Vous êtes sur la page 1sur 20

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO


CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS
FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE

ARGUMENTOS DA ACUSAÇÃO - JÚRI SIMULADO – DIREITO PROCESSUAL


PENAL

Equipe de Acusação:
Felipe Domingos Jurema
Jônatas Henrique dos Santos
Mateus de Oliveira Ribeiro
Tomás Pires Acioli
Turma: M6
Professor: Alfredo Falcão

Recife
2019

I. Pensamento do STF sobre competência processual penal por


prerrogativa de foro

Na espécie, não há pertinência a alegada prorrogação da competência do


Supremo Tribunal Federal para o julgamento da lide penal. A competência por
prerrogativa de foro, revestida de índole eminentemente constitucional, constitui
hipótese de competência absoluta ratione muneris, cuja finalidade prospectada pelo
constituinte originário se projeta como poderosa prerrogativa republicana,
garantidora do exercício da função pública eletiva por meio da inderrogável e
necessária garantia de que o acusado será julgado por um tribunal imparcial e
insuscetível de pressões externas de variadas ordens.

É por essa razão que a competência absoluta cede, em face da renúncia ou


cassação do mandato eletivo, ou mesmo por exaurir-se pelo transcurso do prazo,
pois a tal modalidade de competência, em matéria processual penal, expressa-se
como corolário democrático e republicano do exercício da função pública, o que não
significa atribui-la à pessoa que goza de tal garantia durante prazo em que ocupar o
cargo público ou função eletiva, pois a prerrogativa de foro prende-se ao cargo, não
à pessoa que o ocupa.

Isso significa que, para que seja atraída a competência originária excepcional
do Supremo Tribunal Federal, além de ser imprescindível que a infração penal seja
cometida durante o exercício da função pública (in officio), cumulativamente à
verificação da íntima relação entre o crime e as atribuições inerentes ao cargo
(propter officium), deverá o julgamento acontecer quando o acusado ainda esteja em
sua titularidade, sem o que se impõe o reconhecimento da incompetência da
Suprema Corte, salvo se a perda ou renúncia ao cargo consubstanciar ato motivado
pela torpeza do acusado, com o intuito de frustrar a aplicação da lei penal.

Autoriza-se, desse modo, a conclusão de que, cessando a investidura na


função pública – e desde que não se tenha exaurido a instrução processual –, quer
seja pela perda do mandato, quer seja pela renúncia, independentemente do motivo,
deverá o Supremo Tribunal Federal remeter o processo ao juízo de primeiro grau
competente em função da matéria e da natureza da imputação, sob pena de
flagrante usurpação da competência do juízo natural, pois caducada a investidura no
cargo, retorna o antigo titular ao status de cidadão comum, destituído prerrogativa.

A extraordinária derrogação dos postulados da igualdade e da isonomia


traduz matéria de direito estrito, a merecer interpretação restritiva que impeça a
indevida expansão da competência penal originária, consoante adverte o Supremo
Tribunal Federal, que, em julgado paradigma, adotou irrepreensível interpretação
acerca da prerrogativa de foro quando do julgamento da Ação Penal 937:

DIREITO CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL PENAL. QUESTÃO


DE ORDEM EM AÇÃO PENAL. LIMITAÇÃO DO FORO POR
PRERROGATIVA DE FUNÇÃO AOS CRIMES PRATICADOS NO CARGO E
EM RAZÃO DELE. ESTABELECIMENTO DE MARCO TEMPORAL DE
FIXAÇÃO DE COMPETÊNCIA. I. Quanto ao sentido e alcance do foro por
prerrogativa 1. O foro por prerrogativa de função, ou foro privilegiado, na
interpretação até aqui adotada pelo Supremo Tribunal Federal, alcança
todos os crimes de que são acusados os agentes públicos previstos no art.
102, I, b e c da Constituição, inclusive os praticados antes da investidura no
cargo e os que não guardam qualquer relação com o seu exercício. 2.
Impõe-se, todavia, a alteração desta linha de entendimento, para restringir o
foro privilegiado aos crimes praticados no cargo e em razão do cargo. É que
a prática atual não realiza adequadamente princípios constitucionais
estruturantes, como igualdade e república, por impedir, em grande número
de casos, a responsabilização de agentes públicos por crimes de naturezas
diversas. Além disso, a falta de efetividade mínima do sistema penal, nesses
casos, frustra valores constitucionais importantes, como a probidade e a
moralidade administrativa. 3. Para assegurar que a prerrogativa de foro
sirva ao seu papel constitucional de garantir o livre exercício das funções –
e não ao fim ilegítimo de assegurar impunidade – é indispensável que haja
relação de causalidade entre o crime imputado e o exercício do cargo. A
experiência e as estatísticas revelam a manifesta disfuncionalidade do
sistema, causando indignação à sociedade e trazendo desprestígio para o
Supremo. 4. A orientação aqui preconizada encontra-se em harmonia com
diversos precedentes do STF. De fato, o Tribunal adotou idêntica lógica ao
condicionar a imunidade parlamentar material – i.e., a que os protege por 2
suas opiniões, palavras e votos – à exigência de que a manifestação tivesse
relação com o exercício do mandato. Ademais, em inúmeros casos, o STF
realizou interpretação restritiva de suas competências constitucionais, para
adequá-las às suas finalidades. Precedentes. II. Quanto ao momento da
fixação definitiva da competência do STF 5. A partir do final da instrução
processual, com a publicação do despacho de intimação para apresentação
de alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais –
do STF ou de qualquer outro órgão – não será mais afetada em razão de o
agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que ocupava,
qualquer que seja o motivo. A jurisprudência desta Corte admite a
possibilidade de prorrogação de competências constitucionais quando
necessária para preservar a efetividade e a racionalidade da prestação
jurisdicional. Precedentes. III. Conclusão 6. Resolução da questão de ordem
com a fixação das seguintes teses: “(i) O foro por prerrogativa de função
aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e
relacionados às funções desempenhadas; e (ii) Após o final da instrução
processual, com a publicação do despacho de intimação para apresentação
de alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais
não será mais afetada em razão de o agente público vir a ocupar cargo ou
deixar o cargo que ocupava, qualquer que seja o motivo”. 7. Aplicação da
nova linha interpretativa aos processos em curso. Ressalva de todos os atos
praticados e decisões proferidas pelo STF e demais juízos com base na
jurisprudência anterior. 8. Como resultado, determinação de baixa da ação
penal ao Juízo da 256ª Zona Eleitoral do Rio de Janeiro, em razão de o réu
ter renunciado ao cargo de Deputado Federal e tendo em vista que a
instrução processual já havia sido finalizada perante a 1ª instância.

Cabe registrar que, por obséquio da regra da contemporaneidade, adotada


pelo Supremo Tribunal Federal com base no entendimento sufragado no julgamento
da AP 937 QO/RJ, operou-se o cancelamento definitivo do enunciado 394 da
Súmula do STF, de modo que, instaurada a instrução, na presente fase processual,
não resta afetada a competência para julgar a ação penal ao juízo do foro especial,
circunstância impositiva da declinação, pelo Supremo Tribunal Federal, da
competência originalmente firmada em favor do juízo de primeiro grau (AP 606
QO/MG, rel. Min. Luís Roberto Barroso, j. 17.3.2014).

Não constitui demasia salientar, por relevante, não haver o caso em exame
atingido o marco determinante da prorrogação da competência do STF em caso de
renúncia, pelo parlamentar, do cargo que atrai a regra constitucional do foro
privilegiado, qual seja a publicação do despacho para apresentação de alegações
finais, consoante orientação firmada pelo Supremo Tribunal Federal na AP 937
QO/RJ e pelo Superior Tribunal de Justiça, nos autos do AgRg na Apn 962/DF, Corte
Especial, rel. Min. Luís Felipe Salomão, j. 20.6.2018.
II. Reunião ou separação de processos entre a justiça comum e a
eleitoral

Tal qual asseverado supra, o ex-Deputado Federal, agora réu neste processo,
somente faria jus ao foro por prerrogativa de função enquanto estivesse no exercício
do cargo ou função, cessado o seu mandato parlamentar. Em respeito ao princípio
da atualidade do exercício da função, deverá o processo em curso contra ele ser
remetido ao juízo de piso competente. No caso em epígrafe, em que se observam a
ocorrência de mais de um crime, a saber os crimes capitulados no caput dos arts.
349, 350 e 354 -A do Código Eleitoral ( Lei n° 4.737, de 15 de julho de 1965) e art.
121 do Código Penal (Decreto - Lei n° 2.848, de 7 de dezembro de 1940).

É cediço na doutrina brasileira que em caso de conexão estes processos


serão julgados conjuntamente, na hipótese descrita, observa-se cristalina e
incontestavelmente a presença de conexão entre as condutas tipificadas nos arts.
349, 350 e 354 -A do Código Eleitoral, devendo o julgamento destes crimes ser
reunido, na hipótese do inciso I do art. 76 do Código de Processo Penal. Quanto ao
homicídio, que, ressalta-se, é crime doloso contra a vida, submeter-se-á à seara do
no Tribunal do Júri, segundo o Art. 5º, Inciso XXXVIII da Carta Magna: “é
reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados:
d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida”.

Como se pode perceber, a competência do Tribunal do Júri para julgar os


crimes dolosos contra a vida é matéria constitucional, constituindo uma garantia
individual do Estado Democrático de Direito, ou seja, cláusula pétrea, nos termos do
art. 60, IV da CF, que por sua vez não poderá ser extinta nem por emenda à
constituição.

Após estes breves apontamentos, atingimos o cerne da questão. A regra geral


é que em casos de crimes comuns conexos a crimes eleitorais deverá prevalecer a
competência da Justiça Eleitoral frente a da Justiça Comum, consoante prega o art.
Art. 78 do CPP. A aplicação deste postulado legal foi reafirmado pelo Supremo
Tribunal Federal recentemente, no julgamento de um Agravo Regimental no
Inquérito (INQ) 4435, onde o Pretório Excelso determinou o envio de processos que
corriam na Justiça Federal para a Justiça Eleitoral. Ao nosso ponto de vista, o que
ocorreu de fato, foi a mera aplicação do disposto no art. 78 do Código de Processo
Penal que já determinava a reunião dos processos em favor da Justiça Especial.
Concessa maxima venia, permita-nos discordar da posição dos que defendem
a reunião obrigatória dos processos conexos à Justiça Eleitoral em qualquer
hipótese. Isso porque quando se está diante de um crime doloso contra a vida, a
competência constitucional deste órgão deverá prevalecer frente às regras gerais
presentes no Código de Processo Penal. Inclusive, o próprio códice processual
penal distingue, a título de competência, os crimes julgados pelo tribunal do juri
daqueles julgados por outros órgãos da jurisdição comum, prevalecendo aquele a
estes, de acordo com o art. 78, I, CPP.

O crime doloso contra a vida não se trata, pois, para fins de competência, de
mero crime comum, mas tem competência excepcional, ex vi legis. Portanto, a
conexão entre crime doloso contra a vida e crime eleitoral não se trata de hipótese
aplicável do art. 78, IV do CPP, que prevê a prevalência da competência da justiça
especial frente à justiça comum, afinal, o tribunal do juri é competência estabelecida
por força da própria Constituição e tem prevalência às competências dos demais
órgãos jurisdicionais comuns.

Nesses termos, defendemos a cisão obrigatória entre os crimes acima


descritos. Caberá à Justiça Eleitoral o julgamento exclusivo dos crimes eleitorais,
não sendo possível, em hipótese alguma a remessa deste para a Justiça Comum,
vez que a competência da Justiça Especial não é passível de derrogação. De igual
modo, caberá, única e exclusivamente, ao Tribunal do Júri, perante a Justiça Comum
a competência para julgamento do homicídio mencionado alhures, nesse sentido,
Aury Lopes, Eugênio Pacelli, Renato Brasileiro e Guilherme de Souza Nucci.

Essa cisão, ressalte-se, possui natureza constitucional, não podendo a


legislação ordinária, a exemplo do Código de Processo Penal ou do Código Eleitoral
determinar a violação aos seus postulados. No que pese entendimentos em
contrário, a prática de um homicídio, embora por motivações político-eleitorais
deverá ser julgado pelo Tribunal do Júri na Justiça Comum e não na Justiça Eleitoral,
vez que esta não comporta esse instituto. Forçoso seria concluir que uma das
formas de resolver esse impasse, passível de uma série debates futuros seria a
criação de um Tribunal do Júri Eleitoral, para tanto, pensamos que seria necessária
a reformulação do texto constitucional ou infralegal determinando claramente as
hipóteses de competência deste Tribunal.

Acrescente-se, a título conclusivo, que no caso em apreço o homicídio do


jornalista a mando do ex-Deputado Federal operou-se enquanto uma vingança por
aquele ter divulgado o rol de práticas criminosas cometidas pelo ex-Deputado
Federal, embora haja uma clara ínfima relação de natureza eleitoral, inexistem
elementos capazes de caracterizar a conexão no caso em voga. Segundo o
regramento do Código de Processo Penal a conexão objetiva (lógica ou material) se
revela quando o crime é praticado para facilitar a execução de outro, ocultar-lhe ou
garantir a manutenção da sua vantagem. E, por derradeiro, a conexão instrumental
(probatória ou processual), que se concretiza quando a prova de um crime influencia
na existência de outro. Desse modo, não há como enquadrar o caso em epígrafe em
nenhuma das hipóteses de conexão objetiva trazida pelo CPP. Desta feita, a reunião
desses processos estaria duplamente vedada, primeiro pela impossibilidade de
julgamento de crimes dolosos contra vida pela Justiça Eleitoral e em seguida de
ausência de conexão capaz de ensejar a reunião dos feitos.

O tema, em específico, infelizmente, ainda não foi objeto da devida discussão


dos Tribunais, faltando-nos o amparo jurisprudencial necessário para determinar
com clareza qual é a posição majoritária, sabendo-se que o tema está longe de
encontrar os esteios da pacificação.

Nesse sentido, preciosa é a decisão do TRE- RJ em um caso similar que por


aquela corte foi alvo de apreciação:

INQUÉRITO POLICIAL. APURAÇÃO DO COMETIMENTO DE


HOMICÍDIO. ART. 121 DO CÓDIGO PENAL. INEXISTÊNCIA DE
CONEXÃO COM CRIME ELEITORAL. INCOMPETÊNCIA DESTA JUSTIÇA
ESPECIALIZADA PARA PROCESSAMENTO E JULGAMENTO DE
EVENTUAL AÇÃO PENAL A SER DEFLAGRADA. DELITO AFETO À
JURISDIÇÃO COMUM. NECESSÁRIO DECLÍNIO DE COMPETÊNCIA. I -
Os fatos apurados em sede investigativa não se relacionam a indiciado (s)
que detenha (m) foro por prerrogativa de função, na medida em que a
autoria delitiva ainda se demonstra indeterminada, afigurando-se
inadequado o seu trâmite perante esta instância. II - Ainda que assim não
fosse, o injusto penal, objeto da investigação em tela, não diz respeito
a crime sujeito à competência da Justiça Eleitoral, razão pela qual
sequer deveria o procedimento inquisitivo encontrar-se em
processamento neste âmbito. O homicídio é delito previsto no Código
Penal, tendo como bem jurídico tutelado a vida, constitucionalmente
suscetível à soberania do júri popular, cuja vis atrativa com esta
especializada apenas poderia eventualmente vir a ser cogitada, na
hipótese de conexão com crime eleitoral, a teor do art. 78, IV, do CPP, o
que não se verifica, in casu. III - As autoridades investigantes, a todo
momento, apenas fazem referência ao cometimento de homicídio doloso
contra a vida, supostamente por conotação eleitoral, fato que, por si só, não
o eleva à condição de crime eleitoral. A motivação delitiva, ainda quando
política, faz parte da própria análise das circunstâncias qualificadoras e
agravantes que possam vir a interferir na dosimetria da pena, inexistindo
indícios nos autos acerca de demais infrações penais porventura realizadas
em concurso. IV - Somente podem ser considerados crimes eleitorais
aqueles tipificados na legislação específica, de modo que, havendo previsão
na legislação penal ordinária, encontra-se o delito do art. 121 afeto à
jurisdição comum, de competência residual. V - Os "crimes eleitorais
acidentais" são classificados doutrinariamente como aqueles cuja
conduta inquinada é tipificada como delito tanto na legislação penal
eleitoral quanto comum. Ao contrário do que parece ser o intento
ministerial, inexiste nas normas eleitorais a figura correlata ao art. 121
do CP, como uma espécie de "homicídio eleitoral", que pudesse
justificar a apuração dos fatos nesta seara. Declínio de competência do
Inquérito para processamento perante o Tribunal de Justiça Estadual.

(TRE-RJ - INQ: 22068 NOVA IGUAÇU - RJ, Relator: LUIZ ANTONIO


SOARES, Data de Julgamento: 18/09/2017, Data de Publicação: DJERJ -
Diário da Justiça Eletrônico do TRE-RJ, Tomo 244, Data 27/09/2017, Página
31/36)

III. Prova ilícita e expectativa de intimidade;

O art. 5º, LVI, da CF estabelece que “são inadmissíveis, no processo, as


provas obtidas por meio ilícitos”. Neste embalo, o art. 157, caput, CPP, com a nova
redação proporcionada pela Lei 11.690/08, reafirma a ideia de vedação às provas
obtidas por meios não lícitos, devendo as dilações probatórias ser revestidas de
plena legitimidade, sobre as quais não prevalece o male captum, bene retentum.

Neste sentido, tanto a norma constitucional quanto a infraconstitucional


exercem o controle de admissibilidade dos elementos de prova inseridos no
processo penal, que, segundo Pacelli, configuraram-se como uma forma de controle
da regularidade da atividade persecutória estatal, inibindo e desestimulando a
adoção de práticas probatórias ilegais por parte de quem é o grande responsável
pela sua produção (PACELLI, 2016). Assim, os referidos diplomas legais visam
inadmitir as provas obtidas com violação de direito, tutelando direitos e garantias
individuais, como à intimidade, bem como a própria qualidade do material probatório
a ser introduzido e valorado no processo.

Ainda assim, na espécie, reputam-se absolutamente lícitos os elementos de


prova colhidos no inquérito, de forma que é incabível a declaração de ilicitude que
justifique a inadmissibilidade probatória no curso do processo, bem como de decisão
denegatória à eficácia desses elementos.

Enfrentamos, portanto, a licitude de cada elemento de prova colhido no


inquérito.

Primeiramente, nos termos em que defende o Supremo Tribunal Federal, é


plenamente lícita a realização de busca e apreensão sem mandado expedido por
órgão judiciário, na hipótese de crime permanente. Isso porque o seu flagrante, bem
como sua execução, se protrai no tempo e, consigo, as razões que a justificam,
consoante disposição expressa do art. 240, §1º, b) c/c e) c/c h). Ipsis literis, o
Pretório Excelso:

Habeas corpus. Processual penal. Prisão preventiva (CPP,


art. 312). Ausência de fundamentação idônea. Não ocorrência.
Decreto de prisão fundamentado na garantia da ordem pública.
Quantidade de droga apreendida. Periculosidade concreta do
paciente demonstrada. Precedentes. Constrangimento ilegal por
excesso prazo. Inexistência. Complexidade do feito que justifica a
razoável duração do processo, que tem regular processamento na
origem. Precedentes. Ilicitude das provas recolhidas na residência do
paciente, dada a inexistência de mandado de busca e apreensão
para tanto. Desnecessidade. Situação de flagrância em crime
permanente. Precedentes. Ordem denegada. 1. O decreto de prisão
preventiva do paciente apresenta fundamentos aptos para justificá-lo,
sendo estreme de dúvidas sua necessidade para acautelar o meio
social, preservando-se a ordem pública, ante a periculosidade
evidente do paciente, que, conforme verificado dos autos, foi
surpreendido com grande quantidade de droga e uma arma de fogo
com numeração raspada. 2. A demonstrada complexidade da causa,
atrelada à notícia de que a ação penal tem regular processamento na
origem, afasta o alegado constrangimento ilegal por excesso de
prazo. 3. Consoante o entendimento da Corte, “[é] dispensável o
mandado de busca e apreensão quando se trata de flagrante de
crime permanente, podendo-se realizar as medidas sem que se
fale em ilicitude das provas obtidas” (RHC nº 121.419/SP,
Segunda Turma, Relator o Ministro Ricardo Lewandowski, DJe
de 17/10/14). 4. Ordem denegada. (HC 127.457/BA)

Ora, conforme se aduz dos autos do inquérito, a autoridade policial colheu


consistentes informações, através de escuta telefônica, da perpetração de crimes de
lavagem de dinheiro, bem como de ocultação e apagamento de provas, intimamente
ligados à pessoa do advogado. Ambos os crimes permanentes, constituindo-se a
residência do advogado como ponto crucial para o seu planejamento e perpetração.
Além disso, foi descoberto que a residência do procurador constituía verdadeiro
ponto de encontro do acusado com outros envolvidos com o fito de cometer novos
ilícitos, tal qual dispõe o art. 288 do Código Penal, sendo, portanto, crime de
natureza permanente e que justificaria plenamente a busca sem mandado, haja vista
a constituição de flagrante. Portanto, não há de se falar em prova obtida ilegalmente,
visto que o flagrante a exime de manchas procedimentais e dispensa formalidades
legais prescritas a buscas e apreensões fora dessas hipóteses.

Já em relação à quebra de sigilo telemático coletivo, não há de se configurar


ilegalidade alguma. Quando consubstanciado em função da existência de crime de
elevada complexidade, bem como de difícil elucidação por meios diversos, não há
óbices na legislação pátria à quebra de sigilo telemático de pessoas enquadradas
em determinado tipo de circunstância ou relação íntima com o delito.

Além disso, o regime jurídico que disciplina a quebra de sigilo de dados é


absolutamente diverso aqueles suscitados pela defesa. Primeiramente porque a
quebra do sigilo de dados distingue-se diametralmente do sigilo das comunicações,
sendo este tutelado pelo inc. XII do art. 5º da CF. Nesse sentido, não é regido pela
lei de interceptações telefônicas, que se fundam neste preceito constitucional.
Segundo porque resta desnecessária a aplicação de quaisquer técnicas de
integração legislativa, como se hipótese de subsunção do art. 4º da LINDB, razão
pela qual a analogia com a busca e apreensão é absolutamente desnecessária. Isso
porque a quebra de sigilos de dados tem diploma legal que a disciplina diretamente,
a saber, a Lei nº 12.695/14, o Marco Civil da Internet.

Neste embalo, a restrição quanto ao sigilo dos dados telemáticos é muito


mais efêmera do que quanto ao sigilo das comunicações telefônicas, consoante se
pode aduzir do art. 22 do Marco Civil da Internet:

Art. 22. A parte interessada poderá, com o propósito de formar conjunto


probatório em processo judicial cível ou penal, em caráter incidental ou
autônomo, requerer ao juiz que ordene ao responsável pela guarda o
fornecimento de registros de conexão ou de registros de acesso a
aplicações de internet.

Ora, como se pode observar, a quebra dos sigilos de dados pode ocorrer até
mesmo em controvérsias cíveis, limitação muito menor que a quebra do sigilo das
comunicações telefônicas, somente cabível para fins de investigação criminal e
instrução processual penal. Além disso, os requisitos para sua decretação são muito
menores, todos preenchidos no caso concreto, prescindindo da especificação
detalhada do objeto da quebra dos dados, tal qual na quebra de sigilo das
comunicações telefônicas. Nesses termos, o parágrafo único do art. 22 do Marco
Civil da Internet:

Parágrafo único. Sem prejuízo dos demais requisitos legais, o


requerimento deverá conter, sob pena de inadmissibilidade:

I - fundados indícios da ocorrência do ilícito;

II - justificativa motivada da utilidade dos registros solicitados


para fins de investigação ou instrução probatória; e

III - período ao qual se referem os registros.

Contudo, ainda que se entendesse pela aplicação da Lei de Interceptações


Telefônicas, não se configuraria ilícito algum, estando, inclusive, em plena
conformidade com oi seu art. 2º, II c/c art. 2º, parágrafo único c/c art. 4º:

Parágrafo único. Em qualquer hipótese deve ser descrita


com clareza a situação objeto da investigação, inclusive com a
indicação e qualificação dos investigados, salvo impossibilidade
manifesta, devidamente justificada.

Portanto, nos termos deste dispositivo, a individualização estrita do sujeito


passivo da quebra de sigilo é relativa, podendo ser perpassada frente a
impossibilidade manifesta e devidamente justificada de fazê-lo, tal como no caso. Na
verdade, a lei prescreve muito mais uma garantia de que os indivíduos sobre os
quais incida violação de sigilo tenham conexão com o delito, justificando a quebra.

Quanto à aplicação da defesa do §3º, art. 11 do Decreto nº 8.771/16, compete


informar que o referido dispositivo normativo não se subsume ao fato, visto que o
próprio caput limita-se a disciplinar a atuação das autoridades administrativas e não
judiciárias, bem como somente das informações dos dados cadastrais e não
telemáticos. Além disso, embora o §3º vede pedidos de acesso coletivos, se limita a
fazê-lo quanto aos genéricos. No entanto, não é o que se verifica, já que preocupou-
se o magistrado em delimitar bem a circunscrição geográfica e temporal para a
quebra do sigilo, atrelando-a intimamente ao cometimento do delito.

Ainda, nos termos da Teoria dos Princípios, a privacidade, bem como a


expectativa à intimidade será sempre subserviente à preservação da paz social e da
segurança pública, tanto que o próprio ordenamento autoriza a quebra de sigilo
telefônico ou de dados em prol de investigação criminal ou instrução processual
penal. Não seria diferente nesse caso, até porque a decisão não é prolatada a esmo,
tal como se servisse de carta branca à quebra de sigilo de qualquer cidadão, mas
pelo contrário, limitou-se a restringir bem o campo de atuação da justiça e a coleta
dos elementos de prova, delimitando não apenas o espaço geográfico da quebra,
mas também o lapso temporal necessário para ela.

Portanto, a diligência foi lícita, bem como todas as demais dela decorrentes, a
saber, a escuta telefônica e a quebra do sigilo de dados.
IV. Contraditório no inquérito policial;

O inquérito policial cuida-se de mero procedimento administrativo, não


possuindo caráter processual, tal qual suscita Renato Brasileiro. Dessa fase pré-
processual não resulta a aplicação de uma sanção. Portanto, não se requer a
observância do contraditório e da ampla defesa se do procedimento não resulta a
aplicação de sanção. Assim, o contraditório será denominado diferido, isto é, o
momento adequado para a ouvida do acusado será oportunizado durante o
andamento do feito, diante do juízo, sendo prescindível na fase inquisitiva.

Além disso, sabe-se que no inquérito a defesa técnica é absolutamente


dispensável e, junto dela, o contraditório. Ora, se nem no processo administrativo
disciplinar, que enseja em sanção, a ausência de defesa técnica ofende a CF, quem
dirá na fase inquisitorial, que não enseja em sanção.

Súmula Vinculante nº 5 - A falta de defesa técnica por


advogado no processo administrativo disciplinar não ofende a
Constituição.

Assim, tem-se que o pressuposto fundamental do inquérito é a busca da


eficácia das diligências investigatórias em face à colheita de elementos de prova
aptos a demonstrar indícios de autoria e prova da materialidade. Justamente por
isso, a existência de contraditório e ampla defesa não colabora com essa fase pré-
processual. Na verdade, o autor do delito, tendo ciência das diligências que correm
em seu desfavor, buscará todas as precauções para tornar a prova impossível,
apagando seus vestígios e afastando todas as testemunhas necessárias à
construção do material probatório.

Além de todos os argumentos supracitados, inerentes à fase inquistorial,


quanto à diligência da interceptação telefônica, acrescenta-se um agravante. Isso
porque nota-se que há um dever de sigilo interno inerente a esta diligência, nos
termos do art. 8º, parágrafo único da Lei nº 9.296/96. É, portanto, medida cautelar
inaudita altera pars, apta a mitigar a ampla defesa quando de sua execução no
transcurso do procedimento administrativo. Nesses termos:

Art. 8°. A interceptação de comunicação telefônica, de


qualquer natureza, ocorrerá em autos apartados, apensados aos
autos do inquérito policial ou do processo criminal, preservando-se o
sigilo das diligências, gravações e transcrições respectivas.

Parágrafo único. A apensação somente poderá ser


realizada imediatamente antes do relatório da autoridade,
quando se tratar de inquérito policial (Código de Processo Penal,
art.10, § 1°) ou na conclusão do processo ao juiz para o despacho
decorrente do disposto nos arts. 407, 502 ou 538 do Código de
Processo Penal.

Inclusive, tanto é inerente à escuta o sigilo interno que esta deve ser
documentada em autos apartados, justamente para evitar o acesso das parte, sob
pena de frustrar sua execução, sendo estes autos apensados aos principais quando
do fim do inquérito, na iminência da apresentação do relatório, momento em que a
parte terá ampla oportunidade de ter vista aos autos e, em juízo, submeter-se ao
contraditório.

Nesse esteio, quando do pedido do advogado para ter acesso à interceptação


telefônica, ainda estava longe a apresentação do relatório, de forma que as
degravações ainda não haviam sido apensas aos autos principais do inquérito, isto
é, reputando-se não documentada, consoante a hipótese do enunciado 14 da
Súmula Vinculante do STF:

Súmula Vinculante n. 14. É direito do defensor, no interesse


do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já
documentados em procedimento investigatório realizado por órgão
com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do
direito de defesa.

(...). Deveras, o direito de acesso aos dados de investigação


não é absoluto, porquanto o legislador ordinário trouxe
temperamentos a essa prerrogativa, consoante se infere da exegese
do artigo 7º, §§ 10 e 11, da lei 8.906/1994 – Estatuto da Advocacia e
a Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, com a redação conferida
pela Lei 13.245/2016, (...). Nesse contexto, cabe referir que o
espectro de incidência do Enunciado 14 da Súmula vinculante
do Supremo Tribunal Federal não abrange diligências ainda em
andamento e elementos ainda não documentados, mormente se
considerados os dispositivos legais supramencionados, além de se
fazer necessária a apresentação de procuração nas hipóteses de
autos sujeitos a sigilo. (...) verifico que sequer se negou à defesa o
direito de acesso a autos de investigação, razão pela qual não
merece prosperar o presente intento reclamatório.

[Rcl 30.957, rel. min. Luiz Fux, dec. monocrática, j. 10-8-2018,


DJE 164 de 14-8-2018.]

Assim, não estando os elementos de prova documentados nos autos e se


relacionando a diligências em andamento, aplica-se o disposto no art. 7º, §11 do
Estatuto da OAB. Nesses termos, o acesso poderá ser delimitado pela autoridade
policial, tal como de fato foi, sobretudo pelo fato de, caso revelado todo o conteúdo
das conversas, poder o investigado partir a apagar outros elementos de provas ou
torná-los impossíveis.

Lei nº 8.906/94 - Art. 7º. § 11. No caso previsto no inciso XIV,


a autoridade competente poderá delimitar o acesso do
advogado aos elementos de prova relacionados a diligências em
andamento e ainda não documentados nos autos, quando
houver risco de comprometimento da eficiência, da eficácia ou
da finalidade das diligências.

Portanto, a recusa da autoridade policial à vista completa das degravações


não se constitui ilícito, pois diferido o contraditório. A inexistência de contraditório e
ampla defesa no inquérito é compensado pela limitação legislativa do valor
probatório dado às provas produzidas no procedimento inquisitorial, já que o juiz não
pode julgar a imputação com base exclusivamente em elementos probatório colhidos
no inquérito, salvo se forem provas antecipadas, não repetíveis ou cautelares.

Assim, por ser o contraditório dispensado no inquérito e por ser lícita a


restrição do acesso do advogado do investigado à diligência em andamento, não se
trata de prova ilícita, isto é, que viola lei ou norma constitucional, conforme art. 157,
CPP, mas prova plenamente lícita apta a se legitimar endoprocessualmente no
contraditório judicial.

V. Tempo para propositura de ação penal e duração razoável do


procedimento

A parte inicial do artigo 46, do Código de processo Penal dispõe que o prazo
para o oferecimento da denúncia, estando o réu preso, será de 5 dias, contado da
data em que o Ministério Público receber os autos do inquérito policial. Este mesmo
artigo dispõe que o prazo passará a ser de 15 dias, se o réu estiver solto ou
afiançado.

Em crimes de ação penal pública incondicionada, ou seja, em crimes em que


a titularidade da ação penal é do MP, NÃO HÁ PRAZO DECADENCIAL (apenas na
pública condicionada e na penal privada); tal espécie de ação não está sujeita
àquele decurso de tempo, bem como este tipo de ação poderá ser apresentada
enquanto não houver ocorrido a extinção da punibilidade. (prazo prescricional)

Corroborando com a nossa acusação, de acordo com jurisprudência do STF,


o oferecimento da denúncia fora do prazo constitui mera irregularidade sem
consequências para o processo, vejamos o entendimento do Supremo tribunal
Federal em relação ao tema:

EMENTA: - Direito Penal e Processual Penal. Extinção da punibilidade.


Prescrição. Crime continuado. Crime do art. 26, a, da Lei n. 4.771/65 (Código
Florestal). Classificação. Autoria. Prova. Pericia. "Habeas Corpus". Alegações de:
1.) - extinção da punibilidade, pelo oferecimento de denuncia fora do prazo legal e
pela prescrição da pretensão punitiva, segundo a pena "in abstrato"; 2.) - erro na
classificação de crime continuado; 3.) - ausência do elemento incriminador da
autoria; 4.) - falta de prova pericial. Alegações repelidas. 1. Não perde o
Ministério Público a legitimidade ativa para a ação penal, pelo fato de não
haver oferecido a denuncia no prazo legal . 2. Não se extingue a punibilidade,
pela prescrição da pretensão punitiva, segundo a pena "in abstrato", se a denuncia
e recebida antes do decurso do prazo respectivo e, depois do recebimento, tal
prazo também não decorre por inteiro. 3. Em caso de crime continuado, o prazo
prescricional se conta do último ato integrante da continuidade delitiva. 4. Não se
pode no âmbito estreito do "habeas corpus", reexaminar, aprofundadamente, os
elementos informativos, em que se baseou a denuncia para imputar ao paciente a
autoria do delito e para lhe atribuir o caráter continuado. 5. Em se tratando de
delito previsto no art. 26, a, do Código Florestal, a prova pericial pode ser
produzida no curso da instrução e até suprida por outros elementos de convicção.
6. "H.C". indeferido. (Destacamos)

Além disso, Renato Brasileiro, em sua obra, assevera que um eventual atraso
de poucos dias não figuraria como uma ilegalidade, afirmando que a tese de que a
contagem do prazo para a conclusão do processo é global e não individualizada.

De tal modo, mesmo em casos que ocorra um excesso na fase investigatória,


é pacificamente plausível que haja uma compreensão na fase processual. (em casos
de excesso abusivo: impõe-se o relaxamento da prisão; em casos de inércia
comprovadamente dolosa do MP – há a possibilidade de se configurar crime de
prevaricação, art. 319 CP).

E esta lógica de compreensão por um eventual excesso de tempo para


apresentar a denúncia está diretamente ligada ao princípio da duração razoável do
processo, uma vez que meros descuidos de prazos ou até a necessidade de se
prolongar uma investigação pela necessidade de novas informações a pedido do
Ministério Público não figuram como motivos ensejadores de nulidades.

Portanto, o processo não pode ser célere ao ponto de limitar o conhecimento


e restringir a busca pela verdade, ao passo que não pode ser tão lento, sob pena de
perda do próprio objeto.

V. Pressupostos do sequestro;

Inicialmente é preciso delimitar o conceito de sequestro, este nada mais é do


que uma medida assecuratória de natureza patrimonial que tem como objetivo
assegurar o confisco como efeito da condenação, garantir futura indenização ou
reparação à vítima da infração penal. Inadmite-se a alegação de que a medida
cabível seria a apreensão, tendo-se em vista que esta incide diretamente no objeto
do crime, o que não é o caso, já que os valores que foram apropriados pelo ex-
Deputado Federal, como o curso da investigação comprova foram convertidos nos
automóveis sequestrados, que logicamente constituem-se como proventos do crime.
De igual sorte, no arresto o patrimônio do réu, como um todo, é apreendido como
uma forma de garantir uma indenização à vítima ou reparação pelos danos
causados quando inexistir proveito ou produto do crime.

O sequestro deve incidir sobre os bens móveis ou imóveis do réu que sejam
proveito do crime. No caso em questão, os veículos do denunciado, segundo
indícios colhidos pelo MPF foram comprados com o dinheiro ilícito, proveniente da
lavagem de dinheiro. Para realizar tal pedido o MP deverá analisar se os bens foram
adquiridos com os proventos do crime ou se foram adquiridos anteriormente.

Merece manutenção o sequestro dos bens do acusado, na forma determinada


na origem. Sabe-se que o sequestro constitui medida cautelar incidental, destinada à
satisfação do interesse público lesado pelo crime, consubstanciado no ulterior
perdimento de bens em favor do Estado, como efeito de eventual sentença
condenatória.

Na realidade, a decretação do sequestro dos bens adquiridos como proveito


do ilícito expressa verdadeira tutela de urgência, proferida ad cautelam no processo
penal de conhecimento, de ordem a assegurar a eficácia da reprimenda definitiva, o
que importa afirmar que, por ocasião de sua decretação, deverão estar presentes o
fumus boni iuris e o periculum in mora.

Infere-se do caso que o valor a ser ressarcido na hipótese de eventual


condenação, apontado como proveito do crime equivale a R$ 15 milhões, sendo que
os bens sobre os quais recaiu a constrição atingem a monta apenas de R$ 5
milhões, no que apenas R$ 1 milhão teriam sido apontados, pelas provas que
instruíram a denúncia, como proveito ilícito.

Presente a plausibilidade do direito, plasmada sobretudo na incontroversa


parcela de 1 milhão de reais resultante do crime, e o periculum in mora, diante a
possibilidade concreta de se serem evadidos do patrimônio do acusado os bens de
maior monta e de valor incompatível com suas funções de detentor de cargo eletivo,
impõe-se a manutenção da constrição ainda que, em princípio, se presuma a lícita a
aquisição dos bens constritos, consoante adverte eminente doutrina (GUSTAVO
HENRIQUE BADARÓ, Processo Penal, São Paulo, RT, p. 1134; RENATO
BRASILEIRO DE LIMA, Curso de processo penal, Salvador, Juspodivm, p. 1189),
diante da prevalência do interesse, qualificado pela nota de coletividade, de se
assegurar a eficácia da sanção penal.

Ademais, sopesadas as peculiaridades da causa, e o fato de a instrução se


encontrar no início, não merece prosperar a tese acerca da desproporcionalidade
dos valores constritos, porquanto com a instrução mesma, é que será possível
apontar com segurança a totalidade do proveito criminoso, o que, em circunstâncias
contrárias, autoriza-se a conclusão acerca da verossímil possibilidade de que os
bens constritos sejam repassados e o proveito venha a ser branqueado.

Por identidade de razões, a postulação da defesa não possui fundamento em


qualquer hipótese legalmente prescrita, ex vi do art. 131 do Código de Processo
Penal, que autorize o levamentamento da constrição, eis que a ação penal
condenatória já foi, evidentemente, proposta (art. 131, I, CPP), não foi oferecida
caução (art. 131, II, CPP), tampouco está extinta punibilidade (art. 131, III, CPP), de
modo que a simples alegação de desproporcionalidade da medida judicial,
relativamente ao proveito incontroverso da ação criminosa, não se qualifica como
circunstância que admita a revogação do comando assecuratório.

REFERÊNCIAS
CERA, Denise Cristina Mantovani. Qual é a consequência do oferecimento da
denúncia fora do prazo legal? Disponível em: <https://lfg.jusbrasil.com.br/
noticias/2548503/qual-e-a-consequencia-dooferecimento-da-denuncia-fora-do-prazo-
legal-denise-cristina-mantovani-cera > Acesso em: 05 jun. 2019;
DE SOUZA NUCCI, Guilherme; BRASIL. Código de processo penal comentado.
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016.
JUSBRASIL. Tribunal regional eleitoral do rio de janeiro tre-rj - inquérito : inq
22068 nova iguaçu - rj. Disponível em: <https://tre-
rj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/503622209/inquerito-inq-22068-nova-iguacu-rj?
ref=serp>. Acesso em: 30 mai. 2019.
LEORATTI, Alexandre; COURA, Kalleo. Juízes ordenam quebra coletiva de sigilo
de dados com base em localização. JOTA, São Paulo, 27 de maio de 2019.
Disponível em: <https://www.jota.info/especiais/juizes-ordenam-quebra-coletiva-de-
sigilo-de-dados-com-base-em-localizacao-27052019>. Acesso em: 17 jun. 2019.
LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal-Volume Único. Salvador:
Editora Jus Podivm, 2017.
LOPES JR, Aury. Direito processual penal. São Paulo: Editora Saraiva, 2018.
NOTICIAS STF. Plenário do STF reafirma competência da justiça eleitoral para
julgar crimes comuns conexos a delitos eleitorais. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/portal/cms/vernoticiadetalhe.asp?idconteudo=405834>. Acesso
em: 30 mai. 2019.
PACELLI, Eugênio. Curso de Processo Penal . São Paulo: Grupo Gen-Atlas, 2016