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Mariano E Enguita

Mariano F. Enguita, professor da Universidade


Complutense de Madri, é amplamente conhecido
por seu trabalho na área de Sociologia da Educação,
realizado de uma perspectiva crítica e progressista.
Entre seus livros incluem-se: Escola, Trabalho e
Ideologia (publicado nesta mesma série); La Escuela
en el Capitalismo Democrático; e Marxismo y
Sociología de la Educación.
Em A Face Oculta da Escola, M. Engu.ita examina
a conexão entre as relações sociais do trabalho e
as relações sociais da ed\}cação, numa admirável
síntese das literaturas histórica e sociológica sobre
o desenvolvimento da organização do trabalho e
sobre a institucionalização da educação sob o
capitalismo. Neste livro temos, finalmente, uma
verdadeira história social da escola, em contraste
com a historiografia convencional, centrada no ·
desenvolvimento das idéias sobre educação. Aqui
a escola não aparece sob sua costumeira face,
iluminista e edificante; revela-se, <:tO invés, sua outra
face. a de suas conexões com o processo de
produção.

Educacão e Trabalho 1lQ Capitalismo


fjt Livros
~ por uma melhor J70.1 :'i 3
Alfts qualidade de vida . : E58f
MDK"AS
Ex.! IClW
série CENTR O DE EDUC.~ÇAO
'"" BIBLIOTECA
EDUCAÇAO
Teoria e Crítica

direção:
Tomaz Tadeu da Silva
A publicação deste volume assinala a consoli-
dação e a maturidade da série Educação:
Teoria e Crítica, criada pela Artes Médicas
com .a finalidade de reunir os melhores traba-
lhos sobre educação, escritos de uma perspec-
tiva teórica e crítica. A relação abaixo, de
A FACE
livros já publicados e de livros em produção,
vale por uma definição dos objetivos e da
OCULTA
orientação da série e demonstra o esforço
da Artes Médicas em colocar à disposição
DA
do público o melhor da produção nesta áreà:
ESCOLA
LIVROS JÁ PUBLICADOS:

• Mic:hael W. Apple . Educação e Poder


Um livn'l. no qual os conceitos organiza-
dores de uma teoria crítica da educação
são retomados, revisados e revigorados .
• .. Bakunin e outros. Educação Libertá-
na
Mais do que nunca, são oportunas as
lições dos anarquistas sobre o papel da
educação e da consciência na transfor-
mação da sociedade.
• Mário Manacorda. O Princípio Edu-
cativo em Gramsci'
Impossível discutir as relações entre edu-
cação e trabalho sem a leitura deste clás~
sico do conhecido educador italiano.
• Mariano F. Enguita. A Face Oculta
da Escola . Educação e Trabalho no Ca-
pitalismo
Uma admirável síntese sobre as relações
~istóricas e sociológicas entre o desen-
volvimento da organização do trabalho
e a institucionalização da educação.

~\ .·
E at• li v ro d•v• Mr dt vo fvl do M LIVROS EM PRODUÇÃO:
últlm e dt ta ca rl m b ade
, Paul Willis . Aprendendo a Ser Traba-
w, n trade and industrial lhador: Escola. Resistência e Reprodu-
'2_4 tO ctl -· ----. - ·- -----· ção
\~ j j JJ ,úlg d ial, I: La agricultura
ropea en el Sigla XVI,
Um estudo clássico sobre o processo de
L reprodução cultural e social e _sobre a
teoria da resistência em educaçao.
w,
o'~Et~~ggg 9 · --- --- TI: El mercantilismo e la
750, Madrid, Siglo XXI.
UNIVERSil • Mariano F . Enguita . Escola . Trabalho
w :I on of Southe m Africa, I!: CE~ e Ideologia
Review, lll, 2, outono. O autor percorre a obra de Marx, pa~a
retirar suas implicações para a relaçao
w ., Londres, Longman, Gree n
B
-- entre trabalho e educação .
w labour and labour division by • Jenny Cook-Gumperz. A Construção
1s in Venezue la'', Review, Social da Alfabetização .
Um·a análise do processO de alfabetiZa-
w Urban Review, li, 5, abril. ção que vai além das usuais preocup~­
w tics of school knowledge, ções metodológicas da literatura tradi-
cional.
w story, Cape Town, Oxford
N' ' Cham a d • Antonio 'Gramsci. A Alternativa Pe-
w ahara, Nova York, Vintage. dagógica .
w ~ : The impact of economic N~' Regist Uma antologia dos textos ma1s relevan-
tes de Gramsci sobre educação e traba-
w th, Penguin. lho, ·s elecionados e comentados por Ma-
w ultural theory", New Left rio Manacorda .
• Bogdan Suchodolski . Teoria Marxista
w xford University Press.
w ' - - - - -1_____ ; kids get working class da Educação
Um dos mais bem-sucedidos trabalhos
_____ __ __ l s e r trabalhador. Escola,
1 no esforço de sistematização de uma teo-
IS, 1979• Pr c ria da e~ucação baseada em Marx.
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roducción", Educación y
GEU R, 9.41, Beerke Iey, Umve
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. . of
seus con
':om pont
• Emília FeHeiro. Os Filhos do Analfa-
w betismo
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o mais recente trabalho da consagrada
r.r: WOLFf~ R.D. (1974): -~o~-;;;'i~ of ~~lonialism: Britain and Kenya, 1.870-1.930, o p pesquisadora.
llJ
u New Haven, Yale University Press. <! e s e t e (
<(
WOOD, R. e NAPTHALI, I.W.A. (1975): "Assessment in the classroom", Educational • Tomaz T . da Silva (Org .) . Trabalho.
..J
i/)
Studies, I, 3, pp. 150-161. prorro g a Educação e Prá tica Social . Por uma Teo-
llJ
:J WOODS, P. (1979): The divided school, Londres, Routledge and Kegan Paul. t: eja se n ria da Formação Humana
l!l Reúne te xtos de análise da relação edu-
o~ WRIGHT, E.O. (1983) : Clase, crisis e Estado, Madrid, Siglo XXI. 1 e i tor .
w§ WRIGH 'I~ E. O. (1985): Classes, Londres, Verso. cação/trabalho dos seguintes aL1:tores:
Manacorda, Enguita, Arroyo, Fngotto,
~ o:: YOUNG, M.F.D., ed. (1971): Knowledge and control, Londres, Macmillan .
-> Nosella e T . T . da Silva.
<tU ZARCA , B. (1986): L'artisanat français: du métier traditionnel au groupe social,
a_ ..J
li_w Paris, Economica.
~ ü.. ZAVALA , S.A. (1947) : New viewpoints on the Spanish colonization of America,
o
r.r: Filadelfia, University of Pennsylvania Press.
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N.Cham. 370.193 E58f
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o Autor: Enguita, Mariano F.(Maríano Fern
:J.
to Título: A face oculta da escola educação e
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1111111 11111 111111111111111111111111111111111 . I .
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Mariano Fernández Enguita

A FACE
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A face oculta da escola: educação e trahalho no capitalismo
Mariano Fernández Enguita : trad. Tomaz Tadeu da Silva .
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OCULTA
Porto Alegre : Artes Médicas. 19R9.
272p.

I. EDUCAÇÃO - ASPECTOS SOCIAIS 2. EDUCAÇÃO


DA
E ESTADO 3. COMUNIDADE E ESCOLA I. Silva. Tomaz Ta-
deu da 11. t. ESCOLA
CDD 370.19 Educação e Trabalho no Capitalismo
CDU 37.015.4

Índice alfabético para catálogo sistemático


Sociologia da Educação 37.015.4

Bihliotecária Neiva Vieira - CRB 101563 Tradução:


TOMAZ TADEU DA SILVA

I.
~,

PORTO ALEGRE/19RlJ
E D u c A c à o
©de Editora Artes Médica~ Sul Lida., 1989

Capa:
Mário Rohnelt

Reservados todos os direitos de publicação em língua portuguesa à


EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA.
Av. Jerônimo de Ornelas, 670- Fones 30-3444 e 30-2378
À memória de Carlos Lerena,
90040 Porto Alegre, RS- Brasil
companheiro, amigo e mestre
LOJA-CENTRO
Rua General Vitorino, 277- Fone 25-8143
90020 Porto Alegre, RS -Brasil

IMPRESSO NO BRASIL "Clube


~
;~;~ditores
do R1o Grande do Sul
PRINTED IN BRAZIL
PREFÁCIO

Há três anos publiquei um livro, Trabalho, escola e ideologia. ao longo


de cuja elaboração mudou minha concepção elo papel da educação na
sociedade. Quando comecei a escrevê-lo estava convencido que se tinham
atribuído muitas virtudes e defeitos à educação ou, para sermos mais e.xatos,
uma relevância social que não tinha. Em geral, parecia-me insatisfatória
Também o indivíduo singular tem que percorrer, quanto a seu conteúdo, as qualquer consideração que lhe atribuísse grandes poderes sobre os indivíduos
fases de formação do espírito universal, mas como figuras já dominadas pelo e a sociedade, seja para adaptar os primeiros à segunda, seja para levá-los à
espírito, como etapas de um caminho já trilhado e aplainado; vemos assim sua transformação, pois ambas as versões colocavam a eficácia da escola em
como, no que se refere aos conhecimentos, o que em épocas passadas sua mensagem ideológica.
preocupava o espírito maduro dos homens desce agora ao plano dos Trabalho, escola e ideologia pretendia demonstrar que as idéias das
conhecimentos, dos exercícios e até dos jogos próprios da infância, e nas pessoas se formam essencialmente através de suas práticas sociais, mas eu
etapas pedagógicas reconheceremos a história da cultura projetada como em localizava essas práticas fora da escola, fundamentalmente no trabalho - daí a
contornos de sombras. ordem dos substantivos no título - e relegava a escola ao limbo das
superestruturas, tal como as concepções cujas insuficiências tinham me levado
G. W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito. a escrevê-lo. Entretanto, em seu processo de gestação cheguei à conclusão de
que a escola não era um simples veículo para a transmissão e circulação das
idéias, mas também e sobretudo o cenário de uma série de práticas sociais
materiais. Carecia de sentido, por conséguinte, pretender que as práticas no
A filogenia e a ontogenia de um mesmo ser constituem aspectos trabalho tivessem uma grande eficácia ideológica e, ao mesmo tempo, ignorar
complementares, de nenhum dos quais é possível conhecimento pleno sem o .I a eficácia das práticas na escola. Nessa mudança de perspectiva tiveram uma
conhecimento do outro. grande influência o muito discutido, mas já clássico, livro de Bowles e Gintis,
Schooling in Capitalist America, e uma releitura de autores tão díspares
Faustino Cordón, A evolução conjunta dos animais e de seu meio. quanto Althusser, Parsons e Dreeben.
Isto se traduziu na redação do capítulo VII do referido livro, ''A
aprendizagem das relações sociais de produção", cuja tese central era a de
que, através das relações sociais e das práticas. no interior da escola, crianças
e jovens são conduzidos a aceitar as relações sociais do trabalho adulto. Este
livro desenvolve a mesma tese, mas de um modo diferente.
A idéia de que a escola prepara para o trabalho, não já em termos
cogrntJvos, embora também, mas sobretudo em termos de atitudes, trabalho assalariado; o primeiro deles centra-se nos aspectos da aprendizagem
disposições, formas de conduta e aceitação das relações sociais imperantes que conduzem à aceitação das relações hierárquicas da produção capitalista; o
pode ser aceita, em geral, pela maioria dos estudiosos da educação. Mas segundo, nos que semeiam de obstáculos qualquer possível via em direção a
assume dimensões inteiramente diferentes segundo consideremos que a seu questionamento ou transformação. Por último, o capítulo VIII analisa as
organização social atual do trabalho é algo natural, racional ou simplesmente contradições e conflitos que marcam esse processo e, em geral, as relações
inevitável, ou que é urna forma histórica determinada não pelas necessidades entre escola e trabalho.
das pessoas, nem da "produção" em geral, mas pelos imperativos de sua O peso relativo dos componentes deste livro poderia dar uma impressão
forma capitalista e industrial. No primeiro caso, a socialização para o trabalho que gostaria de dissipar de entrada: a de que a escola cumpre com perfeição
na escola poderia ser ou não conveniente, mas teria a aura da necessidade e a função de reproduzir as relações sociais do processo de produção capitalista,
da funcionalidade. No segundo, deve merecer o mesmo juízo que merece a levando em sua passagem indivíduos grupos e classes. Constitui um certo
forma histórica do trabalho para cuja aceitação prepara; e, se consideramos paradoxo o fato de que, enquanto as características, a historicidade e a
esta como opressiva e imposta, teremos de ver também a socialização para a questionabilidade das atuais relações sociais do trabalho são tratadas através da
mesma como um processo de imposição e domesticação. resistência maciça que produziu sua implantação, quatro dos cinco capítulos
Enfim, se aceitamos que uma função primordial da escola é a socialização dedicados à escola tratam-na como se funcionasse sem resistência nem
para o trabalho - e assim o fazem não apenas a maioria dos estudiosos da problema algum; isto é, que o subsistema social do trabalho seja tratado desde
educação, mas também seus agentes e seu público -, salta aos olhos a a perspectiva do conflito e o da escola desde a da reprodução. Não se deve ao
necessidade de compreender o mundo do trabalho para poder dar a devida acaso, mas ao convencimento de que cada urna delas traz aquilo que
conta do mundo da educação. habitualmente falta na consideração de ambos os mundos. O último capítulo
A primeira parte deste livro é consagrada ao trabalho. O capítulo I trata de tem o objetivo de não deixar de fora a dinâmica contraditória da escola, mas é
suas condições e sua evolução gerais ao longo da história da humanidade. Os apenas um, contra quatro que insistem em sua dinâmica reprodutora. Em
capítulos seguintes estão dedicados a mostrar os processos históricos diversas publicações anteriores centrei minha atenção no lado conflitivo e
altamente conflitivos pelos quais homens e mulheres foram privados do contraditório dos processos e funções da escola (Fernández Enguita, 1985b,
controle sobre suas condições de vida e de trabalho e conduzidos ao trabalho 1986ab, 1987ab, 1988ae), e espero voltar a fazê-lo logo, mas não considero que
assalariado, forma que hoje nos aparece como a mais natural do mundo, mas seja necessário dizer tudo cada vez que se escreve, e muito menos repeti-lo.
que não foi vista do mesmo modo por aqueles que haviam conhecido outras e Para terminar, algumas notas de agradecimento. A primeira parte deste
foram subitamente arrancados delas. O capítulo li centra-se na resistência livro beneficiou-se de uma temporada no Femand Braudel Center for the
oferecida ao processo de industrialização, em especial durante a Revolução Study of Economies, Historical Systems, and Civilizations, State
Industrial, pelas populações dos países que hoje consideramos avançados. O University of New York, Binghamton, e em particular da discussão com
capítulo III ·analisa o caso dos países coloniais, particularmente África, em que Immanuel Wallerstein e outros membros da equipe. A segunda beneficiou-se
a rapidez da· mudança, que condensou em decênios o que na Europa havia de dois períodos no Center for Educactional Research at Stanford,
durado séculos, converteu em aberto - e violento - choque cultural o que Stanford University, California, e em especial de intercâmbios diversos,
entre nós tinha sido uma evolução relativamente pausada. nessas e em outras ocasiões, com Henry Levin e Martin Camoy. Ademais,
A segunda parte é dedicada a uma análise da escola e suas funções de devo agradecer os comentários sobre algumas das idéias em que se baseia
socialização para o trabalho. O capítulo IV percorre o processo de ajuste da este livro, de Carlos Lerena, Herbert Gintis, Christian Baudelot, Michael
educação às novas necessidades do mundo industrial, quando a linguagem Apple, Henry Giroux e Julio Carabana. Além disso,· foram muito úteis as
franca e às vezes brutal dos reformadores sociais não havia sido ainda reações dos estudantes de meus cursos de doutorado e, em geral, as dos
substituída pelo atual mel da pedagogia reformista nem pela frieza tecnocrática diversos públicos diante dos quais tive a oportunidade de expor minhas idéias.
da literatura sobre a relação entre educação e desenvolvimento ou sobre os A responsabilidade fmal, está claro, é apenas minha.
aspectos não cognitivos da escola. O capítulo V repassa as principais correntes
de pensamento que contribuíram para desmontar a imagem mítica e romântica
da educação e sua história e a desvelar suas funções reais. Os capítulos VI e
VII entram já diretamente na análise das relações sociais e das práticas
educacionais e suas funções e objetivos no que concerne à socialização para o
SUMÁRIO

PRIMEIRA PARTE:
A TRANSFORMAÇÃO DO TRABALHO

I. O trahalho atual como forma hi~t<Írica ........................ . 3


1
O ca~o europeu: Revolução lndu~trial c rc~i~tência popular 33
3. A experiência colonial: A cmprc~a civilizadora c a civilização da empresa ................. . 65

SEGUNDA PARTE:
A CONTRIBUIÇÃO DA ESCOLA

~- Do lar à f<íhrica. pa~sando pela sala de aula: a gênese da escola de massas .................. .. 105
5. O crepúsculo do mito educativo: da amílisc do discurso à análise das práticas escolares 133
ó .. As rclaçücs sociai~ da educação. I: a domesticação do trahalho .............................. . 161
7. As rclaçtics sociais da educação. 2: a atomização do corpo social 191
X. As contradiçtic~ da relação entre escola c trahalho 217
Referências Bihliográficas ............................ .. 241

I
I .-----·
PRIMEIRA PARTE:
A TRANSFORMAÇÃO DO
TRABALHO
r

O TRABALHO ATUAL
COMO FORMA HISTÓRICA

Concebemos normalmente o trabalho como uma atividade regular e sem


interrupções, intensa e carente de satisfações intrínsecas, impacientamo-nos
quando um garçom tarda em nos servir e sentimo-nos indignados diante da
imagem de dois funcionários que conversam, interrompendo suas tarefas,
embora saibamos que seus trabalhos não têm nada de estimulante.
Consideramos que alguém que cobra um salário por oito horas de jornada deve
cumpri-las desde o primeiro até o último minuto. Mesmo quando em nosso
próprio trabalho fazemos exatamente o contrário, esgueirando-nos o quanto
podemos, vemos isto como uma exceção, o que revela nossa escassa moral
kantiana, adotando a postura do free rider, do andarilho que não cumpre as
normas na conftança de que os demais as seguirão cumprindo e nada virá
abaixo. Não se trata simplesmente de que pensemos que aquele que trabalha
para outro tem obrigações contraídas que deve cumprir, mas antes de que
somos incapazes de imaginar o trabalho de outra forma. Veríamos de forma
igualmente estranha que um dentista ou reparador hidráulico que exerce sua
profissão de modo independente trabalhasse apenas meiiJ. jornada, e veríamos
como irracional que interrompesse de vez em quando suas tarefas para
entregar-se ao descanso, a seus divertimentos ou a suas relações sociais, em
lugar de trabalhar o máximo tempo possível para obter o máximo ganho
possível. É certo que conhecemos as excelências de estarmos estirados ou de
nos dedicar a algo que nos agrade fora do trabalho, mas isto não nos parece
motivo suficiente. Vivemos em uma cultura que parece ter dado por perdido o
campo do trabalho para buscar satisfações somente no do consumo.

A Face Oculta da Escola 3


Este fatalismo do trabalho expressa-se tanto em máximas religiosas uma máquina ou o de montador de peças em série. Se o mal de muitos é
("ganharás o pão com o suor do teu rosto") quanto em canções ("arrastar consolo de tolos, o mal de alguns poucos não teria por que chegar nem a
a dura cadeia, trabalhar sem tréguas e sem fim, o trabalho é uma sina que isto.
ninguém pode evitar, etc."). Neste contexto, aceitamos de boa ou má O capitalismo e a industrialização trouxeram consigo um enorme aumento
vontade empregos sem interesse, compostos por tarefas monótnoas e da riqueza e empurraram as fronteiras da humanidade em direção a limites que
rotineiras, sem criatividade, que, entretanto, exigem nossa atenção e nossa antes seriam inirnagináveis, mas seu balanço global está longe de ser
dedicação permanentes, e escolhemos - quando podemos - um ou outro, inequivocamente positivo. Se pensamos o mundo em seu conjunto, em lugar de
não em função do que são em si, mas do que os rodeia: o salário e o fazê-lo somente na parte que ocupamos, não é difícil ver que destruímos a
prestígio associado (aquilo que nos darão em troca), os horários e as férias África e que demos lugar a uma escandalosa polarização entre riqueza e
(durante quanto tempo nos veremos livres deles), as possibilidades de miséria na Ásia e na América Latina, fazendo com que milhões de pessoas
promoção (ou seja, escapar deles), etc. Vítimas de nosso etnocentrismo e vivam abaixo do nível de subsistência e substituindo prometidos processos de
de nossa limitada experiência histórica, não imaginamos que possa ser de desenvolvimento autônomo - como na Índia e em outros lugares - por uma
outra forma. dependência atroz. Se examinamos a história dos povos que entraram em
E no entanto quase sempre foi de outra forma. A organização atual do nossa órbita encontramos em toda parte processos de extermínio intencional
trabalho e nossa atitude frente ao mesmo são coisas recentes e que nada têm - mediante as guerras - ou de genocídio derivado, mas muito mais eficaz -
a ver com ''a natureza das coisas''. A organização atual do trabalho e a cadência mediante a destruição de suas economias, do trabalho forçado ou da
e seqüenciação atuais do tempo de trabalho não existiam em absoluto no exportação de enfermidades às quais não estavam imunizados, como foi o caso
século XVI, e apenas começaram a ser implantadas precisamente ao final do de toda a Íbero-América.
século XVIII e início do século XIX (Clawson, 1980: 39). São, pois, produtos O balanço não é claro mesmo que nos limitemos a olhar para nós próprios.
e construtos sociais que têm uma história e cujas condições têm que ser Não há dúvida de que há uma minoria, a que se apropria direta ou
constantemente reproduzidas. A humanidade trabalhadora percorreu um longo indiretamente do trabalho alheio ou de seus resultados, que desfruta de bens
caminho antes de chegar aqui, e cada indivíduo deve percorrê-lo para e serviços não sonhados por minorias anteriores, mas os resultados são
incorporar-se ao estádio alcançado. A filogênese deste estádio de evolução bastante menos equívocos para a maioria, para os que vivem unicamente de
consistiu em todo um processo de conflitos que, infelizmente, nos é seu trabalho. É certo que estamos rodeados de bens que nossos ancestrais
praticamente desconhecido (a história, não se esqueça, é escrita pelos não podiam imaginar, mas há muito de ilusório na apreciação que fazemos
vencedores). Reconstrui-lo é uma ambiciosa tarefa, apenas começada, que disso. Possuímos, por exemplo, automóveis que permitem que nos
dará muito trabalho aos historiadores, tanto mais que são relativamente desloquemos mais rapidamente ao trabalho ou que saíamos da cidade para
poucos, embora não tão escassos quanto antes, os que compreenderam que a desfrutar um pouco da natureza, mas nossos antepassados, sem necessidade
história real da humanidade não pode ter sua única nem sua primeira fonte no de tais máquinas, conseguiam facilmente ambas as coisas, pois trabalhavam em
testemunho dos poderosos. suas casas ou perto delas e estavam na natureza ou chegavam a ela sem esforço
,:
Na realidade, ademais, sobrestimamos nossos trabalhos. Damos graças à I
com suas pernas ou sobre o lombo de um cavalo, sem engarrafamentos, sem
sorte ou nos orgulhamos de nossos próprios méritos se podemos evitar os tensões e com menos acidentes. É certo que não chegavam tão longe quanto
trabalhos mais manifestamente rotineiros, como podem ser os de uma do- nós, mas é também certo que não precisavam disso. Observações similares
na-de-casa, de um varredor ou de um operário em uma linha de montagem. I .. poderiam ser feitas a respeito de outros bens ou serviços que associamos com
Cabe perguntar-se, ampliando e prolongando Rousselet (1974), se tanta a idéia do bem-estar alcançado, mas não é esse o objetivo aqui e agora.
insistência sobre os males dos "operários especializados" ou não qualificados, Menos claro, entretanto, é o balanço de nosso bem-estar moral e
que identificamos com a imagem oferecida por Carlitos no penetrante filme psicológico. Não é necessário fazer a lista dos males de hoje, embora não
Tempos Modernos, assim como toda a euforia em torno dos círculos de :altem descrições sombrias sobre a ansiedade, o stress, a insegurança, etc.
qualidade, do enriquecemento de tarefas, da rotação dos postos de trabalho, São fáceis de serem identificadas, entretanto, duas fontes de mal-estar
etc., ou identificações eufemísticas como a que costumamos fazer entre ;>rofundamente arraigadas e de longo alcance, associadas ao capitalismo e à
oficinas e trabalho manual, por um lado, e escritórios e trabalho intelectual, por industrialização e que não apresentam perspectivas de melhorar. Em primeiro
outro, não têm como efeito fmal adormecer nossa consciência diante do fato de lugar, nossas necessidades pessoais, estimuladas pela comunicação de
que a maioria dos trabalhos não são muito melhores que o de alimentador de massas, pela publicidade e pela visão da outra parte dentro de uma distribuição

4 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 5


desigual da riqueza, crescem muito mais rapidamente que nossas Dois mnndos do trabalho diferentes
possibilidades. Já Hegel indicava que as necessidades não naturais cresciam
mais que os meios para satisfazê-las, mas não podia nem imaginar a orgia Na economia de subsistência produz-se para satisfazer uma gama
consumista das atuais sociedades industrializadas, nem a forma pela qual limitada e pouco cambiante de necessidades. O trabalho é indissociável de
chegaríamos a ver associada nossa imagem pessoal - diante de-nós mesmos seus fms e, como conseqüência, da vida mesma em seu conjunto. Persegue
e diante dos demais - a nosso consumo. O resultado dessa separação daquilo uma fmalidade imediata e não pode ser considerado como um fun em si
que aceitamos como fms., em relação ao que possuímos como meios, isto é, de mesmo. Dentro do marco de uma divisão do trabalho tão simples que se
nossos desejos, em relação a nossos recursos, não pode ser outro que a esgota, ou quase, na repartição de tarefas entre homens e mulheres, o
frustração. trabalhador decide o que produzir, como produzi-lo, quando e a que ritmo.
Em segundo lugar, nossa sociedade nutre uma imagem de existência de Até mesmo esta formulação acaba sendo excessiva para o que pretende
oportunidades para todos que não corresponde à realidade, motivo pelo qual e expressar: simplesmente, os indivíduos e os grupos satisfazem suas
apesar do. qual o efeito para a maioria é a sensação de fracasso, a perda de necessidades com um grau de esforço variável, dependendo tão-somente da
estima e auto-culpabilização. A suposição da igualdade de oportunidades maior ou menor generosidade da natureza, da tecnologia a seu alcance e
converte a todos, automaticamente, em ganhadores e perdedores, triunfadores da composição demográfica do grupo, cujos indivíduos, de acordo com sua
e fracassados. Não é por acaso que a cultura dos Estados Unidos, suposta idade, protagonizam combinações diversas de trabalho e consumo. Em todo
"terra de oportunidades", classifica obsessivamente as pessoas em winners caso, o tempo e o ritmo de trabalho raramente são sacrificados à satisfação
e losers. Diferentemente dos do passado, cuja posição era atribuída a seu de necessidades não elementares, seja porque não existem, seja porque se
''bom berço'' ou a sua ''origem humilde'', os ricos e os pobres, os poderosos renunciou a satisfazê-las a esse preço.
e os desvalidos de hoje não apenas devem suportar sua condição, mas ainda A situação é muito diferente em uma sociedade industrializada. A imensa
devem ser considerados e considerar-se eles próprios responsáveis por ela. maioria das pessoas não conta com a capacidade de decidir qual será o produto
de seu trabalho. Os assalariados não a têm, em geral, e aqueles que trabalham
Nas sociedades aristocráticas ou em outras sociedades tradicionais, a por conta própria a possuem apenas de forma limitada, pois estão sujeitos às
debilidade não é um fato vergonhoso per se. As pessoas herdavam sua restrições do mercado ou de monopólios de compra de seus produtos. O
debilidade na sociedade; não era responsabilidade própria. O senhor trabalhador da economia de subsistência tampouco tinha muita escolha, dada
herdava sua força; esta era muito impessoal. ( ...) O homem era um tanto sua escassa tecnologia, mas não podia viver isto como uma falta de opções,
distinto de sua posição. Como observa Louis Dumont em seu estudo da pois a escolha entre trabalhar ou não, entre caçar ou pescar, entre semear ou
hierarquia na sociedade indiana, Homo hierarchicus, nestas condições tecer, era tão simples quanto a entre comer ou não, alimentar-se ou vestir-se,
não é humilhante ser dependente. etc. O trabalhador moderno, em troca, vê estender-se diante de si uma
Na sociedade industrial veio a sê-lo. O mercado fez com que as amplíssima panóplia de opções teóricas e imaginárias, mas muito poucas
posições de dependência se tornassem instáveis. Podia-se subir e po- possibilidades práticas. A liberdade não é algo absoluto, mas relativo à
dia-se baixar. O impacto ideológico mais forte dessa instabilidade foi o de realidade que nos rodeia.
que as pessoas começaram a sentir-se pessoalmente responsáveis pelo Tampouco parece clara, nas sociedades pré-industriais, a diferença entre
lugar que ocupavam no mundo; consideravam seus êxitos ou seus trabalho e ócio e atos sociais rituais, pois atividades como a caça nas
fracassos na luta pela existência como questão de força ou debilidade sociedades caçadoras-coletadoras ou os mercados nas sociedades agrícolas
pessoal. (Sennet, 1980: 51). mesclam inextricavelmente as três dimensões. As atividades produtivas
compreendem, mais freqüentemente do que não, dimensões recreativas e
~las esses são desvios com relação ao que é aqui o problema principal: as sociais. Embora o ócio e os ritos sociais apresentem uma maior concentração
mudanças radicais na função e nas características do trabalho e de seu lugar na em determinados momentos no tempo (a noite, o fmal da semana, as
vida das pessoas. É um caminho muito longo e tortuoso aquele que vai desde festividades religiosas, etc.), raramente existem períodos do dia ou do ano
a produção para a subsistência até o trabalho assalariado na sociedade destinados somente ao trabalho de maneira ineludível - embora existam, isto
industrial - ou. se se prefere. pós-industrial, o que para o caso dá no sim, períodos dedicados somente ao ócio ou aos rituais comunitários -, os
mesmo-, e podemos começar a fazer uma idéia de suas dimensões e três tipos de atividade superpondo-se constantemente de forma irregular,
obstáculos se pensamos nas diferenças entre os extremos percorridos. porém reiterada.

6 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 7


Ao contrário, a sociedade industrial e os indivíduos nela vivem técnicas e instrumentos do camponês continuam sendo simples e - exceto a
permanentemente cindidos entre o trabalho, considerado ~orno uma carga, um terra - de fácil acesso. As técnicas e instrumentos do artesão são mais
esforço e uma fonte de desprazer, e o ócio, tempo exclusivo do d~sfrute e da complexos, mas o que escapa a seu controle individual pode ser submetido ao
entrega às inclinações pessoais. O tempo de trabalho deve ficar livre .de toda controle coletivo através da organização gremial. Nos dois casos, decidindo
interferência externa. Trabalho e não-trabalho formam compartimentos livremente o que produzir ou não, o trabalhador pré-industrial conserva a
estanques e, no correspondente a este último, as atividades sociais capacidade total ou quase total de decidir como produzi-lo. .
apresentam-se de forma localizada: . Em sua maioria, os trabalhadores de hoje não contam com a capacidade de
O espaço é também objeto de uma distribuição distinta. Na s~edade ?~é­ controlar e determinar por si mesmos seu processo de trabalho. Os
-industrial um mesmo espaço serve para o desenvolvimento da VIda familiar, trabalhadores assalariados, que são a maior parte da população chamada
para as atividades de consumo e ócio e para as funções produtivas. Isto não ''economicamente ativa'' - da qual um claro viés sexista exclui as mulheres
significa que o espaço seja inteiramente homogêneo, pois pode, por exemp~o, que realizam apenas tarefas domésticas, e conseqüentemente são classificadas·
estar dividido para homens e mulheres, apresentar zonas vedadas aos nao como inativas -, vêem-se inseridos em organizações produtivas com uma
adultos, oferecer uma diferenciação estrita entre espaço público e espaço divisão do trabalho mais ou menos desenvolvida para cuja conformação não se
privado ou compreender subespaços especiais destinados aos rituais sociais. contou nem se contará com eles. Os processos de trabalho são organizados
Mas 0 essencial na vida ativa das pessoas, a produção de seus meios de vida pelos escritórios de métodos e tempos ou, simplesmente, a critério dos
e a reprodução de suas vidas - a produção e o consumo - é levado a cabo patrões e dos quadros intermediários. Aqueles que trabalham por conta
em um mesmo e único lugar, seja a casa familiar ou o espaço comunal. O própria evitam a divisão interna do trabalho, a decomposição do processo que
nômade leva sua casa para onde está seu trabalho, o caçador-coletador vive produz um bem ou que constitui um serviço consumível em tarefas parcelares,
dos recursos que rodeiam sua morada e elabora-os aí mesmo, o camponês vive mas deve também mover-se entre os limites colocados pela divisão social do
junto de sua parcela e desenvolve grande parte de suas atividades produtivas trabalho - entre unidades produtivas que produzem distintos bens ou serviços
no local de moradia, e o artesão vive em sua oficina ou perto dela. - e pela concorrência que generaliza os processos que trazem maior
Na sociedade industrial e urbana, os espaços da produção e do consumo produtividade. Por isso, a situação dista já também da dos camponeses ou
diferenciam-se sistematicamente pela primeira vez, e a separação entre espaço artesãos pré-industriais.
privado e espaço público é levada a suas últimas conseqüências. O lugar de Enfim, nas economias pré~industriais os homens dispõem a seu critério de
produção está habitualmente separado por urna grande distância do lugar de seu tempo de trabalho - e de seu tempo em geral -, ou seja, decidem sua
residência, separação física que exige, reflete e reforça a separação temporal duração, sua intensidade, suas interrupções. Isto pode ser considerado como
entre trabalho e ócio. Os ritos sociais (cerimônias religiosas, festas um aspecto a mais do controle do processo de trabalho, mas merece ser
participativas, atividades políticas) geram seu espaço próprio, o que também assinalado em sua especificidade. Podem prolongar sua jornada, acelerar seu
acontece,até mesmo com as relações sociais inter-individuais que transcendem ritmo ou eliminar as interrupções quando urge a consecução de um Objetivo,
o contexto familiar (os encontros na rua são um bom exemplo disso). mas também encurtar a primeira, diminuir o segundo ou aumentar as últimas
Essa dupla segregação temporal e física, junto com a segregação funcional quando não há urgência. Isto significa ser dono do próprio tempo, e o tempo,
entre atividades extra-domésticas e domésticas, "produtivas" e "não como assinalou Marx, é o espaço em que se desenvolve o ser humano.
produtivas'', ou entre as diferentes atividades separadas pelo desenvolvimento
da divisão social do trabalho, caracteriza a sociedade industrial, em Nos locais e nas épocas em que os homens mantinham o controle de
comparação com as sociedades pré-industriais (Dubin, 1.976: ll-14). suas próprias vidas de trabalho, a pauta de trabalho ·cónsistia em períodos
Os trabalhadores pré-industriais controlavam seu processo de trabalho. alternados de trabalho intenso e de ociosidade. (Thompson, 1967: 73;
Em uma economia primitiva, os meios de produção são rudimentares e sua também Grazia, 1964: 74-75, 186).
elaboração está ao alcance de qualquer um. É o homem quem põe os meios
a seu serviço, e não o contrário. As técnicas são simples e podem ser A maioria dos trabalhadores não controla hoje a duração nem a intensidade
dominadas por todos. Isto coloca o trabalhador numa posição de controle de seu trabalho. O trabalhador assalariado deve submeter-se aos ritmos
absoluto de seu processo. Mesmo na produção agrícola para o mercado ou na impostos pela maquinaria, aos fluxos planificados de produção e às normas de
produção artesanal, embora o trabalhador tenha perdido já, parcialmente, o rendimento estabelecidas pela·, direção. O trab~ador por conta própria
controle sobre seu produto, continua sendo dono e senhor do processo. As controla-as apenas de forma limitada, pois o movimento dos preços força-o a

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não distanciar-se demasiadamente do calendário, do horário e do ritmo A relação negativa com o objeto converte-se na forma deste e em
impostos por aqueles que têm menos escrúpulos em explorar a si mesmos. algo permanente, precisamente porque diante do trabalhador o objeto
Este pode, teoricamente, estabelecer seu próprio equilibrio entre trabalho e tem independência. Este termo médio negativo ou ação formativa é, ao
consumo, mas o primeiro vê-se estimulado pela concorrência e o segundo mesmo tempo, a singularidade ou o puro ser para si da consciência, que
pelas normas sociais e culturais, aproximando todos dos padrões aceitos. agora se manifesta no trabalho fora de si e passa ao elemento da
Estas diferenças podem resumir-se na que separa a dependência da permanência; a consciência que trabalha chega, pois, desta forma, à
independência. A unidade econômica da produção de subsistência é intuição do ser independente como de si mesma.
plenamente auto-suficiente e, por isso mesmo, economica e socialmente ( ... ) Na formação da coisa, sua própria negatividade, seu ser para si,
independente. O artesão pré-industrial também era substancialmente somente se converte para ela em objeto enquanto supera a forma
independente, em parte por si mesmo e em parte através de sua organização contraposta que é. Mas este algo objetivamente negativo é precisamente
gremial. Mesmo o servo medieval teria pouco a invejar ao assalariado a essência diante da qual tremia. Mas, agora destrói este algo negativo
moderno, pois sua dependência do senhor não era unilateral, mas parte de um estranho, põe-se enquanto tal no elemento do permanente e converte-se
sistema de dependência e obrigações m<ituas, embora assimétricas. Assim, deste modo em algo para si mesmo, em algo que é para si. (... )Torna-se,
por exemplo, não podi;:~ abandonar sua terra, mas tampouco ser expulso dela. portanto, por meio deste reencontrar-se por si mesma sentido próprio,
precisamente no trabalho, no qual apenas parecia ser um sentido alheio
(Hegel, 1973: 120).
Liberdade e necessidade no trabalho
Em linguagem corrente, estas passagens poderiam ser assim resumidas:
A tradição cultural judaico-cristã sempre apresentou o trabalho, no pior o homem (a autoconsciência) só se reconhece como ser livre no trabalho (a
dos casos, como a penitência do pecado original e, no melhor, como resultado ação formativa), ao modificar o universo material que o rodeia (o elemento da
da necessidade. Esta representação ajusta-se bem ao sentido comum (tem-se permanência) tornando efetivos seus próprios desígnios (seu ser para si, a
que trabalhar para comer, etc.), mas não ultrapassa a superfície do problema. negatividade). Dito de outra forma: só ao modificar seu contexto pode o ser
O trabalho é necessário para a reprodução da vida humana, mas é algo humano considerar-se livre. Hegel levou este raciocínio ao ponto de sugerir
mais que sua mera reprodução mecânica. Ele incorpora um elemento de que não pode haver liberdade sem trabalho e que o pior trabalho é uma forma
vontade que o converte em atividade livre e, de maneira geral, na base de toda de liberdade. Assim, no famoso capítulo sobre o senhor e o servo, afirma:
a liberdade. Hegel compreendeu muito bem isto, assinalando, em primeiro
lugar, que nas próprias necessidades, ao ir além da mera necessidade natural, ( ... ) O senhor, que intercalou o servo entre a coisa e ele, não faz com
há um elemento de liberdade: isso mais que unir-se à dependência da coisa e gozá-la puramente; mas
abandona o lado da independência da coisa ao servo, que a transforma
Uma vez que nas necessidade5 sociais, enquanto união das (Hegel, 1973: 118).
necessidades imediatas ou naturais e das necessidades espirituais da
representação, é esta última a preponderante, há no momento social um Esta é a idéia que Marx retomou para proclamar o trabalho como elemento
aspecto de libertação. Oculta-se a rígida necessidade natural da constitutivo e distintivo do homem, como indivíduo e como espécie (Marx,
necessidade e o homem comporta-se em relação a uma opinião sua, que 1977).
é em realidade universal, e a uma necessidade instituída por ele; já que
não está em relação a uma contingência exterior, mas interior, o arbitrio Concebemos o trabalho sob uma forma que pertence exclusivamente
(Hegel, 1975: 236). ao homem. Uma aranha executa operações que recordam as do tecedor,
e uma abelha envergonharia, pela construção dos favos de sua colméia,
Em segundo bgar, ao indicar que o processo de trabalho, ao dar o hoinem mais de um mestre pedreiro. Mas o que distingue vantajosamente o pior
forma ao mundo ex:eri0r de acordo com sua vontade. supunha outro elemento mestre pedreiro da melhor abelha é que o primeiro projetou a colméia em
de liberdade, para além da determinação das necessidades, no processo sua cabeça antes de construi-la na cera. Ao consumar-se o processo de
encaminhado para sua satisfação. I\a esotérica linguagem da Fenomenolo- trabalho surge um resultado que antes de seu começo já existia na
gia: imaginação do operário, ou seja, idealmente. O operário não apenas
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efetua uma mudança de forma do natural; no natural, ao mesmo tempo, excedente expropriável. Podemos afirmar que as grandes formações
efetiva seu próprio objetivo, objetivo que ele sabe que determina, econômicas pré-capitalistas, salvo as baseadas de maneira generalizada na
como uma lei, o modo e forma de seu agir e ao qual tem que subordinar escravidão, eram compostas, na realidade, por imensas redes de economias
sua vontade (Marx, 1975: I, 216). domésticas sobre as quais se elevavam superestruturas políticas que se
apropriavam do mais-produto. Estas estruturas po~ticas podiam_ aumentar sua
Hegel e Marx coincidiram, assim, ao conceber o trabalho como efetivação pressão, mas não foram capazes de romper a lógtca da produçao para o uso,
de uma vontade transformadora da natureza. O aspecto de liberdade reside no imperante nas unidades de economia doméstica, nem de transformar
elemento de vontade - a autoconsciência de Hegel - e não pode existir sem substancialmente os processos de trabalho correspondentes. Mesmo ao
ela. Mas, no trabalho organizado, essa simbiose de vontade e ação pode recorrer ao trabalho forçado parcial- as prestações de serviço, a corvéia, etc.
romper-se, ficando cada um de um lado da organização polarizada do processo _ ou absoluto, importaram os hábitos de trabalho próprios da produção de
produtivo. Esta é precisamente a transição do trabalho livre ao trabalho subsistência, inclusive degradados, como o demonstram a baixa produtividade
alienado. Hegel acreditava que todo trabalho supunha alienação porque de escravos e servos.
identificava esta com a objetivação da autoconsciência, isto é, com a O primeiro passo verdadeiramente importante, no que concerne ao
materialização prática de qualquer projeto intelectual. processo de trabalho, a partir da produção de subsistência é o que leva à
Marx aceitava que a objetivação era característica comum de qualquer produção para a troca. Por um lado, ele vai acompanhado sempre do
trabalho - e aquilo que o distingue da atividade animal seria para ele, como desenvolvimento da divisão do trabalho, pois se trata de artesãos que se
para Hegel, o fato de· que tal projeto é elaborado pelo trabalhaodr -, mas não especializam em um tipo de produção frente aos trabalhos artesanais
que o fosse a alienação. Esta representaria um passo para além da objetivação, complementares da família camponesa, ou de camponeses que passam da
um passo qualitativamente distinto: a elaboração do projeto por outro. Em agricultura de subsistência, necessariamente variada, à agricultura comercial,
suma, a dissociação entre o elemento consciente e o elemento puramente logicamente especializada nos produtos mais demandados pelo mercado ou
físico do trabalho torna possível sua alienação. A protohistória dessa alienação mais rentáveis. Ao mesmo tempo, rompe-se a relação direta entre a produção
começa com as formas primitivas de apropriação por outro do trabalho e as necessidades. Já não se produz para o uso e o consumo, mas para a troca.
excedente, com a aparição do trabalho forçado; mas sua verdadeira história e, Embora o pequeno produtor possa continuar e continua buscando um ponto de
de qualquer forma, sua história recente é a do surgimento do trabalho equihbrio entre seu esforço de trabalho - produção - e a satisfação de suas
assalariado e, sua evolução, a do processo de produção capitalista. necessidades - consumo -, já estão dadas as bases a partir das quais se
poderá chegar àquele que é seu fim, ou seja, simplesmente produzir mais para
ganhar mais, embora este caminho exija toda uma história. Ademais, se sua
Da produção de subsistência ao trabalho assalariado produção não encontra saída no mercado vizinho, o trabalho do pequeno
produtor pode ser explorado pelo comerciante através do intercâmbio desigual
A economia de subsistência em sentido estrito existiu apenas nos e da estrutura dos preços. A venda de seu produto por seu valor exige
primeiros estádios da humanidade e, posteriormente, em contextos isolados. condições que nunca foram dadas, como são as da concorrência perfeita em
Fora da comunidade primitiva, todas as formações sociais conheceram alguma um mercado transparente, ou condições que apenas existiram parcial e
forma de redistribuição do exçedente (Konrad e Szeleny, 1981; Polanyi, tra:nsitoriamente, como o monopólio de oferta exercido pelos grêmios de
Arensberg e Pearson, 1957) produzido pelas unidades econômicas de artesões - mas nunca pelos camponeses. .
subsistência ou recorreram a diversas formas de trabalho forçado para produzi- Ao contrário do que supõe o imaginário marxista ortodoxo, o trabalho do
-lo de forma direta. Embora o trabalho forçado regular chegasse a ter uma produtor mercantil simples é tão explorável quanto o do trabalhador
importância primordial na forma da escravidão, o trabalho excedente foi assalariado, e sem dúvida este é um dos fatores - mas não exclusivo - que
extraído durante a maior parte da história mediante punções sobre as unidades contribuíram para torná-lo perdurável, contra todas as profecias sobre seu
econômicas de subsistência. As famüias ou as aldeias dos impérios fluviais, ou desaparecimento. O chamado Terceiro Mundo oferece hoje os casos mais
os camponeses da época feudal, tinham que entregar parte de seu produto ou extremos neste sentido, embora não os únicos. Para o capital é possível, por
de seu trabalho a seus imperadores ou senhores, mas continuavam vivendo exemplo, explorar o trabalho de um camponês com a mesma _ou maior
fundamentalmente em uma economia de subsistência, regida pela lógica da intensidade que o de um operário desde que seja capaz de orgaruzar como
produção doméstica, embora submetida à pressão de ter que produzir um mercado de vendedores o das sementes e dos adubos e de outros meios de

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produção e como mercado de compradores o dos produtos agrários, isto é, de outro, com a mesma tecnologia ou com outra. Isto dá lugar ao que Marx
monopolizar ou ologopolizar um e outro. Então pode permitir-se não já uma denominava a subsunção ou subordinação formal do trabalho ao capital, ou a
simples exploração casual, mas inclusive converter o custo de reprodução da forma simples da exploração capitalista do trabalho, correspondente à extração
força de trabalho do camponês, embora esta não se venda como tal no de mais-valia absoluta (Marx, 1973: 54-58, 60-72). O trabalhador foi arrancado
mercado, em um elemento de custo racionalmente calculável, tal como faz o da esfera doméstica e destituído dos meios de produção, mas o capitalista situa-
capitalista industrial com os salários (Chevalier, 1983). Muitos projetos terceiro- -se ainda, por assim dizer, ao princípio e ao fmal do processo de produção
-mundistas de povoamento de zonas não exploradas agriculturalmente não são propriamente dito. Traz os meios de produção, entrega ao trabalhador seus
mais que isto, mesmo quando tomam a retumbante forma de cooperativas de meios de subsistência em troca de sua força de trabalho e apropria-se do
proprietários fmanciadas incialmente com fundos públicos (Werlhof, 1983). Em produto fmal, mas ainda não controla o processo de trabalho em si, que
lugar de pagar a reprodução da força de trabalho através dos salários, paga-se continua sendo realizado, basicamente, como se o trabalhador fosse ainda um
através dos preços de venda dos produtos, mas de forma que, ao estarem elemento independente. O capitalista pode agora supervisionar diretamente a
controlados estes e os dos insumos, não há escapatória possível para o intensidade do processo de trabalho ou prolongar a jornada de trabalho, mas
camponês. Como, adernais, não se trata de camponeses isolados mas de fazer eficazmente o primeiro elevaria enormemente os custos de supervisão e
unidades familiares, e como é impossível e carece de sentido evitar que o tanto um quanto o outro são fonte permanente de conflitos. O trabalhador
camponês coma parte do que colhe ou cria e pode-se mesmo estimular a encontra-se já em uma posição de alienação em relação ao produto e aos meios
pequena produção de subsistência, o capital comercial desloca assim para a de produção, que pertencem a outra pessoa, e em relação a seus meios de
esfera doméstica uma parte dos custos de reprodução maior que aquela que vida, que não obtém como resultado direto de seu trabalho ou em troca do
pode deslocar o capital industrial em um contexto urbano. As parcelas de produto dele mesmo, mas em troca de sua força de trabalho (Marx, 1.977: 106
subsistência permitem, além disso, explorar indiretamente o trabalho da ss.), de sua capacidade de trabalho; mas conserva ainda, no fundamental, o
mulher como dona-de-casa, já que elas levam a urna maior contribuição de sua controle sobre o processo de trabalho, seu ritmo e sua intensidade.
'.
parte à reprodução da força de trabalho e diminuem assim o custo monetário
desta, ou seja o salário.
Podemos apostar que a maior parte da pequena produção mercantil, e A subordinação real do trabalho ao capital
especialmente agrícola, que a história moderna conheceu situou-se em algum
lugar entre sua figura idílica em um mercado perfeito inexistente e casos do O passo fmal na degradação do trabalho é a transição ao que Marx
tipo citado, podendo chegar facilmente a localizar-se entre estes últimos, mas chamava de subsunção ou subordinação real deste ao capital (Marx, 1973:
raramente ou nunca em consonãncia com sua imagem ideal. Este mecanismo 72-77), ou divisão manufatureira do trabalho (Marx, 1.975: cap. XID. Esta tem
não apenas funcionou para pequenos produtores recém-implantados como os lugar quando o capitalista, em vez de limitar-se a aceitar os processos de
dos povoamentos, mas, em uma ou outra medida, para os camponeses em trabalho estabelecidos e tratar simplesmente de aumentar a mais-valia extraída
geral em um setor dominado pelos comerciantes; e também, no devido mediante a prolongação da jornada, reorganiza o próprio processo da produção.
momento, para a pequena indústria doméstica rural, com o sistema de trabalho A mais-valia absoluta cede então caminho à mais-valia relativa, e a divisão de
a domicílio para um comerciante que traz as matérias primas e leva o produto trabalho tradicional, herdada dos ofícios, à decomposição do processo de
a mercados inacessíveis para o produtor ou que, simplesmente, conta com o produção da mercadoria em tarefas parcelares. O trabalhador, que já havia
capital necessário para esperar o momento oportuno para comprar e vender, perdido a capacidade de determinar o produto, perde agora o controle de seu
algo que raramente pode permitir-se o pequeno produtor. processo de trabalho, entra em uma relação alienada co'm seu próprio trabalho .
Nestas condições, o capitalista pode forçar o produtor a trabalhar mais através como atividade (Marx, 1977: 108-113).
e
do abaixamento dos preços, mas ainda não é dono senhor de seu trabalho. o Marx explicou muito bem a diferença entre a divisão social e a divisão
manufatureira do trabalho, diferença na qual nos podemos apoiar para entender
trabalhador ainda se apóia, em boa parte, na produção para a subsistência e, de
qualquer forma, pode a qualquer momento escolher a combinação de trabalho e o que sigrúfica a transição do artesanato independente ao trabalho assalariado.
consumo ou de esforço e renda que melhor lhe pareça - dentro de parâmetros
dados- e resistir de mil maneiras às pressões do capitalista comercial. ( ... ) Apesar das muitas analogias e dos nexos que medeiam entre a
O seguinte passo é a conversão do trabalhador independente em divisão do trabalho no interior da sociedade e a divisão dentro de uma
trabalhador assalariado, seja dentro do mesmo ramo de produção, seja em oficina, elas diferem não apenas gradual, mas esselicialmente.

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Mariano Fernández Enguita
(... ) O que é que gera a conexão entre os trabalhos independentes do encargo do trabalhador ou, o que dá no mesmo, desqualifica seu posto de
vaqueiro, do curtidor e do sapateiro? A existência de seus produtos trabalho. Esta desqualificação procede também da substituição da mão de obra
respectivos como mercadorias. O que caracteriza, pelo contrário a nas tarefas que requerem uma maior precisão e, em geral, da eliminação
divisão m~ufatureira do trabalho? Que o operário parcial não produz prática de qualquer possibilidade de decisão no processo produtivo (Bright,
mercadona alguma. Apenas o produto coletivo dos operários parciais 1958; Braverman, 1974; Freyssenet, 1977).
se transforma em mercadoria. O taylorismo supõe um salto qualitativo na organização do trabalho. Seu
. ( .. ) A divisão manufatureira do trabalho supõe a concentração dos objetivo é a decomposição do processo de trabalho nas tarefas mais simples,
meios de produção nas mãos de um capitalista; a divisão social do trabalho mediante a análise de tempos, à qual Gilbreth acrescentaria a análise dos
o fracionamento dos meios de produção entre muitos produtores d~ movimentos. Com isso se pretende colocar à disposição da direção das
mercadorias, independentes uns dos outros. empresas um conhecimento detalhado dos processos de trabalho que lhes
. . ~- .. ) A norma que se cumpria planificadamente e a priori no caso da evite terem que depender do saber dos trabalhadores e de sua boa vontade,
diVIsao do trabalho dentro da oficina, opera, quando se trata da divisão do isto é, de sua disposição para empregarem a fundo sua capacidade de trabalho
~ra~alho dentro da sociedade, só a posteriori, como necessidade e serem explorados (Taylor, 1969). Enfim, o propósito da "organização
mtrmseca, muda, que apenas é perceptível na troca barométrica dos científica do trabalho'' é converter a capacidade de trabalho do assalariado, que
preço~ do m~rcado_ ~- .. ) . A divi~o. rnanufatureira do trabalho supõe a o capitalista comprou, no máximo de trabalho efetivo, o que passa por
autondade mcondicional do capitalista sobre os homens reduzidos a arrebatar-lhe a capacidade de decidir a respeito. Frente à divisão rnanufatureira
~e_ro_s me~bros de um mecanismo coletivo, propriedade daquele; a do trabalho, o taylorismo representa simplesmente uma tentativa . de
diVIsao social do trabalho contrapõe produtores independentes de sistematização, codificação e regulação dos processos de trabalho individuais
mercadorias que não reconhecem mais que a autoridade da concorrência com vistas à maximização do lucro, mas seu método é qualitativamente distinto
(... ) (Marx, 1975: I, 431-434). (Braverman, 1974; Freyssenet, 1977; Aronowitz, 1978).
O fordismo é a incorporação do sistema taylorista ao desenho da
Por isso a passagem da produção para o mercado ao trabalho assalariado maquinaria mais a organização do fluxo continuo do material sobre o qual se
independentemente das diversas subformas que possam adotar um e outro' trabalha: simplificando, a linha de montagem. Tal como a maquinaria na divisão
representa a passagem da independência à dependência, ou de depender tão~ manufatureira do trabalho, o fordismo, que representa com relação ao
-somente de forças impessoais como são ou parecem ser as do mercado taylorismo a incorporação dos cálculos de movimentos e tempos em um
embora es~eja~ mediadas pelas pessoas, a ver-se inserido em certas relaçõe~ sistema mecânico de ritmo regular e ininterrupto, supõe a subordinação do
de dependenc1a pessoal, embora estejam mediadas pelas coisas· a passagem trabalhador à máquina, a supressão de sua capacidade de decisão e, ao mesmo
da ela_boraçã? com~Ie~ _ do pr?duto, que pode ser a base' do orgulho tempo, a diminuição drástica dos custos de supervisão (Freyssenet, 1977;
profissional, a contnbmçao parcial e fragmentária, a qual pode trazer tão- Coriat, 1987; Durand, 1979). Com ele, o trabalho alcança o grau máximo de
-somente a sensação de insignificância; a passagem, enfim, do donúnio do submetimento ao controle da direção, desqualificação e rotinização, e os
processo de trabalho em sua totalid~de à ~serção no seio de uma organização trabalhadores vêem diminuído ao rrúnimo o controle sobre seu próprio
estrutu~~a :m tomo de u'? poder hierárquico e alheio à pessoa do trabalhador. processo produtivo e reduzida a zero ou pouco mais que zero a satisfação
A diVIsao ~~ufature1ra do trabalho pode desenvolver-se simplesmente intrínseca derivada do mesmo. Entra-se de cheio no que Giedion (1969: 175)
como d7compos1ça~ de um processo em suas tarefas integrantes, tal como a chamou de ''barbárie mecanizada, a mais repulsiva de todas as barbáries' '.
descreVIa Adam Srmth, com o famoso exemplo da subdivisão da fabricação de
um alfinete ~m dezoit~ operações (Smith, 1977: 109 ss.), mas seus grandes
progressos ~e~m da mtrodução da maquinaria, do taylorismo e do fordismo. A diversidade atual nas condições de trabalho
A 1_11a~umana estabelece um ritmo mecânico ao qual o trabalhador, como
seu apend1ce, tem que se subordinar, incorporando em seu mecanismo uma Nem todos os trabalhos da sociedade capitalista são iguais. Toda
regulaç_ão do tempo e da intensidade que, sem ela, exigiria elevados custos de categorização geral é, necessariamente, uma simplificação, mas necessitamos
superVIsã~. _Apóia-se na divisão manufatureira do trabalho, pois somente a delas para não nos perdermos na casuística. A atividade dos intelectuais, dos
decompos1çao do processo em tarefas simples permite a substituição do escritores ou dos artistas, entre outros, pode representar o mesmo grau de
homem pela máquina. Ao encarregar-se de parte das tarefas, simplifica 0 liberdade que a do trabalhador da economia de subsistência e maior que a do
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artesão pré-industrial. Mas, por isso mesmo, tendemos a não considerá-la social, sua fé na mobilidade social ou suas inclinações políticas, também as
como um trabalho em sentido estrito e, se a taxamos como tal, é porque é separam radicalmente outras, tais como não possuir meios de produção
remunerada. Fora dessas exceções pouca significativas, entretanto, existe todo materiais e derivar sua posição intermediária e relativamente privilegiada do
um gradiente ao longo do qual é possível ir-se desde os trabalhos mais livres próprio fato de estarem integrados no modo de produção capitalista - o~ no
aos mais rotineiros. Compreende-se melhor isto simplesmente analisando-se setor público - em vez de produzir diretamente para o mercado, etc. (Wnght,
alguns estereótipos. 1983).
As profissões liberais, os camponeses independentes e os chamados Na base desse gradiente estão os postos de trabalho subordinados. São
trabalhadores autônomos - os artesãos de nossos dias no que se refere ao postos cujos ocupantes não têm nenhum controle nem capacidade de decisão
trabalho como relação social, independentemente de seu conteúdo - têm um sobre o produto de seu trabalho e pouca ou nenhuma sobre seu processo.
certo grau de controle sobre o produto de seu trabalho. Este não apenas lhes Neste último aspecto, entretanto, podem-se dar situações muito diversas que
pertence legalmente, mas além disso podem decidir qual será ele dentro da vão desde um considerável grau de liberdade - dentro dos limites inflexíveis
gama de possibilidades traçada pelo mercado, algumas regulamentações marcados pelo horário e pelas tarefas a cumprir - até o submetimento a uma
estatais e, em seu caso, as normas das organizações profissionais ou gremiais. regulação estrita. O maior grau de liberdade dá-se naqueles postos de trabalho
E conservam, sobretudo, um grau substancial de controle sobre seu processo cujas tarefas não estão integradas numa seqüência coletiva - por exemplo, o
de trabalho, tanto qualitativa - os procedimentos - quanto quantitativamente vigia de um edifício ou o recepcionista de um hotel. Um grau intermediário
- o emprego do tempo. Afinal, estes grupos são os restos, mais ou menos (intermediário em termos relativos, em comparação com outros trabalhos
transformados, da velha pequena burguesia, isto é, da produção mercantil subordinados, porém insignificantes em si mesmos) é o daqueles postos de
simples. trabalho cujas tarefas foram normalizadas, mas não integradas numa seqüência
As chamadas semiprofissões representam o estádio primeiro da mecânica - por exemplo, um balconista ou um funcionário de escritório, que
subordinação do trabalho ao capital. Elas estão compostas por membros dos realizam tarefas rotineiras mas podem interromper brevemente seu trabalho,
corpos que constituem as profissões liberais, não as exercendo entretanto desacelerá-lo, acelerá-lo e introduzir pequenas variações. O grau zero (ao
como tais, mas como assalariados, e por outros grupos que não ~onseguira~ menos teoricamente) de controle dá-se nos postos de trabalho cujas tarefas
nunca, coletivamente, o estatuto de profissão liberal, embora hajam passado foram incorporadas a uma seqüência mecânica - o exemplo clássico é a linha
por processos de formação equivalentes. Seu lugar natural parece ser os de montagem.
serviços ao ~ú~lico que exigem um alto grau de qualificação, uma titulação e Esses düerentes tipos de processo de trabalho que düerenciam
um ethos sunilares aos das profissões liberais, e geralmente também transversalmente a sociedade reproduzem como divisão presente a evolução
organizações profissionais próprias - associações - que exercem as mesmas global do trabalho no processo de industrialização e de expansão e
funções protetoras e restritivas que as daquelas. Exemplos desses grupos são consolidação do capitalismo. Os exemplos com maior grau de liberdade são os
os profes~ores, os médicos assalariados da saúde pública ou de hospitais correspondentes àquelas funções que o modo de produção não pôde - por
privados, os assistentes sociais, os grupos profissionais da administração, etc. enquanto, talvez - absorver, e a degradação do trabalho, ao passar aos grupos
O produto de seu trabalho não lhes pertence e escapou a seu controle mas seguintes, é o produto do progressivo grau de penetração do modo de
mantêm um elevado grau de autonomia em tudo o que conceme ~ seu produção capitalista nos setores, nos ramos e nas funções correspondentes.
processo de trabalho.
Também apresentam um grau de liberdage maior aqueles empregos que
Entre situações similares às dos grupos anteriores distribuem-se os existem como tais precisamente como · resultado da polarização das
dirig~~tes e executivos das organizações, desde as empresas até as qualificações e da capacidade de decisão que a organização capitalista ou
ad~strações e os órgãos públicos. Na medida em que a capacidade de burocrática do processo de trabalho introduz na produção coletiva - neste
deasao sobre os fms da organização está mais ou menos centralizada caso o dos executivos. Isto não significa que toda ocupação que apresente um
possuirão um grau de controle maior ou menor sobre o produto de se~ alto grau de controle dos trabalhadores sobre seu trabalho tenha uma origem
trabalho; e, de qualquer forma, conservam um controle substancial sobre seu pré-capitalista, mas, simplesmente, que, embora seja relativamente nova, suas
processo. Este grupo, juntamente com o anterior, tem sido assimilado com características técnicas e/ou a força organizada de seus componentes
freqüência à pequena burguesia, ou qualificado de "nova pequena burguesia" impediram sua degradação. Estas condições podem ser reunidas por grupos
para diferenciá-la da "tradicional" (Poulantzas, 1974; Labini, 1981), mas, ainda ocupacionais muito antigos, como no caso dos médicos e dos advogados, ou
que as unam características tais como ocupar um lugar intermediário na escala muito novos, como no dos psicanalistas. Entretanto, torna-se óbvio que os
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Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 19
velhos grupos profissionais estão submetidos a um fogo cruzado, como o indica reduzir-se a funções de execução. É o processo de desqualificação e
o fato de que a maioria de seus membros já se tenham convertido em degradação do trabalho.
assalariados, e aqueles novos grupos nasçam já como tais, embora Em terceiro lugar, na passagem de um processo orientado pelo caráter
freqüentemente uma parte deles exerça sua atividade de maneira autônoma. qualitativo das tarefas a um processo encaminhado exclusivamente à economia
A questão é, sobretudo, de proporções. Na sociedade pré-capitalista não de tempo, em detrimento de sua qualidade intrínseca. Na terminologia de
estavam ausentes formas de trabalho em que não havia controle por parte dos Thompson (1967), a passagem do task-oriented ao time-oriented labour, da
trabalhadores, desde um setor dos escravos até os galeotes, mas a forma orientação fmalista à orientação temporal do processo de trabalho.
predominante, de longe, era o trabalho autônomo - embora este estive~e
submetido a confiscos sobre o produto -, ou então o trabalho forçado, mas sob Enquanto a maioria dos trabalhadores na maior parte das economias,
condições tais que o trabalhador continuava controlando o processo - por históricas e quase-contemporâneas, eram orientados primordialmente
exemplo, a corvéia. Na sociedade atual persistem - e, às vezes, surgem - pelos fms - task-oriented -, a grande maioria das pessoas
formas de trabalho autônomo, mas a maioria da população "ativa", isto é, a que economicamente ativas nas sociedades industriais não apenas trabalham
trabalha por dinheiro, está submetida a formas degradadas de trabalho. seguindo um programa temporal rigidamente determinado, mas, além
disso, são recompensadas em termos de unidades temporais nas tarefas
atribuídas; isto é, são pagas por seu trabalho em termos de horas,
Pautas da evolução do trabalho semanas, meses ou anos (Moore, 1963: 25).
Resumindo, podemos dizer que cada urna dessas mudanças representam O tempo, como dizia Benjamin Franklin em seu Advice to a young
um passo adicional em vários processos. Em primeiro lugar, na dissociação tradesman, é dinheiro. Já não é um fim em si, nem o espaço de qualquer fim,
entre o processo de trabalho e seu objetivo, a satisfação das necessidades mas o meio principal para o fim único. Da profundidade dessa mudança e seu
próprias e as alheias. Qualquer idéia de equihbrio com a natureza, de linútação arraigamento nas mentalidades pode dar-nos uma idéia a diferença entre as
do trabalho ao necessário para a satisfação das necessidades estabelecidas, atitudes dos homens de duas culturas distintas. Uma pesquisa entre os
como as que presidiam a produção de povos primitivos e, apesar da pressão habitantes de Lima-Callao (Peru) e os de Bruxelas e Nodebais (Bélgica), em
demográfica sobre a terra, a das sociedades camponesas e artesanais, cede fms dos anos sessenta, indicava que apenas 18,5% dos belgas tinham a
passagem ao aumento ilimitado das necessidades (lllich, 1!111) e ao sensação de não haver perdido o tempo, frente a 63,7% dos peruanos
desenvolvimento incessante da produção. Lewis Mumford assim o expressou (Rezsaaházy, 1972: 458), diferença ainda mais impressionante se se tem em
de forma lacônica:
conta o distinto ritmo de atividade em um país é outro.
Em quarto lugar, na perda também do controle sobre a intensidade e
( ... ) Há apenas uma velocidade eficiente: mais rápido; apenas um regularidade, ou irregularidade, de seu trabalho, que é o mesmo que dizer: na
destino atrativo: mais longe; apenas um tamanho desejável: maior; passagem de um tempo-atividade vinculado ao estado de ânimo ou à ?isp~sição
apenas um objetivo quantitativo racional: mais (Mumford, 1970: 173). do trabalhador ao tempo regular da máquina. Nas palavras de um historiador:
Em segundo lugar, na perda, por parte do trabalhador, do controle sobre Emerge ( ...) um tempo novo, uma nova temporalidade, um novo
seu processo"de trabalho, na passagem da atividade criativa à inserção em um "tempo social" como diz G. Gurvitch, tempo pleno, tempo homogêneo,
todo pré-organizado, da autonomia à submissão a normas. Ao se arrebatar ao tempo rigoroso, tempo coletivo, imposto pela ''mega-máquin~" d~
trabalhador o controle de seu processo, adquire urna nova dimensão a divisão produção. ( ... ) Outrora dono de um tempo que era. seu tempo, e1s aqm
entre trabalho manual e trabalho intelectual e inicia-se o caminho que vai do agora o trabalhador joguete de um tempo exterior, de uma temporalidade
trabalho complexo e qualificado ao trabalho simples e desqualificado, do externa (Le Goff, 1985: 28).
trabalho concreto ao abstrato, do artesão orgulhoso de seu saber profissional
aoJack-of-all trades, master ofnone, (homem de todos os ofícios, mas que Em quinto lugar, na passagem de um processo de trabalho ':'riado,
não domina nenhum). De um lado, as funções de concepção cindem-se e composto de múltiplas tarefas distintas e cuja alternância é fonte de vartedade,
distanciam-se do trabalho da maioria para concentrar-se nas mãos da direção à realização reiterada, monótona e rotineira de um reduzido número de tarefas
das organizações produtivas; do outro, as tarefas do trabalhador tendem a simples. Em suma, de um tipo de trabalho que se podia considerar como um
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A Face Oculta da Escola
espaço e um tempo de realização pessoal a outro que somente pode ser aceito ou, de qualquer forma, de produzir mais do que o que consomem. Ademais,
como um mal necessário, inevitável ou simplesmente imposto. Marx assim o a compra de escravos supunha imobilizar um capital que apenas ao cabo de um
expressava: longo período seria recuperado, enquanto o salário, cujo único objetivo é cobrir
os custos diários, semanais ou mensais de reprodução da força de trabalho, é
Em que consiste, pois, a alienação do trabalho? Primeiramente, no recuperado muito mais rapidamente: em termos mais técnicos, podemos dizer
fato de que o trabalho é ex temo ao trabalhador, isto é, não pertence a seu que o escravo representa também uma inversão em capital fixo, o assalariado
ser; que em seu traoalho, o trabalhador não se afirma, mas se nega; não apenas em capital circulante. Isto levava a situações paradoxais, tal como a de
se sente feliz, mas infeliz; não desenvolve uma livre energia física e que na América do Norte colonial se chegasse a preferir os assalariados livres
espiritual, mas mortifica seu corpo e arruma seu espírito. Por isso o irlandeses para as tarefas mais perigosas, dado seu custo menor que o dos
trabalhador só se sente ele mesmo fora do trabalho, e no trabalho algo fora escravos (Philips, 1963: 182). Mesmo quando os escravos eram adquiridos por
dele. Ele se sente em casa quando não trabalha, e quando trabalha não se métodos mais vantajosos que o da compra no mercado, sua rentabilidade era
sente em casa. Seu trabalho não é, assim, voluntário, mas obrigado; é duvidosa.
trabalho forçado. Por isso não é a satisfação de uma necessidade, mas
apenas um meio para satisfazer as necessidades fora do trabalho ( ... ). A experiência tem-no demonstrado. De todos os tipos de criação, a do
Disso resulta que o homem (o trabalhador) apenas se sente livre em gado humano é a mais difícil. Para que a escravidão seja rentável quando
suas funções animais, no comer, beber, procriar, e quando muito no que se aplica a empresas em grande escala, tem que haver abundância de
se refere à habitação e à vestimenta, e em troca em suas funções humanas carne humana barata no mercado. Isto só se pode alcançar por meio da
sente-se como animal. O que é animal torna-se humano e o que é humano guerra ou das incursões em busca de escravos. De maneira que uma
torna-se animal (Marx, 1977: 108-109). sociedade dificilmente pode basear uma boa parte de sua economia em
seres humanos domesticados, a não ser que tenha à mão sociedades mais
fracas a serem vencidas ou arrasadas (Bloch, 1966: 247).
As vantagens econômicas do trabalho livre
Isso é o que gregos e romanos fizeram com as sociedades que os
O trabalho assalariado, a troca da força de trabalho por dinheiro, não é a rodeavam, e os colonizadores brancos com a África. A escravidão, portanto,
única forma sob a qual se tem explorado o trabalho sob o capitalismo. Cabe implicava elevados custos de captura e transporte. Os escravos de segunda
então perguntar-se por que a evolução geral em sua direção. Immanuel geração não apresentavam esses custos, mas em compensação apresentavam
Wallerstein e sua escola parecem sugerir uma certa indiferença do capitalismo os de criação, equivalentes ou superiores. De Avenel já estava consciente da
diante das distintas formas de organização do trabalho, entre as quais ele duvidosa rentabilidade da escravidão:
optaria de acordo com aquilo que se trata de produzir e onde:
(... ) Se se comparam as vantagens e inconvenientes dos escravos,
Por que diferentes modos de organizar o trabalho - escravidão, cuja reprodução compensa, menos que a de qualquer outro gado, a perda
"feudalismo", trabalho assalariado, auto-emprego - no mesmo ponto resultante de morte natural, invalidez ou de acidente, e que proporcionam
temporal no seio da economia-mundo? Porque cada modo de controle do sempre uma quantidade de ~rabalho muito menor que a de um trabalhador
trabalho é o mais adequado para tipos particulares de produção independente, chegaremos a perguntar-nos se o trabalho escravo não era
(Wallerstein, 1979: 121). muito mais caro... que o trabalho livre (citado por Léngelle, 1971: 94-95).

Entretanto, não é difícil identificar as diferenças que, em princípio, fazem Tampouco a servidão destacou-se como uma máquina particularmente
do trabalho assalariado a forma preferível de exploração do trabalho para o eficaz na extração de mais-trabalho. Embora os camponeses tivessem
capital e que o converteram na forma distintiva de trabalho sob o capitalismo obrigação de trabalhar a terra dos senhores, obrigação a que não podiam
ao longo do globo terrestre. escapar salvo fugindo para as cidades ou emigrando, a mão de obra via-se
Frente ao escravismo apresenta a vantagem de desresponsabilizar o notavelmente desperdiçada nos latifúndios. A exploração real dos camponeses
capitalista da captura e criação dos trabalhadores e de seu sustento quando, pelos senhores situava-se muito longe do limite fisiológico do qual tanto se
pela idade ou qualquer outra razão, não estão mais em condições de trabalhar aproximaria depois com o capitalismo fabril, e isso, sem dúvida, pela

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resistência ativa ou passiva dos servos: com técnicas sirrúlares, com lugar de origem, pois tarde ou cedo dá lugar a revoltas ou, quando menos,
instrumentos de trabalho provavelmente mais potentes e com terras de igual fugas. Daí que a escravidão capitalista da época moderna tomasse a forma de
ou melhor qualidade, o trabalho dos servos rendia notavelmente menos nas um deslocamento maciço de milhões de trabalhadores de um continente a
propriedades do senhor que nas suas próprias. Eles se negavam inclusive a outro, e que praticamente todas as outras formas de trabalho forçado, e
aceitar parcelas maiores para si por temor de uma elevação das cargas inclusive os contratos de servidão, supusessem o desarraigamento dos
associadas (Kula, 1979). Na chamada "segunda servidão" da Europa Oriental, trabalhadores em uma ou outra medida, sempre através da distância. Mesmo
a corvéia mostrou-se uma maneira ineficaz de extrair mais-trabalho e, em a escravidão dos negros no Sul dos Estados Unidos e no Caribe deu logo lugar
última instância, como um obstáculo para sua máxima exploração (Nichtweiss, a fugas maciças e ao estabelecimento, com mais ou menos êxito, de numerosas
1979: 138, 151). colônias de fugitivos.
O trabalho assalariado permite ao capitalista a máxima flexibilidade. Quanto à exploração através do sistema de entregas ou trabalho a
Apenas tem que se encarregar dos custos de reprodução da força de trabalho domicílio, ou do monopólio de compra das colheitas comerciais, a avidez por
na medida em que a explora, não mais do que isso. Pode fazer recair boa parte mais-trabalho do capital deveria e deve enfrentar-se com a lógica intrmseca da
dos custos de sua reprodução cotidiana e, de qualquer forma, a maior parte produção doméstica, seja esta para o consumo próprio (a produção doméstica
dos de sua reprodução geracional sobre outros modos de produção, em sentido estrito) ou para a troca (a empresa familiar), que tende sempre a
particularmente sobre o doméstico (em todas as sociedades) e sobre o pôr limites à intensidade do trabalho e à auto-exploração, embora isso seja o
burocrático (o setor público nas sociedades de "bem-estar"), e preço da renúncia à satisfação das necessidades não vitais. É um erro
subsidiariamente sobre o modo de produção mercantil, quando os considerar, à maneira de alguns articulacionistas, que os modos de produção
trabalhadores assalariados realizam outras funções para o mercado, por distintos do capitalismo e que o rodeiam (como o setor público, a produção
exemplo, os camponeses que podem comercializar produtos de suas pequenas doméstica para o próprio consumo ou a própria produção mercantil simples)
parcelas que, no entanto, não os livram do trabalho assalariado. O trabalhador, sejam um mero horizonte passivo ou um simples joguete do capitalismo.
por outro lado, sabe que a conservação de seu posto de trabalho depende de Possuem, de qualquer forma, sua própria lógica, embora em uma sociedade
maneira direta (dada a possibilidade de demissão) e indireta (dado o risco de dominada pelo setor capitalista já não se possam desenvolver livremente, mas
quebra da empresa) de sua produtividade. Sabe também, ademais, que a tão-somente dentro de um marco dado e em conflito constante com os
obtenção de meios de vida é para ele ou ela inseparável da aceitação da requisitos estruturais impostos pelo capitalismo.
exploração de seu trabalho, em comparação, por exemplo, com a posição do Assim como os serviços públicos não são tão baratos, em impostos,
servo, que pode trabalhar intensamente para si e não fazê-lo para o senhor. quanto os capitalistas desejariam e estariam dispostos a fazer com que fossem
Em geral, a produtividade do trabalho forçado sempre foi muito baixa. O através de uma exploração mais intensa do trabalho dos funcionários, e não o
mito do negro preguiçoso, o lazy nigger, não foi exclusivo da colonização são porque a produção dentro do setor público não segue a mesma lógica que
africana nem da escravidão do Sul dos Estados Unidos. Os visitantes britânicos a do setor capitalista privado, embora se apegue parcialmente a ela, da mesma
pensavam exatamente o mesmo do servo branco russo (Genovese, 1971:5; maneira a produção mercantil simples, embora se ache subordinada em um ou
Levine, 1973: 44), apesar das diferenças de civilização e clima, e os norte- outra medida ao setor capitalista através do mercado, não se presta facilmente
-americanos dos mexicanos (Thompson, 1967: 91). Malthus e a maior parte ao mesmo grau de intensidade no esforço de trabalho.
dos economistas da época mercantilista pensavam de forma sirrúlar a respeito Uma vez já dentro do setor capitalista, por outro lado, a passagem da
de todos os trabalhadores em geral, começando por seus próprios subordinação formal à subordinação real do trabalho ao capital não pôde nem
compatriotas. pode ter outro sentido que este. Embora alguns autores o desvinculem da
O trabalho forçado pode absorver o tempo e a vida do trabalhador e obter busca de uma maior produtividade, interpretando-o como urna simples
seu esforço físico, mas de nenhum modo pode obter sua colaboração, seu tentativa de reforçar o controle (Marglin, 1973) ou como o resultado de uma
compromisso. Bem pelo contrário, torna-o impossível desde o princípio, como opção cultural sem muita fundamentação econômica racional (Piore e Sabel,
se mostrou em todos os casos em que existiu, desde a mobilização forçada dos 1984), parece mais plausível a explicação tradicional que se apóia na maior
africanos pelas potências coloniais até o trabalho dos convictos, hoje em dia, produtividade do que Marx chamava o modo de produção capitalista
em muitos países. propriamente dito, ou seja, a subordinação real do trabalho ao capital,
A experiência, além disso, também mostrou uma e outra vez que nenhum permanecendo o resto das coisas iguais. Ao ftm e ao cabo, controle e
forma de trabalho forçado é viável se os trabalhadores permanecem em seu produtividade são alheios entre si. Quando o trabalhador mantém o controle do

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processo produtivo, a produtividade, sob condições técnicas dadas, depende não sem recuos, marchas e contra-marchas, a industrialização em geral e o
dele mesmo, tanto por meio da intensidade do trabalho quanto por meio da capitalismo em particular empurraram e arrastaram milhões de pessoas a
tomada de decisões e da atribuição de recursos. Quando o controle passa às pautas de trabalho radicalmente distintas das que correspondiam a seus
mãos da direção, é este que pode perseguir e persegue um aumento da desejos e preferências e a seus padrões culturais profundamente arraigados.
produtividade através da reorganização e da intensificação do trabalho. Consegui-lo exigiu, em primeiro lugar, privar-lhes de quaisquer outras
Isto não contradiz necessariamente o fato, bem conhecido, de que as possibilidades de subsistência. Foi necessário arrancar os camponeses do
genericamente chamadas ''novas formas de organização do trabalho'' campo, o que se obteve graças à combinação do crescimento demográfico, da
conduzem a níveis de produtividade superiores às formas hoje já tradicionais, supressão das terras comunais, da ampliação das grandes propriedades em
tayloristas e fordistas (Alcaide Castro, 1982; Fernandez Enguita, 1986a), pois detrimento das pequenas e da capitalização das explorações agrárias, na
o que é certo hoje, quando os hábitos necessários para um trabalho regular e Europa, e a métodos distintos, mas de objetivos similares, em outros
intenso já estão profundamente arraigados nas gerações adultas, não tinha por continentes. Foi preciso levar os ofícios tradicionais à ruína e à dissolução, para
que sê-lo também na transição das formas de produção arcaicas para as o que se quebraram seus privilégios monopolistas, se lhes arrebatou o controle
próprias do capitalismo. Ademais, os efeitos perversos que aparecem com da aprendizagem e do acesso, se projetou uma maquinaria fora de seu alcance
tanta intensidade na produção em série atual não tinham por que fazê-lo então, econômico e até se proibiu sua organização coletiva, o que, juntamente com as
quando o salto se deu em uma escala menor; nem o caráter cambiante do pressões do mercado, determinou sua degradação até sua prática desaparição
mercado, a instabilidade dos custos e as preferências dos consumidores por nos terrenos da atividade econômica cobiçados pelo capital. Além disso, este
artigos diferenciados, fatores que hoje levam a formas de produção flexíveis, processo não pôde completar-se senão à medida que se cerravam as fronteiras
parece que foram fatores dignos de ser tidos em conta na época da grande econômicas, isto é, à medida que desaparecia a possibilidade de escapar para
transformação em direção ao taylorismo e ao fordismo. Por último, grande o Novo Mundo ou para as fronteiras móveis do velho.
parte dos experimentos exitosos com novas formas de organização do trabalho Quanto ao campesinato, esta tarefa foi realizada de forma surda, em muitos
baseia-se em contextos nos quais existe uma identificação do trabalhador com locais, pelo mero crescimento demográfico, mas também de forma ativa e
os fins da empresa, isto é, uma boa disposição de sua parte: tal é o caso na ruidosa por medidas tais como os cercamentos e a supressão de terras
organização paternalista das empresas japonesas, nos exemplos comunais na Europa Ocidental, a coletivização forçada na URSS, ou a
autogestionários nos países ocidentais ou, por razões distintas que não é confinação dos nativos a reservas exíguas e pouco produtivas no Sul da África.
necessário detalhar, nas empresas da Alemanha Ocidental e em muitas As diferenças de densidade demográfica explicam o êxito do empreendimento
empresas que produzem diretamente tecnologia, grupos que englobam a maior na Europa e no Japão, depois, em zonas densamente povoadas como Ásia ou
parte de tais experimentos. América Latina, onde o empobrecimento dos camponeses foi o produto fácil do
De qualquer forma, as pessoas não agem de acordo com o que as coisas crescimento da população e do contato com o mercado mundial, e seu fracasso
são, mas com o que elas crêem que são, e aqui se incluem os capitalistas e os inicial em zonas de baixa densidade como a África, onde, ao nível de
executivos; e não há razão, neste caso, para pensar que não acreditavam subsistência, existia - e ainda existe em parte do continente - uma
realmente no que constantemente proclamavam: a maior produtividade do disponibilidade ilimitada de terra para a população existente. O que em jargão
novo sistema, baseada em parte na própria maquinaria e em parte na maior econômico se conhece como ''desenvolvimento com uma oferta ilimitada de
regularidade e intensidade impostas ao trabalho. trabalho'' (Lewis, 1954) tornou-se um problema mais político e cultural que
econômico; ou, melhor dito, um problema econômico incompreensível e
insolúvel dentro dos postulados da economia clássica e neoclássica.
A longa marcha do capitalismo Em segundo lugar, a organização do trabalho que hoje conhecemos é o
resultado de uma longa cadeia de conflitos globais, setor por setor, indústria
A expansão do capitalismo não foi exatamente um passeio, mas o por indústria, fábrica por fábrica e oficina por oficina, entre os patrões e os
resultado de um processo prolongado, inacabado e irregular de lutas de classe, trabalhadores. Estes conflitos desenvolveram-se - e ainda se desenvolvem-
concorrência econômica e enfrentamentos políticos. Tendemos a nos f1xar no próprio local de trabalho, e só muito lentamente foram sendo saldados com
somente na parte desses conflitos concernentes às relações de propriedade e vitória após vitória dos patrões. Foram e são conflitos pouco visíveis, pois para
aos regimes políticos, mas tanto ou mais importante foi a luta em torno da os meios de comunicação e mesmo para a história, a economia e a sociologia
organização, das condições e da intensidade do trabalho. Através dela, embora do trabalho, sempre foi mais fácil fixar a atenção sobre variáveis mais

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evidentes, como os salários ou a jornada de trabalho, que no intrincado mundo religiosos, humanistas, filósofos e uma longa lista de intelectuais e publicitários
da organização dos processos produtivos. Em todo esse percurso, os patrões de diversos tipos, coincidentes todos no desejo de desarraigar os velhos
puderam valer-se não apenas de sua prepotência econômica, mas também e modos e hábitos de vida e substitui-los por outros mais adequados às
muito do poder policial, judicial e militar do Estado; e, a partir de um certo necessidades do Moloch industrial.
ponto, da aquiescência das organizações sindicais, que passaram de uma Em quarto lugar, foi necessária uma sistemática política repressiva dirigida
política de oposição às organizações manufatureira, taylorista e fordista, e de contra os que se negavam a aceitar as novas relações sociais. Não por acaso
defesa das condições de trabalho existentes e do controle sobre o processo de os inícios do trabalho fabril estiveram associados com as prisões, os hospitais,
trabalho, a uma política de aceitação daquelas, em troca de contrapartidas os orfanatos e outras formas de internamento. Perseguiu-se implacavelmente
extrínsecas ao processo de produção, como os aumentos salariais, a redução os pobres, os vagabundos e outros "marginais", que então não eram tantos,
de jornada, etc. (há duas ou três décadas, os sindicatos voltaram a recuperar expulsando-os das cidades, internando-os, obrigando-os a trabalhos forçados e
a problemática da participação, da organização e das condições de trabalho, submetendo-os a castigos corporais. Mesmo assim, este processo nunca
mas nunca com a força da primeira resistência inicial e sempre com os chegou a bom fun, apesar dos esforços da política dos distintos governos.
escrúpulos e reparos devidos a uma política assentada na homogeneidade de Como reconhecem, se bem que pagando tributo ao eufemismo de supor que
condição do trabalhador). a política assistencial dos Estados foi simplesmente isso, dois autores norte-
Muitos desses conflitos não tiveram nem têm a forma de enfrentamentos americanos:
coletivos abertos e declarados. Consistiram e consistem em resistências
informais, individuais ou coletivas, dos trabalhadores às reorganizações ( ...) Na verdade, não existe nenhuma sociedade capitalista
induzidas pelos patrões, manifestando-se, com freqüência, no absenteísmo, no inteiramente desenvolvida. (... ) O capitalismo desenvolveu-se e expan-
alcoolismo, nos problemas de qualidade e até mesmo nas pequenas diu-se lentamente. Durante a maior parte de sua evolução, o mercado
sabotagens. Formas de resistência que, embora não figurem nos livros de proporcionava magras recompensas à maioria dos trabalhadores e
história nem nos informes sobre a ordem pública, podem fazer naufragar total nenhuma em absoluto a alguns. Para muitos continua sendo assim. E,
ou parcialmente os planos da direção ou impor soluções intermediárias entre durante a maior parte de sua evolução, amplos setores das classes
os desejos das partes. trabalhadoras não estavam inteiramente socializados no ethos do mercado.
Em terceiro lugar, foi necessária uma profunda revolução cultural. A O sistema de previdência, é nosso argumento, contribuiu de forma
"economia moral" - nas palavras de Thompson - dos artesãos e as importante para superar esta persistente debilidade da capacidade do
tradições dos camponeses foram varridas pela ideologia capitalista do "livre" mercado para dirigir e controlar os homens (Piven e Cloward, 1971: 33).
mercado. O profundo respeito pelo trabalho pessoal bem feito cedeu lugar ao
fetichismo da maquinaria. A busca de um equilibrio entre a satisfação das Embora sem o caráter maciço dos começos da industrialização, a perseguição
necessidades de consumo e o esforço de trabalho necessário para isso foi dos que optaram por manter-se à margem durou até nossos dias. Ressurgiu com
substituída pela identificação do bem-estar com o mito do consumo sem fim. especial força em momentos em que uma crise econômica empurrou grande
A apreciação do trabalho como parte integral da vida que devia ser julgada por quantidade de pessoas para o exterior das relações sociais de produção
seus valores materiais e morais intrínsecos cedeu terreno à sua consideração estabelecidas; por exemplo, durante a Grande Depressão, período em que os
como mero meio de conseguir satisfações extrínsecas. As redes comunitárias chamados ''não empregáveis'' converteram-se em um sério quebra-cabeça para
de solidariedade, reciprocidade e obrigações mútuas de artesãos e as mentes bem-pensantes (Myrdal, 1968: II, 1004). E perdurou em todo momento
camponeses, e mesmo o rígido código de direitos e obrigações entre o e perdu• a hoje em manifestações como a repressão à mendicidade, as leis de .
campesinato e a nobreza, foram substituídos pela atomização das relações periculosidade social, o controle que acompanha os serviços estatais, a psicose
sociais, pela expansão do individualismo e pela guerra de todos contra todos - sobre a fraude no seguro-desemprego, etc.
guerra econômica mas, caso necessário, também armada.
Isso foi em parte resultado do próprio desenvolvimento econômico, da
transformação radical das condições de existência e do emprego de uma ampla Filogênese e ontogênese do tmbalho moderno
parafernália de recursos políticos, mas também de uma encarniçada e
prolongada cruzada ideológica. Para a mesma contribuíram, a partir de Em quinto e último lugar, foi preciso assegurar os mecanismos
diferentes perspectivas, mas com um fim comum, economistas, reformadores institucionais para que cada novo indivíduo pudesse inserir-se nas novas

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relações de produção de forma não conflitiva. A maioria das pessoas que se converteram no lugar apropriado para acostumar-se às relações sociais
chegam à idade adulta encontram já uma série de condições dadas: não do processo de produção capitalista, no espaço institucional adequado para
existe para elas outra via disporúvel de obtenção de seus meios de vida preparar as crianças e os jovens para o trabalho. Assim fez-se válida a sábia
senão o trabalho assalariado, este goza já de aceitação social, os que o recomendação do velho Hegel:
rejeitam têm sido relegados a uma posição marginal e a cultura dominante
bendiz e reproduz tudo isto. Isso seria já o suficiente se os atuais Também o indivíduo singular tem que percorrer, quanto a seu
processos de trabalho fossem "naturais" ou se as pessoas fossem feitas conteúdo, as fases de formação do espírito universal, mas como figuras já
de material plenamente plástico e estivessem dispostas a que qualquer um dominadas pelo espírito, como etapas de um caminho já trilhado e
lhes desse qualquer forma, mas não é suficiente numa situação em que o aplainado; vemos assim como, no que se refere aos conhecimentos, o que
processo de trabalho é artificial, isto é, historicamente condicionado, e as em épocas passadas preocupava o espírito maduro dos homens desce
pessoas têm ou desenvolvem suas próprias inclinações e desejos. agora ao plano dos conhecimentos, exercícios e até dos jogos próprios da
Era necessário, por conseguinte, que, antes de incorporar-se ao infância, e nas etapas pedagógicas reconheceremos a história da cultura
trabalho, cada indivíduo percorresse em anos o caminho que seus projetada como em contornos de sombras (Hegel, 1973: 21).
antecessores ou a espécie percorreram em séculos. Este mecanismo não
podia estar no próprio trabalho, pois as leis sobre o emprego das crianças Se os trabalhadores ocidentais adultos tiveram que ser moralizados e os
nas fábricas romperam a única possibilidade: a aprendizagem do ofício, nativos das colônias civilizados, os novos membros da sociedade têm que ser
que, intensamente degradada a partir de suas formas artesanais, havia-se educados. Em qualquer dos casos, o objetivo é o mesmo: submeter seus
convertido em pura e simples super-exploração da infância, e que era impulsos naturais, ou o que deles ficara de pé nas velhas formas de trabalho,
necessário suprimir para arrancar dos trabalhadores o controle do e romper suas tradições até levá-los a aceitar as novas relações sociais de
recrutamento. Tampouco podia estar na família, pois esta conservou, produção. Ao fim e ao cabo, a idéia não era nova. Rousseau (um dos vários
embora diluídas, muitas das pautas de comportamento e relações que a Rousseaus) já havia dito que ''as instituições sociais boas são as que melhor
caracterizavam quando era uma unidade de produção agricola ou artesanal, sabem apagar a natureza do homem" (Rousseau, 1979:3), e Kant, seu melhor
e algumas até mesmo reforçadas desde que deixou de sê-lo e liberou-se discípulo em matéria de educação, defmiria a personalidade, objetivo da
da carga do trabalho. educação, como ''a liberdade e independência do mecanismo de toda a
Muitas das velhas instituições contribuíram para isto, e entre todas natureza" (Kant, 1977: 151).
cabe destacar os exércitos de conscripção que, como reza o ditado, ''nos Aos quatro primeiros processos, especialmente os três últimos deles,
fazem homens''. Não há nada tão parecido com a estupidez e com a falta voltaremos com mais detalhe nos dois próximos capítulos. Ao quinto está
de interesse da atividade (abril quanto a militar a que são submetidos dedicada por inteiro a segunda parte deste livro.
milhões de jovens varões nos países com serviço militar obrigatório.
Depois de tal experiência, o mais embrutecedor dos trabalhos pode ser
visto como uma liberação. Mas o serviço militar é breve e, à falta de
guerras, torna-se pouco rentável manter por mais tempo, ou até mesmo
por qualquer tempo, jovens que estão· em idade de produzir, sem fazer
nada de útil; seu ethos é muito pouco convincente, motivo pelo qual seus
efeitos como socialização para o trabalho podem ser os menos esperados
- não por acaso as primeiras fábricas foram identificadas com os quartéis,
como um argumento para serem rejeitadas -; ademais, o arraigado
machismo castrense impede a instituição de exercer seus benéficos
efeitos sobre a futura mão de obra feminina.
Era preciso inventar algo melhor, e inventou-se e reinventou-se a
escola; criaram-se escolas onde não as havia, reformaram-se as existentes
e nelas se introduziu à força toda a população infantil. A instituição e o
processo escolares foram reorganizados de forma tal que as salas de aula

30 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 31


2

O CASO EUROPEU:
REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
E RESISTÊNCIA POPULAR

A fábrica e o trabalho assalariado foram desde o primeiro momento coisas


indesejáveis para a população européia, em parte como produto de uma cultura
que, tendo-se recém libertado da servidão, identificava o trabalhar para outro
com a dependência. Não por acaso a idéia de liberdade havia nascido
estreitamente associada à defesa da propriedade necessária para a vida e o
trabalho pessoais. A propriedade feudal era condicionante tanto para o senhor
quanto para o servo, de forma que se este podia ver nessa condicionalidade a
base de sua dependência, o senhor também encontrava nela uma fonte de
obrigações e alguns limites à sua capacidade de decisão. Os trabalhadores
livres da época, por outro lado, eram camponeses independentes ou artesãos,
e o eram por possuir seus meios de produção - embora a propriedade dos
artesãos pudesse também estar limitada pelas normas grenúais. Nestas
circunstâncias, torna-se perfeitamente explicável que o· canúnho em direção à .
liberdade fosse identificado com a passagem da propriedade condicional à
propriedade absoluta, assim como que a falta de propriedade fosse vista como
falta de independência e o trabalhar para outro como dependente e não honrado.
Para o pensamento anti-aristocrático da Europa medieval, a propriedade
era, pois, a base da independência, a garantia necessária e suficiente de que
ninguém se apropriaria do trabalho de outro. Nem podiam imaginar que o
desenvolvimento da instituição terminaria dividindo a sociedade em uma
minoria de proprietários e uma imensa maioria de pessoas que não possuem

A Face Oculta da Escola 33


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meios de trabalho, tal como sucede hoje. A propriedade erga omnes ficava idade havia superlotação e tanto o local de moradia quanto a oficina se
desligada, como diria Tawney (1972), de qualquer função, passando da situação tinha~ tornado menos desejáveis a partir de sua combinação sob um ú.ni~o
de estar limitada em seu desfrute por suas funções sociais a constituir-se em teto. Em muitas, mas não em todas, pois havia trabalhadores a donucilio
um direito absoluto... dos proprietários. Paradoxal, porém que eram muito prósperos, e, em seus dias alc~ônicos, o te~edor manual
compreensivelmente, a passagem da propriedade absoluta à propriedade esteve na invejável posição de um homem que tinha algo valioso a ve~d~r
condicional não trouxe consigo um mundo de proprietários felizes e e podia viver muito confortavelmente disso. Mas o trabalhador a donuc~o
autônomos, mas uma sociedade cindida entre proprietários e não em pior situação, mesmo nos casos em que, aos olhos de quem ~xanune
proprietários. Os primeiros encaixaram-se facilmente em seu papel as forças econômicas das quais dependia seu sustento, pareCia ~s~r
privilegiado. Os segundos, reduzidos à necessidade de trabalhar para aqueles, sujeito ao extremo de uma cadeia muito mais curta do que ele propno
tiveram que ser encaixados à força - a força das coisas, a força da lei ou a pensava, era em muitos aspectos seu próprio patrão. Trabalhava longas
simples força bruta - no seu papel. horas, mas eram suas horas; sua esposa e seus filhos trabalhava~, mas o
faziam a seu lado e não havia nenhum poder alheio sobre suas Vldas; sua
Se olhamos o trabalho assalariado da perspectiva do século XVII, casa era sufocante, mas podia escapar para seu quintal; tinha temporadas
como de fato o fizeram esses homens, recordamos que os levellers de desemprego, mas às vezes podia usá-las para cultivar suas verduras ..As
pensavam que os trabalhadores diaristas haviam perdido seus direitos forças que regiam seu destino estavam em certo sentido fora de .sua Vlda
naturais como ingleses nascidos livres e não deviam ser autorizados a cotidiana; não ensombreciam e envolviam seu lar, sua família, seus
votar; que Winstanley pensava que os trabalhadores assalariados não movimentos e hábitos, suas horas de trabalhar e suas horas de comer
tinham nenhuma participação em seu próprio país e que o trabalho (Hammond e Hammond, 1919: IB-19).
assalariado devia ser abolido. (... ) Os homens nascidos livres sentiam
ainda que ir voluntariamente a uma fábrica era renunciar a seus direitos de Mas não se tratava apenas de uma questão moral, por importante que esta
nascimento, que um leveUer havia definido como a propriedade da própria fosse. Os trabalhadores não se negavam a submeter seu trabalho ao controle
pessoa e do trabalho (Hill, 1975 261-262). de outro tão-somente por sua ânsia de independência; nem este outro, o
patrão industrial, buscava tal submetimento pelo mer~ afã de. p.oder. A busca de
Embora as condições de vida e de trabalho do artesão independente ou um equi!J.brio entre trabalho e bem-estar que hav1a pr~std1do a ag~n?a do
reduzido ao trabalho domiciliar para um terceiro ou do agricultor proprietário trabalhador independente devia ceder caminho à tentativa de maxtffi!Zar o
ou arrendatário pudessem ser materialmente muito duras Oogo veremos isto), rendimento do trabalho dos assalariados por parte de um patrão que buscava
o fato de manter a capacidade de decisão sobre seu trabalho, a intensidade e o enriquecimento sem limite, que devia manter a competivid.a.de no me~c~do
duração do mesmo, etc., lhes outorgavam uma independência material e, barateando os preços de seus produtos e que devia rentabilizar no ffillllffiO
sobretudo, ideal. Por outro lado, o espaço de trabalho e a moradia familiar tempo possível a inversão realizada em capital fixo. Isto supunha rom~e~. com
confundiam-se, assim como a produção e a satisfação das necessidades, de hábitos de trabalho profundamente arraigados. Podemos fazer uma 1de1a do
forma que o trabalho aparecia como uma necessidade natural ou, o que dá no choque se voltamos nosso olhar para as pautas de trabalho pré-industriais.
mesmo, como a forma elementar de satisfazer as necessidades naturais.
Mesmo as diversas formas de servidão e de obrigações feudais podiam ser
vistas como meros acréscimos ao trabalho desenvolvido com funções de O trabalho antes da industrialização
subsistência. Tudo isto confluía em uma imagem de autonomia e de dignidade
na qual não se podia ajustar o salto à condição de trabalhar ~de. forma constante Comecemos pelos dias de trabalho. O calendário oficial pendurado na
e regular para outra pessoa, menos ainda deixar-se arrebat:ài a capacidade de parede de qualquer oficina, loja ou escritório é algo muito recente, assim como
decisão sobre a própria atividade. Esses magníficos precursores da história a regulação legal do calendário de trabalho, de forma que não é fácil saber-se
social do trabalho que foram os Hammond escreveram: quantos dias trabalhavam nossos ancestrais. Ademais, toda época te~d~ a
confundir sua história recente com a culminação ou, ao menos, com o último
Praticamente nenhum dos males associados ao trabalho fabril era de passo dado por uma história universal que apontaria sempre no mesmo
natureza inteiramente nova. Em muitas indústrias domésticas o horário era sentido. Assim como caímos no erro de pensar - ao menos se o fazemos sem
longo, o pagamento pobre, as crianças trabalhavam desde a mais tenra maiores precisões - que o trabalho assalariado é uma melhoria inequívoca em

35
34 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola
relação ao trabalho servil e que este o foi também em relação ao trabalho regulamentação grernial, ou de dezesseis horas no ''verão'' (seis meses) e oito
escravo, tendemos a ver a recente conquista da semana de quarenta horas ou no "inverno" (outros seis), na França do século XIII. Estes horários
das férias de um mês como o último resultado obtido desde não se sabe que aumentaram notavelmente desde então até os séculos XVII e XVIII,
jornadas, semanas ou anos de trabalho interminável tinham padecido nossos alcançando as quatorze, dezesseis ou dezoito horas, salvo as interrupções para
antecessores. Nada disso, entretanto, corresponde à realidade. a comida, etc. Mas não se pode considerar o horário à margem da regularidade
H. Webster, por exemplo, recordava que, dos 355 dias do calendário e da intensidade do trabalho. Seria paradoxal que aqueles que tão eficazmente
romano, quase um terço - exatamente 109 - eram considerados dias defendiam seus dias de folga não fizessem o mesmo com suas horas nos dias
"nefastos", isto é, impróprios para os assuntos judiciais e políticos, e que a de trabalho.
inclinação dos romanos para as férias os levou até os 135 dias nos meados dos O trabalho podia ser interrompido a qualquer momento para comer ou
século li e até os 175 nos meados do século IV. Entre os gregos, Estrabão dizia beber, para conversar com os companheiros ou para rezar o angelus. A venda
que os dias de festa tinham chegado a exceder em número aos de trabalho podia ser abandonada, pois os clientes sabiam onde encontrar o vendedor ou
(Grazia, 1964: 82-3; Wilensky, 1961: 33). podiam voltar mais tarde. As máquinas não estavam ali para marcar o ritmo. O
Na Idade Média não parece que as coisas tivessem piorado - outros mais parecido que podemos encontrar com isto hoje em dia talvez seja o
diriam melhorado. Alguns historiadores calculam que 115 festas como média, à trabalho dos executivos, dos professores de universidade ou das donas-de-ca-
parte dos 52 domingos de rigor, são uma estimativa adequada, e parece que sa. O horário é interminável, mas o indivíduo conserva um controle pleno
eram compartilhadas em grande parte por servos e, em seu caso, escravos. A sobre sua distribuição interior, podendo decidir a interrupção de seu trabalho,
Inglaterra medieval celebrava as efemérides de cem ou mais santos (Hill, 1964: sua desaceleração, sua intensificação, etc.
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146). Walter de Henley sugere um ano de trabalho agrícola de quarenta e
quatro semanas, o que, se se acrescentam os domingos, significava trbalhar
dois dias de cada três (Thirsk, in Thornas, 1964: 63). Após a peste negra de O recurso ao trabalho forçado
1348, por exemplo, os grêmios artesanais decidiram, como oferenda, celebrar
as festas dos santos de todas as igrejas, capelas e bairros da cidade, cinquenta Estas tradições constituíram um formidável obstáculo ao recrutamento de
no total, com o que reduziram em um dia sua semana de trabalho (Kula, 1979: mão de obra para as modernas oficinas e fábricas, motivo pelo qual não é de
276). Se damos crédito a Lafargue (1970: 30), os artesãos do Antigo Regime se estranhar que estas se baseassem inicialmente em formas de mobilização
não deviam trabalhar mais que cinco dias por semana, pois somente a Igreja do trabalho que hoje nos escandalizariam. Por um lado se recorreu aos
garantia noventa dias de descanso por ano (52 domingos e 38 dias festivos). desvalidos da sociedade, aos que não tinham outra forma de sobrevivência. De
]ames Howell, comparando a Inglaterra protestante com a Espanha católica, acordo com Mantoux (1955, 375),
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calculava que nesta última se dedicavam aos santos e se convertiam em festa,
no total, mais de cinco meses por ano, "urna religião que agradaria muito aos o pessoal das fábricas era, no princípio, composto dos elementos mais
I. díspares: camponeses expulsos de suas aldeias pela ampliação das grandes
aprendizes de Londres" (Hill, 1964: 149). Os arameiros parisienses do século
XIII tinham, além dos 141 dias livres de todo mundo, outros 30 de férias propriedades, soldados licenciados, indigentes sob a responsabilidade da
(Wilenskky, 1961: 34), e a França teria de esperar até o século XVII para que paróquias, os desvalidos de todas as classes e de todos os ofícios.
Colbert conseguisse reduzir os dias festivos dedicados aos santos a 92 (Hill,
1964: 148-9). Na Itália, em pleno século XVI renascentista, os dias de festa Nas minas do País de Gales era habitual, nos séculos XVIII e XIX,
totais eram 96 por ano na Lombardia, 80 ou 90 em Veneza, 87 em Florença e empregar criminosos e fugidos da justiça (Pollard, 1965: 163). David Dale,
140 no Prato (Cipolla, 1985: 100). Pedro I regulou as condições de trabalho na empresário de New Lanark, inteirado de um naufrágio de emigrantes apres-
Rússia em 1722, com normas que haveriam de durar até 1853: 115 dias de festa sou-se a oferecer-lhes emprego em sua fábrica (Pollard, 1965: 173). "Com
por ano, incluindo os domingos (Levine, 1973: 5), e provavelmente este esforço poucas exceções", dizia Robert Owen, "apenas as pessoas privadas de
"modernizador" explica por que para alguns chegasse a ser "o Grande" e amigos, de emprego e de caráter estavam dispostas a fazer a experiência'' (loc.
para outros ''o Cruel''. cit.). Na Rússia czarista, os artesãos urbanos preferiam a pobreza, no caso de
As jornadas, entretanto, eram longas. Wilensky (1961: 34), por exemplo, não poder viver de seu trabalho tradicional, a se converterem em operários
fala de 12 horas de trabalho diárias (incluídas meia hora de descanso pela comuns, algo que desdenhavam (Hogan, 1985: 83). Em tais circunstãncias, a
manhã e uma hora para o almoço) para muitos ofícios, seguindo uma tentação de recorrer a distintas formas de trabalho mais ou menos forçado

36 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 37


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devia tornar-se irresistível para os novos industriais ávidos de mão de recrutados morriam, fugiam ou tinham que ser devolvidos a seus
obra. responsáveis, seus parentes ou aos contatos que os haviam enviado,

Em princípios da Idade Moderna a concentração de operários dentro para em continuação oferecer as impressionants cifras de "desperdício" _nas
das oficinas operou-se em parte por meios coercitivos: pobres, oficinas de Cuckney entre 1786 e 1805: de 780 aprendizes, 119 (15,2~o) haviam
vagabundos e criminosos foram obrigados a ingressar na fábrica, e até a fugido, 65 (8,3%) haviam morrido e 96 (12,2o/o) haviam sido devolvtdos, num
entrada do século XVIII os operários das minas de Newcastle eram presos total de 280 (36%) (Chapman, 1967: 170).
com argolas de ferro (Weber, 1974: 158). Na Europa do Leste, a chamada ''segunda servidão'' forneceu o marco
legal para levar os camponeses ao trabalho forçado nas fábricas. Sob Pedro I
Na Escócia, os mineiros e os cavadores de sal eram obrigados pelo e Catarina 11 eles foram transferidos das terras às oficinas por seus senhores,
costume e pela lei a trabalhar no mesmo lugar durante toda a sua vida (Ashton, e empregados abundantemente na realização de obras públicas. Em 1721, um
1977: 44; veja-se também Samuel, 1977). Os mineiros de carvão só viram sua édito permitiu aos fabricantes comprar aldeias inteiras cujos habitantes ficavam
servidão abolida no ano de 1799 (Webb e Webb, 1950: 89). Sidney Pollard conscritos de forma permanente às "fábricas possuidoras". Nas fábricas
escreve, referindo-se a Grã Bretanha, que estatais os "camponeses designados" eram explorados em tempo integral ou
solicitados periodicamente. Quando os senhores não tinham fábricas nas quais
houve poucas áreas do país em que as indústrias modernas, particularmente pô-los a trabalhar, podiam alugá-los a outros fabric:m:es _ou a contratadore~
as têxteis, não estiveram, no caso de se desenvolverem em grandes edifí- intermediários, como se se tratasse de gado (Swtaruewicz, 1965: 160 ss.,
cios, associadas a prisões, casas de trabalho ou orfanatos ( ... ). Isto é rara- Blum, 1961: 308-325; Bendix, 1963: 128-143; Levine, 1973: 12). Tampou~o se
mente enfatizado, particularmente por aqueles historiadores que dão por deixou de recorrer, é claro, aos vagabundos, às prostitutas, aos servos fug~dos,
certo que as novas oficinas recrutavam apenas trabalho livre ( ... ). Os pen- aos convictos etc. (Bendix, 1963; 133-4). A. G. Rashin calculava que os
samentos dos primeiros empresários, à busca de um trabalho dócii'de na- trabalhadores' forçados, em relação aos trabalhadores industriais,
., tureza nova, voltaram-se rapid**amente para o trabalho não livre, tanto aqui representavam 91% no ano de 1767 (de 199.300), 73% em 1804 (de ~24.882),
i (na Inglaterra) quanto no novo continente (Pollard, 1965: 162). 66% em 1825 (de 340.568) e 44% ainda em 1860 (de 862.000) (citado por
Blum, 1961: 324). Uma proporção decrescente, mas também um
A prática do trabalho forçado encontrou fácil carne de canhão em toda sorte impressionante crescimento das cifras absolutas.
de vagabundos, mendigos, órfãos, etc. A Auntône Générale de Lyon conver-
teu-se na primeira metade do século XVI em uma excelente provedora de mão
de obra infantil para a indústria da seda, e pela mesma época eram enviados às Camponeses e artesãos diante da fábrica
galeras os mendigos fisicamente aptos de Veneza e forçados a trabalhar os inati-
vos de Louvain e as crianças pobres de Troyes (Lis e Soly, 1984: lll-2). Na Ing- Para os camponeses tornava-se muito difícil adaptar-se às novas condições
laterra foi uma prática generalizada a de forçar os aprendizes das workhouses a de trabalho da fábrica. Acostumados ao trabalho ao ar livre, aos ritmos
trabalharem na indústria privada, apesar de sua rentabilidade ser duvidosa, por- sazonais, aos abundantes dias de festa, a poder abandonar as tarefas a
que de outraforma não se teria contado com suficiente trabalho, ao menos não qualquer momento, em suma, a seguir seu próprio ritmo em vez de um
com suficiente trabalho infantil em relação ao adulto. Embora numerosos histo- calendário, um horário e um ritmo impostos, não podiam deixar de sofrer um
riadores não vacilem em argumentar que o trabalho infantil já existia e não era violento choque. Por isso se negavam a acudir às fábricas e, quando se viam
melhor antes da Revolução Industrial (p. ex., Cipolla, 1985: 81-82), não há dúvida forçados a fazê-lo, não era raro que desertassem em massa, mesmo ~m
de que agora se tratava de um trabalho muito mais duro. Mesmo um historiador momentos já avançados da industrialização. Exemplos não faltam. Sob Catanna
tão satisfeito quanto Stanley D. Chapman, antes e depois de tentar convencer a 11, segundo Levine, dava-se um tipo de deserção tipicamente russo: os
seus leitores de quão bem tratadas eram as crianças, não tem dúvida em dizer operários abandonavam maciçamente as fábricas e, juntamente com suas
que havia famílias, regressavam a suas aldeias de origem, com freqüência distan~es
centenas de quilômetros. Os que assim haviam desertado de uma fábnca
uma aguda escassez de trabalho infantil, e o problema tornava-se ainda mais lançaram uma advertência ao governo:
agudo por um alto grau de desperdício. Mais de um terço dos aprendizes

A Face Oculta da Escola


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38 Mariano Fernández Enguita
Se formos presos e devolvidos pela força às fábricas haverá Os artesãos preferiam viver mal da crise de seus ofícios, trabalhando a
derramamento de sangue de ambas as partes, e por isso lhes fazemos esta domicílio, mas mantendo um certo grau de controle e autonomia em seu
advertência, e estamos enviando-a a todas as partes, para que não nos trabalho, a ter que transpassar a porta das fábricas, que eram a negação de sua
façam responsáveis por nenhum derramamento de sangue que possa independência e as quais viam como lugares de depravação moral e
ocorrer (Levine, 1973: 15-16). desumanização. Como indica Thompson (1977: III, 143),

Entretanto, aquilo que a Irving R. Levine, um jornalista e ensaísta norte- A diferença de status entre um servant, um trabalhador assalariado
-americano, parecia ser urna exclusividade dos russos, não o era tanto assim. sujeito às ordens e à disciplina de seu mas ter, e um artesão, que podia "ir
Ainda em 1830 instalou-se no povoado baleeiro de Nantucket, Nova Inglaterra, e vir'' quando lhe aprouvesse, era grande o bastante para que os homens
urna nova fábrica de tecidos de seda. No princípio, mulheres e crianças se deixassem matar em seu ramo antes que tolerar que lhes levassem de
assediaram-na para obter emprego, mas ao cabo de um mês começaram a um lugar a outro. De acordo com o sistema de valores vigente na
abandoná-la em pequenos grupos, até que, finalmente, a abandonarem quase comunidade, aqueles que resistiam à degradação estavam em seu perfeito
todos, tendo que ser fechada (Gutman, 1976: 22). O inefável Andrew Ure direito de fazê-lo.
lamentava-se do ocorrido em uma aldeia a poucas milhas de Belper, onde uma
"série das famílias mais necessitadas", ao lhes ser oferecido emprego em um Assim, em conseqüência, o número de tecedores manuais manteve-se
fábrica de meias, ''acudiram com tropas de crianças e estavam satisfeitas por praticamente constante nas primeiras décadas do século passado na Grã
se instalarem em um lugar tão confortável'', mas, apesar disso, dos salários Bretanha embora seus rendimentos tivessem diminuído mais da metade e o
mais altos que os da indústria doméstica e do emprego mais regular, trabalho fabril oferecesse salários mais altos (Landes, 1969: 86-87). As coisas
abandonaram-na em poucas semanas para voltar à sua ''apática não eram diferentes na França, onde os tecedores também mostraram preferir
independência" (Ure, 1967: 333-4). Também os camponeses escoceses a manutenção de sua independência, mesmo suportando as fortes baixas de
negavam-se sistematicamente a trabalhar nas fábricas (Pollard, 1965: 172-3). salário, que acudir às fábricas. Um autor do século passado, Reybaud, escrevia:
Mesmo no Japão, país do qual tendemos a pensar que todo trabalho parece
bom a seus habitantes, as novas indústrias têxteis de fms do século passado e Prefeririam as maiores reduções a deslocar a sede de seu trabalho. O
começos do atual deviam enfrentar sérios problemas de escassez de mão de que os une a ele é que o executam sob seu próprio teto, perto dos seus
obra pela resistência dos camponeses a incorporar-se ou a permanecer nelas e também um pouco de acordo com sua vontade. Sentem um horror
(Clark, 1979: 39). invencível desse quartel que chamam oficina comum e prefeririam
Os artesãos urbanos não estavam mais dispostos que os camponeses. renunciar a seu ofício a terem que se submeter a um enquadramento
Resistiam por todos os meios ao trabalho fabril os trabalhadores das (Perrot, 1978: 366).
populações portuárias, principalmente marinheiros ou pescadores, os
fiandeiros, os tecedores manuais, os urdidores... (Pollard, 1965: 161; E, segundo Dunham,
Chapman, 1967: 156). Um tecedor de Gloucestershire queixava-se em 1838:
''expulsaram-nos de nossas casas e nossos quintais para que trabalhemos o industrial francês, no começo do século XIX, encontrava uma mão de
como prisioneiros em suas fábricas e suas escolas de vício" (citado por - obra abundante, barata e inteligente, mas também teimosa e difícil de reter
Wadsworth e Mann, 1931: 393). Outro afirmava perante um Comitê Especial e de formar, e a qual era ainda mais difícil fazer trabalhar em uma fábrica
sobre as petições dos tecedores manuais: (Le Goff, 1985: 27).

(... ) Nenhum homem gostaria de trabalhar em um tear mecânico. Pro- Embora os artesãos não tivessem uma terra à qual voltar, podiam,
duz-se tanto ruído e escândalo que qualquer um fica louco; e além disso, entretanto, caso se vissem obrigados ao trabalho na fábrica, abandoná-la em
tem-se que submeter a uma disciplina que um tecedor manual não pode aceitar busca de outra melhor ou, simplesmente, para obter um descanso antes de
nunca( ... ). Todos os que trabalham nos teares mecânicos o fazem à força, pois incorporar-se a outra igual. Isto dava lugar a uma elevada taxa de abandono e
não podem viver de outra forma; costuma ser gente cujas famílias sofreram rotatividade nos empregos, por exemplo de cem por cento ao ano, entre os
calamidades ou que se arruinaram ... são os que formam essas pequenas fiandeiros ingleses na primeira metade do século XIX (Pollard, 1965: 182). Os
colôniasaoredordasfábricas ... (citadoporThompson, 1977: II, 178). fabricantes se defenderam contra isso com a Master and Servant Law, que

40 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 41


penalizava mais gravemente a ruptura por parte do trabalhador que por parte dois a segunda, que serão açoitados durante sua estada na prisão, que os
do empregador, com contratos inelásticos de longa duração, de aprendizagem incorrigíveis serão marcados com a letra R e, se forem presos de novo,

I
ou indentures, tanto para jovens quanto para adultos (Chapman, 1967: 163), executados (Marx, 1.975: I, 919-921). O Act of Settlement de 1662
e, é claro, com as leis de pobres (Hobsbawm, 1964: 352). estabeleceu a chamada ''servidão de paróquia'', que limitava estritamente a
mobilidade dos pobres. Em 1795, a Speemhamland Law decidia que os
pobres que não trabalhassem ou o fizessem por um salário abaixo de_ um
O internamento e as leis contra os pobres mínimo tinham direito a um subsídio público até completá-lo, mas tambem a
obrigação de trabalhar. A Reform BiU de 1832 e a Poor Law Amendment
Essa aversão para com o trabalho fabril fez com que uma massa ingente de de 1834 terminaram definitivamente com qualquer idéia assistencial, hberando
camponeses e artesãos expulsos por meios econômicos ou extra-econômicos o mercado de trabalho de qualquer trava, isto é, eliminando qualquer forma de
de suas terras ou de seus ofícios preferisse viver de seus parentes e proteção dos trabalhadores (Polanyi, 1957: 77-85); Mencher, 1967). As
conhecidos, da caridade pública ou do nada a alistar-se como assalariados. Os workhouses foram sobretudo uma criação do período que vai de 1590 a 1640,
vagabundos e os pobres, no sentido mais amplo de ambos os termos, mas foi a lei de 1832 a que terminou de convertê-Ias em lugares indesejáveis.
converteram-se no pesadelo dos séculos XV a XIX. Para alguns eram a É difícil saber se as workhouses se inspiraram no modelo da fábrica ou
expressão mais clara e a conseqüência mais grave da dissolução da velha o contrário, como pensam alguns autores (Pollard, 1965: 161; Bendix, 1963: 41;
ordem; para outros, uma massa de indigentes que se negava a trabalhar. De Ashton, 1977: 90). Parece mais verossímel a primeira hipótese, já que a
qualqu7r forma, tornavam-se um elemento dissonante em uma sociedade que legislação de pobres só começou a incluir a obrigação de um trabalho coletivo,
necesSitava de forma crescente de regularidade e estabilidade nos hábitos de duro e estreitamente regulado no período em que as fábricas faziam sua
trabalho ~Le _Goff, 1985: 31). Para eles colocou-se em ação uma coleção de aparição. De qualquer forma, a similaridade entre o trabalho forçado de pobres
sagas leg~slativas em todos os países, que começaram com fms assistenciais e e vagabundos e o da fábrica não podia deixar de desacreditar este ainda mais.
terminaram por converter-se em uma agressiva política de mobilização da mão O caso francês não foi diferente. Em 1657 ordena-se o ingresso de todos
de obra.
os mendigos de Paris no Hospital Geral, a menos que abandonem a cidade,
Em 1530, Henrique VIII legisla na Inglaterra que os vagabundos capazes com o que o número de mendigos da cidade reduz-se de cerca de 40.000 a 4
de trabalhar serão atados à parte traseira de um carro e açoitados até que saia ou 5.000 que são internados (Foucault, 1967: Il, 308). Um novo édito real de
sangue, após o qual deveriam prestar juramento de que regressariam a seu 1661 ordena que "os pobres mendigos, válidos ou inválidos, de um e outro
lugar de procedência e se poriam a trabalhar; uma nova lei estabelecerá mais sexo, sejam empregados em um hospital, para trabalhar nas obras:
tarde que, em caso de serem presos pela segunda vez, e após serem manufaturas e outros trabalhos" (Ibid.: II, 310-11). No mesmo édito, o re1
flagelados de novo, lhes seria cortada meia orelha, e na terceira seriam estabelece como parte do regulamento a ser observado no Hospital Geral que
executa~os. Eduardo VI estabelece que aquele que se recusar a trabalhar será "para estimular os pobres encerrados a trabalharem com maior
entregue como escravo a seu denunciante, o qual poderá forçá-lo a trabalhar assiduidade e dedicação, aqueles que tiverem chegado à idade de 16 anos,
co~ o u~o de cadeias e do chicote, se for preciso; se escapar por mais de de um ou outro sexo, ficarão com um terço do ganho de seu trabalho, sem
qumz: dias se_rá conden~do à escravidão por toda a vida, e o dono poderá nenhum desconto" (Ibid.: Il, 313). Em 1685, outro édito proíbe toda forma de
vende-lo, aluga-lo ou lega-lo; se escapar pela segunda vez será condenado à mendicidade na cidade de Paris "sob pena do chicote a primeira vez; e na
morte; aquele que for descoberto folgando durante três dias será marcado com segunda, irão às galeras os que forem homens ou meninos, e as mulheres e
um "V" e, o que indicar um falso lugar de nascimento, condenado a ser meninas serão desterradas" (Ibid.: I, 104-105): quatro anos mais tarde há
escravo no mesmo e marcado com um "S"; qualquer pessoa tem direito a tirar cinco ou seis mil pessoas encerradas em Paris. Colbert está perfeitamente
os filhos de um vagabundo e torná-los como aprendizes; os amos poderão pôr consciente do papel formativo da legislação sobre os pobres:
~m s~us escravos argolas no pescoço, nos braços ou nas pernas para melhor
Identificá-los, etc. Isabel legisla em 1572 que os mendigos não autorizados Todos os pobres capazes de trabalhar devem fazê-lo nos dias de
serão açoitados e, se ninguém quiser tomá-los a seu serviço por dois anos, trabalho, tanto para evitar a ociosidade, que é a mãe de todos os males,.
marcados a ferro na orelha esquerda; se reincidem serão executados de como para acostumar-se ao trabalho, e também para ganhar parte de seu
qualq~e~ forma. ]ames I decreta que os juízes de pav-poderão mandar açoitar alimento (Ibid.: I, 110).
em publico os vagabundos e encarcerá-los até seis meses a primeira vez e até
42
Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 43
Um século mais tarde, um "reformador" dos hospitais dar-se-á conta de Nuremberg, Viena, Leipzig, Brunswick, Frankfurt, Munich, Spandau,
que Copenhagen, Estocolmo, Tiverton, Exeter, Hereford, Kingston, etc., etc.
O internamento não era em absoluto uma forma de caridade; nem sequer
os holandeses inventaram um método excelente: consiste em destinar à era principalmente uma medida de ordem pública; era, sobretudo, um
bomba aqueles que desejam exercitar no trabalho; fazê-los desejar o instrumento para forçar a população ao trabalho quando haviam sido destruídas
emprego de cultivar a terra e prepará-los para isso mediante um trabalho as velhas condições de trabalho e as novas não resultavam o bastante atrativas.
muito mais duro (... ). Encerra-se tão somente a pessoa que se trata de Foucault assinalou acertadamente que tinha pouco que ver com urna política
habituar ao trabalho em um reduto que os canais inundam, de tal maneira assistencial dirigida aos pobres, aos enfermos, aos loucos ...
que o afogam se não dá voltas sem cessar à manivela da bomba. Só que
lhe dão tanta água e tantas horas de exercício quanto suportem suas forças Antes de ter o sentido medicinal que lhe atribuímos ou que ao menos
nos primeiros dias; mas se aumenta continuamente mediante graduação queremos conceder-lhe, o confmamento foi uma exigência de algo muito
(...). É natural que se aborreçam de girar assim continuamente e de diferente da preocupação de cura. O que o tomou necessário foi um
serem os únicos ocupados tão laboriosamente. Sabendo que poderiam imperativo -de trabalho. Onde nossa filantropia quisera reconhecer sinais
trabalhar a terra do local em companhia, desejarão que se lhes permita de benevolência para com a enfermidade, só encontramos a condenação
trabalhar como os outros. É uma graça que se lhes ocorrerá mais cedo ou da ociosidade.
mais tarde, de acordo com suas faltas e suas disposições atuais" (Ibid.: (... ) O que hoje nos parece uma dialética inábil da produção e dos
11, 325-6). preços tinha então sua significação real de certa consciência ética do
trabalho em que as dificuldades dos mecanismos econômicos perdiam sua
Como explica Badeau em meio a seu entusiasmo pela utilidade social dos urgência em favor de uma afirmação de valor.
polder, tudo de que o pobre necessita fazer para escapar do castigo é decidir- (... ) Na Idade Média, o grande pecado, radix malorum omnium, foi
-se a trabalhar, isto é, submeter-se às novas relações de produção. Em 1790, a soberba. Se vamos dar crédito a Huizinga, houve um tempo, nos albores
em plena revolução, Musquinet projeta uma casa correcional para vagabundos do Renascimento, em que o pecado supremo tomou o aspecto da avareza,
na qual cada semana o trabalhador mais aplicado "receberá do senhor a cicca cupidigia de Dante. Todos os textos do século XVII anunciam,
presidente um prêmio de um escudo de seis libras, e o que tenha obtido três pelo contrário, o triunfo infernal da Preguiça: é ela, agora, a que dirige a
vezes o prêmio terá obtido sua liberdade" (Ibid.: I, 118). ronda dos vícios e os arrasta (Foucault, 1967: I, 102, 112, 114).
As leis de pobres- ou, como dizia Braudel (1967: I, 56), as leis contra os
pobres - não foram exclusivas dos países de mais rápida industrialização, De fato, é duvidoso que o internamento e o trabalho forçado pudessem ser
Inglaterra e França, mas, isto sim, se desenvolveram nestes de acordo com a justificados como uma forma de se conseguir trabalho barato. O trabalho
consistência daquela. Em Castela, uma ordem de 1351 obrigava todo homem forçado era barato em comparação com o trabalho livre, mas também era
são maior de 12 anos a trabalhar, e outra de 1387 permitia qualquer pessoa muitíssimo menos produtivo. Não tem muito sentido a discussão sobre a
forçar um vagabundo a fazê-lo de graça durante um mês. Entre 1349 e 1401, racionalidade econômica do internamento e do trabalho obrigatório, tal como
uma série de leis forçou também ao trabalho em Portugal (Lis e Soly, 1984: formulam, por exemplo, Polanyi (1957), Blaug (1974), pois do que se trata é de
66-7). Mas parece que as workhouses foram um fenômeno mais específico compreender como se obrigou a população a entrar nas novas regras do jogo,
dos países que levavam vantagem no processo de industrialização e, por não de saber se jogavam bem ou mal os distintos agentes. Mas tampouco era
conseguinte, tinham maior necessidade de mão de obra, uma diferença talvez uma medida moral, nem sequer a expressão exarcebada de urna moral em
apoiada pela saída que a imigração para a América significou para Portugal e acordo com as mudanças econômicas em curso. O próprio Marx parece dar-
Espanha. Workhouses, hôpitaux generaux, Zuchthausem e -lhe mais esta dimensão quando escreve:
Tuchthuizen parece que foram um fenômeno característico da Inglaterra,
França, Alemanha e dos Países Baixos, as zonas industrialmente florescentes (... ) Em fins do século XV e durante todo o século XVI proliferou em
da época. Vêmo-los aparecer em Brujas, Bruxelas, Gante, Ypres, Amsterdam, toda Europa Ocidental uma legislação sanguinária contra a
Worcester, Norwich, Brístol, Lyon, Bremen, Lubeck, Hamburgo, Danzig, etc., vagabundagem. Castigaram-se os pais da atual classe operária, no
enfun, nos novos pólos industriais (Foucault, 1967: I, 107-8; Lis e Soly, 1984: prinápio, por sua transformação em vagabundos e indigentes. A legislação
138 ss.; Piven e Cloward, 1972: 23-25). Logo se estenderiam a Paris, Breslau, tratava-os como a deliqüentes voluntários: supunha que a boa

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vontade deles dependia de que continuassem trabalhando sob as salários razoáveis". O Board of Trade propõe-se a "tornar úteis ao público"
velhas condições, já inexistentes (Marx, 1975: I, 918). os pobres e considera que a origem de sua situação não está nos baixos
salários nem no desemprego, mas na ''debilitação da disciplina e no
Paradoxalmente, Max Weber, que entendeu sempre menos que Marx a relaxamento dos costumes" (Foucault, 1967: I, 106, 117).
especificidade das relações de produção capitalistas, parece ter compreendido A economia política não ficou para trás. Fielding sugeriu obrigar todos os
melhor que ele que não bastavam as leis econômicas para levar os indivíduos pobres a trabalharem por um salário fixo. Berkeley pensava que o melhor que
ao trabalho assalariado e, por conseguinte, o papel que desempenhou a se podia fazer com os mendigos teimosos era convertê-los em escravos
coerção em consegui-lo: públicos por alguns anos. Temple acreditava que deveriam ser encarcerados e
obrigados a trabalhar quatorze horas diárias. Defoe abominava a caridade.
O recrutamento dos operários para a nova forma de produção, tal Child propugnava um sistema generalizado de workhouses. Bellers sugeriu
como se desenvolveu na Inglaterra desde começos do século XVIII, na enviar todos os que não trabalhavam às colônias. Bentham propôs uma
base da reunião de todos os meios produtivos em mãos do empresário, organização de casas de trabalho segundo o modelo de seu panóptico,
realizou-se às vezes utilizando meios coercitivos muito violentos, em enquanto Malthus, Ricardo e Say criticaram toda a legislação assistencial sobre
particular de caráter indireto. Entre estes figuram, sobretudo, a lei de os pobres e defenderam sua supressão. Say propôs diretamente o trabalho
pobres e a lei de aprendizes da rainha Elizabeth. Tais regulamentos forçado (Furniss, 1965: 80-93; Gaudernar, 1981).
fizeram-se necessários dado o grande número de vagabundos que existiam Um instrumento complementar contra a vagabundagem e a fuga do
no país, pessoas que a revolução agrária havia convertido em deserdados. trabalho foram os passaportes internos, livrets de travail e outras formas de
A expulsão dos pequenos agricultores pelos grandes arrendatários e a restrição da mobilidade geográfica que serviam, ao mesmo tempo, para
transformação das terras cultiváveis em pastagens (embora se tenha registrar o bom ou mau comportamento dos trabalhadores como tais. Na
exagerado a importância deste último fenômeno) determinaram que o França do século XIX, todo trabalhaddor sem livret era considerado um
número de trabalhadores necessários no campo se fizesse cada vez vagabundo (Le Goff, 1985: 41).
menor, dando lugar a um excedente de população que se viu submetido ao Mais tarde ou mais cedo, massas de trabalhadores viram-se expropriadas de
trabalho coercitivo. Quem não se apresentasse voluntariamente era seus meios de produção e obrigados a trabalhar, primeiro em seus domicílios e
conduzido às oficinas públicas regidas por severíssima disciplina. Quem, depois nas oficinas, para o capital. Entretanto, pô-los a trabalhar era uma coisa,
sem permissão do mestre ou empresário, abandonava seu posto no obrigá-los a fazê-lo de forma efetiva - segundo os critérios dos empregadores -
trabalho era tratado como vagabundo; nenhum desocupado recebia ajuda era algo completamente diferente. Nas relações de produção capitalistas, o
senão mediante seu ingresso nas oficinas coletivas. Por este procedimento proprietário de capital adquire no mercado a força de trabalho por seu valor de
recrutaram-se os primeiros operários para a fábrica. Só a contra-gosto troca, mas tem ainda diante de si o problema de convertê-la em valor de uso
chegaram a essa disciplina de trabalho. Mas a onipotência da classe efetivo. À diferença das máquinas ou outros meios de produção, a força de
abastada era absoluta; apoiava-se na administração, por meio dos juízes de trabalho está dotada de inteligência e vontade, e depende destas para seu
paz, os quais, à falta de urna lei obrigatória, administravam a justiça tão- rendimento. A redução dos indivíduos à condição de trabalhadores da indústria
-somente de acordo com um conjunto de instruções particulares, segundo doméstica ou assalariados não eliminava o peso das tradições culturais em tomo
o próprio arbítrio; até a segunda metade do século XIX dispuseram a seu da ~:elação entre o trabalho e a vida, entre o esforço de trabalho e o sustento, mas
talante da mão de obra, inserindo-a nas novas indústrias (Weber, 1974: 260- as deslocava simplesmente para o interior de outra relação social e, no segundo
-1). caso, também para outro espaço físico. Em outras palavras, uma vez decidida a
questão da propriedade sobre os meios de produção e o produto ficava ainda por
Os escritores para o grande público, em sintonia com os poderes de seu resolver a do controle sobre o processo de produção.
tempo, lançaram-se também à caça. Um folheto atribuído a Dekker, Grevious No caso da indústria doméstica, a separação física entre empregador e
groan for the public, queixava-se de que "muitas paróquias lançam a empregado, de um lado, e seu corolário, a não segregação entre o lugar de
mendigar, a burlar ou a roubar para viver, os pobres e os trabalhadores válidos trabalho e a casa e o meio familiar e social do trabalhador, de outro, constituíam
que não querem trabalhar, e desta maneira, o país está infetado condições particularmente favoráveis para que o trabalhador conservasse o
miseravelmente". Em 1630, uma comissão régia recomenda perseguir "todos controle sobre o processo de produção, isto é, sobre as técnicas produtivas e,
aqueles que vivam na ociosidade e que não desejem trabalhar em troca de sobretudo, sobre a duração, o ritmo e a intensidade do trabalho.

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O manufatureiro não tinha nenhuma forma para forçar seus de uma exigência extravagante a outra, até que a carga se tornou
trabalhadores a fazer um número dado de horas de trabalho. O tecedor e o demasiado intolerável para ser suportada. Vocês fixaram o número de
artesão domésticos eram donos de seu tempo, começando e terminando nossos aprendizes, e muitas vezes até o de nossos oficiais. Vocês
quando o desejassem. E, embora o empregador pudesse elevar o despediram um certo número. de nossos operários e não deixaram que
pagamento por peça com o objetivo de estimular o empenho, acabava outros ocupassem seu lugar. Pararam todas as máquinas de chapa e
descobrindo que, na realidade, isto reduzia a produção. O trabalhador, que chegaram até a destruir os cilindros diante de nossos olhos. Puseram
tinha um conceito bastante rígido do que considerava como um nível de vida restrições à máquina rotativa. e ditaram até mesmo o tipo de padrão a ser
decente, preferia o ócio aos rendimentos, a partir de um certo ponto; e, impresso. Ou negam, em caso de urgência, a trabalhar à luz da lamparina,
quanto mais altos fossem seus salárics, menos teria que fazer para alcançar e obrigam até mesmo nossos aprendizes a fazer o mesmo. Despedem
este ponto. Em momentos de abundãncia o camponês vivia para o dia, não nossos supervisores quando não lhes agradam e nos obrigam a aceitar
pensando em absoluto no amanhã. Gastava muito de sua magra ração na empregados detestáveis. Ultimamente, desafiam toda subordinação e toda
taverna ou cervejaria locais; ia para a farra no sábado de pagamento, no boa ordem, e em lugar de mostrar deferência e respeito para com seus
domingo sabático e também na "Santa Segunda-Feira", voltava de má empregadores, vocês os tratam de um modo depreciativo e pessoalmente
vontade ao trabalho na terça, começava a aquecer na quarta e trabalhava ofensivo ('Nebb e Webb, 1950: 75-76).
furiosamente na quinta e na sexta para terminar a tempo para outro longo
fun-de-semana (Landes, 1969: 58-59; vejam-se também Medick, 1976; Ainda em fins do século XIX, os curtidores, os alfaiates, alguns ofícios
Levine, 1977; Berg, 1985; Kriedte, Medick e Schlumbohn, 1986). metalúrgicos, numerosas associações locais de litógrafos e algumas de
vidreiros proibiam na França, com êxito, o trabalho por tarefa (Fridenson,
Os artesãos, em sua maioria, de fato, eram independentes ou estavam 1978: 379).
li.'! submetidos ao trabalho domiciliar, honravam de um modo ou outro a "Santa Mas quando os patrões eram capazes de impor eles próprios o horário
Segunda-Feira" e até a "Santa Terça-Feira", isto é, dedicavam esses dias à aos operários, estes podiam ainda conservar certa capacidade de
recuperação dos excessos do domingo, costume que se manteve durante um resistência. Assim, por exemplo, os cavadores das mii1as de carvão
longo tempo uma vez convertidos em assalariados. Entre os ingleses era inglesas decidiam por si mesmos seu horário no trabalho por turnos, ou
denominado o Blue Monday, respeitado escrupulosamente por sapateiros, entravam na hora fixada pelo J)atrão mas saíam por sua conta ao considerar
alfaiates, mineiros, gráficos, oleiros, tecedores, costureiros, cuteleiros, cumprida a produção do dia - embora isto não signifique que tivessem
pedreiros, etc. (Thompson, 1967: 73; Douglass, 1977: 253). Também era horários certos, pois trabalhavam por subcontratos (Samuel, 1977: 51).
costume na França, onde era conhecido, mais prosaicamente, como faire le Mesmo quando já ia bastante avançada a industrialização, não era
lundi (Fridenson, 1978: 371). Ou, como dizia Duveau: "O domingo é o dia da infreqüente que, depois de horas ou dias de trabalho intenso, este fosse
farru1ia, a segunda-feira o da amizade" (Thompson, 1967: 74). Na Alemanha subitamente interrompido para organizar uma festa, como entre os
praticava-se o blauen Montag, de características similares, e se possível marceneiros de Nova York antes da Guerra de Secessão; ou que um
seguido da terça-feira e da quarta-feira (Kriedte, Medick e Schlumbohm, 1986: homem lesse o jornal para o resto - pago por cotização -, ou que todos
105). Na Rússia, antes de 1914, era um costume arraigado entre os interrompessem o trabalho para ir ao bar, como entre os cigarreiras do
trabalhadores ao qual, com freqüência, se somavam os patrões (Bonnell, 1983: · fmal do século XIX; ou que os toneleiros deixassem de trabalhar por
64-5). O costume existiu também, pelo menos, entre os belgas, os suecos, os completo no dia do pagamento semanal (Gutman, 1976: 34-7).
mexicanos (Thompson, 1967: 74) e os brasileiros (Cãndido, 1987: 87). Todos esses exemplos denotam a preferência _: à qual se aludiu antes
Exagerando, sem dúvida, Ure (1967: 369) queixava-se de que, além de - dos trabalhadores pelo ócio, antes que por salários mais altos, quando
outras barbaridades, os gráficos impunham seus horários a seus patrões. De se punha a alternativa. Isto era aigo que tinha sido bem compreendido
fato, não faltavam restrições corporativas cuja efetividade dependia da força pelos porta-vozes da indústria desde o primeiro momento. O doutor
relativa dos trabalhadores. Um empresário de Manchester dirigia-se Johnson afirmava no século XVIII que "subir os salários dos diaristas era
amargamente, em nome de todos, aos estampadores de Manchester em 1815: um erro, porque isso não os faz viver melhor, mas simplesmente mais
ociosos" (Hill, 1975: 265). Os patrões e os autores mercantilistas
Concedemos um por um o que devíamos ter resistido a conceder, coincidiam amplamente a esse respeito (Mencher, 1967: 9). Segundo
resolutamente, todos; e vocês, alegres pelo êxito, foram sendo arrastados Towsend: ''Todos os fabricantes estão de acordo em que os pobres

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raramente são diligentes, exceto quando o trabalho é barato e o grão é termos assépticos como os da ''curva decrescente qe oferta de trabalho'', ou
caro" (Furniss, 1965: 123). Arthur Young não duvida disso: "Qualquer ser estigmatizada na linguagem indignada de Malthus e Ure, para os quais os
um, exceto um idiota, sabe que as classes baixas devem ser mantidas na trabalhadores eram "inativos, preguiçosos e sentiam repugnância pelo
pobreza, ou nunca serão industriosas'' (Tawney, 1947: 224), e o mesmo trabalho'' (Bendix, 1963: 89). Mas, de qualquer forma, esses hábitos de
pensavam Petty, Law, Hume, Hanway e outros (Furniss, 1965: 120 ss.). trabalho entravam em colisão com a busca de lucro pelos empresários, com sua
Em 1747 afirmava-se que o homem ''que possa subsistir com três dias, necessidade de dispor dos produtos acabados segundo os prazos acordados,
manter-se-á ocioso e bêbado o resto da semana" (Hill, 1975: 263). A etc., e, sobretudo e em primeiro lugar, com a regularidade exigida pelo
primeira parte desta afirmação não devia ser um simples conto, pois trabalho mecânico. Edward Cave, que queria introduzir a maquinaria
podem-se encontrar lamentos parecidos entre os patrões de outros aperfeiçoada por Wyatt, escrevia ao colaborador deste, Lewis Paul:
lugares e datas. Em Paris, até finais da década de 1820, certos ofícios
negavam-se a trabalhar mais que três dias por semana (Perrot, 1978: 351). A metade de meus trabalhadores não veio trabalhar hoje e não me
Estas pautas de trabalho não resistiram em geral à industrialização, mas produz um grande entusiasmo a idéia de depender de gente semelhante
não faz muito podiam-se encontrar ainda restos delas em alguns setores (Wadsworth e Mann, 1931: 433).
organizados mediante o procedimento dos contratos por tarefa. Douglass
(1977: 252) dá testemunho disso: Por isso proliferaram diversos sistemas disciplinares com a intenção de
submeter os trabalhadores à disciplina fabril. Se dermos crédito a Andrew Ure,
Durante os meses de inverno podia-se ler no quadro de anúncios da o mérito de Arkwright não consistiu na invenção da throstle, cujos elementos
mina uma nota de um diretor que dizia: "Estou muito preocupado com a essenciais já haviam sido introduzidos por Wyatt, mas em disciplinar a força de
quantidade de homens que falta ao trabalho''. A resposta, escrita à mão, trabalho:
abaixo, era: "Então enforca-te, porque está começando o tempo bom".
Num encontro de massas sobre o absenteísmo convocado por um diri- Na minha opinião, a principal dificuldade não estava tanto na invenção
gente empresarial de Doncaster havia um capataz implorando aos homens de um mecanismo propriamente automático para esticar e trançar o
desde o palanque: "Por que vocês trabalham quatro turnos por semana?" algodão em um fio contínuo, quanto na distribuição dos diferentes
Responderam-lhe em coro: "Porque não podemos viver com três!" membros do aparato em um organismo cooperativo, em movimentar cada
órgão com a velocidade e precisão adequadas e, sobretudo, em preparar
De maneira geral, os trabalhadores pré-industriais pareciam valorizar seu os seres humanos para renunciar a seus hábitos inconstantes de trabalho
ócio mais que o dinheiro e o consumo, a partir de um certo ponto; com o quê, e identificar-se com a regularidade invariável do autômato complexo.
a prosperidade das manufaturas, se trazia consigo maiores salários, voltava-se Planejar e administrar com êxito um código de disciplina fabril, adequado
contra sua produtividade. Os mineiros de Yorkshire, os operários de à necessidade da diligência fabril, foi a empresa hercúlea, o nobre feito de

I
Manchester, assim como os trabalhadores agrícolas e, ao que parece, os Arkwright (... ). Na prática, necessitava-se de um homem com a ambição
I trabalhadores em geral, reduziam suas horas de trabalho quando os salários e a fibra de Napoleão para submeter os temperamentos obstinados dos
I eram mais altos (Furniss, 1965: 119; também Grazia, 1964: 187). "Quando o trabalhadores acostumados a paroxismos irregulares de diligência (Ure,
comércio interior e o comércio exterior da Grã Bretanha se desenvolveram, os -1967: 11).
j salários subiram, e os operários exigiram trocar uma parte de seus
rendimentos por mais ócio''. Por isso os patrões, que ainda não tinham podido A maquinaria em si foi um instrumento contra a mãó rebelde do trabalho.
submetê-los ao trabalho fabril, recorreram uma e outra vez ao parlamento, no Através da desqualificação do trabalho, da imposição de um ritmo mecânico e
século XVIII, para que forçasse mediante leis os trabalhadores a domicílio a da possibilidade de substituir os artesãos de costumes arraigados por
entregar o produto terminado em prazos determinados (Marglin, 1973: 72). camponeses, por trabalhadores braçais não qualificados, por mulheres e
crianças, a inovação tecnológica serviu para ir quebrando pouco a pouco a

~
'!' Controle operário e disciplina fabril resistência à nova vida fabril. A tundidora resultou ser um eficaz instrumento
contra os operários "indisciplinados, bebedores brigões" em Vienne, França
[.l'
A preferência pelo ócio antes que pelo trabalho e pelos rendimentos, ou a (Perrot, 1978: 351). Um industrial de Manchester do século XIX, interrogado
'
. busca de um equihbrio entre trabalho e consumo pode ser conceptualizada em por Buret, declarava:
-.~,- '
•.

~; 50 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 51


t
(. .. ) A insubordinação de nossos operários tem-nos feito sonha: com pode-se entender melhor, ainda, a resistência da Associação Internacional dos
prescindir deles( ... ). A mecãnica liberou o capital da opressão do trabalho Trabalhadores a propugnar o trabalho de mulheres e crianças, apesar da
(Perrot, 1978: 352). decidida aposta em favor do mesmo feita por Marx e pelos comunistas em seu
interior.
As multas foram outro sistema amplamente disseminado (Pollard, 1965: Embora os trabalhadores assalariados perdessem logo o controle sobre a
187). Na França e na Bélgica, no século XVIII, os operários podiam ser duração de seu tempo de trabalho, mantiveram-no durante um período sobre
multados por chegar tarde, por empregar demasiado tempo na comida, por sua intensidade. E embora tivessem perdido o controle sobre o produto de seu
fumar, por cantar, por jurar, por brigar... (Lis e Soly, 1984: 185). Em Tyk~sley, trabalho - perda que remontava, na verdade, ao sistema de trabalho a
perto de Manchester, na primeira metade do século XIX, um tecedor podia ser domicílio -, mantiveram-no em um grau considerável sobre o processo, ou
multado por ter a janela aberta, por estar sujo, por lavar-se, por apagar ou seja, sobre o procedimento para realizar suas tarefas. As normas de trabalho
acender demasiado cedo sua lamparina, por assobiar, etc., etc., além de por auto-impostas eram uma forma de controlar indiretamente a intensidade do
qualquer coisa que pudesse ser julgada pela direção como manifestação de trabalho, quando não também diretamente, e os sindicatos de ofício um
tentativa de evitar o trabalho (Hammond e Hammond, 1919: 19-20). Nas instrumento para fazê-las respeitar pelos empregadores. Assim, por exemplo,
fábricas francesas do mesmo século podia-se sofrer multas por conversar, ler,
limpar-se, comer ou beber durante o trabalho, pegar as sobras, limpar as mãos nos estatutos da seção local número 300 dos trabalhadores em vidro de
no tecido, pentear-se, polir os sapatos, fumar, cantar, assobiar, brincar no janela dos Knights of Labor (nos Estados Unidos em fins do século
recinto da fábrica, discutir, etc. (Le Goff, 1985: 31). XIX) havia 66 "normas de trabalho". Estas especificavam que "em cada
Lênin (1972: 11, 33-72) fez uma acerba crítica da Lei de Multas implantada crisol'' devia estar presente todo o grupo de trabalho; que a fusão só
contra os trabalhadores fabris pelo czarismo, embora em parte fosse uma podia ser feita no início do sopro e na hora do almoço; que os sopradores
tentativa de refrear a arbitrariedade dos patrões - em resposta ao protesto e os levantadores não deviam trabalhar a um ritmo superior a nove
operário. À primeira vista pode parecer que as multas não eram senão um laminados por hora, e que o tamanho padrão de cada laminado de força
truque dos patrões para abocanhar uma maior quantidade de mais-valia, o que padrão devia ser de 40 x 58 para cortar lâminas de 38 x 56. Não se devia
provavelmente tinha algo de certo. Mas o fato de que o sistema conti.-masse trabalhar em determinadas festividades, e nenhum soprador, levantador
mantendo toda sua vigência depois que se obrigou os patrões a destinar o ou cortador podia trabalhar entre 15 de junho e 15 de setembro. Em outras
obtido a diferentes formas de assistência social aos trabalhadores, indica que palavras, o sindicato proibia trabalhar durante os meses de verão. Em
era fundamental seu caráter disciplinador. As multas não só eram um meio 1884, a seção local levou a cabo com êxito uma longa greve para proteger
direto para impor a disciplina, mas também um poderoso meio indireto, pois, seu limite de 48 caixas de vidro por semana, norma que seus membros
ao serem descontadas dos salários, atavam o operário à empresa de forma consideravam chave para preservar a dignidade e o bem-estar do ofício
recorrente. (Montgomery, 1985: 30-31).
Outra forma de quebrar a resistência dos trabalhadores varões adultos foi,
é claro, sua substituição por mulheres e crianças. Estas, acostumadas a O sindicato nacional de modeladores de ferro estabeleceu que nenhum
submeter-se à autoridade patriarcal no seio da família, ou sem haver chegado membro podia ir trabalhar antes das sete da manhã (lbid.: 32). Um estudo de
a conhecer sequer a liberdade consciente - no caso das crianças - eram 1912 sobre a indústria do aço revelou que, nos fomos a fogo aberto, o ócio dos
muito mais fáceis de disciplinar que os adultos apegados a suas tradições de trabalhadores ia de 54 por cento do turno, para um segundo ajudante, a 70 por
independência (Grazia, 1964: 188). As crianças, além disso, podiam ser cento, para um operador de aço. Analogamente,
tratadas com uma política do porrete, fazendo-as passar, além disse, pelas·
sanções comuns aos adultos (demissões, multas e outras), por outras tais os homens dos altos fornos trabalhavam denodadamente 38 por cento do
como as queixas aos pais, os castigos corporais, os confinamen:os, as turno, moderadamente durante 3 por cento e muito pouco, para não dizer
vestimentas degradantes, etc. (Pollard, 1963: 263). O destacado papel dos nada, durante 47 por cento, e dedicavam os 12 por cento restantes a
orfanatos na provisão de mão de obra para as primeiras oficinas coletivas pode observar o fomo (lbid.: 59).
explicar-se, assim, como um recurso ao grupo me'nos capaz de opor
resistência. Os orfanatos tinham uma organização mais autoritária que a As indústrias de montagem continuaram sendo por muito tempo um
fanu1ia, e os õrfãos não seriam defendidos por ninguém. Desta perspectiva bastião dos trabalhadores qualificados, uma vez que seus conhecimento e

52 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 53


destrezas permaneceram imprescindíveis até a chegada da maqu~ria (. .. ) sabotagem, sindicalismo revolucionário [isto é, demandas de
automática de precisão e do taylorismo (Landes, 1969: 306-7). Os artesãos e controle operário da produção em seu conjunto], resistência passiva. Não
os oficiais levaram consigo às oficinas um alto e rígido conceito sobre a havíamos tido notícia dessas coisas até que ouvimos falar de
dignidade do trabalho. management científico e dos novos métodos de produção (Green, 1980:
89-90).
Por exemplo, a tendência dos imigrantes camponeses (nos Estados
Unidos, mas provavelmente em qualquer parte) para trabalhar
afanosamente quando estava presente a autoridade e a folgar quando A reforma moral dos trabalhadores
estava ausente (... ) logo foi substituída nas minas de carvão ou nas oficinas
de fabricação de vagões pela ética do artesanato, de negar-se a trabalhar A redução dos trabalhadores às condições do trabalho fabril não foi apenas
quando o patrão estivesse observando (Montgomery, 1985: 61). um processo de luta em torno das condições materiais, mas também uma
Kulturkampf, um processo de prolongado conflito cultural. Filantropos,
Como se pode imaginar, essas tradições artesanal e camponesa reformadores, moralistas, economistas, dirigentes religiosos e outros
acolheram muito mal os começos do taylorismo. Na Rússia czarista deu intelectuais orgânicos da nova ordem social atuaram em sintonia quase perfeita
lugar, em 1914, a um onda de greves em São Petersburgo similar à da para criar a nova ordem moral que devia justificá-lo e presidi-lo. Esta foi uma
revolução de 1905 (Hogan, 1983). Mas nos Estados Unidos, onde ambos os campanha multifacetada e seriam necessários muito tempo e muito espaço
grupos tinham sido arrancados de suas raízes, a aceitação não foi para dar conta de todos os seus aspectos, mas vale a pena deter-se em alguns
necessariamente melhor. deles. Já vimos a opinião dos economistas e veremos em seguida a dos
reformadores religiosos, mas deve-se dizer que tampouco faltaram ao concerto
(... ) Para o artesão, os estudos de tempo simbolizavam os humanistas. Erasmo nos Colloquia e Morus na Utopia execraram a
simultaneamente o roubo de seu conhecimento por parte dos patrões e mendicidade, assim como outros tais como Agrippa, Elyot e Starkey, propondo
um ultraje contra seu sentido de conduta honrada no trabalho (... ). Os todos eles o trabalho forçado. Também o fez, com especial força, o espanhol
modeladores do arsenal de Watertown tinham um acordo pelo qual juan Luis Vives em sua De subventione pauperum (Lis e Soly, 1984: 104-5).
ninguém trabalharia contra o relógio. Um mecânico do arsenal de Rock A religião exerceu um grande papel na aceitação das novas condições de
Island, que foi visto medindo a base de uma plaina de broca e braçadeira vida. Sem necessidade de nos determos em velhas polêmicas como, por
padronizadas, foi isolado por seus companheiros de trabalho. Os homens exemplo, a que divide a marxistas e weberianos em torno da ordem causal
que realizavam estudos de tempo na American Locomotive Company, de entre o desenvolvimento do capitalismo e a reforma protestante, é óbvio que
Pittsburgh, foram atacados e feridos pelos trabalhadores em 1911, apesar o protestantismo em geral e o puritanismo em particular foram essepciais para
do fato de que os haviam introduzido na fábrica com o consentimento dos azeitar a expansão do novo sistema econômico. A reforma protestante é
sindicatos. A aparição de relógios e de cartões de trabalho na Norfolk habitualmente tida em conta, sobretudo, pelo papel da teoria da predestinação
Navy Yard em 1915 provocou uma enorme greve e uma manifestação no na conformação da nova mentalidade burguesa e, em geral, por sua ética do
sindicato, "num enérgico protesto". Cinco anos antes, os mecânicos de trabalho, mas tanto ou mais importante que isto foram seus efeitos sobre o
Starret Tool haviam decidido considerar esses relógios ''como parte do calendário de trabalho dos trabalhadores. A proliferação de dias festivos na
mobiliário". A mera suspeita de que se ia introduzir um estudo de tempos Europa medieval estava estritamente vinculada ao santoral e às festividades
nas oficinas de reparações da Illinois Central Railroad foi suficiente para religiosas do catolicismo, então simplesmente cristianismo. O rito ortodoxo não
forjar uma frente unida de todos os ofícios e provocar uma greve em 1911 devia ficar para trás, pois parece que contava com não menos de oitenta
que durou quatro sangrentos anos (Montgomery, 1985: 144-5; sobre festividades por ano (Gutrnan, 1976: 24). A reforma protestante, ao eliminar o
Watertown, veja-se também Green, 1980: 71). culto aos santos, eliminou também, de uma penada, as festas associadas a
eles.
Em geral, a introdução do taylorismo suscitou em seus primeiros cenários Ali onde os reformadores contaram com um poder mais direto,
- ferrovias, arsenais, fábricas de munições, etc. - formas de resistência até empregaram-no na supressão, além disso, das festas laicas, como o demonstra
então desconhecidas entre os trabalhadores norte-americanos. Um dirigente o exemplo da supressão das quartas-feiras livres dos aprendizes em Genebra,
sindical declarava diante da Comissão de Relações Industriais: em 1561 (Hill, 1964: 148). Lutero interveio na reorganização da assistência

54 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola -- CENTRO Dt EOUCAÇAO -- 55


otRI I01EC~
pública em Leisnig, em 1523; Zwinglio o fez em Zurich, em 1526,_e C_al:mo em esteve estreitamente associado ao empenho em supnmrr o domingo
Genegra, em 1541: em todos os casos incluía-se o trabalho obngatono. continental, afirmar os hábitos de trabalho e, em geral, converter os recém
0 puritanismo converteu o ano num período de trabalho constante, com a chegados à ética puritana do esforço. E, sobretudo, ao aumento da
única exceção do domingo sabático. A implantação forçosa deste deve ~n~en­ produtividade. Como dizia um superintendente de uma fábrica Ford:
der-se como uma autolimitação dos laboriosos e uma. forma de r~str:ngrr a
concorrência que respeitava as exigências de regulandade - se1s dias de Para obter a produção normal de uma jornada, o trabalhador está
trabalho e um de folga - da nova ordem (Hill, 1964: 151-2). , . , programado de forma a sustentar um ritmo enérgico durante oito horas
Não bastava, ademais, limitar o descanso, mas era necessan? .tambem por dia; isto só se pode conseguir quando o trabalhador e seu lar levam um
controlá-lo. O domingo sabático, dedicado à oração, à observância relig~osa e ~o vida bem regulada. Se se quer que o empregado mantenha seu alto nível
recolhimento em família, era a alternativa ao domingo de diversão que se ?~d1a de produtividade nesta fábrica, as preocupações, a vida descuidada, a
prolongar em cansaço ou ressaca na segunda-feira. de t~b~o. Os hab1tos embriaguez e a doença devem ser eliminadas (Chandler, 1964: 183).
tradicionais que não se encaixavam na nova cultura mdust~ ~.que ser
desacreditados, e o ócio dos sábados e domingos era para os mdustruus e ?ara A preocupação com o álcool e com sua influência sobre a produtividade
os reformadores ingleses um deles (Pollard, 1965: 194). Nos Estados U~dos não foi nem é exclusiva dos países capitalistas ocidentais. A. N. Chikolev,
j defendia-se o domingo de observância contra o chamado ''dommgo especialista industrial a serviço do Ministério da Marinha da Rússia czarista,
continental'' (o da Europa continental, em comparação com o da Inglaterra queixava-se de seus nefastos efeitos em princípios do século (Hogan, 1985:

I puritana), de folga e diversão (Hays, 1957: 100). , . .


(Entre parênteses, digamos que valeria a pena que alguem mvesbgasse em
que momento transformou-se a frase bíblica em: "Ganharás o pão com o s~or
80). Em nossos dias, a equipe governamental encabeçada por M. Gorbachov,
obcecada especialmente pela baixa produtividade do trabalho na URSS,
começou seu mandato com a proclamação de um conjunto de medidas contra

I,,
!
~I
do teu rosto". Nas economias de subsistência, como era _a do ~tigo
Testamento, 0 pão e os alimentos em geral não se ganham, mas sao produz1dos
ou, na pior das hipóteses, são cons~guidos, ?~tidos, etc. ·:Ganhar" é uma
expressão própria de uma econorrua mo~etána ~esem:_olVlda, do tra~alho
o consumo de álcool que constituem quase uma ''lei seca''.
A divisória entre os que já se haviam adaptado às novas pautas de trabalho
e os que ainda não o haviam feito coincidiu muitas vezes com linhas de
diferenciação étnicas. Não foram apenas os mdios e os negros que foram vistos
assalariado, cuja transformação em cons1gna bíblica nao denota senao a como incapazes, em um primeiro momento, de se adptarem ao ritmo e à
adaptação da doutrina religiosa à nova ordem). intensidade do trabalho próprios das populações que já haviam passado pela
As campanhas contra o álcool podem ser interpretadas dessa forma. Seu revolução industrial; isto também ocorreu com grupos de homens brancos de
consumo nas festas, mesmo quando não se prolongavam em Santa. Segunda- diferentes procedências. Assim, .os irlandes suportavam menos a disciplina
-Feira e Santa Terça-Feira ou em interrupções esporádicas, era VISto yelos fabril que os ingleses (Ashton, 1977: 94), embora, por outro lado, estivessem
empreg<idores, em parte com razão e em parte levando a prev~nçao ~~ dispostos a trabalhar por salários mais baixos. Nos Estados Unidos, cuja
preconceito, como uma causa de diminuição da produtividade; para nao ~lar Ja população é o produto de sucessivas ondas de imigração, passaram pelas
de seu consumo cotidiano (Pollard, 1965: 193-4). No século XVIII era VISto na mesmas demonstrações de inadaptação os ingleses, os judeus, os poloneses,
Inglaterra e na França como a causa da miséria do trabalhador ou como_ o os mexicanos, os sulistas, os eslavos, os italianos, etc. (Rodgers, 1974). Isto fez
centro de seus defeitos (Fumiss, 1965: 100; Perrot, 1978: 351). Ademms, com ·que o processo de assimilação aparecesse, com freqüência, mais como
beber não era um vício individual, mas também e so]:>retudo um a_to social e um processo multifacetado de aculturação que como o que na realidade era,
público (Kriedte, Medick e Schlumbohm, 1986: 106). E bem co~ec1do o papel um processo de socialização para o trabalho e de repressão das práticas
das tavernas na Revolução Francesa de 1789 ou no desenvolVlffiento da so- consideradas inconvenientes para a nova ordem industrial. Quando a Young
cial-democracia alemã, e o evangelista Billy Sunday via nos saloons de Men's Christian Association começou a dar aulas de inglês aos
Chicago "o anarquista do mundo" e uma ameaça contra a "grande _v~~a trabalhadores imigrantes da empresa International Harvester, em 1911, a
bandeira norte-americana" (Hogan, 1978: 170-1). Embora para a pr01b1çao primeira lição rezava:
norte-americana confluíssem outros motivos, como os do reformismo mora-
lista os da pequena burguesia desejosa de ordem ou os das mulheres pouco Ouço o apito. Devo apressar-me. Ouço o apito de cinco minutos. É

Ii disp~stas a suportar os maus tratos de um marido ~eberrão, can~ados estes


últimos através da opção proibicionista do moVlffiento sufrag~sta, sempre

56 Mariano Fernández Enguita


hora de entrar no trabalho. Pego o cartão do quadro de entrada e coloco
no quadro do departamento. Troco de roupa e me disponho para trabalhar.

A Face Oculta da Escola 57


-I
1

Soa o apito de irúcio. Como meu almoço. Até então é proibido comer. Soa dedicação do exército desmobilizado a tarefas produtivas para continuar na
o apito cinco minutos antes de começar. Preparo-me para ir trab~ar. mobilização militar de trabalhadores. A segunda refletiu-se no escrito As. '
Trabalho até que soe o apito de saída. Deixo meu lugar em ordem e limpo. tarefas imediatas do poder soviético, onde Lênin apostava abertamente e
Ponho todas as minhas roupas no compartimento. Devo ir para casa com toda a franqueza na implantação do taylorismo.
(Hogan, 1978: 167).
Aprender a trabalhar, eis aqui a tarefa que o poder soviético deve
Para nós, esta recorrência é uma demonstração a mais de que a resistência colocar em toda a sua envergadura diante do povo. A última palavra do
ao trabalho industrial não foi o resultado de excepcionais peculariedades capitalismo neste terreno - o sistema Taylor -, assim como todos os
culturais de tal ou qual povo, mas uma resposta generalizada e recorrente de progressos do capitalismo, reúne em si toda a refinada ferocidade da
todos os povos diante do caráter excepcional na história dos processos de exploração burguesa e muitas valiosíssimas conquistas científicas
trabalho trazidos pela industrialização. concernentes ao estudo dos movimentos mecânicos durante o trabalho, a
supressão dos movimentos supérfluos e lentos, a elaboração dos métodos
Hábitos mais que irregulares de trabalho uniram a conduta de de trabalho mais racionais, a implantação de melhores sistemas de
trabalhadores fabris de primeira geração separados uns dos outros pelo contabilidade e controle, etc. A República soviética deve adotar, a todo
tempo e pela estrutura global da sociedade que enfrentavam pela primeira custo, as conquistas mais valiosas da ciência e da técnica neste domínio
vez. Poucas populações de classe operária norte-americana diferiam em (...) . Deve-se organizar na Rússia o estudo e o ensino do sistema Taylor,
tantos aspectos essenciais (seu sexo, sua religião, seu lugar de nascimento sua experimentação e adaptação sistemáticas (Lênin, 1970: 11, 695).
e sua cultura rural e aldeã prévia) quanto as jovens e as mulheres das
oficinas de Lowell da Era dos Bons Sentimentos e os trabalhadores do aço Lênin não compreendia que, ao importar o que acreditava ser uma simples
procedentes do Sul e do Leste da Europa na Era Progressiva. Descrever opção técnica inserida dentro de diferentes relações de produção, ia importar
as similaridades entre suas expectativas sobre o trabalho fabril não também as relações sociais do processo de produção capitalista propriamente
significa desprezar essas importantes diferenças, mas sim sugerir que dito, o que Marx chamava o ''despotismo da divisão manufatureira do
homens e mulheres muito diferentes em outros aspectos interpretaram tal trabalho" ou a "subsunção real do trabalho ao capital" (Braverman, 1974:
trabalho de forma similar (Gutman, 1976: 25-26). 12-2; Querzola, 1978). No mesmo erro cairia, anos depois, Gramsci em sua
defesa do ''americanismo''. Mas o que importa aqui não é discutir o acerto ou
o erro desta opção, mas avaliar as dificuldades da imposição do trabalho
A variante burocrática industrial em um contexto de coletivismo burocrático - ou, se se prefere, de
socialismo real.
A ·industrialização da URSS traz uma expenencia completamente O regime nascido da Revolução de Outubro operou desde o princípio em
diferente, por razões óbvias, mas com o elemento comum da dificuldade de uma relativa situação de desvantagem frente ao capitalismo ao faltar-lhe o
incorporar a população às novas pautas de trabalho. Embora a Rússia tivesse instrumento principal deste para a mobilização eficaz da mão de obra: o
uma longa tradição de autocracia e despotismo, era essencialmente uma mercado de trabalho com seu exército de reserva industrial. Dado que o posto
economia camponesa de subsistência com reduzidas ilhas industriais, de .trabalho era e é algo garantido, chegou-se à paradoxal situação de uma
essenciais desde o ponto de vista do processo político revolucionário, mas menor identificação entre o trabalhador e sua empresa que sob o capitalismo.
insignificantes da perspectiva dos usos sociais e da cultural em geral. A Neste, o trabalhador pode odiar sua empresa e seu empresário, mas não pode
Revolução encontrou-se com toda a tarefa da industrialização por diante, mas deixar de sentir-se parcialmente identificado com eles, na medida em que da
sem o processo de urbanização e transformação cultural percorrido já então sorte de sua empresa no mercado depende seu próprio posto de trabalho. Em
pela Europa Ocidental. um sistema de propriedade pública, pelo contrário, o trabalhador pode sen-
,ia Desde o primeiro momento colocou-se o problema da mobilização da mão tar-se à porta de sua casa a ver passar o cadáver de sua empresa, na
f. de obra e seu emprego eficaz na indústria. Desta perspectiva deve-se entender tranqüilidade de que será sustentado pelo erário público ou se lhe oferecerá
1j a proposta de Trotsky de criar um exército do trabalho e a especial outro posto de trabalho ou subsídio.

I
preocupação de Lênin por elevar a produtividade. A primeira foi posta em À falta de um mecanismo coercitivo econômico como o do mercado de
prática durante o breve período do "comunismo de guerra", começando pela trabalho, as autoridades soviéticas tinham em suas mãos dois instrumentos

58 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 59


f
I
alternativos: a propaganda e a coerção política. Parte da primeira foram e são solução, pois, à parte as leis que protegiam os trabalhadores e a possibilidade
o culto à figura do trabalhador, o realismo e o construtivismo socialistas e o de regressar ao campo, a economia soviética sempre havia sofrido de escassez
sem-fun de medalhas, distinções, prêmios, etc., aos produtores mais de mão de obra nas condições de produtividade existentes. Contra a falta de
destacados. Parte da segunda, a mobilização forçada, as deportações maciças, disciplina no trabalho, pois, decretou-se uma série de medidas repressivas e de
os passaportes internos, as regulamentações sobre a ordem no trabalho, os controle tais como os passaportes internos, as carteiras de trabalho, o
castigos exemplares contra a "sabotagem da produção" e, em geral, como racionamento dos produtos básicos e a oferta de casas através das fábricas,
não, a polícia política. Entretanto, ambos os mecanismos são de eficácia etc. Em 1940, o abandono não autorizado do posto de trabalho converteu-se
duvidosa desde o ponto de vista econômico e, de qualquer forma, difceis de em um delito punido com o confmamento num campo de trabalho forçado
serem sustentados por muito tempo. Em consequência, desde suas origens (Swianiewicz, 1965: 154). A privação das vantagens da previdência social e da
até nossos dias, o novo regime soviético tem tido seu calcanhar de Aq'Jiles no casa foi utilizada como castigo para os que acumulavam faltas como a
ritmo mais que moderado de atividade dos trabalhadores (Rochan e Abraham, impontualidade ou empregar demasiado tempo no almoço. Em 1940, uma lei
1983: 461) ou, para dizê-lo mais tecnicamente, em uma baixíssima fiXOU os trabalhadores em seus postos de trabalho, embora medidas desse tipo
produtividade do trabalho (em 1963, por exemplo, a metade, ou menos, que tivessem sido produzidas também na liberal Inglaterra no período de guerra.
nos Estados Unidos) (lnkeles, 1971: 53). Por toda a URSS surgiu um novo tipo de campo de trabalho, não tão duros com
Como outras revoluções posteriores, a soviética teve que enfrentar desde os dos prisioneiros políticos, mas o bastante para dissuadir os trabalhadores de
o primeiro momento a questão dos estímulos à produção. No começo, estes atentar contra a disciplina do trabalho (Ibid.: 155).
foram sobretudo do tipo propagandístico e coletivo: a campanha pela emulação Em algumas indústrias estratégicas e pouco atrativas para os
socialista, os sábados e domingos vermelhos, as brigadas de choque trabalhadores, a organização chegou a ser assunto direto da polícia. Milhões de
constituídas por voluntários, etc. Entretanto, os efeitos dessas medidas kulaks, reais ou presumidos, foram enviados aos assentamentos no Ártico ou
estavam condicionados pela escassa organização do proletariado industrial, que às novas zonas industriais para além dos Urais e submetidos a um regime de
era a base de massas do partido bolchevique, e iam estar também, logo em trabalho forçado (Kochan e Abraham, 1983: 366). A grande indústria madereira
seguida, pelo refluxo da revolução, produto do estancamento e da regressão do Norte esteve sob a direção da N.K.V.D. (Swianiewicz, 1965: 113-114).
econômicos, conseqüência da Primeira Guerra Mundial, da guerra civil, da Outras medidas foram de natureza positiva, como o movimento
intervenção exterior e do isolamento internacional. Grande quantidade de stakhanovista. À diferença da emulação e das outras campanhas do começo, o
operários industriais foram absorvidos pelos aparatos político e militar, caíram stakhanovismo não era um sistema de estímulos propagandísticos que apelasse
nas sucessivas lutas ou se viram obrigados a regressar ao campo pela penúria para a consciência revolucionária dos trabalhadores, embora se colocasse em
econômica, enquanto a nova industrialização se iria basear na mão de obra torno ao mesmo um grande aparato publicitário, mas sobretudo um sistema de
procedente do campo. incentivos econômicos individuais que introduziu notáveis diferenças nos
A coletivização forçada da agricultura desempenhou na URSS um papel salários monetários e outras vantagens em espécie aos trabalhadores. Tinha
similar ao dos cercamentos e da supressão de terras comunais na Europa em comum com o taylorismo a característica de estimular a produtividade
Ocidental (Moore, 1965: 55), liberando mão de obra para a indústria - uma individual para converter suas realizações em normas da produtividade
função que já antes haviam desempenhado, em menor medida, as granjas coletiva, pelo qual suscitou uma forte resistência, tal qual o reconhecia um
coletivas das primeiras levas. Mas, também na URSS, liberar mão de obra era autor tão pouco suspeito de sentimentos anti-soviéticos quanto Maurice Dobb:
uma coisa e empregá-la efetivamente outra.
Os esforços de alguns dos primeiros stakhanoVistas encontraram um
Os camponeses, extraídos de suas aldeias natais, não se sentiam vincula- certo grau de obstrução, não apenas por parte dos dirigentes que, por
dos a nenhuma localidade ou fábrica particulares e viam-se inclinados a levar c0nservadorismo inato ou medo do deslocamento resultante, olhavam com
uma vida semi-nômade. Isto desorganizava gravemente a produção, e as receio os novos métodos, mas muitas vezes por parte de seus próprios
autoridades estavam muito preocupadas com o problema de como diminuir a companheiros trabalhadores, aos quais desgostava qualquer coisa que
excessiva rotatividade da mão de obra (Swianiewicz, 1965: 112). viesse perturbar os métodos de trabalho longamente honrados ou que
conservavam antiquados preconceitos contra a "aceleração". O próprio
Os planos quinqüenais enfrentaram sérios problemas de rotatividade, Stakhanov teve que enfrentar ''certos trabalhadores que o insultaram e o
absenteísmo, impontualidade, falta de empenho, etc. A demissão não era uma acossaram por causa de suas idéias novas" (Dobb, 1948: 440).

60 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 61


I
I
l
f
As manifestações de resistência foram desde a migração constante, a rotativi- (... ) pode dizer-se que o principal: o avanço será tanto mais rápido
dade, a má quãlidade do trabalho ou os danos à maquinaria (Rittersporn, 1978: quanto mais altos forem a disciplina, o grau de organização e a
252-3; Dobb, 1948: 444-5) até, inclusive, a numerosos assassinatos de ''trabalha- responsabilidade de cada um pelo trabalho encomendado, pelos frutos do
dores de choque de vanguarda'' (Levine, 1973: 129). Assim como Chaplin levou ao mesmo (Gorbachov, 1986: 35).
cinema urna magistral paródia crítica do fordismo e da obsessão por converter todo
o tempo de trabalho em tempo produtivo, Wajda refletiu a mescla de motivos e O primeiro ministro compartilha do diagnóstico:
reações em torno do stakhanovismo, embora no contexto polonês.
O fim da era stalinista foi também o dos mecanismos coercitivos na ex- Após analisar de uma forma crítica a situação criada, o Partido adotou
tração de trabalho. Estes foram substituídos por sucessivas reformas basea- medidas para reforçar a direção da economia e, sobretudo, para elevar o
das em complexos sistemas de incentivos individuais e coletivos que, entre- grau de organização e a disciplina de trabalho (Rizhkov, 1986: 9).
tanto, não tiveram muito êxito. Após a queda de Krushev, a era brejneviana
organizou-se em torno de um consenso não declarado: a burocracia não É um problema aberto o de determinar até que ponto um sistema social
oferecia nada aos trabalhadores, mas tampouco se lhes exigia algo. baseado na propriedade coletiva dos meios de produção pode ser capaz de
A URSS e os países do Leste de nossos dias são o melhor exemplo de elevar a produtividade do trabalho, por um lado, e em que medida pode chegar
como a industrialização, a passagem do tempo, a modernização cultural, o a fazê-lo sem os elevados custos sociais associados ao processo sob o
desejo de consumir, a evolução tecnológica e os incentivos econômicos não são capitalismo, por outro. O tempo dará uma resposta, ainda que tarde em ser
suficientes para extrair dos trabalhadores urna produtividade similar à obtida definitiva.
pelo capitalismo ocidental. Qualquer um pode comprovar isto visitando uma
fábrica ou, simplesmente, um bar, pois é difícil não sentir-se assombrado com
a baixa produtividade do trabalho, pelas interrupções, pelo escasso interesse
pelo resultado, etc. Não é necessário entrar na discussão sobre se o desejável
é trabalhar mais e consumir mais, trabalhar menos e consumir menos ou
buscar algum ponto intermediário de equilibrio.
De qualquer forma, é improvável que, no contexto das relações
econômicas internacionais lideradas pelos países capitalistas de maior
produtividade, alguma sociedade possa permitir-se por si mesma outra opção
que a primeira. Para nosso propósito basta assinalar que as pautas de trabalho
do mundo ocidental não são um produto espontâneo nem das necessidades ou
desejos humanos nem do desenvolvimento econômico, mas o resultado de um
prolongado conflito em torno das condiÇões de vida e trabalho. Os atuais
governantes soviéticos parecem inclinar-se pela primeira opção e colocar a
reorganização e intensificação do trabalho no alvo de sua política. Assim o
expressa, na linguagem oblíqua da burocracia soviética, Mikhail Gorbachov:

[Na época de Brejnev] a economia, por inércia, continuava


desenvolvendo-se em um grau considerável sobre a base extensiva,
orientava-se para incorporar à produção recursos de trabalho e materiais
adicionais. Como conseqüência, reduziu-se seriamente o ritmo de

l
I
crescimento da produtividade do trabalho ( ... ) (Gorbachov, 1986: 34).

Disso tira o dirigente soviético três ensinamentos: que se deve examinar


sinceramente o passado, que se deve agir com coerência e decisão e, o mais
substantivo,

62 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 63


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A EXPERIÊNCIA COLONIAL:
A EMPRESA CIVILIZADORA E A
CIVILIZAÇÃO DA EMPRESA

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Compadecemo-nos dos povos pnmii:.!vos e tendemos a imaginá-los
submetidos a um duríssimo trabalho para atender a suas meras necessidades
:I de subsistência. Entretanto, e sem chegar aqui a glorificar o feliz e bom
iI! selvagem, poderíamos invejá-los por numerosas razões, sendo a primeira delas
!
. I o seu trabalho. É o mínimo se levamos em conta, po~ exemplo, que os bemba,
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os hawaianos ou os kuikuru só trabalhavam quatro horas diárias, e os
bosquímanos kung e os kapauku seis; mais ainda se sabemos que os
f!
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j I mesmos bosquímanos trabalhavam dois dias e meio por semana, o que dá
.t j quinze horas semanais, e os kapauku um dia sim e outro não; e muito mais
se consideramos que se trata de períodos de trabalho tranqüilo e marcado por
interrupções. Não se trata de casos excepcionais, mas de uma pauta normal
entre os povos caçadores-coletadores (Lee e Devore, 1968; Sahlins, 1977;
Meillasoux, 1979). Podemos pensar que não trabalha.Vam mais porque com
isso, dado seu primitivismo, só teriam conseguido mais subsistência que não
poderiam guardar e mais objetos que não poderiam transportar, o quê, diga-se
de passagem, significaria atribuir-lhes uma racionalidade da qual nós próprios,
que acumulamos objetos que não necessitamos e que às vezes nem sequer
temos tempo de utilizar, não nos podemos orgulhar; mas, de qualquer forma,
não é essa a questão.
O acesso às técnicas agrícolas foi, logicamente, uma condição necessária
para a passagem da caça e da coleta à agricultura e ao pastoreio, mas

A Face Oculta da Escola 65


provavelmente não suficiente. Seguramente foi mais importante a pressão do chamada ''Escola de Organização e Produção'' apresentaram com força a idéia
crescimento demográfico sobre os recursos naturais, pois os caçadores-cole- de que a lógica econômica do mercado e da acumulação de capital não era
tores necessitavam de grandes extensões para sobreviver. Numerosos povos aplicável à análise do comportamento das unidades domésticas camponesas.
rejeitaram enquanto puderam a agricultura porque implicava um;:: maior Se estivemos contrapondo com particular insistência, e continuamos
quantidade de trabalho, apesar de conhecerem suas técnicas ou terem acesso fazendo-o, a unidade de exploração familiar à capitalista, fazemo-lo ao nível da
a elas e de estarem a par de sua maior "produtividade": assim, por exemplo, organização e da produção: a exploração doméstica em contraste com a
desde os muito primitivos hadza, embora estivessem rodeados de povos exploração baseada no trabalho assalariado. Neste sentido há duas maquinarias
agricultores (Sahlins, 1977: 41), passando pelos germanos, segundo o econômicas completamente distintas que reagem de modo diferente diante dos
testemunho contemporâneo de Tácito (Le Goff, 1983: 108), até, não faz muito, mesmos fatores econômicos (Chayanov, 1985: 266).
os bachkir dos Urais (Le Play, citado por Lafargue, 1970: 12).
Como assinala Marshall Shalins (1977: 99 e ss.), a antropologia ocidental Na teoria, os tratados de economia nacional desde Ricardo até nossos
manteve um duplo preconceito com respeito a esses povos: por um lado, dias foram construídos dedutivamente a partir da motivação e das
imaginava-se-os trabalhando constantemente só para sobreviver, enquanto por estimativas econômicas do homo economicus que age como um
outro não se deixava de assinalar sua "preguiça congênita". Mas a realidade empresário capitalista e ergue sua empresa sobre a base do trabalho
era mais sábia: tinham suas necessidades limitadas e trabalhavam somente até assalariado. Mas na realidade ocorre que este clássico homo
onde se viam obrigados a fazê-lo para cobri-las, para além do qual preferiam o economicus com freqüência não se senta na cadeira do empresário, mas
ócio. Por outro lado, a estrutura de parentesco existente não teria resistido a é o organizador da produção familiar. Portanto, o sistema de economia
um processo de produção de um maior excedente e de uma maior acumulação, teórica construído a partir da atividade empresarial do homo
como o demonstra sua dissolução progressiva nas economias agrícolas. economicus como capitalista é decididamente parcial e é inadequado para
Embora a economia camponesa suponha maiores quantidades de trabalho conhecer a realidade econômica em toda sua complexidade atual (Ibid.:
e, com isso, maiores possibilidades de acumulação e de diferenciação social, 267).
conserva a característica de buscar um equihbrio entre esforço de trabalho e
satisfação das necessidades. Situam-se ambos num ponto muito superior, mas A idéia básica de Chayanov é a de que o núcleo da racionalidade econômica
mantém-se, entretanto, a mesma lógica qualitativa da economia primitiva. da unidade doméstica é a busca de um equilibrio entre a satisfação das
necessidades familiares e a intensidade do trabalho (ou, se se prefere, a auto-
-exploração da força de trabalho). Para a unidade doméstica, a capacidade ou
Economia doméstica versus acumulação capitalista força de trabalho é algo dado, e o resto dos fatores que intervêm na produção
(terra e meios de produção produzidos), assim como o produto fmal, são as
A estigmatização da economia dos povos primitivos e, por extensão, de variáveis que, juntamente com a intensidade no emprego da capacidade de
todos os não ocidentais, tem sua base singular na constatação de que, ao trabalho dada, deve manipular o camponês em busca do citado equihbrio. A
contrário da economia capitalista e, em menor medida, da mercantil, eles não mesma satisfação das necessidades - isto é, o nível a alcançar na mesma, o
identificam o ponto ótimo de produção com seu ponto máximo. Desse ponto de grau de bem-estar - deve ser considerada como uma variável dependente na
vista, o comportamento do caçador-coletor que deixa de trabalhar tão logo medida em que vá além das naturais e mais elementares.
tenha conseguido o necessário para cobrir algumas necessidades limitadas ou Este enfoque explicaria comportamentos do campesinato aparentemente
do camponês que deixa sem cultivar parte de suas terras é tachado de irracionais - desde o ponto de vista da economia política do capital - como
economicamente irracional. o aumento da produção diante da queda dos preços - para obter a satisfação
Cabe também pensar, entretanto, que sua racionalidae seja outra, mínima das necessidades - e sua diminuição quando a remuneração do
diferente da racionalidade da acumulação mercantil ou capitalista. Isto foi produto se eleva, ou supostos paradoxos em um sistema capitalista com uma
postulado e argumentado por A. V. Chayanov, um agrônomo e economista importante população camponesa, tal como que os salários baixem quando o
russo que dedicou sua vida ao estudo das explorações familiares camponesas preço dos cereais sobe - por más colheitas que, ao mesmo tempo que
durante os últimos anos do czarismo e os primeiros do Estado soviético - e produzem a alta dos preços, forçam os camponeses a complementar seus
que, certamente, inspirou em grande medida o "socialismo a passo de rendimentos trabalhando como assalariados, o que faz cair os salários -, para
tartaruga'' de Bukharin. Chayanov e a - segundo ele impropriamente - citar apenas alguns furos na capacidade explicativa da economia clássica. (É

66 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 67


preciso dizer que, do ponto de vista da economia clássica, a queda dos preços camponeses submetidos ao trabalho complementar domiciliar dos princípios
agrícolas deveria trazer uma diminuição da produção e, o aumento dos preços do capitalismo (Medick, 1.976; Levine, 1977; Berg, 1985), a autolirnitação do
dos cereais, uma elevação dos salários). . trabalho dos artesãos (Thompson, 1967) ou a auto-regulação do trabalho
A conveniência ou não de qualquer iniciativa ou alterna1Jva para a dm?éstico das donas-de-casa atuais (Fernández Enguita, 198&). Pode-se
exploração doméstica não seria avaliada :m termos d~ custo-benefício mas,_ de aplicar, em geral, a todas aquelas formas produtivas nas quais o trabalhador
mantém o controle sobre o processo, a duração e a intensidade de seu
maneira intuitiva, em função de seus efettos sobre o ruvel de consu:no e o.ru:el
de intensidade do trabalho. Estes separariam a ''unidade teleológJ.ca sub]e1Jva trabalho.
da atividade econômica racional, isto é, a exploração da unidade" (Chayanov,
1985: 132).
América: o índio indolente
( ... ) A energia desenvolvida por um trabalhador em uma unidade
doméstica de exploração agrária é estimulada pelas necessidades de A transição para as formas de trabalho próprias do capitalismo adquire a
consumo da família e, ao aumentar estas, sobe forçosamente a taxa de forma espetacular de um choque entre culturas ali onde aquele entra em
exploração do trabalho camponês. Por outro lado, o consumo d~ energia repentino conta~o com urna sociedade completamente diferente, coisa que
é inibido pelas fadigas próprias do próprio trabalho. Quanto mats dura o ocorreu, no deVIdo momento, nas colônias. O "encargo do homem branco"
trabalho, comparado com a remuneração, mais baixo é o nível de bem- sua "responsabilidade", seu "trabalho civilizador", não são, afmal, senã~
estar no qual a farru1ia deixa de trabalhar, embora seja freqüente que para eufemismos para designar o tremendo e brutal empenho europeu em fazer os
obter até mesmo este nível reduzido deve haver grandes esforços. Em outros povos abandonar seu modo de vida em troca das excelências modernas
outras palavras, podemos afirmar positivamente que o grau de auto-ex- de converter-se em proletário, seja agrícola ou industrial.
ploração da força de trabalho se estabelece pela relação entre a medida da O problema do "recrutamento" de trabalho assalariado converteu-se no
satisfação das necessidades e a do peso do trabalho (Chayanov, 1977: 84). mais grave enfrentado pelos europeus desde que puseram o pé nas colônias.
Em essência, o problema consistia - e continua consistindo em muitos lugares
Chayanov O.W7: 41) estendeu esta lógica a toda unidade doméstica - em como transferir recursos humanos da agricultura de subsistência para os
camponesa, quer formasse parte de um sistema de economia natural~ quer emprego~ remunerados, quando isto implica numa transformação na duração,
estivesse integrada em um sistema de economia nacional c~m umdades na mtenstdade, nas condições e no sentido do trabalho, que supõe urna ruptura
familiares de artesãos urbanos e/ou em uma economia feudal. E importante total com os padrões culturais existentes.
sublinhar que não se trata da lógica de uma economia natural ou de A Espanha foi a primeira potência imperialista européia a topar com o
subsistência, embora, naturalmente, desenvolva-se nela da forma mais livre "problema" em suas possessões coloniais. Embora o nosso não fosse
e completa. Trata-se da lógica da produção doméstica, que persiste mesmo precisamente um país avançado no desenvolvimento capitalista, as empresas
quando na multiplicidade de unidades em que se organiza ergue-se. uma econômica;; que se puseram em marcha desde o primeiro momento nas
aparato de extração tributária do excedente. Chayanov assmalou chamadas Indias Ocidentais supunham formas de trabalho muito mais próximas
explicitamente sua vigência dentro de uma economia feudal, pensando sem morfologicamente das do capitalismo (anterior à Revolução Industrial) que as
dúvida no passado europeu - que ainda estava presente na Rússia antes da da e.conomia de subsistência e mesmo dos sistemas tributários baseados na
Revolução de Outubro -, e nós devemos estender a observação aos Estados produção doméstica. Os espanhóis não iam à Íbero-América buscar algumas
tributários que os europeus encontraram na _América Central, América do oportunidades de subsistência ausentes em seu país de· origem, mas extrair
Sul, parte da África, além, naturalmente, da Asia. Os próprios ~racas~os da um excedente com o qual comerciar e enriquecer. As minas, as plantations
política agrícola soviética poderiam ter sua raiz não apenas nas disfunçoes da e as atividades de construção exigiam um trabalho regular ao qual as
gestão burocrática, mas também na persistência de uma lógica doméstica e populações indígenas não estavam acostumadas e ao qual eram bastante
camponesa não rompida, como no mundo capitalista, pelo mercado (não por difíceis de se adaptarem. Desde sua chegada às Antilhas, por exemplo, os
acaso Chayanov foi uma das primeiras reabilitações políticas e científicas espanhóis puderam comprovar como os arauacos negavam-se a trabalhar nas
trazidas pela perestroika). condições que lhes eram propostas (Harris, 1960; Clementi, 1.974).
Esta "regra de Chayanov", como a denomina Sahlins, vale também para Em seguida estigmatizaram-se os índios como seres preguiçosos, vadios,
explicar o escasso trabalho dos nupe (Nadei, 1942), as intensas jornadas dos indolentes. Conforme escrevia o agostiniano Xuárez ao rei Felipe 11, o índio era

68 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 69


"por natureza", indolente, preguiçoso e dado a~ ócio e ao vício; "de sua estendiam as plantações de produtos altamente demandados pela Europa. Esta
natural inclinação, são amigos do vadiar" (Mar!ID, 1954: 139; Florescano, foi uma variante generalizada sobretudo nas zonas dedicadas às plantações de
1980: 46). A Coroa espanhola escrevia ao vice-r.el Mendoza de Nova E~panh~ açúcar e café, sob o domínio tanto espanhol quanto inglês, francês, holandês ou
que os mdios "são preguiçosos por natureza" (SliDPS?n, .1929: ~).? ~1ce-r~~ português.
Velasco repetia pouco depois que ''os mdios são mclinados a oaos1dade
(Florescano, 1986: 48). anh · d Nos séculos XVI e XVII [no sul dos Estados Unidos da América] tinha-
Em tais circunstâncias, nada podia parecer mais natural aos esp ?1s ~ -se tentado utilizar os fudios para a produção em massa, mas logo se viu
que obrigar os mdios ao trabalho forçado. A coroa orde~ em 1535 ao v1~e-re1 que não serviam para este tipo de trabalho, motivo pelo qual se acorreu à
Mendoza que forçasse os mdios a trabalharem nas mmas e na c?nstruçao de importação de escravos negros (Weber, 1974: 84; veja-se também
mosteiros e fortalezas, e, em 1542, quando se tratou ~e abolir o trabalho Williams, 1973).
forçado, este sensato representante da coroa não duVl~ava de que, sem
coerção, aqueles se negariam a trabalhar para os espanhó1s. Ao sucessor de As colônias capitalistas resolveram organizar-se em plantations. Os
Mendoza, Velasco, se lhe instruiu para que indígenas forneciam a mão de obra necessária (... ). Logo se evidenciou
que os fudios eram absolutamente inservíveis para o trabalho das
os mdios fossem obrigados a trabalhar por salário nos campos ou nas plantations. A partir de então iniciou-se a importação de escravos
cidades, para que não andassem como vagabundos (Semo, 1985: 193). negros, negócio que pouco a pouco fez-se com regularidade e adquiriu
considerável extensão nas Índias Ocidentais (Weber, 1974: 254).
A primeira tentativa de solução, obviamente, foi a escravidão. Até meados
do século XVI, os mdios foram submetidos com~ escr~s para levá-los a Por outro lado, regulou-se o trabalho forçado dos fudios de forma que sua
trabalhar nas empresas agrárias, mineradoras e mdustnrus dos ocupantes, economia de subsistência não ficasse destruída. Em realidade, foram os
L. assim como nas obras públicas e religiosas de todo gênero, no transporte de espanhóis que criaram tal economia. Ao destruir os impérios pré-existentes a
mercadorias, etc. Na verdade, a escravidão indígena n:unca desapar~eu sua chegada - por outro lado já em crise - romperam o delicado equilibrio
l totalmente durante o período colonial, pois, embora a coroa a houvesse abolido
formalmente continuava autorizada para os mdios que se levantassem contra
ela ou seus ;epresentantes, e sempre era fácil para os espanhóis proo:oc~ ou
baseado na redistribuição de produtos procedentes de diferentes wnas
ecológicas - sobretudo de diferentes altitudes -, o que produziu situações de
escassez de alimentos que contribuíram notavelmente para dizimar a população
\, inventar tais levantes e difícil e pouco tentador para a coroa verifica-los. nativa. Ademais, com o objetivo de melhor controlar, evangelizar e mobilizar os
!I Entretanto, a escravidão dos índios nunca se mostrou muito ren~vel ne~ indígenas para o trabalho, efetuaram sua "congregação" e "redução" em
jl eficaz, pois 0 genocídio, os pesados trabalhos, sua vulnerabilidade as povoados que substituiram as velhas aldeias e a dispersão demográfica.
j enfermidades européias e a destruição de seu mundo logo fizeram deles uma Responsabilizando a comunidade por tributos de todo gênero, criaram esta e
I mão de obra escassa e pouco estável. A abrandar a escravidão e outras formas converteram-na na unidade social básica. E, à diferença dos impérios
de trabalho forçado contribuíram também a obra de Frei B~tolomeu de las autóctones anteriores, os espanhóis lhes extraíram tributos, tais como
i Casas e outros defensores dos indígenas e a disparidade de mteresses entre aqueles, mas não lhes deram nada em troca, exceto povoar a geografia de
a coroa e a igreja, de um lado, e os colonizadores de outro. Enquanto ~~tes igrejas e mosteiros e, obviamente, de núcleos de arquitetura colonial para
tinham pressa de enriquecer e, consequentemente, de expl~rar c?m a maxuna desfrute dos colonizadores.
intensidade e no mínimo de tempo a mão de obra d1sporuvel, aquelas Quanto à mobilização do trabalho, a escravidão dos indígenas, com a
desejavam assegurar-se uma fonte tributária a longo prazo, a q~~ passava por exceção das construções, levou primeiro à encomienda e depois ao
estabilizar as comunidades indígenas e não por matar prec1p1tadamente a repartimiento de fudios. A primeira consistiu em obrigar os fudios de uma
galinha dos ovos de ouro. De qualquer fon:na, os mdios tinham .q~e trabalhar zona a trabalhar para o encomendero, um colonizador espanhol, que em troca
mais, isto é, "viver como homens, ou seJa, como os espanhóis (González tinha as obrigações teóricas de defendê-los, evangelizá-los e civilizá-los. Como
Sánchez, 1980: 138). , . a coroa não queria ver estabilizar-se uma nova classe feudal com a qual dividir
A solução foi dupla. Por um lado, substituíram-se como escravos os .md10s o poder, negou-se sempre a que a encomienda fosse hereditária - embora,
pelos negros trazidos da África, mais robustos, resistentes às enferm1d~des na prática, permitisse repetidamente sua transmissão de pais a filhos -;
européias e capazes de aclimatar-se aos trópicos do Novo Mundo nos qua1s se entretanto, esta medida, que teoricamente separava ainda mais o fudio do

Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 71


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escravo voltou-se contra aquele, pois, não tendo o encomendero garantia Sob a encomienda, a intensidade do trabalho do índio era incontrolável
alguma' de poder conservar indefinidamente seu direito sobre o trabalho do para a coroa e seus l'epresentantes e dependia das necessidades e do grau de
índio tinha o máximo interesse em explorá-lo aceleradamente. brutalidade que era capaz de aplicar o encomendem. Sob o repartimiento,
Em 1536, e sobretudo em 1542, substituiu-se a encomienda pelo oitenta por cento dos índios - o resto eram crianças, velhos e alguns
repartimiento. O índio já não estava vinculado_ necessar~ente ~ .um privilegiados - trabalhavam para os espanhóis entre duas e quatro semanas ao
encomendero, mas este ou qualquer outro coloruzador devertam soliCitar, ano - sem contar o tempo de deslocamento, muitas vezes longo -, o que
para empregar seu trabalho, a permissão do representante da coroa, o qual se supunha para as comunidades colocar à sua disposição, permanentemente,
encarregava de verificar que efetivamente existia tal necessidade. O entre 2 e 4 por cento de sua força de trabalho - mais tarde entre 4 e 10 por
repartimiento significou, com relação à encomienda, a passag~m da cento -, conforme a intensidade exigida pelos ciclos produtivos (Semo, 1974:
imobilidade do trabalho indígena a sua mobilização em função das necessidades 223-225; Florescano, 1986: 42).
variáveis, uma forma de racionalização e rotação do trabalho forçado (Semo, A encomienda e o repartimiento, sob formas puras, derivadas ou
1985: 222). intermediárias, existiram de forma generalizada em todas as colônias
espanholas na América, sob nomes distintos como a mita do Peru e Bolívia,
(... ) Sob as formas legais da encomienda e do repartimiento, o cuatequil ou coatequil da Nova Espanha, a mita, o alquiler e o
oculta-se a escravidão latente e generalizada da população indígena. O concertaje da Colômbia, etc., renascendo de novo no século XIX (Zavala,
encomendado ou repartido não foi arrancado de sua vida comunitária, 1943: 69 ss.; Ots Capdequí, 1973: 25-28; Bagú, 1969; Wallerstein, 1979: 130,
mas foi brutalmente transformado em instrumento para a construção de 474; Wolf, 1982: 136-137; Kubler, 1963: 371-373; Cardoso e Pérez Brignoli, 1987:
urna nova economia (e de uma nova sociedade) alheia à lógica do I, 171; Klein, 1967: 138 ss.).
desenvolvimento de sua própria; urna economia (e urna sociedade) na qual Além disso, a recusa do trabalho intenso e continuado não iria ser coisa
ocupa o mais baixo dos' níveis sociais. Não é propriedade privada do apenas dos índios. Em finais do século XIX seria também característica dos
conquistador, mas é tratado como "propriedade emprestada" cujo valor gauchos na Argentina e dos gaúchos no sul do Brasil e, em geral, dos caipiras
de uso deve ser aproveitado o mais rapidamente possível. Sua condição é neste último país. A semana de trabalho destes, quando existia, era de quatro
a de escravo coletivo de quem se disponha indistintamente a lavrar as dias por semana (Cândido, 1987: 87). Isto não era privativo do campo, pois
terras das plantações de trigo, transformar Tenochtitlán na cidade do também os industriais queixavam-se amargamente em finais do século pas-
México, fazer funcionar minas de prata que se encontram a centenas de sado; por exemplo, os da União Itabirana, de Minas Gerais:
quilômetros de sua comunidade, ou transportar, na qualidade de tameme,
os pertences do conquistador nas selvas da América Central (Semo, 1985: (... ) Infelizmente, poucos têm qualquer interesse por suas tarefas,
206). (... ) não se submetem a nenhum controle sistemático, (... ) não
permanecem em seus empregos, não dão importância a seus contratos
Mas há outras diferenças importantes entre a encomienda e o ( ... ).
repartimiento, de um lado, e a escravidão, de outro. Em primeiro lugar, o (... ) Entregues a suas vidas indolentes, trabalhando três ou quatro
escravo é urna propriedade que o amo deve manter para não perder a renda dias por semana, não querem ganhar mais que um salário miserável,
capitalizada nele invertida, enquanto que o encomendero não tem outra -porque apenas pensam em comer, mastigar palitos, beber cachaça e
responsabilidade com o mdio que a de pagar-lhe seu baixo salário. Em segundo corromper-se (Stein, 1979: 71; Rago, 1985: 20-21).
lugar, o índio encomendado ou repartido continua reproduzindo-se a partir
de sua economia de subsistência, graças ao qual quem o emprega deve fazer A mesma coisa na agricultura, conforme afirmavam os fazendeiros de café
frente aos custos menores de seu trabalho. A encomienda é a reprodução na em 1880 e os deputados de São Paulo pela mesma época. Veja-se,
América da servidão européia, e o repartimiento lhe acrescenta a mobilidade respectivamente:
da mão de obra própria do trabalho assalariado. O trabalho do encomendado
não era retribuído, o do repartido sim; por conseguinte, podemos considerar Os nacionais (... ) são tão refratários ao trabalho sistematizado,
este como uma figura de transição entre a servidão e o trabalho assalariado que é um número muito reduzido aquele que se presta ao aluguel re-
quando o trabalhador da economia de subsistência não se mostra por si mesmo gular de seus serviços em bens de exploração agrícola (Kowarick, 1987:
com disposição de aceitá-lo. 65).

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Os trabalhadores nacionais limitam-se à caça e à pesca (. .. ), rejeitam para depois, com o dinheiro obtido, comprar as apetitosas mercadorias
o serviço de camaradas, não querem prestar-se ao serviço do cultivo da oferecidas também por eles. Mas não foi assim de forma alguma. Os nativos,
terra (Cardoso, 1962: 209). em geral, não tinham grandes necessidades das mercadorias que os brancos
lhes ofereciam. Não lhes desagradavam, provavelmente, mas tampouco
AD terminar a primeira metade deste século, o autor de Os Sertões, correspondiam a qualquer necessidade óbvia que não estivesse coberta por
Euclides da Cunha, ainda podia descrever a atitude do sertanejo diante do urna agricultura e um artesanato rural bastante integrados. Algumas poucas
trabalho dizendo que ''passam as horas matando, no significado estrito do mercadorias, em troca das quais eles também podiam oferecer bens, bastavam
termo, o tempo" (Gnacarini, 1980: 147). Do submetimento do caipira como artigos de luxo para fins ornamentais, de prestígio, etc. Em geral, os
trataremos mais adiante. europeus tiveram bastante dificuldades para introduzir seus produtos. Os
africanos não mostravam muitas necessidades que pudessem estimular o
África: a missão do homem branco comércio europeu.
Tão amarga experiência não era nova para os europeus. Os chineses
A colonização africana no século XIX oferece outro cenano no qual tinham-se declarado autosuficientes, como lhe fez saber seu imperador a Jorge
observar a escassa disposição natural das pessoas para se integrarem no que III em 1793: "não nos falta nada ... e já não necessitamos as manufaturas de
hoje entendemos por trabalho. À diferença da América1, a África era um vosso país" (Wolf, 1982: 254). A Índia produzia têxteis muito superiores aos
continente escassamente povoado quando os colonialistas europeus deixaram da Europa e mais baratos. Em vista do qual, as potências coloniais, Inglaterra
de limitar-se a comercializar mercadorias exóticas ou a capturar escravos em em primeiro lugar, lançaram-se a toda urna série de tropelias que, pelo visto,
suas costas para erguer diretamente explorações diversas em seu território, de não fizeram enrubescer os partidários do livre comércio (embora,
forma que os nativos sempre tinham à sua disposição terras adicionais. Os naturalmente, não figurassem nos manuais de economia): declararam guerra
habitantes da África negra ou subsaariana obtinham seu sustento da caça e aos chineses para impor-lhes o consumo do ópio (mercadoria cuja oferta
coleta ou de formas de agricultura arcaicas e apenas ocasionalmente tinham consideraram a mais capaz de gerar sua própria demanda), destruíram de
conhecido formas políticas tributárias desenvolvidas. O clima era hostil para os forma sistemática as manufaturas e o artesanato da Índia e ocasionaram as
europeus, pouco preparados para fazer frente às enfermidades associadas, o maiores fomes de sua lústória, corromperam os norte-americanos nativos e os
que desencorajou a colonização maciça. Adernais, as potências que levaram a polinésios com a venda de álcool e armas, etc.
cabo a colonização do continente eram já no século XIX sociedades capitalistas Mas o mais terrível para os europeus era que os demais povos, além de
relativamente avançadas e queriam dispor da forma mais flexível e rentável que não desejar serem seus clientes, não estavam dispostos a serem seus
pode adotar o trabalho alheio, a do trabalho assalariado. assalariados, isto é, não quiseram deixar-se explorar em nome da civilização.
A maior preocupação ia ser, por conseguinte, o desenvolvimento de uma Contrariamente ao que os europeus pensavam, não é difícil compreender que
força de trabalho não qualificada e barata (Berg, 1977), pois, qualificada e cara, constituía uma mostra de elevada racionalidade não querer abandonar suas
em termos comparativos, a pouca que era necessária se podia importar da condições de vida pelas que o capitalismo intruso lhes oferecia.
Europa. Os colonos não tinham pejo de reclamar abertamente o que Diante de tão incompreensível falta de cooperação com a nobre obra
consideravam como um inalienável direito humano e branco. Assim, uma civilizadora, os europeus não duvidaram nem por um momento que tinham o
organização de colonos brancos no Kenya queixava-se diante do governador direito, até mesmo o dever, de fazer trabalhar essa massa de gente indolente,
britânico: para seu próprio bem, embora contra sua vontade. Por conseguinte,
impuseram todas as variantes imagináveis do trabalho 'forçado. Em primeiro
Devemos fazer notar a Vossa Excelência que é enormente injusto lugar, os europeus obrigaram os nativos a trabalhar em toda classe de obras de
convidar o colono a este país, como se fez, dar-lhe terras sob condições infra-estrutura necessárias para a colonização. Baseando-se na tradição de
que exigem o trabalho e, ao mesmo tempo, privá-lo dos fundamentos em participação coletiva em trabalhos comunais, impuseram, através dos chefes, a
que se baseia a totalidade de seu esforço e sua esperança, concretamente realização de toda sorte de trabalhos de construção e manutenção nos enclaves
uma mão de obra barata (Wolff, 1974: 93-94). brancos. Uma vez que não havia meios de transporte mecanizados, nem de
tração animal - inviável pela abundãncia da mosca tsé-tsé -, rapidamente
Em pura teoria econômica clássica, os nativos teriam que ter acorrido em fizeram dos nativos seu meio favorito de transporte, forçando-os a trabalhar
bandos a competir pelos empregos assalariados que lhes ofereciam os brancos como carregadores levando daqui para lá os pertences dos funcionários, dos
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subministros das cidades, as mercadorias dos comerciantes, as colheitas (Hammond, 1966: 325). Tão zelosos eram os funcionários portugueses no
mercantis, as armas, etc. A ferrovia e as rodovias, em especial, foram a forma recrutamento de trabalhadores, que até o bispo anglicano de Leboriibo teve
de iniciação ao trabalho "à européia" para muitas dezenas de milhares de que queixar-se, em 1906:
africanos, e para boa parte deles também a tumba (veja-se Wolff, 1974;
Isaacrnan, 1976; Hammond, 1966; Igbafe, 1979; Wiedner, 1962; Berg, 1977; As novas ferrovias [em Moçambique] estão sendo todas construídas
Dumont, 1969; Skinner, 1964). com trabalho forçado. Foi com este propósito que a polícia veio buscar um
Mas a África subsaariana, embora fosse a mais visível, não foi a única sede de nossos subdiáconos e o levou da igreja, não faz muito, enquanto estava
do trabalho forçado. Foi também comum no norte muçulmano, por exemplo a dirigindo o serviço (Hammond, 1966: 325).
prestation da Argélia francesa, pela qual se obrigava os argelinos a trabalhar,
eles e seus camelos e bois, para os colonizadores, embora fosse_ comutável por E deu-se no exemplar e cristão Congo belga, onde se colocou meio milhão
dinheiro (Wickins, 1986: '51). Não estava ausente tampouco na Asia: nas minas de adultos para extrair látex, continuando com isso práticas dos holandeses nas
e nas plantations de Tonkin, sob a dominação francesa (Dumont, 1969: 39), na Índias Orientais, reputadamente rentáveis (Garm e Duignan, 1979: 126,
Turquia sob os alemães, para algumas tribos índias e nas plantações do sul da 142).
Ásia em geral (Myrdal, 1968: 969, 971).
Voltando à África subsaariana, além dessas formas ''normais'' de extrair
trabalho forçado existiram outras tantas, mais ou menos pitorescas. Os A coerção indireta
convictos foram postos a trabalhar nas rodovias, etc., quase por nada (Berg,
1977: 170). Nas colônias portuguesas, em particular, a condenação ou, Fica difícil distinguir o simples trabalho forçado dos impostos em trabalho,
simplesmente, a presunção de haver cometido um delito, permitiram de forma impostos em trabalho comutáveis em dinheiro, ou impostos em dinheiro
abusiva obrigar os nativos a trabalhar (Isaacman, 1976: 84). Venderam-se os comutáveis por trabalho. As obrigações dos povoados do Congo belga tinham
direitos sobre o trabalho dos nativos juntamente com os terrenos que a forma de impostos; viam-se no dever de entregar um certo número de
ocupavam: a Companhia Açucareira de Moçambique, por exemplo, tinha direito soldaQos e de trabalhadores "livres", realizar transportes e extrair látex (Garm
de fazer trabalhar os habitantes das terras que comprava nas colônias e Duignan, 1979: 130). Em Moçambique, os impostos sobre os chefes eram
portuguesas (Hammond, 1966: 157). pagos com o trabalho de seus escravos nas rodovias e plantações (Hammond,
A moral colonialista aceitava sem melindres o trabalho forçado para tarefas 1966: 157, 159) - os escravos existiam de antemão, mas o trabalho a que os
de "interesse público" tais como a construção de rodovias, pontes, ferrovias submetiam os europeus não guardavam nenhuma relação com a sua servidão
e edifícios administrativos, a intendência militar ou o transporte de doméstica da qual se lhes tirava. Em geral, houve impostos no trabalho nas
mantimentos aos centros coloniais; também para fms de estatuto mais colônias alemãs, francesas e portuguesas (Wickins, 1986: 57). Por certo que o
discutível," tais como carregar os pertences dos funcionários, servir-lhes imposto no trabalho não lhes livrou do pagamento de outros: assim, uma aldeia
pessoalmente ou construir suas residências de descanso. Não era bem visto, típica do Congo belga, formada por urnas quarenta pessoas, estava obrigada
em troca, a idéia de que se pudesse forçar os nativos a trabalhar para todos os anos a entregar quatro pessoas em tempo integral para servir o
empresas privadas ou particulares. Entretanto, este princípio era violado governo e outras dez para obras públicas ou para a coleta de látex e marfim,
constantemente, tanto nas colônias portuguesas, francesas e belgas quanto nas mas também tinha que entregar cinco ovelhas, cinqüenta galinhas, três mil
mais escrupulosas colônias britânicas. No caso das colônias francesas, já libras de arroz, umas trezentas libras de outros vegetais e cento e cinqüenta
aludimos à Argélia, mas pode-se também listar o Alto Volta, a Costa do libras de látex (Wiedner, 1962: 222). ·
Marfim, o Chad ou Tonkin (Berg, 1977: 170; Dumont, 1969: 38; Skinner, 1964: A primeira coisa que fizeram os ocupantes foi agravar os nativos com
158). Tal como se encarregou de esclarecer Jules Ferry: "A Declaração dos impostos em dinheiro, forçando-os a assalariar-se para consegui-lo. Foi uma
Direitos do Homem não foi feita para os africanos" (Dumont, 1969: 37). Deu fórmula generalizada, com a exceção da Costa do Ouro (Berg, 1977: 166).
se, obviamente, nas colônias portuguesas, onde os nativos de Angola e Assim, por exemplo, em fmais do século passado, o imposto em Moçambique,
Moçambique que não eram levados a empregar-se para os ingleses fora de o mussoco, estava fixado em 800 réis, o que obrigava os colonos (nome
suas terras eram forçados a trabalhar para os colonos brancos locais português para os habitantes nativos) a trabalhar dnrante duas semanas, a 400
(Isaacrnan, 1976: 86), quando não submetidos ao chibalo, isto é, conscritos réis cada uma, para o governo ou o arrendatário das terras (Hammond, 1966:
para o trabalho para particulares e suscetíveis de serem alugados e realugados 157). Os que não podiam pagar eram submetidos a trabalhos forçados, e a

76 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 77


coleta fiscal era com freqüência uma ocas1ao para que maltratassem os ticos, devem ser considerados como trabalhadores temporários... (De
homens, violassem suas mulheres e filhas e lhes tirassem qualquer coisa que Briey, 1977: 200).
lhes apetecesse (Isaacman, 1976: 88). No Alto Volta francês, os morosos eram
diretamente expropriados (Skinner, 1964: 158). No Kenya e na Nyasalândia, os Antes as coisas tinham sido piores. No mesmo Kenya, em princípios deste
que trabalhavam como assalariados para os europeus tinham que pagar apenas século, o período médio de trabalho desses trabalhadores era de um mês - de
a metade do imposto (Berg, 1977: 167). O imposto adquiriu muitas formas: em qualquer forma, sempre menos de dois (Wolff, 1974: 96). As mesmas queixas
dinheiro, em trabalho ou em espécie; sendo em dinheiro, comutável por po~am ouvir-se na Africa do Sul (Schapera, 1967: 148) e, em geral, por toda
trabalho ou não; por cabeça, por choça ou por povoado; comparativamente a Africa (Barber, 1961); e também nos países hoje chamados subdesenvolvidos
baixo e em troca de alguns serviços - mas não muitos nem muito claros -, de outros continentes como América Latina (Frank, 1979) e Ásia (Moore, 1965:
como nos domínios britânicos, ou comparativamente alto e em troca de nada, 36).
como nos portugueses. Além de forçar os nativos ao trabalho, foi uma forma No jargão econômico, isto conduz ao que se chama a curva de oferta
de impedir a acumulação por sua parte. de trabalho de inclinação decrescente, isto é, ao fato de que, se aumen-
tam os salários, os trabalhadores abandonam antes seus empregos porque
Os espanhóis já haviam inventado e posto em prática, muito antes, o conseguem antes seus objetivos. Como diz o ditado, não há mal que não
procedimento dos tributos monetários para forçar os índios ao trabalho na venha para bem, esta infeliz circunstância tem também uma vantagem não
América. As prestações em trabalho foram substituídas, com a passagem da desp~ezjvel para os empresários, pois, do ponto de vista econômico, justi-
encomienda ao repartimiento, por impostos em dinheiro, mas os indígenas fica - ou, ao menos, assim acreditam alguns - os baixos salários como
só podiam obtê-lo trabalhando para os espanhóis. A igreja colocou, entretanto, forma de reter os trabalhadores em seus postos em nome da eficiência e
seu grãozinho de areia, ao cobrar, também em dinheiro, as taxas religiosas. da racionalidade econômica gerais e apesar de sua irracionalidade indivi-
Alcaides e corregedores obrigavam-nos a comprar certas mercadorias, figura a dual.
que também se deu o nome de repartimiento (Semo, 1985: 221; Florescano, Nem as privações de uma economia camponesa sufocada, nem a pressão
1986: 108-lli), e tinham também que pagá-las em dinheiro. dos impostos em dinheiro, nem as qualidades fascinantes das mercadorias
ocidentais, pois, foram suficientes para que se constituíssem um mercado de
De forma que, mediante distintas formas de pressão extra-econômica trabalho e uma oferta de mão de obra assalariada à medida das necessidades
tentou-se forçar os africanos ao trabalho, essencialmente pelo procedimento dos capitais europeus, particularmente em termos de abundância e
de criar-lhes novas necessidades e impedi-los de satisfazê-las - as novas e as rendimento. Em conseqüência, e ainda que com a consigna de "Trabalho
velhas - por meio de sua economia tradicional. Mas, mesmo assim, nada livre!" no coração, os colonizadores, ávidos de mão de obra, tiveram que
transcorreu como os europeus pensavam; o contato com a economia monetária recorrer a diversas formas de compulsão a meio caminho entre o trabalho
não estimulou as necessidades e apetites dos nativos nem, por conseguinte, forçado ou a escravidão e o "trabalho livre".
seus desejos de trabalhar por um salário. Em realidade, o que apareceu foi o Em certo sentido, e por razões distintas, ninguém desejava o trabalho
que os anglo-saxões chamam de target worker (trabalhador por ou com um forçado. Os nativos por razões óbvias e os europeus porque preferiam que os
objetivo), isto é, o trabalhador que acorre ao trabalho em busca de algo, ob- africanos fizessem voluntariamente o que eles os forçavam a fazer
tém-no e vai embora. Ainda nos anos cinqüenta, afirmava um informe oficial obrigatoriamente. Freire de Andrade, pensando no Moçambique de 1907,
com referência ao Kenya: expressava claramente os escrúpulos morais - ou lingüísticos? - dos
colonizadores:
De um total de uns 350.000 trabalhadores masculinos e adultos
africanos empregados fora das reservas, calcula-se que mais da metade é Escravidão ou trabalho forçado são palavras que soam terríveis aos
do tipo migratório ou "por objetivos" (target); isto é, trata-se de
trabalhadores que deixaram as reservas com um propósito específico - I ouvidos de nosso século, e talvez seja por isso que elas são usadas para
ameaçar os que desejam arrancar o homem negro do estado de ociosidade
por exemplo, conseguir dinheiro suficiente para pagar os impostos, ! que lhe é tão caro... Eu não desejo a escravidão sob nenhum forma ou
repor o guarda-roupa ou adquirir uma esposa... e voltar às reservas aspecto, mas desejo sim o dever de trabalhar, imposto pela grande lei da
uma vez conseguido esse propósito. Muitos deles não passam nenhum natureza que está incorporada em nossos estatutos, e não creio que o
ano mais de seis meses fora das reservas e, para todos os efeitos prá- negro deva dela escapar através da benevolência da lei e através da prática

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dessa verdadeira escravidão que impõe sobre a mulher (citado por guarda nacional, a todos aqueles arrendadores que se empregarem de
Hammond, 1966: 324-325). forma efetiva no cultivo dos principais gêneros de exportação: café,
algodão e açúcar (Lamounier, 1988: 82).
Sem necessidade de se chegar a esses emocionados arroubos de
femirúsmo, os colonizadores, especialmente os britânicos, inclinavam-se por Esta foi a função principal do recrutamento militar forçado, a de preencher
formas mais indiretas de incitação ou compulsão ao trabalho, antes que pelo as vagas nas plantações e nas fábricas, e não no exército, tal como se
trabalho diretamente forçado. Em parte porque correspondiam melhor à moral reconhecia às claras na correspondência interna oficial (Gonzáles Arroyo, 1982:
da época, mas sobretudo, porque a compulsão não se mostrava muito eficaz. 67). O mecanismo funcionou tão bem que muitos fazendeiros conseguiram
Os exércitos foram outro poderoso meio de coerção indireta. Vale a pena assim, não já trabalho assalariado, mas sim trabalho gratuito (Lamounier, 1988:
deter-se um momento em assinalar seu especial significado na modernização 83; Gonzáles Arroyo, 1982: 68).
forçada das populações africanas e americanas, sobretudo as primeiras. O exército desempenhou, além disso, uma função disciplinar direta. Como
Certamente sua função mais elementar foi expulsá-las de suas terras e escrevia uma testemunha argentina de princípios do século XIX:
reprimir qualquer resistência. Mas a expulsão de suas terras não tinha apenas
o flffi de as deixar livres para os colonizadores europeus, mas também, com Os alcaides (. .. ), ou magistrados de vila, são solicitados para prender
freqüência, o de não os deixar manter-se numa economia fechada de todos os vagabundos que não têm meios de vida e os enviam aos quartéis
subsistência e de obrigá-los a submeter-se total ou parcialmente ao trabalho onde se os tratam rudemente até domá-los (Rodríguez Molas, 1982: 130,
assalariado. e também 149).
Na Argentina, a chamada "conquista do deserto", que não o era tanto,
consistiu em grande parte, quando não em seu simples extermínio, no No Alto Volta, o recrutamento do Ministério da Guerra francês alcançava
deslocamento maciço dos índios para fora de suas zonas naturais para sub- umas 45.000 pessoas por ano (Skinner, 1964: 162). Em ocasiões como esta, a
metê-los ao trabalho assalariado ou, mais rudemente, à escravidão. Assim, os tradição guerreira dos mossi fazia com que fosse mais fácil recrutá-los para o
pampas foram enviados a Tucumán entre 1.879 e 1985, os matacos a Orán em exército que para o trabalho assalariado; uma vez recrutados, eles eram
1859, etc. A campanha do Chaco, em 1884, teve como glorioso resultado o de enviados a trabalhar nas obras públicas ou nas empresas privadas da Costa do
incorporar à produção "20.000 braços viris que se encontravam inúteis" (lfugo Marflffi. Foram obrigados a trabalhar como assalariados em obras civis
Carrera, s.d.: 33). milhares e milhares de nativos que, voluntariamente ou à força, se tinham
Em toda a pampa e outras zonas da Argentina, a ameaça de recrutamento convertido em soldados, tal como aconteceu nas ferrovias do Congo Belga e,
forçado e do envio à linha de frente esteve suspensa por muito tempo sobre as em geral, nas colônias francesas (a chamada deuxieme portion) (Skinner,
cabeças de todos aqueles que não fossem honrados "lavradores" ou 1964: 175; Wickins, 1986: 58). Ao contrário, em outras ocasiões, quando as
"criadores de gado", isto é, fazendeiros, ou não pudessem demonstrar estar necessidades eram de outro tipo, voluntários recrutados para um emprego
trabalhando para eles mediante a caderneta de conchavo; urna ameaça de que particular eram detidos, transportados a centros militares e alistados à força,
dá bom testemunho Martín Fierro, e que serviu para terminar com a figura do como em Moçambique. O governador de Tete reconhecia num relatório de
gaucho independente. No Brasil, o mesmo expediente foi utilizado contra os 1908 que a principal causa de emigração era o medo de servir o exército
caipiras renitentes ao trabalho assalariado. Para reforçar a eficácia da Lei de (Isaacman, 1976: 85). Entre 1892 e 1914 passaram 66.000 homens pelas flleiras
Arrendamento de Serviços - isto é, de contratos de trabalho - de 1879, o da Force Publique do Congo Belga. Aí foram acostumados à pontualidade, à
deputado Barreto não duvidava de que o exército seria de grande ajuda: ordem, a estarem permanentemente ocupados e a não questionarem nada,
adquirindo, na verdade, as virtudes do assalariado dócil. Pelo visto, os
Como nossa população livre ainda não se acha habituada aos assíduos resultados eram esplêndidos:
trabalhos agrícolas, como seria desejado, entendo que não basta regular
os direitos e deveres de arrendatários e arrendadores; é também Durante horas, os recrutas permaneceram em destacamentos sem
indispensável que criemos algum incentivo poderoso para o trabalho; um fazer outra coisa que levantar alternadamente sua mão direita e sua mão
incentivo que nos garanta a estabilidade dos serviços que hoje não esquerda, seguindo os gritos estridentes Droit! e Gauche! Em poucos
podemos conseguir. (... ) Com vistas a tal incentivo, ocorreu-me eximir do dias produz-se uma extraordinária mudança mesmo nos mais primitivos
recrutamento para a marinha e para o exército, assim como do serviço na destes recrutas. Parecem adquirir a arte de converterem a si mesmos em

Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 81


80
autômatos, e antes que termine o treinamento de seis meses já podem tentativa. Aqui se seguiu, urna vez mais, a seqüência habitual: primeiro foi
realizar as mais complicadas evoluções e mover-se em grandes formações necessária a força, depois bastou sua evocação.
com uma precisão e uma uniformidade com as quais não poderia competir Os chefes locais jogaram com freqüência um papel não menos lamentável.
nenhuma tropa européia (... ) (Mountmorres, citado por Gann e Duignan, Impostos pelas potências coloniais com freqüência contra os desejos dos
1979: 80). habitantes, apoiados na força de sua superioridade militar, livres dos
tradicionais vínculos de reciprocidade e comunidade que haviam limitado o
poder e as ações de seus predecessores e com pressa por fazer fortuna,
As formas de transição ao tmbalho livre apoiando-se em urna posição que podiam perder tão rapidamente como a
haviam conquistado, foram muitas vezes, em seu zelo servil, mais longe que as
A escravidão foi abandonada, por sua escassa rentabilidade e sob a autoridades ocupantes. Colaboraram no recrutamento de trabalho assalariado
pressão da opinião liberal, antes de que se tivessem assegurado as condições para empregadores públicos e privados e puseram seu grãozinho de areia,
para o surgimento de um ''mercado de trabalho livre'' suficientemente fazendo degenerar, pelo abuso, a velha tradição dos trabalhos comunais para os
desenvolvido para fornecer aos empresários uma mão de obra abundante, chefes. Não era raro que se apropriassem de uma parte do salário de seus
barata, eficaz e dócil. Na América, onde a disponibilidade inicial de terras - súditos, geralmente um terço (Igbafe, 1979: 134). Uma magnífica descrição do
para os brancos e à custa dos índios - e a vocação de proprietários dos papel ambíguo e contraditório dos chefes locais em outro contexto, o do Peru
imigrantes europeus tornava extremamente difícil sua sujeição ao trabalho no começo da segunda metade deste século, é a oferecida por Manuel Scorza
assalariado e os índios tampouco ofereciam uma alternativa plausível, rentável nas cinco novelas que compõem o ciclo A Guerra Silenciosa.
e eficaz, foram os negros africanos, arrancados à força de seu local de origem Finalmente, os agentes de recrutamento desenvolveram todo tipo de
e facilmente distingüíveis dos livres por sua cor, os que forneceram a mão de práticas limítrofes na caça de escravos. Com freqüência forçaram pura e
obra cativa das plantações, tanto na América do Norte, quanto no Caribe ou no simplesmente os nativos a aceitar o trabalho mediante a violência, por si
Brasil e, em menor medida, nas colônias espanholas do continente. Na África, mesmos ou com o apoio ativo dos funcionários coloniais. Em outros casos, o
onde os negros estavam em seu meio natural e histórico e a colonização agente de recrutamento era o comerciante e combinava habilmente as duas
econômica foi tardia, nunca se converteu na forma dominante de trabalho. funções: iludia o nativo com produtos que excitavam sua imaginação, vendia-o
Tanto a impossível escravidão generalizada na África como o vazio deixado pela a crédito e fazia-o cair em dívidas leoninas, cujas dimensões, sem nenhuma
abolição na América foram cobertos com o recurso a formas contratuais experiência no cálculo monetário, era incapaz de avaliar; uma vez que estivesse
situadas em diversos pontos intermediários entre o trabalho forçado e o envolvido pelas dívidas, dava-lhe a oportunidade de optar entre aceitar o
trabalho assalariado livre. trabalho assalariado para pagá-las ou perder sua liberdade, suas terras, ou
Aqui jogam um papel essencial três figuras que dominaram a cena colonial ambas (Berg, 1977: 66). Esta fórmula era também habitual nos Andes; por
africana ~ e também, em menor medida, a asiática e a latino-americana - exemplo, no Peru, onde o contrato de longa duração recebia o nome de
durante muito tempo: o funcionário colonial, que primeiro foi militar, depois enganche, sendo na realidade
civil e, fmalmente, natural do país; o chefe local, geralmente imposto ou
comprado pelas autoridades ocupantes; e o agente de recrutamento, um acordo múltiplo que estabelecia um indivíduo denominado
trabalhando por conta própria ou alheia e às vezes também comerciante. Os -enganchador com o capitalista, por um lado, e o trabalhador, pelo outro,
funcionários coloniais desempenharam com freqüência um papel abertamente sem que existisse urna real relação salarial entre o capitalista (fazendeiro)
compulsivo, forçando o recrutamento dos nativos mediante maus tratos físicos, e o trabalhador indígena inúgrante. ( ... ) O enganchado r era aquele que
detenções, acorrentamentos, intimidação, etc., como no caso de Moçambique ia às províncias vizinhas à serra, instalava um pequeno tambo, fazia
(Isaacman, 1976: 84-) ou do Congo Belga, ou como num caso mais discreto, o propaganda de seus produtos e começava a entregar aos indígenas
dos "apóstolos do trabalho", no mesmo Congo Belga (Gann e Duignan, 1979: mercadorias a crédito e ocasionalmente dinheiro, sob a prévia assinatura
75, 202) ou no Kênia (Wickins, 1986: 117; Wolff, 1974: 102, 122-3). Entretanto, de um documento. Criada a dívida, o enganchador exigia seu pagamento.
se se considera que os funcionários coloniais reuniam a autoridade militar, Raros eram os que conseguiam fazê-lo, pois a maioria não tinha dinheiro.
policial, judicial e fiscal, compreender-se-á em seguida que seus desejos eram Assim o enganchador, utilizando estas e outras modalidades, conseguia
ordens para os nativos e, suas sugestões e estímulos, por conseguinte, muito recolher trabalhadores para os vales vizinhos (Burga, 1976: 242-3).
difíceis de serem distinguidos da compulsão, se alguma vez fizeram esta

82 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 83


Esta modalidade durou no Peru até o primeiro terço do século XX. Em origem. Em primeiro lugar, porque com freqüência não coincidiam a demanda
outros momentos e lugares, os agentes haviam chegado a ser personagens e a oferta abundantes de mão de obra. Em segundo lugar, e sobretudo, porque
quase todo poderosos, como os gomasta~ in?ianos, ag~ntes locais da a totalidade dos empregadores e das administrações coloniais logo se deu conta
tristemente célebre Companhia das Indias Onentals (MukheiJee, 1974). de que a força de trabalho era muito mais facilmente controlável, submetível e
Entretanto, não bastava recrutar: era necessário também manter os disciplinável se fosse transferida para o local mais distante possível da terra em
trabalhadores assim que estes descobrissem que as condições de trabalho que havia nascido.
eram piores que tudo o que haviam imaginado. Isto era bastante_ difícil ali ond~
existia a possibilidade de abandonar o emprego e voltar ao cultJvo da terra, a Os trabalhadores africanos de fora do território são descritos com
economia doméstica. A situação era radicalmente diferente, em troca, quando freqüência como mais confiáveis, mais dispostos à disciplina e menos
os trabalhadores eram desenraizados de seus lugares de origem e levados inclinados ao absenteísmo que seus homólogos da Rodésia do Sul. Podem-
longe o bastante para que o retorno não fosse possí~el, nem a fuga viáv~l. Esta -se observar fenômenos similares em todos os territórios da África
fórmula podia ser complementada com o estabelecunento de formas dtversas Central. Mesmo na Nyasalândia, o maior exportador de mão de obra [da
de trabalho dependente. Entre os dois pólos, representados pela escravidão ou zona], os empregadores têm dependido dos trabalhadores estrangeiros
a servidão e o trabalho livre, floresciam diversas figuras de contratos de longa para certos tipos de trabalho.
duração para nativos e trabalhadores importados, com cláusulas penais para os (... ) Quando está separado geograficamente de seu entorno
trabalhadores que os rompessem: peonagem, contratos de enganche, tradicional, o africano aceita tarefas que rejeitaria se estivesse mais
indentured labour, indentured servants, contratos de aprendizagem, próximo de seu lar (Barber, 1961: 211, 212).
trabalhadores engagés, etc.
Contratos desse tipo desenvolveram-se praticamente por todas as O recrutamento organizado incluía outra recomendação: os trabalhadores,
colônias. Suas ví~mas foram sobretudo os naturais de di:ersos lugare_s, quando são levados para longe de seus lugares de origem, aceitam melhor a
forçados por uma via ou outra a aceitá-los, camponeses arrumados que nao disciplina.
encontravam melhor forma de comer, pela pressão demográfica e pela (... ) Os trabalhadores estrangeiros, isolados em um contexto que não lhes
escassez de terras disponíveis, ou que deviam fazer frente a dívidas que não era familiar, eram mais dóceis, mais facilmente organizáveis para um trabalho
podiam pagar e, em alguns casos, imigrantes que ganhavam dessa forma a eficaz, e se comprometiam de forma mais permanente (Myrdal, 1968: 970, 971).
passagem a uma suposta terra de promissão. Não se submeteram a eles
apenas povos não brancos, mas também grande número de europeus que Assim se organizou um tráfico internacional de trabalhadores, à força ou
emigravam dessa forma às colônias da América do Norte (Galenson, 1981; com base em uma conformidade associada ao aliciamento, cuja quantidade
Klein, 1971: 169 ss.) ou ao Brasil (Wolf, 1982: 373), índios sul-americanos que poderia ser comparada com as da escravidão ou das migrações voluntárias dos
iam trabalhar nas minas- por exemplo, o caso peruano- (Moore, 1965: 62), últimos séculos. Milhares de ibos nigerianos e de moçambicanos foram
etc. Além de oferecer mão de obra barata e estável, aliviavam enormemente, levados às plantações de colônias insulares francesas como Mayotte, Nossibé,
do ponto de vista dos empregadores, os custos de formação dos trabalhad~res Bourbon ou Réunion (Hammond, 1966: 317; Isaacman, 1976: 83). Os mossi do
assalariados. Na verdade, a pouca disposição dos africanos, americanos natJvos Alto Volta foram transferidos em massa à Costa do Marfun (Skinner, 1964: 161;
e outros povos a permanecer nos empregos assalariados fazia, por um lado, Hammond, 1960: ill). Angolanos e moçambicanos foram praticamente a fonte
com que os empregadores se vissem constantemente obrigados a formar de força de trabalho de Santo Tomé e Príncipe, juntamente com os kroomen
trabalhadores novos, por breve que fosse esta formação; por outro, os próprios e outros africanos ocidentais, e os moçambicanos uma importante parte dela
trabalhadores, quando voltavam a seus empregos ou a outros similares, após na Rodésia e no Transvaal (Isaacman, 1976: 84; Hammond, 1966: 312-8). Da
muito tempo fora deles, podiam ser considerados, para todos os efeitos, como Nyasalândia foram exportados trabaihadores para a Rodésia do Norte e do Sul
gente sem experiência. Se se prescinde da linguagem eufemística da (Barber, 1961: 210).
"formação", da "qualificação", da "experiência", etc., e se se pensa que eles Mas seguramente nenhum povo forneceu tanta mão de obra ''livre''
também perdiam os bons costumes, ou seja, a disposição a trabalhar de forma quanto os indianos e os chineses. Os indianos foram parar nas plantações de
continuada, intensa e regular, ter-se-á uma idéia mais exata do problema. cana das ilhas Fiji e de Natal, na África do Sul, Ceilão, Guiana Britânica,
Entretanto, os contratos de longa duração raramente deixavam de estar Jamaica, Trinidad, Butão, Birmânia, Kênia, Uganda, no Peru, além de serem
associados à exportação de mão de obra para pontos distantes de seu lugar de enviados de um lado a outro de seu imenso país (Wolf, 1982, e Myrdal, 1968,

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passim). Os chineses às Filipinas, Malásia, Califórnia, ao Congo Francês - aos trabalhos industriais. Baseadas na coleta e no processamento rápidos e
onde se enco~tram com os cubanos -, ao Rand sul-africano, às Antilhas, ao sistemáticos de grandes colheitas e no emprego de urna mão de obra
Peru, etc. (Wolf, 1982; Wickins, 1986; Bradby, 1980; Cardoso e Pérez Brignoli, numerosa, exigiam e aplicavam urna estrita disciplina na organização do
1987: li, 2:7). trabalho. As plantações foram o lugar "no qual se ensinaram à população local
Falta explicar em que condições se realizavam esses contratos. Com as destrezas e os hábitos do trabalho metódico" (Karmack, 1967: 121 e ss.).
freqüência os trabalhadores eram forçados a aceitá-los por diversos meios Tanto as obras públicas quanto as plantações reuruam, além disso, a vantagem
compulsivos. Com mais freqüência do que não, eram ludibriados sobre as adicional de serem atividades ao ar livre - como a construção, em geral, hoje
condições dos mesmos ou se abusava deles, tirando-se proveito de seu em dia-, o que parece facilitar a passagem do trabalho agrícola ao de fábrica.
desconhecimento dos níveis salariais fora de seu território. Sua ignorância dos Uma variante do mesmo foi o colonato, dirigido especialmente aos
costumes, do território e do idioma convertiam-nos em vítimas propiciatórias imigrantes europeus. O Brasil, dedicado quase inteiramente a cultivos de
de toda classe de excessos. Quanto mais longe de seu lugar de origem eram exportação, principalmente o café, foi o último grande país a abolir a escravidão,
levados mais arbitrário era o poder que podiam exercer sobre eles os pela Lei do Ventre Livre, de 1971, para os novos nascidos, a de 1885, para os
empre~adores e os agentes de recrutramento. Os salários que recebiam sexagenários e a de 1888, com caráter geral, e mesmo assim de forma gradual e
desvaneciam-se no pagamento do crédito nos armazéns da empresa e de com todo tipo de cláusulas que colocavam os libertos sob o controle de seus
multas impostas por qualquer outro motivo, etc., e o reembolso da dívida inicial antigos amos ou das autoridades policiais, com o funde obrigá-los a engajarem-se
convertia-se em um objetivo cada vez mais distante. A repatriação a seus num contrato. Nesse momento, o caipira ou ''elemento nacional'' era
lugares de origem, quando era solicitada, encontrava toda sorte de obstáculos considerado incapaz de moldar-se ao trabalho regular da plantação ou da fábrica
ou, simple~mente, não chegava nunca. Veja-se o que dizia uma testemunha (Kowarick, 1987; Candido, 1987; Gnacarini, 1980). A solução adotada pelos
sobre os coolies chineses no Peru, no último quarto do século passado: fazendeiros de São Paulo, Minas Gerais e outros estados de rápido crescimento
iI econômico foi a importação maciça de "colonos" europeus. Frente ao caipira, a
O negro era escravo para toda a sua vida, ele e toda sua descendência;
I o coolie não o é senão por um tempo determinado. Mas esta vantagem é
meio caminho entre a economia de subsistência e os poros da sociedade
escravista, o colono apresentava a vantagem de vir já expropriado de seus meios
L
i . contrabalançada por um fato inegável: o novo sistema suprime a única de produção e socializado para o trabalho regular e intenso. Além disso, imbuído
garantia que possuíam contra a crueldade dos amos e o abusa de sua da idéia de ''fazer as Américas'', chegava disposto a aceitar os trabalhos mais
autoridade. Esta garantia era o interesse em prolongar as instâncias úteis, duros sempre que se lhe oferecesse a perspectiva, que ao fun e ao cabo poderia
em não debilitar pelo excesso de trabalho as constituições (corpos) que tomar-se ilusória, de aceder à propriedade.
reproduziam um capital considerável. Este cálculo, provavelmente odioso, O colono via-se atado pela dívida que supunha o financiamento de sua
era lógico e constituía uma garantia em favor da raça negra. Com os viagem e o adiantamento de dinheiro ou gêneros de subsistência até a primeira
coólies, esta garantia desaparece: que o chinês resista à tarefa durante colheita, gastos que primeiro ficaram a cargo dos fazendeiros e posteriormente
oito anos, isso é tudo o que demanda o interesse, e que esses oito anos do Estado. Chegado ao Brasil, era enviado diretamente a urna plantação ou a
se prolonguem para além de seu limite legal. Tenta-se conseguir isso uma fábrica, fundamentalmente à primeira. Nas plantações se lhe ofereciam
através de fantásticas contas de ferramentas quebradas, roupas gastas, diversas fórmulas que combinavam o trabalho no cultivo do café ou outros
etc.; eis aí a principal preocupação daquele que compra e emprega o produtos de exportação, de qualquer forma e sempre para o fazendeiro, com
coolie ( ... ) (Charles Wiener, 1880, citado por Burga, 1976: 236-7). diversas formas de pagamento (em espécie ou em dinheiro, de acordo com a
colheita ou proporcional) e de economia de subsistência (quintal próprio,
Grande parte desses trabalhadores eram contratados para grandes obras possibilidade de plantar milho entre as fileiras de pés de café, etc.). A duração
públicas ou para as plantações. Tanto urnas quanto as outras se prestavam dos contratos era em princípio indefmida, e seu cumprimento pelos colonos era
especialmente para a "iniciação" dos não europeus ao trabalho assalariado. As assegurado com a ameaça de sanções penais, mas os protestos do consulado
obras públicas tinham seu cenário em lugares afastados dos povoados e italiano e, sobretudo, o risco de ver cortada a fonte de mão de obra, levaram
levavam atrás de si os barracões de seus trabalhadores, aumentando assim seu a determinar um máximo para a duração dos contratos e a suavizar as cláusulas
desenraizamento e dificultando o abandono. As plantações eram unidades em penais. De qualquer forma, como o colono não conseguia dinheiro suficiente
boa medida autosuficientes, também afastadas dos núcleos de povoamento e, para aceder à propriedade, via-se obrigado a firmar contrato urna e outra vez
sendo trabalhos agrícolas, assemelhavam-se enormemente em suas condições na mesma ou em outra fazenda.

86 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta d_a Escola 87


0 que se buscava não era um trabalhador ~ualificado, _nem na agricultura, ''civilização'', um caminho alternativo teria sido o de favorecer o
nem na indústria, pois o cultivo dos cafezais estava 1sento _de qualq~er desenvolvimento de uma agricultura comercial independente. Na realidade, os
complexidade e as tarefas industriais que se lhes atribuía:n tambem (Go~~es nativos respondiam com muito mais boa vontade a esta possibilidade que à de
Arroyo, 1982: 89, 94-5). Assim, os italianos eram prefendos _aos ~sp~~1s e converter-se pronta e simplesmente em assalariados, apesar de sua, de
portugueses, e os do Norte aos napolitanos, por sua rna10: _~spos1çao a qualquer forma, escassa inclinação ao consumo para além das necessidades
submeter-se à disciplina de trabalho (Arroyo, 87-8); e, se no lillOO se achou básicas e de uns poucos elementos suntuários ou rituais, e ao trabalho
que era mais barato importar trabalhadores solteiros, logo se compr~~ndeu continuado. Entretanto, os europeus queriam sobretudo mão de obra barata.
que seria mais fácil manter sujeitos os casados, presos pe~s resp~ns~b~dades Apenas porque a queriam excepcionalmente barata não passaram
familiares (Ibid.: 96). Embora frente ao público internac10nal s~ ms1s~sse no simplesmente a expulsar os africanos de suas terras. Fizeram com que fossem
termo ''colono'' e se exaltasse a perspectiva de pronto acesso a propnedade, bastante pobres para que tivessem que correr a empregos assalariados tão
os documentos oficiais eram mais francos ao referir-se à "importação", logo se lhes oferecesse a possibilidade, mas não tanto que não pudessem
"seleção", "escolha" ou "atração de trabalhadores" Obid._: 84) .. Não faltou atender com suas atividades de subsistência à reprodução da força de trabalho,
uma tentativa de substituir os colonos europeus por coolies chineses, . e:n isto é, criar e alimentar as crianças, manter as mulheres e cuidar dos anciões.
condições contratuais muito piores, mas ela se viu frustrada pela opos1çao O desenvolvimento de uma agricultura indígena teria exigido a aquisição de
internacional e do governo chinês (Lamounier, 1988). , . algumas ferramentas que os nativos não tinham dinheiro para comprar, ou
Vale a pena deter-se também no caso da peonagem baseada em díVldas, rr.ecanismos de fmanciamento que, obviamente, não lhes foram oferecidos. Havia
que foi uma fórmula generalizada, por exemplo, no México, d~rante todo o necessidade de transportes, mas estes foram construídos exclusivamente na
século XIX. Os peões recebiam urna pequena parcela (o pe]uga[) e _uma medida das necessidades dos colonos europeus. Havia necessidade de liberdade
moradia (a casilla) na fazenda, assim como adiantamentos em espéc1e e, de mercado, mas se proibiu aos nativos cultivar alguns produtos e se lhes obrigou
subsidiariamente, em dinheiro (na venda vizinha). Em tro~, estavam a plantar outros (Berg, 1977: 167-8). Limitou-se seu direito a comerciar
obrigados a trabalhar cinco ou seis dias por semana para o ~azen~e~ro. Ao final livremente, por exemplo no Congo e no Kênia (Gann e Duigna, 1979: 124; Wolff,
do ano subtraía-se o adiantado do salário global e se transfena a díVlda restante 1974: 140 e ss.), ou se lhes impediu fazer chegar seus produtos às áreas européias
para 0 ano seguinte (Leal e Huacujo Roundtree, J?~4: 98 e ss.). Por e_ste (Barber, 1961: 26). Proibiu-se o comércio itinerante que ia até o interior
procedimento, o peão ficava permanentemente en_d1V1dado com o fazen?erro, comerciar com os nativos e expulsaram-se seus principais protagonistas, os
configurando-se assim uma relação por t_oda Vlda e herdad:: atrave_s de indianos, por exemplo, em Moçambique (Isaacman, 1976: 88; Hammond, 1966:
gerações. Embora esta fórmula se generalizasse pa~ exploraço~s. ~gncolas 88, 160). Utilizou-se o monopólio da demanda em mãos dos brancos para impor
nas quais o ritmo do trabalho era muito intenso, ela fm empregada lillCialmente preços artificialmente baixos - irúeriores aos que pagavam aos cultivadores
nas construções, nas quais índios naborias (antigos escravos ou seus filhos), europeus - ao milho africano, ou para excluir seu fumo, por exemplo, na Rodésia
geralmente peões por dívidas, prisioneiros e escravos negros ou mulatos, e na Nyasalândia (Berg, 1977: 167-8; Barber, 1961: 26-7). Impediu-se-lhes de
constituíam já no século XVII o grosso da força de trabalho. comprar terras fora de suas reservas e se lhes confmou a extensões limitadas,
ignorando - ou melhor dito, buscando - as pressões demográficas e forçan-
do-os assim a uma exploração intensiva (mas com técnicas extensivas
A supressão das oportunidades alternativas de vida tradicionais) e depredadora de suas terras (Barber, 1961: 174; Butler, Rotberg e
Adams, 1977: 10-1, 122). E nada se fez, naturalmente, para facilitar sua passagem
Um instrumento complementar foi a ampla parafernália de obstáculos das técnicas extensivas - inviáveis a partir de uma certa densidade demográfica
postos ao desenvolvimento de atividades econômicas _autosu~cient~s ou - de aproveitamento da terra a técnicas intensivas, capazes de um
distintas do trabalho assalariado por parte dos povos colomzados, mclus1ve ao aproveitamento eficaz e equilibrado do meio natural.
nível de subsistência. Para os colonizadores, tudo o que não significasse ver a Algo parecido ocorreu nas colônias da América. Nas Antilhas, como sob os
população nativa convertida em mão de obra bar~ta era in?esejá_vel: e i~to holandeses na Indonésia, a população foi simplesmente varrida, aniquilada ou
incluía desde 0 desenvolvimento de urna econoffila comercial propna ate a diretamente submetida ao trabalho forçado enquanto durou. Nas grandes
vagabundagem, passando pelas atividade~ de subsistência. extensões do continente, os índios tiveram que ser arrancados de seu hábitat
Se a ''missão'' do homem branco na Africa tivesse consistido tão-somente e os europeus privados da possibilidade de aceder às terras livres. Como já se
em estimular o comércio em favor das metrópoles e/ou em estender a disse, as reduções de índios, ao romper o ecosistema baseado na dispersão da

Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 89


88
população, forçavam os índios das colônias espanholas a buscar recursos . Como a profusão de terras em grande quantidade tem contribuído,
adicionais fora da economià de subsistência. Na cultura dos índios, por outro ITlalSque nenhuma outra causa, para a dificuldade que hoje se sente pa-
lado, não entrava a idéia de explorar a terra para além do necessário para a ra conseguir trabalhadores livres, é seu parecer que, de agora em diante,
satisfação de suas necessidades, negativa esplendidamente ilustrada pelas as terras sejam vendidas sem exceção alguma. Aumentando assim o valor
guerras contra os plantadores relatadas por Miguel Angel Asturias em das terras e dificultando-se, em conseqüência, sua aquisição, é de se
Hombres de Maíz. Quanto às tribos caçadoras e coletadoras, foram esperar que o imigrante pobre alugue seu trabalho e o faça realmente
simplesmente empurradas para territórios cada vez mais reduzidos nos quais por algum tempo, antes de obter meios para converter-se em proprietário
seu velho sistema de vida haveria de se tornar inviável. Esta foi a sorte, (Lima, 1954: 82).
combinada com o simples extermínio, dos índios da América do Norte, das
selvas amazônicas - a edificante empresa continua ainda hoje nesta zona - e Igualmente se aplicou a todos a y<trOJ.c::rnália de medidas de repressão da
do sul argentino. Em 1B59, por exemplo, o exército argentino fez uma primeira "vagabundagem", isto é, da autoexdusão do trabalho assalariado mediante o
tentativa de arrancar os matacos do Rio Bermejo de suas formas de vida recurso à economia de subsistência. O Manual para os juízes de paz de
tradicionais, colhendo um fracasso temporário, tal como o relatava o chefe da campanha, na Argentina de 1825, rezava:
fronteira Norte de Salta:
Outro mal de grave transcendência adverte o governo existir na
A tentativa terminou falida, apesar dessas promessas [de entregar-lhes campanha. Tal é o mal que causam alguns homens que sob o pretexto de
terras e obrigar os ''vizinhos'', os fazendeiros brancos, a pagar-lhes povoadores ou lavradores e sem ter mais fortuna que uma choça,
salários, quando os empregassem]; os índios se obstinaram, como se permanecem em alguns terrenos baldios ou de propriedade particular
obstinam sempre, a não abandonar seus campos de caça e as costas dos sob a denominação de arrimados, sem trabalhar, ou sem render todo o
rios para a pesca, apesar de viver ali na pior condição, pois, como eu disse produto que necessitam para seu sustento e o de suas famílias (Citado
antes, os donos dos terrenos exerciam as maiores arbitrariedades, como por Rodríguez Molas, 1982: 150).
a de castigá-los, matá-los e repartir suas famílias, apesar de tudo, vivendo
''
";, precariamente da caça e da pesca, apesar disso, digo, os índios resistiram, O expediente de perseguir os vagabundos, estigmatizando sob a mesma cate-
muitos se afastaram, outros fugiram para seus refúgios, que não distam goria desde os mendigos até todos os que, negando-se a converter-se em traba-
mais que dez ou vinte léguas de Orán, e não foi possível repetir a tentativa, lhadores assalariados, mantinham-se na economia de subsistência, apoiando-se
pois carecíamos de recursos (. .. ) (Irrigo Carrera, s/d: 29). em trabalhos remunerados ocasionais e precários, foi eficazmente importado da
Europa para as colônias. Já em 1790, os ''lavradores'' - isto é, os fazendeiros -
Esta sorte não estava reservada tão-somente aos índios ou a quaisquer argentinos solicitavam ao Cabildo de Buenos Aires que lhes autorizasse a formar
outros nativos, mas, de forma geral, a todo aquele que, de uma maneira ou um corpo policial para limpar o território próprio e o alheio,
outra, tratasse de subsistir à margem dos circuitos estabelecidos, isto é, à
margem do trabalho assalariado ou da grande propriedade. O acesso fácil à pois estreitados os criadores com os vínculos de uma bem regalada
pequena propriedade era o obstáculo mais evidente no caso dos imigrantes sociedade, e alentados com seu próprio interesse, agirão de forma
europeus. Em consonância com isso, no Brasil, onde por um lado tinha-se que . a purgar os campos de tudo o que lhes incomode, fazendo que os
recorrer à importação de colonos, mas por outro devia-se evitar que vagantes espanhóis se apliquem ao trabalho ou se destinem às novas po-
abandonassem rapidamente as fazendas, uma lei de 1850 cortou todas as vias pulações (... ) e que os negros e mulatos vivam precisamente agregados
de acesso à propriedade fundiária que não fossem as da compra. A partir dela, aos próprios criadores, para que estes possam vigiar sua conduta e
reverteram ao Estado todas as terras sobre as quais não existisse um direito acelerar seus trabalhos com este auxílio ( ...) (lbid.: 88).
de propriedade legalmente reconhecido e sancionado anteriormente, entre
elas todas aquelas das quais os caipiras haviam tomado posse pelo Em volta dessa mesma data, o alcaide de Coronda, província de Santa
procedimento antes aceito da ocupação. Ao mesmo tempo, o caminho ficava Fé, baseando-se em um auto de "bom governo" que ordena desalojar as
fechado de antemão para os colonos imigrantes (Gonzalez Arroyo, 1982: 229; famílias de povoadores "de seus ranchos e quintais", incendeia o povóado com
Souza, 1986: 122; Gnacarini, 1980: 34; Kowarick, 1987: 84-85). Já em 1842, o a ajuda da soldadesca. Com o apoio do padre da região, os prejudicados cor-
Conselho de Estado havia exposto claramente a razão: rem à justiça, demonstrando-se que a maioria de tais "vagantes" possuem

90 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 91


gado maior e menor e cultivam pequenas hortas e chácaras. Os incendiários ( ... ) É dever da sociedade pôr esses miseráveis filhos da selva sob
são multados, mas a tarefa já está feita (lbid.: 88-9). Ainda no final do século um regime de trabalho árduo, modificando assim seus hábitos grosseiros
XIX, a "a lei de conchabos" de Tucumán persegue penalmente os peões que (lbid.: 61).
faltem ao trabalho; os que o fazem
Esta política também foi habitual na África, especialmente nas colônias
sem licença do patrão, ou sem aviso, pelo menos no caso de necessidade portuguesas (em Moçambique, chegou-se a considerar como vagabundos
justificada, serão castigados com um dia de prisão, ou com uma multa de todos os que não estavam ç:ontratados: Wiedner, 1962: 212), mas deu-se
um peso nacional, e postos à disposição do patrão, cumprida a também nas civilizadas e humanitárias colônias britânicas (Wolff, 1974: 120).
condenação (Ibid.: 88-9).

Os indígenas e gauchos que teriam podido refugiar-se no deserto, sub- A resistência ao enquadramento ao trabalho
sistindo por seus próprios meios, são maciçamente detidos durante a década
dos 80. Em 1881, dez mil, no ano seguinte o dobro e no outro o triplo. Se Não se deve pensar que os africanos tivessem aceito de forma submissa
há empregos, devem aceitá-los e, se não o fazem, se os mantêm detidos· ou os propósitos dos brancos ou não tivessem sido capazes de opor-se a eles.
sob controle. Na década dos 90 qualiflcam-se como vagabundos todos os Naturalmente não contavam com a técnica nem com a organização necessárias
povoadores maiores de dezessete anos sem ''bens suficientes de que viver e para fazer frente aos invasores, mas exerceram múltiplas formas de resistên-
que não exerçam arte, profissão ou indústria que lhes proporcione sua sub- cia individual e coletiva. Em seu Voyage au Congo, André Gide reproduzia
sistência". Os assim qualiflcados - para o que basta o acordo do juiz de paz um relatório oficial de 1902 que considerava bastante eloqüente:
e dos ''vizinhos respeitáveis'' - devem empregar-se no prazo de quinze dias e,
senão o fazem, serão forçados ao trabalho em obras públicas (lbid.: 294-5). Durante o último ano, a situação tornou-se mais e mais difícil. Os man-
No Peru, a vagabundagem parece que se havia convertido em uma praga ,, gias estão consumidos e não têm já nem a capacidade nem a vontade de
que preocupava seriamente as autoridades em princípios do século XX (Bur- fazer nada. Preferem qualquer coisa, inclusive a morte, ao recrutamento. A
ga, 1976: 201). No Brasil, em finais do século XIX, os livres e libertos eram dispersão das tribos continuou durante mais de um ano. Os povoados se
ainda considerados vagabundos e indolentes (Kowarick, 1987: 15). O Con- desfazem, as famílias se dispersam, todo mundo abandona sua tribo, sua
gresso Agrícola, Comercial e Industrial do estado de Minas Gerais lamenta- aldeia, sua família e sua terra para viver na selva, como animal selvagem, com
va-se em 1903: o objetivo de evitar ser recrutado (Citado por Dumont, 1969: 38).

Estamos escassos de operários assíduos e diligentes, estamos Um fenômeno que recorda a decadência das povoações indígenas na
escassos de diaristas para os engenhos (... ). Há escassez de braços? América espanhola, os aspectos mais duros do ''desinteresse vital'' de que
Estritamente falando, não; o que escasseiam são os braços ativos, os falam alguns historiadores (Sánchez Albornoz, 1973: 75-7). Por volta de 46.000
trabalhadores, isso é o principal. Se a indústria não se queixa tanto é pessoas fugiram apenas em 1929 do trabalho nos campos de algodão e nas
porque, para ela (... ), o déficit não é tão palpável. A agricultura, rodovias do Alto Volta para dirigir-se à Costa do Ouro (Skinner, 1964: 172,
entretanto, está se debilitando e morrendo por causa da ausência quase 174). Ainda em 1945, ·os mos si selecionados para um suposto assentamento
completa deste elemento essencial de seu funcionamento. O povo não modelo no Delta do Niger abandonaram-no quase em massa tão logo tiveram
tem sujeição: esta pitoresca frase repetida em toda parte, expressa e a oportunidade, isto é, quando foi abolido o trabalho· forçado (Hammond,
defme bem a situação. Na verdade, a nossos trabalhadores lhes falta 1960: 114). No cristianíssimo Congo Belga, a resistência e as fugas para não
ambição; não estão familiarizados com o conforto; caracterizam-se pela coletar látex para os ocupantes foram também uma constante. O "Estado
imprevisão. Qualquer coisa é suficiente para eles (... ). São virtualmente livre'' decidiu então encarcerar as mulheres para forçar seus maridos a
nômades (... ) (Citado por Gonzáles Arroyo, 1982: 74-5). trabalhar (prática que já haviam empregado os espanhóis no Peru). Uma
canção de guerra indígena dizia:
Uma década antes, um fazendeiro desse mesmo estado já havia
respondido sem rubor a um questionário oficial qual poderia ser a melhor Não podemos permitir que nossas mulheres e crianças sejam presas
solução: E castigadas pelos selvagens brancos.

92 Mariano Fernândez Enguita A Face Oculta da Escola 93


Faremos a guerra contra Bula Matadi. a emancipação a regimes transitórios que os forçavam a con!lluar trabalhando,
Sabemos que morreremos, mas queremos morrer. como no caso da tutela nas colônias portuguesas na Africa (Hammond,
Queremos morrer (Gann e Duignan, 1979: 139). 1966: 316), da aprendizagem no Caribe britânico (Cardoso e Pérez Brignoli,
1987: II, 26), ou da já citada obrigação de empregar-se no Brasil.
Também na África Portuguesa era prática comum a emigração. Os nativos Não é preciso ir muito longe na associação entre escravidão e rejeição do
fugiam dos locais em que se lhes exigia trabalho para aq~eles em qu~ i~to trabalho assalariado. Há uma tese segundo a qual os trabalhadores livres
não ocorria, da região de Tete - como vimos - para não rr para o exerCltO, teriam rejeitado o trabalho assalariado precisamente ou com maior força ali
de Moçambique em seu conjunto para não serem convocados a trabalhar nas onde existia ou havia existido a escravidão, enquanto isso não ocorria onde
colônias francesas durante longos anos (Isaacman, 1976: 83, 85; Hammond, aquela não formava parte da história recente. Isto permitiria explicar sua
1966: 164). Os bantus das terras próximas ao Kilimanjaro fugiram, deixa- suposta aceitação na Europa e sua rejeição na América Latina, por exemplo.
ram-se morrer de fome ou se rebelaram, para não aceitar o trabalho Paralela a esta corre outra tese, a qual pretende explicar a rejeição do trabalho
assalariado (Wiedner, 1962: 212; Barber, 1961: 48). Os passaportes interiores assalariado pelos ex-escravos, por exemplo no sul dos Estados Unidos, porque
converteram-se em um instrumento de controle habitual para impedir as se teriam impregnado do espírito ocioso e do desdém pelo trabalho de seus
migrações dos que queriam evitar trabalhar para os europeus (Wolff, 1974: aristocráticos amos. Entretanto, já vimos que a rejeição se deu com igual ou
105, 119-20; Wiedner, 1962: 139). maior força na Europa livre que nas colônias, só que naquela foi mais fácil de
A fuga das plantações, em especial, foi muito freqüente em outros estancar, ao menos em sua forma mais extrema - a simples recusa a vender
continentes, tanto na Ásia (Myrdal, 1968: 1105-6), como na América (Wolf, a própria força de trabalho - pela forte limitação das oportunidades
1982: 156, 368). No Caribe, em particular, chegaram a adquirir grande alternativas de vida, em particular a carência de terras livres.
importância os palenque formados por escravos negros fugidos, sobretudo Se o trabalho assalariado foi estigmatizado nas colônias latino-americanas
na Jamaica e no Suriname (Cardoso e Pérez Brignoli, 1987: I, 209-11); um ou africanas, ou entre os negros do sul dos Estados Unidos, como assimilável
papel semelhante parece que exerceu também o território da Florida para os à escravidão, isto não implica que esta fosse a responsável por aquele. Na
escravos fugidos das plantações de algodão da América do Norte. Em 1792, Europa usou-se a mesma metáfora, embora também, com mais freqüência, as
os índios gananes da fazenda mexicana Las Palmillas abandonaram-na em fábricas fossem equiparadas a prisões ou a casas de trabalho. No Brasil, as
massa, devendo ser detidos pelo "oficial da República" e levados ante o juiz, condições de vida dos colonos não eram muito mais apreciadas pelos homens
ao qual explicaram que o ajudante do capataz da fazenda os tratava muito mal e livres, incluídos os parceiros (Gnacarini, 1980: 139), que as dos escravos. O
que ocorria, realmente, era que homens e mulheresestigmatizavam o traba-
como se não fôssemos racionais, quer que o trabalho vá além do que lho assalariado com os vocábulos e imagens mais fortes a seu alcance e, se
podem as forças naturais, motivo pelo qual, amedrontados com o excesso, na Europa do antigo regime o pior que se podia imaginar era a prisão, nas
nos retiramos da fazenda (Gonzáles Sánchez, 1986: 164). colônias o espantalho era a escravidão. Se as coisas tivessem se passado de
forma diferente, as imagens teriam sido outras. Um jornalista francês que
Entre 1875 e 1879, grande quantidade de índios pampas capturados na havia visitado o Brasil contava a resposta que havia ouvido, em 1910, da boca
pampa e na Patagônia foram enviados a trabalhar nos engenhos de açúcar de de ·uma criada negra, ao se negar a obedecer urna ordem que considerava
Tucumán, mas, antes que se passasse urna década, salvo os que não puderam indigna: "Quem você crê que sou? Uma italiana?" (Holloway, 1984: 161).
fazê-lo por terem sido mortos, a quase totalidade havia fugido (Guy, 1981). A interpretação da rejeição do trabalho assalariado como urna reação à
Tão pouco atrativo se tomava o trabalho assalariado que era considerado imagem da escravidão, seja pelos homens livres que conviveram com esta ou
um coisa própria de escravos, inclusive pelos próprios escravos. Na ilha pelos escravos libertos e seus descendentes, não passa de urna forma tosca
portuguesa de São Tomé, os habitantes livres negavam-se a se assalariar, de eximir o modo de produção capitalista de toda culpa. A mesma função
incluídos os forros, os mais pobres dentre eles, com freqüência antigos teve na Europa a atribuição de tal rejeição à associação supostamente espúria
escravos ou libertos; a emancipação de 1876 trouxe também um aumento das fábricas com as workhouses e outras formas contemporâneas de traba-
maciço da desocupação na África (Hammond, 1966: 314). A mesma repulsão lho forçado. Uma vez que o modo de trabalho próprio do capitalismo é
em relação ao trabalho assalariado deu-se entre os escravos emancipados da imaginado como o único possível e desejável - para os demais, claro -, a
América Latina (Cardoso e Pérez Brignoli, 1987: li, 26). Preventivamente, as responsabilidade tem que estar fora. Normalmente é situada do lado dos
potências coloniais, com freqüência, submeteram os escravos libertados com indivíduos - os "vagabundos" -; de forma complementar ou subsidiária, ao
94 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 95
lado dos modos de trabalho anteriores ou das formas transitórias que, se em familias (Karmack, 1967: 101-2), ou dos bantus da Somália, que não queriam
sua época foram tidas como imprescindíveis, uma vez cumprida sua função produzir para o mercado, afrrmando que "o algodão não se come"? (Hess,
são vistas com cínico ou ingênuo assombro. Esta versão tem a vantagem 1966: 114-5). E o que pensar do carpinteiro indígena que, depois de lavrar um
adicional de, como que de passagem, enfatizar implicitamente o caráter chaukut para uma porta ou janela, ficava um dia sem trabalhar, colocava-o
"liberador" do processo de trabalho caracteristicamente capitalista frente às sobre um lençol estendido no chão diante da casa que ia adornar e se sentava
formas que o precederam. junto a ele para receber as felicitações e os obséquios de seus paisanos
admirados? (Singer, 1960: 266). Naturalmente, a resposta é de que se trata
de seres imaturos, infantis, não econômicos, ou seja, não racionais. É o mesmo
A produtividade do trabalho indígena que pensava Saint-Hilaire dos caipiras brasileiros em finais do século passado:

Quando africanos, americanos nativos e asiáticos eram submetidos, por Quando um artesão ganhava algumas patacas (330 réis) descansava
uma via ou outra, ao trabalho fabril ou às tarefas sistemáticas das plantações, até que elas terminassem. (... ) Se alguém precisasse encomendar alguma
permanecia todavia o problema da baixa produtividade de seu trabalho: Desde coisa a um artesão tinha que fazê-lo com grande antecipação. Suponha-
o começo da colonização, a escassa produtividade dos nativos foi a obsessão mos, por exemplo, que se tratasse de um trabalho de carpintaria. Antes
dos europeus em toda parte. ]á ouvimos os espanhóis falarem sobre a atitude de mais nada era necessário recorrer aos amigos para conseguir, na selva,
dos índios perante o trabalho. Um relatório oficial de 1946 sobre a África a madeira para o trabalho. Em seguida, era necessário ir centenas de
oriental britânica (Kênia, Uganda e Tanganika) - um entre mil - assinalava: vezes à casa do carpinteiro, pressionando-o e ameaçando-o. E, ao fmal,
"O problema dominante erri toda a África Oriental é o nível deploravelmente muitas vezes não se conseguia nada (Saint-Hilaire, 1976: 146).
baixo de eficiência do trabalhador" (De Briey, 1977: 190). Fazia parte da
opinião generalizada que os africanos e, em geral, os povos não brancos - Os nativos, em troca, achavam que o irracional era a forma com que os
ou não anglos, ou não saxões - eram incapazes de um esforço contínuo, da colonialistas queriam que eles trabalhassem. ''Como pode um hom~m -
regularidade exigida pelo trabalho industrial. perguntavam-se os camaroneses à vista das plantações - trabalhar assim, dia
após dia, sem ficar louco? Não morrerá?" (Thompson, 1967: 38). E os mossi
A aparente impossibilidade de se encontrar um número suficiente de do Alto Volta sentenciavam: Nansaratoumde di Mossi ("O trabalho do
trabalhadores africanos minimamente eficiente absorvia a atenção dos homem branco come [isto é, mata] as pessoas") (Skinner, 1964: 158), e não
europeus excluindo quase qualquer outra preocupação: "é o tema estavam muito equivocados, pois a taxa de mortalidade entre os jovens mossi
constante de todas as discussões em todos os hotéis, em todos os clu- recrutados para o trabalho era muito elevada; outros exemplos podem ser
bes, no trem, e no barco, ao redor de todas as cenas e em todos os encontrados na população do Gabão, que decresceu de um milhão de
balcões .." (Wolff, 1974: 96, citando uma carta de "Um velho residente", habitantes no início do século para menos da metade em fmais dos anos
publicada em 1909). sessenta (Dumont, 1969: 39), ou na morte de 47.000 entre 164.000 contra-
tados e soldados do Kênia - a maioria fora do campo de batalha - durante a
Tais dificuldades não eram senão a e.xpressão da incompatibilidade entre primeira guerra mundial (Wolff, 1974: 106).
os hábitos de trabalho nativos e os que queriam impor-lhes os ocupantes .Pensc;:-se, por exemplo, nos horários de trabalho citados no começo deste
europeus. Na cultura nativa, o ócio ou a satisfação derivados do trabalho bem capítulo. E verdade que correspondem a povos que se encontravam no estádio
feito eram muito mais importantes que qualquer critério relacionado com o da caça-coleta, mas não se deve pensar que outros sistemas econômicos pré-
rendimento, a rapidez ou a valorização quantitativa de um equivalente obtido capitalistas tenham gerado condições de trabalho muito mais duras. Estima-
em troca do próprio trabalho (veja-se Karmack, 1967: 54, 101; Barber, 1961: tivas recentes sobre o trabalho na Ásia, que não é precisamente sede de
70). Do ponto de vista do colono branco ou da administração que defendia seus in- culturas primitivas, dão resultados parecidos. De acordo com um estudo de
teresses, isto era um comportamento não econômico, não racional, atávico. 1950 sobre a Índia, de uma força de trabalho de 160 milhões de pessoas, 20
Se não se trata disso, como julgar então a atitude dos agricultores do milhões trabalhavam uma hora ou menos por dia, 27 milhões 2 horas, 45
Kênia, da Tanzania ou da Uganda que deixavam os 10 ou 20o/o finais da co- milhões quatro horas ou menos (Swianiewicz, 1965: 63). Outro estudo, de
lheita de algodão sem recolher, que ao aumentar sua renda contratavam 1926-1927, concernente tão-somente à agricultura, fala de um ócio entre os
assalariados para fazer um trabalho que poderiam fazer eles mesmos ou suas agricultores indianos de, pelo menos, 2 a 4 meses por ano; de acordo com

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outro, nas zonas de irrigação 0.110 dos camponeses) o ócio é de três meses, europeus para alcançar um certo resultado com as máquinas. (... ) Em uma
nas restantes (9/10) de nove ou dez. Inclusive entre os assalariados (gain- fábrica têxtil do Congo belga, na qual se empregam mulheres africanas para
fully employed), em 1955, 27% trabalhavam menos de 29 horas por semana manejar algumas máquinas, urna trabalhadora maneja duas máquinas,
e outros 17% entre 29 e 42. Um estudo sobre o Ceilão, concernente aos anos enquanto, na Bélgica, uma mulher européia maneja quatro máquinas iguais.
1952-53, assinalava que 14% da mão de obra trabalhava menos de 20 horas por (... ) Em Ubangi-Chari, o produto dos africanos em várias formas de trabalho
semana, e a porcentagem seria muito maior se s.e descontassem os empre- de construção era de apenas entre um terço e um quarto daquele dos
gados nas plantações, que desenvolviam longas jornadas. Na Malásia, calcu- trabalhadores que, na França, desempenham o mesmo tipo de tarefas (O.I.T.,
lava-se que a jornada média de um pequeno camponês, produtor de látex para 1958: 144-6; citado por Udy, 1970: 60).
o mercado, era de 1,3 horas de trabalho pesado, 1,2 horas de trabalho
moderado e 0,8 horas de trabalho leve: total, 3,3 horas (estudos citados por Recapitulação
Myrdal, 1968: 1076-80). . .
Esta idéia parece ver-se apoiada pelas comparações de produtlVldade. Tentemos resumir. A chegada dos europeus àquelas que iam ser as
Em condições iguais, o rendimento dos trabalhadores não ocidentais mostra- colônias colocou-os em contato com civilizações que não tinham passado pelo
se, em geral, muito inferior ao dos ocidentais. Na Hindustan Machine Tools, longo processo de expropriação dos meios de vida, transformações nas pautas
por exemplo, 4 indianos produziam em 1955 o mesmo que 1 suíço, passando de trabalho e mudanças culturais que culminariam, na metrópole, no
a relação a ser de 3 para 2 em 1961. EmJamshedpur, nas oficinas da Mercedes, desenvolvimento do capitalismo e na industrialização. Em muitos casos, trata-
6 operários de Tata faziam em 1955 o mesmo que um alemão de Stuttgart, va-se de povos que viviam estritamente em uma economia de subsistência,
passando a relação a ser de 6 para 5 em 1961. Na Integral Coach, de Perambur, organizados em unidades domésticas inteira ou quase inteiramente
um vagão ferroviário exigia 19.648 horas de trabalho indian~s, enquanto na autosuficientes. Em outros, sobre estas unidades levantavam-se aparatos
Europa bastavam 6.500 horas de trabalho suíças; em 1961, na India, isto já era políticos com funções de extração e redistribuição do excedente econômico,
conseguido com apenas 8.519 horas (lbid.: 1141n). Nas minas de carvão de mas a produção de um excedente continuava sendo marginal com relação à
Coahuila, México, o patrão Edwin Ludlow registrava em princípios deste século produção para o próprio consumo, além de reverter sobre as unidades
o que eram capazes de carregar os trabalhadores de diferente grupos étnicos: domésticas e estar estreitamente associada à sua cultura política e religiosa.
os norte-americanos brancos, 10 toneladas por dia, os negros 8, os italianos 6, Se o primeiro contato com os avanços da civilização européia foi, em geral,
os japoneses 5, os chineses 4 e os mexicanos 2. Ludlow esperava que em uma meramente comercial, o assentamento dos colonizadores nos novos territórios e
geração os mineiros mexicanos seriam tão eficientes quanto os norte-ameri- sua vontade prioritária de explorar seus recursos com vistas a seu próprio consumo
canos, ingleses ou alemães (Bern~tein, 1964: 89). Entretanto, os pr?prios e, sobretudo, à exportação, colocou em seguida a questão da mão de obra.
trabalhadores negros, que se aprmamavam do recorde dos norte-amencanos Para os nativos, isto significava levar seu esforço de trabalho para além
brancos no México, situavam-se muito distantes dele em sua terra natal, uma de suas necessidades, algo contrário à lógica da economia de subsistência.
vez mais. Quase todas as avaliações dos trabalhadores africanos vinham a Além disso, tratava-se de trabalhar para outros, para estranhos, em vez de para
coincidir com esta dos camaroneses sob o donúnio francês, extraída de um si próprios. Mesmo se já antes o haviam feito no marco de suas organizações
relatório de 1949: políticas autóctones, estas - como as européias para os europeus -
devolviam algo em troca e eram parte integrante de sua cultura, duas
Comparado com o produto de um trabalhador branco, o do negro varia condições que não queriam (a primeira) nem podiam (a segunda) reunir os
entre um terço e um sétimo ou um oitavo, dependendo do empregador e recém chegados senhores. Supunha, enfun, abandonar seus hábitos
do ofício - ou dentro de um ofício dado. A proporção habitual é de um irregulares e pausados de trabalho em favor da regularidade e da intensidade
quarto. Em outras palavras, um negro precisa quatro dias para fazer o próprias das obras públicas, das plantações, das construções e das fábricas
que um branco faz em um. E esta opinião tem sido confirmada por todos - em geral, da empresa capitalista ou da simples exploração coletiva do
os empregadores com os quais temos falado (DeBriey, 1977: 191). trabalho. Em suma, o mesmo problema já surgido na industrialização européia,
mas multiplicado e potenciado pela violência do choque cultural e pela dis-
Em uma fábrica de tabaco de Uganda, a direção estimava que na mesma, tância e pela incompatibilidade entre dois mundos distintos.
em geral, necessita-se de tr-ês africanos para produzir o que podem produzir O recurso mais elementar era o de submeter os nativos a diversas formas
na Europa dois europeus; em resumo, são necessários mais africanos que de trabalho forçado, mas isto não deixava de colocar sérios problemas. A

98 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 99


forma absoluta do trabalho forçado, a escravidão, foi o primeiro expediente inflexibilidades da escravidão e de evitar sua rejeição em face da persistente
adotado, mas exigia certas circunstãncias especiais. Em primeiro lugar, não era negativa dos nativos a dançar conforme a música dos europeus. Entretanto,
viável, ao menos em sua forma moderna, no território dos escravizados. Em embora edulcoradas, estas formas de trabalho forçado conservavam, com uma
conseqüência, desenvolveu-se na forma da exportação maciça de mão de obra única exceção - a imobilização maciça de capitais -, todos os inconvenientes da
de um continente a outro, obtendo-se assim o desenraízamento das vítimas. escravidão. Tudo apontava para a conveniência e a necessidade de chegar a
Por outro lado, a escravidão era a única forma segura de se obter e conservar a satisfazer as exigências de mão de obra dentro de um regime de trabalho livre.
mão de obra em condições de acesso livre à terra e a outros meios de vida. Mas não podia haver "trabalho livre", isto é, braços dispostos a empre-
Em segundo lugar, a compra de escravos significava a imobilização de gar-se nas condições que propunham os europeus, enquanto as cabeças
consideráveis quantidades de dinheiro que, de outra forma, poderiam funcionar situadas sobre aqueles considerassem que podiam satisfazer suas
estritamente como capital. Enquanto o trabalho assalariado exige do necessidades por meios mais benignos e menos constritivos. Para que
empregador apenas que adiante ao trabalhador o necessário para sua acudissem em tropel às plantações e fápricas seria necessário elevar essas
reprodução até o próximo pagamento, a escravidão exige comprá-lo de uma vez necessidades acima de suas possibilidades de satisfação, suprirrúr as formas
por todas, por todo seu valor prospectivo. Além disso, um decréscimo no rúvel de se obter meios para satisfazê-las, diferentes do trabalho assalariado, ou
de produção, ou um aumento na produtividade do trabalho, mantendo-se ambas as coisas. Esta foi a parte suave, aparentemente e em comparação
constante a produção, criava outro problema para o escravista, o de manter a com a escravidão e com o trabalho forçado, da história colonial. Na realidade
mão de obra inativa, o que o capitalista podia evitar facilmente, livrando-se foi tão sangrenta quanto a anterior, mas, enquanto a escravidão, a caça de
dela, isto é, não tornando a contratá-la quando não fosse necessário. Além escravos, os navios negreiros ou os trabalhos forçados indiscrirrúnados
disso, a possibilidade de morte, enferrrúdade ou invalidez para o trabalho, incomodavam a consciência européia, as expropriações de terras, os impostos
convertia a compra do escravo em uma inversão muito arriscada em em dinheiro, a repressão da vagabundagem ou a isenção condicional do ser-
comparação com a realizada no trabalhador livre, reduzida ao salário. A viço rrúlitar encaixavam-se e encaixam-se dentro daquilo que qualquer fariseu
passagem da escravidão ao trabalho livre não é senão a transferência dos comum podia e pode aceitar sem perder a compostura.
custos do fator trabalho, da parte ftxa, para a parte variável do capital. Aumentar as necessidades dos nativos foi o propósito de medidas como
Em terceiro lugar, a produtividade do trabalho escravo era muito baixa. as vendas a crédito, os impostos em dinheiro, a obrigação de comprar certas
Vendido por toda a vida, tendo perdido defmitivamente sua liberdade, o escravo mercadorias, etc. Entretanto, este expediente não podia ser estendido ao
não podia encontrar nenhum interesse, nenhum estímulo positivo que o infinito, pois chocava-se com as culturas autóctones e, levada a seu ponto
levasse a um maior esforço de trabalho - para o amo. O único estimulo para extremo, era tão capaz de suscitar resistência quanto a escravidão ou o
seu trabalho era a repressão, o castigo. Em comparação, os trabalhadores trabalho forçado maciço. Seu resultado mais brilhante não o era tanto: o
livres, além de mais baratos, mostravam-se muito mais dispostos ao esforço e trabalhador ocasional, o target-worker, com um objetivo-teto para além de
eram, por conseguinte, mais produtivos. De qualquer forma, a organização de cuja consecução não estava disposto a continuar trabalhando, o que continuava
uma exploração econõrrúca com base no trabalho escravo supunha custos de supondo insegurança, incerteza, baixa produtividade e altos custos de
supervisão muito elevados. recrutamente e formação para os empresários.
Em quarto lugar, a moral européia encarava com crescentes maus olhos a Suprirrúr as oportunidades alternativas de vida foi o objeto de medidas
escravidão das pessoas, incluídas as de outras raças, sobretudo a partir do como o oligopólio das terras e/ou o encarecimento do acesso a elas, os
momento em que deixou de ver-se a escravidão como necessária ou conve- obstáculos postos à incorporação a atividades econôrrúcas que só eram
niente. Uma vez que o tráfico de escravos era um tráfico internacional, al- perrrútidas aos europeus e a perseguição à ''vagabundagem'', que na realidade
guns países que tardavam em tornar patentes seus princípios cristãos viram- não foi senão a elirrúnação da economia de subsistência. Os contratos de longa
se, a contragosto, em face do esgotamento da oferta exterior de gado huma- duração pra coolies, colonos, aprendizes, etc., não eram mais que outra for-
no e do rápido encarecimento de seus preços interiores. ma de se obter a mesma coisa: em vez de impedir-lhes o acesso a outra forma
A primeira resposta a esta panóplia de problemas foi a busca de outras de vida, se lhes proibia abandonar a presente, o trabalho assalariado.
formas de trabalho forçado. Deste ponto de vista, a encomienda, o repar- Na realidade: ou meios de vida livres, ou trabalho livre. Talvez seja este
timiento, o mussoco, a mita, o coatequil, os impostos em trabalho, a o momento de pedir desculpas pelo emprego reiterado da expressão "trabalho
duxB!me portion, o envio dos supostos vagabundos às obras públicas e livre''. Enquanto os recursos eram livres, fundamentalmente a terra, o trabalho
outras variantes não eram senão formas distintas de tratar de aliviar as tinha que ser forçado, pois ninguém teria aceitado converter-se em assalariado

Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 101


100
podendo viver, inclusive sobreviver, trabalhando para si mesmo. Para que o
trabalho se convertesse em assalariado, em "livre" de qualquer outra
alternativa de vida, livre de recursos com os quais subsistir por si mesmo,
isto é, para que alguns homens e mulheres, a maioria, aceitassem trabalhar
para outros, a minoria, era preciso que os meios de trabalho deixassem de ser
acessíveis. Nas colônias, como na Europa, o trabalho assalariado não foi
conseqüência da ascensão à liberdade pessoal, mas da queda na carência de
outros recursos.
SEGUNDA PARTE:
A CONTRIBUIÇÃO DA
ESCOLA

Il

'i

102 Mariano Fernández Enguita


DO LAR À FÁBRICA,
PASSANDO PELA SALA DE AULA:
A GÊNESE DA ESCOLA DE MASSAS

Sempre existiu algum processo preparatório para a a integração nas


relações sociais de produção, e com freqüência, alguma outra instituição
que não a própria produção em que se efetuou esse processo. Nas socieda-
des primitivas podem ser o jogos ou as fratrias de adolescentes, marcado
seu desenvolvimento por algum que outro rito de iniciação. Em alguns casos,
a iniciação de crianças e adolescentes é responsabilidade dos adultos em
geral ou dos anciãos; em outras, de estruturas mais ou menos fechadas
!l de parentesco ou da família, que é de qualquer forma urna estrutura am-
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pliada. ·
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! Na Roma arcaica, por exemplo, encontramo-nos com uma mistura de
aprendizagem familiar e participação na vida adulta em· geral: o jovem varão
simplesmente acompanha o pai no trabalho da terra, no foro ou na guerra,
enquanto as filhas permanecem junto à mãe ajudando-a em outras tarefas. Na
economia camponesa, mesmo em nossos dias, a sede da aprendizagem social
e para o trabalho continua sendo a família. Para o camponês autosuficiente, a
escola não podia oferecer outra coisa que doutrinamento religioso e, em seu
caso, político. As destrezas e os conhecimentos necessários para seu trabalho
podiam ser adquiridos no próprio local de trabalho; e, de qualquer forma, a
escola não os oferecia.

A Face Oculta da Escola 105


Algo parecido ocorria na Idade Média, com a diferença de que neste obrigado a servir fielmente ao mestre não apenas nas tarefas do ofício, mas
período a permanência na família original era substituída em grande medida no conjunto da vida doméstica. O mestre estava obrigado a ensinar-lhe as
pela educação ou aprendizagem no seio de outra familia. Philippe Aries (1973: técnicas do ofício, mas também a alimentá-lo e a vesti-lo, dar-lhe uma
252-253) recolhe um texto italiano sobre a fanu1ia medieval inglesa em fmais do formação moral e religiosa e prepará-lo para converter-se em um cidadão
século XV: (Scott, 1914); e, com freqüência, a ensinar-lhe os rudimentos literários e a
enviá-lo a uma escola na qual pudesse adquiri-los (Bennett, 1926: 22). O
A falta de coração dos ingleses manifesta-se particularmente em sua contrato de aprendizagem (indenture), que vinculava a ambos durante um
atitude para com seus filhos. Após havê-los tido em casa até os sete ou longo período, em geral de sete anos, convertia a relação em algo estável.
nove anos (entre nossos autores clássicos, sete anos é a idade em que as Ademais, a convivência continuada em uma pequena oficina que era também a
crianças deixam as mulheres para incorporar-se à escola ou ao mundo dos residência convertia o conjunto formado pelo mestre artesão e pelo punhado
adultos), colocam-nos, tanto os meninos quanto as meninas, no duro de oficiais e aprendizes em uma sorte de família ampliada sem laços consan-
serviço das casas de outras pessoas, às quais as crianças ficam vinculadas güíneos.
por um período de sete a nove anos (portanto, até a idade de quatorze a Estes intercâmbios familiares e contratos de aprendizagem incluíam não
dezoito anos, aproximadamente). São chamados então de aprendizes. apenas as crianças e jovens que conseguiam assim dar o primeiro passo para
Durante este tempo desempenham todos os ofícios domésticos. Há incorporar-se ao artesanato a partir de outro setor social, mas também e
poucos que evitam este tratamento, pois todos, qualquer que seja sua sobretudo os filhos dos próprios artesãos, que se iniciavam no ofício em uma
fortuna, enviam assim seus filhos às casas de outros enquanto recebem família e oficina alheios; o qual, por sua vez, criava uma espessa rede de
por sua vez as crianças alheias. reciprocidades tendente a normalizar e a estabilizar a relação mestre-aprendiz,
pois o tratamento dado ao aprendiz acolhido era o que iria receber o ftlho
O mesmo afirma a respeito das classes altas Rowling (1979: 137), o qual enviado para fora da família. Embora o trabalho do aprendiz beneficiasse em
assinala que freqüentemente enviavam seus filhos a outros lares para que primeiro lugar o mestre (assim como o do oficial), a relação de dependência,
servissem como pagens a partir dos sete anos e como escudeiros ou subordinação e, provavelmente, exploração, encontrava sua contrapartida na
assistentes (squires) a partir dos quatorze. Aries, apoiando-se para isso em própria formação e na perspectiva, não segura porém presente, de culminar a
. , outros testemunhos dos séculos XII e XV, sugere que este costume, embora própria carreira alcançando a condição de artesão independente .
cause admiração ao autor italiano do texto antes citado, devia estar bastante Em geral, a aprendizagem e a educação tinham lugar como socialização
·i ampliado no ocidente durante a Idade Média, alcançando outros países e direta de uma geração por outra, mediante a participação cotidiana das crianças
outros estamentos sociais. nas atividades da vida adulta e sem a intervenção sistemática de agentes
As crianças eram enviadas a outra casa com um contrato ou sem ele. Ali especializados que representa hoje a escola, instituição que então
aprendia111: boas maneiras e talvez fossem levadas a uma escola, embora estas desempenhava um papel marginal.
não fossem muito apreciadas pelas classes· altas. Desempenhavam funções Mas aqui queremos enfatizar outro aspecto. Em uma época em que as
servis e não ficava muito clara a fronteira entre os serventes propriamente relações de produção são atravessadas de cima a baixo por relações sociais de
ditos e os jovens encarregados de sua educação e eles próprios: vem daí que dependência, a criança que é enviada como aprendiz-servente a outra família
os livros que ensinavam boas maneiras par~ os serventes se chamassem em está aprendendo algo mais que um ofício ou boas maneiras: está aprendendo
inglês babees books, ou que a palavra valet servisse também para designar as relações sociais de produção.
os meninos, ou que o termo garçon designasse também ambas as coisas e se
conserve ainda hoje, na França, para designar quem serve as mesas nos Assim, o serviço doméstico confunde-se com a aprendizagem, forma
restaurantes (o termo espanhol mozo talvez inclua-se no mesmo caso). Esta muito geral da educação. A criança aprendia por meio da prática, e esta
era a via normal de aprendizagem, enquanto a escola; pelo menos além das prática não se detinha nos limites de uma profissão, pois não havia então,
primeiras letras, ficava reservada para os que estavam chamados a ser copistas nem houve por muito tempo, limites entre a profissão e a vida privada
ou algo similar. (... ) . Assim, é por meio do serviço doméstico que o mestre transmitirá a
Esta espécie de intercâmbio familiar tinha lugar de forma especial no uma criança, e não à sua, mas à de outro, a bagagem de conhecimentos,
artesanato. O mestre artesão acolhia um pequeno número de aprendizes a experiência prática e o valor humano dos que se lhe supõe em possessão
entrando com eles numa relação de mútuas obrigações. O aprendiz estava (Aries, 1973: 255).
106 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 107
Por que, entretanto, em outra farru1ia e não na própria? Precisamen:e por em estes reinos de seis anos a esta parte, pessoas piedosas têm dado
essa segunda função da aprendizagem, talvez a mais importante. Naguela ordem para que haja colégios de meninos e meninas, desejando dar
época, o normal era que os filhos homens adotassem a mesma profissão ou o remédio à grande perdição que de vagabundos, órfãos e crianças
mesmo ofício dos pais e, naturalmente, que herdassem sua pertinência a um desamparadas havia, ( ... ) porque é certo que ao se remediar estas
estamento ou a outro. A transmissão e ·aquisição das necessárias destrezas crianças perdidas põe-se obstáculo aos latrocínios, delitos graves, e
sociais e de trabalho, por conseguinte, bem podiam ser levadas a efeito na enormes, que por se criarem livres e sem dono, aumentam, porque se
própria familia. Mas esta, vinculada por laços afetivos, não era o lugar mais tendo criado em liberdade de necessidade hão de ser quando grandes
adequado, provavelmente, para aprender os laços de dependência nem a au- gente indomável, destruidora do bem público, corrompedora dos bons
to-disciplina necessários. Para isso era necessário haver uma relação mais costumes, contaminadora das gentes e povos (Varela, 1983: 240).
distante entre o mestre e o aprendiz, ou entre o cavalheiro e seu assistente,
e isto só se podia obter ou, ao menos, era a melhor forma de fazê-lo, colo:ando Entretanto, foi o desenvolvimento das manufaturas que converteu
os jovenzinhos a cargo de outra familia que, assumindo o papel de educadora, defmitivamente as crianças na guloseima mais cobiçada pelos industriais:
não se visse travada pelo obstáculo do afeto. Mmal, já na Idade Média diretamente, como mão de obra barata, e indiretamente, como futura mão de
encontramo-nos com a incapacidade parcial da instituição familiar para iniciar as obra necessitada de disciplina. O momento culminante dos orfanatos e, em
jovens gerações nas relações sociais existentes. geral, do internamento e disciplinamento das crianças em casas de trabalho e
Era comum que os jovens nobres que serviam em casa de uma familia outros estabelecimentos similares foi o século XVIII.
alheia fossem colocados a cargo de um preceptor, assim como os artesãos que Na Inglaterra, as workhouses converteram-se em Schools of Industry
acolhiam as crianças alheias para ensinar-lhes o ofício comprometiam-se além ou Colleges o f Labour. O essencial não era já pôr os vagabundos e seus fllhos
disso a ensinar-lhes a ler e a escrever ou a enviá-las à escola, embora, em a fazer um trabalho útil com vistas à sua manutenção, mas educá-los na
ambos os casos, o ensino literário desempenhasse um papel marginal. Os disciplina e nos hábitos necessários para trabalhar posteriormente (Furniss,
fllhos dos aristocratas podiam aprender as primeiras letras no colo de suas 1965: 85 ss.). Sir josiah Child expressou em seu New Discourse on Trade
mães, mas, de qualquer forma, não iriam muito além disso. O ideal educativo o que a maioria dos autores de sua época pensava:
da nobreza feudal não passava pelas letras, mas por aprender a montar a cavalo,
a usar as armas e, talvez, a tocar um instrumento musical. Quanto aos ( ... ) Que produzam lucros ou não, é ·algo que não importa muito; o grande
artesãos, a aprendizagem literária era para eles muito secundária e, no problema da nação é, em primeiro lugar, afastar o pobre da mendicidade
concernente aos camponeses, os poucos que acudiam a uma escola eram e da inanição e assegurar-se de que todos os que sejam capazes de
apenas doutrinados nos tópicos religiosos e morais em voga. trabalhar possam ser, no futuro, membros úteis para o reino (Furniss,
1965: 92).
O internamento da infância marginal
Muitos autores expressaram seu desejo de ver universalmente internadas
Na própria Idade Média, entretanto, havia algo mais que nobres, artesãos as crianças pobres, e ''escolarizadas'', o que fundamentalmente significava
e camponeses. Um setor importante e crescente da população, antecipação submetidas a muitas horas de trabalho e alguma de instrução. Entre eles,
da grande massa que seria despojada de seus meios de vida no processo Richard Haines, que propunha internar e pôr a trabalhar as crianças pobres
da Revolução Industrial, vivia já marginalizado das relações dominantes de desde os quatro anos. Algo parecido propôs William Temple:
produção: mendigos, vagabundos, pícaros, órfãos, etc. Contra os acultos
instituiu-se o internamento em workhouses, hópitaux, Zuchthausen, Quando estas crianças tiverem quatro anos, serão -enviadas a uma
etc., já tratados no capítulo dedicado à Revolução Industrial. Para as crian- casa de trabalho rural e, ali, ensinadas a ler duas horas ao dia e mantidas
ças instituiram-se os mesmos meios ou outros ad hoc, os orfanatos. plenamente ocupadas o resto de seu tempo em qualquer das manufaturas
A inquietude pelas crianças órfãs ou fllhos de pobres não era :10va, da casa (. .. ). É de considerável utilidade que estejem, de um modo ou
havendo nascido da preocupação pela ordem pública e pelo desperdício que, outro, constantemente ocupadas ao menos doze horas ao dia, quer
para a· nação em geral, representavam seus braços inativos. Em 1548, as ganhem a vida ou não; pois, por este meio, esperamos que a geração que
Cortes de Valladolid informavam o rei, o qual imediatamente daria ordem de está crescendo estará tão habituada à ocupação constante que, em geral,
apoiar o empreendimento, de que lhe será agradável e divertida (. .. ) (Furniss, 1965: 115).

108 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 109


!II

New Lanark, fábrica da qual Robert Owen faria, para a época, um modelo escreveu sobre como deveria ser a educação de um gentleman (apesar de ter
de organização do trabalho e de tarefa educativa, foi fundada em 1799 por David " · proposto o internamento das crianças pobres) - não duvidou em declarar:
Dale com meio milhar de crianças procedentes dos asilos de Edimburgo e
Glasgow. Ninguém está obrigado a saber tudo. O estudo das ciências em geral
Não foram diferentes as coisas na França. As crianças internadas em é assunto daqueles que vivem confortavelmente e dispõem de tempo livre.
hospícios e outras instituições eram uma mão de obra barata para os Os que têm empregos particulares devem entender as funções; e não é
industriais, que as contratavam em grupos e podiam devolvê-las à menor insensato exigir que pensem e raciocinem apenas sobre o que forma sua
queixa, ou exploravam seu trabalho diretamente na própria instituição em que ocupação cotidiana (Locke, s.d.: III, 225).
estavam internadas. Um relatório dirigido ao Ministro do Interior pelo Diretor
do Bureau des Hospices Civils, no ano V da Revolução, rezava assim: O problema tinha já uma longa tradição na Inglaterra. Cromwell, Mulcaster,
Wase, Forrest, Hartlib e outros haviam defendido a expansão das escolas, mas
O governo deve estímulo e proteção às manufaturas. Deve empregar todos foram mais abundantes as ilustres figuras que a ela se opunham ou que por ela se
os meios a seu alcance para conseguir-lhes os braços necessários para sentiam alarmadas, entre as quais Bacon (Francis), Chamberlayne ou Howell
seus trabalhos. (Cressy, 1975), mas a opção continuava sem solução em princípios do século XIX.
É no interesse das crianças: são preparadas para trabalhos que, em Nas escolas anglicanas de Hannah More, as crianças aprendiam
uma idade mais avançada, poderão proporcionar-lhes meios de existência;
são arrancados da ociosidade; são minorados os inconvenientes que a durante a semana trabalhos toscos que os preparam para serem
permanência nos orfanatos sempre trouxe para sua moralidade (Flandrin, serventes. Não permito que se ensine a escrever os pobres, pois meu
1982: 75). objetivo não é convertê-los em fanáticos, mas formar os baixos
estamentos para a indústria e a piedade (Vaughan e Archer, 1971: 37).
Apegando-se à oferta, o industrial Boyer-Fonfrade, de Tolouse, reclamava
quinhentos órfãos de diversos orfanatos, convencido de que estas ''crianças Entretanto, nem sequer essas escolas, dedicadas fundamentalmente a
.,,;,·.;, lhe prometem urna grande vantagem como mão de obra graças à vida fazer trabalhar e moralizar as crianças, escaparam da crítica. Pode-se afirmar,
comunitária, à sua obediência e a seu hábito de trabalhar "(Flandrin, 1982: 76). inclusive, que uma parte das crianças escolarizadas foi arrancada das escolas
E a mesma coisa no Norte da Europa. Por exemplo, em Amberes, onde para o trabalho, nos dias úteis, através do movimento das Sunday Schools,
os fabricantes têxteis qualificavam, em 1781, o orfanato local, de ''escola de escolas dominicais sem outra pretensão que a de ensinar-lhes moral religiosa.
formação para as fábricas "(Lis e Soly, 1982: 183).Em Postdam, em Berlim, Os projetos de lei que pretendiam assegurar um mínimo de instrução literária
em Belfast, etc., ou em Hamburgo, onde a autoridade inscreviam as crianças foram sistematicamente rejeitados durante grande parte do século XIX.
dos pobres, dos seis aos dezesseis anos, em "escolas industriais "nas que se Os ilustrados franceses tampouco foram, em sua maioria, favoráveis à
dedicavam dois terços do tempo ao trabalho e o resto a uma instrução educação universal (Fernández Enguita, 1988). Foram explicitamente
rudimentar. contrários a ela, ao menos, Mirabeau, La Chalotais, Destutt de Tracy e o
li! "príncipe da luz", Voltaire. Este último chegou a afirmar sem rodeios que em
'lI!i sua. terra queria "diaristas, não clérigos tonsurados "(Laski, 1977: 184).
Qual educação para o povo? Outros foram apenas timidamente partidários ou ambíguos, como o próprio
Condorcet, Rousseau e, além fronteiras, Kant. Em úrna feroz crítica aos
Os pensadores da burguesia em ascensão recitaram durante um longo Irmãos da Doutrina Cristã (os freres ignorantins) que encontraria o aplauso
tempo a ladainha da educação para o povo. Por um lado, necessitavam recorrer de Voltaire, La Chalotais lhes reprovava que
a ela para preparar ou garantir seu poder, para reduzir o da igreja e, em geral,
para conseguir a aceitação da nova ordem. Por outro, entretanto, temiam as ( ... ) ensinassem a ler e a escrever pessoas que não necessitavam mais
conseqüências de ilustrar demasiadamente aqueles que, ao fim e ao cabo, iam que aprender a desenhar e a manejar o buril e a serra, mas que não
continuar ocupando os níveis mais baixos da sociedade, pois isto poderia querem continuar fazendo-o (. .. ). O bem da sociedade exige que os
alimentar neles ambições indesejáveis. John Locke, que passa ainda por ser um conhecimentos do povo não se estendam além de suas ocupações (Charlot
dos inspiradores da "educação "moderna e liberal em geral - porque e Figeat, 1985: 84).

110 Mariano Fernândez Enguita A Face Oculta da Escola 111


Um século depois, Bravo Murillo sustentava ainda a mesma opinião na 1rntação da desgraça que se precisa sobretudo tanto de uma potente
Espanha, ao afirmar: "Não precisamos de homens que pensem, mas de bois cadeia quanto de uma consolação cotidiana (Charlot e Figeat, 1985: 84).
que trabalhem''.
Não faltaram, entretanto, reformadores que viam na educação do povo a Esta maneira de pensar não era privativa do Antigo Regime. Napoleão
melhor formar de amansá-lo e trazê-lo ao redil da nova ordem ou da velha, tal levou-a à prática ao deixar o ensino primário nas mãos das ordens religiosas ao
como Roland de Erceville, o qual não duvidava de que: mesmo tempo que convertia o secundário e o universitário em monopólio do
Estado laico; e, nisto, Guizot não ia senão seguir seus passos. Em 1851,
Quanto mais ignorante o povo, mais disposto está a ser subjugado por Taillandier, secretário geral do Ministério da Instrução Pública, declarava:
seus próprios preconceitos ou pelos charlatães de todo gênero que o
assediam (Charlot e Figeat, 1985: 84). Hoje em dia, um dos maiores intereses da civilização, em meio ao
desenvolvimento imenso da indústria, é a educação dos operários, a
Condorcet sustentou uma opinião parecida. Independentemente de sua educação moral mais que a educação técnica (Monier, 1985: 162).
insistência em identificar a educação com a ilustração, a liberdacje e o
progresso, estava muito consciente do enorme papel socializador da educação, As coisas não foram muito diferentes na Inglaterra Indu&trial. Ao analisar
atribuindo uma enorme eficácia a seu monopólio pela igreja, que ele rejeitava: os efeitos das leis sobre educação de 1833, os inspetores de fábrica
encontraram que, uma opinião bastante generalizada entre os patrões, era a de
Não é apenas uma questão de que cada homem abandonado a si que, quanto menos educação recebesse o trabalhador, melhor. Alguns
mesmo encontre entre ele e a verdade a espessa e terrível falange dos fabricantes de algodão em Derbyshire afirmaram:
erros de seu país e de seu século, mas de que os mais perigosos daqueles
erros se haviam tornado, de certa forma, pessoais (Condorcet, 1980: 181). Somos de opinião que é mais adequado para o bem-estar de nosso
povo esforçar-se em fazer deles cristãos ilustrados que sábios no
Por que, então, renunciar a um instrumento tão poderoso? Mais prudente conhecimento mundano; não queremos estadistas em nossas fábricas,
e aconselhável tinha que lhe parecer, logicamente, empregá-lo com outros fms. mas indivíduos de ordem (Silver, 1983: 39).

É expandindo as luzes entre o povo que se pode impedir que seus


movimentos se convertam em perigosos (Condorcet, 1847a: 390). Do doutrinamento à disciplina
(... ) Freqüentemente os cidadãos ofuscados por vis facfuoras se
levantam contra as leis; então a justiça e a humanidade lhes clamam para Os que se davam por contentes com que as crianças do povo, futuros
empregar só a arma da razão para recordar-lhes seus deveres; por que, ~rabalhadores, não recebessem nenhuma instrução ou que esta se limitasse ao
então, não desejar que uma instrução bem dirigida lhes torne difíceis de doutrinamento religioso tinham os olhos ainda postos na velha sociedade, no
serem seduzidos mais adiante, mais dispostos a cederem à voz da Antigo Regime, nas formas de produção que já estavam sendo varridas por
verdade? (Condorcet, 1847b: 447). outras novas. Provavelmente Necker tivesse razão para a época, quando o
cereeiro estado se via empobrecido pelos tributos impostos pela velha
A via intermediária era a única que podia suscitar o consenso das forças superestrutura feudal e monárquica, mas vivia ou sobrevivia, ainda, do produto
bem-pensantes: educá-los, mas não demasiadamente. O bastante para direto de seu trabalho. Mas a proliferação da indústria iria exigir um novo tipo
aprendessem a respeitar a ordem social, mas não tanto que pudessem de trabalhador. Já não bastaria que fosse piedoso e resignado, embora isto
questioná-Ia. O suficiente para que conhecessem a justificação de seu lugar continuasse sendo conveniente e necessário. A partir de agora, devia aceitar
nesta vida, mas não ao ponto de despertar neles expectativas · que lhes trabalhar para outro e fazê-lo nas condições que este outro lhe impusesse. Se
fizessem desejar o que não estavam chamados a desfrutar. Que melhor, para os meios para dobrar os adultos iam ser a fome, o internamento ou a força, a
isto, que a religião? Necker já o havia compreendido claramente em 1788: infância (os adultos das gerações seguintes) oferecia a vantagem de poder ser
modelada desde o prinápio de acordo com as necessidades da nova ordem
Quanto mais claro ficar que os impostos mantêm o povo na miséria, capitalista e industrial, com as novas relações de produção e os novos
mais indispensável se torna dar-lhe uma educação religiosa; porque é na processos de trabalho.

112 ' Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 113


A fé, a piedade, a humildade, a resignação ou as promessas de que o reino Porque~- produção moderna não é verdadeiramente útil e benéfica senão
dos céus passaria a ser dos pobres e que os últimos seriam os primeiros na medida em que se baseia em uma organização metódica. Entretanto, na
podiam ser suficientes para obter a submissão passiva do trabalhador, base de toda a organização não é possível substituir a autoridade pela
especialmente do camponês fragmentado, ignorante e apegado anarquia. É preciso, portanto, que o operário aprenda a vencer suas
incondicionalmente às normas da propriedade, mas não para conseguir a resistências naturais ao dever absoluto de obedecer, e isto é o que lhe
submissão ativa que o trabalho industrial exige do operário assalariado. Os ensinaremos nas Epinettes (... ). A disciplina na oficina constitui a
cercamentos, a dissolução dos laços de dependência, a superpopulação relativa dignidade bem entendida do operário; a higiene e a previsão terminam por
e a ruína dos pequenos artesãos bastavam para que a força de trabalho fazer dele um homem consumado (Charlot e Figeat, 1985: 133).
aparecesse no mercado por seu valor de troca, mas não asseguravam a
extração de seu valor de uso. Para isto era necessário o concurso da vontade A escola podia realizar isto e devia fazê-lo. Era só uma questão de tempo
do trabalhador, e portanto nada mais seguro que i.toldá-la desde o momento de para que os patrões em seu conjunto compreendessem os belos e lucrativos
sua formação. frutos que podia oferecer uma educação popular ''bem entendida''. A respeito
O instrumento idôneo era a escola. Não que as escolas tivessem sido dos fiandeiros de linho de Westmorland afirmava-se que a educação havia
criadas necessariamente com este propósito, nem que já não pudessem ou melhorado
fossem deixar de cumprir outras funções: simplesmente estavam ali e se podia
tirar bom partido delas. Em 1772, William Powell já havia visto a educação como a conduta e os hábitos de subordinação dos operários fabris em geral, o
meio de adquirir ou instilar o ''hábito da laboriosidade' ', e o reverendo William que é claramente observável no fato de que não se emprega palavrões, na
Turner, em 1786, enaltecia as escolas dominicais de Raikes como •'um aparência limpa e asseada e em um aumento da diligência na freqüência
espetáculo de ordem e regularidade "e citava um fabricante de Gloucester aos lugares de culto (Silver, 1983: 39).
afirmando que as crianças que freqüentavam as escolas voltavam "mais
tratáveis e obedientes, e menos briguentas e vingativas '' (Thompson 1967: Tao idílico panorama, especialmente o relativo 2 '"ronduta e aos hábitos de
84). , subordinação", não podia deixar de impressiona.: os patr6es, ao ponto de
O acento deslocou-se então da educação religiosa e, em geral, do doutrina- convencer os mais recalcitrantes. Isto era assim regi<>tradc por um inspetor de
menta ideológico, para a disciplina material, para a organização da experiência fábricas em 1839:
escolar de forma que gerasse nos jovens os hábitos, as formas de comporta-
mento, as disposições e os traços de caráter mais adequados para a indústria. Muitos dos proprietários de fábricas que aprovam agora a educação
Mimerel, grande patrão do Norte da França, formulava isto com clareza: estavam entre aqueles que, anteriormente, julgavam sua aplicação quase
impossível e não acreditavam que fosse provável que trouxesse o mínimo
Não, não queremos pôr limites à instrução, mas preferimos a que faz benefício (Ibid.).
com que o homem esteja contente com sua posição e leve-o a melhorá-la
mediante a ordem e o trabalho àquela que o faz perder em projetos de O que inicialmente havia sido uma reação de agradável surpresa ia
realização impossível um tempo tão útil para o bem-estar de sua família. (O converter-se em seguida em uma reivindicação ou, se se prefere, em uma
ensino] deve assegurar às crianças excelentes hábitos de ordem de firme opinião sobre a função das escolas. Se Mimeral "preferia "a formaçãc
propriedade, de trabalho e de prática religiosa que farão delas cria~ças de hábitos a um ensino desnecessário, os patrões esclarecidos logo iam
mais submissas e pais mais devotos (Le Goff, 1985: 54). compreender, por toda a parte, que o papel essencial da escola era esse, por
mais que fosse encoberto por outros processos. Isto foi o que, do outro lado
I A mesma coisa pensava o empresário Kula, o qual, em lugar de esperar do Atlântico, encontraram Horace Martn e George Boutwell quando, em 1841
;I que resolvessem o problema, fundou ele mesmo uma escola na rue des
i e 1859, interrogaram os empresários sobre o valor da educação dos
'I
Epinettes, Paris, com o objetivo de nela formar bons operários. Conforme trabalhadores.
seu chefe de oficina, Pradillon,
Um empresário respondeu que o conhecimento era secundário para a
Outro ponto da educação moral sobre o qual nunca se insistirá mor:alidade, e que o trabalhadores educados mostravam ''um
demasiadamente é o que concerne à obediência e à disciplina na oficina. comportamento mais ordenado e respeitoso''. Nos conflitos sobre o
114
Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 115
trabalho, escreveu o mesmo capitalista avisado, ''sempre me dirigi aos 1818) de não votar a suovenção para a escola mútua apesar das ordens do
mais inteligentes, mais bem educados e mais morais em busca de apoio''. governado~ lemos:
Alegra-se em dizer que era ''o ignorante e o não educado ( ... ) o mais
turbulento e problemático", que agia "sob o impulso da excitação da O modo de educação atual, concretamente o seguido pelos Irmãos
paixão e da inveja". A associação de virtudes era significativa: igualavam- das escolas cristãs, tarda mais em conseguir os objetivos ( ... ) , mas
-se educação, moralidade e docilidade. Se resta alguma dúvida a este oferece uma série de vantagens através da relação que tem com a
respeito, considerem-se as palavras de outro patrão, que enaltecia a educação moral, a qual não pode ser substituída por nenhuma outra. Este
"diligência e (. .. ) o submetirnento voluntário "dos educados, os quais, ao modo de educação dirige de alguma maneira o emprego de tempo das
ganhar a confiança de seus colegas, exerciam "uma influência crianças ( ... ) desde bastante pequenos até sua adolescênàa, isto é, até
conservadora "em momentos de problemas trabalhistas, uma influênàa de que possam entrar utilmente na sociedade, com os conhecimentos
"grande valor pecuniário e moral". A escola primária formava homens de convenientes à sua condição e com os hábitos de ordem, docilidade,
empresa (Katz, 1971: 33). aplicação ao trabalho, e a prática dos deveres sociais e religiosos
(Querrien, 1979: 75).
A mesma coisa, por exemplo, na Grã Bretanha, onde uma investigação
sobre as higher elementary schools em 1906 (conforme a interpretação do
Comitê Consultivo), pôs de manifesto que o que os patrões queriam destas A ordem reina nas salas de aula
escolas era que formassem neles um bom caráter e lhes imbuíssem qualidades
servis, à parte das destrezas gerais básicas (Reeder, 1981: 74). Esta ênfase na disciplina converteu as escolas em algo muito parecido aos
Numerosos educadores, especialmente entre os mais dispostos a buscar quartéis ou aos conventos beneditinos. Regularam-se todos os aspectos da
a função ou justificação da educação em sua relação com a sociedade global em vida em seu interior, às vezes até a extremos delirantes. Dir-se-ia que os
vez de no desenvolvimento de supostas essências inatas dos indivíduos, educadores, ou uma parte deles, enfrentavam os alunos fazendo sua a
compreenderam isto perfeitamente. E sobretudo as autoridades educacionais; observação do Grã Duque Miguel diante da tropa formada: "Está bem, mas
por exemplo, William T. Harris, Comissário de Educação dos Estados Unidos, respiram".
para o qual, em uma época de grande desenvolvimento urbano e industrial, Nas escolas metodistas inglesas de princípios do século XIX, a primeira
tornava-se claro que coisa que aprendiam os alunos era a pontualidade. Uma vez entre seus muros,
a disciplina escolar assemelhava-se muito à militar:
a pontualidade, a precisao, a obediência implícita ao encarregado ou à
direção, são necessárias para a segurança de outros e para a produção de O Superintendente fará soar de novo a campainha, e então a um movimento
qualquer resultado positivo. A escola leva a cabo isto tão bem que para de sua mão, toda a escola levantar-se-á a um só tempo de seus assentos; a
algumas pessoas ela lhes traz a recordação desagradável de uma máquina um segundo movimento os escolares se voltam; a um terceiro, se deslocam
(Tyack, 1974: 73). lenta e silenciosamente ao lugar designado para repetir suas lições, e então
ele pronuncia a palavra "Começai"(... ) (Thompson, 1967: 85).
Que o objetivo da escola, ao contrário de seu discurso, não era ou havia
deixado de ser a instrução, é algo que havia sido colocado na polêmica entre Pela mesma época, Bally propunha o seguinte horário para a escola mútua:
os métodos mútuo e simultãneo, na França, em princípios do século XIX. A 8:45, entrada do instrutor, 8:52, chamada do instrutor, 8:56, entrada das
escola mútua havia mostrado ser capaz de ensinar o mesmo em menos tempo crianças e oração; 9:00, entrada nos bancos; 9:04, primeira lousa, 9:08, fim do
ou muito mais no mesmo tempo, e com uma maior economia de professores. ditado, 9:12, segunda lousa, etc. (Foucault, 1976: 154). Esta organização e
Entretanto, o tempo veio a ser, não a variável dependente, mas a disciplina do tempo estendiam-se também ao corpo e aos movimentos. O
independente. A questão não era ensinar um certo montante de Joumal pour l'i.nstruction élémentaire explicava a codificação de cada
conhecimentos no menor tempo possível, mas ter os alunos entre as paredes movimento nas escolas mútuas:
da sala de aula submetidos ao olhar vigilante do professsor o tempo suficiente
para domar seu caráter e dar a forma adequada a seu comportamento. Na Entrem em seus bancos. À palavra "entrem", as crianças põem
exposição de motivos da decisão tomada pelo Conselho Geral de Calvados (em ruidosamente a mão sobre a mesa e ao mesmo tempo passam a perna por

116 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 117


cima do banco; às palavras ''em seus bancos'', passam a outra perna e Em 1890, Joseph Rice relatava o observado em outra escola:
sentam-se frente a suas lousas (... ). Peguem as lousas. À palavra
"peguem", as crianças levam a mão direita à cordinha que serve para Durante os períodos letivos, quando os estudantes tinham que demonstrar
pendurar a lousa ao prego que está diante delas, e com a esquerda, pegam que haviam memorizado o texto, supunha-se que as crianças, dizia Rice,
a lousa pela parte do meio; à palavra "lousas", as crianças soltam-nas e tinham que ''alinhar-se de pé, perfeitamente imóveis, seus corpos eretos,
põem-nas sobre a mesa (Foucault, 1976: 171). seus joelhos e pés juntos, as pontas de seus sapatos tocando a borda de
um taco no chão''. A professora prestava tanta atenção à posição das
O ensino ou instrução ficava em um obscuro segundo plano, atrás da pontas de seus pés e seus joelhos quanto às palavras de suas bocas''.
obsessão pela ordem, pela pontualidade, pela compostura, etc. O guia para o "Como vais fazer algo", perguntou urna mulher, "com teus joelhos e
trabalho dos inspetores nas escolas mútuas publicado pela Sociedade para a pontas do sapato mal colocados? "(Tyack, 1974: 55-56).
Melhoria da Instrução Elementar, na França, em 1Bl7, continha vinte e oito
normas, e as treze primeiras eram:
Da auto-instrução à escolarização
Observa-se na escola um silêncio geral suficiente?
Permanece o professor suficientemente silencioso, fazendo-se obedecer Cabe ainda perguntar-se em que medida não eram os trabalhadores e o
mediante gestos? Realiza-se a leitura realmente a meia voz? Está em movimento operário os primeiros interessados na escolarização universal, em
ordem o mobiliário? Cumpre-se realmente a máxima: cada coisa em seu que medida não foi a escola uma conquista operária e popular que as classes
lugar e um lugar para cada coisa? São suficientes a ventilação e a dominantes teriam tentado depois e ainda tentariam adulterar com mais ou
iluminação? Têm bastante espaço os alunos? É correta a atitude dos menos êxito. Infelizmente, a historiografia existente é obra, em sua maior
alunos? Colocam claramente as mãos atrás das costas durante os parte, de autores que identificam, no fundamental, a escola com o progresso
movimentos e deslocam-se marcando o passo? Estão satisfeitos os alunos? social, o que provavelmente lhes levou não apenas a uma intepretação
Têm os alunos as mãos e os rostos limpos? Estão bem visíveis os rótulos enviesada, mas também a uma seleção igualmente enviesada dos dados
das punições e são utilizados? O professor ameaça bater as crianças? históricos. Assim, o que normalmente sabemos ou lemos do movimento
Exerce corretamente o professor uma vigilância permanente sobre o operário diante da educação é que sempre pediu mais escolas, maior acesso às
conjunto dos alunos? (Querrien, 1979: 86-87). escolas existentes, etc. Entretanto, há informação suficiente para levar a
pensar que, antes da identificação da classe operária com a escola como
Não se pense que o delírio pela ordem era privativo das escolas mútuas. instrumento de melhoria social, houve um amplo movimento de auto-instrução.
Embora sem levá-lo a tal extremo, desde antes vinham-no pondo em prática as Harry Braverman descreveu eloqüentemente em que consistia ser um
escolas lassalianas, e logo o Estado educador francês encontraria certo gosto trabalhador qualificado antes de as hordas de Ford e Taylor irromperem na
pela ordem, algo que era ironizado por Matthew Arnold ao falar do ministro organização do trabalho fabril.
francês que olhou seu relógio e disse com satisfação que, nesse momento, em
todos os liceus franceses os meninos estavam fazendo a mesma coisa (Silver, O artesão ativo (the working craftsman) estava ligado ao
1983: 86). Em fmais do século, as escolas norte-americanas apresentavam uma .conhecimento técnico e científico de seu tempo na prática diária de seu
obsessão similar pela ordem, embora às vezes a adoçassem com músiça. Em oficio. A aprendizagem incluía geralmente o treinamento em matemática,
urna escola modelar de Nova York, em 1B67, um comitê enviado pelo conselho compreendidas a álgebra, a geometria e a trigonometria, nas propriedades
escolar de Baltimore havia observado, impressionado, que e procedência dos materiais comuns no ofício, nas ciências físicas e no
desenho industrial. As relações de aprendizagem bem administradas
os deslocamentos dos grupos das salas de aula para a grande sala de proporcionavam assinaturas das revistas técnicas e econômicas que
reunião eram regulados por pianos, dois dos quais estavam em cada uma afetavam o ofício, de forma que os aprendizes pudessem seguir os
das salas grandes. Todas as mudanças [de lugar] eram realizadas avanços. Mas, mais importante que o treinamento formal ou informal, era
marchando, alguns em passo normal a ritmo duplamente rápido de parada o fato de que o ofício proporcionava um vínculo cotidiano entre a ciência e
militar (... ). A regularidade de movimentos em tão grande movimento de o trabalho, posto que o artesão se via constantemente obrigado a utilizar
crianças (. .. ) era realmente interessante (Tyack, 1974: 51). em sua prática os conhecimentos científicos rudimentares, a matemática,

118 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 119


o desenho, etc. Estes artesãos eram uma parte importante do público A esta rede formal e informal de capacitação profissional e formação
científico de sua época e, como norma, mostravam um interesse pela técnica e cientifica devem-se acrescentar as escolas de iniciativa popular, as
ciência e pela culfura que ia além do diretamente relacionado com seu sociedades operárias, os ateneus, as casas do povo e toda uma gama de
trabalho. Os florescentes Institutos Mecânicos, que na Grã Bretanha atividades similares que compunham um considerável movimento de auto-
chegaram a uns 1.200 e tiveram mais de 200.000 membros, estavam em -instrução. Boa parte do movimento operário colocou nessa ~e~e su~s
grande medida dedicados a satisfazer este interesse por meio de esperanças de acompanhar o ritmo do progresso e melhorar sua posu~:ao social
conferências e bibliotecas (Braverman, 1974: 133-4).
e política frente às classes dominantes, quando não de subvert~r radicalmente
a ordem social existente. Outra parte - a de orientação marxista - centrou
Estes mestres artesãos, oficiais e, em geral, trabalhadores qualificados suas reivindicações em uma escola para os trabalhadores fmanciada mas não
levavam seu afã cultural para além dos limites do ofício, participando gestionada pelo Estado e combinada com a incorporação dos jovens na
plenamente das inquietudes culturais e educacionais de uma época produção. Entretanto, a escolarização estatal ou sob a égide do Esta~o - e a
deslumbrada com as potencialidades de um saber em rápido desenvolvimento influência mais ou menos direta dos industriais - logo ganhou a partida deste
e apegada à fé no progresso. Assimilavam a cultura de outros grupos sociais e
movimento de auto-instrução.
irradiavam-na eles mesmos para o exterior de seu próprio grupo. Na Inglaterra, a derrota do cartismo acarretou a desaparição das iniciativas
operárias no campo da educação, durante as décadas de 1830 e 1840 (Sharp,
Todos os distritos de tecedores finham seus tecedores poetas, 1980: cap. V). Na França, as ·leis Ferry eliminaram qualquer espaço para
biólogos, matemáticos, músicos, geólogos, botânicos (... ). Ainda existem possíveis alternativas (Ligue Communiste ~évol~tionn~re, ~4: 54). Na
no Norte museus e sociedades de história natural que possuem fichários Espanha, este movimento teve sempre uma VIda nao mwto arumada e sofreu
e coleções de lepidópteros realizados por tecedores; contam-se histórias sua maior derrota como corolário da Semana Trágica (Solá, 1976). Fator
de tecedores nas aldeias afastadas que aprendiam sozinhos geometria importante dessa substituição foi, sem dúvida, a ingê~ua confiança ~o
escrevendo com graveto no solo e que discutiam entre si os problemas do movimento operário nas virtudes reformadoras e progressistas da educaçao
cálculo diferencial (Thompson, 1977: II, 156-7).
em geral.
O próprio domínio de seu ofício levava-os, com freqüência, mais longe do
que nossa imagem de "João, o Bom "nos permitiria supor. Além de suas A assimilação forçada
habilidades práticas, desenvolviam seus conhecimentos teórico.s na medida das
possibilidades de seu contexto e de sua época, então não tão cingidas à escola. O processo de industrialização dos Estados Unidos oferece uma
experiência incomparável para a análise da assimilaçã? da pop~lação ~s _no~s
Ainda mais impressionante era a preparação teórica desses homens relações industriais por meio da esc~la. Nele se c?n;-bmaram ~ mdus_tnalizaçao
(os a~tesãos durante a revolução industrial, MFE). Em geral, não eram os mais avançada e a chegada de sucessivas levas de urugrantes nao habit~ad~s ao
remendões iletrados da mitologia histórica. Mesmo o maquinista trabalho industrial. Se os pioneiros ingleses vinham já com a expenenCia da
(millwright) ordinário, como o. faz notar Fairbaim, era, em geral, "um vida industrial e o estímulo da moral puritana, não foi esse o caso dos
bom aritmético, sabia algo de geometria, nivelamento e medição e, em irlandeses, dos milhões de camponeses procedentes do Leste e do Sul da
alguns casos, possuía conhecimento muito preciso de matemática prática.
Europa, nem dos negros. . . . ,, . . _ ,,
Podia calcular a velocidade, resistência e potência das máquinas, podia A escola foi o mecamsmo pnncipal de sua amencamzaçao , com o
desenhar em plano e em seção .. ~ "Grande parte desses ''feitos e encargo de apagar seu passado, suas tradições culturais e sua língua,
potencialidades intelectuais elevados "refletiam as abundantes convertendo-os em cidadãos da nova pátria. Foi, além disso, o centro da
oportunidades para a educação técnica em "povoados "como Manchester, estratégia defensiva de uma comunidade "nativa "- os ~erd~deiros nativos
que iam desde as academias dissidentes e sociedades ilustradas até os estavam já nas reservas, mas os descendentes dos pnmerros ocupantes
conferencistas locais e visitantes, as escolas privadas ''matemáticas e ingleses gostavam de chamar-se a si próprios de native Americans
comerciais "com· aulas vespertinas e uma ampla circulação de manuais alarmada por uma promiscuidade de línguas e culturas que ameaçava sua
práticos, publicações periódicas e enciclopédias (Landes, 1969: 63). suposta identidade e suscitava medos similares aos da atn'l.1 • "insegu~ança
cidadã"'. Mas essa mesma comunidade não deix<:"a de estar mmto consciente

120 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 121


de que sua posição privilegiada continuava dependendo da imigração maciça de escolares são mais baratos que os cárceres "e que "os professores e os livros
mão de obra barata, motivo pelo qual não restava outro remédio senão mover oferecem mais segurança que as esposas e os agentes de polícia "(Gurman,
todas as alavancas possíveis para assimilar um fluxo que não se podia evitar. 1976: 73). Depois das greves de 1877, o Comissário de Educação dos Estados
Em particular, era necessário, como vimos em um capítulo anterior, erradicar Unidos concluía que
os irregulares hábitos de trabalho das populações imigrantes e substitui-los por
outros mais adequados às necessidades da indústria em rápido crescimento. o capital, por conseguinte, deverá pesar os custos da turba e do vagabundo
Aqui, como em nenhum outra parte, a escola iria exercer o papel de socializar contra o custo de uma educação universal e suficiente (Tyack, 1974: 74).
as gerações jovens para o trabalho assalariado.
A preocupação primária era habituar os recém chegados e seus ftlhos à A população negra emancipada, que reunia a dupla condição de ser
pontualidade e regularidade ou, de forma mais geral, à organização do tempo proletariado potencial e pertencer a uma raça considerada inferior, deu a alguns
exigida pela indústria. Em meados do século XIX, os comitês escolares viviam reformadores escolares a oportunidade de pôr em prática suas idéias sobre a
obcecados pela tarefa de instilar nas crianças - e em seus pais - um sentido formação para o trabalho industrial sem ter que conservar a incômoda
do tempo - capitalista ou industrial - cuja carência tomava-se patente em sua roupagem da educação para uma sociedade livre e democrática. Arrancados há
irregular freqüência à escola e em sua impontualidade (Katz, 1971: 32). não muito tempo de uma economia de subsistência e apenas habituados, a
Em um follieto muito difundido de 1874, The theory o f education in the maioria, ao trabalho mais regular das plantações de algodão ou às funções
United States of America, escrito por Harris e Doty, duas figuras da domésticas servis, emigravam em massa para o Norte industrializado e eram
educação, e assinado por setenta e sete presidentes de centros universitários vistos como a base idônea - a mão de obra excepcionalmente barata - da
e superintendentes escolares dos estados, apontava-se que necessária industrialização do Sul.
O mito do negro preguiçoso e incapaz de organizar sua vida sem a ajuda
a precisão militar é necessária para o manejo das classes escolares. Insiste- do branco persistia. Para ]. L. M. Curry, presidente - branco, naturalmente
-se enormemente 1) na pontualidade, 2) na regularidade, 3) na atenção e - da Segunda Conferência para a Educação no Sul, o negro era ''um
4) no silêncio como hábitos necessários ao longo da vida para a trabalhador estúpido, indolente e vadio'', ''um obstáculo para a riqueza e o
colaboração eficaz com os próprios companheiros em uma civilização desenvolvimento do Sul "(Anderson, 1975: 31), e por isso devia ser educado.
industrial e comercial (fyack, 1974: 50). Em uma versão mais sofisticada, o negro devia sua escassa propensão para o
trabalho ao fato de que se tinha contagiado pelo desprezo que pelo mesmo
Ao entrar no século XX, a Comissão de Imigração da Califórnia distribuía nutriam seus pseudo-aristocráticos amos brancos, os latifundiários sulistas.
entre as donas-de-casa dos lares imigrantes um folheto que, além de expli- Se já não se podia utilizar o chicote, devia-se recorrer à escola. Qualquer
car-lhes que as janelas, os cestos de lixo, etc., deviam estar limpos, encare- coisa antes que perder o controle da mão de obra negra por causa da
cia-lhes que enviassem seus filhos asseados e pontualmente à escola: emancipação, pois fazer o contrário seria desperdiçar alguns preciosos
recursos. George Foster Peabody, outro prestigiado reformador da educação,
Não deixe que seu ftlho chegue tarde. Se o faz, quando crescer escrevia a um amigo:
chegará tarde a seu trabalho. Então perderá seu emprego e será sempre
pobre e miserável (Tyack, 1974: 236). Não tenha a menor dúvida de que se o milhão de negros (... ) fosse
corretamente educado (... ) valeria em dólares e centavos três vezes seu
Pouco depois, em 1916, David Snedden, Comissário de Educação do valor atual. Se isto é certo, como estou absolutamente seguro que é, e
Estado de Massachusetts e um dos principais especialistas nacionais em uma vez que as propriedades do estado da Georgia pertencem em grande
educação industrial advogava a substituição da curta e "suave "jornada escolar medida à raça branca, não seria o benefício para a raça branca, sob os
tradicional por uma ajustada às condições industriais reais, isto é, a aplicação atuais métodos de distribuição, incalculável em dólares e centavos e uma
nas escolas do horário de traballio da indústria (Rodgers, 1978: 85). muito maior tranqüilidade, vida pacífica e harmonia de consciência para o
Em termos mais gerais, a escola aparecia como a melhor solução para cidadão branco que governa? (Anderson, 1975: 32).
todas as resistências individuais e coletivas às novas condições de vida e
trabalho ou, ao menos, como a mais prudente e barata, a solução preventiva. A partir dessa perspectiva fundou-se uma rede de escolas para negros. Os
Assim acreditava John L. Hart quando, em 1879, escrevia que ''os edifícios reformadores brancos selecionaram entre eles os mais dispostos a propagar

122 Mariano Fernândez Enguita A Face Oculta da Escola 123


sua mensagem e converteram-nos em líderes educacionais perante seu povo - crime para qualquer professor, branco ou negro, educar o negro para
embora, é claro, não lhes tenham permitido sentar nos mesmos conselhos e posições que não estão abertas para ele (Anderson, 1.975: 38-9).
conferências que eles, nem lhes pagaram da mesma forma que aos
especialistas brancos. A recordação recente da escravidão tomava mais
aconselhável para os brancos este sistema de seleção de negros com alma A obsessão pela eficiência
branca que uma atuação direta e sem intermediários de sua parte. Por outro
lado, os negros tampouco queriam enviar seus filhos para serem educad·JS por A rudimentariedade da organização das escolas e dos processos
professores brancos cujo primeiro ato provavelmente haveria de ser o de educativos correspondia à rudirnentariedade da organização dos processos
explicar-lhes sua inferioridade congênita e inevitável. produtivos do século XIX. Quando a produção fabril - e, embora em menor
O Instituto Agrícola e Normal de Hampton, considerado modelar em sua medida, a de serviços - foi submetida a uma profunda revisão cuja parte mais
época, era um bom exemplo de como se enfocava a educação dos negros. Nele visível foram as idéias da gestão científica do trabalho de F. W. Taylor, as
se formaram desde o último terço do século XIX numerosos professores escolas não tardaram em ligar-se à roda da indústria. Como antes, as empresas
destinados inevitavelmente às escolas primárias para crianças negras. Tanto apareciam ante o público bem pensante em geral, e ante os reformadores da
em Hampton quanto em outras escolas normais negras os professores eram educação em particular, como o paradigma da eficiência. O mundo empresarial
educados fundamentalmente através dos trabalhos manuais, já que era essa a tinha e tem a virtude de que <:penas deixa ver o que sobrevive; ocultam-se à
formação que deviam transmitir depois a seus alunos negros. O programa de vista, sem necessidade de esforço algum, seus múltiplos fracassos e quebras
Hampton era composto de ensino acadêmico, trabalho manual e disciplina. Mas ou sua capacidade para monopolizar as empresas rentáveis ao mesmo tempo
o central era o trabalho, pois a parte acadêmica consistia essencialmente nas que deixa para o setor público as arruinadas, o que subsidiaramente permite
destrezas literárias básicas para um professor e na defesa de uma atitude comparações superficiais nas quais aquelas saem necessariamente em
adequada para com o trabalho, e a disciplina exercia-se em grande parte vantagem em comparação com este. As empresas aparecem como as
através deste. Tal o como o indicou lapidarmente Anderson (1982: 137): organizações que com maior eficácia enfrentam satisfatoriamente as
necessidades de seus clientes, por um lado, e o problema da gestão de
Em Hampton e em outras escolas industriais normais desenvolviam- contingentes importantes de pessoas, por outro.
-se atividades de trabalho manual rotineiras e repetitivas com o propósito No contexto da carreira obsessiva e do domínio geral do discurso pela
de condicionar os candidatos a professores a servirem como missionários eficiência, as escolas, através de mais ilustres reformadores inspirados no
da ética puritana do trabalho nas comunidades negras do Sul. mundo da empresa, importaram seus princípios e normas de organização de
forma extremada em ocasiões delirantes, mas sempre com notáveis
O negro devia ser preparado para integrar-se no lugar que lhe havia conseqüências para a vida nas salas de aula. Logicamente, este processo teve
reservado o branco: o trabalho industrial menos qualificado, mais mal pago lugar em primeira instância e sobretudo nos Estados Unidos, mas estendeu-se
e mais duro. Tudo isso sem interferir, entretanto, na vida social e política por toda parte graças a dinâmicas autônomas similares, embora com menor
da comunidade branca nem tentar escapar à sua posição. William H. força e, em especial, graças à difusão universal dos modelos e teorias
Baldwin, outro ilustre reformador sulista, presidente do Conselho Geral de educacionais nascidos na nova metrópole do sistema capitalista mundial.
Educação, resumia sucintamente, em princípios deste século, suas - Taylor havia proposto para a indústria, como se viu em um capítulo
recomendações sobre a educação dos negros (os alunos dos institutos, isto anterior, um sistema de organização baseado no controle absoluto de produtos
é, os selecionados com o propósito de obter líderes dóceis aceitados pela e processos de produção pelo empresário ou seus representantes, os
comunidade de cor!): gerentes, que se traduzia, para os trabalhadores na padronização e na
rotinização ao máximo de suas tarefas. Tudo isto vem, além disso, revestido
Evitai as questões sociais; deixai estar a política; continuai sendo por uma preocupação crescente por controlar detalhadamente cada dólar gasto
pacientes; levai vidas morais; vivei de maneira simples; aprendei a ou ganho e aquilatar até o limite os custos de produção. Esta dupla obsessão
trabalhar e a trabalhar de maneira inteligente; aprendei a trabalhar com pela gestão do dinheiro e dos recursos humanos foi introduzida nas escolas
dedicação; aprendei a trabalhar duro; aprendei que qualquer trabalho, por através de reformadores como Spaulding, Bobbitt ou Cubberley.
baixo que seja, torna-se dignificado se é bem feito; ( ... ) aprendei que é um Em primeiro lugar, as escolas deviam reconhecer a liderança do mundo
erro ser educados fora de vosso necessário ambiente; aprendei que é um empresarial. Os reformadores proclamavam o dever das escolas de servir à

124 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 125


comunidade para, ato contínuo, confundir esta com as empresas. Além disso, etc. Tudo isto, obviamente, sem prestar nenhuma atenção ao contexto social
os interlocutores das empresas não eram, claro está, o reparador hidráulico da ou às peculiares características pessoais ou grupais dos alunos. Aventurou-se
esquina nem o assalariado da grande fábrica, mas os porta-vozes naturais do a estimar o valor relativo e absoluto das diferentes matérias, concluindo, por
dinheiro, os grandes capitalistas, os proprietários dos monopólios industriais. exemplo, que um dólar permitia proporcionar 5,9 aulas de grego por aluno, 23,8
Estes, por sua vez, tinham compreendido a importância da educação, como o de francês, 12 de ciências, 19,2 de inglês, 13,9 de arte ou 41,7 de música vocal
demonstra claramente o ativo papel desempenhado nesta pelas fundações (Callahan, 1962: 73). Dólar por dólar, propôs, em conseqüência, a supressão
erigidas por personagens como Rockefeller, Carnegie ou Ford. do caríssimo grego (um sábio conselho, porém carente de melhores razões).
Bobbitt, por exemplo, estava convencido de que, ·ossim como as Franklin Bobbitt defendeu a introdução do taylorismo na organização do
especificações para a fabricação de um trilho de aço era;;, formuladas pela processo educacional, a partir de quatro princípios: 1) fixar as especificações
empresa ferroviária que o encomendava, e não podiam vir da siderurgia que o e padrões do produto fmal que se deseja (o aluno egresso); 2) fixar as
construía, os padrões e especificações do processo educacional, que era ''um especificações e padrões para cada fase de elaboração do produto (matérias,
processo de elaboração na mesma medida que a fabricação de trilhos de aço'', anos acadêmicos, trimestres, dias ou unidades letivas); 3) empregar os
deviam ser fixados pela sociedade. Bobbitt considerava chegado o dia em que métodos tayloristas para encontrar os métodos mais eficazes a respeito e
os produtos da educação podiam ser ministrados com a mesma precisão dos assegurar que fossem seguidos pelos professores; 4) determinar, em função
da indústria, pois, na última década (a primeira deste século), os educadores disso, as qualificações padronizadas exigidas dos professores; 5) capacitá-los
em consonância com isso, ou colocar requisitos de acesso tais que forçassem
haviam chegado a ver que é possível proporcionar padrões definidos para. as instituições encarregadas disso a fazê-lo; 6) erigir urna formação
os diversos produtos educacionais. A capacidade de somar a uma permanente que mantivesse o professor à altura de suas tarefas durante sua
velociade de 65 combinações por minuto com uma precisão de 94 por permanência no trabalho; 7) dar-lhe instruções detalhadas sobre como realizar
cento é uma especificação tão definida quanto a que se pode proporcionar seu trabalho; 8) selecionar os meios materiais mais adequados; 9) traduzir
para qualquer aspecto do trabalho na planta siderúrgica (Callahan, 1962: todas as tarefas a realizar em responsabilidades individualizadas e exígiveis; 10)
81). estimular sua produtividade mediante um sistema de incentivos; e 11) controlar
permanentemente o fluxo do "produto parcialmente desenvolvido", isto é, o
O deslocamento das demandas da comunidade para as eXIgencias da aluno (Bobbitt, 1913: 11, 11-96).
indústria em termos de mão de obra não era acidental, nem devido Ellwood P. Cubberley esforçou-se por introduzir nas escolas a figura
simplesmente à maior facilidade de buscar exemplos na indústria, em correspondente ao especialista em organização do trabalho que o taylorismo
comparação com a familia, ou a maior facilidade de medir a capacidade de havia trazido consigo, o especialista em eficiência. "Por acaso supõe-se que os
somar que a estatura moral. Já em 1913, um superintendente escolar, de moto- educadores são tão competentes", perguntava-se, "que seus métodos não
-próprio ou inspirado por seus líderes reformadores, afirmava perante seus podem ser melhorados? "(Callahan, 1962: 96). O especialista deveria estudar
colegas da National Educational Association que todas as fases do processo educacional, as necessidades da sociedade e da
indústria o estado do produto (o aluno) nas distintas fases, a eficácia dos
uma vez que a escola é mantida pelo público ou pelos interesses das distintos' métodos, a relação entre custos e eficiência, etc., e fornecer, com
empresas, e em realidade existe só para o propósito de formar homens e base nisso, os dados e conclusões pertinentes às autoridades escolares e ao
mulheres de empresa do futuro, é evidente que deveria haver urna perfeita público. Assim se abria caminho para os estudos sobre o emprego do tempo,
harmonia entre as autoridades escolares e os interesses das empresas a onipresença dos testes, a avaliação da eficácia dos professbres, etc. Os ·
(Callahan, 1962: 227-8).
professores avaliariam os alunos, os superintendentes os professores, os
professores - ocasionalmente - os superintendentes, etc.
O movimento de reforma da educação foi abrangente. Frank Spaulding A paixão por imitar e servir as empresas chegou ocasionalmente a
personificou melhor que ninguém a introdução da análise de custo-benefício extremos grotescos. Entre 1915 e 1922 organizou-se uma campanha entre as
em termos de produção escolar. Ele propôs que se avaliasse o produto das escolas primárias para ensinar as crianças a frugalidade, pondo-se em
escolas com medidas tais como a proporção de jovens de determinada faixa de funcionamento pequenas caixas econômicas nos colégios. Um professor
idade nela matriculados, os dias de freqüência por ano, o tempo necessário por publicou no Journal of Education um "alfabeto da economia "de sua
aluno para realizar um determinado trabalho, a porcentagem de promoções, invenção, com pérolas inigualáveis: B de banco", "D de dólar", "J de juro "e
126 Mariano Fernãndez Enguita A Face Oculta da Escola 127
outras vinte e três associações entre as letras e as preocupações de novas matérias ou sucessivos passos de aproximação aos inte~e~ses da ~riança
vendedores e contadores, cuja, celação completa pouparemos aos leitores ou à pedagogia científica - que, naturalmente, ~mpre _é a ultima, seJa a de
(Callahan, 1962: 228). O superintendente de Lincoln, Nebraska, ideou Comênio ou a de Skinner. Pode-se acrescentar a receita, claro está, urnas
juntamente com um empresário e elaborou, para entregá-la a outros que a gotinhas de mudança: os pedagogos já não sã_o. escravos mas. ~ma
solicitassem, uma ''lista de eficiência ''dos meninos, para ingressar na qual serniprofissão, o currículo já não está formado pe~~ ~nvu:~ e o quadnulu.~
eram exigidas as seguintes características: e onde antes se dizia "disciplina "agora se diZ d!sposiçao para coope:ar ·
' Mas que conexão ou que continuidade pode existir entre a relaçao de
1) 14 anos idade; 2) Bom caráter, demonstrado por: veracidade; Aristóteles com seus discípulos e a do mestre de oficina com os alunos de
obediência; laboriosidade (industry); bons hábitos (Nota: Não será formação profissional, entre a maiêutica socrática . e o. r~forço
elegível nenhum menino que fume ou beba); 3) Conhecimento de Lincoln comportamentalista, entre as escolas episcopais da Idade Média e os mstltutos
e sua relação com Nebraska; 4) Capacidade de escrever uma boa carta secundários de hoje? Na hora de destacar o que deve mudar na escola pode ser
comercial; 5) Capacidade de expressar-se de maneira cortês, mas muito interessante assinalar coincidências ou, o que dá no mesmo, os
concisamente e na linguagem dos negócios diante de seu empregador e arcaísmos mas aí termina a utilidade. Pode ser que nosso ensino de filosofia
seus associados na empresa; 6) Capacidade de realizar as quatro pura con~ue ainda, em boa medida, enredado na problemática de ontem, mas
·operações fundamentais e frações simples(. .. ). O Clube do Comércio e as é muito maior o número de coisas que mudaram do que o das ~ue
autoridades escolares pediram aos empresários sugestões sobre as permanecem. E, o que mais importa, não houv~ mud~ça num senado
qualificações desejáveis nos jovens que se empregam (Callahan, 1962: cumulativo, nem sequer evolutivo, mas em um sentido radical. Pense-se, por
229-30). exemplo, nas universidades medievais e nas de hoje: ~quelas,. os estudantes
elegiam, sem a participação dos professores a seu ~n:ço, o reitor,_ o qual, no
protocolo urbano, precedia o cardeal, podiam assistir armado~ as aula~ e
Desmistificar a história da escola multar ou sancionar de alguma outra forma os professores que nao cumpnam
adequadamente suas obrigações; nas atuais, carecem de qualq~er ?oder ou
A história da. educação ocidental, tal como se apresenta neste livro, têm-no reduzido a uma participação irrelevante, sempre em mmor1a e s:m
começa com as primeiras tentativas educacionais dos gregos alguns séculos nenhuma capacidade de influir sobre o corpo docente. Mais que urna evolu~:ao,
antes de Cristo, e chega até os inícios da pedagogia científica no século XX. a história da educação é a de uma sucessão de revoluç~es_ e_ contra-~evoluço~s.
Essencialmente é o registro de uma evolução. Revela como nossas próprias Os primeiros sistemas escolares que surgem na histona do Oc1dent~. tem
práticas e opiniões se formaram paulatinamente com o transcurso dos séculos, pouco a ver com a economia, respondendo antes a _fato:es e fms políticos,
e enlaça passado e presente como aspectos de urna vida em permanente religiosos ou militares. A primeira parte desta afirrna~o _n~~ deve ter nada de
desenvolvirpento, cuja etapa atual nos pertence (Boyd e King, 1977: 9). surpreendente, se se toma em consideração que, ~te o lillCIO do processo de
industrialização, quase todas as pessoas aprendiam . a fazer seu tra?alho
Assim começava o prefácio à primeira edição, em 1921, de The History fazendo-o. A grande maioria, os camponeses, aprendiam~ sem neces~Id_ade
of Western Education, de Wiliam Boyd, atualizada por Edmund ]. King em sequer de sair da esfera doméstica, ~ons?tuída po: urudades econorrucas
1964, quando era ''já um clássico em seu gênero''. Mas pode-se afrrrnar quase autosuficientes. E uma pequena mmona por carninJ:os de um alcance. um
realmente que a educação "começa "e "chega", que seguiu "urna evolução", pouco maior, como os candidatos a artesãos em seu. pénplo co~o _apre~du:es
que tenha feito algo "paulatinamente "ou que sua história tenha sido algo e oficiais, mas sem necessidade de recorrer a mecarustn~s alhews as_ p~opr1as
parecido a um "permanente desenvolvimento"? Com freqüência o instituições produtivas, embora transcendessem a urndade domesuca de
investigador social é vítima de um fetichismo das palavras que o leva a não ver origem. . d · -· ·
seu diferente significado em diferentes contextos espaciais e temporais, em Os primeiros anúncios de s1stema escolar foram o produto o~ lffipenos.
parte por ignorância e em parte por puro etnocentrismo. A educação é um 0 Baixo Império romano e o Império carolíngio: Tem-se ~uendo ver no

campo de cultivo privilegiado deste tipo de equívocos. Uma vez que na Grécia primeiro caso a continuação de uma suposta mas mde_monst~~vel es~ola d~s
já havia "academias", "escolas "e "pedagogos", por exemplo, pode-se romanos e, no segundo, os frutos do "pequeno Renasc!ffiento . As_ co1sas sao
imaginar' a história da educação ocidental como um continuum no qual muito mais simples: ambos eram impérios burocráticos que necessitava~ para
simplesrrfente se vão acumulando horas e'dias de aula, crianças escolarizadas, seu próprio funcionamento e sua reprodução de uma caterva de escnbas e

128 A Face Oculta da Escora 129


Mariano Fernández Enguita
funcionários, conhecedores, ao menos, da leitura e da escrita e dos quatro paredes da escola. Este argumento poderia ser ampliado tendo-se em
rudimentos das leis. Algo disto, mas não só isso, houve também na formação conta a existência do setor público nas economias nacionais capitalistas ou
do sistema escolar estatal - os ensinos secundário e superior - napoleônico. assinalando as semelhanças morfológicas e funcionais entre as escolas do
A burocracia, afmal, que deve em parte sua função e sua legitimidade ao capitalismo ocidental e as dos sistemas burocráticos dos países do Leste, mas
monopólio de um tipo de saberes, necessita do sistema escolar para sua isto não acrescentaria nada de essencialmente diferente ao que aqui se
reprodução. pretendeu demonstrar.
Outros sistemas escolares surgiram principalmente no calor das lutas Por que o capitalismo foi tão capaz de dar forma à escolarização é algo
religiosas. Isto é certo, quando menos, para os estados alemães da época da relativamente fácil de compreender. Em primeiro lugar, as grandes empresas
Reforma protestante - e, como reação, para os católicos, por exemplo a capitalistas sempre exerceram uma grande influência sobre o poder político,
expansão do ensino dos jesuítas -, para a Escócia e para um grande número quando não foram capazes de instrumentalizá-lo abertamente. Em segundo
de escolas inglesas criadas como arma na luta entre as seitas e as lugar, além das autoridades públicas foram apenas os ''filantropos ''recrutados
denominações. Em geral, para o protestantismo não há outro intermediário ou auto-recrutados entre as fileiras do capital os que puderam prover de fundos
entre a pessoa e Deus senão as Sagradas Escrituras, o que exige, e exigiu um grande número de iniciativas privadas e, de preferência, como é lógico, as
naquele momento, que todos fossem capazes de lê-las. Por outro lado, os que mais se ajustavam a seus desejos e necessidades. Em terceiro lugar, os
reformadores religiosos, mais que ninguém, não ignoravam o enorme poder supostos beneficiários das escolas ou os que atuavam em seu nome sempre
doutrinador da escola. viram estas, essencialmente ou em grande medida, como um caminho para o
A formação dos estados nacionais modernos foi outro desencadeador da trabalho e, sobretudo, para o trabalho assalariado, aceitando, por consegüinte,
expansão do ensino. Os novos estados nacionais reuniram dentro de algumas de boa ou má vontade, sua subordinação às demandas das empresas. Em
fronteiras únicas, sob um poder e algumas leis comuns e através de uma só quarto lugar, as escolas, como organizações que são, têm elementos em
língua, povos que pouco antes não cessavam de guerrear entre si, com comum com as empresas que facilitam o emprego das primeiras como campo
costumes, leis e línguas diferentes e bastante alheios à idéia da unificação de treinamento para as segundas. Em quinto lugar, as empresas sempre
nacional. A tarefa era ideal para a escola e a ela foi atribuída em primeiro lugar. apareceram na sociedade capitalista como o paradigma da eficiência e gozaram
Este motivo pode ver-se claramente nos processos de formação da nação sempre de uma grande legitimidade social, seja como instituições desejáveis
alemã ou espanhola. No mesmo sentido deve-se interpretar o ou como instituições inevitáveis - exceto em alguns períodos de agitação
empreendimento de assimilação das sucessivas levas de imigrantes aos social, os mesmos em que também se viram questionadas as escolas -,
Estados Unidos da América ou, depois da Revolução de Outubro, na União convertendo-se assim em um modelo a imitar para as autoridades
Soviética, ou, para mudar de hemisfério, o papel da escola nas nações da África educacionais. E, em último lugar, mas não por sua importãncia, convém
I negra e do Oriente Médio. recordar que as escolas de hoje não são o resultado de uma evolução não
l
'i
Ao lado dessas causas está também a que todo mundo sabe: a necessidade
de dorninàr uma certa quantidade de conhecimentos e destrezas para
conflitiva e baseada em consensos generalizados, mas o produto provisório de
uma longa cadeia de conflitos ideológicos, organizativos e, em um sentido
desenvolver-se em qualquer trabalho ou fora dele em uma sociedade amplo, sociais.
industrializada e urbanizada. Efetivamente, desde o momento em que a Entretanto, a maior parte da historiografia da escola, elaborada gerahnente
aprendizagem do trabalho e da vida social já não é possível diretamente ou, ao por. escolares já crescidos mas que raramente saíram dos claustros da
menos, exclusivamente, no próprio local de trabalho - sobretudo a primeira - instituição, tendeu a basear-se na mera análise da evolução do discurso
é preciso voltar-se para a escola (mas também para outras instituições, velhas pedagógico, da sucessão de escolas modelares atraves· das épocas ou da
ou novas, como a fam.ília e os meios chamados de comunicação de massas) evolução lile cifras agregadas que agrupavam sob epígrafes comuns realidades
para que desempenhe tal função. não acumtlláveis nem comparáveis. Por outro lado, é bem sabido que a história
Por conseguinte, torna-se claro que as escolas antecederam o capitalismo é escrita !'>elos vencedores, que não gostam de mostrar a roupa suja: sempre
e a indústria e continuaram desenvolvendo-se com eles, mas por razões a eles é mais conveniente apresentar a história da escola como um longo e frutífero
· alheias. Entretanto, pode-se afirmar que, desde um certo momento de caminho desde as presumidas misérias de ontem até as supostas glórias de
desenvolvimento do capitalismo que seria tão difícil quanto ocioso datar, as hoje ou de amanhã que, por exemplo, como um processo de domesticação da
necessidades deste em termos de mão de obra foram o fator mais poderoso a humanidade a serviço dos poderosos. A verdade, dizia Hegel, é revolucionária.
influir nas mudanças ocorridas no sistema escolar em seu conjunto e entre as

Mariano Fernândez Enguita A Face Oculta da Escola 131


5

O CREPÚSCULO DO MITO
EDUCATIVO: DA ANÁLISE
DO DISCURSO À ANÁLISE
DAS PRÁTICAS ESCOLARES

Embora a prática da educação tenha estado sempre dominada por


considerações muito mais prosaicas, como esperamos haver fundamentado
suficientemente no capítulo anterior, sua teoria tem estado quase sempre, e
continua sendo em grande medida, dominada pela convicção de que seu
objetivo e seus meios eram e são somente as idéias.
Tudo no desenvolvimento cotidiano da relação pedagógica leva a pensar
assim. O discurso do professor, o conteúdo do livro-texto, a memória ou a
capacidade de raciocínio do aluno são manifestações de idéias, isto é, de dados
e configurações e interpretações articuladas dos mesmos. As demais coisas
que ocorrem ou deixam de ocorrer na escola apresentam-se diante dos olhos
dos agentes do processo educacional como subsidiárias, colaterais e
contingentes ao núcleo do processo de ensino e aprendizagem, por um lado e,
por outro, como inevitavelmente derivadas das determinações devidas à
organização coletiva do ensino ou da própria atividade de aprender ou,
quando menos, como soluções pragmáticas cuja discussão não merece muita
atenção.
Esta representação tem outra fonte nos diferentes ritmos de mudança das
realidades escolares. Todo professor já mudou o conteúdo de suas aulas, viu
serem substituídos alguns programas ou grupos de matérias por outros e

A Face Oculta da Escola 133


empregou diferentes textos ou materiais didáticos, tudo isso repetidas vezes. tivesse aplicado à análise da ideologia - das idéias em geral - um enfoque
Entretanto, apenas algumas gerações viveram diretamente transformações materialista muito antes de ter uma concepção acabada da própria realidade
como a passagem da escola unidocente à seriada, da instrução individualizada material - como o demonstra o fato de seus textos sobre a ideologia
à simultãnea ou da escola dominical à de cinco dias por semana, para citar antecederem suas análises econômicas -, o marxismo foi incapaz, durante
apenas algumas das mais espetaculares. muito tempo, de efetuar uma análise materialista da educação.
Por outro lado, o campo do discurso escolar presta-se mais à inciativa Esta foi tratada até duas décadas atrás como uma mera questão de idéias.
pessoal do professor que o das práticas escolares, configurando o primeiro Poucos autores marxistas ocupavam-se da educação, já que esta era relegada
uma área de variabilidade, decisão pessoal e autonomia, enquanto o segundo ao campo das "superestruturas", isto é, das facetas da vida social que, em
apresenta-se como um campo cuja organização está dada de antemão. É muito uma concepção mecanicista do materialismo, não mereciam atenção por si
fácil saltar um ou vários temas de um programa e acrescentar outros que não mesmas uma vez que não podiam ser transformadas antes de transformar a
estavam previstos, comprimir uns e enriquecer outros ou mudar o enfoque de "infraestrutura" ou a "estrutura" e mudariam por si mesmas uma vez
qualquer deles. Entretanto, é muito difícil alterar realidades como a conseguido isto. Se o marxismo disse algo sobre a educação depois de Marx
organização individualista do trabalho dos alunos, a avaliação quantitativa de e antes da apariçãc das correntes relativamente recentes que logo
seu rendimento ou, simplesmente, o horário letivo. comentaremos, não foi porque algum teórico marxista generalista tenha
Ademais, a ênfase na educação como um intercâmbio de informações e concedido alguma importãncia ao tema, mas antes porque não faltaram
idéias devolve ao professor uma imagem de si mesmo muito mais gratificante educadores que, sem deixar de sê-lo, incorporaram-se ao campo do marxismo
que a atenção à prática escolar. É muito mais agradável ver-se a si mesmo (Krupskaya, Hoernle, Freinet, etc.).
como alguém que descobre o mundo ou o saber para as crianças e jovens, Dir-se-ia que, durante muito tempo, o marxismo havia vivido, no que
ou que esclarece suas cabecinhas imaturas que, se o que argumentamos conceme à educação - e a outras ''superestruturas'' - dominado por uma
neste livro é total ou parcialmente certo, ver-se como quem prepara as afirmação parcial e circunstancial de Marx e Engels:
condições para a ação eficaz do capataz ou poupa trabalho a juízes e polí-
cia. As idéias da classe dominante são as idéias dominantes em cada
Finalmente, a escola é raramente estudada desde fora. A imensa maioria época; ou, dito em outros termos, a classe que exerce o poder material
dos investigadores e analistas da escola são (somos) produto exclusivo da dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder espiritual
mesma. Nela permanecemos ao alcançar a vida adulta por haver apreciado dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção
altamente sua função de transmissão, aprendizagem e intercâmbio de idéias à material dispõe com isso, ao mesmo tempo, dos meios para a produção
margem das práticas que a revestem. Sob o efeito de tais determinantes, espiritual, o que faz com que lhes sejam submetidas, no devido tempo, em
esperar uma avaliação objetiva e desapaixonada da escola, para não falar de geral, as idéias dos que carecem dos meios necessários para produzir
.i conclusões desfavoráveis, é como pedir a um sacerdote que julgue a igreja ou espiritualmente (Marx e Engels, 1972: 50) .
a um militar que faça o mesmo com o exército, apesar de nossa instituição ser
muito mais tolerante que as suas. Este texto sugere uma visão das idéias como algo que tem um processo
O pensamento educacional esteve quase sempre pautado principalmente de produção específico e que é alheio ao campo central das relações sociais.
pela marca do idealismo. Embora em sua história figurem nomes vinculados ao Não resta dúvida de que existem "meios de produção espiritual": a escola é
sensualismo ou a um certo materialismo como os de Locke ou Helvetius, o que um deles, mas também os meios de comunicação, a arte, a publicid!lde, etc.
domina é uma longa lista de fllósofos-pedagogos de tendência idealista: Tampouco de que, efetivamente, quem dispõe dos meios materiais dispõe, em
Sócrates, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Kant, Herbart, etc., para boa parte, dos espirituais. São poucas as pessoas que podem fmanciar uma
citar apenas alguns. Isto é natural se se tem em conta que o veículo aparente escola, fundar um periódico ou simplesmente comprar um quadro original, e
por excelência da educação é a palavra, e que esta parece ser o único suporte estas poucas dispõem ademais de outros meios de influência diretos e
das idéias que expressa ou transmite. indiretos, além de sua capacidad~ fmanceira ou aquisitiva. Em breve
Entretanto, o idealismo inerente à atividade e ao pensamento educacionais discutiremos se é este o único processo de ''produção espiritual''.
é de muito mais longo alcance, como o demonstra um caso extremo: as A segunda parte do texto sugere que as idéias são algo, ao menos para a
dificuldades do marxismo, apesar de sua vocação inequivocamente maioria das pessoas, imposto de fora. Haveria um reduzido número de pessoas
materialista, para romper com o marco impregnado por aquele. Embora Marx que as esboçam, as elaboram e um grande número que as recebe, dicotomia

134 Mariano Fernândez Enguita A Face Oculta da Escola 135


escola, esta é cenano de uma trama de relações soc1a1s matena1s que
à qual não é difícil acrescentar um grupo um pouco mais amplo que o primeiro,
mas muito mais reduzido que o segundo, encarregado de transmiti-las. Esta o::ganizam a experiência cotidiana e pessoal do aluno com a mesma força ou
representação não é inteiramente incorreta e pode-se aplicá-la muito bem a mais do que as relações sociais de produção o fazem com a experiência do
tríades do tipo universidade-professores-alunos ou a outras do estilo. Mas é operário na fábrica ou do pequeno produtor no mercado. Por que, então,
continuar olhando para o espaço escolar como se nele não houvesse outra
falsa por ser parcial, embora tenha em si mesma muito de certo.
Os próprios Marx e Engels haviam escrito em continuação do parágrafo coisa em que fixar-se senão nas idéias qt;e se transmitem ou deixam de
transmitir? Em outras palavras, por que dar tanta importãncia ao conteúdo do
antes citado:
ensino e tão pouca à forma em que é transmitido, é inculcado ou de que se
As idéias dominantes não são outra coisa que a expressão ideal das reveste este contéudo?
relações materiais dominantes, as mesmas relações materiais dominantes As dificuldades do marxismo para olhar de maneira não idealista a escola
concebidas como idéias (Marx e Engels, 1972: 50). demonstram a força do idealismo no campo do discurso escolar. Durante muito
tempo, os marxistas dedicaram-se meramente a discutir se onde se ensinava
É curioso que a primeira citação tenha chegado a ser tão popular e a isto devia-se ensinar aquilo ou se tirlham acesso poucos ou muitos filhos da
segunda nã? tanto, porque nesta se condensa muito melhor o pensamento classe operária aos níveis não obrigatórios, o que é o mesmo que dizer que
marxiano. A diferença da primeira, a direção que sugere vai das idéias às permaneceram encerrados na dupla problemática do conteúdo do ensino e da
relações materiais - idéias elaboradas em algum lugar vêm a justificar as igualdade de oportunidades. Teve-se que esperar até Althusser para que o
relações, embora apenas o donúnio destas torne possível a elaboração marxismo analisasse a escola como cenário e trama de relações sociais
daquelas -, mas de relações materiais com respeito às idéias, as quais materiais, em vez de como limbo das idéias. Mas antes, ao mesmo tempo, ou
aparecem, simplesmente, como sua expressão. Há outra breve passagem pouco depois, outras correntes de pensamento começariam já a abrir o
significativa e muito conhecida da mesma obra que contém os textos caminho para a análise das práticas escolares. A contribuição das ·principais
'
anteriores, A Ideologia Alemã: .~ delas é o que tentaremos resumir e avaliar em continuação.

A consciência não pode ser nunca outra coisa que o ser consciente,
e o ser dos homens é seu processo de vida real (Marx e Engels, 1972: 26). A sociologia funcionalista norte-americana

Se a unimos à anterior po&!mos formular uma concepção da ideologia O enfoque funcionalista em sociologia- geral ou da educação -caracteriza-
muito diferente da maniqueísta e instrumentalista inspirada na primeira citação se por uma visão harmônica e determinista da sociedade. Formalmente parte de
de Marx e Engels. Em primeiro lugar, se o ser consciente é a expressão Durkheim, o qual por um lado postulou a identidade entre evolução social e
consciente do ser real, e este consiste sobretudo, para Marx, nas relações desenvolvimento da divisão do trabalho, com o corolário de caracterizar a esta, nas
sociais - e, em particular, nas de produção -, podemos pensar que são estas sociedades avançadas, como solidariedade orgânica ou complementariedade entre
mesmas relações as que geram e difundem visões ideológicas de si mesmas, as partes e a necessidade mútua e, por outro, concedeu uma grande atenção às
isto é, que têm uma eficácia ideológica própria. De fato, demonstrar isto é o funções sociais - essencialmente de controle - de fenômenos como, por
que tentou Marx ao criticar a dimensão ideológica das categorias da economia exemplo, a religião, de cujo discurso não forma parte tais funções.
política - por exemplo, a identificação entre meios de produção produzidos e Entretanto, e para o que aqui interessa, não se poderia encontrar melhor
capital -, na análise do fetichismo da mercadoria e da reificação das relações deflnição do espírito funcionalista, embora avant la lettre, que a do velho
de capital e inclusive, antes, na crítica da relação entre a sociedade civil, o Hegel: "O que é real é racional" (Hegel, 1975: 23). O ftlósofo considerava um
Estado e a religião em suas obras anteriores. Dito de outra forma, a ideologia, erro irlantil a convicção de muitos críticos de sua época de que as instituições
no sentido mais amplo do termo, não necessitaria para existir de instituições ou algumas delas estavam aí e eram como eram por não se sabe que desígnios
especialmente dedicadas a criá-la e perpetuá-la, embora estas possam ser de arbitrários ou, como ele dizia, "abandonadas de Deus" (Hegel, 1975: 16), e
grande ajuda. conclufa, contra a fllosofia "edificante" (reformista), com uma frase que,
Em segundo lugar, estas instituições- ou, ao menos, algumas dentre elas trocando o termo "filosofia" por "sociologia", bem poderia ter-se convertido
- poderiam e deveriam ser analisadas com o mesmo instrumental que Marx na máxima dos funcionalistas: ''A tarefa da f!losofia consiste em conceber o que
empregou para analisar as relações sociais de produção. Se nos cingimos à é, pois o qúe é é a razão" (Hegel, 1975: 24).

A Face Oculta da Escola 137


136 Mariano Fernández Enguita
l

O funcionalismo parte do pressuposto de que os componentes do todo social


I como urna sene de aprendizagens de papéis ocupacionais adultos,
têm uma função de conservação e reprodução do equiliôrio do sistema. Esta idéia independentemente da utilidade do conteúdo real da instrução (como, por
traz facilmente consigo, embora não necessariamente, uma imagem não exemplo, os conhecimentos aritméticos ou lingüísticos) (Parsons, 1976c:
problemática, e sim apologética ao extremo, da sociedade, mas também produziu 228).
resultados irrenunciáveis. A fertilidade desse erúoque pode ser melhor
compreendida recordando a distinção de Merton entre funções manifestas e Dreeben efetua a mesma mudança de êrúase, do conteúdo à da forma do
latentes de uma instituição social: as primeiras são as que esta, exercendo-as ou ensino, quando afirma que diversos estudos
não, declara; as segundas as que exerce sem declará-las. A sociologia
funcionalista deu grande importância à descoberta e análise das segundas. nos levam a acreditar que as crianças aprendem coisas na escola, além do
No estudo da instituição escolar isto significou ir além dos tópicos sobre que se llies ensina mediante a instrução, em virtude de sua experiência
as funções manifestas da escola - ensinar e avaliar e certificar o aprendido - diária em um cenário organizativo que tem as propriedades sociais
para centrar-se em suas funções latentes. Ademais, ao buscar estas na relação particulares da escola; e que o que aprendem ali é, provavelmente
entre a escola e o sistema social global, isto é, ao considerar que aquela serve diferente do que aprendem em outros cenários com diferentes
a este - em vez de supor, por exemplo, que serve aos indivíduos -, os características sociais (Dreeben, 1983: 77).
funcionalistas concederam grande importância à análise da relação entre a
escola e o mundo do traballio. Assim, para o principal de seus representantes Mais especificamente, este autor sublinha a importância das
em geral, Talcott Parsons, aprendizagens não cognitivas e sua dependência direta da precisa organização
estrutural do contexto escolar. À pergunta sobre o que se aprende na escola,
o sistema escolar é um microcosmos do mundo do trabalho adulto, e a deve-se responder, segundo ele, que
experiência nele constitui um campo muito importante de atuação dos
mecanismos de socialização da segunda fase [a primeira é a familiar], a os alunos aprendem a aceitar princípios de conduta, ou normas sociais, e
especificação das orientações de papel (Parsons, 1976c: 229). a agir de acordo com elas. Neste argumento estão implícitos os seguintes
pressupostos: 0.) As tarefas, as restrições e as oportunidades disponíveis
Com ele coincide plenamente Robert Dreeben, por sua vez o mais dentro dos cenários sociais variam com as propriedades estruturais destes
destacado representante do funcionalismo no campo mais específico da cenários; (2) os indivíduos que participam destas tarefas, restrições e
sociologia da educação. Discutindo as acepções da expressão ''currículo não oportunidades derivam princípios de conduta (normas) baseados em suas
escrito", escreve: experiências ao fazer-lhes frente; e (3) o conteúdo dos princípios varia
com o cenário (Dreeben, 1968: 44).
Um quarto significado refere-se ao marco social dominante em que a
escolarização tem lu&ar, e que implica que as crianças alcancem modos de Enfim, outros preclaros funcionalistas, Inkeles e Smith, em um livro
pensar, normas sociais e princípios de conduta, dada sua prolongada dedicado à relação entre educação e desenvolvimento, outorgam a mesma
participação nesse marco. Este é o significado que acho mais interessante, importância às relações sociais dentro das salas de aula quando afirmam que
(... ) a estrutura social da escola (Dreeben, 1983: 74).
a escola moderniza através de urna série de processos distintos da
A "experiência" no "microcosmos" a que alude Parsons e a "estrutura instrução formal em matérias acadêmicas: recompensas e castigos,
social'' que interessa a Dreeben têm muito pouco a ver com o conteúdo do adoção de modelos (modeling), exemplificação e generalização (lnkeles e
ensino. Aludem diretamente à forma em que se organiza a atividade - ou a Smith, 1974: 140).
inatividade - dos alunos nas salas de aula, isto é, a suas vivências sociais
materiais. Estas adquirem importância própria, superior à do currículo formal A conexão entre a socialização escolar e as demandas sociais baseia-se
e independente dele. Conforme o primeiro autor, sobretudo na adequação da conduta às necessidades das instituições do mundo
do trabalho. Mas, para os funcionalistas, esta conexão é mais social que
de pontos de vista muito diferentes, na sociedade norte-americana é técnica, reside mais nas aprendizagens educativas e nas exigências do trabalho
preciso considerar a experiência que surge no curso da educação formal não cognitivas que nos propriamente cognitivos. No jargão da pedagogia

138 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 139


poderia expressar-se isto dizendo que a educação é muito mais que a escritos pedagógicos de pensadores generalistas, na obra dos grandes
instrução, uma fórmula já familiar e enormemente ambígua, mas cuja pedagogos ou nos relatos sobre escolas modelares, ela tem apresentado a
interpretação adequada nos é oferecida sem rodeios: história da educação como uma ftleira de grandes homens - e algumas
mulheres, poucas, geralmente ocupadas com a educação das meninas -,
Qualificar as pessoas para o trabalho ( ... ) supõe muito mais que benfeitores da humanidade, empenhados em sua melhoria através da educação
adestrá-las para serem competentes em destrezas relacionadas com o e das luzes. Em certos casos isto levou pura e simplesmente a se falsear o
posto de trabalho; supõe também modelar os estados de espírito dos pensamento e o fim dos reformadores - por exemplo, quando se pretende que
homens e conseguir que estejam dispostos a aceitar normas de conduta Locke escreveu sobre a educação do gentleman porque assim exigia a
relacionadas com o desempenho de um emprego e com o domínio das ocasião, mas que teria formulado seus principias pedagógicos pensando em
atividades que o compõem (Dreeben, 1968: 31). toda a humanidade, o que implica ignorar sua aversão pelos pobres e sua
oposição a que fossem educados.
Os funcionalistas inserem sua análise da escola dentro de teorias da Mas o que agora importa não é julgar a lista de personagens ilustres que
estratificação ou da modernização que não compartilhamos. Para eles, a constituem o mdice de qualquer história da pedagogia, mas simplesmente
estratificação social é a melhor forma pela qual a sociedade pode assegurar o assinalar que os escritos pedagógicos não constituem a história da educação,
bom desempenho das funções que são necessárias. Mediante um sistema de sendo antes uma medíocre aproximação à mesma. Mais que a realidade,
recompensas diferenciais em termos de renda, poder e prestígio, a sociedade refletem como a viram ou deixaram de vê-la ou querê-la seus autores. E, se
conseguiria trazer as pessoas mais capazes para as funções mais difíceis ou os reformadores eram o que sua hagiografia pretende, tem-se que pensar
mais importantes, oferecendo-lhes recompensas mais elevadas, enquanto, no simplesmente que a maioria deles não significou tanto como seus admiradores
pólo oposto, as funções mais irrelevantes ou desempenháveis por qualquer um acreditavam, ou que conseguiu terminar por parecer-se muito pouco com o
encontrariam recompensas mínimas. O mercado e a escola seriam os dois que buscavam. Isto não deve ser razão de escãndalo: com freqüência as
dispositivos essenciais de crivo e seleção dos indivíduos para as distintas montanhas parem ratos e as árvores não deixam ver o bosque.
funções. Mais úteis, em troca, têm sido os estudos de história social centrados na
Por outro lado, os funcionalistas saúdam a forma capitalista de organização vida cotidiana ou nas instituições de base como a família, as corporações, as
da produção e do trabalho como o paradigma da racionalidade e da eficácia. Por associações de trabalhadores, etc. Estes nos têm oferecido, embora de forma
conseguinte, não se deve senão alegrar-se pelo fato de que a escola forme nos circunstancial e colateral, instantâneos da educação e da escola que por si só
alunos as atitudes e as normas e formas de conduta necessárias para inserir-se deveriam ser suficientes para romper muitos dos clichês da história em uso.
nela tal e como é. Quando este processo de socialização se refere às jovens Aqui é inevitável aludir aos historiadores da classe operária como Thompson,
gerações das sociedades avançadas, chamam-no educação; e, quando se refere Gutman, Rodgers e outros, da família e da vida cotidiana como Aries, etc. Mas
ás sociedç.de do Terceiro Mundo, modernização. as duas contribuições mais importantes foram, sem dúvida nenhuma, a de
Mas, à parte suas posições normativas, alguns de seus trabalhos, Michel Foucault e de alguns de seus discípulos e a dos chamados
frutificados pela fecunda idéia metodológica básica de que nada· ocorre por ''historiadores revisionistas'' da educação norte-americanos.
nada nem se justifica por si mesmo, trazem análises da instituição e dos Foucault mostrou que o Século das Luzes foi também o das disciplinas, o
processos escolares imprescindíveis para uma crítica radical da escola e sua de uma "microfísica do poder" que se estende indiscriminadamente através
relação com a sociedade. Esta atitude foi a mesma que levou Hegel a obter, a das instituições coletivas: a prisão, o hospital, o exército, o trabalho, a escola.
partir de uma armação teórica insustentável, urna riquíssima análise da Ele sublinhou como, enquanto nos espaços públicos como o mercado ou a
sociedade de seu tempo. Por isso não admira que com os funcionalistas se esfera política as liberdades abriam caminho, nos espaços fechados como os
possa fazer o que Marx fez com Hegel: virá-los para pô-los sobre os pés e tirar citados criava-se toda uma parafernália de normas, regras e controles
o melhor partido de seu brilhante trabalho. disciplinares destinados a sufocar a iniciativa e a individualidade. Foucault
destacou a difusão de mecanismos como a vigilãncia panóptica, a organização
A outra história da educação serial do espaço, a economia do tempo, a codificação dos movimentos, os
registros e, em geral, a normalização dos indivíduos e de seus
Deve-se dizer que a história da pedagogia não tem ajudado muito a se comportamentos através das instituições.
conhecer nem a se compreender a história real da educação. Centrada nos

140 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 141


I'

Aparece, através das disciplinas, o poder da Norma. Nova lei da das ''disciplinas'' supõe a instauração de uma ruptura artificial com o
sociedade moderna? Digamos antes que desde o século XVIII vinham-se ascetismo monacal e a racionalização da vida religiosa, fonte de
agregando a outros poderes, obrigando-os a novas delimitações: ao poder regulamentações do tempo e do corpo, que têm uma longa história
da Lei, ao da Palavra e do Texto, ao da Tradição. O Normal estabelece-se anterior à idade clássica. Na análise dos setores institucionais em que
como princípio de coerção no ensino com a instauração de uma educação nasce a disciplina é, inversamente, uma amálgama das técnicas escolares,
padronizada e o estabelecimento das escolas normais; estabelece-se no militares, industriais, reunidas na categoria de tecnologia do corpo cuja
esforço por organizar um corpo médico e um enquadramento hospitalar da fmalidade é o controle da interioridade e a instauração de um poder
nação capazes de fazer funcionar algumas normas gerais de salubridade; (Chamboredon, 1983: 86-87).
estabelece-se na regularização dos procedimentos e dos produtos
industriais (Foucault, 1976: 188-9). Se as disciplinas conheceram uma expansão geral no Século XVIII,
passando, de uma situação em que estavam restringidas a espaços marginais,
No caso da escola, ele acentuou particularmente os mecanismos de a invadir instituições amplamente generalizadas, como o hospital ou a prisão,
vigilãncia e de controle do comportamento e sua integração na relação ou de vocação universal como a milícia e a escola, não foi por um milagre
pedagógica. Para a análise da educação, o valor de seu trabalho - de qualquer ocorrido num espaço vazio. Sem aludir explicitamente a Foucault, mas
forma, magnífico .,...- reside sobretudo em ter feito sair à luz do sol o obscuro pensando sem dúvida nele, Charlot e Figeat escreveram recentemente:
mundo oculto por detrás do retumbante discurso, da educação, a trama
disciplinar interior que constitui a outra face dos supostos valores liberais e O que está em questão não é a repressão do Desejo, do Corpo, da Se-
igualitários da escola. xualidade ou do Espírito, em um combate metafísico entre filósofos, mas a
Entretanto, o trabalho de Foucault não está livre de limitações. Se, por um reprodução da força de trabalho popular por meio de práticas que, embora
lado, historiou o velado espaço interior das instituições, por outro, converteu afetem o desejo, o corpo, a sexualidade ou o espírito, o fazem em primeiro lugar
em a-histórica a relação entre elas ou entre cada uma delas e a sociedade e sempre sobre o fundo da luta de classes (Charlot e Figeat, 1985: 94).
global. Em vez de mostrar a articulação entre as disciplinas intra-institucionais
e a sociedade global, extrapolou aquelas até convertê-las numa caracterização Alguns foucaultianos oferecem uma interpretação menos indiferenciada.
monocromática desta. Assim, ficamos sabendo que o Século das Luzes as viu Assim, por exemplo, Anne Querrien, em cujo trabalho já nos apoiamos no
nascer, mas não se nos oferece nenhuma explicação de por que o fizeram neste capítulo anterior, escreve:
momento e não, por exemplo, antes, na Idade das Trevas, ou depois, na época
dos totalitarismos deste século. Apontar um paradoxo não é explicá-lo. Como Eu vejo na escola simplesmen_te um aparato para transformar, para
assinalou jean-Claude Chamboredon:-· fazer operações, para produzir efeitos em (... ). Para o capitalismo a
operação fundamental é a aplicação ao trabalho, e para sua obtenção se
A imagem do novo sistema de controle, imposição uniforme de um dirige á escola capitalista industrial (Querrien, 1.979: 21).
poder abstrato desligado de toda relação de dominação e, em
conseqüência, de toda função atribulvel aos grupos sociais, exclui a análise Os "historiadores revisionistas" norte-americanos devem essa
da diversidade das formas escolares e das funções dessas formas em denominação ao fato de terem submetido a uma profunda revisão os tópicos
relação com as estratégias de transmissão. Na verdade, na análise de M. comumente aceitos sobre o caráter e os fms das reformas educacionais que
Foucault, a constituição da "disciplina" como modo específico de controle tiveram lugar nos Estados Unidos durante o último terço do século passado e
supõe fazer-se abstração das relações ,de dominação que tornam possível começos deste. Seu trabalho centrou-se de forma especial na área do Estado
o exercício desses modos de poder. E a esse preço que as técnicas de de Massachusetts, em particular, e da Nova Inglaterra em geral. Isto, longe de
domesticação, de manipulação, de regulamentação, cujo sentido e forma ser uma limitação, significa tomar como alvo da revisão o espaço geográfico e
variam segundo a relação na qual se exercem (relação de assalariado, social que liderou e representou mais claramente a corrente de reforma da
relação pedagógica, relação de auteriEiade em uma organização, etc.) educação na época. Não se esqueça, por exemplo, que Marx colocou o Estado
podem ser constituídas como uma forma nova de poder. de Massachusetts como modelo de organização da educação perante a
(... ) Há duas distorções principais na demonstração de M. Foucault. Associação Internacional de Trabalhadores, e Giner de los Rios não deixou de
Na cronologia, a definição do século XVIII como momento de constituição mostrar sua admiração por personagens como Mann, Bamard e Harris.
142 Mariano Fernández Enguita 143
A Face Oculta da Escola
Onde a história não havia visto senão epopéias escolares destinadas a
I -

ordem, segurança, submissão e burocracia e um sentido compulsivo do


melhorar a sorte das classes desfavorecidas e a fomentar a igualdade e a t dever. Este conjunto de traços de caráter também apresenta uma
liberdade, os historiadores revisionistas desvelaram um movimento cujos f disposição para aceitar e realizar um trabalho carente de significado e
propósitos e resultados eram a assimilação dos grupos imigrantes mediante a f.
repetitivo e um sentido agressivo do nacionalismo e do patriotismo. Era
destruição de seus acervos culturais, a conservação da ordem civil e política para produzir estes traços de caráter que a high school americana tinha
por meio da doutrinação ideológica e a inculcação do respeito pela autoridade sido planejada (Spring, 1975: 41-42).
e a formação de urna mão de obra dócil disposta a aceitar sua posição através
da modelagem de seu caráter e de seus hábitos de conduta. Os revisionistas norte-americanos não acham que essa fosse a única
Contrariamente à imagem deles fornecida por urna história cor-de-rosa, os função da escola. Não negam, pelo contrário afirmam que a escola e suas
educadores contribuíram voluntária e involuntariamente, direta e :-eforrnas desempenharam outras funções. Alguns, como Karl Kaestle,
indiretamente, para a domesticação da classe operária. acreditam mesmo que

Quando os educadores argumentavam que o trabalhador educado era os historiadores viram-se envolvidos em um esforço procusteano para ver
um empregado melhor, isto não significava simplesmente que soubesse ler como conflito de classe o que não era senão conflito étnico, religioso,
as instruções ou que estivesse menos inclinado a beber uísque ou a entrar geográfico, institucional e de gerações - cada um dos quais poderia ou
em greve; significava também, na realidade, que havia sido não estar relacionado com as classes (Kaestle, 1976: 394).
adequadamente socializado nas novas formas de produção, adaptado à
hierarquia, à neutralidade afetiva, às exigências específicas de papel e aos Desde que começou a revolução industrial, toda sociedade teve que
incentivos extrínsecos com relação ao rendimento (Tyack, 1974: 73). desenvolver um mecanismo para mudar os comportamentos apropriados
em uma sociedade tradicional para aqueles exigidos pela modernidade. A
Os revisionistas assinalaram não apenas a função de socialização para o América enfrentou este problema, o problema da disciplina industrial,
trabalho desempenhada pela escola, mas a proeminência da preocupação assim como tantos outros, através das escolas (Katz, 1971: 32).
explícita a esse respeito entre os reformadores. Após analisar a expansão das
escolas urbanas no estado de Massachusetts, Marvin Lazerson escreve: Ela fez isso através não apenas da mensagem escolar, mas também e
sobretudo da organização de seu contexto material. A análise deste é o que
Por volta de 1915 dois temas passaram a competir nas escolas urbanas constitui para nós o interesse dos historiadores revisionistas. De certa forma,
de Massachusetts. Um retroagia aos fermentos de reforma das décadas pode-se afirmar que a história social da educação pôde desvelar com facilidade
entre 1870 e 1900 e via a educação como a base da melhoria social. A o que para a sociologia mostrou-se ser urna difícil tarefa. Em ambos os casos
escola devia alcançar e elevar o pobre, particularmente através de novas foi necessário superar a complacência, os preconceitos e os lugares comuns
técnicas para ensinar os valores sociais tradicionais .. O segundo tema, cada que dominam a análise da escola, mas a historiografia foi capaz de descobrir
vez mais proeminente a partir de 1900, incluía a aceitação da ordem nos dados e documentos de épocas anteriores que as que hoje sabemos ou
industrial e a preocupação de que a escola refletisse essa ordem. Fazia do acreditamos saber serem suas funções ocultas foram defendidas com unhas e
ajustar o indivíduo à economia a principal função da escola. Por meio do dentes, postas em prática sem dissimulação e firmemente impostas contra
ensino de destrezas específicas e padrões de conduta, as escolas qualquer resistência. Referindo-se à experiência norte-americana, a qual
produziriam trabalhadores e cidadãos melhores e mais eficientes, e faria podemos considerar como uma condensação da história da escola européia
isto através de um processo de seleção e orientação (Lazerson, 1971: x-xi). comparativamente livre da influência da ordem social pré-capitalista, Elisabeth
Vallance escreveu:
Joel Spring, referindo-se em particular à expansão e reorganização da
escola secundária, é ainda mais categórico: Sugiro que o currículo oculto chegou a sê-lo até finais do século XIX
simplesmente porque por essa época a retórica já havia cumprido sua
O propósito dessa organização era produzir o que Wilhelm Reich função. Da situação de ser urna influência socializadora suplementar, a
chamou de caráter encouraçado (a couraça de caráter?), urna série de escola havia evoluído até ser urna ativa força impositiva. Ao mudar o século
traços de caráter tipificados pelo amor para com e o desejo de autoridade, podia dar-se por seguro que as escolas ofereciam urna experiência

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r
i
I

suficientemente homogênea e regimentada. O currículo oculto/estava bem


instalado. Só quando a visão da escola como modelação f.e um caráter
comum chegou a seu zênite, as reformas funcionalistas alíriram a porta a
uma nova retórica justificatória. Só então pôde a necessidade de fornecer
l
f
Pode-se colocar como objeção a Althusser uma formulação ainda confusa
e com elementos idealistas de sua teoria da ideologia - por exemplo, quando
analisa a relação entre a ideologia e os sujeitos - e, sobretudo, ignorar a
eficácia ideológica das próprias relações de produção, apropriação,
aos indivíduos os instrumentos para a sobrevivência econômica e social distribuição e troca e ter recorrido a uma terminologia, a dos ''aparatos
oferecer uma justificação para a escola que chegaria a rivalizar e mesmo a ideológicos de Estado'' que elimina a distinção entre este e a sociedade civil
deslocar a necessidade de criar uma plebe homogênea (Vallance, 1.977: (veja-se Fernández Enguita, 1985a: 271.-3, e 1985b: 8). Entretanto, isto não
601-2). tira nenhum valor à reviravolta que significou seu trabalho ao assinalar a
vinculação entre ideologia e práticas materiais ou, na terminologia que aqui
O estruturalismo althusseriano preferimos, relações sociais.
Precisamente Althusser toma como exemplo fundamental a escola, a qual
Depois de Marx, a teoria geral marxista e a sociologia marxista da considera o aparato fundamental mais poderoso, juntamente com a família, na
educação tiveram de esperar até Althusser para conseguir uma aproximação a sociedade moderna:
uma teoria adequada da ideologia. O que Althusser coloca é, essencialmente,
que a ideologia não é simplesmente questão de idéias fabricadas não se sabe (... ) Um Aparato Ideológico de Estado desempenha, em todos os
onde, mas que sua vigência e sua reprodução estão indissoluvelmente seus aspectos, a função dominante, embora não se preste muita atenção
associadas a práticas materiais que ele localiza no interior do que denomina à sua música, de tão silenciosa que é: trata-se da escola.
''aparatos ideológicos de Estado''. A escola recebe as crianças de todas as classes sociais desde o
Maternal, e já desde o Maternal, tanto com os novos como com os antigos
(... ) As "idéias" ou "representações", etc., de que parece ser métodos, inculcam-lhes durante anos, precisamente durante os anos em
composta a ideologia não têm existência ideal, espiritual, mas material. que a criança é extremamente "vulnerável" (... ).
(... ) Uma ideologia existe sempre em um aparato, e em sua prática, (... ) Nenhum Aparato Ideológico de Estado dispõe durante tantos
ou em suas práticas. Esta existência é material. an«~s de audiência obrigatória (... ) (Althusser, 1977: 94-7).
Certamente que a existência material da ideologia em um aparato e
em suas práticas não possui a mesma modalidade que a existência material Ele atribui uma posição de primeira ordem à escola na reprodução
de um paralepípedo ou de um fuzil. ideológica, mas não por sua manifesta função de ensinar mas pelo contexto
Nós falaremos de atos inseridos em práticas. E além disso organizado através do qual ela exerce essa função:
indicaremos que estas práticas estão regulamentadas por rituais nos quais
essas práticas se inscrevem, no interior da existência material de um Afinal, o que se aprende na escola? Chega-se mais, ou menos longe,
Aparato Ideológico, embora apenas em uma pequena parte deste aparato nos estudos, mas de qualquer forma se aprende a ler, a escrever, a contar.
( ...). Assim, pois, algumas técnicas e muitas outras coisas ainda, incluídos
Por outro lado, devemos à ''dialética defensiva'' de Pascal a alguns elementos (que podem ser rudimentares ou, ao contrário,
maravilhosa fórmula que nos permitirá dar a volta a tal esquema nocional ·profundos) de ''cultura científica'' ou ''literária'' diretamente utilizáveis
da ideologia. Pascal diz aproximadamente: "Pende-vos de joelhos, movei nos diferentes postos de produção (uma instrução para os operários, outra
os lábios para rezar, e crereis" (Althusser, 1.977: 106-9). para os técnicos, uma terceira para os engenheiros, uma última para os
quadros superiores, etc. ) . Aprendem-se, portanto, certas habilidades.
O que Althusser diz é que a ideologia não se adquire através da Mas ao mesmo tempo, e também com o pretexto destas técnicas e
inculcação nem se conserva apenas como um conjunto de idéias nas quais destes conhecimentos, aprendem-se na escola as regras do ''bom compor-
crer ou a serem pregadas, mas que se adquire e se exerce através de práticas tamento", isto é, da adequada atitude que deve observar, conforme o posto
materiais. Os aparatos ideológicos de Estados nos quais localiza estas práticas que está ''destinado'' a ocupar, todo agente da divisão do trabalho'': regras
compreendem virtualmente todas as instituições da vida social menos as de moral, de consciência cívica e profissional, o que, falando claramente,
econômicas: a igreja, a cultura organizada, os partidos, a família, a es- significa regras a respeito da divisão técnico-social do trabalho e, enfun,
cola ... regras da ordem estabelecida por meio da dominação de classe (. ..) .

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Para enunciar este fato em uma linguagem mais científica, diremos proletários à ideologia dominante. Daí provém a oposição sistemática das
que a reprodução da força de trabalho exige, não apenas uma reprodução práticas escolares (Baudelot e Establet, 1976: 151).
de sua qualificação, mas também, e simultaneamente, uma reprodução de
sua submissão às regras da ordem estabelecida, isto é, uma reprodução de Na realidade, em seu trabalho de qualquer forma magnífico, Baudelot e
sua submissão à ideologia dominante (. .. ). Establet entram apenas obliquamente na questão das relações sociais da
Em outras palavras, a escola (. .. ) ensina certas "habilidades", mas educação. Seu objetivo é sobretudo mostrar os dois tipos de cultura, ou as
mediante formas que asseguram o submetimento à ideologia dominante, duas versões hierarquizadas da mesma, que a escola oferece aos estudantes
ou antes o domínio de sua prática (Althusser, 1977: 74-5). de uma e outra rede. Ao pretender analisar o que Althusser denomina as
"práticas" e os "rituais" do "aparato ideológico" escolar continuam
Christian Baudelot e Roger Establet aplicaram o modelo de Althusser à movendo-se sobretudo no terreno da análise da mensagem escolar, da
análise do sistema escolar francês. Seu principal objetivo era mostrar a escola como relação de comunicação e não como cenário de constantes
contribuição da escola para a reprodução da divisão social do trabalho e das práticas materiais. Por isso em sua análise aparecem apenas aqueles
classes sociais. Para isto dispuseram-se a demonstrar estatisticamente a aspectos das relações materiais que se apresentam diretamente vinculados
existência em seu interior de duas redes escolares, as quais denominaram a diferenças no campo dos símbolos - por exemplo, o cálculo e o problema
"primária-professional" e "secundária-superior", distintas por sua base ou o ditado e a dissertação -, mas não o fazem com outros que não
social de recrutamento e pelas posições na hierarquia da divisão social do apresentam tal vinculação, como ter que cumprir um horário, permanecer
trabalho a que conduzem e herméticas, isto é, sem canais reais de horas sentado ou ser avaliado individualmente.
comunicação que permitam a passagem dos alunos de uma à outra. Por outro lado, ao buscar as diferenças nas práticas das duas redes
Mas, para nossos propósitos, sua contribuição mais importante é o estudo minimizam tudo que elas têm em comum, aquilo que à altura do ensino
das diferenças sistemáticas nas orientações pedagógicas empregadas em uma obrigatório constitui o grosso das relações sociais da educação.
e outra rede para alunos do mesmo grupo de idade - ao menos idade escolar Rachei Sharp desenvolveu também um enfoque que pode ser clas-
-, uma vez que com isto entram precisamente na análise das relações sociais sificado como estruturalismo althusseriano. Ela distingue entre "ideologias
da educação. Além de mostrar que a cultura que se transmite a uns e outros teóricas", ou seja, os sistemas teóricos abstratos ou, mais em geral, o que
é diferente, Baudelot e Establet revelam também a configuração de distintas a linguagem comum denomina simplesmente ideologias, e ''ideologias
relações do aluno para com o saber. Opondo a rede secundária-superior à práticas", baseando-se na concepção de ideologia de Althusser, ou
primária-profissional, o que encontram é a propedêutica frente à repetição, o "comportamentais", apoiando-se na terminologia de Volosinov. Com o termo
culto ao livro frente à lição de coisas, o problema matemático frente ao "ideologia prática" ela quer designar
exercício de cálculo, a dissertação frente ao ditado, o estímulo à emulação
frente ao deixar fazer, o abstrato frente ao concreto, etc. um modo socialmente definido de pensar e agir, uma sene de con-
venções e suposiões que tornam possível a significação (Sharp, 1980:
A segregação dos materiais ideológicos, as duas formas incompatíveis 96).
de inculcação da ideologia dominante em uma· e outra rede produzem
efeitos opostos: por um lado, aos futuros proletários se lhes transmite um .É esta que constitui o núcleo fundamental da socialização e da
corpo compacto de idéias burguesas simples; por outro, os futuros aprendizagem na escola, e não as ideologias teóricas:
burgueses aprendem, através de toda uma série de aprendizagens
apropriadas, a converter-se (em pequena ou em grande escala) em É em grande medida através da ideologia prática que a escola
intérpretes, atores e elaboradores da ideologia burguesa. Evidentemente consegue assegurar as condições para a acumulação continuada de
trata-se da mesma ideologia mas, entre o processo de inculcação na capital e a reprodução das relações de classe capitalistas. A forma pela
primária-profissional e o processo de inculcação na secundária-superior, qual estão socialmente organizadas as escolas, as salas de aula e o
existe a mesma diferença que entre o catecismo e a teologia ( ... ) conhecimento, as práticas e rotinas materiais através das quais têm lugar
(Baudelot e Establet, 1976: 139). a aprendizagem e o ensino proporcionam o contexto socialmente
A rede SS tende a formar os intérpretes ativos da ideologia burguesa, significativo que medeia qualquer transmissão explícita do conheci-
enquanto a rede PP trata somente de submeter brutalmente os futuros mento, dos conceitos e das teorias formais (Sharp, 1980: 123-4).

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Práticas escolares com dimensões ideológicas são a estruturação da a correspondência essencial entre escola e sociedade é, na realidade, entre
jornada do aluno, a definição do que é conhecimento, os padrões .·de aquela e o mundo empresarial, e não com as organizações ou a modernidade
interação, a distribuição de recompensas, o trabalho individual, o estímulo em geral como rezava a pretensão funcionalista. É a falta de similaridade
à diligência, a deferência para com a autoridade do professor, a divisão entre entre a organização do trabalho e a organização familiar o que faz com que
trabalho manual e intelectual, as dicotomias "puro-aplicado", "abstrato- caiba à escola um papel central na transição da família à produção.
concreto'', ''especializado-geral", ''acadêmico-profissional'', etc.
A escola é a primeira das grandes e principais instituições, tirando
a família, na qual quase todos nós nos vemos imersos. Do jardim de
A teoria da correspondência infância em diante, o estudante começa a aprender como é
verdadeiramente a vida na Empresa Oackson, 1968: 37).
Embora as revisões sociológicas coloquem o nascimento da teoria da
correspondência entre as relações da educação e as do trabalho na obra de Mas são Samuel Bowles e Herbert Gintis os que mais claramente
Bowles e Gintis, assinalada já na corrente neomarxista em sociologia da enfatizaram a importância das relações sociais materiais da educação, ao
educação que fez do estudo desse isomorfismo - e de seus limites - um menos no que concerne à conexão entre esta e o mundo do trabalho.
centro de interesse, o mérito de sua formulação cabe a Philip W. jackson,
~' '
J I cuja investigação é injustamente relegada ao grupo dos trabalhos etnográficos
ou sociológicos que, trazendo importantes sugestões para a crítica da escola,
( ... ) Os aspectos formais, objetivos e cognitivamente orientados da
escolarização captam tão-somente um fragmento das relações sociais
i
.I estariam carentes de um marco teórico que desse sentido a seus achados . cotidianas do encontro educacional ( ... ). Devemos considerar as escolas
:; Para este autor: à luz das relações sociais da vida econômica. (... ) Sugerimos que os
I! aspectos principais da organização educacional são uma réplica das
I
i A transição da sala de aula à fábrica ou à oficina dá-se facilmente relações de domfuio e subordinação na esfera econômica. A
l para quem desenvolveu ''bons hábitos de trabalho'' em uma idade correspondência entre as relações sociais da escolarização e as do
·'
! ; precoce Oackson, 1968: 32). trabalho explica a capacidade do sistema educacional para produzir uma
força de trabalho submissa e fragmentada. A experiência da
]ackson assinala especificamente o propósito da escola em produzir os escolarização, e não meramente o conteúdo da aprendizagem formal é
i i
i! modos de comportamento e as atitudes necessárias para sua inserção não central nesse processo (Bowles e Gintis, 1976: 125).
conflitiva no mundo do trabalho, e isto através da similaridade entre a
organização das duas esferas. Baseando-se, por um lado, no trabalho dos historiadores revisionistas da
'·I educação, aos quais já nos referimos antes e, por outro, na crítica estatística
I C.. ) Os hábitos de obediência e docilidade engendrados na sala de
aula têm um alto valor de retomo em outros contextos. No que
das predições da concepção tecnocrática da escola, sustentam que esta não
cumpre as funções de desenvolvimento pessoal e garantia da igualdade de
conceme à sua estrutura de poder, as salas de aula não se diferenciam oportunidades sociais que geralmente se lhe atribuem, mas, em primeiro
muito das fábricas ou das oficinas, estas onipresentes organizações em lugar e sobretudo, as de legitimar a ordem social existénte, socializar a força
que se gasta uma parte tão grande de nossa vida adulta. Portanto, pode de trabalho de acordo com o lugar que vai ocupar, estratificar e fragmentar
realmente dizer-se da escola que é uma preparação para a vida, mas os trabalhadores e reconciliar as pessoas com seu destino social.
não no sentido habitual que os educadores dão a esta frase Oackson, De todas essas funções, a que agora nos interessa é a idéia básica de que
1968: 33). crianças e jovens são preparados para inserir-se de forma não conflitiva no mundo
da produção adulta através da experiência, que a escola lhes faz vivenciar, de al-
Embora Jackson não apresente uma teoria da sociedade em que se gumas relações sociais similares durante sua permanência nela. Este é o chama-
enquadre sua análise da escola - o que a converte, de certa forma, em do ''princípio da correspondência'', que é assim formulado por seus autores:
intemporal e a-histórica, como teremos ocasião de ver no capítulo seguinte,
ao discutir sua aguda observação sobre a aprendizagem do significado do (... ) As relações sociais da educação - as relações entre os
trabalho - tampouco se lhe escapa (como já o indica a citação anterior) que administradores e os professores, os professores e os estudantes e dos

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estudantes entre si e com seu trabalho - reproduzem a divisão
hierárquica do trabalho. As relações hierárquicas refletem-se nas linhas de Eles tratam de validar sua hipótese sobre a socialização düerencial na
autoridade vertical que vão dos administradores aos professores e destes escola utilizando o mesmo procedimento. De acordo com eles, os traços
aos estudantes. A alienação do trabalho assalariado reflete-se na falta de recompensados nos níveis inferiores da educação e do trabalho são os que
controle do estudante sobre sua educação, na alienação do estudante com correspondem à atitude de submissão (trabalhar constantemente de acordo
respeito ao conteúdo do currículo e na motivação do trabalho escolar com normas impostas), nos níveis intermediários os que constituem uma
através de um sistema de notas e outras recompensas externas, em vez atitude de seriedade ou confiabilidade (ser capaz de trabalhar sem uma
,, supervisão constante, mas com objetivos fixados pela autoridade); e, nos
da integração do estudante seja com o processo (a aprendizagem) seja
~
com o resultado (o conhecimento) do "processo de produção" níveis superiores a iniciativa ou autonomia (controlar os fins e o processo do
educacional. A fragmentação no trabalho reflete-se na competição i próprio trabalho, mas tendo interiorizado os fms da organização). Entretanto,
institucionalizada, e com freqüência destrutiva entre os estudantes, e na.
classificação e na avaliação efetuadas em bases meritocráticas. Ao adaptar
os jovens a uma série de relações sociais similares às do local de trabalho,
a escolarização busca conduzir o desenvolvimento das necessidades
II esta validação é difícil e de interesse duvidoso, já que o que se faz é tomar a
associação entre traços de personalidade e indicadores de rendimento
produtivo óu o êxito econômico como uma aproximação da correspondência
entre as relações sociais da educação e da produção, o que significa reduzir
pessoais de acordo com suas exigências (Bowles e Gintis, 1976: 131). uma hipótese de amplo espectro a algumas variáveis muito parciais e

Bowles e Gintis vão além dessa caracterização geral da escola ao tentar


mostrar que a população não é toda submetida ao mesmo tipo de socialização.
Identificam essas diferenças com a passagem do ensino secundário e obrigatório
I influenciadas por outros fatores. Embora Bowles e Gintis apresentem este tipo
de validação indireta apoiando-se em alguns estudos empíricos, outros autores
não encontram tal sustentação (Olneck e Bills, 1980).
Por seu desejo de construir uma hipótese e uma demonstração fechadas,
ao superior de duração curta e ao superior de duração longa. No nível mais baixo Bowles e Gintis incorrem em uma visão da escola que sobrestima sua eficácia
os estudantes são socializados em uma atitude de submissão às normas e às como mecanismo de socialização. Na verdade, o salto da construção de uma
autoridades; no mais alto procura-se estimular neles uma atitude de iniciativa ou hipótese baseada numa descrição fenomenológica à sua verificação por meio da
interiorização das normas (uma disciplina interna mais que externa); no medição estatística da associação entre traços de personalidade, rendimento
intermediário produz-se um tipo de socialização mista. Cada etapa produz um escolar e rendimento no trabalho só tem sentido a partir do pressuposto da
tipo de socialização e todos passam pela primeira, mas o número dos que chegam eficácia absoluta da escola. Ao dar este salto, eles expõem sua teoria a uma
às seguintes reduz-se progressivamente. Assim, se, como sustentam os autores, refutação fácil, embora de tão duvidoso valor quanto sua demonstração. E, ao
pode-se dar a mesma distinção entre níveis da hierarquia do trabalho e traços de aceitar o pressuposto em que se baseia, vêem-se levados a imaginar a escola
caráter neles exigidos, cada grupo social abandona a escola com o tipo de como uma máquina perfeitamente lubrificada e livre de coriflitos e desajustes
socialização mais apropriado para desempenhar adequadamente sua função no em suas funções de socialização.
lugar que lhe corresponde na divisão do trabalho. Os próprios autores revisaram sua posição em escritos posteriores
Eles tentam também validar empiricamente sua posição através da análise (Bowles e Gintis, 1983) e têm sido criticados a partir de enfoques mais abertos
dos traços de personalidade que se associam ao êxito na escola e no trabalho, à consideração de contradições estruturais, conflitos sociais e estratégias
ou à caracterização como bom estudante e bom trabalhador, tratando de ir.dividuais ou grupais (Carnoy e Levin, 1985; Apple, 1985; Fernández Enguita,
mostrar que os traços recompensados pela instituição escolar são os mesmos 1987). Entretanto, nada disto tira o valor quanto ao que aqui nos preocupa, sua
que os positivamente sancionados e buscados no local de trabalho. Basean- ê:1fase nas relações sociais da educação.
do-se em Weber e Merton, afirmam:
Outras contribuições importantes
Os estudantes são recompensados por mostrar disciplina,
subordinação, um comportamento orientado intelectual e não Embora as citações acima constituam as correntes principais de
emocionalmente, uma forte laboriosidade independentemente da pensamento nas quais pode e deve apoiar-se qualquer estudo do papel da
motivação intrínseca das tarefas. Mais ainda, esses traços são escola na socialização para o trabalho, nem por isso deixam de existir outras
recompensados independentemente de qualquer efeito da ''conduta q-Je, sem fazer disso seu foco de atenção, trouxeram elementos dignos de
_.adequada" sobre o rendimento escolar (Bowles e Gintis, 1976: 40). serem tomados em consideração. Faremos simplesmente uma rápida menção
a elas, sem expô-las de forma geral nem criticar suas limitações.
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A Face Oculta da Escola 153
Numerosos clássicos da pedagogia, longe ainda do idealismo do O desenvolvimento mais criativo e frutífero deste enfoque é, sem dúvida
reformismo pedagógico, não duvidaram em colocar a ênfase que estava a seu nenhuma, o da chamada "Nova Sociologia da Educação" britânica (Young,
alcance nos aspectos disciplinares da escola. Assim, por exemplo, Comênio e 1971; Whitty e Young, 1977; Keddie, 1973; Woods, 1979; uma revisão e avaliação
Kant, mas também Locke, que embora pensando apenas na educação do geral é a de Forquin, 1983). Como a definiu sua cabeça mais visível, tratava-se
cavalheiro insistia em que a primeira coisa eram os bons costumes, ou de
Helvécio, o qual, sem necessidade de falar da escola, ofereceu uma teoria
materialista geral da educação na qual bem poderia fundamentar-se qualquer (... ) uma investigação da organização social do conhecimento nas
projeto disciplinar - ou o contrário, mas de qualquer forma baseado na instituições educacionais. (... ) uma sociologia da educação que faz dos
centralidade da experiência material. É sufi!=iente uma breve alusão aos dois problemas do controle e da organização do conhecimento e de suas in-
primeiros. ter-relações sua preocupação principal. ( ... ) Hoje em dia, são as
Comênio nos obsequiou com a máxima de que "escola sem disciplina é concepções de senso comum do "científico" e do "racional", juntamente
moinho sem água" (Comênio, 1986: 265), insistindo na importância de com as diversas crenças sociais, políticas e educacionais que se supõem
modelar os costumes, à parte da instrução propriamente dita (''a disciplina provir delas, as que representam as categorias legitimadoras dominantes.
mais rigorosa não se deve empregar por causa dos estudos e das letras; mas Por conseguinte, converte-se em tarefa da investigação sociológica tratar
para a correção dos costumes'') (Zoe. cit.) e na necessidade de um controle estas categorias, não como realidades absolutas, mas como realidades
estrito pelo professor ('' socialmente construídas que se realizam em contextos insitucionais
sentado no lugar mais elevado, estende seus olhos ao redor e não permite que particulares (Young, 1971: 3).
ninguém faça outra coisa senão ter seu olhar posto nele" (ibid.: 180).
Kant, o filósofo do espírito, tampouco foi insensível à tentação de Outra corrente a considerar, formada por trabalhos que podem ser
empregar disciplinarmente a escola. Se o domínio da animalidade, o agrupados mais por sua metodologia comum que por seus pressupostos
submetimento dos instintos, era a base da moralidade, bem que se podia teóricos ou suas conclusões, é a constituída pelos estudos do tipo
recorrer à disciplina antes e preferentemente que à razão. Adernais, a cultura antropológico e etnográfico. Por princípio, o antropólogo apresenta, em relação
podia ser adquirida em qualquer etapa da vida, mas a disciplina devia ser ao sociólogo típico, a vantagem de ser capaz de olhar com certa distância seu
assegurada na idade mais precoce ou não o seria nunca. Por conseguinte, não objeto de estudo como resultado do relativismo cultural que emerge da
êra questão de menosprezar as possibilidades das salas de aula: dispersão da atenção entre sociedades e civilizações de tipos muito diferentes.
O que consideramos natural ou inevitável quando nos foounos em um só tipo
Assim, por exemplo, enviam-se a princípio as crianças à escola, não já com de sociedade converte-se em arbitrário ou contingente ao observar que não
a intenção de que aprendam algo, mas com a de habituar-lhes a está presente em todas; quando menos, converte-se em algo que precisa ser
permanecer tranqüilos e a observar pontualmente o que se lhes ordena, explicado em vez de ser dado por suposto. Por isso mesmo, têm sido de
para que mais adiante não se deixem dominar por seus caprichos grande valor os estudos específicos do tipo antropológico e etnográfico, alguns
momentâneos (Kant, 1983: 30). deles associados à teoria do rotulamento (labeling theory) ou à psiquiatria,
realizados em torno de instituições e processos educacionais, embora não
Voltando a nossos dias, o chamado ''enfoque interpretativo'', produto de cheguem a constituir uma corrente no sentido forte do termo (por exemplo:
uma simbiose entre o interacionismo simbólico de Blumer (1982), o Becker, 1961; Hollingshead, 1949; Stinchcombe, 1964; Cicourel e Kitsuse,
comportamentalismo social de Mead (1.972), a sociologia "humanista" de 1963; Henry, 1971, 1972; Friedenberg, 1963; Leacock, 1971.).
Schutz 0974), a sociologia "fenomenológica" de Berger e Luckmann (1971) e De maior interesse teórico é outra corrente, esta sim no sentido forte, de
a etnometodologia de Garfinkel (1967), ao adotar como centro de interesse o desenvolvimento relativamente recente: os chamados estudos ''culturais'' e
mundo que se dá por certo (taken for granted world), isto é, os significados, outros assimiláveis, baseados na reação de R. Williams (1965, 1973, 1977) e E.
valores, práticas e relações sociais cotidianas que raramente ou nunca P. Thompson (1977, 1978) contra o determinismo estruturalista, e associados às
questionamos, também trouxeram uma bagagem cheia de observações e denominadas teorias da resistência. Como os interacionistas, este grupo de
interpretações que podem ser úteis em uma análise das relações sociais da autores centra sua atenção nos processos culturais pelos quais os sujeitos do
educação (para uma crítica deste enfoque, vejam-se Sarup, 1978, e Gleeson e processo educacional percebem, medeiam e transformam os significados e os
Erben, 1976). fms da instituição, mas enquadrando aqueles nos determinantes surgidos das

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subculturas de classe, gênero e raça nas quais estão inseridos seus A iinportância da experiência escolar
protagorústas (Willis, 1986; Corrigan, 1979; Ball, 1981; Everhart, 1983;
McRobbie, 1978; Jenkins, 1983). Centenas de milhões de crianças e jovens vão todos os dias à escola no
Um grupo muito diferente de autores- que aqui consideramos como de mundo. Acodem a elas cinco dias por semana, trinta ou mais semanas por ano
menor importância, mas que teve um enorme impacto entre os educadores e um número crescente de anos. A maioria da população infantil e juvenil
- é o constituído pelos "desescolarizadores" (lllich, 1974; Reimer, 1973; mundial está escolarizada de uma ou outra forma, e nos países industrializados,
Kozol, 1968; Holt, 1967a, 1967b; Goodman, 1973). AD focalizar as escolas capitalistas ou socialistas, e nos socialistas não industrializados, a proporção
como instituições burocráticas que suprimem a individualidade e a alcança praticamente a totalidade. Permanecem no recinto escolar cinco, seis
convivialidade, concederam especial atenção a seu funcionamento cotidiano ou mais horas diárias, mas a sombra da escola se estende para além disso,
e a seus pretensamente inamovíveis e indiscutíveis fundamentos e projetando-se diretamente sobre boa parte de suas horas não escolares
pressupostos, legando-nos uma crítica perceptiva de sua fenomenologia e, (mediante o estudo, as tarefas, as repetições) e indiretamente sobre seu tempo
com ela, valiosas contribuições para qualquer análise de suas funções de de ócio (atividades extraescolares em tempo extraescolar, jogos ''educativos'',
socialização. grupos de iguais com base em relações nascidas na escola, etc.).
Além disso, deve-se fazer referência aos numerosos trabalhos sobre o Nos países industrializados, o período mínimo de escolarização alcança
''currículo oculto'' da escola (vejam-se os de Vallance, 1973, 1980; Eisner legalmente os oito ou dez anos e, na prática, os doze ou quatorze para a maioria
e Vallance, 1974; Frey, 1972; Martin, 1976) não necessariamente associados e mais, mesmo para um setor minoritário, porém crescente. Nos não
a quaisquer das correntes aludidas. Entretanto, muitos destes trabalhos industrializados, o menos que podemos encontrar é um período obrigatório de
mantêm-se no terreno da análise da comunicação simbólica nas salas de quatro ou seis anos, embora, por outro lado, a escolarização não seja universal.
aula, sem dar o salto ao das relações sociais materiais, ou colocam num Entretanto, o padrão ocidental converteu-se, ao menos quantitativamente, no
mesmo saco todos os mecarúsmos não declarados e os efeitos não modelo que todas as nações aspiram imitar.
explicitamente buscados do processo de socialização na escola. O termo A freqüência à escola é obrigatória, legalmente compulsória. Nem sequer
"currículo oculto" existe a possibilidade de evitá-la mediante a certificação de se estar de posse
das capacidades, conhecimentos e habilidades que se supõe ela gera ou
( ... ) é um termo deliberadamente vago que se refere mais a um efeito transrrúte, o que bem poderia ser feito mediante um sistema de exames
posterior (o caráter oculto) que a um processo (o de ocultá-lo) ou a um públicos. A escola é uma espécie de instituição total de tempo parcial, cujos
conteúdo (o que é ocultado) quaisquer particulares. O fenômeno a que nos internos contam com tardes livres, fms de semana e férias anuais. Nenhuma
referimos como currículo oculto é um fenômeno onipresente. Parece ser outra instituição social, exceto os exércitos de serviço obrigatório - que não
(de acordo com os que escrevem sobre ele) um efeito generalizado da existem em todos os países nem afetam o gênero feminino - apresenta esta
escolarização, que tem lugar sem que o planejemos e, na realidade, sem característica de enquadramento obrigatório de toda a população. Outras
nosso conhecimento prévio; parece atuar de uma forma diferente, que tem instituições totais, das quais os internos não se podem livrar, tais como as
mais a ver com as atitudes, os preconceitos, as normas e os valores prisões e os manicôrrúos, afetam apenas a grupos proporcionalmente
sociais que, por exemplo, com os currículos de matemática ou de reduzidos - embora já se tornem bastante amplos - da população.
econorrúa doméstica per se. Embora estejamos começando a identificar - Além disso, a sociedade atribui-lhe uma importáncia que chega à
alguns dos efeitos do currículo oculto (em especial, por exemplo, os liv- identificação entre a condição de criança ou jovem e a c:le escolar. A primeira
ros-texto de história), o conceito é mais notável como uma referência aos coisa que perguntamos a uma criança, depois de seu nome, é o que está
efeitos gerais que produzem - atitudes sexistas ou racistas, por exemplo estudando ou como vão os estudos. Para as próprias crianças e para os jovens
(Vallance, 1980: 139-40). é difícil não adotar como imagem própria, ou como parte da mesma, a que lhes
devolve a escola. A escola apresenta-se perante eles, ou assim o proclama a
Por último, é preciso mencionar outra corrente ainda vigente: os trabalhos sociedade como a única coisa séria que existe nesse período de sua vida: o
influenciados em maior ou menor medida pela teoria da reprodução cultural de resto é o' brinquedo, o privado, o trivial. Como escreveu uma vez Fabricio
Bourdieu e Passeron (1970), em especial do primeiro. Entre eles, sobretudo, Caivano, a infância foi substituída pela ''alunância' '; a isto deve-se acrescentar
os dedicados ao estudo da formação profissional (Grignon, 1972; Tanguy, 1983, que, entre os adolescentes, já perdeu sentido a velha pergunta: ''Estudas ou
1985). trabalhas?''. Todos estudam ou se vêem obrigados a fmgir que o fazem.

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·r·
I
A escola é a primeira instituição à que se incorporam as. crianças,
descontando a familia, a que ocupa o período que medeia entre a exclusividade
I (. .. ) Ao trabalhar em um tarefa, um indivíduo desenvolve certas crenças,
vaiares e preferências específicas da tarefa em si que, com o tempo, são
desta e o trabalho e, de qualquer forma, a escolarização representa seu generalizadas a outras áreas da vida (. .. ) (Breer e Locke, 1965: 10).
primeiro contato com um instituição formal e/ou burocrática, com uma
organização. Por conseguinte, é nela onde crianças e jovens fazem a primeira Esta generalização será tanto mais fácil quanto mais se assemelhem entre
experiência do trato regular com estranhos, do trato com outras pessoas fora si os dois contextos, aquele em que são geradas as atitudes e aquele ao qual
dos laços de parentesco ou da comunidade imediata. são transplantadas. Deste ponto de .vista, a eficácia da socialização na escola
Sem chegar a ser uma instituição total, tem-se, ao menos, uma vontade para a incorporação ao trabalho DOderia ser vista como um exemplo do que
absorvente e panóptica. Crianças e jovens são mantidos constantemente em Breer e Locke denominam "generalização lateral", a transferência de atitudes,
interação com o professor e outros agentes da instituição ou sob sua vigilância. etc., que passa de um ''complexo de estímulos'' a outro. A influência da
A escola não apenas pretende modelar suas dimensões cognitivas, mas experiência escolar sobre as atitudes e os valores mais abstratos das pessoas,
também seu comportamento, seu caráter, sua relação com seu corpo, suas isto é, sua influência sobre seus valores e atitudes mais gerais no presente e
relações mútuas. Propõe-se a organizar seu cérebro, mas no mais amplo na vida adulta, constituiria um processo de "generalização vertical".
sentido: não apenas alimentar um recipiente, mas dar forma ao núcleo de sua Não importa como chamemos a esses "complexos de estímulos", de
pessoa. Este é o significado último do tão citado lema de Montaigne: não Breery e Locke: estrutura profunda da experiência escolar (Apple e King,
cabeças bem cheias, mas cabeças bem feitas. Cabeças sobre as quais não há 1983), ideologia prática (Sharp, 1980; Kickbusch e Everhart, 1985), currículo
que preocupar-se com o risco de que amanhã possam beber em outras fontes. não escrito (Dreeben, 1983), "ruído" que acompanha a comunicação (Henry,
Se a escola consegue este objetivo ou se aproxima dele não é através 1971), currículo oculto (Vallance, 1980) ou, como aqui se fará, e como o fizeram
da comunicação, mas por meio da organização sistemática da experiência, Bowles e Gintis, relações sociais da educação. Privilegiaremos este termo por
da vida prática, da infância e da juventude. Se o objetivo da educação fosse duas simples razões: a primeira, porque explícita que a experiência escolar é
somente comunicativo - extrair, transmitir ou inculcar informações, algo socialmente determinado; a segunda, porque o que aqui fazemos é aplicar
conhecimentos, idéias, etc. - a escola estaria na iminência de ser varrida à escola o mesmo tipo de dissecção que levou Marx a desvelar as relações
da face da terra, ou já o teria sido, pelos meios de comunicação de massas, sociais de produção como algo histórico e contingente, não como a panacéia da
que são incomparavelmente mais eficazes no que respeita a esse fim, mais natureza e da racionalidade.
atrativos e baratos. Mas a desvantagem insuperável, nesse terreno, do meio
de comunicação é que, exceto na fábula de Orwell, sempre pode ser
desconectado.
Professores e pais costumam prestar pouca atenção àquilo que não seja
o conteúdo do ensino, isto é, da comunicação, e o mesmo faz a maioria dos
estudioso.s da educação. Entretanto, apenas uma pequena parte do tempo
dos professores e alunos nas escolas é dedicada à transmissão ou aquisição
de conhecimentos. O resto, a maior parte, é empregado em forçar ou evitar
rotinas, em impor ou escapar ao controle, em manter ou romper a ordem.
A experiência da escolaridade é algo muito mais amplo, profundo e complexo
que o processo da instrução; algo que cala em crianças e jovens muito mais
fundo e produz efeitos muito mais duradouros que alguns dados, cifras,
regras e máximas que, na maioria dos casos, logo esquecerão.
As atitudes, disposições, etc., desenvolvidos no contexto escolar serão
logo transferidas a outros contextos institucionais e sociais, de forma que
sua instrumentalidade transcende sua relação manifesta ou latente com os
objetivos declarados da escola ou com seus imperativos de funcionamento.
Podemos considerar isto como uma aplicação do chamado ''princípio de
similaridade'':

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6

AS RELAÇÕES SOCIAIS
DA EDUCAÇÃO, 1:
A DOMESTICAÇÃO DO TRABALHO

Em continuação examinaremos as relações soc1a1s imperantes na


educação e seu isomorfismo com as relações sociais de produção capitalistas.
Ao tratar algumas destas últimas, torna-se difícil distinguir se correspondem
propriamente à economia e à organização da produção capitalista ou,
simplesmente, a toda forma de trabalho industrial ou mesmo coletivo. A
autoridade e a hierarquia, por exemplo, não são exclusivas das empresas
capitalistas, elas podem ser encontradas também na economia familiar de
subsistência, na fazenda escravista, na oficina medieval ou na empresa
"socialista real". Isto se deve somente ao emprego de termos tão genéricos
quanto os citados. A autoridade do cabeça de família na unidade econômica
auto-suficiente não é a mesma que a do empresário sobre seus trabalhadores:
a primeira é paternalista, a segunda burocrática. Diferenças como estas
marcam a necessidade de processos de socialização distintos. A socialização
famili3r podia ser adequada e suficiente para preparar o camponês para a
aceitr..ção das relações de dependência pessoal e de serviços mútuos com o
senhor feudal, mas não o seria para a inserção na organização impessoal e
regulamentada da empresa moderna. É aí, justamente, onde intervém a
escola.
Mas o problema mais complexo que se apresenta a este respeito é outro,
a saber: quantas e quais das relações sociais que atribuúnos ao capitalismo não
são meramente o efeito da industrialização, adote esta uma forma capitalista,

A Face Oculta da Escola 161


socialista ou qualquer outra quese poda imaginar. Discutiu-se amplamente, competividade em um mercado mundial único, tal como ocorre no setor
por exemplo, se a divisão do trabalho acompanha necessari~mente o público das econorillas capitalistas no contexto de mercados nacionais
desenvolvimento de qualquer sociedade ou só pode analisada especificamente únicos.
para cada uma de suas formas. Durkheim representaria a p:UUeira ~~nte; As conclusões que aqui extraímos sobre a conexão entre as relações
Marx, a segunda. Uma vez mais, parte do problema deve-se a abrangenc1a do sociais da educação e as relações sociais de produção capitalistas apenas de
termo, que se aplica indistintamente à segregação das tarefas entre os gê~~ros forma limitada são generalizáveis às relações sociais de produção sobre outras
na economia primitiva de subsistência e na linha de montagem. Marx cnbcou formas de industrialização não capitalistas. Confiamos em que, dentro do
a visão da divisão do trabalho como mero desenvolvimento da especialização e processo de democratização e ampliação da liberdade de consciência e de
da complementariedade e distinguiu claramente entre a divisão social e a expressão que começa a ter lugar nos países do Leste, não tardarão a aparecer
divisão rnanufatureira do trabalho. A primeira, que separa entre si unidades de investigações sobre a relação entre sua escola e seu sistema social.
produção independentes: campo e cidade, agricultura e indústria, setores e
ramos da produção, oficinas, empresas, está presente em toda a história não
primitiva da sociedade, embora passe por diferentes etapas. A segunda, que Ordem, autoridade e submissão
decompõe o interior de um processo produtivo em tarefas distintas atribuídas
a diferentes pessoas, corresponderia exclusivamente à sociedade capitalista. Uma das características importantes, se não a mais, que as escolas têm
Hoje em dia, entretanto, vimo-la desenvolver-se de forma similar nas em comum é a obsessão pela manutenção da ordem. Basta recordarmos nossa
sociedades chamadas socialistas. Pode-se pensar, então, que se deve em própria experiência como aluno ou professor, ou visitar urna sala de aula, para
l(
realidade ao simples processo de industrialização e não a sua forma social e
econômica capitalista.
evocar ou presenciar um rosário de ordens individuais e coletivas para não
fazer ruído, não falar, prestar atenção, não movimentar-se de um lugar para
·~ Em que medida pode afetar nossa análise? Em nenhuma. O modo de outro.
produção capitalista tem sido a forma específica da industrialização no
Ocidente. As relações sociais que implica dependem, na verdade, do fato de Fiquem quietos! Calem-se! Estas são as grandes palavras de ordem
ser um capitalismo industrial, isto é, tanto de ser industrial quanto de ser da escola (Holt, 1977: 26).
capitalista. A história poderia ter ido por outros caminhos, mas o fez por estes.
O fato de que a industrialização tivesse tornado uma forma capitalista não teve A ordem pode ser defendida por razões técnicas, tal coa1o a
como única conseqüência a adição de um qualificativo, mas além disso reforçou impossibilidade de que a voz do professor chegue a todos se alguns falam ou
algumas possibilidades e suprimiu outras. Ao desenvolver-se com base na o fazem em voz alta. A maioria dos professores, para não dizer a totalidade,
propriedade privada do capital, colocou todo o poder nas mãos de seus pensam que é a condição imprescindível de uma instrução eficaz. Diante de
proprietários e nenhum nas dos trabalhadores, permitindo àqueles reorganizar qualquer turma de alunos é uma obsessão permanente, e diante de alguns, os
um processo de produção e de trabalho que afeta fundamentalmente a estes. ''grupos difíceis'', pode chegar a converter-se no único objetivo. Muitos
De forma análoga, a industrialização permitiu ao capitalismo desenvolver sua professores têm a primeira notícia disso quando, ao incorporar-se a uma
lógica a um ponto que nunca teria sido possível sob suas formas comercial ou escola, o diretor adverte-os de que não importa tanto o que ensinem a seus
fmanceira. alunos quanto que saibam mantê-los em ordem. Com raras exceções, os
Que o capitalismo comercial não trouxe consigo as mesmas modificações demais acabam por aprender a mesma coisa pelo caminho.
nas relações de produção é algo sobre o qual qualquer um estaria de acordo.
Pois bem, da mesma forma pode-se afirmar que a industrialização não (... ) Deve-se manter a ordem e impor a disciplina, mantendo, ao
capitalista tampouco o fez, tal como argumentamos em um capítulo anterior. As mesmo tempo, um estado aceitável de justiça distributiva. A capacidade de
teorias da modernização, que interpretam as características comuns ao controlar a classe é o sine qua non da permanência no grupo, pois, sem
socialismo real e ao capitalismo como procedentes da industrialização e as ela, não pode ter lugar lugar instrução alguma (Lortie, 1961: ll-2; veja-se
diferentes como mostra de urna modernização insuficiente do primeiro, também Eddy, 1967).
permanecem tão indemonstradas quanto a hipótese inversa: que as
características comuns à economia dos países capitalistas e à dos países do O que confere sua dimensão característica ao problema da ordem nas
Leste se devem à influência dos primeiros sobre os segundos dada sua maior escolas é que não se trata de instituições voluntárias. Manter a ordem na sala

162 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 163


de aula é notavelmente mais difícil que fazê-lo em uma sala ~e :onferências o~ debilitá-la. As grandes manifestações de autoridade apresentam sempre, para
em um cinema, porque nestes a assistência e a permanen:=ta o~decem a quem a exerce, o risco de provocar grandes resistências; mas as pequenas
vontade e naquela não. O problema da ordem, quando nao é livr~mente fazem com que o risco de resisti-las não valha a pena para quem as sofre.
desejada ou consentida, converte-se de imediato no problema da autondade e Comentando pequenas restrições .e imposições sobre a roupa, as atividades
desportivas, etc., Edgar Z. Friedenberg escrevia a propósito das escolas
da submissão à mesma. . . secundárias norte-americanas:
Muitos professores não vêem nisso um problema, pms cons1deram que
aceitar a autoridade é parte da transição à vida adulta, que é necessário para
uma presença não conflitiva e uma atividade :ficaz em conte~tos adultos. É certo que se trata de pequenas restrições, impostas por meio de
Outros, em troca, não podem deixar de ver a s1 mesmos envolVIdos em uma pequenas sanções. As escolas secundárias americanas não são campos de
contradição ou em uma situação esquizofrênica ou, q_uando . meno_s, concentração; e eu não me queixo de sua severidade, mas do que ensinam
ambivalente, atormentados entre o discurso liberal da pedagog~a e a dlffiensao a seus estudantes no que concerne à relação adequada do indivíduo com
autoritária da prática escolar. Os pais e o público em ge_ral tambéi? .:onc:d:m a sociedade. O fato de que as restrições e as penalidades sejam pequenas
grande importância à disciplina: ano após ano, as pesqmsa~ de op~o publica e não importantes em si mesmas é uma forma de piorar as coisas. As
realizadas pelos Institutos Harris e Gallup nos Estados Urudos a s1t~am como grandes intromissões são mais facilmente reconhecidas como tais; as
primeiro problema em importância, ao menos no que concerne as escolas pequenas restrições são resistidas apenas pelos mais "revoltosos"
0
(Friedenberg, 1963: 46-7).
secundárias. .
Os alunos vêem-se assim inseridos dentro de relações de autondade e
hierarquia, tal como deverão fazê-lo quando se incorporar:e~ a~ trabalho. Em Subsidiário, mas não carente de importância, é o efeito que a submissão
parte, esta autoridade baseia-se diretamente em sua cond1çao_ nao adulta, mas permanente à autoridade produz sobre a imagem de si mesmo e a auto-estima
faz sobretudo na legitimidade concedida à escola pela soc1edade, em suas dos alunos. O exercício constante da autoridade sobre eles é uma forma de
0
exigências como organização e numa suposta ne_ces:idade p_ed~gógica. A fazer-lhes saber e recordar-lhes que não podem tomar decisões por si
submissão à autoridade aprendida no seio da família nao constitUI uma base mesmos, que não se pode depositar confiança neles, que devem estar sob
preparatória suficiente para a aceitação da autoridade no local de trabalho. tutela.
Como escreveu Richard Sennet:
Longe de ajudar os estudantes a se desenvolverem como indivíduos
O que sabe uma criança acerca da proteção de seu pai não é o mesn:o maduros, auto-suficientes e automotivados, as escolas parecem fazer tudo
que 0 que aprenderá um adulto jovem acerca de um chefe. O trabalho nao para manter os jovens em um estado de dependência crônica, quase
é uma extensão natural da família. ( ... ) Na melhor das hipóteses, quando infantil. A onipresente atmosfera de desconfiança, juntamente com as
cada ser humano sai da família em que nasceu, esse ser humano vê essas regras que abrangem os aspectos mais ÚÚ!ffios da existência, ensina todos
relações refletidas no trabalho ou na política como em um espelho os dias aos estudantes que eles não são gente de valor nem, naturalmente,
deformante (Sennett, 1980: 59). indivíduos capazes de regular sua própria conduta (Silberman, 1971.: 134).

O que Locke dizia a respeito da posição do chefe político, uma vez .Um feito que se ajusta às mil maravilhas com o que já reivindicavam
separada a família do Estado, pode ser estendido ao _chefe econ~mic?, uma vez fortemente os patrões na primeira metade do século XIX:
dissociada a farru1ia da produção. Nenhum dos do1s pode ma1s diZer, como
Nicolau li: "Não discutais comigo! Sabeis que sou vosso pai e basta!". Mas se O homem que, de qualquer lugar que venha, queira converter-se em
a autoridade da escola já não é a autmidade indiscutida do pai, tampouco é a um bom operário, deve começar por desfazer-se da idéia exagerada de seu
autoridade parcial e limitada do Estado liberal. É, como a autoridade no próprio mérito (Charlot e Figeat, 1985: 90).
trabalho, uma autoridade com tendência a ser total durante o período de tempo
em que o indivíduo está incorporado à instituição e dentro do espaço Que a autoridade e a disciplina escolares são mais parte da relação
delimitado por seus confms. educacional em si mesma que da relação entre gerações que se lhe superpõe
Fora da freqüência compulsória carece de grandes manifestações. Seu é algo que fica claro no grau diferente de legitimidade concedido às ordens do
âmbito limita-se a pequenas coisas, mas isto assegura sua força antes de professor e às do bedel, em geral mais adulto ainda mas raramente obedecido

Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 165


164
salvo na medida em que consiga o apoio da autoridade do outro. Entretanto, a Burocracia e impessoalidade
autoridade da escola, que é parte da relação social da educação, não se
enquadra no campo mais restritivo da instrução, como o demonstra, em A autoridade, ao menos tal como a tratamos na seção anterior, é apenas
sentido oposto ao da comparação anterior, o papel do administrador - que não uma dimensão pessoal da organização. Uma das características que separam o
tem por que ser um professor nem, de qualquer forma, por que exercê-lo mundo do trabalho, ao qual a escola serve, da família, no que tange a seu
como tal - nas escolas norte-americanas, nas quais atua como diretor e público, é a que opõe as relações pessoais e íntimas desta às relações
representante dos objetivos educacionais da comunidade. impessoais, formais e burocráticas daquele. A aprendizagem destas novas
Por outro lado, não se deve pensar que as pautas de autoridade e disciplina relações tem lugar na escola, como se encarrega de recordar Talcott Parsons
presentes na escola são, simplesmente, as necessárias em qualquer tipo de ao enumerar as duas primeiras entre as quatro funções por ele atribuídas à
organização. Se imaginamos que não há nenhuma outra forma de aprender classe escolar:
senão escutar ou realizar as atividades coletivas indicadas por um professor -
como se depreende, por exemplo, da citação anterior de Lortie -, então nos (... ) 1) Uma emancipação da criança com relação à sua relação
veremos insensivelmente levados a aceitar a necessidade da ordem, do primária elementar com a família; 2) uma interiorização de normas e de
silêncio, da imobilidade, da simultaneidade, dos horários coletivos, etc., coisas valores sociais que se situam acima dos que pode aprender unicamente
todas elas que são obtidas nas escolas através do exercício ou da invocação da por meio de sua família (Parsons, 1976: 76).
autoridade. Entretanto, a presente organização da educação não é a única
forma de organização possível, mas apenas, como tratamos de demonstrar em Que tem a escola, no que concerne a normas e valores, que não pode ter
um capítulo anterior, a forma que historicamente lhe foi dada, uma entre as a família? Quê, nela, crianças e jovens são agrupados de acordo com umas
muitas possíveis. poucas características e tratados de forma teoricamente uniforme sem a
interferência de considerações individuais nem, muito menos, afetivas. As
A ordem e a autoridade nas salas de aula, como opostos à livre relações afetivas e duradouras da farru1ia têm sua contraparte na escola em um
criatividade - e não, como às vezes se pensa, à violência, aos distúrbios grande número de relações transitórias e impessoais. Como se escreveu em
ou ao simples ócio - são o derivado necessário do ensino simultâneo, sobre múltiplas ocasiões, estar na escola é estar em multidão, ser tratado como parte
cuja história já dissemos também algo anteriormente. Elimine-se esta forma de um coletivo Gackson, 1968: 10; Silberman, 1971: 121; Pellegrin, 1976: 354).
de ensino e tornar-se-á automaticamente prescindível o manejo dos alunos O trabalho do professor consiste principalmente em lidar com essa multidão:
ao estilo de um pelotão militar. Não é necessário na autodidaxia, nem na
aprendizagem no local de trabalho, nem quando se concebe o professor como (... ) a educação e o desenvolvimento de um grupo de crianças são
um monitor especializado de crianças ou jovens que aprendem por si propriamente um trabalho de direção e gestão (management), não um
mesmos. Não é preciso forçar a ordem, ela não se converte em um problema trabalho de comunicação, nem sequer um trabalho acadêmico (Handy e
organizativo, quando a aprendizagem é voluntária do princípio ao fim. Mas Aitken, 1986: 42).
tudo isto está hoje reservado a processos educacionais localizados fora das
escolas. A relação pessoal com o pai, a mãe ou outros adultos da farru1ia é substituída na
escola pela relação com o professor, mas uma relação na qual o aluno é considerado
Pois bem, o ensino simultâneo está para a autodidaxia como o trabalho apenas enquantl) parte de um grupo, coletivo ou categoria. Como escrevia um
assalariado está para a produção de subsistência ou para o trabalho autônomo, crítico das escolas secundárias na segunda metade do século passado:
I
I
'
i:, e está para a livre aprendizagem comum como uma empresa capitalista está
I
para uma cooperativa ou para uma empresa autogestionada. Se o método (... ) é o que se deve esperar inevitavelmente da escolarização em massa.
i :i simultâneo ·converteu-se no método dominante foi precisamente porque Para manejar com êxito uma centena de crianças, ou mesmo a metade
I deste número, o professor deve reduzi-las tanto quanto seja possível a
I
representava na escola o que as novas relações de produção capitalistas
representavam no trabalho, porque era sua réplica escolar e, em conseqüência, uma unidade (citado por Tyack, 1974: 54).
i' a melhor forma de preparar a infância e a juventude para sua aceitação. Uma
das características fundamentais da educação na escola é sua dimensão Mas o que compromete a impessoalidade e o tratamento como parte de
onipresente de educação para a docilidade (Henry, 1955). um coletivo não é o número em si, mas uma organização socialmente

166 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 167


determinada das escolas e da educação. Os hospitais relacionam-se com um grupos homogêneos que se constituem em categorias definidoras de acordo
número de pessoas tão elevado ou mais que o das escolas, mas nem por isso com as quais são tratados e se espera que ajam.
as submetem a um tratamento uniforme nem as reduzem a unidades "Especificidade" significa que aceita ser tratado assim,
componentes de coletivos internamente homogêneos - embora não lhes falte independentemente de todas suas outras circunstãncias ou características
gerais. Uma vez que é aluno, deverá apresentar-se todos os dias às oito ou às
alguma tendência a isso.
O trabalho do professor passa assim a consistir, sobretudo, e nove da manhã sem que importe que, talvez, como indivíduo, lhe seja muito
contrariamente a qualquer idéia platônica a respeito, em ensinar crianças e mais difícil que aos demais levantar-se à hora correspondente; terá de recitar
jovens a comportar-se da forma que corresponde ao coletivo ou categoria em a lição diante de seus colegas embora lhe seja especialmente embaraçoso, terá
que foram incluídos, exigindo e premiando a conduta correspondente e que estudar a literatura clássica embora suas preferências se inclinem para o
rejeitando e mesmo penalizando tudo o que possa derivar de suas outras romance policial, etc.
características como indivíduos ou, ao menos, tudo o que delas possa Tudo isso porque, quando deixar de ser Pedrinho para ser Pedro, um
manifestar-se na escola ou chegar a afetar a relação pedagógica. trabalhador adulto, terá que estar preparado para ser tratado como assalariado,
No jargão funcionalista, isto significa a aprendizagem do universalismo e da como votante, como usuário dos transportes públicos, etc., antes que como
especificidade, que juntamente com a independência e a realização seriam os Pedro, fora das relações familiares e de amizade. Se se converte em garçon,
objetivos da escola: será tratado como tal embora seja um grande conhecedor da filosofia alemã ou
guarde em casa um título de engenheiro; se ingressa no cárcere, será tratado
Ao falar destas quatro idéias como normas, refiro-me ao fato de que como recluso embora possua uma alma sensível; se sobe no ônibus, terá que
os indivíduos as aceitam como critérios legítimos para governar sua pagar o preço da passagem embora por isso já não possa comprar pão.
própria conduta nas situações apropriadas. Concretamente, (... ) Aprender a ser tratado com critérios "universalistas" e "específicos" é
!' reconhecer o direito dos demais a tratá-los como membros de categorias também aprender a tratar os demais com esses mesmos critérios. O professor
[universalismo] com base em algumas poucas características discretas é o professor, não o pai de alguém; sua autoridade deve ser respeitada, mesmo
i,, antes que com base na inteira constelação delas que representa a pessoa que suas decisões não sejam as mais acertadas. Porque, na vida adulta, o chefe
• de Pedro será o chefe, embora seja um cretino, e se é garçon só servirá algo
completa [especificidade] (Dreeben, 1968: 63-4).
í a quem possa pagá-lo e o pague, sem fazer descontos aos amigos nem praticar
!.
Os cifrados termos do funcionalismo merecem uma explicação. a caridade com os que têm sede mas não dinheiro.

I,, "Universalismo" quer dizer que o jovem Pedrinho aceita ser tratado como
aluno, o que implica exigir dele todas as ações e omissões que se esperam
A troca de professores de um ano para outro e, a partir de uma certa
altura, de uma matéria ou atividade para outra propicia a despersonalização do
!t de um aluno. De forma mais geral, deverá aceitar ser tratado como exercendo papel ou, o que é a mesma coisa, sua universalização; algo que não era possível
f
I. um papel mais ou menos preciso: aluno, aluno de terceira série, aluno de no seio das relações familiares, onde os papéis estavam indissoluvelmente
geografia de terceira série, aluno repetente de geografia de terceira série, associados às pessoas que os desempenhavam. Simetricamente, o aluno
!
experimenta o tratamento que lhe dá o professor como o correspondente à sua
I etc.
Esta aprendizagem é propiciada através da desconsideração na escola das qualidade como tal, não à sua particular pessoa e a suas especiais
características adscritas que fazem de cada componente um indivíduo único na características.
família. Nesta dificilmente se podem encontrar pessoas do mesmo gênero e
I idade, de forma que as específicas combinações destas duas características
configuram identidades únicas em tomo das quais giram as atitudes e A alienação com relação aos fins do trabalho
expectativas dos demais com relação àqueles aos quais correspondem: o bebê,
a menina pequena, o adolescente homem, a mãe adulta, o avô ancião, etc. Na Marx caracterizou acertadamente o trabalho na sociedade capitalista, em
escola, em troca, tais características, ou são ostensivamente - ou comparação com o trabalho em geral, como trabalho alienado. Para ele, esta
pretensamente - ignorados, como ocorre com o gênero, ou desaparecem alienação residia, basicamente, na relação entre o trabalhador e o produto, o
como diferenciadores dentro dos coletivos para limitar-se a diferenciar os processo e os meios de seu trabalho (Marx, 1977: 105 e ss.). A alienção com
coletivos entre si, como ocorre com a idade - e, nas escolas mistas, tam- relação ao produto do trabalho tem um duplo sentido: em primeiro lugar, este
bém com o gênero. Assim, os alunos vêem-se designados e confinados a produto não pertence ao trabalhador mas a uma pessoa alheia, ao capitalista

Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 169


168
que comprou sua força de trabalho, sua capacidade de produzir durante um ''Tuas experiências, tuas preocupações, curiosidades, necessidades, o
tempo determinado; em segundo lugar, o trabalhador jã não determina qual que sabes, desejas, perguntas, esperas, temes, gostas ou desgostas, para
será o produto de seu trabalho, mas este é decidido pelo capitalista ou seu o que serves e para o que não, tudo isto não tem a mínima importância,
representante. O primeiro aspecto afeta a propriedade dos resultados do não conta para nada. O que importa aqui, o único que importa, é o que nós
trabalho; o segundo, a determinação de seus fins e objetivos. Isto distingue o sabemos, o que consideramos importante, o que queremos que faças,
trabalhador assalariado das figuras antes dominantes do artesão ou do penses e sejas (Holt, 1977: 24).
camponês medievais. O primeiro era inteiramente proprietário de seu trabalho
e determinava livremente o produto do mesmo - dentro das limitações impo Certamente fica difícil imaginar situações nas quais alguém possa fazer
stas pelo mercado e pela organização corporativa - e o segundo o fazia, ao única e exclusivamente o que queira e tudo o que queira, mas o poder da
menos, parcialmente- a outra parte era o produto ou o trabalho que tinha que escola vai além da mera restrição. Assim como a autoridade no seio da familia
entregar ao senhor. é fundamentalmente restritiva, a autoridade escolar é essencialmente
O primeiro aspecto da alienação com relação ao produto, o fato de ser prescritiva, o que representa urna diferença de qualidade e de grau. Vem à
propriedade de outro, não vem ao caso tratar com relação à escola. O resultado mente, com facilidade, o paralelismo com a diferença entre o trabalho
do trabalho do aluno, seja o conhecimento ou seu certificado, pertence-lhe sem autônomo e o trabalho para os outros. O mercado impõe restrições ao
discussão. produtor independente na hora de decidir o objeto de seu trabalho, assim como
O segundo aspecto, a determinação dos fms por uma vontade alheia, as limitações dos instrumentos e do saber fazer as impõem ao trabalhador
reproduz-se inteiramente na escola. Assim como o trabalhador assalariado primitivo em urna economia de subsistência, mas nem um nem outro
carece de toda capacidade de decidir o que produzir, a criança e o jovem encontram nada nem ninguém que lhes dite o que devem fazer, mas urna gama
escolarizados carecem da capacidade de decidir o que aprender. O produto de de opções possíveis que minimizam as restrições. O que trabalha para outro,
seu trabalho ou, se se prefere, o conteúdo do ensino e da aprendizagem, é ao contrário, não encontra diante de si restrições, mas prescrições: não é
determinado por outro. Pouco importa se este outro é o professor ou se necessário dizer-lhe o que não pode fazer porque já lhe foi dito o que tem que
também este, por sua vez, encontra-se submetido- como é o caso- a uma fazer. Na escola, como na produção capitalista, minha liberdade não começa,
ou várias vontades alheias - as autoridades das unidades administrativas como reza o ditado, onde termina a liberdade dos demais, mas onde termina
educacionais, as autoridades políticas, os fabricantes de livros-texto e outros seu poder, o que neste caso quer dizer fora da instituição.
materiais escolares. No esotérico jargão dos pais da teoria da reprodução A eficácia na imposição desta relação social do aluno com o conteúdo de
cultural: seu trabalho não precisa esperar a vida de trabalho para se fazer evidente. A
maioria das crianças e jovens aprende logo a não perguntar por que tem que
Toda ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica
enquanto imposição, por um poder arbitrário, de uma arbitrariedade I aprender isto ou aquilo. Logo aceitam que, a esse respeito como a outros,
estão submetidos a uma vontade alheia.
cultural (Bourdieu e Passeron, 1977: 45).

Isto é, toda ação pedagógica implica a seleção de um conjunto de saberes I Por que lhe fizeram aprender isto e não aquilo, ou por que isto antes
que aquilo, é outro mistério para ele; tampouco precisa saber quais
como dignos de serem transmitidos e aprendidos e, como corolário, a
eliminação de outros como indignos de tal procedimento. O que Bourdieu e
Passeron não demonstram de forma convincente é que essa seja uma
I poderiam ser as opções alternativas. Uma vez que pouco do que lhe
fizeram aprender tem muito sentido para ele, exceto talvez ler, escrever e
fazer contas, raramente pergunta por que lhe fizeram aprendê-lo. Também
característica de toda ação pedagógica (por exemplo, onde está a seleção sente que se lhe ensinará seja lá o que for que a professora decidiu .
arbitrária, ou a arbitrariedade cultural, quando o camponês ensina seu filho a ensinar, logo a questão é inútil (White, 1968, citado por Silberman, 1971:
lavrar a terra em uma economia de subsistência?), mas não há dificuldade em 147).
considerar válida sua afirmação no que conceme à escola atual.
A indiferença ou a resignação diante do conteúdo do propno trabalho,
Na escola escuta-se toda serie de belas coisas sobre o respeito para escolar primeiro e assalariado depois, equivale a deixar as mãos livres àqueles
com a criança, as diferenças individuais e coisas parecidas. Mas nossas que contam com o poder de organizá-lo, o professor na escola e o patrão ou
'
1: ações, em contraposição a nossas palavras, parecem dizer à criança: o chefe na empresa, ou a renunciar a resistir a seus ditados. Por isso God-

170 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 171


win pôde dizer, faz já séculos, que a educação preparava os homens para de poder, por parte do trabalhador, para determinar o procedimento pelo qual
aceitar formas despóticas de governo. obterá os objetivos fixados para seu trabalho. Representa a perda do controle
O chamado ensino individualizado não traz nenhuma diferença. A ''indivi- sobre a própria atividade durante o tempo de trabalho.
dualização" raramente afeta os fins. Consiste normalmente em urna adaptação ou A criança e o jovem escolarizados são preparados para aceitar esta
dosificação dos meios para chegar ao mesmo objetivo ou, como afirma Oettinger, condição através de sua incorporação a uma experiência similar na escola.
em que cada ''cada aluno é livre para ir mais• ou menos rapidamente aonde lhe foi Além de não poder determinar o objeto de seu trabalho escolar - o conteúdo
dito para ir" (citado por Silberrnan, 1971: 137). Mas, mesmo que esta do ensino -, o aluno carece também de capacidade de decisão sobre seu
individualização implique mudanças reais na posição do aluno em relação ao processo de trabalho - a aprendizagem, a pedagogia, os métodos.
conteúdo de seu trabalho, o acesso a tal possibilidade é socialmente diferenciado.
Uma biblioteca em que se tenha múltiplas opções custa mais dinheiro que um Encontramo-nos, pois, com este discípulo curioso, paciente,
livro-texto obrigatório, uma sala que permita diferentes tipos de atividade é mais resolvido, enérgico e hábil. Fazemo-lo sentar em um banco escolar e o que
cara que uma sala com bancos alinhados e um quadro-negro, e assim é que llie ensinamos? Muitas coisas. Em primeiro lugar, que a
sucessivamente. Desta forma, a possibilidade de uma criança ver-se incorporada aprendizagem é algo à margem da vida: ''Vocêm vêm à escola para
a um processo de ensino que implique outra relação com o conhecimento está em aprender", dizemo-lhes, como se as crianças não tivessem aprendido
proporção a seus rendimentos familiares, entre outros fatores associados à antes, como se a vida tivesse ficado fora e a aprendizagem dentro, e não
origem social. Em conseqüência, urna educação mais livre é mais provável para houvesse nenhuma relação entre as duas. Em segundo lugar, que não se
quem também tenha mais probabilidades de chegar a um destino social mais deve confiar em que aprenderão e que não servem para isso. Tudo o que
elevado e reforça cumulativamente estas. E um destino social ''mais elevado'' fazemos para ensiná-los a ler - tarefa muito mais simples do que as que
significa, entre outras coisas, uma posição distinta na divisão vertical do trabalho, a criança já domina- parece indicar-lhe: "Se não te ensinamos a ler, não
isto é, maiores possibilidades de ter capacidade decisória sobre o objeto e o o farás, e se não o fazes tal como dizemos, não poderás''. Em resumo,
processo deste. chega a pensar que a aprendizagem é um processo passivo, algo que fazem
A possibilidade de aceder a níveis superiores, de escolher uma formação a ti, em vez de algo que fazes por ti mesmo (Holt, 1977: 23).
acadêmica ou profissional, entre ramos universitários ou profissionais ou entre
matérias optativas tampouco muda muito o panorama global. Para começar, esta Em outras palavras, o que se lhes diz e impõe é que não há outra
escolha tem, com freqüência, muito de orientação forçada ou de opção tão-so- aprendizagem que a regulada pelo professor. Invertendo os termos, a
mente entre as possibilidades que não foram previamente excluídas. E sobretudo aprendizagem explica-se pela escola e não o contrário. O aprendido antes ou à
porque uma vez feita a escollia esgota-se toda capacidade de decisão. Pode-se parte não vale porque o foi fora dos muros da escola; ao contrário, tudo o que
escolher, se isto for permitido, entre seguir estudos superiores ou não, cursar se passa dentro desta é automaticamente considerado aprendizagem, embora
Direito ou Ciências Econômicas, aprender francês ou inglês, mas feita essa com freqüência consista na mais miserável perda de tempo. De novo, de acordo
escolha, topa-se de novo com uma vontade alheia que é a que decide qual inglês, com Bourdieu e Passeron, a (para eles toda) ação pedagógica é uma forma de
qual francês, quais leis, qual economia e assim sucessivamente. violência simbólica também no sentido de que impõe e inculca um arbitrário
Entretanto, o mais notável a este respeito é que tais mudanças, atingem os que cultural ''segundo um modelo arbitrário de imposição e de inculcação'' (1977:
permanecem mais tempo no sistema escolar, avançando através de seus sucessi- 46),
vos níveis, afetando apenas, portanto, aqueles que no mundo do trabalho vão ocu- É o professor, livremente ou sob restrições, quem decide se a
par posições intermediárias ou superiores, de forma que se produz uma socializa- aprendizagem será baseada na memória ou ''ativa'', se as borboletas serão
ção diferencial de acordo com o diferente destino social. Esta socialização diferen- estudadas ao vivo ou na página 53 do livro artificial de ciências naturais, se os
cial superpõe-se, ademais, à hierarquia e à estratificação dos conhecimentos
I ahmos podem cooperar na realização de seu trabalho ou devem competir
transmitidos, hierarquia na qual apenas alguns fazem todo o percurso.

A alienação com relação ao processo de trabalho


I
I'
ferozmente entre si, se o importante é saber localizar uma banana na
classificação dos vegetais ou conhecer suas qualidades nutritivas, etc.
Dados o horário, o calendário e os períodos obrigatório e habitual de

A alienação com relação ao próprio processo de traballio, outra das


características do modo de produção capitalista industrial, radica na carência
II escolarização, esta perda do controle sobre o próprio processo de aprendi-
zagem implica mais ou menos, durante o período de anos que se permanece
na escola, colocar a metade da própria vida consciente à disposição de um

172 Mariano Fernández Enguita


l
!
A Face Oculta da Escola 173

l
poder alheio, o do professor e da organização que atua por seu intermédio. O objetivo da escola é a imposição de tarefas; se o aluno gostar, muito
Durante este tempo não contam os interesses subjetivos nem a vontad·e do bem; se não, a obrigação é a mesma (citado por Tyack,-1974: 40).
aluno, mas tão-somente os supostos interesses da sociedade, cujo
representante legítimo a esse respeito é a instituição escolar, e a vontade do O objetivo, em realidade, é dispor do tempo e da capacidade efetiva dos
professor. alunos, em lugar de permitir que o façam eles mesmos. Se a ordem é a
primeira obsessão das escolas, a segunda é manter os alunos ocupados, o que
Outra visão da autoridade do professor pode centrar-se no processo se traduz na angústia do professor por organizar constantemente atividades.
de substituição pelo qual seus planos de ação substituem os próprios do Esta obsessão por manter os jovens e sobretudo as crianças fazendo algo
estudante. Quando os estudantes fazem o que o professor lhes diz para transpassa a jornada escolar, tantos nas escolas mais tradicionais quanto nas
fazer, estão, na realidade, abandonando uma série de planos (os seus) em mais progressistas (Conant, 1971.; Sharp e Green, 1975). O motivo reside, em
favor de outra (os do professor). Às vezes, é claro, estas duas séries de boa parte, no fato de que a atividade constante se apresenta como um antídoto
planos não entram em conflito e podem ser mesmo bastante semelhantes. contra a perda de tempo e como uma forma de evitar o surgimento de
Mas, outras vezes, aquilo a que se renuncia não se parece de forma problemas de ordem na sala de aula (Pellegrin, 1.976: 355), mas o resultado é
alguma à ação exigida pelo professor. ( ... ) O ponto essencial é que os o de antecipar com isso a jornada de trabalho sem poros.
estudantes devem aprender a colocar suas capacidades executivas a A disposição do tempo e da atividade dos alunos pelo professor manifesta-se
serviço dos desejos do professor mais que a serviço de seus próprios no controle deste sobre o horário. Sua conseqüência pedagógica é que, ao antepor a
desejos, mesmo que doa Oackson, 1968: 30). organização burocrática do tempo ao ritmo próprio da atividade e do interesse dos
jovens, há uma grande probabilidade de que os dois não coincidam.
Salta à vista o paralelismo entre a posição do estudante e a do trabalhador
assalariado. No modo de produção capitalista, à diferença do mercantil simples (a A adesão a um horário requer que, com freqüência, as atividades
produção direta e independente para o mercado), o trabalhador não vende o comecem antes que surja o interesse e terminem antes que desapareça.
resultado ou produto de seu trabalho (bens) nem seu trabalho mesmo (serviços), Assim, exige-se que os estudantes deixem os livros de aritmética e
mas sua força de trabalho, seu tempo de trabalho, seu trabalho abstrato, sua peguem os de ortografia embora queiram continuar com a aritmética e não
capacidade de trabalhar durante um tempo determinado. Encerrada a compra-e- queiram saber de ortografia. Na sala de aula, com freqüência, põe-se fun
venda da força de trabalho, é o capitalista que a adquiriu quem decide a forma em ao trabalho antes que tenha terminando. As perguntas ficam freqüentes
que será empregada durante o tempo contratado, perdendo o trabalhador o poder vezes pendentes quando soa o sinal Oackson, 1968: 16).
correspondente (o direito trabalhista limita isto apenas parcialmente).
O tempo do aluno deixa de ser a dimensão aberta na qual transcorre sua
. ·'
Analogamente, os estudantes, ao ultrapassar a porta da escola, põem sua atividade para converter-se, sob a forma de calendário, horário e seqüenciação
capacidade de trabalho à disposição da instituição ou, no plano das relações de atividades por parte do professor, no organizador da mesma ou, mais
imediatas, à disposição do professor. Será este quem decidirá para quê, como exatamente, na mediação através da qual outros a organizam. As necessidades
e a que ritmo utilizá-la. O fato de que paguem pÓr esta renúncia, em vez de organizativas podem explicar a opção por tal ou qual distribuição horária frente
cobrar por ela, não melhora muito as coisas. Em lugar de uma compra-e-venda a outra, mas não explicam de forma alguma que tenha que haver de qualquer
encontramos uma cessão; ou, em lugar de trabalho "livre", trabalho forçado, modo uma distribuição da atividade escolar por unidades horárias ou parecidas.
ao menos durante o período obrigatório. A falta de uma contrapartida clara, de De qualquer forma, o que o aluno encontra é que seu tempo é fragmentado,
qualquer forma, pode converter a escolaridade em algo mais indesejável que o normalizado e recomposto na forma de um quebra-cabeças de atividades que
trabalhar para um outro ou, o que é a mesma coisa, pode fazer dela algo ainda ele não planejou nem é capaz de compreender.
mais suscetível de rejeição. Neste aspecto cabe assinalar a diferente organização horária do ensino
Os agentes da instituição escolar, de qualquer forma, não têm dúvidas a primário e secundário. No primário, o emprego do tempo fica na esfera de
respeito da disponibilidade do tempo e da capacidade de trabalho dos decisão do professor, que pode decidir, por exemplo, empregar uma porção
!

i estudantes. A função da escola é, precisamente, a de empregar este tempo, maior em matemática e uma menor em linguagem, ou ao contrário. No
dispor dele, tal como o expressava claramente um reformador de fmais do secundário, o tempo está rigidamente compartimentalizado e distribuído pelas
século passado, John D. Philbrick: diferentes matérias, sem que seja possível sua alteração pelo professor.

174 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 175


Deste modo o tempo do aluno do primário depende da autoridade pessoal e em geral. Entretanto, não é difícil notar que a primeira, a segunda e a quinta
direta do professor, enquanto o do estudante do secundário· está submetido a respondem sobretudo à lógica do capitalismo industrial, enquanto a terceira e
uma regulamentação burocrática (embora só parcialmente, pois, dentro das a quarta são parte nuclear da chamada "moral vitoriana" que tão
unidades temporais, o professor continua podendo atuar a seu critério). Estas estreitamente se associa à escola.
duas formas de controle do tempo e da atividade antecipam já a diferente A escola contribui notavelmente para a inculcação de algumas dessas
organização do processo de trabalho dos assalariados situados na base da noções de tempo. A "precisão nos encontros" é a base da organização da
hierarquia de trabalho e os situados em lugares intermediários ou superiores, jornada escolar. A atividade escolar transcorre entre limites de tempo fixados
assim como suas diferentes formas de relação com a autoridade. Em alguns com exatidão e está marcada por acontecimentos que ocorrem nos momentos
sistemas escolares, esta dualidade pode-se dar mesmo para alunos da mesma precisos. Parafraseando o velho ditado, há um momento para cada atividade e
idade biológica e escolar mas que seguem ramos distintos da árvore escolar uma atividade para cada momento, e eles não devem ser confundidos: não se
(Baudelot e Establet, 1976), mas conservando o mesmo sentido: disposição deve abrir o livro enquanto o professor expõe, nem fixar a atenção neste
arbitrária do tempo dos que vão ser trabalhadores plenamente subordinados e durante o tempo determinado para o estudo, nem se pode tentar divertir-se ou
regulamentação burocrática do tempo dos que ocuparão posições comer o lanche fora das horas de recreio, mesmo que essas atividades não
intermediárias ou elevadas. interfiram de fato com o desenvolvimento das previstas.
A precisão temporal dos acontecimentos não está necessariamente ligada
a qualquer tipo de ensino ou aprendizagem, nem sequer a qualquer tipo de
A percepção social e pessoal do tempo escola. Carece de sentido na aprendizagem autônoma e não existe em absoluto
no ensino individualizado da escola unidocente na qual o professor atende
Em um estudo sobre a conexão entre o desenvolvimento econômico e a con- dentro de um mesmo período alunos os mais diversos. Para impor-se na escola
cepção do tempo na cultura de uma sociedade, RudolfRezsõházy estabelece cinco foi necessário esperar-se a implantação das formas mútua, primeiro, e
tipos de relações entre a noção social deste e a possibilidade daquele: simultânea, depois, do ensino.
No que concerne à economia e ao traballio, não é difícil encontrar razões pelas
1. A precisão nos encontros. O grau de exatidão com o qual dois ou quais qualquer economia de intercâmbio requer a precisão temporal- por exem-
mais sujeitos coordenam suas ações no tempo, seja para colaborar, para plo, no cumprimento dos contratos, na entrega pontual dos produtos, etc. -,
participar em uma mesma atividade ou para substituírem um ao outro. (... ) entretanto é menos difícil ver que, quando esta adquire sua verdadeira importância
2. A seqüenciação de atividades. A organização das iniciativas é com a chegada do trabalho coletivamente organizado, o que em nossa história
pessoais ou coletivas no tempo e o grau de racionalidade desta específica quer dizer a chegada da fábrica. É a moderna produção industrial, que
organização. Diz respeito às iniciativas a tomar quando se apresentam uma tem que coordenar o trabalho de centenas ou milhares de braços e que tem que
ou várias tarefas imediatas. A perspectiva é, portanto, a do passado ou do valorizar no mínimo lapso possível um capital fixo que, por sê-lo, não deve
futuro imediatos (... ). 3. Previsão. A capacidade de visualizar objetivos permanecer inativo, a que necessita submeter as vontades e os ritmos individuais
futuros ou de estabelecer objetivos distantes e ajustar as próprias ações às exigências da programação temporal. Enfim, a escola ensina a respeitar e
de acordo com os acontecimentos futuros desejados ou inevitáveis. (... cumprir um horário; e, para sermos mais precisos, um horário imposto.
Sentido de progresso) 4fi. Uma concepção do desenrolar dos .Na verdade, o horário escolar é muito semelhante ao horário de trabalho.
acontecimentos que lhes atribui uma tendência a melhorarem. (... ) Implica Naturalmente, isto se apóia em razões tais como: que a escola depende do
uma visão do futuro que é necessariamente mellior, e provoca a ação que horário de trabalho dos professores e que os pais desejam ter seus fllhos sob
impede a paralisação. (... ) 5. O tempo como valor em si mesmo. Um custódia enquanto trabalham, mas isto não impede que a prática do horário de
juízo sobre o tempo que o iguala a outras coisas geralmente apreciadas. hoje disponha os alunos para a aceitação, no dia de amanhã, do horário de
Esta avaliação cria uma atitude em relação ao tempo: deseja-se econo- trabalho. Que esta consideração está presente é algo que fica óbvio ao nos
mizá-lo, dominá-lo, devido a seu valor (Rezsõházy, 1972: 450-1). darmos conta das habituais diferenças de horário entre o ensino acadêmico e
Essas maneiras de perceber o tempo ou de relações com ele são tidas o ensino técnico na escola secundária: os alunos do ensino acadêmico
como as correspondentes a qualquer forma moderna de sociedade, motivo começam sua jornada, em geral, uma hora mais tarde que os alunos de
pelo qual se supõe que sua aquisição é, precisamente, boa parte do processo formação profissional, tal como os trabalhadores das oficinas o fazem com
de modernização cultural e social, condição do desenvolvimento econômico relação aos dos escritórios.

176 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 177


A "seqüenciação de atividades" pode ser entendida como a ampliação da A incorporação de:;ta noção, por outro lado, é quase imprescindível par9, a
precisão à coordenação das próprias atividades. Na escola está presente aceitação da esco!a, pois para a maioria dos alunos, o valor desta não reside
através da organização seriada, supostamente derivada da lógica interna do nela mesma mas nas 1, . 0mpensas ·_ue se supõe trará a médio e longo prazo;
saber ou das necessidades pedagógicas, da transmissão e aquisição do fundamentalmente, a promessa de uma boa ou melhor posição social. Carente
conhecimento. Um marco importante em sua implantação foi a passagem das eles de motivos intrínsecos, dada sua impotência frente à seleção de seus flns
escolas unidocentes ao ensino seriado - a outra cara da simultaneidade -, e a determinação de seus processos, a escola - juntamente com a poupança
que implicou na dosificação do saber de acordo com a idade biológica e escolar. e o trabalho - representa o paradigma deste lugar comum da ética protestante
No dia-a-dia do ensino está presente na gradação dos livros-texto, na e da chamada moral vitoriana que é o adiamento das gratificações. Ou, no
programação por objetivos do professor e na organização do trabalho pessoal jargão da psicanálise, da primazia do princípio da realidade sobre o princípio do
do aluno - sob a férula do professor. prazer, do superego sobre o ego.
A teoria do desenvolvimento supõe que uma adequada seqüenciação é a O "sentido de progresso" é considerado importante porque leva as
condição indispensável de uma produtividade elevada, o que justifica com pessoas à ação, a superar as dificuldades, etc. Entendido de forma passiva -
vantagens sua aprendizagem. Mas, em realidade, neste ponto, como no anterior, o progresso que chegará com segurança - pode-se considerá-lo também,
o que o aluno aprende não é a organizar sua própria seqüência de atividades, mas entretanto, como uma forma de tomar mais suportável o presente, isto é, como
a que outros a organizem por ele. Da mesma forma que amanhã, como um milenarismo laico e caseiro. Naturalmente a escola incorpora com grande
trabalhador, deverá aceitar a seqüência de tarefas que lhe impuserem. força a seu discurso ideológico a idéia de progresso: supõe-se que ela própria
o personifica e é seu principal instrumento. Mas o que incorpora à sua prática
( ... ) A escola é um lugar onde as coisas, com freqüência, não é a idéia de progresso pessoal como algo cumulativo e carente de limites,
sucedem porque os professores assim o queiram, mas porque chegou o através da experiência da soma de anos de escolaridade, matérias cursadas,
momento delas ocorrerem Gackson, 1968: 13). créditos, títulos, etc., e de sua sempiterna insuficiência. Por outro lado, não é
difícil associar à escola a convicção de que qualquer tempo futuro será melhor:
É a mesma posição em que se encontra o trabalhador assalariado frente à frente ao cinza do presente escolar, o futuro de trabalho pode parecer pintado
seqüência temporal de suas tarefas. A maior parte dos trabalhos e atividades com todas as cores do arco-íris; e, mesmo que se o anteveja cinza, pelo menos
exige algum tipo de seqüenciação, mas este termo engloba realidades muito será remunerado.
diferentes. Um pintor de paredes autônomo, por exemplo, sabe que deve A idéia do progresso também nasceu associada ao capitalismo, que
limpar e lixar ou raspar a superfície antes de aplicar a camada de pintura, e não rompeu as barre_iras postas à produção pelas formas sociais anteriores e,
.
: ao contrário. A seqüência, neste caso, é dada pela mútua relação entre as posteriormente, assodou-se ao socialismo, que partilha com o primeiro a
,I
' diferentes partes da tarefa a realizar. Para a imensa maioria dos assalariados, paixão pelo crescimento econômico e o nível de vida. Carecia de sentido nas
entretanto,- a seqüência de suas tarefas não é o resultado de sua natureza sociedades primitivas e, provavelmente, na sociedade feudal, assentadas na
intrínseca nem de seu racioánio pessoal, mas a mera execução de uma idéia de um mundo imutável e limitadas à produção de subsistência mais um
ordenação pré-flxada por outro. Na escola aprende-se fundamentalmente a pequeno excedente no qual se baseava o sustento de sacerdotes, bruxos e
aceitar o segundo tipo de seqüência. O professor que indica aos alunos que chefes, primeiro, e dos senhores feudais e seus séquitos, depois.
escrevam o esquema de uma dissertação antes de começar a dar-lhe sua Finalmente, o valor do tempo em si mesmo se aprende, mais que por seu
redação final está-lhes ensinando a organizar por si mesmos seu próprio aproveitamento - que é escasso -, por seu emprego como medida urúversal.
trabalho, mas aquele que lhes faz estudar matemática uma hora, geografla Embora a escola faça sua a máxima de Franklin - "O tempo é ouro" -,
meia, gramática três quartos, etc., está-lhes ensinando a incorporarem-se a tratando de preencher cada momento vazio com alguma atividade, estimulando
rotinas previamente estabelecidas. a diligência, condenando a ociosidade, etc., o certo é que o tempo dos
A noção de "previsão" não é senão a aplicação da seqüenciação a médio estudantes é consumido principalmente em esperas, lapsos mortos e rotinas
e longo prazos. O espaço temporal em que se insere não é o da cotidianeidade, não instrucionais. Os estudos a respeito indicam que normalmente só se
mas o do período escolar em seu conjunto. Os professores recorrem aproveita entre um quarto e um terço do tempo escolar para a instrução
constantemente a esta noção de tempo quando justificam o que querem que se (Reimer, 1973: 32; Silberman, 1971: 123).
aprenda hoje por seu valor propedêutico, isto é, por sua necessidade em Mas o que outorga valor ao tempo é sua conversão em equivalente
função do que terá que aprender mais adiante. urúversal. Assim como no mercado desenvolvido - que é o mercado do mo-

178 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 179


do de produção capitalista - o tempo de trabalho converte-se na medida do canso frente a isso: não há pausa para o café, não há uns minutos para
valor de todas as mercadorias, na escola ele se converte na medida do yalor fumar um cigarro, não há nenhuma sala como a dos professores, por pobre
do conhecimento e, subsidiariamente, das pessoas que o possuem. Assim, que seja, na qual os jovens possam escapar aos adultos. As escolas
para além de seu conteúdo real, cinco anos de estudos superiores produzem secundárias não têm salas para as associações; a diversão e a ginástica
sempre uma graduação, e os títulos correspondentes são considerados como estão organizadas (Friedenberg, 1963: 32).
tendo valor equivalente. O trabalho escolar, tal como o trabalho produtivo,
vê-se reduzido a trabalho abstrato, a tempo de trabalho. Esta redução Através dessa experiência aprendem a sufocar a própria espontaneidade,
manifesta-se claramente, por exemplo - ao menos no plano das intenções - a adiar a satisfação de seus desejos ou a renunciar a eles. A escola é o
no sistema de créditos, que atribui valores iguais a matérias cursadas durante superego, o outro generalizado, mas deslocado das alturas etéreas da
períodos iguais, e assim faz deles valores acumuláveis. Estudos distintos consciência ao terreno prosaico da disciplina imposta nos mínimos detalhes.
tornam-se comensuráveis, como se fossem homogêneos, sem outra base que
sua duração. Os sociólogos, com nossa inclinação a "medir" a educação pelo Ao aprender a viver na escola, nosso estudante aprende a subjugar
número de anos, sabemos também algo disto. seus próprios desejos à vontade do professor e a submeter suas próprias
Mas a redução do trabalho ao tempo, a substituição do trabalho concreto ações no interesse do bem comum. Aprende a ser passivo e a aceitar a
pelo trabalho abstrato, não se limita aos anos ou aos créditos, que continuam rede de normas, regulamentos e rotinas em que está imerso. Aprende a
representando grandes unidades de tempo. A organização prática do horário tolerar as pequenas frustrações e a aceitar os planos e a política das
escolar tem o mesmo sentido. As matérias tornam-se equivalentes porque autoridades superiores, mesmo quando sua justificação permanece
ocupam o mesmo número de horas por semana, e são vistas como tendo inexplicada e seu significado obscuro. Como os habitantes da maioria das
menos prestígio se ocupam menos tempo que as demais. demais instituições, aprende a encolher os ombros e dizer: ''Assim são as
A sucessão de períodos muito breves - sempre de menos de uma hora coisas" Qackson, 1968: 36).
- dedicados a matérias muito diferentes entre si, sem necessidade de
seqüência lógica alguma entre elas, sem atender à melhor ou pior adequação Embora "motivar" seja o verbo da moda na escola, esta constitui, como
de seu conteúdo a períodos letivos mais longos ou mais curtos e sem prestar instituição, uma poderosa maquinaria entregue inteiramente ao
nenhuma atenção à cadência do interesse e do trabalho dos estudantes; em empreendimento de desmotivar os indivíduos. Crianças e jovens acodem a ela
suma, a organização habitual do horário escolar, ensina ao estudante que o carregados de motivações, mas a obsessão da escola é substituir as que eles
importante não é a qualidade precisa de seu trabalho, a que o dedica, mas sua trazem pelas que ela considera associadas a objetivos dignos de serem
duração. A escola é o primeiro cenário em que a criança e o jovem presenciam, perseguidos. "Motivá-los", na realidade, quer dizer convencê-los de que
aceitam e sofrem a redução de seu trabalho a trabalho abstrato. desejam por si próprios ir para onde o professor já decidiu que vão. E, como
os objetivos com freqüência não são compatíveis, isto implica fazer tábula rasa
de todos os que possam entrar em concorrência com os da escola, o que em
Trabalho versus atividade livre uma sábia política preventiva acaba por consistir em todos os que eles podem
trazer por si mesmos.
Permanecer sentado, não falar em voz alta ou não falar em absoluto com
os companheiros, levantar a mão para dirigir-se ao professor, nã.o interromper, A distinção entre trabalho e jogo tem conseqüências de longo alcance
pedir permissão para abandonar a aula, não expressar visivehnente as para os assuntos humanos, e a sala de aula é o cenário no qual a maioria
emoções, manter o olhar sobre o próprio exame sem olhar o do vizinho, etc., das pessoas encontra esta distinção de forma pessoahnente significativa.
a lista de restrições e prescrições a que crianças e jovens vêem-se submeti- De acordo com uma de suas muitas definições, o trabalho implica envol-
dos na escola seria interminável. Sua vida nela consiste na submissão ver-se em uma atividade com um fun que nos foi prescrito por outra
constante à vigilância e às ordens dos adultos, na (e para além da) relação pessoa; uma atividade na qual não estaríamos envolvidos nesse momento
pedagógica. se não fosse por algum sistema de relações de autoridade. Pode ser que,
como pré-escolares, os estudantes tenham brincado com o conceito de
O que os adultos em geral, na minha opinião, não são capazes de trabalho, mas suas representações fantasiosas das situações de trabalho
captar embora possam sabê-lo de fato, é que não há refúgio nem des- adulto carecem habituahnente de um ingrediente essencial, a saber: o

180 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 181


emprego de algum tipo de sistema de autoridade externo para dizer-lhes A alienação com relação aos meios de produção
o que fazer e mantê-los fazendo-o. O professor, com seus ditames
prescritivos e sua vigilância sobre a atenção do estudante, proporciona o Marx situou a alienação do trabalho assalariado também na ausência de
ingrediente que faltava para tornar real o trabalho. O professor, embora posse por parte do trabalhador dos meios de produção. Da mesma forma,
possa rejeitar o título, é o primeiro "patrão" do estudante Gackson, 1968: podemos afirmar que os estudantes não possuem seus meios de trabalho, que
31). não se reduzem ao lápis, ao caderno, ao livro-texto e outros objetos
similarmente acessíveis.
Mas por que razão ter-se-ia que esperar até o ensino primário ou O desenvolvimento do capitalismo conta entre suas condições necessárias
secundário para ensinar as crianças o que é o trabalho? Apple e King - mas não suficientes - com a enorme escala alcançada pelos meios de
realizaram um estudo sobre as percepções do trabalho e do jogo em alunos de produção. Se os meios de trabalho continuassem sendo o arado e o cavalo, o
ensino pré-escolar que desmente até mesmo a duvidosa imagem lúdica que martelo e a serra, etc., isto é, se sua escala continuasse sendo tal que qualquer
Jackson assinala neste. Afinal, trata-se de uma máxima repetida com muita pessoa pudesse produzi-los ou obtê-los, o desenvolvimento do capitalismo não
freqüência nas escolas: "o que podes fazer hoje não o deixes para amanhã". teria tido nunca lugar; quando muito, não teria passado de suas formas
comercial e fmanceira não desenvolvidas. Os meios de produção em grande
Suas respostas durante a entrevista indicaram que as atividades na sala escala exigem para sua obtenção e aproveitamento grandes recursos
de aula não tinham um significado intrínseco: as crianças atribuíam os fmanceiros, e estes só podiam vir da cooperação de muitos contribuintes com
significados baseando-se no contexto nos quais eles estavam colocados. (. .. ) pequenos recursos (na forma de cooperativas ou, anteriormente, de
As categorias de trabalho e de brinquedo surgiram rapidamente como propriedades e equipamentos comunais, o que não foi o caso, embora
organizadores poderosos dentro da realidade da classe. (... ) O trabalho inclui excepcionalmente pudesse ter sido) ou do surgimento de indivíduos ou
todas e quaisquer atividades dirigidas pela professora; só as atividades entidades com grandes recursos (como os capitalistas e o Estado ou,
desenvolvidas durante o tempo livre são chamadas de ''brinquedo''. Tarefas anteriormente, os senhores e magnatas feudais e os estados pré-modernos).
como colorir, desenhar, esperar na flla, escutar história e contos, ver filmes, Nas relações econômicas cotidianas, a escala desses meios - cuja origem
cantar, mereceram o nome de' 'trabalho''. Assim, ''trabalho'' era aquilo que última é também o trabalho - oculta e legitima a distribuição desigual do
nos dizem que temos de fazer, sem levar em conta a natureza da atividade de produto ao apresentar-se esta como necessária, como justa retribuição dos
que se trata (Apple e King, 1977: 46-48). fatores. Por outro lado, sua posse legitima os que a trazem para que exerçam
a autoridade no processo de produção sobre os que só podem trazer sua força
O que as crianças e jovens aprendem, na realidade, é quais são as de trabalho.
condições do trabalho assalariado. Nem o trabalho na economia de Na esfera econômica, isto coloca o problema da propriedade dos meios de
subsistência, nem o trabalho autônomo para o mercado, nem o trabalho produção, isto é, o problema de se tais meios devem ser propriedade privada
doméstico - não corúundi-lo com o serviço doméstico - reúnem as livre (cuja forma desenvolvida é a propriedade capitalista), propriedade privada
características que Jackson e as crianças entrevistadas por Apple e King de todos os trabalhadores que os empregam em seu trabalho ("a terra para o
atribuem ao trabalho em geral. As relações de autoridade ou o fato de que nos que trabalha", cooperativas industriais e de serviços, trabalhadores
digam o que temos de fazer são algo que distingue o trabalho assalariado não autônomos, etc.), propriedade do Estado (coletivização e gestão burocrática),
apenas do brinquedo, mas também do trabalho livre. Naturalmente houve ou propriedade pública da sociedade toda (coletivização e gestão coletiva).
outras formas de trabalho submetido a um sistema de autoridade (o trabalho

Jtr
Ademais, o que aqui vem mais ao caso, pode colocar-se o problema da
forçado ou escravo, a corvéia medieval, etc.) mas já não fazem parte das distribuição da capacidade de controle - desde a posse até o uso cotidiano -
alternativas presentes para a imensa maioria da população: em nossa deixando de lado o problema da propriedade jurídica: controle operário,
·.ü~. sociedade, a única forma não livre de trabalho - exceto os trabalhos forçados cogestão, autogestão, etc.
para convictos ou o serviço militar - é precisamente o chamado ''trabalho Ao tratar dos meios de aprendizagem não cabe colocar a questão em

il livre", isto é, o trabalho assalariado. Que se atribuam suas características termos de propriedade, pois sendo em sua maior parte realidades não físicas
específicas ao trabalho em geral não faz senão refletir, por um lado, que já é carece de sentido aplicar-lhes o conceito de propriedade tal como nossa
a forma habitual de trabalho para a maioria das pessoas - fora da esfera cultura o entende - como direito erga omnes. Cabe, entretanto, colocá-la em
doméstica - e, por outro, que adquiriu uma alta dose de legitimidade. termos de controle.

182 Mariano Fernândez Enguita A Face Oculta da Escola 183


Assim como o crescimento da produção desenvolveu os meios de trabalho
a uma escala na qual já não são pensáveis sua produção, sua apropriação nem Espaços transparentes, pátios de recreio vigiados, entradas controladas,
·seu emprego individuais, o crescimento do saber desenvolveu os meios de compartimentos sem fechadura nos banheiros, etc., somados à falta de um
aprendizagem a uma escala na qual não são verossímeis o acesso aos mesmos espaço próprio que não seja a sala de aula, além de possibilitar a vigilância
e sua manipulação por pessoas isoladas. A escala da cultura transcende a dos constante, recordam a crianças e jovens que o território da escola não é, de
homens e mulheres chamados a adquiri-la, produzi-la, reproduzi-la, transmi- forma alguma, seu território, que não podem dispor dele, assim como não
ti-la e empregá-la, razão pela qual essas funções já não são viáveis no marco podem dispor de si mesmos enquanto permanecerem dentro de seus limites.
exclusivo da comunidade imediata. Isto impõe sua produção, gestão e
distribuição coletivas, o que se manifesta d_e forma evidente na obsolescência O território psicológico necessita de urna expressão física. Todos
da socialização familiar e na desaparição das figuras do preceptor privado e do necessitamos nosso canto próprio, e os escritórios transparentes vêem-se
professor autônomo e sua substituição pelo Estado e pelas pequenas ou rapidamente divididos em espaços separados, marcados por arquivos e
grandes empresas capitalistas que são proprietários e gestores, vasos. Nas escolas secundárias, os professores estabelecem rapidamente
respectivamente, das escolas públicas e das escolas privadas. É neste ponto seus territórios, tanto o psicológico quanto o físico, mas nem sempre fica
em que o poder absoluto dos capitais em seus feudos e da estrutura claro onde podem encontrar o seu o menino ou a menina individuais
burocrática do Estado se interpõe entre os usuários das escolas e seus meios (Handy e Aitken, 1986: 97).
de aprendizagem, impossibilitando seu controle direto. O público da escola é
tão incapaz de exercer o controle sobre esta quanto o são, em seus respectivos Os estudantes vêem atribuídos espaços para cada momento ou cada
âmbitos, o da saúde ou o dos transportes públicos. atividade do dia, sem poder dispor livremente deles. As salas de aula e os
Assim, os estudantes vêem-se submetidos a uma relação de dependência laboratórios permanecem fechados quando neles não se desenvolvem
frente à empresa e/ou à administração escolares similar à que amanhã os atividades docentes ou discentes programadas, os períodos de recreio devem
vinculará, como assalariados, às empresas públicas ou privadas. Esta última ser passados nos lugares indicados, os corredores devem ser lugares de
verá apoiada sua legitimidade pela mesma razão que aquela, porque os meios passagem e não cenário de concentrações, a área dos gabinetes da direção está
necessários excedem a escala humana individual e não estão ao alcance dos proibida, o bar só está aberto em certas horas, a saída da sala de aula deve ser
particulares em geral. expressamente autorizada... Professores e bedéis colaborarão na tarefa de
Por outro lado, a gestão empresarial privada ou burocrática do assegurar que cada um permaneça no lugar que lhe corresponde.
conhecimento permite sua distribuição desigual, estratificada e hier-arquizada, Numerosos colégios levam ainda mais longe o empenho de privar crianças e
tal como ocorre com a distribuição da renda e do poder sobre sL próprio jovens de uma base territorial, associando as salas de aula a diferentes matérias
(autonomia) e sobre os demais (autoridade) entre os trabalhadores. A em vez de a distintos grupos de escolares e organizando assim um intenso tráfico
distribuição desigual dos recursos econômicos e do poder político entre os entre cada dois períodos letivos. Mesmo - ou sobretudo - dentro das salas de
indivíduos e os grupos sociais proporciona-lhes oportunidades diferenciais de aula organiza-se a disposição do espaço para eles mas sem eles: amplo, aberto e
acesso aos meios de aprendizgem, sejam estes privados (caso em que elevado para o professor, mas exíguo, denso e baixo para os alunos; atribuído
dependem dos primeiros) ou públicos (em cujo caso dependem do segundo). nominalmente, o que os prega nos bancos e permite a detecção fácil das
O véu encobridor que sobre essa posse desigual de poder e recursos na esfera ausências e a localização imediata do aluno buscado; hierarquizado, talvez, entre
educacional supõem a igualdade formal perante a instituição escolar e a eles; em função do rendimento ou de critérios mais arbitrários.
ideologia da igualdade de oportunidades não é nada mais que antecipação do Não é melhor sua relação com o equipamento ou o .material coletivo. Os
que estenderão sobre as desigualdades de propriedade e poder na esfera objetos de uso ocasional - aparelhos de laboratório, projetores, vídeos,etc. -
econômica o igualitarismo formal do mercado e a ideologia da livre encontram-se habitualmente sob chave, quando não simplesmente em desuso
concorrência empresarial e individual. para sua melhor conservação, e os de consumo regular - giz, papel higiênico,
A falta de controle dos estudantes sobre os meios de seu trabalho escolar etc. - são meticulosamente racionados. Tudo serve para recordar-lhes que
manifesta-se também na disposição dos principais meios físicos que também nada é seu - ou que é tão de todos que ninguém pode dispor separadamente
superam a escala dos recursos pessoais da maioria: o espaço e o equipamento dele - e que correria risco em suas mãos.
escolares. Tudo na escola parece estar ·organizado para que os alunos não
possam desenvolver sentido algum de posse ou controle. Enquanto um hotel, por exemplo, prevê em seu orçamento uma quan-
tia para o desgaste, a quebra e um razoável nível de furto de lençóis e
184 Mariano Fernández Enguita
A Face Oculta da Escola 185
:''f

de equipamentos e se previne tranqüilamente com um seguro, a escola - manifestações externas da conduta; quando falamos de traços de
embora possa, na ·verdade, fazer o mesmo - doutrina pomposamente os personalidade:· estamos designando seus imediatos determinantes internos.
estudantes sobre o "respeito para com a propriedade pública", os "bons Através da imersão sistemática em algumas relações sociais educacionais
hábitos de higiene" e assim sucessivamente antes de deixá-los aproxi- isomorfas com as relações sociais de produção dominantes, a escola seleciona
mar-se da piscina (Friedenberg, 1963: 45). nos indivíduos que constituem seu público aqueles traços que mais convém a
estas e, se não existem previamente de forma potencial, utiliza todos os
Os alunos aprendem assim a relacionar-se com o espaço e os objetos da recursos a seu alcance p~ra gerá-los. De certo modo, estes traços de
mesma forma que terão que fazê-lo no trabalho adulto. Sua relação com o personalidade podem ser considerados como o resultado da interação entre o
espaço escolar é igual, ou até mais estrita, que a terão com o espaço produtivo. indivíduo e seu ambiente, isto é, como produto da interiorização das relações
Sua relação com o equipamento é presidida pela obsessão de que deve ser sociais.
cuidadosamente conservado e a convicção de que não o seria se lhes Os traços de personalidade e formas de comportamento premiados pela
deixassem agir livremente. Dado o contexto social da produção, a obsessão escola não são simplesmente os que a consciência comum considera
não é descabida, pois, como escrevia um operário da metade do século desejáveis em nossa sociedade. O que se produz é urna seleção que supõe
passado: que, entre os diversos traços potencialmente desejáveis, uns sejam
premiados e outros penalizados ou, na melhor das hipóteses, ignorados,
Se não produzimos o que poderíamos produzir, se não conservamos conforme convém aos imperativos do bom funcionamento da instituição ou às
as matérias primas e os instrumentos de trabalho como poderíamos fa- idéias do professores sobre o que constitui um bom caráter. A escola leva
I'
zê-lo, é porque não temos nenhum interesse na prosperidade do patrão também a cabo esta seleção em outros terrenos, por exemplo o da linguagem
(... ). Se vemos um de nossos companheiros estragar ou perder a matéria e, em geral, o da cultura, mas aqui interessam especialmente os traços não
prima ou um instrumento de trabalho permanecemos indiferentes, com cognitivos.
II '. freqüência inclusive nos rimos ao ver um colega fazer seu trabalho todo ao Há numerosos estudos nesse sentido, mas comentaremos apenas alguns
,:.
1.,. revés (Charlot e Figeat, 1985: 86). deles. Em sua investigação sobre as primeiras semanas da educação pré-
!. escolar, Apple e King (1983: 46-47) chegaram à conclusão de que se premiavam
Um dos efeitos da combinação entre a regulamentação restritiva e o atitudes tais como a diligência, a persistência, a obediência e a participação
discurso moralizante bem pode ser, no caso em que sua eficácia prospere, o de nas tarefas coletivas, mas não outras tais como a perfeição no trabalho, a
fornecer uma justificação adicional para a falta de poder do trabalhador criatividade ou a engenhosidade. Si!berman descreve os itens que constituem
assalariado sobre os meios de trabalho: se não foi capaz de conservá-los na a "preparação para o trabalho de primeira etapa" dos alunos de cinco anos nos
escola, não merece possui-los nem dispor deles na vida adulta. jardins de infância, conforme a autoridade escolar de uma zona de classe
média:

A seleção dos traços de personalidade A preparação implica dezessete atributos, os três primeiros dos quais
dizem assim: ''1. Sente-se quieto e trabalhe nas tarefas designadas
'JÍ Para a maioria das crianças e jovens, satisfazer as demandas da escola não -durante 15 ou 20 minutos. 2. Escute e siga as instruções. 3. Mostre bons
t é ~lgo que possa ser reduzido a submeter-se provisoriamente, nas horas ·'·• hábitos de trabalho''. O quarto atributo é: ''Tenha curiosidade
letivas, a uma série de rotinas. Embora sempre exista algum grau de intelectual." (Silberman, 1971: 130).
dissociação entre o que realmente são e o que tratam de aparentar na escola,
seis horas diárias, cinco dias por semana, trinta ou quarenta semanas por ano Esta tendência torna-se ainda mais clara no ensino obrigatório. O Guia
- quantidades sempre ampliáveis graças às tarefas para casa, a preparação de Curricular para a Formação do Caráter, do sistema de escolas públicas de
exames extraordinários,etc. - e muitos anos de vida não podem deixar de Boston, por exemplo, assinalava, em fmais da década de sessenta, como traços
produzir efeitos duradouros sobre a estrutura do caráter das pessoas. Esta é de caráter a desenvolver: a obediência à autoridade devidamente constituída,
outra forma de formular a mesma coisa que vimos sustentando até aqui e o autocontrole, a responsabilidade, a gratidão, a amabilidade, a disposição ao
s~stentaremos nas páginas que seguem, mas vale a pena deter-se um pouco trabalho e a perseverança, a lealdade, o trabalho em equipe, a honestidade e
russo. Quando falamos de relações sociais estamo-nos referindo às o jogo limpo. jonathan Kozol comentava a respeito:
186 187
Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola
; ;

Duas das coisas mais impressionantes desta lista são (1) a ênfase nas Aptidão Escolar (S.A.T.) verbal: 0,31; submissão à autoridade: 0,29;
características de obediência e (2) a forma pela qual a personalidade foi interiorização das normas: 0,16 (todos p menor 0,01); temperamento: 0,08;
dissecada e dividida e a forma pela qual, conseqüentemente, cada "traço quociente intelectual: 0,01 (estes dois últimos com p maior 0,05). Em outras
de caráter" foi isolado e colocado como se-se tratasse da enumeração de palavras, a submissão à autoridade mostrou-se tão bom preditor do rendimento
características favoráveis no elogio de um funeral ou na relação de um quanto o teste verbal e muito melhor que o quociente intelectual, embora não
título honorário em uma cerimônia de abertura. Em vão se buscará nesta tão bom quanto o teste matemático; os outros dois fatores de personaliade
lista algo que tenha que ver com uma criança original ou com um estilo mostraram ser maus preditores.
independente. Em vão, também, se buscará qualquer estimativa, avaliação De tudo isso pode-se inferir que a escola premia um tipo de traços de
ou concepção da personalidade humana como uma constelação integral, personalidade (os integrados com sinal positivo no fator "submissão à
orgânica ou constantemente viva e em evolução, em vez de como um autoridade"), rejeita outros (os integrados com sinal negativo no mesmo fator:
armário arquivador de traços aceitáveis (Kozol, 1968: 179-80). note-se que eram precisamente a criatividade e a independência) e desdenha
ou a:;>recia pouco o resto (os integrados nos outros dois fatores).
A tentativa mais sistemática para determinar que traços de caráter De forma independente, Richard Edwards empregou um método similar
favorece e rejeita a escola continua sendo a de Bowles, Gintis e Meyer (1975; para predizer o rendimento no trabalho - avaliado pelos chefes dos
também Bowles e Gintis, 1976). Estes autores estimaram os traços de trabélhadores - a partir de traços de caráter agrupados em três fatores:
personalidade de uma rnostra de duas centenas de estudantes da segunda inclii:ação para o cumprimento de normas (rules-orientation), formalidade e
etapa do ensino secundário norte-americano (senior high school) e mediram inter:orização das normas. Ele descobriu que todos eles apresentavam uma
sua capacidade para predizer as notas escolares, controlando o coeficiente associação relevante com o rendimento, mas que cada um o fazia de forma
intelectual e a capacidade em testes de aptidão matemática e verbal. Os índices preferencial em distintos níveis da hierarquia de trabalho: a sujeição a normas
de correlação parcial obtidos foram os seguintes: no nível baixo, a formalidade no intermediário e a interiorização no superior.
Traços recompensados: perseverante: 0,42; formal: 0,40; constante: 0,39; Aplicando os mesmos fatores, Bowles, Gintis e Meyer novamente concluiram
identifica-se com a escola: 0,38; aceita as ordens: 0,37; pontual: 0,35; adia a que tinham uma elevada capacidade de predição dos resultados escolares
gratificação: 0,31; motivado externamente: 0,29; predizível: 0,25; mostra tato: (0,28, 0,28 e 0,29 respectivamente). Sua conclusão foi que
0,17 (todos eles p menor 0,01). Traços penalizados: criativo: -0,33; agressivo:
-0,27; independente: -0,23 (todos eles p menor 0,01). Traços neutros: franco: os traços de personalidade recompensados nas escolas, ao menos para
0,11; solitário: -0,07; temperamental: -0,02 (todos eles p maior 0,05). esta mostra, parecem estar bastante estreitamente relacionados com os
A partir desses traços e mediante uma análise fatorial (procedimento traços indicativos de um bom rendimento no trabalho da economia
estatístico que permite agrupar variáveis que evoluem de forma conjunta), capitalista (Bowles, Gintis e Meyer, 1975: 14).
Bowles, Gintis e Meyer identificaram três ''fatores da personalidade''. O
primeiro, ao qual denominaram "submissão à autoridade", estava composto Bowles e Gintis (1976) apóiam-se em outras análises semelhantes que
pelos traços, ordenados conforme a importância de seu peso sobre o fator: permitem extrair conclusões similares. Em geral, a maioria dos estudos
constante, identifica-se com a escola, pontual, formal, externamente motivado, sobre a relação entre traços não cognitivos e rendimento escolar coinci-
perseverante, independente e criativo (estes dois últimos com sinal negativo). dem em assinalar a importância dos enquadráveis em categorias como
O segundo, batizado como "temperamento", pelos traços: agressivo, submissão, disciplina, neutralidade afetiva e motivação extrínseca (Gintis,
temperamental, franco, predizível, com tato e criativo (todos eles com sinal 1971).
negativo, exceto o quarto e o quinto). O terceiro, designado como Assim, a escola sanciona positivamente os traços de caráter e formas de
"interiorização das normas", estava formado por dois traços: aceita as ordens conduta funcionais para o trabalho coletivo submetido a relações de autoridade
e adia a gratificação. - o que em nosso ãmbito quer dizer para o trabalho assalariado - e
Expressada em termos de coeficientes de regressão normalizados negativamente os que não o estão, os que seriam disfuncionais. De forma mais
(obtidos introduzindo-se todas as variáveis em uma regressão simples), a geral, pode-se afirmar que uma das tarefas principais da escola é a repressão
capacidade para predizer as notas escolares a partir desses traços, comparada do prazer e, em um sentido mais amplo, a repressão do desejo. Diversos
com a do Q. I. e e a das provas objetivas, foi a seguinte, por ordem de historiadores da educação destacaram o propósito explícito nas origens da
importância: Teste de Aptidão Escolar (S.A.T.) matemático: 0,43; Teste de edue<:ção de massas de reprimir a sexualidade de crianças e jovens (Spring,

. 188 Mariano Fernández Enguita A Fac3 Oculta da Escola 189


1975; Katz, 1971). O "principio da re;;~lidade" do trabalho submetido a uma
autoridade alheia devia-se impor ao "princípio do prazer" que representa os
i'
desejos e inclinações pessoais, que poderiam levar à rejeição do trabalho ou,
pior ainda, ao questionamento e desafio de sua organização social imperante.
Como escrevera o próprio Freud, a tarefa da educação
'7
consiste em tornar as crianças o mais saudáveis e capazes para o trabalho
que seja possível (... ) ; de qualquer ponto de vista é indesejável que as
crianças sejam revolucionárias (citado por Millot, 1982: 156).

AS RELAÇÕES SOCIAIS DA
EDUCAÇÃO, 2:
.A ATOMIZAÇÃO DO CORPO SOCIAL

. 1'

A estabilidade das sociedades capitalistas industrializadas, ou melhor dito,


a estabilidade de sua estrutura fundamental, baseia-se em grande parte em
fatores alheios à escola como a opacidade das relações de produção e
distribuição, o consenso em torno da forma democrático-representativa de
Estado e diversas formas de hegemonia e dominação ideológicas; além,
naturalmente, da polícia e do exército.
A escola, entretanto, exerce um importante papel. No capítulo anterior
tratamos da forma pela qual as relações sociais em seu interior preparam os
indivíduos para aceitar e incorporar-se sem muitas fricções às relações de
produção ou, mais exatamente, às relações ou ao ·processo de trabalho
dominantes. Agora veremos a forma pela qual servem para cercear sua
pótencialidade de resistência e colocar obstáculos à sua capacidade de
resposta. Tudo isto, é claro, à parte ou além da contribuição ao próprio flm da
pura e simples inculcação ideológica.
Uma sociedade dividida em classes sociais, gêneros, grupos étnicos ou ao
longo de outras linhas de fratura, torna-se muito mais tolerável para os setores
mais desfavorecidos se apresenta ou aparenta apresentar um alto grau de
abertura e oferece ou promete vias de mobilidade social. Cada pessoa
190 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 191
tunidades d~ vida conformes com o sistema. Por isso nas recentes
descontente com sua sorte, então, tem diante de si duas altemativas: tratar de versões da ideologia do rendimento o êxito no mercado é substituído pelo
melhorar a posição relativa do grupo ao qual pertence ou tratar simplesmente êxito profissional, representado pela educação formal (Habermas, 1975:
de melhorar sua posição pessoal. A primeira, por sua vez, admite duas 102).
variantes: melhorar a posição coletiva subvertendo ou virando as relacões de
poder existentes ou tratar de fazê-lo dentro delas, sem chegar a colocá-las em Por outro lado, a escola cerceia as condições da ação coletiva ao inserir os
questão. indivíduos numa trama de práticas sociais que os relacionam entre si como
Subverter as relações existentes, em um sentido ou em outro este elementos atornizados e isolados, com interesses contrapostos e mutuamente
é o objetivo das revoluções. Suas promessas são sem dúvida as mais at~ativas hostis. Aquilo que eufernisticamente costumamos chamar "consenso",
para os grupos mais desfavorecidos, mas também apresentam riscos mais "consentimento" ou "legitimidade" de uma ordem social não consiste
elevados. Em primeiro lugar, pela incerteza quanto ao que virá depois; em necessariamente, ou consiste raramente, em que todo mundo esteja de acordo
segundo luga_r, porque. provocam intensos enfrentamentos sociais nos quais, em torno dos fundamentos da sociedade da qual faz parte; consiste sobretudo,
para consegutr ~lgo ma1~, pode-se perder tudo. Nessas condições, o interesse muito mais freqüentemente, em que os que não partilham desses fundamentos
~ ~ ~onto de VISta pa~ticulares tendem a diferir dos sociais. Da perspectiva não encontrem alternativas a eles, não possam elaborá-las nem formulá-las em
mdlVldual pode ser mms seguro, requerer menos esforço, ser menos arriscado comum e não possam alcançar os meios nem a organização necessários para
e apresentar mais probabilidades de êxito, a tentativa de mudar a própria sorte defendê-las de forma eficaz.
dentro das relações sociais existentes que o de alterar estas para mudar a de A outra face do tratamento formalmente igual de crianças e jovens é
todos. o ignorar suas identidades coletivas, ou os elementos coletivos de sua
A escola exerce aqui um duplo papel. Por um lado abre uma via embora identidade. Ao ignorar suas características próprias, sua pertinência a grupos
para~ ~aioria_ seja_mais aparente que real, através da qual é possível ~elhorar sociais específicos ou a subculturas particulares, a escola interpela-os como
a P?s1çao de m_d1v1duos e grupos dentro dos cursos de ação estabelecidos e sujeitos isolados e os força a se comportarem e a agirem de forma
ace1t~s e sem nsco de desembocar em um conflito aberto. Fundamentalmente individualista. As fraturas, as relações de poder e dominação e os confli-
perrr~.lt-~ aos grupos ocupacionais reforçar sua posição controlando a~ tos sociais que têm sua base na estrutura social global e nas identidades
possibilidades de acesso aos mesmos, as quais são restringidas através da coletivas dissolvem-se assim, aparentemente, em um mare magnum
~le~a-ção das exigências em termos educacionais; e, sobretudo, permite aos formado por incontáveis comparações e lutas inter-individuais e frustrações
1~dlVIduos lutar pessoalmente para mudar de grupo, para aceder a outro
pessoais.
s1t_ua~o em um~ posição mais desejável. Na realidade, a escola é hoje 0 Finalmente, a escola contribui para que os indivíduos interiorizem seu
prm:1pal mecamsm~ de legitimação meritocrática de nossa sociedade, pois destino, sua posição e suas oportunidades sociais como se fossem sua
supoe-se que atraves dela tem lugar uma seleção objetiva dos mais capazes responsabilidade pessoal. Assim, os que obtêm as melhores oportunidades
para o desempenho das funções mais relevantes, às quais se associam também atribuem-nas a seus próprios méritos e os que não as obtêm consideram que
recompensas mais elevadas. é sua própria culpa. As determinações sociais são ocultadas por detrás de
diagnósticos individualizados, legitimados e sacralizados pela autoridade
De acordo com a idéia burguesa que permaneceu constante ·desde os
escolar.
começos do moderno direito natural, até chegar ao direito eleitoral
contemporâneo, as recompensas sociais devem ser distribuídas de acordo A ideologia que poderíamos chamar carismática (porque valoriza a
~oro o rendimento dos indivíduos: a repartição das gratificações deve ser "graça" ou "dom") constitui, para as classes privilegiadas, uma
1somor~a _ao mod~lo d?s diferenciais de rendimento de toóos os indivíduos. legitimação de seus privilégios culturais, que sofrem assim uma
A cond1çao p~r~ 1sso e que todos participem, com iguais oportunidades, de transformação da herança social em graça individual ou mérito pessoal.
uma competlçao regulada de forma tal que se possam neutralizar as Desta forma disfarçada, pode-se implantar o "racismo de classe" sem que
influências externas. O mercado era, precisamente, um mecanismo de se torne óbvio. Esta alquimia dá tão bons resultados que, longe de opor a
alocação dessa índ~le; mas desde o momento em que mesmo as grandes ela outra idéia do êxito escolar, as classes populares assimilam, por sua
massas de populaçao se deram conta de que nas formas de intercâmbio se vez, o essencialismo das classes altas e vivem sua desvantagem como uma
mecanismo de justiça do rendimento, quanto à distribuição d:
exerce também uma coação social, o mercado perde credibilidade como
opor-
sina pessoal (Bourdieu e Passeron, 1970: 104).
193
A Face Oculta da Escola
192 Mariano Fernández Enguita
I'

A motivação mediante recompensas extrínsecas Através não do que dizemos, mas do que fazemos, da forma em que
atribuímos recompensas e castigos, convencemos a inais de um estudante
A conseqüência necessária e ineludível da alienação do trabalhador com que não se aprende pela alegria e pela satisfação que proporciona o
relação ao processo e ao produto de seu trabalho é, se não se quer ou não se pode conhecimento, mas para conseguir algo; que o que conta nas escolas e
recorrer a mecanismos diretamente coercitivos, erigir um sistema de motivações centros de ensino não é o saber e compreender, mas o fazer crer a alguém
extrínsecas. Se nem os fms da própria atividade nem suas características são que se sabe e se compreende; que o conhecimento torna-se valioso não
capazes de motivar o trabalhador, que não pode reconhecer-se nela, precisa-se porque nos ajude a abordar melhor os problemas da vida privada e pública,
então da oferta de contrapartidas de um tipo ou de outro. mas porque se converteu em um artigo que se pode vender a elevados
No mundo do trabalho, estas contrapartidas são bem conhecidas e preços no mercado (Holt, 1.977: 47).
reconhecidas como tais. Algumas são de caráter positivo, como o salário, os
benefícios marginais, os serviços e vantagens de vários tipos - residências, Mas esta "pressão" não procede, como parece crer Holt, de nenhuma
viagens, créditos, etc. Outras são de caráter negativo e referem-se mais à perversão dos professores, nem sequer da onipresença dos exames e das
limitação da carga de trabalho ou à possibilidade de escapar à mesma: horário, notas. Procede do fato de que, uma vez que se perdeu ou não se conseguiu
semana de trabalho, férias, oportunidades de promoção, idade de encontrar um interesse intrínseco no estudo, coisa que ocorre
aposentadoria, etc. Outras, enfun, são diretamente punitivas: sem trabalho não necessariamente de forma imediata quando só se pode estudar o que outros
há rendimentos, nem auto-estima, nem nada daquilo que estes podem dizem e como eles decidem, ''conseguir algo'' em troca é o unico que pode
proporcionar. justificar uma atividade tão penosa ou, no melhor dos casos, tão carente de
Na escola são também facilmente identificáveis: aprovação social, atrativo. Na realidade, estuda-se porque as notas conduzem aos títulos e estes,
oportunidades de promoção acadêmica, oportunidades ocupacionais e sociais ao menos supostamente, a melhores oportunidades sociais de todo gênero,
possibilidade de evitar sanções ... Algumas dessas motivações são encontrada~ fundamentalmente de trabalho e econômicas. Estuda-se, em suma, porque a
no contexto social imediato: a imagem de si, a satisfação paterna, a aprovação escola promete mobilidade social aos que não gozam de uma posição desejável
do professor, o suposto prestígio diante dos colegas, obter uma bicicleta de e promete mantê-la para os que já desfrutam dela.
presente ou passar unas boas férias. Através das motivações extrínsecas os estudantes são levados a aceitar
uma gama de atividades pouco ou nada significativas, rotineiras e desprovidas
É um lugar comum que, para que a escola seja educativa, tem que de interesse. Esta aprendizagem prepara-os para fazer o mesmo no dia de
haver algo no estudante que o motive paa a educação. As motivações amanhã, quando se encontrarem na mesma relação com seu trabalho, e para
fundamentais são a esperança e o medo: a esperança de conseguir algo e fazê-lo sem atritos. É a aprendizagem da chateação, da monotonia, da
o medo ao castigo no caso de não conseguir. Disso se segue que, onde não dissociação interior da própria atividade, necessária para que alguém aceite
estejam presentes a esperança do êxito nem o medo ao castigo pela sacrificar em troca de qualquer coisa as melhores horas de sua vida.
ausê'ncia de êxito, não há motivação para a educação (Henry, 1971.: 36). Sua segunda função é a de deslocar os conflitos do centro da organização
do trabalho para outro lugar. Uma vez que o trabalhador está fora de si no
Entretanto, o êxito per se só existe nas distantes regiões celestiais da trabalho e em si só fora dele, suas demandas já não são dirigidas à organização
moral puritana não contaminada pela vida terrena, ou seja, em parte alguma. social do processo produtivo, o que poria imediatamente em questão a
O casti?o pe~a ~usência de êxito, pelo fracasso, é já algo extrínseco à educação, distribuição existente do poder e dos recursos, mas à sua periferia. O objeto
e o propno eXIto, ao menos se como tal se entende o êxito educacional não principal das negociações e dos conflitos coletivos ou ·entre o indivíduo e a
se deseja por si mesmo mas pelo que promete. Estamos tão acostumados a empresa não é já a relação social da produção entre as partes, mas a gama e
associar o ensino às notas ou aos títulos que os consideramos parte integrante a quantia das contrapartidas, fundamentalmente os salários. Isto converte o
e inseparável de qualquer forma de educação, mas trata-se em realidade de trabalhador, do ponto de vista da empresa, em um interlocutor mais
crede~ciais simbólicas cujo valor último reside fora da educação, não dentro respeitável, posto que também é mais respeitoso.
dela; Isto é, trata-se de motivações extrínsecas. A forma mais clara desse deslocamento é o auge do consumismo, que não
representa senão a busca desesperada de gratificações fora do trabalho uma
( ... ) A conseqüência mais ampla e geral desta pressão por conseguir vez que se renunciou a encontrá-las dentro. Frente a um processo de trabalho
:l boas notas é que se degradou e corrompeu o ato da aprendizagem em si. marcado por ordens, normas, rotinas pré-estabelecidas, no qual o indivíduo se

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Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 195
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I
I encontra constantemente submetido a uma autoridade alheia pessoal ou simplesmente desnaturalizado, de forma que quando, por exemplo, se fala de
burocrática, o mundo do consumo oferece a possibilidade de escolher, de dizer "disposição para cooperar" de um aluno, o que se está designando é sua
I; sim ou não, de organizar o próprio tempo e a própria atividade ou inatividade.
O consumo representa um espaço de liberdade por contraposição ao trabalho,
disposição para envolver-se nas tarefas organizadas pelo professor, isto é, a
obedecer.
q que é justamente visto como um espaço de submissão. A competição é estimulada, sobretudo, através das notas. Estas
j Este é um dos laços, senão o mais importante, que associam o surgimento estabelecem uma categorização entre os estudantes à qual os professores e
l da chamada sociedade de consumo ao desenvolvimento da alienação no eles mesmos - na medida em que partilham dos objetivos proclamados pela
1 processo de trabalho, concretamente, à produção em série. Não por acaso os escola - associam sua imagem e sua estima, algo que todos sabem que terá
i êxitos dos trabalhadores, dentro da negociação coletiva e sem necessidade de conseqüências posteriores. A publicação de cada nova rodada de notas supõe
agudos conflitos, em matéria salarial, de segurança no emprego, etc., têm um relocalização simbólica dos indivíduos dentro do grupo.
estado sistematicamente associados a suas concessões em matéria de Mas o ponto importante aqui é que as notas, como os títulos, só
produtividade, isto é, a sua renúncia a controlar o próprio processo de trabalho. possuem um valor relativo. Posto que os títulos são um instrumento para
Como afirmara certeiramente Jules Henry, o ópio do povo não é já a religião, aceder a bens escassos, os empregos mais desejáveis, e posto que para a
mas a elevação do nível de vida. maioria dos grupos ocupacionais este acesso dá-se através do mercado de
trabalho, não existe associação absoluta alguma entre títulos e empregos. Um
título de medicina, por exemplo, abre a possibilidade de trabalhar como
A competição inter-individual médico, mas não garante o êxito de uma consultório particular, nem um lugar
na saúde pública ou no hospital. Por conseguinte, permanecendo o resto das
A economia capitalista de mercado supõe a competição não apenas entre coisas iguais -isto é, na medida em que o acesso ao que se deseja dependa
as empresas (mercados de capitais, bens e serviços), mas também entre os dos títulos -, as credencias educacionais só têm valor efetivo na medida em
indivíduos pelo acesso aos empregos (mercado de trabalho, ou de força de que são maiores e/ou melhores que as dos concorrentes que aspiram à mesma
trabalho). Além disso, a organização social da empresa traz a competição para coisa.
,. seu interior na forma de salários por tarefa, normas de produção, prêmios por Este critério é facilmente transferido por professores e alunos ao interior
'I produtividade, demissão dos trabalhadores menos produtivos, competição da escola, o que significa às notas. Obter a menção de "apto", "aprovado" ou
1 pelas oportunidades de promoção, etc. "suficiente" em uma matéria serve para livrar-se dela, mas não assegura por
i Com isso, em primeiro lugar, barateia-se o custo da força de trabalho, pois si mesmo nada no futuro. Se todos a obtêm, então só ganha quem obtém a
l as leis de oferta e procura agem fortemente sobre os trabalhadores; com mais menção de "notável", "excelente", etc. Ao contrário, a mais baixa da~ no~s
j: força inclusive que sobre os possuidores ou vendedores de outras acima do umbral de aprovação adquire um grande valor se os que a obtem sao
j
mercadorias, pois se o fabricante ou o comerciante, com freqüência, podem poucos. Pode-se afrrmar, por conseguinte, que o valor da nota atribuída a cada
resistir à vender a baixo preço e esperar que cheguem melhores tempos no aluno conserva uma relação inversa com o valor da atribuída aos demais. Dito
mercado, o trabalhador cuja força de trabalho é seu único meio de vida de outra forma, o êxito de outro é meu fracasso, e seu fracasso meu êxito.
raramente pode fazê-lo. A organização coletiva dos trabalhadores pode aliviar Esta competição destrutiva não precisa esperar o frrn do mês para
relativamente os efeitos da competição inter-individual dentro da empresa, isto manifestar-se em torno das notas. É urna cena habitual nas escolas quando o
é, entre os trabalhadores ocupados, mas dificilmente o consegue - em geral professor se dirige a um aluno ou outro para perguntar-lhe algo e comprovar
nem sequer o tenta - entre aqueles que o que buscam é o acesso ao emprego, se sabe ou não. Posto que o número de alunos é alto e o· tempo curto, apenas
os desempregados - que, normalmente, são também os menos organizados alguns podem ser perguntados. Entre os demais, uns desejam que seus
ou não o são em absoluto. Em segundo lugar, aumenta-se a produtividade. E, colegas dêem a resposta correta para que a pergunta não chegue a eles, porque
em terceiro lugar, divide-se entre si os trabalhadores e põe-se obstáculos à sua não a sabem; o resto, os que a sabem, desejam exatamente o contrário. E~tre
solidariedade. o rosário de mãos que se levantam para responder uma pergunta ou realizar
A escola, mesmo que seu reformismo pedagógico tenha incorporado uma tarefa de forma voluntária, todas as que não são corre~pondidas pelo dedo
defmitivamente a seu discurso termos como "solidariedade", "cooperação", do professor (''Tu'') representam os mais negros sentimentos - embor~
"trabalho em equipe" e outros do estilo, estimula por todos os meios a seu sejam pequenos - para com o escolhido, pois apenas se ele frac~ssa podera
alcance a competição entre os alunos. Em grande medida, este discurso foi um outro tentar o êxito. · '
·.I

196 Mariano Fernández Enguita 197


A Face Oculta Gl1a Escola
A condenação institucional do "sopro" e sua provável aceitação final pelos e as do grupo de iguais (Parsons, 1976; Willis, 1978; Fernández Enguita, 1988).
alunos é outra manifestação. Se a solidariedade grupal pede que se ajude ao Posto que a resistência à cultura escolar passa, com mais freqüência que por
que se encontra em dificuldades, a instituição e a conveniência pessoal dentro qualquer outro meio, através do grupo, o professor, que não pode deixar de
das regras de competição reclama que se o abandone à sua sorte. O "sopro" perceber isso, vê-se levado a empregar todos os meios a seu alcance para
é muito freqüente e indiscriminado nos inícios da incorporação à escola, mas romper a coesão deste, por exemplo mediante a discriminação nas sanções ou
vai deixando de sê-lo ou se reduz às relações privilegiadas à medida em que atribuições de lugares na sala de aula.
se avança nesta. No geral sua vigência só se mantém entre os grupos "anti- Socializar hoje sistematicamente as crianças no individualismo, na
escola'', sendo rejeitado pelos alunos que aderem aos fms e aos meios da competição e na falta de solidariedade é preparar o terreno para que amanhã
instituição, isto é, por aqueles com os quais a socialização foi mais eficaz. se lhes torne difícil erigir outro gênero de relações entre eles e, em particular,
O conhecimento, que tem sua origem na cultura, no comum por para que não sejam capazes de agir de forma solidária frente a seus
lj excelência, configura-se assim como uma forma de propriedade privada da qual empregadores. A submissão às relações de produção capitalistas encontra um
t os demais devem ficar excluídos. É medido individualmente, e só poderá fa- obstáculo não apenas na ação solidária de todos os trabalhadores, mas o
zer-se valer pessoalmente, em oposição aos outros. Os alunos encontram-se, encontra também, e notável, na organização formal de apenas uma parte dos
pois, na seguinte situação: embora sejam tratados e igualados como membros ocupados - os sindicatos, que por outro lado apresentam a contrapartida de
de categorias e coletivos, embora vivam em uma proximidade física com seus sua própria burocratização e inserção nas relações existentes, e outras
colegas que só é superada em alguns transportes públicos e embora organizações com base no local de trabalho - e mesmo na rede informal de
estabeleçam com eles relações cuja duração só é superada pelas relações relações que, por exemplo, propicia a resistência passiva à aceleração do ritmo
familiares mais imediatas, devem considerá-los e tratá-los como a estranhos, de trabalho. Desta perspectiva entende-se melhor a relevância para a escola,
se não como a elementos hostis. não apenas de impedir que a turma escolar aja como uma vontade coletiva, mas
também de destruir ou neutralizar os pequenos grupos de amizade que se
Outro aspecto da vida escolar (... ) é a solicitação recorrente de que formam em seu interior.
o estudante ignore os que o rodeiam. Nas classes elementares passa-se Embora a competição entre os alunos seja uma velha característica da
aos estudantes, com freqüência, um trabalho para ser realizado em sua educação, não se deve pensar que o desejo de obter a aprovação do professor
carteira, à qual se espera que dediquem suas energias individuais. está necessariamente associado ao desejo de sobressair. Na educação dos
Durante estes períodos de trabalho desestirnula-se, se é que não se jovens samoanos, por exemplo, desestimulava-se que se destacassem ou que
proíbe abertamente, as conversas e outras formas de comunicação entre fossem muito precoces (Mead, 1975). Sem sair de nossa própria história, não
os estudantes. Em tais situações, a advertência geral é a de que faças teu há traços de um estímulo claro à competição até o surgimento da pedagogia dos
próprio trabalho e não te envolvas com os outros. jesuítas. Algumas grandes mudanças foram necessárias posteriormente para
. Em certo sentido, pois, os estudantes devem tentar comportar-se que pudesse ser perseguida sistematicamente como objetivo, e entre elas cabe
como se estivessem sozinhos, quando o certo é que não estão. Devem destacar a passagem das escolas unidocentes às seriadas. Nas primeiras, a
manter a vista sobre seus papéis quando há rostos humanos que lhes diversidade de níveis juntava alunos de diferentes idades, entre os quais não
fazem sinais. Na realidade, nos primeiros anos de escola é infreqüente tinha sentido uma relação competitiva, e o próprio professor, para uma maior
encontrar estudantes um frente ao outro em redor de uma mesa enquanto, eficácia ou para aliviar sua carga, fomentava uma relação de colaboração (o
ao mesmo tempo, se lhes exige que não se comuniquem uns com os apoio dos maiores aos de menos idade e dos mais avançados aos atrasados).
outros. Se querem chegar a ser bons estudantes, estes jovens devem A introdução da escola seriada terminou com isto. Reunindo todos os alunos
aprender a estar sozinhos na multidão Uackson, 1968: 16). por idades escolares associadas à idade biológica e separando-os em maiores
e menores, propiciou a padronização dos critérios de avaliação e organizou a
O isolamento do aluno não é um simples subprodutro do estímulo à competição em torno deles.
competição com seus colegas. A escola coloca grande empenho em romper os
vínculos grupais entre eles. É já quase um lugar comum que, para o aluno em A divisão do trabalho
geral ou ao menos para os que pertencem a uma subcultura social oposta aos
'i valores da escola ou ao menos não suficientemente identificada com seus A escola reproduz sob múltiplas formas a divisão do trabalho imperante na
I valores, coloca-se constantemente a opção entre as demandas do professor sociedade. A mais elementar destas formas, embora não a mais importante, é

198 Mariano Fernândez Enguita A Face Oculta da Escola 199


sua própria divisão interna. A quase totalidade dos sistemas escolares Mas o papel mais importante da escola na reprodução da divisão do
apresenta durante o período obrigatório algum tipo de divisão entre ensino trabalho diz respeito a um aspecto mais preciso desta: a cisão entre trabalho
acadêmico e profissional, planejados, grosso modo, para conduzir os j·JVens, manual e trabalho intelectual, embora esta dicotomia necessite de algumas
respectivamente, a postos de trabalho de gravata ou de macacão - de precisões e matizações. A primeira é que a eloqüência de expressões ~orno
colarinho branco ou azul, se se prefere. Muitos apresentam ramos claramente "divisão entre trabalho manual e intelectual", "separação entre mao e
diferenciados, como o bacharelado e a formação profissional espanhóis da Lei cérebro'', etc., não deve esconder que uma separação estrita é impossível. Até
Geral de Educação de 1970, herdados já da legislação anterior. Outros
0 mais rotineiro trabalho manual requer o emprego de faculdades intelectuais,
substituem a segregação entre escolas com esses dois tipos diferentes de entre elas a atenção, a previsão, o processamento de informação, etc., e o mais
ensino por uma segregação dentro delas, como o sistema norte-americano do espiritual dos trabalhos intelectuais não só tem seu substrato em processos
tracking (que divide internamente a educaç_,ão em geral e profissional) ou o bioenergéticos, mas, se se deve traduzir em algo, exige alguma forma de
britânico do streaming (que divide os alunos por capacidades ou velocidades esforço manual ou físico, embora seja apenas o de articular um discurso falado,
de aprendizagem mas na prática conduz a tipos distintos de ensino, e:nbora passar as páginas de um livro ou escrever sobre um papel.
tenham a mesma denominação). Outros, enfim, permitem que os alunos se Pode-se pensar que a escola só se relaciona com essa divisão através da
diferenciem através da escolha entre um conjunto mais ou menos amplo de seleção dos alunos para um futuro educacional e profissional ou outro, pois o
matérias optativas. Estes mecanismos de divisão não são alternativos, mas tronco comum pode reunir elementos de formação teórica, prática, física,
acumuláveis, de forma que cada sistema escolar apresenta sua própria artística, etc., o mais acadêmico dos bacharelados pode incluir atividades
combinação deles. práticas e todo ramo de formação profissional compreende algum tipo de
A especialização, naturalmente, predomina sobretudo no ensino ensino teórico. Tudo isto é certo, mas não impede em absoluto a escola de
acadêmico pós-obrigatório e no ensino profissional. A estes bem se pode reproduzir a cisão ou, melhor dito, a polarização entre trabalho manual e
aplicar o velho aforismo que afirma que sabemos - que aprendemos - cada trabalho intelectual.
vez mais sobre cada vez menos. Provavelmente já foi dito em outros lugares e Esta cisão está claramente presente na or~anização curricular, mais con-
por outras pessoas tu~o o que há para dizer sobre os efeitos da ultra-espe- cretamente na compartimentalização dos conhecimentos e habilidades em ma-
cialização no ensino. E suficiente dizer que a especialização estreita é um térias. A escola pode oferecer simultaneamente e aos mesmos alunos física
obstáculo quase intransponível para a percepção e a compreensão de co:J.junto teórica e uma oficina de metal, mas o faz a partir da aceitação prévia da divisão
dos processos sociais e produtivos. entre teoria e prática. As matéri1s teóricas, naturalmente, têm derivações
A contradição entre a crescente universalidade do processo de produção práticas, mas para encontrá-las deve-se apelar à vida econômica e social fora da
capitalista e a crescente, absoluta e relativamente unilateralidade do trabalho escola. As atividades práticas, é claro, obedecem a um plano e, portanto, a con-
do operário individual, encontra seu correspondente educacional na siderações teóricas, mas estas são anteriores e, do ponto de vista dos alunos,
contraposição entre a univers!!lidade do saber e a unilateralidade das unidades alheias à sua implementação. O que a escola faz, na melhor das hipóteses, é
nas quais ele é transmitido. A medida que os campos da produção e o saber combinar muitas doses de teoria sem prática com algumas de prática sem teoria.
se ampliam, os do trabalho e da aprendizagem se estreitam. O trabalhador A formação dos professores, extremamente especializada (o generalismo
especializado enfrenta a organização global do processo produtivo como algo dos professores de ensino elementar é um falso generalismo, produto de uma
cuja unidade reside fora do próprio processo, visível apenas para quem o formação que, como a de seus alunos, não é mais que uma soma de fragmentos
organiza, para o capital; enfrenta-a como algo dado, pré-determinado, que goza dispersos, membra disjecta), leva precisamente a isto.. A comunicação_ ent~e
da legitimidade do fato dado e torna-se difícil questionar. Analogamente, a o professor de oficina e o professor de ciências, ou entre este e o de históna
unidade do saber só existe para o estudante como algo alheio, como uma é praticamente impossível, pois falam linguagens distintas e cada um
suposição supostamente encarnada em sua organização curricular; supõe-se desconhece inteiramente o campo do outro. A chamada habitual em favor da
que 0 saber transmitido é o que merece sê-lo simplesmente porque está interdisciplinariedade tem mais de reconhecimento de uma situação intuída
precisamente ali, isto é, porque é o saber escolhido e organizado pela mas dificilmente solucionável com as próprias forças que de eficácia, pois os
instituição delegada e legitimada pela sociedade para isto, a escola. A posição bons propósitos de uns quantos professores são uma débil arma contra o que
do aluno diante do saber e diante da relação em que se colocou com ele é tão foi criado por todo um sistema.
contemplativa e pa~siva como a do trabalhador diante da produção social e do Esta cisão e desconexão entre as matérias "teóricas" e as "práticas"
lugar que nela se lhe atribuiu. alenta nos alunos a idéia de que trabalho manual e trabalho intelectual são

200 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 201


irreconciliáveis. Em lugar de uma formação e uma atividade integrais longa campanha de separação das funções de concepção e execução,
encontram-se diante da situação de ter que decidir entre uma teoria irrelevante convertendo as primeiras em monopólio do capital e da direção e relegando aos
e uma prática carente de significado, isto é, entre duas opções simetricamente trabalhadores de base as segundas. A partir dessa conceptualização
parciais e unilaterais. compreende-se que um trabalho consistente na manipulação de dados n~o tem
Além disso, a associação entre a idéia do trabalho intelectual e a escola por que compreender uma dimensão de concepção, que pode ser ~m sunples
costuma adquirir um sentido forte que sobrestirna a ''intelectualidade'' do que trabalho de execução: podemos qualificá-lo, se isso nos agrada, de mtelectual,
se passa nas salas de aula. Na vida relacionamo-nos com as coisas, com outras mas só no sentido mais fraco do adjetivo.
pessoas e com dados concernentes a uma e outras. Na escola, a intensidade Salvo nos escalões superiores do sistema, aos quais só acedem alguns
e a freqüência das relações com os dados e as pessoas são elevadas, enquanto poucos, o trabalho escolar é essencialmente um trabalho de execução, embora
as da relação com as coisas é baixa. Poderíamos dizer que a escola é uma o que se execute sejam operações com os dados. A concepção prévia do
instituição cuja função manifesta é ensinar crianças e jovens a relacionar-se mesmo é algo que fica em mãos dos professores ou das instâncias de poder
com os dados - a manejar a informação -, cuja função latente é ensiná-los a que, da perspectiva dos alunos, se situam por detrás deles. A concepção do
relacionar-se com as pessoas as relações sociais - e na qual a trabalho é precisamente a determinação de seu produto e de seu processo, e
aprendizagem da relação com as coisas representa apenas uma função o procedimento que conduz a ela, e esta é a primeira coisa que a escola veda
secundária. a seu público.
Na realidade, o que crianças e jovens fazem constantemente nas salas de Através deste mecanismo, a extirpação dos elementos de concepção da
aula é manejar informação: neste sentido, o trabalho escolar é um trabalho organização e da prática cotidianas do trabalho escolar, preparam-se os jovens
intelectual. Mas, se assim o entendemos, então ''intelectual'' já não significa para trabalhos adultos pouco criativos, para renunciarem a sua criatividade no
necessariamente criativo, complexo, etc. A manipulação de dados pode trabalho. Por isso mesmo, esta só poderá buscar e encontrar espaços para sua
apresentar uma complexidade muito menor que a de coisas, como salta à vista expressão e desenvolvimento fora do trabalho, no consumo e no ócio. O
se comparamos o trabalho de uma mecanógrafa com o de um matrizeiro ou, de importante é que a ninguém ocorra algo diferente.
forma mais geral, os trabalhos rotineiros de escritório com os trabalhos
artesanais. A escola oferece uma versão tão degradada do trabalho intelectual
quanto do trabalho manual. O aluno que cursa o bacharelado está bastante livre A submissão a uma avaliação alheia
para ver-se a si mesmo como o pensador de Rodin ou como um êmulo de
Leonardo da Vinci, mas por enquanto não está sendo preparado para muito A escola é um lugar no qual crianças e jovens são constantemente
mais que para ocupar uma mesa em um escritório. Ao contrário, é certo que avaliados por outras pessoas: ao final de seus estudos, de cada nível
o aluno de formação profissional verá a imagem de seu futuro mais no pedreiro educacional de cada ano escolar, de cada trimestre, de cada mês ... A avaliação
que vê _nas construções que em Benvenuto Cellini, mas tudo isto é é, de fato, ~m mecanismo onipresente na cotidianeidade das salas de aula, pois
simplesmente parte do jogo; à formação separada para trabalhar em relação tem lugar formal ou informalmente - mas sempre com efeitos - cada vez que
com os dados ou com as coisas se acrescenta uma pátina ideológica que, \ o aluno responde ou deixa de responder uma pergunta do professor, mostra-

l
identificando o primeiro com o trabalho criativo e de prestígio e o segundo com -lhe seu trabalho ou torna visível seu comportamento, além da lista
o trabalho rotineiro e ao alcance de qualquer um, satisfaz o ego de todos os interminável de exercícios, provas, testes e outros dispositivos específicos para
futuros trabalhadores dos setores terciário e quaternário que, embora ganhem esse fim. À avaliação do trabalho e do comportamento escolares juntam-se,
menos dinheiro que os operários manuais, gostam de ver-se a si mesmos além disso, o emprego de provas psicológicas ou psicométricas, que constitui
como membros da "classe média", mas nada mais - salvo que, de passagem, em grande parte a base da suposta cientificidade do empreendimento de se
também reconforta o ego dos professores. educar, selecionar e certificar os alunos.
Chegados a este ponto, torna-se mais útil e explicativa a distinção entre Na escola aprende-se a estar constantemente preparado para ser medido,
concepção e execução. Em princípio, todo trabalho humano é uma unidade das classificado e rotulado; a aceitar que todas nossas ações e omissões sejam
duas, mas .em sua organização capitalista - e, por certo, na "socialista real", suscetíveis de serem incorporadas a nosso registro pessoal; a aceitar ser
mas este não é nosso tema agora - ela se vê cindida. O longo caminho que objeto de avaliação e inclusive a desejá-lo. O agente principal do processo de
vai desde as origens da divisão manufatureira elementar do trabalho até os avaliação é o professor, mas a ele se somam os corpos examinadores externos
mais sofisticados estudos de movimentos e tempos não é outra coisa que uma (exames de seletividade para o acesso à Universidade na Espanha, exames
203
202 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola
públicos na Inglaterra e no País de Gales, exames de Estado na França), os mesma idade e nas mesmas circunstâncias. A escola, na realidade, joga
especialistas em campos vizinhos da educação, introduzidos nas escolas com sua auto-estima. Cada aluno está exposto e é vulnerável aos juízos
(psicólogos, orientadores, assistentes sociais), e a pletora de visitantes dos adultos com autoridade e de seus iguais, aqueles que se parecem a ele
ocasionais a elas enviados pelos organismos públicos e de pesquisa. em muitos aspectos. Se a criança em casa se pergunta se é querida, o
Mais importante ainda é a incorporação dos demais alunos à avaliação de aluno se pergunta se é uma pessoa digna de consideração. Em ambos os
cada um, pois, dado que a interação entre o professor e o aluno se dá quase cenários pode encontrar algum tipo de resposta observando como o
sempre em público, ninguém escapa à oportunidade de ser avaliado explícita ou tratam os demais (Dreeben, 1968: 38).
implicitamente pelos demais nem se vê privado de lhes pagar na mesma moeda.
Embora se suponha que a avaliação verse somente sobre as dimensões
Os colegas de aula unem-se com freqüência ao ato. Às vezes, a classe cognitivas da educação, é óbvio que outros aspectos intervêm fortemente.
em seu conjunto é convidada a participar da avaliação do trabalho do Wood e Napthali (1975) assinalam seis critérios informais utilizados pelos
estudante, como quando o professor pergunta: "Quem pode corrigir a professores na avaliação: o interesse do aluno na matéria, sua habilidade na
Billy?", ou: "Quantos crêem que Shirley leu esse poema com muita mesma, sua capacidade geral, seu comportamento, a qualidade e a limpeza de
expressividade?". Outras vezes, a avaliação tem lugar sem que a peça o seu trabalho e sua participação no contexto de aprendizagem. Apenas o
professor, como quando um erro crasso faz romper os risos ou uma segundo e o terceiro, segundo a ordem exposta, são critérios propriamente
., atuação brilhante ganha uma aplauso espontâneo Gackson, 1968: 20) . cognitivos, enquanto os demais pertencem mais à esfera do comportamento. O
I

!
fato de que os sistemas escolares, com freqüência, avaliam os traços pessoais
,i
Foi dito que em cada um de nós há três pessoas: a que cremos que somos, e o comportamento - notas em higiene, pontualidade, obediência, capacidade
a que os demais crêem que somos e a que cremos que os demais crêem que de trabalho em equipe, etc., etc., - independentemente do rendimento
somos; a quarta, a que realmente somos, ou não existe ou é desconhecida e cognitivo, não deve levar a pensar que as notas propriamente acadêmicas
inacessível. A escola ocupa-se manifestamente das três primeiras, embora seu estejam livres da influência dos aspectos não cognitivos. Para o professor,
discurso idealista se refira permanentemente à quarta. O relevante nela não é torna-se pouco menos que impossível não se deixar influir, se é que o tenta,
o que cada qual pensa de si mesmo, mas o que outros pensam da gente. Entre pelo comportamento do aluno, medido pelo termômetro das exigências da
estes outros, o mais poderoso - ou mais "significativo", como diria o instituição e das conveniências da gestão do grupo-classe. A maioria
comportamentalismo social - é o professor, que está investido de autoridade simplesmente incorpora de bom grado esses critérios às notas acadêmicas.
pela instituição e cujo ditame produz importantes efeitos no plano da estrutura Criticaram-se as formas tradicionais de avaliação por centrarem-se no
formal da escola e, em geral, fora dela. O juízo dos demais não é tão produto em vez de no processo (Cicourel, 1974), mas a questão não é muito
importante, mas não deixa de ter relevância: primeiro, porque tende a refletir clara. Em primeiro lugar, porque, como já se disse, os professores têm em
e a reforçar o da autoridade; segundo, porque também produz efeitos na rede conta aspectos comportamentais - e estes aspectos são exatamente o
de relações informais. Além disso, se as teorias da rotulação (Rist, 1977), da processo - ao atribuir as notas acadêmicas, num grau muito mais elevado do
profecia que se auto-realiza (Merton, 1970) e do efeito Pigmaleão (Rosenthal e que oficialmente se reconhece. Em segundo lugar, porque o próprio resultado
Jacobson, 1968) estão corretas, a conformação dessas nossas segunda e é a expressão de um processo. A obtenção de um bom resultado escolar passa
terceira pessoas teria uma grande influência sobre a primeira, a que cremos inevitavelmente pelo ajuste do próprio comportamento às exigências escolares:
que somos, obtendo-se assim a harmonia em nossa trindade anterior. A por ficar estudando em casa em vez de ir jogar com os amigos, etc. Em
instituição escolar é o cenário no qual aprendemos a substituir nossa auto- terceiro lugar, e sobretudo, porque, em consonância com a primeira
estima pela avaliação que os demais fazem de nós, a conformar a primeira à se- observação, voltar a atenção para o processo é precisamente voltá-la sobre o
gunda ou, o que dá no mesmo, a deixar que os outros decidam nosso valor. comportamento. Quando se eleva a nota de um aluno porque empenhou-se
bastante, embora seus resultados sejam ruins, ou se reduz a de outro porque
Uma vez que muitas atividades na sala de aula são julgadas em não se esforça, embora seus resultados sejam bons, se está reconhecendo que
público, o aluno é bombardeado com mensagens dizendo-lhe em que o que preocupa a escola,' nos alunos, é o comportamento ou o caráter, mais
medida elas foram bem feitas e (mediante um pequeno salto inferencial) cue o conhecimento ou as capacidades.
em que medida ele é bom. Se não é suficiente para isso a palavra do . Neste sentido, algumas fórmulas inequivocamente consideradas
professor, não tem mais do que verificar o desempenho de outros da "progressivas", tais como a chamada avaliação contínua, são, na realidade,

204 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 205


instrumentos de dois gumes. A avaliação contínua busca pretensamente resultado a distribuição dos alunos em atrasados, em dia, e adiantados. O que
eliminar a incerteza· do exame e basear a nota fmal no período total de importa não é o resultado em si, mas se foi obtido ou não no tempo adequado.
aprendizagem, não em alguns poucos desempenhos isolados, realizados em Mas o resultado em relação com o tempo, o produto obtido dividido pelo
situações de ansiedade. Mas, ao mesmo tempo, ela tira do aluno a tempoo invertido em obtê-lo, é a fórmula da produtividade no mercado e,
possibilidade de desconectar-se das exigências da escola, como acontece no sobretudo, na organização do trabalho no interior da empresa capitalista.
exame tradicional, salvo nesses momentos de provas parciais ou da prova fmal. Por outro lado, a avaliação, que com o transcurso do tempo vai adquirindo
A avaliação contínua está para o exame como a ética protestante da formas mais sofisticadas, com as quais se pretende medir mais e mais novos
predestinação está para o recurso católico do arrependimento no último aspectos e fatores, termina por confundi-los todos e mostrar assim, outra vez,
instante. No catolicismo, o cristão pode permitir-se uma vida pecadora até o a redutibilidade e a redução de fato do trabalho escolar concreto a trabalho
momento da verdade, assim como no sistema de avaliação tradicional o abstrato. O procedimento habitual, baseado em um programa subdividido em
estudante pode arriscar-se a ignorar as exigências da escola até o dia do urna longa série de seções, um exame aleatório e urna nota normalizada,
exame. Mas, assim como a doutrina da predestinação obriga o cristão a suprime as diferenças entre os diferentes componentes do conteúdo do
mostrar em todo momento que se encontra entre os escolhidos de Deus, a en~ino, igualando todos os itens da matéria examinada em um sistema contável
avaliação contínua força o estudante a confirmar a todo instante que figura entre uniforme. A nota global, que geralmente não é senão a nota média, faz a
os escolhidos do professor. Dito de forma breve, a avaliação contínua é o mesma coisa com as diferentes matérias que compõem o programa de um
controle permanente. curso ou de qualquer outra urúdade de tempo tornada como base para a
Esta afirmação parecerá menos forte se se têm em conta outra dimensão avaliação. Trata-se de uma igualdade que não busca a equivalência na utilidade
do problema. As funções da avaliação são potencialmente duas: o diagnóstico dos diferentes conteúdos, mas o tempo empregado para assimilá-los.
e a classificação. Da primeira se supõe que permita ao professor e ao aluno
detectar os pontos fracos deste e extrair as conseqüências pertinentes sobre
onde colocar posteriormente a ênfase no ensino e na aprendizagem. A segunda A distribuição de recompensas
tem por efeito hierarquizar os alunos, estimular a competição, distribuir
desigualmente as oportunidades escolares e sociais e assim sucessivamente. A A escola apresenta também um conjunto peculiar de critérios de
escola prega em parte a avaliação com base na primeira função, mas a emprega distribuição das recompensas, sejam positivas ou negati~s, próximo ao da
fundamentalmente para a segunda. Do ponto de vista do diagnóstico, a estrutura ocupacional, mas distante do da família. E justamente em
avaliação contínua não pode ser objetada e é altamente desejável, mas do ponto comparação com o da família que melhor se pode compreender sua
t •• de vista da classificação dos alunos pode tornar-se um instrumento de controle especificidade.
I.'
muito mais poderoso e, portanto, mais opressivo que a avaliação pontual, isto Na família, por exemplo, exercem um papel essencial as características
é, a tradicional. inerentes, concretamente a idade e o sexo. O desempenho que se espera e
Mas o mais notável das formas de avaliação na escola é que levam a marca que, portanto, será aprovado - e sua carência ou as atitudes alternativas
indelével da organização econômica de nossa sociedade. Não existe nenhum desaprovadas - de cada um de seus membros depende em grande medida
critério absoluto que informe ao professor sobre o que um aluno deve aprender dessas características, que não podem ser alteradas em nenhum caso (o sexo)
em tal ou qual idade escolar ou biológica. O que a escola faz é converter a ou -só podem sê-lo pela passagem do tempo (a idade), mas que não dependem
tendência central, provavelmente média, em norma. A instituição e seus de forma alguma da vontade nem da atividade dos indivíduos. Na escola, em
agentes sentem-se tranqüilos quando um determinado nível de exigência troca, espera-se principalmente o rendimento - seja lá o que isso signifique,
configura as notas dos alunos seguindo mais ou menos uma curva de e com certeza não é apenas o rendimento cogrútivo -, embora existam alguns
distribuição normal, com a maioria delas em torno de valores médios e caudas mecanismos secundários para nútigar seus efeitos.
mais ou menos simétricas nos extremos. É o que poderíamos chamar a Na farru1ia, as tarefas e responsabilidades atribuídas às crianças e jovens
"síndrome do sino": se os repr~vados são muitos, abaixa-se o nível; e se todo não apenas dependem de sua idade e do grau de maturidade que teoricamente
mundo é aprovado, eleva-se-o. E exatamente o mesmo critério que emprega lhe corresponda, mas de sua capacidade real tal como esta se rnarúfesta na
uma empresa ao fixar as normas de produtividade no trabalho. prática. Se a tarefa colocada excede essa capacidade, os parentes adultos
No fmal das contas, o que se mede não é outra coisa que o rendimento. concluem que a tarefa foi mal escolhida. Na escola, pelo contrário, atribuem-se
A expressão acabada da avaliação é a promoção ou não para outro nível, e seu tarefas padronizadas a todos os alunos em função de um suposto modelo geral
206 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 207
e, se as capacidades de algum deles fica abaixo do exigido, não existe que conta não são as possibilidades dos alunos, mas sobretudo, e em primeiro
estratégia compensatória nem revisão da norma de rendimento, mas exclusão lugar, as exigências da instituição, que são fixadas em função de outros
ou certificação de "fracasso" daquele que falhou. critérios.
Na família, a igualdade nas gratificações costuma ser um objetivo em si Mas a analogia é oportuna com relação à distribuição de recompensas. ''A
mesmo. De qualquer forma, supõe-se que as necessidades físicas e afetivas cada qual segundo suas necessidades'' é a fórmula de sua distribuição no seio
dos filhos - e a manutenção física e a proteção afetiva são os principais da familia, a qual, não por acaso, em sua forma primitiva, Morgan já chamara
recursos e, portanto, as principais gratificações distribuídas pela familia - de ''comunismo de vida''. ''A cada qual segundo seu trabalho'' é a fórmula
devem ser fornecidas independentemente de seu desempenho. Qualquer teórica, mas apenas teórica, da distribuição na sociedade capitalista. Seria a
gratificação diferenciadora reduzir-se-á normalmente a recursos ou fórmula efetiva de um igualmente teórico mercado de competição perfeita, e
necessidades marginais: ser enviado à cama sem sobremesa é mais duro para talvez por isso Marx a qualificou de ''distribuição burguesa'', que se
a gula que para o apetite e para o ego que para o estômago. Por conseguinte, conservaria no socialismo corno figura de transição. Sua expressão, não já no
desempenhos muito diferentes conduzem . a gratificações praticamente mercado, mas no interior da empresa produtiva capitalista é a suposta
similares. retribuição dos fatores de produção, incluído o trabalho, a sua taxa de retorno,
Na escola, as coisas passam-se exatamente ao contrário. A principal ou seja, segundo sua contribuição à sua produtividade marginal.
recompensa a ser atribuída, as notas e os títulos escolares, é distribuída de Mas, em realidade, o que caracteriza a distribuição da riqueza tanto no
forma altamente diferenciadora em resposta a pequenas diferenças no mercado, que sempre é "imperfeito" -imperfeito do ponto de vista da teoria
desempenho dos alunos. Com base numa igualdade formal na partida, espera- econômica, mas perfeito do ponto de vista da prática dos que levam a parte do
-se e estimula-se a desigualdade nos resultados. leão -, corno no interior da produção coletiva, na empresa, é que os
diferenciais nas retribuições dos indivíduos - ou outras unidades econômicas
A professora se interessa (... ) mais pelo resultado que pelas - são proporcionalmente muito maiores que os diferenciais em suas
"necessidades" emocionais das crianças. Não se dedica a suprimir a contribuições. Não há proporcionalidade entre urnas e outras, exceto se
distinção entre bons e maus alunos, mesmo quando o pequeno ]oh.nny tomamos corno tal a relação entre urna progressão aritmética - a que separa
sofra por não poder estar entre os bons. (... ) A mãe, pelo contrário, deve as diferentes contribuições, as produtividades individuais - e urna progressão
dar prioridade primeira às necessidades de seu filho, independentemente geométrica - a que separa os rendimentos.
das atitudes deste último. A escola, urna de cujas funções é preparar os indivíduos para a aceitação
(... ) É essencial (... ) que o professor não seja uma mãe para seus desta ordem de coisas corno natural, não se limita a registrar as diferenças e
alunos e insista em regras válidas para todos, assim como em atribuir recompensas com um critério de proporcionalidade. O diferencial que
recompensas diferentes segundo o êxito obtido. Acima de tudo, a separa entre si as recompensas alcança de imediato urna amplitude muito
professora deve ser o agente que suscita e legitima uma diferenciação da maior que a do diferencial nos desempenhos que levaram a elas, e a própria
turma escolar em função dos resultados escolares (Parsons, 1976: 56). distribuição desigual daquelas altera a igualdade formal de partida facilitando o
caminho de uns e obstaculizando o de outros.
Este discurso recorda, curiosamente, a diferença entre o socialismo e o
comunismo, ou entre as supostas duas etapas do socialismo, formulada por A condição fundamental subjacente ao processo é provavelmente a di-
Marx (1970) na Crítica do Programa de Gotha. A primeira dessas etapas, visão dos valores comuns entre os dois sistemas adultos referidos: a família
segundo Marx, ver-se-ia sucintamente expressada na frase: "De cada qual e a escola. Neste caso, o ponto principal é urna avaliação dividida do rendi-
segundo suas possibilidades (ou capacidades), a cada qual segundo seu mento. Isto acarreta, acima de tudo, o fato de se admitir a justiça de conceder
trabalho"; a segunda, por sua parte, seguiria o lema: "De cada qual segundo gratificações diferenciais de acordo com os diferentes níveis de rendimento,
suas possibilidades, a cada qual segundo suas necessidades''. O primeiro na medida em que as oportunidades tenham sido repartidas eqüitativa-
termo de ambas ("de cada qual segundo suas possibilidades") tem sua mente, assim como a justiça de que estas gratificações dêem aos que têm
aplicação na esfera da fami1ia, onde, efetivamente, ao menos no que concerne êxito oportunidades ainda maiores. A classe da escola elementar parece
às crianças - diferente é a situação das mulheres adultas -, não se pede a encarnar fundamentalmente a virtude americana primordial da igualdade de
ninguém mais do que aquilo que se supõe possa fazer. Entretanto, carece de oporturúdades, no sentido de que coloca ênfase ao mesmo tempo na
aplicação no caso da escola, onde - exceto, talvez, na educação especial- o igualdaõe de partida e no rendimento diferencial (Parsons, 1976: 57).

208 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 209


1
Ii
para a segunda: post hoc, ergo propter hoc. Assim parece, mas não é, pois
i Assim entendida, a "igualdade de oportunidades" não é uma simples
''virtude americana'' mas, virtude ou vício, uma característica do mecanismo até os escolásticos sabiam que o que ocorre depois não é necessariamente
de apropriação e distribuição da riqueza na sociedade capitalista. A conseqüência do que ocorreu antes. Entretanto, a aparência é suficiente para
aprendizagem da virtude nas salas de aula passa aqui por ensinar os alunos a dotar as diferenças sociais de uma legitimidade baseada nas diferenças
perder de vista qualquer critério, não já de igualdade, mas inclusive de detectadas, ou criadas, mas, em todo caso, devidamente certificadas e
proporcionalidade no que concerne à distribuição das oportunidades de vida e santificadas pela escola.
do acesso a bens desejáveis. O que ocorre na realidade é que a escola produz essas diferenças. Ao
estabelecer uma norma comum para todos os alunos, forçando ao mesmo
tempo, até onde é possível, sua capacidade e disponibilidade para o trabalho
A consciência estratificada escolar, gera necessariamente uma diferencição em torno do rendimento.
Como, além disso, a norma é extraída daquilo que constitui a subcultura, a
A relação entre educação e estratificação social é bem conhecida - ou, linguagem, os valores, as pautas de comportamento, a atitude perante a escola
pelo menos, tem sido abundantemente discutida - no que concerne à e o horizonte educacional dos grupos sociais privilegiados, o resultado consiste
associação e às relações de causalidade entre uma e outra em termos de em grande medida em ''eleger os eleitos'' (contribuindo assim para reproduzir,
distribuição individual das oportunidades escolares (anos e tipo de educação) não apenas a estrutura de classes da sociedade, mas também a pertinência
e sociais (status ocupacional, rendimentos, etc.). Não nos deteremos aqui individual à mesma). Esta é
neste aspecto, em vez disso vamo-nos centrar no papel exercido pela escola na
aceitação desta estratificação e, em geral, nas diferenças sociais através de sua a forma muito particular segundo a qual, a escola primária, confundindo
própria estratificação interna. sob o nome de normas o ideal e a média, impõe a todos como um ideal
Há uma forma óbvia para o pesquisador, embora opaca para a consciência a realizar, os resultados médios das crianças da burguesia. (... )
social, na qual a escola contribui para isto. Apresentando seus mecanismos e No fim das contas, ao impor a todos os cursos escolares o universo
critérios de seleção como produto lógico, científico e indiscutível da estrutura social, a linguagem, a história de alguns e ao rejeitar todos os elementos
interna do saber, no singular, e de sua transmissão, acostuma os alunos à idéia que poderiam permitir que os outros compreendessem sua situação
i
'I de que sua classificação e hierarquização é ponto menos que inevitável. Daí a efetiva de classe, a escola produz não apenas seus bons alunos, mas
ti também, e sobretudo, seus idiotas (Baudelot e Establet, 1976: 182, 192).
se pensar que também o são as diferenças de classe, ocupação, rendimentos,
prestígio e poder na sociedade só há um passo, e não importa muito se os
jovens chegam a isso por si sós ou se seus professores se esforçam por Uma vez obtida essa primeira diferenciação, o mecanismo de estratificação
convencê-los de que não valerão na sociedade nem mais nem menos do que deixa de consistir apenas em uma seleção cultural que coloca a uns em
aquilo que demonstraram valer na escola. O habitual é que ocorram as duas vantagem e a outros em desvantagem, a uns comodamente instalados na
i coisas. harmonia entre sua cultura de origem e a da escola e a outros capturados e
1 Esta transferência de critérios e de escalas de valor tem sua base na forte cindidos na contradição entre uma e outra, a tomar a forma de uma
l
j. associação entre educação e posição social e na importância formal concedida discriminação sistemática, quando os alunos são separados em ramos
às credencias educacionais no mercado de emprego. Que tal associação se escolares diferentes para que se transmitam saberes diferentes e para serem
j' deva a uma relação causal ou a uma terceira causa é um outro problema. submetidos a práticas diferentes (o que não impede que, para os que
Embora o debate continue e não apresente sinais de chegar a termo, os permanecem nos ramos nobres apesar de não virem da origem social
resultados da pesquisa apontam para a segunda hipótese, isto é, para a adequada, persistam os mesmos mecanismos que na escola comum).
constatação de que uma origem social adequada é a causa tanto de uma boa Este é o sentido último da tão mencionada diferença entre "mobilidade
educação quanto de um bom destino social, embora o primeiro efeito se patrocinada" e "mobilidade competitiva" (Tumer, 1960). Supõe-se que o
acrescente, por sua vez, ao segundo. primeiro conceito corresponde aos sistemas escolares em que se produz uma
Mas, para o senso comum, as coisas não são tão evidentes, o que é segregação rápida ou desde o primeiro momento, entre os alunos (o
evidente é o contrário. Se, em geral, tudo o que consegue uma boa educação, bacharelado e a formação profissional na Espanha, antes da Lei Geral de
consegue mais adiante uma boa posição social, parece sensato inferir-se que Educação de 1970 e os atuais sistemas escolares dos países centro-europeus
há uma relação de causa e efeito e que a direção da mesma seja da primeira de língua alemã, por exemplo) e o segundo aos sistemas unificados nos quais

210 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 211


todos os alunos se mantêm longo tempo juntos (o sistema espanhol depois da próprios dos cursos que conduzem à formação profissional e ao trabalho,
citada Lei, e mais ainda com as reformas em curso, ou as escolas unificadas representam uma relação passiva com o saber e uma atitude meramente
dos países anglo-saxões, também como exemplos). No primeiro caso, a receptiva perante a ideologia. As redações e dissertações, os problemas
sociedade elege desde o primeiro momento aqueles que gozarão das melhores matemáticos, a interpretação e o debate, típicos dos cursos preparatórios para
oportunidades escolares e sociais; no segundo, deixa que a seleção tenha lugar o secundário acadêmico e os estudos superiores, expressam e propiciam uma
a partir dos próprios alunos e através de uma prolongada competição entre relação parcialmente ativa com o conhecimento e uma atitude, senão criativa,
eles. Naturalmente, o primeiro procedimento corresponderia a uma sociedade ao menos manipulativa diante da ideologia.
mais tradicional, fechada e classista, e o segundo a uma sociedade mais Tanguy (1985) assinalou algo muito parecido ao comparar a organização
moderna, aberta e meritocrática. Na realidade, a diferença consiste dos horários, a distribuição do tempo entre as matérias e as formas de trabalho
simplesmente em que, nos sistemas escolares de "patrocínio", a sociedade, escolar no secundário acadêmico e no profissional, estimulando o primeiro
ou os grupos que detêm maior poder, declaram manifestamente seus uma relação pessoalmente direta e criativa com o conhecimento escolar e o
propósitos e os perseguem sem disfarces no terreno da educação; em troca, segundo uma relação subordinada, mediatizada sempre pela presença e pela
no segundo, recorre-se ao subterfúgio de se apresentar como uma competição autoridade do professor. Anyon (1980) também mostrou as diferenças entre
límpida o que realmente é uma competição viciada, na qual uns partem com escolas do mesmo nível e ramo, mas com públicos diferentes de classe
notável vantagem com relação aos outros. A primeira variante é mais segura, operária, classe média, profissionais bem colocados e de elite.
mas gera descontentamento nos manifestamente excluídos; a segunda Isto matiza o que temos afirmado a respeito das relações sociais da
apresenta o risco de que não haja garantias totais para os que devem obter o educação em geral, e em particular o colocado no capítulo anterior em torno
êxito nem obstáculos insolúveis para os que não deveriam fazê-lo, mas tem a da relação do aluno com o produto e o processo de seu trabalho escolar, mas
seu favor uma grande capacidade de fomentar o consenso social tanto em torno não há por que alegrar-se. O paradigma da socialização escolar para o trabalho
da escola quanto em torno da estrutura da sociedade em seu conjunto. assalariado é a educação obrigatória e comum e, naturalmente, a formação
A estratificação social manifesta-se também como uma classificação profi~sional. Mas nem todos se conformam com tão pouco.
hierárquica dos saberes. As crianças aprendem desde o princípio que há A medida que se sobe de nível no aparato educacional, a relação do
saberes nobres e outros que não o são tanto, que a matemática ou as línguas estudante com o conteúdo e o método de seu trabalho se torna mais flexível.
clássicas têm mais valor que as oficinas de metal ou madeira. Esta hierarquia Se no começo só havia um ensino comum e matérias obrigatórias, ao
está presente de diversas formas: desde a importância cultural que lhes é aproximar-se do fmal pode-se optar entre diferentes ramos e carreiras e
concedida, até seu peso relativo na avaliação global ou seu lugar no horário adquire maior importância interna a possibilidade de opção. Embora seja
escolar, passando pelas facetas sociais a que se associam, o professorado sempre dentro de uma ordem, os exercícios repetitivos são substituídos por
distinto que os ministra, etc. Esta hierarquia dos saberes, mais ou menos tarefas mais criativas, o livro de texto por múltiplos livros de consulta, o
próxima ou diferente das que ordenam os alunos nos distintos meios sociais, doutrinamento pela discussão, o trabalho sob a vigilância do professor pela
é implicitamente, uma avaliação e um ditame sobre a cultura a que pertencem atividade pessoal, a submissão pela iniciativa. Mas ocorre que, os que então
e, portanto, sobre eles próprios. Quando são separados uns dos outros para ainda permanecem no sistema escolar não se encaminham já para posições
serem conduzidos a diversos ramos do ensino, aquele que lhes toca sanciona subordinadas na organização da produção.
oficialmente a medida de seu valor pessoal de acordo com a escola. Os grupos sociais privilegiados têm também a oportunidade de escapar
A hierarquização não atinge somente os conteúdos dos diversos ramos do relativamente aos males comuns da escola comum mediante o recurso às
ensino, mas também os métodos pelos quais são transmitidos e adquiridos. escolas particulares e até monopolizando de fato algumas escolas públicas que
Assim, ao analisar as seções do ensino secundário na França, Baudelot e se prestem para isso por sua localização geográfica, já que as classes e outros
Establet (1976) encontraram, em geral, duas orientações pedagógicas grupos sociais não se distribuem de forma homogênea no espaço. Além disso,
diametralmente opostas: propedêutica e de tradição jesuítica uma, baseada no é altamente provável que, estendendo os valores e pautas de comportamento
rendimento, na emulação pessoal, na superação, no culto ao livro; próprios de sua particular experiência no trabalho - no qual gozam de maior
pretensamente "progressiva" e "concreta" a out10., apoiada na repetição, na autonomia, liberdade de iniciativa, etc. - a outras facetas da vida social, entre
organização do conteúdo em círculos concêntricos, em uma certa adaptação elas a sua idéia sobre a educação que querem para seus filhos, os pais
passiva ao aluno, ou seja, às diferenças entre os alunos, e na inércia. Os pertencentes a esses grupos demandem uma pedagogia mais aberta, seja por
ditados, os exercícios de cálculo aritmético, a aprendizagem memorística, tão uma mera transferência passiva de tais valores e pautas de uma esfera a outra,

212 Mariano Fern.ández Enguita A Face Oculta da Escola 213


seja por uma razoável opção em função do _tipo de trabalho qu~ se supõe uruco responsável por sua sorte. Pode .ser que esta estivesse lançada de
des~mpenharão amanhã, seja por ambas as co1sas. Nascer na família adequada antemão, mas, tal como no mito de Er, em que Deus era inocente e as pobres
não é apenas uma questão de rendimentos. . _ . . almas responsáveis por um destino previamente decidido mas para elas
A escola, pois, produz e reproduz a estratificaçao social, por sua ~ealida~e desconhecido, aqui o indivíduo é o único responsável por seu êxito escolar e
interior e por seus efeitos, em um duplo sentido. _P~im~iro, porq~e diferenoa suas subseqüentes oportunidades sociais, uma vez que a escola é, por
previamente seu público de acordo com_ as ~XIgencJ.as est~bficadoras ~a definição, inocente.
sociedade como ponto de destino. ContnbUl, ass1m, para produzrr e _reproduzir
a existência de classes sociais, grupos ocupacionais e outras categonas em que Há degraus suficientes para que cada qual possa subir uns poucos. As
está cindida a sociedade. Segundo, porque distribui os indivíduos entre os séries escolares são bastante simples no início, nos países ricos,
diferentes estratos escolares ou os joga nos diversos estratos sociais de acordo conseguindo ultrapassá-las, assim, quase todos. Quando o caminho se toma
com a divisão já existente na sociedade como ponto de partida, i~to ~·- por~~e difícil, já se aprendeu a lição: há igualdade de oportunidades, mas
tende a enviá-los ao mesmo lugar de onde vêm, fazendo-lhes segurr o 1tinerar~~ simplesmente os homens não são todos iguais. A escadaria do trabalho
educacional comparativamente mais de acordo com seus extremos Ja funciona do mesmo modo. Exceto aqueles que não se desenvolveram bem na
conhecidos. Contnbui assim, também para reproduzir geracionalmente. a escola, todos os demais sobem algum que outro degrau. Depois os pontos
pertinência social dos indivíduos, isto é, a converter a origem social em des~o de descanso já duram mais tempo. As pessoas começam a envelhecer. Já não
social. Certamente, seus méritos prestidigitadores não residem neste detxar importa tanto quanto antes (Reimer, 1975: 64).
as coisas como estão, o que não parece muito difícil, mas em fazer qu~, no
caminho, todos se convertam à fé meritocrática e estejam contentes com 1sso. O registro global dos cadáveres que a escola deixa pelo caminho -
cadáveres simbólicos, claro, embora também alguns reais - é espetacular, mas
a ele se chega como resultado de um lento gotejar. Este ano repetem cinco
O processo de dissuasão estudantes do grupo, no ano passado tiveram que fazê-lo quatro e no próximo
i serão três. Um, com boas notas nas outras matérias, afundou-se na
I
I,
I Aquilo que da perspectiva do longo prazo e dos grandes agregados de matemática; outro, que era bom em matemática, não se deu bem com a física;
categorias sociais aparece de uma forma, bem pode aparecer de outra do pon~o um terceiro foi bem em ambas, mas não teve sorte com o latim ou com a
de vista da experiência pessoal vivida. Este é o caso do processo de exclusao história. Cada caso aparece como uma combinação específica de êxitos e
J il
e seleção na escola. Se da primeira perspectiva citada o faz como um processo fracassos parciais, pontos fortes e fracos, sucessos e insuficiências. O
de reprodução social, da segunda apresenta-se como êxito ou fracasso pes_soal. resultado final é a exclusão, mas a dispersão casuística reforça a idéia de que
A ideologia -escolar da igualdade de oportunidades esteve desde as ongens se trata de problemas individuais, de que a escola não pode ser proclamada
' '
da escolarização de massas, e continua estando hoje, associada a uma culpável.
economia da escassez. Uma vez que o que está em jogo não é a educação por Depois de tudo, se uns não o conseguem, deve ser responsabilidade sua,
si mesma, sobre a qual bem poder-se-ia argumentar e ser aceito por todos que já que outros o conseguiram. No fundo, espera-se de todos, e em especial dos
deve ser igual para todos, conduzir aos mesmos resultados em termo~ de primeiros, que assumam o que R. H. Tawney 0951) chamava "a filosofia do
desenvolvimento pessoal e acesso à cultura; uma vez que não se trata di~so, girino'', de acordo com a qual estes simpáticos bichinhos deveriam aceitar sua
mas do acesso às posições sociais mais desejáveis - o que converte o JOgo habitual negra sorte porque alguns dentre eles chegarão a converter-se em rãs.
num litígio -, aceita-se com naturalidade a aplicação à escola da velha máxima O grande empreendimento da seleção pode ser levado· a cabo pela escola
evangélica: muitos serão os chamados, mas poucos os e~olhidos. mediante a paulatina eliminação dos não elegíveis, mas com freqüência não é
Isto poderia ser visto por todos os rejeitados como uma forma de preciso chegar a isso. O mecanismo pode funcionar também à maneira do
exclusão mas a escola e a ideologia meritocrática que a rodeiam são "esfriamento" das expectativas pessoais descrito por Clark (1960). Quando
notave~ente eficazes no empreendimento de apresentar isso como o simples diante do aluno se acumulam os pequenos fracassos, as indicações de que não
resultado final do conjunto dos desempenhos pessoais. Tratando a todos de vai conseguir ir muito mais longe, chega o momento de retirar-se
modo formalmente igual e individualizando provas, medições, vereditos e discretamente e sem escândalo. Em acréscimo, é provável que os imperativos
sentenças - embora aqui a sentença costume ser anterior ao veredito, _como de saúde do próprio ego aconselhem oferecer a si mesmo e aos demais
na justiça da Rainha Vermelha -, a escola faz com que cada qual se smta o qualquer explicação diferente da real, de forma que cada qual carrega sua cruz
214 Mariano Fernández Enguita 215
A Face Oculta da Escola
interior e procura que não a vejam os outros; a soma dessas atitudes bem pode
levar a que ninguém veja outro problema senão o seu, isto é, a que o conjunto
de exclusões ou ''fracassos'' individuais resista em ser percebido como um
problema social.
A própria experiência da progressão escolar redunda na interiorização dos
fracassos escolar e social. Se se pôde passar os primeiros cursos, está claro 8
que, se não se pode passar os seguintes, é culpa do aluno, pois a escola já
demonstrou que não tinha nada contra ele. Se podia progredir na escola,
poderá progredir também na sociedade; portanto, se não o fazemos deve ser
porque em algum momento começamos a falhar, a não fazer o que devíamos
ou a fazer o que não devíamos. De resto, uma vez que quase todo mundo foi AS CONTRADIÇÕES DA
bastante mais longe na escola que seus progenitores, quase todo mundo já
experimentou, em uma versão perversa dos desejos de Andy Warhol, seu RELAÇÃO ENTRE ESCOLA E
quarto de hora de mobilidade social - e ascendente.
TRABALHO

A forma em que apresentamos o papel da escola na socialização para o


trabalho assalariado responde mais a uma lógica dedutiva, apoiada de forma
genérica na evidência empírica, que a uma análise pormenorizada do
funcionamento real de sistemas escolares ou contextos educacionais
concretos. Disso poder-se-ia, talvez, deduzir uma imagem da escola como um
mecanismo de relojoaria que cumpre à perfeição suas funções, sejam estas
declaradamente manifestas ou trabalhosamente detectadas como latentes. Na
realidade, estas funções só se desenvolvem acompanhadas de uma série de
conflitos, mediações, disfunções e processoss entrópicos.
-Entretanto, o reconhecimento disto, essencial para uma análise da
educação localizada de forma mais precisa em certas coordenadas de tempo e
espaço - isto é, históricas-, não deve levar a uma reiativização absoluta das
conclusóes da análise estrutural nem, muito menos, a colocar num plano de
igualdade esta e as observações isoladas, as relações sociais gerais da
educação e os processos concretos de interação individual. Não há nem pode
haver uma divisão de tarefas entre uma análise estrutural, téorica, "macró",
etc., que se dedicasse ao estudo dos sistemas mas seria incapaz de descer ao
aqui e ao agora dos processos sociais vivos, e uma análise fenomenológica,
empírica, "micro", etc., que daria conta dos processos concretos mas sem
conseqüências fora de seu âmbito de estudo.

216 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 217


As contradições, os conflitos, as distorções na realização pela esdola de Em continuação analisaremos as que se apresentam como as fontes mais
suas funções sociais podem e devem ser também analisados em termos importantes desses conflitos e contradições. Em prirriéiro lugar, a contradição
estruturais. Em primeiro lugar, porque é nas próprias relações estruturais entre a persistência de diversos modos de produção na sociedade e a
onde se encontram principalmente suas raízes. Em segundo lugar, porque é na configuração da escola a serviço tão-somente de um deles. Depois, a
complexa trama que essas formam (a estrutura social mesma) onde adquirem contradição entre as lógicas distintas que presidem a esfera do Estado, na qual
sentido. E, em terceiro lugar, porque a subordinação da atividade individual às está integrada a escola, e a esfera da economia, à qual pretende servir. Mais
tendências e contratendências estruturais é o que faz dela algo mais que uma tarde, a contradição entre os desenvolvimentos contrapostos da qualificação do
insignificante gota de água em um errático oceano social. Além disso, aqui, trabalho e a qualificação dos traballiadores. Por último, o conflito entre os
como em outros terrenos, a análise estrutural não substitui os estudos mais padrões culturais e modelos de vida auspiciados pela escola e os padrões
sistemáticos e detalliados da evidência empírica, mas, certamente, é o qu.:: culturais e projetos pessoais de seu variado público.
llies oferece um marco conceitual e interpretativo.
Em grande medida a escolarização universal tem sido um instrumento para
suprimir ou, ao menos, mitigar e desativar as grandes contradições e fontes Modos de produção social e educação
potenciais de conflito da sociedade, cujos cenários fundamentais eram e são os
campos da economia e da política pública. Ela não tem falhado nesse No fragor do processo de industrialização e de resistência ao mesmo, a
i' empreendimento, mas o êxito tem sido obtido em boa parte, mais que pela escola adotou como norte a preparação de crianças e jovens para constituir
uma mão de obra assalariada disposta, dócil e manejável. Provavelmente a idéia
ll supressão ou abafamento das contradições existentes, pelo seu deslocamento
a novos terrenos e pelo processo de dar-llies novas formas, ou fazendo surgir · da desaparição da pequena burguesia, ou seja do traballio autônomo para o
I mercado, não foi simplesmente uma dedução da teoria econômica marxiana,
novas fontes de conflito.
I A forma adotada pela escola de massas supôs também abordar de forma
homogênea um feixe heterogêneo de possibilidades. Nem o público que acode
mas também um componente da visão do futuro dos reformadores da escola
nesse período. Por outro lado, a economia política e a teoria econômica
chegaram quase a nos convencer de que não existe outro traballio que o
às salas de aula o faz com a mesma disposição, com as mesmas expectativas,
etc., nem os lugares da estrutura ocupacional a que estão destinados seus trabalho remunerado, reduzindo todo o resto ao porão da vida privada, ao ócio
membros individuais colocam as mesmas exigências. De certa forma, pode-se e ao consumo ou, quando muito, à rubrica insignificante das "tarefas".
dizer que a escola tem feito tábula rasa da complexidade social, assentando As coisas foram sempre, e são hoje, muito diferentes. Apesar do
assim as bases para todo gênero de desajustes, disfunções e atritos. crescimento contínuo do traballio assalariado em termos absolutos e em
Por outro lado, a instituição escolar chegou a converter-se em um pesado proporção ao conjunto da população ativa ou da população global, o traballio
aparato que, por si mesmo, constitui um subsistema social de grande por contra própria manteve-se como um setor importante da economia
importância. Como tal, goza de uma relativa autonomia e apresenta sua própria (Fe~nández Enguita, .1987b). Em um país como a Espanha representa hoje,
lógica, derivadas ambas das especificidades de sua função, seu público e sua oficialmente, algo ma1s que a quarta parte da população ativa registrada. Em
gestão por um corpo semiprofissional com interesses, expectativas e valores alguns países mais industrializados e/ou terciarizados que o nosso representa
próprios. Não se deve, pois, pensar a escola como um mero instrumento uma proporção menor, mas na maior parte das economias nacionais do sistema
passivo em mãos e a serviço do Estado, do capital ou de qualquer outro poder capitalista mundial supõe uma proporção muito maior. Além disso, no último
externo. decênio registrou-se uma certa recuperação de sua posição relativa nas
Finalmente, embora possamos caracterizar a escola, em geral, como uma economias avançadas, provavelmente como efeito de múltiplas causas: como
instituição que busca moldar as pessoas, não é possível ignorar que estas não resposta ao escasso crescimento dos empregos assalariados; como resultado
são simples matérias primas ou produtos semitransformados dos quais se de uma estratégia de desconcentração por parte das grandes empresas que
pode fazer qualquer coisa, como sugere a metáfora da tábula rasa. Trata-se, lhes permite livrar-se da legislação trabalhista e da capacidade coletiva de
pelo contrário, de seres humanos, dotados de inteligência e vontade, cujos negociação das organizações sindicais, diminuir os riscos e ganhar
desejos, preferências, aversões, expectativas, experiências, etc., se traduzem flexibilidade; como aproveitamento da possibilidade aberta, em terrenos nos
em respostas individuais e grupais aos imperativos da instituição, com o quais antes não existia, por alguns recentes desenvolvimentos tecnológicos;
resultado final de que os resultados obtidos por esta não podem chegar jamais enflm, como efeito buscado pelas políticas públicas de emprego. Ademais,
a coincidir inteiramente com seus desígnios iniciais. poderi]OS apostar que o trabalho por conta própria representa um setor

218 Mariano Fernández Enguita A Face•Oculta da Escola 219


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l'

sensivelmente maior, em termos absolutos e relativos, do que o que é disfuncionais quando aplicadas a um contexto industrial urbano (Feinberg
expressado pelas estatísticas de emprego. A razão é muito simples: a chamada e Rosemont, 1975: 69).
economia submersa chegou a significar uma porção importante e crescente de
toda economia nacional, e o trabalho por conta própria é o trabalho Substituir as condutas, as atitudes e os valores adequados para a
submergível e submergido por excelência. sociedade agrária por outros adequados para a sociedade industrial foi
A relativização da importância quantitativa do trabalho assalariado torna-se precisamente, como esperamos ter demonstrado a estas alturas, o objetivo
muito maior se evitamos confundir a economia em geral com a esfera das principal da escola. A questão, agora, é em que posição se situa uma força de
relações monetárias e, por conseguinte, o trabalho em seu conjunto com o trabalho formada para o emprego assalariado diante das formas autônomas de
trabalho remunerado. As unidades domésticas obtêm uma parte importante do produção ainda existentes, mesmo que se tenham visto modificadas por seu
que consomem, sejam bens ou serviços, mediante a compra-e-venda no contato com o modo de produção capitalista. Comentaremos simplesmente
mercado ou através das transferências em espécie procedentes do setor alguns aspectos relativos a dois tipos de trabalho, o agrícola e o industrial ou
público; mas também obtêm outra parte, não menos importante, produzindo-a de serviços autônomos.
diretamente. O trabalho doméstico - cujo componente principal, mas não o Insistiu-se o suficiente, nesta obra e fora dela, no fato de que as escolas
único, é o da dona-de-casa - é ignorado pelas macromagnitudes associadas a geram hábitos de pontualidade e regularidade no trabalho. A outra face desta
conceitos como "população ativa", "produto interno bruto", etc., mas moeda é que não deve haver trabalho antes nem depois das horas marcadas.
representa um número de horas visivelmente superior ao que supõe o trabalho Isto não é senão um aspecto da orientação do trabalho de acordo com o tempo,
remunerado. Porque não só grande parte das necessidades da população são de sua configuração como trabalho abstrato. Entretanto, este tipo de atitude,
diretamente satisfeitas por meios criados nas unidades domésticas - hoje que é altamente funcional para o trabalho assalariado na indústria e nos
fundamentalmente serviços, mas também alguns bens -, mas uma parte serviços - e se estendem ao trabalho assalariado agrícola -, seria altamente
muito substancial dos bens adquiridos fora da esfera doméstica necessitam de disfuncional aplicado ao trabalho agrário independente. Para o êxito de uma
uma reelaboração final nesta para seu consumo ou uso. A redução ideológica exploração camponesa é indiferente que o agricultor independente comece sua
do trabalho a suas formas remuneradas tem reforçado a posição dos homens jornada às cinco ou às oito da manhã, desde que disponha de suficiente tempo
.· na relação entre os gêneros e não há dúvida de que tem facilitado o trabalho com luz natural, assim como não importa que interrompa ou não e durante mais
dos estatísticos, mas tem relegado injustamente as donas-de-casa ao lirp.bo da ou menos tempo sua jornada de trabalho ou que resolva fazer uma folga no
"não atividade", tem levado a ignorar o trabalho não remunerado dos meio da semana, desde que o tempo de trabalho total não seja menos que o
trabalhadores remunerados e tem suposto uma tergiversação da realidade necessano para realizar as tarefas. Entretanto, teria conseqüências
econômica. desastrosas se, chegando às cinco ou seis da tarde, abandonasse o trabalho no
Deve-se perguntar, então, em que medida uma escola modelada a partir da estado em que estivesse, se se negasse a trabalhar em dias feriados, no caso
consideração de uma única forma de trabalho, o trabalho assalariado, pôde e em que fosse necessária a realização imediata de certas tarefas, ou se entrasse
pode servir para socializar toda uma população chamada a desenvolver em férias de acordo com a temporada de praia, sem atender aos ciclos da
distintas formas de atividade de trabalho. colheita, da semeadura, etc. Se o trabalho do operário fabril ou do funcionário
de escritório exige pontualidade e regularidade entre as horas assinaladas
A ética protestante esteve tão onipresente na Europa e nos Estados como sendo de começo e fim da jornada, o trabalho do agricultor exige
Unidos ao longo do último século que é difícil ver que não há uma série perseverança até que a tarefa tenha sido terminada e disposição para realizá-la
única e consistente de valores sobre o trabalho que acompanhe ou deva no momento em que é necessário e possível fazê-lo.
acompanhar toda incorporação ao mesmo. O fato de que as escolas O que crianças e jovens, futuros agricultores, aprendem na escola,
tenham sido modeladas para inculcar em muitas crianças hábitos como a entretanto, é a começar e terminar de trabalhar quando soa o sinal, a organizar
pontualidade, a velocidade, o não distrair-se das tarefas e a laboriosidade seu calendário de trabalho de acordo com a disposição invariável dos dias úteis
deve-se à crença comum de que estes valores são as normas que ou feriados, etc., além de, provavelmente, a não trabalhar quando não estão
deveriam governar a conduta de toda atividade de trabalho - desde a sob a vigilância do professor. A escola, por conseguinte - ao menos em sua
agricultura familiar até a investigação em um laboratório, passando pela forma atual - é disfuncional com relação ao trabalho agrícola independente.
linha de montagem. Mas esta crença é errônea; as normas de trabalho A adequação não parece melhor com relação ao trabalho por conta própria
apropriadas para uma sociedade amplamente agrária são, com freqüência, em um contexto urbano, isto é, ao trabalho autônomo nos setores secundário

220 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 221


r
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e terciário. Em parte, pelas mesmas razões que no caso do campesinato Tradicionalmente, as destrezas e capacidades, assim como as disposições
independente; mas só em parte, pois o trabalhador autônomo da indústria e e valores necessários para este tipo de trabalho têm sido o ' objeto da
dos serviços não se encontra submetido aos imperativos do ciclo agrícola, das socialização das meninas - e, secundariamente, dos meninos, embora em
variações meteorológicas e de outros determinantes, fora de seu alcance, que outras tarefas - no seio da familia. Entretanto, as rápidas e espetaculares
condicionam o camponês. Em contrapartida, o trabalho por conta própria em transformações nas condições e formas de vida produzidas pela indus-
um contexto urbano exige capacidades de iniciativa, exercício da autonomia, trialização, pela urbanização, pela introdução e aperfeiçoamento crescentes
criatividade, tomada de decisões, etc., que não são necessários para o trabalho dos aparelhos domésticos e pelo desenvolvimento de novas necessidades
assalariado em geral - exceto nos níveis superiores de sua hierarquia tornaram obsoleta esta via tradicional de aprendizagem. Sobretudo no terreno
organizacional - e que são apenas moderadamente nec~ssários no trabalho propriamente cognitivo, as novas destrezas e capacidades necessárias já não
agrícola. A escola, como vimos, não proporciona nem estimula precisamente podem ser transmitidas de geração em geração precisamente por isso,
este tipo de capacidades, mas justamente as opostas. porque são novas e não uma herança cultural talvez de séculos. Entretanto,
a escola, à qual se confiou a educação em outros campos, substituindo
As forças morais são muito mais poderosas na vida do que vocês também a outras velhas formas de aprendizagem - por exemplo, na
crêem. Perguntem às pessoas que tiveram sucesso quais meios elas qualificação para o trabalho ou na doutrinação religiosa, antes desenvolvidos
empregaram! Observem os professores que foram, como vocês, nas próprias fanu1ias como unidades produtivas, nas organizações gremiais ou
modestos aprendizes e são hoje cidadãos honrados por todos! nas igrejas -, não se ocupou paralelamente das necessidades criadas pelas
Atividade perseverante e desejo constante de aperfeiçoar-se. transformações na vida doméstica (Fernández Enguita, 1988c).
Gestão consciente de seus negócios e dedicar os melhores A ênfase que a escola coloca na submissão dos alunos a rotinas distantes
cuidados à sua clientela. de seus centros de interesse facilitou tudo isso, pois, como tal, a melhor
Honestidade, economia, sobriedade e ordem na oficina, na rotina é a que não tem outra justificativa nem projeção que ela própria. A
venda e no lar. indiferença para com o conteúdo concreto do trabalho escolar de que se
Eis aqui os segredos do êxito na vida artesanal. gloriam os professores e, induzidos a isso, os alunos, possibilita que não se
Por que não iriam vocês fazer como eles? Caminhando sobre seus pergunte sobre a relevância do aprendido ou, o que é a mesma coisa, não se
passos vocês chegarão a seu objetivo: a mestria e a independência no interrogue sobre o que seria relevante aprender. A velha sentença, segundo
ofício de vocês! (Zarca, 1986: 217). a qual a escola está separada da vida pode ser interpretada dessa forma, pois,
1\
i'
embora não haja dúvidas de que a escola prepara para a incorporação ao
.t· ,. Perseverança, auto-aperfeiçoamento, gestão consciente, honestidade e trabalho assalariado (a forma fundamental de trabalho em nosso restrito
L

'I economia só podem ser pregadas como virtudes para os que vão incorporar-se conceito de economia) e para a vida política (tal como é e não tal como alguns
I ao trabalho na condição de autonomia. Qualquer dessas virtudes poderia ser de nós desejaríamos que fosse), tampouco há dúvidas de que o resto da vida
pregada em um sermão dominical para todos os trabalhadores, mas para os social fica em grande parte fora de seu horizonte ..
trabalhadores elas são simplesmente impostas, ou se tomam inúteis, através Por outro lado, o trabalho doméstico tem em comum com o trabalho por
da regulamentação estrita de seu trabalho. conta própria para o mercado o amplo grau de autonomia que oferece a quem
Algo parecido ocorre em relação à esfera e ao modo de produção domésticos. o desempenha. Isto não quer dizer que seja um trabalho que se distinga por
Se consideramos que este não engloba apenas as tradicionalmente denominadas sua criatividade - o que realmente não ocorre -, mas simplesmente que a
tarefas domésticas, isto é, o trabalho das donas-de-casa, mas tudooqueas pessoas eficácia e o rendimento do mesmo dependem em grande medida da iniciativa
fazem para seu próprio consumo - considerando como unidade de consumo a do trabalhador, de sua capacidade de tomar decisões e de resolver problemas
unidade doméstica, isto é' o lar como conjunto de recursos postos em comum-, o complexos ou de fazer frente a situações imprevistas, embora isso se
que inclui desde a preparação de uma comida até a gestão de um orçamento familiar, desenvolva dentro do restrito âmbito da cotidianeidade. A escola, como
passando por dirigir um automóvel, cuidar de uma criança ou planejar as férias, não vimos, não prepara para isto.
é difícil concluir que a escola deixou de lado qualquer tipo de formação ou Mesmo no próprio âmbito do trabalho assalariado desenvolvem-se
socialização específica para este tipo de trabalho- exceto os tristemente famosos tendências que fazem duvidar da adequação da socialização escolar. As
"trabalhos manuais para o lar" ou a "economia doméstica" do currículo de alguns formas tradicionais de organização hierárquica da produção estão sendo hoje
sistemas escolares. parcialmente substituídas pelas genericamente •'novas formas de organização

222 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 223


do trabalho''. Nada permite predizer que Isto signifique uma inversão das As lógicas contrapostas da escola e do trabalho
tendências anteriores, mas trata-se, de qualquer forma, de um fenômeno de
suficiente alcance para ser tomado em consideração. A divisão manufatureira A caracterização que fizemos da socialização para o trabalho assalariado
do trabalho, o taylorismo e o fordismo, assim como o conjunto de seus como função da escola enquadra-se bem com a caracterização de nossa
arremedos em pequena escala, eram apropriados em um contexto de sociedade como uma sociedade capitalista. Entretanto a nossa sociedade n~o
mercados estáveis, consumo indiferenciado de massas e possibilidade de é apenas capitalista; ela é também democrática. Bowles e Gintis (1983, 1986)
planificação econômica a longo prazo. A instabilidade dos custos do trabalho propõem considerar a sociedade como um todo constituído por três esferas
e das matérias primas, o caráter inseguro dos mercados, a diversificação das diferenciadas: a economia, o Estado e a família.
preferências dos consumidores e os próprios entraves técnicos da grande
:; produção em série modificaram. o velho panorama já familiar. Numerosas Cada uma dessas três esferas é capaz de sustentar relações
empresas necessitam hoje apostar em sistemas de produção mais flexíveis diferentes de domínio e subordinação. Assim, pois, caracterizaríamos a
para os quais não se torna viável o mesmo tipo de organização. esfera da produção capitalista como a esfera do domínio do capital sobre o
Se as características do velho modelo de organização da produção trabalho, e a família como a esfera do domínio dos homens sobre as
poderiam ser sintetizados na produção em grandes séries, na maquinaria e mulheres. Por contraste, o Estado, em sua forma liberal democrática,
no instrumental do tipo específico, na mão de obra pouco ou nada qualificada embora seja central para a reprodução das relações de domínio e
e num sistema de direção vertical, as do novo poderiam sê-lo exatamente nos subordinação na família e na economia, não é em si mesmo necessaria-
termos inversos: produção de pequenas séries ou a pedido, maquinaria mente uma esfera de domínio (Bowles e Gintis, 1983: 13).
universal, mão de obra altamente qualificada e sistemas participativos de
gestão (Piore e Sabe!, 1984). Pode-se compreender facilmente que tanto Estas três esferas apresentam diferentes princípios e diferentes lógicas de
umas quanto outras das características não são livremente intercambiáveis de funcionamento que se traduzem em práticas políticas contrapostas:
um sistema a outro, mas estão estreitamente associadas. Para nos cingirmos
ao novo modelo, a produção de pequenas séries ou por encomenda requer As práticas políticas na esfera da produção capitalista caracterizam-se pe-
maquinaria e instrumental universais, pois não seria sensato realizar grandes los direitos de que se investe a propriedade, de forma que os direitos são
inversões num capital fixo cuja utilidade não estaria assegurada para além exercidos pelos indivíduos somente na medida em que possuem propriedades
delas; a produção de pequenas séries ou por unidades supõe, por outro lado, ou representam os que as possuem. Ao contrário, as práticas políticas no
um mercado em constante mudança ao qual se deve responder velozmente, Estado democrático liberal caracterizam-se pelos direitos outorgados à
razão pela qual o sistema de direção vertical, no qual todas as decisões ficam pessoa, segundo os quais todos os indivíduos, como cidadãos, podem parti-
nas mãos da direção, deve ser substituído por uma descentralização destas cipar igualmente, embora de forma indireta, através de representantes, nas
que encurte o período que medeia entre o planejamento e o início da decisões estatais. De novo, ao contrário, a esfera familiar caracteriza-se pelos
fabricação; a vanaçao nos produtos, . a maquinaria universal e a direitos outorgados aos homens adultos para controlar o trabalho e a
descentralização das decisões, enfim, exige uma força de trabalho altamente reprodução das mulheres (Bowles e Gintis, 1983: 16).
qualificada, capaz de agir por si mesma em sua esfera de autonomia e de
exercer a iniciativa (Fernández Enguita, 1986). Disso deduzem os autores o caráter contraditório da localização social da
escola ou, se se prefere, de sua articulação com o trabalho. Permita-se-nos
Está claro que a escola não propicia aos futuros trabalhadores as uma última citação:
características não cognitivas que podem chegar a esperar-se deles - e
duvidoso que propicie as cognitivas, Mesmo que hoje se comece a ouvir falar A contradição central dos sistemas educacionais das sociedades de
no mundo do ensino de ''educação para a iniciativa'' - iniciativa que, capitalismo avançado deriva-se dos aspectos de sua localização na
curiosamente ou nem tanto, parece restringir-se ao trabalho por conta totalidade social. Primeiro: forma geralmente um subsistema da esfera do
própria, sem incluir seu exercício na produção organizada, o que quer dizer Estado e portanto está diretamente sujeito ao princípio dos direitos
a participação na empresa -, já é um tanto tarde para os que deixaram a outorgados à pessoa. Segundo: a educação desempenha um papel central
escola, os que constituem a população ocupada ou simplesmente ativa e na reprodução da estrutura política do processo de produção capitalista,
serão durante muito tempo a maioria da mesma. que por sua vez está legitimado nos termos dos direitos outorgados à
224 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 225
propriedade. Assim, pois, a educação está diretamente envolvida na público assemelha-se a ela quase como um ovo a outro. Na política, porque, se
articulação contraditória da dicotomia propriedade/pessoa: a educação bem que seja duvidoso que a lógica democrática domine no terreno das
reproduz os direitos da propriedade, enquanto que está por si própria práticas institucionais, ela está fortemente presente, já não na produção, mas
organizada nos termos dos direitos das pessoas (Bowles e Gintis, 1983: na distribuição dos bens públicos - entre eles a educação - e, de modo
20). fundamental, no discurso ideológico do Estado - começando por sua
componente educacional.
Esta análise, certamente brilhante, não pode ser aceita ao pé da letra, Para ficarmos no campo da educação, esta incorpora tanto uma lógica
embora constitua um sugestivo ponto de partida para a análise das democrática e igualitária encarnada no tratamento formalmente igual dos
contradições da educação. Não pode ser tomada ao pé da letra porque reduz alunos, na participação, no discurso pedagógico humanista, etc., quanto uma
tanto a esfera econômica quanto a política a uma de suas partes componentes. lógica burocrática e autoritária a que já nos referimos suficientemente em
Bowles e Gintis têm razão ao assinalar que a esfera econômica está organizada capítulos anteriores. Isto é algo que fica claramente evidente na vida regular
em torno dos direitos da propriedade e que isto explica a assimetria nas das escolas (Fernández Enguita, 1986b). Dois educadores expressaram isto
relações entre capitalistas e assalariados. Entretanto, passam insensivelmente sem rodeios tendo-os a separar três quartos de século:
do conceito de processo de produção capitalista - a organização capitalista do
trabalho - ao da esfera econômica em seu conjunto, e então a generalização A confusão fundamental é esta: a Democracia é um princípio de
torna-se insustentável. governo; as escolas pertencem à administração; e uma democracia tem o
A organização em torno dos direitos da propriedade não supõe por si mesmo direito que uma monarquia a que seus assuntos sejam bem levados
mesma domínio nem subordinação. A produção capitalista não é toda a (Butler, citado por Tyack, 1974: 77).
produção, nem a produção é toda a economia. Fora daquela, tanto na produção
autônoma ( a produção direta para o mercado dos trabalhadores que são Talvez o público possa pensar que as escolas são democráticas. São
proprietários de seus meios de produção), quanto na subesfera distinta da democráticas no que concerne aos direitos do indivíduo, mas, no que
circulação (em que os proprietários se relacionam entre si como iguais pelo concerne ao funcionamento, não são democráticas. Para se conseguir a
fato de sê-lo) e do consumo (em que o indivíduo ou qualquer outra unidade eficácia num sistema escolar deve haver um padrão claro de
econômica só se relaciona com o objeto que vai satisfazer suas necessidades, funcionamento, conduta, normas e regulamentação [isto é, autoridade]
e o faz livremente devido também ao fato de que é sua propriedade), não (um diretor de escola secundária, citado por Silberman, 1971: 126-7).
existem necessariamente relações de domínio e subordinação - embora
possam existir, pois pode haver exploração através do mercado (Chevalier, Estas precisões são necessárias porque, se se aceitasse simplesmente a
1983; Roemer, 1982; Wright, 1985) e, obviamente, domínio e subordinação no caracterização de Bowles e Gintis, tornar-se-ia bastante difícil explicar porque
consumo através das relações de poder patriarcais (Durán, 1988). as escolas, cuja dimensão autoritária domina claramente sua dimensão
Por outro lado, reduzem o Estado a seu componente democrático - a democrática, estão mais dominadas pela lógica de uma esfera alheia - a
igualdade de direitos, o sufrágio universal, etc. - esquecendo-se que ele é economia - que pela própria esfera à que pertencem - o Estado. Mas,
também uma maquinaria vertical e hierarquicamente organizada e, em si esclarecido isto, fica também claro que enquanto a lógica dos processos
mesmo, um modo de produção (Fernández Enguita, 1988d). Estei dois produtivos nos quais a maioria dos jovens se inserirão como trabalhadores
princípios distintos, democrático e liberal em contraste com burocrático e assalariados é unívoca e inequivocamente autoritária - para eles -, a escola
autoritário, podem ser vistos refletidos em dicotomias tais como a formada move-se dentro de certa ambivalência marcada, como assinalam Bowles e
pelo Estado como forma de representação política e como aparelho de Gintis, pelo fato de pertencer a uma esfera e estar ao serviço de outra com
produção ou a constituída pelo poder legislativo e pelo poder executivo lógicas internas dominantes distintas e contrapostas.
(Fernández Enguita, 1985b, 1988c). As escolas são ruins, mas as fábricas e os escritórios são muito piores:
Esclarecido isto pode-se aceitar que a economia é sobretudo autoritária e numerosos direitos que podem ser exercidos no local de estudo não podem sê-
o Estado liberal é sobretudo democrático, isto é, que cada uma dessas lógicas -lo no local de trabalho; as relações de um aluno com seu professor costumam
respectivas domina a outra no interior da esfera correspondente. Na economia, ser bastante mais livres que as de um operário com seu capataz ou de
porque a produção predomina sobre a circulação e a troca e a produção empregado de escritório com seu chefe; a distribuição de recompensas é mais
capitalista constitui a maior parte da produção - e a burocrática ou do setor justa e objetiva nas escolas que nas empresas; as sanções são mais graves e

226 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 227


se dão com mais freqüência no trabalho que no ensino; o trabalho produtivo da (... ) A relação entre a educação e o trabalho é dialética: é composta
maioria das pessoas é mais duro e menos atrativo do que o foi seu trabalho de uma perpétua tensão entre duas dinâmicas, os imperativos do
escolar; no capitalismo avançado, todo mundo tem um posto escolar, mas nem capitalismo e os da democracia em todas as suas formas. Como produto
todo mundo tem um posto de trabalho, e assim sucessivamente. Esta e fator conformados, por sua vez, da discórdia social, a escola está
dessemelhança entre escolas e centros de trabalho não pode ser considerada necessariamente envolvida nos grandes conflitos inerentes a uma
como sendo indubitavelmente disfuncional em termos de socialização para o economia capitalista e a um Estado capitalista liberal. Estes conflitos
trabalho; ao üm e ao cabo, se as escolas fossem iguais às fábricas e aos residem na contradição entre a relação desigual subjacente à produção
escritórios seriam simplesmente fábricas e escritórios; se devem ser locais de capitalista e a base democrática do Estado capitalista liberal. A escola é
aprendizagem, devem situar-se em algum lugar intermediário entre o tipo de essencial para a acumulação do capital e para a reprodução das relações de
estrutura de relações sociais das quais os alunos procedem e o tipo de produção capitalistas dominantes, e é considerada pelos pais e pelos
estrutura de relações sociais a que se supõem estejam destinados. jovens como um meio para uma maior participação na vida econômica e
Não é tanto uma questão de especular sobre os efeitos intemporais dessa política (Camoy e Levin, 1985: 4).
ambigüidade das escolas quanto de identificar a direção das transformações em
seu funcionamento e, por conseguinte, em seus efeitos sobre os alunos em Embora seja de difícil demonstração, podemos aventurar a hipótese de que
termos de socialização para o trabalho. Embora a escola conserve boa parte do descontentamento em torno das condições de trabalho, da
essencialmente as características que lhe foram atribuídas para fazer dela um reivindicação de tarefas mais significativas, da demanda por diferentes formas
celeiro de assalariados domesticados, atomizados e reconciliados com sua de enriquecimento de tarefas, da exigência de participação nas empresas e da
sorte, o tempo não passou inteiramente em vão. A gestão dos centros temática da "qualidade do trabalho", que atravessou de um extremo a outro o
escolares conheceu uma certa democratização que alcançou os alunos; os mundo do trabalho durante a década de sessenta e os primeiros anos da de
direitos destes em seu interior se multiplicaram e se tomaram mais efetivos; setenta - até que a recessão econômica e a aparição de um desemprego
a pedagogia evoluiu no sentido de uma aproximação de conteúdos e métodos maciço colocaram o desejo de conservar o emprego acima de qualquer
aos interesses e processos dos alunos; em, em último lugar, mas não por sua consideração sobre suas características intrínsecas - teve um de seus
importância, o discurso escolar viu-se inundado por termos chaves tais como impulsos, senão o principal, na evolução da escola. Mmal, o pós-guerra
"atividade", "criatividade", "centros de interesse", "liberdade", imediato e os anos cinqüenta foram o período da ampliação da escolarização
"desenvolvimento pessoal", etc. universal para além do ensino básico nos países industrializados, e os sessenta
Esta evolução não teve paralelo na do processo de trabalho. A foram o da revolta estudantil e da contestação maciça da pedagogia e da escola
conseqüência disso é que, apesar dos pesares, as escolas geram nos jovens tradicionais.
expectativas que o trabalho, com sua estrutura atual, não pode satisfazer. Deve- A evolução da escola não pôde tampouco deixar de produzir efeitos sobre
-se ter especialmente em conta, além disso, que o acesso generalizado ao outra esfera da sociedade e sobre outras relações de produção: a família
ensino chegou a níveis que antes estavam reservados aos grupos privilegiados patriarcal. Todas as acusações, sem dúvida justas, que se podem fazer contra
e, por conseguinte, ofereciam um tipo de socialização não pensada em função a educação formal no sentido de que contribui para reproduzir o sexismo e a
dos imperativos do trabalho assalariado, o que, embora tais níveis tenham sido dominação patriarcal - através do conteúdo do ensino, dos estereótipos
degradados para seu novo público, significa uma organização do ensino menos presentes na interação informal, da orientação escolar e profissional marcada
estreitamente associada àqueles. por preconceitos de gênero, etc. - não deve ocultar o fato de que, ao menos
Nisto desempenharam um papel importante os professores, que passaram desde que se generalizou a educação, as salas de aula são provavelmente o
da situação de serem trabalhadores assalariados plenamente subordinados e cenário cotidiano em que menos se discriminam as pessoas por seu sexo ou
sem capacidade de resposta à situação de se constituírem em um corpo gênero. Se existe alguma dúvida sobre isto, basta compará-las com as
qualificado e com um estatuto semiprofissional que luta com certo êxito por empresas ou com a própria farru1ia. As experiências vivenciadas pelas alunas
ganhar espaços de autonomia e estimula e serve de veículo para concepções mulheres, da igualdade formal frente aos alunos homens, de obterem com
humanistas e liberais da educação em certa sintonia com a evolução já citada freqüência melhores resultados escolares que eles e outras similares, fazem
do discurso pedagógico. ver a falta de legitimidade das discriminações no local de trabalho e na família
De forma algo esquemática, a contradição geral apontada poderia assim e as convertem necessariamente em·mais insuportáveis. Talvez isto contribua
ser expressada: para explicar por que, no período recente, a posição das mulheres frente aos
228 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 229
homens evoluiu mais favoravelmente que a dos trabalhadores assalariados os processos qumucos e outros procedimentos, revoluciona
frente a seus empregadores. constantemente, com o fundamento técnico da produção, as funções dos
operários e as combinações sociais do processo de trabalho. Com elas,
revoluciona constantemente, além disso, a divisão do trabalho no interior
Desqualificação do trabalho e sobre-educação do trabalhador da sociedade e joga de forma incessante massas de capital e de operários
de um ramo da produção a outro. A natureza da grande indústria, portanto,
Sem necessidade inclusive de que intervenha a escola, o processo de implica na troca de trabalho, na fluidez da função, na mobilidade
produção capitalista apresenta perspectivas contraditórias no que conceme à multifacetada do operário (Marx, 1975: I, 592-3).
qualificação da força de trabalho. Por um lado tende à sua desqualificação, já
que esta diminui seu custo e assenta as bases de seu melhor controle; por O que ocorre é que o capital se relaciona de duas maneiras com o trabalho,
outro, requer uma formação multilateral que permita ao trabalhador trocar de ou em dois momentos diferentes. Com respeito ao trabalhador já incorporado
tarefas e de posto de trabalho sem custos adicionais ou minimizando-os. ao processo de produção, seu interesse aponta para a qualificação mínima que,
Hoje é moeda corrente o discurso sobre a necessária versatilidade no como já se indicou, significa o mínimo salário e os máximos controle e
trabalho. A inovação tem sofrido uma importante aceleração que conduz a possibilidade de substituição. Com respeito ao trabalhador a incorporar, seu
mudanças freqüentes nas características dos postos de trabalho e à interesse está em encontrar com a maior facilidade a pessoa com a qualificação
substituição de uns por outros. O posto de trabalho não é já algo que se ocupa, adequada. Na fábrica quer lidar com um trabalhador especializado - no pior
salvo imprevistos, por toda uma vida. Não o é, em primeiro lugar, pelo sentido do termo -; no mercado de mão de obra - externo ou interno, com
aumento do desemprego, pelas abundantes quebras de empresas e pelo um trabalhador versátil. Desta forma manifesta-se a contradição entre a
desenvolvimento da contratação temporária, que confluem em uma espécie de crescente universalidade da produção social e a unilateralidade dos processos
dosificação dos períodos de ocupação e desocupação para setores importantes de trabalho individuais.
dos trabalhadores. Mas não o é, também, porque dadas a aceleração da Para a escola, isto significa uma notável ambigüidade quanto ao que se espera
inovação tecnológica e o aumento da mobilidade ocupacional, a maioria dos dela no que concerne à qualificação. Por um lado, a maioria de seu público
trabalhadores está chamada a trocar várias vezes de emprego ao longo de sua incorporar-se-á a postos de trabalho especializados, escassamente ou nada
vida. Esta troca pode tomar diversas formas: trocas de empresa - incluindo qualificados, etc. Mas, por outro, não existindo um mecanismo compulsivo de
trocas de ramo e de setor -, trocas de posto de trabalho dentro da mesma orientação profissional, não existe tampouco forma de saber qual será esse posto
empresa e trocas nas características de um mesmo posto de trabalho. de trabalho preciso, pois isso depende do mercado de trabalho e outra série de
Entretanto, há razões para pensar que, em parte, não se trata de um fatores incontroláveis e imprevisíveis. Durantes alguns poucos anos, a educação
fenômeno novo., A aceleração da inovação tecnológica conduz a um aumento formal deve qualificar os futuros trabalhadores para toda sua vida ativa. Então,
da mobilidac.le ocupacional, mas a importância que atribuímos a este efeito está como nos negócios, a melhor forma de não perder tudo é dispersar o risco ou, o
condicionada pelo fato de que alterou as coordenadas de algumas relações de que dá no mesmo, diversificar as inversões, o que no caso da educação significa
trabalho nas quais a instabilidade no emprego e a regulamentação estrita das que é menos arriscado ensinar um pouco de tudo que tudo de um pouco. Este é
condições de acesso, promoção e demissão haviam passado ao primeiro plano. o sentido da poli valência que a escola, em princípio, oferece: não o domínio de um
Mas, antes de que isto ocorresse por causa do desenvolvimento do Estado do conjunto de ofícios qualificados, nem qualquer coisa que se pareça com isso, mas
Bem-Estar e de sua legislação trabalhista, os grandes acordos entre a simples capacidade de incorporar-se a uma gama de postos de trabalho de baixa
organizações patronais e sindicais e as negociações coletivas setor a setor ou qualificação. ·
empresa a empresa, é provável que a mobilidade ocupacional fosse tão intensa Mas o capitalismo e a escola têm uma história. Nem a organização do
ou mais pelo simples efeito do funcionamento do mercado. Em todo caso, trabalho nem o acesso ao ensino têm se mantido invariantes no processo de
Marx não teve que esperar a terceira revolução industrial, as novas tecnologias desenvolvimento da sociedade capitalista. A questão agora é saber se
nem a recente literatura sobre emprego e formação para traçar um panorama evoluíram em consonância ou, pelo contrário, tal evolução abriu um fosso entre
bastante similar ao que hoje parece uma surpresa. a educação e o trabalho. Este parece ser o caso no que concerne às funções
cognitivas da escola, à instrução propriamente dita: a brecha abriu-se ao
A indústria moderna nunca considera nem trata como definitiva a evoluir em sentido diferente a qualificação dos postos de trabalho e a
forma existente de um processo de produção. (... ) Mediante a maquinaria, qualificação dos trabalhadores.

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1
"Qualificação" é um termo que, aplicado aos postos de trabalho, pretende I quando nos anos cinqüenta se universalizou o acesso à primeira etapa
significar seu nível de complexidade. Não pode ser medida com -a mesma secundária.
precisão que o salário ou a jornada de trabalho, mas, não obstante, é suscetível O caso da Espanha, que é o de um desenvolvimento econômico e
de estimação. Qualitativamente, pode ser estimada a partir da simples educacional algo tardio, pode dar-nos uma idéia a respeito. A Lei Moyano de
descrição dos postos de trabalho (todos estamos de acordo em concluir em 1857 universalizou a escola primária no papel, mas acompanhou esta medida de
que dirigir um ônibus é mais difícil que dirigir um automóvel, o que é a mesma alguns mecanismos de financiamento, a cargo dos muniópios, que a faziam
coisa que dizer que exige uma maior qualificação) ou da hierarquização ordinal realizável na prática. O país não conseguiu aproximar-se da escolarização total
da complexidade de suas tarefas desmembradas analiticamente em até o período da li República, produzindo-se uma nova queda no após-guerra.
componentes mensuráveis (classificar alguns dados, por exemplo, é mais difícil Em meados dos anos quarenta, a proporção de matrícula oscilava entre dois
que copiá-los, mas mais fácil que· analisá-los). Quantitativamente pode-se fa- quintos em províncias como Córdoba e a quase totalidade em outras .como
zê-lo, de forma em princípio muito simples, através da medição do tempo Barcelona. A escolarização real era muito inferior, posto que a freqüência se
necessário para aprender a exercer um posto de trabalho. Mas a simplicidade situava em torno dos dois terços da matrícula. Aos fmais da década dos
é apenas aparente, pois quando queremos estimar o que tarda um trabalhador sessenta, o déficit de vagas escolares no ensino obrigatório era estimado ainda
médio a aprender uma série de tarefas em seguida descobrimos que sua entre cerca de meio e um milhão (Bozal et aL, 1975). Apenas com a
capacitação não se reduz a uma aprendizagem ad hoc, mas que compreende progressiva implantação da Lei Geral de Educação chegou-se a alcançar a
muitos outros elementos de difícil avaliação (por exemplo, destrezas e universalização prática do ensino obrigatório, já bem entrada a década dos
capacidades gerais relevantes para este posto de trabalho adquiridas na setenta.
educação formal juntamente com muitas outras claramente irrelevantes, mas A mesma pauta de crescimento acelerado aparece ao nos fixarmos
todas em um mesmo saco, o que impede sua estimação separada). simplesmente na regulamentação legal da freqüência obrigatória à escola. A Lei
Apesar destas dificuldades existe já uma notável abundância de pesquisas Moyano havia fixado o período obrigatório dos seis aos nove anos, a Lei
de todo gênero cujo denominador comum é ter mostrado que, contrariamente Romanones prolongou-o em 1902 até os doze (na prática, seis anos no total. ..
à crença comum, se houve de fato uma tendência geral ao longo do século esta para os escolarizados), e em 1964 ampliou-se de nove, sempre no papel, até
foi a degradação do trabalho (Bright, 1958; Braverman, 1974; Freyssenet, 1977; os quatorze. A Lei Villar consagrou este mesmo prazo, mas o tornou efetivo ao
uma ampla revisão é feita por Spenner, 1985). Já assinalamos as causas dessa unificar os oito primeiros anos de escolaridade no Ensino Geral Básico, e as
evolução e os caminhos por ela percorridos, de forma que não voltaremos a reformas realizadas durante o recente ministério Maravall ampliam-no até os
falar sobre isso. É preciso acrescentar, entretanto, que a irrupção das dezesseis, isto é, até um período de dez anos. Na prática, a maior parte dos
chamadas novas tecnologias não só transformqu o panorama, mas parece ter jovens continua na escola além desse limite. Na maioria dos países
propiciado uma intensificação da tendência, dada sua capacidade para manejar industrializados, a escolarização obrigatória alcançou já o nível dos dezesseis e
e processar informação, tornãndo assim desnecessário que o façam os até mesmo dezoito anos de idade, o que representa dez ou doze de
trabalhadores (Carey, 1981; Silvestri, Lucasiewicz e Einstein, 1983; Leontief e escolariadade. Em alguns deles, a maioria dos jovens mantém-se escolarizada
Duchin, 1986; Levin e Rumberger, 1988). Sem necessidade de entrar aqui de fato para além desse limite, cursando estudos superiores ou pós-secun-
neste debate, é suficiente sublinhar que mesmo as visões mais otimistas não dários de diversos tipos.
vão além da hipótese de que vão aparecer novos empregos qualificados ou do -Embora paralelamente tenham desaparecido outras vias de qualificação,
argumento de que alguns empregos tornam-se desqualificados mas outros em particular a aprendizagem, esta constante expansão da escola, por mais
sobrequalificados (coisa de que ninguém duvida, mas a questão é em que que possamos duvidar do aproveitamento do tempo nela.ou da eficácia de seu
proporções se combinam os dois subtipos de evolução e não há muitas dúvidas funcionamento, representa um aumento espetacular da informação, dos
de que a primeira domina sobre a segunda). conhecimentos, das capacidades e das destrezas adquiridas pelos jovens. A
A evolução da qualificação dos trabalhadores, pelo contrário, é inequívoca. maior parte das pessoas segue agora estudos que antes eram cursados apenas
Salvo alguns casos de escolarização universal precoce (como Escócia, por uma exígua minoria e que se associavam habitualmente ao desempenho
Alemanha ou França), a maioria dos países que hoje denominamos avançados dos melhores empregos.
não estenderam a escolarização primária a toda a população até a última troca Em conseqüência, vemos correr em paralelo, mas com sentidos opostos,
de século. Desde então, entretanto, a escola não deixou de crescer em a desqualificação do trabalho e uma crescente qualificação dos trabalhadores.
amplitude e duração, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial, Jovens que saem da escola com uma formação cada vez mais elevada vêem-se

232 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 233


obrigados a ocupar empregos escassamente desafiantes, se não simplesmente tempo passado foi melhor. Diante do graduado aferrado ao suposto valor de
embrutecedores. As capacidades adquiridas na educação formal - por outros seu título, ao valor que um dia teve, apresentam-se três possibilidades: a
meios - não podem ser aplicadas nos postos de trabalho que foram divididos, primeira, é claro, é conseguir um emprego do nível desejado, mas, dada a
fragmentados, rotinizados e desprovidos de autonomia. As esperanças escassez destes, sua viabilidade sempre depende de outros fatores; quando a
traduzem-se em frustrações. primeira está vedada, a segunda consiste em aceitar um emprego abaixo da
Isto é o que em linguagem da sociologia e da economia da educação qualificação ou da titulação adquirida, ou seja, aceitar o subemprego; a terceira
costuma denominar-se ou simplesmente considerar-se como consiste em negar-se a aceitar a segunda e decidir-se a esperar tempos
"sobreeducação" (Freeman, 1976; Rumberger, 1981; Dore, 1976; Bergk 1971). melhores, e esta é a origem do desemprego.
Supõe-se que a demanda de educação como um bem público desejável, a Na realidade, o que ocorre com os graduados ocorre igualmente com
ideologia credencialista, a legitimidade dos títulos escolares como instrumento outros níveis de educação. Os que têm nível secundário devem aceitar
na competição pelos empregos e a inclinação dos governos a oferecer reformas empregos a que antes acorriam os que tinham nível primário porque aqueles
escolares antes que de qualquer outro tipo confluíram para empurrar a oferta que acreditavam serem seus foram ocupados por graduados em situação de
de educação e seu consumo para além das necessidades do sistema produtivo. sub-emprego, e assim sucessivamente; os que obtiveram algum tipo de
Colocada assim a questão, a solução parece óbvia: deve-se educar menos as especialização na formação profissional devem conformar-se com empregos
pessoas. Mas o problema pode ser colocado também em outros termos, a nos quais aquela não lhes serve muito, etc. Mas, como estes não são filhos de
saber: infra-utilização dos recursos humanos existentes. Se milhões de sociólogos, jornalistas ou de outras pessoas influentes, ninguém faz nenhum
pessoas desenvolvem na escola capacidades que depois não podem aplicar no escândalo por causa de sua sorte.
local de trabalho, a responsabilidade pode estar também, ou tão-somente, do Outra manifestação do problema são as periódicas revoltas estudantis, que
lado da organização da produção. A solução, então, seria reorganizar esta de podem ser interpretadas como um protesto contra a ameaça de proletarização
forma tal que as capacidades humanas existentes pudessem ser aproveitadas que se abre sobre os que acreditavam ter escapado a ela. Outra é a rejeição
de forma otimizada. crescente do trabalho entre os jovens, explicável em parte como produto da
De qualquer forma, aqui encontramos um exemplo claro de como a escola, defasagem entre suas expectativas a respeito e suas oportunidades reais.
em vez de suprimir as contradições sociais, as desloca. Ao prometer Mesmo fenômenos como o desenvolvimento da guerrilha urbana nos países
mobilidade social através de um mecanismo formalmente acessível para todos, latino-americanos ou do terrorismo na Itália têm sido interpretados, ao menos
desativa os conflitos potenciais em torno da distribuição da propriedade, da parcialmente, como efeito da existência de amplas camadas urbanas de
organização da produção, etc. Mas por isso mesmo estimula uma demanda e titulados de ensino secundário e superior para os quais o trabalho não oferece
vê-se obrigada a apresentar uma oferta de educação que supera o quê, nos uma perspectiva atraente.
termos da correspondência existente ou imaginada entre níveis de educação e
posições na hlerarquia do emprego, pode realmente oferecer a produção em
sua forma histórica presente. A escola gera expectativas que a produção não A rejeição dos valores e da sub-cultura escolares
satisfaz.
Este desajuste - para empregar um termo suave - traduz-se em As exigências que a instituição escolar faz a seu público nem sempre são
manifestações diversas de descontentamento. A mais habitual é a grita bem recebidas. O êxito escolar requer um alto grau de adesão aos fms, aos
organizada a dois por três na imprensa - e na sociologia - em torno do meios a aos valores da instituição que nem todos os estudantes apresentam.
desemprego e do sub-emprego dos graduados. Estes lamentos refletem uma Embora não faltem os que aceitam incondicionalmente o ·projeto de vida que
sensibilidade para com os problemas da classe média que com freqüência não lhes oferece a instituição, um setor importante rejeita-o plena e solenemente
se tem diante dos da classe trabalhadora, mas esta não é a questão aqui. A e outro, talvez o mais substancial, só se identifica com o mesmo de forma
questão aqui é que o chamado ''desemprego dos graduados'' não é o resultado circunstancial. Aceitam, por exempo, a promessa de mobilidade social e
da impossibilidade de encontrar um posto de trabalho, mas da dificuldade de querem servir-se da escola para alcançá-la, mas não se identificam com a
encontrar o tipo de posto de trabalho que consideram estar de acordo com a cultura e os valores escolares, razão pela qual mantém para com a instituição
qualificação ou título que possuem, geralmente de acordo com critérios de uma atitude meramente instrumental, de acomodação, consistente em
equivalência associados a períodos anteriores: do ponto de vista da utilidade transitar por ela aplicando tão-somente o esforço suficiente. Ou então
para o trabalho dos títulos escolares sempre se pode afirmar que qualquer encontram-se dentro da escola em seu meio cultural natural mas não crêem ou

234 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 235


não necessitam crer em suas promessas, porque decidiram renunciar ao ~~e Parte ao menos do mundo do trabalho, em particular do trabalho manual,
se lhes oferece ou o têm assegurado de qualquer forma por sua cond17ao gera e reproduz outro tipo de valores. Entre eles, por exemplo o elogio do
social, e então procuram dissociar-se de suas exigências (Femández Engu1ta, trabalho manual frente ao intelectual, a preferência pela força física frente às
1988a). sutilezas mentais, o culto à rudeza frente às boas maneiras, a indiferença para
Na realidade, o fato de que a escola esteja adequadamente organizada para com o conteúdo do trabalho e a dissociação interior frente ao compromisso
a socialização dos alunos para o trabalho não quer dizer q~e estes não. podem pessoal para com o mesmo, a sensualidade marúfesta frente à sua sublimação
fazer atritar suas engrenagens ou, como os deuses de Ep1curo, sobreVIver em galante, a primazia indiscutida do varão frente à igualdade formal entre os
seus interstícios. Na escola não se aprende apenas a trabalhar, mas também a gêneros, etc. Em conjunto, estes valores, que contradizem os da instituição
evitar o trabalho. Aprende-se a olhar o livro como se se o lesse com grande escolar, formam um todo coerente e articulado que pode se constituir na base
atenção, quando, na verdade, se está fazendo castelos ~o ar - ou al~o mais de para a rejeição desta e, às vezes, o faz.
acordo com a adolescência -, a fazer cara de santo no mstante prec1so em que
0 professor busca algum sinal de desassossego que lhe indique a quem A escola tem favorecido uma certa resistência ao trabalho mental e
perguntar, a apresentar um leve resfriado como urna forte ~ipe que s~ pode uma inclinação em favor do trabalho manual. O trabalho manual, ao menos,
ser curada em casa, a pedir com um gesto alarmante para li ao banherro em está fora do domírúo da escola e traz consigo - embora não
cada aula, etc. A operação tartaruga, o trabalhar estritamente de acordo com extrínsecamente - a aura do mundo adulto real. O trabalho mental exige
as instruções e outras formas de resistência passiva habituais no trabalho muito, e invade - tal como a escola - com demasiada profundidade áreas
adulto são precocemente aprendidas, tal como a aceitação do trabalho, na que são crescentemente adotadas como suas, como privadas e
escola. independentes. (... ) A resistência ao trabalho mental converte-se na
Existem mil e uma maneiras à disposição dos alunos para obstaculizar os resistência à autoridade tal e como se aprendeu na escola. A específica
objetivos da instituição. Não há professor que não tenha enfrentado conjunção no capitalismo contemporâneo entre o antagonismo de classe e
repetidamente o alvoroço súbito e inexplicável que inter:ompe a .au~ durante o paradigma educacional converte a educação em controle, a resistência de
vários minutos, o grupo de alunos que não trouxe o livro de mgles ou os classe (social), em rejeição educacional e a diferença humana em divisão
instrumentos de desenho e não pode por isso acompanhar a aula, os que de classes (Willis, 1988: 123).
pedem que repita a explicação de coisas que provavelmente já ent.e~deran:
perfeitamente, os que proclamam que qualquer tarefa que se lhes solic1ta esta O que isto supõe é que a rejeição da escola pode deixar de ser uma atitude
fora de seu alcance. Entre o que o professor quer fazer e o que realmente individual, sem mais efeitos que a sanção negativa por parte da instituição para
chega a fazer interpõem-se uma dezena de pessoinhas que talvez ~enham outra quem a adote, para converter-se em uma atitude coletiva, elevada ao grau de
idéia a respeito, e o mesmo vale para a instituição em seu conJunto. O que resistência sistemática embora informal, graças à pré-existência de uma cultura
sucede ao final será o resultado de uma negociação entre as partes, embora de classe a que os alunos não identificados com a cultura escolar podem aferrar-
informal. Entretanto, seria um erro supor que se trata de uma negociação entre -se facilmente. Apoiando-se nessa subcultura de classe excluem-se a si
iguais, pois o poder está do lado de apenas uma das partes, a instituição e_seus mesmos do mundo da escola e se apegam ao trabalho manual, com o que a
agentes, embora para lograr seus fms necessite certo grau de colaboraçao de instituição encontra ajuda em sua função de reprodução da divisão social do
parte de seu público. trabalho e da estrutura de classes sociais. Mas, ao mesmo tempo, negam
O tipo de rejeição na qual queremos nos deter aqui é mais específica, a legitimidade à escola como mecanismo justo de seleção e paraíso da igualdade
saber: a que surge de outra consideração da própria relação entre escola e de oportunidades, com o que impedem que desempenhe sua função de
trabalho distinta e oposta à que a primeira oferece como a única válida. A escola reprodução ideológica, de legitimação da ordem social existente.
educa s~u público em relações isomorfas às do processo de produção capitalista, A rejeição da escola baseia-se aqui na involucração em (e na adoção de)
mas só pode fazê-lo através dos meios e mecanismos a seu alcance. Não pode uma subcultura do trabalho manual que se apresenta como a imagem invertida
pagar salários, nem organizar de forma sistemática uma experiência prática do da cultura da escola, de forma que aderir a uma é necessariamente rejeitar a
que ensina de forma teórica, nem provocar em quem não tenha voca7ão outra. A escola, curiosamente, degrada tanto o trabalho manual quanto o
intelectual o sentimento de que está fazendo algo útil por si mesmo, nem eVItar trabalho intelectual. Degrada o manual porque, a partir de sua suposta
que a permanência nela se associe à condição de não adulto, nem deixar de dimensão intelectual e a partir da associação da promessa de mobilidade à fuga
chatear a maioria, nem evitar ser vista como uma instituição autoritária. das tarefas físicas, apresenta-o como algo carente de inteligência e, portanto,

236 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 237


de valor: aquilo que fazem os que não valem, que p_or acaso vêem a ser aqueles tradicional atribuído à mulher em nossa sociedade patriarcal, ainda
de quem a escola diz que não valem. Degrada o m~electual porque ap:es~nta amplamente vigente, nem sempre se ajusta bem ao que a escola propõe às
como tal uma triste caricatura do mesmo, um conjunto de tarefas r?tme~~s, jovens. Os saberes práticos que parece exigir da dona-de-casa o trabalho
escassas de sentido e distanciadas da realidade extra-escolar e as qua1s o lap1s, doméstico são mais ou menos o inverso do saber teórico que administra e
0
giz, as exibições de memória e os conceitos superpostos não bastam para estimula a escola. Por conseguinte, é difícil que a jovem que identifica seu
converter em intelectuais. futuro com a condição de dona-de-casa considere sua presença nas salas de
Então, para o jovem em contato com a cultura operária tra~~onal toma-se aula e sua acomodação às exigências da instituição escolar como uma adequada
relativamente fácil aferrar-se a esta para encontrar um_a sene de. ~ores preparação para a vida; não, de qualquer forma, para a que presumivelmente
coerentes entre si e alternativos aos da escola. A alternativa entre rejeitar ou será sua vida.
aderir à escola apresenta-se assim como opção entre esta e a cult~ra ?e A ética do progresso e a inversão para o futuro que propugna a escola
origem, entre o que solicita o professor e o que solicita o grupo de 1gua1s. tampouco está muito de acordo com a perspectiva de vida da potencial dona-
Neste caso - mas não se se aplica indiscriminadamente a qualquer grupo de -de-casa. Um homem pode facilmente imaginar sua vida profissional em
estudante com qualquer origem social -, pode-se considerar válido o critério termos de futuro e de progresso, isto é, como carreira. Uma mulher que
de Parsons: espera ser dona-de-casa não pode fazer o mesmo com uma função que sabe
consistir em tarefas reprodutivas repetidamente iguais a si mesmas dia após
Na medida em que a classe escolar tende a dividir-se em duas - dia e ano após ano; a sua não será uma carreira, mas uma condição, algo quase
embora esta dicotomia esteja longe, é claro, de ser absoluta -, tende a perene. O aqui e agora das tarefas domésticas, encaminhadas quase sempre
fazê-lo em geral, por um lado, na base de uma identificação com o para a satisfação imediata das necessidades, configura um universo
professor ou sobre o reconhecimento de seu papel ~on:o modelo, e por diametralmente distinto do das tarefas escolares, justificadas sempre em
outro lado, sobre uma identificação com o grupo de 1gua1s do aluno. Esta virtude do ainda por vir.
divisão da classe escolar, em função de uma identificação com o professor Em acréscimo, outras expectativas tradicionais com relação à mulher, fora
ou com o grupo de iguais, corresponde de uma forma tão impress~onante do trabalho doméstico, podem-se apresentar também em uma relação não
à distribuição dos alunos destinados à universidade e os ~ue na? o sao, que pacífica com os valores escolares. Por exemplo, as características de
não se pode evitar de enunciar a hipótese de que esta d1c?tonua_ estrutu;al afetividade, ternura, sensualidade, etc. que a ideologia patriarcal deseja de
a nível do sistema escolar é a primeira fonte da d1cotonua seletiva toda mulher não se enquadram bem com a atitude competitiva que a escola
(Parsons, 1976: 55). requer, nem com o êxito intelectual manifesto. Já se sabe que os homens
devem ser duros, agressivos e inteligentes, mas as mulheres dóceis, afetivas
O jovem da classe operária - ou o pertencente a uma subcultura étnica e não demasiadamente ligeiras. Já dizia Kant: ''a inteligência masculina deve
portadora de uma cultura que inclua valores opostos aos da escola - pode ser sublime, a feminina bela, e por isso não convém que as mulheres estudem
encontrar-se nesta situação, pois o grupo de iguais age então como P?rta-voz muito" (Kant, 1978). Nem sequer Marx conseguiu evitar dizer, se acreditamos
dos impulsos do meio e refúgio frente às exigências da escola consideradas em sua filha Jenny, que sua virtude preferida na mulher era a debilidade. Nas
como hostis ao mesmo. Para o jovem de classe média não é assim tão fácil, pois relações informais com seus colegas do outro sexo, as jovens logo aprendem
ele carece de uma referência para a qual voltar-se e atrás da qual refugiar-se, que só serão bem recebidas se aceitam situar-se um degrau, ou mais, abaixo
já que o mais provável é que tanto seu meio social e f~a: de orig~m ~u~~o dos homens, seja uma a uma ou como grupo.
seus possíveis grupos de iguais empurrem na mesma d~reçao que a mstitmçao Tal como a cultura do trabalho manual para os home~s, uma certa cultura
escolar. É a mesma situação de desamparo cultural em que se encontra o da feminidade pode fornecer às jovens os valores, as formas de
jovem de classe operária que decide aderir aos valores e às promessas da comportamento e os projetos de vida a serem opostos aos da escola e nos
escola, isto é, renegar sua condição social como origem e escapar a. ela como quais basear sua resistência a suas demandas institucionais. Logicamente,
destino. O mais fácil, naturalmente, é que todas as correntes- família, escola, como impulso ou como recurso, como causa da rejeição escolar ou como
iguais -confluam em uma só, e nadar a seu favor, que é o que faz o aluno de resposta ao fracaso, esta alternativa existe sobretudo para as mulheres que
classe média que adere à instituição. provêm de um meio social portador de uma cultura tradicional, por exemplo,
Setores do alunado feminino podem encontrar também em outra operária ou camponesa. Ao contrário, é provável que as jovens de classe média
subcultura do trabalho os valores de referência a opor à escola. O papel tratem de buscar uma simbiose entre a cultura escolar e os elementos

238 Mariano Fernândez Enguita A Face Oculta da Escola 239


tradicionais do papel da mulher, construindo assim ~ma fe~d~de mais aberta
a uma incorporação parcial dos valores masculinos, tsto e, dos valor~s
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