Vous êtes sur la page 1sur 52

ST 17: Políticas etnográficas no campo da cibercultura

Coordenadores: Theophilos Rifiotis (UFSC), Jean Segata (UFRGS)

Resumo: Este simpósio tem por objetivo discutir práticas e metodologias da antropologia no campo
da cibercultura. O seu tema central são as políticas etnográficas consolidadas através de pesquisas
nesse campo, permitindo um debate sobre os limites e as possibilidades da análise antropológica em
contextos atravessados por redes sociotécnicas. Há duas décadas, a antropologia tem sido desafiada
com o campo da cibercultura, aqui pensada como uma situação contemporânea, de cotidianização das
tecnologias digitais, em particular, a internet e os seus dispositivos. Tal desafio, ao longo desses anos,
refere-se a tópicos teóricos, como aqueles que envolvem categorias como “comunidades virtuais” ou
“redes sociais”, como aqueles de cunho metodológico, cujo foco de discussão é tipo de condução de
uma etnografia que inclua o encontro em interface. Parte da referência que temos sobre isso está
ligada a experiência do GrupCiber (Grupo de Pesquisas em Ciberantropologia do Programa de Pós-
Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina), um pioneiro no
Brasil nesse campo de investigação, criado em 1997. Com diversas pesquisas concluídas em nível de
graduação, mestrado e doutorado e à frente de Grupos de Trabalho, Mesas Redondas e Seminários
em diversos eventos, temos notado que a discussão das práticas e metodologias de pesquisa
antropológica no campo da cibercultura são constante em crescimento. Ao longo dessas duas décadas,
nos aproximamos da área da comunicação e da sociologia e mimetizamos práticas antropológicas que
se consolidaram na Antropologia Urbana, em particular, aquelas inspiradas na espacialidade da
Escola de Chicago e na análise situacional e de redes, da Escola de Manchester. Contudo, mais
recentemente, redirecionamos nossas estratégias metodológicas, alimentados pelo diálogo com
elementos que constituem a Teoria Ator-Rede, como o rastreamento de associações entre humanos e
não humanos e o mapeamento de controvérsias. Cabe igualmente frisar que, há alguns anos,
formávamos um campo muito peculiar na antropologia, com um tema muito específico pesquisa - e
por assim dizer, com nativos muito circunscritos. Mas, atualmente, quando os mais diversos campos
e temas de pesquisa antropológica passam a ser atravessados pelo uso da internet e seus dispositivos,
o debate sobre a pesquisa antropológica em cibercultura se torna urgente e mais abrangente. Exemplo
disso, é a presença de pesquisadores do campo da etnologia indígena, das relações de gênero, da

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 1


performance, da antropologia da arte, do consumo, da antropologia urbana, etc., nas atividades que
temos organizados em diversos eventos ou mesmo nas demandas de orientações de novas pesquisas.
Nesse sentido, o que constitui o centro desse painel é o debate que visa pensar políticas etnográficas
para a pesquisa antropológica no e a partir do campo da cibercultura. Em particular, trata-se de
refletirmos sobre que lugar ocupa a cibercultura no escopo antropológico contemporâneo. Essa é a
questão que dirige o debate proposto nesse painel e ela se articula a partir três eixos ou agendas de
trabalho: (i) a agenda teórica, que se delimita, a partir de diálogos e da revisão da produção da
disciplina nesse campo, ou seja, em como pensar uma teoria antropológica da cibercultura; (ii) a
agenda metodológica, que pode ser resumida com a discussão de como pesquisar antropologicamente
a cibercultura e, em desdobramento disso, como fazer das novas tecnologias digitais estratégias de
pesquisa antropológica/etnográfica; (iii) a agenda prática ou aplicada, que se desdobra mais
recentemente em pensar como a relação “antropologia e cibercultura” pode ser pensada em termos
de ações práticas e/ou engajadas.

Palavras-chave: Políticas etnográficas; cibercultura; antropologia.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 2


Gênero e mercado de cervejas artesanais: percursos, recursos e estratégias de
empresirilização de si

Andrey Felipe Sgorla1

Resumo: A pesquisa analisa a construção do mercado de cervejas artesanais no Brasil a partir dos
percursos de empresarialização de mestre cervejeiras, dos valores e representações nos quais a partir
de uma estrutura de oportunidades sociais, simbólicas, econômicas e de recursos permitem a
transformação de um hobby em uma atividade empresarial, considerando, nomeadamente que se trata
de uma atividade socialmente construída como masculina, com recortes de classe social e de gênero.
Para realizar esta pesquisa realizei incursões etnográficas no campo de pesquisa, por meio de
mapeamento de mulheres atuantes no mercado de cervejas artesanais, e de incursões netnográficas
na comunidade do facebook do Coletivo ELA (Empreender, Libertar e Agir), organizado por mestres
cervejeiras, de vários estados do Brasil, com o objetivo de desmistificar o machismo no mercado de
cervejas artesanais – seja em rótulos, campanhas publicitárias, produção da bebida ou ainda no
tratamento que muitas mulheres recebem como consumidoras. A expansão de microcervejarias nesta
década é decorrente de um percurso de transformação de um hobby de fazer cerveja em casa, em
panelas, em uma nova carreira, reconvertendo trajetórias profissionais para a identificação como
mestre cervejeira responsável pela abertura de novos mercados profissionais, utilizando-se do
conhecimento e das habilidades aprendidas e desenvolvidas neste fazer artesanal.

Palavras-chave: cervejas artesanais; gênero; mestre cervejeira; empresarialização; trajetórias


profissionais.

1 Graduado em Ciências Sociais (Unisinos), Mestre em Ciências Sociais (PUCRS), Doutorando em Ciências
Sociais (PUCRS).

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 3


Introdução

Quando se entra em uma loja de cervejas ou em um supermercado, no corredor de cervejas,


muitas vezes há dezenas de cervejas artesanais, sejam elas nacionais ou importadas. Além disso, as
cervejas artesanais possuem um preço superior e são mais complexas que as tradicionais. O rótulo
sobre uma garrafa de cerveja artesanal apresenta, muitas vezes, uma grande quantidade de
informações, incluindo o estilo (p. ex., "American IPA"), amargor (p. ex., "IBU 55"), intensidade da
cor (por ex., "30"), nome da cerveja (por ex., "Green Cow"), graduação alcoólica (por ex., "7,2%"),
o nome da cervejaria (p. ex., "Dois Corvos”) e tipo de copo para beber a cerveja (por ex., "tulipa").
Uma cerveja artesanal também apresenta, em seu rótulo, selos com prêmios recebidos em concursos
nacionais e internacionais que, muitas vezes, agregam valor ao preço da cerveja. Os consumidores
precisam aprender sobre o complexo rótulo da cerveja e colocar os valores do diferencial entre as
centenas de cervejas no mercado, na hora de adquirir o produto.

Os cientistas sociais, há muito tempo, reconheceram que transações econômicas envolvem


mais do que uma simples troca de bens ou serviços por dinheiro, o que enfatiza o caráter simbólico
de determinadas trocas econômicas (MALINOWSKI, 1976; GEERTZ, 2008; SAHLINS, 2003;
DOUGLAS, 2004). Alguns autores têm trabalhado dentro da nova sociologia econômica, dando
continuidade a esta tradição, examinando como valores culturais afetam a vida econômica, tanto nos
processos de interação social, como nas dinâmicas dos mercados (ZELIZER 2009; VELTHUIS,
2005).

O mercado de cervejas artesanais é recente, e seu crescimento ocorreu na última década.


Dados do Sebrae (2015) indicam a existência de 300 microcervejarias no Brasil; a Associação
Gaúcha de Cervejas Artesanais indica a existência de 80 microcervejarias no Rio Grande do Sul.
Ainda que as pioneiras deste modelo tenham 20 anos, como a cervejaria Dado Bier de Porto Alegre
e, a Cervejaria Colorado, em Ribeirão Preto/SP, a expansão deste mercado ocorreu nos últimos
cinco anos, com a abertura, por exemplo, de doze microcervejarias em Porto Alegre.

Inicialmente, este processo aconteceu nos Estados Unidos, com a abertura da primeira
microcervejaria, Anchor Brewing Beer, no ano de 1971. O mercado cervejeiro estava concentrado
em poucas cervejarias, que produziam uma cerveja intitulada “industrial”. As pequenas cervejarias
nasceram para oferecer aos consumidores uma maior variedade em sabor, cor, espuma, nível de álcool

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 4


e temperatura de servir. O termo microcervejaria indicava, no início, pequenas cervejarias, com
produção reduzida, mas logo apontou uma nova atitude na fabricação de cerveja, com base na
inovação, na criatividade e qualidade, especializada em ofertar produtos para um mercado específico.
Posteriormente, este movimento espalhou-se para vários países, incluindo Itália, Alemanha,
Dinamarca, Noruega, França, China, Japão, Austrália, Reino Unido, Bélgica e, mais recentemente,
em Portugal, com o propósito de criar pequenas fábricas de cerveja de alta qualidade, que seguem
tendências globais, regradas por estilos de cervejas, mas que são adequadas aos paladares e aos
ingredientes dos locais em que estão inseridas.

Segundo Carroll e Swaminathan (2000), em seus estudos sobre microcervejarias americanas,


os consumidores deste tipo de cerveja reagem fortemente contra os produtores em massa, que ofertam
um produto padronizado, de baixo custo e livre de falhas no processo de fabricação, alcançado através
da pasteurização e buscam um valor de qualidade "autêntico" de cervejas artesanais, são muito
sensíveis às qualidades organolépticas, matérias-primas e em busca de recursos tangíveis do produto
em si, que são percebidos como priorizando outros valores e não apenas o lucro. O consumo de
cervejas artesanais também está associado à experiência da degustação e da distinção, portanto, de
um certo estatuto social - o paralelo de ser um aficionado por vinho, queijo, música ou arte.

A expansão de microcervejarias, ao longo da última década, é decorrente de um percurso de


empresarialização de cervejeiros artesanais, que transformam um hobby de fazer cerveja em casa, em
panelas, para o consumo próprio e para beber entre amigos, em uma nova carreira, reconvertendo
suas trajetórias profissionais para a identificação como cervejeiro artesanal, responsável pela abertura
de novas microcervejarias, utilizando-se do conhecimento e das habilidades aprendidas e
desenvolvidas neste fazer artesanal, para a criação de novas receitas e testagem de novos ingredientes,
com os quais são produzidos um pequeno número de garrafas para serem provadas para,
posteriormente, serem colocadas no mercado.

As reflexões deste trabalho foram baseadas em observações realizadas na comunidade do


facebook do Coletivo ELA (Empreender, Libertar e Agir) e em postagens nesta rede social. Este
grupo foi organizado por mestres cervejeiras, sommelieres, professoras, juízas de concursos,
apreciadoras, empresárias e especialistas de vários estados do Brasil, com o objetivo de desmistificar

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 5


o machismo no mercado cervejeiro – seja em rótulos, campanhas publicitárias, produção da bebida
ou ainda no tratamento que muitas mulheres recebem como consumidoras.

Figura 1 – Empoderar. Libertar.Agir

Fonte: Página do facebook ELA

Para realizar esta pesquisa realizei incursões etnográficas no campo de pesquisa, por meio de
mapeamento de mulheres atuantes no mercado de cervejas artesanais, e de incursões netnográficas
na comunidade do facebook do Coletivo ELA (Empreender, Libertar e Agir), organizado por mestres
cervejeiras, de vários estados do Brasil, com o objetivo de desmistificar o machismo no mercado de
cervejas artesanais – seja em rótulos, campanhas publicitárias, produção da bebida ou ainda no
tratamento que muitas mulheres recebem como consumidoras. Além da netnografia nos inspiramos
no trabalho de Lahire por meio de entrevistas em profundidade explorar as diversas esferas da vida
de seus entrevistados, e ao reconstruir as trajetórias de vida, retratar a construção do mercado de
cervejas artesanais. Pretendemos enfatizar as semelhanças, as diferenças, as diversidades e
continuidades de um processo de expansão global do mercado de cervejas artesanais, mas que está
profundamente enraizado nos processos locais, e em questões de gênero.

Inicialmente podemos afirmar segundo Mosher (2009) que no mercado de cervejas artesanais,
os espaços são dominados pelos homens, e as mulheres ocupam papel marginal na fabricação de
cerveja e também como consumidoras. Nas reflexões sobre consumo emergiu um estereótipo sobre
as mulheres e as capacidades das suas preferências cervejeiras, um estereótipo que reforça a
dominação masculina.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 6


No início do corrente ano, a cerveja Proibida lançou um rotulo especifico para mulheres, o
que gerou manifestação de diferentes mulheres que atuam no mercado cervejeiro, pois a ideia
expressa na campanha da Proibida – de que mulheres têm preferência por uma cerveja “delicada”,
“rosa” e “perfumada”. A criação de um cerveja específica para mulheres reforça as mesmas não tem
o paladar para cerveja, e assim preferem cervejas frutadas ou doces, enquanto os homens, em
oposição as cervejas doces e frutadas femininas, preferem o sabor amargo tipo uma Indian Pale Ale,
símbolo de uma cerveja verdadeira, uma cerveja masculina, e da superioridade cultural cervejeira dos
homens, pois são eles que tem o poder de designar legitimidade, o perfil de sabor que é considerado
legítimo é o que o palato deve conquistar em um masculinidade.

Figura 1 – Cerveja Proibida

Fonte: Cerveja Proibida

A criação do coletivo ELA, que teve início no mês de maio de 2016, logo após a divulgação
de um novo rótulo de cerveja que explorava negativamente a imagem de uma mulher, como estratégia
de ação. Uma das ações para demonstrar que as mulheres podem beber qualquer tipo de cerveja, foi
a produção de um rótulo exclusivo, através de trabalho colaborativo, definiram o estilo, elaboraram
a receita, nome, identidade visual. A cerveja foi produzida na fábrica da Cervejaria Dádiva, localiza
em Varzea Paulista (SP), que as sócias são mulheres, após a cerveja foi lançada em bares de vários
estados brasileiros. O estilo escolhido foi o “American Barley Wine”, de amargor mais acentuado
que a sua versão de origem, inglesa, para fugir totalmente do estereótipo de que mulher gosta apenas

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 7


de cerveja leve e doce. Com 10% de graduação alcoólica, leva maltes tostados e lúpulos americanos
de aroma e amargor.

Segundo postagem no grupo no Facebook:

ELA é uma cerveja-voz. Voz sonora, alta e feminina. Um grito forte dado por um coletivo
de mulheres cervejeiras que querem desmistificar o machismo em um meio em que ele é
ainda tão presente, seja em rótulos, campanhas publicitárias ou ainda no tratamento que
muitas recebem trabalhando com cerveja ou apenas consumindo, e construir, junto a tantos
outros, um mundo de igualdade. Igualdade política, social e de vozes. Esta causa não será
silenciada. Essa é a resposta brassada por ELAs.

Figura 2 – Cerveja ELA

Fonte: Página do facebook ELA

Ao analisar as postagens deste grupo identificamos que apesar de existir uma participação das
mulheres no mercado de cervejas artesanais a quantidade de cervejeiros homens é bem maior que o
de mulheres atuantes neste segmento no Brasil. Dessa forma, o tema central deste artigo foi
delimitado em torno dos significados de gênero atribuídos por mulheres atuantes no mercado de
cervejas artesanais, analisando-se os atributos sociais de feminilidade e masculinidade presentes nas
postagens no ciberespaço, por meio de netnográfias, questionando-se se existirão diferentes
configurações sociais mobilizadas em termos de gênero, considerando, nomeadamente, que se trata
de uma atividade socialmente construída como masculina.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 8


A questão de gênero

A produção de cervejas artesanais é um espaço fundamental na busca de refinamento dos


cervejeiros, pois através da manipulação física de matérias-primas aumenta sua competência sensorial
Sennett (2012). Por tocar, cheirar, separar ingredientes e degustar cervejas, os apreciadores aguçam
a sua capacidade de identificar o efeito desses ingredientes e determinadas técnicas de produção sobre
o produto final. Além disso, esta produção artesanal desempenha uma função simbólica, por sua
produção ser fortemente marcada por questões de classe social e de gênero, se reforça um lugar de
masculinidade convencional e de refinamento do consumo deste produto.

Segundo a entrevistada ‘Ambar’

Da criação de tudo isso que está acontecendo. E eu acho que quando tu trabalha com essa
paixão, com esse amor, tu estuda sobre isso e tu consegue passar isso para o teu consumidor.
Não é simplesmente um troço feito em massa para ter lucratividade. Tem muito por trás disso.
O artesanal é isso. Seja um pão, do pãozeiro, nosso parceiro, agora do levando lá do Leandro
que era da escola e hoje faz o próprio pão, do cachorro quente que a gente vai ter hoje de
novo. O artesanal tem história, porque cada uma das coisas é feita com carinho, com estudo,
com dedicação, procurando melhorar.

As cervejeiras artesanais procuram a amplitude do conhecimento dentro de um domínio de


consumo, no qual desenvolvem habilidades para apreciar uma vasta gama de cervejas,
simbolicamente estes marcadores, aliam o tipo de gosto por tipos de cervejas, especialmente
amargas, escuras e alcoólicas, a construções sociais delineadas por noções de masculinidade, e de
distinções por meio de fronteiras simbólicas construídas através do consumo, define-se quais
cervejas são para mulheres e quais são para homens.

Sendo o consumo de cerveja marcado como uma construção masculina, podendo esta ser
compreendida como um projeto construído e sustentado coletivamente em contextos específicos;
entre eles, o mercado de cervejas artesanais, afetando diretamente a inserção de mulheres no mercado
de cervejas artesanais e sua inserção sendo costumeiramente marcada pela diferença em relação ao
homem. A postagem do dia 15 do movimento 30 dias machismo reforça a visão de romper com a
ideia dominante do mercado cervejeiro ser ocupado com homens.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 9


Figura 3 – Dia #15

Fonte: Página do facebook ELA

Esta discussão de gênero se faz necessária, visto que essa questão é uma categoria presente
nas relações sociais. Assim, segundo a entrevista de Sherry Ortner:

[...] há muito mais mulheres em várias posições de poder, muito mais mulheres executivas
nos estúdios de que antes, muito mais produtoras, especialmente no campo independente, o
que é ótimo, e há algumas diretoras. Mas os diretores, particularmente os que têm mais
prestígio artístico, são ainda, na grande maioria homens, 99%. Quando se chega perto da
zona que parece ser o lugar “mana‟, onde o poder reside, lá estão os homens.(DEBERT;
ALMEIDA, 2006, p. 440)

Pierre Bourdieu também utiliza o conceito dominação para analisar as relações de gênero.
Para o autor, ainda na atualidade o gênero masculino domina o feminino. A dominação masculina
não é apoiada prioritariamente na força bruta, nas armas ou na dependência financeira. Esses fatores
possuem seu grau de influência, entretanto, se fossem determinantes, quando cessados a mulher
deveria adquirir sua total libertação. A dominação dos homens sobre as mulheres, via de regra, ocorre
no campo do simbólico. O dominado (no caso, a mulher) adere a dominação de maneira irrefletida e
passa a considerar que aquilo seja natural. A violência simbólica é fruto da exposição prolongada e
precoce as estruturas de dominação (BOURDIEU, 2003, p. 26).

Nesse sentido, a dominação masculina, cujo sujeito é o homem, burguês, branco e


heterossexual, não deve ser entendida unicamente por meio da ameaça da violência física, e sim como
uma forma de violência simbólica –conforme aponta Bourdieu (2007) –que é exercida por meio da

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 10


aceitação e adesão das mulheres. A aquiescência feminina, segundo o autor, deve-se à interiorização
dos esquemas pensamento (o habitus) do grupo dominante a respeito do próprio corpo e de suas
capacidades intelectuais e profissionais.

Segundo relato da cervejeira “Porter” sobre o processo seletivo para trabalhar em uma
cervejaria, que reforça o entendimento sobre a fragilidade das mulheres neste mercado.

(...)a gente trabalha com barris de 50 litros, e cada barril tem um peso, já vazio, o mais pesado
pesa 16Kg mais ou menos, mais os 50Kg do líquido, então é bem pesadinho e daí eu tinha que
conseguir pelo menos levantar ele para colocar no carrinho numa paletera, claro eu ao preciso
levar o barril sozinha, até porque isso é desumano com qualquer pessoa forte, mas eu tinha que
conseguir levantar ele para tirar do chão para colocar no outro lugar para transportar o barril.
Aí foram os dois testes. Testes de força que eu tive que fazer e eu duvido que algum dia ele
tenha pedido para alguém. Inclusive nesse meio tempo outras pessoas acabaram indo trabalhar
lá e não fizeram esse tipo de teste.

Na campanha do coletivo ELA do #27 já alertava para este aspecto, como um dos fatores para
o reduzido número de mulheres no processo de fabricação das cervejas artesanais.

Figura 4 – Dia #27

Fonte: Página do facebook ELA

Segundo Sherry Ortner em entrevista para Debert; Almeida (2006) as feministas pensavam
que no colonialismo, a pobreza são mais importantes que a dominação masculina, para esse
feminismo pensar a imposição de gênero é para pessoas de países que não possuem como prioridade
preocupar-se com a vida econômica básica como, por exemplo, obter alimentação e emprego.
Segundo Sherry Ortner (2006) atualmente a dominação masculina não é o foco central da

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 11


antropologia feminista, visto que recentemente temos um feminismo voltado para as diferenças entre
as mulheres, o qual pode falar de todos os conflitos e opressões que as pessoas do sexo feminino
lidam, e não somente da dominação do homem.

Figura 5 – Dia #17

Fonte: Página do facebook ELA

Para Ortner (2007), as questões relacionadas a relação de gênero também estão articuladas as
reflexões sobre os agentes/atores sociais:

[...] encarando-os como estando sempre envolvidos na multiplicidade de relações sociais em


que estão enredados e jamais podendo agir fora dela. Assim sendo, assume-se que todos os
atores sociais „têm‟ agência, mas a idéia de atores como sempre envolvidos com outros na
operação dos jogos sérios visa a tornar praticamente impossível imagina-se que o agente é
livre ou que é um indivíduo que age sem restrições.(ORTNER,2006, p.47).

O conceito de “agência” das pessoas é formado por autores autônomos, mas não
individualista, visto que o indivíduo não é totalmente livre. Pois, os sujeitos sempre estão envolvidos
em relações de solidariedade, poder, competição e em significados culturais. Assim, para Sherry
Ortner(2007) os indivíduos não triunfam sobre seu contexto, mas articulam e movimentam seus
projetos pessoais.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 12


Figura 6 – Dia #14

Fonte: Página do facebook ELA

Para a entrevistada “Dark” que atua em Porto Alegre como sommelier e dona de bar, as
diferenças sobre a inserção neste mercado profissional, traduzem-se nos espaços ocupados por
homens e mulheres no mercado cervejeiro.

Sommelier é um negócio interessante, muito feminino. Tu vai ver as pessoas proeminentes


no país, os grandes Sommeliers são as grandes Sommeliers. Na produção já é um pouco mais
difícil. Que tem toda aquela coisa da força bruta, dos homens não aceitarem isso muito bem.
Muito difícil uma cervejaria contratar mulheres. Por isso do surgimento do Ela, então tem
gente que contrata, aqui tem cervejarias que contrataram, eu indiquei mulheres para
cervejarias que estão hoje trabalhando com mulheres, mas ainda tem uma questão cultural,
consciente ou inconsciente, sei lá, de que não, mulher não pode trabalhar em cervejaria, não
sei. A primeira desculpa que tem sempre é a força do barril.

Identificamos em nosso trabalho de campo, que as mulheres ao se inserirem no mercado de


cervejas artesanais, originam-se de áreas técnicas como Engenharia de Alimentos, Biologia,
Biotecnologia, Farmacologia, atuando como prestadoras de serviços para microcervejarias no
manuseio e na seleção dos ingredientes e na melhoria do processos de fabricação, outro campo de
atuação destacado é como sommleier ou donas de bares atuando com a degustação de cervejas, sendo
poucas as mulheres donas de cervejarias. Embora não tenhamos dados consolidados, em Porto
Alegre, das treze cervejarias localizadas no bairro Anchieta, em apenas uma delas tem uma mulher
como sócia, ao mesmo tempo que atuando nestas cervejarias no processo de produção, identifiquei
cinco mulheres, outras poucas ainda atuam na parte de comunicação e gestão.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 13


Para Sherry Ortner (2007) as forças dos seres humanos e o movimento das ações coletivas
estão relacionadas nas sociedades. Dessa forma, as análises da autora se voltam para as “agências”,
ou seja, os atores e suas intenções; todavia, os resultados das atitudes destes não correspondem suas
intenções iniciais, e isso, devido às forças coletivas e formações culturais que interferem nas ações
dos sujeitos.

Figura 7 – Dia #3

Fonte: Página do facebook ELA

Para a Ortner (2007) “agência” é um empoderamento que os seres humanos possuem em suas
sociedades; visto que implica em intenção construída na cultura. No entanto, esse empoderamneto
está em conexão com o poder das estruturas sociais. O conceito de “agência” é pertinente para pensar
na inserção de pessoas em projetos culturalmente definidos, no entanto, possuem dentro deles
intencionalidade, necessidades e vontades, onde as ações desses sujeitos apontam para algum
propósito. Assim, há nessa concepção uma intencionalidade ativa, como no projeto #35 dias sem
machismo, questiona-se a reprodução cultural, de um mercado masculinizado.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 14


Figura 8 – Dia #9

Fonte: Página do facebook ELA

A “agência” é universal na concepção de Sherry Ortner (2007), pois todos os seres humanos
possuem a capacidade de agir, todavia, é culturalmente e historicamente construída, por isso, ela varia
no tempo e de lugar. Assim, a “agência” é a capacidade de afetar as relações e discursos sociais, visto
que ela tem sua raiz no poder, possui ideia de resistência e está presente nos movimentos sociais.
Sendo assim, a “agência” pode ser para dominar, resistir ao poder, perseguir projetos coletivos e
individuais, mas sempre com intencionalidade dos indivíduos.

Figura 10 – Dia #8

Fonte: Página do facebook ELA

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 15


Dessa forma, a autora demonstra o modo como a “agência” é a conexão do poder e intenção
das pessoas, as quais estão nos “jogos sérios”, ou seja, nas formações culturais. Os “jogos sérios” são
definidos da seguinte forma:

As interpretações da vida social por meio de jogos sérios não envolvem a modelagem formal
da teoria dos jogos e não envolvem o seu pressusposto de que prevalece uma espécie de
racionalidade universal em praticamente todos os tipos de comportamento social. Ao
contrário, os „jogos sérios‟ são, bem enfaticamente, formações culturais, não modelo de
analista. Além disso, a perspectiva dos jogos sérios pressupõe atores culturalmente variáveis
(e não universais) e subjetivamente complexos (e não predominantemente racionalistas e
interessados em si mesmos). (ORTNER, S. 2007, p.46)

Assim como Sherry Ortner, em sua entrevista para Debert; Almeida (2006) identifico por
meio da comunidade ELA, um espaço em que as mulheres cervejeira constroem laços de
solidariedade e projetos individuais, no entanto, também lidam com formas de poder na relação de
gênero.

Figura 11 – Dia #16

Fonte: Página do facebook ELA

Conclusão

Segundo Ortner, S.(1979) para pensar a questão de gênero, no qual assume como fato
universal o status secundário das mulheres universalizando a ‘subordinação feminina’ ao sustentar
que cada cultura, de sua própria maneira e em seus próprios termos, faz as avaliações do que constitui
o status inferior das mulheres, mas sim se apressa em atribuir um polo de dominação percebendo,

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 16


assim, a ‘mulher’ englobada pelo ‘poder masculino’.

No mercado de cervejas artesanais identificamos, a partir do Coletivo ELA, contradição com


os discursos da inclusão e igualdade de gênero, na construção de identidades, que afloram e ganham
visibilidade no interior das práticas culturais. As maneiras de beber, comer, vestir, morar, associadas
às escolhas literárias e artísticas, remetem a níveis de reconhecimento mais profundos - a classe social,
a ocupação, desta forma as práticas discursivas e comportamentais assumem opções éticas,
políticas, estéticas e morais, nos sugerem a relevância a questão de gênero neste mercado em
construção.

O fortalecimento das mulheres, com novos conhecimentos e habilidades, favorece a sua


participação e a criação de capital social. Pode-se constatar que a inserção digital das mulheres
constitui uma via de empoderamento de gênero, quando vinculada a processos sociais que estimulam
a formação de redes temáticas de gênero, outras tecnologias sustentadas, mesmo que o acesso a esse
meio não resulte em inclusão automática à sociedade do conhecimento e da informação.

Deste modo, Carneiro (2012), mostra que a luta feminina é uma busca para a construção de
novos valores sociais, morais e culturais. É uma luta pela democracia, que deve nascer da igualdade
entre os sexos e evoluir para igualdade entre todos, suprimindo a desigualdade de classe. A busca
pela democratização das relações de gênero persistiu e com a Constituição Federal de 1988 a mulher
conquistou a igualdade jurídica, entretanto esta igualdade ainda não chegou ao mercado de cervejas
artesanais.

Referências bibliográficas

BOURDIEU, P. A distinção – crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2007.

_____. O Campo Econômico. Política & Sociedade, n. 6, 2005, pp. 15-57

_____. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

CARROLL, G. R., and SWAMINATHAN, A. Why the Microbrewery Movement? Organizational


Dynamics of Resource Partitioningin the U.S. Brewing Industry. American Journal of Sociology,
106:715-62, 2000.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 17


DEBERT, G. G.; ALMEIDA, H. B. de. Entrevista com Sherry Ortner.Cad. Pagu, Campinas , n.
27, p. 427-447, Dec. 2006 .

DOUGLAS, M.; ISHERWOOD, B. O mundo dos bens: para uma antropologia do consumo. Rio de
Janeiro: Editora da UFRJ, 2004.

ECKERT, C.; FRY, P. H. (Org). Conferências e diálogos. Saberes e práticas antropológicas.


Brasília: ABA; Blumenau: Nova Letra, 2007. p. 19-80.

_____. Está a mulher para o homem assim como a natureza para a cultura? In: ROSALDO, M.;
LAMPHERE, L. (Orgs.). A mulher, a cultura e a sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

GEERTZ, C. A interpretação da cultura. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

MALINOWSKI, B. C. Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril Cultural, 1976.

MOSHER, R. Tasting Beer: An Insider's Guide to the World's Greatest Drink. Storey Publishing,
2009.

ORTNER, S. Poder e projetos: Reflexões sobre a agência. In.: GROSSI, M. Pillar;

SAHLINS, M. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Dados Disponíveis em:
http://www.sebrae.com.br/setor/comercio-varejista/o-setor/cenario-e-tendencia, Acesso em
novembro de 2016.

SENNETT, R. O artífice. Rio de Janeiro: Record, 2012.

VELTHUIS, O. Talking Prices: Symbolic Meanings of Prices on the Market for Contemporary Art
(Princeton Studies in Cultural Sociology), 2005.

ZELIZER, V. A. Dualidades perigosas. Mana, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 237-256, Apr. 2009.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 18


Reflexões iniciais sobre o projeto “Livros, literatura e empoderamento feminino: um
estudo etnográfico sobre o projeto Leia Mulheres nas redes sociais”

Tauana Mariana Weinberg Jeffman2

Resumo: Neste artigo realizo a aproximação com meu atual campo de investigação: o projeto
#leiamulheres. Para isto, apresento os objetivos que a pesquisa abarca, bem como uma
contextualização sobre o projeto, uma breve reflexão sobre a relação entre censura, literatura e
mulheres e, posteriormente, a apresentação do desenho metodológico composto até então. Minha
intenção é compartilhar minhas intenções de pesquisa para agregar novos olhares e novos ares a uma
pesquisa que ainda está em sua fase inicial.

Introdução

“Não se nasce mulher: torna-se”.

(Simone de Beauvoir)

“O que é uma mulher? Eu lhes asseguro, eu não sei.

Não acredito que vocês saibam”.

(Virginia Woolf)

Este artigo apresenta a primeira reflexão sobre meu projeto de pesquisa apresentado ao
programa de pós-graduação em Antropologia Social da UFRGS, nível mestrado. Neste projeto, parto
do interesse em observar à luz da etnografia (virtual e presencial) um determinado grupo social

2 Mestranda do curso de Antropologia Social da UFRGS. Doutora em comunicação – UNISINOS. Mestre em


Comunicação Social – PUCRS. Graduada em Comunicação Social | Habilitação Publicidade e Propaganda –
UNIPAMPA. E-mail: tauanamwj@hotmail.com.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 19


inserido no contexto urbano que, ao consumir cultura – a literatura, também constrói e reflete sobre
sua identidade social constituindo sociabilidades a partir do livro. Este tema surgiu no meu doutorado
durante minha etnografia virtual e penso ser profícuo para uma pesquisa posterior e mais aprofundada.
Tal percepção se deu quando observei a relação entre mulheres, leitura e literatura e conheci o projeto
#leiamulheres.

A futura pesquisa objetiva compreender como um grupo de leitoras socializa e constitui


vínculos sociais e afetivos a partir do livro e da leitura através das redes sociais, valorizando e
atribuindo notoriedade à literatura escrita por mulheres ao mesmo tempo que reflete sobre sua
identidade social e o seu papel enquanto mulher na sociedade.

O foco será no grupo de leitoras que leem mulheres e como a tecnologia as auxilia, atuando
como espaço de comunhão e discussão, por consequência, estima-se a apreensão de como a literatura
e a leitura podem influenciar no entendimento sobre a mulher, o feminismo e o empoderamento
feminino. Sobre estes tópicos, utilizarei autores como Adichie (2014), Beauvoir (2008, 2009, 2010),
Souza (2016), Estés (2014), Butler (2003) e Bollmann (2007), mas objetiva-se também entender e
elucidar os procedimentos metodológicos relacionados a área da antropologia da cibercultura ao
atentar-me às articulações em diversas redes realizadas pelo projeto #leiamulheres.

Neste primeiro momento, apresento uma breve reflexão sobre a relação das mulheres com a
literatura e a leitura, contextualizo o leitor sobre o projeto #leiamulheres e discorro sobre o percurso
metodológico que pretendo empreender nesta nova pesquisa.

Censura, literatura e mulheres

Abreu (2006, p. 101) constata que muitos pensadores defenderam a ideia de que era um grande
erro alfabetizar a classe baixa. Além da leitura não retirar tais pessoas da miséria, do vício e da
indolência em que vivem, ainda poderia incitá-las à revolta. Acreditava-se que os pobres poderiam
ser de alguma utilidade apenas quando mantidos sob subordinação, relegados à ignorância. Criaram-
se leis que perduraram até a metade do século XIX, proibindo os escravos de serem alfabetizados e,
assim, poderem ler e escrever. Os negros que persistiam em alfabetizar-se – lendo livros escondidos,

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 20


pedindo para as suas senhoras que lhe dessem aulas, observando cubos de alfabetos das crianças
brancas –, se flagrados, eram severamente punidos.

Conta Doc Daniel Dowdy: “a primeira vez que você era surpreendido tentando ler ou escrever,
você era açoitado com um relho de couro cru; na segunda vez, com um chicote de nove tiras; na
terceira vez cortavam a ponta do seu dedo indicador” (apud MANGUEL, 1997, p. 312). No sul dos
Estados Unidos, era comum a prática de enforcar escravos que tentavam ensinar os outros a soletrar.
Então, por que muitos escravos insistiam em entrar para o mundo letrado se isso poderia lhes custar
o dedo ou até mesmo a vida? Manguel (1997, p. 313) reflete que aprender a ler não era um passaporte
imediato para a liberdade do negro, “mas uma maneira de ter acesso a um dos instrumentos mais
poderosos de seus opressores: o livro”.

Além dos escravos e dos pobres, a leitura também era considerada perigosa para as mulheres,
pois se pensava que “elas eram governadas pela imaginação e inclinadas ao prazer e, como não tinham
ocupações sólidas, nada as afastaria das desordens do coração – e das desordens do corpo, que são as
piores” (ABREU, 2006, p. 101). Para São Tomás de Aquino, “a mulher foi criada para ser a
companheira e ajudante do homem” (MANGUEL, 1997, p. 246). A mulher era “afastada” do poder
intelectual pois este a conduziria para a curiosidade.

Ser uma mulher curiosa era considerado um pecado, pecado este que levou Eva a “provar do
fruto proibido do conhecimento”. Pensou-se, durante toda a Idade Média, que a mulher deveria ser
mantida inocente e virginal, sendo educada apenas até o ponto onde seus conhecimentos fossem úteis
aos homens e às atividades domésticas.

Manguel (1997) lembra que, mesmo lendo apenas essa literatura permitida, as mulheres
encontraram estímulos intelectuais para tornarem-se leitoras e grandes escritoras. Na obra Um teto
todo seu, escrita em 1928, Virgínia Woolf (2014) reflete a relação entre as mulheres e a ficção
ponderando que, para escrever, as mulheres precisavam de quinhentas libras por ano e um teto
próprio, um espaço longe de perturbações. No que se refere ao dinheiro, a escritora conta que somente
no final do século XIX, na Inglaterra, o dinheiro das mulheres deixou de ser propriedade de seus
maridos.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 21


Quando uma mulher conseguia escrever, era desacreditada. Muitas vezes escondia-se por trás
de pseudônimos masculinos3. Se escrever uma obra-prima era um trabalho repleto de “dificuldades
prodigiosas” para os homens, para as mulheres “essas dificuldades eram infinitamente mais
descomunais” (WOOLF, 2014, p. 78). “Qualquer mulher que tenha nascido com um grande talento
no século XVI certamente teria enlouquecido”, destaca Woolf (2014, p. 74), “atirando em si mesma
ou terminando seus dias em um chalé nos arredores da vila, meio bruxa, meio feiticeira, temida e
escarnecida”.

Foi somente no final do século XVIII que as mulheres começaram a escrever, mas ainda
escreviam na sala de estar, ainda não tinham um teto todo seu. Ainda se envergonhavam do que
escreviam. Jane Austen escreveu Orgulho e Preconceito às escondidas, cobrindo seus manuscritos
com um mata-borrão cada vez que alguém se aproximava. Para ela, por mais estranho que isso possa
parecer, “havia algo de desonroso no ato de escrever Orgulho e Preconceito” (WOOLF, 2014, p. 99).
Woolf constata que a produção desta obra foi um verdadeiro milagre devido às circunstâncias.

A autora (2014) pensava que, após cem anos, as mulheres não seriam mais o sexo frágil e,
deste modo, qualquer coisa poderia acontecer. Elas escreveriam sobre todos os temas que quisessem,
não seriam julgadas inferiores e teriam as mesmas condições de desenvolvimento e produção
intelectual que os homens. E aqui estamos nós, quase noventa anos após essa constatação. Neste
período, as mulheres obtiveram diversas conquistas, muitas coisas mudaram, melhoraram. Contudo,
conforme nota a crítica literária Noemi Jaffe (apud WOOLF, 2014, p. 169), “as conquistas femininas
continuam sendo não mais do que ‘conquistas’ às quais as mulheres precisam se aferrar ou das quais
devem se orgulhar”.

3 “Currer Bell, George Eliot, George Sand, todas vítimas de uma luta íntima, como provam seus escritos,
buscaram sem sucesso esconder-se usando nomes de homem. Desse modo, elas reverenciavam a convenção, se não
criada pelo outro sexo, abertamente encorajada por elas [...], de que a publicidade é algo detestável para uma mulher. A
anonímia está em seu sangue. O desejo de ficar escondida ainda a toma por inteiro”, destaca Woolf (2014, p. 75).

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 22


O projeto Leia Mulheres

Com o objetivo de valorizar a literatura escrita por mulheres e incentivar a leitura de tais obras,
a escritora Joanna Walsh (2014, online) criou o projeto #readwomen2014 no Twitter4 após perceber
a marginalização das escritoras por avaliadores, revisores e revistas literárias. Atualmente, segundo
Walsh (2014, online), as mulheres publicam tanto quanto os homens, mas possuem menos
visibilidade, são menos lidas, mais facilmente esquecidas e desvalorizadas. Com a hashtag5, Walsh
(2014, online) publicou alguns marcadores de página com nomes e caricaturas de escritoras (Figura
1) e, posteriormente, passou a tuitar nomes de outras escritoras mulheres. A partir disso, a lista
começou a crescer com a participação de seus seguidores no Twitter. A hashtag serviu como um grito
de guerra, um incentivo pessoal, uma celebração de realizações e como um vínculo entre os projetos
que surgiram em todo o mundo.

Walsh (2014, online), sem querer, criou um movimento que se expandiu para além do Twitter,
para além de seu país e para além daquele ano. No Brasil, o projeto tornou-se o #leiamulheres,
idealizado por Michelle Henriques, Juliana Leuenroth e Juliana Gomes. Com 63 mediadoras
espalhadas por 28 cidades brasileiras, o #leiamulheres inseriu a discussão em espaços culturais e
livrarias. Cada cidade possui seu clube de leitura, conduzido pelas mediadoras. Conta também com
um site6 onde são publicadas informações sobre o projeto, conteúdos e resenhas de obras escritas por
mulheres, além de diversas articulações e produção de conteúdo em diferentes redes sociais como o
Facebook, o YouTube e o Twitter. A projeto tanto coloca em pauta a desigualdade entre homens e
mulheres no mercado editorial quanto procura desmistificar a questão de que literatura escrita por
mulheres é uma “literatura de mulherzinha”. As idealizadoras esperam que um dia o #leiamulheres
não seja mais necessário porque homens e mulheres serão lidos, publicados e valorizados em igual
proporção.

4 Disponível em: <https://twitter.com/hashtag/readwomen2014?src=hash>. Acesso em: 15 ago. 2016.

5 Segundo Recuero (2014, online), “uma hashtag constitui-se em uma etiqueta de ‘contexto’ no Twitter, que
aponta de forma específica um termo que não apenas constrói contexto, mas igualmente permite que o tweet seja
buscado e recuperado também pela etiqueta. Em geral é representada pelo sinal #”.

6 Disponível em: <http://leiamulheres.com.br/>. Acesso em: 15 ago. 2016.


Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 23


Figura 1: Marcador de página produzido por Walsh.

Fonte: twitter.com

No booktube o projeto ganha ênfase no mês de março, em comemoração ao Dia Internacional


da Mulher (8 de março). Alguns booktubers dedicam este mês à leitura de obras escritas por mulheres
ou que discutam o papel da mulher na sociedade utilizando tópicos como “leia mulheres”, “lendo
mulheres” ou “leia mais mulheres”. Entre alguns exemplos, encontram-se os canais Michelle Borges7,
Mundo de Morfeu8, Fabiola Paschoal9, Maquiada na livraria10, Pensar ao ler11, Livr Isa12, Pausa


7 Disponível em: <https://youtu.be/a24kBb8yFnI>. Acesso em: 15 ago. 2016.

8 Disponível em: <https://youtu.be/7RGG38-BmSk>. Acesso em: 15 ago. 2016.

9 Disponível em: <https://youtu.be/F12IseZcKa8>. Acesso em: 15 ago. 2016.

10 Disponível em: <https://youtu.be/40JtI-oVYoQ>. Acesso em: 15 ago. 2016.

11 Disponível em: <https://youtu.be/CwqYSSQ8ov0>. Acesso em: 15 ago. 2016.

12 Disponível em: <https://youtu.be/2Uw75O6SPcI>. Acesso em: 15 ago. 2016.


Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 24


para um café 13 , Compartilivros 14 , Carol Miranda 15 , Ju Spohr 16 , Jeniffer Geraldini 17 , Carol
Patrocínio18, Este não é um best-seller19, Frases perdidas20, Romeu Julieta21, Eduardo Collovini22,
Canal da Ceci23, Patrícia Lima24, Bruna Miranda25, Ler antes de morrer26 e Despindo Estórias27.

Em março de 2016, Iara (canal Conto em canto) propôs o projeto #mulheresparaler 28 em


comemoração à data. Convidou seus seguidores a contarem quantos livros escritos por mulheres
existem em suas estantes. Ela fez a contagem e percebeu que a quantidade de obras escrita por homens
que constavam na sua estante era consideravelmente maior do que as escritas por mulheres. A partir
disso, resolveu dedicar o mês para a discussão sobre gêneros na literatura, representatividade
feminina, autoras brasileiras e estrangeiras, personagens femininas e demais aspectos que envolviam


13 Disponível em: <https://youtu.be/Lo6lr7jtiys>. Acesso em: 15 ago. 2016.

14 Disponível em: <https://youtu.be/-TG6iuZJ-7A>. Acesso em: 15 ago. 2016.

15 Disponível em: <https://youtu.be/qePHnLHLmWg>. Acesso em: 15 ago. 2016.

16 Disponível em: <https://youtu.be/lkGPY-khBCA>. Acesso em: 15 ago. 2016.

17 Disponível em: <https://youtu.be/50v_hU3RJtk>. Acesso em: 15 ago. 2016.

18 Disponível em: <https://youtu.be/4Iy7ZK243xk>. Acesso em: 15 ago. 2016.

19 Disponível em: <https://youtu.be/DvR2VzG31X8>. Acesso em: 15 ago. 2016.

20 Disponível em: <https://youtu.be/Xp2yB_4MtXE>. Acesso em: 15 ago. 2016.

21 Disponível em: <https://youtu.be/N9PGXNqmHcw>. Acesso em: 15 ago. 2016.

22 Disponível em: <https://youtu.be/BxW2KlM4oTI>. Acesso em: 15 ago. 2016.

23 Disponível em: <https://youtu.be/Mobb4GhrXUA>. Acesso em: 15 ago. 2016.

24 Disponível em: <https://youtu.be/pkN1KFuj50Y>. Acesso em: 15 ago. 2016.

25 Disponível em: <https://youtu.be/c4YzJxeokEg>. Acesso em: 15 ago. 2016.

26 Disponível em: <https://youtu.be/bbIBHBOgAYE>. Acesso em: 15 ago. 2016.

27 Disponível em: <https://youtu.be/Z1xw9-nVoKo>. Acesso em: 15 ago. 2016.

28 Disponível em: <https://youtu.be/wh3u_4O8Aso>. Acesso em: 15 ago. 2016.


Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 25


o cenário literário e o papel das mulheres nele. Relata que este mês leria somente mulheres, pedindo
aos seus seguidores que incluíssem ao menos uma mulher na sua lista de leituras.

Apesar da relação conflituosa entre mercado editorial e mulheres, a primeira pessoa a ficar
bilionária com a venda de seus livros e dos direitos autorais de suas personagens foi uma mulher.
Joanne Rowling tornou-se J. K. Rowling ao inserir o K de “Kathleen”, nome de sua avó paterna, a
pedido de sua editora – Bloomsbury Children’s Books, pois acreditava-se que uma mulher não
agradaria um público de jovens garotos. (JKROWLING.COM, online)29.

O processo da pesquisa

A metodologia empreendida será a etnografia realizada virtualmente, contanto, por vezes, com
contatos presenciais durante o clube de leitura. Geertz (1997, p. 15) nota que, para que haja de fato
uma pesquisa etnográfica, o pesquisador deve empenhar um esforço intelectual, desenvolvendo uma
“descrição densa” sobre o grupo, tentando ler as pistas que se mostram, por vezes, incoerente. A
etnografia hoje também é realizada em comunidades virtuais ou espaços digitais que comportam
grupos de interesses.

Como argumenta Baym (apud FRAGOSO et. al., 2011), tão indispensável quanto selecionar
os métodos adequados para a investigação é o cuidado do pesquisador com outras premissas
necessárias para a realização de pesquisa na internet. De acordo com a autora, se faz necessária uma
aproximação prévia com a história do objeto investigado – premissa sanada através da pesquisa
bibliográfica; deve-se manter o foco, tendo em mente onde e o que se quer pesquisar; é preciso ser
prático; saber fazer escolhas dentre a infinita gama de possibilidades que a internet nos oferece; e por
fim, desenvolver “explicações convincentes”, que são imprescindíveis.

Observando as terminologias da etnografia que é realizada em ambiente online, possuo o


discernimento da multiplicidade de nomenclaturas utilizada. Entre elas: Etnografia virtual (Christine
Hine), Netnografia (Robert Kozinets), Ciberantropologia, Etnografia na cibercultura e Etnografia
digital. Sobre este aspecto, Fragoso (et. al., 2011) observam que a tradição da pesquisa etnográfica

29 Disponível em: <http://www.jkrowling.com/pt_BR/#/sobre-jk-rowling>. Acesso em: 20 mar. 2016.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 26


consiste em um deslocamento ao campo a fim de constituir vivências de forma presencial em um
determinado grupo, comunidade ou tribo por um determinado tempo de inserção. Foi este “ir a
campo” um dos principais fatores que provocou discussões sobre a veracidade de um fazer
etnográfico na internet, visto que esta era considerada por alguns estudiosos como um “não-lugar”.

A autora ressalta que os antropólogos tradicionais “torceram o nariz” para uma etnografia
realizada virtualmente, defendendo que o princípio básico desta é o “ir a campo”, entendido como
um deslocamento geográfico do pesquisador. No entanto, na conjuntura atual da sociedade pode-se
perfeitamente ir a campo sem a necessidade de deslocamento físico, se o interesse do pesquisador for
grupos ou comunidades presentes no ciberespaço. Sendo assim, Fragoso (et. al., 2011) compreendem
que o termo etnografia pode ser utilizado, desde que o pesquisador descreva e problematize as
diferenças no processo da coleta de dados e da observação que se dá entre o ambiente online e off-
line.

Conforme Hine (2004, p. 10), os primeiros estudos que foram desenvolvidos sobre a internet
possuíam um cunho futurista, como os desenvolvidos por Negroponte (1995) e Gates (1996), nos
quais se primava pela descoberta de qual seria o futuro da internet, esquecendo-se de compreender
como ela era incorporada à vida e ao cotidiano das pessoas. Contudo, seu trabalho intitulado
Etnografia Virtual (2004) tem por objetivo oferecer uma metodologia de investigação empírica sobre
os usos atuais da internet, posto que, mais rico do que compreender o que acontecerá com a internet
no futuro, é apreender no presente seus usos e apropriações. É entender quem são as pessoas presentes
no campo de interesse, por que estão lá e o que fazem.

O argumento de Hine (2004) é que a tecnologia em si mesma não é o agente de mudança deste
futuro, mas sim, os usos, construções de sentido e apropriações realizados a partir dela. Neste caso, a
etnografia é ideal para o pesquisador que pretende compreender as complexas relações que existem
na e a partir da internet, pois permite observar detalhadamente os modos como as pessoas
experimentam o uso dessa tecnologia. Além disso, pode revelar significados adquiridos pela
tecnologia por meio das culturas em que se insere e que é, também, por ela formada. A etnografia
proporciona a promessa de compreender como as pessoas organizam suas vidas e como interpretam
o mundo em que vivem.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 27


Um dos principais obstáculos enfrentados pela etnografia na internet é a necessidade da
relação face a face, um dos fundamentos cruciais desta metodologia, o que leva ao questionamento
sobre a autenticidade 30 das relações estabelecidas virtualmente e dos locais onde a pesquisa se
desenvolve. No entanto, atualmente é possível estabelecer relações a partir das várias possibilidades
que a internet proporciona. Além disto, uma etnografia nunca é um relato perfeito da realidade do
objeto que se observa. É uma seleção de tal realidade, recortada e contada a partir do ponto de vista
do etnógrafo. É uma interpretação a partir de uma experiência, mesmo que o pesquisador se coloque
no lugar do nativo. São os detalhes e as vivências da viagem, ou do deslocamento, que fazem com
que os leitores do relato que daí resulta o julguem como uma verdadeira experiência etnográfica no
ciberespaço. Ainda, conforme lembra Sá (2005), até mesmo as etnografias presenciais são mediadas,
seja por um gravador, por uma câmera fotográfica ou por uma filmadora.

Compreendo que a etnografia na internet não implica, necessariamente, em mover-se de lugar


geograficamente. Seu foco e propósito é viver e apreender as experiências dos usuários e não
simplesmente deslocar-se. Na internet, como em outros campos, o etnógrafo também pode observar
e viver experiências sólidas e intensas. A experiência é mais crucial do que a viagem em si. Neste
sentido, Hine (2004, p. 62) argumenta que o etnógrafo não é alguém que viaja e observa de maneira
desvinculada. Ele torna-se um participante na medida em que compartilha emoções, preocupações e
compromissos com aqueles que investiga. Assim, o campo da etnografia virtual é o campo de
relações, caracterizando-se mais do que um lugar; é a possibilidade de o etnógrafo “seguir as conexões
que adquirem sentido a partir de um contexto inicial”31 (HINE, 2004, p. 76, tradução nossa).

Neste viés, as redes sociais são uma oportunidade ímpar para compreendermos as práticas de
leitura das leitoras de nosso interesse, conforme constata Miller (2009, p. 4). A etnografia será

30 Sobre a autenticidade das relações estabelecidas na internet, Hine (2004) destaca que grande parte da dúvida
sobre tal se dá na veracidade do próprio informante uma vez que, na internet, a identidade deste pode ser representada
como melhor lhe convir. Lembremos que alcançar esta autenticidade é um ato impraticável em todas as pesquisas em
que o pesquisado sabe/percebe a presença do pesquisador. Nos termos de Goffman (2002), nós sempre estaremos
representando a nós mesmos, em qualquer situação. Hine (2004, p. 64, tradução nossa) compreende que a autenticidade
nada mais é do que uma “manifestação de uma regra segundo o qual o fenômeno sempre se escapa”. Logo, não deve ser
encarada como um problema, mas sim, como um tópico digno de análise e atenção por parte do pesquisador.

31 “siga las conexiones que adquieren significado debido a un contexto inicial”.


Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 28


realizada presencialmente no clube de leitura Leia Mulheres de Porto Alegre e virtualmente no mês
de março de 2017 e de 2018 nos booktubers, no Facebook e no Twitter utilizando para a coleta de
dados tópicos como “leia mulheres”, “lendo mulheres”, “mulheres para ler” e “leia mais mulheres”.
Meu principal campo de pesquisa é o ciberespaço, mas objetivo acompanhar presencialmente de
forma esporádica as leitoras para entender as relações que se estabelecem entre o online e o off-line.
Os preceitos etnográficos, a princípio, serão assimilados a partir de Hine (2004, 2015), Segata (2015,
2016), Clifford (2011), Geertz (1997) e Angrosino (2009).

A antropologia do consumo, em especial a cultura material, auxiliará no entendimento sobre


as relações entre as leitoras a partir do livro e da literatura, entendida enquanto materialidade. Para
tal, empregarei os preceitos de Campbell (2011), Isherwood e Douglas (2013), Appadurai (2008),
McCracken (2003), Mauss (2012) e Miller (1987, 2013). A pesquisa se dará em quatro etapas básicas:
pesquisa bibliográfica acerca dos temas e conceitos trabalhados, pesquisa exploratória sobre o projeto
#leiamulheres, pesquisa etnográfica presencial no clube de leitura Leia Mulheres de Porto Alegre
(composta por observação participante durante os encontros e entrevistas em profundidade com
algumas leitoras) e pesquisa etnográfica virtual no YouTube¸ Facebook e Twitter. Por fim, ressalto
discernir que a pesquisa se constitui no seu decorrer. Ajustes e novas perspectivas de análise ainda
surgirão durante o percurso.

Conclusões atuais

Minha inserção no campo da pesquisa da pós-graduação é, de uma certa forma, recente.


Contudo, ao longo dos anos de pesquisa e descobertas, percebi que tão importante quanto
compartilhar os resultados de uma investigação científica, é compartilhar também o percurso
elaborado para que as respostas fossem alcançadas. Tão necessário quanto partilhar as respostas às
minhas perguntas, é partilhar com meus pares, meus colegas de academia, como eu cheguei a estas
respostas, por que elas me inquietavam e quais os caminhos que eu percorri para chegar às descobertas
que cheguei. Por isso, este artigo não apresenta respostas fechadas, apresenta uma intenção de
pesquisa. Uma reflexão transformada em um artigo científico para que novas percepções possam ser
alçadas em um percurso que está apenas começando.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 29


Após alguns anos pesquisando e consumindo redes sociais, o projeto #leiamulheres me causou
o estranhamento necessário para que eu o visse como uma potencial investigação. Estando eu inserida
tanto no estudo de leitores e literatura quanto no interesse por temas relacionadas às mulheres e ao
feminismo, ver estes dois universos juntos me revela o quão profícuo pode ser uma pesquisa
interessada em um grupo de mulheres que se organiza e consolida através das redes sociais para
valorizar a literatura escrita por mulheres. Os primeiros passos da pesquisa já foram, e o caminho que
me espera é convidativo.

Referências bibliográfica

ABREU, Márcia. Cultura letrada: literatura e leitura. São Paulo: Editora Unesp, 2006.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

ANGROSINO, Michael. Etnografia e observação participante. Porto Alegre: Artmed, 2009.

APPADURAI, Arjun (Org.). A vida social das coisas: as mercadorias sob a perspectiva cultural.
Niterói: Editora UFF, 2008.

BEAUVOIR, Simone de. A mulher independente. São Paulo: Pocket Ouro, 2008.

______. O segundo sexo. São Paulo: Nova Fronteira, 2009.

______. A mulher desiludida. São Paulo: Nova Fronteira, 2010.

BOLLMANN, Stefan. Mulheres que leem são perigosas. São Paulo: Quetzal, 2007.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade. São Paulo:


Civilização Brasileira, 2003.

CAMPBELL, Colin. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rio de Janeiro:


Rocco, 2011.

CLIFFORD, James. A Experiência Etnográfica: Antropologia e Literatura no século XX. Rio de


Janeiro: Editora UFRJ, 2011.

DOUGLAS, Mary; ISHERWOOD, Baron. O mundo dos bens: para uma antropologia do consumo.
Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2013.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 30


ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da
mulher selvagem. São Paulo: Editora Rocco, 2014.

FRAGOSO, Suely; RECUERO, Raquel; AMARAL, Adriana. Métodos de pesquisa para internet.
Porto Alegre: Sulinas, 2011.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

HINE, Christine. Etnografia Virtual. Barcelona: Editorial UOC, 2004.

______. Ethnography for the Internet: Embedded, Embodied and Everyday. London: Bloomsbury
Academic, 2015.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. São Paulo:
Cosac Naify, 2012.

McCRACKEN, Grant. Cultura e consumo. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.

MILLER, Daniel. Material culture and mass consumption. New York: Basil Blackwell, 1987.

______. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro:
Zahar, 2013.

SÁ, Simone Pereira de. Utopias comunais em rede: discutindo a noção de comunidade virtual. In: X
ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, Anais eletrônicos. Brasília, 2001.

SEGATA, Jean. Um efeito ciber na antropologia. Revista Florestan, v. 2, p. 35-51, 2016.

______. SEGATA, Jean; RIFIOTIS, T. (Org.). Políticas etnográficas no campo da cibercultura. 1.


ed. Brasília: ABA Publicações, 2016.

SOUZA, Babi. Vamos juntas? O guia da sororidade para todas. São Paulo: Galera Record, 2016.

WALSH, Joanna. Will #readwomen2014 change our sexist reading habits?. The Guardian. 20 jan.
2014. Disponível em: <https://goo.gl/HOLJmI>. Acesso em: 15 ago. 2016.

WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 31


Políticas Etnográficas e Resistência Ciborgue: os Programas de Compartilhamento de
Arquivos em Perspectiva

Andressa Nunes Soilo32

Resumo: Este trabalho consiste em refletir acerca das possibilidades de atuação etnográfica junto a
realidades sociais constituídas e permeadas, simultânea e simbioticamente, por práticas online e off-
line. Tal reflexão decorre do processo de produção de minha tese, ainda em andamento, sobre as
práticas de resistência manifestadas por/através programas de compartilhamento de arquivos –
Napster, The Pirate Bay e Popcorn Time– frente aos esforços de regulação da propriedade
internacional na internet –, resistência que chamarei de “resistência ciborgue”. Os programas de
compartilhamento de arquivos podem ser entendidos enquanto serviços online de distribuição e
compartilhamento não-autorizados de conteúdo protegido por direitos autorais, como filmes e
músicas. É possível identificar diversas manifestações de resistências relacionadas a tais programas
– o próprio surgimento destes pode ser entendido enquanto expressão de reação às economias morais
dominantes –, me atenho, neste trabalho, àquelas diretamente direcionadas às corporações que
ameaçam a existência desses serviços. É possível perceber que no cenário de instabilidade e incerteza
acerca da continuidade dos programas, a resistência ciborgue demanda, também, uma etnografia
ciborgue atenta às manifestações online e off-line que compõem e reforçam a atuação dos programas
– os protestos em defesa dos programas se dão tanto nos espaços online e off-line – promovendo a
necessidade do debate sobre as possibilidades híbridas nos campos de pesquisa. Nesse sentido, este
trabalho busca refletir os modos de investigação de repertórios online e off-line de resistências, assim
como a potencialidade de políticas etnográficas ciborgues na produção antropológica.

Palavras-chave: Etnografia; Políticas Etnográficas; Resistência; Programas de Compartilhamento


32 Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 32


Introdução

Em 2013 o programador e ativista de 26 anos Aaron Swartz durante intenso conflito legal em
que foi acusado pelo Estado dos Estados Unidos de realizar downloads ilegais de 4,8 milhões de
documentos científicos e literários da plataforma JSTOR (REPORT TO THE MIT’S PRESIDENT,
2013) – uma editora online que digitaliza artigos e os vende na internet –, foi encontrado enforcado
em seu apartamento em Nova York sendo sua morte interpretada como suicídio. Com o julgamento
Swartz poderia ser sentenciado a até 35 anos de prisão e multa de US$ 1 milhão, pena sugerida pelos
promotores do caso a fim de compensarem as diversas batalhas perdidas no campo dos downloads
ilegais, e de atuarem pedagogicamente em prol da redução do compartilhamento de arquivos na
internet (SILVEIRA, 2013). A acusação contra Swartz consistia, basicamente, na sua intenção em
disponibilizar os downloads de artigos que realizou em formato peer-to-peer (P2P) para distribuí-los
gratuitamente na internet. Seu suicídio foi imediatamente associado à pressão do litígio e despertou
a atenção social, incluindo mídia e ativistas, para a magnitude das consequências produzidas pelas
disputas envolvendo leis, atores corporativos e cibernautas, desencadeando diversos protestos off-
line e online. Destaco a mobilização social que ficou conhecida como “The Day We Fight Back”33
ocorrida em 11 de fevereiro de 2014, ocasião em que mais de 6.000 websites, em memória de Swartz,
se manifestaram em suas páginas contra a vigilância governamental na internet – especialmente da
NSA (National Security Agency)34 – mobilizando internautas a requererem às autoridades que se
posicionassem contra o controle e o monitoramento praticados no ciberespaço (RT, 2014). Já os

33 O site oficial desse protesto online (https://thedaywefightback.org/) apresenta recortes de notícias publicadas
em diversos jornais de grande circulação do mundo envolvendo a vigilância de agências de inteligência na internet,
assim como um vídeo sobre a importância de combate à invasão da privacidade na internet, e sugestões de como atuar
em prol da liberdade na internet.

34 Conforme o site da agência, a NSA integra o departamento de segurança dos Estados Unidos coletando
informações eletrônicas a fim de descobrir segredos de adversários, proteger os segredos estadunidenses e superar seus
oponentes no ciberespaço, mantendo, ao mesmo tempo, os direitos de privacidade da população dos Estados Unidos.
(NSA, 2016). Em 2013 a NSA protagonizou um conflito público com Edward Snowden, um ex-funcionário, que roubou
aproximadamente 1,7 milhões de documentos secretos da agência e os divulgou para veículos midiáticos a fim de expor
atividades secretas conduzidas contra os direitos de cidadãos estadunidenses, líderes estrangeiros, entre outros alvos
exteriores.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 33


protestos off-line foram planejados em diversos países do mundo 35 se expressando através de
palestras e conversas sobre a vigilância na internet, e de manifestações sociais de grupos de pessoas
em determinados espaços (THE DAY WE FIGHT BACK, 2014).

O excerto acima integra minha tese, ainda em andamento, sobre as resistências produzidas a
partir das relações de poder entre programas de compartilhamento36 – como Napster, The Pirate Bay
(TPB), e Popcorn Time 37 – e o regime de propriedade intelectual. Trago a lembrança das
circunstancias que ocasionaram a morte de Aaron Swartz não somente para sugerir excesso de
(des)controle presente em tais relações de poder, mas para apresentar o argumento geral deste artigo:
o de que as fronteiras entre as dimensões online e off-line da vida social se encontram borradas. A
vida, a morte, as emoções, os desejos, as leis, e a economia podem ser condicionados, influenciados,
e reconfigurados por atividades sociais localizadas não “dentro” nem “fora” da internet ou da “vida
real”, mas na interseção destas. O caso de Swartz me parece representativo da regular
indissociabilidade social que se estabelece entre os espaços online e o off-line na atualidade já que
demonstra uma correlacionalidade de caráter fundamental entre a experiência do ciberativista com as
dimensões on e off: o compartilhamento de conhecimento/informações de modo não-autorizado pelo
programador na internet (on); a instauração de processo judicial contra o internauta (off); resistências
online e off-line contra a vigilância na internet produzidas por ciberativistas, ativistas, e simpatizantes
da causa (on/off). A história de Swartz com o (des)controle das relações de poder envolvendo
propriedade intelectual e internet foi selecionada por mim também por apresentar considerável
similaridade com o campo que investigo atualmente no doutorado, campo permeado por disputas

35 Países como Colômbia, Costa Rica, Canadá, Brasil, Dinamarca, índia, Irlanda, Alemanha, Sérvia, África do
Sul, Suécia, Reino Unido, Estados Unidos e Áustria fizeram parte do The Day We Fight Back (THE DAY WE FIGHT
BACK, 2014).

36 Serviços online que distribuem e compartilham, de modo legalmente não-autorizado, conteúdo protegido por
direitos autorais, como músicas e filmes

37 Tais programas são analiticamente interessantes para o estudo das resistências, pois, ainda que tais serviços
estejam em atividade por quase duas décadas, as agências contra as premissas e controles da propriedade intelectual
ainda se mostram atuais e continuam atualizando e reconfigurando espaços e relações sociais.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 34


on/off sobre o controle de acesso a informações, conhecimento, e entretenimento, que mobiliza novos
modos de consumo, ressignifica moralidades, e atualiza leis. É a partir e sobre este campo, no qual
estou me dedicando a aproximadamente 18 meses, que proponho refletir neste artigo sobre os
imponderáveis etnográficos relativos à questão dos espaços on/off, ou seja, sobre a imprevisibilidade
da natureza e do local em que são encontrados os dados, assim como a relevância de tais espaços para
a compreensão de eventos e práticas sociais.

O contexto no qual minha pesquisa está inserida é o das inovações tecnológicas onde o
controle do acesso a bens imateriais se depara, desde o final da década de 1990, com a possibilidade
de intercâmbios quase irrestritos de informações, assim como com a otimização das práticas de
produção de cópias, que são aperfeiçoadas em qualidade, rapidez e baixo custo, sejam elas
documentos, imagens, sons, filmes e outros. Os programas de compartilhamento integram ativamente
tal cenário oferecendo a possibilidade de acesso online gratuito a bens protegidos por direitos autorais,
especialmente músicas, filmes e séries. Com características destacadas como vantagens por muitos
internautas e usuários dos programas – como a gratuidade do acesso ao entretenimento e a
comodidade da aquisição de tais bens através do computador –, rapidamente tais serviços se tornaram
populares no mundo todo38, desencadeando reações da indústria do entretenimento39 e de demais

38 Destaco aqui a popularidade dos programas que analiso: O Napster rapidamente se tornou popular contando
com, aproximadamente, 14 mil músicas baixadas por minuto (RAYBURN, 2001), entrando para o Guinness Book of
World Records como o empreendimento com crescimento mais rápido de todos os tempos (BRUENGER, 2016;
NIEVA, 2013). Shawn Fanning, o criador do programa, estampou a capa da revista Time – uma das revistas de maior
circulação do mundo publicada nos Estados Unidos – que considerava seu programa uma das “maiores aplicações da
Internet já criadas, juntamente com o e-mail e as mensagens instantâneas" (THE OBSERVER, 2013). Já o The Pirate
Bay, fundado em 2003 na Suécia se popularizou de modo que, inicialmente acessado somente por suecos, em pouco
tempo extrapolou as fronteiras nacionais de seu país de origem atingindo, um ano após seu surgimento,
aproximadamente 1 milhão de usuários em todo o mundo (LOOPER, 2014), se tornando um dos 100 sites mais
visitados na internet em 2008 (ERNESTO, 2008), e um dos sites de torrents mais acessados do mundo diversas vezes,
como nos anos 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2016 (ERNESTO, 2016a; VOLTOLINI, 2016). Por sua vez, o
recente Popcorn Time fundado em 2014 contava, um ano após seu surgimento, com 100.000 downloads por dia, e cerca
de 4 milhões de usuários (GREENBERG, 2015).

39 Um dos argumentos das indústrias fonográfica e cinematográfica residia e ainda reside nos prejuízos de seus
rendimentos econômicos após a emergência de tais programas. A indústria fonográfica argumenta que após o ano do
surgimento do Napster, em 1999, a venda de músicas em formato físico foi reduzida, assim como o rendimento das
gravadoras e dos artistas; por sua vez o programa de compartilhamento em questão e seus apoiadores defendiam a ideia

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 35


detentores dos direitos dos bens compartilhados – atores que se sentiam ameaçados e prejudicados
no que concerne a seus rendimentos –, assim como mobilizando resistências a favor do novo modo
de consumo desatrelado das relações jurídicas e econômicas dominantes. Os conflitos desencadeados
foram expressados, principalmente, através de ações judiciais que objetivavam, basicamente, a
retirada do ar de tais programas; batidas policiais aos locais das atividades dos serviços; prisões de
usuários, desenvolvedores e envolvidos com a funcionalidade de tais sites; atualizações de leis sobre
a propriedade intelectual a fim de controlar as atividades cibernéticas; e de manifestações públicas de
artistas a respeito da moralidade dos compartilhamentos não-autorizados. Já as resistências a tais
práticas se apresentaram através de práticas como a criação de novos programas de compartilhamento
por internautas; o hackeamento de sites de grupos opositores; a reunião de pessoas em protestos
físicos; a criação de novas plataformas políticas atentas à agenda digital.

As resistências promovidas e desencadeadas por tais relações não me permitiram aderir


completamente às premissas da etnografia tradicional, assim como não me permitiram adotar
unicamente a etnografia praticada somente no ciberespaço: estudar a resistência de programas de
compartilhamento me posicionou na encruzilhada de uma metodologia ciborgue em que as relações
entre observadora e observado superavam a relação antropóloga-máquina, e acrescentava a relação
antropóloga-on/off. Tal circuito não se mostrou rapidamente evidente a mim, se tornando, por alguns
meses, um trajeto trilhado com desconfiança (intelectual e técnica) e certa dificuldade pelas razões
que apresentarei ao longo deste texto. Penso, contudo, que a complexidade da prática investigativa
que me deparei se deve, coincidentemente, a outra categoria de resistência: a resistência etnográfica.
Apesar de teoricamente discutida em debates, palestras, e algumas aulas, a particularidade do campo
que depende da confluência de técnicas etnográficas para que seja analisado recebe atenção moderada
no espaço acadêmico. Trato aqui não da etnografia do ciberespaço e da etnografia em espaços físicos,
mas de uma etnografia “híbrida” que é simultaneamente dependente do online, do off-line, e da
criatividade e capacidade de adaptação técnica da pesquisadora ou pesquisador – pesquisadores
também “híbridos”.

de que o serviço na verdade promovia as vendas, já que as pessoas também usavam seus serviços para conhecerem
melhor os álbuns para então compra-los.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 36


Em Antropologia do Ciborgue Tomaz Tadeu sintetiza tal perspectiva de permeabilidade entre
humanos e não-humanos ao dizer que “o sujeito vaza por todos os lados” (TADEU, 2009, p.9). O
sujeito, enquanto corpo dotado de agência, vaza por todos os lados porque não se encontra somente
na dimensão humana, também se escoa por entre existências não-humanas. A ubiquidade das
máquinas questiona nossa ontologia que se percebe, no cotidiano, em processo de interpenetração
com não-humanos, o que permite a contemplação de uma (con)fusão entre política, legislação e
tecnologia, categorias que, na temática que apresento, dificilmente poderiam ser, tanto abordadas
separadamente, quanto consideradas valorativamente assimétricas na investigação. Pensar as relações
entre homem e máquina, assim, me remete à reflexão de Haraway (2009) sobre os ciborgues, pois as
relações entre tecnologias computacionais e relações de poder emanadas do regime da propriedade
intelectual não se originam, nem se apresentam, somente por meio de relações de poder entre
humanos, mas também através de relações de poder ciborgue, onde a subjetividade – e
consequentemente o alvo das ações das autoridades – é incerta 40. Ainda me baseando em Haraway
(2009), é possível dizer que os ciborgues produzidos pelos programas e serviços em questão se
tornaram fronteira entre ficção e realidade. Desse modo, considero o conjunto de reações, estratégias
e dinâmicas de negação do arranjo oficial do regime de propriedade intelectual oportunizado por tais
programas de compartilhamento enquanto atividade de resistência essencialmente ciborgue e, por
essa razão, me refiro a tal conjunto como “resistência ciborgue”.

Até o momento o recorte e as particularidades de minha tese me conduziram a ampliar e a


reorganizar meu arsenal de técnicas de leitura do social para que os objetivos de minha pesquisa
fossem contemplados de forma satisfatória. A coleta de dados para a pesquisa se deu entre os meses
de setembro de 2015 a março de 2017 através de sites de notícias; sites produzidos exclusivamente
para protestos41; fóruns de discussões; blogs; vídeos; e protestos ocorridos no campo off-line. Ao
“seguir” tais dados me deparei, talvez com certa ingenuidade, com a necessidade de considerar a

40 Em manifestações da mídia e do campo jurídico é possível perceber que a subjetividade dos desenvolvedores
dos programas restava confusa e indistinta em relação a existência de seus programas.

41 Alguns sites foram produzidos por simpatizantes e usuários dos programas em questão a fim de protestarem
contra as tentativas de controle da indústria do entretenimento, artistas, e Estado sobre os serviços de compartilhamento
de arquivos em análise

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 37


dimensão off-line para compreender a produção, a circulação e a distribuição de resistência emanada
dos programas de compartilhamento estudados, tarefa à primeira vista relativamente simples, mas
que se mostrou desafiadora em um curto espaço de tempo. Acreditando que o intuito da etnografia é
não conter, mas “seguir” o social, destaco nos próximos tópicos os imponderáveis e a resistência da
etnografia, assim como seu aspecto fluído.

Bricolagem on/off: Boicotes, Partido Pirata e Resistência Apropriada

A resistência dos programas de compartilhamento que analiso – Napster, The Pirate Bay, e
Popcorn Time – se apresenta enquanto atividade híbrida não somente a partir da comunhão de seus
atores (homem e máquina), mas também a partir de suas práticas de resistência no espaço e em seus
efeitos. Detenho-me aqui a demonstrar, a partir de três práticas de resistência ciborgue percebidas
durante minha investigação, como o campo que investigo é não somente atravessado, mas também
produzido pela articulação das dimensões on e off da vida social. Destaco as práticas do boicote, da
consolidação do Partido Pirata, e da “resistência apropriada”, enquanto exemplos de resistências
ciborgues, desencadeadas a partir das relações entre programas de compartilhamento e propriedade
intelectual, que se mostraram essenciais para conceber a própria produção de meu campo, assim como
conceber que a categoria “resistência ciborgue” é boa para pensar não somente os programas, as leis,
e o consumo, mas também políticas etnográficas.

A primeira prática ciborgue de resistência que apresento é o boicote ao consumo tradicional


de entretenimento. O boicote pode ser entendido enquanto ação que visa impedir a concretização de
certas atividades e fins de modo a causar danos a determinados sujeitos. Tratando-se de resistências
contra o consumo baseado em contratos legais e no lucro da indústria do entretenimento – lucro
considerado descomedido por muitos consumidores dos programas em questão –, a prática do boicote
à compra de músicas e filmes se mostra recorrente nos discursos dos desenvolvedores, usuários e
simpatizantes dos serviços de compartilhamento. É relevante dizer que tais programas são percebidos
por muitos enquanto ferramentas potencializadoras de boicotes, seja por serem percebidos enquanto
motivo do desencadeamento de outros instrumentos de boicote, seja por serem consideradas enquanto
a própria representação do boicote – o Popcorn Time, por exemplo, é sugerido enquanto instrumento

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 38


de punição em fóruns que sugerem e organizam boicotes a determinados filmes42. Destacarei aqui a
primeira dessas interpretações e usos de tais serviços em razão de sua ampla popularidade e superior
recorrência frente à segunda prática. Quando atores sociais se manifestam contra os programas de
compartilhamento – seja bloqueando o acesso aos sites ou interpondo ações judiciais contra os
desenvolvedores de tais serviços – o boicote é prática comumente sugerida por cibernautas para
interferir nas dimensões moral e econômica de seus “opositores”.

Uma das mais expressivas mobilizações e produções de boicotes realizadas entre os


programas que analisei ocorreu após o Napster ser acionado judicialmente pela indústria fonográfica
por violação dos direitos autorais responsabilizando o site pelo decréscimo anual de suas vendas, e
consequentemente prejudicando seus rendimentos (HU, et al, 2004). As acusações contribuíram para
que o consumo tradicional fosse percebido pelo público consumidor, cativado pelos serviços do
Napster, como uma reação gananciosa das corporações e de alguns artistas. A iminente desativação
do programa de compartilhamento em sua versão de acesso gratuito no ano 2000 mobilizou o site
Boycott RIAA (http:// boycott-riaa.com) a propor que seus usuários não comprassem CD’s de artistas
associados a gravadoras representadas pela RIAA43 (Recording Industry Association of America) até
que o programa voltasse a funcionar. O Napster, à época, sugeriu que seus usuários realizassem um
“buycott”, um boicote baseado na compra exclusiva de CD’s de artistas que apoiavam o Napster
(VALETTA, 2000). No mesmo dia da publicação da decisão legal que exigia o fim do funcionamento
do Napster, Patrick Clinger, à época um adolescente, criou um site que promovia o boicote à compra
de CD’s que fossem afiliados à RIAA e que viabilizava que internautas se expressassem a favor do
Napster.

O Napster também desencadeou boicotes direcionados a determinados artistas, como a banda


de rock Metallica que se manifestava publicamente na mídia contra o serviço de compartilhamento o
associando a um serviço composto de “ladrões”. Mesmo com as ações judicias de gravadoras a banda
interpôs sua própria ação judicial contra o programa e ordenou a este que bloqueasse o acesso de

42 Em fórum online, no tópico “Deveriam Boicotar Filmes de Artistas Esquerdistas” um internauta reage com o
seguinte comentário: “Apoiado! Popcorn Time neles! ” (FÓRUM UOL, 2016).

43 A RIAA é uma organização que representa a indústria fonográfica nos Estados Unidos.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 39


usuários que haviam realizado o download de suas músicas. Tais atitudes promoveram uma série de
manifestações de pessoas que se diziam “ex-fãs” do Metallica e de pessoas que os associavam a
figuras gananciosas que desrespeitavam seus fãs. Consequentemente, alguns protestos com o formato
de boicotes foram realizados: cibernautas ao dialogarem em fóruns ou se manifestarem em seus blogs
sobre tal conflito no cenário da música planejavam formas de boicotar a banda, compartilhando
estratégias individuais que colocaram/colocariam em prática para prejudicarem o lucro do Metallica,
como o ato de se “livrarem” de seus CD’s e tentarem vendê-los a outras pessoas a fim de reduzirem
as vendas da banda 44.

Os boicotes decorrentes das ameaças às atividades do Napster são expressões que se


desenvolveram por entre os espaços on/off. Muitas vezes tais práticas foram mobilizadas e
organizadas através de fóruns, blogs, e redes sociais na internet a fim de surtirem efeitos na
regularidade de atividades off-line, como a compra de músicas em formato físico, e
consequentemente fortalecendo os programas de compartilhamento na dimensão online. A mesma
dinâmica on/off – off/on pode ser percebida através das atividades e resistências do The Pirate Bay
que provocaram a popularidade e o reforço do Partido Pirata 45 – partido político que tem como
principal proposta a reforma do regime de propriedade intelectual . Em 31 de maio de 2006 o local

44 Um internauta que se diz “ex-fã” do Metallica manifesta seu boicote à banda após suas ações judiciais contra
o Napster: “ (...) as a protest against Metallica's promotion of yesterdays centralized music industry, I am getting rid of
all the Metallica CD's. I will be trying to find a home for them with someone else who might otherwise purchase them,
reducing their sales in a minor way. I was once a fan and had a number of their CD's, but now have no interest in
listening to this band, nor supporting them financially in any way. This case is going to hurt the industry more than it
will help as more people are being forced to think more about how the music they listen to gets to them. I know I will
be moving my entertainment from these monopolists to independent artists and media.” (MCORMOND, 2000).

45 O Partido Pirata foi fundado na Suécia em 1º de janeiro de 2006 por Rickard Falkvinge, ex-funcionário da
empresa de produtos eletrônicos Microsoft, apresentando ideias como a liberação de downloads considerados ilegais e o
uso de softwares livres enquanto proposta política. A ideia de um partido político encabeçado por tais propostas de
cunho digital logo se propagou pela internet, através de fóruns em redes sociais, blogs e sites de notícia, influenciando
politicamente pessoas de vários lugares que se viam ideologicamente contempladas pela proposição de um partido
político atento ao cenário digital. Após a batida policial no local de atividades do TPB, e a consequente prisão de seus
desenvolvedores, debates políticos sobre a liberdade na internet e a questão da propriedade intelectual ganharam
destaque nos veículos de comunicação. Tal cenário deu visibilidade ao Partido Pirata que teve o número de seus filiados
dobrado – o número de filiações foi de 15 mil membros para 37 mil (LI, 2009; POULSEN, 2009) – em apenas cinco
dias após o veredicto de prisão e multa para os acusados pelo compartilhamento ilegal oferecido pelo tal site.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 40


em que os servidores do TPB se encontravam, em Estocolmo, foi invadido por cerca de 65 policiais
suecos que confiscaram o provedor do site e deteram os fundadores do programa para um
interrogatório sobre suas práticas na internet (MEYER, 2014). O site, contudo, não encerrou seu
serviço neste dia, pois um backup de suas atividades foi realizado por um de seus desenvolvedores
antes do aparecimento dos policiais. A ação do Estado, contudo, motivou a manifestação de pessoas
simpatizantes do TPB e de suas ideias sobre compartilhamento e livre acesso de conteúdo na internet.
Em 3 de junho de 2006 dois protestos foram organizados pelo Piratbyrån – organização anticopyright
sueca – e pelo Partido Pirata sueco em colaboração com outros partidos de esquerda nas cidades de
Estocolmo e de Gotemburgo – a primeira cidade contou com a presença de aproximadamente 500 a
600 participantes, e a segunda cidade reuniu cerca de 300 manifestantes (idem.). As manifestações
reclamavam a devolução dos servidores do The Pirate Bay levados pelos policiais, assim como o
fechamento da investigação contra o site (LIBBENGA, 2006). A invasão da polícia no centro de
atividades do programa também desencadeou, como disse Burkart (2014), furor e energia suficientes
para impulsionarem o crescimento da adesão popular ao Partido Pirata, um partido político de origem
sueca que hoje atua internacionalmente, em mais de 60 países, defendendo em sua agenda política a
reforma do sistema de copyrights; a abolição do sistema de patentes; respeito pela privacidade online,
assim como a liberdade na internet e a defesa do compartilhamento online (LI, 2009).

Outra prática de resistência que salienta a permeabilidade das dimensões on/off e a produção
da categoria “resistência ciborgue” para se pensar as relações de poder entre o digital, o consumo, e
o regime de propriedade intelectual, é o que chamo de “apropriação da resistência dos programas de
compartilhamento”, ou seja, a reação da indústria do entretenimento na produção de novos serviços
capazes de concorrer com a (atraente) pirataria dos serviços gratuitos. Com o surgimento e a
popularidade de programas que distribuíam e ainda distribuem músicas, filmes, séries, jogos, entre
outros produtos, de modo fácil, rápido e gratuito nas últimas duas décadas, a indústria do
entretenimento se percebeu pressionada a oferecer alternativas para o consumo de baixo custo.
Destacarei o Spotify e a Netflix como exemplos de tais alternativas, demonstrando como a articulação
on/off produz resistências, resistências apropriadas, e novos modos de consumo. O Spotify é um
serviço de streaming criado por Daniel EK na Suécia em 2008 – nove anos após o Napster – que

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 41


oferece, a diversos usuários em diversos lugares do mundo46, não a venda de músicas, mas o acesso
a elas de modo considerado legal. O usuário se depara com duas possibilidades: a do acesso gratuito
que conta com anúncios e propagandas no intervalo entre músicas, e a do acesso premium em que o
assinante paga quantias que variam entre R$16,90 a R$26,90 para ter acesso a recursos como o uso
off-line do serviço e a recusa de anúncios e propagandas. Conforme o próprio serviço, um de seus
objetivos é o de “proteger” artistas da pirataria47, já que o serviço distribui royalties aos detentores
dos direitos das músicas – artistas ou gravadoras48. No campo dos filmes e séries o serviço Netflix
tem sido, constantemente, associado ao combate da pirataria. Fundado por Reed Hastings, o Netflix
é hoje um serviço de streaming que possibilita ao público o aluguel de filmes, séries, e documentários
por um custo mensal pré-determinado atualmente estabelecido entre R$19,90 e R$29,90. Assim como
o Spotify, o Netflix se encontra no mesmo terreno das relacionalidades com a pirataria, apresentando
amplo catálogo de músicas e filmes, respectivamente, a baixo custo.

O consumo de produtos como filmes, séries, programas de tv, e músicas pode ser percebido,
na perspectiva online e off-line, fluindo e se movimentando como looping por entre causas e efeitos
em tais dimensões: off-line (consumo tradicional do entretenimento em seu formato físico), online
(insatisfação social/consumo do entretenimento através de programas de compartilhamento que
violam a propriedade intelectual), off-line (indústria do entretenimento se diz prejudicada); online

46 Atualmente o serviço se encontra em 58 países, possui, aproximadamente, 50 milhões usuários sendo 12,5
milhões destes assinantes pagantes, e arrecadou bilhões de dólares para seus investidores. (SEABROOK, 2014).

47 De acordo com o site do Spotify o objetivo de seu serviço é auxiliar fãs de músicas e artistas a se conectarem,
protege-los da pirataria, e pagá-los por seu trabalho: “Our whole reason for existence is to help fans find music and help
artists connect with fans through a platform that protects them from piracy and pays them for their amazing work.
Quincy Jones posted on Facebook that “Spotify is not the enemy; piracy is the enemy”. You know why? Two numbers:
Zero and Two Billion. Piracy doesn’t pay artists a penny – nothing, zilch, zero. Spotify has paid more than two billion
dollars to labels, publishers and collecting societies for distribution to songwriters and recording artists. A billion
dollars from the time we started Spotify in 2008 to last year and another billion dollars since then. And that’s two
billion dollars’ worth of listening that would have happened with zero or little compensation to artists and songwriters
through piracy or practically equivalent services if there was no Spotify – we’re working day and night to recover
money for artists and the music business that piracy was stealing away.” (SPOTIFY ARTISTS, 2014).

48 Até o momento o serviço pagou mais de 2 bilhões de dólares para gravadoras, editores, distribuidores e
artistas detentores de direitos sobre as músicas que disponibiliza, cativando representantes da indústria do
entretenimento. (SEABROOK, 2014).

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 42


(resistência apropriada); off-line (indústria do entretenimento auferindo com serviços digitais). Essa
breve demonstração da fluidez de relações entre tais dimensões é demasiada simplória, contudo, me
parece eficaz em demonstrar o continuum de tais dimensões da vida social, ressaltando a necessidade
de “seguir” os dados, e de adaptar e criar modos etnográficos de captar o social antropologicamente.

Etnografia “híbrida”: conjugando técnicas, sensibilidades e criatividades

A popularização dos computadores e da internet, como aponta Segata (2016), evidenciou que
a internet não poderia mais ser reduzida a um novo e mero meio de comunicação, mas sim considerada
espaço de relações sociais composta de nativos cibernéticos – “cibernautas” – que, de certa forma,
sinalizaram a presença de vida na internet e justificaram a reivindicação de uma antropologia no
espaço online. Atualmente, a conjugação das dimensões on e off na vida social pode ser facilmente
percebida no cotidiano de sociedades com acesso à internet, se fazendo presentes desde a compra de
alimentos até na constituição, manutenção, e término de relacionamentos pessoais. O cotidiano
híbrido também é contemplado pelas resistências ciborgues irrompidas neste século, como a
Primavera Árabe49, o Partido Pirata (LI, 2009; MIEGEL & OLSSON, 2008), o zapatismo50 e seus
recursos tecnológicos (ABDEL-MONEIM, 2002), e a resistência cotidiana de palestinos através da
internet – “cyber intifada”51 (AOURAG, 2008). Tais resistências são exemplos não somente da atual
potencialidade do digital na constituição da sociedade, mas também da necessidade de atualização
das técnicas de investigação do social para que este seja legível a quem o observa e estuda. Apesar

49 A Primavera Árabe foi uma manifestação social que protestava, basicamente, contra o alto nível de
desemprego, corrupção, e pobreza em contextos políticos repressivos em países do norte da África e do Oriente Médio,
e que mobilizou pessoas do mundo todo a atuarem em prol de suas reivindicações sociais e políticas através da internet.

50 Sarah Grussing Abdel-Moneim (2002) demonstra uma aproximação e amplificação das vozes indígenas em
relação às culturas hegemônicas do México através da difusão de vídeos e imagens sobre os modos de vida indígena e
suas resistências cotidianas

51 em que a tecnologia cibernética, além de auxiliar na organização de mobilização social, em níveis nacional e
global, a respeito das condições dos palestinos – ativismo que a autora chamou de “cyber intifada” – , também
problematiza a percepção de tais atores pela mídia dominante que os representa enquanto vítimas e/ou terroristas,
possibilitando que estes publiquem na internet suas próprias narrativas de opressão, o que torna a internet um meio de
expressão política para esse grupo.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 43


do relativo convencimento junto à comunidade científica do potencial da antropologia junto ao campo
online, e do atual questionamento das fronteiras entre os campos on e off na disciplina52 (MÁXIMO,
2006; MILLER & HORTS, 2015; RIFIOTIS, 2010; SEGATA, 2010) a permeabilidade de tais
dimensões na prática etnográfica ainda pode parecer questão enigmática para a pesquisadora ou
pesquisador que se depara com campos com particularidades que demandam observações estrábicas
ao online e ao off-line.

Penso, assim como Gupta & Ferguson (1997), que as noções e práticas etnográficas difundidas
historicamente limitam o fazer etnográfico e restringem possibilidades de produção do conhecimento
antropológico. A etnografia clássica ainda se manifesta em espaços acadêmicos ressoando certa
legitimidade e hierarquia que, mesmo que anacrônica a muitas dinâmicas sociais atuais, converge e
satisfaz o imaginário da antropóloga e do antropólogo que se percebem atuando intelectualmente em
situações de aventura em espaços físicos distantes do familiar. A etnografia no ciberespaço vem
conquistando espaço nos debates antropológicos destacando a (re)produção da vida social também
no espaço online e consequentemente “desfetichizando” a etnografia no seu formato clássico, e
fortalecendo novos critérios metodológicos de políticas etnográficas capazes de revitalizar o alcance
dos instrumentos de pesquisa. Nesse sentido, minha reflexão resta sobre uma ampliação metodológica
que considera dimensões digitais e espaços físicos enquanto espaços simbióticos não contidos no
“digital” ou na “vida real”, mas em um espaço único de natureza híbrida. Assim, busco discutir neste
tópico a importância da atualização das políticas etnográficas (SEGATA, RIFIOTIS, 2016) 53 no
sentido de dar visibilidade à articulação do on/off na etnografia a partir de minha experiência
enquanto pesquisadora.

52 Miller & Horst (2015) defendem que uma das maiores contribuições da antropologia realizada em campos
digitais seria o de implodir as ilusões de um mundo pré-digital, com relações humanas puras e não mediadas: “[...]
Interação face a face é tão inflexionada quanto uma comunicação mediada digitalmente, mas, como Goffman (1959,
1975) aponta vez e outra, falhamos ao ver a armação da estrutura de interações frente-a-frente porque essas armações
funcionam de maneira muito efetiva. O impacto das tecnologias digitais, como as webcams, são, às vezes, inquietantes
porque nos tornamos conscientes sobre aquelas armações que dávamos por garantidas acerca dos encontros face-a-face.
(MILLER & HORST, 2015, p. 97). ”

53 “Políticas etnográficas” é termo utilizado por Segata & Rifiotis (2016) para se referirem ao campo de disputas
de legitimação de práticas etnográficas.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 44


Enquanto estudante com acesso a disciplinas de antropologia ao longo dos últimos 9 anos tive
pouco contato com debates envolvendo etnografias que conciliassem as dimensões on e off, parte em
razão da prevalência do ensino da antropologia clássica em sala de aula – principalmente nos períodos
de minha graduação e parcela de meu mestrado –, parte em razão de ter me dedicado a campos de
pesquisa que demandavam técnicas clássicas da etnografia. Somente nos últimos 3 anos o ciberespaço
e suas técnicas investigativas se mostraram a mim mais presentes não só em tópicos de disciplinas,
mas também na pesquisa de alguns colegas, mobilizando debates breves sobre o assunto. Contudo,
ainda que a etnografia tenha experienciado oxigenação com o reconhecimento de que o digital é
povoado por humanos e cultura, penso que talvez novas fronteiras etnográficas tenham se
estabelecido: o campo que inicia, ou que é majoritariamente expressado no ciberespaço, demanda
uma etnografia do ciberespaço. Contudo, a depender das particularidades do campo, este pode
“vazar”, simultaneamente, entre espaço físico e digital sugerindo uma etnografia “híbrida”, ou seja,
uma etnografia capaz de “costurar” dinâmicas, linguagens, e práticas on/off. Refletir sobre a
integralidade on/off na pesquisa me foi primeiramente vivenciado quando, a partir da coleta de dados,
me percebi com informações insatisfatórias que, antes de me direcionarem a conclusões, me
sinalizavam sua incompletude. Ao eleger um campo em que programas de compartilhamento exercem
protagonismo na pesquisa destacando, consequentemente, a dimensão digital do social, direcionei
meu olhar ao ciberespaço como se este pudesse se autoconter em suas produções e práticas sociais.
O olhar, ofuscado pela familiaridade com as fronteiras metodológicas, logo se percebeu testemunha
de um jogo de quebra-cabeças em que as peças (dados coletados) “precisavam” de peças “exteriores”
(dados off-lines) para ser, se não completado, legível à observadora. Desse modo, penso aqui os
modos de produção da etnografia através da experiência da pesquisadora e do pesquisador enquanto
eleições políticas constantemente atualizadas e produzidas através/na experiência de campo.

O contexto de minha pesquisa junto às resistências produzidas entre programas de


compartilhamento e o regime de propriedade intelectual me direcionou a considerar a relevância da
unidade etnográfica on/off, pois a construção da resistência ciborgue em meu campo depende,
principalmente, de dois fatores: a) a ocorrência de práticas e linguagens simultânea e relacionalmente
presentes nos espaços online e off-line; e b) os esforços da pesquisadora em se desvencilhar tanto de
políticas tradicionais de pesquisa, quanto das fronteiras entre etnografia tradicional e etnografia no
ciberespaço, conciliando tais modos de investigação enquanto integralidade espacial e metodológica.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 45


As resistências ciborgues de minha análise são, de certo modo, produto de minha observação e de
minha sensibilidade analítica em constatar a unidade dos espaços on/off em campo, o que me conduz
a considerar a etnografia, neste trabalho, instrumento de revelação e também de construção de tais
resistências. Ainda que parte dos dados off-line de minha pesquisa tenham sido coletados no
ciberespaço sem a observação participante tradicional, o acontecimento “físico” de tais atos
representam tanto a articulação de tais dimensões, quanto o risco analítico de não as considerar em
determinadas pesquisas. Como bem asseveraram Miller & Slater (2004) é perigoso encarar tais
dimensões como cenários autocontidos, e a depender do objeto, dos objetivos e dos sujeitos que
compõem a pesquisa, a relacionalidade entre os dois “contextos” se torna crucial para a investigação.

Meu argumento sobre a operacionalidade da etnografia “híbrida” reside na sensibilidade da


etnógrafa e do etnógrafo em reconhecer as particularidades do campo que estuda, assim como sua
autonomia intelectual para interpretar desencadeamentos sociais entre os campos on e off superando
instruções pré-estabelecidas e priorizando as possibilidades que as particularidades do campo
demanda. Penso, assim, que o estado mental da pesquisadora ou do pesquisador são tão importantes
– se não mais importantes – quanto as prescrições metodológicas práticas, e constituem “técnicas”
elementares para a realização da “conexão” entre práticas e eventos nos campos on/off, pois sugerem
técnicas flexíveis de pesquisa que se ajustam ao social e não o contrário. Com isso não quero dizer
que o aspecto subjetivo da pesquisadora e do pesquisador na etnografia seja suficiente, mas que
compreende fator importante ao passo que facilita e permite visualizar a possível necessidade de
integração de técnicas híbridas de pesquisa e consequentemente uma análise mais acurada do social.
Nesse sentido, Mariza Peirano (2014) avalia a oxigenação metodológica como sendo a própria
antropologia, argumentando que a disciplina corresponde a uma “bricolagem intelectual”
proporcionada pela constante reinvenção da prática etnográfica frente a diferentes modos de conhecer
e refletir teoricamente sobre as diferenças nos modos de viver entre os homens.

O “vazamento” e fluidez entre as dimensões on/off se apresentaram a mim enquanto uma


constante até o momento de minha pesquisa. Os efeitos das atividades desempenhadas no campo on
ressoa no campo off e vice-versa, estabelecendo uma dinâmica social que não deve ser interpretada
enquanto “dentro” ou “fora” de uma dimensão e consequentemente “fora” e “dentro” de outra, mas
como uma cadeia ininterrupta de eventos no espaço social. Para além das práticas de resistência

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 46


apontadas no tópico anterior, o “vazamento” entre as dimensões do social pôde ser percebido por
mim quando, por exemplo, a insatisfação com os preceitos dos modos de consumo tradicionais
ocasionaram a emergência dos programas de compartilhamento em questão; quando cibernautas se
tornavam réus em ações judiciais postuladas pela indústria do entretenimento; quando as identidades
dos desenvolvedores se tornavam anônimas também no campo off-line em razão das potenciais
represálias legais que recairiam sobre eles caso suas identidades fossem reveladas ou encontradas;
quando a indústria do entretenimento fomentava pesquisas acadêmicas e não-acadêmicas acerca do
prejuízo dos programas em seus rendimentos, e promovia propagandas pedagógicas contra a pirataria
em diversos meios comunicação; e quando os meios que possibilitaram minha pesquisa em espaço
“físico” foram também digitais, já que as reuniões com o(s) interlocutor(es) eram marcadas por meio
de chats de redes sociais ou de programas que possibilitavam o encontro “face-a-face” através de
webcam.

No que concerne à prática da etnografia “híbrida” penso que a pesquisadora ou pesquisador


devem primeiramente ponderar os níveis e condições das produções e coproduções de seu campo nas
relações on e off. Trata-se da sensibilidade em reconhecer as particularidades do campo para que as
técnicas de pesquisa sejam adequadamente selecionadas. Quanto à utilização das técnicas de pesquisa
penso que a ideia de “bricolagem intelectual” (PEIRANO, 2014) se faz adequada, pois sugere uma
autonomia da investigadora e do investigador quanto à eleição dos instrumentos mais adequados para
a análise de seu campo. Em minha pesquisa, a observação participante no ciberespaço me conduziu
à observação participante tradicional e off-line que, por sua vez, me conduziu a uma observação
participante “mista” em que ao mesmo passo que ponderava as práticas e linguagens de um
interlocutor “de carne e osso” em um espaço físico, também observava as interações sociais situadas
no campo online, já que tal interlocutor se referia a notícias, mobilizações e acontecimentos diversos
que me eram mostrados em seu celular. O estado mental da pesquisadora e do pesquisador opera,
assim, de modo a acoplar técnicas de análise on e off superando as fronteiras entre etnografias em
diferentes dimensões, e considerando seus repertórios enquanto um único repertório possível. Desse
modo, minha reflexão é que a etnografia, ao lidar com campos “ciborgues” e campos potencialmente
“ciborgues” – dada a disseminação do digital na produção da vida social –, também deve ser percebida
como tal no sentido de superar a etnografia tradicional e a etnografia do ciberespaço como práticas
estanques.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 47


Considerações Finais

Busquei tratar, brevemente, sobre os imprevistos etnográficos e sobre a relevância da


sensibilidade, da autonomia, e da criatividade da antropóloga e do antropólogo em reconhecer seu
campo. Inspirando-me em minha experiência junto ao campo das resistências presentes nas relações
de poder envolvendo propriedade intelectual e programas de compartilhamento não-autorizado de
bens como músicas e filmes, propus tal reflexão a partir da articulação das dimensões on/off em
minha pesquisa. Tal articulação se mostrou a mim transcendente à questão espacial do campo,
protagonizando a própria produção deste através de uma etnografia que chamo de “híbrida” –
etnografia que se utiliza de técnicas que operam relacionando as dimensões on/off. Apesar das
peculiaridades de meu campo e das dificuldades em “seguir” suas expressões sociais, penso que a
formulação de uma “etnografia híbrida” em meu modo de conduzir a pesquisa, pensando sempre nas
relacionalidades e alcances destas nas dimensões on/off, me fez pensar que, antropologicamente e
etnograficamente, eu trilhava o caminho possível e o mais adequado a me apresentar a suficiência de
dados para compreender o estilo de pesquisa a que me dediquei. Este artigo, distante de promover
discussões profundas sobre etnografia, consiste em um relato e em uma reflexão sobre a
“desfetichização” da hierarquia que permeia a prática etnografia, e sobre as liberdades e
possibilidades criativas do etnógrafo em campo.

Referências

ABDEL-MONEIM, Sarah Grussing. 2002. O ciborgue zapatista: tecendo a poética virtual de


resistência no Chiapas cibernético.In.: Revista Estudos Feministas, v. 10, nº 1, Florianópolis.

AOURAGH, Miriyam. 2008. Everyday resistance on the internet: the palestinian context. In.: Journal
of Arab and Muslim Media Research, vol. 1, n 2.

BRUENGER, David. 2016. Making Money, Making Music: History and Core Concepts. University
of California Press.

BURKART, Patrick. 2014. Pirate Politics – The New Information Policy Contests. The MIT Press.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 48


ERNESTO, 2016. Pirate Bay is the King of Torrents Once Again. In.: TorrentFreak. Disponível em:
< https://torrentfreak.com/pirate-bay-king-torrents-160814/> Acesso em: 16, dez, 2016.

_________, 2008. The Pirate Bay Enters List of 100 Most Popular Websites. In.: TorrentFreak.
Disponível em: < https://torrentfreak.com/the-pirate-bay-100-popular-080518/> Acesso em: 16, dez,
2016.

FÓRUM UOL, 2016. Fórum UOL – Jogos. Tópico: Deveriam Boicotar Filmes desses Artistas
Esquerdistas. In.: Uol Jogos Fórum. Disponível em: < http://forum.jogos.uol.com.br/deveriam-
boicotar-os-filmes-desses-artistas-esquerdistas_t_3923586> Acesso em: 04, abr, 2017.

GREENBERG, Andy. Inside Popcorn Time, the piracy party Hollywood can’t stop. In.: Wired.
Disponível: < https://www.wired.com/2015/03/inside-popcorn-time-piracy-party-hollywood-cant-
stop/> Acesso em: 18, set, 2016.

GUPTA, Akhil; FERGUSON, James. 1997. Discipline and Practice - “The Field” as Site, Method,
and Location in Anthropology.University of California Press, Berkeley.

HU, Jessica; LEUS, Charlene; TCHOBANIAN, Barbara; TRAN, Long T. 2004. Copyright vs.
Napster: The File Sharing Revolution. University of California. Disponível em: <
http://www.socsci.uci.edu/lawforum/content/journal/LFJ_2004_compilation.pdf> Acesso em: 30,
mar, 2017.

LI, Miaoran 2009. The Pirate Party and the Pirate Bay: How the Pirate Bay Influences Sweden and
International Copyright Relations, 21 Pace Int'l L. Rev. 281. Disponível em: <
http://digitalcommons.pace.edu/pilr/vol21/iss1/8/> Acesso em: 30, jan, 2017.

LIBBENGA, Jan. 2006. Pirate Bay resurfaces, while protesters walk the streets – The hunt continues.
In: The Register, 05, jun, 2006. Disponível em:
http://www.theregister.co.uk/2006/06/05/pirate_bay_reemerges/ Acesso: 12, mar, 2016.

LOOPER, Christian de. History of The Pirate Bay: Internet Outlaw or Internet File-Sharing Freedom
Fighter? In.: TechTimes. Disponível: http://www.techtimes.com/articles/22362/20141217/history-
pirate-bay.htm Acesso em: 18, set, 2016.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 49


MÁXIMO, Maria Elisa. Blogs: o eu encena, o eu em rede. Cotidiano, performance e reciprocidade
nas redes sócio-técnicas. Tese de Doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina, 2006.

MCORMOND, Russell. Bye, Metallica: A Lost Fan. In.: Digital Copyright Canada. Disponível em:
http://www.digital-copyright.ca/node/3107 Acesso em: 04, abr, 2017.

MEYER, Maximiliano. 2014. A conturbada história do Pirate Bay. In: Oficina da NET, 10, dez, 2014.
Disponível em: https://www.oficinadanet.com.br/post/13533-a-conturbada-historia-do-pirate-bay
Acesso em: 11, mar, 2016.

MIEGEL, Frederik; OLSSON, Tobias. 2008. From Pirates to Politicians: The Story of the Swedish
File Sharers who Became a Political Party. In.: Democracy, Journalism, and Technology: New
Developments in na Enlarged Europe. Tartu University Press.

MILLER, Daniel; HORST, Heather A. 2015. O Digital e o Humano: prospecto para uma
Antropologia Digital. In.: Parágrafo, jul/dez 2015, v.2, n.3.

MILLER, Daniel; SLATER, Don. 2004. Etnografia on e off-line: cibercafés em Trinidad. In.:
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre , v. 10, n. 21, p. 41-65, junho, 2004. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832004000100003 Acesso em:
01, abr, 2017.

NIEVA, Richard. 2013. Ashes to Ashes, Peer to Peer: Na Oral History of Napster. In.: Fortune.
Disponível em: < http://fortune.com/2013/09/05/ashes-to-ashes-peer-to-peer-an-oral-history-of-
napster/> Acesso em: 09, fev, 2017.

NSA, 2016. What we Do. Disponível em: https://www.nsa.gov/what-we-do/ Acesso em: 01, abr,
2017.

PEIRANO, Mariza. 2014. Etnografia não é Método. In.: Horizontes Antropológicos. Porto Alegre,
ano 20, n. 42, p. 377-391, jul/dez, 2014. Disponível em: <
http://www.scielo.br/pdf/ha/v20n42/15.pdf> Acesso em: 01, abr, 2017.

RAYBURN, Corey. 2001. After Napster. In.: Virginia Journal of Law and Technology. Disponível
em: < http://www.vjolt.net/vol6/issue3/v6i3-a16-Rayburn.html#_edn1> Acesso em: 13, jan, 2017.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 50


REPORT TO THE MIT’S PRESIDENT, 2013. Report to the President – MIT and the Prosecution
of Aaron Swartz. Disponível em: < http://swartz-report.mit.edu/docs/report-to-the-president.pdf>
Acesso em: 19, jan, 2017.

RIFIOTIS, Theophilos. 2010. Antropologia no ciberespaço: questões teórico-metodológicas sobre


pesquisa de campo e modelos de sociabilidadE. In: RIFIOTIS, Theophilos et al. (orgs.). Antropologia
no ciberespaço. Florianópolis: Editora da UFSC, 2010.

SEABROOK, John. Revenue Streams – Is Spotify the Music Industry’s Friend or its Foe? In.: The
New Yorker. Disponível em: < http://www.newyorker.com/magazine/2014/11/24/revenue-streams>
Acesso em: 04, abr, 2017.

SEGATA, Jean. 2016. Dos Cibernautas às Redes. In.: Políticas Etnográficas no Campo da
Cibercultura. Orgs.: Jean Segata & Theophilos Rifiotis – Brasília: ABA. Publicações; Joinville:
Editora Letradágua.

SEGATA, Jean. 2010. Um local-global, um global-local: eu, a cidade de Lontras e o orkut. In:
RIFIOTIS, Theophilos et al. (Org.). Antropologia no Ciberespaço. Florianópolis: Editora da UFSC,
2010.

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. 2013. Aaron Swartz and the Battles for Freedom of Knowledge. In.:
SUR Revista Internacional de Direitos Humanos, v.10, n.18, jun. 2013 (p.7-17).

SPOTIFY ARTISTS. 2014. $2 Billion and Counting. Disponível em: <


https://artists.spotify.com/blog/2-billion-and-counting> Acesso em: 01, abr, 2017.

HARAWAY, Donna. 2009. Manifesto Ciborgue – Ciência, tecnologia e feminismo socialista no final
do século XX. In.: HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, TOMAZ (eds.) Antropologia do
Ciborgue – As vertigens do pós-humano, Belo Horizonte: Autêntica Editora.

TADEU, Tomaz. 2009. Nós, Ciborgues – O Corpo Elétrico e a Dissolução do Humano. Manifesto
Ciborgue – Ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX. In.: HARAWAY,
Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, TOMAZ (eds.) Antropologia do Ciborgue – As vertigens do pós-
humano, Belo Horizonte: Autêntica Editora.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 51


THE DAY WE FIGHT BACK, 2014. A List of Events Happenning on the Day We Fight Back. In.:
The Day We Fight Back.org. Disponível em: < https://thedaywefightback.org/events/> Acesso em:
19, jan, 2017.

THE OBSERVER. 2013. Napster: o dia em que a música foi libertada. In.: Carta Capital. Disponível
em: < http://www.cartacapital.com.br/internacional/napster-o-dia-em-que-a-musica-foi-libertada>
Acesso em: 12, jan, 2016.

VALETTA, Marcelo. “Usuários do Napster reagem contra o desligamento”. In.: Folha de São Paulo.
[São Paulo,SP], 29, jul, 2000. Disponível em: <
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2907200012.htm> Acesso em: 20, fev., 2017.

VOLTOLINI, Ramon. The Pirate Bay Completa 13 Anos e Reconquista Posto de “Rei dos Torrents”.
In.: TecMundo. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/the-pirate-bay/108411-the-pirate-bay-
completa-13-anos-reconquista-posto-rei-torrents.htm Acesso em: 16, dez, 2016.

Anais da VI Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia - ISSN: 2358-5684 52