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Só de ouvir falar em energia, a minha abandona minhas veias, ou por

onde quer que ela passe. Sou uma morta-viva em disfarce, rindo, cuspindo e
peidando como os vivos, mas basta uma guinada que sugira ação, vitalidade, e
me desfaço, sinto mesmo essa onda tomando meu corpo, esvaindo, como se
fosse o meu próprio sangue, sua força e sua potencialidade. Não posso evitar,
não consigo pensar que há um amanhã, senão que há somente a minha hora
de partir, por isso estanco, não ajo, paraliso e nada me dá prazer, só o
pensamento de que um dia ou outro não estarei mais aqui.

Por falta de coragem, suicídio é um problema. Mas já vi como esse


sentimento suicida funciona. Tu é um tipo fraco, tua dor dilacera, mas tu não
move um dedo em direção às trevas. A morte é mesmo esse vazio escuro?

Pelo contrário, sempre nesses momentos de entrega à morte em vida,


que é a depressão, temos lampejos de lampião, e é nesses momentos que
uma coragem cangaceira te invade e é nessas horas que tens de aproveitar a
ocasião. O suicida aparentemente é um mimado que não consegue encarar a
vida. A vida não tem sido fácil, nunca foi e o isolamento da vida só piora com os
anos. Somos espectadores, não mais atores. E isso, o que significa? Ora, se
não agimos, não vivemos. Somos bombardeados por um desejo de consumo
que não tem fim, abandonamos a vida pra consumir. Não existimos, porque
não temos mais tempo pra pensar. Vivemos dentro da caixinha, a caixinha dos
perdidos, a internet, a capa obtusa que faz de nós avatar disforme, em nada
concorrendo para a nossa expressão verdadeira. Mas em raríssimos
momentos sentimos prazer até mesmo na sensação da dor que o suicídio
causa, até por isso somos seduzidos. É nesse momento que, bum, temos que
apertar o gatilho. Se não, a vida traiçoeira, a falsa sensação de que tudo pode
melhorar te ilude de novo. E mais uma semana se passa. Tu morto-vivo, sem
se alimentar de nada. Oco. Inútil.

De um momento pro outro tu tem uns espasmos. É a vida querendo


ressurgir. Mas tu já é fantasma, hora ou outra não vai se ver no espelho. Tu
não existe mais. Mas enquanto eu vou inexistindo, escrevo. Não pra existir aos
olhos dos outros, porque só é lembrado quem aparece. Escrevo pra ver se
existo pra mim. Ressuscito. Tenho parcas horas de luz me atravessando. É a
vida, insistindo. Nesses momentos digo sempre a mim mesma: agora não caio,
não posso cair, minha vida é escrever, é nisso que estou envolvida até os
dentes. Mas não consigo morder mais que um dia. Não consigo a embocadura
necessária da voracidade.