Vous êtes sur la page 1sur 165

O Curso da Lagarta

Eduardo Pereira de Azevedo

O Curso da Lagarta
Ilustrações de Andréa Vilela

1ª Edição
POD

Greenville
KBR
2018
Edição de Texto Noga Sklar
Ilustrações Andréa Vilela
Capa KBR sobre ilustração de Andréa Vilela

Copyright © 2018 Eduardo de Azevedo


Todos os direitos reservados ao autor.

ISBN: 978-1-944608-64-4

KBR Digital Publishers LLC


www.kbrdigital.com
atendimento@kbrdigital.com
1|864|37345

JUV000000 - Ficção juvenil


Eduardo Pereira de Azevedo é carioca e um pai zeloso,
que sempre gostou de contar histórias para seus filhos. Há
anos atua na área de Educação. É diretor de uma escola no
Estado do Rio de Janeiro e professor de Artes em uma es-
cola particular no município de Carmo. Dirigiu e produ-
ziu o dvd “A Gravura”, que contém informações valiosas a
respeito da técnica e seus processos. Atualmente, Eduardo tem se dedicado a mergulhar no
fascinante mundo das publicações literárias, e estreia com o infantil O Curso da Lagarta.

eduardopereiradeazevedo@gmail.com
Caixa Postal 98574 - Carmo, RJ - CEP 28640-000
Sumário
O vento • 8
A lua • 22
A grande teia  •  34
Amigos e conhecidos  •  46
A tempestade e o arco-íris  •  56
O mapa • 68
O plano • 82
As diferenças • 92
O louva-a-deus • 106
A traça • 122
O telhado • 138
A despedida • 152

|7|
1. O vento
E le vem chegando, vindo de algum lugar. Então, finalmente,
chega, sustenta as nossas asas, balança e sacode os nossos pe-
los e as nossas roupas. O vento é capaz de mover quase tudo: ele é o
próprio movimento.
Às vezes quente, às vezes frio, às vezes bem cedo, outras vezes
tardio. Quer ver o vento? Não se pode vê-lo, a não ser que por onde
ele esteja passando haja poeira, areia, neve ou coisa parecida. Não
sabemos exatamente onde ele começa nem onde termina, mas pos-
sui tantas definições e nomes quanto direções por onde possa fluir.
Quem nunca ouviu falar no vento minuano? E no vento sudoeste?
Enfim, nossa história é como o vento: não sabemos com preci-
são onde começa nem onde termina. Apenas sabemos que ela existe
por aqui, e é isso que importa. Uma aventura sem precedentes está
prestes a se iniciar e, se você pensa que é uma história qualquer, está
enganado.
Um mundo melhor depende de todos nós, e isso inclui todo
ser vivente que habita o planeta. O mundo caminha a passos lar-

|9|
O Curso da Lagarta

gos para a insustentabilidade. Melhor dizendo: o sagrado equi-


líbrio entre as espécies e seus habitats correm o perigo de acabar,
desaparecer.
Novos ventos são necessários para que isso não aconteça. En-
tão, que venham os ventos da mudança.
Uns acham que o vento é um sinal de mau agouro. Muitas ve-
zes, uma ventania é capaz de destruir tudo por onde passa e é, por-
tanto, entendida como algo ruim. Os que pensam dessa maneira são
os pessimistas. Outros — os otimistas — esperam que ele mude de
direção ou de intensidade, imploram que o vento não faça nenhum
tipo de estrago em suas propriedades ou naquilo que possuem. Mas
existem alguns, os corajosos, que não reclamam nem esperam. Os
corajosos ajustam suas velas ou asas para tirar melhor partido do
vento. Para esses seres, sua maior riqueza é a fé: fé que produz cora-
gem; coragem que tira partido do vento.
E foi assim com a borboleta monarca e seus ovos, que não fo-
ram depositados intencionalmente em uma folha de serralha; ela,
simplesmente, se manteve planando e os soltou, deixando o vento,
o acaso e o destino decidirem onde pousariam. A borboleta monar-
ca é uma autêntica voadora, insistente e esperançosa, e é capaz de
atravessar oceanos.
Os ovos da borboleta guardam preciosos projetos de vida. Ao
eclodirem, dispersam as lagartas, que se ocupam apenas de comer
e crescer para, finalmente, se transformarem em uma crisálida. Aí
passam algum tempo imóveis nessa forma, até romperem a pupa e
ganharem os céus, voando ou planando com o vento, suavemente,
| 10 |
O Curso da Lagarta

até encontrarem um lugar para todo o processo se repetir. Parece


um “loop” sem muita imaginação, mas as coisas por aqui não se-
guem essa lógica. Repetir não mudará o destino da Terra.
Hora de improvisar, de inovar, de fazer as coisas de maneira
diferente. A borboleta da nossa história é uma borboleta monarca
muito especial.
Os ovos da borboleta foram dispersos pelo vento e caíram em
vários lugares. Alguns ainda continuam voando, caindo, sendo le-
vados para locais ainda mais distantes. Um grupo desses pequenos
ovos acabou repousando no meio de um jardim, que ficava no quin-
tal de uma casa velha. Era um dia comum de primavera, em uma
pequena e pacata cidade do interior. Ali, pareciam estar seguros —
ovos de borboleta em um pé de hortelã. Com tudo em seu devido
lugar, só precisamos que o tempo faça o seu trabalho; só precisamos
que ele passe, e rápido.
As estações, como a primavera, dependem do tempo, tanto do
tempo cronológico como daquele que se relaciona com as condições
climáticas. A primavera é conhecida por ser a estação das flores,
ou seja, é a estação em que elas surgem, brotam. Os dias também
são longos e, nessa época do ano, o clima é mais ameno. Borboletas
adoram a primavera, adoram as flores. Bebem o seu néctar, que lhes
fornece energia suficiente para voar. E a borboleta que passava por
ali se foi, desapareceu voando com o vento, deixando para trás sua
herança, seus sonhos e seus ovos, que, de tão pequenos, são imper-
ceptíveis aos olhos humanos.
Embora não possamos percebê-los com facilidade, existem bi-
| 12 |
O vento

chos tão pequenos quanto os ovos de uma borboleta. Alguns, ainda


menores, se alimentam deles. A luta pela sobrevivência, portanto,
não cessa, está presente o tempo todo. Para que um ser vivo possa
ser bem-sucedido, deve vencer todas essas batalhas.
Então temos aqui uma pequenina bola branco-amarelada, um
ovo de borboleta monarca sobre uma folha de hortelã, uma bola
minúscula, misturada no meio de outras iguais. Mas aqui temos al-
guma coisa que vai transformar o que parece ser igual em algo ím-
par, diferente. Esta bolinha de que estamos falando foi a primeira a
romper a casca, comer um pouco dela e sair da folha onde caiu. A
sorte sorriu para Faninha — é o nome dela, de nossa personagem
que saiu do ovo antes de seus irmãos. Essa diferença de tempo, em
relação aos outros ovos que não foram rompidos, livrou-a do seu
primeiro predador — um humano, que, aqui na nossa história, será
descrito como um bípede gigante. O bípede apareceu com uma en-
xada e começou a arar o mato que crescia perto do seu jardim.
A vida é assim, destino para uns e azar para os outros. Na ver-
dade, não existe sorte ou azar, existe bênção, prova e maldição. Fa-
ninha escapou sem saber o que a esperava, pois sua jornada estava
apenas começando. Distraidamente, subiu em uma laranjeira e ali
ficou, absorta, envolvida pelo odor suave e adocicado das frutas cor
de laranja. Enquanto subia, pôde observar todo o jardim à sua vol-
ta; ao mesmo tempo, sentia o prazer que a brisa trazia, refrescando
a temperatura do seu corpo. Corpo, alma e espírito estavam em har-
monia.
O dia estava terminando. Nuvens vindas do leste cobriam o
| 13 |
O Curso da Lagarta

céu parcialmente. O medo e a incerteza se apresentaram à nossa


pequena lagarta, que, por um instante, pensou em voltar para o que
havia sobrado do seu ovo.
Pensamentos vêm e vão, como o vento; e a ideia de se esconder
acabou passando. A liberdade pode nos pôr em perigo, mas tam-
bém nos oferece prazeres intensos, como o sabor da casca, o movi-
mento do próprio corpo, o odor das coisas doces e a leveza da aura.
O sol seguiu seu caminho. Descendo para o oeste como uma
chama, despediu-se por detrás das densas nuvens e das montanhas
frondosas. Pintou tudo de vermelho, tudo à sua volta parecia pegar
fogo. Mas, apesar da despedida do Astro Rei, Faninha não passaria
aquela noite em total escuridão, pois havia um objeto gigantesco
com quatro rodas e olhos de luz fazendo muito barulho. Era uma
pick-up velha que estava sendo consertada pelo seu dono, o mesmo
bípede da enxada.
Por que ele está tão triste? Foi o primeiro pensamento de nossa
lagarta que, por algum motivo, conseguia sentir o que sentiam e
pensavam os bípedes gigantes. Está sozinho... Sua família o abando-
nou por causa de seus péssimos hábitos...
O homem mal conseguia ficar de pé, de tão bêbado que estava. Pa-
rece estranho, mas algumas pessoas cultivam péssimos comportamen-
tos. Digo péssimos, porque fazem coisas que prejudicam sua própria
saúde, bebem coisas que mudam suas atitudes, se colocando em perigo.
Além do mais, se alimentam e ingerem comida tratada com produtos
químicos, depois reclamam que se sentem doentes. A vida natural é
simples e boa, e fica melhor ainda sem aditivos químicos.
| 14 |
O vento

Aquele humano, que estava para cair a qualquer momento,


mesmo assim insistia em consertar o motor daquela coisa. Quan-
do o veículo dava algum sinal de vida, o barulho intenso do motor
fazia vibrar tudo à sua volta. Enquanto nossa amiga Faninha comia
compulsivamente a folha em que estava pousada, a planta tremia
e balançava ao som do velho carro, e pensava: Ele quer sair com o
carro, mas não sabe para onde ir e nem aonde quer chegar. Que triste!
A lagarta debutante comeu por horas e horas sem parar. Devo-
rou o equivalente a duas vezes o seu peso. Depois de tanto apetite,
fez uma breve pausa para a digestão, encostou-se em uma laranja
enorme e ficou ali, observando o homem, bem na hora em que fi-
nalmente desligava seu dinossauro de metal. Faninha ainda pôde
ouvir a buzina do calhambeque tocar quando o gigante desmaiou,
apagou, batendo a cabeça no volante.
Dorme agora, menino. Amanhã você estará melhor. Não vai se
lembrar de nada, e sua dor voltará para o quarto escuro do seu coração.
De repente, havia paz. Tudo parecia estar sob controle, até que
dois bichinhos de fruta caíram de uma outra laranja, bem acima
daquela na qual Faninha estava recostada. Ela levou um baita susto,
chegou mesmo a se encolher como um bebê; mas depois viu que se
tratava de duas moscas, vermelhinhas e simpáticas. Relaxou nova-
mente, retomou a postura, respirou fundo e, como já tinha nascido
pronta e bem-educada, lhes perguntou:
— Boa noite, gente. Está tudo bem com vocês?
— Boa noite, colega. Desculpe-me pelo constrangimento de
ter caído logo aqui, no seu espaço, mas parece que nossa fruta não
| 15 |
O Curso da Lagarta

caiu no chão junto conosco, como esperávamos — disse a mosca


mais alta, enquanto se curvava.
— Não estava madura o suficiente! — disse sua companheira
baixinha, com uma cara de muita decepção.
— E, cá pra nós, cheia de caroços! — completou a maior, com
um sorriso amarelo.
Mais uma vez, parecia que tudo na vida tinha o formato de
uma esfera, bola ou coisa parecida: ovos, laranjas, o planeta Terra,
a lua, o sol e esses bichinhos, redondinhos e esquisitos, que nem
sabemos como se chamam. Mas Faninha tinha nascido com a boca
grande, e grande também era sua curiosidade, e ela foi logo se apre-
sentando:
— Meu nome é Faninha, e acabei de sair do meu ovo. Infeliz-
mente, meus irmãos que estavam na folha, junto comigo, não tive-
ram a mesma sorte e acabaram virando pasto. Por conta disso, estou
sozinha!
Nossa amiga se sentiu triste ao lembrar o acontecido. Do outro
lado, os bichinhos estavam estáticos e perplexos. Depois, bem baixi-
nho, cochicharam entre si:
— Cara! Ela chora como se fosse famosa! Parece uma daquelas
celebridades da televisão, tipo uma atriz ou cantora. Se falarmos
nossos nomes verdadeiros, vamos pagar o maior mico.
— Você e as celebridades... Ela não se parece com ninguém
desse mundo de fantasia. Você anda assistindo TV demais! —
brigou a mais alta. — Mas numa coisa você tem razão: ela vai rir
quando souber que você se chama Direito e eu, Esquerdo. Vou
| 16 |
O vento

inventar outros nomes, e você, vê se não fala nada. Fica quieto


e observa.
— Mademoiselle, nós, eu e ele, nos chamamos Gauche e Droit.
Estamos encantados em conhecê-la — disse a mosca, ao mesmo
tempo que fazia uma reverência muito estranha.
— Hummm... Traduzindo para o português: Esquerdo e Di-
reito! Que incrível! Mosquitos franceses no interior do Brasil! Só es-
pero que não sejam parentes do Aedes aegypti — Faninha concluiu,
com uma expressão de preocupação.
Não me pergunte como ela tinha aprendido a falar francês,
nem como estava informada a respeito do mosquito da dengue e
suas implicações. Será que ela tinha um talento sobrenatural de sa-
ber as coisas que são discutidas entre os bípedes gigantes? Ou, quem
sabe, mantinha a página principal do Google sempre aberta, para
consultas rápidas? A verdade é que Faninha tinha um acesso rápido
às questões dos humanos.
Enquanto a noite progredia, em meio a um céu povoado por
densas nuvens, uma certa claridade se fazia presente por conta da
lua, e era possível ver tudo com alguma facilidade. E por falar na lua,
ela também seguia o seu rumo, pois estava para ficar cheia. Cheia de
si também estava Faninha, enquanto explicava para seus novos ami-
gos tudo o que sabia sobre o mosquito mais procurado do pedaço.
— O Aedes aegypti aterroriza os bípedes gigantes durante o ve-
rão e, para minimizar os danos das doenças causadas por esse mos-
quito (dengue, zika e chikungunya), é necessário fazer um trabalho
de prevenção muito antes, como agora, na primavera. É preciso evi-
| 17 |
O Curso da Lagarta

tar água parada ou o acúmulo desse líquido em qualquer circuns-


tância, mas geralmente os bípedes gigantes falham. Como não que-
rem adoecer, apelam para o fumacê, que na sua fórmula contém o
malathion. E esse veneno acaba matando quem não tem nada a ver
com a história — Faninha explicou com propriedade.
— Não, misericórdia! Não temos nada a ver com esse cara, quer
dizer, com esse mosquito. Sabemos que ele é barra pesada e trans-
mite um monte de doenças para muitos animais, principalmente
para os bípedes gigantes — falou Direito, tentando se desculpar.
— Mas o Aedes não é tão ruim para nós. Na verdade, não é cul-
pa dele, que só está tentando sobreviver. Os gigantes é que deixam
seu lixo por aí, acumulando água. Os mosquitos só aproveitam o
desleixo dos outros — esclareceu Esquerdo.
— Pode crer. Mas nós não somos nem parentes distantes desse
egípcio aí. Bom, acho que não. Somos moscas de frutas, inofensivas.
Ganhamos nossos nomes dentro da laranja, pois desviávamos dos
caroços que apareciam, entende? Como eu sempre ia para a direita
e ele para a esquerda... — completou Direito.
— Esquerdo e Direito, acho que entendi. Então, digam: como
posso ajudá-los? — perguntou Faninha, querendo acelerar a prosa.
— Acho que você poderia nos ajudar a derrubar a laranja de
onde estávamos. Precisamos que ela caia no chão. Lá embaixo, en-
trará em decomposição, e isso facilita as coisas para nós — explicou
Esquerdo, em tom de humildade.
— Beleza. Vamos até lá e veremos o que podemos fazer para
que isso aconteça — disse Faninha.
| 18 |
O Curso da Lagarta

Em pouco tempo já se sentiam amigos e, aos poucos, Faninha


ia descobrindo o seu outro talento: fazer amizades rapidamente. Em
um instante subiram até a outra laranja. Uma vez ali, entenderam
que Faninha poderia ajudá-los balançando a fruta com força.
— Amiga, aqui nos separamos. Espero que você siga com seu
apetite. Vai precisar comer muito, mas muito mesmo, até o grande
dia — disse Esquerdo, se despedindo.
— Grande dia? Como assim? — indagou Faninha.
— Minha amiga, você é uma lagarta! Comerá até ficar enorme.
Depois, cairá em sono profundo. Vão se passar alguns dias até que,
finalmente, acordará completamente diferente do que é hoje. E en-
tão alçará voo. Quando estiver voando, todos vão olhar para você,
admirados com sua beleza magnífica e colorida. Já a gente aqui, não
terá o mesmo fim. Somos moscas de banana! Ninguém notará nos-
sa presença, a não ser para nos matar — concluiu Direito, com um
ar de tristeza.
Faninha ficou atônita com o fato de ser uma lagarta de bor-
boleta. Não sabia disso, e ainda não sabe de todos os detalhes. Na
verdade, não sabia quase nada sobre insetos, mas tinha uma habili-
dade de encontrar as respostas para tudo que envolvia os humanos,
como em um passo de mágica, e estava gostando muito da vida fora
do ovo e de tudo o que estava aprendendo.
— Ok, rapazes. Não se esqueçam: você para a esquerda e você
para a direita... Rsrs.
O dia já dava sinais de que ia nascendo, pois o céu estava rubro
novamente. Podia-se ver a silhueta de Faninha balançando freneti-
| 20 |
O vento

camente a bola laranja, melhor, a própria laranja. O sol já ia esca-


pando do horizonte quando a esfera finalmente cedeu à gravidade.
Ploft!
Enquanto uma bola caía, outra se erguia sob um céu lindo,
agora completamente azul e sem nenhuma nuvem. Mas não havia
tempo para muitos devaneios. A fome empurrou Faninha com for-
ça para uma comilança sem precedentes. A lagarta abria grandes
buracos que formavam desenhos nas folhas, como se fosse uma má-
quina de apagar.
A manhã toda foi assim: comendo as folhas da esquerda para a
direita. Hummm... Ou teria sido da direita para a esquerda?

| 21 |
2. A lua
A vida, com seus detalhes e particularidades, determina as
nossas ações, reações, atitudes e comportamentos. Ninguém
escapa das etapas e fases da vida, e com a Faninha não seria dife-
rente. Em seu atual estágio de lagarta, a coisa mais importante era
comer, comer sem parar.
Não é tão difícil assim entender essa compulsão de consu-
mir. Afinal, nós, os bípedes gigantes, consumimos tudo o tempo
todo, compulsivamente. Você liga o computador e já tem um
e-mail anunciando uma promoção do tipo “Black Friday”. Você
liga a televisão e outra promoção te acerta em cheio num ma-
ravilhoso comercial. Até mesmo na rua, outdoors e promoções
nas vitrines das lojas parecem nos coagir e forçar a consumir.
Vivemos como famintos. Até quando agiremos dessa maneira?
Será que o planeta aguenta tanta fome assim?
Agimos como miseráveis, diferentemente dos outros ha-
bitantes do planeta, que comem apenas o necessário. Fazemos
parte de um sistema que precisa estar em equilíbrio, assim como

| 23 |
O Curso da Lagarta

a Terra e o nosso satélite, a lua, que, juntos, participam de um


sistema, o Sistema Solar.
E por falar no sol, ele estava na parte mais alta do céu, e o
calor que isso provoca costuma deixar todos com um traço de
moleza e preguiça, dando a sensação de falta de fôlego. Nossa
amiga Faninha deu uma paradinha para descansar, só que, des-
sa vez, olhou para a esquerda e depois para a direita, e percebeu
que havia outras lagartas por perto, todas entretidas na ação de
comer. O que era curioso, para não dizer engraçado, é que tudo
se movia devagar, como em câmera lenta, tal era o calor que
fazia naquela hora do dia. No meio daquela lentidão toda, Fani-
nha viu vultos e sombras que rasgavam a inércia, como trovões.
Faninha olhou para o alto para ver o que provocava aque-
las luzes e sombras estroboscópicas.
— Vamos, esconda-se rápido!
Que voz seria essa? Faninha olhou para a esquerda e para
direita, mas não viu ninguém. E então a voz soou novamente.
— Aqui, atrás de você! Venha rápido!
Faninha se virou e começou a se mover em direção ao tron-
co. Mais uma vez, foi surpreendida com uma voz que vinha de
trás dela, e desta vez iria saber com quem estava falando.
— Não fuja tão rápido, minha querida! Ainda nem conver-
sei com você! — disse uma lagarta grande, enfurecida e com as
mãos na cintura.
— Mas eu nem... — balbuciou Faninha, assustada com
aquela figura grotesca. Que tipo de lagarta seria aquela, que os-
| 24 |
A lua

tentava uma voz possante e tinha estatura de gigante? O que


teria feito a nossa amiga para deixar esse novo personagem da
nossa história tão irritado?
— Cale-se! Aqui você só escuta! Como se atreve a dirigir
sua palavra à minha pessoa? Certamente não sabe quem sou,
mas vou logo avisando: quem manda aqui sou eu!
Bem, depois dessa fala ríspida e extremamente agressiva
vinda de outra lagarta, que tinha o dobro do seu tamanho,
só restava à nossa amiga ficar em silêncio. Observando que
Faninha agia como uma estátua, a super lagarta continuou fa-
lando.
— Bom... Muito bom que você entendeu como as coisas
funcionam por aqui. Essa laranjeira é minha, e não vou admitir
que ninguém, ninguém a usurpe de mim. Aqui, todas pedem a
bênção, e ainda me imploram para ficar. De outro modo, as ex-
pulso sem piedade.
Novamente, uma enorme sombra passou por ali. Todos fi-
caram em silêncio, ao mesmo tempo que olhavam para cima.
Nessa hora, a voz que vinha do tronco chamou Faninha de novo,
num quase sussurro.
— Recue em silêncio. Recue agora, e não fale nada com
essa daí. Venha até aqui bem devagar, ande de costas e continue
olhando para ela. Não fale nada, nem olhe para trás.
Então, por algum motivo, todas as lagartas desapareceram.
Apenas a nossa amiga, a voz da sombra e a super lagarta ar-
rogante continuavam em cena. O monólogo da criatura que se
| 25 |
O Curso da Lagarta

achava a tal era interminável, e volta e meia a sombra interrom-


pia sua fala, mas não por muito tempo.
— Antes que eu te dê um chute na bunda e te mande para
o meio do mato, que é seu lugar, você precisa saber com quem
está falando. Faço parte de uma geração de borboletas monar-
cas que habitam aqui nessa árvore desde que foi plantada pelos
bípedes gigantes. Como se atreve a frequentar meu espaço, sem
a minha permissão? Tenho sangue real, sou... — e antes mesmo
que pudesse dizer seu nome, a sombra apareceu novamente e só
se viu as folhas caindo.
Zummm... Aquela coisa já estava chegando bem perto de
Faninha quando um sabiá de peito vermelho a abocanhou. Digo
“aquela coisa” porque nem o próprio nome ela conseguiu falar
e, a essa hora, já tinha virado geleia real. Mas havia ainda algo
que Faninha precisava saber: quem estava falando com ela? De
quem era aquela voz que vinha do tronco?
— Você está aí? Tem alguém aí? — perguntou Faninha, ca-
minhando lentamente em direção à árvore.
— Sua boba! Corra, antes que você termine como a outra
— sussurrou a voz que vinha daquela direção.
Rapidamente, Faninha se moveu até o tronco. Ali chegan-
do, descobriu quem estava falando, quem era a dona daquela
voz misteriosa: era uma linda borboleta, uma magnífica Danaus
plexippus.
— Boa tarde. Quem é você? — perguntou Faninha.
— Eu? Não sou ninguém, pelo menos assim, sem a minha
| 26 |
A lua

asa esquerda — disse a borboleta monarca, virando-se de lado.


— Não posso mais voar, não posso mais brincar com o vento,
nem com as colunas de ar quente. Não posso mais beber o doce
das flores — gemeu a borboleta, que mal conseguia falar.
Seu estado de saúde era preocupante, e Faninha ficou
apreensiva com a situação.
— O que houve com a sua asa? — perguntou, bastante preo-
cupada.
— Aquele sabiá que não dá trégua a nenhum inseto... Foi
ele quem arrancou a minha asa. Mas sabe de uma coisa, minha
querida? A natureza é perfeita, mesmo quando abrevia as nos-
sas vidas — filosofou a borboleta, e sorriu em seguida.
— Maldito, maldito sabiá. Ele é um grandíssimo covarde!
— falou Faninha, toda agitada. — Ah, se ele estivesse aqui ago-
ra, ele ia ver só!
Mas, de repente, a sombra da ave passou novamente, e Fa-
ninha se encolheu tanto que acabou virando uma pequena bola.
— Não diga isso! — falou a borboleta. — Ele apenas cum-
pre o seu papel de predador, e está alimentando os seus filhotes.
Faz parte do jogo da vida. Já eu... bem, fracassei completamen-
te. Aproxime-se, preciso ver você bem de perto. Você não me é
estranha... Se eu não tivesse visto aquele bípede gigante acabar
com meus ovos, eu diria que você é uma das minhas pequenas
sementes. Estou com muito frio, você poderia me abraçar? —
disse a borboleta, enquanto Faninha se aproximava. Quando
chegou bem perto, pôde ver o estrago que o bico do sabiá havia
| 27 |
O Curso da Lagarta

feito em todo o corpo e na asa daquela linda espécime de borbo-


leta. Percebeu também que ela estava extremamente debilitada,
morrendo, provavelmente. Então, Faninha a abraçou, e sentiu
uma sensação gostosa, de segurança, um calor que aqueceu seu
espírito.
— Continue com a sua jornada, coma bastante, você vai
precisar armazenar muita energia. Não fique muito à vista, não
chame muita atenção. Tudo que é muito notado e aparece de-
mais tem vida curta. Cuide-se, não deixe que outros abreviem
seu tempo por aqui. Muitos vão reclamar da vida, mas não dê
ouvido a eles. A vida é boa para quem sabe ser bom com ela. Sor-
ria para a vida que ela retribuirá, com um sorriso ainda maior.
Desculpe a minha falta de educação, mas a situação não permi-
tiu que nos apresentássemos. Meu nome é Flora. E o seu?
— Faninha, muito prazer — respondeu a nossa amiga.
— Seja feliz, minha garota. Quando for comer, escolha as
folhas mais verdes e tenras. Procure variar a sua dieta, realize os
seus sonhos e cumpra o seu propósito.
— Propósito? Mas o que é isso, Flora?
— Preserve sua vida, a vida dos seus descendentes e a vida
do planeta. Feito isso, poderá voar para o céu da eternidade. Já
posso vê-lo, lindo demais!
Foram as últimas palavras de Flora, uma exuberante bor-
boleta monarca. Faninha ainda ficou observando-a por algum
tempo. Depois cobriu Flora com pequenas folhas secas de cor
marrom-claro. Observou aquilo mais um pouco e depois seguiu
| 28 |
A lua

seu caminho, acompanhando o sol, que ia do leste para o oeste.


Foi para o outro lado da árvore, e dali pôde ver um lindo campo
de margaridas. Já era fim de tarde. Ventava um pouco, e o ba-
lanço daquelas flores distraía Faninha enquanto ela comia com
vontade.
A tarde ia se despedindo. O sol se preparava para sumir, e
do outro lado a lua se erguia, vagarosamente, completamente
cheia.
Uma estranha sensação de perda invadiu o peito de Fani-
nha. A lua estava cheia, mas ela se sentia pela metade. Faninha
não sabia que estava se despedindo de sua mãe, e sua mãe tam-
pouco pôde ter a certeza de que estava falando com sua filha.
Faninha observava tudo, tudo era muito novo, como ela própria.
Tinha apenas dois dias de vida, e um mundo inteiro para desco-
brir à sua volta. Olhando para a lua, pensou rapidamente no dia
que terminava. Instintivamente, se curvou, pois entendeu que
devemos sentir gratidão por tudo o que acontece em nossas vi-
das. Pensou naquela borboleta, e concluiu que devemos aceitar
as coisas que não podemos mudar, mesmo sem poder entendê-
-las. Devemos seguir adiante e ter coragem para viver o próximo
dia. O vento das horas não cessa. Ainda curvada, Faninha sus-
surrou para si mesma:
— Obrigada pelo dia que passou. Obrigada pelo alimento,
pelo sol e pelo vento. Obrigada pela lua. Obrigada por ter sido
poupada do sabiá e daquela lagarta arrogante. Obrigada por ter
vivido uma sensação tão gostosa e ao mesmo tempo tão triste,
| 29 |
O Curso da Lagarta

junto com a Flora. Senti um calor e um aconchego, como no


dia em que nasci. Também senti frio, e uma sensação de vazio,
como o dia que se vai quando a noite escura chega.
Depois dessa breve oração que ela mesma tinha inventado,
retomou sua incessante comilança. Partiu para o topo da ár-
vore, onde as folhas verdes eram mais vistosas, mais macias, e
incrivelmente saborosas.
Muitas vezes, achamos que somos os únicos a ter a cons-
ciência de um poder supremo, os únicos que podem sentir e ex-
pressar seus sentimentos, os únicos com inteligência. Enquanto
toda a história se desenrolava durante o dia, um girassol, no
meio das margaridas, acompanhava o sol em todo o seu per-
curso. Não teria algum tipo de consciência o pequeno girassol?
O girassol acompanha o sol, a lua acompanha a Terra e nós, da
superfície, acompanhamos a lua.
— Lua, por que você está assim? Ontem você estava um
pouquinho menor. Acho que você anda comendo demais — co-
mentou Faninha, olhando para cima.
— Não, minha querida... Eu também tenho fases, como
toda a criação. Você não havia nascido e eu estava na minha
fase crescente. Hoje estou cheia, brilho intensamente no céu da
noite, como um grande holofote nesse espetáculo que é a vida
— respondeu a Lua.
Você fala? Que legal! Nunca pensei que a senhora falasse! Será
que estou sonhando? — pensou Faninha, já adormecendo.
— Sim, minha pequena lagarta. É claro que você está so-
| 30 |
A lua

nhando. Somente nos sonhos eu posso falar. De outro modo se-


ria impossível, pois todos escutariam a nossa conversa, não é
mesmo? — a Lua levantou seus óculos escuros e piscou o olho.
— É verdade. Não teríamos nenhuma privacidade. Ninguém
me escutaria, pois sou pequena, mas a você, com seu tamanho,
todos escutariam, e ninguém dormiria — Faninha respondeu
sorrindo, de olhos fechados e sonhando. — Por que você está
usando esses óculos?
— Que pergunta mais sem noção! O sol está iluminando
todo o meu rosto, fazendo-o brilhar. Isso me deixa linda, mas
sem óculos escuros não consigo enxergar nada!
— Seus óculos são muito legais. Que doideira! Isso só pode
ser um sonho, mesmo.
— Você está sonhando comigo porque precisa de algumas
explicações. Seu segundo dia foi muito intenso, e a sua cabeci-
nha ainda está muito confusa. Relaxa, vou te explicar tudo —
disse a Lua, com ar de sabedoria.
— Já que o sonho é assim e não estou querendo acordar,
pode continuar. Só não vire um pesadelo! — retrucou Faninha,
franzindo a testa e de olhos fechados.
— Fases, minha criança. Tudo são fases. Quando você nas-
ceu, eu estava saindo da minha fase chamada de crescente. Ago-
ra estou cheia, e em uma semana vou minguar. Vou continuar
diminuindo de tamanho até perder todo o brilho, até entrar na
outra fase, chamada de nova. Nessa fase, ninguém me vê — ex-
plicou a Lua, como se fosse uma professora. De matemática!
| 31 |
O Curso da Lagarta

— Uau! Você vai desaparecer do céu? — perguntou Fani-


nha, ainda sorrindo e de olhos fechados.
— Não, menina! Lua nova é quando ninguém pode me ver.
O meu lado que recebe a luz do sol fica oculto, e o que não re-
cebe luz, o lado escuro ou negro, fica à mostra. Então, quando
estou “nova”, ninguém pode me ver. Com o passar dos dias, meu
lado que recebe luz começa a ficar visível, e entro na minha fase
crescente. Mais um pouquinho e estou toda luminosa, redondi-
nha e brilhante como agora. Entendeu?
— Cheia. Entendi. Aí você fica toda cheia de si — Faninha
comentou, fazendo graça com a Lua, que não gostou muito da
brincadeira.
— Boba – disse a Lua, sem muita paciência. — Eu e você
temos fases, todos nós passamos por fases. — continuou. — Tem
vezes que estamos completos e cheios de energia, nos sentimos
confiantes e invencíveis. Mas a vida vem e nos põe à prova; os
dias e as adversidades da vida fazem com que a gente fique mais
humilde e diminua o nosso tamanho, o nosso ego. E mingua-
mos. É nessa hora que percebemos que não somos deuses, que
não podemos tudo. E é quando nos damos conta do nosso real
tamanho e importância — completou a Lua.
— Precisamos passar por dias difíceis para dar valor aos
dias de muita abundância? — perguntou Faninha, concluindo,
ainda com uma certa dúvida.
— Sim, minha pequena. Os ciclos e as fases nos ensinam
muito. Fique atenta, e observe a natureza, pois ela é tão perfeita
| 32 |
A lua

quanto quem a criou — com essa última frase a Lua desapare-


ceu, e Faninha despertou do seu sonho.
Quem tinha criado a natureza? Isso a Lua não disse para
Faninha. Mas, se ela observar a vida, vai saber que, mesmo não
podendo ver quem a criou, saberá que existe o Poder Supremo.
E ele é único, ele é perfeito.

| 33 |
3. A grande teia
Q uando estamos focados em algo, perdemos a sensação do
tempo: é como se não sentíssemos se passarem os segun-
dos, minutos, horas, dias. A repetição das ações, a rotina, re-
força essa ideia, fazendo com que nos importemos apenas com
completar uma etapa, fechar um ciclo ou terminar uma fase —
como em uma fábrica, onde cada um desempenha seu papel, sua
função.
Como humanos, deveríamos saber nossas atribuições por aqui.
Não viemos para cá só para consumir todos os recursos naturais, até
porque não estamos sozinhos, nunca estivemos. Existe um Poder Su-
perior, que está presente em tudo e em todos. E Ele tudo sabe, porque
sempre foi e sempre será.
Nossa amiga, apesar de pequena, vive no mesmo mundo que nós.
Ainda está na fase de comer e, quando estamos nos alimentando, fica-
mos vulneráveis. O sabiá não é o único predador por essas bandas, pois
existe mais perigo ao redor de Faninha do que ela possa imaginar. Suas
escolhas podem desafiar a tênue linha que separa o perigo iminente da

| 35 |
A grande teia

doce e confortável segurança. Um pequeno descuido, e tudo pode estar


perdido.
O corpo de Faninha cresce em tamanho, tão rápido quanto seu
apetite. Mas, enquanto uns apenas comem, outros constroem arma-
dilhas para poder comer. O dia vai clareando, já se pode ver o or-
valho sobre as plantas. Nossa protagonista observa essas pequenas
gotas d’água, fragmentos de um elemento primordial para a vida no
nosso planeta, a água, servindo como uma lupa ou, se preferir, uma
lente de aumento.
— Gotas d’água flutuantes! Que incrível! — exclamou Fani-
nha.
— Flutuantes nada, sua boba. Faz favor, fica longe da minha teia.
Se cair nela vai estragar todo o trabalho da noite passada — disse uma
aranha gigantesca.
— Desculpe, mas não tenho intenção de lhe causar nenhum pre-
juízo, minha senhora. Para falar a verdade, já estava de saída — falou
Faninha, tremendo de medo.
— Então mete o pé, sai fora! Minha teia não vai aguentar tanto
peso! — assim que acabou de falar, a aranha deu uma grande risada, de
puro deboche.
— Ok, mas pega leve. Não tem necessidade de me tratar desse
jeito. E tem mais: não estou gorda, estou fortinha, ouviu?
Faninha mal terminou de falar e uma mosca foi capturada pela
teia de aranha. Com o impacto da presa na armadilha, centenas de
gotículas d’água caíram, criando uma chuva artificial instantânea que
molhou todos que estavam por ali.
| 37 |
O Curso da Lagarta

— Tratamento? O que você sabe sobre isso? Nós, da família dos


aracnídeos, somos especialistas em tratamentos — a aranha estava
bastante estressada com aquela situação, mas, ao ver sua presa sem
chances de escapar, se tranquilizou. E continuou: — Temos aqui uma
pequena Drosofila Melanogaster. Pode ser considerada uma sobreme-
sa energética. Vou começar meu trabalho, preste bem atenção. Nossa
técnica de armazenar comida inspirou os egípcios com suas múmias.
Aqui, no meu caso, vou embalsamar uma múmia comestível e light.
— Ei! E eu aqui? Ninguém vai falar comigo? Não tenho direito de
me expressar? Cadê os direitos dos insetos? — disse a mosca, em sua
própria defesa.
— Amiguinho! Deixa eu te falar uma coisa: depois que caiu na
minha teia, já era! Seu direito acabou!
— Apelo para a lagarta! Ela me parece um inseto mais centrado.
Percebo que ela pode mediar a situação aqui para tudo ficar numa boa.
Socorro! — gritou a mosca.
— Apelação negada — disse a aranha, imediatamente.
— Você não vai deixar a coitada da mosca falar nada? Nem eu
poderei ajudá-la? Misericórdia! — exclamou Faninha.
Nesse momento, a aranha fechou a boca da mosca com a sua
teia. Enrolando-a, preparou-a para ser degustada em uma outra
ocasião. Apesar de estar toda enrolada, a mosca ainda se debatia,
mas sem nenhum resultado. Já a aranha, estabilizada emocional-
mente por ter conseguido capturar sua vítima, olhou para a lagarta,
depois para sua presa e, por final, curvou-se e cumpriu uma espécie
de ritual.
| 38 |
A grande teia

— Faltava um toque final — murmurou a aranha.


— Como assim, toque final? — perguntou Faninha, sem enten-
der o que estava acontecendo.
— O toque da morte! — disse a aranha, e com uma rápida picada
matou a mosca. Depois, continuou envolvendo-a com seu fio e, final-
mente, levou-a para a parte mais afastada da teia, longe do centro, onde
a fixou.
Mais uma vez, a luta pela sobrevivência deixou Faninha espanta-
da. Pensando alto, ela se perguntou:
— Será que não existe outro meio de nos mantermos vivos? Te-
mos que nos alimentar uns dos outros? Sempre?
— Não fique me olhando como se eu fosse a única a devorar os
outros por aqui! — retrucou a aranha, com as mãos, perdão, com as
patas na cintura. — Olhe você... O que acha que está fazendo? Esta ár-
vore, apesar de parecer imóvel e incomunicável, também está viva. O
que nos coloca no mesmo patamar.
— Eu não disse nada, nem pensei em coisa alguma — falou Fani-
nha.
— Claro que não pensou. Ninguém neste planeta pensa,
pelo menos é o que parece. Essa nova geração de insetos não se
dá conta de que os alimentos estão ficando cada vez mais es-
cassos. Em vez de pensar, agem como zumbis; assistem a vida
passar e aceitam tudo passivamente, não aprendem nada com
outros insetos, os mais velhos e experientes, nem sobre o que
está à sua volta. Não sabem ler a vida — comentou a aranha,
indignada.
| 39 |
O Curso da Lagarta

— Como assim? Está me chamando de burra? — perguntou Fa-


ninha.
— Olha ali. Está vendo aquele monte de formigas deixando aque-
le barranco? — a aranha apontou para um barranco enquanto falava.
— Claro que estou vendo. E o que é que tem? São peregrinas, não
é mesmo? — perguntou Faninha.
— Ali não tem nada de peregrinação. Estão se mudando e levan-
do a rainha consigo. O lugar onde estão não oferece mais segurança,
pois aquele barranco vai desmoronar. Isso é o que chamo de “fazer lei-
tura” da vida. — explicou a aranha.
— Sabe o que eu acho? Você é uma aranha muito chata, velha e
ranzinza. Seu discurso é melancólico, tipo “no meu tempo é que era
bom...”. Ou então assim: “cara, naquela época é que as coisas faziam
sentido, esses jovens insetos são uns irresponsáveis...”
— Olha só! Vejam! Ela fala! Fala e acha que pensa! Não me enche,
seu monte de celulose, e me faz um favor: vai para o outro lado do ga-
lho. Ali, com certeza, encontrará outras como você, que não respeitam
quem tem mais idade e sabedoria. E só para o seu conhecimento, me
chamo Morgana e sou respeitada por aqui — falou a aranha, estufando
o peito.
— Jura? Então vou correndo para lá, Morgana — respondeu Fa-
ninha, com um tom de rebeldia.
— Isso mesmo, vai para lá, mas não pense que escapou da teia —
profetizou Morgana.
— Jamais cairei nessa coisa pegajosa que você faz e arma por aí,
até porque isso aí sai do seu fiofó! — respondeu Faninha, debochando.
| 40 |
A grande teia

A lagarta deu uma boa risada, mas a aranha não achou a menor graça.
— Você não sabe de nada. Já está na grande teia, só que ainda não
entendeu o jogo. Aqui só vive para contar a história quem luta para
sobreviver. Luta e vence. Acorda, Alice! O mundo não é perfeito, pelo
menos não da maneira que você entende a perfeição. Paz e equilíbrio
são conquistados com muito esforço, e isso tem um preço — disse Mor-
gana.
— Alice, não! Faninha, ouviu?
— Tanto faz como você se chama. Vai embora e não me gasta.
Aproveita que estou calma! — Morgana respondeu, e voltou à sua roti-
na, retornando para a sua teia e começando a restaurá-la.
Hora de sair fora, pensou Faninha. A aranha já estava fican-
do agressiva, e era melhor não apostar na sorte. Enquanto Faninha
saía de cena, pensou no que a “gigante peludinha” havia lhe dito.
Ela, a aranha, não estava mentindo. Precisamos comer para sobre-
viver, comemos muito e comemos uns aos outros. Será que existe
um lugar onde isso não seja necessário? Insetos e bichos comem
e dormem, mas não param seu dia para ficar pensando em coisas
desse tipo. A natureza deles não questiona nada. Serei um ser fora da
curva? Da grande teia? — pensou nossa lagarta, enquanto se afastava
da aranha.
— Quando poderei viver em paz e ficar tranquila? — balbuciou
Faninha enquanto caminhava.
— Pensando alto, lagarta? Ou está falando sozinha? — disse uma
voz que partia de um galho bem abaixo de onde Faninha estava. E era
uma voz bem estranha, afetada e cheia de entonação.
| 41 |
O Curso da Lagarta

— Quem será agora? Primeiro eu converso com duas mos-


cas de fruta, depois com uma super e marombada lagarta. Final-
mente, descubro que uma voz que vinha da escuridão era de uma
borboleta. Até em sonho eu converso, e com a Lua! Depois sofro
bullying e sou ameaçada por uma aranha gigante, peluda e esclero-
sada enquanto ela preparava o seu lanche. O que me falta agora?
Ensandeci? Fiquei maluca?
— Minha linda... Andando por aí desse jeito e comendo igual a
uma porca, tadinho do bacon, meu Deus! Não vai fazer muitos amigos.
Venha para a luz, baby. Vou fazer você acontecer! Brilhar! — disse uma
voz saltitante. Era uma pulga!
— Peraí, minha coleguinha. Vamos com calma com essa história.
Eu nem te conheço! — falou Faninha para aquela coisinha.
— Ignorante. I G N O R A N T E!
— Ignorante, não! Que mania chata é essa de chamar os outros de
qualquer jeito? Vou reclamar com o cara que está escrevendo este tex-
to! — ameaçou Faninha. Falando comigo! — Chefe! Mais criatividade,
ok?
— Ok, vou melhorar — isso fui eu quem disse, galera!
— Voltando aqui... onde eu estava mesmo? Isso! Eu tenho nome,
me chamo Faninha. E você, como se chama?
— Quanta educação, queridinha! Eu me chamo Clair, e posso ser
a sua Personal Stylist.
— Como assim? Não preciso de Personal StylistI ou seja lá o que
isso quer dizer. Não preciso de nada! — exclamou Faninha muita can-
sada.
| 42 |
A grande teia

— Bom, se é assim, posso ser sua bicha de estimação... Perdão!


Bicho de estimação.
— Está mais para bicha, mesmo. Afinal, você é uma pulga, não
é? — comentou Faninha, sem maldade.
— Sim, mas não seja preconceituosa comigo, está bom? Pulgas
também são muito sensíveis. Somos bipolares, e é por esse motivo que
estamos sempre pulando. Estou sozinha, desesperada e com muito
medo. Pensei que poderia acompanhar você até encontrar o meu des-
tino.
— Desde que não fique pulando na minha frente... sem proble-
mas — disse Faninha, sem dar muita atenção.
— Eba! Você é demais. Quer ser minha irmãzinha?
— Por quê? — perguntou Faninha, olhando para trás.
— Somos tão parecidas... você não acha? — disse Clair, andando
um pouco mais rápido para ficar ao lado de Faninha.
Faninha parecia ter encontrado alguém com vontade suficien-
te, e bastante animada para acompanhá-la em sua jornada. Será que
elas iriam se dar bem? Tudo indicava que sim. Afinal, eram tão pa-
recidas...
— Posso te contar a minha história? — perguntou Clair.
— Sim. Se não for uma história triste do tipo novela mexicana,
pode sim — respondeu Faninha, com um pequeno sorriso.
— Joia! — disse Clair, animada. — Tudo começou há algum tem-
po. Minha mãe teve uma ninhada de pulguinhas e morávamos atrás da
orelha de um grande cachorro. Não demorou muito tivemos que nos
mudar. Foram dias difíceis.
| 43 |
O Curso da Lagarta

— Imagino. Toda mudança traz um desconforto — comentou Fa-


ninha.
— Bota desconforto nisso! Andamos bastante naquele dia. Na
verdade, pulamos. Foram os meus primeiros pulos. Chegamos até o
rabo do cachorro, e sei disso porque o cheiro era muito ruim — contou
a pulga, fazendo uma carinha muito zoada.
— Acredito. O rabo fica bem perto do fiofó... — brincou Faninha.
— Sim. Foi aí que nos separamos. Cada um foi para o seu lado.
Nunca me esqueço da última frase da minha mãe... — Clair olhou para
o alto, enquanto se emocionava.
— O que foi que ela disse? — perguntou Faninha, bastante curio-
sa.
— Ela disse que “não importa o quanto estejamos longe uns dos
outros, jamais esqueceremos os bons momentos que tivemos em fa-
mília. Essa lembrança ficará para o resto de nossas vidas, e o afeto que
tenho por vocês norteará os seus corações” — disse Clair, suspirando
profundamente.
— Lindas palavras — disse Faninha.
— Obrigado. Já posso te considerar uma amiga? — perguntou a
pequena pulga.
— Sim! Afinal, somos muito parecidas, não é mesmo? — Faninha
respondeu, com um grande sorriso e muito feliz, pois tinha encontra-
do alguém para acompanhá-la em sua trajetória.
Nosso capítulo desenrolou-se com tamanha rapidez que nem
percebemos o tempo passar. O dia seguiu sua rotina e nem perce-
bemos isso. A essa hora, já estava preparando sua cama, e a Lua foi
| 44 |
A grande teia

aparecendo, um pouco menor do que ontem. Logo que escureceu,


passou uma estrela cadente riscando o céu da noite, desenhando
uma linha branca.
Quando isso acontece, podemos fazer um pedido. Já fiz o meu:
quero que a história continue assim, cheia de surpresas. E você?

| 45 |
4. Amigos e conhecidos
A ndar por aí sozinho é muito chato. Só sabemos se somos fe-
lizes ou não quando estamos em companhia de alguém, ou
seja, a verdadeira felicidade só pode ser vivida se você a comparti-
lha com outra pessoa.
Faninha arrumara uma parceira para sua aventura. A rotina
de comer agora era dividida com a presença, sempre saltitante, da-
quela pulga minúscula. Mas não existe um velho ditado, afirmando
que “tamanho não é documento”?
— Então, você tem quatro dias de vida e já viveu isso tudo?
Sinto que grandes emoções nos aguardam. — disse Clair, com um
ar de empolgação.
— Grandes? Isso não é uma indireta, ok? — comentou Fani-
nha, sem entender muito bem o sentido daquela frase.
— Claro que não! O fato de você ter umas vinte vezes o meu
tamanho não me incomoda. Não tenho complexo de inferioridade.
Por falar em incômodo, você não está se sentindo apertada? Olha
isso aqui! — Clair puxou um pedaço de pele da lagarta enquanto

| 47 |
O Curso da Lagarta

falava. — Menina! Você está na sua primeira muda! Parece que a


minha amiga comilona vai trocar de pele pela primeira vez... — a
pulga continuou falando, exibindo em seu rosto um enorme sorriso.
— O que é isso? Estou ficando doente? Estou doente? — Fani-
nha respondeu, assustada.
— Calma, baby. Não é nada disso. Simplesmente, você está
crescendo demais, e seu “corpitcho“ está crescendo mais rápido que
a sua pele. Muita calma nessa hora. Vamos retirar delicadamente
esse tecido velho, pois já tem uma nova roupagem por baixo — res-
pondeu Clair, tentado acalmar sua amiga.
Crescer é uma etapa que nunca termina em nossas vidas.
Mesmo quando o corpo para, nossas mentes evoluem, seguem
crescendo com os novos aprendizados e experiências por que
passamos. Esse processo é intenso no início de nossas vidas. Co-
memos muito, dormimos bastante e crescemos um pouquinho
a cada dia. Muitas vezes, as mudanças deixam nossa aparência
bem estranha: braços e pernas ficam longos demais em relação
ao resto do corpo, a voz muda, a barba e o bigode que antes
não existiam crescem, os outros pelos também. Com o tempo,
as mudanças ficam mais lentas. Mas, como já dissemos antes,
crescer é um evento contínuo.
— E isso vai doer? — perguntou Faninha, com medo.
— Nem um pouco. Deixa comigo! Adoro tirar casquinha de
ferida. Recentemente, terminei um curso sobre essa especialidade
na internet. Ensino à distância! — disse Clair, com a confiança de
quem sabe o que está fazendo.
| 48 |
Amigos e conhecidos

— Jura? Concluiu com que nota? — rebateu Faninha.


— Fala sério! Você não tem senso de humor! Não existe esse
tipo de curso pela internet! Mas quem sabe um dia? São tantos
os cursos, que não duvido nada. Agora fica quietinha, enquanto
vou retirando a sua pele, amiguinha — Clair, que adorava reti-
rar casquinhas, ficou entretida durante a manhã inteira fazendo
aquilo. — Mais uma coisa. Já te chamaram de “Largata”? — disse
Clair, rindo bastante. — É muito engraçado, não é mesmo? Lar-
gata...
Enquanto Clair descascava — no bom sentido, é claro — a
nossa protagonista, ela, Faninha, continuava sua repetida e viciosa
ação de comer.
Perto dali, um zumbido crescia e se aproximava. Era Zaratus-
tra, um mosquito problemático, muito conhecido naquela região.
Tinha, coitado, nascido dentro de um copo de cerveja que haviam
deixado perto da biblioteca municipal. Ao avistar as duas figuri-
nhas, tratou de pousar na folha que estava logo acima, caprichando
no pouso para chamar a atenção das duas.
— Então, o que temos aqui? Duas consumistas de primeira ca-
tegoria! Uma que não para de comer e, sem pensar, vai devorando
tudo que é verde pela frente. Bom, a outra está na condição de servi-
çal, submissa a tudo e a todos, emprestando os seus serviços e o seu
precioso tempo a um fim banal — discursou o mosquito Zaratustra.
— Do que é que ele está falando, Clair? — perguntou Faninha.
— Não lhe dê ouvidos. Continue comendo, enquanto eu
deixo você novinha em folha. “Novinha em folha...” Rsrs. Ficou
| 49 |
O Curso da Lagarta

bem estranho de dizer, você não acha? — Clair brincou com as


palavras.
Enquanto isso, o mosquito metralhava as duas com suas frases
feitas e seu discurso empoeirado.
— É como eu pensei, duas folhas em branco. Não há nada para
se ler ou aprender com vocês duas. Mas acho que posso ajudá-las...
Meu nome é Zaratustra. Como se chamam? — perguntou o mos-
quito, com um ar de imponente de superioridade.
— Até que enfim um pouco de educação. Sou Clair. E, diferen-
te do que você imagina, sou uma pulga viajada, inteligente e bem
resolvida. Ouviu, sua figurinha? E essa aqui é minha protegida, Fa-
ninha, uma lagarta muito especial.
Zaratustra percebeu que não tinha ido muito bem na sua introdu-
ção. Apesar de sua chegada repentina, eu diria até cinematográfica, e do
seu jeito extravagante, e de ter um grande bigode, não tinha conquista-
do a plateia. Bichos assim são chatos demais. Acham que são melhores
que os outros, que podem ser como Deus. Humildade não faz mal a
ninguém, e o nosso visitante repentino desconhecia o que é isso.
— Amigas, o que querem saber? Sou um mosquito das artes,
filosofia, línguas, teologia, e quiçá pesquisador dos grandes misté-
rios da vida. Posso ser o vosso oráculo.
— Beleza. Então me dá os números da Mega-Sena! Vou adorar
saber, vou pular até a Lua se você me disser — brincou Clair.
— Ah! Eu quero saber se terei filhos, ó grande oráculo. E se
eles vão ser inteligentes como você — Faninha também respondeu
na base da brincadeira.
| 50 |
Amigos e conhecidos

— É... Porque se forem desse jeito aí, misericórdia! — comple-


tou Clair, sem muita paciência.
— Não nesse sentido... Não me peçam coisas que não podem
ser explicadas pelo bom senso ou razão. Não sou adivinho. Sou in-
telectual, um mosquito sábio. Vocês nem sabem o que estão comen-
do, as substâncias que estão embutidas na alimentação de vocês. Sa-
bem o que são “agrotóxicos”? Duvido que saibam de alguma coisa
que valha a pena — resmungou Zaratustra.
— Está legal. Diga, então, o que você sabe sobre a vida? Qual é
o sentido dela? — questionou Faninha, já meio ansiosa.
— A vida, com essa quantidade de química sendo despejada
na natureza, não é uma vida saudável, podem ter certeza disso —
afirmou com propriedade o mosquito.
— Não dá corda para ele, Fan. Ele vai ficar falando até perder
o fôlego, ou pior, vai falar até deixar os nossos ouvidos inchados e
vermelhos de escutar tanta abobrinha — completou Clair.
— Está certo. Vou dizer algumas “abobrinhas” para vocês.
Você é uma pulga, fato claro e inequívoco. E se não encontrar logo
um cão para beber um pouco do sangue dele, não vai aguentar, não
sobreviverá por muito tempo. Já sua amiga tem uma longa jornada
pela frente. Continuará comendo por mais alguns dias, depois dor-
mirá por uma semana, talvez duas. Então, despertará e voará para
o seu destino — Zaratustra continuou falando tudo o que sabia a
respeito de pulgas, lagartas e borboletas. Deu ênfase à questão am-
biental, disse que o planeta não aguentaria os abusos dos bípedes
gigantes, que estavam modificando a superfície da Terra.
| 51 |
O Curso da Lagarta

Ele bem que tentou, mas não conseguiu impressionar as duas.


Elas bem que ouviram, e lhe dedicaram alguma atenção, mas não
como ele queria. Com essa reação, ou melhor, sem a reação que Za-
ratustra estava esperando que as duas tivessem, nosso mosquito pi-
rou na batatinha.
— Ninguém mais tem o desejo de saber das coisas. Para que
estudar, se não há interesse em conhecimento e cultura? — parecia
que ele pararia por ali, mas Zaratustra encheu o peito e continuou
com seu discurso. — São todos uns boçais. Eu sou um gênio, um
sábio, não mereço viver rodeado de tanta ignorância. Os recursos
utilizados pelos bípedes gigantes deveriam ser destinados aos bi-
chos e insetos mais evoluídos intelectualmente, como eu — con-
cluiu Zaratustra.
— Amiguinho! Qual é o seu problema? — perguntou Clair.
— Eu? Não tenho problema nenhum! Vocês é que têm proble-
mas. Terão sempre problemas, por não terem conhecimento e pre-
paro intelectual — respondeu o mosquito, com desprezo.
— Você vai me desculpar, meu caro filósofo, mas você tem pro-
blemas, sim. Quer a nossa atenção porque tem baixa autoestima.
Acha que tudo que sabe é necessário, sabe dos outros, mas não sabe
de si mesmo. Fale um pouco de você! — desafiou Clair.
— Não é importante. Meu ego não precisa que eu fale dele.
Mas se querem que eu diga algo com alguma valia, vou expressar
um pensamento meu. Escutem: “O medo é o pai da moral” — disse,
orgulhoso, o mosquito.
— É mesmo! Então vira e mexe o pai da moral está por perto.
| 52 |
Amigos e conhecidos

Ultimamente, tenho sentido medo com frequência. O que acha dis-


so, Clair? — perguntou Faninha, dando as costas para Zaratustra.
— Sua pele velha estava te deixando com um aspecto horrível.
Acho que deveria cuidar mais dela. Existem algumas plantas que
produzem um óleo muito bom para manter a saúde da pele — Clair
também deu as costas para o mosquito e ficou conversando com
Faninha.
— Não, Clair, não estou falando de mim. Estou te perguntan-
do sua opinião sobre o que ele disse.
— Uma grande bobagem. Medo é medo, e a moral é o que é.
Moral é um conceito de um grupo de bichos como nós, tem relação
com a cultura e com nossas crenças. Pensar que o medo é pai da
moral é, no mínimo, um traço esquizofrênico — respondeu Clair.
— Essa pulga me chamou de esquizofrênico! É sempre assim...
Ninguém me entende, são todos uns grandes imbecis. Não mereço
passar por tanta humilhação! O que me resta é o convívio com seres
inferiores, que não querem receber a luz do meu brilhante conheci-
mento... Saudades da traça... Ela sim, sabe tudo!
Zaratustra levantou voo. Saiu dali bufando e falando um mon-
te de palavrões. Desorientado, não percebeu que um objeto gigan-
tesco vinha em sua direção. De tanto reclamar da vida, alguém o
tinha atendido... Não sofreria mais por ser tão superior aos outros!
Tzizizzzz...
— Meu Deus! O que aconteceu com ele? Foi um raio? — per-
guntou Clair, olhando para cima.
Zaratustra tinha sido eletrocutado por uma raquete elétrica,
| 53 |
O Curso da Lagarta

dessas que se parecem com raquetes de tênis e são vendidas nas ruas.
Um bípede gigante interrompera a trajetória do mosquito falante.
Clair e Faninha assistiram a tudo, e a cena as deixou apreensi-
vas. O que sobrara do mosquito caiu... uma parte caiu à esquerda e a
outra à direita, como tinha que ser, deixando uma trilha de fumaça.
— Clair, me diz uma coisa... — pediu Faninha. — Como uma
pulga como você pode ter tanta sabedoria? Digo isso porque você
me surpreendeu, com sua réplica ao mosquito. Ele ficou desconcer-
tado!
— A verdadeira escola é a vida, Faninha. Podemos ler muitos
livros, saber muitas coisas, mas se não tivermos bom senso e acei-
tarmos a vida como ela é, todo saber pode se tornar inútil. Não li
tanto quanto ele, não tenho a super formação que ele tinha, mas
sei ler a vida nos seus mínimos detalhes, percebo as suas nuances.
Não se pode viver com tanta amargura e raiva no coração. Isso é tão
ruim quanto os agrotóxicos de que ele nos falou com tanta insistên-
cia. Sentimentos ruins poluem o nosso coração — completou Clair,
com extrema sabedoria.
O dia estava dando lugar ao crepúsculo. Nuvens carregadas se
aproximavam, uma tempestade estava a caminho. Clair e Faninha,
instintivamente, foram em direção ao tronco da árvore e ali ficaram
até anoitecer. Os raios que caíam ao longe traziam a lembrança do
que havia acontecido ao mosquito Zaratustra. Tudo pode estar por
um fio, então é melhor não ficar reclamando demais da vida.
Apesar de tudo de chato que Zaratustra tinha dito, sobre uma
coisa ele estava coberto de razão: temos que reduzir o impacto do
| 54 |
Amigos e conhecidos

homem sobre o meio ambiente. O planeta precisa de cuidados, o


progresso não pode representar o fim de inúmeras espécies de plan-
tas e animais. Essa ideia deve ser compartilhada com todos. Somen-
te com uma discussão em âmbito mundial é que poderemos mudar
as coisas por aqui.
— Clair, sabe de uma coisa?
— O que, minha amiga “Largata”? — respondeu Clair, brin-
cando, com outra pergunta.
— Gosto muito de você, pipoca! — devolveu Faninha, com
uma boa risada, ao mesmo tempo que observava a chegada de uma
grande tempestade.
A cada diálogo, a cada experiência, as duas ficavam mais pró-
ximas, mais amigas, e, com isso, mais seguras. Quando dois bichos
— ou insetos, se preferirem — constroem uma amizade baseada na
confiança e parceria, tudo começa a dar certo, e a nossa história tem
a cara das duas. Mas tudo ainda está começando, como a tempesta-
de que se aproxima.

| 55 |
5. A tempestade e o arco-íris
J á bem alojadas em um buraco no tronco, Clair e Faninha ob-
servavam a chegada da tempestade. Violentas rajadas de ven-
to açoitavam o ar, um assobio agudo transpassava os ouvidos das
duas. Tudo que estava de pé pendulava, ora para a esquerda, ora
para a direita.
A escuridão reinava absoluta, a não ser pelos breves e instantâ-
neos clarões que eram seguidos de fortes estrondos. Paradoxalmen-
te, nossas amigas assistiam agarradas uma na outra a um espetáculo
visual e sonoro fora de qualquer proporção, silenciosas e imóveis,
como duas estátuas.
— Clair, nós vamos sobreviver? — perguntou Faninha, muito
assustada com o que via e ouvia.
— Se o tronco não estiver podre, a chuva diminuir e os raios
não nos acertarem, acho que sim — respondeu Clair, falando bem
devagar, quase parando.
— Só isso? Que sorte a nossa! — Faninha completou, sarcástica.
— Não fique debochando, Faninha. Estou falando sério!

| 57 |
A tempestade e o arco-íris

Nós temos sorte, sim, estamos juntas e vivas, enquanto muitos já


partiram deste mundo e estão no além. Já passei por uma tempestade
assim. O melhor que podemos fazer é esperar aqui, exatamente como
estamos fazendo — Clair falou com autoridade. As duas ficaram em
silêncio por um bom tempo.
Naquele momento de crise, enquanto os raios e trovões brilha-
vam no céu, Faninha abraçava sua pequena amiga, e isso fazia com
que o seu coraçãozinho se acalmasse. Como é bom ter amigos de
verdade, que nos apoiam quando estamos em perigo! São eles que
fazem e nos farão companhia nos momentos mais difíceis de nossas
vidas.
Amigos verdadeiros são para sempre. Olhando as coisas sob
essa perspectiva, Faninha se sentiu rica, importante e com muita
sorte. Tinha alguém que se importava com ela e dividia os seus dias,
fossem bons ou ruins. 
— Clair... — Faninha quebrou o silêncio, falando sem se me-
xer, absolutamente imóvel, enquanto observava o espetáculo da na-
tureza.
— Fala, baby — mais relaxada, Clair encostou sua cabaça em
Faninha.
— Por que a natureza precisa ser tão agressiva e violenta? Olha
o estrago que ela está fazendo! Até os bípedes gigantes, terríveis
predadores, ficam com medo dela — perguntou Faninha, depois de
observar como os humanos temiam as tempestades.
— Faz parte do jogo da vida. É muito fácil sair-se bem quando
está tudo calmo e tranquilo. Somente nas adversidades é que somos
| 59 |
O Curso da Lagarta

postos à prova, e é nessa hora que a vida faz sua seleção natural.
Ninguém escapa disso, nem mesmo os bípedes gigantes — teorizou
Clair, respirando profundamente.
— E o que faremos se conseguirmos sobreviver à tempesta-
de, Clair? — Faninha, ainda tensa e perdida, questionou Clair, que,
bem mais tranquila, tentou acalmar a jovem lagarta.
— Não fique ansiosa por respostas agora. Apenas tente se tran-
quilizar. Viveremos para contar muitas histórias, e esta será apenas
uma de tantas por que passaremos juntas. Quem sabe não escreve-
mos um livro contando as nossas aventuras? Seria bem legal, você
não acha? A pulga e a lagarta.... Ou, quem sabe: A lagarta aprendiz e
a sábia pulga... — Clair tentava descontrair Faninha, que ainda não
tinha sossegado.
— Não tenho muito o que contar. Sou muito jovem, mas ja-
mais esquecerei esse dia. Sinistro! Esses troços rasgando os céus e o
barulho que eles fazem é de dar medo a qualquer um. Você já pas-
sou por isso e não sente tanto medo, mas esta é a minha primeira
vez! — explicou Faninha.
— Medo... Esse é o tipo de emoção que não gosto de sentir,
mas acho que não tenho muitas opções no momento, a não ser que
você faça uma declaração de amor para mim, tipo, “você é minha
melhor amiga”.
— Ok, Clair! Você é minha melhor amiga! O engraçado disso
tudo é que você é a única amiga que tenho, então só pode ser a me-
lhor...
— Rsrsrs... — as duas deram boas risadas.
| 60 |
A tempestade e o arco-íris

Enfim, tivemos um momento de descontração. Clair e Fani-


nha riram bastante e, com isso, expulsaram o nervosismo que as
atormentava. Por outro lado, a tempestade já não monopolizava
a atenção das duas. Naquele breve momento, importava apenas a
amizade e o carinho que uma tinha pela outra.
A tempestade foi passando, o dia raiando bem devagar, e as
duas dormiam como dois anjinhos. Uma manhã cheia de cores es-
tava nascendo, absolutamente linda.
Clair foi a primeira a acordar, enquanto Faninha permaneceu
quietinha. Clair foi até a ponta da última folha que restava daquele
galho, olhou à sua volta e ficou impressionada com a devastação que
a tempestade tinha provocado. A casa do bípede gigante tinha per-
dido algumas telhas, o galinheiro havia tombado, a pick-up estava
coberta de galhos e as margaridas sujas de lama.
— Meu Deus, escapamos mesmo! — disse Clair, depois de ter
investigado tudo à sua volta.
— Quem? Onde? Quando? — Faninha acordou de um sono
profundo, completamente atordoada e confusa.
— Calma, baby, tudo sob controle. Apenas meio planeta foi
abaixo. Estou aqui tentando contabilizar o que aconteceu com este
nosso pequeno mundo — Clair respondeu à amiga, mas manteve o
foco em sua investigação.
— Jura? Como assim? — Faninha permaneceu “boiando” no
assunto.
— Não vejo nenhuma galinha, e eram muitas! Se não morre-
ram durante a tempestade, devem ter fugido. O gigante terá muito
| 61 |
O Curso da Lagarta

trabalho para colocar seu jardim em ordem, porque isso aqui está
uma verdadeira bagunça! — respondeu Clair, depois de analisar
com cuidado o que a tempestade havia provocado naquele lugar.
— Melhor pensar assim. Nada de mortes hoje — Faninha ten-
tava manter a tranquilidade.
— Verdade, colega. Vamos voltar ao dia a dia, nada pode nos
abalar. Bola para frente, que atrás vem gente — Clair embalou o dia
que se apresentava.
Vida que segue. Imediatamente, as duas retomaram sua ro-
tina. Faninha começou a devorar as folhas verdes que apontavam
para o norte, enquanto sua amiga pegava uma carona em suas cos-
tas. No céu ainda havia nuvens, algumas de chuva, e quando o sol
conseguia brilhar sem nenhuma interferência, um enorme arco-íris
aparecia logo à sua frente. Era um espetáculo inédito para a lagarta.
— Nossa! Que lindo, Clair! O que é isso? Como se chama? —
interrogou Faninha, completamente fascinada com o que via.
— Minha querida aprendiz, isso se chama “arco-íris”. É um
efeito especial, produzido nos estúdios da Disney. Temos que usar
óculos 3D para sentir isso bem de perto. São tantas emoções... —
brincou Clair.
— Verdade? — Faninha deu a impressão de que acreditava na
pulga.
— Como você é tola! Não acredite em tudo que as pessoas di-
zem, nem em tudo que está escrito no Google ou no que passa na
telinha da TV. Desenvolva o seu senso crítico. Procure responder às
suas próprias perguntas, em vez de perguntar o tempo todo. Você
| 62 |
A tempestade e o arco-íris

parece uma criança, que só sabe perguntar. Mas, na verdade, minha


amiga, é o que você é! Me desculpe se fui grosseira com você! —
desculpou-se Clair.
— Ok! — Faninha aceitou as desculpas, numa boa.
— Prosseguindo... agora falando sério: o que você está vendo
é, na realidade, um fenômeno óptico — Clair desceu das costas de
Faninha e ficou entre a amiga e o arco-íris.
— Uau! Explica essa paradinha para mim — Faninha ficou
sentada e atenta, aguardando uma explicação.
— Vamos lá. A luz natural, ou seja, a luz do sol, é branca, e
quando ela atravessa uma coluna de água, se decompõe em todas as
cores do espectro visível — Clair fez um movimento com a mão em
arco enquanto explicava.
— Não tem uma explicação menos técnica para isso? Põe uma le-
genda para eu entender... — Faninha não conseguia entender a pulga.
— Vou tentar explicar de uma outra maneira. A luz do sol,
branca, é composta pela soma de todas as outras luzes de cores dife-
rentes. Quando a luz branca passa pela chuva, as gotas d’água sepa-
ram as luzes de cores diferentes em faixas, como você pode observar
— Clair apontou para as faixas coloridas do arco. — É por isso que
estamos vendo todas as cores do espectro visível, como se fosse um
anel colorido. As cores do anel são o vermelho, o laranja, o amare-
lo, o verde, o azul, o índigo e o violeta. Se pudéssemos juntar todas
essas luzes coloridas novamente em uma só, teríamos de volta a luz
branca, a luz do sol.
— Essa é a explicação poética, Clair? — perguntou Faninha.
| 63 |
O Curso da Lagarta

— Não. Costumo pensar que existe um artista invisível com


um grande pincel, e que ele é capaz de pintar tudo o que vemos.
Assim, podemos seguir os dias sempre com a esperança de que as
coisas podem melhorar — Clair tentou uma outra abordagem.
— Gostei mais dessa explicação — sorriu a lagarta.
— Eu sei. Foi por isso mesmo que eu falei. Existem várias
histórias relacionadas ao arco-íris. Uma delas conta que no fim
do arco-íris podemos encontrar um pote de ouro! — continuou
Clair.
— Caraca! Será verdade? Bora buscar o pote! — Faninha se
animou.
— Outra história diz que foi o Grande Criador do universo
quem o fez. É a prova do grande amor que ele tem por nós. Essa eu
ouvi da traça... — Clair deu mais uma versão para o espetáculo da
natureza.
— Ele deve nos amar muito, mesmo. Esse anel colorido que
ele fez é a coisa mais linda que vi em toda a minha vida! — Fa-
ninha pareceu esquecer completamente o trauma da tempestade.
Durante um bom tempo, as duas ficaram entretidas com aquele
espetáculo visual. Era realmente um deslumbre, e quem já viu um
sabe do que estou falando. E por falar em “falar”, nossa amiga pul-
ga disparou uma frase que ficou fora de tempo, e Faninha foi pega
de surpresa.
— CINCO DIAS! — disparou Clair.
— O quê? Não entendi! — Faninha piscou o olho, olhou para
Clair e faz cara de quem acabara de ouvir algo sem o menor sentido.
| 64 |
A tempestade e o arco-íris

— Cinco dias, baby! É o tempo de toda a sua vida! Bom, pelo


menos até aqui... — Clair explicou.
— É verdade! Toda a minha vida se resume em cinco dias —
Faninha respirou fundo e fez uma breve reflexão, tão breve quantos
os dias de sua vida.
— Neném, neném, nenenzinhoooo — Clair deu uma zoada
em Faninha.
— Rsrsrs... — juntas, as duas deram umas boas risadas.
Mais uma vez, o bom humor da pulga dava a tônica da linda
amizade e parceria que ambas cultivavam entre si. E pensar que as
duas eram tão diferentes, mas tão diferentes, que se completavam.
As diferenças nos ensinam muitas coisas, e Clair, mesmo sendo uma
pulga, estava ensinando tudo para a Fan.
— Clair, posso te fazer mais uma pergunta? — Faninha fez
cara de carente.
— Pode — Clair olhou para ela, com compreensão e carinho.
— Você, há pouco tempo, disse que as galinhas haviam fugido
ou, na pior das hipóteses, estariam mortas por conta da tempesta-
de. Afinal, quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha? — Faninha
franziu a testa ao perguntar.
— Se continuar com perguntas assim, garanto que nascerá um
galo na sua cabeça — Clair respondeu rispidamente, sem paciência.
O dia estava terminando a galope, as luzes iam se apagando e
um grupo de vaga-lumes entrava em cena, assumindo o espetáculo
deixado por um lindo entardecer com seu arco colorido. Um ar nos-
tálgico se instaurava, grilos grilavam em um só tom, alternando-se
| 65 |
O Curso da Lagarta

e criando um ritmo aconchegante, compondo a trilha sonora para


o show pisca-pisca dos vaga-lumes.
A umidade deixada pela tempestade fazia-se presente, sua-
ve e fresca, e funcionava como um relaxante para a alma. Uma
moleza se instaurava nas duas “pestinhas”, que teimavam em não
dormir, como bebês.
— Faninha!! — chamou Clair.
— Fala, minha pequena saltitante — brincou Fan.
— Me abraça, estou sentindo um pouco de frio — dengosa,
Clair pediu um dengo para a sua colega.
— Pode deixar, minha pequena pulga saltitante e carente. Seu
super almofadão está aqui — Faninha se aproximou e abraçou sua
coleguinha.
— Rsrsrs... — não tem duas sem três. Mais uma vez, as duas
riram juntas.
Embriagadas de sono, as amigas se preparavam para fechar
os olhinhos. Tinha sido um dia meio tenso, com as consequên-
cias da tempestade que havia castigado para valer a região. Até
a casa dos bípedes gigantes tinha sofrido com os fortes ventos.
Inúmeros ninhos de pássaros foram atirados ao chão, mas no fi-
nal, tudo ficou bem para as nossas amigas. Mesmo porque existe
um ditado popular que diz: “Depois da tempestade, vem a bo-
nança”. O que, em outras palavras, equivale a dizer que não exis-
te só tempo bom ou só tempo ruim. O que de fato acontece é
uma alternância de bons e maus momentos, e por isso devemos
ter boa vontade, fé e esperança. Agindo dessa maneira, seremos
| 66 |
A tempestade e o arco-íris

capazes enfrentar as dificuldades da vida, exatamente como as


duas personagens da nossa história. E só de falar em sono come-
cei a bocejar... Acho que também vou tirar um cochilo. Vejo você
no próximo capítulo!

| 67 |
6. O mapa
O s dias passam rápido demais quando estamos vivendo as
coisas de maneira intensa. E apesar de estarem dormindo
agora, as nossas amigas estavam vivendo desse jeito, intensamente.
Faninha já caminhava para o seu sexto dia e, desde que tinha nasci-
do, não tinha parado de comer. Com isso, seu tamanho se multipli-
cou várias vezes. A pulga, por outro lado, não estava se alimentan-
do, e já apresentava traços de debilidade física. Se ela não comesse
logo, fatalmente morreria.
— Minha amiga, precisamos decidir algumas coisas por aqui.
Estou com algumas pendências, e acho que terei que me ausentar
por um tempo — Clair sacudiu Faninha enquanto falava.
— Zzzz... Zzzz... Zzzz... — Faninha permanecia imóvel, como
uma pedra.
— Ei, dá para acordar agora? — Clair insistiu, falou mais alto
e balançou sua amiga com força.
— O quê? Hã? Onde estamos? O que foi que aconteceu? — Fa-
ninha abriu os olhos, mas parecia não ter acordado ainda.

| 69 |
O Curso da Lagarta

— Que bom que você despertou do seu sono profundo. Posso


retomar o diálogo? — disse Clair, sem muita paciência, olhando nos
olhos de Faninha enquanto conversavam.
— Claro, foi mal... Eu estava presa no meu sonho — Faninha
tentou explicar enquanto acordava.
— Presa no seu sonho ou presa no seu sono? — Clair brincou
com as palavras.
— Sonho. Estava sonhando. Vi você em um circo dando o
maior espetáculo, todos te aplaudiam. Você era uma pulga co-
nhecida internacionalmente — Faninha descreveu, com empol-
gação.
— Ok. Quem sabe a nossa história vira um best seller e ficamos
famosas? Agora chega de sonhos, e vamos tratar de lidar com a rea-
lidade. Precisamos de um plano — disse Clair, ajudando Faninha a
se levantar.
— Um plano? Mas não é o título do próximo capítulo? Que eu
saiba estamos no capítulo do “mapa”.
Faninha fala demais. Ninguém mandou ela dizer o título do
próximo capítulo.
— Eu sei, mas ninguém faz um mapa sem um plano. Assim
não dá, vou reclamar com o cara que está escrevendo esse troço —
disse Clair.
Ok, Clair, reclamação recebida. Continue.
— Pow! Só estava te dando um toque. Parecia que você estava
confusa.
Faninha tinha acabado de acordar, pelo menos assim espero.
| 70 |
O Curso da Lagarta

— Não estou confusa. Agora chega! Precisamos decidir o lu-


gar mais seguro para você ficar, e tem que ser rápido. Estou ficando
fraca demais. Preciso de sangue! — gemeu Clair, pálida, num tom
meio de desespero.
— Não estou entendendo! Afinal, você é uma pulga ou uma
vampira saltitante miniatura? Brincadeirinha, vou ficar quieta ago-
ra. Pode falar — disse Faninha, bem-humorada. Mas Clair franziu
a testa e mostrou que não tinha gostado.
— Vou te explicar. Muito em breve você fará a sua segunda
muda — Clair respirou fundo e começou a explicar a problemática
do dia.
— E aí? — Faninha cortou Clair, pois não tinha gostado de ser
repreendida.
— E aí? Essa será a sua última muda. Depois dela, você deverá
estar pronta para a grande transformação — Clair gesticulava e fa-
lava alto, muito preocupada com a lagarta.
— Sei... Que mais? — Faninha continuava sem prestar muita
atenção ao que Clair estava dizendo.
— Bom, depois você começará a se sentir fraca e sonolenta,
e buscará um lugar para tirar um cochilo — Clair foi explicando,
pacientemente.
— Eba! — Faninha se animou toda com a ideia de voltar a dormir.
— Boba — Clair a repreendeu.
— Continua — disse Faninha, voltando a ficar desatenta.
— Quando você dormir, tipo, quando você se pendurar para
descansar... — Clair trocou “dormir” por “descansar”.
| 72 |
O mapa

— Pendurar? — Faninha estava estranhando aquilo.


— Isso, pendurar-se de cabeça para baixo — mostrou Clair,
plantando bananeira.
— Por quê? — Faninha olhou para a cena e continuou sem
entender.
— Sei lá! É assim que toda lagarta fica antes da metamorfose
— a pulga voltou a ficar de pé, demonstrando não saber tudo sobre
lagartas.
— Meta o quê? — Faninha fez uma cara estranha.
— Metamorfose. É durante esse período que você vai se trans-
formar em uma borboleta — disse Clair, virando as costas para sua
amiga. Estava ficando cansada de tanto dar explicações.
— Como em um passe de mágica? — Faninha especulou, dan-
do uma volta, feito uma bailarina.
— Não amiga, não mesmo. Você vai ficar pendurada de cabeça
para baixo, sua pele vai endurecer e ficar verde, da cor das folhas —
Clair respondeu, sem muita paciência.
— Hummm... Esquisito demais. Não estou gostando de nada
do que você está me dizendo — Faninha parou com a dança e fez
beicinho.
— Goste ou não, é assim que as coisas vão acontecer para você.
Já o meu caso é diferente: preciso me alimentar; do contrário, estou
perdida. Mas você parece não entender a gravidade da situação —
choramingou Clair.
— Clair, estou com medo! — Faninha finalmente pareceu en-
tender.
| 73 |
O Curso da Lagarta

— Fique tranquila, vou ficar com você até que esteja segura. Pala-
vra de pulga! — Clair se aproximou de Faninha e deu sua mão a ela.
Dito isso, a pulga falante pegou um pedaço de papel e alguns
fósforos riscados. Clair, quando pequena, tinha morado no cão de
um artista, e aprendido a arte do desenho e da ilustração. Era há-
bil em usar objetos estranhos para desenhar. De posse do fósforo,
começou a fazer uns desenhos estranhos e algumas anotações. Por
fim, disse a Faninha:
— Feito! Aqui está o nosso projeto. Observe bem o mapa. O
que você está vendo?
— A verdade? — Faninha pegou o papel, girou para a direita,
depois para a esquerda.
— Sim, o que você está vendo? — Clair estava ansiosa por sa-
ber o que sua amiga tinha entendido do desenho.
— Rsrsrs... — Faninha pôs o desenho na frente do seu rosto e
começou a rir de nervoso.
— Deixa de ser tola. Fala logo, desembucha. Tem mais: isso é
um desenho, e não um volante para você ficar girando de um lado
para o outro — Clair passou um sabão em Faninha.
— Estou vendo um monte de rabiscos, um quadrado, uma
margarida torta e umas palavras sem sentido. É isso! — Faninha
concluiu, devolvendo o desenho para Clair.
— Sem sentido! Preste bem atenção no que vou te dizer: sua
vida depende desses rabiscos e dessas palavras que você está vendo!
E se você não está entendendo, fica esperta, porque vou explicar
uma vez só.
| 74 |
O mapa

Clair apontou para o mapa que estava em sua mão. A lagarta


percebeu que a pulga estava bastante alterada, então ficou muda e
arregalou os olhos.
— O que você está fazendo? — Clair perguntou.
— Prestando atenção — Faninha falou, sem piscar os olhos e
sem se mexer.
— Não precisa fazer essa cara de maluca para mim, é só prestar
atenção no que vou te explicar. Relaxa! — Clair balançou sua amiga.
— Já é! — Faninha parou com a palhaçada e prestou atenção
de verdade.
— Ótimo. Estamos aqui nesse “X” — Clair apontou para o
canto esquerdo do mapa, na parte mais alta.
— Cruz. Estou vendo uma cruz — Faninha balançou a cabeça,
demonstrando que tinha entendido.
— Tudo bem, estamos aqui nessa cruz. Aqui é a casa. Está ven-
do o quadrado? É a casa — Clair continuou a explicar.
— Retângulo. Isso é um retângulo. Quadrados têm lados iguais
— Faninha reclamou, ainda balançando a cabeça e apontando para
o quadrado... Perdão, para o retângulo.
— O retângulo é a casa, e aqui, onde você vê um desenho
de margarida, é o jardim de margaridas, que fica ao lado da casa.
Esse outro quadrado... Não, esse outro retângulo, é a piscina vazia
— Clair não se importou com as correções da amiga e seguiu em
frente.
— Estou entendendo — Faninha balançou a cabeça nova-
mente.
| 75 |
O Curso da Lagarta

— Finalmente, aqui é a árvore, e aqui o velho carro do bípede


gigante predador — Clair olhou para Faninha para ver se ela tinha
mesmo entendido o mapa.
— Clair, você é uma artista. Agora estou entendendo tudo.
Você realmente conseguiu desenhar o mapa desse lugar — Faninha
bateu palmas para a colega.
— Fiz o meu melhor. Ainda bem que você gostou — Clair se
animou, se sentindo orgulhosa do próprio trabalho.
— Posso te fazer umas pequenas perguntas? — Faninha apon-
tou para o mapa, olhando Clair de lado.
— Sim, faça!
— O que é esse ponto aqui? — Faninha mostrou no papel.
— Faninha, depois que eu decidir onde você vai dormir, quer
dizer, descansar, seguirei para esse ponto, que é a casa do cachorro.
É aqui que vou ficar, quando você for se transformar em borboleta.
Espero que o cachorro ainda esteja por lá — respondeu Clair, e saiu
andando.
— Vai doer? — perguntou a lagarta.
— Não, cachorros não sentem dor, só incomodamos um pou-
quinho. Depois eles se coçam e mudamos de lugar. Assim, fica tudo
bem — Clair deu meia volta e andou na direção da Faninha.
— Não estou falando do cachorro, nem de como você vai fazer
suas próximas refeições. Estou falando desse processo que você cha-
ma de “metamorfose”. Isso dói? — Faninha se sentou, mais uma vez
preocupada com seu destino.
— Se isso dói? Não. Mas se não ficar quieta e não me deixar ra-
| 76 |
O mapa

ciocinar, vou dar uma bifa bem caprichada em você. Aí, sim, você vai
sentir dor. Pretendo vigiar seu processo de transformação. Por isso,
tenho que escolher um lugar de onde eu possa vê-la, a partir desse
ponto — Clair falou sem muita paciência, com o mapa nas mãos.
— Você está nervosa. Quer um batom? — provocou Faninha.
— Boba — Clair precisava pensar, e não deu muita atenção.
— Relaxa, já parei — Faninha se descontraiu, percebendo que
a amiga estava raciocinando.
Enquanto Clair coçava a cabeça e escolhia o melhor lugar para
lagarta ficar, um outro inseto se aproximou. Era uma simpática joa-
ninha vermelha de bolinhas brancas, com um lenço no pescoço e
óculos escuros.
— Boa tarde, meninas. Me chamo Rose, sou consultora astral
e já vou adiantando que o lugar está pesado. Precisamos fazer uma
limpeza por aqui. A primeira eu nunca cobro. Se gostarem, posso
fazer um pacote promocional — a joaninha se apresentou.
— Boa tarde, Rose. Eu e minha amiga lagarta não temos a in-
tenção de ficar muito tempo aqui. Então, não precisa se preocupar
com o peso que está sentindo. Quem sabe não é essa sua bolsa aí?
Tampouco estamos interessadas em nenhum pacote.
— Pega leve, Clair! Dona Rose, eu sou Faninha e a minha amiga
aqui se chama Clair — Faninha se levantou e se aproximou da joaninha.
— E se você não percebeu, Rose, estamos ocupadas com o nos-
so mapa! — disse Clair, sem nenhuma educação, e continuou an-
dando de um lado para o outro com o mapa na mão.
— Ora, ora, ora... Um mapa! Deixe-me ver isso. Hummm...
| 77 |
O Curso da Lagarta

Interessante. Você fez o mapa desse lugar e me parece que estamos


exatamente aqui, onde você desenhou um “X” — Rose, atrevida,
pegou o mapa da mão de Clair.
— Olha só, ela é inteligente! Eu te falei que era um “X”, e não
uma cruz — disse Clair olhando para Faninha, enquanto permitia
que o mapa ficasse com a nova visitante.
— Aqui é a casinha do cachorro onde você provavelmente vai
ficar, já que é uma pulga. Aqui, minha amiga lagarta, é o melhor
lugar para você dormir, descansar, até que se transforme em uma
borboleta.
Rose conseguiu ler o mapa com muita facilidade. Porém, acres-
centou uma observação, pegando um fósforo do chão e marcando
um ponto no mapa.
— Por que você escolheu esse lugar para a minha amiga? —
perguntou Clair, pegando o mapa de volta, muito intrigada com a
chegada de Rose, sua leitura e a indicação do melhor lugar para Fa-
ninha. Ficou parada, olhando para o mapa fixamente.
— Aqui é perfeito, minha cara pulga. O galho fica por baixo
das telhas da casa, é escuro e longe dos predadores. Sua amiga la-
garta estará segura aqui — explicou a joaninha, defendendo o seu
ponto de vista e andando em volta da pulga, bem devagar.
— Verdade! O lugar é perfeito, realmente perfeito! — Clair co-
locou a mão no queixo e reconheceu a perspicácia da joaninha.
— Não há de que, minhas amigas! — Rose ficou toda cheia de
si, confiante na sua performance. Afinal, sabia ler os astros e enten-
dia de energias astrais.
| 78 |
O mapa

— O B R I G A D A! — Faninha e Clair, juntas, agradeceram à


nossa nova personagem.
Que figurinha é essa joaninha! Já chegou tirando onda, e resol-
veu a questão de uma olhada só. Sorte das duas. Quem iria imaginar
que, depois de uma tempestade daquelas, alguém pudesse aparecer?
— Como sou a única que voa por aqui, pelo menos por enquan-
to, posso deixar a Clair na casa do cachorro, fazer um voo de reco-
nhecimento lá na calha para ver se tudo está belezinha, e, finalmente,
acompanhar Faninha até o local apropriado — Rose se ofereceu.
— Por mim está tudo bem. E para você, Clair? — Faninha
olhou para a pulga, esperando por sua aprovação.
— Acho que sim, pode ser, nossa inesperada visitante pode ser
útil. Só uma pergunta: o que te trouxe até aqui, Rose? — Clair estava
com uma pulga atrás de sua orelha de pulga.
Estranho ela usar essa expressão com uma pulga, mas ela pre-
cisava saber mais a respeito da nova personagem.
— Com certeza, não foram os seus lindos olhos azuis, minha
cara — Rose apontou numa direção. — Digamos que foram os bons
ventos do sul. A tempestade me apanhou no meio do caminho, não
tive muita escolha a não ser buscar abrigo.
— Hora de nos despedir. Mas, por favor, sem choro, porque de-
testo despedidas dramáticas — disse Clair, parecendo estar convenci-
da de que a joaninha era gente boa. Corrigindo: um inseto legal.
— Clairrrrrr... Humm... Snif! Vou sentir muito a sua falta,
amiga — Faninha deu um show na hora de se despedir de Clair.
— Eu sei, também vou sentir muito a sua! Mas, antes de nos
| 79 |
O Curso da Lagarta

separar, precisamos acertar algumas coisas — Clair abraçou sua


amiga, mas se afastou rapidamente.
— Como o QUÊ? — Faninha e Rose indagaram ao mesmo tempo.
— Precisamos de um plano. Sem ele, não conseguiremos che-
gar a lugar algum. E tem mais, precisamos nos certificar de que,
durante o seu período de transformação, nada lhe aconteça — Clair,
ansiosa, voltou a andar de um lado para o outro.
— Garantias! É tudo o que qualquer ser vivo deseja. E eu sou
parte dessa garantia — declarou Rose, tentando acalmar a pulga.
— Com certeza, você vai nos ajudar bastante. Aproveito para
lembrar que essa primeira ajuda é gratuita, foi você mesma que disse.
Clair era muito sem noção. Isso era hora de falar de dinheiro?
— Não terão que pagar nada agora, mas ficarei feliz se me de-
rem um presente — Rose dispensou o cachê.
— Um presente? O que você gostaria de ganhar? — Faninha
perguntou.
— Querida lagarta, olhe bem para mim. Percebeu? Tem que
combinar com o meu layout. Quero algo glamoroso, como um ca-
saco de pele ou, quem sabe, um sapato de salto bem alto e pele de
crocodilo, com bolinhas bege.
— Crocodilo? Bolinhas bege? — Clair olhou para Faninha,
perplexa, fazendo uma cara muito esquisita.
E esse plano, sai ou não sai? Enquanto as três se conheciam
melhor, o plano foi tomando corpo, e virou o assunto do nosso pró-
ximo capítulo.
Vai virar a página ou vai ficar me olhando com essa cara também?
| 80 |
7. O plano
C lair anunciou seu plano para Faninha. Rose estava pronta
para levar a pulga até a casinha do cachorro, e o dia prometia
muita aventura.
— Então, todos temos que seguir as nossas prioridades. Isso im-
plica uma separação momentânea. Nesse momento, preciso me ali-
mentar, e isso significa que preciso de um pouco de sangue — Clair
falou, completamente pálida.
— Cara! Você falando isso, com essa voz cansada, está engra-
çado, parece até uma vampira de filme de terror — Rose brincou,
tentando animar a trupe. Mas Clair não estava para muita animação.
— Rose! Pode ficar quieta! — Clair deu um corte na brincadeira.
— Humm — Rose apenas balbuciou.
— Joia. Prosseguindo, então. Enquanto eu recupero minhas
energias, você e Rose vão para a parte do galho que está coberto
pelas telhas. Lá é um lugar seguro — Clair apontou para o local
escolhido.
— Faninha está enorme, não tenho como levá-la pelo ar —

| 83 |
O Curso da Lagarta

Rose se desculpou por não ter a força necessária para transportar a


lagarta voando.
— Isso... Terão que caminhar até lá, nada de voar com ela —
Clair concordou.
— Show! — disse Rose, aliviada.
— Faninha está se aproximando da sua hibernação. Mais al-
guns dias e estará pronta. Enquanto isso, Rose, certifique-se de que
ela estará no lugar certo e bem alimentada. Ela não tem comido
bem nesses últimos dois dias... — Clair falou, com preocupação.
— Não tenho me alimentado bem? O que você quer dizer com
isso? — Faninha pôs a mão na cintura e indagou.
— Quero dizer que não buscou uma alimentação variada,
não comeu os itens da pirâmide alimentar de maneira balancea-
da — Clair explicou bem devagar o que estava tentando dizer.
— Você fala de um jeito que me faz sentir como uma criança
pequena — Faninha fez beicinho, ficou de costas e continuou recla-
mando.
— Mas você é uma criança! — Rose e Clair falaram ao mesmo
tempo.
— Isso aqui está ficando muito chato — Faninha ficou irritada
com as duas.
— Não importa, Fan. Amanhã você estará com sua segunda
muda de pele em curso, a última, o que te leva ao início da segunda
etapa... — Clair explicou, bem didática.
— É verdade, minha lindinha. Logo, logo, estará a caminho da
terceira: crisálida — completou Rose, dando uma pirueta no ar.
| 84 |
O plano

— “Cris” o quê? — Faninha se espantou, sempre desatenta, sem


entender o que as colegas estavam dizendo.
— Crisálida. Quando Rose voltar, ela vai te explicar direitinho. O im-
portante agora é cada uma fazer a sua parte. Em dois ou três dias eu volto,
amiga. Voltarei a tempo de te ajudar! — Clair, com pressa, mudou de assunto.
— Você promete? — disse Faninha, com medo.
— Palavra de pulga! Palavra de amiga.
Clair, sempre otimista, não perdeu tempo em afirmar para sua
amiga que voltaria para a última jornada, tão logo se alimentasse.
Nesse momento, as duas se abraçam, ficaram paradas por alguns ins-
tantes e depois se olharam.
— Cuide-se, Clair, te amo — Faninha se emocionou.
— Eu também, amiga. Voltarei em breve! — respondeu Clair,
igualmente tocada.
— Já chega de tanta despedida. Hora de partir — Rose acelerou
a despedida e se preparou para voar com a pulga.
Rose envolveu Clair com seu lenço e partiu em direção à casa do
cachorro. Enquanto isso, Faninha seguiu as instruções de sua amiga e
voltou a comer sem parar.
— Onde você tirou seu brevê de piloto? — Clair reclamou, inco-
modada pela turbulência durante o voo. — Se continuar desse jeito,
não chegaremos a lugar nenhum.
— Já voei para lugares que você nem imagina. Fica tranquila, por-
que sei o que estou fazendo. Segure-se, porque vamos pousar em alguns
instantes — Rose não deu muita confiança para a pulga e se preparou
para pousar.
| 85 |
O Curso da Lagarta

Enquanto a candidata a borboleta do ano comia sem parar, Clair


chegava ao seu destino, quase desmaiando. Olhou para a direita e de-
pois para a esquerda. Não viu nenhum predador. Depois disso, pulou
até o chão, bem em frente à entrada. Entrou na casa do cachorro e
sumiu.
Rose achou aquilo estranho e voou até lá. Chegando ao mesmo
lugar em que a pulga havia pulado, avistou um cão enorme, que esta-
va cochilando, e se tranquilizou. Respirou fundo e soltou o ar vagaro-
samente. Virou-se e tornou a voar, agora na direção da lagarta, e em
um piscar de olhos chegou ao galho onde Faninha esperava.
— Demorei muito, amiga? — perguntou Rose, ofegante.
— Não, você chegou bem rápido. E Clair? Conseguiu achar o
cão?
— Não se preocupe com ela, Faninha. O cão que ela arrumou
como hospedeiro é enorme, com tanto sangue disponível que ela fará
a maior festa. Voltará bem coradinha e saltitante — brincou Rose.
— Fico feliz em saber que ela está bem. Agora me explique di-
reitinho o que vai acontecer comigo. Que negócio é esse de crisálida?
Faninha se aproximou de Rose com bastante curiosidade. Vocês
podem não acreditar, mas parece que dessa vez ela vai prestar muita
atenção. Bom, assim espero...
— Acho que ainda é cedo para te falar — disse Rose, percebendo
a curiosidade de Faninha.
— Minhas mãos estão grudando. Por quê? Preciso saber de tudo
que vai acontecer comigo. Estou com muito medo! Então... me expli-
que aí esse negócio de metamorfose.
| 86 |
O plano

— Mudança de planos. Vamos logo para o lugar determinado.


Parece que a sua segunda muda já começou — Rose não se sentia à
vontade, pelo menos naquele momento, para explicar para Faninha
o que estava por vir.
As duas partiram para o galho que ficava protegido pelo telhado
da casa, que não estava muito longe de onde as duas se encontravam.
Rose pensou bem, achou uma maneira de fazer Faninha entender as
coisas e tratou de explicar tudo para a lagarta.
— Bom, apenas escute e não faça perguntas. O que eu sei sobre
lagartas que se transformam em borboletas é pouco, mas espero que
te ajude a entender o que está acontecendo, ok? — Rose falou com
firmeza, enquanto caminhavam.
— Hum.
— Isso é um sim? — perguntou Rose.
— Hahã — Faninha simplesmente emitiu um som.
— Joia. Quando você terminar de mudar de pele pela se-
gunda vez, terá pela frente ainda uns três ou quatro dias, aproxi-
madamente, antes de começar sua nova fase. Entendeu? — Rose
perguntou.
— Entendi — Faninha respondeu, baixinho.
— Beleza. Depois, você vai ficar presa de cabeça para baixo, uma
gosma sairá das suas patas e isso ajudará a te prender no galho. Seu cor-
po irá se desmanchar todo até que você se transforme e adquira uma ou-
tra forma, completamente diferente da que você possui hoje. Entendeu?
— Rose perguntou novamente, para se certificar de que Faninha estava
atenta à sua explicação.
| 87 |
O Curso da Lagarta

— Hahã.
— Essa gosma vai se espalhar por todo o seu corpo. Quando ela
secar, servirá de proteção para você. Ficará com uma cor verde, um
tom de jade. Enquanto isso, você vai se modificar lentamente, mu-
dando toda a sua estrutura, toda a sua forma.
— Legal! Vou emagrecer? — Faninha perguntou olhando para
o seu corpo.
— Se você vai emagrecer? Você se tornará uma pintura flutuan-
te, amiga. Poderá voar, ora para a esquerda, ora para a direita. Mas,
enquanto isso não acontece, precisará de uma defesa. Por isso, fica-
rá parecendo uma folha. Isso é o mimetismo, minha cara. Você será
confundida com as folhas da árvore, sacou? — Rose terminou sua
explanação confiante de que sua amiga tinha compreendido tudo.
— Show! Se vou poder voar é porque estarei esbelta! — Faninha
ficou feliz com a possibilidade de perder peso.
— Isso vai ser um grande disfarce, e os seus predadores não vão
te comer. Pelo menos, assim espero — completou Rose.
— Opa! Como assim? Que história é essa de comer? E eu lá sou
comidinha de algum tipo de bicho? — Faninha se estressou.
— Não se preocupe com isso. Se o seu disfarce não ficar convin-
cente, eu dou um jeito. Afinal, tenho formação artística. Posso fazer
uma linda instalação com você, junto a algumas outras folhas, e voilà!
— Rose tranquilizou a nova amiga.
— Um jeito? Você vai me transformar em obra de arte? Vai via-
jar na maionese, isso sim — Faninha se sentou em uma semente de
manga e cruzou os braços, muito chateada.
| 88 |
O plano

— Vou pintar você de vermelho e você ficará com a aparência


de uma pimenta. Ninguém chegará perto de você, muito menos te
comer! — Rose disparou muitas gargalhadas.
— Sem graça... Pode parar com essa palhaçada. Eu estava aqui
pensando em tudo o que você me disse, e não consigo entender como
essa mudança será possível —Faninha ainda estava duvidando.
— Ok, vou tentar explicar de novo. Depois de a gosma secar, você
vai sofrer uma grande metamorfose. Você se tornará uma grande sopa de
células, que, com o tempo, formarão outro corpo, e você pouco vai se lem-
brar do que viveu como lagarta. Nova vida, novo corpo e novas memórias.
Será um renascimento. Entendeu, amiga? — Rose tentou esclarecer.
— Vou me esquecer de tudo? De Clair? E de você?
— Provavelmente — respondeu a joaninha.
— Mas não quero isso, não quero esquecer nada! — Faninha se
levantou e saiu andando, bastante nervosa.
— Lamento, amiga, mas parece que esse é o preço da sua grande
mudança. Não fique assim, tente aceitar. Tudo muda, e com você não
será diferente — Rose tentou acalmá-la.
— Não quero mudar! Prefiro ser gordinha e ter vocês como ami-
gas — Faninha apertou sua barriga enquanto conversava.
— Pare de ser criança! Tudo na vida muda, e no seu caso será
uma mudança para melhor. Você deixará de rastejar para voar, pode-
rá ver o mundo de uma maneira que jamais pensou ver. Voar, minha
cara... Voar bem alto! — falou Rose, enquanto observava o céu.
— Estou com medo. Quem vai me ajudar? Como saberei o que fazer?
— Faninha sentou-se novamente na semente de manga, triste e desesperada.
| 89 |
O Curso da Lagarta

— Para sua sorte, as suas amigas Clair e Rose ainda estarão por
aqui. Vamos te ajudar e explicar o que você deverá fazer para comple-
tar o seu ciclo de vida. Não tema, não se desespere, porque você tem
amigas, e isso não tem preço! — Rose abraçou Faninha.
— O que você vai fazer para me ajudar?
— Minha parte no plano será acompanhá-la em sua mudança. Se o
seu mimetismo não ficar bom, vou camuflar você da melhor forma possí-
vel. Ficarei aqui por duas luas e depois vou buscar a sua amiga pulga. Mas,
se você continuar nessa gastura, vou atrás de Clair antes que tudo aconteça.
— Quer dizer então que vai partir depois que eu me transfor-
mar em crisálida? — perguntou Faninha, mais calma.
— Sim. Também tenho que cumprir com o meu destino de joa-
ninha... Vou arrumar um namorado e, sabe como é que é, quero ter
uma família bem grande — Rose esboçou um meio sorriso.
— Então não verei mais você! — Faninha lamentou de novo,
com meiguice.
— Não seja tão dramática. Você nem vai se lembrar de mim.
Ainda assim, deixarei uma carta para você, e se puder lembrar, óti-
mo... Se não puder, servirá para ajudá-la a seguir sua vida adiante. De
qualquer maneira, estarei por perto e vou te visitar, pode ter certeza!
— Rose abraçou novamente a sua amiga.
— Olha! Estou lisinha, esta é a minha nova pele — Faninha se
animou, mudou de foco e ficou feliz com a nova fase.
Não era fácil lidar com a lagarta, que era muito meiga e sensível...
Somente com afeto e atenção ela sossegava, e Rose parecia já saber disso.
— Nova e última! Depois, você terá um exoesqueleto, um par de asas
| 90 |
O plano

que serão lindas como pinturas. Ficará mais linda do que já é — Rose deu
uma volta rápida, com um passo teatral, enquanto terminava a sua fala.
— Jura? — os olhinhos de Fan brilharam.
— Sim, mais bonitas e surreais do que as pinturas de Salvador
Dali, perfeitas como as esculturas de Bernini, coloridas como as pin-
turas da Andy Warhol — Rose viajou na explicação e mostrou que
entendia muito de artes.
— Quem é Salvador Daqui? E esse tal de Bernini? — Faninha
não tinha entendido nada do que Rose dissera.
— Quanta superficialidade! Como vocês, insetos jovens do ter-
ceiro milênio, não leem nada? Desse jeito, fica difícil a comunicação.
Aprenda a ter gosto pela leitura, Faninha. Dessa forma saberá ler o
mundo que existe diante dos seus olhos — filosofou Rose.
— Puxa... Vou melhorar, prometo — Faninha percebeu que
Rose ficara um pouco decepcionada e decidiu se desculpar.
— Comece lendo as coisas que se passam diante dos seus olhos.
Não durma no ponto, fique esperta, olhe sempre ao redor de si para
não ser surpreendida por ninguém — Rose prosseguiu o sermão.
E por falar em surpresas, duas jovens lagartas se aproximavam
ao longe. Faninha e Rose não tinham percebido, mas as duas visi-
tantes já haviam avistado as nossas amigas. Ao vê-las, seus movi-
mentos ondulares aumentaram e se apressaram em direção às duas.
Faninha e Rose se entreolharam. O que queriam essas duas lagar-
tas? Só nos resta ler o próximo capítulo para descobrir!

| 91 |
8. As diferenças
E nquanto nossas amigas observavam a aproximação dos novos
personagens, duas lagartas em carreira, ambas extremamente
curiosas, Faninha, sempre ansiosa, começou a disparar suas per-
guntas.
— Rose, é seguro?
— O quê? Elas? Ora, ao que parece, são apenas duas lagartas.
Perigoso seria se fossem predadores, como um pássaro ou um sapo
— explicou Rose, sem dar muita atenção para a chegada da dupla.
Na tentativa de minimizar a ansiedade de sua colega, acabou trazen-
do novas informações, e isso despertou a curiosidade de Faninha.
— Sapo? Que tipo de predador é esse?
— O sapo é um anfíbio, espécie de animal que vive tanto na
água como na terra. Sapos também passam por uma transforma-
ção; assim como você, eles se modificam. Você deveria perguntar
menos e ouvir mais, assim economiza nas minhas explicações —
Rose demonstrou estar impaciente com sua colega, que entendeu e
procurou se acalmar.

| 93 |
As diferenças

Faninha então respirou fundo, pensou por um instante e,


olhando para o alto, declarou:
— Só sei que nada sei.
— Virou filósofa agora? — zoou Rose. — Não é hora para de-
vaneios, nem para filosofia. Apenas fique quieta e disfarce essa sua
insegurança, se é que isso é possível.
Rose ficou na frente de sua amiga e de costas para a dupla que
se aproximava, olhou para Faninha e pensou: Diante de um fato novo,
Faninha não sabe como agir... na verdade ela nunca sabe como agir.
Rose esboçou um pequeno riso e continuou sua reflexão mental,
enquanto olhava para a lagarta: A tranquilidade virá com o tempo,
ela ainda é muito nova e inexperiente. Estar um pouco perdida nessas
circunstâncias é absolutamente normal. Preciso ser paciente com ela, é
uma boa menina.
O silêncio e os pensamentos de Rose foram interrompidos no-
vamente, por uma sequência de perguntas de Faninha.
— Está certo, mas o que faremos? Não estou me sentindo
muito bem. Joaninhas também passam por isso ou é coisa de la-
garta?
— Não, é coisa de Faninha, que não se aquieta. Outra coisa:
não mudaremos em nada os nossos planos. E, por favor, sem an-
siedade. Vamos ficar aqui na boa, e esperar para ver no que isso
vai dar.
Enquanto as duas acalmavam os ânimos, a outra dupla se
aproximava cada vez mais, bastante animada. Finalmente chega-
ram perto o suficiente para uma conversa.
| 95 |
O Curso da Lagarta

— Olá, como vão indo? Meu nome é Fred, e esse aqui é meu
camarada Bóris.
— Me chamo Rose, e a minha irmãzinha se chama Faninha.
Por enquanto, está tudo bem.
— Irmãs?
Ao perguntar se eram irmãs, Bóris provocou uma reação não
muito amigável no rosto de Rose. Fred percebeu, pisou com força
no pé do seu parceiro e tentou contornar a situação, fazendo o se-
guinte comentário:
— Deixa de ser chato, Bóris. Irmãs, ao que parece, no sentido
de amigas de verdade. Como nós, não é mesmo?
Bóris controlou o grito de dor, falando bem baixinho e pausa-
damente:
— Verdade... Não sei o que seria de mim sem você, Fred.
Rose relaxou com a reação dos dois. Faninha, sentindo-se mais
segura, entrou na conversa:
— Vocês também não são lá muito parecidos. Olhando melhor
para vocês dois, percebo diferenças bem nítidas.
— É verdade, Fan. Esse aqui é bem baixinho, deve estar enga-
tinhando ainda.
Rose olhou para Faninha com um meio sorriso na boca e con-
tinuou com suas observações:
— E o outro um pouco maior e dono de uma cor bem estra-
nha! Parece que também já fez a sua segunda muda. Deve ter a sua
idade.
— Joaninhas são sempre muito observadoras — disse Fred,
| 96 |
As diferenças

com um certo desconforto. — Sim, estou buscando um lugar para


a minha metamorfose, e aqui parece ser bem adequado. O lugar
não está exposto às intempéries da natureza, é muito seguro. Eu
diria que é perfeito — Fred concluiu, com uma mão na cintura e a
outra envolvendo as costas do seu fiel colega, demonstrando con-
fiança.
— Opa, opa, opa! Esse lugar já está reservado para a minha
amiga aqui. É bom você escolher outro, porque esse aqui, como
você mesmo disse, é perfeito... mas perfeito para a Faninha! — a
joaninha encarou a dupla, ao mesmo tempo que ajeitava a cintura,
como quem vai partir para a briga.
— Calma, senhorita joaninha! Estamos procurando um lugar
para ficar, quer dizer, para o Fred ficar. Podemos ir para outro lugar,
se preferirem. Não estamos atrás de confusão nem de briga. Encon-
traremos outro lugar, não é mesmo, Fred?
— Verdade, estávamos muito longe daqui. Quando a tem-
pestade chegou, fomos pegos de surpresa. Estávamos em uma
folha, e o vento nos trouxe para cá, para bem perto desse gali-
nheiro.
— Nossa! As galinhas estavam no maior estresse. Uma chegou
a me pegar, mas aí um raio caiu muito perto de onde estávamos, e a
galinha, assustada, me soltou e fugiu com as outras.
Nesse momento, Bóris, a lagarta menorzinha, mostrou a
cicatriz que tinha nas costas. Fred contou toda a trabalheira
que teve para cuidar do seu amigo e trazê-lo até ali, para a calha
do telhado. Não foi fácil amenizar a situação, mas, depois de
| 97 |
O Curso da Lagarta

tanta história, Rose parece que se acalmou. Faninha, perceben-


do que tudo parecia estar em paz, retomou suas tradicionais
perguntas:
— Puxa, Fred, você foi muito legal com o seu amigo. Se não
fosse por você, ele não estaria aqui. Me diz uma coisa, é uma simples
curiosidade minha.
— Pode perguntar.
— O que são esses pelos e toda essa cor que você tem no corpo
todo?
— Eles fazem parte da minha personalidade. Algumas lagar-
tas possuem diferentes mecanismos de defesa, esse aqui é o meu.
Acho o máximo, dá um aspecto esportivo à minha aparência, além
do fato de o colorido estar na moda.
— Moda... O que você entende disso, meu caro? A personal
stylist aqui sou eu — pontuou Rose.
Faninha olhou para a sua amiga que, com um balançar de
cabeça, deu permissão à lagarta para continuar sua conversa com
Fred.
— Como funciona?
— Sou bem indigesto... explicando melhor, e com outras pala-
vras, “não sou uma boa refeição” — Fred olhou para Bóris e juntos
começaram a rir.
— Você não tem bom sabor, não satisfaz a um bom paladar? É
isso?
— É isso aí. Além do fato de a minha pele queimar quem me
toca.
| 98 |
As diferenças

— Se eu tocar você, vou me queimar? — Faninha aproximou


sua mão de Fred e levou um tapa de Rose.
— Você não! Afinal, é uma lagarta como eu. Mas a sua amiga
joaninha, sim. Se tocar em mim vai sentir uma queimação muito
forte.
Novamente, os dois começam a rir, mas Rose não estava muito
para brincadeira. Aproximou-se dos dois e, com a mãozinha na cin-
tura, deu o seu recado:
— Não tenho a menor intenção de tocar em você, meu amigui-
nho. Não gosto desse tipo de liberdade. Não tenho uma pele assim
como a sua, colorida, peluda e que queima, mas se você ousar me
tocar vai levar uma “bifa”.
— Rsrsrs — todos riram da atitude da joaninha. Bóris ficou
entre Fred e Rose, só para garantir que nada acontecesse, e com uma
voz tranquila, procurou amenizar a situação.
— De onde viemos, existem muitas como nós e tantas outras,
cada uma mais diferente que a outra.
— É isso aí, Bóris. Essas particularidades são, na verdade, nos-
sas defesas, e cada uma de nós tem a sua.
— Não conheço nada além do que vocês podem ver: essa
casa, o carro, o campo das margaridas, o galinheiro, enfim,
todo o resto que compõe o meu pequeno mundo — disse Fa-
ninha, mostrando aos novos personagens o espaço onde tinha
nascido.
— Nosso! — disse Rose, abraçando a colega enquanto fa-
lava.
| 99 |
O Curso da Lagarta

— Verdade, Rose. Então, Bóris, conte um pouco mais do lugar


de onde vieram.
— Bem... Eu e Fred viemos daquela direção, oeste.
— Como é que você sabe que ali é o oeste?
— Fácil, Fan. O sol nasce no leste e se põe no oeste. Então,
aponte a sua mão direita para onde amanhece e sua mão esquer-
da para o pôr-do-sol. Dessa maneira, terá o norte diante dos seus
olhos e, naturalmente, o sul ficará atrás de você — enquanto fa-
lava, Fred mostrava como fazer usando o seu próprio corpo co-
lorido.
— Puxa! Muito legal! — pulou Faninha.
— Viemos do oeste, um lugar de muita lavoura e plantações
variadas. Lá existem inúmeras espécies de lepidópteros, como nós
— Bóris apontou com a mão para a direção oeste.
— “Lepidópteros”? Que nome mais estranho... — Faninha
olhou para Rose, que também fez uma cara estranha.
— É mesmo. Significa insetos que possuem as asas cobertas
de escamas. Além de nós, as lagartas de borboletas, existem tam-
bém as traças, que são lagartas de mariposas, nossas parentes no-
turnas.
— Confesso que não sabia de tantas particularidades, Fan. Es-
ses dois sabem de coisas que eu nem imaginava.
— Aposto que vocês também sabem coisas que não sabe-
mos. Por isso, as diferenças não são um obstáculo para fazer
novas amizades. Com quem aprenderíamos, senão com os dife-
rentes?
| 100 |
As diferenças

— Muito bem explicado, Bóris. Eu assumo daqui. Afinal,


sou especialista em segurança — Fred tomou a frente da con-
versa.
— Tudo bem. Siga em frente, chefe.
— Ok, Bóris! Para usar as estratégias certas, primeiro precisa-
mos entender em que tipo de situação estamos.
— Como assim? Traduz isso para mim, Rose — pediu Fani-
nha, sempre sendo Faninha...
— Fique quieta e espere ele explicar!
— Vou dar um exemplo, assim fica melhor. Vamos lá... Agora
não estamos em perigo, não há nenhum predador por perto nem
estamos sendo atacados. Nessas circunstâncias, usamos as defesas
primárias, pois elas evitam que sejamos detectados por nossos pre-
dadores.
— Entendi. Nossa estratégia nesse momento é não sermos per-
cebidos.
— Muito bem, Faninha!
A lagarta pulou de alegria. Enquanto isso, Fred continuou sua
explicação.
— Mas existe uma outra situação: caso sejamos localizados por
predadores, teremos que usar um outro tipo de estratégia, geral-
mente a fuga ou, na pior das hipóteses, um confronto com o agres-
sor — Fred e Bóris fizeram uns movimentos estranhos, acho que era
algum tipo de luta marcial para lagartas, sei lá.
— Ok, rapazes. Sem esticar mais essa nossa prosa, vamos
permanecer na primeira hipótese e usar de tudo para não sermos
| 101 |
O Curso da Lagarta

localizados — Rose percebeu que sua amiga ficara assustada com a


ideia de um confronto e abraçou Faninha.
— O que farei se acontecer de um pássaro nos enfrentar? Não
tenho defesas, como a que o Fred tem. Estou perdida!
— Não entre em pânico, Faninha! Eu e Fred podemos ajudá-
-las.
— Não vão nos ajudar muito roubando o nosso lugar. Adorei
a conversa, mas vocês já podem seguir viagem — atacou Rose, que
não tinha gostado muito da conversa.
Faninha estava mais assustada com o que tinha aprendi-
do do que quando não sabia de nada. Às vezes, o conhecimento
dos fatos nos faz enxergar o mundo com outros olhos, e aquela
conversa fez com que nossa protagonista entrasse em pânico,
quando começou a entender que a vida era uma luta pela sobre-
vivência.
— E agora, o que faremos? Estou com fome, mas estou com
medo. Como posso comer em paz, sabendo que a qualquer momen-
to posso ser devorada? Não farei uma boa digestão assim.
— Viu o que vocês fizeram? Agora ela pirou na batatati-
nha! E ela precisa comer, e comer muito, antes de mudar sua
condição de lagarta — Rose, sempre protetora, tentava acalmar
a amiga.
— Calma aí, dona. Não foi nossa intenção assustar a sua ami-
ga, nem queremos ficar por aqui, já que vocês chegaram na frente e
escolheram esse lugar.
— Eu e Bóris vamos para o outro lado da casa. Talvez possa-
| 102 |
As diferenças

mos encontrar um lugar tão bom quanto esse. Mas, antes de partir,
acho que poderíamos dar algumas dicas para vocês. Isso pode aju-
dar.
— Cada vez que vocês falam alguma coisa, ela fica mais ner-
vosa. Não acho uma boa ideia ficarmos falando de predadores, ata-
ques e defesa. Eu mesma já estou com a minha pressão alta — Rose
começava a sentir o cansaço do dia.
Enquanto isso, a tarde começava a se despedir. Bóris, apesar
de pequeno, trazia uma super mochila nas costas. Dentro dela, car-
regava vários apetrechos e objetos, inclusive o que ele chamava de
“iguarias”, alguns pedaços de plantas medicinais.
— Então mastiga um pouco dessa folhinha.
— Mastigar isso? Com certeza você quer me envenenar, para
ficar com a minha amiga lagarta. Sai fora!
— Podem provar sem susto. É um pedaço de folha de Passiflo-
ra Edulis. Vai acalmar vocês duas e, então, com vocês mais calmas,
poderemos conversar melhor.
Quando Rose se virou para avisar à Faninha para não provar,
a lagarta já havia comido tudo. Afinal, estava com muita fome.
Imediatamente, Faninha sossegou, ficou calminha, e sua ansieda-
de passou como a brisa que se fazia presente naquele entardecer
magnífico.
Ao vê-la se acalmar, Rose não resistiu, e também provou da fo-
lha do maracujazeiro — árvore que produz maracujás, “mara kuya”,
na língua indígena tupi, e que em tradução literal significa “fruto
que se serve” ou “alimento na cuia”.
| 103 |
O Curso da Lagarta

— O que vocês querem conosco afinal, rapazes? Estou dopada


por conta desse “treco” que vocês nos deram para mastigar. Mas,
confesso que estou calminha, ou como diz a galera, completamente
“zen”.
— É esse o lance! — afirmou Bóris. — Tenho muitas outras
folhinhas aqui, cada uma com um efeito diferente, e só podem ser
usadas em ocasiões específicas.
— Bóris é um estudioso das plantas. Ele não nasceu com
defesas naturais, como as que eu tenho, mas aprendeu que, de-
pendendo do que comemos, podemos surpreender os predado-
res.
— Isso mesmo, Fred. A natureza nos prova com seus obstácu-
los, mas cabe a nós vencê-los.
— Faninha, estou gostando desses dois — disse Rose. — Prin-
cipalmente do baixinho. Acho que eles podem ficar conosco esta
noite. Adorei essa folhinha que ele nos deu, eu realmente estava pre-
cisando me acalmar. Tem sido tudo muito intenso, e cuidar de você,
minha amiga, não é fácil.
— Você é quem manda aqui, Rose. Também gostei deles e acho
que podem nos ajudar — concordou Faninha.
Rose então se dirigiu aos dois estrangeiros e disse a eles que
podiam ficar, mas com uma condição: que ensinassem para elas
tudo o que sabiam.
Os dois aceitaram as condições impostas pela joaninha. E
enquanto Fred ensinava Faninha a se alimentar das plantas sem
ser notada, o dia se despedia no oeste e tons de vermelho tin-
| 104 |
As diferenças

giam as nuvens que, como flocos de algodão, pareciam estar em


chamas.

| 105 |
9. O louva-a-deus
D urante toda a noite ouviram-se as cigarras, um pequeno
animal que está se tornando cada vez mais raro por con-
ta dos pesticidas usados para matar os mosquitos, seja por cau-
sa da dengue, da chikungunya ou da microcefalia. Os bípedes
gigantes não querem nem saber se com seus tratamentos outros
insetos também vão morrer, ou se isso vai colocar em perigo o
equilíbrio ecológico. Mas esqueçamos os gigantes, pelo menos
por ora. Afinal, Clair, a nossa minúscula pulga saltitante, está
de volta! Tinha chegado ao telhado antes mesmo de o sol raiar,
depois de pegar carona com um inseto muito esquisito, um lou-
va-a-deus. Apesar da total escuridão, pôde notar que estavam
todos dormindo, inclusive Fred e Bóris, que ela ainda não co-
nhecia.
— Não posso nem sair de perto que essas duas malucas logo
fazem uma festa. E pior, convidam dois caras estranhos e super es-
quisitos. O que você acha disso, Mestre Zen?
— Não farei nenhum julgamento antecipado da situação, não

| 107 |
O louva-a-deus

os conheço ainda. Querida colega, que tal fazermos uma meditação


enquanto eles não acordam? Isso nos revigoraria.
Clair nem pestanejou. Postou-se ao lado do louva-a-deus, o
Mestre Zen, e começou a meditar. Essa prática parece estranha para
nós, mas, na tradução do latim, seu nome significa curar, tratar, dar
atenção médica. Então, por que os dois estariam fazendo isso? Ao
que parece, não tinham nenhuma doença nem estavam machuca-
dos. Vai entender esses insetos!
— Clair, respire fundo e depois solte o ar bem devagar.
— Assim, mestre? — Clair respirou profundamente por três
vezes seguidas, e em todas as vezes soltou o ar como o Mestre Zen a
orientou. — Zen, isso é fantástico! Esse exercício tem me auxiliado
muito na minha ansiedade. Desde que comecei a fazê-lo, sou dona
de uma tranquilidade sem tamanho.
— É assim mesmo. Aproveite, porque tenho a impressão de
que o dia vai ser bastante agitado!
Mal Zen acabou de falar e a joaninha despertou, dando logo
um ataque:
— Clair, cuidado! Saia de perto desse bicho assassino!
— Calma, Rose. Mestre Zen é do bem.
— Não diga uma besteira dessas! O louva-a-deus é um inseto
predador, violento, canibal, “dodói” da cabeça.
Mestre Zen se virou, saiu da posição de meditação e obser-
vou Rose com muito cuidado. Rose correu em direção a Clair, e
abraçou sua amiga como se ela pudesse ser atacada a qualquer
momento. Com tanto barulho e movimentação no teto da velha
| 109 |
O Curso da Lagarta

casa, todos que estavam dormindo acordaram. Até o sol foi cha-
mado à linha do horizonte, onde nuvens profetizavam um dia de
muitas mudanças.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Faninha,
gritando. — Quem é, ou o que é essa coisa do seu lado, Clair?
Faninha falava com muita agitação. Fred e Bóris tomaram
a frente das duas e ficaram em posição de luta. Mestre Zen con-
tinuou observando tudo, sem fazer nenhum movimento, até que
Rose...
— Pode vir, seu bicho esquisito! Agora você vai aprender a
não mexer com uma joaninha, ou pelo menos com uma joaninha
ninja — Rose começou a gritar em outro idioma, acho que japo-
nês, ao mesmo tempo que começou a fazer movimentos muito
estranhos. A cena era tão tosca que todos ficaram boquiabertos
com o espetáculo dantesco que a joaninha estava proporcionan-
do.
— Posição do tigre! — Rose imitou um felino, caminhando
lentamente e dando pequenos, mas possantes botes com a pata. —
Posição do dragão! — agora a joaninha parecia estar voando e lan-
çando chamas pela boca. E Rose prosseguiu com outras posições,
do leão, da girafa etc.
— Posição de paciência — Mestre Zen pôs a mão na cabeça,
parecendo não acreditar no que estava vendo. Respirou profunda-
mente e disse: — Não tenho a intenção de atacar ninguém. Na ver-
dade, trouxe a sua amiga aqui porque preciso conversar com a la-
garta. Acho que o nome dela é Faninha, não é mesmo?
| 110 |
O louva-a-deus

— Quer conversar comigo? Mas o que um inseto como você


teria para dizer a uma lagarta? — Faninha parecia que estava apren-
dendo a ser prudente, pois, enquanto falava, permaneceu atrás dos
seus amigos.
— Isso mesmo. O que você quer com a nossa Faninha? —
Fred, Bóris e Rose questionaram juntos o louva-a-deus, como
em um coral.
— Deixem o mestre em paz. Ele só veio aqui porque eu pedi!
— Clair falou bem alto, se posicionando na frente do Mestre Zen. —
Contei a ele sobre a Faninha, e ele parece saber algo que ela também
precisa saber, é só isso. Por favor! Vamos parar com isso imediata-
mente! Mestre Zen não é um assassino, é um sábio, e está aqui para
nos ajudar com a Faninha.
— É verdade o que ela disse — Mestre Zen disse, se aproxi-
mando. — O que eu tenho a dizer para ela é muito importante, mas,
se for conveniente, posso falar na presença de todos.
— O que pode ser tão importante assim? — indagou Faninha.
— Família! Ela é o elo com o Poder Superior — Mestre Zen
ficou em posição de lótus, ou seja, sentado de pernas cruzadas e
com as mãos sobre os joelhos. E após respirar profundamente,
continuou sua explicação. — Conheço a sua história antes mesmo
de você sair daquele ovo e escapar da morte. Conheço a história
de seus pais e, se isso não é importante para você, posso ir embora
agora mesmo.
— Não, fique! — Faninha correu para perto do louva-a-deus e
procurou imitá-lo, ficando na posição de lótus. — Quero saber tudo
| 111 |
O Curso da Lagarta

sobre os meus pais. Mas acho que essa conversa deveria ser apenas
entre nós dois.
— De jeito nenhum — exclamou Rose. — Estou com ela já há
bastante tempo, e acho que tenho o direito de saber tudo também.
Quando ela for embora, terei o que contar aos meus amigos. Adoro
histórias de família — Rose deu uma risadinha, típica das joaninhas
fofoqueiras.
— Acho que também queremos ouvir. Se é algo realmente
importante, por que não? — Fred olhou para Bóris, que concordou
balançando silenciosamente a cabeça. — Estamos sempre dispostos
a aprender coisas novas, e se elas forem importantes, melhor ainda!
— exclamou Fred.
O silêncio imperou por alguns instantes. Mestre Zen observou
cada um dos presentes e respirou profundamente antes de começar
a falar. Soltou o ar com muita calma, alinhou a coluna e, por fim,
falou.
— Ninguém pode saber o caminho que o leva ao futuro se
não conhecer o seu passado. Precisamos entender de onde vie-
mos, para saber onde estamos e para onde vamos — o Mestre
continuou. — Outra coisa em que precisamos pensar é que exis-
tem ao menos três tipos de consciência. Precisamos alinhá-las
para entender o verdadeiro motivo de estarmos aqui, o nosso
propósito.
— Maior viagem, cara. Foi por isso que gostei dele assim que o
vi — a pulga Clair, que parecia encantada com a fala de Zen, apro-
ximou-se dele e respirou profundamente, da mesma maneira que
| 112 |
O louva-a-deus

o mestre. — Precisamos saber o nosso propósito! Isso é demais! —


Clair fechou os olhos ficou quieta.
— Mestre, é realmente impressionante o que você disse, mas
pode explicar melhor? — Bóris parecia não estar certo do que o
louva-a-deus queria dizer.
— Também não entendi nada. Então é melhor explicar tudo
de novo — Faninha cutucou Rose ao falar. Rose olhou para ela e
completou:
— Novidade! Me surpreenderia, se você tivesse entendido.
— Os dons, ou nossas qualidades, são geralmente hereditários,
e as doenças também. Estes são dois bons motivos para conhecer-
mos melhor os nossos familiares. E há um motivo ainda maior: o
amor, que nasce dentro da família. Mas o amor a que estou que-
rendo me referir é de um tipo bem raro hoje em dia — Mestre Zen
abaixou a cabeça, com ar de tristeza.
— Não existe mais amor, Mestre? Acabou? — Faninha pergun-
tou, preocupada.
— Não estou falando do amor entre dois insetos. Estou fa-
lando no amor entre nós e o Poder Superior, Aquele que tudo fez,
tudo faz e tudo fará — respondeu Mestre Zen. — O verdadeiro
amor é aquele que procura o bem e a paz para todos os seres vi-
ventes, e, para isso, devemos respeitar a vida, pois tudo que existe
e foi criado é sagrado.
O sol estava a pino, no momento em que o louva-a-deus
dizia aquelas palavras. Sua luz era intensa, o que realçava as co-
res do céu, das montanhas e das flores. Por incrível que pos-
| 113 |
O Curso da Lagarta

sa parecer, não se via sombra alguma, enquanto Mestre Zen


continuava sua explicação a respeito do amor sublime. Todos
ouviam silenciosamente, sentados lado a lado, formando um
grande círculo. O tempo ia passando, e aquilo que o Mestre di-
zia ia modificando, de uma maneira muito especial, cada um
dos nossos amigos.
— Muito interessante, Mestre Zen. Mas qual a relação entre
tudo isso que o senhor disse e a família? — perguntou Rose.
— À medida que crescemos, o amor nos ensina a fazer sa-
crifícios uns pelos outros. Precisamos aprender a dividir o ali-
mento e a comer apenas o essencial, por exemplo. Devemos con-
ter o nosso desejo, se ele não é bom. Enfim, poderia falar aqui
durante um ano inteiro e não daria conta de tudo o que tenho
para dizer a vocês.
— Então, como aprenderemos tudo? — Clair perguntou ao
Mestre.
— Vivendo. Viver é a melhor escola, e o tempo, o grande
mestre. Avancemos para o próximo tema, pois o tempo é curto
— Zen tomou fôlego enquanto alongava as suas costas.
— Isso tudo mexeu muito com a minha cabeça. Para falar a
verdade, estou mais confusa do que qualquer outra coisa. Mestre
Zen, que tipo de sacrifício o senhor faria se fosse pai, melhor, se
tivesse uma família? — Rose perguntou ao louva-a-deus.
— Fiz votos de não ter família. Minha família são os inse-
tos que encontro pelo caminho. E isso é bom e ruim ao mesmo
tempo — falou Zen, com um pequeno sorriso no rosto.
| 114 |
O louva-a-deus

— Explique isso melhor, Mestre — Fred parecia confuso.


— Nós, os louva-a-deus, temos algumas peculiaridades.
Somos conhecidos por sermos predadores perigosos, ágeis e
astutos, por conta da nossa camuflagem. Mas isso não explica
tudo. Quando encontramos uma companheira, temos que fazer
o maior sacrifício de nossas vidas: permitimos que nossa com-
panheira nos devore, para que ela possa ter alimento suficiente
para si e os nossos futuros filhos. Vendo as coisas por esse pon-
to de vista, não ter tido uma família ou namorada foi uma boa
opção para mim.
— Agora eu saquei! Escapou de ser comido, não é, Mestre? —
disse Bóris, com seu senso de humor nada ortodoxo. Apesar disso,
todos deram uma boa gargalhada, e o próximo assunto já foi posto
na roda por Clair, nossa pulga saltitante e esperta.
— Bem, Mestre, o que o senhor pode dizer a respeito de cons-
ciência e propósito?
— Obrigado, minha querida aluna. As duas palavras estão as-
sociadas de uma maneira muito especial. Quando tenho ou adqui-
ro consciência, automaticamente começo a entender o que significa
um propósito. O estado de consciência pode ter pelo menos três
níveis: o físico, o mental e o espiritual — Mestre Zen desenhou um
esquema no chão.
— O que o senhor está desenhando, Mestre Zen? Que figura
estranha! — Bóris se aproximou de Zen para observar melhor o que
ele estava desenhando.
— Bom, isso aqui é o que os bípedes gigantes chamam de
| 115 |
O Curso da Lagarta

triângulo. Observe: ele é feito de três pontos que são ligados


por linhas retas. O significado disso é o seguinte: tanto o pla-
no físico quanto o plano mental são representados pelos pontos
que estão embaixo. O plano físico caminha na direção do plano
mental — Mestre Zen fez um movimento, demonstrando o sen-
tido entre os dois pontos. — O ponto que está acima dos dois
representa o plano espiritual, e é ele que comanda tudo. O plano
mental caminha na direção dele e ele mantém o ciclo se dirigin-
do ao plano físico — Mestre Zen fez os movimentos restantes
com o auxílio de um fósforo riscado.
— Ok... plano isso, plano aquilo.... Do você que está falando?
— Rose parecia brava, pois não estava entendendo o que o louva-a-
-deus estava explicando. — Para mim, um plano é um tipo de estra-
tégia, entende?
— Concordo com ela — falou Fred. — Está difícil de entender
o que você está tentando nos explicar. — Fred achava que a verdade
é que ninguém tinha entendido muito bem.
— Acho que sei do que o mestre está falando — disse Fani-
nha, indo para o centro do círculo. — O que ele está querendo dizer
é que percebemos tudo com o nosso corpo e, por isso, temos que
mantê-lo sadio, nos alimentando de coisas saudáveis. Para tanto,
precisamos de uma cabeça capaz de gerenciar o corpo, fazendo boas
escolhas — até aí Faninha explicou tudo de forma muito natural,
mas, de repente, começou a mudar e a ficar mais sorridente. Parecia
que estava em outro lugar, ou vendo coisas. — Mas, para fazermos
boas escolhas, precisamos estar ligados com o que está acima de
| 116 |
O louva-a-deus

tudo isso, com aquilo que o Mestre chamou de espírito. Esse estado
de consciência supera tudo o que o nosso corpo e a nossa mente
podem entender. Portanto, ele é primordial — Faninha acabou de
falar e desmaiou.
— O que houve com ela? Será que não se alimentou direito?
— Rose correu em direção a Faninha, completamente desesperada.
— Acorda, amiga! Acorda!
— Fred, eu nunca havia presenciado coisa igual. O que acabou
de acontecer aqui? — Bóris também estava inquieto com o aconte-
cido.
— Não tenho explicação para isso, meu caro amigo Bóris.
Clair, pergunte ao seu Mestre o que aconteceu com Faninha — Fred
acrescentou, atônito.
— Mestre, estamos preocupados. O que está acontecendo aqui?
— Clair olhou ao redor enquanto esperava a resposta do louva-a-
-deus.
— Eu estava certo a respeito dela — disse o Mestre. — Ela é
a filha única da Grande Borboleta Monarca. Temos que protegê-
-la a qualquer custo! — Zen fez um movimento para que todos se
afastassem de Faninha. — Ela nem vai se lembrar do que acabou de
acontecer. Então, peço que não façam perguntas, pois ela não sabe-
rá o que responder. Ainda não está 100% pronta.
— Pronta para quê? —falaram todos ao mesmo tempo, e por
um momento ficaram se entreolhando.
— Pronta para nos salvar, salvar a todos nós! — Mestre Zen
molhou os pés de Faninha, enquanto acariciava a sua cabeça.
| 117 |
O Curso da Lagarta

— Salvar a todos? Você só pode estar brincando! — Rose deu


as costas para o grupo e se afastou um pouco. — Como uma la-
garta que só sabe comer, se é que sabe, vai nos salvar? E tem mais,
salvar do quê?
— Essa realmente foi demais para mim também, Mestre Zen.
Acho que você pirou na batatinha. Faninha, a salvadora? Só pode
ser piada...
— Nós não temos nem o que comentar — Fred olhou para Bó-
ris antes de prosseguir. — Você veio até aqui trazendo a pulga e es-
sas ideias loucas.
— Pulga? Eu tenho nome, viu? Me chamo Clair, e gosto muito
de ser respeitada!
— Foi mal — disse Fred, fazendo um sinal de desculpas. —
Você chegou aqui trazendo Clair, depois disse que tinha algo im-
portante para dizer a Faninha.
— Isso mesmo, eu deveria ter conversado somente com ela,
mas isso aqui se parece mais com uma família de insetos italianos...
Todos falando e gesticulando ao mesmo tempo — Mestre Zen ges-
ticulou e pulou como se fosse um palhaço. — Desse jeito ninguém
entende nada, capisce?
— Capim o quê? — perguntou Rose.
— É um termo italiano, esqueçam — Mestre Zen estava abor-
recido. — Se vocês quiserem me escutar em silêncio, posso expli-
car, mas se vocês não acreditarem, não haverá nada que os faça
entender.
— Ok, ficaremos quietos, mas explique logo. Faninha parece
| 118 |
O louva-a-deus

que está acordando — Clair tentava acalmar a todos. Ela e Rose ob-
servavam Faninha, enquanto Fred e Bóris voltavam a se sentar jun-
to ao Mestre.
Zen, então, respirou fundo, soltou o ar com lentidão e reto-
mou a explicação.
— Não posso explicar tudo para vocês, até porque não sei de
tudo. Só posso dizer o que sei. Faninha não é uma lagarta comum,
normal, digamos assim — Zen olhou para fora do telhado, enquan-
to uma brisa úmida começou a soprar, sendo percebida por todos.
— Ela é a única herdeira da Grande Borboleta Monarca, e está escri-
to que ela nos salvará dos bípedes gigantes.
— Que Faninha não é uma lagarta normal, isso eu já sabia —
Rose deu uma boa risada.
— Verdade, colega. Essa daí não bate muito bem — Clair en-
trou na brincadeira e começou a rir também. A essa altura, todos
estavam rindo, menos Mestre Zen.
— Vocês não estão levando o que eu estou dizendo a sério!
— Mestre Zen parecia muito bravo. — Se tivessem escutado o que
a traça disse a respeito dos bípedes gigantes... Não estariam rindo
agora!
— Traça? Que tipo de inseto tem um nome desse? — Rose e
Clair olharam para os rapazes e acabaram se sentando também.
A brisa foi tomando conta do lugar, o sol insistindo em não
descer o horizonte. Parecia também querer saber quem era esse
novo personagem da nossa história.
— A traça é o único inseto capaz de ler o que os bípedes
| 119 |
O Curso da Lagarta

escrevem. Já leu vários livros, e sabe muito bem o que eles planejam
— Mestre Zen ficou ainda mais sério.
— Em um futuro muito próximo, não haverá mais comida
para os bípedes gigantes. Todo os animais que conhecemos e que os
gigantes comem desaparecerão. Haverá fome para eles.
— Eba! Então os gigantes morrerão, e nós seremos os donos
da Terra — Rose e Clair fizeram a dancinha da vitória. Bóris se le-
vantou para comemorar também, mas Fred pareceu ter entendido
a mensagem:
— Não sejam idiotas! Vocês ainda não perceberam? Sere-
mos a única fonte de proteína disponível, e os bípedes vão nos
comer!
— Isso mesmo, meu rapaz. Você chegou ao cerne da nossa
questão. Segundo a traça, só a lagarta, filha da Borboleta Monarca,
poderá nos salvar desse triste destino — Mestre Zen se levantou, foi
até o extremo do telhado e observou o sol, que ia descendo lenta-
mente e se escondendo por trás das montanhas. A noite assumiu as
ações, a escuridão entrou em cena e os pequenos pirilampos eram a
única fonte de luz naquele lugar.
— O que foi que aconteceu? Quem é essa traça? — Faninha
acordou justamente quando todos só pensavam em dormir.
— Traça? Não se preocupe, Faninha, volte a dormir. Amanhã
a trarei até aqui e todos poderão conhecê-la.
Mestre Zen pediu a todos que descansassem. Afinal, o dia
tinha sido muito intenso, e o que Mestre Zen dissera tinha me-
xido demais com as cabecinhas daqueles insetos. Amor, família,
| 120 |
O louva-a-deus

consciência e entendimento eram conceitos complexos, e não era


muito fácil arrumar tudo aquilo na nossa cabeça. Eu, sempre que
tenho uma dúvida, pergunto aos meus pais. Eles sempre me expli-
cam as coisas.

| 121 |
10. A traça
E nquanto todos dormiam, Mestre Zen e Clair ficaram conver-
sando. Clair disse que estava muito preocupada. Tinha perce-
bido que o grupo ficara muito apreensivo com as coisas que o Mes-
tre havia dito sobre a traça e o que ela sabia a respeito dos bípedes
gigantes. O Mestre, por outro lado, defendia o seu ponto de vista:
não tinha encontrado uma outra maneira de fazê-los entender o
quanto a situação era delicada, e o quanto era preciso que todos
ajudassem.
— Não sei não, Zen. Acho que você se precipitou quando disse
que seremos os próximos a serem devorados pelos gigantes.
— Isso é o que veremos. Assim que eles acordarem, saberei se
fiz o que era certo ou não.
Naquele momento já amanhecia uma nova jornada. O dia se
apresentava com uma forte neblina, uma frente fria estava se ins-
talando na região. Com as baixas temperaturas, o vapor do dia an-
terior tinha se condensado, formando uma bruma na qual não se
podia enxergar quase nada.

| 123 |
O Curso da Lagarta

— Não consigo ver nada direito. Mal posso ver você, Mestre
Zen. Que frio é esse?
— Esfriou muito rápido, minha querida pulga. E a temperatu-
ra ainda cairá mais durante o dia. Precisamos arrumar um jeito de
nos aquecer.
A conversa entre os dois foi interrompida por um breve soni-
do. O ruído parecia vir do grupo que dormia, mas como a névoa
estava muito forte, não se podia ver ao certo quem se aproximava.
— Bom dia, Mestre. Bom dia, Clair. Acho que posso resolver,
pelo menos por ora, o problema do frio que estamos sentindo —
Bóris retirou algo da mochila enquanto falava com os dois. — Vou
preparar um chá para o nosso grupo, um chá verde. Só preciso de
um pouco de água. Me ajude aqui, mademoiselle — Bóris chamou
Clair para ajudá-lo a colocar um pouco de água na garrafa pet que
estava por ali.
— Um chá? Como você pretende fazer uma fogueira? — per-
guntou Clair, enquanto colhia com Bóris a água que caía ao se con-
densar nas telhas do telhado.
— Não é necessário ferver a água, basta pôr um pouco disso
aqui e em um instante estará pronto. Isso nos ajudará a nos esquen-
tar — Bóris colocou na garrafa pet um pouco de folha triturada,
parecendo um pó verde.
— Bom menino. Isso realmente nos ajudará! Mas agora preci-
samos encontrar a traça — Zen parecia pensativo.
— Onde a acharemos, Mestre Zen?
— Boa pergunta, Clair. Preciso me lembrar onde ela costuma
| 124 |
A traça

estar a essa hora do dia. Assim que encontrar a resposta, precisa-


rei buscá-la. Vejamos... A Biblioteca Municipal não é muito longe
daqui. O problema é que hoje não há nenhuma visibilidade. Como
encontrarei o caminho?
— Deixa isso comigo, Mestre! — Fred, que também já estava
de pé, carregava um pequeno objeto na mão.
— O que você tem aí, meu filho? Não me diga que você possui
uma bússola magnética! — Zen olhou para Clair com um sorriso,
e disse: — Eu sabia que havia agido certo. Todos estão ajudando
Clair! — Zen pareceu animado com a ajuda dos rapazes, e a bebida
de Bóris também havia restituído suas forças.
— Esse pedaço de agulha está imantado. Preso a esse peque-
no pedaço de cortiça, ele boia e aponta para o norte — disse Fred,
demonstrando para a pulga como funcionava o seu pequeno ape-
trecho. — Como Zen não pode voar e observar a bússola ao mesmo
tempo, vou com ele e serei seu guia.
— Ok, caubói. Monte aqui e vamos logo buscar a traça. O tem-
po está se esgotando, nossa amiga Faninha logo se transformará —
Zen se curvou para Fred, que montou em suas costas. Os dois par-
tiram em direção à Biblioteca Municipal, sob os olhares de Bóris e
Clair.
— Como alguém consegue dormir com tanta falação? Vocês
conseguiram acordar a Faninha! A bichinha estava dormindo igual
a uma pedra — Rose se aproximou para beber o chá de Bóris e Fa-
ninha a acompanhou, com uma cara de zumbi.
— Não estou me sentindo muito bem. Espero que esse chá me
| 125 |
O Curso da Lagarta

faça sentir melhor — Faninha pegou a garrafa para si e bebeu com


pressa. — Será que estou me transformando? Diga, Bóris, como es-
tou?
— Eu diria que você está perfeita!
— Perfeita? Que papo é esse, meu amiguinho? Aonde foi parar
o respeito? — Rose deu um encontrão em Bóris. — Deixa de ser ga-
lante! Ela apenas queria saber se está com uma aparência estranha!
— Está certo, saiu sem querer — Bóris se desculpou e retomou
a conversa. — Não vejo nenhuma mudança significativa, mas, se
está com um forte enjoo, pode ser um sinal de que está iniciando a
sua nova fase.
— Faninha, você precisa economizar suas forças. Se não fizer o
que eu digo, sua ansiedade poderá acelerar todo o processo — Clair
abraçou sua parceira. — Procure ficar tranquila. Logo o Mestre es-
tará aqui com a traça e finalmente saberemos o que teremos que
fazer por você, minha heroína!
— Heroína?
— Bobagem da Clair, Faninha. Ela está tentando te animar e
acaba falando um monte de bobagens — Bóris beliscou Clair, que
deu um grito abafado.
— Temos muito o que fazer. Que tal se parássemos de falar
coisas inúteis e preparássemos uma ceia? Aqui se fala muito e se
come muito pouco — Rose procurou dar foco ao grupo enquanto
os dois outros não voltavam.
— Boa ideia! Enquanto busco algumas folhas verdes suculen-
tas, sem agrotóxico, é claro, vocês meninas poderiam arrumar umas
| 126 |
O Curso da Lagarta

mesas. Que tal umas tampinhas de refrigerante? Vi algumas jogadas


naquela direção — Bóris apontou para dentro do telhado enquanto
saía na direção oposta, onde os galhos alcançavam a calha.
— Esses rapazes... sempre querendo nos dar ordens. É por isso
que eu vivo sozinha. Não suporto essa ideia de ser subalterna de
ninguém — Rose e Clair se juntaram para arrumar as mesas. En-
quanto saía, a pulga falou com a lagarta.
— E você fique aí, quietinha e descansando.
— Tudo bem. Não demorem muito, viu? — Faninha se virou,
se encolheu por conta do frio e ficou de lado, observando a névoa,
que já estava se desfazendo, dando lugar a um dia nublado. O chá
que Bóris tinha feito não surtiu muito efeito em Faninha, apesar de
ser uma bebida termogênica, do tipo que queima calorias fornecen-
do energia e calor. Faninha simplesmente foi se apagando, no ritmo
das nuvens, que flutuavam da direita para a esquerda...
— Filha, não se preocupe. Seus novos amigos vão poder fazer
por você o que eu não pude. Vão te ajudar a entender tudo o que
está acontecendo, além de arrumarem um lugar para que você pos-
sa mudar sua condição. Hoje, você é uma lagarta. Lagartas comem
compulsivamente, e o processo de digestão do alimento não favore-
ce muito a inteligência — Faninha ouvia a voz, mas não enxergava
nada.
— Mãe? É você? — Faninha começou a conversar com a voz,
mas na verdade estava sonhando, um sonho tão real que parecia
verdade.
— Sim, minha linda lagarta gulosa, perguntadora, ansiosa,
| 128 |
A traça

falante e sentimental. Estou aqui, de um jeito muito especial. Estou


sempre com você, acredite! Preciso que saiba que eu te amo muito,
muito mesmo. Você é minha grande joia e, hoje, é também a esperan-
ça de todos os insetos. Todos dependem de você. Então, minha filha...
— a voz foi ficando mais baixa. — Não tema! Coragem! Realize o seu
propósito, salve todos os insetos! — Faninha, ainda de olhos fecha-
dos, começou a ter um pesadelo. Sua visão escureceu e sentiu o seu
corpo balançar, da esquerda para a direita, freneticamente.
— Socorro! Socorro! — gritava Faninha, ainda dormindo, de
dentro do seu sonho ruim.
— Acorde, menina. Somos nós! Chegamos, e precisamos agir
rápido, o tempo está acabando! — Faninha escutava a voz, mas não
podia ver nada, até que acordou assustada, abriu os olhos e viu qua-
tro cabeças olhando para ela, formando uma roda.
— São vocês? Onde estou? — perguntou Faninha, ainda ator-
doada com o que tinha acontecido.
— Sim, minha querida lagarta. Chegamos com a traça, e ela
quer conversar com você. Vamos, levante-se e anime-se, pois temos
uma longa jornada pela frente.
— Quem é esse? Não conheço esse cara! — Faninha estranhou
a quarta cabeça. Então se levantou, coçou os olhos e olhou para o
grupo. — Você é o Mestre Zen, esse aqui é o Fred, essa deve ser a
traça... e esse aqui? Quem é você? — Faninha apontou para o novo e
inesperado personagem da nossa história, o escaravelho.
— Sou Robert, um escaravelho bem velho, diga-se de passa-
gem — Robert deu uma larga risada, mas ninguém o acompanhou.
| 129 |
O Curso da Lagarta

— Pois bem... Estamos todos aqui. Cadê Bóris e as meninas?


— perguntou Fred.
— Bóris foi procurar comida, e as meninas já devem estar che-
gando com as mesas — Faninha mal terminou de falar e a dupla,
Clair e Rose, já chegava com as quatro mesas improvisadas.
— Tudo pronto para o grande banquete! Mesas para todos! —
enquanto Clair falava com a galera, Rose arrumava as tampinhas.
— Espero que gostem da cor e do aroma. Esta é de um refrigeran-
te sabor laranja, essa outra de um refrigerante de sabor uva, e esta
aqui, é de guaraná.
— E eu trouxe folhas verdes e fresquinhas para todos nós. En-
quanto as meninas arrumam a comida, eu e Fred podemos pegar
um pouco de água para a galera — Bóris foi até sua mochila e re-
tirou dela um pequeno frasco contendo um líquido oleoso de cor
verde, que colocou na mesa do centro. — Para ocasiões especiais,
nada como um bom azeite português.
— Maravilha! Vamos todos nos sentar. Depois de comermos,
ficarei junto à nossa palestrante, a traça, ajudando a explicar tudo
para vocês — Mestre Zen se sentou. Bóris e Fred se sentaram tam-
bém junto a todos os outros, depois de deixar uma garrafa pet com
água no centro da roda, ao lado do azeite.
— Antes de começarmos, gostaria de dizer algumas palavras.
Espero que todos desliguem seus celulares, fechem os olhos e façam
uma reflexão — Mestre Zen respirou profundamente, ao mesmo
tempo que olhava para todos. Em seguida, fechou seus olhos e co-
meçou a falar:
| 130 |
A traça

— Amigos, vamos agradecer o alimento que nos é dado, agra-


decer a água que é fonte de vida, agradecer ao Poder Superior que
providencia tudo isso para todos nós. Podem comer agora.
— Todos começaram a comer ao mesmo tempo, felizes por
participarem da ceia, uns ao lado dos outros, prontos para o desafio
que em breve se apresentaria.
— Dona Traça, se é que posso lhe chamar assim, o que te faz
tão especial? — Rose perguntou para a nova participante do grupo,
com extrema curiosidade.
— Pode me chamar de Marta. Na verdade, sou tão especial
quanto você. Todos somos especiais, cada um à sua maneira.
— É claro, amiga, todos somos especiais. Aproveitando o mo-
mento, esclareça a eles o que você sabe a respeito dos bípedes gi-
gantes. Estão todos esperando as suas explicações — Mestre Zen
conduziu a conversa.
— Bom, como eu já disse, meu nome é Marta, e sou uma estu-
diosa da cultura dos bípedes gigantes. Faço isso nas minhas horas
vagas, e posso afirmar a vocês que o que eles estão fazendo ao pla-
neta é muito preocupante.
Faninha ergueu a mão, como quem quer fazer uma pergunta.
A traça, então, lhe passou a palavra: — Diga, lagarta, o que você
quer perguntar?
— O que é o planeta?
— O planeta é a nossa grande casa. Uns vivem aqui, outros ali,
mas todos habitam o mesmo planeta. É a grande casa de todos nós
— explicou a traça. — O que acontece com o planeta atinge a todos
| 131 |
O Curso da Lagarta

e, neste momento, por um motivo que ainda não descobri, os bípe-


des gigantes estão destruindo o nosso lar.
— E onde é que eu entro nessa história, Marta? — continuou
Faninha.
— Onde todos nós entramos nessa história, você quer dizer,
minha amiga! — a traça limpou sua boca com um gole de água, se
levantou e olhou para todo o grupo. — Temos um trabalho a fazer,
não podemos falhar. Faninha é a nossa grande esperança, e ela
precisa estar pronta para se transformar. Então, precisamos en-
contrar logo o lugar especial para que ela possa hibernar e apren-
der tudo sobre os gigantes. E não é só isso: teremos que montar
guarda, até que ela se transforme em uma borboleta e venha nos
salvar.
— Só para que vocês não se esqueçam, os gigantes estão
acabando com o equilíbrio na face da Terra. Muitas espécies es-
tão desaparecendo, o clima está esquentando, estão poluindo
nossas fontes de água e, com isso, um perigo iminente se apro-
xima. Toda a vida na face da Terra corre perigo, inclusive nós
— Mestre Zen acrescentou, acompanhando com atenção as pa-
lavras da traça.
— Obrigada, meu amigo — disse a traça. — O que o Mestre
nos disse é um fato. A partir do momento em que houver escassez
de alimentos para os gigantes, nós, por quem eles nutrem um pro-
fundo desprezo, seremos a única opção de alimento, ou melhor, de
proteína — completou a traça.
— Estamos perdidos! Nossa água, quando não vem da chuva,
| 132 |
A traça

já chega contaminada. As plantas já estão carregadas de remédios


para nos matar, e agora você diz que seremos a próxima, e talvez
única opção no cardápio dos gigantes! Ferrou! — Clair abraçou
Rose e começou a chorar.
— Verdade! O que podemos fazer para impedir o que parece já
estar em andamento? Não temos força para lutar contra eles — Fred
e Bóris também se abraçaram e entraram em pânico.
— Está tudo acabado! Como vocês esperam que eu possa im-
pedir isso? Logo eu, uma lagarta muito infantil e comilona, que não
faz o seu dever de casa, não arruma as suas coisas, e ainda por cima
vive com o celular na mão!
Bom, eu coloquei isso na fala da Faninha porque me incomo-
da muito ver uma geração inteira de insetos que se satisfaz em ficar
o dia inteiro olhando e interagindo (se é que podemos falar em in-
teração) com algo que é menor que uma janela!
— Calma, minha amiga, nós vamos te ajudar. O que você pre-
cisa agora é entender o seu propósito. Ninguém é capaz de fazer
algo sozinho, somente o Poder Superior. Quando o Mestre Zen me
trouxe aqui, pude ver uma antena na parte de cima do telhado. Me
parece o lugar ideal para você ficar.
— Discordo. Lá ela ficará exposta aos predadores e ao tem-
po, não aguentará uma semana! — Fred entrou na conversa. —
O que você viu nessa antena que fez você pensar que ali é o me-
lhor lugar?
— A tecnologia. Levaria anos se eu tivesse que ensinar tudo
o que Faninha precisa saber para convencer os gigantes a não
| 133 |
O Curso da Lagarta

destruírem o planeta e nos comer, mas na antena ela tem uma


chance de saber de tudo, e muito rapidamente! Sua mãe era uma
borboleta modificada geneticamente, seu DNA foi alterado para
que pudesse se comunicar com os gigantes. Tudo estava indo
muito bem, até o sabiá entrar na história. Aí ele a atacou e a fe-
riu mortalmente, mas ainda houve tempo para que a borboleta
monarca soltasse os ovos antes de cair. O resultado está aqui na
nossa frente — disse a traça, concluindo e apontando para Fa-
ninha.
— Por falar nisso, nosso amigo Robert trouxe uma folha de
alumínio, dessas que envolvem os chocolates dos gigantes. Assim
que Faninha hibernar e formar a pupa, poderemos envolvê-la com
essa folha, tanto para protegê-la do calor do sol quanto para disfar-
çá-la, para evitar que os pássaros a comam — Mestre Zen apontou
para o grande escaravelho, que levantou sua armadura e deixou cair
uma folha de alumínio.
— Essa aqui, galera. É com isso que vamos proteger nossa ami-
ga. O bípede gigante nem vai se importar, a internet de banda larga
vai melhorar com a Faninha enrolada nessa folha — disse o esca-
ravelho, apontando para a folha. — Dizem que eles se comunicam
usando aquelas antenas em cima do telhado. Faninha poderá apren-
der tudo, se receber esses sinais de comunicação enquanto hiberna
e se transforma.
— É uma boa teoria... mas será que vai dar certo? — Bóris não
parecia nada convencido com as explicações dos novos personagens
da nossa história, e olhou para Fred, que também não estava com-
| 134 |
A traça

prando a ideia. — Antes que eu me esqueça, quem é você mesmo?


Se não me engano, os escaravelhos são chamados de rola-bosta! —
Bóris debochou, fazendo pouco do inseto.
— Realmente, não sou ninguém, mas ainda assim você me
deve respeito. Conheci a mãe de Faninha, e ela sempre soube res-
peitar os outros. Portanto, acho que devemos seguir nessa linha
— o escaravelho não tinha gostado nem um pouco do que Bóris
dissera. E continuou: — Então, Bóris, se puder me chamar de Ro-
bert, vou adorar.
Robert, por sinal, era um escaravelho bem grande e forte. Acho
que se não fosse um inseto da paz, o nosso amigo Bóris estaria em
apuros.
— Vou falar uma coisa. Não consegui entender quase nada
dessa teoria maluca de conspiração dos gigantes contra nós, muito
menos da história da mudança genética e coisa e tal, mas sei que
devemos somar esforços para ajudar Faninha a cumprir o seu pro-
pósito, como disse a traça. E se em seguida ela for capaz de ajudar-
-nos a todos, quero ajudá-la também — Rose levantou um brinde a
Faninha.
— Isso! Um por todos e todos pela Faninha! — Clair comple-
tou o brinde.
De um jeito muito estranho, todos concordaram em ajudar,
ainda que não pudessem entender tudo o que tinha sido dito.
O fato de estarem juntos e lutando pelo bem do planeta já era
argumento suficiente para que todos concordassem. Se a teoria
da traça iria funcionar, ou se Faninha era realmente uma lagarta
| 135 |
O Curso da Lagarta

misteriosa, que possuía atributos impensáveis, como, por exem-


plo, o de conseguir conversar com os gigantes, isso já era uma
outra história. O fato é que ela já estava apresentando sinais níti-
dos de que estava entrando em transformação. Sua pele começou
a adquirir uma coloração parecida com a de uma folha, um tom
verde claro.
— Galera, olha só a Faninha! — Rose apontou para a lagarta,
que mal conseguia falar. — Se ficarmos discutindo todas essas teo-
rias, nossa amiga não chegará até o telhado!
— Tudo bem. Vamos preparar tudo para levá-la até a antena
da casa. Cada um fica com uma função. Um grupo ajuda a levar a
Faninha, outro leva os materiais de que precisamos para deixá-la no
telhado, e, finalmente, um grupo deve estar pronto para um prová-
vel ataque de predadores — disse Fred. Aproximou-se de Bóris e os
dois caminharam até Robert. — Acho que podemos dar conta do
recado. O que você me diz, Robert?
Fred, Bóris e Robert apertaram as mãos. Parecia que a equipe
da segurança já estava formada.
— Eu e Rose vamos conduzir nossa amiga até o telhado — dis-
se Clair. Em seguida, ela e Rose, uma à direita e outra à esquerda,
abraçaram Faninha.
— Então, eu e Marta levaremos os materiais para o telhado,
mas acho que devemos esperar até anoitecer. É melhor enfrentar os
morcegos que os sabiás — disse Mestre Zen, que ficou conversando
com a traça enquanto os outros grupos se organizavam para o gran-
de momento.
| 136 |
A traça

A noite estava magnífica, e a lua parecia também estar ajudan-


do. Apesar de estar minguando, ainda estava clara o suficiente para
iluminar o caminho para os nossos heróis e heroínas.

| 137 |
11. O telhado
O s grupos estavam se organizando para levar Faninha até as
antenas. Rose e Clair animavam a lagarta. Mestre Zen e a
traça estavam acertando os últimos detalhes para fixar a nossa he-
roína no ponto ideal do telhado. Já os rapazes, estavam conversan-
do sobre técnicas de defesa.
— Como faremos a formação? Acho que eu e Fred devemos ir
na frente do grupo. Você, Robert, deveria fazer a retaguarda. O que
acham? — Bóris pergunta aos dois.
— Para mim, tanto faz. Posso ir na frente do grupo, ou, como você
disse, logo atrás. De qualquer maneira, devemos estar prontos para enfren-
tar os ratos voadores da noite, os morcegos — Robert apontou para o céu.
A noite estava clara, por conta da lua e do céu sem nuvens. Era
fácil ver a quantidade de morcegos que estavam por ali.
— Eu tenho um plano — disse Fred. — Acho que podemos
usar isso aqui — Fred mostrou para Bóris e para Robert três peque-
nos objetos, que pareciam apitos. Robert ficou curioso e pegou um
para experimentar.

| 139 |
O Curso da Lagarta

— Que tipo de apito é esse? Estou soprando e nada acontece,


não escuto nada!
— Você não pode escutar o apito, mas os cachorros e os mor-
cegos, sim — Fred mostrou ao grupo como os morcegos ficaram
desorientados com o apito, ao mesmo tempo que a cachorrada do
lugar começou a latir.
— Essa barulhada não vai acordar o bípede gigante? — per-
guntou Robert.
— Sim, mas ele não será um problema para nós. Os morcegos,
sim, são muito perigosos. De qualquer maneira, peguem os apitos
e olhem à sua volta. Sempre que virem um morcego se aproximar,
usem o apito — recomendou Fred.
Todos naquele grupo já pareciam ter decidido sua estratégia,
mas o que será que as meninas tinham combinado? Não muito longe
dali, as duas amigas discutiam suas ideias.
— Faninha, por favor, se recomponha! Você está pesada de-
mais para ser carregada. Outra coisa, não fica bem para uma moça
ser levada desse jeito até o seu destino — Rose tentava animar Fani-
nha, que parecia se arrastar.
— Estou tão exausta... Acho que estou me transformando. Às
vezes dá a impressão de que vou desligar, mas vocês me agitam e
então eu volto. É como se eu estivesse morrendo.
— É esse o processo, minha amiga. Você morrerá como lagarta
para nascer uma borboleta. Hoje você se arrasta, mas amanhã esta-
rá voando — Clair gesticulava com as mãos, imitando uma borbo-
leta voando. — Está vendo só? Você poderá voar!
| 140 |
O telhado

— Sim, ela poderá voar, mas não agora! Vamos logo com isso.
Pegue pelo lado direito que eu a pego pelo lado esquerdo — Rose
acelerou suas ações e, junto com Clair, levou Faninha até onde esta-
vam a traça e o Mestre Zen.
— Mestre, eles parecem já estar prontos. O que faremos? Par-
tiremos agora? — perguntou a traça.
— Sim, mas antes devemos dar uma passada geral e acertar os
últimos detalhes, antes de partir em direção às antenas. Temo pela
nossa segurança. Não estou bem certo se os rapazes conseguirão
distrair os morcegos — o Mestre parecia estar muito preocupado
com o perigo que vinha do ar. Olhou para o alto, observando a es-
curidão da noite, e prosseguiu: — Está escutando? São eles, os mor-
cegos. Fazem esse som para poderem voar no escuro.
— Sim, parece que são muitos. Nossos amigos vão precisar de
uma ajuda extra. Me dê um minutinho que eu já volto. Existe mais
vida à nossa volta do que podemos perceber — afirmou a traça. Em
seguida, caminhou até a outra ponta do telhado, enquanto as meni-
nas se aproximavam de Zen.
— Mestre, o que Marta foi fazer do outro lado do telhado? —
Clair perguntou ao louva-a-deus.
— Acho que foi pedir ajuda.
— Pedir ajuda? Não há mais ninguém por aqui. A quem ela
vai chamar, a esta hora da noite? — Rose arrumou Faninha em seu
ombro enquanto observava a traça se distanciar.
— Como ela mesma disse, minhas amigas, existe mais vida
à nossa volta do que podemos imaginar. Além disso, a traça tem
| 141 |
O Curso da Lagarta

uma habilidade impressionante de encontrar insetos interessados


em ajudar a nossa causa. Vejam: eu mesmo fui convencido por ela a
ficar observando a Borboleta Monarca. Estava encarregado de de-
fendê-la, mas nada pude fazer contra o sabiá — o Mestre abaixou a
cabeça, como se estivesse se culpando.
— Não fique assim, Zen. Você não é o culpado pelo destino de
minha mãe, nem mesmo o sabiá foi o culpado. É a luta pela sobrevi-
vência que faz com que isso aconteça. Todos os seres vivos estão co-
nectados com o planeta, e estamos ligados uns aos outros pelo ciclo
da vida — Faninha abraçou Zen, que se emocionou com a lagarta.
— Todos precisam de alimento para viver. Uns se alimentam dos
outros, e isso deve estar em equilíbrio. O problema é quando não
há esse equilíbrio... Quando isso acontece, todos ficam em perigo. É
como uma corrente formada pelos seus elos: quando um se parte, a
corrente se quebra.
— Que lindo, minha amiguinha. Você está mudando mesmo,
está ficando mais sensível e paciente. Acho que eu queria ser igual a
você — disse a pulga.
— Que bobagem, Clair! Deixa de ser puxa-saco!
— Mas é verdade, Rose. Faninha está mudando, para melhor.
Minha bebezona! — Clair fez carinho em Faninha, que estava de pé,
mas de olhos fechados. Enquanto isso, Marta voltou a se juntar ao
grupo, mas não estava sozinha.
— Oi, meninas. Espero que estejam prontas — enquanto con-
versava como grupo, Marta pediu à mariposa para se aproximar. —
Esta aqui é Eclipse, nosso reforço para a escalada final.
| 142 |
O telhado

Eclipse era uma mariposa especial. Ela e seu grupo de maripo-


sas conseguiam fugir dos ataques dos morcegos, e eram capazes de
escutar os sons que os morcegos faziam para encontrar seus alvos.
Com isso, emitiam sons e faziam manobras evasivas para confundi-
-los, escapando deles.
— Boa noite, galera. Marta conversou comigo a respeito da
lagarta. Vamos ajudá-los com os morcegos.
— Como espera fugir daqueles ratos voadores? — perguntou
Faninha.
— Vocês não sabem com quem estão falando — disse Bóris,
impressionado com a mariposa. — Olha só isso, Fred! Eclipse é uma
maravilhosa Bertholdia Trigona! — Bóris olhou à sua volta e perce-
beu que seu comentário tinha causado um pequeno mal-estar. — Me
desculpe, senhora, eu disse maravilhosa no sentido de espetacular...
— Não ligue para ele, minha senhora. Ele tem dificuldade de
se expressar, não é mesmo, filhote? — Robert deu um chega pra lá
em Bóris.
— Por favor, me chamem de Eclipse. “Senhora” me faz sentir
mais velha do que já sou — disse a mariposa, olhando para toda a
turma. — Eu e meu grupo vamos distrair o maior número de mor-
cegos possível. Espero que os rapazes deem conta dos que sobrarem.
— Muito oportuno o que você disse, Eclipse. Agora que estão
todos aqui, vou dizer o que faremos — Marta reuniu todo eles em
um grande círculo e, com um pedaço de palito de dentes, procurou
explicar como fariam para chegar até as antenas. Mas Clair olhou
para Faninha e apressou a todos.
| 143 |
O Curso da Lagarta

— Vamos depressa com as explicações. Faninha está muito es-


tranha, ela pode apagar a qualquer momento!
— Ok, então é o seguinte: prestem bem atenção — a traça fez
o desenho do telhado, indicando o ponto onde estavam com uma
bolinha e desenhando todo o percurso até o segundo ponto, as an-
tenas, onde também fez uma indicação com uma outra bolinha. —
Estamos aqui, nesse ponto. A primeira coisa a fazer e subir até a
calha, por aqui; depois seguimos em frente até a altura das ante-
nas, subimos para o telhado e em uma linha reta chegamos até as
antenas, bem aqui. Enquanto estivermos na calha, nossos flancos
estarão protegidos, mas depois que estivermos no telhado devemos
tomar muito cuidado. Não sou uma especialista em segurança, por
isso acho que os rapazes podem definir a estratégia que usaremos a
partir desse ponto. O que vocês acham?
— Precisamos saber o que vocês farão durante o percurso até
as antenas. É nessa hora que eu e meu grupo entraremos em ação,
distraindo os morcegos — Eclipse falou, olhando para os rapazes.
— Não há muito o que inventar. Temos que agir o mais rápido
possível — Fred abraçou seu amigo Bóris e seu novo companheiro
Robert, enquanto o trio definia os pontos finais. — Marta e Mestre
Zen devem ir na frente. Ao chegarem ao ponto onde Faninha ficará
fixada, devem fazer um sinal para o segundo grupo, formado pe-
las meninas. Enquanto elas caminham em direção às antenas, você,
Robert, por ser o mais forte, poderia ajudá-las, pois Faninha está
bem pesada.
— Se é esse o caso, por que não voamos até lá? Chegaremos
| 144 |
O telhado

muito mais rápido do que caminhando pelo telhado — Robert pa-


recia discordar de Fred. Tal discordância silenciou o grupo por um
instante, mas então Zen entrou na conversa.
— Ok, mas se formos pelo ar, poderemos ser facilmente ata-
cados. Eclipse e seu grupo voarão para distrair os morcegos, e nós
já estaremos aguardando vocês no ponto ideal. Só precisamos que
você, Robert, ajude Clair e Rose com Faninha — Zen olhou para a
Fred e Bóris com alguma preocupação, antes de continuar sua fala.
— Na retaguarda, Fred e Bóris com seus apitos e ferramentas devem
nos proteger a qualquer custo!
— O que ele quis dizer com “a qualquer custo”, gente? — Fani-
nha, mesmo grogue, continuava com as suas perguntas.
— Quis dizer que os rapazes devem combater qualquer tipo de
ataque, mesmo que para isso sacrifiquem as suas vidas! — Rose, só
para variar, foi direto ao assunto.
— Certo, mas isso não será necessário. Eu e meu amigo Fred
vamos dar conta do recado.
— É o que todos esperamos de vocês. Hora de partir, todos
para a calha! Antes, porém, um último recado — Marta, se mos-
trando confiante, fez um movimento com a mão indicando um cír-
culo, e todos, uns bem próximos dos outros, formaram mais uma
vez uma grande roda. A traça olhou para cada um, fez uma pausa e
disse: — Hoje estaremos dando um passo para um futuro melhor,
um futuro em que haverá alimento em abundância para todos os
animais e seres vivos, inclusive os bípedes gigantes. Não podemos
falhar. Portanto, deem o melhor de si. Vamos!
| 145 |
O Curso da Lagarta

O grupo se animou com a fala da traça, que devia ter lido mui-
to sobre palestras e textos motivacionais na Biblioteca Municipal.
Marta e Zen abriam caminho para o desconhecido. Logo atrás vi-
nham Robert e as meninas, Clair e Rose, cada uma de um lado de
Faninha. Um pouco mais atrás ainda estavam Bóris e Fred, ambos
com os apitos ultrassônicos. Finalmente, bem abaixo da calha,
Eclipse e seu grupo aguardavam o sinal dos rapazes para saírem em
direção aos morcegos.
Logo que a traça e o louva-a-deus subiram na calha, pediram
que os outros esperassem até que verificassem se o lugar estava se-
guro. Havia muitas folhas, e os dois tiveram uma ideia.
— Que tal se fizermos um túnel verde até o ponto certo? —
perguntou Zen.
— Excelente ideia, meu amigo. Enquanto avançamos, arruma-
mos as folhas para criar um túnel. Assim não seremos percebidos
— Marta e Zen, à medida que avançavam, preparavam um caminho
seguro para o resto do grupo.
— Vamos, Robert, força! Empurre Faninha até a calha! — o
grupo que vinha logo atrás estava com alguma dificuldade. Faninha
estava um pouco pesada, e Clair, por ser uma pulga e bem menor
que os demais, só ficava dando ordens.
— Força? Por que não vem aqui ajudar em vez de ficar falan-
do? Estamos dando duro aqui! — disse Robert, todo suado.
Rose apenas ajeitava Faninha para que não caísse no chão da
casa.
— Isso, minha linda. Agora é só você se jogar na calha — Rose
| 146 |
O telhado

empurrou Faninha, que rolou pela calha. Em seguida, ela e Robert


subiram até o ponto em que a lagarta estava. Fred, enquanto isso,
conversava com Eclipse:
— Quando você escutar esse som, pode sair com as suas ami-
gas. Estaremos no telhado, na direção das antenas.
— Ok, Fred. Pode deixar com a gente. Os morcegos vão tentar,
mas não terão sucesso conosco. Então fiquem atentos, eles vão na
direção de vocês!
Rapidamente os dois escalaram a calha e viram os grupos à sua
frente: Zen e Marta arrumando as folhas, e Robert com as meninas
carregando Faninha.
— Zen, está pronto para correr? — Zen balançou a cabeça,
como quem diz sim. — Então, bora sair daqui! Vamos, galera! É
agora!
Fred e Bóris fizeram o sinal para Eclipse e o grupo de maripo-
sas. Enquanto isso, Zen e a traça correram na direção das antenas.
Robert passava um sufoco suspendendo Faninha até que ela pudes-
se alcançar o telhado, e Fred e Bóris ajudavam os outros a fazerem
o mesmo.
Naquele momento, as nuvens cobriram a lua. A noite ficou às
escuras, e isso só dificultava mais ainda as coisas. Um vento fraco,
que vinha no sentido contrário, também não estava ajudando mui-
to e, para piorar tudo, os morcegos estavam famintos.
O grupo de Eclipse já estava em plena ação. Aproveitando o
vento, as mariposas se movimentavam com tremenda eficiência,
atraindo e ao mesmo tempo afastando os morcegos do telhado. Zen
| 147 |
O Curso da Lagarta

e Marta chegaram até as antenas e, enquanto observam o segundo


grupo chegar, definiram o lugar exato para a transformação.
— Faninha deve se fixar aqui. Estará presa entre as ante-
nas de TV a cabo e a internet banda larga. Envolvendo-a com o
alumínio, ela poderá receber ambos os sinais. O que você acha,
Zen?
— Perfeito. Ela estará no meio desse emaranhado de fios e me-
tais. Desse modo, estará protegida dos grandes predadores. A fo-
lha de alumínio vai camuflar nossa amiga, além de dar para ela um
super sinal. Bom, se prepare para colocá-la no ponto, eles já estão
chegando.
Enquanto Zen e Marta se preparavam para fixar Faninha, a
lagarta e seu grupo estavam passando por algumas dificuldades.
— Assim não vai dar! Vocês duas não estão conseguindo sus-
tentar Faninha desse lado. Então acho melhor eu carregá-la sozi-
nho, enquanto vocês fazem a cobertura — Robert pegou Faninha
no colo e partiu rapidamente em direção às antenas.
Clair e Rose pareciam não se entender:
— Eu não sei apitar, nunca gostei das aulas de música na es-
cola! — Clair reclamou, após tentar soprar o apito, e o jogou para
Rose.
— Ora, bolas! Pode deixar comigo, eu dou conta disso — Rose
pegou o apito e foi caminhando logo atrás de Robert e Faninha. Ca-
minhando com o grupo, Clair observava a movimentação no céu.
— Vamos, rapazes! Rápido! — Clair chamou Fred e Bóris.
— Já estamos chegando! — Fred acelerou o passo junto a Bó-
| 148 |
A despedida

ris, enquanto olhavam para o alto. — Eclipse e seu grupo estão fa-
zendo um grande trabalho, os morcegos estão longe daqui. Vamos
conseguir! — mas foi só o Fred dizer isso que um vulto de asas pas-
sou muito perto do grupo. Parecia um pássaro.
— O que foi isso, Fred? Isso não parece um morcego, não faz
barulho e é muito maior! — Bóris saiu em disparada, em pânico,
apitando sem parar. Por sorte, Faninha já havia chegado até a ante-
na.
— Corra, amigo! É uma coruja, não temos como nos defender
dela! — Fred cuspiu fora o apito e saiu em disparada, logo atrás de
Bóris.
Parecia que não havia mais jeito para Fred e Bóris. A coruja
é um predador de alto nível, e enxerga tudo à noite. Suas garras e
bicos são ferramentas mortais quando estão em uma caçada, e seu
vulto podia ser percebido, mesmo no escuro. O terror se instaurou.
A coruja fez uma manobra e em seguida se voltou na direção dos
dois.
— Corram mais rápido, ela está voltando! — Zen tentou avisar
à dupla, que estava em apuros.
Tudo parecia perdido, até que a coruja fez o mergulho em di-
reção ao grupo e deu para ver que seu alvo não era os dois rapazes.
A coruja queria algo mais consistente, queria saborear um rato que
se aproximava de um jeito fortuito.
— Nossa! Vocês viram o que eu vi? Ela abateu um rato enor-
me que vinha em nossa direção! — Marta compartilhou o que vira,
mais aliviada. Naquele momento, Fred e Bóris também chegavam
| 149 |
O Curso da Lagarta

à antena, sãos e salvos. Bóris então apitou para o grupo de Eclipse,


que retornou para debaixo do telhado.
Por um momento, todos ficaram em silêncio, e isso pareceu um
convite ao sol, que iniciava sua nova jornada. Luzes podiam ser perce-
bidas no horizonte, e à medida que os minutos corriam, o dia se apre-
sentava, com tons de vermelho pintando as poucas nuvens no céu. Em
meio às antenas, o grupo todo observava o espetáculo da vida.
— Onde está Faninha? Cadê aquela peste? — Clair procurou
por sua amiga, que, sem que ninguém percebesse, já havia se fixado
entre as antenas.
— Estou aqui, amiga. Nunca pensei que esse dia chegaria, e
que eu veria tudo de cabeça para baixo. Estou anestesiada, não sinto
mais o meu corpo, e acho que vou apagar a qualquer momento. Por
isso, devo agradecer a todos pelo que fizeram por mim hoje. Sem
vocês, eu não teria chegado até aqui.
— Acho que posso falar por todos aqui, minha amiga. Nós to-
dos estamos muito orgulhosos. Você se superou, e conseguiu! Es-
peramos que você aprenda tudo sobre os gigantes enquanto dorme,
pois é nossa única chance! — Marta se mostrava muito feliz ao con-
versar com Faninha. Os minutos finais tinham sido muito intensos,
e o grupo todo estava muito cansado.
— Mais uma dica, minha jovem — disse Marta, enquanto ob-
servava o amanhecer que desvelava a cidade ao fundo. — Não deixe
que a cultura dos bípedes gigantes modifique a sua personalidade.
Eles podem ser muito eloquentes, com seus livros, filmes e suas teo-
rias, mas vivem com medo!
| 150 |
A despedida

Faninha, já sem forças para falar, piscou o olho para a traça e


o resto do grupo, como quem diz “ok”. Logo em seguida, fechou os
olhos e adormeceu. Nunca mais seria uma lagarta.

| 151 |
12. A despedida
O dia se erguia lentamente com o sol, que já aquecia a plateia
que observava Faninha, imóvel e de cabaça para baixo. A
adoração pelo estado em que se encontrava a colega em transfor-
mação seguia muda, até que Rose, incomodada com a orquestra de
silêncios, perguntou:
— O que faremos agora?
— Temos que esperar a crisálida se formar por completo. De-
pois, usaremos a folha de alumínio para envolver a nossa amiga.
Dessa forma, estará segura, e poderá ficar conectada às antenas de
TV e internet — explicou Marta.
— E isso vai demorar muito? É que não aguento esperar tanto
tempo por algo. Sei lá, sou de uma geração que não tem muita pa-
ciência, mesmo em se tratando de amigos e situações inesperadas.
Lamento, mas estou nervosa! — exclamou Rose.
— Não se culpe tanto. Ninguém que esteja vivo na face da Ter-
ra consegue deter o tempo que nos é imposto pelos bípedes gigan-
tes. Tudo é urgente para eles; não têm tempo para nada, e ficam com

| 153 |
O Curso da Lagarta

seus olhos grudados em janelas portáteis — Zen tentou minimizar


o comentário de Rose.
— Celulares, laptops, notebooks... é como eles chamam essas
janelas. Li um artigo na PC Magazine, enquanto o comia, é claro, que
explicava o funcionamento desses aparelhos que mestre Zen chama
de “janelas”. A edição era muito caprichada, e o papel, hummm, que
delícia — Marta chegou a fechar os olhos enquanto falava a respeito
da qualidade das folhas.
— Ué, você come as revistas que lê? — perguntou Clair.
— Às vezes... Outras, só como, sem ler. Depende do conteúdo.
Por exemplo, nas revistas de celebridades faço questão de não ler
nada, apenas as como.
— Não acredito que estamos conversando sobre esse assunto.
Estamos com a nossa amiga aqui, completamente imóvel e de per-
nas para o ar, em plena transformação, e vocês falando de revistas
de consultório de dentista — Fred, irritado com a conversa, chamou
a atenção para Faninha. Naquele momento, já se podia ver a pupa se
formando, cobrindo a cabeça e avançando para os pés.
— Olhem só, o processo se iniciou com muita rapidez. Se
não tivéssemos trazido Faninha durante a noite, ela estaria des-
se jeito debaixo do telhado, o que não seria de todo ruim. Ali
também ela estaria segura, só não tiraria proveito do seu “wi-fi”
de nascença e das antenas. Para falar a verdade, foi o lugar que
escolhemos para nós, não é mesmo, Fred? — Bóris olhou para o
parceiro que estava à sua direita, enquanto Faninha continuava
em plena metamorfose.
| 154 |
O Curso da Lagarta

— Quando acabarmos com tudo por aqui, acho que devemos


voltar para debaixo do telhado. Nossa hora também está chegando
— Fred e Bóris também eram lagartas, e deveriam passar pelo mes-
mo processo. Tinham encontrado Faninha quando se dirigiam para
o lugar do qual falavam e, como todos que estavam ali, decidiram
ajudá-la.
— Sim, amigo. Assim que tudo acabar vamos para lá. E vocês?
O que farão? — Bóris perguntou ao resto do grupo.
— Eu e Mestre Zen teremos que esperar até que ela se trans-
forme em borboleta. Ficaremos por perto, observando a evolução
de todo o processo. Vamos nos revezar no acompanhamento. O que
você acha, Zen?
— Acho uma ótima ideia. Alguém mais se habilita a nos ajudar
a proteger nossa amiga? Vocês duas não podem colaborar? — Zen
se dirigiu a Clair e Rose, que foram pegas de surpresa.
— Eu posso ficar hoje por aqui. Posso passar o dia, e amanhã
alguém pode vir e me substituir. Rose me acompanha? — pergun-
tou Clair.
— É claro, minha amável pulga! Não deixarei você sozinha
nessa. Somos parceiras, não somos?
— Acho que seria melhor se os rapazes ficassem na guarda
hoje. Será que eles precisam partir logo? — Robert entrou na con-
versa e escalou a dupla de lagartas para o serviço. — Depois, vocês
duas poderiam ficar. Eu posso render vocês e ficar de guarda no
terceiro dia.
— Tem razão, Robert. Primeiro, os rapazes, e depois as meni-
| 156 |
A despedida

nas. Você pode vir a seguir. Que tal se vier com Eclipse? Assim, eu
e Mestre Zen completaríamos a primeira escala da vigília — Marta
fez as contas de cabeça, tentando montar uma escala que pudesse
cobrir todo o estágio de transformação de Faninha. — Ela provavel-
mente ficará desse jeito por onze ou doze dias. Então, precisaremos
montar a última semana de guarda.
— Vamos deixar isso para outra ocasião. Acho que o momento
é oportuno para que cada um faça a sua despedida. De qualquer
forma, os primeiros quatro dias já estão organizados, e isso significa
que já planejamos um terço de nossa empreitada — Fred se ante-
cipou na conversa, pois Faninha já tinha se transformado em uma
crisálida. — Enquanto conversávamos, a pupa se formou por com-
pleto, ficou com uma linda tonalidade de verde. Está com o aspecto
de uma verdadeira joia, parecendo uma pedra de jade.
— Ela está muito linda! — disse Clair, sempre com as questões
estéticas.
— Por que devemos nos despedir? Assim que se tornar uma
borboleta, ela estará novamente conosco! Acho que está na hora de
envolvê-la com a folha de alumínio — disse Robert, enquanto reti-
rava a folha guardada por entre suas asas e a entregava para Mestre
Zen.
— Grato, meu amigo — respondeu Zen. — Mas tem algo que vo-
cês não sabem sobre o que está acontecendo com Faninha — alertou
Zen, envolvendo Faninha com a folha de alumínio enquanto falava
para o grupo. — Quando ela se tornar uma borboleta, não vai se lem-
brar de nós. A transformação apagará toda lembrança que ela tinha
| 157 |
O Curso da Lagarta

da vida que levou como uma lagarta, e isso inclui a nossa amizade.
— Estamos sabendo, mas isso não é justo... — disse Clair, com
os olhos vermelhos. A pulga abraçou Rose e começou a chorar.
— Não fique assim, Clair. Podemos contar tudo para ela. O
mais importante é que nós não esqueceremos tudo o que aconteceu
— Rose tentou acalmar a amiga e a abraçou, ao mesmo tempo que
abraçava Marta. O gesto viralizou, se espalhou rapidamente pelo
grupo, e todos se abraçaram.
— Quer dizer que eu e Fred também não vamos nos lembrar
de tudo isso? — Bóris, de cabeça baixa, parecia inconsolável.
— É o que acontece com as lagartas que se transformam — dis-
se Rose, com uma voz desanimada, enquanto consolava Clair.
— Não se preocupem. Estaremos aqui para contar tudo o que
aconteceu. Precisamos de vocês nessa empreitada. Todos aqui são
peças-chave para o sucesso de Faninha. Em vez de se lamentarem,
alegrem-se, pois chegamos até aqui em segurança.
— Isso mesmo, Mestre Zen. Ebenezer! — Marta olhou para o
céu e sorriu. Em seguida, se ajoelhou e agradeceu o sucesso da mis-
são.
A maioria não entendeu o que a traça quis dizer. Ainda assim,
todos seguiram seus movimentos e a fizeram o mesmo.
— Será que ela está nos escutando? Pergunto isso porque
gostaria que ela escutasse que durante o período que passamos
juntas eu fui muito feliz, mesmo com tantas e tantas pergun-
tas... — Rose se aproximou de Faninha, que estava envolta em
alumínio e com um aspecto metálico. — Eu te amo, minha ami-
| 158 |
A despedida

ga. Esteja certa de que estarei aqui te esperando. Vou ser sua
amiga para sempre.
— Faço minhas as suas palavras, só com uma pequena diferen-
ça... Acho que a amo mais do que você, joaninha! — Clair brincou
com Rose, e todos riram. O momento era de descontração e de rea-
lização pelo dever cumprido.
— Amigos, é hora das palavras finais — Fred olhou para o gru-
po e convocou a todos com um gesto, para que cada um pudesse se
despedir.
— Bóris, você sempre foi melhor com textos do que eu. Então,
formalize a nossa despedida — pediu Fred, passando a responsa-
bilidade para seu colega. Bóris se aproximou de Faninha, tocou na
superfície brilhosa do metal e a acariciou enquanto falava.
— Amiga falante e curiosa, espero que você consiga passar em
segurança por essa fase. Siga os conselhos de Marta e Mestre Zen, e
aprenda tudo o que puder sobre os bípedes gigantes. Somente des-
sa maneira poderemos encontrar um meio de fazê-los parar com a
destruição e o esgotamento do planeta. Você é nossa grande espe-
rança, contamos com você — assim que terminou, Bóris se afastou
de Faninha, cedendo o lugar a Robert.
— Não a conheci como os outros, mas o pouco convívio que
tive com você me fez ter a esperança de dias melhores, dias sem
agrotóxicos e produtos químicos que nos matam, dias em que pos-
samos ser vistos como companheiros, e não como pragas — Robert
se emocionou. — Dias em que o equilíbrio na Terra seja restabele-
cido e uma nova aliança com o Deus Supremo possa ser celebrada.
| 159 |
O Curso da Lagarta

— Sim, meu amigo. Tudo que vive é sagrado. Toda a natureza,


os céus e os mares, devem ser cuidados por todos. Este é o nosso
planeta, e devemos tratá-lo com muito cuidado e zelo — completou
Mestre Zen.
— Bom, meus amigos e minhas amigas, o que eu tenho para di-
zer não é muito. Existem alguns detalhes que não posso contar para
vocês, mas estejam certos de que uma nova era começa aqui. Vocês
já sabem que Faninha é uma lagarta modificada geneticamente, e
sua habilidade para se conectar e interpretar as ações dos bípedes
gigantes é fantástica. Nesse momento, ela já está sofrendo grandes
mudanças. Enquanto seu corpo evolui para a forma da borboleta,
seus sentidos estão se conectando aos sinais das antenas. Sim, Fa-
ninha possui um “wi-fi” natural. Em pouco tempo, acessará toda a
história da humanidade, aprenderá todos os idiomas e religiões, e
terá os dados completos sobre o planeta. Dessa forma, poderá enten-
der o comportamento dos gigantes e elaborar um plano para salvar
a terra. Faninha é a nossa grande esperança, e me sinto orgulhosa
por fazer parte dessa equipe que quer o melhor para todos. Enfim,
amigos, nossa jornada não se encerra aqui. Está apenas começando,
e peço que continuem dando o seu melhor — Marta concluiu a série
de despedidas com um discurso digno de uma traça. Todos aplaudi-
ram com muito entusiasmo.
— Nós ficamos aqui, de guarda. Podem ir tranquilos, meus
amigos, pois eu e Bóris daremos conta do recado.
— É isso aí, Fred! Estaremos atentos.
Depois de se despedirem de Fred e Bóris, todos partiram. Clair
| 160 |
A despedida

e Rose saíram pela esquerda, Zen e Marta pela direita e o truculen-


to Robert decolou para o alto. Os rapazes encontraram um lugar à
sombra para ficar por ali, observando o dia seguir, sem pressa, em
direção ao horizonte.
O sol do fim de tarde tornava a aparência metálica de Faninha
um objeto digno de filme de ficção científica, com reflexos e brilhos
fortuitos sendo produzidos pelo alumínio. A tarde se despedia de
Faninha com um verdadeiro show de luzes. Os pássaros também
entoavam um canto alegre, lembrando a saída dos alunos de uma
escola primária. Era a vida, que também torcia por nossa corajosa
personagem.
Com a despedida esfuziante do dia, a noite chegava com suas
dúvidas e interrogações. A escuridão trouxera medo e temor aos
nossos rapazes, que, se entreolhando, pareciam se fazer silenciosa-
mente a mesma pergunta: “O que estaria acontecendo com Faninha
nesse momento? Coincidência ou não, nossa amiga estava se fazen-
do a mesma pergunta.
— O que está acontecendo comigo? — indagava Faninha, mes-
mo inconsciente. — Ora escuridão, ora um branco que cega! Parece
que estou em uma pista de dança, onde aquelas luzes piscam inces-
santemente, luzes estroboscópicas, nos atordoando. O que será isso?
Será um sonho ou um pesadelo? Meu Deus! Me acode! Socorro! —
Faninha entrou em pânico, mas não era capaz de se mover nem de se
comunicar com os rapazes. Então, se lembrou da técnica do Mestre
Zen e conseguiu se acalmar, contendo a confusão causada pelas luzes.
— Puxa! Até que enfim... As luzes ainda se alternam, mas agora
| 161 |
O Curso da Lagarta

em um fluxo muito mais lento. Escuridão e claridade dançam jun-


tas em harmonia. Fantástico! — Faninha estava conseguindo equili-
brar as ações, mas elas pareciam ter uma narrativa própria, como se
fossem parte de um espetáculo surrealista que o diretor não podia
controlar.
O ritmo das luzes se manteve o tempo suficiente para que Fa-
ninha pudesse se ver dançando. Imediatamente, um som foi produ-
zido em sintonia com as luzes e os movimentos, completando um
show onde nossa personagem bailava com a escuridão e a luz. Em
dado momento, um dardo foi lançado na direção de Faninha. Ela
foi para a esquerda, e o dardo mudou sua trajetória. Então ela foi
para a direita, e o dardo, como se fosse um míssil teleguiado, tam-
bém virou na mesma direção.
Faninha não sabia como evitar que o dardo a pegasse. Com
um gesto improvisado, amorteceu o impacto recuando o corpo e
dando um passo para trás. Assim, conseguiu pegar o dardo antes
que ele a atingisse. Feliz com o sucesso de sua estratégia, dançou
com a seta na mão, enquanto a escuridão se estabelecia à sua volta.
A luz parecia agora ser o facho de um refletor sobre ela. Para onde
ela fosse, a luz a acompanhava.
— Diante de um perigo iminente, o passo adiante é um passo
para trás! — as palavras simplesmente saíam da boca de Faninha,
que podia entender o que se passava. — Não haverá uma segunda
chance para o mal! — Faninha quebrou o dardo ao meio e, com um
pedaço em cada mão, fez novos movimentos. Uma segunda coreo-
grafia se desenrolou naquele momento. Seus movimentos cessaram
| 162 |
A despedida

e, como um maestro que segura a sua batuta, Faninha mudou a me-


lodia e a música se tornou mais suave.
— A verdadeira sabedoria é transformar toda a experiência
em aprendizado positivo. O bom conhecimento sempre deve so-
mar — Faninha então cruzou as partes do dardo e formou uma
cruz, que também é o sinal de mais, e de positivo. Ao fazer esse
gesto, fez com que a escuridão se afastasse definitivamente. A
luz não era mais um pequeno facho, mas um grande clarão so-
bre a nossa personagem.
— Uau! Isso aqui está ficando muito interessante... O mundo
à minha volta muda de acordo com o que eu faço, se altera com
o meu pensamento. Boas ações e bons pensamentos vão produzir
coisas boas. Mesmo assim, ainda há só luz e escuridão, e mais nada!
— Faninha olhou à sua volta, e tudo o que podia ver era um claro e
escuro infinitos, como um desenho que estava apenas no início, sem
cor nenhuma. — Preciso pensar em algo!
O tempo foi passando como se fosse uma eternidade. Uma fra-
ção de segundo parecia durar milhares de anos, e vice-versa. Na di-
mensão em que Faninha se encontrava, era impossível determinar
o tempo.
— Não sei como lidar com isso! Não existe um mundo aqui,
só o vazio! — Faninha desistiu de suas ideias e lançou para o alto o
objeto que tinha criado. E o tempo passou, mas o objeto não caía.
— Eu não sabia que era tão forte. Aquela cruz desapareceu
no alto... — pois foi Faninha terminar de falar, e o objeto caiu,
bem à sua frente, formando um “x”, que é o sinal da multiplicação.
| 163 |
O Curso da Lagarta

Imediatamente, o céu se tornou azul, um azul simplesmente mara-


vilhoso, sem mácula, sem nenhuma nuvem. Quando tocou o chão,
o objeto formou um gramado verde onde não havia nada. Árvores e
montanhas surgiram onde antes só havia claro e escuro.
— Nossa! Isso aqui está parecendo um paraíso! Só pode ser
fruto da minha imaginação! — Faninha parecia não acreditar no
que estava acontecendo. Em seguida se ajoelhou, de olhos fecha-
dos, e uma sensação de acolhimento invadiu seu coração. De algu-
ma forma, teve a sensação de que não estava mais sozinha. Havia
algo ali, algo maravilhoso e infinitamente maior do que ela jamais
poderia imaginar.
— Tem alguém aí? — Faninha perguntou, mas não obteve ne-
nhuma resposta.
Fez a pergunta novamente, agora gritando com todas as suas
forças:
— Tem alguém aí?
Depois do seu grito reinou um silêncio absoluto. Não houve
resposta para a sua súplica. Afinal, quem ou o que estaria ali?
Após um breve momento, Faninha percebeu uma brisa suave.
Uma gostosa sensação de refrigério se instalou em seu peito e ela
então se sentou, e observou o mundo que havia surgido à sua volta,
admirando a perfeição da natureza, com suas cores e formas.
— Como o nosso planeta é lindo! E temos isso todos os dias:
360 graus à nossa volta, e não damos o menor valor. Preferimos ver
essa maravilha recortada em uma tela, seja em um monitor ou num
celular. Precisamos reeducar nossos olhos, temos andado como ce-
| 164 |
A despedida

gos! — Faninha fechou os olhos mais uma vez, e sentiu algo tocar
em seus braços. Abriu os olhos e viu pequenos flocos brancos que
caíam como uma geada, como pequenas pérolas. Pegou uma delas
e pôs na boca.
— Eu poderia ficar aqui, debaixo dessa árvore, e me alimentar
dessa pequena maravilha. Mas como aprenderei sobre os bípedes
gigantes?
Sentada confortavelmente sob uma árvore e saboreando algo
que parecia um maná, Faninha retomou sua missão, procurando
um meio de aprender tudo sobre os seres humanos. Mas como?
— Minha pequena, você só precisa ficar onde está e fechar os
olhos. Eu te ensinarei tudo o que precisa saber! — disse uma voz,
que só podia ser ouvida em sua mente e sentida em seu coração.
— Quem é você? O que aprenderei? — perguntou Faninha à
voz que falava em seu íntimo.
Então, a voz lhe respondeu:
— TUDO!

| 165 |

Centres d'intérêt liés