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DO GOVERNO DOS OUTROS: UM ESTUDO DE CASO DA REVISTA BOA FORMA

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Julio Cesar Sanches

Resumo: ​A revista Boa Forma é uma das principais publicações brasileiras direcionadas ao
cuidado com o corpo e a saúde. Em suas páginas, identificamos uma extensa proliferação de
discursos e imagens sobre dietas, técnicas de embelezamento, exercícios físicos, divulgação
de produtos e cosméticos, assim como a publicidade de estilos de vida saudável. A partir
dessa constatação, pretendemos realizar um estudo de caso com o intuito de identificar quais
discursividades sobre o corpo estão sendo amplamente difundidas nas capas da Boa Forma no
ano de 2017. Acreditamos que a revista mobiliza uma gramática do culto ao corpo baseada na
lógica contemporânea de um empreendedorismo de si. Pressupomos que essa publicação
compartilha com o público leitor um conjunto de discursos pautados na recomendação, na
autoajuda e na incitação de desejos fabricados pela sociedade neoliberal. Nesse sentido, a
revista Boa Forma atua como meio difusor de técnicas que governam os corpos e as
subjetividades contemporâneas através da visibilidade de determinadas formas de ser e estar
no mundo. O presente texto faz parte de uma pesquisa maior que visa esboçar um quadro
analítico das transformações das cadeias discursivas sobre o corpo e a saúde forjadas na
revista Boa Forma desde 1986.

Palavras-chave: ​corpo, revista Boa Forma, subjetividade, discurso, governamentalidade.

“Fique nu...mas seja magro, bonito e bronzeado”


Michel Foucault, Microfísica do Poder.

INTRODUÇÃO:

À primeira vista, as manchetes das capas de revista podem causar uma curiosa
sensação de repetição de temas. Frases como “perca 4kg em uma semana” ou “saiba mais
sobre dietas milagrosas” marcam presença em publicações voltadas ao cuidado com o corpo e
a saúde. Apesar de parecerem clichês, as chamadas que seduzem o público leitor falam de
fenômenos que são exteriores ao texto. Nesse sentido, buscamos compreender como a
existência de determinadas discursividades mobiliza as engrenagens da máquina social
contemporânea.
Tomando como exemplo-chave, analisaremos aqui algumas capas da revista brasileira
Boa Forma - veículo impresso de grande circulação no mercado editorial brasileiro. A partir

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Doutorando do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (PPGCOM/UFRJ). Bolsista CAPES.​sanches.julius@gmail.com
de uma análise de 12 capas, lançadas entre os meses de janeiro e dezembro de 2017,
pretendemos construir uma argumentação sobre a relação entre os fenômenos discursivos
sobre o corpo e a aparência e o desenvolvimento de uma cultura do culto ao corpo na
sociedade neoliberal do século XXI.

DISCIPLINADOS E GOVERNADOS:

O dicionário da língua portuguesa classifica a palavra governo como a) ação, processo


ou efeito de governar; governação; governança; b) capacidade de exercer controle; c) sistema
ou modo como se rege um Estado. Em todas as concepções, o conceito de governo revela a
espessura da relação de entre o ato de governar e os efeitos desenvolvidos nos atos de
governo. Em nosso trabalho, o conceito de governo é destacado sob o prisma das relações de
poder e saber da sociedade contemporânea. Nosso entendimento se baseia no “sentido amplo
de técnicas e procedimentos destinados a dirigir a conduta dos homens” (FOUCAULT, 2014,
p. 113). Ou seja, pressupomos que o governo é uma instância de poder que desenvolve
práticas destinadas à diligência, à execução de atos programáticos.
A concepção de governo desenvolvida pelo filósofo Michel Foucault (2014) nos é útil
para refletirmos como determinadas condutas podem ser executadas a partir das
transformações dos regimes de saber e poder evidenciados em determinados tempos históricos
(antiguidade, modernidade e contemporaneidade, por exemplo). O próprio Foucault (2013)
elabora uma intensa análise dos processos de disciplinamento do corpo no seio da sociedade
moderna, classificada por ele como sociedade disciplinar.
Em ​Vigiar e punir: o nascimento da prisão​, por exemplo, Foucault identifica que as
instituições modernas não apenas trabalhavam meticulosamente o processo de confinamento
dos corpos, mas também produziam aparatos técnicos e procedimentais baseados na
conformação de práticas e de condutas. Em um primeiro momento, há uma compreensão do
corpo como um objeto do poder dado às manipulações, treinos, remodelações e obediências
desenvolvidas no âmbito das instituições disciplinares dos séculos XVIII e XIX (escolas,
exércitos, hospitais, fábricas e casernas). Ou seja, destaca-se um processo de tratamento das
forças que constituem os corpos rumo àquilo que Michel Foucault chamou de processo de
‘docilidade’.
“Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente” (FOUCAULT, 2013, p. 147),
afirma o filósofo francês. Para que o processo de docilidade dos corpos seja possível, é
importante impor um controle que assegure limites e obrigações. Em outras palavras, esse
processo estabelece as disciplinas como fenômenos de dominação do poder durante a
modernidade.

O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma


arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas
habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma
relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é
mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são
um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos,
de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa
maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma
“anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do poder”,
está nascendo; ela define como se pode ter o domínio sobre o corpo dos
outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que
operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se
determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos
“dóceis” (FOUCAULT, 2013, p. 133).

O quadro analítico de Michel Foucault (2013) sobre a sociedade disciplinar moderna


remonta à ideia de que os corpos foram meticulosamente docilizados a partir dos jogos de
poder mobilizados pelas instituições sociais. Nesse sentido, o poder disciplinar forjou,
incessantemente, uma política nos modos de lidar com o corpo até a primeira metade do
século XX.
Apesar de identificar a dominação disciplinar dos séculos passados, é o próprio Michel
Foucault que aponta para a crise dos procedimentos de disciplina dos corpos na
contemporaneidade: “a partir dos anos de 1960, percebeu-se que esse poder tão rígido não era
assim tão indispensável quanto se acreditava, que as sociedades industriais podiam se
contentar com um poder muito mais tênue sobre o corpo” (FOUCAULT, 2013b, p. 237).
A atenuação ou recuo do poder disciplinar sobre os corpos indicou a ruína das práticas
e técnicas estabelecidas anteriormente. Ao refletir sobre do processo de declínio da sociedade
disciplinar, na segunda metade do século XX, Foucault expõe que “há cada vez mais
categorias de pessoas que não estão submetidas à disciplina, de tal forma que somos
obrigados a pensar o desenvolvimento de uma sociedade sem disciplina” (2015, p. 262).
É possível pensar a sociedade contemporânea sem a disciplina? Como se configura
esse ambiente pós-disciplinar? Para o filósofo Gilles Deleuze (1992), as últimas décadas do
século XX apresentavam um horizonte de análise capaz de reclassificar o modelo social
estabelecido. Segundo o autor, não estávamos mais sob égide das sociedades disciplinares.
Nesse sentido, Deleuze (1992) é categórico ao dizer que “são ​as sociedades de controle que
estão substituindo as sociedades disciplinares” (p. 224). Apesar de apontar os caracteres
pertinentes dessa transformação social, principalmente no que diz respeito ao controle
exercido pelas redes telemáticas e informáticas, Deleuze não aprofunda no debate em torno
dos jogos de poder que incidem sobre os corpos e produzem as condutas na
contemporaneidade. Entretanto, uma dimensão desse argumento da sociedade de controle nos
interessa: é a modulação.
No entendimento de Gilles Deleuze (1992), a sociedade disciplinar, estudada por
Michel Foucault (2013), se baseava numa lógica de padronização que forjava ​moldes​,
enquanto que a sociedade de controle, devido a sua característica imaterial e tecnológica,
desenvolve ​modulações.​ Nesse sentido, o molde é compreendido como algo rígido e duro; já
a modulação é mais dinâmica e multiforme. Essa noção da modulação apresentada por
Deleuze nos indica que os próprios corpos, as condutas, os jogos de poder e saber, em tempos
contemporâneos, passam pelo processo da modulação enquanto atividade datada no controle.
A partir do diagnóstico de Foucault (2015) sobre a crise da sociedade disciplinar,
outros pensadores que são influenciados pela teoria foucaultiana nomeiam a
contemporaneidade a partir de signos atualizados. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han,
por exemplo, no livro ​Sociedade do cansaço​, nos fornece algumas evidências para a
compreensão desse momento histórico pós-disciplinar. Han compreende que os sujeitos
contemporâneos, integrantes da sociedade neoliberal, articulam uma vivência a partir dos
signos performativos. O autor afirma que “a sociedade do século XXI não é mais a sociedade
disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam
mais ‘sujeitos da obediência’, mas sujeitos de desempenho e produção” (HAN, 2015, p. 23).
O esforço de se pensar como os jogos de poder e saber são articulados na
contemporaneidade circunscreve toda a teoria crítica desde as últimas décadas do século XX.
Entretanto, a lógica pós-disciplinar se desvela em uma confluência de fenômenos
sociopolíticos e culturais que marcam aquilo que Stuart Hall classificou como “virada
cultural”.
É notória a presença substantiva dos debates (acadêmicos, políticos e sociais) acerca
de uma “centralidade da cultura” nos fluxos de troca global, assim como a repercussão desses
fluxos no sujeito das sociedades neoliberais do século XXI. Ou seja, “a menção do seu
impacto na "vida interior" lembra-nos de outra dimensão que precisa ser considerada: a
centralidade da cultura na constituição da subjetividade, da própria identidade e da pessoa
como um ator social” (HALL, 1997, p. 23-24).
Stuart Hall (1997) nos fornece subsídios para refletir como as mudanças culturais,
ocorridas no processo de globalização (econômica e simbólica), desenvolvem a necessidade
de identificarmos as diversas instâncias (sociais, políticas, econômicas e estéticas) que
envolvem a subjetividade no século XXI. É a partir desse ambiente neoliberal, midiatizado e
globalizado, que emergem as preocupações dos jogos de poder e saber da contemporaneidade.
Assim sendo, de que governo estamos falando? do governo da vida. Essa afirmação se
sustenta primordialmente quando acionamos o conceito de governo como capacidade de
exercer controle social. Stuart Hall explica:

Aqui é importante focalizar especificamente a centralidade da cultura


nas questões ligadas à regulação social, à moralidade e ao governo da
conduta social nas sociedades do modernismo tardio. Por que deveríamos
nos preocupar em regular a "esfera cultural" e por que as questões culturais
têm estado cada vez mais freqüentemente no centro dos debates acerca das
políticas públicas? No cerne desta questão está a relação entre cultura e
poder (1997, p. 35).

As dimensões do poder, na contemporaneidade, mobilizam determinadas formas de


ser e estar no mundo2. Nesse sentido, os jogos estabelecidos pelo poder, no âmbito da cultura,
desenvolvem o entendimento de que há um consenso (hegemonia?) sendo articulado pelos
sujeitos dessas relações de poder. Entretanto, Michel Foucault (2014b) demonstra que,
indubitavelmente, o poder se dá no campo das ações. Ele se materializa (e também se

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Essa é uma das principais questões que envolvem a pesquisa de doutorado que estou
desenvolvendo no PPGCOM/UFRJ. Pressuponho que os jogos de poder e saber da
contemporaneidade forjaram o surgimento de um sujeito-empresa, figura capaz de mobilizar
dinâmicas neoliberais no cuidado do corpo e da saúde. Um sujeito empreendedor de si.
camufla) no controle das ações, que podem parecer, à primeira vista, como exteriores ao
poder, mas são em si os seus efeitos. É por isso que Foucault (2014b) define expressamente
que “uma relação de poder é um modo de ação que não age diretamente sobre os outros, mas
que age sobre sua ação própria. Um ação sobre a ação, sobre ações eventuais, ou atuais,
futuras ou presentes” (p. 132). Essa noção ficará mais evidenciada no decorrer da análise das
capas da revista Boa Forma enquanto dispositivo de governo.

DISPOSITIVOS DE GOVERNO

Para que o governo ocorra, em meio às relações de poder, é necessário que técnicas e
práticas sejam estabelecidas pelas ações daquilo que se governa. Todavia, essas ações
precisam ser mediadas. Em nosso estudo, entendemos que essas ações são midiatizadas.
Colocamos aqui o universo midiático contemporâneo como uma instância em que o governo
das condutas sociais converge. Para isso utilizamos o conceito de dispositivo articulado no
pensamento do filósofo italiano Giorgio Agamben. O autor diz que dispositivo é “qualquer
coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar,
modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres
viventes” (AGAMBEN, 2009, p. 40).
O conceito de dispositivo é importante por mobilizar exatamente as condutas, as
ações, os discursos e, principalmente, os sujeitos. Nesse sentido, os dispositivos atuam não
apenas coordenando as atuações dos sujeitos na máquina social, mas também produz
materialmente o sujeito que é governado nas relações de poder. Ele institui uma criação. O
dispositivo “nomeia aquilo em que e por meio do qual se realiza uma pura atividade de
governo sem nenhum fundamento no ser. Por isso os dispositivos devem sempre implicar um
processo de subjetivação, isto é, devem produzir o seu sujeito” (AGAMBEN, 2009. p. 38).
A partir da utilização do conceito de dispositivo, desejamos elaborar uma análise que
aponte como a mídia contemporânea assume o caráter subjetivador do dispositivo, ao
tornar-se elemento indispensável ao governo dos corpos e das subjetividades. A princípio,
esse conceito nos fornece um terreno fértil para identificarmos as dinâmicas de governo e
sujeição na sociedade neoliberal. Agamben contextualiza a situação: “Não seria
provavelmente errado definir a fase extrema do desenvolvimento capitalista que estamos
vivendo como uma gigantesca acumulção e proliferação de dispositivos” (2009, p. 42). Ou
seja, a cultura contemporânea está repleta de dispositivos que atuam nos jogos de poder e
saber. Como consequência disso, há uma fabricação de subjetividades baseadas naquilo que é
produzido pelos dispositivos, sejam eles econômicos, culturais, políticos, estéticos,
midiáticos, psíquicos.
Assim como a análise de apresentada por Agamben, nos é caro o pensamento da
filósofa feminista Judith Butler. Segundo a autora, existe um complexo jogo de subjetivação
do poder atuando nos corpos. Nesse sentido, o poder é algo constitutivo do sujeito. Não há
sujeito que não tenha passado pela máquina do poder, assim como o poder é algo que jamais
se escapa. Ou seja, “o poder age sobre o sujeito pelo menos de duas maneiras: primeiro, como
o que torna o sujeito possível, como condição de possibilidade e ocasião formativa; segundo,
como o que é retomado e reiterado no próprio agir do sujeito “ (BUTLER, 2017, p. 22).
O que Judith Butler busca entender é exatamente como os corpos mobilizam os jogos
de poder que são dissimulados pelo próprio poder. Nesse sentido, a autora é categórica ao
apresentar a ideia de que o processo de subjetivação do poder se caracteriza como um
processo de sujeição. E em todas as circunstâncias, existe uma vida psíquica sendo
desenvolvida pelas dinâmicas do poder. A autora explica

Para deixar claro como o poder social produz modos de reflexividade ao


mesmo tempo que limita as formas de sociabilidade, é preciso redefinir o
campo da sujeição psíquica. Em outras palavras, na medida em que as
normas operam como fenômenos psíquicos, restringindo e produzindo o
desejo, elas também regem a formação do sujeito e circunscrevem o campo
de uma sociabilidade habitável (BUTLER, 2017, p. 30).

Judith Butler, ao descrever o processo de assujeitamento, remete aos efeitos daquilo


que Giorgio Agamben chamou de ​oikonomia do dispositivo. Em uma determinada passagem,
o autor afirma que é comum ao dispositivo “um conjunto de práxis, de saberes, de medidas,
de instituições cujo objetivo é gerir, governar, controlar e orientar, num sentido que se supõe
útil, os gestos e os pensamentos dos homens” (AGAMBEN, 2009, p. 39).
Essa concepção de sujeição apresentada por Judith Butler (2017), assim como o
conceito de dispositivo argumentado por Giorgio Agamben (2009) será produtiva para
refletirmos como a mediação das mídias contemporâneas é atravessada por uma lógica de
governamentalidade e sujeição.

A REVISTA BOA FORMA:

A revista Boa Forma é uma publicação brasileira, veiculada atualmente com o selo da
Editora Abril, que existe desde o ano de 1986. Inicialmente, a Boa Forma era um suplemento
informativo da revista Saúde, publicada pela extinta Editora Azul, e ganhou notoriedade e
autonomia, tornando-se, anos depois, uma das principais revistas brasileiras direcionadas à
circulação de conteúdo sobre saúde e beleza. Com mais de três décadas de existência, a
revista Boa Forma se estabeleceu no mercado editorial associando a imagem de celebridades
femininas, com seus respectivos estilos de vida, aos discursos de cuidado com o corpo.
Desde a década de 1980, a revista Boa Forma utiliza em suas capas a imagem de
figuras da cultura midiática brasileira. Nas capas da revista, por exemplo, encontramos
mulheres exibindo seus corpos e oferecendo às leitoras orientações de como cuidar do corpo e
da aparência. Em nosso atual estudo de caso, usaremos 12 capas da revista Boa Forma,
veiculadas entre os meses de janeiro e dezembro de 2017, com o intuito de identificar quais
discursividades estão sendo propagadas pela revista. Iniciamos nossa análise com as capas do
primeiro trimestre de 2017 (janeiro, fevereiro e março):

Edição nº363 (Anitta), nº364 (Marina Ruy Barbosa) e edição nº365 (Fernanda Gentil).
As manchetes das capas do primeiro trimestre de 2017 falam: edição nº363: “Dá para
ganhar músculos sem comer carne, sim + série de 20 minutos para definir o corpo”​;
edição nº364: “os melhores treinos que você respeita para ter um bumbum durinho +
definir sem lesões + secar em 20 minutos”​; e a edição nº365 ​“queime até 1000 calorias em
casa com uma aula 3 em 1: luta + yoga + funcional”​.

Edição nº366 (Patrícia Poeta), nº 367 (Letícia Spiller) e nº368 (Fiorella Matthies).

As chamadas das capas das edições de abril, maio e junho de 2017 dizem: edição
nº366: ​“Oi, sumida! versão turbinada do vigilantes do peso é a melhor dieta para secar
rápido”​; a edição nº367 diz ​“reprograme seu jantar e emagreça até 4kg em 1 mês”​; a
nº368 declara: ​“dieta da definição: enxugue gordura e ganhe massa sem cortar carbo”​.

Edição nº369 (Nanda Costa), nº 370 (Camila Coutinho) e nº371 (Paolla Oliveira).
Os textos das edições de julho, agosto e setembro são os seguintes: edição nº369: ​“Na
paradinha...treino de 24 minutos para secar e fortalecer + dicas de como incluí-lo na sua
pausa do almoço”​; edição nº370 diz: ​“Mulher maravilha: treino superpoderoso para
desenhar barriga e bumbum”​; já a edição nº371 fala: ​“Está difícil perder barriga? a dieta
que silencia os genes acumuladores de gordura”​.

Edição nº372 (Vanessa Giácomo), nº373 (Rafa Brites) e nº374 (Isis Valverde).

Já as edições de outubro, novembro e dezembro trazem as seguintes manchetes: nº372:


“Preparada pra atacar: um treino de 28 min que acelera o metabolismo”​; edição nº373:
“-1kg de gordura por semana. A dieta que alterna dias com e (quase) sem carbo para:
ganhar músculos, evitar efeito platô, reduzir a barriga”​; na edição nº374 há a seguinte
chamada: ​“Queime gordura em 20 min com os exercícios funcionais que toda boxeadora
ama”​.

BREVE ESTUDO DE CASO DOS MODOS DE GOVERNAR:

As chamadas publicadas nas capas da revista Boa Forma do ano de 2017 expressam
determinadas posições da mídia brasileira contemporânea, assim como o lugar dos sujeitos
que recebem as mensagens. Acreditamos que seja necessário refletir sobre as camadas dos
discursos reproduzidos na publicação, com o intuito de verificar quais processos estão em
jogo nesse emaranhado de enunciados.
Primeiro, acreditamos que a revista Boa Forma mobiliza signos do discurso mitológico
em suas manchetes. Roland Barthes (2009) diz que o mito é uma fala. Em sua proposição, o
autor considera que o mito constitui um sistema de comunicação marcado pelo uso social e
histórico da fala. Ou seja, “longínqua ou não, a mitologia só pode ter um fundamento
histórico, visto que o mito é uma fala escolhida pela História: não poderia de modo algum
surgir da "natureza" das coisas” (BARTHES, 2009, p. 200).
O entendimento de Roland Barthes (2009) é materialista e histórica no que diz
respeito à historicidade dos sentidos que damos, enquanto sujeitos da linguagem, às coisas.
Assim sendo, a formação dos mitos se dá num ambiente histórico em que os significados são
construídos e transformados em cima de um modelo semiológico já estabelecido pela língua.
É por isso que o mito é “um sistema particular, visto que ele se constrói a partir de uma cadeia
semiológica que já existe antes dele: ​é um sistema semiológico segundo​” (BARTHES, 2009,
p. 205). Em outras palavras, o mito constitui um universo de significação distinto daquele
estabelecido pela língua. Consequentemente, “a relação que une o conceito do mito ao sentido
é essencialmente uma relação de deformação” (BARTHES, 2009, p. 213). A significação
mítica é deformadora por excelência, segundo Roland Barthes. E nesse sentido, o mito
sobrevive de uma alteração dos conceitos e dos sentidos da linguagem.
Nas revistas Boa Forma, aqui analisadas, por exemplo, o uso da dimensão temporal
para a realização de atividades físicas é substancial desse recurso mitológico da fala. ​As falas
das manchetes ​“série de 20 minutos para definir o corpo” ​(nº363) , “secar em 20 minutos”
(nº364), “treino de 24 minutos para secar e fortalecer” ​(nº369), “​um treino de 28 min que
acelera o metabolismo” ​(nº372) e ​“Queime gordura em 20 min com os exercícios
funcionais” (nº374) remetem ao desejo de realização de exercícios de forma rápida e eficaz; e
também ao efeito desejado por quem faz essas atividades: queimar gordura; definir o corpo;
secar e fortalecer.
Apela-se, em sentido estrito, à comodidade do curto tempo para a realização de
práticas desportivas, atentando expressamente ao efeito direto que essas atividades de curto
prazo podem causar no corpo das leitoras. O sentido do tempo mitificado pelas manchetes da
revista Boa Forma é distinto da lógica do tempo vivido. O que se propõe na fala mitificada
das manchetes da Boa Forma é um tempo pasteurizado, achatado, comprimido e desprovido
de sua complexidade totalizadora. Diríamos que esse é um tempo-outro.
A característica primordial do texto de capa da revista Boa Forma é a publicidade de
técnicas, de produtos, de atividades que incidem diretamente no corpo. O discurso
amplamente utilizado nas capas da revista é sempre um discurso de divulgação, em suma,
propagandístico. Nesse sentido, essas falas são ancoradas numa dimensão de discurso
enquanto gênero secundário. Mikhail Bakhtin (2011) afirma que o discurso secundário é
fundamentado pela complexidade da função desses discursos no âmbito cultural e social.

Os gêneros discursivos secundários (complexos - romances, dramas,


pesquisas científicas de toda espécie, os grandes gêneros publicísticos, etc.)
surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e
relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o
escrito) - artístico, científico, sociopolítico, etc. No processo de formação
eles incorporam e reelaboram diversos gêneros primários (simples), que se
formaram nas condições de uma comunicação discursiva imediata
(BAKHTIN, 2011, p. 263).

Diferenciando o discurso primário e o secundário (visto como ideológico), Bakhtin


compreende que é imprescindível o entendimento da natureza dos enunciados, demarcando
historicamente a função do que é dito nos gêneros discursivos. Para o filósofo Bakhtin (2011),
“a própria relação mútua entre gêneros primários e secundários e o processo de formação
histórica dos últimos lançam luz sobre a natureza do enunciado (e antes de tudo sobre o
complexo problema da relação de reciprocidade entre linguagem e ideologia)” (p. 264).
Retomando a revista Boa Forma, o discurso secundário (propagandístico) usado nas
capas evidencia um encadeamento discursivo que nos permite compreender quais são as
condições de formação histórica e social desses discursos. Acreditamos que seja necessário
responder às seguintes questões: a revista Boa Forma está falando para quem? e quais são as
intenções dela? Primeiro, a revista Boa Forma é direcionada ao público feminino. Na análise
das capas do ano de 2017, identificamos a existência hegemônica de corpos de mulheres
jovens, brancas e da classe média brasileira; segundo, a revista expõe esses corpos como
exemplos de pessoas que alcançaram resultados mediante a utilização de determinadas
técnicas, práticas, produtos e atividades que estão disponíveis para o grande público.
Indubitavelmente, é sintomático que a revista Boa Forma reproduz fenômenos das
disputas sociais e expõe de forma explícita as dinâmicas das relações econômicas, de gênero e
de raça no Brasil contemporâneo. Não obstante, frente a essa questão ideológica, movimentos
sociais questionam o posicionamento ideológico das mídias diante das questões de
representatividade das identidades culturais da população brasileira.
Entendendo que o discurso mitificador paira sobre os enunciados publicados pela Boa
Forma, assim como nas imagens, podemos também alertar para as relações de poder que
envolvem esses corpos na contemporaneidade. Alguns pontos precisam ser elucidados: 1) Por
que cuidar do corpo? 2) que está sendo reificado na revista Boa Forma?
Num primeiro momento, chegamos à conclusão de que a contemporaneidade é
marcada pela ascensão de sujeitos que já não dialogam com o antigo modelo disciplinar, tal
como apresentamos no início desse trabalho. O que evidenciamos aqui é o surgimento de
subjetividades fundamentadas do culto à aparência. É por isso que a revista Boa Forma
dialoga com o público leitor segmentado. Há, de forma manifesta, falas que convocam os
corpos a ações que visam: “​ganhar músculos sem comer carne” ​(nº363), ou “queime até
1000 calorias em casa” ​(nº365) e também faça um ​“treino superpoderoso para desenhar
barriga e bumbum” ​(nº370). Ou seja, os discursos da revista estão em consonância com o
ambiente social e histórico da vida contemporânea. Esse entendimento é apontado pelo
filósofo húngaro Peter Pál-Pelbart ao afirmar que:

Desde algumas décadas, o foco do sujeito deslocou-se da intimidade


psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o corpo. A subjetividade foi
reduzida ao corpo, a sua aparência, sua imagem, a sua ​performance​, a sua
saúde, a sua longevidade. (...) É verdade que já não estamos diante de um
corpo docilizado pelas instituições disciplinares, como há cem anos, corpo
estriado pela máquina panóptica, o corpo da fábrica, o corpo do exército, o
corpo da escola. Agora cada um se submete voluntariamente a uma ascese,
seguindo um preceito científico e estético (PELBART, 2013, p. 27).

Em linhas gerais, o corpo contemporâneo é um corpo que mobiliza determinadas


condutas postuladas nos dispositivos midiáticos de governo das subjetividades. Ações como
“reprograme seu jantar e emagreça até 4kg em 1 mês” ​(nº367), “enxugue gordura e
ganhe massa sem cortar carbo” ​(nº368) e ​“Queime gordura” ​(nº374) são propostas pela
Boa Forma reiteradamente. O ato performativo dessas falas reafirma o nosso entendimento de
que a revista utiliza de formações discursivas de governamentalidade.
Em síntese, a revista Boa Forma, no ano de 2017, publicou 12 edições que tratam do
corpo da mulher jovem, branca e de classe média no Brasil. Em enunciados que mobilizam os
discursos de governamentalidade dos corpos e subjetividades, a revista Boa forma reiterou o
fenômeno cultural global do culto ao corpo e à aparência. Consequentemente, essas
publicações fornecem pistas para o entendimento da atual configuração desse fenômeno do
cuidado de si no ambiente cultural brasileiro. A linguagem dos mitos presentes nos textos
demonstra a constante dinâmica da recomendação como proposta moral. Há, inegavelmente,
uma mediação de valores morais sobre os corpos.
Não é à toa que a epígrafe do trabalho (​“Fique nu...mas seja magro, bonito e
bronzeado”)​ suscite um cenário em que a visibilidade de determinados corpos, nos
dispositivos midiáticos contemporâneos, seja pautada em parâmetros que demarcam os modos
de ser e estar (hegemônicos) no mundo. Além disso, o governo dos corpos e subjetividades,
realçado nos enunciados da revista Boa Forma, extrapolam as dimensões discursivas e
encontram terreno fértil na exterioridade das práticas e das relações sociais. Ou seja, há uma
ampliação desse fenômeno dialogando com outras esferas da vida social (outros
dispositivos?). Nesse sentido, entendemos que o sujeito contemporâneo é interpelado,
categoricamente, pelos jogos de poder e saber para que cuide de si através de estratégias e
condutas morais sobre o corpo. Esses sujeitos tornam-se responsáveis pela sua própria vida. E
diante disso, nos “resta estudar de que corpo necessita a sociedade atual…” (FOUCAULT,
2013b, p. 238).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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