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Superior Tribunal de Justiça

EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RESP Nº 1.281.594 - SP (2011/0211890-7)

RELATOR : MINISTRO BENEDITO GONÇALVES


EMBARGANTE : BUCHALLA VEÍCULOS LTDA
ADVOGADOS : CANDIDO RANGEL DINAMARCO E OUTRO(S) - SP091537
CÁSSIO HILDEBRAND PIRES DA CUNHA - DF025831
OSWALDO DAGUANO JÚNIOR - SP296878
JOÃO ANTÔNIO CÁNOVAS BOTTAZZO GANACIN E OUTRO(S) -
SP343129
GABRIELA SILVA MELO - DF049385
EMBARGADO : FORD MOTOR COMPANY BRASIL LTDA
ADVOGADOS : ISABELA BRAGA POMPILIO E OUTRO(S) - DF014234
CHRISTIANO PEREIRA CARLOS E OUTRO(S) - DF014223
JULIO GONZAGA ANDRADE NEVES - SP298104A
NATÁLIA ALVES BARBOSA - DF042930

DECISÃO

Trata-se de embargos de divergência interpostos contra acórdão proferido pela Terceira


Turma desta Corte Superior, Rel. Min. Marco Aurélio Belize, assim ementado (fl. 950-951):

RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. CIVIL. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO


DO ART. 535 DO CPC/1973. PRESCRIÇÃO. PRETENSÃO FUNDADA EM
RESPONSABILIDADE CIVIL CONTRATUAL. PRAZO TRIENAL.
UNIFICAÇÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL PARA A REPARAÇÃO CIVIL
ADVINDA DE RESPONSABILIDADE CONTRATUAL E
EXTRACONTRATUAL. TERMO INICIAL. PRETENSÕES INDENIZATÓRIAS
DECORRENTES DO MESMO FATO GERADOR: RESCISÃO UNILATERAL
DO CONTRATO. DATA CONSIDERADA PARA FINS DE CONTAGEM DO
LAPSO PRESCRICIONAL TRIENAL. RECURSO IMPROVIDO.
1. Decidida integralmente a lide posta em juízo, com expressa e coerente indicação
dos fundamentos em que se firmou a formação do livre convencimento motivado,
não se cogita violação do art. 535 do CPC/1973, ainda que rejeitados os embargos de
declaração opostos.
2. O termo "reparação civil", constante do art. 206, § 3º, V, do CC/2002, deve ser
interpretado de maneira ampla, alcançando tanto a responsabilidade contratual (arts.
389 a 405) como a extracontratual (arts. 927 a 954), ainda que decorrente de dano
exclusivamente moral (art. 186, parte final), e o abuso de direito (art. 187). Assim, a
prescrição das pretensões dessa natureza originadas sob a égide do novo paradigma
do Código Civil de 2002 deve observar o prazo comum de três anos. Ficam
ressalvadas as pretensões cujos prazos prescricionais estão estabelecidos em
disposições legais especiais.
3. Na V Jornada de Direito Civil, do Conselho da Justiça Federal e do Superior
Tribunal de Justiça, realizada em novembro de 2011, foi editado o Enunciado n. 419,
segundo o qual "o prazo prescricional de três anos para a pretensão de reparação
civil aplica-se tanto à responsabilidade contratual quanto à responsabilidade
extracontratual".

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4. Decorrendo todos os pedidos indenizatórios formulados na petição inicial da
rescisão unilateral do contrato celebrado entre as partes, é da data desta rescisão que
deve ser iniciada a contagem do prazo prescricional trienal.
5. Recurso especial improvido.

Afirmou o embargante que ajuizou demanda com propósito de ser indenizada pela rescisão
unilateral de contrato que manteve com a montadora Ford. A r. sentença reconheceu a prescrição
trienal (CC, artigo 206, 3º, inciso V), o que foi confirmado pelo eg. Tribunal de Justiça.
Foi interposto Recurso Especial, regularmente admitido. Em decisão monocrática, o
Ministro Marco Aurélio Belizze conheceu e deu provimento ao Recurso Especial, afirmando que a
prescrição no caso é a prevista no artigo 205 do Código Civil, ou seja, de dez anos.
Ocorre, no entanto, que no julgamento do agravo interno ao Recurso Especial, já no
colegiado, houve "uma virada jurisprudêncial", com o reconhecimento da prescrição de três anos,
também às pretensões indenizatórias fundadas em atos ilícitos contratuais.
Assim, afirmou a existência de divergência a ser pacificada.
Como acórdão paradigmas indicou:
1) E. Segunda Turma no julgamento do AgRg no Resp nº 1.516.891-RS, relator Ministro
Humberto Martins:

ADMINISTRATIVO. PROCESSUAL CIVIL. TELEFONIA. REPETIÇÃO DE


INDÉBITO DE TARIFAS COBRADAS INDEVIDAMENTE. PRAZO
PRESCRICIONAL DECENAL. PRECEDENTES.
1. "A pretensão indenizatória da parte autora, nascida do inadimplemento
contratual, obedece ao prazo prescricional decenal por ter natureza contratual."
(AgRg no REsp 1.317.745/SP, Rel. Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira
Turma, julgado em 6/5/2014, DJe 14/5/2014.)
2. No mesmo sentido: AgRg no AREsp 47.931/RS, Rel. Ministro HUMBERTO
MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 2/2/2012, DJe 9/2/2012; AgRg no
AREsp 138.704/SP, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, TERCEIRA
TURMA, julgado em 6/8/2013, DJe 22/8/2013.
Agravo regimental improvido.

2) E. Primeira Turma no julgamento do Agravo Interno no Recurso Especial n.


1.112.357/SP, da relatoria do Ministro Sérgio Kukina, assim ementado:

AGRAVO INTERNO EM RECURSO ESPECIAL. PRAZO PRESCRICIONAL.


VÍCIO NA OBRA VERIFICADO ANTES DA VIGÊNCIA DO CÓDIGO CIVIL DE
2002. REGRA DE TRANSIÇÃO. ART. 2.028 DO CC/2002. RESPONSABILIDADE
DO CONSTRUTOR POR DEFEITO DA OBRA. PRAZO PRESCRICIONAL DE
10 ANOS.
1. Discute-se o prazo prescricional da pretensão de responsabilização do construtor
por defeito na obra.
2. Considerando que, para a presente hipótese, o Código Civil de 2002 reduziu o
prazo prescricional de 20 anos para 10 anos, e que na data em que o referido
diploma entrou em vigor não havia transcorrido mais da metade do tempo
estabelecido na lei revogada, aplica-se ao caso o prazo prescricional decenal, contado
a partir de 11 de janeiro de 2003 (art. 2.028 do CC/2002).
3. Ademais, o posicionamento desta Corte Superior é no sentido de que "não se
aplica o prazo de decadência previsto no parágrafo único do art. 618 do Código

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Civil de 2002, dispositivo sem correspondente no código revogado, aos defeitos
verificados anos antes da entrada em vigor do novo diploma legal" (AgRg no REsp
1.344.043/DF, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, DJe 4/2/2014) .
4. Agravo a que se nega provimento. PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO.
RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS A EXECUÇÃO FISCAL. PRESCRIÇÃO.
INTERRUPÇÃO. AÇÃO ANULATÓRIA DE DÉBITO FISCAL.

3) E. Quarta Turma no AgRg no Ag. nº 1.327.784 - ES, de relatoria da Ministra Maria


Isabel Gallotti:

AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE


REPARAÇÃO CIVIL POR DANOS DECORRENTES DE INADIMPLEMENTO
CONTRATUAL. PRESCRIÇÃO DECENAL.
1. Aplica-se o prazo prescricional de dez anos, previsto no art. 205 do Código Civil,
à reparação civil por danos decorrentes de inadimplemento contratual. Precedentes.
2. Agravo regimental a que se nega provimento.

4) E. Quarta Turma no Resp 1.222.423, de relatoria do Ministro Luis Felipe Salomão:

DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. OMISSÃO.


INEXISTÊNCIA. REEXAME DE PROVAS. INVIABILIDADE.
INADIMPLEMENTO CONTRATUAL. PRAZO PRESCRICIONAL PREVISTO NO
ARTIGO 206, § 3º, V, DO CÓDIGO CIVIL. INAPLICABILIDADE.
1. Não caracteriza omissão, contradição ou obscuridade quando o Tribunal apenas
adota outro fundamento que não aquele defendido pela parte.
2. O artigo 206, § 3º, V, do Código Civil cuida do prazo prescricional relativo à
indenização por responsabilidade civil extracontratual, disciplinada pelos artigos
186,187 e 927 do mencionado Diploma.
3. A Corte local apurou que a presente execução versa sobre montante relativo a não
cumprimento de obrigação contratual, por isso que não é aplicável o prazo de
prescrição previsto no artigo 206, § 3º, V, do Código Civil.
4. Recurso especial não provido.

Articula, em síntese, que deve prevalecer o entendimento assentado nos acórdãos


paradigmas no sentido de que o prazo prescricional previsto no artigo 206, § 3º, inciso V, do Código
Civil aplica-se unicamente às hipóteses de responsabilidade civil aquiliana, sendo que o prazo
prescricional geral (CC, artigo 205) aplica-se às pretensões indenizatórias fundadas em
responsabilidade civil contratual - exceto quando houver regra especial para o contrato.

É o relatório.

Tendo em vista a existência de superposição de competências, uma vez que o acórdão


embargado é da Terceira Turma e os arestos paradigmas da Primeira, Segunda e Quarta Turmas,
examino a divergência suscitada com relação ao primeiro e segundo paradigmas – Segunda Turma
no julgamento do AgRg no Resp nº 1.516.891-RS, relator Ministro Humberto Martins; e Primeira
Turma no julgamento do Agravo Interno no Recurso Especial n. 1.112.357/SP, da relatoria do
Ministro Sérgio Kukina.
O Acórdão embargado trata sobre contrato firmado entre Buchalla Veículos Ltda e Ford
Motor Company Brasil Ltda e a alegado descumprimento unilateral da Ford por ter deixado de

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observar o direito de exclusividade e preferência que aquela detinha para comercializar a marca
Forda na região de Presidente Prudente e por ter descumprido o "Plano de Ação do Distribuidor".
O Acórdão reconheceu como "reparação civil", para fim de aplicação do artigo 206, 3º do
CC/2002, a responsabilidade contratual (artigos 389 a 405), extracontratual (artigos 927 a 954), a
decorrente de dano exclusivamente moral (artigo 186, parte final) e o abuso de direito (artigo 187).
Concluiu que não se deve observar o artigo 205 como regra geral.
No caso do acórdão indicado como paradigma, da Segunda Turma, AgRg no Resp nº
1.516.891-RS, relator Ministro Humberto Martins, o contrato é de prestação de serviços telefônicos
no qual a autora pretende a discussão sobre valores cobrados por serviços não solicitados e
diferença de valores a título de Banda Larga. Trata-se, pois, de demanda de restituição de valores
cobrados indevidamente, cumulada com pedido de repetição de indébito.
Assim, o embargante fez o seguinte cotejo (e-STJ fl. 985):

Acórdão paradigma (E. Segunda Turma): "a pretensão indenizatória da parte autora,
nascida do inadimplemento contratual, obedece ao prazo prescricional decenal por ter natureza
contratual"
Acórdão embargado (E. Terceira Turma): "às ações fundadas em responsabilidade civil
contratual não é aplicável o prazo prescricional geral decenal previsto no artigo 205, mas o trienal do
artigo 206, § 3º, V, ambos do Código Civil de 2002."

Desta forma, cingiu a divergência sobre a aplicação do prazo prescricional disposto no


artigo 205 do Código Civil às pretensões fundadas em responsabilidade civil contratual.
Já no que diz respeito ao segundo acórdão indicado como paradigma, consta que se trata
de demanda proposta pelo Município de São José do Rio Preto em face de Etemp Emgenharia
Indústria e Comércio Ltda, decorrente de contrato de empreitada para pavimentação, prestado de
forma inadequada, cujo fim é obter do construtor indenização por defeito da obra, fundado em
responsabilidade contratual.
Assim, o embargante fez o seguinte cotejo (e-STJ fl. 988):

Acórdão paradigma (E. Primeira Turma): "o presente caso trata de ação de
responsabilidade por inadimplemento contratual. Para esses casos, esta Corte Superior firmou
entendimento no sentido de que "Aplica-se o prazo de prescrição decenal (art. 205 do CC/2002)
quando o pedido de reparação civil tem por fundamento contrato celebrado entre as partes"
Acórdão embargado (E. Terceira Turma): "às ações fundadas em responsabilidade civil
contratual não é aplicável o prazo prescricional geral decenal previsto no artigo 205, mas o trienal do
artigo 206, § 3º, V, ambos do Código Civil de 2002."

Em sede de juízo perfunctório e em observância do contraditório, evidencia-se que o


recurso deve ser processado.
Assim, admito o presente recurso de embargos de divergência, quanto aos acórdãos da c.
Primeira e Segunda Turmas.
Dê-se vista ao embargado, para, querendo, impugnar o pleito no prazo legal.
Após, sejam os autos enviados ao Ministério Público Federal.
Quanto aos demais, serão remetidos para julgamento, oportunamente.

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Publique-se. Intimem-se.

Brasília (DF), 20 de abril de 2017.

MINISTRO BENEDITO GONÇALVES


Relator

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