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06/01/2016

- obrigada pelo ótimo início de ano que você me deu.

Está tarde, eles devem se despedir. Foi um fim de semana assustadoramente perfeito.
Inacreditavelmente singelo, mas rico de elementos de uma sedução que dantes não vazava
sequer em palavras. Parecia uma fina arquitetura, com maquetes e planos médios de
concretude.

- Você realizou meu fetiche de ter um fim de semana incrível em casa.

Ao sinal, ela descerá do carro e não se falarão por um ano. That’s the deal. Não que sejam de
intimidades e saudades. Jamais se encontram. No último ano se viram quatro vezes contadas.
Todos eles bons, os encontros. E a mágica era isso. Não eram nada. Não possuíam nada em
comum. Mesmo assim, das distâncias que naturalmente traziam-lhes a alegria da liberdade de
não estarem associando-se a um trato de paquera que lhes sugariam a vitalidade e inocência
com que adoravam se ignorar, nasceu uma distância cavada num terreno vazio onde não
enxergo mais a espontaneidade das ações tão bem freadas ao sabor do descompromisso.

Eles não vão se falar. Não vão se ver. Depois de um fim de semana daqueles em que os flagrei
tagarelando com todas as partes do corpo. Conferi esse ajustar-se tímido de almas que nem se
imaginavam juntas, mas que não queriam estar separadas. Por dois dias. Veio o medo. Veio a
desconfiança. Eles não vão se falar por um ano. Por quê?

E aí vem mais aquela listinha que todos conhecem de medos contemporâneos. De dizer o que
sente, de sentir, do agora, da importância, da solidão, do desprezo, de ser mercadoria.

- O último stop tinha sido perfeito.

- Desandou.

Invento o diálogo (final?) dessa situação sempre tão esquisita. Como é gostar sem tocar?

- Quando precisar de mim estarei aqui.

Um fim de semana bastou pra que ela te fizesse a melhor companhia do ano. Certamente você
a fez ser especial. E um fim de semana bastou para que concordassem em não se ver at all.

- Não devemos mais procurar belezas para encerrar a nossa relação. É o que é. Fui feliz? Ficou
no passado. Como você e a vontade de te beber como se tu fosses o líquido que Alice bebe no
país das maravilhas. Deixo-te secar ou lambuzar a boca de alguém, saciando-lhe a sede de
conhecer-te, de estar-te. É o que é. Talvez ano que vem tomemos um café. Quem seremos
então? Será que haverá líquido inflamado e uma língua desejosa?

Ela desceu do carro, às vinte horas do dia três de janeiro.