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A gente se perde. Mas se acha.

Pode ser uma vez por mês, uma vez por


ano, durante um relacionamento, ou um dia de trabalho. Podem acontecer
várias vezes no mesmo dia. A gente se perde, mas se acha. Se perder é bom.
Movimenta. Te tira do seu caminho habitual. Te faz enxergar outras estradas,
ou paisagens no meio do caminho, ou mesmo os objetos desse caminho. Te
faz reavaliar a trajetória, e o melhor, te faz esbarrar no presente. Já disse, não
sei por quanto tempo. Tempo é o fator que menos importa. O importante é o
instante do encontrar. Até posso aceitar como também importante o momento
da consciência de ter-se perdido. Esse momento também é importante e
crucial. Dele depende o giro em torno de si necessário à realização do
encontro.

Ela estava perdida há pouco mais de um ano. Um surto que, é claro, não
se deu de repente. Acumulara muitas frustrações de corridas malucas em torno
de objetivos que hoje viraram poeira. Quando você se encontra percebe o
quanto natural e corriqueiro isso pode ser. Mas quando se está perdido, nossa,
é assustador. Mas o lance, é que ela estava tão perdida, que sua cabeça
pendia de seu corpo, como se a qualquer momento fosse cair, e sua coluna
vertebral não se encontrava onde deveria estar, seus quadris e pernas doíam,
ela não sabia porquê, estava perdida, mas sabia que não conseguia caminhar
decentemente. Começou a evitar esse tipo de movimento. Caminhar. E
desdenhava, como se não fosse importante. Vital. Sei lá. É tão óbvio que é
banal. E o que é banal não é percebido. Pois bem, começou a parar de andar.
Como assim? Foi aos poucos deixando de sair na rua. Aos poucos, como quem
naturalmente vai sendo guiado para algum lugar. Só que o lugar era o cerco da
casa, o lugar eram trevas onde pensamentos obscuros ganhavam tamanho de
gigante, gigante indefinido, mas que estava definindo o modo de vida dela.

Quando saía de casa, fazia questão de não sair do carro. Dava longas
voltas pela cidade, mas se houvesse necessidade de descer, nem que fosse
por um momento, fosse qual fosse a necessidade, as pernas travavam, a
coluna não se sustentava, a cabeça doía. Não descia, por fim. Os amigos
interferiam com caçoadas e troças, às vezes, com certa aspereza, pois para
eles era preguiça deslavada, a figura não ajuda em nada, não desce pra
comprar um cigarro!
Enfim, começou a ter problemas com pessoas. Pudera, perdeu o contato
com elas. Perdeu o hábito de vê-las pessoalmente, de trocar nem que fossem
duas palavrinhas. Perdeu o contato físico, e não suportava que ninguém a
tocasse, mesmo que fosse sem querer, na rua movimentada. Não suportava
que a olhassem enquanto passava, e um medo excessivo de gente foi tomando
corpo e a apertou tanto que pensou que ia sufocar. Desistiu de sair. Trancou-se
na casa com livros e mantimentos e netflix e foi viver de ficção.

Asfixiou. Não adiantava se esconder das pessoas, das situações do


mundo. Evitar contato, evitar por medo, se enclausurar.

Um ano, um ano se passou. Ainda lhe incomodava andar, o que fazia


muito pouco e muito desajeitadamente, tinha perdido o prumo, a postura. Todo
o seu corpo parecia uma massa disforme, misturada, o passo incerto. Tinha
rápidos encontros consigo mesma, que não se mantinham porque era grande a
sua irregularidade. Não tinha constância, não tinha ajuste. As coisas passavam
pela cabeça, tiravam a sombra de ideias maquinalmente produzidas para dor
própria, que logo retornavam, não encontravam profundidade de vontade, de
entrega. Uma inabilidade de viver, de saber lidar. De superar (-se).

A mesma dificuldade se manteve quando decidiu fazer um curso. Soube


pela internet, óbvio, por onde mais? Matriculou-se pela internet, mas perdeu as
duas primeiras aulas. Não por doença física, mas doía fisicamente não
conseguir descer do carro. Nas duas vezes estacionou, mas não ousou descer,
procurar a sala, pedir informações. Nada. Passou as tardes lendo e julgando
ter recebido as aulas, através dos livros. Mas essa impotência deixou marcas,
que ela não quis deixar pra lá. E não deixou.

Na semana seguinte, resolveu-se. Foi para a aula. Desceu do carro, as


pernas um pouco bambas, não olhou muito em direção às pessoas, estava
mesmo querendo endireitar-se, as pernas acima dos pés, o encaixe do quadril
para poder caminhar, ajustar a coluna, manter a cabeça segura, acima do
pescoço. Grandes dificuldades vulgares. Com esforço, conseguiu. Viu muita
gente, mas isso não a deteve. Dentre as pessoas avistou um rosto conhecido e
foi até lá, com uma interlocução desajeitada, cumprimentou a boa alma e pediu
informações sobre a sala do curso. A meio metro outra pessoa também se
ofereceu para lhe indicar o caminho. Ela se afinou à solicitude das pessoas que
encontrou e isso lhe fez um bem danado. Desculpe os mais exigentes, os que
têm um nível alto para encontrar felicidade, mas para quem acha que todos no
mundo estão prontos para lhe destruir, encontrar pessoas que simplesmente se
oferecem para dar alguma ajuda soa um tanto extraordinário. E foi. Ela foi
ficando desenvolta no andar, compreensiva com seu corpo, redescobrindo o
movimento que foi ficando natural e até mesmo charmoso, desinibido. Entrou
com alguma confiança na sala, onde algumas pessoas já aguardavam.
Cumprimentou-as e sentou-se puxando um livro. Aguardava o início, solitária,
pois os outros já se conheciam, e ela só tinha ali o seu livro. Mas esperou
animada, uma boa surpresa.

Quando a fala foi iniciada por um dos jovens, ela se deu conta. Estava
na sala errada. Tratava-se de uma reunião de departamento, entre estudantes
de mestrado e doutorado. Quando percebeu o engano, ficou nervosa, os
planos saindo dos trilhos, como iria sair dali sem dizer palavra, sem passar
vergonha? Ficou aflita, pensou no que dizer, pensou em se levantar e sair sem
olhar para trás. Não encontrou saída, que foi em seguida jogada no seu colo
por um dos participantes:

- Tu é do mestrado ou doutorado?

- Eu não sou de lugar nenhum, estou perdida. Vim assistir uma aula de
um curso que me inscrevi, mas vejo que estou na sala errada.

Riso geral na sala, inclusive ela riu, tentando amenizar, entrar no clima,
não sei. Enquanto ria, abaixou a cabeça por alguns segundos, esperando
talvez uma solução de baixo. Ergueu-se por fim, e saiu, pedindo muitas
desculpas.

Nervosa, acendeu um cigarro e sentou-se para pensar. Tremendo um


pouco, ria inquieta. – O que estou fazendo aqui, o que estou fazendo da minha
vida? Como ensaio esse retorno à socialização, passando vergonha, me
perdendo, ainda perdida, sem encontrar nada que me faça relaxar?

Tomada por seus pensamentos, não atentou para a chegada de um


amigo. Sim! Um amigo, de verdade, de muitos anos, uma pessoa com quem
ela se sentia bem. Convidou-lhe para um café e perguntou do curso.
Conversaram por alguns instantes, o vento refrescando seu couro cabeludo.
Repito, para quem há muito tempo não sentia a natural e invisível corrente de
ar de todos os dias, um evento destes é quase uma novidade. Boa novidade.
Assim como a presença quente e iluminada do sol sobre a cabeça. Só em
situações de falta ou escassez, repara-se em como são necessários e
prazerosos. É assim que é.

Depois ela descobriu onde estava acontecendo a aula e finalmente


entrou na sala certa. Um pouco acanhada, mas certamente não mais estava
pensando nos gigantes que a paralisam há um ano. Não pensou neles, não
deu cartaz. Encontrou o momento presente. E ali, se encontrou. Pela primeira
vez sabia que podia ser um encontro rápido e com certeza sabia que se
perderia de novo. Mas não importava. Ela viu, sentiu, viveu a perda de si, o
reencontro consigo mesma. Assumiu ser uma espécie de lei natural do
desenvolvimento. A gente se perde. Mas a gente se acha.