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 Umbanda Esotérica na Tradição de Matta e Silva


Parte 1: Doutrina e Disciplina
https://br1-broadcast.officeapps.live.com/m/Broadcast.aspx?Fi=701a8ced4855e339%5Ffb44c32f%2D0c9d%2D4af0%2D87e4%2D327a92347f26%2Dasync%2Edocx

Os africanos trazidos como escravos para o Brasil cultivavam suas próprias divindades, a quem
denominavam Orixás, (“Donos de Cabeça”). Impedidos de praticar abertamente a sua religião, os escravos
reuniam-se secretamente para realizar os seus cultos segundo os rituais próprios de cada etnia.
Com o passar dos anos, os escravos aprenderam a assimilar os Orixás com os santos católicos
para escapar de punições, iniciando um sincretismo religioso que perdura até hoje.
Desde o final do Século XIX o Astral Superior havia iniciado a implantação da Umbanda no Brasil,
sob o comando do Caboclo Curugussu (Grito do Guardião), que inspirou a criação de muitos terreiros.
A chegada do portentoso Caboclo das Sete Encruzilhadas (15 e 16/11/1908), através do médium
Zélio Fernandino de Moraes, marca historicamente a criação da nova religião, que recebeu o nome de
Umbanda com o objetivo de convocar o maior número de pessoas no menor espaço de tempo possível.
A Umbanda não parou de crescer e evoluir nas décadas seguintes. A aceitação da Umbanda pela
cultura e legislação brasileiras é incontestável, muito embora persistam os preconceitos e receios instigados
em muitas pessoas por orientadores espirituais e familiares.
Dentre outros expoentes intelectuais do movimento umbandista destaca-se o Mestre Matta e
Silva, que iniciou dezenas de médiuns e formou diversos sacerdotes que deram continuidade, cada um à sua
maneira, à árdua e incessante tarefa de sistematização doutrinária e ritualística da Umbanda.
Woodrow Wilson da Matta e Silva (1917-1988), fundador da Umbanda Esotérica, revelou a
Umbanda como sendo, em sua expressão mais elevada, o AUMBHANDAM (do sânscrito, significando
Conjunto ou Código das Leis Divinas).
Autor de nove obras, escritas sob a influência dos altos mentores da Corrente Astral de
Aumbhandam, discorreu sobre os profundos fundamentos metafísicos, esotéricos e mágicos, tanto práticos
como teóricos, da Umbanda, ressaltando que ela nada tem a ver com os sincretismos religiosos e o
espiritismo de Allan Kardec, embora possa utilizar elementos litúrgicos, princípios e regras de iniciação,
conhecimentos e práticas de outros caminhos espirituais como subsídios.
Sua obra principal e mais conhecida é Umbanda de Todos Nós, considerada até mesmo a “Bíblia
da Umbanda” porque foi a primeira a expor, de maneira sistemática e didática, os fundamentos e as
aplicações ritualísticas da Lei e Doutrina de Umbanda, tornando-se, desde sua publicação em 1956, um guia
seguro para milhares de adeptos umbandistas.
Matta e Silva fundou e dirigiu a Tenda de Umbanda Oriental (TUO), em Itacuruçá, RJ, sem instituir
uma hierarquia, evitando nomes pomposos e expressamente declarando que o seu trabalho se encerraria
com a sua passagem para o mundo espiritual, que ocorreu durante a última Gira por ele conduzida. (Ver o
documentário de Rogério Sganzerla sobre Matta e Silva em https://youtu.be/p7wPMGTuoV8.
O movimento umbandista, qualquer que seja a sua denominação, tem como objetivo restaurar
o AUMBHANDHAM, que visa a preparar a humanidade nos seus aspectos morais e espirituais para receber
no futuro a verdadeira religião cósmica.
Atualmente presenciam-se diversas tentativas de implantar um pouco mais de coerência
doutrinária e consistência ritualística, mas, infelizmente, verifica-se um excesso de criatividade e uma
escassez de convergência entre os teóricos de Umbanda, predominando nos cultos observados, em que pese
a sua relevância e importância espiritual para os diversos segmentos da população frequentadora, as
manifestações idiossincráticas e o neuroanimismo dos seus dirigentes e praticantes.
Esta apresentação é uma modesta contribuição com vistas a divulgar a Umbanda Esotérica
conforme preconizada por Matta e Silva. O foco principal deste trabalho é apresentar as linhas-mestras do
arcabouço doutrinário e ritualístico da Umbanda de Todos Nós, cujo aprofundamento e consolidação estão
ainda em construção, inclusive vivenciando grandes embates no interior dos grupos de praticantes e na
mídia. Em futuros trabalhos serão focalizadas as práticas concretas de diferentes Casas de Umbanda, ditas
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esotéricas ou não, com vistas a extrair lições e encaminhar aos dirigentes e praticantes propostas de
organização e gestão coerentes com os princípios fundamentais do Aumbhandam.

Matta e Silva abrindo uma Gira na TUO-Itacuruçá em 1980


(Ver vídeo completo em https://youtu.be/p7wPMGTuoV8).

O que é a Umbanda

Nas palavras do Pai Guiné, entidade da linha de Yorimá que foi um dos mentores de Mestre
Matta, “... o termo UM-BAN-DA, contendo em si um sentido tríplice oculto, traduz-se, de acordo com a Lei
do Verbo, como Conjunto das Leis de Deus. Em linhas gerais, portanto, Umbanda representa as eternas eis
que atuam na coletividade umbandista, a afim de regular e impulsionar a sua ascensão, tudo sob a guarda
direta dos espíritos escolhidos para esse mister, os chamados Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças ... “ (Matta
e Silva, Umbanda e Quimbanda na Palavra de um Preto-Velho, página 18).
Umbanda é um conjunto de práticas religiosas, calcadas em sólidas bases doutrinárias, que visam
a contribuir para a evolução espiritual da humanidade mediante a realização de cultos, a disseminação de
conhecimentos, a assistência material aos mais necessitados, a realização de curas físicas e emocionais e o
desenvolvimento espiritual, sem qualquer tipo de ganho material, político e comercial.
A Umbanda exterioriza suas vibrações espirituais através das três formas místicas ordenadas pela
Lei, que são simbolizadas por
Crianças (Falanges de Yori) - A pureza, que nega o vício, o egoísmo e a ambição. O princípio ou
nascimento do ser.
Caboclos (Falanges de Oxalá, Yemanjá, Xangô, Ogum e Oxóssi) -A simplicidade, que é o oposto
da vaidade, do luxo e da ostentação. A maturidade do ser.
Pretos-Velhos (Falanges de Yorimá) - A humildade, que engloba os princípios do amor, do
sacrifício e da paciência, ou seja, a negação do poder temporal, o desapego das coisas materiais e o
abandono do ilusório para dar começo à realidade. A sabedoria acumulada na trajetória terrena.
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Pai Guiné ensina que existem 3 classes de Umbanda:


“A primeira, que engloba o maior número de agrupamentos ou terreiros, é puramente construída
pelos seres humanos. Nessa mescla rudimentar e confusa de doutrinas e rituais gerados pelo entendimento
de cada dirigente e grupamento sobre a Umbanda, com um mínimo de leitura e muito baseada no que se
viu e ouviu em outros terreiros similares, predomina o sincretismo afro-católico.
A segunda, com menor quantidade de agrupamentos, agrega pessoas que desejam praticar uma
Umbanda pautada naquilo que os ensinamentos evangélicos cristãos revelam de mais necessário. Para isso,
apelam para a corrente dos “Caboclos” e “Pretos-Velhos” afim de ajudá-los nesse mister. Fazem um ritual
mais suave, sem tantos elementos folclóricos, sem palmas e tambores. Aproveitam a força e a beleza de
certos pontos cantados ou hinos, que sabem serem de raiz. Havendo a sinceridade de propósitos, desde que
não extrapolem a faixa religiosa e doutrinária e exercitem certa cautela com os aspectos fenomênicos
(animismo, histrionismo, exibicionismo, efeitos cênicos e outros aspectos extrínsecos), tendem a fazer o bem
e contribuir para a evolução espiritual dos praticantes.
A terceira, com uma quantidade mínima de agrupamentos, é a que melhor se identifica com os
Princípios e as Regras do Aumbhandam, a par com o efetivo compromisso de praticar a caridade segundo
a vontade de Deus e os merecimentos cármicos de todos os envolvidos. Essa classe é a única que está
capacitada a movimentar a terapêutica natural e astral, dentro da magia positiva, sempre para o bem comum
e firmada nos verdadeiros sinais riscados segundo a Lei de Pemba. ” (Matta e Silva, Lições de Umbanda e
Quimbanda na Palavra de um Preto-Velho, páginas 27-28).

Orixás e Entidades na Umbanda Esotérica

Os 7 Orixás

A vibração original identifica a força vibratória e cósmica de um espírito ou entidade espiritual


que é senhor um ou de vários elementos cósmicos e que está acima de todos os demais espíritos, exceto
Zambi (ou Deus). Nesse conceito interno (ou esotérico), as 7 Vibrações Originais, denominadas ORIXÁS,
definem-se melhor como os 7 Espíritos Originais que, estendendo suas faixas vibratórias espirituais sobre os
agrupamentos de espíritos, formam as linhas de Oxalá, Yemanjá, Yori, Xangô, Ogum, Oxóssi, Yorimá,
correspondentes aos 7 chacras principais do ser humano.
Linha de Oxalá - Representa o princípio, o não criado, o reflexo de Deus, o verbo solar. É a luz
refletida que coordena as demais vibrações. As entidades dessa linha falam calma e compassadamente,
expressando-se sempre com elevação. Seus pontos cantados são verdadeiras invocações de grande
misticismo, dificilmente escutadas hoje em dia, pois é raro assumirem uma "chefia de cabeça".
Linha de Yemanjá - Significa a energia geradora, a divina mãe do universo, o eterno feminino, a
divina mãe na Umbanda. As entidades dessa linha gostam de trabalhar com água salgada ou do mar, fixando
vibrações, de maneira serena. Seus pontos cantados têm um ritmo muito bonito, referindo-se sempre ao
mar e a entidades a ele ligadas.
Linha de Xangô – Trabalha sob as ordens do Orixá que coordena toda a lei cármica e dirige a
evolução das almas, o senhor da balança universal, que afere nosso estado espiritual, o Orixá da Justiça. Seus
pontos cantados são sérias invocações de imagens fortes e nos levam sempre aos sítios vibracionais das
montanhas, pedreiras e cachoeiras.
Linha de Ogum – Atua na mediação de choques resultantes do carma. É a linha das demandas da
fé, das aflições, das lutas e batalhas da vida. As entidades de Ogum gostam de andar de um lado para outro
e falam de maneira forte e vibrante, demonstrando em suas atitudes muita vivacidade. Suas preces cantadas
traduzem invocações para as lutas da fé e a superação de demandas.
Linha de Oxóssi - Atende na doutrina e na catequese. Suas entidades falam de maneira serena e
seus passes são calmos, assim como seus conselhos e trabalhos. Seus pontos cantados contêm belas imagens
na música e na letra, e geralmente invocam as forças espirituais e da natureza, principalmente as matas.
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Linha de Yori - Essas entidades, altamente evoluídas, externam através dos médiuns condutas e
vozes infantis de modo sereno, às vezes um pouco vivazes. Gostam de sentar no chão, correr e pular, comer
coisas doces, mas sem praticar desmandos (“bagunças”). Seus pontos cantados são melodias alegres e
somente algumas vezes tristes, falando muito em papai e mamãe do céu e constituem verdadeiros mantras.
Linha de Yorimá - Reflete a doutrina, a filosofia e o mestrado da magia em suas ações e
ensinamentos. Geralmente gostam de trabalhar e consultar sentados em banquinhos ou troncos de árvores
(“tocos”), usando o cachimbo em ações de fixação e eliminação através da fumaça. Falam devagar e
compassadamente, pensando bem no que dizem. Raríssimos são os que assumem a chefia de cabeça do
médium, mas são os auxiliares dos outros Guias, o seu braço direito. Os pontos cantados nos revelam
melodias tristonhas e ritmos compassados, dolentes, melancólicos, verdadeiras preces de humildade.

Figura 1 – Ideogramas Representativos dos 7 Orixás

Oxalá Yemanjá Yori Xangô Ogum Oxóssi Yorimá

Fonte: Pemba, a Grafia Sagrada dos Orixás, páginas 162-163.

Cada um dos Orixás rege um par de meses do ano, exceto julho (Yemanjá) e agosto (Oxalá).

Tabela 1 - Orixás, Signos Astrológicos e outras Correlações Significativas

Oxalá Yemanjá Yori Xangô Ogum Oxóssi Yorimá

Ideogramas

Cor Atuante Amarelo Azul Vermelho Verde Alaran- Azul Roxo


ouro celeste claro manga jado forte violeta
Signos / Leão (+) Câncer (-) Gêmeos (+) Sagitário (+) Áries (+) Touro (-) Capricórnio (-)

Polaridades Virgem (- ) Peixes (-) Escorpião (-) Libra (+) Aquário (+)
Astros Regentes SOL LUA MERCÚRIO JÚPITER MARTE VÊNUS SATURNO

Datas de 22/7-22/8 21/6-21/7 21/5-20/6 22/1-21/12 21/3-20/4 21/4/-20/5 22/12-20/1

Nascimento 23/8-22/9 20/2-20/3 23/10-21/11 23/9-22/10 21/1-19/2


Energia Sutil Eólica Ígnea Ígnea Telúrica Telúrica
Ígnea Hídrica Telúrica Hídrica Hídrica Eólica Eólica
Pontos Cardeais Sul Oeste Leste Sul Sul Norte Norte
Norte Oeste Oeste Leste Leste

Cada um dos dias da semana corresponde a um Orixá (ver Matta e Silva, Umbanda de Todos
Nós,7ª edição, páginas 118-124).
Domingo é regido por Oxalá, que se manifesta nas Casas de Umbanda sob a roupagem de
Caboclos. “ (Estas Entidades) são as mais perfeitas nas manifestações. Não fumam (...) e não gostam de ser
solicitadas sem um motivo imperioso além das 21 horas. (...) falam calmo, compassado e se expressam
sempre com elevação, conservando a cabeça do aparelho ora baixa ora semilevantada. (...) baixam raras
vezes e só o fazem a miúdo quando (o médium se encontra) em excelente estado moral e mental. ”
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Segunda-feira é regida por Yemanjá. Este Orixá manifesta-se nas Casas de Umbanda sob a
roupagem de Caboclos e Caboclas. Estas entidades "(...) fazem sentir seus fluidos de ligação pela cabeça,
braços e joelhos. Balançam o corpo do aparelho suavemente, levantando os braços em sentido horizontal,
flexionando e tremulando as mãos, arfando um pouco o tórax (...) pela elevação respiratória e balançando a
cabeça, tomam o controle do médium. “
Terça-feira é regida por Ogum. As entidades que trabalham nesta linha (...) têm a forma de
Caboclos. (...) vibram também com força sobre o corpo astral fixando seus fluidos pelas costas e cabeça,
precipitam a respiração e tomam o controle do físico, quando o alteram para um porte desempenado.
Geralmente dão uma espécie de "brado" que (...) se entende como as duas sílabas da palavra OGUM. Esses
Espíritos gostam de andar de um lado para outro e falam de maneira forte, vibrante e em todas suas atitudes
demonstram vivacidade."
Quarta-feira é regida por Yori, que assume a forma de Crianças nos trabalhos de Umbanda.
"Essas Entidades, altamente evoluídas, externam pela máquina física maneiras e vozes infantis, mas de modo
sereno, às vezes apenas um pouco vivazes... (mas sem) gritos e representações fúteis. Atiram seus fluidos
sacudindo ligeiramente os braços e as pernas... (enquanto pulam e giram), tomando rapidamente o aparelho
pelo mental. (...) dão consultas profundas e são as únicas entidades que adiantam algumas das provações
que ainda temos que passar." Segundo inúmeros relatos e revelações de entidades confiáveis, as Crianças
costumam ser antigos sábios e magos que usam o disfarce infantil para confundir os agentes do baixo astral
e proteger os médiuns e consulentes.
Quinta-feira é regida por Xangô, que se manifesta nas Casas de Umbanda sob a forma de
Caboclos e Caboclas, (que) "se entrosam no corpo astral de maneira semibrusca, refletindo-se em arrancos
no físico; suas vibrações atingem logo o consciente do aparelho, forçando-o do tórax à cabeça em
movimentos de meia rotação e pela insuflação das veias do pescoço, com aceleração pronunciada do ritmo
cardíaco, na respiração ofegante, até normalizarem seu domínio no físico. Emitem (...) uma espécie de som
silvado, da garganta para os lábios, que parece externar o ruído de uma cachoeira ou um surdo trovejar (e
que soa como Kaô). Não gostam de falar muito. ” Por serem mais de ações do que de palavras, os Caboclos
de Xangô podem parecer autoritários e ríspidos, mas são justos e cordatos nos atendimentos, especialmente
quando interagem com crianças e idosos.
Sexta-feira é regida por Oxóssi, que assume a forma de Caboclos nos trabalhos de Umbanda.
Essas entidades (...) “são suaves em suas apresentações ou incorporações. Jogam seus fluidos pelas pernas,
com tremores e ligeiras flexões (...) sem simularem (deficiências físicas, (...) fluem suavemente pela cabeça
até a posse total ou parcial. Falam de maneira serena e seus passes são calmos, assim como seus conselhos
e trabalhos."
Sábado é regido por Yorimá, que se apresenta nas Casas de Umbanda sob a forma aparente de
Pretos-Velhos. “Essas Entidades são verdadeiros magos, senhores da experiência e do conhecimento em
toda espécie de magia. (...) geralmente gostam de trabalhar e consultar sentados, fumando cachimbo,
sempre numa ação de fixação e eliminação, através de sua fumaça. Os Pretos-Velhos, enquanto entidades
espirituais, não têm defeitos físicos. Não foram, necessariamente, escravos trazidos da África, mas sim
ancestrais humanos que adquiriram a Sabedoria e aceitaram a missão de transmiti-la com amor e doçura. A
linha de Yorimá representa a humildade perante o Criador e sinaliza a atitude de servir a Deus através dos
trabalhos de caridade, dentro e fora da Casa de Umbanda.
Entidades Incorporantes

Entidade é o nome dado aos espíritos que estão em determinada faixa de vibração astral e atuam
dentro da Umbanda. Conforme seu grau de evolução espiritual, esses espíritos são levados a fazer parte de
uma falange (agrupamento de espíritos), a fim de atuarem, aprenderem e evoluírem espiritualmente. Lá eles
permanecem até a possível volta para uma reencarnação ou a evolução para um plano espiritual superior.
São essas as entidades que incorporam nos rituais de Umbanda, uma vez que os Orixás não
incorporam. A função das entidades pertencentes às falanges é justamente vir à Terra e executar os
trabalhos ordenados pelos Orixás, como os portadores da força divina que corresponde aos Orixás.
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Quando um médium trabalha com uma determinada entidade, ele não trabalha com um único
espírito. O que ocorre é que todos os espíritos que constituem determinada falange atuam numa única faixa
vibratória com a qual penetram na faixa vibratória do médium. Em outras palavras, os espíritos não
trabalham isoladamente, mas "em falange", todos numa única vibração. Isso explica porque podemos
encontrar entidades de mesmo nome atuando em locais diferentes à mesma hora, ou no mesmo local.
As entidades trabalham em multiplicidade, cada uma conservando o nome e as características
do chefe da falange que compõem. Embora não seja muito comum, é possível acontecer que um mesmo
espírito, embora seja uma só vibração, venha em diversas falanges, com diferentes nomes, conforme sua
missão espiritual. Um espírito de certo grau de evolução pode se desdobrar na vibração, ou seja, aumentá-
la ou diminuí-la, obviamente que dentro de um certo limite preestabelecido. Desta forma, essa entidade
pode se apresentar ora em uma faixa, ora em outra. Por exemplo: se ela atua normalmente na linha do
Oriente, pode, num desdobramento de vibração, apresentar-se na forma de um Caboclo, embora conserve
também suas características essenciais.

Entidades Reconhecidas na Umbanda Esotérica

Os agrupamentos de seres, encarnados e desencarnados, que se movimentam sob o beneplácito,


a proteção ou a ordenação dos Orixás apresentam-se nas Casas de Umbanda Esotérica sob a forma de
Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças e Exus, dentro de suas respectivas faixas de força espiritual.
Caboclos e Caboclas. Na concepção mais difundida, sistematizada por Matta e Silva nos anos 50,
os Caboclos e Caboclas se organizam em falanges subordinadas a cinco dos orixás: Oxalá, Ogum, Xangô,
Yemanjá e Oxóssi. Seus nomes ligam-se aos seus domínios e supostas origens étnicas, às vezes associados
ao nome do Orixá ao qual supostamente estão subordinados e do qual, muitas vezes, são uma simples
transposição para o imaginário da Umbanda. Alguns deles têm nomes de personagens indígenas da história,
do folclore e da literatura.
Pretos-Velhos e Pretas-Velhas. São espíritos que representam velhos africanos trazidos para o
Brasil como escravos e que trabalham na Umbanda como símbolos da fé e da humildade. Ajudam aqueles
que estão em dificuldade material ou emocional. Os seus trabalhos se desenvolvem mais para o lado
emocional e físico das pessoas que os procuram, sendo chamados carinhosamente de psicólogos dos aflitos.
Devido à paciência com que escutam os problemas e aflições dos consulentes, costumam ser as entidades
mais procuradas nas Casas de Umbanda. Também usam ervas em seus trabalhos de magia. Da mesma forma
que os Caboclos usam charutos ou defumadores, os Pretos Velhos usam cachimbos ou incensos para a
limpeza espiritual, jogando sua fumaça sobre a pessoa que está recebendo o passe e limpando a sua aura
de larvas astrais e energias negativas.
Crianças. Estas entidades são a verdadeira expressão da alegria e da honestidade. Dessa forma,
apesar da aparência frágil, são verdadeiros magos e conseguem atingir o seu objetivo com uma força imensa.
Contrariamente à crença popular e às práticas folclóricas de muitos terreiros, as Crianças não são
necessariamente arruaceiras, irresponsáveis, gulosas, mal-educadas. Dependendo da orientação que lhes é
dada pelos dirigentes da Casa e do nível de desenvolvimento mediúnico dos aparelhos, as Crianças podem,
ainda que de modo lúdico e espirituoso, realizar impressionantes trabalhos magísticos, manipulando
recursos aparentemente infantis, mas que contêm açúcares, sais minerais e outros elementos energéticos
que podem promover a cura física e emocional, se usados corretamente.
Exus. Fazem a ligação e intermediação entre a Umbanda e a Quimbanda, atuando em nome e
debaixo das ordens dos Caboclos e Pretos-Velhos nos embates com os campos energéticos mais densos (o
“baixo astral”). Nos níveis evolutivos mais elevados, são os guardiões das Casas e dos médiuns e protetores
dos filhos de fé. (Pomba-Gira é a manifestação feminina de Exu).

Linhas Auxiliares
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Algumas linhas auxiliares, não propriamente da Umbanda Esotérica, são ocasionalmente


requisitadas a prestar serviços devido à natureza especial de suas ordens e direitos de trabalho, a saber:
Ciganos e Ciganas - dizem o futuro, mas não costumam curar. São cultuados com taças com vinho
ou com água, doces finos e frutas, incensos e cristais. Depois de doutrinados pelos Exus de Lei, passam a
atuar nas falanges dos guardiões da justiça divina.
Baianos e Baianas – Possuem a aparência de Caboclos e Pretos-Velhos, mas se comportam como
Exus e Pombas-Gira. Representam a força do fragilizado, do que sofreu e aprendeu na "escola da vida" como
ajudar os necessitados. Enfrentam os invasores (quiumbas, obsessores), buscam sempre o encaminhamento
e a doutrinação, mas quando o intruso não aceita e insiste em perturbar algum médium ou consulente, então
se encarregam de "amarrá-lo" para que não mais perturbe ou até o dia que tenha se redimido e queira
realmente ser ajudado.
Malandros - Inspirados no tipo tradicional do malandro carioca, possivelmente as entidades mais
ambivalentes da Umbanda, visto aparecerem também como Exus. O mais conhecido é Zé Pelintra, ao qual
se associam Zé Navalha, Sete-Facadas, Zé-da-Madrugada, Sete-Navalhadas, Zé da Lapa e Nego da Lapa, entre
outros.
Boiadeiros - Entidades afins aos Caboclos. Quando encarnados na Terra, foram valentes do sertão
e estão ligados com a imagem do peão boiadeiro: habilidosos, valentes e de muita força física. Representam
a liberdade e determinação do homem do campo, em contraste com a humildade dos Pretos-Velhos.
Marinheiros - Os espíritos da marujada são considerados parte da linha de Yemanjá (povo
d'água). Supõe-se que sejam espíritos de pessoas que viviam e trabalhavam no mar. Sua mensagem é que
se pode lutar e desbravar o desconhecido, do nosso interior ou do mundo que nos rodeia, com fé, confiança
e trabalho em grupo. Mostram-se sinceros, sentimentais e amigáveis, dispostos a ajudar em problemas
amorosos ou na procura de alguém, de um "porto seguro".
Os trabalhos de Umbanda ocorrem mediante a fusão das energias dos médiuns, assistentes e
assistidos com as energias das entidades que se fazem presentes nos cultos como portadores da luz divina,
irradiando e energizando as pessoas, os objetos e os materiais utilizados.

Ordenamentos Disciplinares na Umbanda Esotérica

A Umbanda Esotérica apresenta-se como a proposta mais coerente e consistente com os ideais
do Aumbhandam. Seus postulados-chave, para fins de implantação de uma Casa de Umbanda seguindo essa
orientação, são os seguintes:
Restrição do uso de fumo e bebidas alcoólicas. O uso do tabaco é uma defumação direcionada,
que traz além do vegetal os quatro elementos básicos (terra, água, ar e fogo) para trabalhos de magia prática.
O sopro por si só traz efeitos terapêuticos e espirituais muito valiosos e eficazes nos trabalhos de cura e
limpeza. Somado ao poder das ervas, é potencializado muitas vezes, com resultados largamente vistos
durante os trabalhos de Umbanda. Já o álcool pertence ao elemento água, provindo de um vegetal (a cana)
que se sustenta na terra, sendo altamente volátil no ar e considerado o "fogo líquido", de fácil combustão.
Tanto o fumo quanto o álcool são utilizados para desagregar energia negativa, queimar larvas e
miasmas astrais, e no caso do álcool, para desinfetar e limpar no externo e no interno, já que pode, em
certos casos, ser ingerido. O fumo e o álcool são considerados "elementos de poder", usados há milênios
por muitos povos e considerados sagrados, com larga utilização em trabalhos de cura. Tudo que é sagrado
traz consigo o divino e as virtudes para nossas vidas. Sempre que profanamos algo sagrado atraímos a dor e
o vício. Assim o tabaco e o álcool, que curam em seu aspecto sagrado, também viciam e trazem a dor quando
utilizados de forma profana.
Compromisso efetivo do corpo mediúnico com a própria conduta e a prática de vida coerente
com a proposta doutrinária. O velho adágio “vigiai e orai” jamais perdeu sua força e seu significado. Nos dias
atuais, pode ser expresso como um conjunto de hábitos, posturas e práticas, que na Umbanda recebem o
nome de preceitos, coerentes com a sustentabilidade da saúde física, mental e espiritual, O alcoolismo, o
tabagismo, o uso de drogas, os maus hábitos alimentares, os excessos sensuais e sexuais e muitos outros
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usos inadequados do corpo, da mente e da espiritualidade são desaconselhados aos médiuns e dirigentes
porque interferem negativamente no desempenho mediúnico. Por outro lado, a literatura umbandista
oferece muitas informações sobre boas práticas que favorecem o desempenho mediúnico, tais como
alimentação natural ou vegetariana, caminhadas nas matas, banhos de mar, rio e cachoeira, dormir bem,
evitar conflitos e muitos outros hábitos saudáveis que aumentam a carga energética de qualquer pessoa e
prolongam a vida.
Ritualística voltada para a harmonização intencional e direcionada dos médiuns e consulentes.
Os trabalhos devem ser organizados de maneira a favorecer a concentração de forças e focalização das
energias sobre cada um dos médiuns, a corrente mediúnica e as pessoas que vêm buscar ajuda, consolo e
crescimento espiritual. A sequência dos pontos cantados, as vestimentas, os objetos e os materiais usados,
as posturas físicas e os gestos praticados, a ordem em que os trabalhos são realizados, bem como outros
elementos do culto, devem obedecer a uma lógica coerente com a proposta do Aumbhandam.
Consequentemente, tudo aquilo que é apenas habitual, produto da imaginação dos dirigentes, cacoete do
médium, coreografia artística e jogo de cena deve ser eliminado dos cultos e substituído por ritos mais
apropriados. Não se batem palmas, não se tocam instrumentos musicais, nem se dança durante as Giras.

Umbanda Esotérica na Tradição de Matta e Silva – Parte 2:


Preparação, Abertura, Desenvolvimento e Fechamento da Gira

Preparação para a Gira

A Casa ficou fechada desde o encerramento do último trabalho. As energias movimentadas estão
em repouso, guardadas pelas velas votivas do altar e da tronqueira. As pessoas que vieram à Gira passada
retornaram aos seus lares, o Congá foi limpo, os resíduos dos trabalhos despachados conforme os preceitos.
A Casa precisa ser preparada para um novo ciclo energético.
A Gira a iniciar-se requer certos procedimentos para a realização eficiente e eficaz da magia
transformadora em nome da Luz e do Amor, que são os fundamentos primeiros do Aumbhandam. A
eficiência dos trabalhos depende diretamente da maneira como as energias físicas, mentais, emocionais e
espirituais são mobilizadas. A eficácia dos trabalhos é dada pelo grau de atingimento dos múltiplos objetivos
da Gira.
Os procedimentos incluem, além da limpeza física, a defumação do Congá e dos participantes
(médiuns e assistentes), a formação da egrégora (cúpula energética), a ativação e firmeza da corrente
mediúnica e a chegada das entidades (incorporação) que atuarão na realização dos trabalhos.

 A Defumação no Ritual de Umbanda Esotérica

Muito antes de uma gira começar, muitas energias já estão sendo trabalhadas e manipuladas
para que o trabalho transcorra dentro do mais perfeito roteiro traçado pela espiritualidade. Energias das
falanges e linhas de trabalho que estarão atuando, energias dos espíritos sofredores que serão auxiliados,
energias dos guardiões que farão a proteção, enfim, toda a dimensão espiritual é equilibrada e ordenada
para a gira de Umbanda.
A egrégora da Casa – conjunto de energias distintas que formam uma energia única – é
revitalizada, reenergizada, fortalecida, equilibrada e preparada no Astral para os trabalhos do dia.
Entretanto, no nosso plano energético, os encarnados que serão direcionados para a Casa de fé
deverão também ser preparados para o trabalho, sejam eles médiuns, assistentes ou assistidos. Banhos de
ervas orientados para a purificação e energização, manter o pensamento positivado, evitar aborrecimentos,
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evitar atividades sexuais, ter uma alimentação mais leve, ou seja, uma série de recomendações para que as
energias dos corpos carnais possam estar mais sutilizadas e harmonizadas para melhor ligação e conexão
com a espiritualidade.
Pois bem, tudo foi feito e, aparentemente, tudo está perfeito, mas algo mais necessita ser
realizado. Precisa-se ligar, conectar e congregar as energias dos dois planos envolvidos no ritual de
Umbanda, ou seja, o plano material (energia densa) e o plano espiritual (energia mais sutil). E neste aspecto
alguns rituais são extremamente eficazes, sendo um deles a defumação.
O processo de defumar utiliza ervas, folhas, cascas, raízes e outros elementos extraídos da
natureza, que carregam energias telúricas (da terra) e aquáticas (da água) em suas constituições estruturais.
Quando o rito de defumar é realizado, outras energias naturais também são manipuladas, como o fogo
(energia ígnea) e o ar (energia eólica). Perceba-se que os 4 elementos de constituição planetária (fogo, ar,
água e terra) estão presentes no processo de defumar.
Destaque-se que durante este ato a pessoa que ali está deverá permanecer em oração,
realizando seus pedidos de limpeza e harmonia, pedindo a intervenção de seus protetores e rogando ao Alto
usufruir do justo benefício da defumação. Este momento pode ser considerado como parte da “programação
mental” dos participantes, ou seja, é um momento no qual os efeitos do ritual de defumar serão
potencializados com o pensar puro e verdadeiro de todos os participantes.
Para o rito da defumação recomenda-se utilizar um turíbulo (incensário) de barro, porque o barro
é um filtro natural. Assim, quando se realiza a defumação, as “cargas negativas” do ambiente serão atraídas
para o turíbulo e ali serão filtradas, em seguida serão desagregadas na brasa (fogo) e fixadas no carvão
(madeira, elemento terra). Jamais se deve utilizar incensório de metal porque o metal corta o efeito das
ervas na defumação pela radiação natural que ele possui. Assim, não produzirá o efeito de expansão da
energia vital, que é o que faz as ervas terem efeito sobre o organismo e trazerem revitalização e saúde.
É importante ressaltar que, no ato da defumação, as pessoas envolvidas devem manter os
pensamentos mais puros e positivos possíveis, firmando pontos cantados, em ambiente tranquilo e com
seriedade, participando e vibrando positivamente.
O preparo das ervas requer que saibamos bem qual o nosso objetivo ao realizar o rito de
defumação. Há diferentes tipos de defumações: descarga, revitalização, harmonização, dispersão de
energias negativas e corte de demandas e situações pesadas. Se objetivarmos um rito de descarrego, a
higienização astral do ambiente, a harmonização dos participantes, ou ainda, a elevação das vibrações
mentais e astrais, em cada caso a escolha e combinação das ervas afins e suas devidas proporções serão
decisivas para se atingir o objetivo esperado.
Incensos de palito são benvindos desde que tenham boa procedência e tradição estabelecida. É
preciso lembrar que, dependendo da qualidade do incenso, a fumaça que vai se desprender afetará o
ambiente de sua Casa e poderá causar mais danos do que benefícios.
Segundo Matta e Silva, “ Na defumação que precede uma sessão, podem ser usadas as ervas
secas de qualquer linha ou vibração, inclusive grãos de benjoim, incenso e mirra, muito apropriados a uma
precipitação de fluidos que predispõem à elevação espiritual. Caso se queira proceder a uma defumação
forte sobre uma pessoa ou no ambiente, pode-se usar uma mistura contendo palha de alho, guiné e arruda
seca ou fumo de rolo, alecrim, erva-cidreira, ou ainda, folhas de pinhão roxo, abre-caminho e guiné. No
término das sessões onde se tenha procedido a certas descargas, mormente de fogo, aconselhamos estes
defumadores para eliminação das larvas-resíduos” (Umbanda de Todos Nós, 7ª edição, páginas 169-176).

 Requisitos básicos para a formação da Egrégora

A criação e sustentação de uma egrégora favorável à realização de uma gira eficiente e eficaz
demanda um conjunto mínimo de atitudes e comportamentos, a saber:
 O horário de início dos trabalhos é mais do que importante, é sagrado.
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 Deve haver homogeneidade no vestuário: todos de uniforme padronizado em tecido


branco, igual para homens e mulheres, exceto os sacerdotes de ambos os sexos (jaleco
azul).
 Os pés devem estar descalços, ou, se necessário, com meias ou sapatilhas de pano, nunca
com sapatos ou materiais isolantes.
 Os médiuns devem deixar todo o tipo de problema do lado de fora da Casa de Umbanda,
reservando todas as suas energias para a realização dos trabalhos.
 Todos os médiuns devem tomar banhos de descarrego e energização antes de se dirigirem
à Casa de Umbanda.
 Todos os médiuns devem estar uniformizados, portando suas guias e toalhas de proteção
ao entrarem em fila para a defumação.
 Antes de entrar na área de trabalhos todas as pessoas a serem atendidas deverão ser
defumadas.
 A defumação dos visitantes e médiuns é muito importante, embora muitas Casas de
Umbanda não possam fazê-la por falta de recursos. Os defumadores, preparados segundo
os preceitos e usados nos trabalhos, ajudam os assistentes e os próprios médiuns a
descarregar as energias negativas e equilibrar o campo energético, facilitando a
assimilação do magnetismo positivo.
 O silêncio deve ser mantido, exceto quando se cantarem os pontos ritualísticos de
abertura, firmeza e chamada de entidades, destinados à mobilização das energias
necessárias à realização dos trabalhos.
A descrição que se segue reproduz o rito praticado no Centro de Integração Cósmica-Itacuruçá
(Brasília, DF) até 1992. Foram deixados de fora certos pormenores e detalhamentos, em benefício da
economicidade e, em certos casos, para preservar o cunho informativo deste pequeno trabalho. Todos os
que desejarem aprofundar-se nas bases doutrinárias e nos ordenamentos ritualísticos da Umbanda Esotérica
poderão fazê-lo mediante a leitura e o estudo das obras listadas na bibliografia.

Figura 1 - Altar do CIC-Itacuruçá, em Brasília, DF, 1990.

 Construção da Egrégora e Chegada das Entidades

Ao chegarem ao CIC-Itacuruçá, os médiuns cumprimentam a tronqueira (“Casa de Exu”), pedindo


proteção firmeza, batendo palmas 4 vezes seguidas e cruzando as mãos entrelaçadas com as palmas para
baixo enquanto entram em sintonia com os respectivos Exus-Guardiões.
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Após cumprimentarem a tronqueira os médiuns dirigem-se ao quarto dos Otás, alimentam seus
pontos de força com um pouco de água (disponível no local e, de preferência, própria para o consumo
humano) e acendem uma vela votiva de 7 dias, colocando-a ao lado do seu Otá.
Este pequeno ritual destina-se a fortalecer a ligação do médium com a Corrente Astral de
Aumbhandam e a corrente mediúnica, de modo que a somatória dos Otás possa irradiar energias positivas
que beneficiarão a todos que estejam participando dos trabalhos, sempre de acordo com os respectivos
merecimentos cármicos individuais e coletivos.
O médium dirigente faz soar uma campainha, ou um outro sinal equivalente, chamando os
médiuns ao recinto dos trabalhos, alguns minutos antes do início da Gira, para que comecem a se concentrar.
Quando os médiuns chegam às entradas do Congá, cruzam as mãos sobre o peito e em seguida
as abrem em direção ao altar em atitude de súplica.
A defumação dos visitantes e médiuns é muito importante, embora muitas Casas de Umbanda
não possam fazê-la por falta de recursos. Os defumadores, preparados segundo os preceitos e usados nos
trabalhos, ajudam os assistentes e os próprios médiuns a descarregar as energias negativas e equilibrar o
campo energético, facilitando a assimilação do magnetismo positivo.
Após receberem a defumação os médiuns dirigem-se aos pés do altar, ajoelham-se e põem as
mãos sobre a pedra de cachoeira ao centro (ver foto na página seguinte).
Quando o(a) dirigente bate palmas três vezes seguidas, os médiuns fecham um único círculo de
mãos dadas, em corrente vibrada, tomando cuidado para que uma mulher mantenha sua mão sobre o altar
no lado correspondente à energia feminina e um homem feche o círculo energético no lado masculino.
O(a) dirigente faz sozinho as invocações iniciais em nome da corrente e, em seguida, todos os
médiuns cantam em conjunto os pontos de abertura dos trabalhos. Logo após, todos entoam os pontos dos
Orixás na sequencia correspondente aos sete chacras principais, observando as posições litúrgicas.
Concluídos estes pontos, todos se voltam para o Sul e saúdam os Exus-Guardiões, mantendo a postura
requerida.
Restabelecida a corrente na sua formação inicial, o(a) dirigente dá início à chamada das
entidades. Neste momento todos os médiuns retiram suas toalhas de proteção e as guardam em um dos
bolsos do uniforme, permanecendo relaxados enquanto o(a) dirigente toca cada um(a) na fronte com a mão
direita e na nuca com a mão esquerda simultaneamente, alternando os gêneros. À medida em que forem
recebendo as entidades que vierem trabalhar, os médiuns permanecem em seus lugares, em meditação, até
que se concluam os toques.
Somente então o(a) dirigente se posiciona em frente ao altar e todos levantam as mãos em
posição de bênção sobre ele, cantando o ponto da entidade-chefe da Casa, que presidirá os trabalhos do dia
conforme o calendário das Giras. Ao chegar em terra, a entidade-chefe cumprimenta as demais entidades
presentes e passa o comando operacional da Gira a um dos médiuns que foram preparados doutrinária e
ritualisticamente para essa função. Cabe ao médium gestor posicionar as entidades nos pontos designados
para os passes magnéticos que serão dados à assistência.

Desenvolvimento e Fechamento da Gira

Todos os assistentes recebem um passe magnético de uma das entidades presentes,


cumprimentam o altar e retornam aos seus assentos. Um médium é designado como cambone (auxiliar) a
cada uma das entidades enquanto durarem os passes. Cabe aos cambones anotar as orientações dadas pelas
entidades à medida em que são dados os passes.
Terminados os passes, os cambones repassam ao médium gestor do dia as suas anotações e
recebem suas tarefas a cumprir. Uma vez organizada a dinâmica dos atendimentos, tem início a chamada
dos assistentes que farão consultas às entidades, de acordo com as senhas distribuídas.
Inicia-se, então, o atendimento individual aos portadores de fichas, que são chamados pela
ordem numérica e encaminhados pelos médiuns atendentes às entidades disponíveis, exceto quando se
tratar de atendimento previamente agendado por ordem de uma entidade específica (fichas especiais).
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Os médiuns que não estiverem cambonando devem sustentar o canto dos pontos durante os
atendimentos, procurando manter-se concentrados e atentos, ajudando o médium gestor a conduzir bem o
desenrolar da Gira. É desejável que os médiuns se revezem, ora cambonando, ora sustentando os pontos,
para evitar a fadiga e o tédio.
Recomenda-se que todos os médiuns permaneçam dentro do Congá até a conclusão da Gira,
somente se afastando dele por motivo imperioso ou para executar algum comando de entidade ou dirigente.
Um recipiente com água potável (filtro de barro é o mais recomendado) é mantido e abastecido
continuamente ao lado do altar para uso conforme a necessidade.
Na foto abaixo pode-se ver um dos médiuns recebendo orientações de uma das entidades
durante a Gira antes de começar a cambonar para ela.

Figura 1- Médium do CIC-Itacuruçá cambonando para uma entidade.


O que efetivamente ocorre durante uma Gira varia de acordo com a dinâmica própria de cada
sessão mediúnica, não cabendo tratar disso neste modesto trabalho.
Encerrados os atendimentos, os médiuns voltam aos seus lugares em círculo como no início.
Canta-se o ponto de despedida das entidades ainda presentes. O(a) dirigente fecha os trabalhos,
agradecendo aos mentores e aos patronos da Casa. Os médiuns sustentam o ponto de encerramento
enquanto se dirigem ao altar, cumprimentam-no (“batem cabeça”) e retornam aos seus lugares até a
conclusão dos trabalhos. Somente então desfaz-se a corrente, podendo todos retirar-se do Congá e retomar
suas vidas normais.
(Caso esteja programada a realização de uma gira de Exu (“virada”), os médiuns poderão fazer
um pequeno intervalo para ir ao banheiro e beber água, enquanto todos os assistentes que não foram
convidados a participar deixam o recinto.)