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A descrição de uma família

Somos um amontoado de pessoas vivendo na mesma casa pela impossibilidade de mandar


tudo às favas. Somos sustentados pela parte da família que se deu bem, e vivemos no mesmo
minuto terrível todos os minutos da nossa vida. Há muito mal estar envolvido nessa família,
pois só sabemos julgar, apontar e falar mal dos outros, muitas vezes de nossos próprios
familiares. Ficamos como que satisfeitos com as más escolhas e com as consequências dessas
más escolhas na vida de nossos semelhantes. Dizemos eu avisei com um sorriso de canto de
boca, aproveitando o prazer que o erro dos outros nos traz. Não se pensa em nada, não se ama
nada, não se faz nada. Nada está bom, e se alguém faz algo que não aprovamos, temos gana de
matá-lo. Inclusive o dizemos, é bom que morra, não presta pra nada, só faz o que é errado, não
quero ter parte com uma pessoa dessas. Não há respeito, nem cumplicidade de afetos, o que
vale é ganhar no grito, ou nos julgamentos. Quem julga mais se considera um degrau superior
aos outros. Não há palavras de carinho, pedidos de ajuda, só murmúrios, e reclamações. Um
constante estado de nervosismo e falta de paz. Não se procura algo de significativo pra fazer,
nem pra pensar, nem pelo menos pra querer. O único objetivo de querer consiste em diminuir
o outro e em estar sempre descontente com os comportamentos alheios.

Não esperava mais que lhe dissessem palavras agradáveis. A ela, que passou a vida inteira
ouvindo que não era bem exatamente a pessoa que seria feliz, porque tinha escolhido uma
vida de erro. Mas esperava que ao menos se tratassem bem, enquanto iguais, porque eram
iguais nos pensamentos e no que acreditavam. Mas nem isso os faziam mais empáticos uns
com os outros. A maldição que cobria aquela família não era externa, mas germinada nas
relações internas, envenenando as almas e o convívio. O passar dos anos, a igreja, o pastor, as
orações, os problemas, as injustiças, as emoções, deus, nada foi capaz de ensinar que essas
pessoas estão olhando os problemas de maneira errada, leviana, intolerante, e sem amor. Nada
conseguiu demonstrar que a maldição, como minha tia chama, se perpetua por praga rogada
todos os dias não por ninguém desconhecido, mas pelos próprios familiares. Daí não importa o
que aconteça, qualquer tentativa de escapar por vias normais vai ser frustrada. Não é contra os
de fora que tenho que guerrear, é com os de dentro. Os corações carregados de culpa
inconsciente, que se manifestam durante os sonhos.