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O MILAGRE DE UM OLHAR CHEIO DE JESUS

1. Lucas 24,46-53: estupendo texto que encerra o Evangelho de Lucas e que hoje,
Solenidade da Ascensão do Senhor, é solenemente proclamado para nós.

2. É a terceira vez que, neste Capítulo 24 do Evangelho de Lucas, o Evangelista volta à


temática da necessidade do sofrimento de Jesus em ordem à Sua Ressurreição dos mortos
(Lucas 24,7.26.46-47). Todavia, nesta terceira vez (Lucas 24,46-47), é acrescentado um
dado novo de extrema importância, sendo que os acontecimentos incluídos na necessidade
divina são agora três, e não dois: a Paixão (1), a Ressurreição (2) e a Pregação (kêrygma) a
todas as nações (3). Portanto, também a MISSÃO surge incluída na necessidade divina. Não
está à margem dos acontecimentos de Jesus, nem constitui em relação a eles um
acrescento, mas está completamente vinculada a eles e a Ele. É, por isso, «no Seu Nome»
(Lucas 24,47), isto é, assente na Sua autoridade, e não em qualquer outra, que esta
Pregação deve ser feita, e o seu conteúdo é a Conversão e o Perdão. Conversão teológica,
isto é, mentalidade nova por graça recebida e assente no facto de que o Crucificado é
Revelação gloriosa de Deus, e não ignomínia e derrota! Perdão: significa que o Amor de
Deus é maior que o nosso pecado! Este Anúncio é para ser feito a «todas as nações», a
todos os corações: âmbito mais amplo e intenso possível!

3. Mas esta MISSÃO é para levar por diante com a humildade e persistência do testemunho
quotidiano e com a roupa nova (endýô) e a dinâmica nova (dýnamis) do Espírito (Lucas
24,49), belíssima e fortíssima expressão que o Evangelho de hoje transporta até nós. Nas
novas coordenadas do Espírito, os Acontecimentos de Jesus, de per si circunscritos no
espaço e no tempo, alargam-se a todos os tempos e lugares, e insinuam-se no subtilíssimo
segredo de cada coração humano.

4. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante
a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e
semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada. Bênção desde o início do
Evangelho de Lucas até agora diferida, porque a mudez do sacerdote Zacarias não lha
permitiu então pronunciar (Lucas 1,22). Jesus, novo, terno e eterno sacerdote, elevando-se
para o céu, mas ficando mais presente do que nunca em cada coração, abençoa agora os
seus discípulos (Lucas 24,50-51), isto é, une-se a eles e a nós e une-nos a Ele, união forte e
inseparável, tal é o significado da bênção bíblica. Nova e mais intensa forma de presença.
Não é um passo atrás, mas em frente. Por isso, uma nova e «grande Alegria» (só aqui e em
Lucas 2,10), inclusão literária, nos impele, deixando-nos no tempo novo e jovem da
MISSÃO!

5. O Livro dos Atos dos Apóstolos retoma hoje esta lição. «E estas coisas tendo dito, vendo
(blépô) eles, ELE foi Elevado (epêrthê: aor. pass. de epaírô), e uma nuvem O subtraiu
(hypolambáno) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E como tinham o olhar fixo
(atenízontes) no céu para onde ELE ia, eis (idoú) dois homens que estavam ao lado deles,
em vestes brancas, e DISSERAM: “Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando
(emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o
céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Atos
1,9-11).

6. Tanto VER. Da panóplia de verbos registrados (blépô, atenízô, horáô, emblépô, theáomai),
os mais fortes e intensos são, com certeza, atenízô [= «olhar fixamente»] e emblépô [=
«perscrutar», «ver dentro»]. Ambos exprimem a observação profunda e prolongada, para
além das aparências: VER o invisível (cf. Hebreus 11,27), VER o céu, VER a glória de Deus.
Mas mais ainda do que «o que» se vê, estes verbos acentuam «o modo como» se vê. É para
aí que apontam os dois homens vestidos de branco, de rompante surgidos na cena, para
entregar um importante DIZER que interpreta e orienta tanto VER. Já os tínhamos
encontrado no túmulo reorientando os olhos entristecidos das mulheres: «Por que (tí)
procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui. Ressuscitou!» (Lucas 24,5-
6). Dizem agora: «Por que (tí) estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS
que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do
modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu» (Atos 1,11). Como bem se pode
verificar, ao Arrebatamento de JESUS para o céu, os dois homens vestidos de branco
agrafam a Vinda de JESUS. Importante colagem da Ascensão com a Vinda. E importante
passo em frente para quem estava ali simplesmente especado. Não é mais possível Ver a
Ascensão sem Ver a Vinda. Sim, Ver. Porque ELE Virá do mesmo modo que O Vistes IR.
Importante guardar este Ver, viver este Ver, Ver com este Ver. Porque é Vendo assim que o
SENHOR Virá. Vinda que não tem de ser relegada para uma Parusia distante e espetacular,
mas que começa, hic et nunc, neste Olhar novo e significativo de quem Vê o SENHOR JESUS.
Vinda que não é tanto um regresso, mas o desvelamento de uma presença permanente.
Vinda já em curso, portanto, ainda que não plenamente realizada.

7. Guardemos este Olhar e prossigamos. Eis-nos no primeiro ATO propriamente dito dos Atos
dos Apóstolos depois do Pentecostes: a cura de um coxo de nascença descrita em Atos 3,1-
10: «Então Pedro e João subiam ao Templo para a oração da hora nona [= 15h00]. E um
certo homem, que era coxo (chôlós) desde o ventre da sua mãe, era trazido e posto todos os
dias diante da Porta do Templo, dita a Bela, para pedir esmola àqueles que entravam no
Templo. Vendo (idôn) Pedro e João, que estavam a entrar no Templo, pedia esmola para
receber. Então, fixando o olhar (atenísas) nele, Pedro, com João, disse: “Olha para nós”
(blépson eis hemâs). Então ele observava-os (epeîchen), esperando receber deles alguma
coisa. Disse então Pedro: “Prata e ouro não tenho, mas o que tenho, isso te dou: no nome
de JESUS CRISTO, o Nazareno, [levanta-te e] caminha”. E, tomando-o pela mão direita,
levantou-o. Imediatamente se firmaram os seus pés e os calcanhares. Com um salto, pôs-se
em pé, e caminhava, e entrou com eles no Templo caminhando e saltando e louvando a
Deus. E todo o povo o viu (eîden) a caminhar e a louvar a Deus. E reconheciam que era
aquele que, sentado, pedia esmola à Porta Bela do Templo, e ficaram cheios de admiração e
de assombro por aquilo que lhe aconteceu» (Atos 3,1-10).

8. Outro impressionante condensado de olhares marca este primeiro ATO dos Atos dos
Apóstolos. Soam no texto cinco notas visuais, servidas por quatro verbos: horáô, atenízô,
blépô, epéchô. Atenízô desenha o Olhar de Pedro e João fixado no coxo de nascença. Blépô
retrata o Ver com que o coxo é mandado olhar o Olhar dos Apóstolos. Significativo agrafo:
estes dois Olhares, com atenízô e blépô, só tinham sido usados antes, no Livro dos Atos dos
Apóstolos, uma única vez, precisamente no relato da Ascensão (Atos 1,9-10). De resto,
blépô conhecerá apenas mais quatro menções no Livro dos Atos dos Apóstolos: duas no
relato da vocação de Paulo (Atos 9,8-9), a terceira no discurso de Paulo na sinagoga de
Antioquia da Pisídia (Atos 13,41; cit. de Habacuc 1,5), e a quarta e última no decurso da
viagem marítima de Paulo para Roma (Atos 27,12). Atenízô, por sua vez, far-se-á notar em
lugares de relevo, sempre para expressar um Ver novo e significativo, um Ver sem haver: os
membros do Sinédrio fixam os olhos (atenízô) em Estêvão, e veem-no semelhante a um anjo
(Atos 6,15); Estêvão, por sua vez, fixa os olhos (atenízô) no céu, e vê a glória de Deus e
JESUS, de pé, à direita de Deus (Atos 7,55); Cornélio fixa os olhos (atenízô) no anjo do
Senhor, que o interpela (Atos 10,4); Pedro fixa os olhos (atenízô) na visão, vinda do céu,
dos animais impuros (Atos 11,6); Paulo fixa os olhos (atenízô) no mago Elimas, de Chipre,
para o fulminar pela sua falsidade e malícia (Atos 13,9), e o mesmo faz no Sinédrio, dando
testemunho de JESUS (Atos 23,1).
9. É este Ver JESUS, Ver sem haver, sem poder, sem ouro nem prata (Atos 3,6), que se fixa
sobre o coxo de nascença, mandado, por sua vez, olhar para este Olhar, Ver desta maneira.
Como Abraão e Moisés, convidados a Ver para receber, e não para haver, a Terra Prometida:
«a terra que Eu te farei Ver» (Génesis 12,1), «que YHWH lhe fez Ver» (Deuteronómio 34,1),
«Eu a fiz Ver aos teus olhos» (Deuteronómio 34,4). O narrador anota mais à frente que o
coxo de nascença, agora curado, tinha mais de 40 anos (Atos 4,22), tipologia do povo
perdido no deserto antes de entrar na Terra Prometida. Como o homem doente havia 38
anos, que Jesus encontra junto da piscina de Bezetha, e que será curado (João 5,1-9).

10. É sintomático que o Ver da Ascensão e da Vinda do SENHOR JESUS seja o Ver que
preenche por inteiro o primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos, com realce para Pedro. Mas é
ainda grandemente sintomático que o primeiro ATO de Paulo, descrito em Atos 14,8-10, que
é também o primeiro passo da missão perante o paganismo popular, em Listra, quase copie
o primeiro ATO dos Apóstolos e de Pedro, certamente com o intuito de pôr em paralelo os
dois grandes Apóstolos e os dois tempos da missão. Eis o texto referido de Atos 14,8-10: «E
em Listra um homem estava sentado, sem força nos pés, coxo desde o ventre da sua mãe, e
que nunca tinha andado. Este ouviu falar Paulo, o qual, tendo fixado os olhos (atenísas) nele,
e tendo visto que tinha fé para ser salvo, diz com voz forte: “Levanta-te direito sobre os teus
pés!”. E ele deu um salto e caminhava» (Atos 14,8-10). Aqui temos o mesmo coxo de
nascença, o mesmo Olhar significativo e diaconal, sem poder, sem ouro nem prata, Ver
JESUS, o mesmo levantamento do coxo. E também aqui, na sequência do texto, temos o
aceno à multidão que disperdia o olhar, vendo em Paulo e Barnabé deuses em forma
humana, e a mesma correção, feita por Paulo, apontando JESUS (Atos 14,11-18).

11. Importante agrafo da Ascensão com a Vinda do Senhor. Tanto Ver. Não é mais possível
Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Guardemos este Olhar cheio de Jesus e olhemos agora
para esta terra árida e cinzenta, para tantos corações tristes e perdidos. Nascerá um mundo
muito mais belo, novos corações pulsarão nas pessoas. Os olhos do coração iluminados,
como diz o Apóstolo à comunidade mãe da Ásia Menor, Éfeso (Efésios 1,18). Um Olhar cheio
de Jesus faz Ver Jesus, faz Vir Jesus!

12. Ponhamos tudo isto em imagem, como convém neste Domingo em que a Igreja celebra o
Dia das Comunicações Sociais, instituição que tem as suas raízes no Concílio Vaticano II
(Decreto Inter Mirifica, n.º 18), e que foi celebrado pela primeira vez, com mensagem de
Paulo VI, em 7 de Maio de 1967. Eis então diante de nós, no cume do Monte das Oliveiras,
um pequeno Templo, arredondado, chamado Imbomon [«sobre o cume»], grecização do
hebraico bamah [«lugar alto»], a 818 metros de altitude, um pouco acima da Ecclesia in
Eleona [«no Olival»] – que remonta a Santa Helena, hoje Pater Noster – e a curta distância
de Jerusalém, a distância do caminho de um sábado (Atos 1,12), que é de 1892 metros. As
construções cristãs do Imbomon remontam ao longínquo ano de 376, com reconstrução dos
Cruzados em 1152, ocupadas depois, em 1187, pelos muçulmanos. A construção dos
Cruzados, que respeitava a primitiva construção, tinha no centro um tambor encimado por
uma cúpula aberta no centro, justamente para servir de suporte à imagem da Ascensão
patente em Atos 1,9-11. Em 1200, os muçulmanos fecharam esse ponto de luz com uma
cúpula de estilo árabe, escondendo assim a visão de Atos 1,11: «Porque estais aí a olhar
para o céu?».

13. O texto de hoje da Carta aos Efésios 1,17-23 completa maravilhosamente as passagens
da Escritura que já vimos. Depois do grande hino (vv. 3-14), em que se bendiz o Pai,
mediante o Filho, no Espírito Santo a nós dado, cantamos agora, guiados sempre por São
Paulo, o primado da Humanidade do Senhor, obra admirável do Pai, para proveito nosso. E
começamos com a epiclese ao Pai para que nos dê o dom do Espírito, que é a Sabedoria
divina, o «conhecimento profundo» (epígnôsis) das Realidades divinas (v. 17). Tudo provém
do único e omnipotente Acontecimento divino: Jesus Cristo Ressuscitado e Sentado à direita
nos Céus (vv. 19-20). É assim que, da sua Humanidade glorificada vem para nós, por graça,
o Espírito Santo, a verdadeira plenitude (v. 23).

14. O Salmo 47 é um Salmo da realeza de YHWH, que canta, com grande energia, a
soberania de Deus sobre todos os povos (vv. 1-3.7-10), sem deixar também de
particularizar Israel (vv. 4-5), «a mais bela entre todas as nações» (Ezequiel 20,6). Ajusta-
se também perfeitamente, no mundo católico, à Festa da Ascensão de Cristo, sobretudo por
causa do v. 6, em que lemos que «Deus se eleva por entre aclamações». Devido ao seu tom
geral, Israel canta este Salmo sete vezes antes de soar o toque do shôphar para assinalar a
entrada do Ano Novo.

Quando a Palavra de Deus,

Como uma enchente,

Encheu o tempo,

Dando ao homem a necessária oportunidade de ter de responder

E de não poder não responder,

O Filho de Deus,

Sem deixar de ser Deus,

Fez-se também filho de Maria,

Jesus,

Assumindo assim também a nossa frágil natureza humana.

Com a sua Ressurreição e Ascensão aos Céus,

É glorificada a humanidade do Filho de Deus e de Maria,

Jesus,

E é desta humanidade glorificada,

À direita de Deus sentada,

Que vem o Espírito Santo para nós.

É, portanto, do vosso interesse, diz Jesus, que Eu vá,

Pois se Eu não for,


O Espírito Santo não virá para vós.

Com a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes,

Celebramos, pois, a humanidade glorificada de Jesus,

Da qual,

Por contágio sacramental,

Recebemos o Dom de Deus, o Espírito Santo.

Senhor Jesus,

Enche a nossa frágil humanidade da riqueza da tua divindade,

E derrama no nosso humano coração

O Espírito da consolação,

Da paz e da alegria.

António Couto