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Paixões só devem durar um fim de semana.

Passando disso, elas deixam de


ser o que são para virar uma perseguição sem culpas ou culpados.

No ônibus enquanto se dirigia à cidade vizinha, ela colocava pra fora sorrisos
esquizofrênicos, tamanha sua ansiedade, vontade e apreensão em encontrá-lo.
Estava aflita, os pensamentos tentavam ser leves como as paisagens que iam
se revelando na janela do ônibus, mas muitos questionamentos e situações lhe
vinham à cabeça, desde o encontro, até aos assuntos que seriam
compartilhados, detalhes sensoriais, de gosto, de rosto, de cheiro, o
pensamento vago de ‘será que é desta vez?’, a lágrima caindo pelo canto,
querendo germinar expectativa. Atiçada no segundo seguinte, preferiu regar
sua empolgação, o sorriso ficando cada vez maior e mais livre, desobediente.
Quando o ônibus chegou ao seu destino, paralisou. Um pigarro bloqueou sua
garganta e teve medo de não conseguir mais falar. Tocou desajeitadamente a
garganta, tateando o buraco por onde sua voz por acaso tenha fugido. Suas
pernas ficaram bambas, quiseram vacilar, fazer um recuo estratégico em nome
de não sei que covardia. Não cedeu. Desceu com passo firme de quem é
aguardada e se encaminhou, o olhar inquieto, auscultando os lugares em
procura do rosto dele. Falou meio sem jeito e foram tomar aquele café do
primeiro encontro, no site de relacionamentos. Sim, conheceram-se por lá, e
numa brincadeira boba, decidiriam encontrar-se no meio do caminho da
estrada que o separava, ou seja, João Pessoa. Conheceram- se muito rápido,
ela caçou o seu perfil, que de cara gostou. Ele viu que ela o estava
observando, de resto, dois impulsivos e irreverentes jovens buscando a
aventura do encontro. Estavam agora na rodoviária, o olhar indiscreto dele
percorrendo os poros dela, que fugia do assédio, escondendo-se atrás de um
sorriso inquieto. Lá mesmo ele desferiu o primeiro toque nos seus lábios.

Saíram em direção ao Bessa, bairro de João Pessoa, procurando pousada e


mar. Pararam na preferida de Aninha daquelas paragens, aquela pousada azul
de céu, à beira-mar, com redes, e uma diversidade de cadeiras pra sonhar. Lá
ele desferiu outros beijos, e um abraço tirou as armas, as defesas, a distração
e os receios de Aninha. A partir de então, areia da praia, cervejas e muita
conversa. Defenderam juntos e bêbados os sites de relacionamento, bradando
enquanto brindavam muito que eles são um meio legítimo de conhecer
pessoas, quando não saímos de casa. Embriagados, foram se apaixonando de
ficar juntos, dividindo a mesma brisa, as estórias e gargalhadas, tudo isso
produz intimidade. Uma voz de além-mar soprou no ouvido de Rodrigo que ali
estava tudo que ele queria. Aninha por sua vez, descobria-se cada vez mais e
isso lhe era tão bom. Ah essas paixões de dar-se todo, rasgar-se, trovejar,
anoitecer, desfolhar. Tesão que alimenta a vida, pulsante vida, pulsante vida.
Que delícia é estar sem conhecer e amar desinteressadamente, sem querer
saber por que não estava disponível naquele momento, ou por que não secou
o banheiro, ou por que todas aquelas suas piadas imbecis são pra irritar.
Aninha achava as piadas de Rodrigo idiotamente lindas, rindo de todas. Era
para ela um gesto mais que de simpatia. Era o passe que ele tinha para o
mundo dela, o salvo conduto que permitiria que a aproximação fosse garantida.
Depois mais cerveja, banho de chuva, histórias de vida, e o Bar dos Artistas,
com Jojó encabeçando as discussões sobre a consciência.

Desnecessário descrever a alegria daquela hora, a hora em que a paixão já


estava enfincada e já não poderíam ser sem o outro, delícia de fusão que se
completa na divisão de vidas, essa distribuição de si, a grande partilha do
existir. A partir daí seria impossível ficar indiferente à dança provocada pela
paixão desenfreada, pronta pra rodopiar esses corpos famintos em direção ao
êxtase amoroso. Ele não era mais um desconhecido, era ela, em outro formato,
com aqueles olhos, aquela cicatriz na sobrancelha que ela amou tão rápido. Só
se sabe que estavam nus, mesmo com roupa, e que tudo neles pedia
eternidade. Não teve fim. Não houve, naquelas horas transmutadas em mil
vidas, espaço vazio. Até no silêncio muitas histórias foram contadas, o tempo
se desfez em gotículas de suor, saliva, lágrima, gôzo. Ele a olhava com uma
ternura legítima, nova e limpa, e isso a fazia brilhar mais que estrela. Não sei
dizer, eu sou só um recepcionista de hotel. Ajudei eles a encontrar comida de
madrugada, um delivery qualquer, e me contaram como se conheceram. Mas
eu vi o brilho de Aninha, eu vi o que posso chamar de ardor, que sinalizava
uma descarga de energia singular. Tive um choque esquisito ao apertar a mão
dos dois. E o espaço dos dias, das muitas alegrias sonhadas se ergueu ali.
Criou-se em nós aquele lugar de poesia inconfundível, marginal e escrachada,
carregada de verdade, autenticidade selvagem, coisas que convencionados e
prudentes não entendem. Depois disso não precisei recorrer às aventuras em
séries de tv, porque a vida extrapolou os limites de telas e ficções, e tornou
pouco e tedioso dividir meu tempo entre seres que nunca brilharão fagulhas no
meu olho como no encontro com o outro. A impressão que dava é que nunca
antes na vida eu tinha realmente feito carinho na alma de alguém, nem alguém
na minha. Era isso, teus olhos, teus cílios estiveram a me agarrar e fazer
carinho, e o toque da tua boca materializava isso. Mas o carinho dos teus
olhos...nenhuma palavra pode corporificar.

Nos revezamos entre poucos espaços físicos, nosso espaço preferido era
dentro de um nós que se originou no abrir-se ao outro. Isso ninguém planejou.
Chegou de mansinho, nos minutos em que nossas emoções se espelharam,
encontrando refúgio agradável e seguro das securas cotidianas das cidades.
Amei-te com tudo que sou. Tudo. Que alegria essa liberdade, que alegria
entregar essa liberdade sem reserva e conquistar por mérito próprio a sua
reciprocidade! Que sucesso tão grande era para mim, para nós naquele
momento estabelecer essa conexão, que energia elétrica, internet, localização
geográfica, a própria física quântica, nenhuma dessas coisas do mundo
poderia deixar tão próximo.

Palavras não saberiam dizer as cores, os movimentos, os sentimentos que


energizaram nossa pele. Só se consegue uma proeza sensorial destas quem
tem o corpo bem aberto para vivê-las, quem respeita tanto o presente, a si, ao
outro, e mesmo com certa timidez, isso é uma coisa que não está no nosso
controle, ainda bem!

Tomamos chuva juntos, bebemos e nos deliciamos nessa coisa gostosa que é
a confluência de almas que arrebatam.

Às 2 da madrugada, meu corpo tomado de amor cedeu à fome física. Uma


hora ela chegaria. Assim como a segunda-feira, a distância de Recife à
Campina Grande, e a nossa fatídica separação. Mas não havia vivo restaurante
àquela hora. Tentamos com humor atravessar esse pequeno risco de realidade,
e nos juntamos em uníssono numa das crises de riso mais lindas da minha
vida, tomados de chuva montados na moto, catando pelas ruas do Bessa
dorminhoco algum lugar com comida. Que deleite estar agarrada à sua cintura,
rindo como se não houvesse mais tristeza no mundo, como se minha barriga
não estivesse a me chantagear, a exigir de mim um breve desligamento das
coisas do coração. O resto, o finalmente encontrado lugar para comer, não
necessito contar, afinal, comer é a coisa mais natural do mundo. Esta história é
de paixão.

24h foram suficientes para que uma vida inteira de amor perpassasse os
nossos sentidos, pra que houvesse ali alegria, nostalgia, luxúria, família. Tudo
sem os contratos sociais, ou rótulos, obrigações, a verdade podendo caminhar
tranquilamente, sem escusas, sem precipitações. Para um conto, não parece
uma história muito coerente. Trata-se de cheiros e coisas inomináveis. Mas
essas coisas acontecem. Até para os mais afeitos à gramática nativa.

Pois foi isso que depois doeu. Na falta de expressão, talvez o silêncio tivesse
dito melhor. Acho mesmo que as intenções daquelas horas juntos queriam
dizer tudo isso, que eu era sua, você era meu, e a gente ia se encontrar, depois
da morte. Não da morte física, da morte desse fim de semana. Eu aprendi com
os budistas que a morte não é uma coisa ruim. É passagem, travessia. Como
‘tudo muda o tempo todo no mundo’, só nos resta, do passado, morrê-lo. Para
uma nova vida nascer, com o presente de todos os dias. A vontade de
continuidade que sempre nos ataca quando uma situação muito prazerosa nos
acontece é tão enganadora quanto a mentira. Não se pode segurar o amor com
as mãos. Por isso, os momentos seguintes foram lindos, mas ficaram presos à
intenção de continuidade. Isso me feriu um pouco. Porque é mentira. Mentiras
sinceras não me interessam, como interessavam a Cazuza. Reproduzo abaixo
a conversa que me colocou no paraíso para que a queda no inferno fosse
maior: