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População da Nigéria: bônus demográfico e armadilha da pobreza

José Eustáquio Diniz Alves


Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

A Nigéria é o país que vai apresentar o maior crescimento demográfico no século XXI e se
tornará a 3ª nação mais populosa do Planeta, devendo ficar à frente dos Estados Unidos a
partir de 2047 e atrás somente da Índia e da China. Segundo as estimativas e projeções da
Divisão de População da ONU, a população nigeriana era de 37,9 milhões de habitantes em
1950 e deve chegar a 732 milhões em 2100, um crescimento de 19,4 vezes em 150 anos.

O gráfico abaixo, com dados da Divisão de População da ONU (revisão 2019), mostra que, além
da população total, todos os grupos etários vão crescer, embora em ritmos diferentes. Ao
contrário da maioria dos países do mundo que devem apresentar um pico populacional e
depois um decrescimento em algum momento do atual século, a Nigéria vai manter o
crescimento demográfico significativo até 2100. A população total vai crescer 19,4 vezes em
150 anos, o grupo 0-14 anos vai crescer 10,9 vezes, a PIA (15-64 anos) vai crescer 23,2 vezes
entre 1950 e 2100, o grupo de idosos de 60 anos e mais vai crescer 56,3 vezes, o grupo de 65
anos e mais vai crescer 65,8 vezes e os idosos de 80 anos e mais vão crescer 140,7 vezes.

Nota-se que, a despeito do crescimento da população idosa em ritmo superior ao da


população total e mesmo superior ao crescimento da PIA, as 3 categorias de idosos
continuarão abaixo do montante da população jovem, de 0 a 14 anos. Isto quer dizer que o
envelhecimento da população da Nigéria só ocorrerá no século XXII.

O alto crescimento da população gera uma estrutura etária rejuvenescida, com baixa
proporção de pessoas em idade ativa e alta proporção da razão de dependência (RD). Entre
1950 e 1987, a percentagem da PIA (15-65 anos) em relação à população total da Nigéria caiu

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de 55,3% para 51,9% e a Razão de Dependência subiu de 80,9% para 92,8% (quase uma em
duas pessoas estavam em idade considerada dependente). Mas a partir de 1988 a
percentagem da PIA cresce e a RD diminui (com um pequeno rebote até 2013), o que significa
que o bônus demográfico da Nigéria vai ser um dos mais longos do mundo e vai se prolongar
durante todo o século XXI.

Porém, o bônus demográfico não é algo pode ser aproveitado automaticamente. Ao contrário,
uma estrutura etária favorável é essencial para o salto do desenvolvimento socioeconômico,
mas nada adianta haver uma janela de oportunidade demográfica se a estrutura econômica e
social não gera as condições para melhorar as condições de saúde, educação e, principalmente,
pleno emprego e trabalho decente. Também é necessário haver sustentabilidade ambiental.

De fato, as condições demográficas, teoricamente, favoreceria o crescimento econômico.


Todavia, não é o que vem acontecendo. Segundo dados do FMI (WEO, abril de 2019), a renda
per capita da Nigéria (em poder de paridade de compra – ppp) era de US$ 3.139 em 1990, caiu
para US$ 2.855 em 1999 e subiu nos anos 2000 até atingir o máximo de US$ 5.754 em 2014. A
partir de 2015 a renda per capita da Nigéria iniciou um trajetória de queda e deve alcançar US$
5,279 em 2024, abaixo do valor da renda de 2011. Ou seja, a Nigéria completará 13 anos
perdidos, com queda da renda per capita, a despeito das condições favoráveis da estrutura
etária.

A participação do PIB da Nigéria no PIB global caiu na década de 1990 (de 0,67% para 0,55%)
subiu até o pico de 0,95% em 2014 e deve ficar em 0,81% em 2024. Isto quer dizer que a
população da Nigéria está crescendo mas ficando cada vez mais pobre em termos absolutos e
em termos relativos.

A situação de estresse econômico e ambiental agrava a situação de pobreza do país. Em artigo


do ano passado (Alves, 16/11/2018) busquei mostrar que a Nigéria está em uma armadilha do
baixo crescimento econômico (em um quadro de alto crescimento demográfico) e está se
transformado em um fábrica de geração de pessoas pobres. A taxa de nigerianos vivendo em
situação de extrema pobreza está em torno de 50% e também não tem perspectiva de melhora
nos próximos anos.

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Isto quer dizer que há cerca de 100 milhões de pessoas vivendo na extrema pobreza na Nigéria
atualmente e este número pode ultrapassar 200 milhões até 2050. A cidade de Lagos, com
cerca de 20 milhões de pessoas na região metropolitana, é uma das megacidades mais
vulneráveis à elevação do nível do mar. Milhões de pessoas irão ficar desalojadas pela invasão
das águas salgadas.

As mudanças climáticas devem dificultar a luta para vencer a miséria. Não só a Nigéria, mas o
mundo, terá dificuldade para cumprir o objetivo 1 (“Erradicação da Pobreza”) dos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS), que pretende “Acabar com a pobreza em todas as suas
formas, em todos os lugares” até 2030.

A Combinação de crise econômica, crise ambiental e alto crescimento demográfico tende a


fazer explodir a extrema pobreza, condenando milhões de pessoas ao sofrimento. Ao invés do
bônus demográfico contribuir para o crescimento da renda e a redução da miséria, a
“armadilha da pobreza” pode fazer a Nigéria perder a oportunidade de colher os frutos de uma
estrutura etária favorável.

Referência
ALVES, JED. Nigéria: colapso ambiental e fábrica de pobreza? Ecodebate, 16/11/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/11/16/nigeria-colapso-ambiental-e-fabrica-de-pobreza-
artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/