Vous êtes sur la page 1sur 16

Literatura e Cultura Popular AULA 2

Kelly Sheila Inocêncio Costa Aires

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

A oralidade e as
formas poéticas

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Conhecer algumas formas poéticas orais


da cultura popular brasileira;
„„ Ampliar práticas de leitura a partir do
conhecimento de novas formas poéticas;
„„ Compreender as especificidades existentes
entre a poesia oral e a poesia escrita.
A oralidade e as formas poéticas

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Estimado estudante, na primeira aula sobre cultura popular e folclore, vimos que
muitos estudos apontam para a necessidade de se observar a cultura de um povo
por meio das realizações do seu sujeito produtor, respeitando o seu contexto
de criação, bem como as transformações vivenciadas pelo objeto de produção.
Além disso, entendemos que a poesia é uma das manifestações culturais mais
dinâmicas exercidas por uma sociedade, seja em sua forma escrita ou em sua
forma oral, principalmente por ser considerada um exemplo secular e de maior
força de expressão de qualquer cultura. Como exemplos, temos as anedotas, as
lendas, os contos, o cordel e todas as formas poéticas que advêm da oralidade,
integrando, assim, a cultura popular de um povo.

Nesta aula, iremos ampliar as nossas vivências literárias, abordando um pouco


mais sobre algumas das formas poéticas que compõem a oralidade. Isso porque
entendemos que o nosso passado é marcado por práticas da oralidade ainda
vigentes, mesmo sendo em formas diferentes, como é o caso da Literatura de
Cordel, que ainda mantém fortes traços com a oralidade.

3 TECENDO CONHECIMENTO

Inicialmente, para ficar bem claro para o leitor, todas as formas poéticas que ocorrem
a partir da oralidade devem ser compreendidas como poesia oral, uma vez que
são compostas e transmitidas sem qualquer auxílio da escrita. Se pensarmos em
uma definição mais genérica, podemos imaginar que as poesias orais são aquelas
apresentadas por meio do improviso. Segundo Mello (2012), cantar poeticamente
em versos as narrativas é prática comum nas sociedades predominantemente orais
e mesmo nas chamadas “sociedades letradas”, nos quais adquirem novas funções.

Tão logo compreendemos essa definição, vem à cabeça que não é raro lembrarmo-
nos de pessoas mais velhas ensaiarem rimas em uma tentativa lúdica de brincar
com alguma situação. Quem nunca brincou de improvisar algumas frases, a
fim de criar uma moda, utilizando-se da rima ou ainda apenas com o intuito de
brincar com o nome do amigo do bairro? Quem não já tentou recriar ou parodiar
uma música de um cantor preferido, a partir das suas próprias experiências?
Ou organizar as ideias para falar ritmando sobre um determinado assunto?
Possivelmente, algumas dessas situações você deve ter vivenciado.

26
AULA 2

As formas poéticas produzidas e transmitidas por meio dos múltiplos gêneros da


cantoria e da improvisação fazem parte de um dos mais importantes meios de
comunicação encontrados no território nordestino (SANTOS, 2010). A historiografia
aponta que, considerando até o final do século XIX, quase a totalidade da
população do Nordeste ainda não dominava a leitura e a escrita, ficando restrita
a escolarização às famílias mais ricas.

Isso influenciou diretamente o modo de viver da sociedade na época, excluindo


muitas vozes poéticas que colaboraram significativamente para a construção da
história do Nordeste brasileiro. Segundo Santos (2010), divulgadas por poetas,
emboladores, violeiros e repentistas, que declamavam de notícias a histórias
tradicionais, por todo o Nordeste, as formas poéticas da oralidade contribuíram
significativamente para o abastecimento da memória de muitas pessoas e de
muitas culturas, influenciadas, principalmente, por narrativas indígenas, afros,
judaicas, mouras, francesas, holandesas, espanholas e portuguesas.

No Brasil, uma das modalidades que mais se destacaram entre as formas poéticas
orais foi a cantoria. Existente há séculos, ela se desenvolveu, principalmente, em
torno das populações que habitavam o sertão e parte do agreste nordestino,
cuja principal atividade econômica era a criação de gado e a agricultura. Com
forte influência da tradição trovadoresca, localizada na região ibérica europeia,
a cantoria constituiu-se na mais importante e influente fonte de informação e
entretenimento do homem do sertão até meados do século XX, quando cedeu
espaço para a produção escrita popular, como o cordel (GALVÃO, 2001).

Em termos de significação, a cantoria talvez possa ser comparável apenas aos


folhetos de cordel – assunto a ser abordado na próxima aula –, manifestação
poética que possui características com a oralidade, mas se difere, principalmente,
por sua materialidade gráfica, ou seja, por possuir um caráter impresso e também
por haver uma criação não pautada na improvisação.

Responsável pela introdução da viola e da rabeca no Brasil, instrumentos bastante


populares tanto em Portugal, quanto na Espanha, desde o século XVI, a cantoria
nordestina que conhecemos hoje situa as suas origens em meados do século
XIX, na região do sertão do rio Pajeú, nos estados da Paraíba, Pernambuco e
Ceará (MELLO, 2012). Sobre a origem do cantador, Câmara Cascudo (1984) afirma:
O que é o Cantador? É o descendente do Aedo da Grécia,
do rapsodo ambulante dos Helenos, do Glee-man anglo-
saxão, dos Moganis e metris árabes, do velálica da Índia, das
runoias da Finlândia, dos bardos armoricanos, dos escaldos da
Escandinávia, dos menestréis, trovadores, mestres-cantadores
da Idade Média. Canta ele, como há séculos, a história da
região e a gesta rude do Homem. É a epea grega, o barditus
27
A oralidade e as formas poéticas

germano, a gesta franca, a estória portuguesa, a xácara


recordadora. É o registo, a memória viva, o Olám dos etruscos,
a voz da multidão silenciosa, a presença do Passado, o vestígio
das emoções anteriores, a História sonora e humilde dos
que não têm história. É o testemunho, o depoimento (...).

A partir do trecho acima, extraído do livro Vaqueiros e Cantadores, Cascudo (1984)


comenta sobre as tradições que regem a profissão dos cantadores, bem como
dos poetas trovadores que peregrinam de cidade em cidade, versejando suas
próprias canções. A seguir, apresentaremos algumas das modalidades da poesia
oral que mais ganharam notoriedade entre os apreciadores da cultura popular.

3.1 Embolada

A embolada – também conhecida como coco de embolada, coco de improviso


ou coco de repente – é uma manifestação de cantoria popular que pode ser
facilmente reconhecida no território brasileiro, principalmente, no nordestino.
Uma das principais características da embolada é o fato de ser formada por
uma dupla de “cantadores”, acompanhados por um pandeiro e que montam
versos bastante métricos, rápidos e improvisados, tendo por objetivo denegrir
a imagem do que lhe faz dupla, com versos muitas vezes ofensivos, palavrões
e até insultos pessoais. O “ofendido” deve improvisar uma resposta rápida e, ao
mesmo tempo, engraçada e, caso não consiga, seu par é coroado triunfante (SILVA,
2010). A seguir, um trecho da embolada “Vamos cantar embolada”, interpretada
pelos cantadores Caju e Castanha:

28
AULA 2

Vamos cantar embolada


Castanha/Djalma Gomes

Eu sou Castanha embolador


Faço versos e toada
Canto coco de embolada
Sem a língua bombear
E pra cantar e palestrar
Não tem bom nem tem ruim
Sou madeira que o cupim
Teve preguiça de cortar

Eu sou Caju sou cantador


Sou o bom da embolada
E você não canta nada
Só tá querendo zoar
Não venha me maltratar
Que você não é cantador
Você é um gigolô
Lá das negas do fuá
(Refrão)
Ô seu cara de babaca
Procure me respeitar
Com essa cara de vaca
Você não sabe cantar
Eu não te ensinei assim
Pra você cantar errado
Com esse jeito de viado
Chega de desmunhecar

Você me chamou de viado


Eu não sou viado não
Tu fica na Ipiranga
Com a avenida São João
Com essa cara de trouxa
A noite rodando bolsa
Correndo atrás de machão
Figura 1

29
A oralidade e as formas poéticas

Como podemos observar no trecho acima, os cantadores utilizam uma linguagem


bastante coloquial, com termos populares da região, como “fuá”, “gigolô”,
“desmunhecar”, e até ofensivos, como “viado”. A embolada não deve ser confundida
com a cantoria de repente, na qual a música e a resposta são lentas, com melodias
e o tema mais recorrente é a vida cotidiana.

3.2 Cantoria de viola (repente)


Caro aluno, se você é nordestino ou mora no Nordeste, já ouviu, ao menos, falar
de cantoria de viola, não é verdade?

A cantoria de viola, ou repente nordestino, também é uma manifestação oriunda


das poéticas orais. Segundo Santos (2010), os repentes possuem estruturas e
modalidades bastante rígidas, feitos muito por meio do improviso, assim como
as emboladas. O primeiro cantador de viola nordestino conhecido foi Agostinho
Nunes, que viveu na Serra da Teixeira, entre 1797 e 1858. A poetisa Maria Julita
Nunes, cordelista paraibana e descendente da família Nunes, relata que da região
de Teixeira não saiu apenas as primeiras cantorias, mas também os primeiros
versos dos folhetos de cordel.

Para exemplificar este tópico, apresentamos, a seguir, uma cantoria de viola


(repente), de autoria de Moacir Laurentino e Sebastião da Silva, realizada durante
a 1ª Cantoria do Improviso, em 2004:

Vivo cantando repente


Moacir Laurentino (ML) e Sebastião da Silva (SS)

ML ML
Eu gosto tanto do xote Alcancei o que mais quis
e da POESIA DIVINA, e arranjei conhecimento,
quando eu começo a cantar afinando as 7 cordas
sinto que a voz se afina, tocando o meu instrumento,
penso que nunca adoeço eu sinto a marca divina
e que a vida nunca termina. ligada em meu pensamento.

SS SS
Cantar é minha doutrina, Já passei por sofrimento,
foi a opção que fiz, por tristeza e ameaça,
pra defender a cultura, pelas queixas e as dores
e para cantar meu País, e herança da nossa raça;
cantar pra viver alegre, porém cantando repente,
sonhar pra viver feliz. todo sofrimento passa.

30
AULA 2

ML
SS
Comecei cantar pra raça,
Vivo do som da viola,
numa fase adolescente,
do repente à cantoria,
vai fazer 40 anos,
eu acho que DEUS me deu
que eu vivo só do repente,
a arte que eu merecia,
ainda quero cantar mais
fez muito bem me dar isto,
uns 10 ou 15 pra frente.
que outra coisa eu não queria.

SS
ML
Venho desde inocente
Pedi a Virgem Maria,
nesse grande labirinto,
que me desse solidez,
passei por muitas torturas,
busquei no dicionário
passei momentos faminto,
a certeza, o português,
porém cantando no pinho,
é DEUS passando pra mim
esqueço as dores que sinto.
e eu passando pra vocês.

ML
SS
Vivo do jeito de Pinto,
O divino Rei dos Reis
de improviso e boemia,
me fez poeta disposto,
criei até 4 filhos
para cantar minha queixa,
à custa de POESIA,
minha dor e meu desgosto,
terminei de criar todos
e é só cantando repente
e hoje DEUS é quem me cria.
que a vida tem melhor gosto.

SS
ML
Sigo nesta rodovia,
A arte eu faço com gosto,
de subida e de descida,
porque da ARTE preciso,
trilhando neste caminho,
utilizo a engrenagem
de viagem indefinida
da mecânica do juízo,
e fazendo dos meus repentes
e minha boca é ambulante
o pão gostoso da vida.
distribuindo improviso.

ML
SS
Minha alma adormecida
Vivo do meu improviso,
desperta o sol, extrapola,
vou viver até o fim,
o grito salta do goela,
foi assim que eu nasci,
ouvindo o som da viola
quero sempre ser assim,
e pra filho de gente pobre
acordando o repentista
nunca vi melhor escola.
que dorme dentro de mim.

31
A oralidade e as formas poéticas

ML
ML
Eu não sei quando é meu fim,
Para mim não tem seqüela,
só tem JESUS que indica,
queixa, nem dor de saudade,
enquanto eu souber cantar,
vou aqui rompendo o mundo,
minha idéia multiplica
do jeito da tempestade,
quando eu partir qualquer hora,
nem me curvo nem ao peso
minha POESIA fica.
da carga da minha idade.

SS
ML
Quero minha idéia rica,
Viver cantando o sertão,
como tive no troféu,
e belezas que ele tem,
como esse solo que piso,
o canto da sabiá
com a roupa e o chapéu,
e algum ninho do vem-vem,
e dos versos faço uma escada,
viver com simplicidade,
pra ir direto pra o céu.
sem ter raiva de ninguém.

ML
SS
Já ganhei mais de um troféu,
Até hoje eu vivo bem,
do jeito de Zé Sobrinho,
pelo dom que eu ganhei,
de Pinto e de Lourival,
pelas cantigas que fiz,
Otacílio e Canhotinho,
os caminhos que trilhei,
que eu quero é viver cantando
os versos improvisados,
do jeito de passarinho.
e amigos que arranjei.

SS
ML
Eu venho desde novinho,
Os troféus que eu ganhei,
nessa minha profissão,
por que tenho preferência,
depois que eu envelhecer,
as expressões que já disse,
que eu me tornar ancião,
à luz da inteligência,
ao invés de uma bengala,
posso partir qualquer hora
quero a viola na mão.
e deixo em minha residência.

SS
SS
Quando a vida tiver ruim,
Agradeço à Providência,
cheia de trôpego, desgraça,
por cada troféu e taça,
me arranje uma viola,
por ser artista do povo,
meio litro de cachaça,
por ser boêmio na praça,
e uma banda de limão,
obrigado DEUS e povo,
que eu bebo e a raiva passa.
que me ouve e me abraça.

32
AULA 2

ML
SS
Sou da cana, sou da taça,
Sigo a minha trajetória,
sou do boteco e do bar,
trilhando equilibrado,
sou da igreja e da praia,
carrego há 44
do salão do lupanar,
anos, um fardo pesado,
que eu sou de qualquer recanto,
mas nem reclamo do peso,
que a platéia desejar.
e nem digo que estou cansado.

SS
SS
Eu vou pra qualquer lugar,
Na ARTE sou orgulhoso,
cantar para fazer show,
graça ao Pai Jeová,
distribuir alegria,
carregando a profissão,
sem ter alegria, eu dou,
cantando igual sabiá,
sou como o nome de DEUS,
infeliz quem não agüenta
em todo canto eu estou.
a marca que DEUS lhe dá.

ML
SS
Meu repente adocicou,
Já trabalhei no sertão,
como garapa de engenho,
fiz o maior rebuliço,
o meu verso leva doce,
já cultivei, já colhi,
no mais alto desempenho,
já tirei mel de cortiço,
nunca dei o que comprei,
e por ser um sertanejo,
PORÉM DOU DO DOM QUE EU TENHO.
gosto sim de fazer isso.

SS
ML
Cinquenta e nove já tenho,
No campo, não fiz chouriço,
de anos ou de idade,
que essa luta eu não entendo,
44 de arte,
no trabalho eu já rendi,
com muita simplicidade,
no repente ainda rendo,
a vida cheia de paz,
pois DEUS me deu esse dom,
e a alma, de liberdade.
e eu vivo lhe agradecendo.

ML
SS
Viver com intensidade,
Por isso eu estou querendo,
nessa minha trajetória,
saudar a quem está presente,
não ter a alma pesada,
e agradecer ao povo,
sacrifício e palmatória,
que veio ao nosso ambiente,
e quando eu canto deixo um livro,
assistir à cantoria,
para contar minha história.
e bater palmas para a gente.

33
A oralidade e as formas poéticas

ML ML
Essa platéia decente, TIAGO aqui está presente
conhece a minha odisséia, hoje aqui na nossa sede,
o som da minha viola, é primo de FENELON,
que eu conheço essa platéia, e é da seca SÃO MAMEDE,
o rapaz calibra o som onde o povo pede chuva,
e eu calibro a minha idéia. e DEUS não atende a quem pede.

SS EU QUERIA
Muito obrigado à platéia,
que veio pra cantoria, ML
e agradeço muito mais A meu filho dá estudo,
a cada um que aprecia, e o curso superior,
porque se não fosse povo, para avistar mais na frente
nada o poeta seria. o meu menino doutor
dizendo: não me envergonho
SS do meu pai ser cantador.
ZÉ DANTAS é nosso irmão,
grande nome cultural, SS
uma criatura boa, Seja ou não seja doutor,
que está neste local, quero criar meus guris,
e ainda carrega o cheiro com moral e com capricho,
da MARINGÁ DE POMBAL. honrando o nosso País,
que às vezes anel de doutor
ML não faz ninguém ser feliz.
Outro amigo especial,
que se sentado não sai, ML
é o nosso João FEITOSA, Ir à missa na matriz,
que é talentoso e não cai, morar num canto escondido,
aprecia a poesia, ir caçar à tardezinha,
do mesmo jeito do pai. com espingarda de ouvido,
e um cacete de jucá,
ML pra dar carreira em bandido.
Outro grande amigo meu,
que eu visito todo ano, SS
esse já morou no Rio, Queria ser prevenido,
é o nosso CIPRIANO, pra manhã do meu roçado,
eu moro em cima da serra, com inverno todo ano,
e ele perto do oceano. com muita ração pra o gado,
e um cavalo bom de boi
pra nele eu andar montado.

34
AULA 2

Existem dois tipos de apresentações, da cantoria e de repente. A primeira delas


é apresentada a um público ouvinte, em um lugar previamente organizado
conhecido como cantoria de pé-de-parede; já a segunda forma, trata-se de
uma apresentação organizada para festivais, congressos e campeonatos, na qual
se costuma promover competições e premiar os vencedores.

Figura 2 Repentistas Geraldo Amâncio e João Paraibano

No que diz respeito à estrutura das cantorias de repente, a modalidade mais


utilizada é a sextilha, ou seja, seis versos com sete sílabas poéticas. Mas, é
possível encontrarmos outros tipos de estruturas como a sextilha ou sete pés,
o quadrão, o galope, o martelo, etc. A cantoria de repente é rica em variações e
estilos performáticos. Santos (2010) aponta para mais de oitentas variantes ou
formas de se estruturar um repente, sendo que apenas cerca de quarenta são
executadas atualmente pelos repentistas.

3.3 Aboios e toadas

Os aboios e as toadas são cânticos proferidos normalmente por vaqueiros ou


cantadores que, devido aos grandes trajetos percorridos dentro da cantiga
nordestina, com os seus rebanhos de gado, entoavam a melodia como forma
de comunicação e entretenimento. De acordo com Cascudo (1984), a melodia
do aboio e da toada tem como função, além do entretenimento entre vaqueiros,
35
A oralidade e as formas poéticas

guiar/conduzir o rebanho de gado, em uma espécie de ligação entre o homem


e o animal, com um canto cuja principal característica é a sua vocalização lenta,
rimada, com tom agudo.

O Dicionário Musical Brasileiro, de Mário de Andrade (1962), conceitua o vocábulo


“aboiar” a partir da seguinte nomenclatura:
(V.I; S.M). O marroeiro (vaqueiro) conduzindo o gado nas
estradas, ou movendo com ele nas fazendas, tem por
costume cantar. Entoa um arabesco, geralmente livre de
forma estrófica, destituído de palavras as mais das vezes,
simples vocalizações, interceptadas quando senão por
palavras interjectivas, “boi êh boi”, boiato, etc. O ato de
cantar assim chama de aboiar. Ao canto chama de aboio.

Abaixo temos algumas estrofes do aboio “O acordar do sertanejo”, de autoria


de Vavá Machado e Marcolino, um dos mais conhecidos do nordeste brasileiro.

O Acordar do Sertanejo
Vavá Machado e Marcolino

O sertanejo se acorda antes, de amanhecer o dia


Começa soltando aboios, com a voz branda e macia
Tudo o gado sai berrando, em destino a vacaria

O vaqueiro se levanta, deixa seu rádio ligado


Seu patrão fica dormindo, o sonho mais desejado
Quando as emissoras abrem, não fica ninguém deitado

A filha do fazendeiro, combina com a empregada


Amanhã me acorde cedo, pra escorrer a coalhada
Que os aboios desses vaqueiros, me deixa emocionada.

Da mesma forma que o repente e a embolada, o aboio e a toada também possuem


como características a rima, muitas vezes feita a partir da improvisação e que
podem ser cantadas por mais de um sujeito da comitiva.

36
AULA 2

3.4 Peleja

A próxima forma poética da oralidade a ser apresentada é também um dos


gêneros mais conhecidos. A peleja tem por caráter o apelo popular e dialogado
entre os seus participantes, em que dois poetas compõem versos de improviso
um contra o outro, caracterizando uma disputa verbal. As principais métricas
utilizadas para a prática da peleja são a quadra e a sextilha de versos setessilábicos.
Câmara Cascudo (1984) afirma que:
Em quadras, ABCB, foram todos os velhos desafios, os
romances do gado, descrevendo aventuras de bois, de
vacas e poldras valentes. A métrica se manteve setissilábica,
como as xácaras, romances e gestas de outrora, guardados
em qualquer cancioneiro espanhol ou português.

Podemos destacar que o sucesso da peleja depende muito da agilidade do


cantador de captar a atenção da plateia, bem como do seu tempo de responder o
desafio do oponente e da capacidade de vencê-lo, deixando-o sem argumentos
para continuar. Note, aluno, que as características da peleja se aproximam
bastante das da embolada, diferindo, por exemplo, dos instrumentos utilizados
por ambas as formas poéticas.

Enquanto a peleja é acompanhada da viola, a embolada deve ser acompanhada


por um pandeiro, dando uma entonação e ritmo de performance diferenciado.
Como exemplo, pode-se citar um trecho da peleja do cego Aderaldo com Zé
Pretinho (2011), na qual se diz: “Desculpe José Pretinho/ Se não cantei a seu
gôsto/negro não tem pé, tem gancho/não tem cara, tem é rosto/negro na sala
de branco/só serve pra dar desgosto”.

Exercitando
1) A análise comparativa de textos literários sempre traz à tona diversas
descobertas. Por isso, pesquise e ouça um repente nordestino e, em
seguida, busque uma música de algum rap que você considere atual
(exemplo: “A pátria que me pariu”, de Gabriel O Pensador). Pontue
os elementos que você consegue identificar que aproximam ou
diferenciam essas duas culturas – a nordestina e a do morro.
2) Sabemos que as formas poéticas orais são anteriores às formas
poéticas escritas. Por isso, pesquise na internet textos literários que
tomam como base a oralidade e, em seguida, reflita como esses
textos escritos foram influenciados pelas formas poéticas orais.

37
A oralidade e as formas poéticas

4 APROFUNDADO SEU CONHECIMENTO

Caro aluno, a seguir apresentamos algumas sugestões para você conhecer mais
sobre a oralidade e algumas formas poéticas:

„„ O livro Cantadores com quem cantei, do poeta José Alves Sobrinho, é o registro
das memórias do cantador-cordelista, cujo interesse atende, principalmente,
a todos que apreciam a história da cantoria de viola nordestina.

„„ O documentário Poetas do Repente retrata a tradição nordestina da poesia


de repente e pode ser acessado pelo link: www.dominiopublico.org.br.

5 TROCANDO EM MIÚDOS

Na aula de hoje, vimos que as formas poéticas provenientes da oralidade são


manifestações culturais populares, normalmente improvisadas e que influenciaram
muitas das formas poéticas escritas. Nascidas, predominantemente, nas zonas
rurais, essas formas poéticas vêm ganhando espaço, nas últimas décadas, em
grandes centros urbanos. Tanto a peleja, a embolada, o repente, quanto os
aboios e toadas possuem formas fixas de estruturação e têm como temática a
vida do nordestino e as suas situações de conflito. Por fim, é preciso reconhecer
que, mesmo não sendo apreciadas por muitos leitores e/ou ouvintes, essas
modalidades orais possuem uma complexidade em seu âmbito de produção
e composição poética e que se faz necessário um olhar mais detido por parte
de nós estudiosos.

6 AUTOAVALIANDO

Após todas essas discussões, é necessário pararmos e refletirmos sobre tudo


o que foi visto. Nesse sentido, é importante pensar sobre as questões abaixo:

„„ O que eu entendo sobre as poesias orais?

„„ Quais são as modalidades que eu consegui compreender, bem como se


existe diferenças entre elas?

„„ Quais as particularidades existentes em cada uma das modalidades poéticas


orais apresentadas no texto?

38
AULA 2

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Mário de. Ensaio sobre a música brasileira. São Paulo: Martins
Fontes, 1962.

BATISTA, Maria de Fátima Barbosa et al. Estudos em literatura popular II. João
Pessoa: Editora UFPB, 2011.

CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia;


São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1984b.

CASTANHA; GOMES, Djalma. Vamos cantar embolada. Disponível em: www.


vagalume.com.br/caju-castanha/vamos-cantar-embolada.html#ixzz3cb3lpipE.
Acesso em: 6 jun. 2015.

MELLO, Vitor Rebello Ramos. Memórias repentinas: a construção poética do


nordeste pelos repentistas da Feira de São Cristóvão (RJ). Dissertação (Mestrado
em Memória Social) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, 2012.

MENDES, Simone (Org.). Cordel nas gerais: oralidade, mídia e produção de


sentido. Fortaleza: Expressão gráfica editora, 2010.

39