cinturinha
fina, tinha que consegui-la correndo ou fazendo exercícios,
em vez de recorrer à solução passiva de se prender dentro
de um corpete apertado. Em sua busca de admiração
masculina, tinha que substituir a disciplina inativa da
roupa pela disciplina ativa da atividade física.
A feminista inteligente também queria liberdade para
o corpo, mas por uma razão diferente. Para ela, o objetivo
era desviar a atenção masculina do corpo e dirigi-la para
as qualidades do cérebro. Para impressionar o parceiro, ela
usaria sua capacidade intelectual, e não seu potencial
reprodutivo. Portanto, qualquer tentativa de exagerar sua
silhueta feminina era proibida.
Essas eram as vozes que se erguiam contra o desejo
de melhorar o natural contorno curvilíneo do corpo
feminino. Contra elas, alinhavam-se os defensores do
espartilho e seus vários pontos de vista.
Primeiro, alegavam que o uso de um espartilho
apertado mostrava disciplina e representava
simbolicamente uma louvável contenção. Em segundo
lugar, diziam que o espartilho era sinal de respeitabilidade
e altos princípios morais, porque ajudava a tornar a mulher
inacessível. Ele seria uma armadura contra a
atenção masculina. A cintura fina podia excitar os olhos
dos homens, mas o corpete apertado por um complexo
entrelaçamento de cordões deixava o corpo desnudo muito
mais distante.
Nos primeiros tempos, o espartilho também era
importante para exibir uma postura aristocrática. A
mulher apertada dentro de um corpete era obrigada a
adotar uma postura ereta que lhe dava um ar de graciosa
altivez. O que a ajudava a manter o tronco ereto era uma
barbatana enfiada verticalmente na parte da frente do
espartilho. (Dizia-se que ela servia também como arma
com a qual a mulher podia se defender de algum ad-
mirador que perdesse o controle e tentasse soltar os
cordões.)
Dentro de um espartilho, a mulher também dava a
impressão de estar vulnerável (apesar da barbatana) como
um animal preso numa armadilha. O corpo enjaulado
restringia sua capacidade de fugir a alta velocidade. Era
inevitável que isso atraísse o macho, que
inconscientemente vivia a fantasia de que seria fácil
capturá-la se decidisse persegui-la.
Para alguns homens, esse aprisionamento dentro do
espartilho funcionava como um apelo fetichista. A atração
do corpete não estava apenas na silhueta que ele criava,
mas também no conhecimento tácito de que a mulher
admirada estava sofrendo uma tortura física para agradar
a seu admirador. Por isso, é fácil entender por que os
corpetes se tornaram um elemento da encenação
sadomasoquista.
Para resumir, diremos que tanto os puritanos quanto
os libertinos tomam partido pró e contra os espartilhos. A
presença do corpete pode ser vista como uma prisão ou
como um estímulo à sensualidade; sua ausência pode
construir a imagem de uma mulher natural e liberada ou
de uma libertina.
Tal é o interesse na espessura reduzida da cintura
feminina que dois mitos surgiram nos tempos modernos.
O primeiro é que, antigamente, em conseqüência do uso de
corpetes apertados, a preocupação com as medidas era
generalizada. Na época vitoriana, por volta do fim do
século XIX, uma jovem atraente era aquela cuja cintura
medisse em polegadas o número exato de sua idade. Um
provérbio espanhol recomendava que a mulher tivesse
uma cintura tão fina quanto a de um galgo. E um velho
provérbio dizia que a mulher ideal era aquela cuja cintura
fosse "tão fina que o sol não pudesse captar sua sombra".
Acreditava-se que cinturas que mediam entre 38 a 41
cm eram comuns e podiam ser alcançadas se a mulher
começasse a usar espartilhos apertados desde muito cedo,
antes da puberdade. Caricaturas dos séculos XVIII e XIX
mostram mulheres sendo brutalmente apertadas dentro de
um espartilho até a cintura desaparecer. Recentemente,
porém, cuidadosas pesquisas desmentiram essa crença. O
primeiro golpe foi dado em 1949, quando um detalhado
estudo sobre a indumentária de séculos anteriores
descobriu que a menor medida de cintura encontrada
numa imensa coleção de roupas era de 61 cm. Em 2001,
uma nova pesquisa confirmou esse fato. A menor medida
de cintura encontrada no vestuário do século XVIII foi de
61 cm. É verdade que as coisas pioraram um pouco no
século XIX, graças à invenção dos ilhoses de metal, que
permitiam uma amarração mais firme, mas ainda assim a
menor medida registrada foi de 46 cm. Na época vitoriana,
no auge da moda dos espartilhos com ilhoses, as medidas
variavam de 46 a 76 cm.
Isso não significa que cinturas diminutas não tenham
existido, mas que, se elas existiram, eram casos isolados.
Mesmo no século XX, exemplos extremos foram
registrados: o Guinnes Book of Records menciona uma
inglesa que conseguiu reduzir sua cintura de 56 cm em
1929, quando tinha 24 anos, a surpreendentes 33 cm em
1939. Depois disso, ela viveu mais 43 anos, o que prova
que, pelo menos no seu caso, o brutal aperto não causou
nenhum dano aos órgãos internos. Vale ressaltar que essa
mulher foi uma excêntrica exceção à regra, e não
representava uma tendência social. As mulheres podem
desejar uma cintura mais fina devido aos sinais primitivos
que ela transmite, mas não devem ir longe demais para
consegui-la, caso contrário isso pode se transformar numa
obsessão capaz de transtornar o equilíbrio da vida. As
poucas mulheres que foram longe demais em séculos
passados têm suas equivalentes modernas nas fanáticas
por regime de hoje. Mas a grande maioria das mulheres
nunca chegou a esses extremos, e afirmações em contrário
constituem um dos maiores mitos da história da moda.
O segundo mito é que, na busca da cintura perfeita,
as mulheres vitorianas chegavam a se sujeitar a perigosas
operações para remoção de costelas. Livros de história da
moda afirmaram categoricamente que, no fim do século
XIX, algumas mulheres estavam obtendo a perfeita figura
de ampulheta depois de terem as costelas inferiores
removidas cirurgicamente. Os autores não davam detalhes,
mas incluíam algumas fotos para ilustrar as cinturas
assustadoramente finas obtidas por esse meio. Muitos
autores posteriores (inclusive eu, em O macaco nu, e
Germaine Greer, em A mulher eunuco) aceitamos e
repetimos essa declaração, usando-a como exemplo dos
exageros a que as mulheres chegavam para melhorar a
natureza.
Parece que nos enganamos. Uma detalhada pesquisa
realizada por Valerie Steel, do New York Fashion Instituto,
chegou a uma clara conclusão; "Não há nenhuma
evidência de que essa prática tenha existido...". Ela afirma
que não há menção à remoção de costelas em nenhuma
história da cirurgia plástica e que, no fim do século XIX,
essa seria uma operação muito arriscada. A técnica
médica da época não estava suficientemente desenvolvida
para que o cirurgião corresse esse risco. Olhando de novo
as fotos das mulheres que supostamente teriam removido
as costelas, parece provável que as imagens tenham sido
retocadas para fazer a cintura parecer menor.
Apesar disso, a necessidade de acreditar na cirurgia
de remoção de costelas é tão grande que fez nascer uma
nova lenda. Há anos correm boatos de que famosas
estrelas de Hollywood se submeteram recentemente à ope-
ração. Afirma-se que, agora que temos uma tecnologia
cirúrgica avançada, a operação tem sido realizada. No
mínimo sete famosas atrizes têm sido mencionadas entre
as que teriam sacrificado as costelas inferiores na ânsia de
ter um corpo mais bonito.
A verdade é que não há evidências de que esses
difíceis procedimentos cirúrgicos tenham se realizado, e a
maioria das estrelas que são vítimas dos boatos
simplesmente os ignoram por considerá-los ridículos. No
caso da cantora Cher, porém, os rumores foram tão
persistentes que ela foi obrigada a publicar um desmentido,
submetendo-se a um exame medico e processando uma
famosa revista francesa por repetir a história.
Embora hoje esteja claro que nem as damas
vitorianas nem as atrizes atuais se submeteram a essa
medida extrema, resta uma dúvida: será que alguma
cirurgia desse tipo chegou a ser realizada? Não se pode
afirmar com certeza, mas há evidências de que ela pode ter
sido feita em alguns poucos casos raros. Numa descrição
de procedimentos cirúrgicos oferecidos a transexuais que
desejam parecer mais femininos pode-se ler o seguinte: "A
remoção das costelas é ocasionalmente realizada para
obter uma curva da cintura mais pronunciada". Mas segue-
se uma advertência: "Não é aconselhável". São citados
também os nomes de vários cirurgiões plásticos
preparados para realizar a cirurgia, assim como o preço de
US$ 4.500.
Em Hamburgo, uma jovem alega ter reduzido as
medidas da cintura de 51 para 36 cm com cintas,
espartilhos e uma operação de remoção de costelas. Conta
que esteve hospitalizada durante três dias depois da cirur-
gia, que foi um sucesso, levando-a a aparecer na televisão
da Alemanha, da Austrália e da América para exibir sua
extraordinária figura. Suas declarações podem ser
verdadeiras, mas com certeza esse seria um caso isolado.
Afirmações de que "cirurgias de costelas eram
relativamente comuns nos anos 1950" e outras
semelhantes continuam sem fundamento. A remoção
rotineira de costelas parece não ser senão um mito surgido
de repetidas fofocas. Essa persistência reflete não uma
verdade cirúrgica, mas a tenacidade de uma fantasia
masculina. A imagem de uma cintura fina parece estar
indelevelmente impressa no cérebro do macho humano.
16. Quadris
Os amplos quadris da fêmea humana constituem um
dos principais símbolos da silhueta feminina.
Independentemente de a cintura ser estreita ou não, uma
bacia larga emite a mensagem primitiva de que a mulher é
capaz de gerar descendência. Só quando entra numa fase
em que prefere a juvenilidade à fecundidade uma
sociedade abandona o interesse pelos quadris largos e
passa a valorizar uma aparência mais delgada e mais mas-
culina.
Como a bacia da mulher é mais larga que a do
homem, a largura dos quadris é um dos principais sinais
de diferenciação entre os sexos. Para ser preciso, a pelve
feminina mede em média 39 cm, enquanto a masculina só
chega a 36 cm. Essa diferença biológica levou a muitos
exageros. Hoje, a maioria das mulheres está satisfeita com
o tamanho natural dos seus quadris, mas no passado
muitas vezes se tornaram escravas do desejo de possuir
um quadril avantajado e vítimas da tecnologia capaz de
produzi-lo. Até que ponto as fanáticas foram capazes de
chegar é inacreditável.
No século XVI, os ateliês europeus vendiam
desajeitadas "almofadas" que pareciam pneus de
automóveis. Esses travesseiros eram amarrados por baixo
das amplas saias para dobrar o tamanho dos quadris, mas
acabavam deixando os vestidos tão pesados que as damas
da época eram incapazes de qualquer atividade mais
vigorosa.
O século XVIII assistiu ao aparecimento das
"anquinhas", uma armação de arame usada sob a saia
para criar a impressão de ancas largas. Deixavam as saias
tão amplas que a mulher era obrigada a passar pelas
portas de lado.
Passando da forma aos movimentos e posturas, não
surpreende que quase todos os movimentos dos quadris
tenham uma marca feminina. Maneiras de andar que
envolvem um evidente balanço dos quadris são tão
femininas que são utilizadas como caricaturas em
performances cômicas. Só homens representando
mulheres ou homossexuais afetados se permitiriam
movimentos ondulantes desse tipo.
Muitos passos de dança incluem vigorosos
movimentos dos quadris, e esses também pertencem mais
ao repertório da mulher que do homem. Na famosa dança
hula-hula, jovens executam movimentos ritmados em que
giram, sacodem e ondulam os quadris. Dois movimentos
especiais da dança são o ami e o "rodeando a ilha". O ami é
um movimento de rotação. A dançarina levanta uma mão,
enquanto a outra descansa no quadril, que então se
movimenta num círculo, primeiro no sentido horário e
depois no sentido anti-horário. O segundo movimento é
semelhante, com a diferença de que o quadril completa um
quarto de círculo, "rodeando a ilha" em quatro movimentos.
Dos gestos que envolvem a pelve, o mais importante
talvez seja a postura de mãos nos quadris, também
chamada de akimbo. Costuma-se dizer que ela indica
autoridade ou desafio, mas é mais que isso. É
essencialmente uma postura anti-social, o oposto de abrir
os braços para convidar a um abraço. Na verdade, é muito
difícil abraçar alguém que esteja na postura akimbo.
Quando a pessoa apóia as mãos nos quadris projetados
para a frente, os cotovelos apontam para fora como se
dissessem: "Mantenha a distância ou vou acertar você!"
Muitas vezes, a pessoa assume automática e
inconscientemente essa postura de acordo com seu estado
de espírito.
A postura akimbo ocorre sempre que a pessoa quer
afastar alguém. É por isso que ela é vista como uma
atitude de desafio. A mulher que pára à porta de sua casa
com as mãos nos quadris está dizendo: "Afaste-se. Não
ouse entrar". Isso é porque essa postura também
transmite uma disposição autoritária. A pessoa que tem
autoridade e gosta de exibi-la não quer partilhar o espaço
com os outros. No chefe de um grupo, a postura akimbo
avisa aos demais que se mantenham em seus lugares.
Essa postura também é usada por indivíduos que
acabaram de sofrer um revés. Eles podem não estar numa
posição de autoridade, mas com certeza não estão
buscando conforto nos outros. Uma esportista que acaba
de perder uma competição imediatamente coloca as mãos
nos quadris, em geral com a cabeça ligeiramente abaixada,
refletindo o sentimento de derrota. A mensagem que ela
comunica é: "Fique longe de mim. Estou tão irritada que
não quero ninguém perto de mim".
Se uma mulher quer se afastar de um grupo que está,
digamos, à sua esquerda, apóia apenas o braço esquerdo
no quadril. Se houver à sua direita um grupo com o qual
ela tenha afinidade, o braço desse lado permanece
abaixado. Essa postura pela metade, muito observada em
festas e outras reuniões sociais, revela as relações entre os
presentes.
Uma curiosidade dessa postura é que, apesar de ser
usada mundialmente, não parece ter um nome em outras
línguas. É geralmente descrita como "mãos nos quadris",
mas não há uma palavra que a defina. Entretanto, é um
dos mais comuns padrões de comportamento humano,
que vemos todos os dias e ao qual reagimos
subliminarmente sem analisar a mensagem corporal que
estamos recebendo. Se fosse um gesto mais consciente,
como um cumprimento, todas as línguas teriam uma
palavra para defini-lo.
Finalmente, existe um contato pessoal que envolve o
quadril. Jovens amantes costumam caminhar lado a lado
com os flancos se tocando e as mãos cruzadas nas costas
e apoiadas no quadril do parceiro. Querendo se abraçar
plenamente e caminhar ao mesmo tempo, esse abraço do
quadril é um meio-termo. É uma postura que atrapalha
um pouco o movimento, mas nessas situações a
mobilidade do casal é menos importante do que a
demonstração de intimidade — que é feita para eles
mesmos e para os outros. Funciona como um gesto de
exclusão em relação a qualquer pessoa que os acompanhe
ou os observe.
Como sinal, esse tipo de abraço transmite uma
mensagem mais forte do que o abraço em que uma pessoa
toca o ombro da outra, e que é muito comum. Dois
homens podem se abraçar desse jeito quando estão para-
dos ou caminhando juntos. É um gesto de amizade, e não
há nada nessa intimidade que indique uma ligação sexual.
Mas quando uma pessoa abraça o quadril de outra a
posição da mão dá ao ato um peso sexual. Por essa razão,
um homem só abraça assim uma mulher, a menos, é claro,
que queira exibir sua homossexualidade em público.
Um estudo tentou analisar as diferenças de gênero
em relação a esse tipo de abraço no quadril. Foi contatado
que, na maioria dos casos, só um parceiro abraça,
enquanto o outro apenas recebe o abraço. Em 77% dos ca-
sos o homem abraça a mulher; em 14% a mulher abraça o
homem; e em 9% uma mulher abraça outra. (O abraço
entre pais e filhos pequenos foi excluído da pesquisa.)
Como se previa, não houve abraço entre homens, mas
parece que o tabu é menor entre mulheres — o que ocorre,
aliás, com outras trocas de intimidade em público, como
os beijos de comprimento. A porcentagem muito maior de
homens que abraçam mulheres do que de mulheres que
abraçam homens reflete uma atitude geral dos adultos em
relação a essa região do corpo. Evidentemente, os homens
se interessam muito mais pelos quadris das mulheres do
que o contrário. Do ponto de vista social, está claro que os
quadris são atributos essencialmente femininos. Devido à
sua ligação com a procriação, eles carregam quase tanta
feminilidade quando os seios.
17. Barriga
A barriga da mulher sempre foi uma região tabu, não
apenas por ser uma zona erótica por si só, mas pelo fato
de estar intimamente relacionada com os genitais. Roupas
que expõem a barriga atraem o olhar para a região genital.
No mundo ocidental, as roupas de uso diário sempre co-
briram a barriga, mas nos últimos anos (desde 1998, para
ser preciso) a moda de jeans de cintura baixa combinados
com uma blusa muito curta colocou a barriga feminina no
foco das atenções.
A razão para essa exposição é interessante e tem
muito a ver com uma importante mudança no vestuário
feminino: de uns anos para cá, as mulheres, que só
usavam saias, passaram a adotar as calças compridas.
Hoje, mais de 80% das mulheres que são vistas nas ruas
das cidades usam jeans ou outro tipo de calças. Em
conseqüência disso, as pernas deixaram de ser expostas e
alguma outra parte do corpo precisou ocupar o seu lugar.
Blusas que expõem os ombros e o sulco dos seios foram
muito usadas no passado, mas essa solução se tornou
muito familiar. Era necessário algo novo, e alguém teve a
brilhante idéia de usar uma blusa bem curta, que não al-
cançasse a cintura das calças. De repente, nasceu uma
nova zona erógena, e a moda se espalhou rapidamente. As
pernas podiam estar inteiramente cobertas, mas em
compensação os umbigos femininos podiam ser admirados
pelos homens (por enquanto, pelo menos até que o ciclo da
moda se mova de novo).
A idéia que está por trás dessa mudança foi lançada
pelos críticos de moda alemães nos anos 1920, que
explicaram que a moda feminina obedece a uma lei de
troca das zonas erógenas. Segundo essa lei, as mulheres
sempre vão querer mostrar uma determinada parte do
corpo, mas essa exposição vaí sempre mudar de uma zona
para outra. À medida que uma é coberta, outra é exposta.
Existem duas razões para isso. A primeira é o desejo de
novidade: cada nova exposição é excitante porque mostra
algo que não tem sido visto nos últimos tempos. A segunda
é que, se mais de uma parte do corpo for exposta ao
mesmo tempo, a imagem será de vulgaridade. Assim, para
manter sempre alguma exposição sem exagerar, uma parte
vai sendo exposta depois da outra ao sabor da moda.
Agora, no início do século XXI, a ênfase recai sobre a
barriga.
Uma vantagem disso é que a nova moda de piercings
no umbigo pôde vir à luz. Um dos problemas com o uso de
piercings abaixo do pescoço é que só pessoas muito
íntimas ficam sabendo de sua existência. Com a nova
moda, eles deixaram de ser usados apenas por uma
minoria para serem adotados por um público muito maior.
Os piercings de umbigo têm um evidente apelo
decorativo, mas surpreende que mulheres sexualmente
ativas queiram usar uma jóia num lugar tão vulnerável.
Uma relação sexual papai-e-mamãe pode causar
problemas, com alto risco de o umbigo se rasgar quando
um corpo se esfrega no outro. Alguns escritores deram a
isso o nome de "vandalismo umbilical", mas apesar disso,
no início do século XXI, o piercing no umbigo era o
segundo na preferência das mulheres, superado apenas
pelos piercings na orelha.
Mas que atitude nossos antepassados tinham em
relação a essa parte da anatomia feminina? Na época
vitoriana, como não era de bom tom usar a palavra
"barriga", foi preciso encontrar um termo substituto. Como
a região da barriga contém o estômago, e como o estômago
está posicionado mais alto, bem longe dos
"impronunciáveis" genitais, os vitorianos decretaram que
uma dor de barriga se tornasse uma dor de estômago.
Essa imprecisão anatômica ficou tão arraigada no
vocabulário que sobreviveu nos tempos modernos, muito
depois de a pudicícia vitoriana ter deixado de existir.
Enquanto uma classe educada empurrava a barriga
para a região do estômago, outra classe a empurrava para
baixo, para a região genital. Com igual imprecisão, essa
classe se referia à barriga como se ela fosse a região abaixo
da linha dos pêlos púbicos.
Uma terceira imprecisão era usar a palavra "barriga"
como sinônimo de "útero". Numa época em que as
mulheres eram condenadas à morte pela prática de certos
crimes, havia uma conhecida estratégia que se chamava
"apelo da barriga''. Baseava-se numa lei que não permitia
que a pena capital fosse aplicada à mulher grávida. Na
maioria das prisões havia homens cuja tarefa era garantir
que as internas tivessem condições de pleitear esse direito.
"Barriga" é o termo popular para "abdome", que é a
parte do corpo situada entre o tórax e a pelve, contendo o
estômago, os intestinos e, na mulher, o útero. Essa região
do corpo tem poucas marcas superficiais. Além do umbigo,
há uma depressão chamada linea alba. Num indivíduo
adulto, essa linha corre verticalmente do umbigo até o
peito. Se observarmos um corpo jovem e atlético, a linea
alba é vista como uma estreita mas nítida depressão da
carne, que assinala o ponto onde os músculos do lado es-
querdo do corpo se encontram com os músculos do lado
direito. Entretanto, numa pessoa gorda (de qualquer idade),
é difícil perceber essa linha.
O ventre da mulher é mais arredondado na parte
inferior que o do homem. Ele também é proporcionalmente
mais longo, com uma distância maior entre o umbigo e os
genitais. O umbigo da mulher também é mais profundo
que o do homem, considerando-se que os dois indivíduos
tenham uma compleição semelhante. Podemos resumir
essas diferenças dizendo que a mulher tem um abdome
maior e mais curvo que o homem, um aspecto que muitas
vezes é exagerado pelos artistas.
À medida que a mulher fica mais velha, seu corpo
ganha peso, e sua barriga, mais volume. E se ela cai na
tentação de comer demais, logo se torna
lamentavelmente — ou orgulhosamente — barriguda. Em
períodos de escassez de alimentos, uma barriga grande era
ostentada com orgulho, e as jovens das tribos eram
engordadas para o casamento. O novo puritanismo
corporal, com sua obsessão pela eterna juventude, mudou
tudo isso. Hoje, uma barriga chata, sem sinal de gordura,
é um sonho feminino em qualquer idade.
Essa mudança na visão da barriga teve um estranho
efeito colateral: alterou a forma do umbigo feminino. Em
corpos mais cheios o umbigo é circular, mas num corpo
delgado ele parece mais um talho vertical. Uma pesquisa
sobre obras de arte que mostravam as mulheres carnudas
de antigamente revelou que a grande maioria (92%) exibia
um umbigo circular. Numa pesquisa semelhante sobre as
modelos fotográficas de hoje essa porcentagem caiu para
54%. Portanto, as mulheres magras de hoje têm seis vezes
mais probabilidade de ter um umbigo na forma de uma
fenda vertical do que suas voluptuosas predecessoras.
Mas existe algo mais do que apenas a perda de peso
nessa mudança. Um corpo esbelto, por mais magro que
seja, só cria a possibilidade de um umbigo vertical. Se ele
será exibido ou não, vai depender da postura da modelo. A
mais magra das mulheres pode apresentar um umbigo
circular se jogar o corpo para a frente. Assim, consciente
ou inconscientemente, as poses modernas parecem
enfatizar o umbigo vertical. Não é difícil imaginar a razão
disso. Como o umbigo parece um orifício, sua presença no
meio do ventre não pode deixar de lembrar os verdadeiros
orifícios que se situam abaixo dele. O orifício genital
feminino está por trás de uma fenda vertical, enquanto o
orifício anal é muito mais circular. Segue-se que essa
mudança para a exibição de um umbigo vertical fortalece o
simbolismo genital. Em fotos sensuais em que a fenda
genital fica oculta, o fotógrafo e sua modelo podem se unir
para oferecer subliminarmente um falso orifício como
substituto do real.
Se isso parece muito fantasioso, basta observar o que
aconteceu com o umbigo nos períodos mais puritanos do
século XX. Nas primeiras fotos, ele era simplesmente
suprimido. As fotos eram retocadas para dar a ridícula
impressão de que o ventre da mulher era completamente
liso. Fazia-se isso porque, segundo se dizia, o umbigo era
sugestivo demais. Sugestivo do quê, nunca foi dito. Os
primeiros filmes provocaram choque e horror diante da
exposição dessa parte da anatomia das dançarinas. Uma
carta oficial do censor aos produtores do filme Mil e uma
noites dizia: "Aprovado para adultos desde que sejam
cortadas todas as cenas de dança que mostram o umbigo
das dançarinas". Uma segunda onda de censura, nos anos
1930 e 1940, voltou a suprimir o umbigo. O conhecido
código moralista de Hollywood dizia que os umbigos
estavam proibidos. Se não pudessem ser cobertos pela
roupa, deviam ser preenchidos com jóias ou qualquer
outro ornamento. O que parecia ofender os puritanos
espectadores era o fato de as dançarinas serem capazes de
mexer o umbigo enquanto ondulavam o corpo seminu. Isso
aprofundou o simbolismo do umbigo, que tinha que ser
omitido para evitar a histeria sexual da platéia.
Mal o mundo ocidental tinha relaxado a censura
cinematográfica do umbigo e ele já sofria um novo ataque.
Dessa vez, vinha da terra da dança do ventre, o Oriente
Médio. Com os preceitos religiosos e culturais que
dominavam o mundo árabe, as dançarinas das casas
noturnas foram instruídas a cobrir a barriga quando
dançassem.
Essas restrições deixam claro que o umbigo tem força
erótica, mesmo que hoje, para a maioria de nós, ele pareça
um detalhe relativamente inócuo da anatomia humana. Os
manuais de sexo perceberam esse poder e enfatizam seu
fascínio aos amantes que exploram o corpo do parceiro.
Em The Joy of Sex, por exemplo, pode-se ler: "Ele pode
proporcionar muitas sensações sexuais cultiváveis; ele se
adapta ao dedo, à glande ou ao dedão do pé, e merece
cuidadosa atenção quando você o beijar ou tocar". Uma
pose muito popular nos manuais sexuais ilustrados
mostra o homem explorando o umbigo da parceira com a
língua — um pseudo pênis inserido numa pseudo vagina.
Para alguns, o interesse nas possibilidades eróticas
do umbigo feminino tomou proporções fetichistas. Uma
organização que se intitula US Navel Observatory
(Observatório do Umbigo dos Estados Unidos) concebeu
uma classificação para esse pequeno detalhe da anatomia
feminina. Num relatório denominado Navel Architecture
(Arquitetura do umbigo), eles reconhecem nada menos do
que nove formas de umbigo:

Fenda vertical - um tipo raro; gracioso, feminino e erótico.


Umbigo navette - mostra um forte alongamento vertical,
porém mais largo na parte central. Recebe esse nome
porque tem a forma semelhante a uma navette (pequena
nau).
Umbigo triangular - um tipo comum, mas considerado de
grande beleza. Tem a forma de um triângulo invertido com
lados convexos. Geralmente apresenta uma profunda
depressão.
Umbigo em forma de amêndoa - considerado pelos
japoneses o supra-sumo da beleza umbilical.
Umbigo circular - um tipo raro hoje em dia, é perfeitamente
redondo.
Umbigo oval - uma das formas mais comuns.
Umbigo olho de gato - mais horizontal que vertical, tem a
aparência de um olho.
Umbigo grão de café — um umbigo côncavo em cujo
interior há duas protuberâncias de carne; uma mistura do
umbigo côncavo com o umbigo protuberante.
Umbigo perfurado - o umbigo moderno no qual foi inserido
um piercing.

Embora esse relatório não pretenda ser mais do que


uma análise superficial do umbigo feminino, revela o
interesse sexual que um simples botão umbilical pode
despertar. Na verdade, essa não é a única classificação de
umbigos que existe. Um psicólogo alemão organizou sua
própria lista de formatos, alegando que uma pessoa "pode
se conhecer através do umbigo". Ele relaciona os seguintes
tipos: umbigo horizontal, umbigo vertical, umbigo
protuberante, umbigo côncavo, umbigo descentralizado e
umbigo redondo.
Fora da esfera sexual, o umbigo causou vários
problemas nos círculos religiosos. Para os que acreditam
na verdade literal dos textos religiosos, é um problema
espinhoso decidir se os primeiros seres humanos tinham
ou não umbigo. Se esse seres foram criados pela divindade,
e não nasceram de uma mulher, não havia cordão
umbilical, e portanto não havia umbigo. Os artistas
enfrentavam o dilema de incluir ou não umbigos em suas
pinturas de Adão e Eva no Jardim do Éden. A maioria
optou por registrá-los, e cada um inventou sua razão para
a existência desses primeiros umbigos, mas essa decisão
gerou um problema ainda maior: se Deus criou o homem à
sua imagem e semelhança, então ele devia ter umbigo.
Naturalmente, isso provocou uma nova e intrigante
pergunta: Quem gerou Deus?
Os turcos descobriram uma solução incomum para o
problema do primeiro umbigo. Uma antiga lenda conta que,
depois que Alá criou o primeiro ser humano, o Demônio
ficou tão furioso que cuspiu no corpo do recém-chegado. O
cuspe foi aterrizar bem no cento da barriga. Para evitar a
contaminação, Deus imediatamente arrancou o pingo
poluído, mas seu gesto deixou um pequeno furo no lugar
onde o cuspe caíra. Esse furo foi o primeiro umbigo.
Um simbolismo totalmente diferente vê o umbigo
como centro do universo. É assim que os budistas o
consideram. A expressão "olhar para o próprio umbigo"
costuma significar uma ação autocentrada, assim como
uma forma de meditação voltada para o interior. Na
verdade, é o contrário: uma tentativa de anular o ego,
focalizando todo o universo através de seu ponto central.
Voltando à barriga de forma geral, resta ver como
surgiu a famosa dança do ventre. Hoje ela é comumente
considerada uma "dança tradicional", mas, embora isso
tivesse agradado aos puritanos, a origem dessa tradição
não se perdeu na poeira do tempo.
A dança do ventre tem três movimentos principais:
movimento da pelve para a frente, movimento de rotação
do quadril e ondulações dos músculos da barriga. Os dois
primeiros são de fácil execução e muito comuns. Já as
ondulações exigem um alto controle muscular e só são
executadas pelas dançarinas mais experimentadas. Os
três são movimentos sensuais. Surgiram no harém, onde o
sultão era geralmente muito gordo, nada atlético e
sexualmente desinteressado. Para excitá-lo sexualmente,
as jovens tinham que se acocorar sobre o corpo deitado,
inserir seu pênis e contorcer-se provocativamente até levá-
lo ao orgasmo. Elas foram se especializando nessas
contorções, com movimentos da pelve e contrações dos
músculos abdominais para massagear o pênis do grande
senhor. Como um ato de cópula, ele tem sido chamado de
"masturbação fértil".
Com o tempo, os movimentos pélvicos eram exibidos
para excitar o senhor do harém antes da cópula. Livres do
contato com o corpo indolente, as mulheres do harém
foram capazes de exagerar os movimentos e torná-los mais
ritmados. Com o acompanhamento musical, a exibição
logo foi estilizada numa dança que foi chamada de dança
do ventre.
Algumas fontes alegam que os movimentos
representam não a cópula, mas o nascimento. Em muitas
culturas, quando ainda não contava com ajuda médica, a
parturiente não deitava para dar à luz, mas colocava-se de
cócoras, usando a força da gravidade para empurrar o
bebê. A mulher ajudava o parto movendo o abdome em
movimentos de rotação, que com o decorrer dos séculos
teriam sido incorporados à dança do ventre. Ela deixou de
ser meramente uma dança que imitava a cópula de uma
jovem vigorosa sobre um homem indolente e corpulento e
tornou-se símbolo da concepção e do nascimento — todo o
ciclo reprodutivo em uma única performance.
Se essa interpretação da dança do ventre é correta, ou
se ela só pretende esterilizar uma dança puramente erótica
e alinhá-la entre outras atividades "folclóricas", é difícil
dizer. De qualquer forma, o processo de purificação foi
mais longe nos últimos anos. Na década de 1980, um
manual que pretendia ensinar a dança introduz o tema
com a seguintes palavras: "Em seu novo papel como forma
de arte física e saudável, a ênfase recai sobre o preparo
físico". A dançarina do harém tornou-se uma atleta.
Embora a dança do ventre esteja sendo promovida
como "uma ótima terapia para a tensão e a depressão", os
nomes que definem os movimentos ainda preservam uma
conotação erótica. Portanto, nem tudo se perdeu.
Fora do campo sexual, a barriga, assim como o
umbigo, tem vários simbolismos. O mais conhecido é sua
ligação com o lado mais animal e terreno da vida humana.
Como a barriga está relacionada com o apetite por comida,
acabou se ligando a outros apetites animais. Um provérbio
grego afirma que " a barriga é a mais vil das bestas". Vem
também da Grécia antiga outro pronunciamento: " Ó Deus,
olhai com ódio o ventre e os alimentos; é através deles que
se perde a castidade". Esse simbolismo ocidental nada
elogioso está em completa oposição com o simbolismo ori-
ental, que vê o ventre como sede da vida. No Japão, o
ventre é considerado o centro do corpo.
Na vida cotidiana, os gestos que envolvem a barriga
são raros. Devido à sua proximidade com os genitais, o
ventre quase nunca participa dos contatos pessoais.
Quando uma pessoa toca outra na barriga, geralmente
ambas pertencem à mesma família, são amantes ou velhos
amigos. Os pais às vezes dão um tapinha na barriga dos
filhos quando eles comem bem; um marido orgulhoso pode
passar a mão pela barriga da esposa grávida; e um dos
amantes pode descansar a cabeça na barriga do outro.
Além desses gestos e de um raro soco na barriga de
um inimigo, só existe outro contato pessoal, que é o
contato dos ventres durante o ato sexual. Estranhamente,
essa postura é tema de uma das mais antigas piadas da
humanidade. Um dos textos sumérios mais antigos,
datados do terceiro milênio da era cristã, registra com um
humor triste: "Com tijolo sobre tijolo esta casa foi
construída; com ventre sobre ventre ela foi destruída".
18. Costas
As costas femininas têm sido ignoradas tanto pela
própria mulher quanto pelos observadores. Outras partes
do corpo — especialmente a cabeça, os seios e as
pernas — recebem maior atenção e despertam mais inte-
resse. Entretanto, as costas femininas têm uma beleza
inegável. Mesmo em repouso, elas são naturalmente mais
arqueadas que as costas do homem, e se a curva da
coluna é deliberadamente acentuada com a projeção do
quadril para trás, a linha das costas torna-se mais sensual.
Visto por trás, o contorno das costas é notavelmente
diferente no homem e na mulher: nela, a parte inferior é
mais larga; nele, a parte mais larga é a superior. Portanto,
o contraste é grande tanto de lado quanto de costas.
De vez em quando, as costas femininas têm figurado
no mundo das imagens eróticas. Como mencionamos
quando tratamos da nuca, os japoneses valorizam muito
essa parte do corpo. A gola do quimono é cortada de
acordo com a condição da mulher que o usa. Se ela é uma
mulher casada, a linha da nuca é apenas sugerida, mas se
ela é uma gueixa, a gola se afasta da nuca, e, quando ela
se ajoelha diante do homem, lhe oferece uma excitante
visão do dorso por dentro da roupa.
No Ocidente, os estilistas de moda de vez em quando
enfatizam as costas. Se o vestido é fechado na frente,
então a atenção pode ser desviada para as costas.
Hollywood lançou essa moda em 1932, quando a atriz
Tallulah Bankhead apareceu em público com um decote
nas costas que logo foi copiado pelas admiradoras.
Versões mais radicais desse modelo, que revelam
inteiramente as costas, aparecem de quando em quando,
sempre que o costureiro encontra uma cliente corajosa,
disposta a escandalizar em alguma aparição pública. Um
desses modelos foi o famoso macacão lançado em 1967
por Ungaro, que expunha as costas até o limite do sulco
das nádegas, dando à mulher a possibilidade de exibir as
"covinhas" do sacro, assim como o "losango de Michaelis".
As covinhas são um detalhe das costas femininas que
em outros tempos despertou no homem tal excitação a
ponto de tornar-se uma obsessão. Um escritor escreveu
sobre "essa região sedosa, carnuda, de dar água na boca,
exatamente onde se situam as duas pequenas covas..."
As covinhas são menos evidentes em mulheres
magras, hoje as preferidas, mas, quando as formas
voluptuosas estavam na moda, eram tema de conversa
entre os mais sofisticados libertinos. As duas pequenas
depressões situadas de cada lado da base da coluna., bem
acima dos glúteos, estão presentes em ambos os sexos,
mas são mais perceptíveis nas mulheres devido à gordura
depositada nessa região. Nos homens, só são visíveis no
máximo em 25% dos casos.
O mundo clássico tinha verdadeira fascinação pelas
covinhas femininas. Poetas e escultores gregos as
admiravam. E possível que o apelo sexual das covinhas
que se formam nas bochechas se deva em parte à sua se-
melhança com essas outras covinhas próximas às nádegas.
O losango de Michaelis, uma região em forma de
diamante situada entre as covinhas, também já despertou
grande interesse erótico. Seu nome é referência ao
ginecologista alemão Gustav Michaelis, que passou muito
tempo estudando-o. O losango às vezes é rodeado e
definido por quatro depressões, uma em cada vértice da
figura.
Mas a exposição das costas nem sempre é um
sucesso. Ao ver bailarinas vestidas com um collant sem
costas, um crítico comentou que "suas costas parecem
entorpecidas e apavoradas com a exposição, como lesmas
fora da concha". Naturalmente, o corpo magro e
musculoso das modernas bailarinas não é o mais
adequado à exibição total das costas. Sem as curvas
suaves proporcionadas pela camada subjacente de gordura,
as costas correm o risco de parecer demasiado rígidas e
"fibrosas". Parece que costas nuas caem melhor em
mulheres mais cheias e roliças.
Passando à biologia, as costas são a parte do corpo
menos conhecida, mas a que mais trabalha. Desde que
nossos ancestrais assumiram a posição ereta, os músculos
das costas foram obrigados a trabalhar o tempo todo. Rara
é a pessoa que, em alguma fase da vida, não tenha sofrido
de dor nas costas. Na maioria dos casos, só quando sente
dor a mulher pára para pensar em suas costas como uma
parte de sua anatomia. A maior parte do tempo, elas não
passam de algo que está longe da vista e da mente.
Se alguma mulher se desse o trabalho de observar
suas sofridas costas, descobriria um conjunto
brilhantemente entrosado de músculos e ossos com a
dupla função de sustentar e proteger a medula espinhal. A
medula, que tem cerca de 46 cm de comprimento e pouco
mais de 1 cm de diâmetro, certamente precisa de proteção.
Se alguma coisa grave lhe acontecer, a solução é comprar
uma cadeira de rodas. E ela está bem protegida: primeiro,
por três membranas protetoras; segundo, pelo líquido
cérebro-espinhal, que tem a função de absorver os
choques; e terceiro, por uma cobertura dura e resistente
que chamamos coluna vertebral. Na verdade, não existe
propriamente uma coluna, mas 33 vértebras alinhadas.
São cinco os tipos de vértebras. As cervicais são sete e têm
uma surpreendente mobilidade, permitindo todos os
movimentos da cabeça, vitais para a observação do mundo
e proteção do rosto. As doze vértebras torácicas são muito
menos móveis, porque sua principal função é atuar como
uma âncora para as costelas. As cinco vértebras lombares,
as mais pesadas e espessas, têm a função de sustentar a
maior parte do peso do corpo. É nessa região que as piores
dores costumam se instalar.
As vértebras sacrais se unem para formar o osso
sacro. São cinco vértebras que atuam como uma só. Pode
parecer estranho que esse osso triangular na base da
coluna seja chamado de "sagrado", mas em círculos ocul-
tistas ele é considerado o osso mais importante do corpo,
ao qual é atribuído um papel especial nos rituais
divinatórios. Acredita-se que o sacro contenha o espírito
imortal. Para a maioria das pessoas, porém, existe algo
estranhamente perverso em idealizar a "alma" no ponto
mais baixo das costas. Talvez a escolha se explique pelo
fato de ser o osso sacro beijado cerimoniosamente nos
conciliábulos das bruxas.
As vértebras coccígeas são os últimos e os menores
ossos da coluna. Elas também se fundem para formar o
cóccix — tudo o que restou da cauda dos primatas. A
denominação desse pequeno osso pontudo é ainda mais
estranha do que a do sacro, porque a palavra "cóccix" vem
do latim coccyx, que significa "cuco". Podemos nos
perguntar que ligação pode haver entre nossa cauda
remanescente e um pássaro como o cuco. A resposta está
na forma do osso, que os primeiros anatomistas julgavam
semelhante ao bico de um cuco. Algumas partes do nosso
corpo adquiriram seu nome de maneiras bastante
excêntricas.
O sistema muscular das costas é extremamente
complexo, mas consiste em três principais grupos: o
trapézio, situado na parte superior das costas; os
músculos dorsais, na parte central; e os glúteos, na parte
inferior. As dores nas costas são geralmente causadas pelo
desgaste desses músculos. Excetuado algum problema
médico específico, as mulheres sentem dor nas costas por
uma principal razão: falta de exercício em decorrência de
uma vida urbana sedentária. Os músculos das costas se
enfraquecem por falta de uso ou são prejudicados por uma
postura errada, por algum esforço repentino e por tensões.
A má postura decorre de certos hábitos de trabalho,
nos quais o corpo é obrigado a manter uma determinada
posição durante horas. Ela também pode ser adquirida
durante as horas de lazer, cada vez mais numerosas no
mundo ocidental, onde todo lar dispõe de móveis macios.
Durante as muitas horas que passamos vendo televisão,
conversando ou lendo, o corpo sedentário se enfia na
poltrona ou na cama macia em busca de conforto, como
um bebê que busca a segurança do corpo da mãe. Esses
móveis aconchegantes criam uma sensação de segurança e
calma, mas fisicamente impõem um esforço descomunal
aos músculos das costas, que lutam para manter a
coluna — literalmente — em boa forma. A coisa piora
muito quando a criatura que se esparrama ou se enrosca
na superfície macia está acima do peso. E quase inevitável
que mulheres grávidas sofram dores nas costas devido ao
peso do bebê, mas indivíduos muito gordos, que carregam
quase o mesmo peso na mesma região, costumam se
surpreender quando começam a sentir os mesmos
sintomas.
Pegar objetos pesados curvando o corpo para a frente
e usando as costas como um guindaste é outro mau
costume que quase sempre sobrecarrega as costas. Se
para uma mulher que tem atividade física essa manobra
representa pouco risco, para a mulher que leva uma vida
sedentária o perigo é maior.
A tensão mental é outra maneira de submeter as
costas a uma sobrecarga. As tensões corporais causadas
por angústia ou ansiedade podem provocar uma
duradoura tensão dos músculos das costas. Em pouco
tempo, as costas começam a doer, o que pode aumentar a
angústia... e assim por diante, até que seja necessário
buscar ajuda médica. Esse processo quase sempre passa
despercebido, e pode ser desencadeado por problemas
emocionais que preocupam tanto o cérebro que a pessoa
só percebi os efeitos quando é tarde demais. Alega-se que
outra causa para a dor nas costas é a frustração sexual, e
o aumento de atividade sexual tem sido sugerido como
tratamento.
No mundo do simbolismo, as costas desempenham um
papel menor, exceto como guardiãs da medula. A própria
medula era vista como uma réplica da árvore cósmica que
alcança o paraíso que é o cérebro. Os macedônios
acreditavam que, quando um cadáver apodrecia, sua coluna
vertebral se transformava numa serpente. Outras
interpretações da medula espinhal a vêem como uma
estrada, uma escada ou um bastão. Na Idade Média, a
"essência" da medula era considerada muito benéfica, e
acreditava-se que qualquer pessoa que tivesse uma parte a
mais da coluna vertebral tinha sido agraciada pela sorte.
Por essa razão, pensava-se que dava sorte tocar a corcova
de um corcunda. Essa crença ainda sobrevive em algumas
regiões mediterrâneas, onde se podem comprar pequenos
talismãs de plástico representando um corcunda
sorridente.
As costas não são uma das partes mais expressivas
do corpo feminino, Entretanto, podemos curvar, esticar,
dobrar ou ondular as costas de acordo com as mudanças
de humor.
Curvar as costas para a frente, o que em algumas
mulheres idosas se torna uma postura crônica e
permanente ao caminhar, é parte essencial de uma série
de ações coordenadas como curvar-se, ajoelhar, tocar a
testa no chão e prostrar-se. O elemento comum de todas
essas ações é o rebaixamento do corpo para simbolizar a
baixa condição de quem o executa. Em tempos remotos, o
movimento tinha que ser bastante acentuado para expor
inteiramente as costas ao superior. Essa era, de fato, a
única situação em que o inferior podia mostrar as costas
sem ofender o superior. Dar as costas a alguém na posição
ereta era uma grosseria imperdoável, porque significava
rejeição. Por essa razão, os subordinados tinham que se
afastar da presença do Grande Senhor caminhando de
costas para fora do salão real. Esse procedimento formal
ainda sobrevive e pode ser observado numa sala apinhada,
quando alguém gira a cabeça e diz a um amigo: "Desculpe
as costas". E dar as costas a alguém a quem acabamos de
ser apresentados continua sendo um insulto.
Se voltar as costas a alguém é uma grosseria por
ignorar deliberadamente o outro, esticá-las é um gesto
ameaçador, porque indica que o corpo está se preparando
para um ato violento. Os militares são treinados para
mantê-las eretas mesmo quando estão relaxados, e é por
isso que eles parecem mais agressivos que os cidadãos
comuns. Aprumar as costas também tem o efeito de
aumentar ligeiramente a altura do corpo, uma mudança
que ajuda a demonstrar poder. Deixá-las cair passa uma
mensagem de impotência, porque a altura diminui
ligeiramente — quase como uma incipiente curvatura de
subordinação.
Existem várias posturas com as quais uma pessoa
entra cm contato com suas costas. A mais simples é
aquela em que a pessoa fica de pé ou caminha com os
braços atrás delas, com as mãos presas uma à outra. É
uma postura comum em pessoas de alta condição,
especialmente em membros da realeza e líderes políticos
em ocasiões formais de inspeção. Demonstra extrema
superioridade, porque opõe-se à postura de braços
cruzados, na qual estes se unem diante do corpo como
uma espécie de barreira de proteção. A postura com as
mãos atrás das costas diz que a pessoa está tão confiante
que não precisa de nenhuma proteção frontal. Os
professores usam o mesmo gesto quando caminham pela
sala de aula, demonstrando sua superioridade naquele
território.
Outros gestos que envolvem as costas são gestos
secretos e ocultos, como quando uma menina esconde a
mão atrás das costas para cruzar os dedos quando diz
uma mentira.
Outra maneira de contato nessa região é o proverbial
"tapinha nas costas". Trata-se de uma maneira quase
universal de confortar, cumprimentar e demonstrar
amizade. A motivação desse gesto é sempre a mesma, no
sentido de que é uma versão reduzida do mais
fundamental contato interpessoal, o abraço. Quando
pequena, a criança adora o abraço da mãe, que lhe
transmite total segurança e amor, e a pressão carinhosa
das mãos em suas costas se torna um sinal de cuidado e
amizade. Quando adulta, a pessoa pode se entregar num
abraço apaixonado, mas em momentos de menor
envolvimento emocional adota uma versão em
miniatura — o tapa nas costas —, que lembra o corpo do
gesto maior. Mesmo um tapinha breve e suave nas costas
de alguém que está sofrendo traz um enorme conforto,
desproporcional à simplicidade e brevidade do contato
físico, porque ecoa uma sensação de infância.
Outra forma comum de contato é o gesto em que uma
pessoa pressiona a mão nas costas de outra para guiá-la,
em vez de tocar o braço ou o cotovelo. É um gesto um
pouco mais íntimo, porque os corpos ficam mais próximos
enquanto caminham. Ou o leve contato da mão nas costas
quando duas pessoas estão juntas, olhando na mesma
direção, e que quer dizer: "Estou aqui se você precisar".
Devido à sua grande extensão, as costas são uma
parte do corpo muito tatuada. Magníficas demonstrações
da arte da tatuagem podem ser vistas nas costas de
mulheres corajosas em todo o mundo. Entre os motivos,
existe uma tatuagem que mostra uma cena de caçada,
com cavalos e cães perseguindo uma raposa por todo o
comprimento das costas, e a cauda da raposa prestes a
desaparecer entre as nádegas.
19. Pêlos púbicos
Durante toda a infância, as meninas não têm pêlos no
corpo, exceto, naturalmente, os da cabeça. Com a chegada
da puberdade, as coisas se tornam mais complexas.
Quando os ovários começam a aumentar de tamanho e se
inicia a produção de hormônios, muitas mudanças são
notadas, inclusive o nascimento dos pêlos nos genitais
externos. Geralmente, isso ocorre entre 11 e 12 anos,
embora haja exceções em que os pêlos surgem
precocemente, por volta dos 8 anos, ou com atraso, perto
dos 14.
Na média, porém, entre 12 e 13 anos nascem os
primeiros pêlos. Depois, entre 13 e 14, a quantidade de
pêlos aumenta e começa a surgir a forma triangular. Aos
15 anos, o crescimento dos pêlos já esta praticamente
completo, e eles adquirem o padrão adulto.
Muitas meninas não gostam dessa mudança. Ter
pêlos na região genital as assusta, porque os julgam
"animalescos" ou "masculinos". Na infância, seu corpo era
liso e limpo, e agora, de repente, está "sujo" e "peludo".
Talvez elas nunca tenham visto pêlos púbicos, que
costumam ser escondidos por pais recatados e pela
censura do cinema. Outra coisa que pode deixá-las
inseguras é o fato de só terem visto pêlos no corpo dos
homens.
Essas dúvidas podem parecer exageradas para
alguém que tenha sido criado numa família liberal, mas
continuam perturbando um grande número de
adolescentes. A constatação surgiu inesperadamente
durante uma pesquisa sobre os animais mais amados e
odiados. Descobriu-se que, entre crianças pré-púberes
inglesas, o ódio às aranhas aumentava muito entre as
meninas, mas não entre os meninos. Por volta dos 14 anos,
a época exata em que os pêlos púbicos atingem a maior
velocidade de crescimento, o ódio às aranhas aumenta
drasticamente e se torna duas vezes mais forte nas
meninas que nos meninos.
À primeira vista, isso parecia não ter nenhuma
ligação com os pêlos púbicos, mas quando as meninas em
questão foram solicitadas a explicar por que odiavam tanto
as aranhas, quase sempre respondiam que elas eram
"umas coisas sujas e peludas". Os meninos, que já
esperam adquirir pêlos no corpo como seus pais, se
preocupam muito menos com isso. Se lhes perguntassem
por que não gostavam das aranhas, era mais provável que
tivessem respondido que elas "eram venenosas".
A aversão pelas aranhas peludas é mais simbólica do
que real. O que uma menina de 14 anos vê, quando uma
aranha atravessa seu caminho, é o movimento das longas
pernas que se irradiam de seu corpo mole. São essas
pernas que são vistas como "pêlos", e com isso a aranha é
inconscientemente definida como "um tufo peludo e móvel".
O fato de esse medo dobrar na fase em que as meninas
constatam que um "tufo peludo" está crescendo entre suas
pernas é significativo. Assim, para cada menina que se
sente orgulhosa dos pêlos que começam a despontar,
existe outra que está perturbada com esse fato.
Em diferentes partes do mundo, os pêlos púbicos
variam muito: são curtos ou longos, esparsos ou densos,
lisos e macios ou espessos e crespos. Em cor e textura, os
pêlos púbicos nem sempre acompanham os cabelos.
Muitas mulheres de cabelos escuros têm pêlos púbicos
mais claros, em geral com uma tonalidade avermelhada. A
maioria das mulheres tem pêlos púbicos crespos, mesmo
quando os cabelos são lisos. A principal exceção é
encontrada no Extremo Oriente, onde os cabelos pretos e
lisos coexistem com pêlos púbicos "pretos, curtos e lisos;
espessos mas bastante esparsos [...] formando um
triângulo invertido".
As primeiras perguntas que a menina púbere
costuma fazer sobre seus pêlos púbicos é: "Por que tenho
isso? Para que isso serve?". Existem três respostas.
Antes de mais nada, os pêlos púbicos são um sinal
visual. Numa época primitiva em que os humanos
andavam nus, eles devem ter funcionado como um sinal
de que a menina havia se tornado uma mulher adulta. Seu
pleno aparecimento aos 15 anos coincide com o início da
ovulação e da capacidade biológica de procriar. Para o
macho pré-histórico, a ausência de pêlos púbicos nas
meninas era um aviso de que elas ainda eram jovens
demais para procriar. A presença de pêlos púbicos ajudava
a desencadear a reação sexual do macho, enquanto sua
ausência a inibia. (Essa inibição tão natural e que está
ausente nos pedófilos.)
A segunda função dos pêlos púbicos é atrair pelo odor.
As glândulas da região genital secretam feromônios — um
aroma natural que os machos inconscientemente acham
sexualmente atraente —, cuja fragrância persiste mais
tempo nos pêlos densos e crespos que na pele nua e macia.
Mas esse sinal primitivo tem uma desvantagem. No
período pré-histórico, quando a pele ficava exposta ao ar,
as fragrâncias naturais permaneciam frescas. Hoje, porém,
com roupas apertadas cobrindo o púbis, existe maior
probabilidade de as secreções glandulares sofrerem o
ataque de bactérias. O resultado é um odor corporal
desagradável. É por isso que, se quiserem que seu odor
natural não perca o poder de atração, os humanos
modernos, que andam vestidos, precisam se banhar com
mais freqüência que os primitivos, que andavam nus.
Uma terceira função dos pêlos púbicos é que eles
atuam como um amortecedor no contato da pele do
homem e da mulher durante o vigoroso contato sexual,
protegendo o mons pubis da mulher da abrasão. Essa fun-
ção protetora é muitas vezes mencionada, e parece haver
um elemento de verdade nisso, mas a mulher adulta dos
tempos modernos, que remove os pêlos púbicos, não
parece sentir falta disso quando o corpo está em contato
com a pelve do homem.
Além dessas três funções, várias outras, muito
improváveis, foram propostas no passado. Entre elas inclui-
se a idéia de que os pêlos púbicos funcionam como uma
"recatada dissimulação" dos genitais. Por outro lado, há
quem os considere um véu erótico que "inflama a
imaginação". Também já se disse que eles protegem os
genitais do frio e de acidentes, que absorvem o suor que
escorre pela frente do corpo, e que "facilitam a acumulação
e a troca de eletricidade entre dois pólos opostos durante a
cópula", seja lá o que isso signifique.
Talvez a observação mais estranha sobre a utilidade
dos pêlos púbicos tenha sido registrada por um
antropólogo alemão que visitou uma tribo que vivia no
arquipélago de Bismarck, no Pacífico sul, onde "as
mulheres limpavam as mãos nos pêlos púbicos sempre
que elas estavam sujas ou molhadas, da mesma forma que
nós usamos toalhas".
Como muitas outras partes do corpo humano, os
pêlos púbicos não têm permanecido no seu estado natural.
Em todos os tempos, sempre houve muito interesse em
tingi-los, cortá-los, decorá-los ou removê-los, e também
muita oposição a essas intervenções.
Entre os que são a favor de deixar os pêlos púbicos
em seu estado natural não há só puritanos. Os pudicos
acham que modificar essa parte do corpo indica uma
obsessão doentia pela anatomia sexual. Cortá-los ou tingi-
los revela a intenção de expor uma parte do corpo que
devia permanecer estritamente privada. Além do mais,
vêem na depilação dos pêlos púbicos a remoção de algo
que ajuda a esconder a fenda genital. Sem os pêlos, o sexo
da mulher fica excessivamente exposto.
As primeiras feministas rejeitavam toda modificação
nos pêlos púbicos, assim como condenavam qualquer
forma de maquiagem ou de melhoramento cosmético, por
acharem que com isso a mulher estaria se vendendo ao
homem.
Por outro lado, os hedonistas acham os pêlos púbicos
naturais altamente eróticos, porque oferecem ao homem
um sinal visual da prontidão da mulher para copular. Em
sua função de atrair pelo odor, eles também prometem ao
homem a retenção das flagrâncias eróticas das glândulas
femininas.
A depilação dos pêlos púbicos provoca duas reações
completamente contraditórias. Em apoio aos puritanos, há
o argumento de que os pêlos púbicos são potencialmente
sujos e malcheirosos, e que sua remoção é portanto uma
medida de higiene. Mas também há os que acham que
"não ter nada entre as pernas", como uma boneca, não é
nada erótico. No passado, essa visão fez com que muitas
estátuas femininas exibissem um púbis sem pêlos.
Também levou as modelos dos artistas a raspar os pêlos
púbicos supostamente para revelar os detalhes dos
contornos pélvicos, mas na verdade para conseguir uma
semelhança com a aparência limpa das estátuas clássicas.
Existe um caso famoso de um professor de arte
vitoriano muito ingênuo e muito romântico que teria
sofrido terrivelmente por causa dessa aparência artificial
das estátuas clássicas. John Ruskin tinha 28 anos e não
sabia quase nada sobre sexo quando começou a cortejar
sua futura esposa. No ano seguinte, eles se casaram, e ela
ficou surpresa ao descobrir que ele não conseguia fazer sexo
com ela. Depois de anos de evasivas, ele finalmente admitiu
que achava seus pêlos púbicos repulsivos. Apaixonado
admirador da escultura clássica, conhecia as formas
íntimas da mulher e apreciava-as esteticamente, mas nunca
vira pêlos púbicos em nenhuma delas e
aparentemente nem sabia que eles existiam. (As estátuas
clássicas masculinas mostram pêlos púbicos crespos, mas
as femininas não.) Seu horror ao descobrir que sua amada
tinha um tufo de pêlos entre as pernas foi tal que ele
nunca foi capaz de consumar o casamento, o que obrigou
a esposa a pedir sua anulação, apesar do constrangimento
de ter que provar, através de um exame médico, que
continuava virgem.
Alguns homens puritanos revelam uma acentuada
preferência por uma vulva higienicamente depilada, mas o
que surpreende é que muitos libertinos tenham a mesma
preferência. Assim como um púbis peludo atrai puros e
impuros, o mesmo acontece com a vulva depilada.
O apelo sexual da depilação dos pêlos púbicos tem
três fontes. A primeira é que ela põe a nu a fenda genital.
Nas estátuas clássicas, esse detalhe era omitido em nome
do bom gosto; nos quadros, os artistas geralmente
disfarçavam a fenda de suas modelos fazendo-as assumir
poses que a escondiam. Na vida real, porém, esse detalhe
íntimo é totalmente exposto e transmite ao homem que o
vê uma imagem ainda mais forte do que o tufo de pêlos.
A segunda razão para a preferência pela vulva
depilada é que ela passa uma imagem de virginal inocência.
É a imagem corporal de uma menina jovem demais para
fazer sexo, e portanto simbolicamente jovem demais para
ter feito sexo. Os homens que reagem favoravelmente a um
púbis depilado costumam dizer coisas como: "É uma
suavidade de bebê", ou "É como se realizasse uma fantasia
com uma estudante", ou ""Tem um ar de Lolita". Os
críticos contestam afirmando que isso "é um passo em
direção à pornografia infantil", mas não levam em
consideração o fato de que muitos homens que se sentem
excitados pela visão de um púbis depilado têm consciência
de que o resto do corpo de sua parceira é de uma mulher
adulta. O fato de gostarem de um aspecto "virginal" não
significa que eles reagiriam sexualmente a uma menina
pre-púbere. Defendendo sua opção, uma mulher observou
que "qualquer mulher que ache que o homem que aprecia
uma vulva depilada está perto de ser um pedófilo corre o
risco de ver o argumento voltar-se contra ela, a. menos
que todos os seus amantes tenham fartas barbas". Se
ninguém condena as mulheres que gostam que seus
amantes tenham um rosto imberbe de menino, por que um
púbis depilado tem que ser visto dessa maneira?
Além de seu aspecto inocente, a depilação dos pêlos
púbicos apresenta outras vantagens. A região genital se
torna muito mais sensível à estimulação tátil. O prazer do
sexo oral aumenta muito para ambos os parceiros.
Algumas mulheres alegam que uma simples caminhada
fica mais erótica: "O simples ato de caminhar é divertido
porque você desliza". Outros apreciam a excitação de "ter
um segredo sexual que só os dois parceiros conhecem".
Vamos resumir as atitudes contraditórias em relação
aos pêlos púbicos. Há quem, puritanamente, ache que
deixar os pêlos púbicos naturais é sinal de recato. Mas
também existem aqueles que, licenciosamente, os conside-
ram eróticos e dotados de uma fragrância sensual. Por
outro lado, há quem, puritanamente, considere a remoção
dos pêlos púbicos uma medida de higiene. Mas também
existem os que, licenciosamente, consideram a vulva
depilada mais excitante e sensível. Como ocorre com
outros aspectos do corpo feminino, existem pontos de vista
altamente conflitantes.
Voltando à história da remoção dos pêlos púbicos, ela
está longe de ser um capricho transitório da moda. Há
registros de que a depilação já existia no antigo Egito. As
mulheres egípcias detestavam ter pêlos no corpo, e os
removiam sem deixar o menor traço. Faziam isso com uma
cera feita de mel e óleo.
Conta-se que o rei Salomão não gostava de pêlos
púbicos. Quando a rainha de Sabá o visitou no século X
a.C., parece que ele lhe pediu que se depilasse antes de
fazerem amor, dizendo-lhe que o recebesse depois de re-
mover o "véu da natureza".
Pouco mais tarde, na Grécia, há registros de que os
homens preferiam que suas mulheres "removessem os
pêlos de suas partes intimas". Isso se devia ao fato de que
"o forte crescimento dos pêlos das mulheres setentrionais
impedia que suas partes íntimas fossem vistas...". Por isso,
para a mulher grega, a depilação era a regra, que se fazia
através de três técnicas: pela primeira, os pêlos eram
extraídos um a um com uma pinça; pela segunda,
queimados com uma vela; e pela terceira, queimados com
brasas.
A remoção dos pêlos púbicos também era comum na
antiga Roma, mas as técnicas das mulheres romanas eram
um pouco diferentes. Como as gregas, elas usavam uma
pinça especial denominada volsella. Ao contrário das
gregas, porém, substituíam a arriscada técnica de queimar
os pêlos pela aplicação de cremes depilatórios, entre eles
uma espécie de cera preparada com piche ou resina. Na
classe alta, as jovens começavam a se depilar assim que os
pêlos púbicos nasciam.
Quando os cruzados chegaram à Terra Santa,
descobriram que as mulheres árabes depilavam a região
pubiana. Impressionados com o que viram lá, levaram o
costume para a Europa, onde algumas mulheres da aris-
tocracia o adotaram durante a Idade Média. A moda
floresceu por um tempo, mas logo desapareceu.
Mais tarde, no século XVI, sabe-se que as mulheres
turcas se aplicavam tanto em depilar o púbis que salas
especiais eram destinadas a esse propósito nos banhos
públicos. Acreditava-se que era pecado permitir que os
pêlos púbicos crescessem naturalmente.
Na época vitoriana, na Europa, nunca se ouviu falar
de remoção dos pêlos púbicos, exceto talvez entre as
"damas da noite". O costume só ressurgiu muito mais
tarde, com a liberação dos anos 1960. Então, de repente,
tudo era possível, e certas figuras proeminentes se
rebelaram contra costumes considerados muito pudicos
ou tradicionais. Uma rebelde famosa foi a estilista Mary
Quant, que chocou o mundo ao anunciar publicamente
que o marido tinha depilado seus pêlos púbicos na forma
de um coração. Outras logo a seguiram.
Durante a década de 1970, o nascimento do
movimento feminista assistiu a uma volta à natureza, e a
depilação dos pêlos púbicos mais uma vez caiu em desuso.
No fim do século XX, porém, ela voltou com tudo, com
uma grande variedade de estilos. A nova tendência
começou por causa de uma mudança nas roupas de
banho. A cava dos maiôs foi subindo cada vez mais (para
fazer as pernas parecerem mais longas), o que fez os pêlos
púbicos aparecerem de cada lado da estreita faixa de
tecido. Esses pêlos pareciam feios e foram rapidamente
removidos. Isso pôs em ação uma redução cada vez mais
drástica dos pêlos púbicos. Estilos cada vez mais radicais
iam surgindo, até que, no início do século XXI, a depilação
total se tornou a última moda, uma tendência desafiadora
que, paradoxalmente, significou um retorno ao estilo das
antigas civilizações.
Em decorrência dessa mania, uma nova terminologia
foi criada, e cada salão de beleza inventa termos para
definir os diferente graus de nudez púbica. Eis alguns
deles:

Linha do biquíni: É a forma menos radical. Todos os pêlos


cobertos pelo biquíni são poupados. Apenas os pêlos que
escapam de cada lado são removidos.
Biquíni cheio: Apenas uma pequena quantidade de pêlos é
deixada no monte de Vênus.
Estilo europeu: Todos os pêlos púbicos são removidos,
"exceto uma pequena quantidade no meio".
Triângulo: Todos os pêlos púbicos são removidos, deixando
apenas um pequeno triângulo com o vértice para baixo.
Este estilo tem sido descrito como "uma flecha apontando
o caminho do prazer".
Bigode: Todos os pêlos são removidos, exceto um retângulo
largo que cobre a fenda da vulva. Esse estilo é às vezes
chamado de "bigode de Hitler" ou "bigode de Chaplin".
Coração: O tufo de pêlos é depilado na forma de coração,
que pode ser tingido de vermelho. É um corte muito
procurado no Dia dos Namorados, como uma surpresa
erótica para o parceiro sexual.
Pista de pouso: Uma estreita faixa vertical é deixada, e
todos os outros pêlos são removidos. Esse estilo é adotado
pelas modelos que precisam usar biquínis e maiôs muito
estreitos na região púbica.
Estilo Playboy: Todos os pêlos são removidos, exceto uma
faixa retangular de 4 cm. Essa medida exata pode parecer
estranha, mas tem uma história legal. No estado
americano da Geórgia, as dançarinas de strip-tease foram
obrigadas a deixar uma faixa de pêlos de "dois dedos" de
largura quando se exibissem nuas. Segundo os
legisladores de Atlanta, isso seria suficiente para cobrir a
fenda genital. Uma faixa de apenas "um dedo" era
considerada obscena e proibida por lei. Os policiais locais
foram obrigados a executar a árdua tarefa noturna de
checar as faixas de pêlos e enviar para casa qualquer
garota desobediente. Depois de algum tempo, a novidade
desse estranho dever cansou, e a lei foi relaxada.
Estilo brasileiro: É o mais famoso dos novos estilos, mas
existe alguma confusão sobre sua forma exata. Para
alguns, ela é igual à da "pista de pouso"; para outros, uma
forma mais radical da "pista de pouso". Para outros ainda,
significa a depilação total dos pêlos. A moda começou na
praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde surgiram os
menores biquínis. Então, sete irmãs brasileiras
(conhecidas como as J. Sisters) se mudaram para Nova
York, onde abriram um salão de beleza e começaram a
oferecer o serviço de depilação dos pêlos púbicos a suas
clientes. Estrelas de cinema e top models começaram a
visitar o salão, que logo se tornou a meca da depilação. Foi
graças à fama conquistada pelas J. Sisters que esse estilo
passou a ser conhecido como "brasileiro". Quando outros
salões passaram a copiá-lo, nem sempre obedeciam ao
mesmo grau de remoção, daí a confusão. Mas as J. Sisters
deixaram bem claro o que fazem, descrevendo o seu estilo
como "tudo fora, menos uma mínima faixa".
Esfinge: Esse é sem dúvida o estilo mais radical, que deixa
a região pubiana completamente nua. O nome deriva de
um filhote de gato do Canadá, que nasce completamente
pelado. Alguns salões também dão a esse estilo o nome de
"Hollywood".

Esses são os estilos mais populares no início do


século XXI. Além deles, há estilos especiais. Alguns
estilistas extravagantes oferecem variantes que levam
nomes como "olhos de touro", "estrelas e listras", "alvo",
"surpresa de lua-de-mel", "rainha de diamantes",
"chácháchá", "botão de flor" etc. Outros prometem formas
exóticas de ponto de exclamação, coroa, estrela e até
mesmo as iniciais do parceiro.
Para obter essas formas, são usados cremes
depilatórios, ceras, pinças, navalhas, tinturas e eletrólise.
A técnica mais usada hoje é a remoção com cera, que
retarda mais o crescimento de novos pêlos.
Um recurso totalmente oposto à depilação é o curioso
hábito de perucas pubianas feitas de cabelo humano, fios
de náilon ou pêlos de animais. A peruca é presa no lugar
com a ajuda de um tapa-sexo invisível ou colada sobre os
pêlos verdadeiros.
As perucas pubianas tem uma longa história. Já
existiam há centenas de anos, e ainda hoje estão à venda.
Originalmente, sua função era mascarar os danos
provocados pela sífilis e outras doenças venéreas que
desfiguravam os genitais externos. Mais tarde, foram
usadas por prostitutas para agradar a clientes que se
sentiam atraídos por um púbis bastante peludo. Mais
recentemente, no mundo do cinema, elas têm sido usadas
como "máscara de recato" por atrizes que precisam
aparecer nuas em cenas de sexo. As perucas também têm
sido usadas como um adesivo temporário para quem quer
mudar o estilo do corte dos pêlos púbicos. A peruca recebe
um corte e uma tintura para uma ocasião especial, e
depois é removida — uma solução mais conveniente para
mulheres que não querem chegar ao extremo de submeter-
se a um corte verdadeiro.
Algumas perucas são decoradas com pedras, flores ou
fitas coloridas, três tipos de decoração que são conhecidos
há séculos. Registros comprovam que as perucas pubianas
eram muito populares desde o século XVII. O fato veio ao
conhecimento público de uma maneira pouco comum. O
cadáver de uma marquesa francesa foi abandonado na rua
com os genitais deliberadamente expostos. Alí, para quem
quisesse ver, havia uma peruca de pêlos púbicos
"adornados com fitas plissadas de diferentes cores". Parece
que, quando o rei da França pediu às damas da corte que
diminuíssem o esplendor de seu vestuário, elas
obedeceram ao monarca, mas compensaram a restrição
transferindo a ostentação para baixo da roupa.
Publicamente, elas obedeciam ao desejo do rei, mas
secretamente se entregavam aos excessos ornamentais,
competindo umas com as outras para criar os púbis mais
glamorosos, enfeitados com fitas, flores e pedras preciosas.
As pedras preciosas usadas como adorno às vezes
tornavam a região pubiana a mais valiosa do corpo
feminino, o que gerou uma expressão popular pela qual a
vulva era considerada o "cofre do tesouro" da mulher, ou
apenas seu "tesouro".

20. Genitais
De todas as partes do corpo feminino, está é
verdadeiramente um tabu. Fonte de grande prazer sexual,
os genitais deviam ser celebrados. No entanto, raramente
são mencionados em sociedade (a brilhante peça Os mo-
nólogos da Vagina é uma única exceção a essa regra.) Por
que isso acontece? Por que as pessoas se sentem tão
constrangidas em falar dessa parte tão importante da
anatomia feminina? Para encontrar a resposta, precisamos
voltar a tempos primitivos.
Quando começaram a andar sobre as pernas traseiras,
nossos primeiros ancestrais perceberam que não podiam
deixar de exibir a parte frontal do corpo sempre que se
aproximavam de outro membro da espécie. Antes, quando
caminhavam sobre quatro patas, os genitais ficavam
totalmente escondidos e bem protegidos. Agora eram
expostos cada vez que um animal humano se voltava para
outro. Isso significava que era impossível um adulto se
aproximar de outro sem uma conotação sexual. Para
resolver isso, tanto machos quanto fêmeas resolveram
cobrir a região genital: nascia a tanga.
A tanga tinha três vantagens. Além de reduzir a força
da exposição genital em situações públicas, também
intensificava a sexualidade nos momentos de privacidade,
quando ela era removida. Em terceiro lugar, ajudava a
proteger a delicada região genital dos desconfortos do
ambiente natural.
Hoje, quando as pessoas se livram das roupas por
causa do calor, é sempre o equivalente moderno da tanga
a última peça a ser retirada. A menos que sejamos
praticantes do nudismo, só expomos nossos genitais a
nossos parceiros sexuais. Apenas quando se trata de
crianças muito pequenas essa regra é relaxada.
Na maioria dos países, expor os genitais em público é
proibido por lei. Gerações de puritanos religiosos
responderam aos apelos que vinham do púlpito: "O
nudismo é tão desavergonhado quanto o próprio Demônio,
o máximo da rebelião humana contra Deus".
O que ê exatamente isso que tanto queremos
esconder? No caso da mulher adulta, quase não há o que
ver. Por baixo dos pêlos púbicos, e parcialmente escondida
por eles, existe uma pequena fenda vertical criada pelos
dois grandes lábios — dobras de carne que protegem os
pequenos lábios, mais delicados, que flanqueiam a
abertura vaginal. No alto da fenda existe um pequeno
capuz de carne que cobre parcialmente o clitóris, um pe-
queno botão de carne extremamente sensível situado bem
acima do canal urinário, a uretra. E é só. Comparados
com o equipamento masculino, os genitais femininos
podem ser descritos como visualmente simples. No entanto,
a atenção que eles atraem é enorme, e para ocultá-los as
pessoas chegam a cometer extravagâncias, para dizer o
mínimo.
O motivo para a excitação que essa parte do corpo
produz não está em seus atributos visuais, mas em suas
qualidades táteis. Nenhuma outra parte do corpo feminino
é tão sensível ao toque, seja dos dedos, dos lábios, da
língua ou do pênis. O formato do pênis masculino é
significativo nesse aspecto. Comparado ao pênis de outros
primatas, o órgão humano é muito diferente. Falta-lhe o os
penis — o pequeno osso que dá aos macacos uma rápida
ereção. O sistema humano depende da congestão do
sangue nos vasos sangüíneos. Quando ocorre a excitação
sexual, o sangue entra no pênis muito mais rapidamente
do que pode sair. Isso não só torna o pênis ereto, como
aumenta seu comprimento e especialmente sua espessura.
O resultado é que, quando ele é inserido na vagina da
mulher, pressiona os lábios e as paredes vaginais. Essa
pressão cria uma forte reação erótica na mulher,
permitindo-lhe partilhar a excitação com o homem à
medida que a cópula prossegue.
Isso pode ser visto como um evidente e inevitável
mecanismo de acasalamento, mas difere acentuadamente
do que ocorre com outros primatas. A fêmea do macaco
recebe algumas estocadas do pênis fino e ossudo do
macho e num instante o coito termina. Nos babuínos, por
exemplo, um típico coito leva apenas 8 segundos, e a
ejaculação ocorre, em média, depois de apenas seis
movimentos pélvicos. O ato sexual mais demorado não
leva mais do que 20 segundos. Por isso, as macacas não
desfrutam do aumento progressivo da excitação sexual e
do orgasmo explosivo da fêmea humana. O espesso pênis
humano causa fortes sensações à medida que se move
contra as superfícies internas dos genitais femininos
durante os prolongados movimentos pélvicos de nossa
espécie. O orifício da vagina, cercado por camadas de pele
extremamente sensíveis, é submetido a uma repetida e
ritmada massagem do pênis. À medida que a excitação da
mulher aumenta, os grandes e pequenos lábios se
intumescem de sangue, atingindo o dobro do seu tamanho
normal e desenvolvendo uma sensibilidade cada vez maior
ao toque. Depois de uma prolongada estimulação, a mulher
experimenta um clímax orgástico fisiologicamente muito
semelhante ao do homem. Isso significa que ambos os
parceiros recebem uma grande recompensa pelo esforço
sexual, e o encontro, ao contrário do que acontece com os
macacos, pode produzir fortes laços emocionais entre os
parceiros. O fato de a fêmea humana (ao contrário da
fêmea do macaco) não transmitir um sinal claro ao macho
quando está ovulando também significa que a maior parte
dos atos sexuais não são de procriação, mas servem para
estreitar ainda mais os laços emocionais entre os amantes.
Os seres humanos literalmente fazem amor.
Em conjunto, os genitais externos são conhecidos
como vulva. Vale a pena analisar separadamente cada
uma de suas partes.
Monte de Vênus. Também conhecido pelos nomes
latinos de mons veneris ou mons pubis, o monte de Vênus
é uma pequena almofada de tecido gorduroso coberta de
pêlos púbicos, que funciona como um amortecedor para o
osso do púbis. Situa-se logo acima dos lábios, e sua
função é proteger o osso púbico do impacto do corpo do
homem durante os momentos mais vigorosos do ato sexual.
Ele também tem um papel na excitação sexual, porque é
bem suprido de terminações nervosas. Qualquer
massagem acidental ou deliberada nessa região tem um
efeito erótico, e algumas mulheres alegam que isso é
suficiente para levá-las ao orgasmo. Ele é mais sensível à
estimulação quando os pêlos púbicos foram removidos, o
que pode explicar em parte o sucesso da depilação da
região pubiana.
O monte de Vênus só aparece na puberdade, quando
o súbito aumento dos níveis de estrógeno provoca sua
formação. Entretanto, jovens modelos excessivamente
magras não desenvolvem esse tecido gorduroso, e por isso
seu púbis parece mais projetado para a frente que o
normal.
Grandes lábios. Também conhecidos como lábia
majora, os carnudos lábios externos normalmente cobrem
os pequenos lábios internos, a menos que as pernas
estejam totalmente abertas. Quando elas se fecham, criam
uma fenda vertical. Um monte de pêlos cobre essa
superfície, dotada de glândulas que secretam odor. A pele
é semelhante à do resto do corpo, às vezes um pouco mais
escura.
Durante a intensa excitação sexual, os grandes lábios
podem ficar mais vermelhos. O equivalente no homem é a
bolsa escrotal. O tamanho dos grandes lábios varia de
uma mulher para outra. Algumas acumulam mais tecido
gorduroso, o que faz os lábios mais arredondados e
proeminentes.
Pequenos lábios. São conhecidos como labia minora
ou nymphae. Posicionados dentro dos grandes lábios,
esses pequenos lábios chatos (sem gordura) são duas
membranas cutâneo-mucosas altamente sensíveis, que se
mantêm úmidas graças ao muco vaginal. Durante a
penetração, com a prolongada estimulação do pênis ereto,
os pequenos lábios se intumescem de sangue, adquirindo
uma coloração avermelhada. (A ausência dessa coloração é
um sinal de falso orgasmo.)
Os pequenos lábios têm formas e tamanhos variados:
alguns são pequenos e lisos, enquanto outros podem
mostrar dobras, ondulações ou grânulos. Nas mulheres do
povo san, nômades da África do Sul, os pequenos lábios
são às vezes muito alongados e pendem entre as pernas
''como dois dedos de carne pendurados". De acordo com
certos relatos, chegam a medir 11 cm e podem ser enfiados
na vagina. Uma autoridade insiste que eles podem chegar
a 20 cm, e existe um relato da década de 1860, não muito
confiável, de que uma mulher "foi capaz de desdobrar seus
nymphae e fazê-los encontrar-se atrás das nádegas". De
qualquer modo, seu comprimento anormal tem provocado
muitas dúvidas: serão eles uma característica racial ou
resultado de um costume cultural de distendê-los
artificialmente?
O estiramento dos lábios ressurgiu recentemente no
mundo ocidental, e existem até cursos que ensinam essa
técnica para aumentar o prazer sexual. Entretanto, não há
consenso sobre esse fato, e há quem afirme que lábios
maiores provocam dor no contato com a roupa. Além disso,
lábios maiores são considerados feios por alguns escritores,
que afirmam que "mulheres perfeitas sempre têm lábia
minora simétricos, sem muitas dobras ou fissuras e que
não se projetam além dos grandes lábios".
Os cirurgiões plásticos certamente concordarão com
essa opinião; muitas cirurgias genitais são realizadas para
reduzir o tamanho dos pequenos lábios ou restaurar a
simetria quando um lábio cresce mais que o outro. A
labioplastia, como é chamada essa cirurgia, tem sido a
mais procurada entre as "cirurgia íntimas".
Vagina. A vagina é um tubo de cerca de 8-10 cm de
comprimento quando a mulher não está excitada. Nessa
condição, suas paredes se tocam. Com a excitação sexual,
ela se expande e chega a 10-15 cm. Na idade adulta, entre
a puberdade e a menopausa, o revestimento da vagina é
levemente rugoso. Antes e depois desse período, o tecido é
liso.
Nas virgens, a extremidade externa da vagina é
protegida por uma membrana que fecha parcialmente sua
entrada. A presença desse hímen foi de grande
importância historicamente, quando os noivos exigiam noi-
vas intocadas. Geralmente, na primeira vez que o pênis é
inserido na vagina o hímen se rompe e há um pequeno
sangramento. Algumas culturas tinham o costume de
exibir a mancha de sangue no lençol do casamento como
prova da virgindade da noiva. Conta-se que mulheres
experientes conseguiam simular castidade na lua-de-mel
inserindo na vagina uma esponja embebida em sangue de
pombo ou escondendo sob o travesseiro um pequeno
frasco com sangue de algum animal, que derramavam no
lençol no momento oportuno.
No tempos atuais, em que muitas jovens se dedicam a
esportes vigorosos, para não falar do uso de tampões e
diversos modos de masturbação, muitos hímens se
rompem antes da primeira penetração. Em conseqüência
disso, só 50% das mulheres modernas sangram no
primeiro intercurso. É por isso que alguém já disse que, na
sociedade atual, "a virgindade não é mais um atributo
físico, mas espiritual".
Em termos evolucionários, a existência do hímen é
enigmática. Se sua função é tornar a primeira relação
sexual difícil e dolorosa, que valor pode ter isso para a
sobrevivência da espécie? Só parece haver uma única
explicação possível: trata-se de um passo evolutivo
destinado a colocar um leve freio ao contato sexual precoce.
Deflorar uma jovem tornou-se um limite que todo menino
tem que ultrapassar, e a primeira relação sexual entre um
casal de jovens amantes se tornou um momento mais sério
e significativo. Para a formação de um par da espécie isso
tem algum sentido.
A região inferior da vagina, mais próxima da abertura,
é cercada de tecido muscular. Esse tecido controla o
tamanho da abertura vaginal, que é menor em mulheres
jovens. Em mulheres mais velhas, que já tiveram filhos,
esses músculos se enfraquecem e a tensão muscular
diminui. Como uma vagina estreita atrai o homem, uma
nova cirurgia plástica está sendo realizada para recuperar
a tensão muscular. A região superior da vagina, sua
porção interna, é menos muscular e se expande com maior
facilidade para acomodar o pênis. Na extremidade superior
da vagina fica a cérvix uterina, também chamada de colo
do útero.
Durante o ato sexual, a forte excitação aumenta as
dimensões da vagina, permitindo que o pênis alcance sua
extremidade, onde o esperma pode ser ejaculado através
da cérvix. Passando por ela, os espermatozóides iniciam
sua grande jornada através do útero em direção às
trompas de Falópio, onde encontrarão um óvulo descendo.
Um deles vai se unir ao óvulo para iniciar uma nova vida.
Embora o ovário contenha literalmente milhares de
óvulos, a mulher não libera mais de quatrocentos durante
sua vida reprodutiva. Uma vez por mês, um óvulo
amadurece e se torna fértil em sua passagem pelas
trompas de Falópio, o que leva vários dias.
Além da passagem vaginal e dos lábios que a cercam,
os órgãos genitais também contêm quatro pontos
extremamente excitáveis. São pequenas regiões de alta
sensibilidade, cuja estimulação durante a relação sexual
cria condições para o orgasmo. São eles: o clitóris, o ponto
U, o ponto G e o ponto A. Os dois primeiros situam-se fora
da vagina; os outros dois, na parte interna.
Clitóris. É o mais conhecido dos pontos eróticos.
Localiza-se na parte superior da vulva, no ponto onde os
pequenos lábios juntam suas extremidades superiores.
Sua parte visível é um botão do tamanho de um mamilo,
parcialmente coberto por um capuz protetor. Trata-se de
um feixe de 8 mil fibras nervosas, o que o torna o ponto
mais sensível do corpo feminino. Dotado de uma função
apenas sexual, o clitóris cresce (torna-se mais longo, mais
grosso e mais erétil) e torna-se ainda mais sensível
durante a cópula. Durante as preliminares, geralmente ele
é estimulado manualmente, e muitas mulheres que têm
dificuldade para chegar ao orgasmo pela estimulação
vaginal atingem mais facilmente o clímax com o estimu-
lação oral, digital ou mecânica do clitóris.
Recentemente, um cirurgião australiano descobriu
que o clitóris na verdade é maior do que se julgava. A parte
visível é simplesmente a ponta, sendo que a maior parte
fica sob a superfície, descendo ao redor do orifício vaginal.
Isso significa que, durante a penetração, a parte oculta é
vigorosamente massageada com os movimentos do pênis.
Portanto, mesmo quando a ponta não é estimulada
diretamente, sempre haveria alguma estimulação
clitoridiana. Entretanto, como essa parte oculta não tem a
mesma sensibilidade, a estimulação direta da ponta do
clitóris será sempre importante para a excitação da mulher.
Algumas mulheres afirmam que, com uma rotação ritmada
da pelve, podem friccionar diretamente o clitóris durante
os movimentos de penetração do pênis, o que lhes permite
uma maior excitação. Entretanto, isso exige um papel mais
dominante da mulher, que nem sempre é aceito pelo
homem.
Ponto U. Trata-se de uma pequena porção de tecido
erétil e sensível localizado de cada lado do orifício da
uretra. Ele não está presente abaixo da uretra, entre ela e
a vagina. Menos conhecido que o clitóris, esse ponto só
recentemente foi investigado por pesquisadores clínicos
americanos, que descobriram que, se essa região for
suavemente acariciada com o dedo, a língua ou a cabeça
do pênis, haverá uma forte e inesperada reação erótica.
Ainda sobre o tema da uretra feminina, é importante
mencionar a "ejaculação feminina". No homem, a uretra
libera a urina e o líquido seminal que contém esperma. Na
mulher, acredita-se que ela libere apenas urina, mas não é
verdade. Quando ocorre um orgasmo extraordinariamente
forte, algumas mulheres podem expelir pela uretra um
líquido que não é urina. Ao redor da uretra, existem
glândulas especializadas, chamadas glândulas de Skene,
semelhantes à próstata no homem, que sob forte excitação
produzem um líquido alcalino quimicamente semelhante
ao sêmen. As mulheres que experimentam essa ejaculação
(cuja quantidade varia de algumas gotas a algumas
colheres de sopa) pensam que o forte exercício muscular
as levou a urinar involuntariamente, mas isso só ocorre
porque elas não conhecem a própria fisiologia. Por falar
nisso, alguns médicos também julgam que a mulher está
sofrendo de "incontinência urinária causada por estresse"
e indicam um cirurgia para curá-la. (Recentemente, um
homem pediu o divórcio porque acreditava que a mulher
urinava nele, tal sua ignorância sobre a atividade genital
feminina.)
Não se sabe ao certo a razão de ser dessa ejaculação,
já que ela ocorre um pouco tarde demais para ter função
lubrificante. A lubrificação vaginal, na verdade, é realizada
pelas próprias paredes da vagina, que rapidamente se
cobrem de um muco quando a excitação começa.
Ponto G ou ponto Grafenberg, Trata-se de uma
pequena área altamente sensível, localizada de 8 a 11 cm
dentro da vagina, na sua parede anterior. Recebeu o nome
de seu descobridor, o ginecologista alemão Ernst Gra-
fenberg. Pesquisas sobre a natureza do orgasmo feminino
realizadas na década de 1940 descobriram que a uretra da
mulher, que se situa acima da vagina, é cercada por um
tecido erétil semelhante ao do pênis. Quando a mulher se
excita, esse tecido começa a inchar. Na zona do ponto G,
essa expansão resulta numa pequena protuberância da
parede vaginal para dentro do canal vaginal. Segundo
Grafenberg, essa zona protuberante "é uma zona erógena,
talvez mais importante que o clitóris". Ele explica que esse
efeito se perdeu quando a "posição missionária", também
chamada de "papai-e-mamãe", se tornou predominante no
comportamento sexual humano. Outras posições sexuais
são muito mais eficientes para estimular essa zona
erógena e, portanto, provocar o orgasmo.
Convém destacar que o termo "ponto G" nunca foi
usado pelo próprio Grafenberg. Como mencionamos, ele o
chamou de "zona erógena", que é uma descrição muito
mais adequada. Infelizmente, o uso do termo "ponto G" se
tornou popular e gerou alguns mal-entendidos. Algumas
mulheres passaram a acreditar que existe um "botão do
sexo" que pode ser apertado a qualquer momento para
causar uma explosão orgásmica. Decepcionadas, elas
chegaram à conclusão de que não existe ponto G. A
verdade, como já explicamos, é que o ponto G é uma zona
sexualmente sensível da parede vaginal, que se torna
levemente protuberante quando as glândulas que circun-
dam a uretra se incham. Vários destacados ginecologistas
negaram sua existência quando o assunto começou a ser
discutido em congressos, provocando forte controvérsia.
Mais tarde, porém, diante de uma convincente argu-
mentação, eles mudaram de opinião. A questão também
entrou no debate político, quando campanhas contra o
machismo rejeitaram de cara a possibilidade de um
orgasmo vaginal. Para essas mulheres, o orgasmo clitoridi-
ano era o único politicamente correto. Não se sabe como
elas reagiram à recente comercialização de vibradores
capazes de atingir o ponto G.
O que é assustador é que algumas mulheres têm se
submetido a injeções de colágeno para aumentar o ponto
G. Eis um relato: "Um dos mais modernos procedimentos é
a injeção no ponto G. Substâncias semelhantes às que são
injetadas nos lábios para aumentar seu volume podem
agora ser injetadas no ponto G. A idéia é que isso irá
aumentar sua sensibilidade e proporcionar melhores
orgasmos". Parece mais um mito que uma realidade
cirúrgica, mas no que se refere à busca do prazer sexual.,
nada é impossível.
Ponto A, zona BFA ou Zona Erógena do Fórnix Anterior.
Esta é uma zona de tecido sensível situada na extremidade
do tubo vaginal, entre a cérvix e a bexiga, descrita
tecnicamente como "a próstata degenerada da mulher".
(Em outras palavras, é o equivalente feminino da próstata,
assim como o clitóris é o equivalente feminino do pênis.) A
estimulação direta desse ponto pode produzir fortes
contrações orgásticas. Ao contrário do clitóris, ele não
parece sofrer de supersensibilidade depois do orgasmo.
Sua existência foi relatada recentemente, na década
de 1990, por um médico malaio em Kuala Lumpur. Houve
certa confusão sobre seu posicionamento, que tem sido
incorretamente descrito. Sua verdadeira localização é
acima da cérvix, no ponto mais alto da vagina. A cérvix é o
estreitamento do útero que se projeta ligeiramente para
dentro da vagina, criando um recesso circular ao seu redor,
que é o fórnix. A parte frontal desse recesso é chamada
fórnix anterior. A pressão sobre esse ponto produz uma
rápida lubrificação da vagina, mesmo em mulheres que
normalmente não são sexualmente receptivas. Hoje é
possível adquirir um vibrador especial para a zona EFA —
longo, estreito e curvo na parte superior, para tocar essa
zona.
Estudiosos da fisiologia sexual feminina alegam
(talvez com excessivo entusiasmo) que, se os quatro pontos
erógenos forem estimulados um depois do outro, a mulher
poderá alcançar muitos orgasmos numa só noite.
Acrescentam, porém, que isso exige um parceiro
extremamente sensível e experiente.
Tem sido dito que duas em cada três mulheres não
conseguem atingir o orgasmo com a simples penetração. A
maioria delas descobre que só a estimulação digital ou oral
do clitóris pode conduzir ao clímax. Isso deve significar
que, para elas, os dois pontos erógenos localizados dentro
da vagina não fazem jus à fama. A razão disso parece ser a
monotonia das posições sexuais. Uma pesquisa realizada
com 27 casais solicitou que eles variassem as posições
durante a relação sexual, adotando posturas que
permitissem maior estimulação dos dois pontos erógenos
vaginais. O resultado foi que três quartas partes da
mulheres foram capazes de alcançar um orgasmo vaginal.
Finalmente, as mudanças pelas quais os genitais
femininos passam durante a excitação sexual podem ser
resumidas da seguinte maneira:
Fase 1: início da excitação sexual
No primeiro minuto, a lubrificação vaginal começa.
Os dois terços superiores do tubo vaginal começam a se
expandir.
A cérvix e o útero são empurrados para cima.
Os grandes lábios começam a se separar.
Os pequenos lábios começam a se intumescer.
O clitóris começa a aumentar de tamanho.

Fase 2: aceitação plena


A lubrificação cessa.
Os dois terços superiores da vagina agora estão totalmente
expandidos.
As paredes do terço inferior da vagina intumescem em
decorrência da congestão dos vasos sangüíneos.
O tamanho da entrada da vagina diminuí 30% devido ao
intumescimento das paredes vaginais.
Os grandes lábios se separam a ponto de deixar a vagina
mais visível.
Os pequenos lábios estão no mínimo duas vezes mais
espessos.
Os pequenos lábios mudam de cor, passando de rosados a
vermelhos.
O clitóris está plenamente ereto.

Fase 3: clímax orgástico


O terço exterior da vagina apresenta contrações
musculares ritmadas.
As primeiras contrações, mais fortes, ocorrem a cada 8/10
de segundo.
O número de contrações por orgasmo varia de três a
quinze.
As contrações musculares ocorrem cm toda a região
pélvica (e além dela).
Pode ocorrer a ejaculação de um líquido (que não é urina).

Uma mulher pode atingir o orgasmo em 5 minutos,


mas o tempo médio, com base num escudo de 20 mil
orgasmos, é de cerca de 20 minutos. Depois do orgasmo, o
clitóris, os lábios, a vagina e o útero voltam ao normal.
Algumas mulheres conseguem desfrutar de orgasmos
múltiplos em rápida sucessão, enquanto outras têm um
primeiro clímax tão intenso que não sentem necessidade
de repeti-lo por algum tempo.
De acordo com uma pesquisa realizada em 2003 na
Inglaterra, 25% das mulheres sempre atingem o orgasmo
quando fazem sexo; 50% geralmente conseguem; 12,5%
raramente conseguem; e 5% nunca conseguem. Números
como esses foram usados no passado para tentar provar
que as mulheres são biologicamente menos orgásticas que
os homens. O mais provável, porém, é que homens e
mulheres tenham o mesmo potencial orgástico, e que,
devido a pressões culturais c tradições puritanas, os
homens tenham se tornado ineptos pura excitar
totalmente suas parceiras. O fato de, segundo a mesma
pesquisa, 60% das mulheres terem mencionado que
também alcançam o orgasmo através da masturbação in-
dica que a incapacidade não está no impulso sexual, mas
na técnica sexual dos parceiros.
Considerando a grande delicadeza, complexidade e
sensibilidade dos genitais femininos, pode-se imaginar que
uma espécie inteligente como a nossa os trataria com
carinho. Infelizmente, nem sempre isso acontece. Durante
milhares de anos, em muitas diferentes culturas, os
genitais femininos têm sido vítimas de uma surpreendente
variedade de mutilações e restrições. Para órgãos que são
capazes de dar muito prazer, eles têm sofrido uma
quantidade anormal de dor.
A forma mais comum de agressão é a circuncisão.
Essa mutilação tem sido rara no Ocidente, embora
recentemente, cm 1937, um médico do Texas tenha
defendido a remoção do clitóris para curar a frigidez. Na
América, esse é um caso isolado, mas em algumas regiões
da África, do Oriente Médio e da Ásia, a circuncisão tem
sido uma prática comum há séculos. O mais assustador é
que, longe de ser um costume esquecido, a circuncisão
feminina ainda é praticada em mais de vinte países.
Muitas justificativas são apresentadas para a
operação. Se o pênis toca o clitóris, o homem pode se
contaminar, pode ficar impotente ou até morrer. Se o bebê
tocar o clitóris da mãe quando está nascendo, pode morrer.
O leite da mãe que tem clitóris pode estar envenenado. Ter
genitais externos faz a mulher cheirar mal. Na tentativa de
satisfazer as necessidades sexuais da mulher, muitos
maridos usam drogas ilegais. A remoção dos genitais
externos evita muitos "problemas femininos", entre eles
nervosismo, feiúra, neurose e câncer vaginal.
Naturalmente, a verdadeira razão é que, reduzindo o
prazer sexual da mulher, o homem tem mais facilidade de
subordiná-la a seus padrões machistas.
Como a operação é realizada? Na maioria dos casos,
os grandes lábios e o clitóris são cortados, e a entrada da
vagina é suturada, deixando apenas uma minúscula
abertura para a passagem da urina e do fluxo menstrual.
Depois, as pernas da jovem são atadas para garantir a
cicatrização e a permanência da operação. Mais tarde,
quando elas se casam, as jovens tem que passar pelo
sofrimento de ter seu orifício artificialmente reduzido
rompido pelo marido. (Como se isso não fosse suficiente,
se o marido sair numa longa viagem, as costuras podem
ser refeitas.)
Essa forma extrema de mutilação genital chama-se
infibulação e, às vezes, circuncisão faraônica. Uma forma
um pouco menos monstruosa envolve apenas a remoção
do clitóris e dos lábios. E uma forma mais moderada, às
vezes chamada de circuncisão sunita (porque alega-se que
ela teria sido recomendada pelo profeta Maomé), exige
apenas o corte da ponta do clitóris e/ou do capuz
clitoridiano.
A natureza anti-sexual dessas operações ficou clara
na opinião de um "especialista": "Primeiro eu as examino
intimamente. Se o clitóris sai para fora e as excita
sexualmente ao roçar contra a roupa, então é a hora de
cortá-lo". Todos os anos, nada menos de 2 milhões de
meninas são submetidas, aos gritos e sem anestesia, a
essa brutal operação. Os instrumentos utilizados são
toscos (navalhas, facas ou tesouras), não há condições de
assepsia e as mortes são freqüentes, mas escondidas. E
ainda há quem defenda a operação: "A circuncisão
feminina é sagrada, e a vida sem ela não teria sentido".
A escala em que essa infâmia é praticada contra as
mulheres é enorme. Calcula-se que existam hoje mais de
100 milhões de mulheres vivas que foram submetidas a
essa mutilação. Eis alguns números, país por país: Nigéria,
33 milhões; Etiópia, 24 milhões; Egito, 24 milhões; Sudão,
10 milhões; Quênia, 7 milhões; Somália, 4,5 milhões. Além
disso, 90% das meninas que vivem em Djibuti, Eritréia e
Serra Leoa, e 50% em Benin, Burkina Fasso, República
Centro-Africana, Chade, Costa do Marfim, Gâmbia, Guiné-
Bissau, Libéria, Mali e Togo tiveram os genitais mutilados.
E a lista não pára por aí. Embora a África pareça ser a
fonte original desse tipo de operação, ela se disseminou
pelo Oriente Médio, onde é praticada em Bahreim, Oman,
Iêmen e Emirados Árabes Unidos, e pela Ásia, onde é
comum nas populações muçulmanas da Malásia e da
Indonésia.
Mesmo em países onde ela foi oficialmente proibida, a
prática sobrevive. No Egito, onde foi proibida (em vão), a lei
foi revogada em 1997 por um fundamentalista muçulmano
que impetrou uma ação contra o governo e ganhou.
Diante dessa situação, diplomatas e políticos das
Nações Unidas e de outras organizações importantes se
escondem por trás de justificativas convenientes como
"mostrar respeito às tradições locais". Não admira que eles
próprios mereçam tão pouco respeito.
Devido às recentes condenações públicas, os
mutiladores (que ganham muito dinheiro realizando a
operação) se uniram e formaram uma sociedade para se
proteger. Insistem em que a circuncisão das jovens é "uma
maneira simples de reduzir a promiscuidade sexual que
causaria discórdia no lar entre marido e mulher". E
exigiram que seus governos imponham uma multa de US$
1 milhão a quem ousar discutir a questão na imprensa
local. Nem é preciso dizer que as autoridades médicas
estão advogando em causa própria.
No Egito, onde 3 mil meninas são circuncidadas todos
os dias, um líder muçulmano publicou uma fatwa contra
qualquer pessoa que se oponha à operação, afirmando que
ela merece morrer e referindo-se à operação como uma
"prática louvável que respeita as mulheres". Como apenas
15% da população do mundo são muçulmanos, e quase
todos os que não pertencem ao Islã (para não mencionar
muitos islamitas) se recusam a tolerar a prática, esse
homem, o xeque Al Azhar, ordenou a pena de morte de, no
mínimo, 85% da raça humana. Esse religioso não tem a
menor autoridade para fazer essa declaração, já que não
há menção à circuncisão feminina no Alcorão, e a
autenticidade da alegação de Maomé — "É permitido [mas]
se cortar, não exagere" — tem sido contestada por muitos
estudiosos do islamismo.
Os seguidores do xeque apóiam sua postura violenta.
Quando uma repórter egípcia lhe fez perguntas
embaraçosas, foi ameaçada: "Cortarei sua língua e a
língua de toda a sua ascendência". E, numa explosão
grotesca, ele ainda lhe disse que, se seu clitóris tivesse
sido removido, ela seria mais bonita. (Uma das alegações
espúrias em favor da circuncisão feminina é a de que ela
"deixa o rosto da mulher mais bonito".)
Finalmente, convém uma breve menção à recente
moda dos piercings genitais. Ela é bem diferente da
mutilação genital que tem sido chamada de circuncisão
feminina. Primeiro, é voluntária e realizada apenas por
mulheres adultas. Em segundo lugar, seu objetivo
declarado é "decorar, estimular e provocar o interesse
sexual nos genitais femininos", e não destruí-los.
É difícil entender por que razão alguém quer ter uma
barra ou uma argola de metal inserida em partes sensíveis
da vulva, mas para uma minoria trata-se de uma nova
moda na longa história da ornamentação corporal.
Os principais piercings genitais são os seguintes:

Piercing vertical no capuz clitoridiano. É o mais


popular. Consiste numa pequena barra fina inserida
verticalmente no capuz clitoridiano, que se situa bem
acima do clitóris, com uma tacha esférica presa a cada
extremidade. Portanto, a tacha inferior fica em contato
com o clitóris e pode estimulá-lo durante certos
movimentos. Também pode ser uma simples argola de
metal inserida verticalmente no capuz.
Piercing horizontal no capuz clitoridiano. Nesse caso, o
capuz é atravessado de um lado a outro. Mais uma vez,
pode ter a forma de barra ou de argola. O efeito parece
mais decorativo e menos estimulante.
Piercing clitoridiano. É extremamente raro, por
motivos óbvios. O clitóris é muito sensível e, na maioria
dos casos, pequeno demais para ser perfurado.
Piercing triangular. Trata-se de um piercing horizontal
colocado na base do capuz clitoridiano. Enquanto o
vertical pode estimular a parte anterior do clitóris, o
triangular estimula a parte posterior.
Piercing labial. Os pequenos lábios são perfurados
com um par de barras ou de argolas de cada lado do
clitóris ou da abertura da vagina.
Embora o fascínio por essa mutilação decorativa dos
genitais seja provavelmente uma moda passageira, é
lamentável numa época em que tanto esforço está sendo
feito para desestimular a circuncisão forçada de milhões
de meninas. Se algumas mulheres modernas são capazes
de deixar que seus genitais sejam dolorosamente
perfurados apenas para obedecer a um capricho da moda,
fica muito mais difícil queixar-se de outras graves
mutilações. Entretanto, embora as duas mutilações
representem uma agressão cirúrgica à sensível vulva, não
se poder esquecer que, em um caso, a agressão é feita
para aumentar o prazer sexual, enquanto a outra tem a
finalidade de destruí-lo.
21. Nádegas
As nádegas têm sido injustamente a parte do corpo
feminina mais desconsiderada. Elas fazem rir ou são
objeto de piadas sujas. Assento, traseiro, bozó, bunda,
holofote, padaria, popa, poupança, rabo, rabisteco, tralalá
são alguns dos nomes pelos quais elas têm sido chamadas
em português, sem falar em várias outras denominações
pejorativas recebidas em outras línguas ao longo dos
séculos. Mas seja qual for a denominação, existe sempre
uma conotação ridícula ou obscena. Mesmo quando são
consideradas uma zona erótica, devido à sua proximidade
com os genitais, são mais beliscadas e estapeadas do que
acariciadas.
Uma busca cuidadosa na literatura se faz necessária
para encontrar palavras de elogio a essa parte da anatomia
feminina. Em O amante de Lady Chatterley, D. H.
Lawrence faz uma referência lírica à "indolente e redonda
calmaria das nádegas", e Rimbaud as admira como "dois
arcos salientes", enquanto Byron admite que o traseiro da
mulher é "uma coisa estranha e bela de se olhar".
Autores mais recentes têm declarado, de maneira um
tanto ambígua, que "a bunda é a face da alma do sexo",
que oferece "um amortecedor de delícias". O cineasta
italiano Federico Fellini comentou, também de forma
equívoca, que "a mulher bunduda é um épico molecular de
feminilidade" — uma frase que parece ter perdido algo na
tradução. O artista espanhol Salvador Dali foi mais longe
ao insistir que "é através da bunda que os maiores
mistérios da vida podem ser entendidos".
Entretanto, esses são exemplos isolados, e muito
mais comuns são os comentários que tratam as nádegas
como algo cômico ou vulgar. Essa atitude negativa persiste
apesar de as nádegas serem um atributo exclusivamente
humano. Elas foram adquiridas quando nossos ancestrais
deram um passo gigantesco e se puseram de pé sobre as
pernas traseiras. Os fortes músculos glúteos se
expandiram, permitindo ao corpo manter-se per-
manentemente ereto, e são esses músculos que nos dão o
par de hemisférios que hoje são tão injustamente
ridicularizados.
É fácil ver como isso aconteceu. As nádegas não são
sozinhas. Entre elas fica o ânus, através do qual passam,
dia após dia, todos os nossos resíduos sólidos e — ainda
mais notória — uma ocasional emissão de gases. Além
disso, quando nos curvamos para a frente, os genitais
ficam à vista, emoldurados pelas curvas fêmeas das
nádegas. Portanto, existem associações excretórias e
sexuais.
Portanto, a exposição das nádegas é interpretada
como um insulto grosseiro — um ato simbólico de defecar
sobre o inimigo — ou uma grande obscenidade — uma
desavergonhada exibição dos órgãos sexuais. Na sociedade
moderna, exibir o traseiro nu em público provoca reações
variadas, que vão do riso constrangido a queixas, insultos
e até um processo judicial. Recentemente, na Suíça, a
Suprema Corte debateu se uma determinada exibição de
nádegas era "ofensiva" ou "indecente". Dessa sutil
distinção dependia uma decisão que podia significar
condenação. Durante uma violenta discussão com uma
vizinha, uma mulher suíça tinha "exposto o traseiro nu".
Como havia crianças presentes, ela foi presa, acusada de
atentado ao pudor e condenada pelo tribunal de primeira
instância. Depois das devidas deliberações, a Suprema
Corte anulou a condenação e até liberou a ré do paga-
mento de custas. Fez isso porque chegou à conclusão de
que "o gesto era com certeza um comportamento
insultuoso e punível como tal, mas não podia ser
considerado indecente, porque não envolveu nenhum
órgão de procriação". Provavelmente, se ela tivesse se
curvado para a frente ao fazer seu gesto de desafio, a
condenação teria sido mantida.
Essa reações extremas à exposição das nádegas hoje
são raras no Ocidente. Pessoas que se expõem dessa
maneira em eventos esportivos geralmente só provocam
risadas, assim como os estudantes de universidades que
exibem as nádegas nas janelas dos dormitórios. Como
forma de protesto, a nudez não é mais o que era.
A exposição das nádegas se torna abusiva quando
acompanhada de frases como "Beije o meu rabo". Aí é um
insulto, porque propõe uma subordinação humilhante.
Mas não é só isso. Embora nem quem insulta nem quem é
insultado percebam, ambos estão envolvidos numa
antiqüíssima prática de ocultismo. Para entender do que
se trata, precisamos voltar à Grécia clássica.
A atua! visão das nádegas como motivo de chacota
não era a dos antigos gregos. Para eles, as nádegas eram
uma parte bela da anatomia, em parte devido à sua
agradável curvatura, mas também por seu contraste com o
traseiro dos macacos e chimpanzés. Os dois hemisférios
humanos eram tão diferentes dos dois pedaços de carne
dura (as calosidades dos ísquios) do macaco, que os gregos
consideravam as nádegas um sinal da suprema condição
humana. Segundo os gregos, a curvilínea deusa da amor,
Afrodite Calipígia — literalmente, "que tem belas
nádegas" —, tinha nas nádegas a parte esteticamente mais
agradável de toda a sua anatomia. Eram tão veneradas
que um templo foi erguido em sua honra — fazendo das
nádegas a única parte do corpo humano objeto de culto.
Essa visão primitiva das nádegas como peculiaridade
humana deu origem a outra crença. Se as nádegas
arredondadas eram a marca que distinguia o ser humano
dos animais, então os monstros das trevas não deviam ter
essa característica anatômica. Foi assim que o Demônio
ganhou a reputação de ser "desbundado". Os primitivos
europeus estavam convencidos de que, embora pudesse
assumir a forma humana, o Demônio nunca conseguia
simular as nádegas arredondadas, que estariam além de
seus poderes diabólicos.
Acreditavam que essa impotência era fonte de grande
angústia para o Demônio, e uma grande oportunidade de
atormentá-lo. Para aumentar sua inveja, bastava mostrar
a ele as nádegas nuas. Como essa súbita exposição lhe
lembrava sua deficiência, ele se via obrigado a olhar para
longe, desviando o olhar maléfico. Isso protegia o humanos
do temido "Olho do Demônio" e tornou-se um gesto muito
utilizado para afastar as forças do mal.
Usada dessa forma, a exposição das nádegas não era
considerada vulgar nem indecente. Nos fortes e nas igrejas,
esculturas de mulheres exibiam suas nádegas
arredondadas para afastar os maus espíritos, já que as
nádegas estavam sempre voltadas para fora da porta
principal. Na Alemanha, se havia uma tempestade terrível
durante a noite, as mulheres exibiam as nádegas na porta
das casas na esperança de rechaçar os poderes malignos e
evitar que a tempestade causasse mortes.
Provavelmente, foi assim que a exposição das nádegas
começou, e hoje os que a expõem praticam a antiga
tradição cristã sem o saber. Com o Demônio fora de moda
como grande inimigo, a exibição é vista hoje como um
gesto grosseiro. De um gesto de desafio religioso, tornou-se
um gesto obsceno.
Mas como isso pode explicar as frases grosseiras que
acompanham o gesto? Para entendê-las, é preciso observar
as primitivas representações do Demônio. Se ele não tem
nádegas, o que tem então nos quartos traseiros? A
resposta é: no lugar onde deviam estar as nádegas ele tem
outra face. E essa segunda face é que supostamente era
beijada pelas bruxas no ritual do sabá. Acusadas do ato vil
de beijar o traseiro do Demônio, elas se defendiam dizendo
que beijavam a boca de sua segunda face.
Tudo isso, naturalmente, é fruto da fértil imaginação
medieval, o que não vem ao caso. A verdade é que lendas e
crenças transmitidas de geração a geração deixam claro
que "beijar o traseiro" era o gesto de um seguidor de Satã e,
como tal, um ato abominável. Quando as superstições
desapareceram, essas ligações se perderam, mas, como
quase sempre acontece, a frase popular sobreviveu e foi
incorporada ao insulto moderno.
Até aqui, a exposição das nádegas foi analisada
unicamente como um ato hostil, mas a questão tem outro
lado. Em contextos totalmente diferentes, a exibição das
nádegas tem forte apelo sexual.
As fêmeas de muitas espécies de macacos têm o
traseiro colorido. Quando se aproxima a época da ovulação,
ele vai se tornando mais evidente e inchado, mas depois
volta ao estado normal. Isso significa que, com um olhar, o
macho pode saber se a fêmea está sexualmente ativa. O
acasalamento geralmente só ocorre quando o traseiro da
fêmea atinge seu ponto mais protuberante.
Com a mulher é diferente. Seu traseiro não aumenta
ou diminui com o ciclo menstrual. Ele se mantém
protuberante o tempo todo, assim como sua sexualidade
permanece alta. A fêmea humana expandiu sua sensuali-
dade a ponto de estar sempre potencialmente receptiva ao
macho. Ela se envolve numa relação sexual mesmo
quando não pode conceber, porque a função do
acasalamento humano não é apenas a procriação. Como
um sistema compensatório, ele ajuda a fortalecer os laços
emocionais entre homem e mulher, mantendo a unidade
familiar. Para os humanos, a cópula é literalmente fazer
amor, e é importante que o corpo da mulher seja capaz de
transmitir sinais eróticos o tempo todo.
Pode-se argumentar que, se os músculos glúteos se
destinam a manter a postura ereta, a mulher não poderia
deixar de ter as nádegas permanentemente empinadas.
Mas as nádegas femininas são mais do que simples
mecanismos para manter a postura ereta. Em relação ao
tamanho do corpo, são maiores que as dos homens, não
porque sejam mais musculosas, mas porque têm maior
quantidade de tecido gorduroso. Essa gordura extra tem
sido considerada um estoque de alimento para as
emergências — quase como a corcova do camelo. Verdade
ou não, o simples fato de essa gordura extra nas nádegas
ser um atributo do sexo feminino faz delas um sinal sexual.
Esse sinal é acentuado por dois outros atributos
femininos: a capacidade de rotação da pelve e a ondulação
dos quadris ao caminhar. Como já dissemos, a mulher
comum (que não deve ser confundida com a atleta cujo
corpo se masculinizou com o treinamento) tem as costas
mais arqueadas que o homem. Em posição normal de
repouso, o traseiro se projeta mais para fora que o do
homem, não importa seu tamanho. Quando ela caminha, a
estrutura óssea das pernas e dos quadris provoca uma
ondulação maior da região glútea. Em curtas palavras: ela
rebola ao andar.
Quando esses três atributos — mais gordura, maior
protrusão e mais ondulação — se combinam, o resultado é
um forte apelo erótico. Não é que a mulher empurre
deliberadamente o traseiro para trás e conscientemente re-
bole para chamar a atenção dos homens, mas isso ocorre
devido à conformação do seu corpo. É claro que ela pode
exagerar esses atributos naturais e correr o risco de se
transformar numa caricatura. (Recentemente, um es-
pectador atento relatou que, durante um show, a cantora
Kylie Minogue rebolou os quadris 251 vezes.) Mas mesmo
que a mulher não faça nada, sua anatomia estará sempre
transmitindo os sinais característicos do seu sexo.
Hoje já não se vêem tantos quadris protuberantes e
ondulantes como antes. Parece que as mulheres de hoje
não são tão avantajadas quanto nossas ancestrais.
Naturalmente, não se pode ter uma prova disso pelos
esqueletos, mas, quando observamos pinturas e
esculturas da Idade da Pedra, vemos imensas nádegas por
toda parte. Mesmo depois da Idade da Pedra elas
persistem na arte pré-histórica de muitas culturas, mas
depois começam a desaparecer até atingir as proporções
atuais, que, embora ainda sejam bem maiores que as dos
homens, são consideravelmente menores. Esses fartos
traseiros primitivos deram lugar a muita especulação.
Uma hipótese é a seguinte. Nossos ancestrais
copulavam por trás, como outros primatas, de modo que
os sinais sexuais pré-humanos da fêmea vinham do
traseiro. Quando evoluímos para a postura ereta e os
músculos traseiros formaram as nádegas, a forma
arredondada se tornou o novo sinal sexual. As mulheres
que tinham grandes traseiros enviavam fortes sinais
sexuais, e com isso as nádegas foram crescendo. As mais
sensuais tinham a vantagem de enviar supersinais com
suas supernádegas, mas elas ficaram tão grandes que
começaram a atrapalhar o ato sexual. Então os homens
resolveram o problema adotando a cópula frontal. Em
razão desse acasalamento frontal, os seios cresceram para
imitar os grandes hemisférios posteriores. A partir de
então esses superseios também eram capazes de enviar
fortes sinais sexuais, dividindo o fardo, por assim dizer,
com as nádegas, que agora podiam começar a diminuir de
tamanho. Essa última versão da fêmea humana, mais
equilibrada e mais ágil, tinha uma considerável vantagem
sobre o modelo antigo, que foi sendo gradualmente
substituído.
Se essa especulação estiver correta, teremos que
encontrar vestígios de sua evidência. Esses vestígios
podem ser encontrados hoje nos desertos do sudoeste da
África, onde as mulheres do povo san ainda exibem as
imensas nádegas das figuras da Idade da Pedra. Em
algumas mulheres, as dimensões do traseiro atingem
proporções assustadoras e nos mostram como deviam ser
todas as nossas ancestrais há muitos milhares de anos.
Há quem diga que comparar européias da Idade da
Pedra — prováveis modelos das figuras rupestres — com
mulheres que vivem atualmente no sul da África é absurdo,
mas essa objeção ignora a verdadeira história do povo san.
Esse povo não vive hoje no deserto porque esse seja seu
ambiente favorito. Esse foi o último canto da Terra onde
eles puderam se manter unidos, já que são um ramo da
família humana em extinção. Seus ancestrais dominavam
grandes extensões da África e deixaram belas pinturas
rupestres como prova disso. Mas eles representavam a
Idade da Pedra Lascada, período em que a caça e a coleta
eram os meios de vida. Com a chegada dos povos da Idade
da Pedra Polida — os primeiros fazendeiros —, eles foram
sendo expulsos de quase todos os seus territórios, e hoje
são cerca de 50 mil indivíduos, quase insuficientes para
povoar uma pequena cidade. No passado, porém, foram
um dos povos dominantes da nossa espécie, e não há
razão para supor que suas imensas nádegas (uma
condição que se denomina "esteatopigia") fossem uma
raridade. É mais que provável que, na Idade da Pedra, elas
fossem um atributo feminino comum, e que os artistas
rupestres tenham se inspirado em mulheres reais, e não
em figuras de suas fantasias eróticas.
Quando as mulheres mais ágeis e magras dominaram
a cena, a velha imagem de grandes glúteos não
desapareceu completamente do inconsciente humano. Ela
ainda ressurge de tempos em tempos de maneiras ines-
peradas. Muitas roupas exageram o tamanho das nádegas.
Mesmo na época vitoriana, o olhar do homem pôde
apreciar uma nova forma artificial de esteatopigia com a
introdução das anquinhas. Arames, enchimentos e cor-
dões entraram em cena para reproduzir a perdida
adiposidade da região glútea. As elegantes que usavam
suas anquinhas nas reuniões da sociedade vitoriana com
certeza ficariam horrorizadas com essa interpretação, mas
hoje a comparação é inevitável. No século XVII, o principal
artifício para exagerar o traseiro feminino eram os sapatos
de salto alto. Esse tipo de calçado distorcia o andar da
mulher de tal maneira que as nádegas eram empurradas
para cima e para fora e obrigadas a ondular mais ainda.
Mesmo sem indevidos exageros, as nádegas
continuam a ser um foco erótico no corpo da mulher
moderna. Longos vestidos que escondem as pernas em
geral são cortados de maneira a exibir o contorno das
costas e delinear os movimentos. Peças como as
minissaias dos anos 1960 exibiam o traseiro, e calças
justas, embora escondam a carne, não deixam dúvida
quanto à forma exata dos hemisférios posteriores.
No início da década de 1980, a moda criou uma linha
de calças jeans bem apertadas, deliberadamente
desenhadas para exibir essa região do corpo como um
símbolo sexual da mulher recém-liberada. O autor de um
livro chamado Rear View (Visão traseira), publicado na
época e exclusivamente dedicado ao impacto erótico das
nádegas femininas, saudou a nova era com as seguintes
palavras: "A Butt Blitz (Investida das Bundas) começou em
1979 quando uma de suas porta-vozes enfiou sua vibrante,
giratória e bem-cortada derrière na cara assustada do
público de uma rede de televisão. [...] Foi o início de um
fenômeno cultural conhecido como jeans de marca".
Em poucos anos, os jeans de marca competiam com
as calças mais largas, e os dois estilos conseguiram
conviver durante um certo tempo. À medida que as calças
compridas passaram a dominar a moda feminina e as
saias caíram na preferência das mulheres mais jovens, as
velhas e malcortadas calças jeans no estilo trabalhador
foram substituídas por modelos que delineavam e
glamorizavam a região glútea.
Uma forma extrema dessa tendência surgiu em 1992,
quando uma jovem estilista inglesa lançou um modelo que
tinha a cintura tão baixa que deixava ver o sulco entre as
nádegas.
Embora nem todos no mundo da moda tenham
aprovado o novo modelo, as nádegas femininas estavam
numa fase de grande valorização. À medida que o século
XX se aproximava do fim, cada vez mais pessoas
prestavam atenção a essa parte do corpo. Um
comentarista chegou a dizer que "as nádegas eram os
novos seios".
Nos Estados Unidos, tornou-se popular um estilo de
música chamado booty rap. O termo "booty" era um novo
eufemismo para "buttocks" (nádegas). Originalmente
restrito à gíria dos negros americanos, o termo foi diciona-
rizado pela primeira vez em 2002, junto com seu adjetivo
"bootylicious", definido como "sexualmente atraente, em
especial com nádegas voluptuosas".
A atriz e cantora Jennifer Lopez chamou a atenção cm
1999, quando os jornais da Europa e da América
anunciaram que ela havia segurado seu admirado traseiro
por US$ 1 bilhão. Embora ela tenha publicado um des-
mentido, o fato de que tal notícia possa ter sido inventada
e chegado às manchetes é um sinal do grande interesse
por essa parte da anatomia feminina no fim do século XX.
No Brasil, foi inventada até uma nova palavra para
descrever a mulher que possui um traseiro farto:
"poposuda", e o cenário musical brasileiro assistiu a um
culto por dançarinas poposudas. As modelos esqueléticas,
dotadas de um traseiro diminuto perto do dessas mulheres,
saíram de moda.
Na Inglaterra, um concurso que elege "O Traseiro do
Ano" se tornou muito popular. Começou na década de
1980, mas ganhou maior publicidade com a chegada do
novo milênio. Dos dois lados do Atlântico, cresce a
demanda por produtos e procedimentos cosméticos
destinados às nádegas. Enchimentos e peças elásticas
destinadas a levantar as nádegas já vinham sendo usados,
mas agora os cirurgiões plásticos relatam uma enorme
procura por nádegas mais voluptuosas, tanto através de
injeções de gordura quanto de implantes. Essa cirurgia
custa cerca de US$ 10 mil, mas o alto custo parece não ser
um obstáculo.
Além do aumento das nádegas, as mulheres também
querem tê-las mais firmes, para criar uma aparência mais
jovem e mais voluptuosa. Um dos maiores centros desse
tipo de cirurgia é o Brasil, onde calcula-se que existam no
mínimo 1.600 cirurgiões plásticos em atividade.
Aparentemente, esse tipo de cirurgia é tão comum no país
que, quando alguém se hospeda num hotel no Rio, pode
encontrar folhetos de propaganda de clínicas de cirurgia
plástica ao lado do inevitável exemplar da Bíblia.
É difícil dizer quanto tempo vai durar essa moda de
nádegas firmes e generosas, mas não há dúvida de que o
mundo da moda e da cultura popular esté sempre
voltando à região glútea como foco de erotismo. Há muito
nossa espécie abandonou a locomoção sobre quatro patas,
mas o traseiro feminino se recusa a desaparecer do
inconsciente masculino. Já se disse que o símbolo
universal do amor, a forma estilizada do coração, na
realidade se baseia nas nádegas. De fato, ela se parece
muito pouco com o verdadeiro coração e tem uma
estranha semelhança com as nádegas femininas vistas por
trás. Novamente, uma imagem humana primitiva pode
estar em ação.
Até aqui, analisamos os aspectos ofensivos e sexuais
das nádegas, mas existe uma terceira maneira pela qual
essa parte do corpo pode ser exposta, que é a da
submissão. A exposição das nádegas numa humilhante
postura curvada teve um papel duradouro como gesto de
submissão. Nesse aspecto, não há diferença entre o ser
humano submisso e o macaco submisso. Em ambos os
casos, aquele que expõe as nádegas está dizendo: "Eu me
ofereço no papel passivo feminino. Por favor, mostre-me
sua superioridade montando-me em vez de me atacar". Os
macacos submissos de qualquer sexo mostram o traseiro
ao superior de qualquer sexo. Os indivíduos dominantes
raramente atacam esses subordinados: ou o ignoram ou o
montam brevemente, com alguns movimentos pélvicos.
Como demonstração de submissão, o gesto é importante,
porque permite ao fraco subordinado permanecer perto do
poderoso dominante sem ser atacado.
Em algumas sociedades tribais, a curvatura,
praticada como uma cerimônia de agradecimento, é feita
dando as costas para a pessoa homenageada. Parece tanto
o gesto de submissão dos primatas que é difícil não re-
lacioná-los. Uma forma mais comum de exposição das
nádegas é aquela em que a criança é espancada como
castigo. A vítima deve primeiro curvar-se para a frente na
postura submissa dos primatas, e então, uma vez nessa
posição que, se ela fosse um macaco, a livraria do ataque,
é injustamente espancada com a mão, com uma cinta ou
uma vara. Parece que, para certos humanos dominadores,
a postura humilhante não é suficiente.
Devido às suas implicações sexuais, o contato com as
nádegas é proibido. Fora do âmbito de um casal de
amantes, uma palmada no traseiro só pode ser usada com
segurança como sinal de amizade quando não existe perigo
de envolvimento sexual. Entre amigos numa reunião social,
o gesto pode ser mal interpretado, e o tapinha nas costas é
preferível, a não ser que exista uma intenção sexual oculta.
O tapa no traseiro restringe-se portanto a certos contextos,
como entre pais e uma criança muito pequena, ou entre
esportistas durante uma competição acirrada. Em ambos
os casos, os pensamentos sexuais são tão remotos que não
há possibilidade de um mal-entendido. Por outro lado,
parentes idosos ou "amigos da família" que exploram a
diferença de idade batendo nas nádegas de adolescentes e
desfrutando o contato sexual disfarçado em castigo
parental podem criar muitos problemas.
Entre amantes, um tapinha no traseiro é comum. E
um acompanhamento freqüente dos beijos e abraços. As
mãos que abraçam as costas facilmente passam às
nádegas à medida que a excitação cresce. Nos bailes de
antigamente, quando estranhos podiam se abraçar
enquanto dançavam, o cavalheiro podia explorar a
situação deixando a mão descer pelas costas da dama em
direção às nádegas. A continuação dessa estratégia, como
mostram os filmes, é o atrevido ver sua mão rapidamente
devolvida à posição original.
Nos estágios avançados do ato sexual, os tapinhas
muitas vezes são substituídos pelo gesto de agarrar as
nádegas para acompanhar as vigorosas estocadas da pelve.
É durante essa fase de contato físico que a forma ar-
redondada das nádegas se liga intimamente, na mente dos
amantes, a fortes emoções sexuais.
É essa ligação sexual que causa uma reação ultrajada
diante de um gesto que outrora foi um costume dos
italianos: beliscar as nádegas da mulher em público.
Qualquer mulher atraente que caminhasse por uma ci-
dade italiana corria o risco de ter as nádegas beliscadas
por um admirador desconhecido. De acordo com sua
educação, ela podia se sentir orgulhosa, levemente irritada
ou ofendida. O autor de uma obra satírica intitulada Como
ser italiano relata os três beliscões fundamentais:
Pizzicato: um rápido beliscão executado com o polegar
e o dedo médio. Recomendado para iniciantes.
Vivace: um beliscão mais vigoroso, executado com
vários dedos e várias vezes em rápida sucessão.
Sostenuto: um beliscão bem apertado e prolongado,
adequado no caso de "cintas resistentes".
As feministas não acham a menor graça nisso, e uma
ocasião chegaram a revidar, procurando nas ruas nádegas
masculinas que pudessem ser beliscadas.
Como área destinada à decoração, as nádegas não
têm grande utilidade. São muito íntimas para exibir obras
de arte e muito inadequadas para carregar ornamentos, já
que destinadas ao ato de sentar. Nádegas tatuadas não
são comuns, exceto entre os fanáticos. Encontramos o
único exemplo de nádegas ornamentadas numa obra de
John Bulwer escrita no século XVII, Man Transformed
(Homem transformado), na qual ele mostra uma nativa de
aparência infeliz com jóias penduradas nas nádegas.
Bulwer comenta: "Entre outras asquerosas invenções de
algumas nações, lembro-me [...] de um certo povo que,
num gesto absurdo de coragem, fazia furos nas nádegas,
onde eram penduradas pedras preciosas. O que se
revelava uma moda inconveniente e desconfortável, e
muito prejudicial a uma vida sedentária".
Finalmente, existe a questão do uso do ânus feminino
como orifício sexual. Calcula-se que cerca de 50% das
mulheres ocidentais tenham experimentado o sexo anal
em algum período de sua vida. Apenas 10% o julgaram
bastante satisfatório para ser adotado como atividade
regular. Em algumas partes do mundo, a porcentagem de
adeptos é muito maior. Uma pesquisa com 5 mil donas-de-
casa do Brasil revelou que 40% dos casais que viviam no
campo e 50% dos que viviam nas cidades "consideravam o
coito anal uma parte normal da sexualidade".
Anatomicamente, o ânus é rico em terminações
nervosas, e portanto pode ser fonte de prazer.
Funcionalmente, porém, ele é uma saída, e não uma
entrada, e a evolução não o preparou para receber a
penetração. Do ponto de vista biológico, o sexo anal não é
uma atividade "natural", e não conta com a ajuda da
hibrificação automática de glândulas especializadas ou das
outras mudanças que facilitam a penetração vaginal.
Apesar disso, no curso da história, o ânus tem sido
coagido a desempenhar o papel de uma vagina simbólica.
Parece haver quatro razões para isso:
Há séculos, antes que existissem preservativos, o sexo
anal era usado como uma forma primitiva, mas eficiente,
de controle da natalidade. Isso está explicitamente
demonstrado na cerâmica pré-colombiana do Peru, por
exemplo. Sempre que um casal aparece fazendo sexo, a
penetração vaginal só é mostrada se não existe um bebê
dormindo ao lado deles. Quando há um bebê presente — a
maneira de o artista mostrar que eles formam uma
família —, a penetração é evidentemente anal.
Essa forma de contracepção sobrevive ainda hoje em
muitas partes do mundo, principalmente na América
Latina, em partes da África e no Oriente. Onde não há
preservativos disponíveis por qualquer razão — pobreza,
ignorância ou convicções religiosas —, é provável que,
apesar dos riscos para a saúde, a penetração anal seja
utilizada como forma de controle da natalidade.
Uma segunda razão é que ela permite aos jovens
casais se entregarem ao sexo antes do casamento sem que
a mulher perca a virgindade. Isso é particularmente
verdade em certas culturas mediterrâneas, nas quais a
exibição dos lençóis manchados de sangue depois da noite
de núpcias ainda é exigida como prova da virgindade da
noiva.
Uma terceira razão é a aversão masculina ao sangue
menstrual. Como a mulher continua sexualmente
receptiva quando está menstruada, os homens muitas
vezes desejam fazer sexo nesse período, mas sentem-se
inibidos pelo sangramento. O sexo anal lhes oferece uma
solução para o problema.
Finalmente, além de evitar a gravidez, a perfuração do
hímen antes do casamento ou o contato com o sangue
menstrual, o sexo anal também é utilizado como uma
variante erótica para casais que buscam novidade. Juntas,
essas razões explicam a ocorrência generalizada de uma
atividade que tem sido um assunto tabu.
22. Pernas
O poder erótico das pernas sempre foi valorizado.
Quando, aos 15 anos, a princesa austríaca Mariana estava
para se casar com Felipe IV da Espanha, um dos presentes
de casamento foi um par de meias, que foi enviado de volta
por um mensageiro com as seguintes palavras: "A rainha
da Espanha não tem pernas". Ao ouvir isso, a princesinha
caiu no choro, pensando que quando se casasse teria as
pernas amputadas. O que o mensageiro quis dizer é que,
como não se podia ver as pernas da rainha, não havia por
que enfeitá-las com meias decorativas. Naquela época,
mostrar as pernas era sinônimo de convite sexual.
O que existe nas pernas femininas que as torna
sexualmente atraentes? Sua função primordial é nos
manter de pé e nos fazer caminhar. É evidente que as
pernas evoluíram como estruturas de locomoção, e no
entanto os homens são obcecados por elas sexualmente.
Uma pergunta presente em qualquer vestiário esportivo
masculino é a seguinte: "O que você prefere: seios ou
pernas?" A fixação pelas pernas é tão grande que existe
uma publicação exclusivamente dedicada a essa obsessão
masculina: Leg World (Mundo das Pernas).
Em alguns homens, a adoração atinge o grau de
fetiche. Eles não se interessam por nenhuma outra parte
do corpo feminino e conseguem obter satisfação sexual,
por exemplo, acariciando um par de meias de náilon.
Esse comportamento é relativamente raro, mas,
mesmo entre heterossexuais normais, que se interessam
por todas as partes do corpo da mulher, parece haver uma
inexplicável preferência pelas pernas. Assim, antes de
examinar as pernas como meio de locomoção, vale a pena
investigar os motivos dessa forte atração.
A primeira e mais óbvia explicação talvez esteja na
forma como as pernas se juntam. Cada vez que uma
mulher abre, fecha ou cruza as pernas, chama a atenção
para o ponto onde elas se encontram — que é, claro, o foco
principal do interesse sexual masculino. É quase como se,
no recesso da mente do homem, o par de pernas
funcionasse como uma flecha que indicasse a "terra
prometida".
Nesse aspecto, abrir as pernas sempre foi um gesto
carregado de significado sexual, mesmo em momentos em
que a mulher está apenas procurando uma postura mais
confortável. Como na posição papai-e-mamãe a mulher
mantém as pernas abertas, o homem costuma identificar
essa postura com uma mulher sexualmente ativa (por
exemplo, em comentários como "Ela teve que ser enterrada
num caixão em forma de Y").
Os livros de etiqueta ensinam as jovens a não se
sentarem de pernas abertas. Em 1972, Amy Vanderbilt
achou necessário informar às mulheres americanas que "é
gracioso sentar-se com o polegar de um pé posicionado ao
lado do polegar do outro e com os joelhos unidos". Todas
as posições em que as pernas ficam fechadas, esteja a
mulher de pé ou sentada, passam uma imagem de
formalidade, polidez ou subordinação. Uma moça bem-
comportada, que se senta com os joelhos juntos, mostra
uma neutralidade que lhe dá um ar de correta inibição.
A única outra alternativa adequada é a postura de
pernas cruzadas, que tem um quê de informalidade. No
século XIX, as mulheres da alta sociedade eram proibidas
de adotar essa postura em público, e mesmo hoje os livros
de etiqueta mais conservadores ainda a desaprovam. Eis o
que diz Amy Vanderbilt, a maior autoridade moderna em
boas maneiras: "Cruzar as pernas hoje não é mais uma
atitude masculina, mas existem boas razões para evitar ao
máximo essa postura. Primeiro, ela cria uma
protuberância nas coxas que se sobrepõem. Em segundo
lugar, com saias curtas, pode ser indecente ou no mínimo
um sinal de descompostura. Em terceiro lugar, parece que
prejudica a circulação, causando varizes". Ela alerta para
o perigo de cruzar as pernas durante uma entrevista de
emprego, argumentando que a informalidade da postura
pode dar uma impressão de pretensão ou de excessiva
descontração.
A diferença entre a postura comportada de pernas
juntas e a postura de pernas cruzadas está no fato de que
a primeira mostra uma prontidão da mulher para se
levantar, enquanto a segunda mostra sua disposição de
permanecer confortavelmente sentada. As pernas juntam
revelam uma disposição para a ação. As pernas cruzadas
indicam que a mulher está instalada e não pretende se
levantar de repente.
Analisando mais detalhadamente essa postura,
percebe-se que existem nove maneiras de cruzar as pernas.
Posição calcanhar-com-calcanhar. É a postura mais
comportada de todas. A parte das pernas que se cruzam é
muito pequena, e a posição quase não difere da postura de
pernas fechadas.
Posição panturrilha-com-panturrilha. Não é uma
postura muito comum. Passa uma imagem formal e
"correta". Assim como a primeira postura, só é
demonstrada por mulheres de alta condição social em oca-
siões públicas. A rainha da Inglaterra, por exemplo, nunca
foi fotografada com as pernas cruzadas acima da
panturrilha.
Posição joelho-com-joelho. Essa é a primeira das
posturas verdadeiramente informais e costuma ser vista
em situações sociais comuns. Se a mulher está usando
saias, pode expor inadvertidamente as coxas. Portanto,
essa postura pode ser usada (consciente ou
inconscientemente) com intenções sexuais.
Posição coxa-com-coxa. É uma versão mais radical da
última postura, na qual uma coxa se aperta contra a outra.
Devido a conformação da pelve feminina, essa é uma
postura facilmente adotada por mulheres, mas raramente
praticada por homens.
Posição panturrilha-com-joelho, posição calcanhar-com-
joelho e posição calcanhar-com-coxa. Estas três posturas
são obtidas com uma perna erguida acima da outra. São
maneiras de cruzar as pernas que, se a mulher estiver de
saia, vão expor não só as coxas, mas a região pubiana.
Portanto, são adotadas apenas por homens, e
ocasionalmente por mulheres que estejam usando calças.
É a preferida dos homens que gostam de afirmar sua
masculinidade (ou das mulheres que querem mostrar que
são iguais aos homens).
Posição de pernas entrelaçadas. Nesta postura, as
pernas se enroscam e se mantêm nessa posição com a
ajuda do pé flexionado. É uma posição muito feminina,
porque a maioria dos homens não consegue executá-la.
Mais uma vez, é a pelve mais larga da mulher a
responsável pela diferença.
Posição pé-com-panturrilha. Nesta postura, um pé
descansa sobre a panturrilha da outra perna. É outra
postura predominantemente feminina, já que é muito
desconfortável para o homem, mais uma vez por causa da
conformação pélvica.
Essas maneiras de cruzar as pernas são vistas em
quase todas as reuniões sociais. São formas de linguagem
corporal que transmitem sinais subliminares sobre o
estado de espírito da pessoa. Além das diferenças de gê-
nero já apontadas, a maneira de cruzar as pernas também
pode indicar identidade entre duas mulheres. Se duas
amigas têm uma visão semelhante sobre determinado
assunto, é muito provável que cruzem as pernas de
maneira semelhante quando se sentam para conversar.
Entretanto, se uma é superior à outra e quer afirmar sua
condição, provavelmente adotará uma maneira de cruzar
as pernas diferente da de sua subordinada. Suas pernas
transmitem uma mensagem tácita: "Sou diferente de você".
Quando duas mulheres sentam-se lado a lado, a
direção em que cruzam as pernas também é significativa.
Se são amigas, os joelhos de uma ficam voltados para a
outra. Se existe uma animosidade entre elas, os joelhos
apontam para fora e ajudam a desviar o corpo nessa
direção.
Existe ainda outro elemento na maneira como uma
mulher cruza as pernas. Pode-se afirmar com uma certa
segurança que, quanto mais apertadas as pernas, mais
defensiva é a postura interior da mulher. A postura de
pernas afastadas revela autoconfiança. Em certo sentido,
pernas cruzadas são o oposto de pernas afastadas. Por
causa disso, houve quem chegasse a afirmar que todas as
pessoas estão na defensiva quando cruzam as pernas. Isso
é uma simplificação, porque muitas pessoas se sentem
mais confortáveis com as pernas cruzadas e adotam essa
postura mesmo quando estão sozinhas. Mas é verdade que
quando alguém não se sente à vontade diante de outras
pessoas tem maior probabilidade de manter as pernas
cruzadas do que quando está relaxada, e essa postura não
passa despercebida, mesmo que as pessoas ao seu redor
não se dêem conta disso.
Se uma mulher exagera nessa postura de defesa
sexual e aperta demais as pernas, o gesto deixa de ser
defensivo e começa a ter um certo sabor sexual, porque "a
dama protesta demais". Na verdade, são tão fortes os
sinais sexuais transmitidos pelas pernas femininas que só
uma postura descontraída entre os dois extremos pode ser
adotada sem atrair atenção sexual.
Outro aspecto sexual das pernas é a maneira como
elas são escondidas pelas roupas. Ao longo da história, a
maioria das religiões preferiu ver as pernas das mulheres
totalmente cobertas — outra admissão de seu potencial
erótico. Todas as vezes que as mulheres se rebelaram
contra isso, encurtaram as saias. Cada centímetro que as
saias subiam provocava protestos e acusações de
licenciosidade das autoridades puritanas. Entretanto,
pouco depois, o novo comprimento era aceito como norma.
Para chocar, a exposição tinha então que ser maior, até
que toda a perna estivesse à mostra, e apenas a região
pubiana coberta por uma estreita faixa de tecido.
Em diferentes períodos da história ocidental, a
proporção visível das pernas femininas variou
consideravelmente. No último século, as pernas
desapareceram por completo de vista por longos períodos,
e a simples visão de um calcanhar era chocante. Tão forte
e total foi essa supressão que até a palavra foi proibida nos
círculos educados. Nos Estados Unidos, eram usados
eufemismos como "extremidades", "apêndices", etc. À mesa,
uma coxa de galinha tornou-se apenas "carne escura".
Hoje, é difícil compreender o ambiente social que
tornava possíveis tais extremos de pudicícia, mas a
verdade é que as pernas foram um tabu durante muito
tempo. Só depois da Primeira Guerra Mundial elas saíram
do esconderijo, e mesmo então ainda causaram muito
assombro. As jovens rebeldes dos anos 1920 ousavam
expor as panturrilhas e até os joelhos, e isso era demais
para alguns homens. Diziam que a nova moda estava cor-
rompendo os padrões morais, e que aquelas moças
"modernas" se comportavam como prostitutas. Muitas
jovens foram proibidas de usar as novas saias curtas no
trabalho. Um proeminente advogado se queixou de que "a
provocação de pernas cobertas de seda e coxas seminuas
[...] era devastadora e insuportável".
O que comentários como esse revelam, mais uma vez,
é o forte apelo erótico das pernas femininas. O motivo é
óbvio. Quanto maior a parte das pernas à mostra, mais
fácil é imaginar o ponto onde elas se encontram.
Entretanto, seria um erro concluir que as mudanças no
comprimento das saias durante o século XX refletem
apenas as flutuações do vigor sexual da sociedade. Se
acompanharmos o sobe-e-desce das saias década após
década, constataremos que as saias curtas foram adotadas
em períodos de florescimento econômico, e as longas
reapareciam em períodos de depressão econômica. As
saias curtas dos agitados anos 1920 foram substituídas
pelas saias longas dos anos 1930 pós-depressão; as longas
do pós-guerra, no fim da década de 1940, foram
substituídas pelas minissaias dos liberais anos 1960, que
por sua vez deram lugar às saias longas dos recessivos
anos 1970. Era como se as mulheres, influenciadas pelas
mudanças de humor da sociedade, revelassem seu
otimismo e confiança pelo comprimento das bainhas. E, se
uma atitude otimista vai bem com uma ativa sexualidade,
pode-se dizer que as saias mais curtas refletem uma
sociedade dotada de maior energia sexual, mas isso é
apenas parte da história. As saias longas dos anos 1970,
por exemplo, não resultaram de uma onda moralista.
A verdade é que tanto as saias curtas quanto as
longas têm potencial sexual. A curta tem a vantagem de
expor as pernas o tempo todo aos olhares masculinos, mas
a desvantagem de que a familiaridade gera desinteresse.
Qualquer dançarina de strip-tease sabe que precisa
começar totalmente vestida, e que é o ato de tirar a roupa
que produz um estímulo sexual. Portanto, a saia longa tem
a vantagem de provocar um forte impacto quando é
erguida ou removida, mas tem a desvantagem de ficar a
maior parte do tempo bloqueando os sinais sexuais
emitidos pelas pernas.
Mais do que qualquer fator sexual, o que as
minissaias proporcionaram foi uma sensação de liberdade.
Com saias curtas, as mulheres podem caminhar
vigorosamente, saltar e correr. As que usam longas saias
com muito pano ou afuniladas perdem mobilidade. A
explosão de minissaias nos anos 1960 resultou de uma
liberdade recém-conquistada com a invenção da pílula
anticoncepcional e com o forte crescimento econômico. As
longas pernas transmitiam uma mensagem social: "Nós,
jovens, estamos caminhando para a frente".
Com a chegada dos anos 1980, ficou claro para onde
elas estavam caminhando — para o movimento feminista e
uma nova luta por igualdade sexual. Com esse último passo
veio outra mudança. Enquanto o confuso quadro
econômico dava origem a uma mistura de tendências —
saias longas, médias e curtas —, a vanguarda da
população feminina propunha a igualdade das pernas,
adotando a peça característica do vestuário masculino: as
calças.
As calças, que, como as saias curtas, causaram
tumulto quando apareceram e fizeram muitas mulheres
serem expulsas de ambientes elitistas, logo foram aceitas.
(No início do século XXI, 84% das mulheres de Londres
preferiam as calças às saias.)
Como as saias, as calças também mostraram
vantagens e desvantagens. Revelaram pela primeira vez a
forma exata da região onde as pernas se encontram, o que
lhes deu um enorme potencial erótico, mas ao mesmo
tempo não deixavam ver a suave curvatura das pernas,
dando-lhes dobras e rugas anti-estéticas. Elas também
davam a impressão de uma armadura protetora, roubando
das pernas a vulnerabilidade diante da abordagem
masculina. Na mente do homem, levantar uma saia é fácil,
tirar um par de jeans é uma luta.
Se o mundo ocidental se tornou cada vez mais liberal
em relação à exposição das pernas, de modo que as
mulheres podem usar saias curtas e longas ou calças largas
e justas sem a pressão de rígidas normais sociais,
em outras partes do mundo as restrições ainda são muitas.
Nos países muçulmanos tiranizados por líderes religiosos
conservadores, as mulheres não podem expor nenhuma
parte das pernas em público. A China comunista também
impôs graves restrições às mulheres durante quase todo o
século XX, mas agora está mudando graças à chamada
"abertura" da economia chinesa. Um sinal dessa mudança
foi a aparição de pernas femininas nas telas de tevê.
Entretanto, embora no século XXI um ar de
modernização tenha varrido a sociedade chinesa, as
mudanças não foram aceitas sem resistência. Em 1998,
por exemplo, um grupo de estudantes apresentou uma
queixa formal exigindo "uma tela [de tevê] livre desse lixo
comercial que expõe o corpo feminino para vender
produtos de beleza". As autoridades ficaram sufi-
cientemente sensibilizadas e proibiram a exposição
inadequada das pernas femininas na tevê, mas em poucas
semanas as belas pernas estavam de volta. Hoje, a bem-
vinda liberalização da moderna China parece ser
irreversível.
Outro aspecto da sensualidade das pernas é sua
suavidade. Um poeta do século XVII cantou em versos as
pernas de sua amada: "Pudera eu beijar as deliciosas
pernas de minha Julia, brancas e lisas como um ovo". A
pele lisa e suave das pernas femininas (às vezes
aperfeiçoadas com uma pequena ajuda no banheiro)
contrasta com a pele peluda das pernas masculinas, uma
diferença que funciona como um forte sinal de gênero.
O uso de meias de seda ou náilon se popularizou
também como uma maneira de aumentar a aparência de
suavidade das pernas. Uma alternativa moderna é a
aplicação de um spray sedoso que adere à pele e produz
um efeito muito semelhante ao das meias. Tem várias
vantagens: é mais fresco, à prova d'água e nunca enruga.
No Japão, por exemplo, onde mais de 12 milhões de
mulheres trabalhadoras são proibidas pelas empresas de
expor as pernas nuas, a solução do spray é ideal. Dá às
pernas a suave aparência "vestida" adequada ao local de
trabalho sem nenhuma das desvantagens das meias.
Outra diferença de gênero é a forma curvilínea das
pernas femininas em comparação com as musculosas
pernas masculinas. As suaves curvas ascendentes atraem
o olhar dos homens, não só porque são diferentes, mas
também porque são sinal de um corpo vigoroso e saudável.
Pernas muito finas, tão populares no mundo da moda,
assim como pernas muito gordas e grossas, não são
atraentes para o homem. Pernas curvilíneas — nem finas
demais, nem muito gordas — estão associadas (na mente
primitiva do macho) a uma condição física ideal para a
procriação. Está provado que, em todas as culturas
humanas, a condição física adequada à procriação é um
atributo que desperta grande interesse sexual.
Finalmente, existe uma vantagem em ter pernas
longas. Numa recente pesquisa em que mil homens foram
solicitados a dizer que atriz tinha as mais belas pernas, a
mais votada (Nicole Kidman) é famosa por suas longas
pernas. Não é difícil descobrir por que pernas compridas
são tão atraentes. Na mulher adulta, as pernas são
maiores que as da criança tanto em termos relativos
quanto em termos absolutos. Como na puberdade ocorre
um rápido crescimento das pernas, ter pernas mais
compridas acabou sendo sinal da chegada da maturidade
sexual. Portanto, uma mulher de pernas anormalmente
longas transmite sinais de extrema feminilidade. Na
década de 1940, os cartunistas começaram a explorar esse
aspecto, desenhando figuras de pernas muito mais longas
que as das modelos reais. É claro que se eles tivessem
exagerado demais os desenhos ficariam grotescos, mas o
alongamento na medida certa deu às mulheres retratadas
uma maior sensualidade.
Desde então, durante toda a segunda metade do
século XX e início do XXI, as mulheres reais pareciam ter
pernas cada vez mais longas. Evidentemente, isso
resultava do fato de estilistas de moda, fotógrafos e direto-
res de cinema preferirem mulheres de pernas longas. A
tendência continuou ano após ano, até que hoje é
impossível para uma modelo que tenha pernas curtas
encontrar emprego.
Para resumir, as pernas são sexualmente excitantes
porque (1) o ponto onde elas se encontram é foco da
atenção erótica masculina, (2) suas diversas posturas
indicam preocupações eróticas, (3) a roupa mais curta
permite a exposição de porções de carne que em geral
permanecem escondidas, (4) suas curvas enfatizam as
formas do corpo feminino, e (5) seu acelerado crescimento
na puberdade faz com que pernas longas passem uma
mensagem de prontidão sexual.

Deixando de lado o sex appeal das pernas, vamos


analisar sua anatomia. As pernas correspondem à metade
da altura do corpo. Quando um pintor faz um esboço
acurado do corpo humano, divide-o em quatro partes pra-
ticamente iguais: do chão aos joelhos, dos joelhos ao púbis,
do púbis aos mamilos e dos mamilos ao topo da cabeça.
Em outras palavras, as pernas são metade do
comprimento do corpo.
As pernas mais longas do mundo pertencem a uma
adolescente e medem 124 de seus 190 cm. São pernas
proporcionalmente 30,5 cm mais compridas que a
média — o que mostra a grande variação existente nas me-
didas das pernas femininas adultas.
A base esquelética das pernas compreende quatro
ossos: o fêmur, o osso mais comprido do corpo humano; a
patela, que protege a parte frontal da articulação do joelho;
a tíbia, que se articula com o fêmur; e a fíbula, que se
situa ao lado da tíbia.
Impulsionada por pernas fortes e bem-moldadas, a
mulher já saltou mais de 2 metros no ar e conseguiu dar
um salto em distância de 7,5 metros. Uma maratona de
dança que levou os participantes à exaustão durou 214
dias. Tais feitos de força e resistência testemunham a
evolução das pernas femininas ao longo de 1 milhão de
anos.
Muito já se escreveu sobre o andar. A maneira de
caminhar de diferentes indivíduos e de diferentes culturas
há muito fascina os observadores. Normalmente, o passo
da mulher é mais curto que o do homem, mas existem
enormes diferenças pessoais, e muitas mulheres famosas
tém um andar tão característico que é fácil imitá-las. Para
ilustrar o que estou dizendo, basta-me citar os nomes de
Mae West e Marilyn Monroe. No aspecto cultural, existem
imensas diferenças entre, por exemplo, mulheres japo-
nesas e americanas. As japonesas são perfeitas quando se
trata de um andar mais formal, enquanto as americanas
são melhores em tipos de locomoção mais casuais.
Foram identificadas 36 maneiras de andar na espécie
humana — do andar lento de cerca de um passo por
segundo ao caminhar normal de dois passos por segundo
até o andar rápido de quatro passos por segundo —, mas
apenas nove delas são predominantemente femininas e
merecem uma breve menção:
0 vacilante é o andar das pessoas cujas pernas não
são capazes de percorrer longas distâncias com conforto. A
pessoa caminha com passos muito curtos. É o andar típico
das mulheres quando estão usando saias muito justas ou
sapatos apertados.
O miudinho é um andar de passos rápidos mas curtos.
Na verdade, é um exagero do andar característico das
mulheres, só que os passos curtos ficam ainda menores.
Pode ser descrito como um andar que demonstra "afetada
precisão".
O deslizante é uma versão elegante do miudinho. Com
movimentos curtos e delicados dos pés, o corpo parece
deslizar para a frente como se sobre rodas. Outrora
comum entre mulheres da alta sociedade em algumas
partes da Europa, hoje restringe-se praticamente ao Japão.
Para criar o efeito desejado, a mulher precisa usar saias
bem longas, que ocultem o movimento dos pés.
O pulado é o andar típico da adolescente quando
caminha com um movimento flexível que faz o corpo saltar
a cada passo. É um andar alegre, que revela saúde e
otimismo.
O passo largo é usado pelas mulheres que imitam o
vigor do andar masculino.
O gingado é o andar erótico da mulher que quer atrair
atenção. O peso passa de uma perna para a outra, fazendo
os quadris oscilarem. Se exagerado, torna-se uma
caricatura sexual. Marilyn Monroe realçava seu famoso
gingado usando sapatos de salto alto que tinham um salto
ligeiramente menor que o outro.
O disparado é um andar ansioso, cheio de
movimentos curtos, rápidos e indecisos, com muitas idas e
vindas e súbitas mudanças de direção.
O saltitante é um andar alegre e rápido, com
pequenos saltos desnecessários. É uma versão mais rápida
do pulado, com uma ação mais vigorosa das pernas.
A corrida nos interessa particularmente porque a
conformação corporal da mulher a obriga a executá-la de
uma maneira ligeiramente diferente da do homem. Isso se
deve à maneira como as pernas femininas estão presas à
bacia. Essa mesma conformação anatômica que permite à
mulher cruzar as pernas entrelaçadas lhe dá uma
diferente maneira de correr, com um elemento de rotação
que não existe na corrida do homem. Essa diferença quase
não é percebida porque é mais comum vermos atletas
correndo, mas, para chegar a ser uma atleta de ponta, a
mulher é escolhida entre milhões de outras por seu andar
masculino. O corpo das atletas não exibe as usuais curvas
e seios fartos, sua camada de gordura é muito reduzida, e
na corrida suas pernas executam um movimento frontal,
sem nenhum traço da rotação da perna tipicamente
feminina. Essas são as corredoras que vemos nas telas da
tevê, mas, se observarmos uma mulher menos musculosa
e mais voluptuosa correndo para pegar um ônibus, ficará
evidente a típica rotação da perna. Essa corrida
desajeitada sugere que, em sua especialização para a
procriação, o corpo feminino sacrificou algumas de suas
capacidades atléticas adequadas à corrida, que acabou
sendo uma especialização do homem (caçador primitivo).
Algumas formas de locomoção são provocadas por
estados emocionais, enquanto outras resultam de normas
sociais. Essas regras variam de uma época para outra. Em
tempos mais formais, havia leis estritas determinando
como uma dama devia caminhar num local público. Um
século atrás, ela devia evitar o "caminhar atlético", o
"passeio despreocupado", o trote, o passo arrastado e a
corrida. Um antigo livro de etiqueta descreve uma mulher
cujo andar era socialmente aceitável: "Seu corpo se
mantém ereto em perfeito equilíbrio, e no entanto não há o
menor sinal de rigidez. Ela dá passos médios e caminha a
partir dos quadris, e não dos joelhos. Em hipótese alguma
balança os braços, nem tampouco gesticula enquanto ca-
minha".
Essas normas de "bom comportamento" parecem
estranhas nos dias de hoje, quando uma mulher
simplesmente sai de casa e caminha pela rua sem pensar
que está colocando um pé diante do outro. Essa nova
informalidade permitiu o aparecimento de maneiras muito
pessoais de caminhar, livres das imposições da etiqueta.
Finalmente, um movimento das pernas que merece
menção, embora esteja desaparecendo rapidamente na
sociedade moderna, é a reverência — uma saudação na
qual um pé é colocado atrás do outro e as duas pernas se
dobram ligeiramente. Hoje, a reverência praticamente só é
usada quando uma dama cumprimenta um membro da
realeza, mas antigamente era muito comum como gesto de
agradecimento, quase sempre acompanhado de uma
curvatura da cabeça. No século XVII, esses dois
elementos — a flexão das pernas e a curvatura da
cabeça — se separaram: a reverência tornou-se
exclusivamente feminina, e a curvatura, exclusivamente
masculina. Essa divisão por sexo só não ocorre no teatro,
onde as atrizes tendem a copiar os atores e agradecem à
platéia com uma curvatura. A única exceção a essa norma
ocorre quando a peça que foi representada se passa numa
época em que a forma correta de saudação era a
combinação entre reverência e curvatura.
23. PÉS
Os pés são outra parte da anatomia humana que
mostra as diferenças entre homens e mulheres. Os pés da
mulher são menores e mais estreitos que os do homem.
Nos homens, o comprimento médio é de 26,8 cm; nas
mulheres, de 24,4 cm. Especificamente, o calcanhar da
mulher é mais estreito em relação à planta do pé.
Como ocorre com outras partes do corpo, essa
diferença de tamanho tem sido explorada e exagerada. Se
um pé pequeno é uma característica feminina, então um
pé muito pequeno será superfeminino, o que fez muitas
mulheres sofrerem ao longo da história. Elas tiveram os
pés apertados, espremidos, esmagados e imobilizados em
nome da beleza. Mas, antes de tratar desses dolorosos
procedimentos, vamos analisar a anatomia do pé.
Consideramos a postura ereta algo natural, e no
entanto ela é extremamente rara entre os mamíferos. O
que torna isso possível é o pé humano — uma obra-prima
de engenharia, como afirmou Leonardo da Vinci.
Estruturalmente, o pé contém 26 ossos, 114 ligamentos e
20 músculos, com os quais mantém nosso equilíbrio e nos
permite caminhar, correr, saltar, dançar e chutar. Calcula-
se que, numa mulher ativa, o pé toca o chão mais de 270
milhões de vezes durante a vida. É uma tarefa formidável,
e no entanto raramente merece um pensamento.
Obedecendo às indicações dos olhos, os pés nos servem
sem esforço e nos transportam por ambientes mutáveis.
Um dos únicos momentos em que nos lembramos de seu
maravilhoso trabalho é quando os olhos nos faltam e, na
semi-escuridão, somos obrigados a dar um passo após
outro para subir ou descer uma escada. Quando não
encontramos uma superfície que julgávamos estar ali, ou
quando nos deparamos com algo inesperado, levamos um
choque e perdemos o equilíbrio. Nesses raros momentos
nos lembramos da brilhante tarefa que nossos pés
executam o tempo todo.
Quando caminhamos, os pés realizam três funções. A
primeira é a absorção do choque quando o pé toca o chão;
a segunda é a sustentação do peso do corpo; e a terceira é
a propulsão que nos empurra para a frente. Essas três
funções são executadas a cada passo. Para que elas sejam
eficientes, fomos obrigados, no curso da evolução, a fazer
um pequeno sacrifício: deixamos de ter polegares opostos
como os outros primatas. O polegar se alinhou com os
outros dedos e não pode mais ser usado para agarrar
objetos como as mãos. Por isso não somos tão acrobáticos
quando se trata de subir numa árvore, mas essa é uma
perda pequena comparada com o imenso ganho que
obtivemos em velocidade para caminhar e correr.
Na especialização do macho da espécie humana como
caçador cooperativo, ter pés maiores representou uma
vantagem. Eles eram necessários para a caçada. Essa
pressão evolucionária não se exerceu sobre os pés das
mulheres, que permaneceram menores e mais ágeis. Na
tentativa de exagerar esse atributo feminino, durante
séculos as mulheres tentaram comprimi-los em sapatos
desconfortáveis.
Três recursos têm sido utilizados pelos fabricantes de
sapatos para que os pés de suas clientes pareçam menores
do que são na realidade. O primeiro é fabricar sapatos
apertados demais; o segundo, fazê-los muito pontudos; e o
terceiro, dotá-los de saltos altos. O primeiro recurso aperta
os pés, o segundo os torna mais estreitos, e o terceiro os
faz parecer menores por elevar a posição do calcanhar.
Juntas, essas três mudanças na estrutura natural podem
produzir pés mais "atraentes", mas também os submetem
a enormes pressões. Não é por acaso que 80% das
cirurgias de pé são realizadas em mulheres.
O equilíbrio do corpo é perturbado pelo formato dos
sapatos, provocando dores nas pernas, nas costas e até
dores de cabeça. Mas o horror que ter pés grandes
representa não deixa a mulher desistir.
A mulher que tenha a infelicidade de possuir pés
grandes e masculinos será considerada anormal — tão
estranha que o pianista de jazz Fats Waller lhe dedicou
uma canção. Na verdade, é uma rejeição direta que a
expõe ao ridículo com as seguintes palavras: "No Harlem,
numa mesa para dois, somos quatro: eu, seus pés grandes
e você. Dos calcanhares para cima você com certeza é
delicada, mas daí para baixo há pés demais. Sim, seus pés
são grandes demais. [...] Oh! suas extremidades são
colossais. Para mim você parece um fóssil..."
Portanto, não admira que muitas mulheres cheguem
a absurdos para reduzir o tamanho dos pés. Essa paixão
por pés pequenos atingiu tal intensidade em outros
séculos que algumas damas da sociedade ficaram famosas
por terem amputado os dedos mindinhos para que seus
pés coubessem em sapatos ainda mais pontudos.
A menção à amputação nos traz inevitavelmente à
mente a cruel história de Cinderela. A versão atual de
Disney é leve, mas a história original é selvagem e
sangrenta. Um príncipe procurava uma esposa, mas, para
satisfazer sua exigência de feminilidade, ela precisava ter
pés muito pequenos. Um minúsculo sapatinho de pele era
usado para testar as noivas em perspectiva. Duas irmãs
estavam desesperadas para ser escolhidas. A mais velha
tentou enfiar o pé no sapatinho, mas não conseguiu.
Então a mãe a aconselhou a cortar o dedão, explicando-lhe
que, depois que se cassasse com o príncipe, nunca mais
precisaria caminhar. Por isso, não tinha nada a perder. A
moça amputou o dedão e apertou o pé sangrando dentro
do sapatinho, mas, quando partiu com o príncipe, ele
percebeu o sangue manchando as meias. Ele então a
devolveu para a mãe, que lhe ofereceu a outra filha. Essa
pobre moça teve o calcanhar cortado para que o pé
pudesse caber no sapatinho. Mais uma vez, jatos de
sangue puseram fim à farsa e ela também foi rejeitada. Só
então o príncipe encontrou Cinderela, cujos pequeninos
pés cabiam perfeitamente nos sapatinhos e que se tornou
esposa do fetichista.
A estranha premissa da história — a de que um
homem de alta condição social procure uma mulher de pés
pequenos sem levar em conta suas outras qualidades —
parece ter passado despercebida pelas platéias modernas.
Isso ocorreu porque a versão moderna de Cinderela
converteu as duas irmãs em moças horrorosas, enquanto
Cinderela era bela. Mas isso é um engodo. O príncipe só
tinha uma exigência: que os pés da noiva coubessem em
minúsculos sapatinhos de pele — não de cristal, que
parece ter entrado na história por um erro de tradução,
que confundiu vair (uma pele rara como a zibelina) com
verre (vidro). Para entender o motivo de tal ênfase nos pés,
precisamos saber que essa história nasceu na China, onde
durante séculos amarrar os pés das meninas foi uma
prática comum nas famílias da casta superior. Lá, a
pequenez dos pés de uma moça era um sinal fundamental
de beleza.
Na China, o costume de amarrar os pés das jovens
começou no século X e durou mais de mil anos.
Surpreendentemente, mesmo sendo um costume bárbaro,
só foi proibido no início do século XX. Vamos acompanhar
esse processo. Quando era pequena, a menina tinha
permissão para correr livremente, mas entre 6 e 8 anos
passava pela agonia de ter os pés amarrados. Primeiro, os
pés eram lavados em água quente e massageados. Então,
com uma bandagem de 5 cm de largura e 3 metros de
comprimento, os quatro dedos menores eram cruelmente
curvados para trás e amarrados. Depois a faixa rodeava o
tornozelo, fazendo com que os dedos curvados se
juntassem ao tornozelo. O resto da bandagem era enrolado
várias vezes em volta do pé, para que ele não pudesse
voltar à posição normal. Só o polegar escapava ao castigo.
Se a menina chorasse, apanhava. Apesar da dor, era
obrigada a caminhar para que o pé se acostumasse à nova
forma. A cada quinze dias, usava um sapato 0,25 cm
menor que o anterior. Por incrível que pareça, o objetivo
era reduzir o comprimento do pé a 1/3 do seu tamanho
normal.
Quando atingiam a idade adulta, essas meninas
estavam aleijadas para sempre, incapazes de caminhar
normalmente e limitadas a umas poucas atividades físicas
que conseguiam realizar. Essa era a vantagem social da
deformidade. As esposas eram literalmente incapazes de se
afastar do marido, mas ofereciam uma permanente
demonstração de status, já que não podiam fazer nenhum
trabalho manual. Só com a modernização da China no
século XX e o fim da sociedade dos mandarins essa forma
de mutilação foi abolida.
Um dos motivos para a atadura dos pés era sexual.
Os Lótus Dourados, como eram chamados os delicados
pezinhos pelos seus admiradores, tinham um significado
erótico. Dizia-se que, além de beijar os pés das amadas
durante as preliminares do sexo, o amante podia colocar
todo o pé na boca e chupá-lo com avidez. Os mais sádicos
apreciavam a facilidade com que podiam fazer a mulher
gritar durante o ato sexual simplesmente apertando o pé
mutilado. Além disso, juntando os pés, sua forma
arredondada oferecia um falso orifício que podia ser usado
como uma vagina simbólica. Dizia-se que a vagina
verdadeira também se beneficiava com a maneira restrita
de andar causada pelos pés atados: "Quanto menor o pé
da mulher, mais maravilhosa a concavidade da vagina".
Alem disso e de outras idéias eróticas ainda mais
grotescas sobre o Lótus Dourado, o desamparo de uma
mulher que tinha os pés atados provocava uma excitação
geral. Ela estava à mercê do homem e sofreu nas mãos
dele durante séculos.
Não só na China, mas em outras partes do mundo, o
simbolismo dos pés é sexual. Acredita-se que, se o homem
com pés muito grandes, tem também um pênis grande, e
se a mulher tem pés muito pequenos, tem uma vagina
estreita. Mas isso nada mais é do que uma simplificação
das diferenças de gênero em relação ao tamanho dos pés.
O sapato tem sido utilizado como símbolo dos genitais
femininos, e é por isso que, como diz um conto popular,
"Era uma vez uma velha que morava num sapato" (em
outras palavras, cuja vida se concentrava nos genitais) "e
que tinha tantos filhos que não sabia o que fazer". E é por
isso que sapatos são amarrados à traseira do carro dos
recém-casados e que um homem romântico bebe
champanha no sapato da amada. Uma velha tradição
francesa exige que a noiva guarde os sapatos que usou no
casamento e nunca se desfaça deles se quiser ser feliz para
sempre. E as moças sicilianas que procuram marido
sempre dormem com um sapato sob o travesseiro. Esses e
muitos outros costumes populares confirmam a ligação
simbólica entre os sapatos e o sexo.
Tanto os sapatos quanto os pés figuram no estranho
mundo dos fetichistas. Para esses homens que têm uma
fixação erótica em pés, os sapatos preferidos são sempre
os de saltos muito altos e finos. No mundo bizarro das
fantasias sexuais, esse modelo de sapatos torna-se uma
arma brutal de tortura para o homem masoquista no
momento em que a parceira sobe em seu corpo e o perfura
com seus saltos pontiagudos.
Já o pé descalço desempenha um papel diferente. É
beijado, acariciado, lambido e sugado. O homem pode ou
não assumir um papel de subordinação. Pode se curvar
aos pés de uma parceira dominadora e obedecer às suas
ordens. Mas também pode assumir um papel dominante,
torturando gentilmente a parceira com a boca até levá-la
ao prazer. E também pode não haver nenhum elemento
sadomasoquista, caso em que o pé é massageado e beijado
como parte da excitação normal.
Para a maioria das pessoas, toda essa atenção
dedicada aos humildes pés parece decididamente esquisita.
Afinal, os pés ficam a maior parte do tempo enfiados num
invólucro de couro que estimula o desenvolvimento de
bactérias e até fungos. O mau cheiro dos pés é tão comum
que vários produtos são vendidos para combatê-lo. Tudo
isso devia tirar muito do poder erótico dos pés. Então, por
que certos indivíduos ainda acham essa parte do corpo
nada sensual tão estimulante? Por que um libertino expe-
riente como Casanova chegou a afirmar que "homens
dotados de grande apetite sexual sentem uma forte atração
pelos pés femininos"?
Existem duas respostas para essas perguntas. Uma
está ligada às glândulas e outra ao simbolismo sexual.
Existem na pele dos pés glândulas especializadas que
transmitem sinais pessoais sobre o indivíduo. Se andás-
semos descalços, deixaríamos um rastro de nossa
fragrância pessoal por onde passássemos. Ainda hoje,
algumas tribos são capazes de detectar essa fragrância e
dizer quem passou por um determinado caminho e quando.
Se isso parece improvável, basta lembrar que um cão de
caça é capaz de seguir a pista de um homem depois de 24
horas. Em apenas 18 minutos, ele consegue percorrer 5
quilômetros, ignorando todos os outros fortes odores que
podem cruzar seu caminho.
No nosso passado remoto, quando o homem andava
nu, esse sinal odorífico dos pés tinha uma utilidade, mas
na vida urbana atual tudo isso mudou. Dentro de nossos
sapatos onde o ar não circula, as bactérias proliferam
rapidamente e as secreções odoríferas logo desaparecem.
Se não trocamos de sapatos e lavamos os pés todos os dias,
a natural fragrância agradável se deteriora rapidamente, e
os pés começam a cheirar mal. Em momentos de tensão e
agitação da vida moderna, às vezes percebemos que as
palmas da mão suam, mas não percebemos que nossos
pés transpiram dentro dos sapatos. Essa umidade não
pode evaporar como a natureza desejaria, e nossos pés
sofrem.
Não surpreende, portanto, que para tantas pessoas a
idéia de beijar os pés seja repugnante e não tenha nada de
erótica. Elas pensam no pé como ele quase sempre é
atualmente, e não como ele deveria ser. Quando libertado
da prisão dos sapatos, banhado, limpo e pronto para ser
acariciado pelo amante, a proposta sexual é totalmente
diferente. De repente, ele se transforma no pé cheiroso que
a natureza criou, e o contato com ele pode ser excitante
para ambos os parceiros.
Além desse elemento primitivo também existe uma
atração simbólica. Sugar o dedo do pé de uma mulher dá
ao amante a sensação de estar tocando um mamilo gigante,
um imenso clitóris ou mesmo a língua. Mais uma vez, para
algumas pessoas, essas ilações simbólicas podem parecer
improváveis, mas estudos psiquiátricos provaram que, em
momentos de excitação sexual, certas partes do corpo se
tornam "ecos anatômicos" de outros órgãos. No cérebro
tomado de excitação, os lábios da boca se tornam os lábios
vaginais, a cavidade da boca lembra a vagina, um dedo es-
ticado torna-se um pênis e seios lembram nádegas.
Além disso, durante as preliminares do sexo, os pés
femininos não são insensíveis às carícias. Livres dos
sapatos, eles reagem ao toque, que pode se tornar
intensamente erótico. No momento do orgasmo, os dedos
se separam e se curvam, como se os pés quisessem
acompanhar os espasmos que dominam o corpo no clímax.
Resumindo, podemos dizer que, apesar da maneira
como são tratados, os pés continuam sendo uma forte
zona erógena para os dois parceiros.
Deixando de lado os aspectos eróticos, os pés
femininos têm sido explorados como foco de
demonstrações de poder que assumem várias formas,
entre elas sapatos absurdamente caros, cordões de ouro
nos tornozelos, anéis para os dedos e elaboradas pinturas
das unhas.
Algumas mulheres demonstraram seu poder e riqueza
pelo tamanho de sua coleção de sapatos. Recentemente,
Imelda Marcos, ex-primeira dama das Filipinas, foi um
exemplo, viajando o mundo todo para comprar sapatos.
Dizia-se que ela chegou a ter mais de 3 mil pares, uma
coleção que ocupava cinco salas do palácio presidencial de
Manila. Depois que ela e o marido foram afastados do
poder, Imelda foi acusada de "colocar o prazer dos seus
pés" acima das necessidades de seu povo. Ela retrucou
que os havia colecionado como "símbolo de amor e
gratidão", e que, de qualquer modo, só possuía 1.060
pares. Curiosamente, desses 1.060 pares, 1.220 estão
expostos no recém-inaugurado Museu do Calçado das
Filipinas, e calcula-se que hoje a sra. Marcos já tenha
conseguido criar uma nova coleção de mais 2 mil pares.
Ainda mais extremo foi o caso da princesa Eugênia,
esposa de Napoleão III, que se recusava a usar um par de
sapatos mais do que uma vez. Felizmente, ela tinha pés
pequenos, de modo que os sapatos descartados podiam ser
enviados a orfanatos e servir às pequenas órfãs.
Talvez o exemplo mais extraordinário de
excentricidade em sapatos seja o par que foi exposto na
Harrods de Londres na primavera de 2003. Era um par de
sandálias criadas pelo estilista Stuart Weitzman que
exibiam 642 rubis incrustados em platina. O modelo,
inspirado nos sapatinhos mágicos de rubi usados pela
menina Dorothy em O mágico de Oz, foi colocado à venda
por 1 milhão de libras esterlinas (aproximadamente US$
1,5 milhão).
Finalmente, precisamos admitir que o anseio por pés
anormalmente pequenos é uma dolorosa tradição que
ainda sobrevive. Os atuais estilistas de sapatos impõem
torturas cruéis a suas clientes. Os sapatos estão se
tornando cada vez mais estreitos e pontudos, e previa-se
que os modelos futuros seriam 20% mais estreitos e
pontiagudos. Isso levou algumas mulheres nos Estados
Unidos a solicitar a remoção cirúrgica do dedo mindinho.
Os podólogos (ortopedistas especializados no tratamento
dos pés) têm se recusado a fazer essa cirurgia, mas alguns
concordam com a opção menos drástica de encurtar o
segundo e o terceiro dedos, removendo uma pequena parte
do osso. Isso permite à mulher espremer os pés recém-es-
culpidos nos sapatos criados pelos estilistas modernos.
Cinderela está viva.
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