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Literatura e Cultura Popular AULA 4

Andréa Maria de Araújo Lacerda

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Danças dramáticas

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Trazer à tona algumas reflexões sobre dança popular;


„„ Conceituar danças dramáticas;
„„ Caracterizar alguns tipos de dança dramática.
Danças dramáticas

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Caro aluno,

Na primeira aula do nosso componente curricular, tivemos a oportunidade de


saber o conceito de cultura e o que realmente vem a ser o chamado “hibridismo
cultural”. Depois nos detivemos nas várias formas poéticas calcadas na oralidade,
no âmbito da cultura popular. Já na terceira, dedicamo-nos à Literatura de
Cordel, a fim de discutirmos sobre os temas recorrentes, os suportes, bem como
o contexto de produção/recepção. Nesta aula, você conhecerá um pouco mais
sobre danças dramáticas: seu conceito e seus vários tipos, entre outros aspectos.
E saberá sobre como se caracteriza cada uma dessas danças que encantam
pessoas de todo o país, sobretudo do Nordeste, independentemente de raça, de
região ou de condição socioeconômica. Então, que tal começarmos logo a aula?

3 TECENDO CONHECIMENTO

Caro aluno, nesta seção, vamos, primeiramente, discutir o conceito de dança e,


depois, elencar alguns os tipos de danças dramáticas, que são manifestações
da Cultura Popular difundidas sobretudo no Nordeste. Você irá (re)descobrir um
universo de encantamento e de fantasia!

Vamos lá?

3.1 A dança

De acordo com Hélder Pinheiro (2000), dançar é


encontrar um ritmo que permita viver as experiências
humanas de modo significativo. A dança, portanto, parece
assumir um caráter transcendente, algo mais que um mero
divertimento ou passatempo. Antes, seria um modo mais
adequado de viver o tempo em sua instantaneidade. (p. 47).

Pensando-se assim na dança (como um modo de viver) é que percebemos mais


atentamente o seu poder de canalizar os sentimentos, as emoções e os desejos
de cada indivíduo. Para Miriam Garcia Mendes (1987), a dança é, do ponto de
vista estético, a mais antiga das artes e também a que tem maior capacidade de
expressar as emoções, sem precisar recorrer à palavra. Segundo a autora, a dança

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é também uma arte profundamente simbólica, capaz de


sugerir, ilimitadamente, imagens e associações cheias
de riqueza e vitalidade, dada a natureza da sua forma de
comunicação, não-racional. (p. 10).

De fato, por não estar calcada na linguagem verbal, a dança “fala” por meio das
expressões corporais, repletas de símbolos, possibilitando ao homem satisfazer
uma necessidade interior, já que ele externa os sentimentos bons e ruins pela
via de movimentos livres.

Já para Roger Garaudy (1980), a dança é um rito que oscila entre dois polos:
o sagrado e o social, estando ambos na origem de toda atividade humana. A
dança sagrada nasce da necessidade do homem de tentar explicar os mistérios
da natureza e de estar em contato com o outro indivíduo. Em contrapartida, a
dança profana ocorre quando o homem está inserido em um determinado grupo,
quer seja étnico, quer seja social ou cultural, o importante é ele se sentir parte
integrante desse grupo, mantendo uma relação com os outros. Segundo o autor:
Muito mais do que as leis, os costumes, o traje e a linguagem, é
o gesto que vai dar existência a essa união. As mãos se juntam,
o ritmo une as respirações, a dança folclórica nasce. (p. 8).

Dessa forma, a dança em roda ou circular tem o poder de integrar as pessoas


por meio do círculo que é criado, unindo-as na própria experiência de vida,
independentemente do grupo social do qual façam parte. A dança, ainda
segundo Garaudy (1980), é uma das poucas atividades capazes de possibilitar
ao homem a total interação entre corpo, mente e coração, constituindo uma
forma de conhecer o mundo exterior e a si mesmo. Como bem lembra o autor,
a humanidade dançou “todos os momentos solenes de sua existência: a guerra
e a paz, o casamento e os funerais, a semeadura e a colheita” (p. 13), vivenciando
e exprimindo a sua relação com a natureza e com a sociedade, já que, desde
a origem das civilizações, é justamente com as danças e com os cantos “que o
homem se afirma como membro de uma comunidade que o transcende” (p. 19).

Para o autor, toda dança requer participação, mesmo quando se torna um


espetáculo, já que a acompanhamos não só com o olhar, mas também com o
movimento do nosso próprio corpo, conseguindo revelar os acontecimentos
que transcendem a vida cotidiana. Daí, o homem poder exprimir, por meio da
dança, os seus anseios e as suas emoções, não é verdade?

De acordo com Miriam Garcia Mendes (1987), concomitantemente ao surgimento


das civilizações, as formas de dança foram se estruturando e se tornando típicas
de diferentes grupos sociais que as praticavam. Dessa forma, iremos observar

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Danças dramáticas

que existem vários tipos de dança, como, por exemplo, clássica, moderna, de
salão e popular.

Restringindo-nos às danças populares, sabemos que, muitas vezes, estas são


vistas erroneamente como opositoras em relação às danças “elitizadas”, quando,
na verdade, todas elas são frutos dos mais variados desejos e necessidades do
homem. Segundo Câmara Cascudo (1988), as danças inicialmente eram voltadas,
sobretudo, para as expressões sagradas, mas, com o passar do tempo, o instinto
lúdico provocou a sua diversificação, fazendo-se presente na nossa vida nas mais
diversificadas situações. É, como afirma o autor, a forma mais rápida, unânime e
completa de comunicação entre as pessoas, principalmente entre nós brasileiros,
que somos alegres e festeiros.

Assim sendo, “as danças, num modo geral, nunca desaparecem. Mudam de
nome. Há uma corrente de interdependência, de trocas de elementos rítmicos,
de posições, e nesse aculturamento o velho batismo perde presença e ganha
apelido” (CASCUDO, 1988, p. 279). Como podemos perceber, as danças, também
representantes da cultura popular, modificam-se, transformando-se, a cada
momento histórico, de acordo com as necessidades da sociedade moderna.
Por isso, nunca podemos falar em “resgatar” a cultura do povo, porque ela está
entranhada em nós, mais viva e atuante do que nunca, como você viu na aula 8
(“Literatura popular na sala de aula”) da disciplina Literatura e Ensino.

Para Paulina Ossana (1984), as danças populares possuem formas e estilos


próprios de cada região, de acordo com as condições climáticas, geográficas
e econômicas. E em meio a uma diversidade de danças existentes, temos as
dramáticas. Mas o que são danças dramáticas? Você já tinha ouvido falar sobre
elas? Quais os tipos? Como se caracterizam?

Bem, danças dramáticas, segundo Mário de Andrade (1946) (que, além de ter
sido um grande escritor literário, foi um estudioso e conhecedor profundo da
cultura popular, sobretudo da dança e da música), são aquelas bailadas, providas
“de maior ou menor entrecho dramático, textos, músicas e danças próprias” (p.
21), cujo tema é, ainda segundo o autor, ao mesmo tempo profano e sagrado,
no que concerne à representação de um fator prático condicionado a uma
transfiguração religiosa. São danças muito difundidas sobretudo no Nordeste e
que, como a maioria das danças populares, sofrem influência da cultura africana,
indígena e portuguesa.

Em seu livro Pequena história da música (1928), Mário de Andrade menciona, de


maneira breve, as possíveis influências musicais de cada um desses povos. Dos
indígenas, teríamos herdado o macará, o refrão curto, certas danças, dando um
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toque especial ao canto popular brasileiro; dos negros, teríamos a valorização


da rítmica, vocábulos, flexões de sintaxe e dicção, que influenciaram a nossa
melodia, vários cantos e danças, instrumentos (como, por exemplo, a cuíca e o
tabaque), o jeito de dançar; e dos portugueses, teríamos herdado o tonalismo
harmônico, a quadradura estrófica, os instrumentos musicais popularíssimos
(violão, cavaquinho, viola, flauta, piano) e também várias danças dramáticas
como reisados, pastoris, marujada e chegança. Caro aluno, lembre-se de que
essas são apenas algumas das dezenas de contribuições que esses povos nos
deram. Além disso, muita coisa se perdeu ao longo dos anos e, dessa forma, há
influências que não temos como precisar.

Várias danças dramáticas foram catalogadas por Mário de Andrade em seu livro
Danças dramáticas do Brasil (1946). São elas: Reisado (Nordeste e Minas Gerais),
Congo (Nordeste e Goiás), Congo ou Congada (Regiões centrais do Brasil, São
Paulo e Minas Gerais), Moçambique (Regiões centrais do Brasil, São Paulo e Minas
Gerais), Quilombo (Alagoas), Maracatu (Pernambuco), Cabocolinho ou Caboclo
(Nordeste), Tapuia (Goiás), Caiapó (São Paulo), Auto (várias regiões do Brasil),
Pastoril, Chegança e Bumba meu boi – as três últimas praticamente espalhadas
em todo o Brasil.

É importante lembrar que essas danças foram catalogadas pelo autor até a
década de 1940. De lá para cá, certamente, já houve muitas transformações,
entretanto, os estudos bem como o levantamento feito por Mário de Andrade
sobre a cultura popular continuam sendo referência na área e um dos únicos a
versar sobre as danças dramáticas. Inclusive, essa denominação foi criada por ele,
cujo objetivo era pensar em um nome genérico, segundo as próprias palavras
do escritor, para designar todas as danças que tivessem, em síntese, enredo e
encenação. Apesar de serem muitas as danças dramáticas elencadas por ele,
iremos nos deter apenas a algumas delas.

3.2 Tipos de danças dramáticas

De acordo com Mário de Andrade (1946), as danças dramáticas se dividem em


duas partes distintas. A primeira delas é o cortejo, que se caracteriza, do ponto
de vista coreográfico, por peças que permitem a locomoção dos dançadores e
podem incluir ou não, mudar ou não as cantigas; e a outra é a dramática, que

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Danças dramáticas

é a representação mais ou menos coreográfica de um entrecho e “conserva


mais fixamente os seus textos, transmitidos oralmente ou conservados em
manuscritos” (ANDRADE, 1946, p. 55).

a) Congo ou Congado/Congada

Figura 1

Segundo Cascudo (1984), chama-se Congo no norte e Congado (Congada) no


sul do país e é uma dança bailada com sucessivas representações de episódios,
basicamente apresentados por negros. Está presente em várias partes do Brasil,
sobretudo no Nordeste, e, dependendo do lugar, pode apresentar modificações
quanto à música, ao bailado e ao enredo.

Ainda de acordo com o autor, há dois grandes motivos sociais para essa dança.
O primeiro está relacionado ao coroamento dos Reis de Congo, honorários,
cerimônia nas igrejas, cortejo, visitas protocolares às pessoas importantes; e
o segundo está relacionado ao sincretismo de danças guerreiras africanas,
reminiscências históricas, mais presentes nas regiões de onde os escravos bantus
foram retirados à força (Congo e Angola), fundidas em um só ato.

Para Cascudo (1984), o enredo dessa dança, na maioria das vezes, traz a história
de uma embaixada da Rainha Ginga enviada para o Rei Henrique (Cariongo). Há
uma conspiração que culmina com uma batalha travada entre o filho do rei e o
embaixador, em que, no final, todos são levados à presença da invisível e vitoriosa
Ginga. Existem alguns lugares onde não se menciona o nome dessa Rainha,
mas incluem cavalgadas ou apenas cortejos, perdendo assim o enredo trágico.
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b) Pastoril

Figura 2

Dança fortemente presente no Nordeste, sobretudo nos estados do Rio Grande


do Norte, Pernambuco, Alagoas e Paraíba, e que ocorre na época dos festejos
natalinos em celebração, segundo Mário de Andrade (1946), ao nascimento de
Jesus. Por isso, toda a história contada está relacionada ao Natal. É uma encenação
dramática, geralmente ocorrida diante de um presépio, que tenta reproduzir a
adoração dos pastores e dos Reis Magos em relação ao menino Jesus.

Geralmente ocorre em lugares improvisados, cujo cenário simples (cheio de


ramos de árvore, uma gruta ao fundo, com as figuras da Virgem Maria e de José
e uma manjedoura com animais em volta) tenta ser fiel aos fatos e reproduzir
esse acontecimento bíblico. Abaixo extraímos dois pequenos trechos de pastoril
para você ter uma noção do contexto:

Canto da Meia-noite

Bate asas, canta o galo,


Dizendo: Cristo nasceu!
Cantam anjos nas alturas:
Glória in excelsi Deus!

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Danças dramáticas

De dezembro a vinte e quatro


A meia-noite deu sinal,
Rompe a aurora, a primavera!
Hoje é noite de Natal!

Jornada final

Sinto uma grande tristeza


Quando chega nesta hora,
A natureza se fecha
E o coração triste chora.

Adeus, adeus, partidários,


Deste lindo Pastoril!
Adeus, até amanhã!
Quero ver todos aqui!

De acordo com Mário de Andrade (1946), desde o primeiro século tínhamos


pastoris, mas só no século XIX eles floresceram em grande proporção, mesmo
assim nunca tiveram efetivamente a repercussão nacional como as outras danças
dramáticas, sendo um fenômeno de imposição erudita, de importação burguesa.

Ainda segundo o autor, uma das tradições curiosas está relacionada à indumentária
das pastoras. No geral, elas se vestem com o mesmo traje, mas de cores diferentes
(encarnado e azul), divididas em duas fileiras e separadas por Diana (figura híbrida
que fica no centro, vestindo as duas cores), cuja “ordem do bailado é fixa e idêntica
à da generalidade das nossas danças dramáticas” (ANDRADE, 1946, p. 355).

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c) Bumba meu boi

Figura 3

Dança dramática que surgiu no século XVIII e une elementos da comédia, do drama,
da sátira e da tragédia. De acordo com Câmara Cascudo (1986), o Bumba meu boi
(também chamado de Boi Kalemba, Boi-bumbá ou simplesmente Boi) é superior
a qualquer outra dança dramática devido à sua variedade, multiformidade das
fisionomias fixadas e dos episódios criticados, sendo sempre atual. Entretanto,
se comparado à marujada, ao congo ou à chegança, é a dança mais pobre em
relação à indumentária, a mais complicada, a menos passível de ordem, de
sistemática e de interpretação. Em cada região, estado e município, o Bumba
meu boi pode variar quanto às figuras, às músicas e às danças, trazendo, a cada
tempo, novos personagens em detrimento de outros que podem desaparecer.

Geralmente, o elenco é basicamente o seguinte: o Boi, o Amo, a Burrinha, o Bode,


o Urubu, o Bate-Queixo, o Sisudo, o Lalaia ou Corpo-Morto, a Caipora, o Gigante
ou Cavalo Marinho, as damas e os Galantes, cujo enredo tem como motivo central,
segundo Cascudo, algo muito simples: o Amo confiou o Boi ao vaqueiro e este
o matou. Antes e depois dessa morte, intervêm animais, monstros e figuras
dançantes. No final, conseguem ressuscitar o Boi e fazem uma grande festa
em comemoração. Mas, como todas as outras danças, também sofre variações,
tanto em relação aos personagens, quanto em relação ao enredo e às figurações.

Essa dança está presente em todo o Brasil, mas ganha enorme destaque no
Maranhão (com festivais e grandes competições com Bois, sobretudo no São
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Danças dramáticas

João) e no Amazonas, mais especificamente na cidade de Parintins, onde há um


grande festival em que duas agremiações, Boi Garantido (defende a cor vermelha)
e Boi Caprichoso (defende a cor azul), “duelam”, formando um grande cenário
de cor, luz e encanto.

d) Chegança

Figura 4

Dança dramática, segundo Mário de Andrade (1946), baseada nas celebrações


da epopeia marítima de Portugal (“Chegança de Marujos”) e das lutas ibéricas
ocorridas entre cristãos e mouros (“Chegança de Mouros”), que começou a se
popularizar no território brasileiro no início do século XIX. Apesar de trazerem
vários elementos ibéricos para a sua composição, as cheganças “são entidades
próprias, aqui organizadas e de indiscutível formação brasileira em seu conjunto
(ANDRADE, 1946, p. 94), cuja denominação pode variar de lugar para lugar,
como, por exemplo, no Rio Grande do Norte, são conhecidas como fandango,
e na Paraíba, como barca ou nau-catarineta.

Geralmente, as cheganças são bailadas no período natalino (de dezembro até, mais
ou menos, o dia de Reis (6 de janeiro), podendo se realizar também no Carnaval
e no São João. Aliás, todas as danças dramáticas se realizam, geralmente, entre
o Natal e o Carnaval, o que não implica dizer que elas têm alto teor religioso,
pelo contrário, há muito do profano em cada uma delas.

Segundo Albino Oliveira (2011), os figurantes dessa dança se apresentam fantasiados


de marujos da Marinha, atuando como se fossem tripulantes de embarcação em
viagem. A sua representação se dá em vários episódios (jornadas), sendo os mais
comuns, de acordo com o autor: o embarque (início de uma viagem por mar); o
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anau perdido (lembra uma tempestade ameaçadora); a rezinga grande (relata


a desavença entre o piloto e o patrão); o contrabando dos guardas-marinha
(há a denúncia do contrabando no navio); a agulha de marear (remete à perda
do instrumento de orientação); e a mourama ou combate (o ápice, em que é
representada a luta entre mouros e cristãos).

O enredo, geralmente, ainda de acordo com Oliveira, é desenvolvido à base de


declamações e, principalmente, de cantos acompanhados de música (realizada
por quatro ou seis pessoas com pandeiros e um apito utilizado pelo piloto ou
pelo general para o comando das evoluções e mudança de “marchas”) e dança.

Já a disposição básica dos personagens, segundo o autor, é em fileiras, cuja


movimentação dos pés, no decorrer da dança, é mínima. Entretanto, eles se
mexem de um lado para o outro como forma de imitar o movimento de uma
embarcação no mar. Oliveira (2011), ao lançar mão dos estudos de Théo Brandão1,
menciona que a chegança é iniciada com a saída do grupo entoando as “marchas
de rua”, cuja mais tradicional é:

Alerta, alerta, quem dorme,


Olha a moça na janela;
Venha ver o nau tirano
Quando vai largando a vela.
Ô, meu Deus, que terra é aquela,
Terra de tanta alegria
- É o campo do Rosário
Onde festejam Maria
Entramos neste nau de guerra
Todos nós com muita alegria,
Pra festejar o Nascimento
De Jesus que é filho de Maria!
Entramos com gosto, com muita alegria
Louvores viemos dar à Virgem Maria!
A Virgem Maria seja nossa guia
Ela nos queira ajudar hoje e por todo o dia!

1 BRANDÃO, Théo. Folguedos natalinos: chegança.  Maceió: Universidade Federal de Alagoas;


Museu Théo Brandão, 1976. (Coleção Folclórica da UFAL, 25).

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e) Maracatu

Figura 5

Dança dramática que possivelmente surgiu, no século XVIII, da mistura da


cultura afrodescendente e ibérica e que, ainda hoje, encanta pessoas de várias
regiões do país, especialmente de Pernambuco, com seus sons fortes advindos
da percussão que acompanha um cortejo real.

De acordo com Mário de Andrade (1946), os maracatus têm várias personagens sem
necessariamente ter finalidade dramática, algumas exercendo funções meramente
técnicas no cortejo, outras, como o Rei e a Rainha, exercendo papéis imprescindíveis,
conservando a tradição dos reis negros. Outra figura importante é a Dama do Passo,
que geralmente é uma negra vestida mais elegantemente e detentora de um “passo”
especial, trazendo consigo uma boneca enfeitada (chamada de Calunga), que nos
remete, segundo o autor, aos cultos feiticistas afro-americanos.

Além desses personagens, há também a Porta-bandeira (que carrega o estandarte,


distintivo da nação), as figuras relacionadas à Corte (Duque, Príncipe e Embaixador,
que abrem alas para os reis), o Dereito (que é o tirador das toadas), o Caboclo da
Nação (que é o abre-alas do cortejo) e os guias (escolhidos entre os melhores
dançadores e que são responsáveis por “puxar” a coreografia). Todos eles bailando
ao ritmo da percussão (e outros instrumentos) e cantando, muitas vezes, músicas
que remetem às origens africanas, como podemos observar no trecho a seguir,
retirado de peças soltas do maracatu pernambucano:

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Vamos pra Loanda

Ôh liô! ôh liô!
Porto rico na porta chegô!
1
Vamo imbora pra Loanda
Que Loanda é nossa terra,
Defendê nossa bandêra,
Nosso rei que istá im guerra!
(refrão)
2
Pra fazê nossa viage
Num pèrcisa vapô bom,
Basta somente o balão,
O balão Santus Dumon!

É na coreografia, segundo Andrade, que o Maracatu vai se distinguir enormemente


em relação às outras danças dramáticas, pois se conservou fortemente a influência
do candomblé, refletindo muitas vezes o “passo” dos frevos carnavalescos.
Quanto à estrutura, geralmente é dividido em um “cortejo”, dançado nas ruas
(parte móvel que se chama cantiga), e em uma “embaixada”, que é a parte fixa,
representada, em que há associação com os cantos e as danças.

Exercitando

Depois dessas noções sobre dança e, mais especificamente, dança dramática


(tipos e características), que tal exercitarmos um pouquinho? Pesquise, em sua
cidade, sobre as danças dramáticas que lá existem, tendo em mente as seguintes
questões: quais são? Em que época são vistas? Como se caracterizam, sabendo-se
que elas mudam de região para região? Em seguida, discuta no fórum sobre a
importância de cada uma delas para a afirmação da nossa identidade cultural.

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Danças dramáticas

4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO

É hora de aprofundar o conhecimento que você adquiriu nesta aula. Por isso,
segue a sugestão de duas obras de Mário de Andrade que certamente te ajudarão
a entender melhor essas danças.

O primeiro livro é, na verdade, uma coletânea


de textos divididos em três tomos de suma
importância para adentrarmos mais nesse
universo musical. É o livro Danças dramáticas do
Brasil, de Mário de Andrade (1946), obra póstuma,
organizada por Oneyda Alvarenga. É uma obra
já esgotada, mas que você encontra ainda em
sebos. Ela traz uma análise introdutória acerca
das origens técnicas e históricas de várias danças
dramáticas como Congo ou Congada, Pastoril,
Figura 6
Maracatu e Bumba meu boi, além da exposição
de documentos colhidos e notas do autor.

Também há o livro As melodias do boi e outras


peças, de Mário de Andrade (1987), que, como o
próprio título já sugere, traz inúmeras melodias
recolhidas do povo, em sua grande maioria, a
partir da viagem que o escritor fez ao Nordeste,
de dezembro de 1928 a fevereiro de 1929. São
melodias que nos ajudam a entender melhor
esse universo popular e nos aproximarmos dele.

Figura 7

5 TROCANDO EM MIÚDOS

Caro aluno, vimos, nesta aula, que a dança é uma das principais artes, constituindo
um modo de ver a vida e de sentir o mundo. Restringindo-nos às danças populares,
vimos que essa relação é intensificada porque é algo que emana do povo, das
camadas mais pobres. Vimos também que, entre as danças populares, existem as
dramáticas, que unem dança, canto e encenação e que sofrem forte influência das
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AULA 1

culturas indígenas, africanas e portuguesas. Apesar dessa influência, demos à maioria


delas um caráter mais brasileiro, incluindo elementos e ritmos que refletem a nossa
identidade cultural, nascida justamente dessa mistura de raças. Devemos lembrar
que são danças que podem mudar seus elementos (cantos, figuração, personagens,
entre outros aspectos) de acordo com as influências de cada região, estado ou
município, mas que, como tudo que envolve a cultura popular, adequam-se ao
tempo, modificando-se conforme as necessidades do nosso povo.

6 AUTOAVALIANDO

Após as informações levantadas nesta aula, seria interessante que você pensasse
sobre a sua prática docente (ou futura), visto que a cultura popular deve ser levada
para a sala de aula. Desse modo, procure refletir sobre as seguintes questões:

1) Depois das reflexões acerca do ato de dançar, eu consigo perceber o


papel que a dança ocupa na nossa sociedade independentemente de
ritmo ou vertente?
2) Sou capaz de reconhecer uma dança dramática e diferi-la das demais
mediante as suas especificidades?
3) Em meio às danças dramáticas, apesar de ter adquirido conhecimentos
mais gerais, consigo perceber como se caracteriza cada uma delas?

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REFERÊNCIAS

ALVES, José Hélder Pinheiro. A representação do tempo na poesia de Mário


Quintana. 2000. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Universidade
de São Paulo - USP, São Paulo, 2000.

ANDRADE, Mário de. Danças dramáticas do Brasil. São Paulo: Martins, 1946.
(1º, 2º e 3º Tomos).

______. Ensaio sobre a música. São Paulo: Martins, 1962.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 6. ed. Belo Horizonte:


Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1988.

______. Literatura oral no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo:
Ed. da Universidade de São Paulo, 1988.

GARAUDY, Roger. A dança da vida. In: ______. Dançar a vida. Trad. Antonio
Guimarães Filho e Glória Mariani. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

MENDES, Miriam Garcia. A dança. 2. ed. São Paulo: Ática, 1987.

OLIVEIRA, Albino. Chegança. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco,


Recife, 2011. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso
em: 12 jun. 2015.

OSSONA, Paulina. A educação pela dança. Trad. Norberto Abreu e Silva Neto.
São Paulo: Summus, 1988.

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