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Revista Científica de Psicologia

Coordenação Pedagógica do Curso de Psicologia do CESMAC


Maceió - Alagoas – Brasil

ISSN 1981-7371
Ano IV - Número 1 - Edição 7 – Ago./Dez. de 2010 - Periodicidade Semestral

O SER HUMANO E AS EXPERIÊNCIAS DE PERDAS E SEPARAÇÕES

Elza Lucia Gomes Barros de Mendonça Pinto


E-mail: elzampinto@hotmail.com

Bacharel em Psicologia, aluna do 12º período


de Formação de Psicólogo do FCH - CESMAC
e aluna do Curso de Especialização em
Psicologia Hospitalar e Intervenção em
Instituição de Saúde, CESMAC e Teóloga pelo
Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil.

Rosana Melo Brito

Psicóloga Clínica, Especialização em Psicologia


Clínica e Psicologia Hospitalar, Licenciada em
Educação Artística CESMAC.

RESUMO

Este artigo apresenta as tentativas de analisar o ser humano e as


experiências de perdas e separações; e o papel do psicólogo para minimizar essa
dor. Tem como objetivo também abordar algumas conseqüências desse sentimento
de perda e separação; e mostrar que ainda hoje existe um certo tabu até mesmo por
parte dos pesquisadores brasileiros por questões de morte e luto.

Palavras-Chave: Perdas. Separações. Minimizar. Tabu.

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INTRODUÇÃO

“O ser humano e as experiências de perdas e separações”, no sentido de


analisar e aprofundar os debates acerca da problemática que envolve tal tema,
visando aperfeiçoamento das atividades psicológicas, revelando-se esclarecedor e
possibilitando discorrer por um sem número de assuntos reveladores abordados nos
capítulos que seguem o presente trabalho.
A importância de se analisar “o ser humano e o sentimento de perdas e
separações”, é encontrada porque oferece condições para se delinear hipóteses e
discussões que possam ser tomadas para chegar a um determinado objetivo quanto
a esclarecimentos necessários, visando atendimento eficiente e eficaz para os
pacientes.
O presente estudo se justifica pela importância que a análise de tal tema
possui, de modo a influir diretamente no comportamento humano, de forma que
possa oferecer auxílio quando o paciente se encontra em estado de conflito ou
depressão, levando-o a pensar que ganhar e perder são inato ao ser humano e,
muitas vezes, na perda ou na separação é preciso haver uma renovação da vida e
do amor, e que nem sempre uma perda significa perder no contexto da palavra, e
sim, ganhar uma nova realidade, uma nova interpretação.
Como os sentimentos de perdas e separações influenciam no
desenvolvimento comportamental, no conhecimento e no aprimoramento da
formação do ser humano, torna-se ainda mais importante a sua investigação no
presente estudo de pesquisa, uma vez que o medo da perda e da separação é o
principal responsável pelo sofrimento vital da pessoa, envolvendo-a por anos, e
carecendo de um acompanhamento profissional mais assíduo e eficiente.
O presente trabalho tem como objetivo evidenciar teoricamente a
importância de se abordar a perda e a morte no sentimento humano, desdobrando-
se na exposição das abordagens conceituais pertinentes, na análise dos fatores de
composição e mensuração, na identificação da tipologia para evidenciar a utilização
adequada para o processo terapêutico, além de transcorrer através de discussão
das limitações quanto às análises de utilização da ferramenta propicia para a
maximização participativa no tratamento e, finalmente, possibilitar uma visão dos

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benefícios que a informação gerada possa trazer para a tomada de decisão quanto
ao método no processo psicoterápico.
Busca-se, portanto, nesta direção, encontrar no presente estudo, a
importância de utilização dos meios viáveis para acompanhamento do paciente.
O presente estudo de pesquisa explicativa, preocupada em responder
questões relacionadas ao problema da perda e separação no ser humano, trata de
tal tema, buscando suas peculiaridades e desdobramentos, envolvendo uma
compilação bibliográfica sobre as mais diversas fontes disponíveis no sentido de se
analisar conceitos, definições, estatísticas e fundamentos básicos para que se possa
dirimir toda a problemática suscitada no decorrer da pesquisa. Assim, diversas
leituras, comparações, discussões e análises críticas foram devidamente
providenciadas com o objetivo de se conhecer, com a maior profundidade possível,
toda a sistemática que se encerra tanto na questão do paciente quanto nos seus
familiares.
Nesse contexto, convém questionar o que realmente é a morte, uma
indagação que todos fazem, mas que nem sempre todos sabem responder
satisfatoriamente. Nos dicionários encontra-se com a acepção correspondente ao
ato de morrer, o fim da vida animal ou vegetal, fim, destruição, ruína.
Na maioria das religiões, morrer é o ato da alma ou o espírito deixar o
corpo e ir para algum lugar. Assim acreditavam os egípcios, os persas, os fenícios,
os babilônios e outros povos antigos. Assim crêem muitas religiões e filosofias
religiosas – pagãs ou que se intitulam cristãs. Por exemplo, o catolicismo romano crê
que quando uma pessoa morre, sua parte imaterial vai para o céu (se for digna),
para o inferno (se for má) ou para o purgatório (se estiver na média). Os
protestantes de um modo geral (com raríssimas exceções) crêem que o homem vai
para o céu ou para o inferno – se aceitou ou não a salvação oferecida por Cristo. Os
espíritas crêem como a maioria das religiões orientais: quando o ser morre, seu
espírito sai, para se encarnar em outro corpo, que vai nascer.
Desta forma, observa-se que a morte é uma experiência única para o qual
o ser humano ainda se prepara para ocorrer. Assim, é preciso entender a
experiência humana quando de decorrência de perdas.
O fenômeno inevitável da morte é enfocado com vista as suas
representações em diversas sociedades. Trata-se de verificar, por meio da

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comparação sistemática, como as várias sociedades humanas classificam e
absorvem o fato de que, periodicamente, alguns dos seus membros desaparecem.
Assumindo uma posição psicológica e retirando as crenças de seu
contexto mais inclusivo, é possível explicar por que todas as sociedades praticam
rituais funerários e possuem idéias sobre a alma e o outro mundo, mas sendo
impossível abordar satisfatoriamente o problema das variações entre tais costumes.
Para Bromberg (1994, p. 19), “a morte pertence à condição humana”.
Embora sejam muitas as influências possíveis na determinação do impacto que uma
perda significativa tem para um dado indivíduo ou para um sistema relacional, ainda
permanece a necessidade de se avaliar a experiência pessoal. Duas das formas
mais consistentes de tratar esta questão teórica devem ser apresentadas tanto do
ponto de vista pessoal individual, da experiência psíquica subjetiva, quanto do
impacto mais amplo, vinculado à questão da preservação da espécie.
Os sintomas mais freqüentemente encontrados, segundo Bromber (1994,
p. 29), no luto são:

... depressão, ansiedade, culpa, raiva e hostilidade, falta de prazer,


solidão, com manifestações comportamentais de agitação, fadiga,
choro, com atitudes em relação a si, ao falecido e ao ambiente de
auto-reprovação, baixa auto-estima, desamparo, suspeita,
problemas, atitudes em relação ao falecido; com deterioração
cognitiva na lentidão do pensamento e da concentração; mudanças
fisiológicas e queixas somáticas como a perda de apetite, distúrbio
de sono, perda de energia, mudanças na ingestão e suscetibilidades
a doenças.

As fases do enlutamento, segundo Bromberg (1994, p. 31-9) passam pelo


entorpecimento, pelo anseio e protesto, pelo desespero, pela recuperação e
restituição, chegando ao luto normal e o patológico e aos fatores de risco através
das síndromes da perda inesperada, do luto ambivalente, do luto crônico.
Numa abrangência maior, Kóvacs (1992) trata que não há só uma morte,
mas várias, durante todo o processo evolutivo e que tem-se sempre tido a morte
como perda, ruptura, desintegração, degeneração, mas, também, como fascínio,
sedução, uma grande viagem, entrega, descanso, ou alivio. A seu ver, “o homem
desafia e tenta vencer a morte [...] e o homem é um ser mortal, cuja principal
característica é a consciência de sua finitude...”, o que quer dizer que o que se

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busca não é a vida eterna e sim a juventude eterna com seus prazeres, força, beleza
e não a velhice eterna com suas perdas, feiúra, dores.
Como o homem é perpetuado pelas suas obras a morte faz parte do
desenvolvimento humano desde a mais tenra idade. A morte como ausência, perda,
separação, e a conseqüente vivência de aniquilação e desamparo, acompanha o ser
humano durante toda sua vida. A morte se faz acompanhar de uma tentativa de
explicação e, por outro lado, fortes emoções assolam quando de seu acontecimento.
A dor acompanha as mortes e o processo de luto se faz necessário. Um dos
atributos freqüentemente associados à morte é a sua característica de
reversibilidade, presente na fantasia de muitos adultos. A irreversibilidade da morte
pela própria experiência.
A morte representa o desconhecido e o mal. Conviver com a concretude
da morte, corpos mutilados, sangue, violência, vê homicídios, assassinatos, acidente
atinge a sensibilidade do ser humano a ponto de deprimi-lo. A morte passa a adquirir
alguns dos seus contornos principais, o caráter de violência, repentinidade, acaso.
Uma das formas principais de proteção passa a ser a crença de que a
morte só ocorre com os outros.
Para Kóvacs (1992), a ligação da culpa com a morte do outro associada à
falta de cuidados, provoca sentimentos exacerbados no processo de luto. Um
mundo do faz-de-conta, quando a morte representa a derrota, o fracasso. Desafiar,
romper limites é o grito de vida, é a identidade de um novo ser que rompe barreiras,
extravasa limites, para configurar os contornos da própria identidade, em busca da
qual tem de ir até o fim. Experimentar novos prazeres, sentir o limite do possível é
viver a vida nos seus extremos.
No desafio da vida, entretanto, pode estar a morte, não só a do outro,
mas a própria como nas mortes concretas com a perda de amigos, colegas, em
acidentes, overdose, assassinatos, doenças. Neste sentido, a morte ocorreu por
inabilidade, imperícia e que o verdadeiro herói que é ele próprio, não vai morrer,
representando a busca e o desejo de imortalidade do ser humano, o seu desejo de
ser herói, forte, belo e onipotente, com a grande missão de vencer a morte.
É quando, neste caso, para Kóvacs (1992) que a adolescência configura
ambivalências: se sente todo-poderoso e também borra as calças quando a morte
espreita o pico da vida. A seu ver, é na adolescência também o tempo da

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descoberta do amor. O ponto culminante do amor é o orgasmo também chamado de
pequena morte. Isto quer dizer, como observa a metanóia junguiana, quando o
indivíduo alcança a metade da vida e faz um Blanco do que foi a existência até
aquele momento. A subida remete um esforço, a descida parece obrigatória.
Outros atributos associados à morte são o mistério, o poder e a força. A
velhice é a fase do desenvolvimento humano que carrega mais estigmas e atributos
negativos. Isso ocorre por perdas corporais, financeiras, de produtividade e, às
vezes, a separação da própria família se torna inevitável. (KÓVACS, 1992).
A morte como limite ajuda a crescer, mas a morte vivenciada como limite,
também é dor, perda da função das carnes, do afeto. É também solidão, tristeza,
pobreza. Uma das imagens mais fortes da morte é a da velhice, representada por
uma velha encarquilhada, magra, ossuda, sem dentes, feia e fedida, causando
repulsa e terror. (KÓVACS, 1992).
Lowen (1997) trata que a característica do ser vivo é a imortalidade,
considerando-se as suas unidades mais simples, como as células. A morte é o fim
da existência e não da matéria. Em termos de função, a morte se caracteriza pela
interrupção completa e definitiva das funções vitais de um organismo vivo, com o
desaparecimento da coerência funcional e destruição progressiva das unidades
tissulares e celulares. (KÓVACS, 1992).
Uma definição encontrada em Kóvacs (1992, p. 10-11) sobre a ocorrência
de morte, trata de se encontrar quando ocorre que

... não há receptividade e não reação total a estímulos externos,


mesmo que dolorosos, não havendo emissão de sons, gemidos,
contrações, nem aceleração da respiração; ausência de movimentos
respiratórios, falta de movimento muscular espontâneo ou de
respiração ao se desligar o aparelho respiratório por um tempo mais
longo; ausência de reflexos, ou coma irreversível com ablução da
atividade do sistema nervoso central, ausência dos reflexos
condicionados como reação da pupila, que fica fixa e dilatada mesmo
na presença de luz, sem reflexo na córnea, faringe e tendões; e
encefalograma plano, comprovando destruição cerebral plena e
irreversível.

A morte clínica é definida como um estado onde todos os sinais de vida


(consciência, reflexos, respiração, atividade cardíaca) estão suspensos, embora
uma parte dos processos metabólicos continue a funcionar. (KÓVACS, 1992).

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A morte total ocorre quando se inicia a destruição das células de órgãos
altamente especializada, como o cérebro, os olhos, passando depois para outros
órgãos menos especializados. (KÓVACS, 1992).
Quando se trata de experiências de morte por pessoas, a sensação que
se passa é a de serem espectadores, quando ouvem pronunciamentos sobre a sua
própria morte; sensação de paz e quietude ou, ao contrário, ruídos muito intensos;
experiência de passagem por um túnel escuro; experiência extracorpórea, em que o
indivíduo se vê acima do seu corpo. Algumas pessoas relatam que gostariam de
voltar ao corpo, mas não sabem como, tentam falar, mas ninguém escuta; encontro
com outras pessoas, que podem assumir a forma de parentes ou amigos já falecidos
ou de pessoas que ajudaram no momento da transição; encontro com um ser
iluminado, muitas vezes identificado com uma figura divina, cuja imagem está
relacionada com a história religiosa da pessoa. Esta figura pode exercer uma
atração irresistível e transcendental; sensação de retrocesso, onde ocorre uma visão
panorâmica da vida do sujeito, normalmente relatada como sendo muito rápida e em
ordem seqüencial de trás para a frente, com imagens rápidas, vividas e reais;
experiência de limite: a pessoa sente que chegou ao fim; muitos relataram, um
desejo imenso de voltar à terra e ao convívio familiar, com a responsabilidade e
necessidade de cuidar dos filhos; outros após o encontro com a pessoa divina não
queriam mais voltar, algumas pessoas se recusam a contar essas experiências com
medo do descrédito; outras relataram que essa experiência foi extremamente
impactante e provocou mudanças na sua forma de encarar a morte, diminuindo,
inclusive o medo de morrer. (KÓVACS, 1992).
Lowen (1997, p. 12) relata que diante da morte rápida e repentina, podem
ocorrer três reações em seqüência: a princípio a pessoa começa a lutar contra o
perigo e o inevitável; depois ela deixa de lutar e se entrega, relembrando cenas do
passado; em seguida, pode entrar num estado místico do qual, muitas vezes, não
deseja voltar.
O medo é a resposta psicológica mais comum diante da morte. Nenhum
ser humano está livre do medo da morte. E, segundo Lowen (1997, p. 14), “a
ansiedade é um estado geral que precede uma preocupação mais especifica do
homem com a morte. O medo da morte evoca ansiedade”. Entretanto, ocorrem duas
concepções: a morte do outro: o medo do abandono, envolvendo a consciência da

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ausência e da separação; e a própria morte: a consciência da própria finitude, a
fantasia de como será o fim e quando ocorrerá. (KÓVACS, 1992).
Ao pensar na morte, relaciona-se aos seguintes aspectos: medo de
morrer, quanto à própria morte surgindo o medo do sofrimento e da indignidade
pessoal. Em relação à morte do outro é difícil ver o seu sofrimento e desintegração,
o que origina sentimentos de impotência por não se poder fazer nada; medo do que
vem após a morte; quando se trata da própria morte e o medo do julgamento, do
castigo divino e da rejeição. Em relação à do outro, surge o medo da retaliação e da
perda da relação. Medo da extinção: diante da própria morte existe a ameaça do
desconhecido, o medo de não ser e o medo básico da própria extinção. Em relação
ao outro, a extinção evoca a vulnerabilidade pela sensação de abandono. (KÓVACS,
1992).
As variáveis segundo as quais se devem estudar o medo da morte,
envolvem: tempo, quando está prevista a ocorrência; espaço, o perigo da morte é
encarado como ameaça interna ou algo projetado no ambiente externo;
probabilidade, o individuo percebe que tem alta probabilidade de morrer real ou
simbolicamente; gênese, onde se pode buscar o inicio desse medo e com ele se
entrelaça com outros fatores de personalidade; manifestações excessivas com
algum aspecto da vida como família, trabalho ou saúde; patologia, até que ponto o
medo da morte pode ser considerado normal em todos os seres humanos;
diferenças individuais: o medo da morte está ligado a características pessoais e
circunstancias da vida e não pode ser considerado separadamente da personalidade
do sujeito; função, qual é a função do medo da morte na vida de uma pessoa.
(KÓVACS, 1992).
Para Lowen (1997, p. 16) os fatores que influenciam, no sentido de conter
o medo da morte, são “a maturidade psicológica do indivíduo, a sua capacidade de
enfrentamento, a orientação e o envolvimento religiosos que possa ter e a sua
própria idade”. Ou seja, as dimensões são: medo de morrer, dos mortos, de ser
destruído, da perda de pessoas significativas, do desconhecido, da morte
consciente, do corpo após a morte, da morte prematura.
A morte do adulto é temida como abandono e por isso, além de poder
incitar a raiva e a frustração, causa um sério abalo na onipotência infantil.

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O homem é bipartido: ao mesmo tempo em que sabe de sua originalidade
e poder de criação, reconhece sua finitude de forma racional e consciente. Vivem
todas as suas experiências com a morte presente em seus sonhos, fantasias.
Durante toda a sua existência, o ser humano tenta driblar esse saber, essa
consciência e age como se fosse imortal.
Na verdade, o ser humano possui dois grandes medos: o medo da vida e
o medo da morte. O medo da vida vincula ao medo da realização, da
individualização e, portanto, está propenso à destruição. Por isso, o indivíduo se
torna vulnerável a acidentes e deslizes. (KÓVACS, 1992).

O PAPEL DO PSICÓLOGO NAS PERDAS E SEPARAÇÕES HUMANAS

Psicoterapia: tratamento individual e grupal

Inicialmente é importante abordar, como mencionara Kóvacs (1992), que


o psicólogo pode se defrontar com a questão da morte em qualquer situação de
trabalho, na escola, em qualquer lugar. Esta ligação parece ser mais evidente no
trabalho clínico, quer institucional, quer em consultório particular. É preciso estar
atento, uma vez que ansiedades e fobias podem levar a uma paralisação do
paciente, que seria quase uma morte em vida. É preciso, ainda, entender que a
intencionalidade da ação autodestrutiva, por exemplo, a principio latente no
paciente, pode em algumas situações transformar-se num processo mais explicito,
como evidenciado pelo grande número de tentativas de suicídio e também por ações
letais. Estes indícios podem vir camuflados por outras queixas e é necessário que
sejam percebidos e apontados desde o início do processo terapêutico, quando a
ação psicológica pode ser mais efetiva.
Quando a morte se sobressai no comportamento humano por uma falta
sentida de um ente muito próximo, ocorre da família ficar enlutada, submetida a uma
tristeza extrema. Cuidar dessa família é uma das tarefas que envolvem o papel do
psicólogo, carecendo que este inicie seus trabalhos avaliando a necessidade de
cuidado, identificáveis por ocasião da perda, auxiliando na avaliação da condição do
enlutado para que seja determinada a forma de intervenção específica, bem como
de prevenção do luto patológico.

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Os fatores de risco utilizados para avaliação individual também precisam
ser utilizados na familiar, para se obter maior acuracidade na avaliação das
respostas individuais como um meio de trabalhar melhor a relação do sistema.
Assim sendo, a experiência mostra que perdas múltiplas ou repentinas,
quebras de relações dependentes ou ambivalentes de fato ativam mecanismos
dificultadores do processo de elaboração. (BROMBERG, 1944).
Conforme Bromberg (1944, p. 66), os itens de avaliação devem conter:

... o nível do funcionamento, em comparação com o nível de pré-


enlutamento; movimentos na direção de problemas extraordinários;
aceitação da perda, como questão composta por um desdobramento
no que concerne a ausência de distorção com nenhuma expectativa
de retorno ou dificuldade em acreditar na morte, na possibilidade de
dissipação do luto por meio de trocas, e na integração do evento à
visão de mundo do enlutado; socialização, se o enlutado voltou à sua
vida social; atitude quando ao futuro, se positiva, com uma razoável
atitude de otimismo e esperança; saúde, boa quanto era antes da
perda; ansiedade ou depressão em nível normal de auto-estima; e
resistência na aparente habilidade para superar futuras perdas.

Esta avaliação pode mostrar excelentes balizadores na avaliação


individual dentro do funcionamento familiar, sendo úteis como balizadores da
avaliação do processo terapêutico.
Tais questões foram divididas nas categorias de depressão, auto-
resistência compulsiva, busca de estímulo, reações autônomas, preocupações,
saúde em geral, e relacionamento.
Os pontos levantados, segundo Bromberg (1994, p. 67- 8) devem ser:

... a morte repentina ou após longo período de doença; perda


ambígua; morte violenta, particularmente por suicídio; padrões
familiares de desunião, com falta de tolerância por reações diferentes
ou de coesão para apoio mútuo; falta de flexibilidade no sistema;
comunicação bloqueada e segredos, mitos e tabus cercando a morte;
falta de recursos sociais e econômicos; papel importante da pessoa
que morreu com substituição precipitada ou inabilidade para
reinvestir; relações conflituosas por ocasião da morte; perda
prematura; perdas múltiplas ou outros fatores simultâneos de
estresse emocional; legado multigeracional de lutos não-resolvidos,
particularmente revivência transgeracionais de aniversário; sistema
de crenças da família envolvendo culpa, vergonha acerca da morte;
contexto sociopolítico e histórico da morte, estigmas ou medos
catastróficos.

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Outro método de avaliação familiar relativo a perda, pode ser
desenvolvido podendo traçar o genograma e relatar uma breve história familiar,
observando aspectos como físico, na aparência, sono, apetite, saúde em geral;
prático, na moradia, transporte, cuidado com os filhos, finanças; emocional, nos
sentimentos apropriados ou não, risco de suicídio, grau de compreensão e
elaboração; espiritual, na fé, significado, afiliação religiosa; rede social, na família
estendida, amigos comunicação, apoio, qualidade de relação dentro da comunidade.
Outro modelo de suporte apropriado a partir do aconselhamento pode ser
desenvolvido em três estágios: no exploratório, quando a pessoa é auxiliada para
que possa avaliar sua situação e necessidades; na compreensão, quando a pessoa
é levada a atingir uma nova compreensão da situação e a clarificar o que pode fazer
para uma resolução efetiva; e ação e avaliação, quando a pessoa é ajudada a
implementar decisões e planos, considerando as conseqüências possíveis.
As necessidades específicas nesse modelo são: falar sobre a experiência
da doença, morte, funeral, lembranças; ter aceitadas suas expressões de dor; saber
que alguma culpa é freqüente, assim como raiva e poder falar disso com
tranqüilidade; algumas vezes, proteger-se de alguns desvios de rota que lhe são
impingidos antes que tenham terminado o processo; sendo o primeiro aniversário de
morte um evento crucial, vez que neste período há maior necessidade de contato; as
necessidades enlutamento da criança nem sempre são reconhecidas pela família,
podendo ser confundidas com distúrbios de conduta; pode ocorrer de o enlutado
precisar de permissão para dar por terminado o processo e precisar de ajuda para
se adaptar a novos papéis, nova identidade; e um ponto de ligação com a vida,
como um número de telefone ou algum outro meio de contato.
No processo de psicoterapia do enlutamento o rompimento de uma
relação significativa implica a necessidade de adaptação à condição de viver sem
aquela pessoa. Conseqüentemente, a direção dessa mudança está, em sua base,
determinada pela condição de vida que havia com aquela pessoa.
No confronto com a crise desencadeada pela perda, o fato de essa perda
ter sido causada pela morte, e não por um rompimento ou separação, que pode
trazer embutida a esperança do reencontro, torna muito importante que seja dada a
pessoa enlutada a possibilidade de encarar, face a face, as implicações dessa morte
em seu presente e futuro.

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No processo de psicoterapia individual para o enlutamento, este é um
trabalho doloroso, requer que o terapeuta esteja preparado para ajudar o paciente a
avaliar suas crenças, clarificar seus modelos prévios e a situação atual para
identificar os aspectos que precisam ser mudados. Vale ressaltar que o trabalho é
particularmente recompensador quando feito com família e não com indivíduos
isolados.
No processo de psicoterapia familiar para enlutamento, tradicionalmente,
a compreensão da perda por morte tem se dado no âmbito individual ou, se o
familiar é levado em conta, é sempre a partir da relação diádica do paciente
sintomático com parente morto. Dessa forma, é possível observar que o membro
assintomático da família está se ajustando bem a perda, mesmo que o sistema
relacional não tenha sido avaliado. No entanto, a experiência mostra que não é bem
assim, porque é inevitável que o sistema familiar seja alterado e os membros
poderão precisar de ajuda para reconstruir sua história e seus relacionamentos em
uma perspectiva funcional.
Os recursos para avaliação das famílias, segundo Bromberg (1994, p.
98), deve se dar a partir de um efetivo direcionamento:

... analisando o tipo de morte, os padrões familiares de união,


flexibilidade do sistema, comunicação, mitos e tabus sobre a morte;
recursos sociais e econômicos, papel do morto no sistema familiar;
relações familiares por ocasião da morte; perdas múltiplas. Fatores
simultâneos de estresse; sistema de crenças da família; legado
multigeracional de lutos não resolvidos; e contexto sociopolítico e
histórico da morte.

A terapia da família enlutada tem seus objetivos, que determinam a


escolha dos procedimentos de intervenção, tais como reconhecimento
compartilhado sobre a realidade da morte; compartilhamento da experiência da
perda e sua contextualização; reorganização do sistema familiar; reinvestimento em
outras relações e objetivos da vida.
A avaliação do atingimento dos objetivos dá-se no decorrer do processo
terapêutico e não somente no seu término, permitindo chegar ao final do processo,
mais pelos objetivos atingidos do que pelo número de sessões realizadas.
O terapeuta deve ser respeitoso, porém não reverente com o sofrimento;
transmitir, por meio de sua voz, a convicção de que aquilo que fala com a família é

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importante e vale a pena certo sofrimento; utilizar o humor generosamente, não
significando minimizar o sofrimento e sim, dar a mensagem que é possível sofrer e
continuar vivendo; quando tiver certeza de estar em um tema importante, não
permitir ser manipulado ou dele desviado; cuidar para não viver falsa confiança,
impedindo que a família passe pelo processo de luto da maneira que lhe for
possível.
Por meio dos recursos de familiarização, repetição e transformação, os
rituais têm se revelado experiências familiares importantes no marco de transições
do ciclo vital, vez que permitem o estabelecimento de um elo entre o passado e o
futuro, por incorporarem significados simbólicos referentes à família e à história
passada e ao futuro da cultura.
Nos casos específicos dos rituais para a morte, como os funerais, as
repetições de comportamento servem para contextualizar a experiência, e permitem
as mudanças de papéis e condições trazidas pela transição do ciclo vital.
A ritualização em terapia do luto envolve três aspectos, segundo
Bromberg (1993, p. 104) “...um ritual para admitir a perda e entrar no luto por ela; um
ritual que simbolize o que os membros da família incorporam do morto; e um ritual
para simbolizar os movimentos de mudança na vida.”
No entanto, à medida que esses rituais são conhecidos dentro da família,
torna-se possível ao terapeuta identificar as opções de que dispõe para alterar esses
padrões.
Nessa identificação entram tanto os rituais existentes previamente à
morte assim como os desencadeados após a morte.
Com plano de fundo para a análise, as questões utilizadas para avaliação
das famílias estiveram sempre sendo consideradas e, dentre elas, algumas puderam
compor áreas como pontuadoras para análise dos dados, quais sejam, flexibilidade
do sistema familiar, sistema de crença da família, rituais, comunicação na família,
percepção da perda, perspectivas, socialização e saúde. Tais pontos servirão como
guias para avaliação do processo terapêutico, dado que estão contidos nos objetivos
a serem alcançados por meio dele.
A postura adotada deve concluir-se sobre o resultado do processo
terapêutico com as famílias enlutadas, considerando a formulação e aplicação de
um procedimento para mudança, que se divide em quatro etapas: clara definição do

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problema em termos concretos; investigação das soluções já experimentadas;
definição da mudança concreta a ser produzida; formulação e implementação de um
plano para produzir essa mudança.
Os três momentos que marcam a psicoterapia do luto familiar, quais
sejam, demarcação, externalização e reorganização, podem ser identificados desta
forma: demarcação, com entrada e saída da fase de entorpecimento e
estabelecimento dos contornos da situação de perda; externalização, sucedendo-se
as fases de anseios-protesto e desespero, como um momento muito delicado, pelo
que provoca em uma situação familiar que muitas vezes podia parecer equilibrada; e
reorganização, fase final; na qual ocorrem recuperação e restituição, ou seja, o
sistema encontra o modo de funcionamento que reconhece as perdas e identifica
novas possibilidades. (BROMBERG, 1994).

CONCLUSÃO

Abordando no presente trabalho as questões atinentes aos sentimentos


humanos e sua situação perante o evento da morte, passando pelas experiências e
separações no seu processo de desenvolvimento, analisou-se de que forma se dá o
aprofundamento do debate acerca dessa problemática, investigando de que forma o
ser humano se aperfeiçoa mediante tais circunstâncias.
Reitera-se, aqui, a importância de se analisar o ”ser humano e as
experiências de perdas e separações”, quando ela é encontrada oferecendo
condições para se delinear hipóteses e discussões que possam ser tomadas para
chegar a um determinado objetivo quando a esclarecimentos necessários, visando
atendimento eficiente e eficaz aos pacientes no desenvolvimento do papel do
psicólogo mediante tais situações.
A importância que a análise de tal tema possui, como já foi expresso
anteriormente, de modo a influir diretamente no comportamento humano, de forma
que possa oferecer auxilio quando o paciente se encontra em estado de conflito ou
depressão, levando-nos a pensar que ganhar é inato ao ser humano e, muitas
vezes, na perda ou na separação é preciso haver uma renovação da vida e do amor,
e que nem sempre uma perda significa perder no contexto da palavra e, sim, ganhar
uma nova realidade, uma nova interpretação.

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Assim, objetivou o presente estudo de pesquisa, evidenciar teoricamente
a importância de se abordar a perda e a morte no sentimento humano,
desdobrando-se na exposição das abordagens conceituais pertinentes, na análise
dos fatores de composição e mensuração no sentido de encontrar o verdadeiro
papel do psicólogo em situações identificadas de profundas tristezas e comoções.
Desta forma, as considerações conclusivas ao presente trabalho, partem,
conforme assimila Bromber (1993, p. 91) de que o luto é uma experiência de crise
que afeta todos os membros da família; não sendo suficiente tratar a crise individual
do luto, porque é também um fenômeno grupal. E por ser uma experiência de crise,
terapeuticamente falando, assim, deve ser abordado.
Se todas as sociedades dispõem de rituais para lidar com a morte e estes
têm uma função reorganizadora para os indivíduos, podem ser transpostos para o
contexto terapêutico, guardando as mesmas características e funções.
Do ponto de vista do luto individual, a literatura está muito bem
fundamentada para permitir a prática terapêutica.
No entanto, quando ao luto familiar, há um número bem mais reduzido de
elementos teóricos o que, em si, já revela uma posição dos pesquisadores acerca do
tema do luto, visto muito mais como uma questão colocada no âmbito das
experiências individuais e não das familiares.
Há que se detectar um certo desinteresse dos pesquisadores brasileiros
por questão de morte luto, porque está calcado na crença de que as conseqüências
do luto são um problema inevitável e suportável, considerando-as apenas em uma
visão a curto prazo, desconsiderando as conseqüências psicossociais de longo
prazo, como problemas psiquiátricos, aumento de freqüência às consultas médicas
por doenças psicossomáticas, dificuldades de aprendizagem e outros tantos
problemas. (BROMBERG, 1994).
É importante, a esta altura, ressaltar o importante envolvimento da família
no tratamento terapêutico quando se tratar de luto, perdas ou separações, uma vez
que o profissional de psicologia não deve atacar de forma isolada o indivíduo nestas
questões, sendo necessária uma abrangência aos vínculos que envolvem aquele
paciente.

REFERÊNCIAS

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