Vous êtes sur la page 1sur 18

Literatura Infantojuvenil AULA 7

Daniela Maria Segabinazi

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

O gênero narrativo para


crianças e adolescentes

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Habilitar o aluno para a utilização prazerosa e eficiente


do gênero narrativo na literatura infantojuvenil;
„„ Compreender as principais características da narrativa
infantojuvenil contemporânea a partir da análise de
obras e autores representativos do gênero narrativo;
„„ Conhecer, a partir do estudo de obras narrativas
contemporâneas, os aspectos estéticos e inovadores
do gênero narrativo para crianças e adolescentes.
O gênero narrativo para crianças e adolescentes

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Prezado aluno,

Para dar continuidade aos estudos e discussões desta unidade, vamos retomar
assuntos e conhecimentos bastante explorados em nossas aulas, seja nesta ou em
outras disciplinas. No entanto, queremos aprofundar e ampliar o já conhecido, no
intuito de ampliar o repertório de leituras e possibilitar que você esteja habilitado
a fazer boas escolhas de obras para sua formação leitora e para sua formação
docente. Assim, na aula 4 desta unidade, vimos um panorama histórico, político,
cultural e social que permitiu uma profusão de obras contemporâneas com
excelente qualidade estética para crianças e adolescentes. Foram destacadas
as principais transformações e inovações incorporadas nessas publicações,
formando um quadro de referências de títulos e autores que hoje se destacam
na literatura infantojuvenil. Posteriormente, você pode acompanhar, de forma
particularizada, os caminhos do gênero lírico e do gênero dramático na atualidade.
Agora, será o momento de pormenorizar o gênero narrativo, dando destaque
para obras e autores que se dedicam a escrever e publicar nesse formato, apesar
das hibridizações que são frequentes na literatura contemporânea.

Desse modo, nesta aula, vamos explorar, debater e examinar um pouco mais
sobre o gênero narrativo para crianças e adolescentes. Para nossos estudos
será importante compreender que o gênero narrativo extrapola a composição
clássica dos elementos estruturais da narrativa nos apresentando textos e
discursos que se movimentam por arranjos intertextuais, híbridos e mesclados
com outros gêneros, ou seja, incorporam elementos que dão outra dinâmica
para a leitura do livro, como, por exemplo, a própria disposição gráfica do texto
ou a inversão e fragmentação dos enredos. Portanto, faremos a análise de obras
contemporâneas que apresentam essas características, convocando o leitor para
uma nova percepção do texto literário para crianças e adolescentes, inclusive,
provocando abordagens diferenciadas para cada obra a ser lida.

O estudo irá privilegiar alguns escritores já consagrados na crítica literária e


bastante difundidos pelo mercado editorial, embora nem sempre tão explorados
e conhecidos na sala de aula do ensino fundamental; são eles: Eva Furnari,
Ricardo Azevedo e Ligia Bojunga. Também, neste estudo, serão retratadas as
inusitadas narrativas que oferecem uma natureza singular e original para a
literatura infantil e juvenil, expandindo perspectivas de apreciação estética e
de competências leitoras.

E, para terminar nossa aula, acrescentamos, na sua lista de autores e obras,


alguns nomes e títulos que compõem a literatura estrangeira para crianças e
116
AULA 7

adolescentes, uma vez que temos a ciência de que as fronteiras geográficas,


culturais e linguísticas já foram rompidas nesse universo globalizado e dinâmico
no campo das comunicações e acesso às informações.

Então, para darmos o passo seguinte, retome a aula 4 e tenha na sua memória
todas as transformações e inovações que deram condições para o boom da
literatura infantojuvenil nos anos 70 do século XX, pois, a partir de agora, vamos
precisar dessa aprendizagem para estabelecer conexões e tecer nossos novos
conhecimentos a respeito do gênero narrativo para crianças e adolescentes.

3 TECENDO CONHECIMENTO

A partir do percurso que estamos desenvolvendo nesta disciplina, você já pode


constatar que o gênero narrativo está presente em nossas sociedades desde a
Antiguidade, a partir da literatura oral, que, posteriormente, será registrada em
compilações que chegam até nós como contos, lendas, mitos e outras formas
simples de narrar as histórias da humanidade. Nesse caminho, a narrativa foi se
transformando, adquirindo novos sentidos, valores e formas.

Chegando ao Brasil, o gênero narrativo para crianças e adolescentes vai se


consolidar com a obra de Monteiro Lobato. Vimos que o escritor é uma parte
fundamental para essa literatura, considerado o precursor do gênero no país.
Depois do criador do Sítio do Picapau Amarelo, vieram centenas de títulos que,
aos poucos, foram abrindo as fronteiras para a leitura no universo brasileiro e
que até hoje estão presentes no imaginário de muitos leitores, como também
nos catálogos editoriais, com novas vestimentas para dar sintonia ao “novo”;
entre eles, citamos obras da conhecida Coleção Vaga-lume, a qual, nos anos 70,
recupera uma série de obras escritas, ainda nos anos 40, por autores como Maria
José Dupré, Lucia Machado de Almeida, Maria Lucia Amaral, Francisco Marins,
entre outros, unindo-os aos novos autores dos anos 70 e 80. Seguem alguns
exemplos da coleção:

Figura 1 Figura 2 Figura 3 Figura 4


117
O gênero narrativo para crianças e adolescentes

Apesar do lançamento expressivo de títulos de literatura para crianças e jovens


após os anos 30 do século XX, Lourenço Filho avalia, ainda em 1942, como
publicações de baixa qualidade, “quer pela concepção e estrutura, quer também
pela linguagem” (LAJOLO; ZILBERMAN, 2004, p. 85). Nos anos posteriores,
mantem-se o predomínio de obras de teor semelhante, ou seja, histórias que
repetem temas, personagens, cenários e enredos, como modelos de séries que
ajudam na proliferação e produção quantitativa de livros, sem apelo à renovação
ou mudança na estética literária. Em síntese, o que esses escritores apresentaram
foram filões conhecidos e repetitivos que se esgotaram na profissionalização,
resultando em “menor reconhecimento artístico e à maior marginalização
da literatura infantil, se comparada aos demais gêneros existentes” (LAJOLO;
ZILBERMAN, 2004, p. 87).

O aparecimento de uma nova geração de escritores que apontam para uma


renovação literária só virá a acontecer nos anos 70, pelos motivos e razões que já
foram expostos na aula 4 desta unidade. Desse modo, o boom da literatura infantil
e juvenil no Brasil nos ofertou uma surpreendente e interessante atualização dos
livros e de autores para o público leitor da contemporaneidade; aliás, como bem
discute Teresa Colomer (2003), uma literatura que, em suas inovações, procura
adequar-se às características de seu público atual, as quais “permitem definir o
leitor implícito a quem se dirigem agora as obras” (p. 173), que, resumidamente,
podemos qualificar como:

„„ um leitor próprio das sociedades atuais, que exige temas e discussão de


valores próprios de sua época;

„„ um leitor integrado em uma sociedade alfabetizada, por conseguinte, uma


literatura que utiliza recursos mais próprios de um texto escrito;

„„ um leitor familiarizado com os sistemas audiovisuais, o que demanda narrativas


que incorporam recursos da imagem, por exemplo;

„„ um leitor que se incorpore às correntes literárias atuais, portanto, solícito


de novas formas narrativas, que acompanham a cultura atual da própria
tecnologia, por exemplo; e, por fim,

„„ um leitor cuja idade aumenta, configurando-se na transitoriedade desse


leitor (infantil, juvenil, adulto, etc.).

118
AULA 7

3.1 Os caminhos se abrem: desdobramentos


da nova narrativa

A configuração de novas formas narrativas pode ser vislumbrada, então, a


partir de movimentos históricos, políticos, sociais e culturais, e, em especial, nas
consequências desses movimentos que motivam a redefinição do público leitor,
que acabamos de delinear sob o enfoque de Teresa Colomer (2003). Nesse sentido,
vamos retomar os principais aspectos (discutidos na aula 4) que se acentuam na
nova narrativa e abordá-los a partir da análise do conjunto de obras de alguns
escritores brasileiros, já consagrados no âmbito da literatura para crianças e
adolescentes: Ricardo Azevedo e Ligia Bojunga. Vale lembrar que tais traços são
a linguagem, a temática, o humor, a ilustração, e, mais detidamente, trataremos
da sequência narrativa, já que estamos falando sobre gênero narrativo.

Os autores selecionados abarcam os diversos segmentos temáticos e estilísticos


que a literatura infantojuvenil contemporânea vem apresentando, o que evidencia
a pluralidade nos livros e a variedade de vertentes no conjunto dessa literatura.
Apesar disso, podemos afirmar que é um recorte muito pequeno diante de
milhares de títulos publicados nos últimos 40/50 anos. De antemão, isso nos
alerta para uma visão restrita e privilegiada de alguns nomes, o que não deve se
configurar como os melhores (cânones), afinal estamos tratando de um grupo
bem significativo e distinto de literatura infantojuvenil brasileira.

O primeiro agrupamento de obras decorre do material folclórico, ou seja, do


recolhimento e da revalorização da literatura oral e popular que marcou as
origens dos textos literários infantis. Um dos principais representantes dessa
vertente é o escritor, ilustrador e pesquisador Ricardo Azevedo. O autor tem
mais de cem livros publicados e inúmeras premiações por suas obras; entre elas,
citamos algumas das mais conhecidas: Um homem no sótão; Pobre corintiano
careca; Armazém do folclore; Contos de enganar a morte; Histórias de bobos, bocós,
burraldos e paspalhões; Meu livro de folclore; Trezentos parafusos a menos, etc.

No livro Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões, estão


escritos seis contos populares: “Pega-trouxa-de-papo-furado”;
“O casamento de Mané Bocó”; “Façanhas do Zé Burraldo”;
“Chico Zoeira”; “João Bobão e a princesa chifruda”; “Quanta
besteira o mundo tem!”.

Os contos são resultado de uma pesquisa e seleção que o autor


Figura 5
realiza do material folclórico e popular que ainda circula em
várias regiões do Brasil. Após a escolha, o autor recria as versões,
119
O gênero narrativo para crianças e adolescentes

realçando e preservando a essência das narrativas. Os temas recaem sobre


fatos corriqueiros da vida humana, principalmente sobre os comportamentos
advindos dos costumes e da natureza do homem, como: as paixões, os sonhos,
a curiosidade, a esperteza, as tristezas, as malícias, etc.

Como ilustração, o primeiro conto “Pega-trouxa-de-papo-furado” é a história


de dois irmãos gêmeos, Zé Goiaba e Chico Goiaba, que tinham herdado uma
mala cheia de dinheiro do pai. O título do conto já nos adianta um pouco sobre
o que trata a narrativa, algumas inferências já podem nos apontar a tendência
para uma história que trata de malandragem e de otários (Pega-trouxa). Além
do mais, logo no segundo parágrafo, o narrador descreve da seguinte forma os
irmãos: “Os dois eram mestres na arte de fazer burrada e besteira” (AZEVEDO,
2009, p. 7), o que confirma a hipótese sobre o título.

No início do conto, também observamos as marcas do conto popular, ou seja,


estão presentes índices de atemporalidade ao começar com Era uma vez dois
irmãos..., e, posteriormente, Um dia... Essas informações sobre o tempo recuperam
os traços das narrativas clássicas e autorizam a possibilidade de uma ficção ter
acontecido algum dia. Assim, prosseguindo com a história dos dois irmãos, o
narrador passa a voz para o discurso direto, e ficamos sabendo que os irmãos
são solteiros, pois começam a discutir sobre os possíveis nomes que dariam aos
filhos quando se casassem.

No diálogo ficam atestadas também as qualidades de “burrice” e de “idiotas”


que empregavam em atividades corriqueiras das suas vidas, mas a principal das
peripécias que os constituem como “paspalhões e burraldos” fica por conta do
enredo principal do conto, qual seja: ambos caem como “trouxas” na história de
um esperto que rouba a mala de dinheiro que o pai havia lhes deixado como
herança. O trecho a seguir explicita melhor essa situação:

Quando Zé Goiaba voltou e soube da história, ficou furioso.


– Mas você é burro mesmo! Deu todo nosso dinheiro pro tal sujeito!
– Dei, não! Pedi a ele que levasse a mala de dinheiro pro nosso pai, que
está passando necessidade lá no céu.
– Mas onde já se viu passar necessidade no céu?
O outro coçou a cabeça.
– Foi o que o homem disse!
– O cara mentiu!
– Não mentiu!
Figura 6

120
AULA 7

– Mentiu, sua anta!


– Mentiu nada, seu burro!
Quando ouviu a palavra “burro”, Zé Goiaba lembrou que tinha um burro
preso no cercado.
– Vou pegar o bicho pra ir atrás do cara que levou nossa mala de dinheiro.
(AZEVEDO, 2009, p. 11)

Como podemos depreender da conversa entre os irmãos, há um conflito que se


estabelece, principalmente porque nenhum deles aceita a designação de “otário”,
ou seja, cada qual quer mostrar-se mais esperto e inteligente que o outro. No
entanto, na sequência narrativa, Zé Goiaba, ao tentar mostrar sua esperteza e
recuperar a mala de dinheiro, também é enganado pelo mesmo homem (que
havia ludibriado Chico Goiaba), que toma o burro igualmente. Entretanto, sua
tolice é duplamente maior que a do irmão, pois ao tentar ser esperto frente
ao sujeito é que perde a mala e o burro, principalmente porque deseja obter
algo que o tornasse mais esperto ainda, como podemos ver no fragmento que
explicita esse momento na narrativa:

– É um segredo, viu?
– Segredo?
– Jura que não espalha?
Zé Goiaba jurou.
– Embaixo desse chapéu tem um verdadeiro Pega-trouxa-de-papo-
furado.
– Pega-trouxa-de-papo-furado?
O malandro fez cara de espanto.
– Nunca ouviu falar? É um bicho famoso. Um dos pássaros mais raros do
mundo! É o único passarinho perfumoso que existe na face da terra!
Vale uma nota preta!
– Um dos pássaros mais raros do mundo?
– Um Pega-trouxa-de-papo-furado desses custa, por baixo, uns dez mil
contos.
Os olhos de Zé Goiaba brilharam feito duas bolas de gude. (...)
Foi quando o Zé teve uma ideia. Achou que era a melhor ideia que
tinha tido na vida até aquele dia.

121
O gênero narrativo para crianças e adolescentes

Fez cara de esperto e disse que precisava de ajuda. Pediu ao homem


que, por favor, pegasse seu burro e fosse de marcha a ré atrás do
homem da mala de dinheiro. (...)
O homem não queria de jeito nenhum. Zé Goiaba insistiu. Depois de
muita conversa mole o malandro aceitou, montou no burro, despediu-
se e sumiu no mundo.
Assim que o cavaleiro virou as costas, Zé Goiaba deu um sorrisinho
cheio de esperteza.
Seu plano era o seguinte: agarrar o Pega-trouxa-de-papo-furado e
vender na feira da cidade.
– Quero ver a cara do Chico quando eu voltar pra casa cheio de grana!
Então, Zé Goiaba levantou o chapéu com cuidado para o pássaro não
escapar e agarrou com força a gosma mole, perfumosa e quente.
Fim da história.
(AZEVEDO, 2009, p. 14-15)

Podemos concluir que esse conto, como os demais dessa obra, são narrativas que
mostram a cultura popular no seu sentido mais genuíno, próximo ao cotidiano das
pessoas, incluindo aí características do anti-herói e recuperando as aventuras dos
malandros que estão à espreita de uma oportunidade. Ainda, conforme menciona
o próprio escritor, em sua página oficial, o conto “Pega-trouxa-de-papo-furado,
na verdade, nunca existiu. Foi criado a partir de pequenas anedotas populares:
as desavenças dos irmãos bobos briguentos, o caso do mentiroso que afirma
ter acabado de chegar do céu e a anedota, recorrente em inúmeras histórias,
do chapéu que, no lugar de um pássaro raro, tem um monte de excrementos”
(disponível em: http://www.ricardoazevedo.com.br/).

Considerando esse conto e as demais narrativas de Ricardo Azevedo, podemos


afirmar que há a incorporação do humor e de traços de coloquialidade e oralidade
na linguagem. Além disso, o conjunto de obras revela também uma construção
híbrida, em que o viés tanto realista quanto fantasista permanece em seus enredos,
bem como há mistura da focalização das personagens com as formas discursivas.
O narrador se apresenta com diferentes pontos de vistas: ora da criança, ora
do jovem, e, por vezes, do adulto, valorizando diversas visões de mundo. Uma
marca muito forte em seus livros são as estratégias narrativas que englobam
no popular os elementos da cultura escrita, como: bilhetes, recadinhos, textos
informativos, letras de música, poesias, etc., tudo no interior da mesma narrativa.

122
AULA 7

Por fim, um ponto de destaque são as ilustrações, as quais estreitam laços com a
iconografia popular quando o escritor trabalha com obras desse cunho, embora
tenha outras pinceladas e estilos, como podemos ver nas imagens a seguir:

Figura 7 Figura 8

Também chama a atenção na sua produção a gama de possibilidade de suportes


em que estão disponíveis seus textos. O autor disponibiliza um site para maior
interação com seus leitores e também lança no mercado livros digitais, a exemplo
do mais recente, denominado Meu aplicativo de folclore, que o leitor pode baixar
no celular e aproveitar uma leitura mais dinâmica, interativa e lúdica. Nesse
caso, podemos dizer que é uma literatura já conectada com o leitor do século
XXI, rodeado por hipermídias e audiovisuais. Vejamos algumas imagens que
esclarecem esse novo texto:

Figura 9 Capa do livro Meu aplicativo


de folclore

Figura 10 Página que dá acesso aos diversos


gêneros textuais

123
O gênero narrativo para crianças e adolescentes

Como podemos verificar, a partir dessas páginas o leitor segue suas escolhas
para a leitura, sem necessariamente ter uma ordem linear das folhas que poderia
percorrer no livro impresso. Ricardo Azevedo é um dos expoentes dessa literatura
contemporânea, que recorre a elementos múltiplos da narrativa, em especial, do
resgate do folclore nacional. No entanto, há muitos outros autores e, entre eles,
registramos Lino de Albergaria, Ciça Fittipaldi, Rogério Andrade, Ângela Lago,
Roger Mello, Tatiana Belinky, Ana Maria Machado e Sérgio Caparelli.

Outro grupo de obras que constituem um novo modo de narrar faz parte do
acervo literário da autora Lygia Bojunga. As obras mais conhecidas são A bolsa
amarela; O sofá estampado; A casa da madrinha; Angélica; A cama; Sapato de
salto, entre outras. Ao contrário de Ricardo Azevedo, a matéria literária dessa
escritora são as narrativas que tratam da identidade das crianças e adolescentes,
mergulhadas no interior, no inconsciente e nos conflitos internos que todo ser
humano, da mais tenra idade, convive. A temática centra-se nos problemas
existenciais e, portanto, oferece uma estrutura narrativa focada em narradores e
discursos introspectivos, mas sem negligenciar problemas e críticas de teor social.

A ficção de Lygia Bojunga trabalha com a fantasia e o lúdico alicerçados sobre o


questionamento da realidade. Mesmo as obras que investem em personagens
animais ou elementos mais simbólicos e maravilhosos não escapam de realizar
uma ponte com o real para dar conta das reflexões e dos dilemas que perpassam
a humanidade. Assim, destacamos, em suas narrativas, uma estrutura de encaixe,
em que pequenas histórias estão dentro de uma grande história e são contadas
a partir de uma linguagem com registro coloquial, o que aproxima o leitor do
foco narrativo. Vejamos excertos retirados de três obras da autora:

O Vítor enfiou a cara debaixo do travesseiro pra não ouvir a mãe


chorando de novo. E fez uma conta de somar:
Primeira parcela – se eu me engasgo, todo mundo fica aflito.
Segunda parcela – o bom é não me engasgar.
Terceira parcela – mas, já que eu me engasgo...
E passou o risco pra somar. Empacou. Levou um tempo danado pra fazer
a tal conta. Já tinha sol nascendo quando ele chegou ao RESULTADO: se
ninguém ver meu engasgo, ninguém fica aflito.

Figura 11
(BOJUNGA, O sofá estampado, 2011, p. 45).

124
AULA 7

- Meus irmãos se chamam Luva, Luva, Luís, Lux, Ludo, Lume, Lucas e
Lutero.
- Ué, e como é que você saiu Angélica?
- Mamãe disse que assim que eu nasci eles viram logo que eu ia ser
diferente: tinha cara de espírito de porco*. Minha família era um bocado
respeitada, a gente levava um vidão! Mas quando eu cresci e descobri a
mentira que todo o pessoal mentia, minha vida ficou ruim que só vendo.
- Que mentira?
- Daí pra frente eu tinha que viver fingindo.
- Por quê?
- E se tem coisa que eu não topo é fingir.
Figura 12
*Porco adorou aquela história de Angélica ser espírito de porco: ficava parecendo
que os dois eram parentes.
(BOJUNGA, Angélica, 2010, p. 42).

Querido André
Quando eu nasci, minhas duas irmãs e meu irmão já tinham mais de
dez anos. Fico achando que é por isso que ninguém aqui em casa tem
paciência comigo: todo mundo já é grande há muito tempo, menos eu.
Não sei quantas vezes eu ouvi minhas irmãs dizendo: “A Raquel nasceu
de araque. A Raquel nasceu fora de hora. A Raquel nasceu quando a
mamãe não tinha mais condição de ter filho.”
Tô sobrando, André. Já nasci sobrando. É ou não é?
Um dia perguntei pra elas: Por que é que a mamãe não tinha mais con-
dição de ter filho? Elas falaram que a minha mãe trabalhava demais, já
estava cansada, e que também a gente não tinha dinheiro pra educar
direito três filhos, quanto mais quatro.
Fiquei pensando: mas se ela não queria mais filho por que é que eu nas-
Figura 13
ci? Pensei nisso demais, sabe? E acabei achando que a gente só devia
nascer quando a mãe da gente quer ver a gente nascendo. Você não
acha, não?
Raquel
(BOJUNGA, A bolsa Amarela, 2007, p. 11-12).

Dica de site: http://www.casalygiabojunga.com.br/

125
O gênero narrativo para crianças e adolescentes

Essas passagens configuram os momentos de conflito e perturbação na vida


dos protagonistas. É possível perceber que todos demonstram situações que
lhes incomodam e, portanto, são difíceis de serem contornadas por uma criança
ou adolescente; porém, o modo de conduzir a trama possibilita um modelo
emancipatório para os leitores, ou seja, as narrativas, ao adentrarem em enredos
psicológicos, com a utilização de imagens simbólicas, acabam fortalecendo um
caráter metafórico que auxilia na resolução dos conflitos dos protagonistas. De
um modo geral, Lygia Bojunga se aproxima do seu predecessor Monteiro Lobato
ao inovar e trazer à luz um modo de falar às crianças e aos jovens tão peculiar
às suas vivências.

Contudo, a autora não está só e outras novidades chegam ao campo da literatura


infantojuvenil, trazendo modalidades e temáticas diferentes para os leitores no
século XXI. Assim, neste novo milênio, acompanhamos o desabrochar de uma
literatura infantojuvenil contemporânea alicerçada na multiculturalidade, na
qual se dá voz à cultura africana, aos indígenas, às periferias (não no sentido de
protesto, mas de mostrar a arte que lá se produz) e outros temas que traduzem
os sentimentos mais marginais da história da humanidade. Seguramente, uma
obra que vem à mente é Menina bonita do laço de fita, publicada nos anos 80 e,
talvez, uma das pioneiras em tratar a questão do negro de modo a positivar a
figura da personagem negra na literatura infantojuvenil.

Depois da reconhecida obra de Ana Maria Machado, vieram muitas outras.


Centenas de títulos são publicados anualmente para preencher um espaço
muito vazio nessas culturas. Resumidamente, podemos dizer que as narrativas
de matriz africana e afro-brasileira utilizam os seguintes procedimentos:
1) inserção de traços e símbolos da cultura afrobrasileira,
das religiões de matrizes africanas, da capoeira, da dança
e dos mecanismos de resistência; 2) valorização simbólica
de Zumbi dos Palmares; 3) alusão aos orixás e à África como
“grande Mãe”, aos valores ancestrais, à solidariedade; 4)
representação da personagem mostrando sua resistência ao
enfrentar os preconceitos; 5) valorização da mitologia e das
religiões como forma de re-significação da ancestralidade
e da tradição oral; 6) ilustração mais diversificada e menos
estereotipada. (FRANÇA, 2008, p. 114).

Quanto às produções que abordam questões da cultura indígena, podemos


dizer que também se encaminham numa tentativa de inclusão de suas tradições
e costumes. As narrativas procuram revelar as diferenças e diversidades desses
povos, no intuito de valorizar a identidade e resgatar a oralidade como parte
de sua transmissão de conhecimentos e valores, bem como a recuperação do
universo mítico, vinculado aos seus ancestrais.
126
AULA 7

E, nas últimas décadas, entram em cena as publicações que envolvem as diferenças


atreladas a personagens surdos, cegos, daltônicos, com síndrome de Down,
etc. E também as questões de gênero, além de muitas outras que assumem
a responsabilidade de questionar e desestabilizar as marcas deixadas pelos
estereótipos da literatura infantojuvenil, ou, até mesmo, o silêncio e o vazio
deixados por esta.

Com esse breve panorama a respeito das narrativas, encerramos nossa aula.
Não obstante, com a certeza de que é um recorte que nos conduz a buscar
mais pormenorizadamente as inúmeras e diversificadas vertentes que a ficção
contemporânea para crianças e adolescentes vem nos concedendo. Desse modo,
a seguir ficará a sugestão de alguns títulos que são amostras da abundância e
da riqueza que temos na literatura infantojuvenil brasileira, assim como nas
referências você poderá encontrar indicativos de leituras críticas sobre os
conhecimentos aqui explorados.

Um levantamento realizado pela professora Alice Áurea Penteado Martha nos


mostra quão fértil e diversificada é a produção para jovens leitores. No artigo
“A literatura infantil e juvenil: produção brasileira contemporânea” (2008), a
autora destaca os seguintes títulos e seus respectivos escritores, elencados no
quadro a seguir:

Produção para jovens:

O olho de vidro de meu avô (2004), de Bartolomeu Campos Queirós; Eles


não são anjos como eu (2004), de Márcia Kupstas; No longe dos gerais
(2004), de Nélson Cruz; Lis no peito: um livro que pede perdão (2005), de
Jorge Miguel Marinho; Pena de ganso (2005), de Nilma Lacerda; Heroís-
mo de Quixote (2005), de Paula Mastroberti; O dia em que Felipe sumiu
(2005), de Milu Leite; Alice no espelho (2005), de Laura Bergallo; Bicho sol-
to (2005), de Ivan Sant’Anna; O rapaz que não era de Liverpool (2006), de
Caio Riter; Hermes, o motoboy (2006), de Ilan Brenman e Fernando Vilela;
Aula de inglês e Sapato de salto, ambos de Lygia Bojunga (2006); O melhor
time do mundo (2006), de Jorge Viveiros de Castro; Ciumento de carteir-
inha (2006), de Moacyr Scliar; O barbeiro e o judeu da prestação contra o
sargento da motocicleta (2007), de Joel Rufino dos Santos; e Adeus contos
de fadas (2006), de Leonardo Brasiliense.

127
O gênero narrativo para crianças e adolescentes

Produção para crianças:


João por um fio (2005), de Roger Mello; Desertos (2006), de Roseana
Murray; Álbum de família (2005), de Lino de Albergaria; Cacoete (2005)
e Felpo Filva (2006), ambas de Eva Furnari; Murucutu, a coruja grande
(2005), de Marcos Bagno; Um garoto chamado Rorbeto (2005), de Gabriel
o Pensador; O menino, o cachorro (2006), de Simone Bibian; O livro dos
pontos de vista (2006), de Ricardo Azevedo; Lampião & Lancelote (2006),
de Fernando Vilela; Era uma vez outra vez (2007), de Glaucia Lewicki; O
jogo de amarelinha (2007), de Graziela Bozano Hetzel; Sei por ouvir dizer
(2007), de Bartolomeu Campos Queirós; e História de Õe (2007), de Luiz
Raul Machado.

Exercitando

Na aula de hoje, enfatizamos o conjunto das obras de dois escritores fundamentais


para o estudo da narrativa infantojuvenil. Assim, a tarefa será pesquisar e ler a
respeito de Ricardo Azevedo e Lygia Bojunga, bem como encontrar obras literárias
desses dois autores (para leitura) e traçar um quadro comparativo da ficção deles.
Para organizar seu quadro, proponha alguns elementos que você vai observar nas
narrativas desses dois escritores, por exemplo: ilustração, temática, linguagem,
foco narrativo, personagens e outras características peculiares a cada um. Para
ajudar na sua pesquisa, visite os sites dos autores, disponíveis em: http://www.
ricardoazevedo.com.br/ e http://www.casalygiabojunga.com.br/.

4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO

O livro reúne uma coletânea de artigos,


escritos por professores universitários de
diversas instituições do país, que abordam
diferentes formas de ler as narrativas indicadas
para adolescentes. São textos críticos que
analisam obras de escritores da literatura
brasileira, iniciando com Monteiro Lobato e
passando aos contemporâneos: Ana Maria
Figura 14

128
AULA 7

Machado, Lygia Bojunga, José Louzeiro, Marta A. Pannunzio, Pedro Bandeira,


Sérgio Capparelli, Bartolomeu Campos Queirós, Ricardo Azevedo e Marcelo
Carneiro da Cunha. Certamente uma boa leitura para aprofundar as
discussões sobre a autonomia estética e a capacidade humanizadora que
a narrativa atual problematiza, recusando qualquer abordagem utilitária
e pasteurizada que, por vezes, se revela contraditória e presente em
publicações para jovens e adolescentes.

“Esta obra é a descrição de pesquisa realizada na


Espanha e contém um manancial de informações
históricas sobre o desenvolvimento do gênero
em todo o mundo. (...) E, mais importante para o
leitor brasileiro, oferece também instrumentos
preciosos para análise e compreensão da nossa
produção editorial destinada à infância e à
juventude.” (SANDRONI, Laura). A partir dessa
citação, que se encontra na contracapa do
livro, podemos reforçar a importância da obra
em nossos estudos, acrescentando que, na
segunda parte da obra, a autora discorre sobre
a caracterização da narrativa infantil e juvenil Figura 15
atual, demonstrando, com muita propriedade,
uma descrição analítica e crítica sobre os traços
e elementos que fazem parte deste tipo de
ficção: as narrativas.

5 TROCANDO EM MIÚDOS

Nesta unidade, estamos estudando os gêneros que constituem e se apresentam


na literatura infantojuvenil contemporânea. Assim, abordamos nesta aula o gênero
narrativo, encerrando com a tríade clássica que organiza e divide a literatura em
três grandes gêneros: o épico (narrativa), o lírico (poesia) e o dramático (teatro).

Em síntese, foi necessário retomar conhecimentos sobre o boom da literatura


infantojuvenil, na década de 70, para compreendermos os modos como os
129
O gênero narrativo para crianças e adolescentes

traços peculiares a uma nova narrativa se entranharam nos livros publicados,


especialmente, por Ricardo Azevedo e Lygia Bojunga, embora tenhamos mostrado
também outros exemplos de narrativas. Assim, vimos algumas marcas bem
presentes em obras que recuperam o folclore brasileiro, revitalizando e recriando
as histórias populares que circulam e são repassadas pela tradição oral. Também
exploramos a narrativa singular de Lygia Bojunga, que adota um ponto de vista
mais introspectivo para chegar até o âmago das crianças e adolescentes, no
intuito de revelar e refletir sobre os conflitos que perpassam essa faixa etária
em nossa sociedade.

Por fim, elencamos brevemente alguns tópicos que caracterizam a recente


produção brasileira infantojuvenil, entre eles a multiculturalidade, o que nos
mostrou o reconhecimento e a necessidade de ampliarmos as vozes das minorias,
restabelecendo um lugar e uma história positiva sobre a diversidade cultural,
as diferenças de gênero e a inclusão de pessoas com “necessidades especiais”
(conceitos ainda em construção). E, para fechar nosso estudo, deixamos como
sugestão de leitura uma relação de títulos e autores, para que você possa buscar a
ampliação do seu repertório de leituras, que neste espaço se torna muito limitado.

6 AUTOAVALIANDO

Caro aluno, após a leitura e a discussão sobre a narrativa contemporânea apontada


nesta aula, é necessário e importante pensar e refletir sobre algumas questões.
Dessa maneira, elencamos algumas perguntas a que você deve responder,
para verificar se conseguiu os resultados de aprendizagem estabelecidos nos
objetivos iniciais desta aula:

„„ Entendi as mudanças que ocorreram no interior das narrativas a partir de


Monteiro Lobato? Quais foram essas alterações?

„„ Ainda tenho alguma dúvida em relação às inovações que foram incorporadas


nas narrativas contemporâneas e que apontam para um olhar aproximado
do seu público leitor?

„„ Quais contribuições eu poderia agregar aos estudos da literatura infantojuvenil


no tocante ao gênero narrativo? Conheci novas obras? Conheci novos
autores? Percebi a importância da diversidade de temas e formas que a
narrativa oferece? Consigo fazer uma síntese dos principais conhecimentos
adquiridos nesta aula?
130
AULA 7

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Ricardo. Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões. São


Paulo: Ática, 2009.

BOJUNGA, Lygia. A bolsa amarela. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2007.

______. Angélica. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2010.

______. O sofá estampado. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2011.

CECCANTINI, João Luis; PEREIRA, Rony F. (Orgs.). Narrativas juvenis: outros


modos de ler. São Paulo: Editora UNESP, 2008.

COLOMER, Teresa. A formação do leitor literário. São Paulo: Global, 2003.

FRANÇA, Luiz Fernando de. Desconstrução dos estereótipos negativos do negro


em Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado, e em O menino marrom,
de Ziraldo. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, nº 31. Brasília,
janeiro-junho de 2008, p. 111-127.

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: história &


histórias. São Paulo: Ática, 2004.

MARTHA, Alice Áurea Penteado. A literatura infantil e juvenil: produção brasileira


contemporânea (2008). Revista Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 43, n. 2, p. 9-16,
abr./jun. 2008.

SILVEIRA, Rosa M. Hessel. Nas Tramas da Literatura Infantil: Olhares sobre


Personagens “Diferentes”. Disponível em: http://pead.faced.ufrgs.br/sites/publico/
eixo3/Literatura_InfantoJuvenil_Aprendizagem/bloco8/nas%20tramas%20
da%20literatura%20infantil.pdf. Acesso em: 1 nov. 2015.

THIÉL, Janice Cristine. A Literatura dos Povos Indígenas e a Formação do Leitor


Multicultural. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 38, n. 4, p. 1175-1189, out./
dez. 2013. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/edreal/v38n4/09.pdf. Acesso
em: 1 nov. 2015.

131