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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ

Programa de Pós-graduação em Filosofia – PPG-FILOSOFIA/Toledo


2º Semestre/2015 – Linha de pesquisa: Ética e Filosofia Política
Disciplina: Tópicos de Ética II
Professora: Dra. Ester Maria Dreher Heuser

Para dar um fim ao juízo


Aula 5 (01/12) Kafka e a moratória ilimitada – o terceiro herdeiro de
Spinoza

O que alguém com a índole de um escritor chinês faz entre os “herdeiros de


Spinoza” críticos do juízo?
A começar por sua relação conflitiva com o próprio corpo exposta em cartas e
diários ao ponto de, em vários contos e novelas manifestar o desejo de
desaparecimento. Kafka era alguém que possuía um corpo longo e magro que,
conforme a sua avaliação, era um obstáculo, uma vez que, “com esse tipo de corpo,
nada se pode conseguir [...] Esse coração fraquinho que ultimamente muitas vezes
me incomodou, como pode ele bombear o sangue através de todo o comprimento
destas pernas?” (Anotações do Diário de 22/11/1911). Alguém que, devido ao seu
corpo era associado a ideia do Juízo Final – em uma das Cartas à Milena ele conta:
“Alguns anos atrás, andei frequentemente de barco pelo Moldau. Remava rio acima,
e em seguida deixava-me arrastar abaixo pela corrente passando completamente
estendido sob as pontes. Por causa da minha magreza, isso deve ter oferecido um
aspecto bem divertido a quem me olhasse a partir de uma ponte. Um funcionário de
minha empresa, que certa vez me avistou assim, resumiu da seguinte forma o que
vira, não sem antes ter salientado comicidade: o Dia do Juízo final parecia iminente.
Tinha-se a impressão de presenciar aquele momento em que as tampas dos caixões
já estivessem retiradas, mas os mortos ainda jazessem imóveis” (CANETTI, 1988, p.
31). Kafka era alguém que, como um legítimo taoísta, amava o pequeno,
especialmente os insetos, e desejava tornar-se infinitamente pequeno a fim de
alcançar a perfeição por meio da ação (Cf. CANETTI, 1988, p. 103) – no seu caso o
medo era uma força superior e central, seja manifesta por seu pai, pela família, pela
ideia de casamento, por qualquer forma de manifestação da Lei que lhe impeça de
inventar a própria existência; para livrar-se desse medo o recurso é tornar-se
pequeno: “fazer-se cada vez mais pequeno, mais leve, a ponto de desaparecer”
(CANETTI, 1988, p. 43). Foi a luta contra essa força, que estava sempre na
iminência de vencer, que mobilizou Kafka a criar um modo de existência próprio que
se realizou por meio da criação literária e da afirmação da alegria proporcionada
pela solidão: “Será que conheces as delícias de estar sozinho, de passear sozinho,
de ficar estirado sob o sol? [...] Ser capaz disso requer muita miséria antiga, mas
também muita felicidade. Sei que na infância estive frequentemente sozinho, mas
aquilo era sobretudo consequência de uma coação e não de alguma liberdade
venturosa, ao passo que agora corro rumo à solidão como a água corre em direção
ao mar” (CANETTI, 1988, p. 116). Tal existência travou combates constantes contra
o Juízo de Deus que se manifestou em diversas formas de poder, a começar por seu
pai. Vejamos como isso se efetiva em sua vidarbo – vida/obra, em sua vida que só
fazia sentido por meio da escrita.

SEMINÁRIO 03 – Kafka: uma vida-escrita “para dar fim ao juízo”

(Kafkianos: Adriana, Eliane, Giovane e Paulo)

Franz Kafka (1883-1924) instaura um tribunal para julgar o juízo de Deus e se


torna “diabólico”1 para escapar do juízo de Deus empregado a todas as criaturas
pecadoras que herdaram, pela mácula do pecado original, uma dívida infinita (é o
que afirma o sacerdote cristão!). A crítica ao juízo, herdada de Spinoza, afirmada por
Nietzsche a partir da dívida infinita, da qual Kafka é discípulo, não o absolve de um
veredicto que se lhe estende por uma vida de padecimentos devido ao juízo do pai,
do trabalho, dos relacionamentos amorosos mal sucedidos, da fé judaica, da
tuberculose. Se nas experiências da vida cotidiana não é possível escapar do juízo,
a saída é a literatura que ele próprio produz por meio de uma escrita perversa,
diabólica e variada. As cartas-diários vampirescas, as novelas animalescas, ou não,
e os romances, como que ficções científicas, evidenciam suas tentativas de
superação do juízo de Deus. Dentre suas obras ficcionais e não-ficcionais, em
especial nos chamam a atenção o romance O Processo (do qual mencionaremos o
diálogo entre Joseph K. e o pintor Titorelli), e as novelas O Veredito e Na Colônia
Penal, retratam a condição do juízo contra a qual Kafka escreve (contra o que ele
escreve?). A resposta é diabólica: “Deus não quer que eu escreva, mas eu – eu
tenho de escrever”2.
Começaremos por essa resposta a fim de entender o seu diabolismo e, em
seguida, buscaremos compreender porque escrever lhe ajudou na relação consigo
próprio – também em relação ao seu corpo magro e tuberculoso – como enunciação
de relações finitas e importância das forças que o afetaram a escrever. Além disso,

1
DELEUZE, Crítica e Clínica, 2011, p. 162.
2
KAFKA, Letters to Friends, Family & Editors, (trad. Richard and Clara Winston) New York: Schocken, 1977, p.
10.
nos ocuparemos de mostrar como as obras supracitadas nos levam às demais
características do sistema de crueldade que se opõem à doutrina do juízo, segundo
Deleuze; especialmente pelo combate às estruturas do poder e a “moratória
ilimitada”3. Assim, buscamos pensar, a partir das obras kafkianas, o que difere do
juízo. Para tanto nos ocuparemos de pensar as questões levantadas por Deleuze
em Para dar um fim ao juízo: como substituir o juízo? Precisamos estabelecer um
outro solo ou causar um desmoronamento nesse existente? Há como pagar essa
dívida que se diz infinita? Como romper essa escravidão sem fim e possibilitar um
processo libertário?

1. Kafka, uma escrita diabólica

A leitura de suas cartas e dos Diários revela-nos a dimensão especial que a


literatura tem para Kafka. Escrever é, antes de qualquer coisa, uma necessidade
interior e cada palavra é “uma lança que se volta contra o orador” 4. Em outras
palavras, aquilo que escreve está voltado para dentro de si, para a sua essência
literária, e não para o exterior. Ainda no rascunho de uma carta ao pai de Felice,
Kafka diz: “tudo o que não seja literatura aborrece-me e eu odeio isso tudo, porque
me perturba e retarda, mesmo que eu só pense que tenha esse efeito”5.
Tratando-se, então, de uma parte de si, a literatura constitui-se nele,
precisamente, uma “vocação irrevogável”: escrever é cumprir-se, nada mais. Disso,
Kafka tinha perfeita consciência, como escreve nos Diários, em 3 de janeiro de 1912:

quando se tornou claro no meu organismo que escrever era a direcção mais
produtiva que podia tomar o meu ser, tudo correu para esse lado e deixou-
me vazio de todas as capacidades que se dirigiam para as alegrias do sexo,
da comida, da bebida, da reflexão filosófica e, acima de tudo, da música. Eu
6
atrofiava em todas estas direções .

Consciente da sua vocação literária, Kafka dirigiu toda a sua concentração


para a literatura e, dessa forma, tudo aquilo que não estivesse intimamente ligado à
literatura só teria interesse se pudesse ser aproveitado em favor desta. Para ele,
escrever é como se estivesse tendo que “dar à luz” ao que estivesse dentro de si e
que precisasse dar vida. Dar a vida a pedaços de si: “trazer cá para fora, de uma
estocada, aquilo que acredito ter em mim”7.

3
DELEUZE, 2011, p. 163.
4
KAFKA, The Diaries of Franz Kafka: 1910-23, (ed. Max Brod), London: Penguin, 1964, p. 423.
5
KAFKA, 1964, p. 231.
6
KAFKA, 2011, p. 163.
7
KAFKA, 1977, p. 07.
Desse modo, devemos evitar uma busca de sentido fixo nas ficções kafkianas
– tal como muitas leituras psicanalistas fizeram –, pois, o que lhe interessava era
apenas ter que escrever. Essa necessidade não lhe surge por algo exterior ou
artístico, mas apenas como uma ansiedade sua voltada para fora de si; ansiedade
de escrever “para a profundidade do papel tal como sai de dentro de mim, ou então
escrever de modo a poder puxar para dentro de mim tudo o que escrevi. Isto não é
nenhuma ânsia artística”8 ou vontade divina. É o que ele diz a Oskar Pollak: “Deus
não quer que eu escreva, mas eu – eu tenho de escrever”9.
A sua escrita é, de certo modo, como um caco de vidro virado contra si e, ao
passo que está virado contra si, está virado contra qualquer vontade divina, contra a
sua condição judaica, contra o caráter social e familiar, a profissão, a justiça, o
casamento. Não há uma metáfora no sentido stricto do termo, mas um diabolismo ou
uma perversão, por isso qualquer ação é ineficaz perante a maldição dos labirintos
sem saída, sem solução, em constante potência nos escritos kafkianos. Assim, a
arbitrariedade e as exigências absurdas, a injustiça e a punição são
desproporcionais à falta aparente e confirmam a culpa (como se lê em O Veredito).
Entendendo a necessidade de Kafka para a escrita como uma perversão, torna-se
mais fácil perceber o que ele pretendeu em seus livros, quando escreve na Carta ao
Pai: “tudo o que eu fazia era lamentar aquilo que não podia lamentar sobre o teu
peito”10.
Ao mesmo tempo em que escreve, sente dificuldades para produzir.
Conforme ele mesmo registra repetidamente, certa incapacidade de escrever advém
daquilo que o envolve, como: emprego, família, barulhos de diversas ordens,
impossibilidade da solidão. Em 28 de março de 1911, registra nos Diários as razões
pelas quais não podia se dedicar inteiramente à literatura:

Não posso agora dedicar-me completamente a este campo literário, como


seria necessário, e por várias razões. Abstraindo as minhas relações
familiares, não poderia viver da literatura, para começar, devido à lenta
maturação da minha obra e ao seu caráter especial; além disso, tenho
também impedimentos de saúde e de caráter que não me permitem dedicar-
me ao que é, no caso mais favorável, uma vida incerta. Tornei-me por isso
funcionário numa agência de seguros sociais. Ora, estas duas profissões
11
jamais se podem conciliar uma com a outra e admitir uma sorte comum .

Kafka vivenciou uma conturbada relação familiar, principalmente com seu pai.
Considerando, por exemplo, o escrito Carta ao pai, vemos um desabafo e a descrição de
algumas características da figura paterna:

8
KAFKA, 1977, p. 134.
9
KAFKA, p. 10.
10
KAFKA, Letters to Friends, Family & Editors, (trad. Richard and Clara Winston) New York: Schocken, 1977, p.
52.
11
KAFKA, The Diaries of Franz Kafka: 1910-23, (ed. Max Brod), London: Penguin, 1964, p p. 49.
[…] como pai você era forte demais para mim, principalmente porque meus
irmãos morreram pequenos, minhas irmãs só vieram muito depois e eu tive,
portanto, de suportar inteiramente só o primeiro golpe, e para isso eu era
fraco demais […] Você, ao contrário, um verdadeiro Kafka na força, saúde,
apetite, sonoridade de voz, dom de falar, autossatisfação, superioridade
diante do mundo, perseverança, presença de espírito, conhecimento dos
homens, certa generosidade – naturalmente com todos os defeitos e
fraquezas que fazem parte dessas qualidades e para as quais o precipitam
seu temperamento e por vezes sua cólera (KAFKA, 1997, p. 117).

Torna-se um elemento central na obra de Kafka o sentimento de desprezo e


rancor pela figura paterna, muitas vezes expresso como ódio. Kafka mostra-se
profundamente insatisfeito com a própria saúde a partir da contradita situação do
pai. Insatisfação familiar que lhe renderia muitas dificuldades de relacionamento,
chegando a não se casar durante a vida toda. Ele próprio se considera muito feio,
tímido e fracassado, seja pela perturbadora relação familiar, seja pela própria baixa
estima. A presença de seus familiares é motivo de consternação, incômodo e ódio.
Nada lhe satisfaz, senão escrever. Isolava-se por muito tempo, seu quarto era um
refúgio, não suportava estar com ninguém, o que fazia suspeitar de sequer ser um
humano12.

Outro problema que atormentava Kafka era o trabalho. O jovem advogado


Kafka, extremamente competente e organizado em seu ofício, denota em seus
escritos uma crítica severa às instituições sociais de seu tempo, sobretudo à Justiça.
Narrativas como a novela Na colônia penal e o romance O Processo tratam da falsa
ideia corrente em seu meio de que se consiga fazer justiça numa sociedade
medíocre e perversa, com normas absolutamente confusas e autoritárias, cujas
estruturas não permitem que se tenha pleno acesso a ela. Ele trabalhou em um
instituto de seguros de acidentes de trabalho, onde convivia diariamente com o
sofrimento dos trabalhadores, o que o deixava ainda mais revoltado com as coisas
do mundo, e talvez possamos dizer, com a própria justiça. Assim, além de rota de
fuga – mas não o refúgio – dos atropelos e tormentos de sua vida pessoal, a
literatura também foi arma de contestação social. Para Deleuze e Guattari, Kafka
é um escritor com dois polos: “burocrata de grande futuro, ramificado nos

12
[…] não é por serem parentes que não consigo suportar estar no mesmo aposento que eles, mas meramente
por serem pessoas […] Não posso viver com pessoas; eu absolutamente odeio todos os meus parentes, não
porque sejam maus, não porque eu não os tenha em boa conta […] mas simplesmente porque são pessoas
com quem vivo em estreita proximidade […] seria incomparavelmente mais feliz vivendo num deserto, numa
floresta, numa ilha, e não aqui no meu quarto entre o quarto dos meus pais e a sala de estar […] A vida é
meramente terrível; sinto isso como poucos. Com frequência – e no mais íntimo do meu ser – talvez o tempo
todo, duvido que eu seja um ser humano (KAFKA, 2010, p. 31-32).
agenciamentos reais que estão se realizando” e um “nômade fugindo do modo mais
atual, que se ramifica no socialismo, no anarquismo, nos movimentos sociais”13.

Nos chama a atenção uma carta a Max Brod, em meados de outubro de


1917, em que Kafka copia o excerto de uma carta a Felice (a quem endereçava
muitas de suas cartas diabólicas), afirmando que o mesmo daria um “bom epitáfio”14.
Nesse texto, revela um dos seus maiores objetivos:

Se tentar descobrir qual o meu derradeiro objetivo, percebo que, na


verdade, não estou a lutar para me tornar uma boa pessoa e para satisfazer
um qualquer tribunal supremo. Pelo contrário, muito pelo contrário, estou a
tentar pesquisar toda a comunidade dos homens e dos animais, conhecer
as suas preferências fundamentais, os seus desejos, as suas ideias morais,
e então ajustar-me o mais rapidamente possível de modo a tornar-me
agradável a toda a gente e, além disso – eis a reviravolta – de tal forma
agradável que, sem perder o direito ao amor universal, eu fosse, por último,
o único pecador a não ser queimado, alguém a quem fosse permitido,
diante dos olhos de toda a gente, realizar as iniquidades que habitam em
mim. Em resumo, só o veredito dos homens e das bestas me interessa
e, mais importante, é meu desejo enganá-lo, embora sem um
15
verdadeiro engano .

A escrita de cartas, tão destacada por Kafka, colabora para a produção de


seus outros textos. Isso lhe serve como um movimento de combate e de engano,
como uma inocência diabólica16. As cartas servem-lhe como uma maquinaria de
“escrita e de expressão”, fazendo parte do conjunto de toda a sua produção literária
como uma engrenagem cuja intenção não era a de serem publicadas (lembre-se que
no fim de sua vida pediu ao amigo Max Brod que todas as suas obras fossem
queimadas), mas que viessem a desaparecer. Lembramos que o importante é o
objetivo das cartas, ou seja, o seu funcionamento. Mas como elas funcionam? Sobre
isso afirmam Deleuze e Guattari:

Conservam a dualidade de dois sujeitos, em virtude, sem dúvida, do seu


gênero. Pelo momento, distinguimos sucintamente um sujeito de
enunciação como forma de expressão que escreve a carta, um sujeito de
enunciado como forma de conteúdo de que a carta fala (mesmo se eu falo
de mim ...). É desta dualidade que Kafka vai fazer um uso perverso ou

13
DELEUZE; GUATTARI, 1977, p. 62
14
KAFKA, Letters to Friends, Family & Editors, (trad. Richard and Clara Winston) New York: Schocken, 1977, p.
152.
15
KAFKA, 1977, p. 152.
16
Cf. O Veredicto, em que o pai diz: “No fundo, tu eras uma criança inocente, mais, mais profundamente ainda,
um ente diabólico. E é por isso, ouve isto, condeno-te neste instante ao afogamento”.
diabólico [...] Cartas a tal ou tal mulher, cartas aos amigos, carta ao pai; no
entanto, há sempre uma mulher no horizonte das cartas; ela é que é a
verdadeira destinatária, aquela de que o pai é responsável de lhe ter
escapado, aquela que os amigos desejavam que cortasse relações, etc...
Substituir o amor pela carta de amor(?). Desterritorializar o amor. Substituir
o tão temido contrato conjugal por um pacto diabólico. As cartas são
inseparáveis de um tal pacto, são esse próprio pacto [...] Proust [outro
diabólico] também celebrou com o diabo ou com o fantasma o pacto do
longínquo através de cartas, a fim de quebrar a proximidade do contrato
conjugal. Ele também opõe escrever a casar. Dois vampiros magros
anoréxicos que só se alimentam de sangue ao remeter as suas cartas-
morcegos. Os grandes princípios são os mesmos: qualquer carta é uma
carta de amor, aparente ou real; as cartas de amor podem ser
atraentes, repulsivas, de injúria, de compromisso, de proposta, sem
que isso mude o que quer que seja a sua natureza; fazem parte de um
pacto com o diabo, que exorciza o contrato com Deus, com a família
17
ou com o ente querido .

A maneira íntima da escrita de Kafka relaciona-se com um estilo próprio, diferente,


de apreender o mundo. Tudo que é percebido por ele, precisa ser expurgado por meio da
escrita, seu desejo mais profundo. Como escreve suas cartas e como essas serão
agenciadas às novelas e romances tem uma relação direta com o funcionamento e contra o
que quer escrever, no caso, contra o casamento, a família, a política, as estruturas
jurídicas, o poder autoritário. Assim, O Veredicto, por exemplo, é um gênero bem “distinto
das outras modalidades narrativas” na literatura alemã desde Goethe, como enfatiza
Modesto Carone18, vindo a tornar-se um estilo peculiar no conjunto de sua obra: o
rompimento com uma ordem formal do narrador e o texto; a ênfase na gesticulação (no
exemplo do diálogo com o pai, o qual assume proporções animalescas) em que o pai
engana o filho com uma suposta tranquilidade, para depois atacar ferozmente, como se
fosse sua presa.

Vejamos, no próximo item, as peculiaridades do sistema da crueldade e seus


aspectos evidenciados nas novelas O Veredicto, Na Colônia Penal e em parte do romance
O processo:

2. A escrita de Kafka para dar fim ao juízo de Deus

Segundo Deleuze, Kakfa – assim como Nietzsche, Artaud e Lawrence –, pretendia


produzir uma crítica à tradição do juízo. De seu lado, ele o fez observando os devires e as
possibilidades de transformação da existência que não são engendradas pelos
julgamentos prescritos pela razão ou por Deus. Para os quatro, “a lógica do juízo se
confunde com a psicologia do sacerdote como inventor da mais sombria organização: quero

17
DELEUZE; GUATTARI, 2014, p. 65ss.
18
CARONE, in KAFKA, 2002, p. 74.
julgar, preciso julgar...”19. Como nos mostra Deleuze, no texto Para dar um fim ao juízo,
“cinco características nos pareceram opor a existência ao juízo” 20, vejamos agora como
podemos pensar a colaboração da escrita-resistência kafkiana na afirmação da existência
contra o sistema do juízo, pelo viés destas características apontadas por Deleuze.

2.1 Crueldade contra suplício infinito

O sistema da crueldade é operado contra o juízo de Deus segundo um


primeiro aspecto, citado por Deleuze: “o sistema de crueldade enuncia as relações
finitas do corpo existente com forças que o afetam, ao passo que a doutrina da
dívida infinita determina relações da alma imortal com os juízos”21. Segundo
Deleuze, o juízo somente é possível se todas as considerações pronunciadas são
estendidas ao infinito. O juízo “recebe sua condição de uma relação suposta entre a
existência e o infinito na ordem do tempo”22, sendo isso o que nos permite julgar e
ser julgado. O juízo de conhecimento está entrelaçado em um infinito que abrange o
espaço, o tempo, a experiência; todos os fenômenos existem numa relação infinito-
ordem do tempo, assim fazem do juízo de conhecimento tributário de Deus. No
pensamento de Kafka, assim como em Artaud, o finito se estabelece como em
Nietzsche, assumindo o conflito vivido no corpo sob os signos. Os signos da
Lei, que se inscreve sobre a carne dos sentenciados, dá a saber o que é devido:
a culpa (Na colônia penal). Em Kafka, podemos distinguir a Lei como sendo
transcendente (na qual cabe a alguns o poder de julgar) e a lei como desejo (em que
todos estão inseridos no processo de julgamento). A justiça “não é vontade estável,
mas desejo movente”23. Assim, em Kafka, a transcendência da Lei é denunciada
(como se pode notar quando a personagem Joseph K., d’O processo conversa com
o pintor de retratos de juízes que parecem “querer levantarem-se ameaçadoramente
da poltrona-trono”, mas que “são fáceis de manejar através de relações pessoais”
(1997, p. 176 e 184); juízes próximos à figura da justiça que mais se parece com a
deusa da Caça com asas nos calcanhares e em plena corrida – como determinar um
veredito justo se a Justiça não está em repouso e a balança não para de oscilar?) e
a lei como produção do desejo é evidenciada e afirmada, o que força a justiça a ser
pensada na imanência.

Ao denunciar a transcendência da Lei, para Deleuze, Kafka “assenta a


dívida infinita na “absolvição aparente”, o destino diferido na “moratória ilimitada”
19
DELEUZE, 1997, p. 144.
20
DELEUZE, 2011, p. 173.
21
DELEUZE, 1997, p. 145.
22
DELEUZE, 1997, p. 145.
23
DELEUZE, 2014, p. 91
[moratória ilimitada], que fazem com que os juízes se mantenham para além da
nossa experiência e da nossa concepção”24. Isso pode ser percebido na leitura d’O
processo, especialmente em uma conversa de K. com Titorelli. Nesta conversa,
Titorelli, que quase fala como um jurista de tão íntimo que é dos juízes, nunca
presenciou uma só absolvição real, ainda que alguma vez elas devem ter existido,
mas só se conservam em lendas – “esse direito só têm o tribunal supremo,
inteiramente inacessível ao senhor, a mim e a todos nós” (1997, p. 187 e 192); no
tempo de K. [só dele?] só se podia tratar da “absolvição aparente” e do “processo
arrastado” (1997, p. 188), ambas poderiam ser alcançadas com a ajuda do pintor,
pois “tudo pertence ao tribunal” (1997, p. 183); a liberdade, contudo, em nenhum dos
casos se realiza, no primeiro ela é aparente, pois a qualquer momento o acusado
pode ser preso e, no segundo, o acusado nunca é livre, no entanto, em ambas o
acusado nunca será condenado, mas também não será realmente absolvido (1997,
p. 196).

Em O Veredicto, Kafka enfatiza as relações dos corpos e das forças que os


afetam, cujas potências primitivas são recuperadas, vindo de encontro uma contra a
outra; uma relação selvagem se instala: o pai devém predador e o filho presa:
“Georg encolheu-se a um canto o mais possível distante do pai”25. Nesse encontro
animalesco e de poderes, uma linha de fuga é traçada, ou seja, no enfrentamento
com o problema, não há solução, apenas uma saída: o devir-animal (do mesmo
modo que em A Metamorfose). Esse devir é gerado como resultado da culpa (Georg
supõe um contato com o amigo na Rússia, cujas cartas aumentarão sua culpa) e de
uma maldição atribuída ao filho, pelo pai: o afogamento.

Contra essa moratória infinita, nas obras de Kafka, ocorre o que Deleuze
aponta como saída, “os existentes se enfrentam e se dão reparação segundo
relações finitas que só constituem o curso do tempo.” A dívida não se estabelece
com relação a um Deus, e sim com relação a um parceiro, numa relação de forças,
que criam o afecto, “os corpos marcam-se uns aos outros, a dívida se escreve
diretamente no corpo, conforme blocos finitos que circulam num território”. O
sistema de crueldade aponta os signos que revelam na “carne o que cada um deve
e o que lhe é devido”26.

24
DELEUZE, 2011, p. 163.
25
KAFKA, 1998, p. 22.
26
DELEUZE, 2011, p. 164.
Podemos dizer que Kafka opõe uma escrita de sangue e vida contra uma
escrita do livro (sagrado?). “O grande livro do Processo a máquina da Colônia penal,
escrita nos corpos, que dá testemunho de uma ordem antiga assim como de uma
justiça onde se confundem o compromisso, a acusação, a defesa e o veredito”. Em
Kafka, da forma como vemos, “o sistema de crueldade anuncia as relações finitas do
corpo existente com forças que o afetam, ao passo que a doutrina da dívida infinita
determina as relações da alma imortal com os juízes” 27. E, é exatamente isso que
Kafka denuncia através de sua escrita.

2.2 Sono ou embriaguez contra o sonho

Deleuze diz que o essencial do juízo é recortar a existência, ou seja,


distribuí-la em lotes, “os afetos distribuídos em lotes são referidos a formas
superiores”. Assim, “os homens julgam na medida em que avaliam seu próprio lote e
são julgados na medida que uma forma confirme ou destrua sua pretensão”28. Kafka
era julgado conforme a forma do lote de seu pai, o que lhe causava sofrimento,
limitava seu modo de existência. Contra isso ele lutava e resistia através da escrita.
Podemos compreender que a partir desse sistema de lotes formam-se modos de
vida que devem predominar, tomando pelo julgamento tudo o que se apresente de
forma diferente como sendo equivocado (delírio, loucura, quando o homem se
engana sobre o juízo de Deus), aquilo que está fora da “normalidade” e que deve
ser de alguma forma ajustado, corrigido e, por isso, julgado. Nesse sentido, Deleuze
diz que “a doutrina do juízo derrubou e substituiu o sistema dos afectos”, pois impõe
lotes prontos, fazendo-se esquecer ou não perceber as relações que se
estabelecem por meio dos afectos.

No sonho prevalecem as formas dos lotes do juízo, que são “arremessados


sem enfrentar a resistência de um meio que os submeteria às exigências do
conhecimento e da experiência”.29 Por isso, importa questionar se estamos
sonhando ou não. O sonho seria a sombra de todas as coisas e até de nós mesmos,
as formas postas pelos juízos. Abandonar a doutrina do juízo implica abandonar o
sonho e mergulhar na embriaguez – sono sem sonho. Para os herdeiros de Spinoza,
o sonho é “um estado ainda demasiado imóvel e dirigido demais, governado
demais”30. Os sonhos também podem ser julgados e servir para punir (psicanálise).

27
DELEUZE, 2011, p. 165.
28
DELEUZE, 2011, p. 165.
29
DELEUZE, 2011, p. 166.
30
DELEUZE, 2011, p. 167.
Talvez com isso possa se explicar a produção literária de Kafka, que surge do
modo peculiar de lidar com o juízo: a insônia. A insônia para Deleuze é o sono sem
sonho, a embriaguez que preenche e povoa a noite. As noites de Kafka eram
extremamente povoadas. Exemplos disso mostra Canetti, no livro O outro processo:
as cartas de Kafka a Felice, que trata das correspondências entre Kafka e sua noiva
Felice. Conforme Canetti, a luta imprimida por Kafka por receber respostas diárias
de Felice estava “a serviço de sua criação literária. Duas noites após a primeira carta
de Felice, redige ele A Sentença [O veredicto] de um só golpe, em dez horas de uma
e a mesma noite”. Trabalho este que lhe garantiu confiança como escritor. “Na
semana seguinte, originaram-se O Foguista, e no decorrer de dois meses, mais
cinco capítulos de América, somando um total de seis. Interrompendo o trabalho por
quinze dias, escreve A Metamorfose”31. A insônia lhe causava sofrimento, abalava
sua saúde, mas lhe permitia romper com os juízos que habitavam seu cotidiano,
através da escrita. Além disso, lhe obrigava uma vigília sobre o próprio corpo.

Cartas e diários tratam da insônia invariavelmente em tom de desespero, ele


não consegue dormir o que faz com que sinta o seu corpo desintegrando – nas
horas insones percebe seu corpo se descompondo em órgãos e espia os sinais de
cada um deles “meditando acerca de suas ominosas [prejudiciais, nefastas]
manifestações” (CANETTI, 1988, p. 34), recusa a perspectiva médica da
organoterapia ainda que “a questão do juízo é de primeiramente saber se estamos
sonhando”, isto é, que “o mundo do juízo se instala como um sonho”, tão logo
“abandonamos as margens do juízo, também é o sonho que repudiamos em favor de
uma ‘embriaguez’”. Por isso é que “nos estados de embriaguez, bebidas, drogas,
êxtases que se buscará o antídoto ao mesmo tempo do sonho e do juízo” 32. Deleuze
diz que em Kafka, “já não é um sonho que se faz no interior do sono, mas um sonho
que se faz do lado da insônia”. Isso é um estado de embriaguez dionisíaca, maneira
de escapar ao juízo. “Aquele que tem insônia parece estar imóvel, mas, o sonho
tomou para si o movimento real”33.

2.3 Vitalidade contra organização

Também no nível dos corpos o sistema da crueldade se opõe ao juízo de


Deus. O terceiro aspecto citado por Deleuze, mostra que “o juízo implica uma
verdadeira organização dos corpos, através da qual ele age: os órgãos são juízes e

31
CANETTI, 1988, p. 17.
32
DELEUZE, 1997, p. 147.
33
DELEUZE, 2011, p. 167.
julgados, e o juízo de Deus é precisamente o poder de organizar ao infinito” 34. Essa
característica da doutrina do juízo opõe o corpo vital e vivente (corpo sem órgãos,
conforme Artaud) ao organismo, ou seja, aponta para a existência de uma poderosa
vitalidade não orgânica que atravessa os viventes. Essa vitalidade é impedida na
medida em que os juízos determinam os lotes que cabem a cada corpo, o que limita
suas potencialidades (Jesus de Lawrence – sentidos regulados pelo juízo). Como
diz Deleuze, “a vitalidade não orgânica é a relação do corpo com forças ou poderes
imperceptíveis que dele se apossam ou dos quais ele se apossa, como a lua se
apossa do corpo de uma mulher” (lembrando Lawrence). Ainda segundo Deleuze,
“criar para si um corpo sem órgãos, encontrar para si um corpo sem órgãos é o
movimento de escapar do juízo”. Em Nietzsche, podemos pensar esse movimento
como o colocar o “corpo em devir, em intensidade, como o poder de afetar e ser
afetado, isto é, Vontade de potência”35. Em Kafka, conforme Deleuze, essa
característica de combate aos juízos também aparece, já que sua obra faz:

coexistir dois mundos ou dois corpos, fazendo-os reagir um sobre o


outro: um corpo do juízo com sua organização, seus segmentos
(contiguidade dos escritórios), suas diferenciações (oficiais,
advogados, juízes...), suas hierarquias (tipos de juízes, de
funcionários); mas também um corpo de justiça em que se desfazem
os segmentos, se perdem as diferenciações e se embaralham as
hierarquias36, preservando-se apenas intensidades que compõem
zonas incertas e as percorrem a toda velocidade, onde enfrentam
poderes, sobre esse corpo anarquista devolvido a si mesmo.

A máquina, na Colônia penal, é o aparelho para as execuções e torturas


coordenadas pelo oficial responsável (o juíz). Todavia, na última das torturas
aplicadas, questionado por um visitante sobre o crime praticado pelo condenado, o
oficial juiz informa que o indivíduo havia dormido em serviço, tendo por castigo a
tortura seguida da execução.

A tortura em questão é ter sobre a carne escrita a sentença; utilizando-se


agulhas presas em uma espécie de rastelo ligado a uma máquina que se
encarregava de deslizar no corpo imobilizado do sujeito. O sentenciado, amarrado
na máquina, vê o seu funcionamento tendo a sentença escrita de forma cruel, no
corpo desnudo, durante aproximadamente sete horas. O sangue jorrava, se

34
DELEUZE, 2011, p. 169.
35
DELEUZE, 2011, p. 169.
36
Ao sair do ateliê de Titorelli, K. passou sobre a cama e, ao abrir a porta, deparou-se com cartórios
do tribunal, confirmando a informação do pintor: “tudo pertence ao tribunal”.
misturava com água e escorria para um fosso. Depois de tatuada a sentença, a
máquina concluía o procedimento executando o condenado. Não bastava condenar
por banalidades, mas, torturar e executar, lentamente, de forma sádica.

O oficial, percebendo que não teria o apoio do visitante e a discordância do


novo comandante da Colônia Penal na defesa do método, depois do péssimo
desempenho dessa na execução do condenado, vai até o aparelho inventado e
aperfeiçoado para o seu próprio fim precisando as agulhas do rastelo para
escreverem sem falhar, em seu próprio corpo, a sentença que reconhecerá com o
imperativo “Sê justo!”.

Podemos pensar sobre as forças vitais que atuam no desenrolar da trama. O


oficial assume para si a definição acerca da máquina, o visitante, ao dizer “não” ao
oficial, muda completamente a ideia de uma máquina transcendente, o soldado e o
condenado riem sem parar, descontroladamente, os afectos tomam lugar do
transcendente e a máquina explode. Os quatro corpos agem pela intensidade do
momento. Tomam para si a justiça.

2.4 Vontade de potência contra querer-dominar

O sistema de crueldade tem como quarta característica a elevação da


vitalidade que age contra os poderes dominantes. Mostra o jogo de forças entre o
que domina e o que quer dominar, daquele que julga e do qual é julgado. No sistema
de crueldade tudo é combate, e, é esse “combate que substitui o juízo”. Trava-se
combate contra “instâncias e personagens do juízo”, onde:

o próprio combatente é o combate, em suas próprias forças que


subjugam ou são subjugadas, entre as potências que exprimem
essas relações de forças. Por isso todas as obras de Kafka poderiam
receber o título de “Descrição do combate”: combate contra o
castelo, contra o juízo, contra o pai, contra os noivos. Todos os
gestos são defesas ou ataques, esquivas, paradas, antecipações de
um golpe que nem sempre se consegue identificar: donde a
importância das posturas do corpo. Mas esses combates exteriores,
esses combates-contra encontram sua justificação em combates-
entre que determinam a composição das forças no combatente. É
preciso distinguir combate contra o Outro e o combate entre Si. O
combate-contra procura destruir ou repelir uma força (lutar contra as
potências diabólicas do futuro), mas o combate-entre, ao contrário,
trata de apossar-se de uma força para fazê-la sua. O combate-entre
é o processo pelo qual uma força se enriquece ao se apossar de
outras forças somando-se a elas num novo conjunto, num devir37.

37
DELEUZE, 2011, p. 169.
A vida e as obras de Kafka são marcadas pelo combate. Combate consigo
mesmo, entre ele e o pai, entre ele e o trabalho, ele e Praga, entre ele e as noivas,
principalmente entre ele e Felice. Isso pode ser percebido nas cartas de amor,
enviadas por Kafka à Felice, com elas é possível pensar sobre esse combate-entre.
Noivo contra noiva. Um repelindo o outro. Um compondo o outro. Presa e predador.
Devir-animal. Devir-vampiro. Devir-mulher. Forças inquietantes que moviam Kafka à
escrita. Canetti cita um trecho de uma das cartas à Felice que diz: “às vezes penso,
Felice, que exerces tanto poder sobre mim que deverias transformar-me num
homem capaz de realizar o que é natural. [...] Que sensação essa de ter encontrado
um refúgio em ti, a salvo deste monstruoso mundo que apenas ouso enfrentar em
noites dedicadas ao ato de escrever”38. Conforme vamos tendo conhecimento das
cartas enviadas à Felice, torna-se evidente o combate entre os dois durante cinco
anos. Aparentemente Kafka precisa dela para se manter em movimento, para
produzir. Com as forças dela ele luta com seus fantasmas. Suas cartas atraem ela e
ao mesmo tempo a repele. Kafka parece querer exclui-la de sua vida e, ao mesmo
tempo, juntar-se a ela. Tanto que se separa dela algumas vezes e desfaz o noivado
em duas ocasiões. Ela parece lhe servir de experimentação.

2.5. Combate contra a guerra

O combate não é vontade de nada e nem guerra. “A guerra é somente o


combate-contra, uma vontade de destruição, um juízo de Deus que converte a
destruição em algo ‘justo’. O juízo de Deus está a favor da guerra e de modo algum
do combate. Na guerra, a vontade quer a potência como um máximo de poder ou de
dominação” (fascismos). O combate, ao contrário, é essa poderosa vitalidade
não orgânica que completa a força com a força e enriquece aquilo de que se
apossa. Nesse caminho, Deleuze introduz a ideia de “miniaturização”, “minoração”,
ao dizer que o bebê (recém-nascido) possui essa vitalidade, se diferenciando de
qualquer organicidade da vida, pois com ele “só se tem relação afetiva, atlética,
impessoal, vital”. Na sua pequenez “a vontade de potência se manifesta de maneira
infinitamente mais precisa que no homem de guerra”. Kafka, segundo Canetti, citado
por Deleuze, é “o grande envergonhado que se faz pequenino”39.

Kafka faz uma literatura menor, em língua alemã. Conforme Deleuze, uma
literatura menor “é a que uma minoria faz numa língua maior.” (2014, p. 35) É
possível observar nas obras de Kafka as três características, que segundo Deleuze,

38
CANETTI, 1988, p. 37.
39
DELEUZE, 2011, p. 171.
são da literatura menor: “a desterritorialização da língua, a ligação do individual no
imediato-político, o agenciamento coletivo de enunciação”40. E, são estas
características que tornam a literatura menor revolucionária, quebrando formas,
marcando rupturas e fazendo ligações, antes inexistentes. Assim, é uma literatura do
combate, que permite novos modos de existência.

Em sua literatura menor, Kafka sabe se fazer pequeno, rastejar como os


animais, se colocar menor, e, com isso, torna possível novos modos de lidar com o
juízo. Isso se faz possível porque “a literatura menor é completamente diferente: seu
espaço exíguo faz que cada caso individual seja imediatamente ligado à política”. No
sentido de que, por exemplo, um “triângulo familiar conecta-se aos outros triângulos,
comerciais, econômicos, burocráticos, jurídicos, que determinam os valores deles”41.
Canetti observa que o termo “poder” aparece nos mais diversos contextos da obra
de Kafka. Os termos “poder” e “poderoso” pertencem ao seu vocabulário. Ele temia o
poder sob todas as suas formas, não ambicionava tê-lo, ao contrário, queria subtrair-
se a ele: “o objetivo essencial de sua vida consiste na tentativa de esquivar-se de
todas as manifestações dele, nota-o, percebe-o, define-o ou configura-o em todos
aqueles casos que outras pessoas aceitariam como naturais” (1988, p. 95).

Considerações Finais

Iniciamos nossas pesquisas procurando compreender, a partir das obras


kafkianas, o que seria diferente do juízo, o que o substituiria liberando modos de
existência e permitindo com isso o novo. Sabe-se que um outro solo não se faz
possível, o que compreendemos com Kafka é que isso se faz por desmoronamento
no solo existente, ou seja, enfrentamento e resistência, se metamorfoseando. Não
há dívidas para com deus, somente encontros com outros modos de existência, com
os quais se contrai dívidas que são pagas com carne e sangue. A escravidão
imposta pelos juízos só se rompe na decomposição e composição dos corpos.

Isso se dá por meio de uma potência que “é uma idiossincrasia de forças em


que a força dominante se transforma ao passar para as dominadas, e as dominadas
ao passar para o dominante: centro de metamorfose”. Quem melhor que Kafka para
nos apresentar um centro metaforseante, com seu modo próprio de sentir e escrever
o mundo, de resistir a ele e aos juízos? Ele viveu o combate. Suas obras apontam
novas entradas, novos sentidos nos encontros, tornam sempre possível outras

40
DELEUZE, 2014, p. 39.
41
DELEUZE, 2014, p. 36.
forças, que são multiplicadas e enriquecidas. Como diz Deleuze, fazendo referência
a Lawrence, a “decisão não é um juízo, nem a consequência orgânica de um
juízo: ela jorra vitalmente de um turbilhão de forças que nos arrasta no
combate”. Os quatro discípulos de Espinosa tendem a “multiplicar e enriquecer as
forças, de atrair um máximo delas reagindo uma sobre as outras”. “O combate não é
o juízo de deus, mas a maneira de acabar de vez com deus e com o juízo. Ninguém
se desenvolve por juízo, mas por combate”42.

Ao final do texto de Deleuze, Para dar um fim ao juízo, há uma questão que,
segundo ele, “incomoda”. Consideramos que incomoda sempre e, por isso, vale a
pena ser posta: renunciando ao juízo, como posso ter um meio para estabelecer
diferenças entre existentes, entre modos de existência? A partir daí, não parece ser
tudo equivalente?

Buscando responder a isso, ele torna a perguntar: “Mas não é antes o juízo
que supõe critérios preexistentes (valores superiores), e preexistentes desde sempre
(no infinito do tempo), de tal maneira que não consegue apreender o que há de novo
num existente, nem sequer pressentir a criação de um modo de existência?”.

Responde ele, que “um tal modo se cria vitalmente, através do combate, na
instância do sono, não sem certa crueldade contra si mesmo: nada de tudo isso
resulta do juízo.” Pois o juízo impede a chegada de outros modos de existência, que
só é possível quando se cria por suas próprias forças (captadas por ele mesmo),
valendo por si mesmo, “na medida em que faz existir uma nova combinação.” O
segredo revelado por Deleuze para tanto é: “fazer existir, não julgar. Se julgar é tão
repugnante não é porque tudo se equivale, mas ao contrário, porque tudo o que vale
só pode fazer-se e distinguir-se desafiando o juízo”. Por isso, para Deleuze não
devemos julgar os outros modos de existência, “mas sentir se eles nos convêm ou
desconvêm, isto é, nos trazem forças ou então nos remetem às misérias da guerra,
as pobrezas do sonho, aos rigores da organização”. Sobre isso, Deleuze encerra
citando Spinoza, e diz que esse: “é um problema de amor e ódio, não de juízo” 43.
Problema duramente enfrentado por Kafka por meio da criação literária povoada de
personagens “inferiores” como cães, toupeiras, ratazanas agonizantes, ratinha
cantora, símio que se dirige à uma academia e desafiam o poder e o juízo sem
revidar, mas se afastando da violência própria ao mais forte, escapando da ameaça
“por tornar-se demasiado pequeno para ela, e livrava a si próprio de todas as

42
DELEUZE, 2011, p. 172. Conferir nota 24 sobre Canetti.
43
DELEUZE, 2011, p. 173-174.
reprováveis armas da violência; pois os bichinhos nos quais preferia transformar-se
eram sempre inofensivos” (CANETTI, 1988, p, 98). Trata-se, pois, de forças
humanas que combinam com forças animais e compõem devires capazes de tornar
a existência possível.

REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.

_______. Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 2011.

_______. GUATTARI, Felix. Kafka. Por uma literatura menor. Trad. Cíntia Vieira da Silva.
Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

CANETTI, Elias. O outro processo: as cartas de Kafka à Felice. Trad. Herbert Caro. Rio de
Janeiro: Espaço e tempo, 1988.

KAFKA, Franz. The Diaries of Franz Kafka: 1910-23. Editado por Max Brod., London:
Penguin, 1964.

_______. Letters to Friends, Family & Editors. Trad. Richard and Clara Winston. New York:
Schocken, 1977.

_______. Na Colônia Penal. Tradução Modesto Carone. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
(Coleção Leitura).

_______. O Veredicto e Na Colônia Penal. Tradução de Modesto Carone. São Paulo:


Editora Companhia das Letras, 1998.

_______. Letters to Felice. Org. Erich Heller e Jürgen Born. Tradução inglesa de James
Stern e Elisabeth Duckworth. Nova York: Schocken Books, 1973. In: BEGLEY, Louis. O
mundo prodigioso que tenho na cabeça Franz Kafka um ensaio biográfico. Tradução de
Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 30-31.