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EDIÇÃO Nº E3 - SETEMBRO 2012 INÍCIO SOBRE

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In Memoriam por Clara Pimenta do Vale


Há cerca de 8 anos, numa das minhas habituais deambulações fotográficas, entrei nas antigas caves
Delaforce/Gran Cruz, que se encontravam abandonadas e parcialmente em ruína depois do incêndio que
sofreram em 1990. Tirei algumas fotos, planeando voltar com mais tempo para uma reportagem mais
extensa, que contudo não foi possível pois o portão de acesso foi mais seguramente entaipado. Assim, InComunidade no Facebook
daquele “tesouro” apenas me restou uma memória forte e esse pequeno conjunto de fotografias. O estado
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de ruína, paradoxalmente, tornava o edifício mais rico, pois permitia uma melhor leitura da sua estrutura
espacial e dos seus elementos construtivos.

Actualmente, o que existe no local é um extenso taipal de obra que protege uma cratera de alguns pisos de
profundidade, ancoradouro adiado de um empreendimento habitacional e hoteleiro.

A construção de vários edifícios, incluindo uma unidade hoteleira de 5 estrelas do grupo CS (o segundo
hotel de 5 estrelas de Vila Nova de Gaia), anunciada a partir de 2008, mas apenas iniciada um par de anos
mais tarde, foi responsável pela demolição integral do extenso conjunto de edifícios (que ainda consegue
ser visto no GoogleMaps e no bird's eye do BingMaps). Nada foi poupado, nenhuma memória da antiga
actividade foi preservada. À Autarquia interessou mais garantir o investimento no concelho do que
preservar as construções, cujas características, arreigadas fortemente no seu passado funcional, tornam
único o centro histórico de Gaia.

As longas e estreitas naves das caves vinícolas, dimensionadas em função do tamanho das próprias pipas e
do espaço necessário para o seu exame e montagem, determinam uma proporção de talhonamento que se
reflete na textura dos telhados, bem visíveis mercê da topografia da cidade, e nas “fachadas pentagonais
das testeiras” como em 1911 descrevia Manuel Monteiro. As naves adaptam-se ao terreno e aos caminhos
ancestrais, alterando a orientação segundo conveniência ou fases de edificação. A ligação entre naves é
feita por sequência de arcos de volta inteira, geralmente alinhados. Nas caves mais antigas o pavimento
pode ser de terra batida ou de madeira, para não danificar as pipas quando roladas. A estrutura da
cobertura, de duas águas, é feita por asnas de madeira (geralmente construídas com paus rolados toscos) ou
por asnas metálicas, nas caves mais recentes. A telha, invariavelmente marselha, envelhece a ritmos
diferentes consoante as orientações das águas, proporcionando ricas e delicadas nuances cromáticas.

O conjunto que foi destruído era constituído por cerca de 15 naves, com duas orientações ortogonais,
perpendiculares aos arruamentos circundantes. A pendente do terreno determinava uma implantação das
naves em socalcos, permitindo, apesar da densificação construtiva, linhas de vista sobre a cidade do Porto.
Certas naves ainda tinham o pavimento original, feito em paralelepípedos de madeira, aplicados de forma
idêntica à calçada de granito que pavimenta algumas das nossas ruas, algo que era um exemplo muito raro.

Ainda que a incúria seja responsável por uma degradação progressiva dos edifícios, uma intervenção
incorrecta será mais danosa que a inacção, pois levará à destruição irremediável de uma memória tangível.

Clara Pimenta do Vale


Arquitecta, Professora Auxiliar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto

1 of 2 24-10-2012 23:05
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Vale, Clara Pimenta do (2012). In Memoriam... InComunidade [Online].Porto: 515-Cooperativa Cultural, CRL,
Disponível: http://www.incomunidade.com/v2/art.php?art=16 [Consultado em 5-9-2012].