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JUSTIÇA RESTAURATIVA E CÍRCULOS DE CONSTRUÇÃO DE PAZ

KAY PRANIS

BRASIL MAIO/2017

Uma das coisas que pensamos a respeito da importância do círculo é que eles são espaços para que pratiquemos o nosso melhor eu. Porém, não devemos ser apenas bonzinhos no círculo, já que é o momento de praticarmos o nosso melhor eufora do círculo. (Kay Pranis)

Organização: Cristina Bergamaschi

Colaboração: Miro Ribeiro, Sabrina Paroli, Ana Lúcia Ribas, Daiane Carbonera, Geórgia Tomasi, Cláudia Fochesato Tronca, Vara de Execuções Criminais, Fundação Caxias, AJURIS e Palas Athena.

CONSIDERAÇÕES

Este material foi elaborado a partir da visita da Professora Kay Pranis ao Programa Municipal de Pacificação Restaurativa Caxias da Paz e à Associação de Juízes do Rio Grande do Sul AJURIS em 2017.

Em Caxias do Sul, a convite do Programa Caxias da Paz, a Professora Kay realizou a análise das supervisões aos Facilitadores e ao Grupo de Voluntários da Paz, expressou suas considerações ao Caxias da Paz e palestrou abertamente à comunidade caxiense.

Em Porto Alegre, a convite da Associação de Juízes do Rio Grande do Sul AJURIS -, proferiu supervisão aos Facilitadores provenientes de todas as partes do Brasil e palestrou à comunidade porto-alegrense.

Em

São

Paulo,

a

convite

da

Palas

Athena

e

de

outras

Entidades,

realizou

sua

apresentação

no

Seminário

Internacional

de

Processos

Circulares

para

Transformação

de

Conflitos.

Este trabalho foi uma transcrição, a partir das gravações e traduções das apresentações da Professora Kay Pranis.

Ressaltamos que nos diferentes locais de sua apresentação, houve abordagens e questionamentos a respeito de um mesmo tema, motivo pelo qual esses temas figuram por diversas vezes.

As

gravações

não

foram realizadas

tenhamos perdido algum conteúdo.

por

profissionais

da área,

sendo

assim,

talvez

Confesso que este foi um trabalho exaustivo. Que exigiu muita escuta e muita leitura, por várias e várias vezes, para que pudesse ficar o mais próximo de sua tradução e que pudesse se tornar um material didático. Porém, ouvir Kay Pranis por várias vezes e sentir sua humildade, sua intensidade, sua pureza e simplicidade, na sua compreensão e valorização do ser humano, seja ele quem for, sempre deixando a porta aberta, sem desistir, é totalmente compensador.

Boa leitura!

Cristina Bergamaschi

Outubro/2017

SUMÁRIO

1.

A CAMINHADA DE KAY PRANIS

05

1.1.

O Currículo

07

2.

PROGRAMA MUNICIPAL DE PACIFICAÇÃO RESTAURATIVA CAXIAS DA PAZ 04 E 05 DE MAIO DE 2017 CAXIAS DO SUL

2.1.

Supervisão aos Colaboradores Efetivos do Programa

08

2.2.

Supervisão aos Facilitadores com Formação Avançada de Caxias do

12

2.3.

Considerações ao Programa Caxias da Paz

21

2.4.

Círculos de Construção de Paz nas Escolas

24

2.5.

Perguntas

29

2.6.

Entrevista

33

3.

WORKSHOP DE SUPERVISÃO DE FACILITADORES - ASSOCIAÇÃO DOS JUÍZES DO RIO GRANDE DO SUL AJURIS 15 A 17 DE MAIO DE 2017 - PORTO ALEGRE

37

3.1.

Perguntas

57

3.2.

Entrevista

79

4.

WORKSHOP CÍRCULOS EM MOVIMENTOS NAS ESCOLAS - ASSOCIAÇÃO DOS JUÍZES DO RIO GRANDE DO SUL AJURIS 18 E 19 DE MAIO DE 2017 PORTO ALEGRE

81

4.1.

O Poder e o Desafio dos Círculos nas Escolas

83

4.2.

A Amplitude de Utilização dos Círculos

92

4.3.

Perguntas

95

5.

SEGURANÇA: JUSTIÇA RESTAURATIVA E COMUNIDADE SECRETARIA DE SEGURANÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL 09 DE MAIO DE 2017 PORTO ALEGRE

111

6.

PROCESSOS CIRCULARES PARA TRANSFORMAÇÃO DE CONFLITOS SEMINÁRIO INTERNACIONAL ASSOCIAÇÃO PALAS ATHENA - 26 DE MAIO DE 2017 - SÃO PAULO

116

6.1.

Perguntas

123

1. A CAMINHADA DE KAY PRANIS

A versão curta é que não tenho formação em nenhum campo relacionado com o trabalho que faço hoje. Não tenho nada de justiça criminal, nada de direito, nada de psicologia. Foi um acidente de percurso. Por isso, tenho tanta confiança no desabrochar. Nada de fazer um plano e seguir. Tenho formação em matemática na universidade e um mestrado em estudos russos. Fui criada com uma mãe apaixonada por bebês que me dizia sempre que deveria ter filhos cedo e eu sempre quis ter filhos. Já estava casada quando me formei na universidade. Nunca tive uma aspiração específica a uma carreira que eu quisesse seguir. Eu adoro estudar, eu adorava ir à universidade, mas não tinha nenhum objetivo em mente. Quando terminei o ensino superior, resolvi ter filhos. Tinha problemas de ser muito controladora. Não conseguia deixar que outra pessoa criasse meus filhos. Embora meu marido fosse um profissional universitário e nosso rendimento não era muito alto, decidi ficar em casa cuidando dos filhos. E continuei durante 16 anos. Envolvi-me muito com a educação deles como voluntária. Sempre fui muito envolvida com as escolas da minha comunidade. Fiz parte do conselho de educação do distrito escolar por nove anos. Também me envolvi em uma organização não governamental que lidava com violência doméstica, com mulheres agredidas. Fiz parte do conselho dessa organização por três anos. Ocupava-me e me divertia, gostava do que fazia como ativista e como mãe. Meus três filhos têm idades próximas. Quando entraram no ensino médio, me dei conta que iriam embora. Um, dois, três, e foram. Decidi que tinha que construir outro centro na vida, porque minha vida se resumia muito no meu papel de mãe. Comecei a procurar emprego sem credencial para qualquer trabalho. Mandei meu currículo para vários lugares e não fui chamada para nenhuma entrevista. Passei um ano procurando emprego sem conseguir nada. Estava bem desencorajada. Tive uma oportunidade de trabalhar para uma organização governamental de justiça criminal. Fui contratada para fazer um trabalho de política pública. Não sabia nada do sistema criminal. Nada de nada. O presidente dessa organização me contratou porque conhecia meu trabalho de comunidade. E eu não tinha interesse algum em justiça criminal, mas como deveria mostrar que tinha capacidade de fazer alguma coisa, de conduzir o trabalho, aceitei. Fui trabalhar com política de justiça criminal. No início do trabalho, li um artigo de Kay Harrys cujo título era “Uma Visão Feminista da Justiça”. Nesse escrito constava que a justiça deveria ser baseada em três princípios feministas e ela via esses princípios da seguinte forma: todos têm dignidade, os relacionamentos são mais importantes do que o poder e a parte pessoal é política que as nossas vidas pessoais não estão dissociadas de nossa vida pública. Com base nesses princípios, ela descreveu como deveria ser a justiça. Eu amei o artigo e descrevo este artigo que me senti como se estivesse em casa. Nele era descrito aquilo em que eu acreditava e que não conseguia colocar em palavras. No entanto, não tem como defender aspectos feministas nos EUA. Deixei de lado. Seis meses depois, li os primeiros textos de Howard Zehr, publicado pelo Comitê Central da Universidade Menonita. Um panfleto, em 1989. Havia um segundo panfleto escrito por Zehr e Daniel Van Ness, descrevendo a filosofia da Justiça Restaurativa. Disse: “isto é a mesma coisa! E para isto eu sei fazer marketing.Li tudo que eu conseguia encontrar. Tinha pouca literatura em 1989. Comecei a tecer estas ideias com o

trabalho que vinha fazendo na justiça criminal. Essa organização tinha um programa de vítima e ofensor, em que ofereciam serviços às vítimas. Havia um programa para aqueles que prestavam serviços à comunidade. Organizaram isso e contratavam pessoas que estavam saindo da prisão. Todos os elementos estavam no seu programa, só não tinha a filosofia. E a Justiça Restaurativa veio para casa. Em 1994, o sistema prisional do Estado de Minnesota criou um cargo para alguém ligado à Justiça Restaurativa. Uma espécie de milagre. Naquela hora, eu sabia o que queria fazer em tempo integral, indo para o sistema prisional. Em 1995, conheci Barry Stuart, do Canadá. Fiquei sabendo dos círculos de sentenciamento que estavam fazendo naquele país. Achei uma jurisdição em Minnesota que estava disposta a fazer uma experiência com os círculos. Trouxemos os canadenses para nos capacitarem, e eles retornaram sete ou oito vezes mais. Participei das capacitações sete ou oito vezes. Não porque eu era esperta o suficiente para saber que era uma boa ideia, mas porque era organizadora desses encontros. Acabou sendo uma grande dádiva. Penetrou na minha corrente sanguínea. Em 2003, houve grandes cortes no orçamento do Estado e meu cargo foi eliminado. Não havia nenhum outro trabalho deste tipo em todo país. Nesta época, já estava capacitando pessoas para facilitar os círculos e eu queria continuar fazendo o que havia começado. Acabei sendo uma instrutora, free lancer. Desde 2003, essa é a minha função. Não ganhei muito dinheiro, principalmente nos primeiros anos, mas estava fazendo o que amava. Já havia me divorciado. Meus filhos eram adultos. Ninguém dependia de mim, a não ser eu mesma. Assim, poderia arriscar de não ter os benefícios de um trabalho fixo. Nunca imaginei que incluiria uma coisa deste tamanho como temos aqui. Fico me perguntando: como isso tudo aconteceu?

1.1.

O CURRÍCULO

Instrutora independente, reconhecida internacionalmente e facilitadora de Círculo de Construção de Paz. De 1994 a 2003, desempenhou, no departamento correcional de Minnesota, as funções de planejadora de Justiça Restaurativa. Trabalhou com as lideranças de estabelecimentos correcionais, da polícia, dos tribunais, das associações de bairro, das comunidades religiosas e das escolas, desenvolvendo uma resposta abrangente ao crime e ao conflito, com base na Justiça Restaurativa. Atua no desenvolvimento de processos circulares para o sistema judiciário, para escolas, para vizinhanças, para famílias e para empresas. Autora de inúmeras obras sobre o tema, inclusive o Manual Básico de Processos Circulares, “No Coração da Esperança” e “Círculos em Movimentos para Escolas”. Trabalha como instrutora para facilitadores de Círculos de Construção de Paz nos Estados Unidos, no Canadá, na Itália, no México, na Costa Rica, na Eastern Mennonite University e junto ao Centro para Paz, fundado por Howard Zehr.

2.

PROGRAMA MUNICIPAL DE PACIFICAÇÃO RESTAURATIVA - CAXIAS DA PAZ 04 E 05 DE MAIO DE 2017 CAXIAS DO SUL

2.1. SUPERVISÃO AOS COLABORADORES EFETIVOS DO PROGRAMA

Na preparação de um círculo de conflito, perguntamos às partes e aos demais envolvidos sobre quem sofreu mais impacto. Normalmente, têm mais pessoas envolvidas do que as informações que estão no papel. Queremos todos no processo, todos os que foram impactados e os que serão afetados pela solução. No círculo, devemos lidar com a complexidade do caso. Se tentarmos diminuir o número de pessoas que irão participar ou os assuntos que serão focados, teremos soluções superficiais. Na teoria do caos que aqui é relevante, quanto mais turbulência for permitido no processo, mais robusta será a solução. Devemos engajar com a complexidade. Assim, não só a solução será robusta, mas também, com mais complexidade, teremos mais espaço para criatividade.

Se fizermos um círculo e alguém chega sob influência de drogas, deveremos tratar disso no círculo, passar o objeto da palavra e pedir como os participantes se sentem a respeito dessa situação, deixando o círculo trabalhar esse desafio que é: como iremos trabalhar com isto. Berry Stuart, em seus círculos de sentenciamento que eram feitos nas comunidades no Canadá, tinha como um de seus requisitos a necessidade de as pessoas estarem sóbrias para participar do círculo, mas eles estavam lidando com conflito e com uma tomada de decisão muito séria. Se for um círculo de apoio, não fica tão claro. Houve uma situação de um círculo em que estava presente uma pessoa sob efeito de droga. O facilitador não estava confortável em mandá-la embora, mesmo que estivesse usando ativamente. Não existe uma resposta sim ou não, por isso o melhor jeito é deixar que todos se expressem a respeito do impacto que é ter um usuário de entorpecentes participando do grupo. Essa é uma estratégia muito importante. Quando não conseguimos decidir o que fazer, perguntamos ao círculo. O facilitador não precisa decidir tudo. Todos têm a responsabilidade por decidir como vamos encaminhar. O círculo pode decidir e reconsiderar depois. Sempre poderemos voltar atrás quando percebemos que o acordo não funcionou. Em um treinamento, esta pergunta surgiu no grupo: Permitimos a permanência de alguém sob a influência de drogas no círculo? Em um círculo de apoio, suporte e fortalecimento de relações, devemos deixar permanecer e podemos consultar o círculo. E se o círculo é inclusão, como mandar sair? Nos círculos de conflito, se for importante fazer as diretrizes em primeiro lugar, façamos.

Importante

que

se

faça

valores,

diretrizes

e

o

fortalecimento

de

relacionamentos,

principalmente antes de abordar o conflito. Mas a ordem pode ser flexibilizada.

Quando falamos em linguagem e rótulos, a principal coisa é não deixar que isto atrapalhe o caminho. Normalmente não usamos o termo círculo restaurativo. Existem algumas categorias que uso: círculos de diálogo, criação de comunidades, círculos pedagógicos, círculos de celebração e

diálogo que não seja de conflito. Nenhum desses círculos é de tomada de decisão, pois são mais simples; refiro-me a eles como círculos de conversa. Em relação àqueles que iremos tomar decisões, tais como círculo de apoio, integração, conflitos, disciplinas devem ser referidos como círculos para solucionar problemas.

A questão se é círculo restaurativo ou não ou se é Justiça Restaurativa ou não, está na

questão de justiça que, para mim, está viva em todas as interações humanas. Em todas as interações humanas vemos como justas ou injustas. Nós nem percebemos quando é uma relação justa, mas reagimos muito fortemente quando nos percebemos numa relação injusta. A justiça se aplica a todas as partes de nossas vidas e as pessoas que são oprimidas realmente entendem isso. A cada momento e a cada dia vivenciamos justiça ou não. Podemos pensar em Justiça Restaurativa em todos esses círculos, mas espero que um dia deixemos o termo restaurativo e falaremos simplesmente justiça, que significa estarmos bem nos relacionamentos e de estarmos em um processo de cura, quando não estivermos em um relacionamento certo.

O tipo de linguagem deverá ser sempre adequado para quem está nos ouvindo. As palavras

podem ter um significado para mim e um significado completamente diferente para quem está executando. A linguagem utilizada será aquela que levará ao melhor entendimento do significado que se quer transmitir para outra pessoa. Podemos descrever o círculo de maneira diferente para pessoas diferentes para reduzir as distorções que a linguagem pode criar.

A confidencialidade: As pessoas têm significados diferentes para confidencialidade. O termo confidencialidade, em certos casos, é um termo muito amplo. Muitos círculos têm exceções legais para a confidencialidade e temos que deixar claro a respeito disso. Mas, por outro lado, as pessoas poderão querer falar sobre a experiência. Uma das maneiras como isso pode ser captado nas diretrizes é que as aprendizagens vivenciadas no círculo podem ser levadas para além do círculo, porém as histórias ouvidas nos círculos, não. Em inglês falamos também em privacidade ao invés de confidencialidade, porque é a informação particular que se quer proteger ao invés de toda informação. Uma das coisas que temos que ter consciência a respeito de confidencialidade, especialmente em situação de conflito, é que as pessoas entram no círculo com sentimento de confiança muito baixo, por isso têm necessidade de confidencialidade. Se o círculo tiver algum tipo de transformação num processo que, até ao final, poderá haver mais confiança e menos necessidade de uma definição exata do que seja confidencialidade, ao final do círculo que foi bem sucedido, podemos revisitar o termo confidencialidade, porque quando as pessoas saem do círculo muitas outras pessoas começam a fazer perguntas. Podemos fazer uma última rodada, perguntando: sobre aquilo que foi compartilhado no círculo, o que poderá ser compartilhado fora dele? Podemos pressionar as pessoas para que, ao saírem, elas não falem nada do que aconteceu no círculo. Também é importante que, quando houver uma violação dessa confidencialidade por alguém, que se faça o círculo novamente para que essa pessoa explique o que aconteceu.

Estratégias para as pessoas que não falam em círculo: É muito importante que se honre o direito de passar o objeto da palavra sem falar. As crianças e os adolescentes têm poucas chances na vida de exercerem o direito de serem autônomos e de decidir o que querem fazer. Muito do dano que as pessoas causam umas às outras vem no sentido da sensação de impotência e elas cometem o dano para se sentir no poder, pois alguma sensação de poder e de autonomia é essencial do ser humano. Infelizmente quando as pessoas fazem alguma coisa para sentir o poder, fazemos outras coisas para tirar este poder, piorando a situação. Temos que dar às pessoas a chance de sentir poder pessoal de uma forma positiva. Existem duas maneiras, no círculo, de se conseguir o poder pessoal: uma delas é o direito de passar o objeto da palavra. É muito importante honrarmos esta atitude e não pressionarmos ninguém para que fale. E a segunda maneira do poder pessoal positivo é quando estamos com o objeto da palavra e todos os outros estão escutando profundamente, de forma respeitosa e atenciosa. Essa é uma maneira do poder pessoal positivo. Falar e não falar são experiências de poder pessoal positivo. Jovens normalmente testam se realmente poderão ter o poder de não falar. Geralmente, quando permitimos que tenham esse poder, eles falam. Porém, se todos passarem o círculo muito rápido, ficamos bem com o silêncio, que é uma coisa boa para os jovens terem o silêncio. Os jovens de hoje têm pouco ou nada de quietude. Sabemos que temos uma vida interior em momentos de quietude. Muitos jovens hoje nem sabem que existe uma vida interior dentro deles. Não se preocupe com a quietude ou silêncio, mas não pode passar rápido demais pelo grupo. As pessoas têm o direito de passar o objeto da palavra sem falar, mas pedimos que quando receberem o objeto da palavra, segurem-no, contando até cinco ou até dez para depois passar adiante. Outra sugestão é pedir que cada um segure o objeto da palavra até que sintam que o seu silêncio foi ouvido.

Em uma situação de alguém estar colocando pressão para que todos passem, é importante pensar em uma pergunta que seja tão irresistível que vença a vontade de passar sem falar para ser igual a todos. Com adolescentes: O que os adultos na vida de vocês precisam entender a respeito de vocês que eles não entendem? No local de trabalho: O que teu chefe não entende a respeito do teu trabalho que ele deveria entender?

Podemos, também, fazer uma atividade não verbal, um exercício com os elementos da natureza, porque engaja as pessoas e elas começam a participar, mesmo sem perceber que estão participando. Trazer instrumentos de percussão ou que as pessoas façam algum barulho com o que têm, como bater nas pernas. Deixar as pessoas tocarem o quanto quiserem, quebrando o padrão do que esperam de nós. Essas ideias são boas também quando os jovens começam a não se comportar no círculo. Se há uma pessoa que está atrapalhando, podemos dar uma responsabilidade para ela, como ajudar com a abertura, com as cadeiras, trazer o objeto da palavra. Dar à pessoa a sensação de pertencimento, de fazer parte. Isso protegerá o processo.

Paciência é muito importante. Uma amiga, que fazia círculo com meninas, relata que em algumas semanas elas eram maravilhosas; outras vezes, tinha que lembrá-las, de tempo em tempo, a função do objeto da palavra. Importante também é devolver para o grupo e questionar:

como se sentem quando estão com o objeto da palavra e outras pessoas começam a conversar? Como se sentem quando estão com objeto da palavra e duas pessoas estão se “cutucando”? Não se quer focar em nenhuma pessoa quando se faz esse tipo de pergunta, mas permitir que se manifestem a respeito de atitudes que ocorrem. Tanto quanto possível, trazer de volta para o grupo a reflexão de como é o espaço que eles querem ter junto de si. Também, quando, no círculo, temos pessoas com necessidades especiais, poderíamos ter massa de modelar ou brinquedos e permitir que possam manusear enquanto estão sentados em círculo.

Um dos nossos primeiros professores foi Harold Gatensby. Era índio e teve uma vida difícil. Um cara grande, com dentes faltando e se envolveu com este tipo de trabalho. Mora no meio do mato, no Canadá. Criaram um acampamento no mato que chamam de Acampamento de Cura. Qualquer pessoa da sua comunidade poderia freqüentá-lo sem custos. Ninguém apareceu. Ninguém queria se enxergar necessitando de cura. Assim, mudou o nome do acampamento para Campo Selvagem. As pessoas começaram a frequentar. Nesse caso, cura como palavra é uma barreira para as pessoas. Então, deixemos fora palavras que criam barreiras e busquemos outra forma de conexão.

Temos muitas reações vindas de Terapeutas e Assistentes Sociais que se preocupam com o fato de que podemos estar abrindo coisas que não conseguimos gerenciar depois, porque pessoas como eu não têm um título de Assistente Social, Médica ou Psicóloga. Há muita discussão em ser um participante e mostrar sua vulnerabilidade no processo. Este é um lugar onde temos uma diferença muito grande de paradigmas. Os seres humanos apoiaram-se uns aos outros em processos de cura, muito antes de haver diplomas nessas áreas.

Faz parte do ser humano poder escutar, poder testemunhar e poder dar o apoio para outro ser humano que esteja sentindo dor, em sofrimento. Requer socialização saudável, mas não é necessário ter um diploma na área terapêutica com seres humanos. Esta é uma conversa que está acontecendo nos EUA. Existem grupos de pessoas, nos EUA, que estão se ajudando. Podemos fazer muito para apoiar uns aos outros na nossa cura, sem causar os riscos com os quais eles estão preocupados.

O fato é que as pessoas estão sofrendo o tempo todo e tudo está sendo “segurado” por suas famílias e suas comunidades. Está sempre lá. Fica mais visível, no círculo, porque as pessoas têm mais escolhas de como agir, de como ajudar. Mas, como facilitadores, temos que saber que recursos poderemos acessar, se a pessoa que sofre demonstrar necessidade deles.

O processo de preparação ou pré-círculos e de como engajar as pessoas: Precisamos ser muito cuidadosos. Não tem a ver com convencimento nem com persuasão. Ajudamos as pessoas a verem a necessidade que têm e a conexão dessa necessidade com algo que o círculo poderá oferecer-lhes. Muitos deles precisam ser ouvidos de como a história impactou-os. Podemos prometer esta escuta. E também prometer que seu lado da história será ouvido. Podemos

prometer que ninguém irá interrompê-lo enquanto estiver falando. Algumas pessoas ficarão com medo que a façamos falar sobre sentimentos. Também podemos prometer a eles que eles escolherão se falarão ou não. Normalmente, essas são as garantias que podemos dar aos participantes do círculo, os quais se sentirão mais confortáveis em se fazer presentes.

Existe também a questão dos apoiadores que dão certa confiança. Os participantes poderão trazer uma ou duas pessoas para apoiá-los, que estarão atentas aos seus interesses. Existe o relacionamento que poderá ser criado no primeiro encontro, nesse pré-círculo, se escutarmos atentamente a sua história. Poderá ser a primeira vez que alguém realmente escutou a sua história. Muitas vezes, isso é que faz com que as pessoas queiram participar, porque elas começam a ter confiança no facilitador.

Tanto no pré-círculo como no círculo temos sempre que fazer uma construção de relacionamentos antes de falarmos no assunto principal.

Na maior parte das vezes, temos realizado círculos em locais de trabalho e quando faço o pré-círculo, um a um, pergunto há quanto tempo trabalham naquele local; que tipo de trabalho realiza; se há foto, o que tem para falar sobre a foto. Primeiro tento fazer uma conexão antes de começar a perguntar sobre o assunto. Ainda assim, é difícil. As pessoas têm medo de aumentar o dano. É necessário descrever a maneira como o processo funciona, em quais situações as pessoas não podem perguntar e responder diretamente umas para outras e que não ficará pior, tudo isso em função da dinâmica do processo. As pessoas se preocuparão em sentir vergonha. De certa forma, é inerente, porque quando causamos danos sentimos vergonha. Podemos assegurar às pessoas que o processo irá tratá-las com dignidade. Pode ser que cada pessoa não faça isto, mas o processo o fará. Não estaremos lá para criticar ou focar em alguém. O objetivo é alcançar uma boa solução. Podemos pensar em outras estratégias. Consultar se há pessoas que passaram pelo processo circular e que estariam dispostas a, voluntariamente, explicar o processo. Talvez participar do pré-círculo para que contem a sua experiência. Só esses poderão tentar persuadir a pessoa a participar do círculo. Nós não. E, mesmo assim, é difícil. Temos medos que nos tornaremos “réus”, medo de piorar as coisas. E as pessoas nunca tiveram a experiência de um diálogo construtivo. Difícil de imaginar.

2.2. SUPERVISÃO AOS FACILITADORES COM FORMAÇÃO AVANÇADA EM

CÍRCULO DE CONSTRUÇÃO DE PAZ DE CAXIAS DO SUL

Temos que nos amar uns aos outros tanto quanto vocês demonstram o amor que sentem por mim. Sou simplesmente outro ser humano, embora tenha cometido outros erros também. Mas vocês fazem com que eu traga o melhor de mim para vocês pelo amor que

demonstram por mim. Esta é a minha melhor memória. Isto é o que podemos fazer de melhor uns pelos outros: demonstrar amor.

Agradeço, do fundo do coração, por fazerem com que eu fique em um lugar em que possa ser o melhor de mim. Faço meu trabalho melhor em outros lugares pelo amor que sinto que vocês têm por mim. Desde o momento em que aterrissei no Brasil, tenho recebido muito amor e não tem como explicar essa sensação.

Quero homenagear a terra, as águas, os animais e as plantas desta Terra. A todos aqueles que caminharam antes de nós por estas terras. Lembro que estamos todos conectados. Esse é o ponto de início de tudo aquilo que estamos tentando fazer. Estamos todos conectados. Respirem profundamente. Vou fazer o mesmo.

O autocuidado para os facilitadores. O primeiro passo é encontrar alguém que os ame tanto quanto eu sinto que vocês me amam. Vocês estão me fortalecendo pelos próximos dez anos.

Precisamos de lugares onde não há necessidade de representar um papel. Onde não sejamos julgados pelo que fazemos. Precisamos, para nos cuidarmos, ter um grupo pequeno que possamos nos encontrar e possamos conversar abertamente sobre tudo o que acontece. Onde não estaremos facilitando. Onde possamos sentar em círculo, não estar facilitando e sentir-se em um lugar muito seguro. Isso é muito importante para nos cuidarmos. Criar relacionamentos profundos, por meio dos quais possamos reconhecer nossos erros e expressar nossas dores, que possamos compartilhar a alegria das nossas práticas. Que estejamos juntos com as pessoas que entendem, de maneira muito profunda, o que é fazer círculo, o que é estar em círculo. Uma das partes do autocuidado seria termos um grupo em que possamos nos sentir seguros.

Aprendi uma lição com Marc Wedge, um dos meus primeiros professores. Foi, realmente, a sabedoria que ele passou que me permite estar neste trabalho há tanto tempo. Quando pensamos que sentamos com muita dor nos círculos, assimilamos muita dor. Meu primeiro treinamento foi em 1996, com Marc Wedge. Em outubro do mesmo ano, fui procurar conselhos. Preocupava-me com duas cosias: as pessoas esperavam que eu conseguisse grandes resultados, e eu não fazia nenhuma ideia de como estava impactando as pessoas e as situações. Havia muitos acontecimentos ao meu redor, mas não sentia que os resultados estavam surgindo a partir do meu trabalho. As pessoas esperavam que eu fizesse tudo acontecer, mas não tinha ideia nenhuma de como fazer isso. As pessoas estavam começando a admirar o meu trabalho, o que também me preocupava. Os elogios e a aprovação são muitos sedutores. Vivi minha vida fora das normas da sociedade, de muitas maneiras. Tinha muito medo de ser levada a necessitar da aprovação dos outros. Estava, na verdade, procurando pelo Barry Stuart, o juiz canadense, que me apresentou aos círculos. Pensei que ele também deveria ter passado pelos mesmos problemas na vida dele. Mas não conseguia encontrá-lo. E, é claro, não era o Barry Stuart que tinha a resposta para mim.

Era uma perspectiva indígena, chamada de Povos da Primeira Nação. Sentei com Marc Wedge e expliquei meu dilema. E Marc riu de mim. Continuou dizendo, em outras palavras, que não tinha nada a ver comigo. Era o que acontece através de mim e que meu trabalho não era entender isso ou controlar isso. O trabalho era ficar limpa e que tinha a ver com algo maior do que eu e que vem através de mim. Não precisava gerenciar isso. Tinha que trabalhar para ficar com minha mente limpa e transparente o quanto pudesse. Isso me aliviou imensamente. Tomou conta do meu problema do ego, já que não tinha a ver comigo. E, também, tomou conta do fato de estar com muita responsabilidade.

Não é que penso que posso fazer uma limpeza em mim, mas tive uma sensação de como poderia trabalhar nisso. Não precisava mudar ninguém. Apenas tinha que trabalhar eu própria. Quando tomo banho, peço que a água leve tudo que não me pertence, tudo aquilo que não é para ficar comigo. Peço que a água me limpe, simbolicamente, por dentro também.

Com essa lição, Marc também me deu uma proteção muito importante. Quando estamos em círculo em que existe muita dor, sempre temos que lembrar que essa dor não é a nossa dor. Se pensarmos em tomar essa dor para nós, além de não diminuirmos a dor da outra pessoa, ela pesará em nós. Não podemos curar pelos outros. Podemos escutar, caminhar em solidariedade, mas não podemos curar a outra pessoa. Dessa forma, estamos apoiando a cura do outro, mas não estamos curando o outro. As pessoas é que irão se curar. É uma parte importantíssima do autocuidado. Que tenhamos muita clareza a respeito dos limites daquilo que podemos e conseguimos fazer. Que não carreguemos a dor dos outros. Assim, poderemos permanecer firmes e fortes para apoiar a cura das pessoas.

Uma senhora índia americana tem sido uma professora importante para mim. Ela me ensinou a tomar chá de sálvia depois de um círculo que tenha sido muito difícil. Ou, se possível, tomar um banho de banheira com óleo de sálvia. Entendi que é muito importante que cada um crie o seu ritual para ajudar a liberar qualquer negatividade que tenhamos trazido do círculo. Desde que seja de uma forma intencional, podemos criar nosso próprio ritual.

Outro ensinamento é caminhar sobre a terra, preferencialmente, de pés descalços, visualizando os poros se abrindo na planta dos seus pés e convidar toda energia negativa a sair pelos poros e entrar terra a dentro, porque a terra consegue transformar essa negatividade.

O ponto-chave é tirarmos um tempo, examinarmos como estamos nos sentindo e fazermos, intencionalmente, alguma prática para limpar-nos. Podemos correr, meditar, escutar música, ou seja, praticar o que faz sentido para cada um. Essas são algumas sugestões para o autocuidado do facilitador.

Como trabalhar a humildade no facilitador? Quais as características e habilidades de um facilitador? Marc ajudou muito, porque não tem a ver comigo ser sábia ou não. Particularmente, apreciei o que disse até recentemente. Hoje, a característica principal de um facilitador é de não

saber a resposta. Isso fazia parte do conselho que Marc me deu, mas não fazia sentido até então.

É uma grande mudança para mim. Cresci achando que sempre tinha que ter a resposta certa. Tinha medo de que não evoluiria se não tivesse a resposta certa para tudo.

Sentada em círculo, muitas e muitas e muitas vezes, observei o aparecimento da sabedoria coletiva. Agora tenho uma grande confiança na capacidade de surgir a sabedoria coletiva se estivermos em um lugar seguro. Quero enfatizar que as pessoas também têm a capacidade para loucura coletiva. É a qualidade do espaço que irá determinar se teremos como resultado a sabedoria coletiva ou a loucura coletiva. Se o círculo for bem programado, bem feito, vai aumentar, em muito, a capacidade para se obter a sabedoria coletiva. Não teremos acesso à sabedoria coletiva se o facilitador tiver a resposta. Porque se o facilitador tiver a resposta, inconscientemente, levará as pessoas a trazerem tal resposta.

Podemos ter ideias e opiniões como facilitadores, mas temos que nutrir a nossa curiosidade para perguntar o que mais tem ali? Isso está relacionado com a humildade. Também nos permite dar a responsabilidade aos outros pelo círculo. Na verdade, é uma habilidade que deve ser cultivada. Temos que praticar a percepção de quando sentimos que temos a resposta.

Socialmente, fomos criados para ter respostas e as respostas certas. Normalmente, estamos neste espaço de ter as respostas para dar. Temos que desenvolver uma conscientização a respeito de prestar atenção quando achamos que temos a resposta. Não conseguimos nos desconectar disso,

a não ser que prestemos atenção e saibamos que isto está lá. A estrutura do círculo nos ajuda,

desde que prestemos atenção e escutemos. Normalmente, temos uma ideia quando o objeto da palavra começa a passar, mas se escutarmos de verdade, prestarmos atenção de verdade, essa ideia, normalmente, será diferente até que o objeto da palavra retorne. Isso mantém nossa mente aberta. Se eu pudesse responder, imediatamente, ficaria presa ao meu modo de pensar. E esse

tempo de esperarmos o retorno do objeto da palavra engaja nossa curiosidade e nossa reflexão. Não saber é uma das habilidades.

Outra habilidade é sentar quieta com minha própria ansiedade e desconforto. A atividade com os gravetos ou com os elementos da natureza, para os que conhecem, tem sido meu maior mestre para facilitar. Quem não conhece a atividade, poderá utilizar o brinquedo dos legos para construir alguma coisa. Tive que aprender a sentar e continuar quieta, porque minha sensação era de desespero, pois acreditava que as pessoas iriam levantar, iriam sair, iriam embora.

Quando sentamos em círculo, com pessoas que fizeram coisas horríveis, pode ser que não consigamos sentir amor por elas. O que peço é que tentem acreditar que existe um ser melhor dentro delas. Talvez profundamente enterrado e o comportamento possa ser desgostoso de olhar, mas pensemos que, profundamente, em algum lugar dentro daquela pessoa, existe um potencial. Esta é uma ideia ensinada em muitas tradições espirituais: de que sempre existe uma luz, mesmo quando não conseguimos enxergá-la. Contar a história é o melhor jeito que sei para que possamos começar a acessar essa luz. Se estiver facilitando situações assim, tenha certeza de levar um

cofacilitador, porque nessas situações pode ser que sejamos impulsionados a ter alguma atitude que não queiramos. Assim, temos esperança de que o cofacilitador não será tocado pelos mesmos temas que nós somos tocados. Não desistam de si mesmos, se perderem o equilíbrio por um momento. Marshall Rosenberg nos ensina empatia antes de educação e, acima de tudo, autoempatia. Se estivermos em um círculo com alguém que faça perdermos o equilíbrio, primeiro concentremo-nos e sintamos autoempatia. Façamos um intervalo, se sentirmos necessidade. Deixemos o cofacilitador ser o líder por um momento e, provavelmente, iremos conseguir nos centrar novamente.

O tipo de círculo que Dominic usa é um círculo focado no evento em si. Os círculos de sentenciamento que fizemos envolveram a realização de diversos pré-círculos, trabalhando com múltiplas questões envolvidas pela pessoa que cometeu o crime. Não nos preocupamos em chegar ao fundo dessa emoção muito rápido. Tentamos construir algum tipo de estabilidade na vida dessas pessoas para que elas possam realmente participar do círculo. Existe uma diferença muito grande considerando-se por este ponto de vista. Geralmente, na preparação do pré-círculo, queremos que as pessoas tenham a chance de se expressar. Elas podem precisar de prática para articular, pode ser que precisem falar alto, aquilo que tem por dentro, para entenderem os seus próprios pensamentos. Queremos entender o que estão sentindo para que possamos elaborar boas perguntas para fazer no círculo. O fato de escutarmos a história que contam de uma maneira profunda começa a construir confiança. Tudo isso exige que abordemos a questão no pré-círculo. É importante, no círculo, que um entenda a jornada que o outro tem feito. As pessoas ainda podem descrever isso, mesmo que tenham ultrapassado esse ponto. Para a maioria das pessoas, todas essas emoções vão continuar surgindo no círculo. O trabalho que fazemos não requer que as pessoas liberem suas emoções rápido demais, mas devemos reconhecer as suas preocupações. Acho que isso seria mais relevante se fosse um incidente entre duas pessoas. Muito, muito poucos eventos são separados. Talvez o único evento entre duas pessoas, mas, para ambas as partes, irão tocar na história delas. Frequentemente, é muito mais importante que se cure pela história.

Os Desafios para Avançarmos com os Processos Restaurativos: Os desafios para avançarmos com esta grande visão, da maneira como falam a respeito disto, aqui no Brasil, de certa maneira capta este desafio. Desde que cheguei, tenho ouvido falar sobre esse trabalho dentro de um contexto de uma cultura de paz. Não temos usado esta linguagem no meu país, mas isso é o que acredito que seja Justiça Restaurativa, uma Cultura de Paz. Uma cultura de paz não é um passo pequeno do ponto em que estamos. Uma verdadeira cultura de paz ainda está a alguma distância de onde estamos agora. Uma cultura de paz, penso que temos que ter pressupostos muito diferentes para atingi-la. Para mim, isto significa uma mudança profunda na cultura. Por isto é um desafio tão grande. Estamos falando de uma mudança de 180°, a partir do ponto em que estamos agora. Normalmente, os primeiros graus desta mudança, são geralmente os mais difíceis de fazermos. Tenho muita esperança que vai ficando mais fácil, à medida que vamos avançando. Vou elencar alguns dos elementos que sejam necessários para que se faça esta mudança.

Teremos que fazer a mudança de procurar pela sabedoria individual e mudar para a sabedoria coletiva. As culturas ocidentais estão construídas, em grande parte, nesta sabedoria individual; precisamos desesperadamente da sabedoria coletiva. A sabedoria coletiva é, necessariamente, muito maior do que a sabedoria individual. Para acessarmos esta sabedoria coletiva precisamos de espaços que sejam seguros, espaços que convidem a reflexão e espaços onde o respeito impere. Nossa cultura tem poucos espaços como estes. O círculo é um destes espaços onde ela é aceita. Essa é uma das coisas que precisamos reaprender a partir dos nossos ancestrais, porque eles se organizavam muito mais em relação à sabedoria coletiva do que fazemos hoje. Esta é uma grande dádiva que as comunidades indígenas nos oferecem nesta hora. Buscando a sabedoria coletiva vamos ficando menos dependentes da sabedoria individual. Ambas as sabedorias têm seu lugar, mas estamos num desequilíbrio fantástico. O círculo nos ajudará a acessar esta sabedoria coletiva. Quando ficarmos bons nisto não precisaremos mais fazer tantos círculos, mas porque estamos em desequilíbrio, precisamos fazer muitos círculos agora.

Outra mudança necessária para atingirmos a cultura de paz é que nos vemos como indivíduos separados e passarmos a entender a nossa interconexão, não só como seres humanos, mas com a terra, os animais, as plantas, com todas as partes que compõem a criação. No movimento ambiental, começamos a ver o sentido disto, na conscientização a respeito das mudanças climáticas, estamos começando a ter um sentido de preocupação com a inter conectividade, com a interconexão de tudo. Mas ainda não estamos aplicando este conhecimento às nossas estruturas sociais, neste ponto em que estamos.

Sempre procuramos uma causa como indivíduos. Mas, na verdade, cada ação é o resultado de muitas causas complexas. Quanto mais examinamos um ponto, em particular, mais causas encontramos para o que aconteceu. Falamos a respeito de responsabilização como se cada indivíduo tivesse essa responsabilização individualmente. Quando usamos os círculos, não ficamos procurando a responsabilização individual, buscamos a responsabilização coletiva também. Todos nós influenciamos uns aos outros e precisamos começar a examinar esta complexidade, ao invés de presumir que as pessoas funcionam completamente desligadas das outras. As crianças entendem isto melhor que os adultos. Numa turma de 4ª série, um menino ameaçou colocar fogo no prédio escolar. Isto aconteceu logo após um evento que ocorreu no Colorado, uma matança, anos atrás. Seus colegas ficaram assustados, com pesadelos à noite. No dia seguinte fizeram um círculo e envolveram todos os alunos daquela turma. Os alunos descreveram seus medos, seus pesadelos e falaram sobre o quanto lhes impactou aquela ameaça que o colega havia feito. Falaram também como eles eram, em parte, responsáveis pelo comportamento que o colega demonstrou. No final do círculo fizeram um acordo. O menino se comprometeu a cumprir quatro itens do acordo. Um deles é que ele se afastaria quando muito bravo, para se acalmar; concordou em escrever uma carta pedindo desculpas aos colegas. E os colegas concordaram em cumprir nove itens do acordo: a se tornarem amigos do menino; não falar mal dele; a jogar basquete com ele no final do período escolar. Os colegas identificaram nove maneiras de como eles poderiam ser mais

inclusivos e aceitar o menino. Eles entenderam que a maneira como eles tratavam este menino teve um impacto em sua vida. Estamos profundamente interconectados e essa é a máxima do universo: não podemos nos desconectar. Precisamos começar a assumir a responsabilidade quanto ao impacto que causamos na vida dos outros.

Outra dimensão deste paradoxo é a mudança de se fazer uma análise do déficit para uma análise do que se tem de bom. A mudança de, ao invés de perguntarmos o que está errado, perguntarmos o que estamos fazendo certo que vai nos ajudar a chegar onde queremos chegar? Precisamos de espaços em que as pessoas possam expressar suas dores, mas ficamos totalmente perdidos quando vamos analisar os problemas. Quando conversamos com famílias que estão com problemas, tudo o que elas falam são seus problemas. Quando trabalhamos na análise dos problemas, perdemos a nossa auto-estima e começamos a ter a sensação de que tudo está errado. Não significa negar os problemas ou fazer de conta que não estão lá. Precisamos ser completamente honestos ao falar de onde estamos e, a partir deste lugar, olharmos para nossos pontos positivos e aquilo que podemos realizar. Temos mais pontos fortes do que reconhecemos. Todos têm dons, todos têm pontos fortes. Quando nos focarmos mais nos dons que trazemos, nos pontos positivos, nos fortaleceremos.

Uma mudança extremamente importante é expandirmos nossa compreensão das fontes de conhecimento. Existem muitas maneiras de saber, muitas fontes de conhecimentos, mas temos a cultura que valoriza uma forma de saber e esse é o conhecimento que é linear, racional e intelectual. É o único conhecimento que valorizamos, mas existe tantos saberes simples por seremos seres humanos. Não precisamos de pesquisadores para nos dizer que precisamos embalar um bebê. Não precisamos de pesquisadores para nos dizer que temos que comer quando temos fome. Temos privilegiado este tipo de conhecimento em detrimento do conhecimento que

temos internalizado. Nossos espíritos e nossas emoções também são fontes de sabedoria não só

o

nosso corpo e a nossa mente. Precisamos de todos os meios de nossa humanidade, mas

precisamos deles em equilíbrio. Nossa cultura está muito desequilibrada pendendo muito para o lado da mente e o círculo nos ajuda a acessar as outras partes que nos compõem. Temos visto a natureza humana como sendo um problema. A nossa cultura baseia-se em pressupostos de medo. Temos que nos proteger uns dos outros. Isto acontece em qualquer cultura onde as pessoas têm poder umas sobre as outras. Temos nossa cultura baseada no medo, no castigo como uma maneira de respeitar. Mas existe um aspecto da natureza humana que provavelmente é a nossa melhor solução. Os seres humanos têm um desejo muito forte de estarem em bons relacionamentos. Precisamos de pertencimento, vivemos em comunidade e os nossos genes não se esqueceram disto. Nossos genes não esqueceram de que precisamos uns dos outros para sobreviver. Este aspecto da natureza humana não está sendo nutrido na nossa sociedade. Na verdade, esta parte da nossa natureza está sendo solapada pelas estruturas que aí estão. Somos ensinados a desconfiar para não permitir que os outros cheguem muito perto de nós. Somos ensinados que seremos julgados e avaliados o tempo todo. Não somos ensinados a escutar aquela

nossa voz interna que nos diz para amarmos uns aos outros. Existe uma história sobre um avô e seu neto. O avô descreve a grande batalha que está acontecendo dentro de si. Descreve esta batalha como sendo de dois lobos. Um dos lobos são todas as qualidades ruins que se vê na natureza humana e o outro lobo é o amor, o cuidado, o compartilhar. É a paixão. E estes dois lobos, dentro de nós, estão tendo esta batalha terrível. E o neto pergunta ao avô qual deles vai ganhar e o avô responde que será aquele que alimentarmos. Vivemos numa cultura que alimenta o bem e o mal dentro de cada um de nós. Precisamos reconstruir na base da nossa cultura para poder alimentar o lobo bom. É um trabalho profundo e irá demorar um tempo. Sinto-me muito grata por estar num grupo de pessoas que estão dispostas a fazer este trabalho. Este é o propósito da vida. Estes são meus pensamentos dos desafios para avançarmos nos processos restaurativos e no círculo. Neste processo haverá uma redistribuição de poder completo. Como as pessoas irão querer deixar de lado o poder para que possamos redistribuir? Iremos acessar o tipo de poder que fundamentalmente é mais importante para cada um de nós. As nossas hierarquias criam o poder de uns sobre os outros. E uma cultura de paz cria o poder de uns com os outros. Lado a lado, no mesmo nível, teremos experiências de um tipo de poder diferente. O poder sobre os outros é o que nos faz viver sempre num estado de medo. Esse medo tanto pode ser o medo do poder exercido sobre mim ou medo deste poder que tenho. E quanto mais poder existir numa estrutura, geralmente, com mais medo e mais insegurança iremos conviver. Será um alívio muito grande quando pudermos viver lado a lado e não um sobre o outro. Para que haja esta mudança, é importante que se tenha experiência de ter poder pessoal positivo. Poder pessoal positivo é um estado de paz interior. Quando estamos vivendo um sentido profundo de significado. Estas mudanças elencadas precisam acontecer tanto no nível da comunidade como no nível das estruturas maiores, governamentais.

Fortalecimento das Comunidades através do Processo de Círculos de Paz: Falarei de alguns projetos com os quais estive envolvida que darão uma idéia de como fortalecer as comunidades. Minha amiga Tracy trabalha em uma organização pequena, sem fins lucrativos. É uma fundação que dá subsídios financeiros. A primeira decisão tomada foi que todos os diretores das instituições que recebiam subsídios deveriam se encontrar em círculos. E, há vários anos, continuam fazendo círculo entre os diretores destas instituições e tem sido transformador para este grupo. Antes de se encontrarem em círculos eles não confiavam uns nos outros. Havia uma grande competição entre eles. Agora, nos dizem que é o único local que conseguem falar honestamente sobre os desafios de ser um diretor executivo. Os diretores executivos são as pessoas do topo das suas organizações. Houve tanto sucesso que estão organizando grupos para fazerem círculos com os funcionários que estão logo abaixo dos diretores executivos. Quando conseguimos trabalhar com as pessoas que estão no topo, conseguimos transformar toda a organização. E outra parte do trabalho da Tracy está relacionada com a situação atual. Nos EUA, nunca foram vivenciadas antes as situações que estamos vivendo hoje. Existe uma polarização. Pessoalmente, me sinto muito perturbada pelo nosso presidente e quero pedir desculpas pelo comportamento dele. Acredito que as pessoas que votaram no Trump voltaram porque elas não

se sentiam escutadas. Não gosto do fato delas terem votado nele, mas não posso simplesmente deixá-las de lado. Precisamos entender qual necessidade não foi atendida, qual necessidade tinham e que não havia sido ouvida e que fez com que votassem no Trump. É essencial que haja diálogo entre as pessoas que voltaram no Trump e as pessoas que se opõem as suas idéias. E a Tracy teve sucesso e conseguiu organizar os círculos. Sei que outros colegas tentaram fazer a mesma coisa; de juntar os dois pólos, mas não foram bem sucedidos porque começaram a ser vistos como um jogo político. E a Tracy conseguiu trazê-los para sentarem juntos.

Há outro projeto de fortalecimento de comunidade, no Estado de Maine. São muitas comunidades rurais; não há cidades grandes. Existe um programa muito forte de Justiça Restaurativa numa das cidadezinhas e estão se organizando para fazer círculo para debater raça e pobreza. Não fazendo casos, mas uma conversa, um diálogo na comunidade a respeito destas questões. Para diminuir este distanciamento que existe entre as pessoas que são pobres e as que têm poder aquisitivo grande. Existem pessoas muito ricas e pessoas muito pobres no Maine. As pessoas ricas não têm muita consciência a respeito das pessoas pobres que vivem lá. Neste projeto, estamos tentando colocar estas pessoas frente a frente para que elas se tornem mais conscientes umas das outras. Uma comunidade forte precisa ter estes diálogos sobre assuntos difíceis. Precisam saber que têm muitas coisas em comum e essas coisas em comum são fortes o suficiente para aceitar as diferenças. Essa é a natureza do círculo, encontrar nossas semelhanças, em que somos parecidos, compartilhar os valores. As pessoas não vêm ao grupo para falar de valores. Elas vêm para falar de suas diferenças. Quando vêm para o círculo para falar sobre suas diferenças, primeiro sempre falamos sobre os valores compartilhados que eles têm. Esses valores compartilhados têm uma força muito grande para conter as diferenças. Não precisamos pensar sobre as coisas exatamente do mesmo jeito. Faz parte da riqueza da humanidade ser único. Sempre vamos enxergar as coisas de um jeito um pouco diferente dos outros. Essas diferenças podem estar numa tapeçaria maravilhosa, desde que façamos parte do mesmo tear. Os fios que seguram a tapeçaria são os valores compartilhados. Estes valores compartilhados nos guiarão na mudança de um paradigma, para um próximo tempo. A natureza do paradigma é que não sabemos como será e não sabemos como fazer ainda. Mas a discussão dos valores compartilhados nos mostrará o caminho até que entendamos no que consiste este novo paradigma. Pessoalmente, precisamos falar sobre estes valores compartilhados mais uma vez para conseguirmos nos manter no caminho. Algumas das coisas para nos mantermos no caminho é a realização de capacitações continuadas, mais e mais.

O que está sendo feito aqui, muito bem, para o fortalecimento das comunidades, é trabalhar os diferentes setores. Estão alcançando os diferentes setores e perpassando-os. O trabalho se reforça mutuamente passando de setor por setor.

Uma das coisas mais poderosas para se fazer a mudança de paradigma é nas escolas. Todas as crianças que vivenciam o círculo na escola e encontram uma coisa errada usarão o enfoque restaurativo para resolvê-las. Elas se transformarão e usarão este mesmo enfoque na vida.

Precisamos organizar espaços. Precisamos ter espaços seguros para possibilitar que isto aconteça. Propiciar que haja espaço seguro.

Trabalhar com drogaditos está dentro do contexto do programa. O próximo passo, a partir daí, que façamos círculos com a comunidade. Que as pessoas da comunidade tenham possibilidade de se reunir para falar sobre a adicção, contanto suas histórias, falando de suas vidas. Muitas das pessoas do círculo não são viciadas. E a senhora que faz a coordenação do círculo daquele Condado disse-me que aquele era seu círculo favorito. Não se exige que ninguém esteja lá, alguns estão saindo de programas de desintoxicação. Outros podem estar em recuperação há muitos anos e alguns nunca tiveram problemas de drogadição. Eles se sentam juntos como iguais em comunidade. Não conseguimos perceber quem está facilitando. Estão lá, como iguais que não se percebe quem facilita. Chamam de “O Círculo da Esperança”.

2.3. CONSIDERAÇÕES AO PROGRAMA CAIXAS DA PAZ

Quero me desculpar por não falar português e aprecio a paciência que vocês têm comigo, mas a linguagem não atrapalha o que estamos aprendendo. Tanto amor tem sido compartilhado, embora eu não fale a língua do Brasil. Agradeço muito pelos abraços e pelos sorrisos maravilhosos que transcendem qualquer palavra.

Sempre começo reconhecendo e agradecendo pela terra, pelo ar maravilhoso, pelas plantas, pelos animais deste lugar. Quero homenagear todos os seres com quem compartilham esta terra: os animais, as plantas, todos os seres vivos. Quero lembrar também os nossos ancestrais e todos aqueles que caminharam por aqui antes de nós. É entendendo essa interconexão que vamos entender o que podemos esperar do futuro. Uma honra muito grande estar aqui com vocês hoje. Que glorioso escutarmos e observarmos aqui tudo o que está acontecendo em Caxias do Sul. Trouxe algumas sementes e joguei-as por aí, mas o jardim que se formou fica muito além da minha imaginação.

Ainda estou tentando assimilar tudo aquilo que foi compartilhado sobre o Programa Caxias da Paz. Tudo que foi apresentando é muito grande. Esse jardim se espalhou para muito além daquilo que plantei. Estou muitíssimo inspirada para levar o exemplo de Caxias do Sul para outros lugares.

Houve muitas coisas importantes que escutei. Vou abordar especificamente alguns pontos. Começamos com os Guardas Municipais oferecendo música, o que é de uma simbologia muito significativa. A segurança e a seguridade são uma conexão que pode ser muito alegre. Quando escutei que estão dando treinamento de círculos de paz para todos os guardas que estão entrando para o serviço, isso me deixou extasiada. Não conheço nenhuma outra cidade que isso esteja

acontecendo. Começar um trabalho na Guarda Municipal com uma estrutura diferente é uma mudança muito grande. Tiro meu chapéu para a Guarda de Caxias do Sul!

O trabalho feito nos sistemas prisionais. Embora não tivesse nenhum treinamento formal nessa área, trabalhei para o sistema prisional de Minnesota por nove anos. Uma das oportunidades que tive ao trabalhar no sistema prisional foi de ter várias oportunidades de atuar dentro da prisão. Sentar em círculo com os aprisionados foi uma experiência poderosa. Algumas das pessoas mais corajosas que encontrei, na vida, estão nas prisões. Alguns deles que cometeram crimes bárbaros estão assumindo a responsabilidade daquilo que fizeram, a cada dia. Não sei se teria esta coragem se tivesse causado tanto dano como eles causaram. Para aqueles todos que estão na jornada de responsabilização, de assumir a responsabilidade por aquilo que fizeram, tiram todas as máscaras e todas as proteções que, normalmente, usamos no mundo aqui fora. Temos muito a aprender com essas pessoas. Fiquei muito extasiada de saber que vocês estão usando os círculos também para os servidores das prisões. Uma das coisas com as quais trabalhei no sistema prisional foi de introduzir a infraestrutura que possibilitasse trabalhar a Justiça Restaurativa e os Círculos de Construção de Paz com os servidores em conflito. Minnesota é o único estado nos EUA em que usa os círculos para lidar com os conflitos dos servidores. Fiquei muito emocionada de saber que aqui também está sendo feito.

O que está me deixando muito contente de ver é a maneira como estão desenvolvendo as capacidades entre todas as Centrais de Justiça Restaurativa. É incomum as pessoas reconhecerem que precisamos usar essas práticas dentro do sistema de saúde. Faz parte da minha prática implementar círculos de paz para usar com as famílias, principalmente quando precisam tomar uma decisão a respeito de interromper a vida de alguém; e para as pessoas que trabalham nos setores dos hospitais para doentes terminais. Existem inúmeros contextos em que precisamos de um espaço para desacelerar, para refletir, para respirar. No sistema de saúde, temos muitas e muitas situações que se tornam pesadas para trabalhar e precisamos de um espaço para que as pessoas possam expressar suas emoções. Precisamos criar espaços em que as pessoas possam estar em contato com seu lado espiritual. E os círculos oferecem essa possibilidade.

O trabalho dentro do Fórum, onde o trabalho de Justiça Restaurativa iniciou, é importantíssimo. Os Tribunais, os Fóruns são processos muito públicos. Se o sistema de justiça conseguir fazer essa mudança de paradigma, será um modelo para outros segmentos da nossa cultura. A maneira como em Caxias foram construídas essas parcerias é uma inspiração. A universidade, o sistema de justiça e a comunidade trabalhando juntos. É disso que precisamos.

Porém, o que me trouxe às lágrimas foi quando todos os voluntários se levantaram. Esse tem sido meu alicerce, a fundação da minha visão de como deve ser. Os cidadãos comuns são a chave para um mundo melhor. Precisamos de profissionais para organizar as coisas e prover as estruturas. O que precisamos é de cidadãos saudáveis transformando as comunidades. Precisamos de comunidades em que os habitantes consigam se auto gerenciarem sem precisar de ajuda de

profissionais para fazer isso. Que possamos resolver nossas diferenças na comunidade sem a necessidade de chamarmos a polícia. Isso requer que tenhamos cidadãos envolvidos e ajudando suas comunidades. A comunidade é um processo de dar e receber um do outro. Recebemos benefícios e temos que prestar serviços na nossa comunidade. E os voluntários estão fazendo isso, formando a base para uma comunidade saudável no futuro. Como estão estabelecendo um alicerce de paz, estão no caminho para uma comunidade de paz. No meu trabalho de criar programas comunitários na Justiça Restaurativa, descobrimos que trabalho voluntário tem um impacto enorme. Muitas pessoas com quem trabalhamos nesses casos vêm de um mundo em que não há ajuda. Acreditavam que poderiam continuar fazendo aquilo que estavam fazendo.

A visão de mundo que as pessoas em conflito têm é de cada um por si. Quando sentaram em círculo e descobriram que as pessoas que estavam lá, estavam como voluntários, não estavam recebendo nada para estarem lá; que os cidadãos que lá estavam, estavam para ajudá-los e que não era esse o seu trabalho, eles não conseguiam entender. A partir daí, a sua visão de mundo começou a desmoronar. Começaram a perceber que nem todos trabalhavam só em benefício próprio. Isso criou o que chamo de dissonância cognitiva. No espaço do círculo, temos a chance de criar uma nova visão de mundo. Quando descobrem que as pessoas estão lá dispostas a ajudá-los, tornam-se mais capazes de ajudar a si mesmos. Daí vem a ideia de que o nosso bem-estar depende do bem-estar dos outros. Não é só uma questão de fazer o seu trabalho. É parte da sua responsabilidade como membro da comunidade. A abrangência do trabalho voluntário que está sendo realizado é um dos pontos mais fortes que Caxias do Sul tem.

Outra coisa importante de engajar os voluntários neste trabalho é que os cidadãos ficam conhecendo melhor o funcionamento de sua comunidade. Os cidadãos podem levantar questões, fazer perguntas se veem que o jeito que a comunidade está andando não está funcionando. Às vezes, é preciso um olhar de fora para entender o que é necessário mudar. Nos EUA, temos muitos exemplos de como nosso sistema nem sempre funciona de uma maneira igualitária. São as pessoas de fora do sistema, que não são treinadas dentro do sistema, que podem fazer as perguntas difíceis que precisamos que sejam feitas para que haja mudanças. O olhar de fora é dos voluntários, na comunidade, mas que estão fora do sistema profissional dos serviços. Olhar de fora, mas dentro da própria comunidade.

Os serviços são muito importantes, mas não conseguem fazer tudo. São limitados. Existem coisas necessárias e que pessoas, na comunidade, conseguem fazer melhor. O vizinho consegue estar à disposição 24 horas por dia quando os serviços não estão funcionando 24 horas por dia. O vizinho consegue acompanhar melhor se as coisas estão acontecendo do jeito que devem acontecer ou do jeito que foi combinado para acontecer. Em última análise, a responsabilização que realmente importa é a responsabilização perante o seu vizinho e não perante o juiz. O trabalho voluntário proporciona o início de criar uma comunidade em que temos que prestar contas uns aos outros e não aos que estão fora da comunidade.

Uma das coisas que fico feliz a respeito do círculo é que ele é muito acessível. Temos que ser treinados para sermos um facilitador, mas não precisamos ter uma educação formal para isso. Numa prisão, os próprios presos podem se tornar facilitadores; nas escolas, os próprios alunos podem se tornar facilitadores e, muitas vezes, as crianças saem da escola e ensinam os pais a fazerem círculos. Esse é um processo que pode se espalhar amplamente. Não é preciso de muito equipamento nem educação formal. E isso é de uma utilidade fantástica.

A estrutura que o Caxias da Paz tem aqui faz muito sentido. O nível municipal é o nível certo para organizar os processos restaurativos e os círculos. As cidades têm a capacidade de engajar os cidadãos de uma maneira que o Estado não consegue. Os cidadãos, na cidade, têm um sentido de identificação com ela. As cidades têm pessoas em um número suficiente para fazer as coisas acontecerem numa escala apropriada. O modelo de estrutura de Caxias do Sul pode ajudar muitas outras comunidades a fazer o mesmo. As coisas fundamentadas no nível municipal dão uma sensação de propriedade, de pertencimento, é onde fazemos parte disto. As cidades já têm as estruturas definidas, que funcionam muito bem, para disseminação dessas ideias. Ficam próximo dos bairros, das comunidades de bairro para fazer com que isso funcione.

2.4. CÍRCULOS DE CONSTRUÇÃO DE PAZ NAS ESCOLAS

As escolas precisam ser centros de estabilidade, de continuidade e de comunidade. As escolas são os reflexos dos nossos valores como sociedade. E as escolas que nós criamos são o espelho da sociedade que criamos para nós mesmos.

Dentro da escola, os relacionamentos que se desenvolvem entre os adultos e as crianças e ou adolescentes são o espelho dos relacionamentos que os adultos têm uns com os outros. Se os adultos sentem-se respeitados, seguros e apoiados, os valores serão replicados nos seus relacionamentos com os alunos.

Cuidar das necessidades dos adultos e dos relacionamentos entre eles é tão importante quanto prestarmos atenção no relacionamento dos adultos com as crianças e/ou adolescentes, bem como no relacionamento entre as crianças. Como se construir uma comunidade escolar saudável tem tudo a ver com a questão maior que é como construir uma comunidade saudável dentro da nossa sociedade. Acreditamos que a prática do círculo dentro da escola será a infraestrutura chave para uma comunidade escolar saudável em que se dará a oportunidade de praticar os valores.

Em comunidade, o trabalho de fundamentação do círculo é essencial para que se faça a mudança de paradigma. As crianças e os adolescentes que aprendem a sentar em círculo e a discutir tudo o que está acontecendo, respeitosamente, quando têm problemas, levarão essas experiências para suas vidas adultas. O trabalho nas escolas vai nos preparar para chegarmos a um

potencial de círculos de paz. Quando estávamos organizando o livro sobre as escolas, começamos a refletir sobre quais os pressupostos importantes para este trabalho. Chegamos a sete pressupostos básicos, que formatarão a maneira como queremos estar no mundo, como queremos que este mundo seja.

O primeiro pressuposto é que o verdadeiro eu de cada pessoa é bom, sábio e poderoso.

Não importa como as pessoas se mostram no dia a dia, temos que acreditar que dentro de cada uma delas existe um eu verdadeiro que é bom, sábio e poderoso.

Tive uma experiência com adultos que trabalham em uma prisão para adolescentes. Quando fizemos um trabalho com os adultos sobre valores, perguntamos que valores representam esse euque é verdadeiro, bom, sábio e poderoso. Continuamos falando sobre a importância desses valores no trabalho do processo circular. A equipe de trabalho disse que tinham os valores porque os traziam de casa, mas os jovens que estão presos não sabem e não conhecem valores.

Mais tarde, tive a oportunidade de fazer um trabalho com 25 jovens presos. Perguntei sobre valores, e os jovens trouxeram exatamente os mesmos valores que haviam sido citados em outros grupos. Quando foi perguntando que valores vocês querem mostrar quando estão no seu melhor, disseram os mesmos valores já trazidos por outros círculos de adultos. Dissemos a eles que a lista era surpreendente e perguntamos se era assim que se mostravam ao mundo. Responderam que não. Não estamos fingindo que assim nos apresentamos no mundo. Então, se é assim que vocês querem ser quando estiverem no seu melhor, por que esses valores não aparecem? Passamos o objeto da palavra e, de diferentes maneiras, disseram que não se sentiam seguros demonstrando tais valores. No mundo em que vivem, não é seguro mostrar o seu melhor eu. Assim, criam camadas sobre camadas para se protegerem, e essas camadas cobrem e escondem o seu melhor eu, de forma que nem eles sabem que isso está dentro deles.

No círculo, temos a oportunidade de buscar como é esse “eu” verdadeiro em nós e nos outros. Esse “eu” verdadeiro pode ser enterrado, mas nunca destruído. No círculo, tentamos encontrar o euverdadeiro mais uma vez.

O segundo pressuposto é que o mundo está profundamente interconectado, que dispensa

explicações, mas é fundamental.

O terceiro pressuposto é que todos os seres humanos têm um desejo profundo de estar

em bons relacionamentos. Carregamos, dentro de nós, esse impulso poderoso de estarmos em bons relacionamentos. Essa é a raiz da nossa necessidade de pertencer. Essa necessidade de pertencimento é tão grande e poderosa que, muitas vezes, simplesmente se sobrepõe aos valores do melhor “eu”. Fiz uma entrevista com um senhor que estava preso por abuso sexual. A mulher, que tinha sido vítima, insistia em encontrar-se com ele para saber qual o motivo. No início, ofereceu resistência, não demonstrava remorso e não entendia por que ela queria encontrar-se

com ele. Mas, de alguma forma, a persistência dela começou a fazer efeito e ele começou a sentir- se responsável por aquilo que havia feito. Já tinha causado problemas com outro preso; já tinha machucado outros, mas, assim que começou a jornada de assumir a responsabilidade por aquilo que havia feito, começou a mudar. Descreveu que foi muito difícil fazer isso, porque o grupo ao qual pertencia na prisão não o apoiava nesta jornada. Ele ficou só e isolado dentro da prisão. Precisou de muita força para continuar neste caminho, porque a sua necessidade de pertencimento estava brigando com a sua necessidade de assumir a responsabilidade.

Nossa necessidade profunda de pertencimento pode nos levar a comportamentos prejudiciais. Precisamos encontrar maneiras de atender as necessidades de pertencimentos. Se as crianças e os adolescentes sentirem que não têm sentimento de pertença na escola, elas irão achar um lugar onde terão essa necessidade atendida e esse lugar pode ser dentro de uma gangue. Quando não incluímos as pessoas, elas podem caminhar em direção a quem as inclua e essa inclusão poderá não ser positiva, pois poderá causar dano.

Há uma bióloga chamada Mary Clarck que diz que as necessidades mais fundamentais do ser humano são significado e pertencimento. Vivemos em uma sociedade que bloqueia o significado e o pertencimento. As escolas deveriam ser lugares onde estivessem profundamente imersas buscando significado e pertencimento. E esse lugar é onde podemos, verdadeiramente, começarmos a mudança.

O quarto pressuposto é que todos os seres humanos têm dons e cada um é necessário

por aquilo que ele tem, que traz. De acordo com os ensinamentos indígenas, cada criança nasce com quatro dons que recebeu da mãe terra. É responsabilidade dos adultos ajudar essas crianças a descobrir quais são os dons que ela traz e ajudá-la a desenvolvê-los. Imaginem as escolas

descobrindo quatro dons em cada criança e ajudando a desenvolvê-los, a nutrir esses quatro dons que elas receberam.

O quinto pressuposto é tudo de que precisamos para fazer as mudanças positivas já está

aqui. Não podemos esperar que venha uma pessoa poderosa a nos dizer que podemos fazer isto. Cada um de nós, em alguma parte da vida, tem a possibilidade de colocar isso em prática. As respostas não virão de especialistas. Todos temos visão de mundo, temos pontos positivos, fortes. Cada criança tem pontos fortes. Uma amiga, com quem trabalhei desde o início com Justiça Restaurativa, diz que devemos começar de onde estamos. Devemos usar aquilo que temos e devemos seguir juntos. Isso é muito importante para quem trabalha nas escolas.

O sexto pressuposto é que os seres humanos são holísticos. Não podemos só trabalhar

com as mentes dos alunos. Temos que trabalhar com o corpo, com o espírito e com as emoções.

Eles são seres integrais. Não podem ir à escola somente com a mente. Eles trarão alegria, tristeza,

raiva,

legitimidade para as outras partes que compõem o seu ser. Existe um movimento grande nas

para a escola. É importante que a escola ajude-os a lidar com essas emoções, dando-lhes

escolas dos EUA para se trabalhar o aprendizado social e emocional. Usam o termo competência emocional ou alfabetização emocional. O processo circular está desenvolvendo essa competência emocional cada vez que sentamos juntos em círculos, que podem ser utilizados de várias maneiras nas escolas. Independentemente do objetivo do círculo, ele desenvolverá a competência social e emocional. Usando o objeto da palavra, os alunos aprenderão a se autorregular. Os círculos convidam a compartilhar sentimentos, assim, os alunos aprenderão o vocabulário dos sentimentos. O ritmo mais lento do círculo permite que os alunos prestem atenção em como estão suas emoções. Muitas crianças e adolescentes desconhecem completamente o estado de suas emoções. Por várias razões: pode ser que escutem muito pouco ou quase nada a respeito de emoções no seu ambiente; eles têm pouco tempo de quietude nas suas vidas para perceber o que está acontecendo internamente; seu comportamento pode estar sendo causado por emoções que eles nem têm consciência de que existem. É muito difícil mudarmos um comportamento se não sabemos de onde ele vem. Estar consciente de seu estado emocional é básico para que tenhamos competência emocional. O círculo cria um espaço em que é possível estarmos mais conscientes das nossas emoções.

O sétimo e último pressuposto é que precisamos de práticas para criar hábitos de viver de acordo com o nosso melhor eu. Não podemos simplesmente buscar o círculo quando temos problemas. O mesmo acontece com a atenção plena. Precisamos praticar os princípios da atenção plena quando não estivermos estressados para que, quando o estresse aparecer, consigamos aplicar as técnicas da atenção plena e acalmar o coração. O mesmo acontece com o círculo. Precisamos usar os círculos regularmente em situações não conflitivas, a fim de podermos acessar o círculo de maneira muito fácil quando o conflito aparecer.

Acreditamos que a maneira fundamental de usar os círculos nas escolas para que haja uma boa resposta é usá-los constantemente em situações não conflitivas. Começamos ensinando as crianças e os adolescentes a sentar-se em círculos. Um círculo simples que os ajude a se familiarizarem com o processo. Podemos usar os círculos para que os alunos estabeleçam, dentro da sala de aula, os valores e as normas que vamos seguir juntos. Podemos usar os círculos como uma forma pedagógica: poderíamos num novo tópico que será ensinado, passar o objeto da palavra e perguntar aos alunos o que sabem e o que gostariam de saber sobre o novo tópico. É uma forma excelente para revisarmos conteúdos. Muito útil quando queremos que toda a turma reflita sobre um conteúdo ou sobre um texto, sobre um conto, uma poesia, passando o objeto da palavra para que reflitam sobre o que ouviram. Muitos professores estão transformando o círculo em uma técnica de ensino.

Podemos usar o círculo como construção de comunidade dentro da escola. Os alunos que se conhecem melhor, que se entendem melhor têm menos possibilidades de entrarem em conflito. Os círculos são um processo que funciona bem na prevenção de problemas. Uma das formas mais simples é fazer um círculo de check-in. No início do dia, podemos começar com um círculo lançando a pergunta de como estão se sentindo e se existe algo, em especial, que queiram

compartilhar naquele momento. Um aluno pode compartilhar que o bebê da casa chorou toda a noite e ele não pode dormir bem. O professor e os colegas terão mais paciência com esse aluno. Quando sabemos o que está acontecendo com os outros, podemos dar mais espaço a eles, especialmente, se tiverem dificuldades em suas vidas.

Os círculos simples de check-in desenvolvem um relacionamento melhor em sala de aula. Outros círculos podem ser planejados, especificamente, para falar sobre emoções e sentimentos a respeito do contexto escolar.

Os círculos também podem ser utilizados com as equipes de trabalho para fortalecer os seus relacionamentos e para lidar com os conflitos. Nos EUA, todos os professores devem estar no corredor quando houver troca de disciplina. Numa escola de sétima e oitava séries, houve uma briga no corredor. Havia dois professores no corredor. Um dos professores tentou interromper a briga, e o outro retornou para sua sala. Isso criou um conflito muito sério entre a equipe. Aquele professor que tentou parar a briga colocou-se em risco, e o seu colega retornou à sala. Os demais nem apareceram. Eles usaram o processo circular para resolver esse problema. O professor com quem conversei disse que ficaram mais fortalecidos enquanto equipe após o círculo. Tiveram a oportunidade de saber que impacto o seu comportamento tinha causado sobre os outros e compartilharam suas expectativas.

Os círculos podem ser feitos com os pais, dentro do contexto escolar, podendo ser usados quando há conflitos ou algum problema disciplinar.

Todos esses círculos são simples e o que queremos nas escolas é que se façam círculos não conflitivos de uma forma universal e que todos os alunos possam sentar neste tipo de círculo. Usando o círculo de conflito com grupos menores.

Existem muitas adaptações necessárias a serem feitas para a utilização dos círculos nas escolas, principalmente, pelo tempo reduzido: uma professora de música em uma escola de ensino fundamental tem aulas de vinte e cinco minutos. Quando organiza a saída de uma turma, a outra já está pronta para entrar. Não possui tempo algum entre uma aula e outra. Essa professora participou de um treinamento de círculo e decidiu usar uma parte da prática circular. Quando os alunos entram, solicita que sentem em círculo e que digam seu nome e uma ou duas palavras a respeito de como estão, fazendo o check-in. Enquanto o objeto da palavra passa de aluno em aluno, ela consegue respirar e se organizar mentalmente para a aula. Antes de iniciar a prática, ela demorava de sete a oito minutos para começar a aula; com esta prática do círculo, diminuiu para cinco minutos.

Nas escolas, temos visto muita criatividade no uso do processo circular. Tenho contado essa história, ano após ano, em como adaptar o processo circular. Existe uma coisa muito importante acontecendo no círculo daquela professora de música. Embora seja de cinco minutos,

cada criança será vista pela professora, especialmente, por ter muitas aulas e muitos alunos por dia. Os alunos mais quietos não seriam visto nunca e, através desse processo, todos foram vistos.

Essas são ideias chaves de círculo. Estar totalmente presente um com o outro. Realmente ver um ao outro.

Sobre a empatia: Humanidade compartilhada. As pessoas no lugar de autoridade, às vezes, são consideradas como não sendo seres humanos. Quando permitimos que as pessoas com menos poder percebam a nossa humanidade, as coisas mudam e se tornam menos ofensivas.

2.5. PERGUNTAS

a) Em um círculo de vários encontros, em que, nas diretrizes, foi aceito que o participante pudesse chegar atrasado, podemos deixá-lo adentrar, sem retomar as diretrizes? Num grupo que se encontra há mais tempo, isso seria possível. A decisão dependeria de quem é a pessoa e qual a atividade que está sendo feita. Se houver tensões com outros membros do grupo, podemos fazer outro check-in quando a pessoa chega e os demais participantes contam o que aconteceu no grupo antes de ele chegar. Assim, estaremos integrando essa pessoa no círculo. Se for um grupo forte que já esteja confortável fazendo círculo, pode-se permitir que a pessoa entre e se engaje na atividade que está ocorrendo.

b) Podemos fazer círculo com crianças de quatro ou cinco anos? Sim, podemos fazer. Não se faz círculo longo. Podemos dar algo para que eles manipulem e fazemos perguntas relevantes para idade deles. Para falar sobre valores podemos perguntar: “O que faz um bom amigo?” Podemos pedir para que tragam um objeto da palavra, deixando-o no círculo e utilizamos alternadamente a cada círculo para que cada criança sinta-se valorizada. Podemos pegar um bicho de pelúcia grande escrevendo nele o nome de cada criança. Podemos solicitar às crianças que façam coisas para colocar no centro, para se sentirem “donas” do círculo. Podemos iniciar de uma maneira muito simples, dizendo o nome e uma palavra de como estão se sentindo pela primeira vez. Queremos que aprendam o ritmo do círculo, em ordem e falando somente de posse do objeto da palavra.

c) Quando os participantes não aceitam ir para o círculo, ficando na fase do pré-círculo, mas percebemos que a pessoa necessita de algum encaminhamento, podemos fazer? Geralmente, encaminhamos quando percebemos uma necessidade premente, mas é necessário pedir permissão à pessoa para fazermos isso. Essa situação fica fora de minha experiência, mas o que venho pensando é que devemos ser respeitosos com a pessoa com quem estamos trabalhando e que precisamos oferecer aquilo que possa auxiliá-la. Faz diferença quando estamos falando de adultos ou de crianças e adolescentes. Os adultos, às vezes, recusam ajuda e, no meu ponto de vista, temos que respeitar. Pode também

acontecer que o processo circular, por si mesmo, possa auxiliar essa pessoa a encontrar o caminho. Tenho visto muitas situações acontecerem em que as pessoas se abrem mais no círculo e o encaminhamento pode acontecer de uma forma mais eficiente.

d) É fundamental para o facilitador amar aquelas pessoas que estão no círculo. É muito fácil amar a Kay e sua obra. Como praticar esse amor incondicional para com uma pessoa que é

? Precisamos criar condição para escutar a história dessa

pessoa difícil de amar. Ouvindo a história dessa pessoa, vamos derrubar os pressupostos que temos em relação a ela. O filme Slingblade inicia em algum tipo de Instituição. A luz é

muito fraca, o homem é muito grande. É muito assustador. Ele vem caminhando pelo corredor com pouquíssima luz, passando a sensação de muito medo. Fico muito desconfortável e com a respiração presa, esperando o que vai acontecer. Levam esse homem assustador para uma sala com pouca luz e começa a contar sua história. Meu corpo inteiro amolece. Assim que começou a contar sua história, relaxei. Havia matado alguém. Havia uma história por trás disso.

violenta, abusadora, negligente,

e) Como não deixar que o círculo se torne um lugar de controle em que o rico fica em seu lugar de rico e o pobre em seu lugar de pobre? A melhor maneira de remover as máscaras que usamos é convidar as pessoas a compartilharem histórias que estão relacionadas com as lutas humanas, as dificuldades comuns aos seres humanos, como: compartilhe uma história na qual você se sentiu excluído, não se sentiu pertencente e como foi isso para você. Compartilhe uma história sobre uma grande perda que você teve e como se tornou mais forte quando conseguiu superá-la. Compartilhe uma experiência de uma mudança que você tinha que passar, mas não queria passar, tinha muito medo e que agora se sente grato pela experiência. Compartilhe uma situação em que você provocou um dano e que assumiu a responsabilidade por aquilo que havia feito. Essas experiências eliminam as diferenças que existem no círculo. Se as pessoas no círculo se engajarem, elas se colocarão na sua vulnerabilidade. Assim, vamos desconstruindo as outras categorias em que elas haviam sido colocadas. E, ao mesmo tempo, essas histórias podem também revelar a diferença que faz em ser rico ou ser pobre. O lugar para se iniciar é estarem todos se colocam em um lugar de vulnerabilidade.

f) Como se faz para que ricos e pobres estejam no círculo? Quais as motivações de estarem juntos no círculo? Estamos recém iniciando este projeto. E este, especificamente, é para fazer círculos para falar de raça e pobreza, fiz treinamento com as pessoas, há pouco tempo. Estão no processo de descobrir como organizarão isto. O que buscamos é procurar um lugar em que as pessoas possam se encontrar apesar das diferenças. Nos EUA, um desses lugares seriam as igrejas onde se encontram tanto ricos como pobres. Outro lugar para se ter esses círculos seriam as escolas onde existem muitas diferenças entre ricos e pobres. Importante reunir as pessoas e conversar a respeito. Começamos com as pessoas que não se importam com esse tipo de pergunta. Buscamos expandir e trazer cada vez

mais pessoas para esta conversa. Nos locais de trabalho, podemos reunir as pessoas para esta conversa. Normalmente, encontramos pessoas que estão bem, mas que já passaram por situações de pobreza na sua vida e que podem falar sobre isto. Com este projeto, vale começar lentamente e buscar oportunidade de crescer.

g) Quais os modelos de círculos que estão sendo utilizados em casos de violência sexual? Em Nova York, existe um projeto com sistemas familiares que passaram por abuso sexual na infância. Este é um exemplo de se criar algo quando não se sabia o que exatamente fazer. Uma senhora, mediadora e xamã, no seu trabalho como xamã, teve contato com pessoas que foram sobreviventes de abuso sexual na infância. Nesse processo de cura, alguns adultos que haviam sofrido abuso sexual na infância, estavam separados de seus familiares. A senhora refletiu como poderia fazer para esse adulto se reencontrar com a família e poder falar sobre o que havia acontecido. Muitos deles falavam com suas famílias, mas nunca haviam comentado sobre o que acontecera. Essa xamã começou a examinar os processos restaurativos para ver se os mesmos poderiam auxiliar nestas situações também. Começou a trabalhar a partir do pressuposto de que cada membro da família havia sido impactado pelo acontecido, não só aquele que havia sido abusado. Decidiu que o círculo seria o processo ideal. Quando se planeja um círculo dessa natureza, é necessária muita preparação. Muitos pré-círculos, antes de colocar todos os envolvidos a sentarem juntos. Tinha um grupo pequeno de pessoas que estava auxiliando a pensar em qual seria a melhor maneira de se fazer isso. Solicitou um treinamento com ela e com esse pequeno grupo. No início do treinamento, não tínhamos ideia a que conclusão chegaríamos. Mas, ao final do treinamento, surgiu uma ideia de como seria a estrutura que usaríamos para esse processo. Decidimos que oferecíamos círculo de cura para as pessoas que tinham um papel diferente na família: faríamos círculo de cura só para as vítimas de abuso; círculo de cura para indivíduos da família que se sentiam impotentes; círculo para pessoas que vinham de famílias diferentes, mas que tinham tido o mesmo tipo de experiências; círculo de cura para pais e mães que não haviam cometido ofensas, mas que falharam na proteção das crianças; círculo para os ofensores, que haviam abusado da criança na família. Cada pessoa da família faria parte de um círculo no qual se adequara de acordo com a sua experiência vivida com a vítima na família. Esses círculos tinham de cinco a sete membros, não mais do que isso e se encontravam uma vez por semana pelo período de doze semanas, com duração de uma hora e quinze minutos. Os três primeiros encontros se dedicaram a criar espaço seguro e, a cada círculo, depois desse espaço seguro, uma pessoa contaria a sua história e os outros respondiam a ela. Nas duas últimas semanas, os círculos eram de reflexão. A pergunta que fazíamos para desencadear a história era qual a parte que está mais distante da sua cura? Alguns falavam sobre a sua jornada de cura, outros contavam sua história inteira. Os membros decidiam o que falar: se a respeito da sua história ou o que estavam fazendo para sua cura. Esses círculos são facilitados por voluntários, os quais compartilham as características dos participantes. O círculo das vítimas era facilitado por

pessoas que haviam sido abusadas também. O mesmo para cada um dos outros círculos. Se toda a família quer participar de círculo juntos, primeiro devem passar pelos círculos de cura.

h) Não há uma compreensão da Secretaria Municipal da Educação sobre a Cultura de Paz e os Círculos de Construção de Paz. Qual sua sugestão? Minha recomendação é que nas escolas comecemos pelos professores. Que se façam círculos primeiros com os professores para que eles sentem em círculo e compartilhem o que os levou a escolherem essa profissão; quais os desafios que enfrentam no dia a dia. A maioria das pessoas que escolhe esse trabalho escolhe por razões do coração, razões especiais, muito fortes e as dificuldades do dia a dia, no trabalho, desconectam as pessoas das ideias que tinham inicialmente. É muito importante que os professores tenham um espaço para falar por que se tornaram educadores e que valores gostariam de passar adiante. Eles precisam ter a oportunidade de falar a respeito de um momento em que sentiram orgulho dentro de sua carreira e falar a respeito do que é difícil. Se os professores começarem a utilizar os círculos como um espaço para serem eles mesmos e para cuidarem de si mesmos, poderão ver como seria útil o uso dos círculos com seus alunos.

i) Como você imaginou quando foi criado o programa voluntariem os da paz? Imaginei comunidades em que as pessoas prestavam atenção umas às outras e em que as pessoas se ajudam entre si. Quando alguém precisa de alguma coisa, outro alguém ajuda.

j) Quando percebemos que a pessoa está mentindo ou dissimulando, como fazer para que ela consiga trazer o seu verdadeiro eu? Se percebermos que alguém está mentindo no círculo, é sinal que essa pessoa não está se sentido segura, principalmente se for uma pessoa que tenha causado dano. Nessa situação, precisamos dar mais segurança à pessoa para que ela possa falar sobre o que aconteceu. Para isso, podemos fazer uma rodada convidando os participantes a compartilharem um momento em que eles cometeram um erro. Assim, a pessoa sentirá que não é a única a cometer erros na vida. Com isso, nivelaremos e teremos a certeza de que ela não está se sentindo isolada. Nessa circunstância, terá menos necessidade de mentir.

2.6.

ENTREVISTA

SETE LIÇÕES ESSENCIAIS SOBRE JUSTIÇA RESTAURATIVA E CULTURA DE PAZ

Entrevistada: Kay Pranis Tradutora: Fátima De Bastiani Entrevista: Geórgia Tomasi

1) Dentro da ótica restaurativa, qual seria a melhor forma de compreender o empoderamento? O empoderamento seria nós darmos às pessoas um controle maior referente às coisas que possuem impacto em suas vidas. Isso significa dar voz às pessoas quando tomam decisões que vão influenciar o que irá acontecer com elas, com as pessoas que fazem parte da sua vida e com quem se importam. Decisões que afetam a qualidade da sua vida em comunidade.

2) Algumas bibliografias trazem o conceito de poder relacionado à falta de amor, outras o relacionam diretamente à questão da violência. Na sua concepção restaurativa, a forma como o poder é distribuído no círculo pode ser compreendida de qual maneira? A relação que eu enxergo entre o poder e a violência é a de que muitas pessoas cometem atos violentos porque se sentem sem poder, se sentem impotentes. Eu vejo isso como sendo especialmente verdadeiro com os jovens que cometem violência. A violência é uma tentativa de sentir que eles têm poder em suas vidas.

A necessidade de sentir poder em nossas vidas é uma necessidade fundamental, e a

necessidade de ter algum tipo de poder é bem compreensível. Porém, se eles buscam atender a essa necessidade de se sentirem com poder através da violência, essa é uma preocupação muito grande que devemos ter. Nós precisamos encontrar maneiras para que

eles possam vivenciar a sensação de ter poder pessoal de forma positiva. Um poder pessoal que não irá machucar as outras pessoas. Todos os processos restaurativos oportunizam voz a todos os participantes quando se toma uma decisão a respeito de como deixar as coisas bem de novo. Todos os processos restaurativos dão a cada participante a oportunidade de contarem a sua própria história. A oportunidade de contar sua história e de ser profundamente escutado é uma experiência de poder pessoal. Ter voz na tomada de decisão também é uma experiência de poder pessoal. Os processos restaurativos de uma maneira natural oferecem uma experiência/vivência de poder pessoal positivo. Eu acho que

os processos restaurativos são essenciais para nós mudarmos essa dinâmica de violência. As pessoas que se sentem desempoderadas usam a violência para sentir que têm algum

poder. A experiência de se sentir desempoderado, de se sentir impotente, fica exacerbada

se você sente que ninguém se importa com quem você é. Porém, quando você sente que

alguém se importa com quem você, você sente que tem algum valor. Isso lhe dá uma

sensação de significado pessoal e de poder pessoal. Existe um papel muito importante pelo cuidado com os outros. Porque se nós sentirmos que realmente temos valor por nós mesmos, nós não vamos precisar ter poder sobre os outros. Vamos poder experimentar esse poder com os outros, e esse tipo de poder nos traz uma paz muito maior, ao mesmo tempo em que atende a nossa necessidade de sentirmos que temos algum poder, que temos autonomia nas nossas vidas.

3) Compreendemos que todo ato violento praticado revela uma necessidade não atendida. Dentro da rede de atendimento público, no contexto brasileiro de forma geral, percebemos que diversas vezes o sistema não consegue cumprir o seu papel no acolhimento, tratamento e resolução das demandas da população, o que fere a dignidade da comunidade, principalmente das vulneráveis. A partir dessa reflexão, de que o sistema também pratica atos violentos contra a comunidade, como podemos pensar uma forma de auxiliá-lo ou de verificar quais são as suas necessidades que não estão sendo atendidas para que ele possa executar da melhor maneira o seu papel? Nós precisamos criar formas de diversas maneiras para incluir os cidadãos, especialmente aqueles que têm menos poder, para que conversem com aqueles que realizam os serviços. Muitas pessoas nesses serviços realizam seu trabalho a partir de um lugar de boas intenções, mas o impacto de seu trabalho não atende as suas intenções. Um dos princípios da Justiça Restaurativa é de que as pessoas que estão mais próximas dos danos têm que fazer parte da tomada de decisão para encontrar soluções. As pessoas cujas necessidades não estão sendo atendidas precisam fazer parte do grupo que vai decidir qual é a solução que irá ser encontrada. Isso demanda muito diálogo na comunidade e espaços que não privilegiem as vozes dos profissionais. Nós precisamos buscar maneiras de encontrar a sabedoria daqueles que estão com as necessidades não atendidas. Isso significa que precisamos criar espaços que sejam profundamente respeitosos para cada um. É importante que as pessoas que precisam dos serviços não sejam vistas como alguém inferior às outras. Nós não precisamos chegar às soluções; precisamos trazer as vozes daqueles que foram mais impactados pelas fraquezas do governo, encontrando, assim, novas maneiras de buscar soluções e de atender às necessidades.

4) O amor, por muitas vezes, é confundido na nossa sociedade moderna como algo relativo à posse, ao apego ou à dependência. Como o amor é compreendido na visão restaurativa? Como o círculo pode administrar essas concepções diversas e possibilitar que os participantes compreendam ou vivenciem o amor? O conceito de amor, como eu entendo na concepção restaurativa, envolve a aceitação completa da outra pessoa da maneira como ela é: imperfeita. Ao mesmo tempo, o amor significa enxergar o potencial para o bem que essa pessoa traz. A crença de que essa pessoa tem um eu verdadeiro dentro dela que é bom, é sábio e poderoso. Eu penso que o amor nos processos restaurativos significa dar apoio à pessoa que cometeu um erro e possibilitar um processo de recuperação desse erro. A maneira de nos recuperarmos de um erro cometido é assumirmos a responsabilidade sobre ele e fazer reparações. Em um processo restaurativo,

se alguém que você ama cometeu um erro, você vai querer encorajá-lo e apoiá-lo, ajudá-lo a reconhecer e assumir responsabilidades pelo dano que causou - porque você sabe que isso irá torná-lo mais saudável. A estrutura dos processos restaurativos, que permite que as vozes de todos sejam ouvidas, em que todos são tratados com respeito, possibilita que cada um se sinta amado pelo facilitador e pelo procedimento - mesmo quando eles não se amam entre si. O processo deve acolher cada pessoa como merecedora de dignidade e, dessa maneira, amar cada participante que está fazendo parte do processo. Os participantes não precisam necessariamente amar uns aos outros, mas esse espaço de respeito aumenta a possibilidade das pessoas se movimentarem em direção ao amor.

5) A partir do reconhecimento do outro como um outro ser humano igual a mim, (digno, respeitável, com defeitos, entre outras coisas que nos tornam semelhantes) o círculo cumpre seu objetivo. Como você acredita que esse vínculo influencia as relações interpessoais? As relações interpessoais próximas, mais íntimas, carregam de uma maneira natural a sensação de vulnerabilidade. Se nós nos abrirmos no nível do coração para os outros, sendo essa a natureza dos relacionamentos interpessoais, nós abrimos a possibilidade de sermos feridos. É o poder de nos conectarmos e de nos machucarmos que existe nas relações interpessoais. Nós precisamos desesperadamente desses relacionamentos e, às vezes, ficamos aterrorizados por eles. Os processos restaurativos, especialmente os círculos, criam espaços de uma maneira deliberada. Espaços em que se cultivam os valores, para que quando nós abrirmos a conexão de vulnerabilidade, nós tenhamos menos probabilidade de machucarmos uns aos outros. O círculo é muito intencional na sua estrutura para que se abra espaço à vulnerabilidade nos limites de algumas proteções. Para que as pessoas caminhem em direção ao seu melhor eu. Nesse espaço, os relacionamentos se conectam em profundidade por causa das estruturas desse processo que permitem deixarmos de lado algumas de nossas proteções que bloqueiam as conexões. Um participante durante uma capacitação uma vez nos disse que nós nos encontramos nas nossas feridas. Seria por meio do compartilhamento de dores e dificuldades que nós conseguimos nos enxergar uns nos outros. E quando nós nos vemos uns nos outros, nos conectamos em um nível muito mais profundo.

6) Um conceito que você reitera é o de conexão. Como podemos entender o real significado desse conceito e aplicá-lo nos círculos? Eu acho que o significado profundo do conceito se relaciona com o paradoxo da existência humana. Nós precisamos de autonomia, de algum controle em nossas próprias vidas e precisamos pertencer. Não conseguimos existir sem nos relacionarmos com os outros. Nós temos aspectos internos de identidade que parecem que vêm de dentro e nós somos muito definidos pelos nossos relacionamentos com os outros. O significado em nossas vidas é criado através dos relacionamentos. Então, o pertencimento é uma necessidade humana fundamental. Se nós não nos sentirmos pertencentes, nós não estaremos saudáveis. A conexão tem a ver com o pertencimento. Muitas das pessoas que terminam nos processos restaurativos não se

sentem pertencentes. Um dos maiores objetivos desses processos é a reconexão. Esse é o ponto principal do processo restaurativo. A maneira como nós tentamos chegar a isso no círculo é criando um clima de respeito e compartilhando histórias das nossas próprias experiências de vida. É principalmente através das nossas histórias que conseguimos encontrar as partes das nossas conexões. Mesmo a estrutura física do círculo já cria uma sensação de conexão. Cada um consegue ver todos os outros. O círculo tem um foco comum no centro porque todos ficam olhando para aquele centro. A maneira como o objeto da palavra passa pelo círculo está de uma forma contínua tecendo esse fio da conexão. Passando de volta, e mais uma vez, fazendo as conexões. Mesmo quando as pessoas escolhem não falar, o objeto da palavra está ainda, sim, conectando-as. O círculo tem muitos elementos que conectam as pessoas fisicamente, emocionalmente, mentalmente e espiritualmente (ou em torno do significado).

7) Há teorias que trabalham com a ideia de resolução de conflitos, como há também as que afirmam que o conceito atual seria transformação de conflitos. O que você acredita ser mais assertivo dentro da concepção restaurativa? Para mim, a resposta sempre que houver acontecido danos entre as pessoas, e isso poderia ser tanto para um crime quanto para um conflito porque o conflito normalmente está causando danos para as partes, seria que quando acontece o dano a resposta a ele deveria deixar a comunidade mais forte do que ela estava antes do dano acontecer. Esse é o meu conceito de transformação. Você não vai simplesmente reparar o dano, você quer que, com esse processo, as pessoas fiquem mais fortes ou mais saudáveis do que elas estavam antes de o dano acontecer. No nível de comunidade, eu identifico várias maneiras de verificar se a comunidade ficou mais forte. Faço as perguntas a mim mesma: Foram formados relacionamentos novos durante esse processo? Foram fortalecidos alguns relacionamentos já existentes? O processo ajudou a aumentar as habilidades dos participantes para a resolução de conflitos? Esse processo aumentou o comprometimento em relação ao bem comum? Vou trazer mais uma pergunta nova: O processo fez com que aumentasse a autoconscientização individual com eles mesmos e nos seus relacionamentos com outros? Eu preciso dizer também que eu não sei muito a respeito da bibliografia sobre resolução e transformação de conflitos, eu não sei como os outros veem essas diferenças. O que eu trouxe é através da minha própria experiência com a Justiça Restaurativa. O trabalho da Justiça Restaurativa para mim não é só resolver conflitos, mas sim transformar a cultura, de forma que tenhamos uma cultura que honre a cada um e trate cada um com respeito, prestando e dando atenção às necessidades de todos. Justiça Restaurativa para mim é muito maior do que trabalhar com problemas individuais: é a criação de uma cultura que seja justa para todos.

3. WORKSHOP DE SUPERVISÃO DE FACILITADORES - ASSOCIAÇÃO DOS JUÍZES DO RIO GRANDE DO SUL AJURIS 15 A 17 DE MAIO DE 2017 - PORTO ALEGRE

As Práticas Restaurativas dentro dos ambientes em que os jovens estão privados de liberdade, estes enfoques ainda estão à margem, nos EUA. Essa não é a prática principal, mas está crescendo de forma significativa. A linguagem da Justiça Restaurativa está se tornando mais familiar e mais conhecida. Estamos vendo também o crescimento do uso de práticas restaurativas para conflitos que acontecem em locais de trabalho. Esse é um lugar muito importante para introduzirmos as práticas restaurativas. Quando estamos acordados, passamos mais horas no nosso local de trabalho do que com nossas famílias. É uma parte muito importante de nossas vidas. Às vezes, as pessoas não têm muita escolha a respeito de onde elas trabalham, e não é fácil deixar o emprego e encontrar outro. Estamos presos, de certa forma, a essa comunidade em que trabalhamos. Pelo menos, nos EUA, muitos desses locais de trabalho são locais de infelicidade. O local de trabalho é muito importante para começarmos a construir a nossa Cultura de Paz.

O sistema prisional, em Minnesota, tem um amplo trabalho para introduzir as práticas restaurativas no local de trabalho. Uma amiga que tem um centro de círculos faz um círculo por mês com os diretores de ONGs. É um lugar onde eles se encontram e podem falar de suas dificuldades e descobrir que não estão sós. Esses círculos têm sido tão bem sucedidos que estão criando um círculo para o segundo escalão. Em Nova York, tem um local onde aplicam círculos para resolver problemas entre servidores que estão em conflito. Existe um interesse crescente em usar os círculos dentro dos locais de trabalho. Nos últimos anos, tem crescido o movimento para se ter círculos para debater a respeito de conflitos sociais, círculos para falar sobre raça, orientação sexual, pobreza. É importante termos isso para que possamos sonhar com um futuro em que todos sejam iguais.

Mais recentemente, quanto aos políticos que têm se tornado mais polarizados no mundo, tivemos alguns círculos que foram aplicados com o tema dessa polarização. Fizemos uma capacitação, na Itália, para lidar com a permanência ou não na União Europeia. Tinham equipes de cinco países diferentes participando dessa capacitação: Hungria, Itália, Alemanha, Grécia e Dinamarca. Essas equipes aprenderam a fazer círculos. Cada uma delas voltaria a seu país de origem para recrutar dois grupos de pessoas: um grupo a favor da permanência e outro querendo se desligar da União Europeia. Primeiramente, cada grupo faria os círculos de forma separada. Depois, os grupos seriam reunidos para falar sobre a permanência ou não na União Europeia. Este projeto está em seus últimos estágios e não tivemos informações de como está esta situação.

Nos EUA, um amigo fez um círculo entre os apoiadores do Trump e da Hillary Clinton. O objetivo desse tipo de círculo não é concordar, mas escutar profundamente o que um e outro tem a dizer. Serve para entender como as pessoas enxergam de maneira diferente e perceber que,

mesmo com essas diferenças significativas, temos pontos em comum. Precisamos de muitos círculos assim nos EUA.

Tem havido um crescimento significativo de círculos para lidar com trauma. Fizemos parte de dois grupos que estão trabalhando para abordar o abuso sexual. São círculos de cura para adultos sobreviventes desse abuso. Um dos projetos está dentro da Igreja Católica, principalmente abordando o abuso sexual cometido pelo Clero. O outro projeto está em Nova Iorque, chamado de Águas Ocultas. Esse projeto trabalha com adultos sobreviventes de abuso sexual e com membros da família que não foram abusados, mas que sofreram o impacto do abuso. Trabalhando com pessoas que cometeram os abusos. O trabalho é realizado em grupos separados, num processo de cura. Os resultados têm sido surpreendentes. Trabalhando em Nova Iorque, numa capacitação, com algo relacionado a este projeto, havia uma pessoa que era vítima de abuso sexual. Ela nos contou que estava em terapia há muito tempo para tentar superar este trauma. Foi o processo circular que conseguiu libertá-la deste trauma. Este trabalho também dá esperança. Acreditamos que este tipo de crescimento está acontecendo em todo globo terrestre. Estamos impressionadas com o número de capacitações que vocês têm; com o número de facilitadores que estão trabalhando nas diferentes partes da comunidade, principalmente, onde está sendo implementado este trabalho.

O que temos aprendido: Uma das maiores lições, nos últimos anos, é que não conseguimos falar honestamente sobre as questões relevantes que nos afligem sem grande desconforto e em momentos que não nos sentimos seguro.

Temos participado de círculos muito significativos para discutir questões de raça, pois alguma coisa que foi dita, foi difícil, magoou as pessoas de cor. Foram espaços muito difíceis e muito desconfortáveis. Algumas das coisas que foram ditas causaram mais mágoa e, ainda assim, eram coisas que precisavam ser ditas. Uma realidade muito difícil que, ao falarmos de uma dor com muita honestidade, podemos causar outra dor e, ainda assim, tem que ser discutido abertamente. A verdade pode ser dolorosa e nem sempre nos dá sensação de segurança. O que vimos naqueles rostos é que o ponto chave é tentar manter-se no círculo. Não fugir ou esconder ou fingir que a dor e o desconforto não estão lá. Os círculos sobre questões difíceis, tais como raça e desigualdade, não terminaram com tudo resolvido ou com todos se sentindo alegres.

Temos vivenciado alívio de que a verdade pode ser dita e que podemos permanecer neste espaço respeitosamente uns com os outros, em face de verdades muito difíceis. Mas a realidade das desigualdades e dos traumas, no mundo maior, que são revelados nesta verdade que vem à tona, estes permanecem. A compreensão cresce, mas a reparação dos danos ainda está distante. Esses círculos são muito confusos e terminam com muitos pontos soltos, mas, ainda assim, a sensação é que foi dado um passo adiante. Então, continuam sendo bons, mas são difíceis.

Aprendemos também, com muita frequência, que a dor superficial não é a dor que precisa

ser abordada. Em uma capacitação para facilitadores para o projeto das Águas Ocultas - projeto que trabalha com os sobreviventes de abuso sexual na infância. Muitas pessoas que estavam no grupo eram sobreviventes. Era um treinamento de três dias e, no segundo dia, estávamos fazendo

o check-in e uma senhora chegou um pouco atrasada e havia uma só cadeira vaga. No dia anterior,

ela havia expressado sua preocupação com as pessoas usando o celular. No seu check-in, falou de

uma maneira como quem não quer nada, que ela estava entre duas pessoas que ficavam mandando textos. Terminamos a capacitação do dia e, ao final, na última rodada de check-out, uma pessoa disse: eu estou com medo de que, ao dar nome a uma dor, vou causar outra dor. Ela

disse que sentiu que várias pessoas participantes do círculo tinham sido magoadas com aquele comentário do início e mais pessoas fizeram referência a isso. Era o check-out e não poderíamos fazer nada naquele momento. Passamos a noite inteira pensando como iríamos abordar esse tema no dia seguinte. Parecia um assunto tão trivial. As coisas com que estas pessoas estão trabalhando são muito sérias. Sabíamos que se abordássemos a questão de ficar mandando textos levaria toda manhã para resolver e tínhamos outra intenção com esse grupo. Passamos por isso ou não? O que faremos? Precisamos tratar disso. Quando iniciamos perguntando às pessoas como estavam se sentindo, elas trouxeram outras experiências da sua vida, porque foram acionados por aquele comentário. Muitas tinham sido vítimas de abuso sexual. A vergonha é acionada muito facilmente

e essa vergonha pode ser acionada de maneira trivial. Quando passamos o objeto da palavra, eles

não falaram sobre a coisa trivial, eles falaram a respeito da vergonha profunda que ainda tinham e se tornou um espaço de cura para eles. Esse é um paradoxo: que uma pequena mágoa possa abrir espaço para que venha à tona uma grande mágoa. Se não processarmos essa pequena mágoa, não

possibilitaremos que as grandes mágoas sejam trazidas à tona. E, ao mesmo tempo, aquele que tinha trazido esse pequeno dano, sentiu muita vergonha por aquilo que havia desencadeado, ficando muito complicado. Hoje, vemos mais complicado do que víamos dez anos atrás, mas, de alguma forma, vemos como esperança. Na complicação sempre aparece uma nova oportunidade, porque nada está terminado ou completo. Existe uma ideia na teoria do caos: quanto mais turbulência for permitida num processo, mais robusta será a solução. Quanto mais complicações, mais possibilidades se abrem para que consigamos soluções fortes. Isso exige que sintamos muito desconforto a nossa volta e conosco.

Gostaríamos de esclarecer de onde vem o termo pessoa de cor: como no Brasil, nos EUA, tem uma mistura muito grande de pessoas, de povos e uma grande variação de cor. Mas, na maior parte das vezes, o poder está nas mãos de pessoas brancas. As pessoas que não são brancas se sentem menores e isso inclui pessoas de herança africana, indígena, asiática e latino-americana. Nesse contexto, as pessoas que não são brancas sentem que têm muito em comum, mas nem todos se identificam com a cor negra. Dessa comunidade que veio o termo pessoa de core é assim que eles querem ser chamados lá. No Brasil, negros são africanos e, nos EUA, são afro- americanos. Nos EUA, de cor são africanos, indígenas, asiáticos e latino-americanos. Queremos tentar usar o termo que as pessoas aqui sintam que seja o correto. Nossa vontade mais profunda é

de sermos respeitosos. Pensando a respeito desse termo, porque tem sido um desenvolvimento mais recente nos EUA. Quando fizemos parte de um grupo que é oprimido ou que é mal entendido, podemos não confiar nos espaços criados pelo grupo dominante, embora esses espaços sejam criados com as melhores intenções. Às vezes, não conseguimos entender como a nossa perspectiva pode formatar esse espaço. Temos que começar a pensar para trás e criar relacionamentos com as pessoas com as quais queiramos estabelecer diálogos, para construir confiança para que possam estar dispostos a participar de um espaço assim. Esse é um trabalho que não é rápido. É preciso muita paciência e muita persistência. As conversas mais poderosas que participamos, falando sobre raça, foram círculos em que o tópico não era raça, mas o lugar se tornou um lugar seguro para que as pessoas de cor, englobando todas as raças, se sentissem seguras para trazer o assunto raça à tona. Essa discussão está viva o tempo todo nos EUA, a menos que todos os participantes sejam da raça branca. Está tão vivo, nos EUA, que, em qualquer grupo que haja uma mistura de pessoas, isso vai surgir. E, quando o grupo se sente seguro, é mais provável que surja essa discussão.

As experiências que tivemos foram espaços de muita cura para as pessoas oprimidas. Nada mudou no mundo lá fora, mas foram espaços em que as pessoas foram escutadas, de uma maneira plena e profunda, e a verdade trazida foi reconhecida. Vemos o círculo como um espaço poderoso para que sejam mudadas as dores trazidas pelo passado. Falamos, às vezes, sobre Justiça Restaurativa entre povos, não só entre pessoas, mas também entre grupos de pessoas. Para nós, como americana, de herança europeia, precisamos fazer um trabalho de cura com os indígenas e os povos que foram trazidos como escravos da África. A estrutura restaurativa nos ajuda a fazer isso, porque essa estrutura explora o que as vítimas precisam. Precisam contar sua história. E, provavelmente, precisam contar suas histórias muitas e muitas vezes. Precisam ser escutadas de maneira profunda. Precisam ter validado a ideia de que aquilo que aconteceu com elas foi errado; que elas não mereciam; que não há nada de errado com elas. Precisam de algum tipo de reparação. Quando olhamos para os danos históricos, é possível fazer as primeiras partes disto, escutar as histórias muitas e muitas vezes e validar que aquilo que aconteceu foi errado. Que as pessoas não mereciam o que aconteceu e que não tem a ver com quem elas são. É mais difícil pensarmos em que tipo de reparação, mas não é difícil pensarmos que podemos escutar as histórias. Podemos fazer isso hoje, mesmo para as coisas que aconteceram há centenas de anos e que, nesse processo, podemos nos curar com os nossos ancestrais. Uma amiga latino-americana ensinou que é possível haver uma cura com os nossos ancestrais. É de muita esperança, porque, de outra forma, estaremos carregando o peso do trauma dos nossos ancestrais, mas se tivermos essa intenção poderemos curar o trauma dos nossos ancestrais.

O objetivo como facilitadora é sempre fazer com que o espaço seja seguro o suficiente para possibilitar que as pessoas sejam autênticas, mas não podemos prometer a elas que será um espaço seguro. O número de elementos que compõem o círculo existe para deixar um espaço

seguro. A cerimônia de abertura que deixa o ambiente mais leve e prepara as pessoas para círculo contribui para a segurança do espaço. O uso do objeto da palavra passando de mão em mão, organizadamente em torno do círculo, quando ninguém pode interromper, é uma grande contribuição para segurança. O direito de passar a vez também contribui para a segurança. A discussão de valores, antes de falar sobre a questão em si, contribui para a segurança do espaço. Toda primeira parte do círculo auxilia a construir a segurança esperada. A maneira como o facilitador se posiciona no círculo, se colocando como igual, aumenta a segurança. Se virmos o potencial daquele eu melhor que existe em cada um, aumenta segurança. Se conseguirmos compartilhar experiências da nossa vida que nos colocam em um lugar de vulnerabilidade, aumenta a segurança. A parte de contação de histórias em que os participantes podem se enxergar um na história do outro, aumenta a segurança do círculo.

Procurar sempre elaborar as questões que convidem a uma resposta começando por “EU”:

como você foi impactado pela situação? Qual a coisa mais difícil para você, a respeito dessa situação? O que você poderia oferecer para que pudéssemos avançar de um jeito melhor? Elaboramos essas perguntas para que as pessoas tenham a oportunidade de trazer as respostas a partir de sua própria experiência, de sua própria vida. Certificamo-nos de que a pergunta não convidará a um ataque à outra pessoa, que não ofenderá alguém com palavras.

Queremos que as perguntas sejam sobre sentimentos e emoções do que sobre fatos. Os sentimentos são mais importantes do que os fatos. As pessoas podem discordar a respeito de um fato, mas, mesmo assim, irão entender como a outra pessoa está se sentindo.

No círculo, na parte de contação de histórias, queremos convidá-los a contar histórias de sua própria vivência, de sua própria vida. Vemos que as perguntas na contação de histórias convidam as pessoas a compartilhar a sua humanidade mais poderosa: é importante convidar as pessoas a compartilhar um momento de suas vidas que foi de uma grande mudança e que elas não queriam essa mudança, mas, que depois, ficaram felizes porque esta mudança ocorreu; convidar as pessoas a contar uma experiência, quando conheceram alguém e tiveram uma impressão negativa, mas, depois, acabaram gostando dessa pessoa; compartilhar uma história de um momento em que a pessoa não se sentiu incluída; compartilhar uma experiência de sua vida em que não se sentiu escutada. Essas são experiências universais. Ajudam-nos a perceber que mesmo que tenhamos grandes diferenças entre nós, temos pontos em comum. O círculo sempre busca encontrar e demonstrar que temos pontos em comum suficiente mesmo nas nossas diferenças. Somos diferentes, mas temos pontos em comum. O círculo não tem o objetivo de fazer com que todas as pessoas pensem do mesmo jeito, mas nos mostra que temos valores compartilhados muito fortes e pode nos ajudar a admirar as diferenças como pensamos. A partir desse espaço, podemos pensar como podemos seguir adiante cuidando um do outro.

Na estrutura do círculo, algumas coisas têm mais flexibilidade do que outras. Não existe flexibilidade quando consideramos o uso do objeto da palavra, porque, estruturalmente, é muito

importante. Ele precisa seguir a ordem em volta do círculo e não pode pular de um para outro. Seguindo a ordem, em volta do círculo, enfatiza a igualdade, porque a oportunidade de falar deve ser absolutamente igual para todos. O objeto da palavra, passando em volta do círculo, estará honrando sua presença, mesmo que a pessoa não queira falar. Faz com que ela se sinta e seja parte do círculo, mesmo que não queira se manifestar verbalmente. A participação no círculo não tem a ver com falar. A participação é a escuta.

É importante que o objeto da palavra siga em ordem. Ele distribui o poder em volta do círculo. Em outros processos, o facilitador é quem escolhe e quem decide quem vai falar em seguida. Isso dá muito poder ao facilitador e quando usamos o objeto da palavra abrimos mão desse poder. O poder vai mudando com o objeto da palavra passando em volta do círculo. Não funcionará se não passarmos em ordem. Se não mantivermos a ordem, o poder não será distribuído de maneira igual. A distribuição de poder é o potencial maior do círculo. O objeto da palavra é a forma estrutural de termos certeza de que isto vai acontecer. Significa que, como facilitador, não irá interromper quem está falando, a não ser que seja inevitável. O facilitador, geralmente, esperará que o objeto da palavra chegue de volta até ele se quiser falar de algo que foi dito dentro do círculo.

Quando o poder é distribuído em torno do círculo, a responsabilidade também fica distribuída. Os participantes irão assumir mais responsabilidades no círculo pelo uso do objeto da palavra ou por qualquer outra maneira que o facilitador conduza. Se o facilitador perceber logo um desconforto, deverá reagir imediatamente. Se fizer uma intervenção rápida demais, assim que começar a sentir desconforto, os participantes olharão para o facilitador para que arrume o que estiver causando o desconforto. Os participantes irão depender do facilitador. Se permitirmos esse desconforto e deixarmos que o objeto da palavra siga seu rumo no círculo, os participantes irão equilibrar o processo antes que o facilitador precise falar ou intervir. O objeto da palavra coloca limites também para o facilitador. É um papel muito diferente do papel de outros espaços para o qual fomos treinados. O objeto da palavra é uma necessidade absoluta dentro do círculo, um elemento absolutamente indispensável.

Que treinamento tivemos que desaprender para nos tornarmos facilitadores? É importante nos darmos conta de que a maior parte da nossa socialização no nosso treinamento não nos prepara para trabalhos assim. É preciso dar alguns passos para trás e perdoar a nós mesmos por já não estarmos fazendo isto desta maneira. Perdoar àqueles que nos treinaram nas nossas profissões, pois estavam fazendo o seu melhor. Treinaram baseados nas suas experiências. Quando pensamos no quanto precisamos desaprender, nos ajuda a ter mais paciência com nossos colegas que não estão tão prontos ainda para desaprender. Não é fácil deixar de lado a maneira como fomos treinados e socializados. Está entrelaçado com a nossa identidade e nosso sentido de responsabilidade a respeito daquilo que devamos fazer. É importante que façamos o exercício da autoempatia, do autoamor, para termos a coragem de fazer essa jornada, porque é uma jornada que requer coragem. Queremos fazer essa jornada e honrar aqueles que ainda não estão prontos

para isso. É importante que cuidemos uns dos outros nessa jornada. Que possamos ter espaços para estarmos juntos, sem a necessidade de explicar por que estamos fazendo assim. É importante termos um espaço em que possamos respirar profundamente e compartilhar com o grupo as alegrias e os desafios do trabalho que estamos fazendo. É importante que cuidemos uns dos outros e amemos uns aos outros. Precisamos estar frente a frente para cuidarmos uns dos outros, de tempos em tempos.

Vamos trazer uma experiência daquilo que devemos desaprender. Em uma capacitação, já havíamos visto as diferentes maneiras de como éramos enquanto facilitadores. Um dos participantes diz que “é para explorar e não para conquistar. Fez muito sentido. Fizemos parte de um conselho escolar por nove anos, composto por sete pessoas. Esta equipe era a que decidia tudo para aquele distrito escolar. Estávamos tomando importantes decisões de como a escola deveria funcionar. A equipe envia o material que líamos atentamente, conversávamos com algumas pessoas a respeito do material e chegávamos às conclusões de como a escola deveria funcionar. Íamos para as reuniões para convencê-los, porque achávamos que tínhamos a resposta certa. Como uma conquistadora, não exploradora. Assim, aprendemos a ser uma exploradora na tomada de decisão no círculo. Exploradora e não conquistadora. Isso exigiu grande desaprendizagem.

As cerimônias de abertura e encerramento são partes essenciais do processo, porque o espaço do círculo é um espaço de coração, é um espaço separado do jeito que interagimos normalmente. E nesse espaço seremos muito mais intencionais a respeito da forma como interagiremos. Iremos nos certificar de que cada um terá a oportunidade de falar. Serão estabelecidos os valores que nos guiarão na maneira como iremos interagir com os outros e o ritmo será mais lento em função do objeto da palavra. É um espaço muito diferente das nossas conversas normais, pois nele somos convidados a trazer o nosso eu mais autêntico. Para isso, precisaremos nos desvencilhar das máscaras que normalmente usamos. A estrutura do círculo é planejada de forma que permita que nos sintamos seguros para deixar as máscaras caírem. É preciso esclarecer quando o espaço começa e quando ele termina. Dessa forma, as pessoas saberão quando deixar as máscaras de lado. Pode ser muito simples, nada prolongado. Podemos solicitar que respirem profundamente por algumas vezes; podemos fazer uma leitura inspiradora, curta ou mais elaborada. É preciso deixar claro que é o início do nosso espaço juntos. O objetivo é que a cerimônia de abertura ajude as pessoas a estarem totalmente presentes e a deixarem de lado as distrações do mundo fora do círculo. Queremos, com a cerimônia de abertura, ajudar as pessoas a baixar o ritmo e a iniciarem conexões no grupo. Na escolha da cerimônia de abertura é preciso ter muita consciência de quem é o grupo, não realizando qualquer atividade que deixe um participante desconfortável. A hospitalidade é uma característica importante do círculo. Queremos, com a cerimônia de abertura, auxiliar as pessoas para que se sintam confortáveis e bem vindas. Na cerimônia de encerramento, queremos que as pessoas percebam que termina o nosso espaço especial. E se houver necessidade, poderão utilizar as proteções que usam para se

sentirem seguros. A cerimônia de encerramento marca o final do espaço. Queremos que ela traga a esperança de seguirmos adiante. Importante incorporar o sentido de gratidão por esse momento e enfatizar a conexão. A cerimônia pode ser simples e curta. Normalmente, nas cerimônias de abertura e encerramento, queremos deixar de lado coisas analíticas. Podemos engajar o corpo, o coração, o espírito, mas não a mente, para que consigamos conectar coração e espírito. A abertura e encerramento são muito importantes.

Existe uma flexibilidade sobre o centro, e uma das razões é que nossos primeiros professores não usavam o centro, pois os povos da primeira nação, normalmente se reuniam em torno da fogueira. Como estávamos dentro de prédios, não havia essa possibilidade. Mas, quando aprendi, não usavam centro. O uso do centro se desenvolveu em Minnesota, onde achamos que seria importante termos algo para colocar os valores e outras coisas que poderiam ser incluídas nos centros. Recebemos feedback de participantes que conseguiam ficar mais focados e mais presentes no espaço. Outras pessoas, mais tímidas, nos disseram que os centros auxiliavam a superar a timidez, quando se sentiam desconfortáveis em perceber os olhos sobre elas e, ainda, algumas pessoas que gostavam de conversar muito falaram que os centros auxiliavam-nas a não conversar tanto. Tivemos respostas positivas em relação ao uso do centro. Descobrimos também que poderíamos envolver os participantes na criação do centro, para se sentirem mais donos do processo. O centro é muito útil, mas não é absoluto.

Consideramos o trabalho dos valores no círculo como sendo, absolutamente, necessário, essencial. Vemos o círculo como um espaço altamente intencional, que nos ajuda a irmos em direção ao nosso melhor eu. Se não falarmos nos valores que representam o nosso melhor eu, poderemos esquecer o que é o nosso melhor eu. Precisamos conversar sobre o que representa o nosso melhor eu, pois é aonde queremos chegar. Se não tivermos clareza a respeito da direção a que queremos ir, pode ser que fiquemos perdidos por aí. Com grupos que se encontram várias vezes, não há necessidade de gerarmos esses valores. Geramos os valores no primeiro encontro e os revisitamos nos encontros subsequentes. Colocamos no centro para que fiquem visíveis e lembramos esses valores a cada encontro.

Muito importante no círculo é encontrarmos os nossos pontos em comum antes de trabalharmos as nossas diferenças. Precisamos trabalhar os relacionamentos, as conexões entre os participantes antes de abordarmos as nossas diferenças coletivas. Por exemplo, em uma sala de aula, podemos passar as primeiras três semanas para construir os relacionamentos e, posteriormente, com o tempo, podemos, nos círculos subsequentes, trabalhar as diferenças e os conflitos. Quando já desenvolvemos esses relacionamentos em círculo, quando acontecem conflitos, não precisaremos mais construir conexões ou fazer relacionamentos. Levamos as pessoas de volta e as lembramos dos bons relacionamentos. Não demorará tanto tempo se tivermos uma fundamentação dessa comunidade escolar. Em geral, sempre precisaremos fazer um bom trabalho de construção de relacionamentos para, depois, irmos ao problema em si.

É essencial, no círculo, buscarmos a conexão do coração e espírito, além da conexão de mente e corpo.

Queremos compartilhar algo que vocês não precisam acreditar tanto quanto acreditamos. O importante é escutarmos aquilo que nos faz sentido e levarmos conosco, usando o melhor de nossa habilidade para colocarmos em prática. Se não fizer sentido para nós, não precisamos absorver.

Existem diferentes maneiras como as pessoas descrevem o processo restaurativo e como pensam sobre ele. É importante que descubramos a nossa maneira, em particular, de fazer. Não precisam ser como eu. Tenho um jeito especial. Mas sabemos que há muitas pessoas com jeitos completamente diferentes e que são excelentes. O mais importante é buscarmos o nosso eu autêntico e utilizarmos no trabalho. É uma jornada para a vida interina: encontrar o eu autêntico e trazê-lo à tona.

Alguns Desafios da Nossa Prática: Pediram para fazer um círculo em uma instituição que administrava habitações em uma reserva de indígenas. Havia muitos conflitos, muito desrespeito. Era um local de bastante trabalho. Na preparação dos pré-círculos, fizemos entrevistas com cada um dos 30 participantes. Nesses pré-círculos, escutamos muitos e muitos problemas. Planejamos um círculo que teria duração de um dia. Quando chegamos para o círculo, havia 40 pessoas, isto é, dez delas não tinham participado dos pré-círculos. Durante a manhã, tentamos construir os relacionamentos para que fosse um espaço seguro, para que à tarde pudéssemos trabalhar as questões levantadas. Porém, à tarde, quando o objeto da palavra começou a passar, uma rodada após outra, ninguém falava sobre as coisas que haviam trazido nos pré-círculos. Ninguém conseguia dar nome aos problemas que estavam enfrentando. Não é papel do facilitador trazer o assunto à tona. Terminamos o dia e sentimos que tínhamos desperdiçado tempo. Sentimos que não havíamos conseguido nada; que havíamos fracassado. Fomos para casa, que ficava a uma distância de quatro horas e meia. Tempo suficiente para pensarmos. E, no meio do caminho, dissemos: eles estavam certos. O espaço não estava seguro suficiente para que se sentissem à vontade para trazemos os problemas. Sentimos alívio por não terem trazido os problemas. Acreditamos que não provocamos nenhum dano maior. Esse foi nosso consolo. Não ajudamos, mas não provocamos mais dano. Foi uma decisão importante ter respeitado o fato de eles não terem trazido os seus problemas. A situação demandara maior preparação de pré-círculo com grupos menores de pessoas. Não deveríamos ter tentado trazer tantas pessoas juntas, tão rapidamente. Aprendemos muitas lições.

Estratégias de Centramento: Sempre precisamos ter estratégias que nos ajudem a encontrar o nosso centro novamente: a respiração, a conexão com o coração de forma consciente, a criação de um mantra próprio. Algo como: isto não é comigo”; ou o círculo consegue manter emoções e tensões, ou o conflito é uma oportunidade para entender a mim e aos outros. Podemos manter uma pedra lisa (pedra da preocupação) no bolso e tocarmos, pois as pedras

conseguem nos centrar, nos conectar com a terra e segurar a tensão; podemos fazer uma oração para recentrarmos e voltarmos para dentro de nós mesmos com empatia; podemos imaginar nossos pés bem apoiados no chão e raízes saindo deles e entrando terra a dentro, buscando a energia da terra para trazermos para nós.

Se estivermos nos sentindo muito fora de centro, fora de equilíbrio, podemos solicitar um intervalo. Podemos trazer para o grupo, reconhecendo que algo aconteceu conosco. Podemos falar sobre os sentimentos que surgiram. Reconhecer nossa humanidade e vulnerabilidade é uma forma de conectarmos mais com o grupo. Não queremos suprimir aquilo que está acontecendo de ruim. O importante é respeitar e dar a atenção ao que está acontecendo conosco. Se tentarmos, simplesmente, suprimir, irá sub-repticiamente, aparecer novamente e podemos nem perceber.

Há vários passos para que achemos nosso equilíbrio novamente: 1) autoconscientização e reconhecimento quando não estamos mais centrados; 2) forte intenção de voltar ao nosso centro, desenvolvendo uma estratégia pessoal de como voltarmos ao centro e praticá-la, por várias vezes, pois quando precisarmos usá-la já estará internalizado. Auxilia a preparação antes do círculo. É importante pensarmos sobre isso quando não estivermos sob estresse. Desenvolvermos o plano quando não estivermos numa situação de estresse, porque é difícil sermos criativos quando estressados; 3) tudo bem sermos humanos e não conseguirmos fazer tudo perfeito. Talvez, algumas vezes percamos esse centro. É uma responsabilidade compartilhada manter o espaço.

Equilíbrio é uma estrutura muito importante na facilitação de círculos. No início, pensávamos se estava certo ou estava errado; gostaríamos que algumas coisas que surgiam desaparecessem; gostaríamos que não tivesse acontecido. Mas nunca funcionou. Começamos a pensar nas coisas como equilíbrio, não que algo estivesse errado ou que fosse errado, mas que algo havia desequilibrado. Ao invés de desejarmos que as coisas não tivessem acontecido, pensávamos em o que precisamos trazer para que fique equilibrado novamente?

Se todos estão castigando uma pessoa, é porque o círculo perdeu o equilíbrio. Normalmente planejamos um círculo para evitar a crítica, mas mesmo com o melhor dos planejamentos, às vezes, o inesperado acontece. E para trazer o círculo de volta ao equilíbrio, podemos oferecer encorajamento ou um comentário positivo àquela pessoa que está sendo criticada. Podemos dizer que apreciamos a coragem da pessoa de participar do círculo, ou falar algo positivo a respeito da participação dela. Não queremos que aconteça que uma pessoa fique isolada dentro do círculo. Se isso acontecer, podemos usar a nós mesmos para oferecer apoio para quem está ali desequilibrado, para trazer o círculo de volta ao equilíbrio. Se o círculo parecer que está negativo ou desesperador, busquemos o sentido da esperança e foco nos pontos fortes. Podemos fazer por meio de um comentário direto, trazendo uma perspectiva de esperança ou positiva, ou podemos fazer uma pergunta que faça com que os participantes tragam o que há de positivo. Uma das partes do círculo que pode precisar de energia positiva é antes de começarmos a falar sobre soluções. Depois que todos já despejaram suas emoções negativas, podemos dar a

impressão de que as coisas ficaram piores ao invés de ficarem melhores, podemos pensar que o círculo deixou tudo pior. Se o círculo for honesto, surgirá muito mais do que os outros já sabiam que existia. Nesse ponto do círculo é muito importante oferecer outra perspectiva. A coisa mais difícil para chegarmos a um lugar melhor é sermos honestos a respeito de onde estamos. Porque aquilo que pode parecer muito negativo, na verdade, é a maior conquista que eles poderiam fazer, ficando mais fácil, a partir deste momento, onde todos se abriram e foram honestos. Se as pessoas conseguirem permanecer em um espaço seguro e terem muita honestidade a respeito da situação, este é o passo mais difícil para nos levar a um lugar melhor. Assim, prestaremos mais atenção para quando as coisas estiverem fora do equilíbrio: O que podemos trazer para fazer com que este círculo se equilibre novamente?

Se o objeto da palavra está passando muito rápido, porque muitos estão passando a vez, o círculo está desequilibrado. Temos que pensar no que fazer para dar mais espaço. Uma sensação de mais relaxamento para dentro do círculo. Podemos ficar em silêncio por um tempo; podemos

conduzir as pessoas a um exercício de respiração antes da próxima rodada e, quando formos fazer

a próxima rodada, vamos pedir para que cada participante segure o objeto da palavra contando de

um a dez, antes de passar adiante. Isso proporcionará uma energia mais relaxada e mais tranquila no círculo. Podemos passar o objeto da palavra e pedir aos participantes que segurem o objeto até que entendam que o seu silêncio foi escutado. O lugar mais comum que as pessoas trazem é que o objeto da palavra passa muito rápido é com jovens adolescentes.

Além do já abordado, é importantíssimo honrarmos o direito dos participantes de passar o objeto da palavra sem se manifestarem e não os pressionarmos para que falem. Grande parte dos comportamentos de que não gostamos nos adolescentes é o resultado de estarem experimentando, vivenciando um tipo de poder, porque eles se sentem muito impotentes em outras partes de sua vida e, muitas vezes, eles causam danos aos outros na tentativa de acessar um pouco de poder. Quando isso acontece, tiramos ainda mais poder que eles possam ter, fazendo com que tudo fique pior. O que precisamos fazer é possibilitar que eles tenham a experiência do poder pessoal positivo. Sentir algum tipo de poder, na nossa vida, é uma necessidade humana fundamental. Precisamos achar maneiras de possibilitar espaços em que eles tenham esse poder pessoal positivo, e uma delas é o direito de passar o objeto da palavra. Os adolescentes frequentemente testam os adultos, perguntando: você vai fazer mesmo aquilo que está dizendo? Disse que eu poderia passar o objeto da palavra e vou passando e vou passar novamente e quero ver se fará com que eu fale. Pode ser que fiquem passando muitas vezes até que eles confiem. É muito importante sermos pacientes. Eles terão muito a dizer, assim que

confiarem. É importante prestarmos atenção se não estão passando o objeto da palavra por medo de alguém no círculo. Pode ser que haja um líder entre eles e, se ele passar, todos terão que passar o objeto da palavra. Queremos trabalhar a possibilidade de o indivíduo ter sua própria voz

e um dos melhores jeitos de fazer isso é convidando-o a falar, dificultando, em muito, passar o objeto. Se o círculo for de adolescentes, podemos perguntar: o que os adultos, na tua vida,

precisam entender sobre ti que ainda não entenderam? O que os professores da tua escola precisam entender sobre a tua vida que ainda não entenderam? O que tu tens a dizer sobre o que as outras pessoas não estão escutando? Essas perguntas dificilmente não serão respondidas.

Uma das responsabilidades mais importantes como facilitador é certificarmos que o objeto da palavra vai se movimentando. As pessoas, às vezes, podem não ser adequadas quando estão com o objeto da palavra, dizendo às outras pessoas o que elas têm que fazer. Não precisamos nos preocupar com isso, desde que o objeto da palavra esteja dando a volta. Na hora em que o objeto da palavra está se movimentando, ninguém mais tem o poder. Em outras vezes, uma pessoa pode explodir de uma maneira que não pareça muito respeitosa dentro do círculo. O facilitador não precisa necessariamente fazer algo a respeito, contanto que essa explosão termine e o objeto seja passado adiante. O resto do círculo pode reequilibrar aquilo que aquela pessoa trouxe, mas manter o objeto da palavra seguindo é o mais importante. E é isso que iguala as pessoas no círculo e as coisas que surgem são amenizadas pelas outras pessoas que vêm em seguida.

Violência doméstica: Existem dois projetos com os quais estamos envolvidos nos EUA. Um deles acontece há 18 anos. É um projeto pequeno, em uma comunidade onde as pessoas estão usando o círculo como processo de sentenciamento para violência doméstica. Nesses casos, a vítima tem que concordar que seja decidido em círculo. Num caso típico, a cada duas semanas e durante alguns meses, para ter certeza de que as questões subjacentes ao fato em si e, depois, juntamente com o juiz fazendo parte do círculo, eles determinam qual será a sentença. A sentença sempre inclui círculos continuados e tem duração de 18 meses ou dois anos. O círculo continua a cada duas semanas para certificar se estão sendo cumpridos os outros pontos da sentença. É muito mais um processo de responder para sua própria comunidade, do que somente ao juiz, porque a cada duas semanas há necessidade de dizer à comunidade como está indo, o que está fazendo. O círculo está cuidando tanto da responsabilização quanto do apoio. Lidam com poucos casos, porque o projeto é pequeno. É realizado por voluntários e, até hoje, não houve reincidência.

Existem três comunidades diferentes no Condado de Washington que fazem círculos de sentenciamento. Um dos que acontece há mais tempo e que foi fundado para lidar, especificamente, com violência doméstica é Cottage Growth (Crescimento do Chalé). Um dos casos era a respeito de uma família em que a polícia era frequentemente chamada para atender alguma situação. Havia vários jovens violentos nessa casa. Levaram esse caso para o círculo e, depois de meses fazendo círculo, a mãe decidiu abandonar a família. Mas os círculos continuaram, porque os adolescentes brigavam muito entre eles e com o pai. Continuaram se encontrando a cada duas semanas, por bastante tempo. Os voluntários achavam que não estava melhorando e que era melhor desistir. Sugeriram para a família terminar com os círculos e o pai pediu, por favor, para não terminarem, pois antes dos círculos brigavam cinco vezes por dia e, com os círculos, uma por dia.

Outro projeto que está acontecendo é em Nogales, uma cidade na fronteira com o México. Provavelmente, 95% dos habitantes falam espanhol. Tinha um juiz municipal que estava muito preocupado com os casos de violência doméstica, porque, na maioria desses casos, o homem e a mulher voltavam para casa juntos. E não havia nenhum serviço à disposição, se eles continuassem juntos. Se a mulher saísse de casa, teria a possibilidade de atendimento, mas se resolvesse continuar com o marido, não havia nenhum serviço que pudesse acessar. O juiz se interessou em buscar um processo que cuidasse das duas partes. Ajudá-los a viver com menos violência, porque continuavam vivendo juntos de qualquer forma. Criaram um processo circular para os casos que a pessoa que causou dano, que nem sempre era o marido, recebesse, como sentença, participar do círculo durante vinte e seis semanas com encontros semanais. A vítima também participa dos círculos. Uma das características desse projeto é que, quando eles aceitam o caso para fazer parte do programa, identificam como um monitoramento de segurança, não profissional, uma pessoa que se importe com eles, que pode ser um vizinho, um parente. Essa pessoa é um membro orgânico dessa comunidade e se responsabilizará por prestar atenção na segurança da mulher. Esta pessoa tem uma chance muito maior de prestar atenção no que está acontecendo do que qualquer outro serviço. Poderá aparecer na casa sem avisar e ter contato regular com a família. Participa de todos os encontros. Há voluntários da comunidade participando dos círculos. São criados relacionamentos profundos entre as pessoas da comunidade que participam como apoiadores e aqueles que estão lutando para ficar bem. Este programa existe há uns 11 ou 12 anos, Circle in Nogales. Existe um projeto, em Minnesota, que não sei bem como funciona. Estão fazendo círculos com homens que cometeram violência doméstica, e a organização não governamental que os conduz é Os Homens como Construtores de Paz, em Duluth.

Linda Mills era líder do Centro para Recuperação de Violência, na Universidade de Nova Iorque e foi consultora para o projeto em Nogales. Fizeram pesquisas nesse projeto e descobriram que era tão seguro quanto o que tratava de violência doméstica. Linda se envolveu com outro projeto na cidade de Nova Iorque, com a ala mais conservadora, em uma comunidade judaica. Os membros jamais chamam a polícia e não se envolvem com o sistema central. É uma subcultura que se autorregula ou não. Fizeram um projeto para usar o círculo ao lidar com a violência doméstica nessa comunidade, o qual não tinha nada a ver com sistema de justiça. Trabalhavam com o rabino, porque os membros da comunidade consultavam-no quando tinham problemas e ele tinha interesse em buscar a redução da violência. É importante lembrar que existem subculturas que irão se recusar a usar o sistema da cultura dominante. E o que acontece nesta cultura, com muita frequência, é invisível à cultura dominante. Nesse caso, podemos entrar na comunidade por uma porta completamente inesperada.

Tem outro enfoque que também está sendo usado em uma comunidade, que saiu do pensamento de Justiça Restaurativa: DVSD - Violência Doméstica, O Diálogo com os Representantes (substitutos). Nesse programa, aquele que foi vitimizado se encontra com alguém que cometeu uma ofensa semelhante, mas não com a pessoa que lhe causou o dano e, sim, com

uma pessoa diferente que cometeu o mesmo tipo de ação. E os diálogos com esses substitutos ou representantes do fato em si são poderosos. Alguns diálogos foram voltados para crimes extremamente sérios, tais como abuso sexual infantil e assassinato, e as pessoas que participaram desses diálogos vivenciaram transformações incríveis. Mesmo não sendo a pessoa que lhe causou o dano, ela faz descobertas nesse processo que é muito criativo.

Esses são os programas que lembro que trabalham violência doméstica. No início dos anos de Justiça Restaurativa, o movimento da violência doméstica era hostil à implementação da Justiça Restaurativa, o que vem mudando nos EUA. Existe uma abertura maior para se usar Justiça Restaurativa no tratamento dos casos de violência doméstica, pois percebemos o papel de cura que o círculo pode desenvolver nos casos desse tipo de violência.

Habilidade para quem é facilitador: É a habilidade para não saber as respostas. É a habilidade que não nos foi ensinada no nosso processo formal. Os círculos dependem do acesso à sabedoria coletiva, sendo essa a esperança do processo restaurativo. A sabedoria coletiva é muito maior do que qualquer sabedoria individual. Quando achamos que sabemos a resposta certa como facilitador, levaremos inconscientemente o processo restaurativo para chegarmos àquela resposta que achamos certa. E, ao fazermos isso, poderemos desviar da sabedoria coletiva. E isso é uma coisa imensa para pedir a nós mesmos. Toda nossa formação profissional é baseada em saber ter as respostas para tudo. Quanto mais sabemos as respostas, mais temos respeito e mais ganhamos. Recebemos mais poder. Estamos pedindo a nós mesmos para nos afastarmos da ideia de termos as respostas e termos a aprovação de nossas estruturas. Na essência, estamos pedindo a nós mesmos para irmos a um lugar que é classificado de incompetência. Não temos a resposta certa e não sabemos certo para que lado iremos, mas é nesse espaço que a sabedoria pode emergir e quando pensamos nisso nos ajuda a termos mais paciência.

Quando vamos a uma escola e os professores estão resistentes, lembramos a eles que estamos pedindo que se sintam incompetentes. Devemos sentir empatia pela resistência que eles oferecem. É um lugar bem desconfortável. E quanto mais trabalharmos para chegar aonde chegamos, é mais difícil para deixarmos isso de lado. Isto pode ser uma questão profunda de identidade, porque se não nos sentimos competente podemos nos sentir sem valor nenhum. É preciso coragem para entrar neste espaço de não sabermos a resposta. É muito importante ter paciência com nós mesmos e com os outros também.

Esse é um modelo que não se baseia na especialidade individual, na expertise individual. É um modelo baseado na sabedoria coletiva. Não está baseado num raciocínio intelectual linear. Ambas as culturas privilegiam a cultura intelectual e, com frequência, não reconhece nenhum outro tipo de conhecimento, mas, na verdade, nós usamos outros tipos de conhecimento o tempo inteiro em nossas vidas.

Não precisamos de nenhum pesquisador ou de nenhuma mãe a nos dizer que precisamos embalar nossos filhos. Não precisamos de pesquisadores a nos dizer quando estamos com fome ou quando precisamos comer. Há outras maneiras de sabermos e que são muito importantes para uma vida saudável. Esse modelo busca acessar os outros conhecimentos que temos. Tem sido um aprendizado, a partir das tradições indígenas, que nos ajudou a abrir a mente para outros saberes, porque parece que esta é uma maneira natural de viver das culturas indígenas. Sabemos que isto vem da observação, da nossa própria experiência de vida. É um mundo diferente.

A questão do trauma: Não sei no Brasil, mas nos EUA tem sido um tópico muito falado, especialmente nas escolas. Com o reconhecimento de que muitos alunos vão à escola carregando muitos traumas (e esta é uma conversa muito importante), também estou preocupada com o rumo que isto está tomando. Uma frase que estão usando é o processo de trauma informado. Há

dois tipos de traumas que o círculo pode oferecer cura: uma das grandes fontes de dor de trauma

é o sentimento de impotência completa, de não ter poder nenhum. Uma das maneiras de curá-lo

é oferecer a experiência de vivenciar o poder pessoal. O círculo é uma experiência de poder

pessoal positiva. Ser escutado com atenção é uma experiência de poder pessoal. Normalmente, na nossa cultura, somos escutados baseados no poder que temos. Se você está em um lugar de poder, de bastante poder, as pessoas vão parar e escutar nossa história. As pessoas que não detêm o poder, raramente têm a chance de serem ouvidas. A experiência de sermos escutados atentamente é relacionada ao poder pessoal. Não importa qual o objetivo do círculo, não há necessidade de falar a respeito de trauma. É um lugar de cura para as pessoas que têm se sentido desempoderadas, impotentes. Outra fonte de dor, muito profunda no trauma, e que é relevante para os círculos é a desconexão. Trauma é desconexão. Não só com a pessoa que causou dano, porque perdemos a confiança em todos. A cura requer que haja conexão e comunidade. Cada círculo, independentemente de seu objetivo, cria conexão, cria comunidade e, mesmo que não falemos sobre trauma, ainda assim, contribui para a cura. Nos EUA, estão falando em aumentar muito os profissionais de saúde mental nas escolas, porém há duas dificuldades em torno dessa questão. Primeira, que a maioria dos jovens não quer acessar um profissional individualmente para tratar de seu problema mental; segunda, que, embora possa ser uma parte muito importante para a cura da pessoa, o atendimento individualizado não cria comunidade. É necessário alocar

recursos para criar comunidade na escola.

Fizemos uma capacitação lidando com a transição de uma instituição de saúde mental para adolescentes, que foram transferidos para uma instituição de saúde mental para adultos. Na maioria desses adolescentes, os direitos parentais haviam sido eliminados. Eram considerados tutelados pelo Estado. Quando completavam 18 anos, acabava a tutela. A maioria deles já estava envolvida na vida nas ruas, já tinham tido problemas com a justiça. Criaram um programa e quem quisesse participar dos círculos poderia chegar e participar. Esses círculos aconteciam nas segundas, quartas e sextas-feiras. Depois que as pessoas foram treinadas, decidiram fazer um círculo de check-in na segunda-feira pela manhã, porque nos finais de semana era um caos.

Percebendo isto, decidiram fazer um check-in nas segundas, quartas e sextas-feiras porque eles procuravam muito menos o aconselhamento individual depois dos círculos de check-in. Eles conseguem dar apoio uns aos outros mesmo que tenham problemas mentais e que estejam batalhando para ter uma vida melhor. Ajudar aos outros ajuda a nos curar. É um recurso que estamos perdendo. Temos todos a capacidade de nos mostrarmos empáticos e nos mostrarmos que nos importamos com os outros. Não é necessário certificação e não requer escolaridade. Vemos que, nas escolas, os jovens podem resolver problemas que achamos que podemos resolver. Temos que ter certeza de que estamos sendo bem claros com relação à ideia de sabedoria coletiva. Não é em qualquer grupo que vamos acessar, porque também temos a capacidade para loucura coletiva. A sabedoria coletiva surge nos processos que são reflexivos e respeitosos. Essas são as características que precisamos ter.

Círculo de Conflitos: Vamos abordar um esboço de círculo de conflito que desenvolvemos depois de nossa última visita ao Brasil. Começamos com as boas vindas. Duas palavras que associamos ao círculo: hospitalidade e convite. Mesmo que alguém chegue atrasado para o círculo, damos as boas vindas e dizemos que estamos muito felizes pelas pessoas estarem aqui. No nosso trabalho, trazemos a sugestão do momento de atenção plena, no início do círculo. Um momento de estar parado. De alguma forma, quieto. Uma das maneiras de fazer isso é tocar o sino e fazer as pessoas escutá-lo até a última vibração, solicitando que levantem a mão depois de escutarem a última vibração, criando um momento de quietude e foco. Pedimos que respirem profundamente por duas vezes. Chamamos de momento mindfullness, no início do círculo. Em seguida, fazemos a cerimônia de abertura que escolhemos e apresentamos o objeto da (atenção plena) palavra, explicando como funciona e qual o seu significado específico. Se o facilitador colocar no círculo um centro explique-o e explique o que estiver sobre ele. A primeira rodada é a apresentação das pessoas, mesmo em lugares onde os participantes se conhecem. O facilitador convidará as pessoas para fazerem algo que não faz parte de uma conversa comum. Se o grupo já estiver se encontrado em círculos antes, podemos fazer uma rodada de check-in. Depois, a construção de valores. E, para um círculo de conflito, construiríamos a pergunta para chegarmos aos valores, focando especificamente no espaço: que valor você acha que nos ajudará a termos esta conversa sem causar danos maiores? Pedir valores para esse círculo, para essa conversa. Assim, ou haveria a construção das diretrizes, ou se traz algumas diretrizes prontas para dinamizar o processo. Podemos fazer a roda da medicina que é uma das imagens que melhor explica o processo circular e que o torna diferente de outros processos, para demonstrar que precisa haver equilíbrio no processo.

RODA DA MEDICINA

- Realizando planos - Momentos de atenção plena - Resoluções - Cerimônia de abertura -
- Realizando planos
- Momentos de atenção plena
- Resoluções
- Cerimônia de abertura
- Conexões
- Apresentações
- Valores
-
Diretrizes / acordos
4
1
3
2
- Perguntas norteadoras
-
Contação de histórias
(explorando o assunto)
-
Construindo relacionamentos
-
Impactos sofridos
-
Desenvolvimento de empatia

Aprendi essa imagem com os povos da primeira nação, mas é uma adaptação moderna da roda da medicina. Um dos grandes ensinamentos que a roda da medicina nos traz é a importância do equilíbrio em qualquer um dos lados. E a implicação disso é que vamos despender tanto tempo para o lado direito da roda quanto para o esquerdo, e que esse tempo será dividido igualmente entre as duas partes. O momento de atenção plena, cerimônia de abertura e as apresentações, no quadrante 1. Em seguida, os valores e as diretrizes ou as combinações. No quadrante 2, temos a contação de histórias. E na parte da contação de histórias, buscaremos o desenvolvimento da empatia. Quando as pessoas estão em conflito, elas têm filtros que impendem a compreensão total da outra pessoa com quem eles estão em conflito, lhes traz. Queremos desconstruir alguns desses filtros, se possível, antes de começarem a falar sobre as questões difíceis, para que eles possam escutar uns aos outros de maneira mais limpa.

Normalmente, depois das diretrizes, vamos para contação de histórias e as perguntas que são úteis nesse ponto são as que convidam as pessoas a compartilharem suas histórias. Pense em uma ocasião na qual você teve que deixar o controle de lado e desistir de ficar controlando; compartilhe uma história que você se sentiu fora de sua zona de conforto; compartilhe uma experiência de sua vida em que transformou um limão em limonada; uma história quando precisou ouvir algo muito desconfortável que alguém lhe trouxe e, depois, sentiu-se agradecido

por ter tido a oportunidade de escutar aquilo que foi difícil; uma experiência de um sentimento por meio do qual não se sentiu incluído; uma experiência quando tinha uma impressão muito negativa a respeito de uma pessoa e depois percebeu que nada daquilo era real, pois essa pessoa tinha muitas características positivas.

Essas são experiências humanas bastante comuns. Quando escutamos uma história, nos enxergamos nas vidas e nas experiências uns dos outros, o que pode começar a retirar um dos muros que fomos construindo que nos desconectaram com o outro. Essa é uma parte extremamente importante dos círculos de conflito e pode mudar a energia do espaço. Tentamos encontrar uma pergunta que comece pelas beiradas, que não foque no problema. Tomemos muito cuidado com as perguntas, para que as pessoas não pensem que já podem falar do problema. Se a situação está envolvendo adolescentes, porém há adultos no círculo, faça uma rodada de contação de histórias que levem esses adultos de volta a sua adolescência: compartilhe uma história de sua vida quando era adolescente e não se sentiu incluído; compartilhe uma história quando era adolescente e se “encrencou”; uma experiência de quando era adolescente e entrou em conflito com os seus responsáveis.

Assim, estaremos auxiliando os adultos a voltarem e a colocarem os sapatosde um adolescente novamente. Essa é uma forma de um colocar o sapato do outro, mas ainda não envolvendo o problema. Iremos, simplesmente, auxiliar para que um veja a humanidade do outro.

Outra condução importante nesse momento do círculo é enfocar o elogio depois daquilo que as pessoas trazem. Para a pessoa pode ser negativo, mas nós podemos demonstrar que vemos um lado positivo. O círculo trata do Joãozinho que se meteu num “rolo” e tudo parece negativo, mas fazemos uma rodada perguntando às pessoas qual o momento em que viram o Joãozinho fazendo alguma coisa boa ou trazendo uma qualidade que o Joãozinho tenha. Podemos ter empatia e trazermos aspectos positivos das pessoas que estão sendo trabalhadas (chama-se investigação apreciativa).

Para apresentar a rodada de contação de história, podemos dizer: queremos buscar a sabedoria das nossas experiências de vida. Para nos ajudar nessa situação, convidamos a exporem algumas das experiências que irão nos ajudar na resolução. Feito isso, trabalhamos no problema em si. É nesse ponto que as emoções negativas vão se liberar. Fazemos as perguntas, convidando as pessoas a relatarem que impacto teve essa ação em suas vidas. E tem que passar mais de uma rodada. Talvez, tenhamos que fazer muitas rodadas com essas perguntas, porque poderá demorar para que as pessoas realmente digam aquilo que estejam sentindo: como você foi afetado pela situação? Como você se sente em relação à situação? Podemos convidar as pessoas a falarem sobre tais questionamentos a partir das quatro partes que formam o nosso ser: como você foi afetado mental, espiritual, física e emocionalmente por essa situação? E quando achamos que as pessoas tiveram a chance de liberar um pouco seu sentimento, queremos verificar se elas foram tão fundo na questão como esperamos que elas irão. Esta pergunta auxilia muito: o que tem sido

mais difícil nesta situação para você? As pessoas irão trazer, provavelmente, o que há de mais profundo. Também estaremos colocando um foco: o que foi mais difícil? Iremos passar para resoluções e fazer planos para que as situações fiquem melhores. Perguntas assim auxiliam a ter foco nas necessidades mais profundas. Na transição para chegarmos à elaboração de um plano, deveremos trabalhar sobre responsabilidade. Como cada um de nós contribuiu para que a situação acontecesse e como cada um pode, assumindo responsabilidades, agir diferentemente para que não se repita? O que não está sendo dito e está nos impedindo a chegar a uma boa solução? Ajudamos as pessoas a pensarem onde está a responsabilidade para que possamos ir adiante.

Quando temos a sensação de que conseguimos explorar o problema e de que as emoções negativas já foram liberadas, podemos fazer uma pergunta que servirá de transição para a próxima etapa. Mais ou menos ao final da terceira fase é que iremos utilizar a linguagem de que reconhecemos as dificuldades e batalhas que cada um enfrenta. Reconhecemos a coragem de cada um por estar aqui tentando encontrar soluções e falamos que a parte mais difícil passou. Falar honestamente sobre as dificuldades e as dores é a parte mais difícil, por isso acontece ao final da terceira parte.

Passamos para a pergunta direta: o que precisamos fazer agora para que possamos ir adiante de uma forma legal? Esse questionamento também pode levar a várias e várias rodadas. Quando voltar o objeto da palavra, diremos que vamos fazer uma nova rodada para que possam responder àquilo que foi dito ou acrescentar algo. Se verificarmos que as pessoas estão oferecendo sugestões do que os outros têm que fazer, podemos fazer uma nova rodada perguntando o que o participante oferece para que a situação fique melhor. Ninguém é obrigado a fazer alguma coisa, mas estará trazendo a atenção para aquilo que eles possam fazer. Vamos fazendo rodadas, solicitando às pessoas que tragam sugestões e vamos anotando as possibilidades que estão sendo sugeridas. Precisamos ter em mente todas essas possibilidades. Quando sentimos que as pessoas estão trazendo aquilo que elas têm possibilidade de trazer, podemos fazer um resumo das principais ideias abordadas. Trabalharemos nas partes das ideias trazidas para ver se há consenso. Escutamos as ideias a, b e c. Havia bastante apoio para ideia a. Todos concordam? O objeto da palavra é passado, perguntando se consegue conviver com a ideia a? Definimos o consenso quando as pessoas conseguirem conviver com a decisão. Não é necessário que todos estejam entusiasmadíssimos com a proposta, mas que, aos sair, todos consigam apoiar a execução da proposta. Perguntamos: conseguem conviver com ideia a? E se não conseguem conviver com a ideia a, precisamos saber qual a sugestão de modificação para que as pessoas viabilizem conviver com ela. No círculo, o consenso só existe se a pessoa que não conseguir conviver com a ideia apresentada se manifestar e afirmar que não consegue. Essa pessoa tem obrigação ativa em ajudar ao grupo a encontrar alternativa para que ela possa conviver. Se a pessoa tem um interesse e expressou-o ao grupo e as pessoas escutaram e estão tentando atender a seu interesse, mas não sabem como atender, a pessoa deixa de lado o seu interesse e apóia a decisão do grupo a respeito

dos demais pontos. Os grupos que se encontram consecutivamente têm a obrigação de buscar atender aos interesses que foram manifestados em outras ocasiões ou de ajudar as pessoas a pensar em outras possibilidades para atender a tais interesses. Nesse modelo de consenso, os indivíduos têm que prestar atenção ao impacto que causam ao dizer não. O grupo tem que dar atenção ao indivíduo que deixa o próprio interesse de lado para atender ao interesse do grupo. Em cada parte do plano que o grupo está organizando será feito a mesma coisa para ver se há consenso em cada ponto. O plano será relativo aos itens que todos tenham interesse. Portanto, é importante resumir o plano passando o objeto da palavra para verificar se todos estão bem com o que foi estipulado. Se percebermos que todos estão dizendo que sim, mas a sua linguagem corporal mostra que não, fazemos uma pergunta de escala (vem da terapia breve com foco na solução): em uma escala de zero a dez, onde zero significa que o plano não irá funcionar e dez que o plano não tem como falhar? Que número daria para possibilidade de sucesso? As pessoas podem estar dispostas a oferecer um número ao invés de dar uma razão (muitas vezes por não conseguirem dar uma razão). Não solicitamos que expliquem. Se obtivermos números baixos (quatro ou cinco) não são suficientes para dizer que alcançou consenso. Façamos mais uma rodada. Que mudança neste plano faria com que sua nota crescesse? Verificamos as mudanças no plano que fariam com que as chances de sucesso fossem maiores. Com qualquer plano precisamos deixar claro como será feito o monitoramento. Como verificaremos se está funcionando. Recomendamos que, em qualquer círculo de conflito, programemos uma data para retornar ao encontro. Duas semanas ou o que fizer sentido, de acordo com o plano. Podemos celebrar aquilo que estiver funcionando e, se não estiver funcionando, verificaremos, com o grupo, quais as mudanças necessárias para que as pessoas assumam a responsabilidade de auxiliar o plano a funcionar. Para a última rodada de check-out, a pergunta é: como estão se sentindo em relação ao círculo? Em seguida, é feita a cerimônia de encerramento.

Contação de história: Por que é tão importante no círculo? Uma das coisas a respeito de história é que temos um jeito diferente de ouvi-las, é uma maneira diferente daquelas quando escutamos conselhos ou até o que é racional. Se alguém está tentando nos ensinar ou nos aconselhar, temos um filtro em nossa frente que nos faz decidir se concordamos ou não com o que estamos ouvindo. Quando não concordamos, simplesmente deixamos de ouvir. Com a contação de histórias, o filtro sai da nossa frente. Temos que escutar a história até seu final para saber qual a lição que está nos trazendo. Pode ser que concordemos ou não, dependendo do significado que ela nos traz, mas a história já foi absorvida. E o motivo de retirarmos o filtro é porque achamos que temos controle de determinar o significado da história, mas estamos muito mais abertos a aprender com histórias do que com o ensino cognitivo.

A contação de história nos engaja como seres inteiros - coração e espírito. O ensinamento cognitivo nos engaja principalmente à parte mental. Entendemos que essa é uma das razões do porquê de o círculo ser tão poderoso. É a contação de história em um espaço limpo e respeitoso. Quando alguém começa a contar uma história, mesmo como adultos, relembramos a contação da

infância e, de forma inconsciente, nosso corpo relaxa. O quadrante em que temos a contação de história pode ter um impacto bem significativo referente ao que vamos atingir no círculo.

3.1. PERGUNTAS

a) Esta relação de trazer estes rótulos: pessoa de cor, pessoa desprovida de papéis têm relevância para o círculo ou acaba surgindo? Nossa experiência mostra que surge naturalmente, porque quando falamos as verdades e trazemos a nossa história para dentro do círculo, faz com que mostremos quem somos e como pensamos. A nossa história formata nossa maneira de pensar e, no círculo, somos todos iguais. A experiência que cada um tem lá fora não é diferente. Existe muita dor, e o círculo, muitas vezes, é o lugar em que as pessoas sentem que podem expressar sua dor, trazendo a realidade para conscientização das outras pessoas do círculo.

b) Como está sendo visto, nos EUA, a Constelação Familiar, com relação à resolução de situações de ancestrais? A ideia de resolver questões do passado é compartilhada pela visão que temos do círculo e da constelação familiar. Temos pouca experiência com constelação familiar. Estávamos em um congresso em que foi apresentado este processo. Todavia, não sabemos muito a respeito. É um processo diferente, mas o vemos como uma forma de compartilhar valores e princípios dos círculos. Tem sua própria maneira de alcançar seus resultados.

Um fator que nos deixa contentes a respeito dos movimentos de Justiça Restaurativa é ver as ideias emergindo com os movimentos, ou seja, o movimento da atenção plena compartilha dos mesmos valores básicos que temos. Há muitas maneiras diferentes que as pessoas têm de chegar à mesma visão. Quanto mais, melhor. Alguns processos funcionarão melhor com algumas pessoas; outros para outras pessoas e muitos processos podem ser combinados com o círculo. Pode haver um processo específico e utilizaremos o círculo para refletir sobre o que aconteceu no outro processo. É um processo poderoso para trazer reflexões de outras experiências e reforça a integração do aprendizado.

c) É possível trocar de facilitador? Não queremos que o círculo fique dependente de um facilitador. A liderança compartilhada é importante. Os participantes dos círculos são os mesmos e precisarão ajudar o novo facilitador e assegurar-lhe de que é importante saber o que foi tratado antes. É possível trocar de facilitador, porque todos são responsáveis pela qualidade do espaço.

d) Como facilitador não provocamos o assunto, quando nos processos judiciais, abordamos a finalidade do encontro. Iniciamos as práticas restaurativas baseadas na Comunicação Não Violenta, vendo o modelo da Nova Zelândia. Um modelo quase acusatório, inquisitivo e o

Dominic Barter resistia muito em colocar o relato do fato na instalação do trabalho. A linguagem também era afetada, pois utilizava autor e receptor ao invés de vítima e ofensor do fato. Havia uma dissociação do que fazíamos e não tínhamos clareza em confrontar. Decidimos que deveríamos abordar o fato. Como proceder? É muito importante ter clareza do propósito do círculo. Se fizermos um círculo e justarmos uma pessoa que causou dano a outra, isso é apresentado de maneira muito clara. O que não trazemos à tona é a informação recebida no pré-círculo. Quando falamos do objetivo do círculo, ele deverá ser claramente estabelecido. O lugar mais comum é no local de trabalho. Quando usamos o círculo para resolver conflitos no local de trabalho, faremos pré-círculos com todos que estiverem presentes no círculo, para que falem sobre seus problemas, os quais esperam que resolvamos as coisas por eles. Nessa situação, eles precisam falar das suas preocupações. Diferentemente do que ocorre no sistema de justiça, em que temos uma situação bem clara de dano causado por uma pessoa à outra, já que elas não têm o mesmo nível de responsabilidade. Queremos deixar claro. Mas também não queremos passar e passar e não termos clareza do que estão fazendo. Clareza e falar a verdade são fatores muito importantes no círculo. Queremos, na medida do possível, que a verdade seja revelada pelos participantes e não pelo facilitador.

e) Qual o número mínimo e máximo de participantes para a realização de um círculo? No mínimo, duas pessoas. Dos meus três filhos (hoje todos têm mais de 40 anos), cometi mais erros com a filha do meio. Quando se tornou uma jovem adulta, tínhamos um relacionamento difícil e usávamos o processo circular só para nós duas, às vezes, e nos ajudou a falar e a escutar de um jeito melhor. Fazíamos uma cerimônia de abertura e usávamos o objeto da palavra, o que ajudou. Hoje temos um bom relacionamento. Mas tivemos que fazer muitas reparações.

Em um círculo de conflito, recomendamos que convidem as duas partes que estão em conflito, no mínimo um apoiador para cada parte e, provavelmente, dois facilitadores. Às vezes, pode ser apenas um facilitador. Convidamos também uma ou duas pessoas que chamamos de terceiros e que se importam com as duas partes, pois é importante que tenham bom relacionamento com elas e que não tomem partido de nenhum dos lados. Essas pessoas ajudam muito no círculo, pois as partes conseguem escutá-las quando não conseguem escutar um ao outro. Os terceiros podem expressar sua dor quando veem os lados se magoando. Isso traz sentimento de empatia para o grupo. Outra pessoa que podemos convidar é alguém que já tenha passado pela mesma experiência, mas que está bem. Assim, teremos em torno de oito pessoas. É uma base muito forte para um círculo de conflito. Se o grupo é muito pequeno, fica mais difícil de diluir o que as pessoas trazem.

um círculo de conversa (não conflitivo), cujos encontros ocorrem

repetidamente, o máximo seria de oito a 15 pessoas. Nos círculos de circunstâncias especiais, como de cura para falar de abuso sexual, deve haver de cinco a sete pessoas.

Em

Nas escolas, fazemos círculos com todos os alunos da sala de aula, independentemente de quantos alunos houver, por isso há círculos grandes. Essas são circunstâncias especializadas. Há uma escola chamada Sóbria, porque todos que ali estão passaram por tratamentos de droga. É uma escola pequena. Quando aprenderam o processo circular, usavam os círculos de formas diferentes. Usavam para ensinar, para resolverem conflitos, para construir comunidades. Usavam quando alguém tinha tido uma

recaída. O aluno chega na segunda-feira pela manhã e vai ao conselheiro contar que teve uma recaída no fim de semana. O conselheiro escuta o aluno e as circunstâncias que o levaram a recair. A partir daí, juntam toda a escola para fazer um círculo. Todos participam. Entregam o objeto da palavra ao aluno que recaiu para ele explicar o que aconteceu e qual seu sentimento a respeito. O objeto da palavra passa pelo círculo de 70 pessoas. Cada pessoa fala sobre o que aquela situação traz para ela. Pode ser que muitos passem o objeto da palavra sem se manifestar; outros podem dizer que a recaída os deixa com muito medo, pois era o seu espelho; outros podem dizer que o aluno vai ficar bem. Fazem uma rodada e conseguem fazer isso porque já têm experiência do processo circular na escola. A primeira vez que ouvimos essa história ficamos surpresos, pois cada professor deixou de lado seu planejamento e foi juntar-se ao círculo, porque aquele aluno não estaria em todas as salas.

E, ao pensarmos mais sobre casos como esse, percebemos que em uma comunidade em

recuperação a recaída de qualquer membro vai perpassar na comunidade toda como se fosse um tremor. Ninguém consegue focar no aprendizado. Haveria rumores, ruídos. Dessa forma, fica transparente. As pessoas conseguem expressar sua ansiedade e conseguem retornar e focar na aprendizagem.

Outro círculo de 70 pessoas que fizemos parte foi em um congresso estadual de Justiça Restaurativa em Minnesota. Alguém falou algo que magoou os afro-americanos que estavam no grupo. No momento em que aconteceu, ficou estranho, mas ninguém se manifestou. Ao final do dia, havia muitas conversas colaterais a respeito do acontecido. Tínhamos que fazer algo a respeito. A previsão era de uma hora para o encerramento do processo. Reunimos as 70 pessoas no círculo e passamos o objeto da palavra perguntando

o que havia acontecido durante o dia que não estava bem para as pessoas. Muitos

passaram o objeto da palavra porque não sabiam o que dizer, mas alguns reconheceram o que havia acontecido e outros expressaram empatia àquela pessoa que havia causado o

desconforto, já que ela não teve intenção de causar dano. Fizemos uma só rodada e, após,

o encerramento. Naquela noite, Nancy Riestenberg ligou e disse que não havíamos

terminado, porque as pessoas não estavam se olhando. Esse é um jeito de saber se conseguimos terminar ou não. Voltamos, na manhã seguinte, retomamos o círculo de setenta pessoas e processamos a situação com mais profundidade. A duração foi de quatro horas sem intervalo. Às vezes, quando trabalhamos em situações como essas, não tem como parar. Quando havia necessidade, as pessoas deslocavam-se ao banheiro, sem interrompermos o círculo. Nessa rodada de quatro horas, muitos trouxeram experiências

de traumas anteriores e foi quando começamos a entender que uma situação menos séria, poderia nos dar a oportunidade para curarmos traumas mais profundos. Histórias muito profundas foram trazidas à tona. Particularmente, referiam-se a histórias de fazer parte de um grupo que era oprimido. Foi um círculo poderoso. Não desejamos que aconteça, mas o aprendizado foi muito profundo!

Outro círculo muito grande vem do Canadá. Jane trabalhava no sistema prisional e, no início dos anos noventa, só existia uma prisão para mulheres naquele país. Tiveram uma crise a respeito das instalações da prisão e, por isso, decidiram fechá-la e abrir cinco prisões menores em diferentes regiões. Uma dessas instalações estaria baseada na cultura da primeira nação, porque havia muitas pessoas presas da primeira nação, devido a traumas históricos. Eles designaram uma força tarefa para planejar tudo o que deveria ser incluído. A maior parte dessa força tarefa era composta por mulheres da primeira nação e muitas delas já haviam passado pela prisão. Jane foi designada como chefe dessa força tarefa. Decidiram que todo o processo de planejamento seria realizado em círculo. Designaram duas anciãs da primeira nação para guiá-las nesse processo. Encontravam-se uma vez por mês, em diferentes partes do Canadá, até que escolheram o local para construção da prisão, onde continuaram a fazer as reuniões. Quando estavam para mudar suas reuniões para esse local, as anciãs disseram para Jane que deveriam abrir a força tarefa para qualquer pessoa que quisesse fazer parte desse processo. Jane disse que poderiam aparecer duzentas pessoas. E a anciã respondeu: “temos que abrir esse processo para todos que desejam fazer parte dele.Fizeram a reunião no ginásio da escola e compareceram duzentas pessoas. O objeto da palavra passou para que todos tivessem voz. Foi uma reunião de dois dias, na qual passaram escutando as perspectivas e as preocupações de cada pessoa. E, nos meses subsequentes, quando voltaram a se encontrar, cerca de quarenta pessoas faziam parte desses encontros. Não houve resistência alguma daquela comunidade para a construção da prisão. Todos se sentiram escutados e pertencentes ao processo. Foram circunstâncias muito especiais. O mais importante nesse exemplo é que o número deverá ser grande o suficiente para incluir todos aqueles que, de outra forma, poderiam atrapalhar o processo por não terem sido incluídos. Até duzentos. Foi realizado em ginásio de esportes e colocaram todos em círculo passando o microfone. Na escola Sóbria, as famílias participam também? Não nesses círculos, ainda mais quando um aluno diz que recaiu. Nesse caso, reúnem a família com o aluno específico em um círculo de recaída, que é feito imediatamente após o aluno ter admitido e reconhecido que recaiu. Num grande círculo, as pessoas não são preparadas previamente para participarem do processo circular? Não.

f) Como se inicia esse processo, uma vez que não há os pré-círculos para que as pessoas estejam presentes? Esse seria um círculo de conversa, uma oportunidade para cada um expressar a sua perspectiva. Não se trabalharia nenhum conflito individual. Não é um

círculo para tomar nenhuma decisão. Na maioria dos círculos de conversa, não há necessidade de fazer preparação com as pessoas. Não significa que o círculo não seja preparado. Existe muita preparação para se chegar ao círculo, mas não preparação dos indivíduos que participarão dos círculos. Quando começamos o círculo, dizemos que o mesmo iniciará de uma maneira intencional para nos ajudar a nos comprometermos com o espaço e a sermos verdadeiros uns com os outros, fazendo a cerimônia de abertura. Explicamos como funciona o objeto da palavra e, se estivermos utilizando um centro, explicaremos os elementos que o compõe. Foram realizados esses círculos centenas de vezes e as pessoas que participaram não tinham tido experiências anteriores. Explicamos o objeto da palavra, a cerimônia de abertura e o porquê de estarmos sentados em círculo. Isso teria o sentido de conexão para darmos a todos a igual oportunidade de falar, a importância de que cada um consiga enxergar todos os outros participantes. No formato de círculo é que conseguimos com que cada um enxergue todos os outros participantes. Só isso que precisamos explicar.

g) Qual a duração de um círculo? Depende das circunstâncias. Nos EUA, não teríamos condições de conduzir um círculo que demorasse sete horas. Seria extremamente incomum, mas não é incomum a realização de três ou quatro círculos de duas ou três horas cada um para tratar o mesmo problema. Fizemos um círculo de conflito de família que envolveu três irmãos adultos com idade aproximada de cinquenta anos e a mãe com noventa anos. Havia conflito na família sobre propriedade e cuidados com a mãe. A mãe não conseguiu participar e nos sentamos em círculo por mais ou menos quarenta horas no espaço de três semanas. Tinha dias que fazíamos duas horas de manhã e duas horas à tarde. Eles tinham muitas situações para resolver, e tivemos sucesso em conseguir desatar todas tudo o que eles estavam trazendo, porque havia implicações legais em relação a essas propriedades e eles evitavam levar essa situação para o sistema de justiça. Foi um processo muito interessante. Mais ou menos uma montanha russa. Eles conseguiam conversar a respeito de alguns problemas e, em certos momentos, sentiam-se melhor. Entraram em alguns acordos, porém quando abordávamos uma questão mais difícil, a situação despencava. Construímos um caminho para sair de alguns pontos, chegamos a questões mais difíceis que não tinham a ver com as propriedades e, sim, com a mãe. Esses momentos ficavam mais complicados. Quando retornamos na manhã seguinte, o filho mais velho, que havia sugerido o uso do círculo para resolver o conflito, disse que estava esperando que sua irmã desistisse, porque ele não poderia desistir. De alguma forma, depois dessa explosão, conseguiram se conectar. O tempo é relativo. Se as pessoas estão ficando cansadas, devemos encerrar o círculo e marcar outro encontro para evitar que elas concordem com algo que, na verdade, não concordariam. No dia seguinte, poderiam desonrar essa decisão. Assim, não podemos exigir que as pessoas fiquem tempo demais.

Muitos dos círculos acabam acontecendo à tardinha, início da noite, para que os

voluntários da comunidade possam fazer parte. De duas horas e meia a três horas é um bom tempo de duração. Não tentamos fazer tudo num só círculo, pois, às vezes, as pessoas

se reencontram a cada duas semanas e durante meses.

h) Gostaria de saber sobre a duração do procedimento em relação à série de encontros para o contexto do processo judicial. No âmbito judicial, às vezes, precisamos oferecer soluções muito pragmáticas. Estaremos com um processo; portanto, teremos um juiz e um advogado esperando uma resposta. Dentro de um processo judicial, imaginamos que é um procedimento com começo, meio e fim. Sabemos que os círculos são maneiras sofisticadas de resolver problemas. Uma abordagem circular bem conduzida pode eliminar um conflito

que traria muitos processos, mas a realidade é muito difícil. São enviados muitos processos

e o trabalho da Justiça Restaurativa é insignificante diante do número de processos. Dentro da visão pragmática, um círculo poderia trazer novas e novas questões. Diante disso, há

critérios ou um foco para que se estabeleça o começo, o meio e o fim do círculo? Não conseguimos usar o círculo em todos os casos, têm casos demais. Há um trabalho muito intenso a ser feito, especialmente no início. Temos que prestar atenção nos casos que são encaminhados para o círculo. Ele demora mais, mas tem mais poder. Faz mais sentido usar

o processo para situações mais complexas, como aquelas que apresentam dificuldades

crônicas em uma família, na qual muitos membros estão dentro do sistema de justiça ou a polícia tem que comparecer àquela casa muitas vezes. Essas são situações que precisam de respostas mais profundas. Mas não temos certeza se terá um princípio, um meio e um fim. Quando formos usar círculo em um caso particular, queremos que todos estejam envolvidos: a família, a família extensa, os vizinhos. Quando participarem do círculo que estivermos facilitando, aprenderão o processo e poderão continuar o seu próprio círculo depois que não estivermos mais lá.

Equipamos a comunidade de apoio que continuará trabalhando com a pessoa que está com problema, para usar o círculo na sua vida. Construímos as capacidades e as habilidades nas comunidades para que continuem o trabalho. É um processo, de longo prazo, mudar vidas que estão nesse nível de dificuldade.

Vou dar um exemplo de escola e de trabalho dentro das limitações da estrutura escolar. A maior questão das escolas é o tempo. Não dá tempo. Não temos tempo. Alguns exemplos referem-se às pessoas adaptando processos para driblar a questão do tempo. Não sei se dará para ser aplicado no caso do fórum, porque na escola tem a mesma comunidade sempre se encontrando. Mas demonstra criatividade de certa forma. Em uma escola fundamental, em Minnesota, tem uma professora de música que foi treinada em

círculo. Suas aulas são de 25 minutos. Quando o grupo termina a aula, todos saem em fila,

e o outro grupo já está esperando para entrar, sem nenhum minuto entre uma aula e

outra. A professora aprendeu o círculo e desenvolveu um jeito próprio de usar: quando os

alunos entram, sentam em círculo e passam o objeto da palavra, os quais dizem o nome e uma ou duas palavras de check-in. Enquanto o objeto da palavra passa, ela consegue respirar e se organizar para sua aula. Antes de desenvolver essa prática, ela precisava de sete a oito minutos para acomodar a turma e iniciar a aula. Com a prática, demora somente cinco minutos e consegue ir para o conteúdo mais rápido. Conto essa história há anos. É um exemplo bom e percebemos que nesse círculo a professora é especial. Ela tem muitos alunos e os alunos que são quietos nunca seriam vistos, mas com o objeto da palavra passando e cada um dizendo seu nome, cada aluno é visto. Essa é uma ideia poderosa.

Trabalhamos com as condições que temos e tentamos segurar a essência daquilo que realmente é importante no círculo. Estar totalmente presente, um perante o outro e

certificar-nos de que cada um tem voz para que todos se sintam respeitados. Não sabemos

o suficiente como funciona o sistema no fórum, mas temos confiança nas pessoas que irão descobrir a forma de trabalhar.

i) Qual o número de pessoas para uma formação? No treinamento básico, o número máximo seria de 25 pessoas, porque para entender o potencial profundo do círculo é preciso vivenciá-lo com o número de pessoas que permita que nos aprofundemos e que consigamos a conexão pessoal profunda. Se não houver essa oportunidade, pode ser que não consigamos entender o potencial e a profundidade que o círculo tem. Nem todos os círculos atingirão a profundidade que obtemos durante a capacitação. Mas, tanto quanto possível, queremos proporcionar às pessoas a vivência da profundidade que se pode alcançar em um círculo. Esta é a primeira vez que temos tantas pessoas em um treinamento. Com vantagens e desvantagens. Eu não consigo escutar as histórias de todos

e vocês não conseguem escutar as histórias todas uns dos outros. Isso é o que acontece na

capacitação. Vinte e cinco pessoas, no máximo, para conseguirmos fazer as rodadas e ouvir

cada um. As vantagens com esse número é o nível de energia e a sensação que se dá às pessoas que estão sós. Muitos estão nesta jornada juntos. Quando há oportunidade de compartilhar, temos muito a aprender. Sabemos da profundidade do círculo, por isso podemos nos reunir com tantas pessoas como estamos aqui.

j) Voluntariedade é um dos princípios da Justiça Restaurativa. Quero focar nos círculos não conflitivos, menos complexos de conversação. Minha prática tem demonstrado que podemos perguntar quem quer ficar no círculo. Não sei quantos ficarão. Temos percebido

e tem dado certo que em círculos menos complexos o objeto da palavra garante esse

princípio, desde que o facilitador respeite a pessoa que decidir não falar. Pela oportunidade de fala e de escuta, a pessoa tem a voluntariedade de participar ou não e se

quiser sair tudo bem. Não enfatizo essa possibilidade no início, mas algumas pessoas, no check-out, dizem que se não estivessem ali, se tivessem tido a oportunidade não teriam vivenciado o momento. Qual o seu comentário a respeito? Falamos em voluntariedade na

Justiça Restaurativa, mas a realidade é que as pessoas estão em um sistema coercitivo. É

uma questão de escolha, ao invés de ser totalmente voluntário, porque prefeririam não estar naquele sistema de todo. Não é que estejam emocionados em estar naquele lugar. Ao invés de fazer de conta que é voluntário, oferecemos às pessoas algumas escolhas, porque nos EUA, que é o nosso sistema, ou você faz isso ou você vai para o juiz. Em um círculo de conversa, a voluntariedade fica menos clara. E se perguntarmos se a pessoa quer

ir ao círculo, mesmo que nunca tenha participado? Ela não faz ideia da resposta sim ou

não, pois para ela “tanto faz”. Até que tenhamos vivenciado o círculo, não é uma escolha informada. Não tem problema pedirmos que as pessoas sentem em círculo uma vez na vida, porque permitiremos que elas passem a vez, se escolherem passar a vez. É uma experiência de autonomia muito importante na prática. Com o passar do tempo, começa a ficar mais complicado. Se estivermos no local de trabalho e for tomada uma decisão de que um conflito será resolvido em círculo como qualquer outra situação, é uma condição que existe naquele local. É assim que resolveremos os conflitos. Não podemos implementar isso da noite para o dia. Deve ser um processo demorado para que as pessoas possam se ajustar à mudança. Poderíamos dizer, simplesmente, que fizemos nossas reuniões de trabalho em círculo e é claro que todos precisam participar das reuniões de trabalho e, ao mesmo tempo, também não se pode forçar as pessoas a irem a um lugar onde elas não querem estar. Mas, se essa for a circunstância, precisamos permitir que as pessoas falem a respeito de sua resistência e precisamos respeitar que elas veem de maneira diferente. Ouvimos pessoas falarem que os alunos que não querem participar do círculo farão outra atividade e eles acabam por entrar no círculo por vontade própria. É bom que sejamos espaçosos nesse tipo de questão. Dar tempo às pessoas. Permitir que elas expressem o seu desconforto. Ouvimos histórias de alunos que empurram sua cadeira para o fundo da sala, de aluno que virou de costas para o resto do círculo. Isso é aceitável. Aceitamos as pessoas no ponto em que elas estão. E, tanto quanto possível, permitiremos que elas encontrem o seu próprio espaço dentro do círculo.

k) Trabalho com processos judiciais e temos recebidos casos envolvendo adolescentes que cometeram ato infracional em que a vítima é criança. Sabemos que a criança não tem o

entendimento e o preparo para participar de um círculo, caso fosse voluntária. Qual sua opinião sobre círculos coletivos, tendo como vítima a criança? Qual a idade mínima para participação de círculos conflitivos? As crianças podem, a partir de bem jovens, participarem de círculos de conflitos para adquirirem experiência para falarem sobre o que aconteceu. É necessário que saibam que não precisam manter segredo do que aconteceu e

a participação delas é importante para que tenham consciência de que elas não fizeram

nada de errado. Precisam ter um apoio muito forte e ter a permissão de saírem do círculo a qualquer momento. É necessário fazer uma preparação (pré-círculo) cuidadosa para que as crianças participem do círculo. Se não quiserem participar, ainda é possível fazer o círculo com a participação de irmãos e membros da família para descrever o impacto que causou

naquela criança. Há também a possibilidade de participação de um adolescente ou de um adulto jovem que teve a mesma experiência quando muito jovem pra falarem como se sentiram. Não há necessidade de dependência da pessoa que foi vitimizada para falar no sentimento e no impacto da situação.

As crianças já podem participar, a partir de quatro anos, como vítima ou ofensor. Dependerá da criança e da situação. Houve um caso em Caxias do Sul que uma criança de três anos participou e foi muito significativo, pois a situação envolvia os pais, os quais não estavam participando do círculo. Todas as crianças estavam sentadas juntas em círculo, com a participação também de alguns serviços. A criança de três anos foi quem revelou a verdade em relação ao que estava acontecendo com eles. Uma das coisas que a criança de três anos falou depois do círculo demonstrou que entendeu o que estava acontecendo.

l) Em um círculo com juízes, discutimos as questões de gênero. O círculo teve duração de cinco horas. Estabelecemos uma conexão profunda, mas ficamos indignadas porque não tivemos rodadas suficientes para discutir questões levantadas pelos colegas homens; e, à noite, fizemos rodadas entre as mulheres até que pudéssemos esgotar o assunto. Quando temos grupos maiores de pessoas, demora muito mais. Ficamos equilibrando o tempo e a profundidade.

m) Em uma escola de ensino médio, onde havia acontecido, várias vezes, roubos de celulares, houve uma agressão física entre dois adolescentes. Fizemos um círculo. Chamamos as suas famílias porque estava tendo ameaça de morte. Achamos importante realizar o círculo no mesmo dia do acontecido. Fizemos os pré-círculos com todos e, na hora do círculo, o adolescente que sempre teve um histórico de bom aluno disse que havia roubado o celular. Justificou dizendo que tinha uma namorada e não tinha dinheiro para pagar o motel. Estava muito arrependido. O outro adolescente, que teve o celular roubado, falou que sua chateação se dava porque havia perdido todos os seus contatos, pois era traficante. Jamais pensamos que iriam aparecer essas histórias no círculo. O resultado foi tranquilo porque o adolescente que roubou iria ressarcir o outro jovem. O dilema foi depois com os adultos. O que fazer? Não denunciamos nenhum dos adolescentes. Tenho experiência com socioeducação e sabemos o que acontece nesses casos. Acompanhamos o adolescente que roubou e ele conseguiu frequentar a universidade. O outro adolescente esteve em outra situação e tivemos que encaminhá-lo. O policial, que havia realizado curso de Justiça Restaurativa, disse que, na situação do roubo, foi prudente não encaminhá-los à Delegacia, pois os dois alunos teriam sido presos. Essa é uma das questões mais espinhosas a respeito de facilitar círculos. O processo circular vem de um paradigma diferente. No círculo prometemos que cada um será tratado com dignidade, independente do ato praticado. Se, na segurança desse espaço, eles revelarem que causaram dano em outro lugar, nesse caso encaminhamos ao sistema de justiça. Não podemos prometer que serão tratados com dignidade, pelo menos, nos EUA. Geralmente, o sistema não trata as pessoas

com dignidade. Consideramos esse problema bem difícil, porque, em alguns casos, temos obrigação de enviar relatórios e temos que ter consciência de que deixaremos a situação pior. Estávamos fazendo uma capacitação avançada com facilitadores que trabalhavam em locais muitos difíceis, e muitos do grupo eram afro-americanos. Quando fizemos a pergunta de quais eram os desafios como facilitadores, uma das senhoras compartilhou uma história de um aluno que estava com mau comportamento na escola. Fizeram um círculo e nele o aluno revelou que sua família estava morando em um prédio desocupado. Essa seria uma situação insegura para o aluno, e a facilitadora deveria mandar um relatório ao serviço de proteção das crianças, consciente de que o aluno seria afastado da família, o

que seria pior para todos. Assim, não enviou o relatório. Ela e outros adultos, nos dias que se sucederam, conseguiram encontrar uma moradia para a família para que pudessem estar seguros. Mas não relatou. No dia seguinte da capacitação, passei o objeto da palavra

e perguntei sobre dilemas éticos no trabalho. Uma senhora afro-americana, que era

promotora, com o objeto da palavra, respondeu que não é uma questão ética porque não

é um sistema ético. Mas o fato continua. O facilitador poderia ter sido punido. Foi uma

questão muito difícil. O melhor que pode acontecer nessas situações é lidarmos com o que

surge dentro do círculo se não quisermos que a informação fique escondida e, sim, se quisermos que a resposta ao dano seja de maneira restaurativa, ainda mais envolvendo crianças e segurança. Se conseguirmos, é importante criarmos uma relação com instituições que têm responsabilidade em cuidar de crianças, com a esperança de que

possamos levar o problema para essa instituição e, assim, que permitam que lidemos com

o problema dentro do círculo. Se isso não for possível e sentirmos que temos que

encaminhar, é importante que acompanhemos a pessoa no decorrer do processo. O processo pode não os tratar com dignidade, mas podemos acompanhar o processo e tratá-

lo com dignidade. A decisão é muito pessoal: devo ou não encaminhar? Existem riscos

tanto em não encaminhar, como em fazer o encaminhamento. Aprendemos em comunidades não brancas, nos EUA, que os serviços de proteção a crianças causavam mais medo do que a polícia. Primeiro, fiquei muito surpresa com isso. Pensei que a pior coisa que poderiam fazer comigo seria tirar as crianças de mim. Preferia apanhar ao invés de perder as crianças. Uma questão muito séria para as pessoas.

n) A quantidade de processos x círculos como meta. Participo de um grupo de mediação e de cultura de paz e, uma vez por mês, nos reunimos com alguma exposição. Uma advogada especializada em divórcio nos sensibilizou compartilhando sua experiência. Ela entende que a família está doente quando trata do divórcio. Intuitivamente, tem notado que não houve uma sucessão de conversas anteriores. Ela tem buscado dar espaço para esses corações feridos. Seus atendimentos são para pessoas de alto e baixo poder aquisitivo em seu escritório. Ela procura se conectar com essas pessoas e tenta identificar quem estaria mais aberto para um processo de diálogo antes de tratar, efetivamente, do divórcio. Ela se conecta com quem teria essa abertura e promove algumas reflexões, conseguindo

resultados extraordinários. Muitas vezes, pessoas magoadas e sofridas não se dão conta de que o relacionamento não acabará no divórcio, pois continuarão sendo pais e mães dos seus filhos. Essa experiência trouxe a questão da conexão, de perceber o outro na sua necessidade, que é uma sintonia fina que o facilitador deveria desenvolver.

o) Como vê a Justiça Restaurativa no judiciário: como um modelo alternativo para solução de processos ou uma perspectiva de complementação para o judiciário? Esperamos que os princípios que norteiam a Justiça Restaurativa sejam princípios sempre usados dentro do sistema judiciário. Isso fica em nível de princípios e valores. Seria muito importante se pudéssemos entender justiça como deixando as coisas bem de novo. Não precisaríamos designar uma segunda Justiça Restaurativa. Que a justiça deve ser procurar ficar bem quando as coisas deram errado. Isto se aplicaria a todas as partes de nossa resposta ao dano.

p) Nem todos os casos são para a Justiça Restaurativa. Quais os elementos que visualiza nos casos que não seriam indicados para Justiça Restaurativa? Devemos esclarecer que não temos a capacidade de fazer todos os casos através da Justiça Restaurativa. Há falta de capacidade em atendermos todos os casos. Pode haver casos que um encontro frente a frente seja inadequado, mas vamos querer fazer círculo de cura com a pessoa que foi vitimizada e gostaríamos de ter o processo com a pessoa que cometeu o crime para ajudá- la a entender o impacto de seu comportamento e, assim, lhes permitir conscientizá-los a respeito do que aconteceu em sua vida. Que possa ter contribuído para que escolhessem causar dano. Em todos os casos, iríamos querer que membros da comunidade se envolvessem para chegar a uma solução juntos. Gostaria de uma estrutura mental restaurativa em todos os casos. Isso significa que pode haver pessoas que não estejam dispostas ou que não consigam controlar seu comportamento para que todos fiquem seguros. Em alguns casos, entendo que as pessoas possam precisar ficar presas, mas faríamos isso de uma maneira diferente, ou seja, com amor, oferecendo apoio para que tenham a possibilidade de se transformar, de mudar; e ficaríamos em relacionamento com ele. Particularmente, a comunidade tem que continuar acompanhado o membro que foi afastado, visitando-o, oferecendo programas que encorajam a autorreflexão, oferecendo oportunidades para que essas pessoas consigam perceber os seus próprios traumas, para que possam fazer um trabalho interno delas mesmas. Essa seria uma maneira de continuarmos em relacionamento com as pessoas que forem presas. Os círculos podem se tornar muito importantes para as pessoas quando elas saem da prisão, e os círculos de apoio podem acontecer durante um período de tempo para demonstrar que têm com quem contar.

q) Fazemos um trabalho com os ribeirinhos, os povos da primeira nação, à margem do Rio Amazonas. Estamos em um trabalho de cidadania e, de surpresa, chegou um conflito de meninas, em que a de trás cortou o cabelo da menina que estava na frente, e a da frente

cortou o cabelo da que estava na frente e a última que cortou o cabelo voltou e cortou o cabelo de uma menina que não tinha nada a ver com a história. Voltaram para casa com o cabelo cortado. Os pais começaram a conflitar e sacar suas armas para lutar entre eles. Não sabendo da gravidade do problema, fizemos um círculo, por acaso, dentro da escola onde estava acontecendo o projeto de cidadania. Sentamos no chão com as meninas; usamos uma flor como objeto da palavra; um copo com água e o objeto da palavra girou. Elas olharam, se conectaram, conversaram e riram. Entenderam que se magoaram, se perdoaram e fizeram um acordo que iriam conversar com seus pais para que eles voltassem a ser amigos. Quando o projeto terminou, uma ou duas mães agradeceram por terem se entendido. Isso demonstra que não precisamos de muita coisa para que o círculo aconteça.

r) O que fazer quando uma pessoa fica com o objeto da palavra e não larga e não larga e fica falando, falando? Essa é uma situação, no círculo, em que os outros participantes não podem fazer nada sem violar o uso do objeto da palavra. Como facilitador, podemos falar sem estar com o objeto da palavra, mesmo que seja raramente, mas temos essa prerrogativa. A estratégia que recomendo em uma situação assim é tentar determinar se o assunto é relevante ou não. Nem sempre é um problema. Já vimos pessoas falando durante muito tempo sobre uma coisa que foi muito importante e impactante em sua vida. Todos os participantes estavam conectados escutando aquela pessoa. Então, deixamos a pessoa falar se os participantes estiverem atentos, porque é por isso que estamos aqui. Se os membros do círculo não estiverem mais escutando, estiverem em outro lugar, não é bom para o círculo, nem para quem está falando. É uma das coisas mais difíceis de fazer:

esperar a pessoa respirar e, gentilmente, quando possível, interromper e dizer que queremos realmente entender o que está sendo trazido, porém que é importante que todos tenham a chance de falar. Delimita-se um tempo para terminar. Se tivermos mais uma rodada, damos aos participantes um tempo, ainda disponível, pedindo à pessoa se ela consegue resumir em uma ou duas frases o que é mais importante para que entendamos a sua história. Tentemos afirmar que aquilo que está dizendo é importante, que nos importamos com o que ela tem a dizer, mas lembramos do tempo que está falando. Muitas vezes, quando as pessoas estão falando, falando, elas já se perderam naquilo que elas realmente queriam dizer. Na minha experiência, isso tem funcionado, mas só aconteceu algumas vezes. Uma atitude importante que é chave, quando temos que interromper uma pessoa, é procurá-la no primeiro intervalo que houver, dando possibilidade para ela se abrir, pois mesmo que tenhamos feito a interrupção de maneira gentil, a pessoa pode ficar com a sensação de rejeição. Devemos também conversar com os demais para ver se está tudo bem. Esse foi o erro cometido quando tivemos que interromper alguém em um seminário de uma semana. Aconteceu no primeiro dia e, ao final do seminário, tínhamos 28 avaliações piscando de tanto brilho e duas péssimas: do senhor e sua esposa. Estava com vergonha do que havia feito e, como sou introvertida, essa combinação fez com que

eu o evitasse durante toda a semana, com o apoio de um mentor importante na minha vida. E, muitos meses depois, escrevi uma carta pedindo desculpas. Aprendi uma grande lição.

As pessoas que estão acostumadas a ter poder, para mim, é um problema quando eles tomam tempo demais. Eles estão replicando a estrutura de poder lá de fora do círculo e a intenção do círculo é desconstruir a estrutura de poder.

É importante prepararmos as pessoas para participar de um círculo em que os outros participantes não precisam de preparação. Se elas não conseguirem concordar com a maneira como o círculo funciona, então não estão prontas para participar dele. Podemos requerer uma preparação especial, até para um círculo de conversa, para as pessoas que, no dia a dia, exercem o poder o tempo inteiro, mas não conseguem perceber que estão exercendo o poder. Estão cegos para seu próprio uso de poder. Para essas pessoas é necessário fazer uma preparação melhor, especial, porque não é para ter poder no círculo. Deve-se ter respeito, oportunidade de participar, mas não domínio.

s) Existe algum programa de violência doméstica para homens? Sim, na cidade de Duluth há um programa para homens.

t) Se no círculo descobrirmos que houve abuso sexual de uma criança, qual a atitude correta? O sigilo deve ser mantido em detrimento do risco que a criança possa estar correndo? No trabalho de círculo, a confidencialidade fica limitada a preocupações com a segurança. Se sair no círculo a informação sobre a segurança de alguém, seria uma exceção ao acordo de confidencialidade. Porém, isso deve ficar esclarecido junto aos participantes. Os participantes têm que saber que se eles compartilharem esse tipo de informação será levado para fora do círculo. Quando estivermos nas diretrizes ou acordos, ao falarmos em confidencialidade, devemos esclarecer que ela fica limitada às informações do círculo ou, em círculo de conflito, será informado nos pré-círculos. É uma questão muito complicada.

u) Os exemplos citados de violência doméstica são de violências contra a mulher ou violência em âmbito familiar? A maioria deles refere-se à violência doméstica entre adultos. Existe outro recurso. Uma senhora que recém se apresentou fez uma pesquisa para ver a aplicação de Justiça Restaurativa na violência doméstica em geral e obteve muito sucesso.

v) Há uma discussão sobre a presença da mulher no círculo, vítima de violência doméstica, junto com o provável ofensor, por se entender que há uma relação de poder. Essa relação não pode ser horizontal, mesmo no espaço seguro do círculo. A questão de poder é uma questão que devemos dar atenção em qualquer tipo de círculo. É uma pergunta muito mais intensa quando as pessoas estão morando no mesmo lugar. Normalmente, não recomendamos a mediação nesses casos, porque entre as duas pessoas vai haver um desequilíbrio de poder. O círculo oferece a oportunidade de criar um plano mais igual. Um

fator importante do círculo é que ele quebra o silêncio, o segredo. O silêncio ajuda a fazer com que a violência continue a acontecer. Ninguém fala abertamente sobre o que está acontecendo. E quando trouxemos essa informação para o círculo, existe uma conversa explícita sobre o que está acontecendo. Sempre com mais pessoas do que só com os dois envolvidos: apoiadores para cada um, talvez os filhos que foram impactados, a família extensa ou vizinhos, para quebrar o silêncio. Pode ser que as pessoas saibam do ocorrido, mas não falam abertamente sobre o assunto. Uma vez que surge, as pessoas se responsabilizam mais. Não só a pessoa que está causando o dano, mas a comunidade em volta dela. Eles se tornam mais responsáveis. O processo não é para envergonhar a pessoa que está causando o dano. Existe mais espaço para a pessoa reconhecer os erros. Vamos querer envolver nesse processo alguém que já foi vitimizado no passado e agora está numa posição melhor e alguém que foi o agressor no passado, mas agora está transformado. Porque essa pessoa vai entender em que lugar está o ofensor agora e o que ele precisa fazer, além de se colocar no lugar dele e onde ele já esteve. A pessoa que foi vitimizada, mas que agora está saudável, representa uma possibilidade de esperança para a vítima que está sendo trabalhada. Ela não precisa ficar para sempre vítima e, nesses casos, o ofensor primeiro precisa reconhecer que causou o dano para poder participar. Não é necessário, no círculo, que a vítima descreva o que aconteceu, porque se ela falar sobre o que ele fez, ele pode puni-la quando chegarem em casa. Não colocamos a vítima nessa posição porque não é necessário. Se a pessoa admite que causou dano, é isso que será utilizado no círculo para levar o processo adiante e terá os apoiadores que falarão sobre o impacto que a vítima sofreu. Não colocamos a vítima na posição de testemunha do que o ofensor fez. Criamos um processo de apoio para que ele se transforme. Teremos os membros da comunidade ou da família monitorando a segurança da vítima. Não existem cuidados a respeito disso. Se criarmos qualquer tipo de processo para lidarmos com casos de violência doméstica, é necessário envolver pessoas que são conhecedoras de violência doméstica para planejar o processo todo e para sua implementação. Uma das coisas que são mais difíceis são ações que possam parecer positivas em outros processos restaurativos, como um pedido de desculpas, que pode ser muito positivo em um processo de círculo de Justiça Restaurativa juvenil. Um caso de violência doméstica pode simplesmente fazer parte de um padrão. É necessário termos muita consciência desse tipo de dinâmica. Se trouxermos pessoas com experiências em casos de violência doméstica, perceberemos o perigo iminente. Cuidado. Também é necessário percebermos se há um risco de morte muito grande no processo restaurativo. O projeto de Nogales tem um instrumento para verificar tal risco.

w) Gostaria de saber se no caso de Caxias do Sul, onde a criança de três anos participou do círculo, havia autorização dos pais? Foi um caso judicial, de destituição do poder familiar de quatro irmãos: dois meninos e duas meninas, com idades de 3, 7, 10 e 12 anos. Fizemos um círculo com a família nuclear e a extensa e, ao final, tudo havia terminado bem. Mas planejamos um círculo somente com as crianças que, de diversas formas, revelaram todo

abuso e maus tratos sofridos. O menino de três anos saía e entrava no círculo. O objeto da palavra foi um elefante de pelúcia, que foi utilizado para “conversar” com o pequeno de três anos, quando perguntamos o que acontecia ele mostrou que apanhava. Houve necessidade de adaptarmos a forma de conversar. Em um determinado momento, os irmãos não responderam a pergunta e olharam para a irmã maior. No intervalo, os facilitadores conversaram e entenderam que havia algo mais. Voltamos e perguntamos algo que os irmãos disseram que haviam combinado de não responder. Eles foram informados por terceiros que se dessem algumas informações, não poderiam mais retornar para casa. A menina já morava com a avó e não gostaria que os irmãos também saíssem de casa. Havia um representante legal do abrigo onde as crianças se encontravam. E quando o pequeno saía da sala, havia uma pessoa de apoio para atendê-lo.

x) Quais as estratégias para conversar com crianças no círculo, especialmente numa situação de algum conflito ou dificuldade? Uma técnica poderosa é usarmos o desenho. Muitas vezes, os pequenos desenham algo para expressar o que está acontecendo com eles. Existe um enfoque, na Austrália, chamado de Sinais de Segurança, que é um enfoque compatível com o processo circular, os quais desenvolvem técnicas específicas relativas ao desenho de três casas. Uma delas é a casa dos sonhos, mas havia mais duas que auxiliava em enxergar melhor qual a situação enfrentada. Ajuda muito quando usamos pantomima (mímica). Permitimos que usem o movimento, sem uso das palavras, para expressar algo. Podem também utilizar palavras junto com o movimento. Convidamos e encorajamos a utilizar o movimento para se expressarem. Nesse tipo de trabalho estamos ainda engatinhando. Estamos procurando entender essas dinâmicas. Podemos utilizar os saberes que cada um já traz.

y) Qual a preparação necessária para um círculo com pessoas que exercem o poder? Há diferença na preparação ou na facilitação do círculo quando todos os participantes exercem poder? Ou quando há mescla de participantes? Quando o diretor de uma escola fará parte de um círculo, deverá ter uma preparação especial e individual com ele. A parte mais importante é deixar claro como funciona o objeto da palavra e verificar se a pessoa consegue respeitá-lo e comprometer-se em honrá-lo. Enfatizar o objetivo do círculo. Não é para dar sermão ou conselhos e, sim, para falar a partir de sua própria experiência. Consciência em não utilizar muito tempo na sua fala. Podemos utilizar o exemplo do facilitador como modelo: tanto como profundidade nas suas reflexões, quanto no tempo gasto como facilitador.

Outras dificuldades das escolas é que os adultos podem entrar no círculo e sair dele a qualquer hora. Deixamos claro seu comprometimento. Se quiserem participar do círculo, deverão ficar até seu final. A tendência de quem tem poder é participar do círculo, falar o que quer e sair. É importante que entendam que estarão num papel bem diferente do usual.

Importante, quando trazemos pessoas de poder, ter atenção especial de como será organizado o círculo. Numa escola de ensino médio, trouxeram policiais para o círculo com alunos. Usaram cadeiras escolares sem a articulação do braço, e os policiais, com todos seus equipamentos, não conseguiram sentar, sentando-se sobre a mesa que os colocava acima dos alunos, causando um problema. Deve-se verificar o espaço físico em que acontecerá o círculo, principalmente quando existem relações de poder. Nas escolas americanas, ninguém é chamado pelo primeiro nome. É cultural. Quando aprendemos a respeito do círculo de sentenciamento, ensinado pelos canadenses, uma das suas estratégias, para nivelar o poder, era que o juiz seria chamado pelo primeiro nome. Chegando às escolas, utilizamos esse aprendizado. Quando chegamos, começamos o trabalho nas escolas e informamos aos diretores que iriam ser chamados pelo primeiro nome. Isso é muito simbólico. Não vejo que tenha continuado a acontecer nas escolas, mas queremos que pensem se traria um sentido de igualdade. A maneira de facilitar é, primariamente, a mesma, mas é importante focar na dinâmica do poder. Se for percebido que os participantes usam um tratamento cerimonioso com alguém dentro do círculo, quando o objeto da palavra voltar ao facilitador, deve-se lembrar aos participantes que no círculo todas as vozes são iguais. Sempre de maneira gentil. O principal para um círculo de pessoas de poder é o planejamento. Termos certeza de que há apoio suficiente para as pessoas que têm menos poder. Em um círculo de conflito, o processo de preparação será perguntar àqueles que têm menos poder, se eles se sentem confortáveis no espaço; se conseguirão falar sobre os problemas com os quais estão preocupados. Em um círculo realizado no departamento financeiro de uma universidade, teria como participante uma mulher que não confiava no seu chefe, dizendo que não conseguiria falar sobre suas dificuldades. Perguntamos, então, quem poderia participar do círculo para que ela se sentisse segura para falar sobre sua dificuldade. Ela confiava no supervisor do seu chefe. Com a presença desse apoiador, ela se sentiria segura e protegida e conseguiria abordar os assuntos.

z)

A

pergunta é a partir da reflexão sobre círculo de sentenciamento em que necessariamente

o

juiz incluía na sentença a participação em círculo no caso de violência doméstica.

Recentemente tivemos um caso em que foi proposto ao jovem que cometeu homicídio, além da internação, a participação em um processo restaurativo. O jovem perguntou se a participação traria vantagens quanto ao tempo de sua internação. Embora soubesse que sim, deixamos claro apenas que o círculo trará a possibilidade de restaurar relações que haviam sido rompidas com aquele ato. A dúvida é colocar ou não, colocar como uma das vantagens, a participação em processos circulares que podem levar à remissão de pena no caso de maiores, ou diminuição de tempo de internação no caso de jovens infratores? No caso dos encontros frente a frente, de violência séria, nos EUA, existe um compromisso muito forte que não seja feito círculo só porque vai beneficiar o tempo de encarceramento. Queremos que as pessoas participem por outras razões, pois corremos o risco de estarem

utilizando a vítima para seu próprio benefício. Eles já usaram a vítima em benefício próprio. Embora a realidade seja de que essa prática possa fazer a diferença no tempo de encarceramento, é importante que, quando se apresente a ideia, não se fale nessa vantagem. Eles têm que tomar a decisão achando que o círculo não irá beneficiá-los no tempo de encarceramento.

aa) Gostaria de saber sobre capacitação de facilitadores. Há diferenças necessárias para capacitar para determinados tipos de círculos? Há diferenças para círculo de conflitos ou para processos já judicializados? Conforme o movimento se espalha, proliferam as capacitações. Mais pessoas são capacitadas. Como controlar essa situação? Podemos fazer uma capacitação de menos dias para os círculos de conversa. Temos feito capacitação de dois dias para círculos de conversa, não conflitivos, para professores nas escolas e, com essa capacitação, eles podem fazer círculos de celebração, pedagógicos e de construção de comunidade. Esses são os círculos fundamentais que as escolas devem ser capazes de realizar. Seria ideal se todos os professores da escola conseguissem facilitar esses tipos de círculos. Em uma escola, não é necessário que todos os professores saibam facilitar um círculo de conflito. Um número bem menor de professores pode dar conta dos conflitos que surgem na instituição. Queremos que os círculos de conversa façam parte da rotina diária da escola, sendo importante que se tornem acessíveis para o corpo docente. Ainda é um ponto importantíssimo e crítico que as pessoas entendam o alicerce que se baseia esta metodologia. No primeiro dia desta capacitação, passamos a fundamentação básica profunda e, no segundo dia, o aprendizado da técnica de facilitar círculos de conversa. A capacitação de círculos de conflitos é de quatro a cinco dias. Se as pessoas já passaram pela capacitação de dois dias, podemos fazer a capacitação em círculos de conflito em dois a três dias. Queremos transmitir o sentido de um estudo continuado. Recomendamos que as pessoas organizem grupos pequenos de aprendizado profissional, de como utilizar, dentro de seus espaços, de maneira adequada. Esses grupos menores dariam conta do autocuidado necessário e aprofundar o estudo continuado. Nesses pequenos círculos trariam suas reflexões, trariam o que não deu certo, celebrariam o que deu certo. Acreditamos que haja outros tipos de capacitações que darão apoio à prática, como Dragon Dreaming ou treinamento STAR estratégias para consciência do trauma e resiliência. Há outras opções que poderão apoiar o trabalho.

bb)Qual o papel do facilitador em relação às situações do círculo, do entra e sai de pessoas que exercem o poder, uma vez que houve o agendamento, a combinação? O facilitador poderia acolher e compartilhar essa situação com todos os participantes do círculo? A pessoa chega atrasada, ou seja, após a construção de valores e diretrizes; o grupo já está conectado e o participante chega desconectado. O que fazer? Uma das estratégias que podemos usar para quem chega atrasado e já perdeu a cerimônia de abertura, valores e diretrizes, pois estas partes causam impacto no círculo, é deixar de lado o planejamento do

facilitador e fazer uma rodada convidando os participantes a dar as boas-vindas à pessoa e que eles expliquem tudo o que já aconteceu antes de ela chegar: valores e por que são trabalhados, qual foi a cerimônia de abertura e por que foi feita tal cerimônia. Os participantes irão acalmar a sensação de interrupção que essa entrada causa, podendo também conseguir mudar a energia de quem chega atrasado. Mesmo que se repita a experiência do “entra e sai”, apesar de toda explicação dada, passaríamos o objeto da palavra e pediríamos aos participantes como se sentiram diante dessa situação, tanto com

a pessoa presente ou em algum momento em que a pessoa saiu. Se a pessoa escutar as

manifestações é bom, e também é importante para os participantes expressarem os seus

sentimentos. Podem escutar uns aos outros, mesmo que a pessoa que tenha este poder não esteja escutando.

cc) Primeiro, não estamos completos e não estamos 100% seguros nesta prática; segundo, muitas pessoas sabem da técnica e não praticam os alicerces; terceiro, a necessidade de criar relacionamento com quem a gente quer dialogar. Ressoa uma tendência na parte institucional de uma separação na facilitação como se uns estivessem prestando um serviço para outros. Existe um esquecimento da conexão em que o espaço está sendo

cocriado. Pensando na roda da medicina, como as partes física e mental têm mais espaço,

a parte emocional tem ganhado corpo, mas a espiritual tem ainda preconceito. Como

fazer, na condição de facilitadores, treinadores, instrutores para que isso melhore em nós e com as pessoas que trabalhamos? O trabalho que estamos fazendo juntos é o de desenvolver a parte do coração e do espírito em nós mesmos, principalmente quando somos convidados a refletir a respeito da nossa própria prática e no que ela significa para nós. Escrevemos um artigo a respeito da jornada interna que passamos com este trabalho,

e a maior parte dela é trabalhar com meu próprio espiritual. Não existe uma estrutura

religiosa e cada um de nós deve fazer do seu próprio jeito. Temos que desenvolver práticas que nos deixem mais conscientes de nós mesmos, do nosso trabalho interno. Os grupos de

estudo são um espaço excelente para se criar isso. É muito importante que nós, facilitadores, estejamos consciente do nosso trabalho espiritual, mas é muito importante que nós não imponhamos aquilo em que acreditamos para as outras pessoas.

Nossa experiência em círculo diz que não precisamos fazer nada explicitamente a respeito dos componentes emocionais ou espirituais do ser. O termo espiritual (ou espiritualidade) não funciona para todos. Algumas pessoas não se identificam com tal conceito. Mas o quadrante da espiritualidade é como construímos significado. Se conseguirmos criar espaços relativamente seguros, as pessoas virão naturalmente trazer seu lado emocional e, de forma natural, trazem como elas constroem o seu significado. Não precisamos dizer a eles tudo bem fazer isto, acontece organicamente. Muitas vezes, quando o objeto da palavra volta, as pessoas se desculpam por chorar, pelas lágrimas. O facilitador deve mencionar que as lágrimas são acolhidas no círculo, são bem vindas, que

trazemos o nosso ser completo incluindo o nosso sentimento. Ninguém precisa se desculpar por chorar.

dd) A participação da mulher predomina na Justiça Restaurativa. É possível identificar como um dos fatores de explicação deste movimento de apropriação da mulher como movimento de resposta a estrutura de poder da forma de justiça tradicional que é um espaço predominantemente masculino? Essa predominância existe em outros países? A participação masculina tem revertido essa trajetória? Os números são incomuns para o extremo neste país. Mas o padrão é basicamente o mesmo em todos os lugares onde fomos capacitar. Em geral, há muito mais mulheres envolvidas do que homens. Vimos uma exceção nos EUA, pois nas comunidades que sofrem mais com a desigualdade há mais homens envolvidos, já que as questões são mais urgentes nessas comunidades. Poderíamos explicar a presença predominante da mulher porque a sociedade, em geral, está mais baseada em uma estrutura masculina, e o sistema de justiça não é uma exceção. Nossa maneira linear de estruturar as coisas, de aprender, menos ênfase nos relacionamentos. Isto não é verdadeiro para cada mulher ou homem, mas é uma maneira mais masculina de ver as coisas. Muito linear e muito racional. Este movimento tem a ver com trazer equilíbrio. Estas são habilidades lineares importantes na maneira como vemos as coisas. Mas não são as únicas maneiras de fazer as coisas. Estamos fora de equilíbrio. Precisamos de mais energia feminina para equilibrar. As mulheres sentem-se atraídas por este trabalho porque é baseado em relacionamentos, tem mais espaço para outros saberes. Lembrem que o primeiro fator que atraiu minha atenção foi uma visão feminista da justiça. Este trabalho está embasado na ótica feminina. Não é de admirar que seja mais confortável para as mulheres e admiro profundamente os homens que estão aqui estão fazendo parte deste trabalho. Porque só por números não é uma coisa fácil de fazer.

ee) Uma amiga que trabalha com constelação familiar e círculos de paz na psicologia hospitalar foi chamada para cuidar de um caso de uma criança de quatro anos, que ingressou no hospital, espancada e com ossos quebrados no corpo inteiro. Sensibilizou a todos. A mãe foi presa por violência doméstica. A criança estava muito depressiva, além de ter os ossos quebrados. Passados quinze dias, com autorização, a mãe foi visitar a criança que, ao longe, ouviu a voz da mãe e gritou: mamãe”! Neste instante melhorou e sorriu pela primeira vez. Essa amiga agradeceu a intuição do juiz que permitiu a visita. A mãe estava sob efeito de drogas quando fez essa barbaridade, mas o vínculo familiar permanece é forte. Conclui-se que, em caso de violência familiar, é necessário cuidar da família inteira, por amor ao filho. A criança foi dada para a avó materna com direito à visita da mãe sempre que ela quisesse. A amiga entende que temos que ter muito cuidado com o vínculo familiar. Qual sua opinião quanto ao fortalecimento da família e do vínculo familiar? É uma história de muito impacto. Até hoje, subestimamos o impacto que causa na criança removê-la do seu primeiro vínculo, mesmo quando há problemas no relacionamento. O

enfoque “sinais de segurança” mencionado anteriormente mostra o que podemos fazer para que o relacionamento não seja quebrado, desde que as crianças estejam em segurança. Temos que nos preocupar em deixar os pais bem, para que possam continuar na vida da criança, mesmo que não sejam os cuidadores. Neste caso, a avó se tornou a cuidadora, mas os relacionamentos foram preservados. O primeiro círculo de sentenciamento que fizemos foi em uma reserva indígena e um dos jovens que trabalhava conosco pertencia à primeira nação e contou a sua história. Estava abusando fisicamente de sua parceira. O avô soube e foi morar com eles, não tendo mais abuso. Temos que pensar sobre isso de maneiras completamente diferentes. E é na ideia de sinais de segurança que focamos na questão de nos sentirmos seguros. Numa situação em que a mãe, com três filhos, abusa do álcool, as crianças não estão seguras quando a mãe está sob efeito alcoólico. Assim, ao invés de insistir que ela esteja completamente abstêmia, a questão é com quem os filhos podem estar seguros quando ela estiver bebendo? Chegou- se a um acordo que envolverá outras pessoas com as quais as crianças ficarão quando a mãe estiver bebendo. Para essa mãe poderá parecer simplesmente impossível parar de beber, mas, muito possível, administrar esse plano. Se conseguir cumprir o plano com sucesso, poderá ficar melhor na administração do uso de álcool. O problema de segurança não se foca no uso do álcool, mas na negligência de quando está sob efeito do mesmo. É uma mudança grande em nós.

ff) Casos de psicose, agressão, bipolaridade, autoagressão. Os casos mais difíceis de atender são os casos de transtornos de conduta, cujo perfil envolve ausência de culpa, fugas constantes, comportamento delinquente, agressividade. Nesses casos, é comum que os jovens adolescentes sejam bastante resistentes aos tratamentos e aos atendimentos. Esse público, muitas vezes, evolui aos transtornos de personalidade antissocial que é, na maioria dos casos, o público carcerário. Com a tua experiência, como é atender esses casos? Há resolutividade em função desse perfil? Com a metodologia dos círculos é possível tocar o coração de alguns ou não temos o que fazer? Muitos de vocês têm muito mais experiência do que a nossa. Não sei como poderemos atingir a cura nos casos em que as pessoas têm problemas muito profundos, mas já ouvimos histórias de transformação que fez com que acreditássemos que sempre precisamos deixar a porta aberta. Uma amiga promove encontros, frente a frente, de casos considerados crimes sérios. Fez muitos e muitos desses casos. Contou a história de um estuprador de estranhos. Frequentemente, essas pessoas estão entre aqueles que acreditamos que não possuem consciência e não mostram remorso algum. O estuprador havia cometido vários crimes e era considerado sem esperança. Mas, de alguma forma, dentro da prisão, conseguiu criar um relacionamento positivo com a enfermeira. Um dia, essa mesma enfermeira ficou presa em um quarto, com outro preso que estava tentando assaltá-la sexualmente. O outro homem estava do lado de fora do quarto e não conseguia entrar para ajudá-la. Pela primeira vez ele entendeu o que tinha feito com as outras mulheres. Nunca sabemos o que vai tocar

alguém. Precisamos manter a porta aberta. Isso não significa que deixaremos as pessoas serem livres se elas não estão dispostas ou não conseguem controlar seu próprio comportamento. Mesmo assim, continuamos nos relacionando com elas. Nunca sabemos como esta jornada poderá se desdobrar. As pessoas da comunidade devem participar dos círculos com aqueles que estão encarcerados. Existe um programa em Minnesota que reúne cinco pessoas que cometeram assassinato, cinco pessoas que perderam seus entes queridos assassinados (não pelas pessoas que estão na reunião) e cinco membros da comunidade. Fazem círculos durante um final de semana. Falam sobre os princípios da Justiça Restaurativa, estabelecem o espaço e cada pessoa tem a oportunidade de contar suas histórias e de se manifestar a respeito daquilo que ouviu. A maioria dos que participam, que não são os prisioneiros, fica surpresa com o nível de trauma sofrido pelas pessoas encarceradas, razão pela qual criam empatia com elas. Quando oferecemos empatia para os que cometeram atos horríveis, abrimos a possibilidade para que a empatia deles seja despertada. É importante que continuemos oferecendo oportunidade de círculos e que nunca haja desistência. Não quero que ninguém desista de mim.

gg) Há estratégias de círculos em relação à pacientes psiquiátricos? Não sei. Eles são seres humanos, então podemos fazer a mesma prática que fazemos com todas as pessoas. A habilidade de ficarem focados pode ser menor. Já vimos pessoas com problemas mentais sérios que conseguem manter uma postura melhor no círculo do que fora dele. Mas isso não fica óbvio na primeira vez que se sentam em círculo. Houve demora em conseguirem se sentir em círculo, mas o ritmo mais lento e a previsibilidade do objeto da palavra trouxeram sensação de calmaria a eles.

hh)Quais são as perguntas básicas estruturantes do círculo de conflito? Existe algum serviço de atendimento às vítimas de crimes violentos que aconteça paralelo ao trabalho do círculo? Um serviço intermediário para prática do círculo? Existe muito trabalho a ser feito para ir ao encontro da vítima, pois além de oferecer um círculo de apoio, uma sala separada é um bom exemplo. Recomendamos que façam círculo com vítimas em diferentes comunidades e perguntem do que elas precisam. O que as ajudaria? Elas podem abordar assuntos que nunca foram mencionados antes porque nunca estivemos nessa situação. Envolvê-las no processo é a melhor maneira de saber o que fazer por elas. O que mais podemos proporcionar; o que mais podemos fazer?

ii) Em situações de violência doméstica, podemos tratar e cuidar de casos envolvendo perdão, embora não seja parte do ciclo da violência? A questão do perdão é uma questão muito complexa. As pessoas têm definições diferentes do que seja o perdão. Se houver uma conversa a respeito de perdão, é preciso que as pessoas esclareçam o que ele significa. Se ocorrer o perdão ou não, é uma questão que depende dos participantes. Não consideramos o perdão como inerente à Justiça Restaurativa, mas fica claro que a Justiça Restaurativa cria condições melhores para que ele perdão ocorra. Não podemos decidir

pela vítima se ela quer perdoar. Muitas pessoas sentem um alívio quando conseguem perdoar, por isso é bom maximizarmos a possibilidade do perdão, porém não podemos decidir pelas pessoas.

jj) A questão é sobre empatia. Acompanhei um caso, voluntariamente, fazendo uma visita à unidade socioeducativa e havia um rapaz que estava isolado e, há três dias, não comia porque pretendia suicidar-se. Não conhecíamos sua história. Era época de Natal, e ele insistia na morte. Entramos no isolamento com uma técnica psicóloga. Fizemos com que visse o sol. Colocamos a mão sobre o seu ombro e pedimos para não desistir da vida. Fomos embora. Encontramos a técnica que o acompanhava e que o havia abandonado. Soubemos, pelo juiz, de sua história. Abandonado desde criança, passou fome, viveu na rua. Entendemos por que havia desistido da vida. Seu último abandono, a técnica havia feito. Ela se comprometeu que voltaria a conviver e a acompanhá-lo. Retomou a empatia que ela desenvolveu nele e ele desistiu do suicídio. Nossa responsabilidade é muito grande quando desenvolvemos empatia por alguém: somos responsáveis por aquilo que cativamos.

“Há uma tribo que sonha, que nunca esqueceu as assas e acredita em coisas simples: sol, pão, chuva, beijo, lua. E mesmo quando o sangue tinge as tarde e rios e as palavras se transformam em venenos, pedras e facas, esta mesma tribo alimenta as sementes da esperança com lágrimas e pequenos gestos limpos para que virem árvores”. Meu desejo é que, a partir daqui, cresçam muitas e muitas árvores. (Kay Pranis)

3.2. ENTREVISTA

Dr. Leoberto: Estamos na Escola da Magistratura, da AJURIS, na companhia da professora Kay Pranis que está desenvolvendo conosco um workshop de aprofundamento para facilitadores. Esta atividade faz parte de uma programação que a Escola vem promovendo com o objetivo de alavancar a expansão da Justiça Restaurativa no Brasil. Vamos ouvir a Kay sobre as suas impressões a respeito da sua vinda ao Brasil e dizer que é muito bem- vinda e que somos muito gratos pela sua presença.

Kay: Obrigada por me acolherem desta maneira aqui e em todas as outras vezes que aqui estive. É difícil colocar em palavras as minhas impressões ao chegar aqui depois de quatro anos. Nós tivemos aqui 170 facilitadores, algo que não podia imaginar que fosse acontecer quatro anos atrás. Os que estiveram aqui estavam muito ansiosos para aprender e para poder levar este trabalho adiante. É um grupo de pessoas, um grupo muito forte que está aqui. E, antes deste encontro, estive com 26 facilitadores que estavam participando da capacitação para treinar novos facilitadores. Essas pessoas tiveram in site muito profundo do trabalho que está sendo feito a respeito, a respeito da sua participação e houve muita sabedoria coletiva saindo daquele grupo que está ajudando o processo a se desenvolver neste Estado. Antes disso, estive em Caxias do Sul durante alguns dias e fiquei sabendo da profundidade e da amplitude do trabalho que está sendo realizado com os círculos naquela cidade. Sinto-me emocionada e inspirada por tudo aquilo que presenciei e por tudo aquilo que ouvi. As pessoas que estão fazendo este trabalho não estão usando só suas mentes. Estão usando seus corações e seu espírito também. Existe um comprometimento profundo na busca da paz e de um mundo melhor na realização deste trabalho. Estar aqui, estar com as pessoas que realizam este trabalho alimenta minha alma. Sinto-me muito grata por esta família no Brasil.

Dr. Leoberto: Temos a honra de recebê-la pela quarta vez no Brasil, sendo convidada pela AJURIS. Gostaríamos de sua percepção a respeito do trabalho que a AJURIS vem fazendo na difusão da Justiça Restaurativa do Brasil.

Kay: O papel que a AJURIS vem desempenhando é um papel importantíssimo. Está criando uma ponte muito importante entre o sistema judiciário e o resto da comunidade. Muitas das pessoas que estavam aqui, de outra maneira não estariam envolvidas neste trabalho, se não fosse pela participação da AJURIS. Elas estão vendo uma ligação entre o trabalho que estão fazendo na comunidade e o trabalho que os juízes estão fazendo. E a AJURIS está em uma posição única para abrir os espaços de realização deste trabalho, reunindo diferentes partes da comunidade para trabalharem em conjunto. O espaço da AJURIS está sendo usado como um espaço de legitimidade para o trabalho desenvolvido. E vejo que parte do sucesso que acontece neste Estado é exatamente em razão da AJURIS abrir este espaço e esta plataforma para as comunidades.

Dr. Leoberto: Muito felizes de vivenciar este processo e esperamos permanecer à altura de honrar este compromisso que é um compromisso de responsabilidade social da nossa Instituição, da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, da nossa Escola, da Escola da Magistratura do Rio Grande do Sul, e queremos convidar a todos para fazerem parte deste movimento. Serão todos muito bem vindos. Que esta continue sendo a sua casa, a casa da Justiça Restaurativa, a casa da Justiça no Rio Grande do Sul. Obrigado Kay!

4. WORKSHOP CÍRCULOS EM MOVIMENTO NAS ESCOLAS ASSOCIAÇÃO DOS JUÍZES DO RIO GRANDE DO SUL AJURIS 18 E 19 DE MAIO DE 2017 PORTO ALEGRE

Escolas são comunidades. O fato de serem comunidades bastante intensas, porque inúmeras pessoas estão convivendo em um espaço relativamente pequeno, muitos membros dessa comunidade não sentem que têm a liberdade de ir e vir. São comunidades com alguns constrangimentos, com algumas limitações, dentro de um espaço limitado. O princípio fundamental da infância é crescer, se desenvolver e se tornar um adulto que consiga viver bem. O trabalho das crianças é ir para a escola. Mas elas não entendem muito bem como funciona. Elas são bastante impotentes nessa estrutura e não têm poder dentro dela. Temos uma comunidade intensa que convive em um espaço relativamente pequeno e com muitas pessoas sentindo-se impotentes. É importante que possamos criar comunidades saudáveis nesses espaços, mas é preciso intencionalidade na criação desse espaço na comunidade. Na verdade, não é difícil, mas tem que ser deliberadamente, intencionadamente. Vou construir esse espaço. Para ser um local saudável, as escolas precisam ter processos que permitam a construção de comunidades saudáveis. As nossas práticas típicas para ensinar o material acadêmico não apóiam uma construção de comunidade saudável, pois frequentemente são competitivas. Não honram as emoções, não dão espaços para as emoções. Criam espaços de classificação e de julgamento. Precisamos de espaços em que haja um equilíbrio na maneira como ensinamos academicamente. Vamos enfatizar a cooperação e o relacionamento. Existe uma grande necessidade de maneiras de se criar comunidades saudáveis dentro das escolas. Para o movimento da Justiça Restaurativa, as escolas são espaços importantíssimos para sua prática. As escolas são locais onde existem mais oportunidades de se causar impacto. As crianças aprendem o processo circular muito mais rapidamente que os adultos. Podemos começar no lugar em que seja mais fácil. Elas não têm as suas ideias tão fixadas e para as crianças parece ser um processo natural. Outra razão por que é fácil começar pelas escolas é que temos uma comunidade intensa que é continuada e que não é tão grande. É uma unidade de comunidade menor, em que é mais fácil trabalhar. Assim, poderemos ver o impacto causado de maneira mais rápida. Nesse sentido, é muito importante a maneira como iremos socializar nossas crianças, já que são elas que irão formar o futuro. Se dermos às crianças as ferramentas para terem diálogos difíceis, criaremos a oportunidade de um futuro diferente, em que as pessoas não precisam usar da violência para serem escutadas. A violência é um espaço que existe, porque as pessoas querem ser escutadas. Se as crianças descobrirem que existe outra maneira de serem escutadas, elas não precisarão passar pela violência para se manifestar. Vemos o trabalho nas escolas como uma parte importante do movimento de Justiça Restaurativa em termo de mudança cultural a longo prazo. Existem razões poderosas para se fazer o trabalho de base também. Não podemos abandonar as pessoas que sofreram os danos por causa da maneira como funciona a cultura. Cremos que para transformação, a longo prazo, as escolas são as instituições mais importantes que trarão esta

transformação. As escolas são as instituições de socialização que é a chave, após a família. As escolas têm uma grande influência na socialização dos cidadãos. As escolas têm que ser centros de estabilidade, continuidade e comunidade. Têm pessoas que estão tirando algumas ideias do livro “Círculos em Movimentos” (Kay Pranis e Caroly Boyes-Watson), especificamente voltado para as escolas e têm aplicado estas ideias em outros contextos.

Vamos relacionar as teorias que, conforme entendemos, apoiam o uso dos círculos nas escolas:

O primeiro conjunto de teorias é o enfoque na criança como ser integral, a qual remete à

importância do aprendizado social, emocional. Hábitos emocionais como persistência, otimismo, foco e curiosidade parecem ter maior influência do que a inteligência. Quando prevemos quais crianças se darão melhor na vida, o processo circular é uma prática que foca intencionalmente no ser humano como ser integral e abre espaço para o desenvolvimento social, moral e emocional juntamente com a parte mental e física.

O segundo conjunto de teorias é a importância dos relacionamentos no desenvolvimento

e na aprendizagem. É a teoria da vinculação, na psicologia; da escolha, na educação; do cuidado ético, na filosofia moral; a teoria do controle social, na sociologia. Essas teorias identificam a

qualidade do vínculo entre os adultos e crianças e adolescentes como ponto-chave para o desenvolvimento humano e aprendizagem. O relacionamento entre os adultos e as crianças e adolescentes formata o aprendizado que irá acontecer. Parece óbvio, mas as pesquisas estão confirmando essa constatação, por isso podemos dizer que é cientificamente provado.

O terceiro conjunto de teorias é a teoria da abordagem da escola como um todo, enfatizando um ambiente escolar positivo, com sensação de pertencimento e conexão das crianças e dos adultos com a escola. O clima escolar tem a ver com o nível de civilidade e de consideração entre os membros que a instituição. Refere como as pessoas, no dia a dia, se relacionam umas com as outras: no parquinho, no ônibus, dentro da sala de aula. Tem a ver como os adultos tratam os outros nas reuniões de equipe, assim como o tom e a qualidade na interação que existe entre adultos e as crianças e adolescentes. O processo circular é elaborado para promover o sentido de pertença. Para cultivar a conscientização e a consideração uns com os outros e para assegurar a comunicação respeitosa com todos os membros desta comunidade.

O quarto conjunto de teorias são as teorias que envolvem a disciplina positiva. Refere-se

ao uso das práticas restaurativas baseado na teoria da Justiça Restaurativa que diz que os relacionamentos são muito importantes. Precisamos cuidar dos relacionamentos para nos fortalecer no início. Precisamos de processos circulares para reparar os relacionamentos quando não estão bem. Sabemos que os círculos desenvolvem esse papel, pois são originários dos movimentos da Justiça Restaurativa.

O quinto conjunto de teorias é a respeito de um ambiente de aprendizagem que esteja sensível aos traumas existentes. A importância de se entender o trauma e as experiências de negligência das crianças, o impacto disso na aprendizagem e no desenvolvimento humano. As escolas lidam com muitas crianças que foram expostas a negligências, a abusos e a estresses. Ainda assim, há necessidade, muito maior do que os sistemas terapêuticos conseguem alcançar. A teoria do trauma nos ajuda a reestruturar os desafios acadêmicos e o mau comportamento dos alunos para que os educadores e outros profissionais de apoio possam oferecer auxílio e aconselhamento ao invés de castigo como resposta à má conduta dos alunos. Existe um trabalho chamado de “Experiências Adversas na Infância” – EAI, para nos auxiliar a entender o impacto das experiências adversas na infância e a maneira como essas experiências são cumulativas. Os dados indicam que quanto mais experiências adversas as crianças tiveram, mais negativos serão os resultados. Na verdade, um aspecto positivo é que existe uma mudança nas perguntas feitas aos alunos. Ao invés de perguntar por que você fez isto?, podemos perguntar: O que aconteceu antes? Essa troca realmente causa uma mudança no foco. O comportamento, embora seja um problema, frequentemente faz sentido quando examinamos as experiências anteriores. Muito do mau comportamento e do comportamento que causa dano é o comportamento de sobrevivência. Precisamos reconhecê-lo antes de tentarmos mudar esse comportamento. Volto ao Marshall Rosemberg quando diz “empatia antes do ensino”, isto é, até que alguém tenha demonstrado cuidado e que se importa com a dor que estamos sentindo, não podemos abrir nossa mente para aprender um jeito diferente.

O último conjunto de teorias são as teorias em torno da prática da atenção plena. É um dos movimentos que nos dá muita esperança, que está crescendo na base e que apoia o trabalho da Justiça Restaurativa e do círculo. O círculo é uma prática de atenção plena. Cria uma presença mais completa no momento. É um espaço em que nos colocamos mais em contato com nossos sentimentos interiores. Ajuda-nos a sair da mente e ir para o coração e nos faz ir mais devagar. O círculo, por si só, é uma prática de atenção plena. As práticas de atenção plena são úteis dentro da estrutura do círculo. A meditação ou a atenção consciente na nossa respiração são jeitos muito eficientes para fazermos cerimônias de abertura. O uso da respiração consciente pode ser útil no meio de um círculo se houver muita ansiedade ou muita atenção, tanto para os participantes como para o facilitador.

4.1. O PODER E O DESAFIO DOS CÍRCULOS NAS ESCOLAS:

Escolas são comunidades intensas e dinâmicas. Continuamente, estamos pensando em como os participantes desta comunidade vão trabalhar juntos. Importante prestarmos atenção nisso, pois nunca é feito. A maneira como vivemos juntos é um processo contínuo de pensar como podemos vivemos bem estando juntos. Trabalhamos continuamente nossos relacionamentos,

razão pela qual não podemos dizer que temos um relacionamento muito bom com tal pessoa e que será verdade para o resto da vida. Temos que trabalhar os relacionamentos o tempo todo. Se as pessoas da comunidade escolar conseguirem ficar bem quando estiverem juntas, haverá um impacto positivo em todos os aspectos da escola. Os círculos são uma ferramenta poderosa para a função básica de comunidade.

Para se trabalhar no sentido de estarmos bem juntos, devemos construir relacionamentos, estabelecer normas e trabalhar as diferenças. O círculo pode ser usado para todos estes elementos: construir relacionamentos, estabelecer normas e trabalhar através das nossas diferenças. O círculo tem uma capacidade poderosa para conter um equilíbrio saudável entre as necessidades individuais e as necessidades do grupo. No círculo, as necessidades individuais ficam mais visíveis quando as pessoas têm a oportunidade de falar. Esperamos que o círculo crie um espaço seguro para que as verdades sejam ditas, pois quando sabemos das necessidades de cada um, sem o círculo, muitas destas necessidades ficariam invisíveis, particularmente com crianças. O círculo também faz com que se tornem visíveis as necessidades do grupo como um todo, porque o grupo pode dar o feedback de como as pessoas são impactadas pelo comportamento individual. Existe a possibilidade de falar a respeito de sua necessidade individual e a oportunidade de entender o impacto que nosso comportamento tem nos outros. Normalmente, não temos essas oportunidades, mas nas comunidades saudáveis existe a necessidade de entendermos o impacto que temos sobre os outros. Frequentemente, quando esse impacto é negativo, não pretendíamos causar danos com o nosso comportamento, e o que pode tornar mais difícil de ouvir é que aquilo que fizemos causou mais um dano. Nunca conseguiremos fazer com que a nossa intenção fique alinhada com nosso comportamento, se não soubermos o impacto que causamos aos outros. Frequentemente, com boas intenções, estamos funcionando no escuro, sem saber, na verdade, qual foi o impacto que nosso comportamento causou. O círculo cria um espaço para que tudo isso fique mais visível de forma a criar um comprometimento absoluto de respeito à dignidade de cada um. Neste espaço fica mais fácil escutarmos que causamos danos. Não é fácil, mas torna-se mais fácil.

Uma das coisas que pensamos a respeito da importância dos círculos é que eles são espaços para que pratiquemos o nosso melhor eu, mas não que sejamos só bonzinhos no círculo, mas sim que possamos praticar o nosso melhor eufora dele.

Se usarmos o círculo como uma prática regular nas escolas, entre alunos e adultos, todos podem levar esta filosofia subjacente para suas interações, quando eles não estiverem em círculo, dando-se oportunidade a praticar isto em círculo; quando não estiverem em círculo também poderão demonstrar esse comportamento. Estamos praticando maneiras básicas relativas ao ser, que são fundamentais para que tenhamos sucesso nos nossos relacionamentos quando estivermos juntos.

Existe muito mais do que só arrumar cadeiras no círculo. O que acontece no círculo?

A primeira coisa que pensamos, na prática do círculo, foi respeito. No círculo cada

perspectiva é valorizada como sendo significativa para aquela pessoa. Cada voz tem a oportunidade de se manifestar e cada pessoa é escutada com atenção focada.

A segunda coisa que é praticada nos círculos é igualdade. No círculo ninguém é mais

importante ou tem mais direitos ou mais poder do que qualquer outra pessoa. Mesmo que

escolham não se manifestar, quando o objeto da palavra chega até eles, ninguém fica invisível. Essa é uma ideia muito importante nas escolas e, no círculo, as expectativas são as mesmas tanto para os adultos, como para os alunos. Esperamos o mesmo comportamento por parte dos adultos

e dos alunos.

A terceira prática em círculo é empatia e competência emocional ou alfabetização

emocional. No círculo, estamos nutrindo e desenvolvendo a nossa capacidade de empatia, nossa capacidade de nos conectarmos e nos espelharmos nos outros.

A quarta prática é a solução de problemas. A prática dos círculos carrega um pressuposto

que cada participante tem algo a oferecer. A presença de cada um dos participantes é importante

para o bem de todos. No círculo, estamos operando um lugar de confiança para que a capacidade inata dos humanos, como um corretivo, possa resolve seus próprios conflitos sem a presença de especialistas.

A quinta prática é a responsabilidade. Os círculos são um espaço para praticar a

responsabilidade tanto com palavras quanto com ações, e a estrutura física do círculo acolhe um tipo de responsabilização não verbal. Não podemos nos esconder atrás da classe e ninguém fica atrás das costas do outro. Podemos todos enxergar uns aos outros, podemos perceber a linguagem corporal e podemos ver o que estão comunicando sem palavras.

A sexta prática em círculo é a autorregulação e a autoconscientização. Os participantes

têm que esperar para falar, escutar sem responder imediatamente e retardar sua própria necessidade para se manifestar. É diferente de como falamos normalmente. Precisamos de muita

autodisciplina. Cada participante estará exercendo autocontrole para fazer com que seja possível

o círculo. A maioria dos adultos que trabalham nas escolas irá considerar esse aspecto como um

grande benefício para ajudar os alunos a aprender a auto-regularização e o autocontrole, sendo

essa uma habilidade importantíssima na nossa passagem para vida adulta.

A última teoria é a liderança compartilhada. O círculo permite a reunião de diferenças,

abre espaço para múltiplas perspectivas e reconhece a existência de múltiplas verdades. Cada membro é um líder. O círculo é um processo de democracia fundamental, no qual todas as vozes são ouvidas e todos os interesses têm que ser tratados com dignidade. Esta é a ideia do círculo:

um processo democrático profundo que tem sido muito importante para o nosso trabalho.

Ensinaram que democracia é quando as maiorias regulam as regras para as minorias e que ninguém fez isso melhor que os EUA. As forças cooperativas e os que têm bastante dinheiro possuem muito poder nos EUA. Vemos que não é mais um país de plena democracia. A ideia de que a maioria governa e protege os direitos das minorias foi vista como o objetivo da democracia. Aprendemos este processo circular. Passamos tempo com os povos das primeiras nações e, quando este assunto é envolvido e questionado, eles se negam a responder. Marc Wedge, que é um membro dos povos das primeiras nações, perguntou-nos por que temos representação por geografia? Por que não há representação por interesses? Inicialmente não entendemos a pergunta. Uma representação por Estados parecia uma coisa inerente e sempre foi assim. Mas, na verdade, essa é uma decisão tomada por humanos. Talvez pudesse ser diferente. Nos fez pensar profundamente no que é democracia. Percebemos que a proteção dos direitos das minorias, de certa forma, é um mínimo. Não conseguimos legislar o ótimo pelo ótimo. Sempre legislaremos pelo mínimo. O interesse das minorias pode nunca ser atendido, baseado em que a maioria vence. Isso se tornou muito visível nos EUA. Fazemos um trabalho relativamente bom em honrar os direitos, mas o bem-estar não é igual nos EUA. Tem alguma coisa faltando. Que a maioria governa e que existe a proteção dos direitos das minorias não é o suficiente. Não nos imaginamos fazendo círculo em nível nacional, mas nossa experiência, com a tomada de decisão por consenso, nos faz pensar que existe algo a mais que pode estar disponível na democracia. Os círculos, fundamentalmente, são mais democráticos do que a maneira como os EUA é governado e, se continuarmos praticando de pequenas maneiras, ficaremos melhores e melhores, transformando isso numa escala nova. Talvez não durante esta vida. Mas é um sonho.

Começamos a pensar por que os círculos são difíceis. Por que não tem sido fácil fazer os círculos se movimentarem na nossa sociedade? Os círculos são um jeito melhor de estarmos juntos, que são extremamente diferentes de outras coisas, dos hábitos de rotina da nossa cultura. Estamos nadando contra a corrente. As nossas rotinas inconscientes estão profundamente sedimentadas na estrutura do dia e incorporam muitas regras que não são explícitas e muitos pressupostos de como devemos nos comportar. E o importante nas escolas é nos tornarmos conscientes desses pressupostos inconscientes. Esperamos que essas considerações nos ajudem a entender por que é tão simples praticar o círculo no jardim de infância e tão difícil praticá-lo em outros lugares. A conscientização pode nos ajudar a reduzir nossas ansiedades e existências naturais durante os círculos, as quais normalmente surgem na implementação da prática, especialmente entre adultos.

Os círculos nos pedem que sigamos em um ritmo mais lento e que estejamos totalmente presentes. Nada de se apressar e tirar conclusões, porque cada voz precisa ser escutada em sua completude e estamos sempre na corrida, sempre com pressa. Não temos tempo de escutar uns aos outros ou escutar a nós mesmos. Raramente, estamos completamente presentes no momento. Acreditamos que temos que fazer muitas coisas rapidamente para que possamos atender às expectativas que foram colocadas em nós. No círculo, a presença completa de cada

participante é necessária e é pedida. Não existem multitarefas. Não dá para escrever um textinho, mandar uma mensagem. Atenção total ao círculo. É um exercício de paciência, de autocontrole para os jovens e que também representa uma mudança significativa para os adultos.

A segunda coisa que torna difícil é a igualdade nos círculos que está em tensão com as

hierarquias. Os nossos relacionamentos refletem a estrutura de poder na nossa sociedade e isso funciona o tempo todo. As escolas se organizam em hierarquias muito fortes e o círculo não é hierárquico. É um espaço de igualdade e desafia as práticas do poder. Uma figura de autoridade não pode controlar o processo circular, precisa compartilhar o poder com todos os participantes. Os círculos irão funcionar se cada um cooperar, sem a intervenção baseada no poder da figura de autoridade. Essa mudança na responsabilidade precisa de alguma prática e desafia a necessidade forte que as figuras de autoridades sentem: professor ou diretor, que possuem a crença de controlar o resultado, também acreditam que devem controlar os participantes.

A terceira coisa que torna difícil para a prática do círculo é que os círculos nos convidam a

falar a partir do coração, pois lidam com emoções. Somos socializados a manter os diálogos de um ponto impessoal e nos sentimos seguros assim, principalmente no mundo profissional do ambiente escolar. Frequentemente, nos sentimos desapropriados ou não seguros. Não temos segurança para compartilhar nossos sentimentos e nossas emoções. Alguns adultos, na escola, sentem-se desconfortáveis com as emoções. Podem se sentir inadequados com a maneira que respondem às emoções ou podem achar que tem que consertar se aparecer alguma emoção negativa, o que pode parecer uma sobrecarga muito grande. Geralmente, nossa sociedade privilegia o mental em detrimento do emocional, fazendo com que as pessoas sintam-se envergonhadas quando precisarem falar sobre questões pessoais ou sentimentos. Nossas experiências sobre crenças e sentimentos impactam em tudo o que fizemos, inclusive nos nossos relacionamentos com os alunos. Ao compartilharmos sentimentos, estaremos ajudando nossos alunos a entenderem por que fazemos o que fazemos. Os adultos sentem, se magoam e têm sabedorias vindas de suas histórias pessoais. Esperamos que os adultos, no círculo, compartilhem a partir de seu coração e de sua experiência de vida, por isso é um relacionamento diferente daquele que normalmente se tem com os alunos, além de ser muito diferente com os próprios colegas. As emoções no círculo são aceitas por aquilo que elas são: uma realidade para esse indivíduo, mas não necessariamente uma responsabilidade para qualquer outra pessoa no círculo. As emoções são ouvidas com respeito, talvez dando como resposta a empatia. Não requer que o adulto ou qualquer outra pessoa tenha que consertar aquela emoção. Frequentemente, os alunos podem ser altamente habilitados para responder as emoções dos seus pares.

O último fato que colocamos como sendo difícil de usar o círculo é o fato de priorizar a

construção de bons relacionamentos. A nossa cultura prefere conquistas a conexões. Usar as ações de fazer, ao invés de priorizarmos as ações de estarmos em conexão com os outros, com nós mesmos ou com a natureza. O tempo que demora em se construir relacionamentos de qualidade fica no final da lista de prioridades, na escala de necessidades que a escola quer

desenvolver. Isso é compreensível porque existe extrema pressão em cima das escolas. Porém, muitas das dificuldades recorrentes nas escolas e que, a longo prazo, demandam muito tempo e muitos recursos, surgem a partir da ausência de relacionamentos positivos. Geralmente a confiança não está presente nas escolas. Os jovens não confiam nos adultos, a equipe de trabalho pode não confiar na administração. Embora a construção da confiança leve tempo, vale a pena o investimento, porque o desempenho acadêmico depende do sentimento de confiança e dos bons relacionamentos. Isso é para sentirmos de onde estamos vindo. Por estarmos defendendo o maior uso de círculos nas escolas, acreditamos que poderia realmente mudar a cultura da instituição quando os círculos são praticados de maneira regular.

Queremos mostrar a imagem de uma pirâmide. Na parte maior, colocamos a construção de relacionamentos e, na segunda parte, que é a menor, colocamos a reparação de relacionamentos, ou seja, quando houve uma quebra neste relacionamento. Na ponta da pirâmide, a reconstrução de relacionamentos que foram seriamente rompidos.

Reconstruindo relacionamentos Círculos de conflito, de cura e de apoio interrompidos Reparando relacionamentos
Reconstruindo
relacionamentos
Círculos de
conflito, de cura
e de apoio
interrompidos
Reparando
relacionamentos
interrompidos
Círculos de conflito
ou compreensão e
cura ou
restabelecimento
Construindo
Círculos de
relacionamentos
conversa,
celebração,
construção de
comunidade e
aprendizagem

Essa é uma imagem que muitas pessoas estão usando no contexto escolar relacionada às práticas restaurativas nos EUA. A imagem surgiu no sistema de saúde. Colocaram, na base, práticas universais de prevenção para diminuir o número de pessoas que acabavam na ponta da pirâmide.

Com o uso dos círculos nas escolas, poderemos usar universalmente a prática de círculos tanto com os adultos, como com os alunos para que tenhamos uma base saudável e sólida que possa cuidar das diversas situações quando elas surgirem. Neste nível são círculos de conversas:

círculo de celebração, de construção de comunidade e de aprendizagem ou pedagógico, quando utilizamos o formato do círculo, como maneira de ensinarmos algo. Usamos os círculos de uma maneira universal, passando por toda a escola, que são círculos de construção de relacionamentos. É isso que criará a cultura na escola. Os círculos são uma ferramenta muito boa para se criar uma cultura positiva.

O segundo nível usará o círculo para resolver problemas menores de interrupção de relacionamentos. Não interessa quão saudável sua comunidade seja, os seres humanos irão entrar em conflito uns com os outros. Cada um de nós é único e, às vezes, as nossas necessidades vão bater com as necessidades dos outros. Às vezes, não entendemos um ao outro e podemos reagir de uma forma não muito boa. Isso fica no nível intermediário círculo de conflito ou círculo de compreensão, de entendimento do problema, e podemos ter círculo de cura ou restabelecimento. E, na ponta da pirâmide, significa que devemos começar novamente na construção de um relacionamento, porque houve um rompimento muito sério. Nas escolas, muitas e muitas vezes, tem a ver com o relacionamento de um aluno com um adulto. A maioria das dificuldades de relacionamento entre os estudantes estará no nível intermediário. Para aqueles alunos que não se sentem pertencentes, que recebem mensagens de exclusão, o seu relacionamento com a escola estará seriamente rompido, precisando de uma intervenção mais completa que envolverá círculo de conflito. Poderão ser círculos de conflitos, em que as pessoas terão que se encontrar mais de uma vez. Poderão ser inclusos em círculos de cura ou recuperação e podemos incluir um processo de círculo de apoio. Esse relacionamento precisa de atenção, ao longo do tempo, para reconstruir a conexão. Assim, referente a relacionamentos dentro da escola, os círculos de apoio podem acontecer uma vez por semana, durante alguns meses.

Outra situação que pode vir à tona nas escolas, particularmente, é quando os alunos faltam muito às aulas. As razões para essas faltas são, frequentemente, devido a forças fora da escola. A escola pode ser o local onde se criarão círculos de apoio que poderão se focar nas situações que estão acontecendo fora da instituição. Podemos utilizar círculos de apoio para focar nas ausências e, assim, auxiliar o aluno a não faltar tanto. O apoio da escola poderá ajudar a família a fazer algumas mudanças.

Na pirâmide, pode ser que o processo circular não seja a única prática que será usada, mas nos dá um sentido para verificarmos em quais aspectos o círculo será relevante.

Uma das estratégias para trabalharmos nas escolas é começar pelos funcionários, por toda comunidade escolar. Se tivermos oportunidade, quando iniciarmos um trabalho de Justiça Restaurativa nas escolas, preferimos começar utilizar os círculos com os funcionários, para o bem- estar dos mesmos. É como um processo de autocuidado para a comunidade escolar; não faremos

nenhuma referência a alunos, porque se os funcionários não estiverem saudáveis e não estiverem em relacionamentos saudáveis uns com os outros, não conseguirão criar uma comunidade forte para as crianças e adolescentes. É bom começarmos, se possível, com os relacionamentos entre os adultos. Também é necessário ser oportunista, começar onde quer que seja oferecida a oportunidade e, com muita frequência, conseguimos oportunidades com os alunos antes dos adultos. Sempre que possível, comecemos pelos adultos.

Segue um esboço de círculo que acreditamos que funcione bem para começar com os adultos da escola:

- Cerimônia de abertura: cerimônia das fitas preparamos fitas de mais ou menos um metro de comprimento para cada participante do círculo. Convidamos as pessoas a pensarem em um mentor ou em um professor importante em suas vidas e em um presente que receberam dessa

pessoa (alguém que tenha ensinado algo importante). Iniciamos no sentido horário, convidando- as a compartilharem o nome da pessoa e qual o presente que receberam dela. Os participantes amarram a sua fita na fita de quem está ao seu lado e a pessoa seguinte faz o mesmo, amarrando

a fita antes que o próximo comece a falar. No final, as fitas estarão todas conectadas. Nesta

cerimônia, convidamos as pessoas a honrar alguém que foi importante em suas vidas e que tenha

uma ocupação parecida com a que elas têm agora.

- Apresentação: Na rodada de apresentação, convidamos as pessoas a dizerem quem elas são e

perguntamos por que escolheram ser um educador. Essas histórias, normalmente, têm um significado profundo. No entanto, o dia a dia de um professor, muitas vezes, nos desconecta daquela ideia inicial que tínhamos e fazer uma re-conexão com esse objetivo inicial pode ser uma renovação.

-

Valores: Uma rodada de valores, pedindo aos participantes que valores gostariam de trazer para

o

círculo e que seriam importantes para seu relacionamento com os alunos.

-

Diretrizes: Passaríamos para as combinações.

- Contação de História: Uma rodada solicitando uma história na qual se sentiram muito orgulhosos por terem escolhido esta carreira. Mais uma rodada perguntando o que tem sido difícil na carreira que escolheram. Eles precisam de espaço para falar sobre as dificuldades também, mas primeiro, é fundamental que se estabilizem em seus pontos fortes. Se houver tempo, podemos passar o objeto da palavra novamente e solicitar se tem mais alguma coisa a acrescentar. O facilitador vai reconhecer as dificuldades e fará mais uma rodada abordando pontos fortes ou possibilidade de melhora. Poderia ser: como podemos apoiar uns aos outros quando acontecem as dificuldades? Que ponto forte você se apoia para continuar aqui, apesar das dificuldades?

- Check-out: Uma rodada de encerramento perguntando como se sentiram no círculo.

- Cerimônia de Encerramento:

Este formato básico pode ser adaptado para outras profissões, porque em todas as profissões saudáveis as dificuldades do dia a dia deixam as pessoas esgotadas. Apesar disso, as pessoas continuam nessas profissões em razão dos valores profundos e das boas intenções que elas possuem. Tais intenções e valores profundos podem ser uma fonte de cura para as dificuldades do dia a dia. Essa seria uma forma de iniciar. O ideal para as escolas é o círculo relatado acima, com foco nos adultos e não nos alunos.

Compartilharemos uma histórica de profundo compromisso com este trabalho: Uma amiga criou a Editora da Justiça Viva para publicar o primeiro livro do qual fizemos parte. Este livro foi escrito por Kay Pranis, Berry Stuart e Marc Wedge (o indígena que me ajudou a entender os círculos). Estava tentando uma editora que publicasse o livro com o qual estávamos trabalhando. Assim, conheci Denise Breton, autora de livros já publicados. Solicitei a ela como conseguir uma editora e ela disse: deixe olhar este manuscrito. Pegou o manuscrito de 300 páginas, muito esquisito, de espaço simples. De alguma forma, enxergou algo lindo no trabalho e falou: teremos que criar nossa própria editora. Cada boa ideia precisa da sua própria editora. Com vários amigos criamos esta editora sem fins lucrativos. Passou o ano inteiro editando o livro, o qual foi se transformando em um lindo trabalho. Durante os dez anos seguintes, ela trabalhou em tempo integral, sem salário, tocando a editora sozinha. Publicamos um livro da Caroly Boyes-Watson e o livro de outra pessoa e, depois, mais um livro escrito com outros canadenses (Fazendo Democracia com Círculos). Ela fazia todo o trabalho da editora sozinha, trabalhava mais de 40 horas por semana, sem salário. Denise Breton mora com a mãe, que tem, mais ou menos, 95 anos e viviam da pensão materna. Isso é um comprometimento fantástico com este trabalho. O livro foi publicado em 2014 e já vendeu 20 mil cópias. Suficiente para, agora, podermos pagar o salário da Denise Breton. É maravilhoso, mas ela ainda sofrerá, porque a pensão de aposentadoria nos EUA é baseada no salário que a pessoa teve durante os anos de trabalho, e ela tem dez anos de trabalho com zero de salário. E, mesmo assim, ela não mudou em relação àquilo que queria fazer e a editora da Justiça Viva é a editora principal para os trabalhos de Justiça Restaurativa, ainda funcionando na casa dela.

Este trabalho está cheio de exemplos de pessoas que se doam e vão além, e todos somos parte disso. Esta é uma das razões que este movimento de Justiça Restaurativa e Círculos de Construção de Paz não têm como parar. Quando se transforma em um modo de vida, não tem como parar.

4.2.

A AMPLITUDE DE UTILIZAÇÃO DOS CÍRCULOS

Os círculos foram estabelecidos para organizar e valorizar as normas comunitárias. Esse é o processo para decidir, de forma coletiva, os valores e as combinações que teremos dentro de uma sala de aula. O círculo auxilia para que todas as vozes sejam ouvidas e para que todas essas vozes se manifestem na concordância do objetivo que está sendo buscado. Esses acordos serão a respeito de como os membros da comunidade vão tratar uns aos outros. Descrevem as expectativas para a comunidade, com a compreensão de que iremos cometer erros. Somos humanos. Podemos voltar e rever esses valores e combinações para que possamos nos tornar uma comunidade forte e saudável novamente.

Podemos usar círculo para ensinar e para aprender. No início de uma unidade de ensino, o professor pode passar o objeto da palavra e perguntar aos alunos o que sabem a respeito deste tópico. Pode fazer outra rodada perguntando qual o interesse dos alunos em saber a respeito deste tema ou solicitar a uma classe que leia uma crônica, e o objeto da palavra pode ser passado pedindo sobre as reflexões que têm a respeito daquilo que leram. Isso permite que as vozes dos que não se manifestam tenham a chance de falar e, com muita frequência, traz reflexões mais profundas.

Os círculos podem ser usados para construir conexões entre os adultos e os alunos nas escolas. Uma das formas mais importante dos círculos para construção de comunidade é o círculo de check-in. Muito importante que, regularmente, os membros desta comunidade se reúnam e façam um simples check-in. Check-in é o primeiro momento do dia juntos para sabermos como estamos nos sentindo.

Os círculos podem ser usados para aprendizagem social e emocional. Uma das coisas mais úteis neste processo é que cada círculo irá aumentar a aprendizagem social e emocional. O círculo pode ser com outro objetivo, mas, mesmo no processo para chegar ao outro objetivo, as habilidades sociais e emocionais serão trabalhadas. Se estivermos usando os círculos de maneira regular na escola, eles irão reduzir a necessidade de ter um conteúdo específico para desenvolver o conhecimento social e emocional.

Os círculos podem ser usados em conversas difíceis, mas importantes. Muitos alunos veem a desigualdade e a violência em suas vidas, mas, na maioria das vezes, os adultos não falam sobre isso. Muitos adultos, nas escolas, têm medo de abrir esta caixa. Mas para os jovens, não faz sentido. Uma coisa que é tão grande nas suas vidas não ser reconhecida pelos adultos nas escolas. Precisamos abrir espaços para que os jovens possam falar das suas observações e reflexões acerca das desigualdades, injustiças e das dificuldades enfrentadas em casa. Os círculos são uma maneira para se ter essas conversas, e os funcionários precisam fazer círculos uns com os outros.

Nos EUA, cada professor tem sua sala de aula, por isso, quando termina, os alunos dirigem- se para a próxima sala, onde terão outra aula. Nos intervalos entre as aulas há uma grande movimentação nos corredores. Em uma escola, de sétima e oitava séries, quando os alunos estavam passando no corredor entre uma aula e outra, dois meninos começaram a brigar. Uma das normas da escola é que todos os professores devem ficar no corredor entre a troca das salas. Quando irrompeu esta briga, havia dois professores e, um deles, tentou parar a briga e o outro virou de costas e foi para sua sala. Imagem os sentimentos fortes que se estabeleceram entre os professores, os quais começaram a tomar partido. Fizeram um círculo com o corpo docente. O professor que tentou parar a briga falou de como se sentiu quando foi abandonado. E o professor voltou para sua sala, que ignorou o que estava acontecendo, falou como se sentiu quando percebeu que só havia dois professores no corredor, quando todos deveriam estar ali. Todos os professores conseguiram falar sobre a necessidade de trabalharem juntos e manifestaram que, depois do círculo, o corpo docente ficou mais próximo do que estavam antes do incidente. E é isso o que buscamos.

Nos EUA, existe um plano de educação individualizado para quem tem necessidades especiais e precisa de um plano especial desenhado. Criar este plano em círculos dá aos pais mais voz, trazendo a sabedoria dos pais de uma maneira mais eficiente. Podemos fazer círculo que sejam facilitados pelos próprios jovens. Existem vários programas nos EUA em que jovens facilitam círculo para os seus pares, quando os pares se meteram em encrencas. Normalmente, um adulto entra como participantes no processo, mas o jovem facilita e o grupo todo chega a uma resolução. Todos são círculos de conversa que estão na base da pirâmide e podem ser usados em todas as áreas.

No final de um e-mail, vimos uma citação do poeta Rumi: “Ontem fui tão inteligente, queria mudar o mundo. Hoje, eu sou sábio. Quero mudar a mim mesmo.”

O jeito que temos de mudar o mundo é trabalhar com quem está próximo de nós em nosso mundo. É mudar nosso jeito de agir no trânsito, a maneira como nós tratamos as pessoas que trabalham a nossa volta, em hotéis, em restaurantes. E, quando conseguimos fazer mudanças nas partes bem próximas das nossas vidas, conseguimos chegar juntos e encontrar a sabedoria coletiva para que o impacto seja cada vez maior. Nenhum de nós consegue ter a resposta de como fazer as mudanças no nível macro. Temos que manter o diálogo com as pessoas que estão sofrendo mais, porque é aí que as respostas emergirão. Muito diálogo. Precisamos ter abertura para aquilo que nós, atualmente, não conseguimos prever, enquanto praticamos a maneira de ser, nas nossas interações, da melhor forma que pudermos. É surpreendente que não tenhamos mais violência do que já temos. Quando sentamos em círculo múltiplas vezes, descobrimos que cada pessoa caminha com uma dor. Vivemos uma cultura que bloqueia as necessidades humanas mais fundamentais, como a necessidade de significado e de pertencimento. Quando nos damos conta de quanta dor caminha nas nossas ruas, a cada dia, é surpreendente que não sejamos mais

violentos. Essa é a demonstração da relutância humana fundamental de causar danos nos outros. Algo desencadeia em nós e alguma coisa nos impulsiona, fazendo com que cometamos danos contra os outros. Na maior parte das vezes, agimos de forma a nos permitir viver juntos, apesar da grande dor que cada um carrega. É possível criarmos um modo diferente, porque temos realmente um desejo profundo de estarmos em bons relacionamentos com os outros. Nascemos com isso.

Mostre-nos um bebê que não queira estar em bons relacionamentos com outros, mas, mais que isto, os seres humanos evoluíram em comunidade. Nossos genes têm que carregar o impulso de estarmos em bons relacionamentos. A sobrevivência da espécie depende de estarmos em bons relacionamentos uns com os outros. Não é só isso que os nossos genes carregam. Eles também carregam o potencial de causar danos, mas devemos prestar atenção em qual desses impulsos que a nossa cultura está alimentando. De alguma maneira, a nossa cultura está nutrindo aquela parte de nós que está disposta a causar dano. Em círculo estamos fortalecendo aquela parte de nós que deseja estar em bons relacionamentos.

Confidencialidade é uma questão complicada no círculo. A grande dificuldade é que as pessoas têm diferentes definições para confidencialidade. Alguns chamam de privacidade e outros de confidencialidade. Há duas coisas que temos que ter em mente: não podemos prometer confidencialidade absoluta, especialmente nas escolas. Existem questões legais a respeito da confidencialidade quando não podemos mantê-la. A informação compartilhada que se relaciona à segurança, quando alguém não está seguro, deve ser lavada para fora do círculo. É importante ser muito claro com os participantes sobre essa possibilidade. Nas escolas sempre teremos que nos preocupar com a segurança tanto com os adultos como nos relacionamentos dos adultos com as crianças e adolescentes. É uma condição que não é específica do círculo em si. Se um adulto fica sabendo a respeito de um problema de segurança de alguém da escola, deverá levar adiante tal informação. É importante levar aos alunos que o círculo não é uma exceção a esta realidade geral

e, por causa da natureza do espaço, existe mais possibilidade para os alunos se abrirem e falarem

a respeito de alguma coisa que deverá ser cuidada. É importante ter clareza com os alunos sobre

os limites da confidencialidade. Queremos que os alunos possam falar a respeito do processo em

si ou falar a respeito de seu próprio desenvolvimento e crescimento a partir do processo. Muitos

facilitadores estão dando diferentes nuances a confidencialidade. O acordo feito foi que a informação pessoal que é compartilhada no círculo permanece no círculo. Os aprendizados que se aprendem no círculo podem sair dele. As histórias permanecem. É importante também ter muito cuidado a respeito da confidencialidade, principalmente em situações de conflitos. Se a confiança estiver sofrendo uma erosão, os participantes vão querer uma definição concreta sobre confidencialidade. Muitas pessoas abordarão os participantes para saber o que aconteceu no círculo e é muito difícil não comentarmos a respeito. Se tivermos um círculo de conflito com final feliz, e as pessoas estiverem se sentindo melhor umas em relação às outras no final do círculo, podemos revisitar a questão da confidencialidade. Podemos fazer uma rodada perguntando com o

que você ficaria bem se fosse compartilhado fora do círculo? Chegaríamos a um acordo do que

poderia ser falado daquilo que aconteceu durante a prática. Em termo das palavras confidencialidade e privacidade, para nós, confidencialidade carrega o sentido de que nada será compartilhado fora do círculo, e privacidade, para nós, tem uma conotação de que não vai ser compartilhado nada que possa identificar uma pessoa. Mas podemos fazer uma rodada perguntando o que significa confidencialidade e se ela é importante Há participantes que não têm necessidade alguma de confidencialidade e é importante para eles escutarem os outros explicarem por que é importante para eles. Assim, assumirão o compromisso de maneira mais firme, tendo consciência de que é importante para os outros que as informações não ultrapassem

o círculo. Quando temos alguma dúvida a respeito de algo, devemos perguntar ao círculo: o que

vocês acham? O que vocês querem fazer a respeito desta questão? Houve uma experiência interessante quando estavam fazendo uma capacitação de facilitadores em uma prisão juvenil feminina, pois havia funcionários fazendo parte do círculo e as meninas queriam que o item confidencialidade fosse incluído nas diretrizes, porém os funcionários disseram que não poderiam concordar. No início, as meninas ficaram muito bravas. O objeto da palavra passava para as pessoas expressarem as várias perspectivas, passaram horas e horas e foi a parte mais poderosa da capacitação, porque elas entenderam as necessidades umas das outras de uma maneira melhor em virtude do problema que surgiu. Quando a discussão chegou ao final, haviam conseguido maior confiança entre todos. Estamos o dia inteiro nas diretrizes.Esse era o trabalho que elas

precisavam fazer. Batalhar, de forma diferente, até chegar aonde elas precisavam chegar, e chegar

a um lugar de melhor entendimento porque as pessoas enxergam as coisas do jeito que enxergam.

Nem sempre precisamos concordar, mas precisamos trabalhar nossas diferenças com respeito. Foi

isso que os participantes conseguiram fazer juntos.

4.3.

PERGUNTAS

a) Qual a melhor estratégia quando verificamos que o facilitador solicita o objeto da palavra a qualquer tempo (pois é facilitador), dá conselhos, discorda dos participantes do círculo, interfere nas salas? A quantidade de objetos da palavra é flexível, ou é um objeto por círculo? Quando o facilitador interfere no círculo, o que está fazendo deixa de ser círculo. O desafio é trabalhar sem fazer julgamentos. A maioria das pessoas que se tornam facilitadores estão cheias de boas intenções, e precisamos achar um meio de validar e valorizar essas boas intenções, ao mesmo tempo que queremos dar um feedback para elas, para que percebam o impacto negativo da atitude no círculo. Se possível, encorajá-las a reunirem um grupo de facilitadores para refletir a respeito de sua prática. Onde existe uma preocupação específica, devemos tentar formular uma pergunta que oferecerá uma perspectiva diferente para esta situação, principalmente, uma perspectiva pessoal.

Para alguém que fica dando conselhos, onde esta é a sua preocupação, não devemos focar em um indivíduo particular, convidamos a todos os facilitadores no círculo a fazer uma reflexão sobre este assunto. Uma rodada em que convidamos os facilitadores a compartilhar uma experiência de sua vida: quando alguém estava dando conselhos a eles e eles não se sentiram respeitados pelo conselho que estava sendo dado. Podemos refletir, enquanto facilitadores, qual o nosso conceito de ajuda. Com muita frequência, o nosso papel de ajudar não é um relacionamento de igualdade e, sim, um relacionamento de cima para baixo. Convidamos os facilitadores participantes a fazer uma reflexão sobre a igualdade: qual a diferença de conceito entre você ajudar ou apoiar, ou de alguém que caminha junto com esta pessoa? Como eles se enxergam em relação aos participantes no círculo? Na verdade, podemos fazer um exercício usando um material de arte, convidando os facilitadores a criarem uma imagem com os materiais, demonstrando como eles se veem em relação aos participantes. Buscamos um relacionamento em que nos enxergamos precisando dessa pessoa, tanto quanto ela precisa de você. Tentamos nos afastar desta relação de cima para baixo. Podemos ter um grupo de facilitadores para refletir a respeito da sua prática e nenhum deles achará que estaremos focando naquilo que não está fazendo bem. Quanto mais vulneráveis nos colocarmos, falando das vezes em que não conseguimos fazer este tipo de relacionamento de estar lado a lado, os outros se sentirão mais seguros de refletir a respeito de sua prática. Outra possibilidade ainda, dependendo das circunstâncias, é proporcionar aos participantes uma chance de dar o feedback ao facilitador, de falar sobre sua atuação.

Existe um projeto em uma escola onde treinam os jovens a serem facilitadores dos círculos com os seus pares. Há sempre um adulto, sentado em círculo, como participante. Estavam em círculo e a facilitadora era uma jovem que estava dando sermão às outras meninas. O adulto pensava em interromper, em parar o processo, porque achava que não estava certo o que estava acontecendo. O adulto decidiu sentar sobre as mãos para não interromper e não intervir. À medida que o objeto da palavra foi passando, as meninas foram dizendo à facilitadora que ela estava se achando melhor do que elas. Então, se conseguirmos criar um espaço seguro onde as pessoas possam falar, é o melhor jeito de voltar ao equilíbrio no círculo. Nenhuma técnica será perfeita quando temos esse desafio. Talvez precisemos falar só a dois, a pessoa que percebe e o facilitador, a respeito do que estamos observando e sempre será feito de maneira respeitosa e amorosa.

Quanto ao número de objetos da palavra, isso é flexível, desde que se use um de cada vez. Durante uma capacitação, podemos usar diferentes objetos da palavra para que todos percebam que pode ser diferente. Quando estamos capacitando, usamos diversos objetos da palavra em horas diferentes, com alguma intenção específica, para que cada um seja significativo a cada rodada. Há possibilidade, também, de os participantes, à medida

que o objeto da palavra for passando, trocarem o objeto da palavra se houver outros à disposição e se assim o quiserem.

Em um círculo de cura em que um jovem de 17 anos tinha matado outro da mesma idade, a facadas, a mãe da vítima pediu um encontro com o agressor. Como vítima, pedimos a ela que trouxessem o objeto da palavra que representasse seu filho, e ela trouxe uma cruz (presente de seu filho para ela). Como a cruz representa uma fé particular, o melhor jeito de usá-la seria na parte do círculo em que iríamos falar sobre seu filho. Na primeira parte do círculo em que estamos estabelecendo relacionamentos e valores, usamos outro objeto da palavra com significado mais universal, uma pedra e, na segunda metade, usamos a cruz que representava seu filho. Em um círculo como este, em que o objeto da palavra é muito intencional, não permitiríamos a troca do referido objeto. É importante, em um círculo assim, que o objeto da palavra seja o mesmo, porque existe uma intenção muito grande nesse objeto quando for trazido. Mas o objeto da palavra pode ser muito flexível, exceto neste tipo de círculo, se não será um processo diferente. Muito importante passarmos o objeto da palavra em ordem e não de forma cruzada, em toda a rodada. Será uma perda significativa se passarmos aleatoriamente. O objeto da palavra passado em ordem distribui o poder em torno do círculo, criando igualdade de poder. Se permitirmos passar cruzando, a velha estrutura de poder retornará. As pessoas mais assertivas terão mais tempo para falar. É importante que passemos na ordem do círculo.

b) Existem experiências de criação de projetos envolvendo processos circulares para que as crianças possam compartilhar seus interesses, sonhos e necessidades e, a partir disso, cocriar o seu futuro com apoio de uma comunidade de aprendizagem? Não pensamos ainda, com tanta clareza, a respeito dessa finalidade, mas algumas experiências se encaixam nesta ideia. Uma amiga que trabalha no sistema prisional, no Canadá, teve a responsabilidade de formar uma força tarefa para planejar e construir uma prisão feminina que seria embasada na cultura indígena, porque as pessoas da primeira nação estão em número muito grande na prisão. Essa força tarefa era para escolher o local onde seria construída uma prisão para desenvolver alguns elementos do plano físico e elaborar também programas que teriam no espaço. Todo o planejamento foi realizado em círculo. Foi definitivamente um projeto de aprendizado continuado. A cocriação esteve presente sempre. Esse grupo incluía basicamente pessoas da primeira nação e muitas já tinham tido experiências com a justiça. Já haviam sido presas. Quando começaram, havia muito conflito interno no grupo. Passaram muito tempo em círculo de cura, pessoal e em grupo. Encontravam-se uma vez por mês, em cidades diferentes no Canadá. Depois de cada encontro, deveria haver o respectivo relato. Naqueles primeiros meses, não havia nada de concreto para relatar. “Como assim? Ficar conversando, conversando em círculo e nada vai se concretizar.” Havia cinco prédios sendo planejados ao mesmo tempo. Nos outros grupos não estavam utilizando os círculos para este processo de criação e planejamento. O grupo

que estava utilizando o círculo e mais um foram os primeiros a abrir o processo de escolha do local onde seria construída a prisão de mulheres. Os locais que queriam as prisões em sua comunidade tinham que apresentar uma proposta, e havia mais de vinte. Elas tinham a missão de escolher as três mais top de todas e mandar para a matriz. Haveria uma decisão política que decidiria o local. Quando chegaram ao processo de classificar as propostas, foram unânimes na escolha de uma. Mas era necessária a escolha de três. As anciãs que participavam do grupo disseram que tudo bem, que ela não iria sozinha, levando um único nome de um único local. Isso representa uma cocriação.

Fizemos muitas capacitações no início do nosso trabalho. A diretora do programa de mulheres e crianças sem teto, que trabalha na associação cristã de mulheres, no Canadá, tinha sete pessoas trabalhando para ela. Essa equipe decidiu que queriam criar novo programa e usaram o processo circular para planejá-lo. Cada um tinha um sentido de pertencimento, de propriedade do programa. O projeto foi baseado na sabedoria que cada um trouxe. Esses são lugares em que houve processo circular para planejarem juntos: a cocriação. Vemos o Dragon Dreaming mais focado e com mais intenção neste tipo de organização. Potencialmente é mais poderoso para isso. De certa forma, essa é uma característica geral deste trabalho. Tem muita coisa que fazemos bem, partindo da nossa intuição, mas se pudermos combinar a nossa intuição com a nossa habilidade analítica, entenderemos de que forma nossa intuição está nos guiando. Podemos nos certificar, então, que podemos usar este tipo de trabalho, mesmo quando a nossa intuição não aflorar.

A Justiça Restaurativa e o trabalho de círculo não são ideias novas, e muitas pessoas vêm usando esse tipo de sabedoria no trabalho que fazem, mas não temos tido uma linguagem comum e, frequentemente, não usamos a maneira analítica de observar o que estamos fazendo para que sejam mais sistemáticos na maneira como fazemos as coisas. O movimento de Justiça Restaurativa está oferecendo uma linguagem comum para a sabedoria que já temos. Temos usado uma estrutura que torna mais fácil vivermos esta sabedoria. Em uma capacitação ocorrida em uma prisão canadense, com vários anciãos da primeira nação, que eram funcionários, um deles compartilhou um ensinamento conosco:

ensinamento é uma maneira de acendermos novamente a fogueira de uma verdade com a qual nascemos. Este trabalho é um processo de nos fazer lembrar. Lembrar quem nós somos como seres humanos; lembrar da nossa capacidade de estarmos em bons relacionamentos uns com os outros; lembrar que estamos profundamente conectados com cada ser humano. Um ensinamento é acender novamente a fogueira para trazer a verdade com a qual já nascemos.

c) Gostaria de saber se há alguma experiência, dentro da saúde integrativa nas escolas com foco no professor, para a realização de um encontro com 360 representantes de escolas,

para que eles levem a proposta de desenvolver círculos de construção de paz para suas escolas?

Havia uma pessoa na escola de ensino médio, que era a pessoa do círculo. Uma das questões típicas que chegava até o seu escritório: dois meninos adolescentes, com a testosterona aflorada, estavam para iniciar uma briga. E esta pessoa que era do círculo já tinha trabalhado anteriormente com jovens de ruas e tinha uma máquina de “peidos” com controle remoto. Escondia a máquina no escritório e os dois que estavam em conflito teriam que acionar o controle remoto e descobrir onde estaria escondida a máquina. Quando a encontravam, sentavam em círculo com apoiadores e com colegas, e a máquina de peidoficava no centro e o controle remoto era o objeto da palavra. Que bom, pois isso é uma coisa boa. Outra reflexão é a pergunta que fizemos para chegar às estratégias no círculo. Esta estratégia específica que estamos pensando em usar no círculo vai ajudar este grupo específico a trazer à tona o seu melhor eu? Para nós, a resposta era um SIM muito claro. A “máquina de peido” ajuda os alunos a irem em direção ao seu melhor eu e qualquer espaço que nos ajude a ir ao encontro do meu melhor, do melhor eu, é um espaço sagrado, com ou sem “máquina de peido”. Seria muito inadequado em muitos círculos. Por isso fizemos a pergunta: esta estratégia vai auxiliar este grupo a mostrar o seu melhor eu?

d) Em Teotônia, desde 2014, temos 44 facilitadores que fazem parte de escolas municipais, estaduais, particulares ou são diretores, professores, membros da secretaria municipal, orientadores. Encontramos dificuldades para termos conectividade e trabalho efetivo por parte de todos. Cada um pode aprender de uma maneira e entender aquilo que quer entender. De que forma podemos intensificar o trabalho de todos os facilitadores no nosso município, porque sabemos que nem todos se sentem à vontade ou encontram em si o perfil como facilitador? Os facilitadores precisam ser alimentados, ser nutridos. O autocuidado é muito importante para os facilitadores. É importante não exigir que sejam facilitadores mesmo que tenham sido capacitados para isso. Temos dons diferentes em nós e, ao mesmo tempo, fica o sentimento de desconforto quando vamos fazer algo novo. Precisamos encorajar as pessoas que foram capacitadas a que elas conduzam alguns círculos, antes de decidirem que esse não é o seu lugar. Provavelmente, a melhor maneira de fazer isso seja através de um processo de acompanhamento (coaching). Podemos convidar o facilitador para fazer um círculo conosco para que ele observe como conduzimos. Mas deve acontecer no contexto desse facilitador. Posteriormente, fará outro círculo em que seremos o cofacilitador e ele tomará a frente na condução. E, num terceiro estágio, poderíamos convidá-lo para um círculo, no qual daremos apoio emocional e ele facilitará sozinho. Depois de cada um desses estágios, é importante sentar com a pessoa e fazer uma reflexão, uma avaliação de como foi o trabalho, perguntando ou trocando ideias

sobre o círculo, inclusive questionando se houve algum desconforto. Dizer ao facilitador que é perfeitamente normal sentir nervosismo no início da atividade.

Um amigo que fazia círculo de conflito para os funcionários dentro de uma prisão disse que vários círculos que fez eram tão exaustivos que se sentia esgotado. Alcançou o ponto que saída do círculo com a mesma energia que havia chegado. Passou para um novo estágio, sentindo-se com mais energia ao sair, do que a energia quando havia entrado. É normal acharmos difícil no início. Precisamos encorajar as pessoas para que tentem por um tempo suficiente para que percebam se é a incerteza do iniciante ou se realmente é um lugar desconfortável para ela. Existem muitas outras tarefas neste trabalho. Não há necessidade de ser facilitador para contribuir com o trabalho. Muitos dos projetos nos EUA envolvem pessoas que não se sentem confortáveis em facilitar o círculo, mas assumem papéis de apoiadores, mentores ou membros da comunidade que tem o hábito de praticá- lo. Representa-se a ideia de que a comunidade se importa com aquele indivíduo para quem está sendo realizado o círculo. Essas pessoas trazem uma contribuição valiosa para cada círculo que se fazem presentes.

Um fator muito importante para trabalharmos o nosso autocuidado é internalizarmos a ideia de que não é nossa responsabilidade consertar os problemas que aparecem no círculo. Isto é uma das coisas que faz com que as pessoas se queimem neste processo. Muitos acreditam no dever de assumir responsabilidades perante as outras pessoas pelo que pode acontecer no círculo. E, por fim, as pessoas têm que fazer a sua própria cura e ter que tomar a sua própria decisão de criar a vida que elas realmente querem viver. Precisam de espaço seguro para trabalhar com essas situações e, às vezes, sua sabedoria a partir da experiência de vida de outras pessoas pode também ser útil. Em última instância, cada um tem que fazer o seu trabalho. Assumir a dor da outra pessoa não ajuda a reduzir a dor que ela sente. Ficar solidário com as pessoas pode transmitir algum alívio. Elas precisam saber que nos importamos, que as respeitamos e confiamos na capacidade que elas têm, mas que não podemos carregar a dor do outro pelo outro. Se tentarmos fazer isso, ficaremos subjugados pelo peso que iremos carregar e ficaremos limitados à nossa capacidade de contribuição. Essa é a parte mais importante do autocuidado. Um dos meus primeiros professores das primeiras nações, Marc Wedge, ensinou um jeito de pensar sobre essa questão: não tem a ver contigo, é o que passa através de você. Não é nossa responsabilidade controlar ou administrar isto. A nossa função é ficar limpa. Não podemos interferir naquilo que passa através de nós, com nossas próprias ansiedades e dificuldades. Nossa prática é pensar de que maneira podemos nos manter limpos, entendendo que somos seres humanos, que não estaremos completamente limpos, que nossos canais não estarão completamente limpos. Mas podemos pensar em maneiras que busquem a limpeza interior. O novo pode surgir, mas podemos continuar trabalhando para nos manter limpos por dentro.

Tive muita sorte, pois Marc passou essa sabedoria em 1996, mais ou menos quatro meses depois da minha capacitação para ser facilitadora. Então, por 20 anos, quando tomo banho, peço que as águas que passam me limpem emocional, espiritual, além de fisicamente e agradeço a água que faz essa limpeza. Minha amiga Yago, das primeiras nações, também ensinou outras estratégias para manter-me clara e limpa: caminhar sobre a terra de pés descalços, se possível, e imaginar que os poros na planta dos pés estejam se abrindo e convidar a energia negativa que descarregue para dentro da terra, numa caminhada meditativa. Usar sálvia (planta sagrada), diferente da nossa, como chá e limparmos internamente. O importante é determinar o que funciona para eu me manter limpa: oração, meditação, tai chi chuan, ioga. Uma prática que, conscientemente, limpe- nos de tudo aquilo que não precisaremos estar carregando. Se nos juntarmos com outros facilitadores, de tempos em tempos, é importante para ter apoio um do outro.

e) É comum que, em quase todos os círculos, uma ou outra pessoa passe o objeto da palavra sem responder. Em uma das turmas, sistematicamente, quatro alunos não respondem as questões. Como quebrar essa rotina, pois o problema vai se cristalizando e os demais presentes já esperam tal atitude? Em primeiro lugar, o direito de passar sem se manifestar verbalmente é um direito fundamental do círculo. A maioria dos jovens sente-se sem poder em suas vidas, e os adultos empurram estes jovens de um lado para outro dizendo o que têm que fazer e onde têm que ir. O fato de passar o objeto da palavra é uma forma de exercer a autonomia, e é importante que eles escolham. Escutar o que os outros trazem no círculo é muito mais importante do que falar. Se eles estiverem escutando e não estiverem perturbando o processo, está tudo bem. Mas se sentirmos que algum participante, ao não se manifestar, está tentando exercer algum controle no círculo, devemos tentar estratégias diferentes, e uma delas é achar atividades não verbais, particularmente envolvendo movimentos físicos ou malabarismo em grupo. Até certo ponto, queremos causar surpresa de quebrar padrões. Não queremos disputar o poder, pois o círculo nunca é um lugar de disputa de poder. É necessário acharmos perguntas tão irresistíveis que as pessoas não irão querer passar. Um exemplo para adolescentes: O que os adultos, na sua vida, deveriam entender sobre você que eles não entendem? Buscar perguntas para as quais eles tenham sentimentos fortes para se manifestar. A maioria dos adolescentes tem muito o que dizer para adultos, mas eles têm que ter certeza de que alguém estará escutando. Para uma pergunta como essa, poderemos trazer outros adultos para dentro do círculo para que tenham a sensação de que há adultos que possam ouvir o que eles têm a dizer. Devemos ter muito cuidado sobre o que estamos supondo sobre o que está acontecendo, quando eles não estão se manifestando. Já ouvimos histórias, de círculos após círculos, de jovens que não falavam, não se manifestavam. Em uma situação particular, depois da série de oito ou dez círculos, um adulto estava conversando com uma adolescente que nunca havia falado durante o círculo, mas ela descreveu para esse adulto o quanto a prática do círculo havia mudado sua vida. Nunca temos certeza do que está acontecendo na cabeça de

alguém. Uma das grandes características a respeito do objeto da palavra é que estamos

honrando a presença do participante mesmo que ele não queira falar, pois mesmo assim ele será visto. E muitos dos jovens com quem trabalhamos nunca tiveram a experiência de um espaço respeitoso. Quando dizemos que o espaço do círculo será respeitoso, eles não sabem do que estamos falando, porque nunca tiveram uma experiência anterior de um espaço em que se sentissem respeitados. Temos que nos sentar em círculo com eles muitas

e muitas vezes e ter o máximo de respeito, para que possam entender o que queremos dizer.

f) A prática dos círculos tem sido tão curativa e transformadora, como a água na minha vida:

sem a água desidratamos e sem os círculos, temos a impressão de que nossas emoções também ficam vazias. Inspira-nos cultivar essa prática no ambiente de trabalho, na promotoria e com as pessoas com quem trabalho. Estamos abertos, e o objetivo seria aprimorar o nosso relacionamento. Todavia, exerço uma função de chefia. Mesmo assim, posso conduzir o círculo? Quais seriam boas perguntas ou estratégicas para os primeiros momentos? O esboço que apresentamos para os círculos dos professores também funcionaria para o local de trabalho? Por exemplo: por que você escolheu fazer o trabalho que faz? Conte-nos um momento que você sentiu orgulho. O que é difícil no trabalho que você faz? Fizemos um círculo com um grupo de juízes, perguntando: o que toca seus corações no seu trabalho? E, nos EUA, as pessoas falam muito menos em coração do que no Brasil. E é uma pergunta muito poderosa. Às vezes, usamos estratégias laterais e os colegas juízes podem responder que não precisam de círculos para eles mesmos. Podemos apresentar propostas como um treinamento, não para se tornarem facilitadores, mas um treinamento a respeito de conflito, de resolução de conflito. Iniciar dizendo que em algum lugar de nossa comunidade está sendo utilizado o processo circular e queremos oportunizá-los dizendo o que é este processo, sem expectativa de que usarão, mas que é bom conhecerem como funciona. Coloque-os em círculo e comecem a ter experiência de círculo, sem a pressão de que precisarão fazer alguma coisa com aqueles que estão atendendo. Temos utilizado esse processo para trabalhar com os funcionários das prisões. Há uma estrutura, no departamento estadual prisional de Minnesota, para ser usada. Qualquer um que tenha um conflito com um colega pode pedir uma mediação, uma conferência ou um círculo. São práticas conduzidas por colegas. Os funcionários se voluntariam para aprenderem a ser facilitadores, porém fora de suas horas de trabalho, já que são totalmente voluntários. Alguém pode estar em conflito comigo, pede para fazer um círculo e posso dizer não. Muitas vezes, podem surgir conflitos e as pessoas não querem participar. Assim, criamos treinamentos nos quais estaríamos com as pessoas em

círculo. Faríamos um treinamento a respeito de conceitos de conflitos e, às vezes, trazem o conflito para o círculo. Uma vez que está aberto, dentro do coletivo, podemos trabalhar o conflito naquele momento. Muitas vezes, entramos pela porta dos fundos. O treinamento

é um contexto muito bom. No local de trabalho, quando exercemos a posição de chefia,

podemos mandar as pessoas a fazer o treinamento, abrindo outras possibilidades para este espaço.

g) Se não houver adesão completa pela equipe diretiva e professores, podemos fazer círculo com parte da equipe? Sim. Podemos oferecer um círculo e convidar as pessoas que estiverem dispostas a participar e, assim, fazemos um círculo com as interessadas. Muitos grupos de estudo funcionam dessa forma. Oferecemos uma oportunidade e convidamos a todos aqueles que têm interesse em participar. Não há obrigatoriedade. Haverá menos resistência quando as pessoas não forem obrigadas a participar.

h) Como fazer quando temos limitação de tempo? Para responder, vamos compartilhar uma experiência. Sabemos que teremos nos círculos pessoas muito articuladas que adoram falar. Este círculo não é para resolver um conflito, surgiu de uma perspectiva muito diferente, e as pessoas precisavam de espaço para falar daquilo. Combinamos a rodada de apresentação e a rodada de valores numa rodada só. Pedimos que se apresentassem brevemente e que dissessem os valores traziam para nossa conversa. Apresentamos diretrizes básicas e perguntamos se gostariam de acrescentar algo. Mesmo assim, era necessário fazer uma construção de comunidade antes de abordar a questão em si. Isso era um contato de uma comunidade religiosa. Sabíamos que muitos membros dessa comunidade estavam buscando, há muito tempo e com muito emprenho, um lugar onde pudessem se sentir em casa. Fizemos uma rodada, perguntando o que a comunidade significa para cada um deles. Pedimos que respondessem em duas frases. A maioria deles falou mais que duas frases. De qualquer forma, fez com que fossem mais breves do que seriam se não houvesse o pedido. Fomos para rodada que seria abordada a questão difícil. Esse círculo foi uma adaptação de uma situação em que surgiu um conflito, mas não tínhamos todo o tempo. Nele, especificamente, não era para tomar uma decisão ou chegar a um acordo. As decisões seriam tomadas por um grupo diferente. Os membros da congregação precisavam se expressar a respeito de como estavam se sentido diante da situação que havia surgido. Mesmo com pressa, é necessário que seja feita uma construção de comunidade antes de abordar as questões mais difíceis. Mesmo que fosse uma comunidade em que havia um bom relacionamento antes do acontecido.

Nos círculos de conversa, não de conflitos, podem ser feitas algumas adaptações, particularmente com o uso de círculos de check-in. Quando propomos um check-in, subentende-se que estamos em uma comunidade que está se encontrando regularmente. Pode ser que já tenhamos estabelecido valores e diretrizes para estes encontros. Isso é muito relevante, particularmente, nas salas de aula. No início do ano, podemos fazer círculos mais profundos para estabelecer os valores e as combinações para a sala de aula. Ocasionalmente, fazemos novos círculos para retomar esses valores e combinações. Os círculos de check-in podem ser feitos com mais frequência. Podemos fazer uma abertura

breve, passando o objeto da palavra para o check-in. Se surgir um momento de emoção muito forte no círculo, podemos fazer uma segunda rodada, para que todos tenham a oportunidade de dar uma resposta a respeito dessa emoção. Se não houver nada de emocional que surja, uma única rodada pode ser adequada e fazemos o encerramento de maneira breve.

Em uma escola pequena, em Minnesota, todos os professores foram treinados no círculo, por isso desenvolveram a prática de, todas as manhãs, ao chegarem à escola, fazer um círculo de check-in em pé. Uma breve abertura, um check-in, passando o objeto da palavra em torno do círculo, com encerramento breve. Depois do círculo, os professores se dirigem à entrada da escola para receberem os alunos.

i) O que levo destes dias de imersão? O mais importante é a busca de manter o padrão vibratório com o amor. Que todas as técnicas que ensinou foram muito importantes e valiosas, mas o que levo é a busca de me conectar, no dia a dia, com o amor, com o estado de espírito que nos faz melhor. Como a água que curou o meu processo de separação, de dor. Todos os dias pedia que essa água lavasse e levasse toda a mágoa. Bebia água dizendo para ela lavar e levar toda mágoa. No banho de mar, de cachoeira, também. Experimentei

a cura pela água. Busquei a força do perdão na renovação. Fiz uma nova família. Com o

amor e com o perdão tudo é possível. O que me guia? É o amor ao poder ou o poder do amor? E, quando o poder do amor nos guia, encontramos a solução de todas as coisas. Gostaria de ouvir sobre o amor, o que aprendeu na convivência com seus sábios da primeira nação e com os elementos da natureza: terra, fogo, ar? Aprendemos muito. Muito nos foi ensinado. O que sei, por estar acompanhando pessoas das primeiras nações, é que

a gratidão está presente constantemente. A gratidão pelo sol nascer a cada dia. As

cerimônias do nascer do sol são comuns em vários e vários grupos. E muitos desses grupos

têm o fumo como uma planta sagrada. E quando entramos no carro para iniciar uma viagem com minha amiga Yago, vejo que ela espalha um pouco de fumo no chão, ao redor do carro, com uma oração, pedindo pelo apoio da terra para uma viagem segura. Quando colhem plantas ou frutos, aprendemos que deixam as mais fortes para trás para que possam se reproduzir. A primeira planta que colhem, depositam um pouco de fumo como sinal de gratidão. Começamos a perceber o uso do fumo nas práticas da atenção plena. Prestamos atenção quando estamos recebendo benefício da outra parte da natureza. Aprendi que as pedras contêm sabedoria, porque estão aí há muito tempo e conseguem conter muita dor. Participamos de um grupo de mulheres num acampamento selvagem, que tinham uma pedra como objeto da palavra e convidavam as mulheres a falarem sobre dificuldades em sua vida. A pedra se impregnou com toda dor. Fomos à beira do lago e uma das mulheres atirou aquela pedra muito longe, para dentro do Yago, dizendo que as águas podem limpar as dores. A água representa a vida em muitas culturas e não é surpreendente, pois a maior parte do nosso corpo é água. A vida não se desenvolve sem

água. Quando olham a volta, olham as plantas para determinar se a vida é possível, procuram a existência de água. Quando olham planetas, imaginando se é possível que tenha vida, procuram a existência de água.

Outra perspectiva interessante é que ao invés dos seres humanos estarem no topo da pirâmide dos seres vivos, somos vistos como seres mais dependentes e impotentes. Os seres que não têm cabelo e não têm dente ao nascer, e não conseguiríamos sobreviver sozinhos. Yago nos diz que todas as outras espécies têm uma responsabilidade por nos manter vivos. Acreditamos que estamos no comando. As plantas também. As pessoas que conheço destes povos indígenas, o seu espírito associa-se com tudo, tanto com seres animados quanto os inanimados. As rochas têm espírito, a água tem espírito. Parece haver um entendimento muito profundo da interconexão de vida que existe. O respeito por todas as outras partes que não são humanas. É uma das coisas que temos muito que aprender, porque a espécie humana não sobreviverá se não entendermos esta interconexão profunda.

j) Mesmo fazendo os pré-círculos, estabelecendo valores e procedimentos com o grupo, os círculos acabam se tornando tão profundos, que os participantes entram em jogo de acusação. São pessoas diferentes em círculos diferentes com as mesmas atitudes. Como lidar com essas pessoas que estão tão profundamente machucadas e que, no círculo, entram no processo de acusação? É isso que queremos que aconteça no círculo. Queremos que o círculo de conflito seja tão profundo, que possibilite que as pessoas expressarem o que está enterrado dentro de si. É importante que todos os participantes saibam como a pessoa está se sentindo para que, a partir daí, possamos trabalhar. É preciso que as pessoas tenham o comprometimento de permanecer em círculo para que se trabalhe aquilo que surgiu. Dizemos que reconhecemos que uma coisa muito difícil aconteceu entre nós. Levamos as pessoas a repensar aqueles valores que trouxeram e como esses valores podem nos ajudar a ultrapassar a parte difícil. Passamos o objeto da palavra e solicitamos que cada pessoa diga como se sentiu quando ouviu a verdade que a pessoa trouxe. O que precisamos conversar juntos? Por que existe esta dificuldade entre nós? O que precisamos conversar, o que precisamos abordar para ir além dessa dificuldade? Podemos trazer uma pergunta de contação de história. Convidamos as pessoas a falar a respeito de uma ocasião em que tinham tanta raiva dentro delas que acabaram explodindo e o que aprenderam com essa experiência. Não buscamos suprimir os sentimentos no círculo. Tentamos criar um espaço em que estes sentimentos possam ser expressos e, o grupo como um todo, possa manter o espaço seguro. Essa pessoa em particular, naquele momento, pode não ter sido respeitosa, mas se os demais participantes forem fortes, podem acolher a raiva trabalhando o que existe por detrás dela. A raiva sempre é um sentimento secundário. Por trás dela pode haver dor, medo. Buscamos uma forma de chegar ao que está por trás

disso. Ao mesmo tempo, é necessário dar uma oportunidade aos participantes de falar o que essa ansiedade causou neles.

k) Temos uma idade mínima para participar do círculo? Se há experiências de círculos para crianças até sete anos? É válido fazer uma climatização (trabalho em grupo, valores sobre o círculo) antes da realização do círculo? Independentemente da idade, o que seria mais adequado fazer com relação aos professores e alunos: participarem juntos, em um círculo de conflito e em um círculo de diálogo, ou fazer o círculo separado e depois juntar? Quatro anos é uma boa idade para iniciar a fazer círculo. Houve uma experiência em círculo com uma criança de três anos, cuja participação foi muito importante. Os pequenos fazem círculos muito bem. Eles não conseguem sentar por muito tempo. Se não for um círculo muito longo e os grupos não forem grandes demais, é possível fazer círculos com pequenos. Há uma estratégia em permitir que, além do objeto da palavra, possam trazer um objeto que possam ficar manuseando enquanto o círculo vai andando. Alguma coisa que posam se ocupar, diminuindo a ansiedade dos pequenos, como massa de modelar. Permitiríamos que sentassem ou deitassem no chão, encontrando a melhor posição para eles. Não precisa ser tão organizado. Em uma primeira série, composta por alunos de mais ou menos seis anos, uma criança mordeu a orelha de outra, e esta mordida aconteceu no parquinho de uma escola em que já estavam fazendo círculo. As crianças estavam acostumadas a sentar em círculos. Sentaram em círculo com seis alunos de seis anos de idade e, à medida que o objeto da palavra ia passando, uma menina disse: “eu sei por que ele deu a mordida no outro, porque ninguém quer brincar com ele.” Continuou o círculo e chegaram a um acordo. O acordo tinha dois ou três itens das coisas que o menino que mordeu se comprometeu a fazer e uma delas era que ele procuraria um adulto quando tivesse algum problema. Os outros alunos do círculo identificaram seis ou sete coisas que eles teriam que mudar em seu comportamento em relação àquele menino: incluí-lo na suas brincadeiras, tratá-lo com gentileza, entre outras. Seis anos, muitas vezes, com um comportamento melhor que muitos adultos. Somos socializados fora do pensamento que estamos em uma coletividade.

Reconhecer a responsabilidade coletiva não significa condenar o comportamento, mas temos que ter a responsabilização individual e a responsabilização coletiva. Quando causamos danos, precisamos assumir a responsabilidade por isso, mas se as condições da comunidade contribuíram para que aquele comportamento viesse à tona, a comunidade precisa assumir a responsabilidade para fazer mudanças. Quando estamos em círculos, não estamos buscando a mudança só do indivíduo, mas como cada um de nós precisa mudar para que possamos viver juntos de um jeito melhor. É bom e funciona fazermos um trabalho antes de sentar em círculo. Principalmente é importante ter o vocabulário para identificar as emoções. Pode ser a prática de sentar quieto. Tem um professor, em uma escola alternativa de ensino médio, em Boston, que no primeiro dia do semestre, no início

do ano, solicita aos alunos que tirem as jaquetas, pendurem as mochilas e sentem nas cadeiras em círculo. Pouco a pouco, vai introduzindo mais partes do processo. O primeiro passo é pedir que tirem uma parte de suas armaduras. Há muitas maneiras de se fazer uma preparação para sentar em círculo. Também funciona trabalhar as práticas da atenção plena antes de começar o trabalho em círculo.

A participação dos professores depende da situação. É boa a participação dos professores nos círculos de conversa, contanto que se disponham a participar como iguais. Se o conflito envolver o professor, é necessário que ele esteja presente, mesmo que, superficialmente, o problema possa parecer só entre dois alunos. Os alunos gritam um com outro dentro da sala e o professor recebe o impacto do que está acontecendo com os alunos. O professor tem que fazer parte na determinação de como deixar as coisas bem novamente, porque esses dois alunos causaram danos tanto na relação deles, como na relação com o professor. Eles precisam reparar esse relacionamento, além do relacionamento entre os dois alunos. Nesse tipo de círculo, precisamos que os professores venham como seres humanos para que possam falar de uma maneira honesta e não ter a responsabilidade de decidir o que fazer sozinhos. Queremos que expressem como foram impactados e quais suas necessidades. Queremos isto de todos no círculo.

l) No Brasil, há um problema de linguagem quanto aos conflitos no contexto escolar. A partir do sistema de justiça e da norma brasileira, temos um ramo que chamamos de mediação, que tem seus princípios regulados pelo código de processo civil do sistema de justiça que cuida basicamente dos conflitos que chamamos de natureza civil as práticas mediativas. E temos outro campo que é o trabalho das práticas restaurativas, um ramo que é parte do processo penal, que trata dos conflitos de natureza penal. São duas tendências que nominamos como métodos autocompositivos, que têm muitas semelhanças, no entanto, várias restrições. Como isso chega à escola, para um observador que convive, no dia a dia da escola? Às vezes chega com uma fala confusa com relação à linguagem, porque, sob a perspectiva de mediação escolar, se usam princípios, valores e formas de proceder que são recomendadas pela Justiça Restaurativa e, outras tantas vezes, tentamos desenvolver a prática restaurativa, a partir de métodos inspirados na mediação. Gostaria de sua opinião para certificar se isso é importante e se as práticas circulares podem ser vistas como práticas de mediação: Um dos problemas é que não temos treinamento formal em nenhum desses campos. Na verdade, não estamos familiarizados com a teoria por trás da mediação e nossa exposição a esta prática é bastante limitada. A experiência que temos é de mediação comunitária e, tipicamente, de voluntários treinados para fazer mediações em disputas surgidas na comunidade. É bastante próximo de muitas práticas restaurativas, e inúmeros serviços de mediação, nos EUA, expandiram-se para incluir as práticas restaurativas. Mas a mediação que se desenvolveu como um galho da lei fica um pouco mais distante da prática restaurativa. Berry Stuart costuma fazer uma comparação em

relação aos advogados têm duas pistolas no quadril: uma é a arma do litígio e a outra é a arma da mediação. E que muitos advogados veem isso como duas armas diferentes, em oposição a uma filosofia completamente diferente. Não sabemos o suficiente a respeito do que significa no Brasil a mediação. Geralmente nosso enfoque é chegar pelo outro lado. Não precisamos nos preocupar com os termos que iremos usar. Precisamos perceber onde existe uma interface, uma conexão entre elas. Foi por aí que as práticas restaurativas se tornaram parte de programas de mediação. O reconhecimento de pontos comuns entre estes dois ramos. Existem programas que compreendem os dois enfoques.

m) Num círculo entre chefias e funcionários, ou comandantes e comandados, como auxiliar com perguntas a quebrar o medo dos subalternos de falar e conter a possível reação negativa dos da chefia ao ouvir ou medo de perder o poder para que haja o nivelamento de poderes e, assim, o círculo ser produtivo? No círculo, onde existem diferenças de poder entre funcionários e o chefe, a melhor maneira de diminuir a sensação de vulnerabilidade para aqueles que estão numa situação de menos poder é conseguirmos fazer com que as pessoas que detêm o poder se coloquem numa posição de vulnerabilidade. Tentamos fazer alguma rodada de contação de histórias que não tem a ver com local de trabalho, mas que podem trazer experiências de outras partes de nossa vida, não do trabalho. Poderíamos buscar perguntas que levassem a contar histórias que, na verdade, falam da batalha do ser humano: fale de uma experiência que você teve quando precisou fazer uma mudança muito grande na sua vida; compartilhe uma experiência quando teve um grande desapontamento na sua vida; compartilhe uma experiência de uma ocasião em que não se sentiu escutado. Esses tipos de experiências são universais, independentemente de quanto poder você tem agora. São histórias que criam sensação de maior igualdade. Se a pessoa que tem mais poder estiver disposta a se engajar nesse tipo de procedimento, criará mais segurança para aqueles que têm menos poder. É possível organizar um círculo que nunca toque na situação de trabalho, mas que crie um espaço para possibilitar uma maneira diferente para se relacionar. Em um círculo subsequente, poderemos abordar os problemas. Podemos também ter uma conversa explícita a respeito de segurança. Podemos usar uma pergunta de uma escala: numa escala de zero a dez, sendo zero: eu nunca falaria a verdade aqui; dez: eu me sinto completamente seguro para falar a minha verdade aqui; em que ponto dessa escala você se coloca quando pensa em falar sobre o problema a respeito do seu trabalho? Assim, é provável que as pessoas consigam se expressar. Se os números estiverem muito baixos na escala, significará que deveremos fazer mais um encontro com cada um. Talvez círculos menores no início.

Vamos dar um exemplo de círculos que são feitos com funcionários nos presídios. Na prisão onde iniciaram este projeto, o serviço de atendimento à saúde estava, particularmente, intoxicado. Geralmente, as prisões são lugares bastante tóxicos para se trabalhar e, neste caso, o serviço da saúde era o pior. As pessoas das outras unidades

tinham pavor de ligar para o serviço de saúde, porque era muito negativa a interação com

o pessoal da saúde. Os funcionários pediram um círculo sem o chefe. Eles não gostavam do

chefe, não confiavam nele e não o queriam no círculo. Encontraram-se três meses sem o chefe, uma vez por mês. Chegaram à conclusão de que deveriam convidar o chefe se quisessem que realmente ocorressem mudanças, porque eles tinham que conversar. E, uma vez por mês, durante os nove meses seguintes e até o final do ano, eles continuaram trabalhando extremamente bem. Mas precisaram se encontrar várias vezes antes de chamar o chefe e acolhê-lo no círculo. Assim, a partir das histórias, percebemos que não existe um único jeito. Nunca sabemos. Vamos tateando, no escuro, para ver o caminho que podemos seguir.

n) Gostaria de ouvir sobre a construção de valores. Por que, quando estamos em círculo, acontece uma parada: as pessoas não sabem dizer os valores e ficam pedindo algo mais? Quando temos um problema e as pessoas não entendem o que estamos pedindo, podemos solicitar que alguém dê exemplos de valores. Alguns podem falar respeito, outros honestidade e, assim, as pessoas passam a saber sobre o que se está perguntando. Mas também podemos modificar a pergunta, pois com crianças pequenas isso é bem comum. A pergunta pode ser: o que faz com que alguém seja um bom amigo? Ministramos aula nas quais os alunos têm que escrever um artigo. Uma das possibilidades é elaborar o plano de um círculo e como o colocaria em prática. Um dos alunos é treinador de basquete de jovens com dez ou onze anos de idade. Ele elaborou o círculo para seu time de basquete:

para a cerimônia de abertura, trouxe uma frase de um super-herói valorizado do basquete:

“o segredo do basquete não tem nada a ver com o basquete.” O objeto da palavra foi uma bola de basquete. Na rodada de apresentação, pediu que cada um dissesse seu nome e escrevesse o nome na bola de basquete e, assim, o objeto da palavra representa algo importante, os representa como pessoas e os representa como um time. Todos em uma peça só. Na rodada de valores, pediu para dizerem o nome e uma característica de um atleta que admiram e escreverem em um papel para colocarem no centro do círculo. Na

primeira rodada: o que é preciso para ser um bom jogador de basquete? O que é preciso para ser um bom treinador? O que significa a frase que usei na abertura, o que será que o atleta quis dizer? E a maioria deles não tinha entendido. Mas, no final da rodada, um deles conseguiu captar o significado da frase e leu o restante dela: O segredo do basquete não é sobre o basquete. Um time de basquete tinha trocado um jogador de basquete por alguém que não tinha tanta habilidade, mas que era um jogador muito bom em time e naquele ano

o time ganhou o campeonato. Passando, novamente, o objeto da palavra, perguntou aos

alunos o que achavam agora que sabem toda a história. O importante dessa história é que

o plano tem que ser específico para aquele grupo de pessoas com quem vamos trabalhar.

Devemos usar a linguagem que achamos que será entendida por aquele grupo. Não devemos ficar presos a definição de valores. As pessoas acabam trazendo de maneiras diferentes.

Ilustração:

Cerimônia de Encerramento de um dos Encontro em Porto Alegre:

Balanço prá lá, balanço prá cá, balanço assim, mas não vou cair, não caio não, tenho você prá me dar a mão, não caio não, a nossa força vem da união. Tô balançando, mas não vou cair. Tá balançando na minha vida, mas não vou cair, mas não vou cair.

Esta música é usada nas rodas de terapia comunitária pelo Professor Adalberto Barreto, no Ceará.

5. SEGURANÇA: JUSTIÇA RESTAURATIVA E COMUNIDADE SECRETARIA DE SEGURANÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL 09 DE MAIO DE 2017 PORTO ALEGRE

Peço desculpas por não conseguir falar a sua língua e as limitações de língua aqui são minhas. Venho à presença de vocês com muita humildade. Quero honrar o trabalho que vocês

fazem, no dia a dia, pela segurança das pessoas desta terra. Quero começar oferecendo gratidão. Esta é a quarta viagem ao RS e cada vez que chego tenho sido acolhida com grande hospitalidade

e muito carinho. Agradeço a vocês pela energia e beleza deste País e deste Estado. O Brasil

capturou meu coração. Quero dar os parabéns a vocês pelo trabalho magnífico que vem sendo realizado em Círculo de Construção de Paz e Justiça Restaurativa. Passei algum tempo em Caxias

do Sul, ao final da semana passada e soube das aplicações maravilhosas que vem sendo feitas com

o Círculo de Construção de Paz em todo o trabalho, em Caxias do Sul. Vocês estão criando um

grande centro de Círculos de Construção de Paz e de Justiça Restaurativa para o país e para o mundo. Estão dando exemplo. E os países, pelo mundo a fora, irão se beneficiar pelo trabalho criativo que vem sendo feito no Brasil. Estão abrindo um novo caminho para a paz e para segurança dos povos no mundo. É um trabalho muito árduo que requer um novo olhar e uma nova ação. Uma das forças de seu trabalho é o envolvimento de vários setores: justiça, educação, assistência social, bairros, comunidade. As idéias que compartilharei com vocês não são idéias originais minhas. São ensinamentos que aprendi com outros que me dão esperança num mundo que está desencorajado. Não sou uma especialista em polícia. Vocês sabem mais a respeito disso do que eu sei. Meu conhecimento está mais na comunidade. Trabalhando com a comunidade, engajando a comunidade e o papel da comunidade na segurança. Falarei sobre o que nós queremos dizer com Justiça Restaurativa. A Justiça Restaurativa é uma estrutura para orientar como respondemos quando as pessoas machucam umas as outras. Quando machucamos uns aos outros, causamos dano aos relacionamentos e a sensação de segurança que temos. A idéia da Justiça Restaurativa é que quando existe o dano precisamos reparar este dano. Deixar as coisas bem novamente, são guiadas por quatro princípios: 1) Vamos nos preocupar com o dano. O dano só pode ser identificado pela pessoa que sofreu; 2) Vamos focar nas obrigações. Quando causamos danos temos obrigação de deixar as coisas bem novamente. Para deixar as coisas bem significa que temos que assumir responsabilidades e fazer a reparação; 3) Vamos envolver os que foram mais afetados pela situação. A pessoa que sofreu o dano e a pessoa que causou o dano, estes dois lados deverão ser colocados juntos para decidir como deixar as coisas bem de novo. E a comunidade, em torno destas pessoas, precisa fazer parte da decisão de como deixar as coisas bem novamente; 4) A decisão de como deixar as coisas bem novamente será um processo inclusivo e coletivo.

Um dos processos que emergiu e que alcança os princípios restaurativos é o processo de Círculos de Construção de Paz. Em Caxias do Sul, os Círculos de Construção de Paz tem sido usados

na comunidade, nas escolas, estão sendo usados pela Guarda Municipal, pelos serviços de Assistência Social e dentro do Fórum, nos tribunais. Outra forma de prensar no que significa Justiça Restaurativa vem de um senhor chamado Daniel Van Ness que diz “se o crime é uma ferida, a justiça tem que ser a cicatrização.” Num processo restaurativo, estamos tentando curar todos que sofreram o dano, todos que forem machucados. Isto inclui a vítima, a família, a vizinhança e a comunidade em torno dela. Significa também curar a pessoa que causou o dano, a família, a vizinhança e a comunidade em torno dela. Quando causamos dano ao outro, causamos dano a

nossa própria alma. A maneira de curar isto é assumir a responsabilidade pelo que foi feito e fazer

a reparação. Tem uma frase que vocês usam freqüentemente e que eu amo. É uma frase que não

é usada freqüentemente em meu país e essa é a idéia de uma cultura de paz. Vejo a Justiça

Restaurativa e a aplicação dos Círculos de Construção de Paz como uma maneira de atingir esta cultura de paz. Os círculos nos ajudam a praticar esta cultura de paz. Os círculos nos ajudam a sentir como é estar numa cultura de paz. Isto não significa que temos todos que concordar. Significa que estamos todos conscientes a respeito dos valores compartilhados: cuidado, integridade, honestidade, respeito. Ficamos juntos com nossos valores compartilhados para entender as maneiras de como somos diferentes. As maneiras de como enxergamos as coisas diferentes. Não precisamos enxergar as coisas da mesma maneira e não precisamos pensar da mesma maneira. Na verdade, se eu e você pensamos exatamente do mesmo jeito, um de nós é redundante; um de nós é desnecessário. Mas somos todos necessários, somos únicos e trazemos todos os dons diferentes para nossa comunidade, para nosso país e para o mundo. Por sermos únicos, não existem duas pessoas iguais, e por isto, temos, freqüentemente, desentendimentos e conflitos. Estes conflitos podem nos ajudar a nos conhecermos melhor e conhecermos os outros melhor, se usarmos um bom processo para trabalharmos o conflito. A Justiça Restaurativa nos guia para como podermos trabalhar o conflito e alcançar a justiça; para nos tornarmos mais fortes como indivíduos e como comunidade.

Uma nova estrutura pode nos ajudar a pensar em segurança. Uma segurança baseada em relacionamentos ao invés de uma segurança baseada em equipamentos. Temos utilizado equipamentos como cercas, armas, câmeras de segurança, barras para tentar alcançar a segurança que queremos, mas não está funcionando muito bem. Nem no seu país, nem no meu país. A segurança baseada em relacionamentos saudáveis é menos cara, causa menos dano secundário, causa menos ansiedade e menos medo e têm grandes benefícios. A segurança baseada em relacionamentos saudáveis constrói a comunidade, aumenta a conexão, aumenta o

comprometimento para o bem comum e aumenta a habilidade de transcendermos às diferenças.

A cada um de nós é dado uma escolha segura: ou vamos preferi viver em comunidade ou vamos

preferir viver olhando por cima do nosso ombro com medo do nosso vizinho. Não precisamos de cerca de segurança. Nesta comunidade saudável, a segurança não é um caso de equipamentos, é um produto de relacionamentos de confiança e de respeito. Relacionamentos saudáveis na comunidade exigem que cada um seja tratado com respeito. Que todas as vozes tenham um lugar onde possam ser escutadas. É preciso que haja processos que nos lembrarão nossa interconexão

como das nossas diferenças. Os relacionamentos saudáveis na comunidade congregam o paradoxo. Sabendo que temos pontos em comuns e a nossa necessidade de pertencimento, a nossa necessidade de sermos tratados com dignidade e com respeito, a nossa necessidade de ter significado na nossa vida. Estas são necessidades universais. Elas representam nossos pontos em comuns de muito poder. Ao mesmo tempo em que cada um de nós é único, ninguém é exatamente como outra pessoa. Se pudermos ficar firmemente em nossos pontos em comuns, nós podemos ter as nossas diferenças de maneira que irão enriquecer nossas vidas ao invés de diminuir a vida. Podemos viver com curiosidade e interesse ao invés de viver com medo de alguém que é diferente, porque sabemos que sempre haverá a nossa humanidade compartilhada.

Pela minha experiência, o Círculo de Construção de Paz é o lugar mais seguro, é o espaço mais poderoso para sentir a nossa humanidade compartilhada, para vermos a nós mesmos nas vidas dos outros, para que possamos estar seguros uns na presença dos outros. Isto não é facilmente atingível no seu país ou no meu. Somos muito polarizados, acreditando que não temos pontos em comum, sem disposição para enxergar a humanidade que existe no outro, mas, pela minha experiência, estes muros desabam quando fazemos um círculo eficiente, efetivo. O que estou descrevendo não pode ser obtido pela polícia sozinha. Temos pedido de mais ao sistema de justiça, principalmente da polícia. A segurança é uma responsabilidade compartilhada com a polícia e com a comunidade. Precisamos trabalhar para reconstruir a comunidade como um lugar de segurança de uma maneira saudável. A comunidade precisa reconstruir os relacionamentos, que são a base para uma comunidade saudável. Com isso, a comunidade pode ser parceira da polícia. A Guarda Municipal de Caxias do Sul é um bom exemplo do que pode ser feito, mas não podemos esperar que a polícia faça sozinha. Estamos colocando uma carga muito grande sobre a força policial.

Cada cidadão tem que se tornar uma parte do tecido que vai construir esta comunidade forte e saudável. Um tecido comunitário que seja forte o suficiente para manter os seus jovens saudáveis também. E o trabalho restaurativo chega junto com o trabalho preventivo. Penso que para mudarmos as comunidades, para que suas bases estejam mais nos relacionamentos, é preciso que haja mudanças em várias dimensões. Uma grande mudança que temos que fazer é parar de depender da sabedoria individual para nos apoiarmos na sabedoria coletiva. Na nossa cultura ocidental, ficamos muito dependentes da sabedoria individual, mas a sabedoria coletiva é sempre muito maior do que qualquer sabedoria individual, se oferecermos um processo de reflexão e respeitoso para chegar a essa sabedoria coletiva. Precisamos recuperar nossa habilidade para acessar esta sabedoria coletiva. Os círculos são uma maneira muito prática de se obter isto.

Precisamos fazer uma mudança de cultura de separação para uma cultura do coletivo. A nossa interconexão nos chama para percebermos que as nossas ações impactam os outros. Em última instância, o dano causado ao outro é o dano causado a mim mesmo. Podemos começar a

equilibrar as necessidades individuais com as necessidades do grupo de uma maneira saudável. Precisamos mudar a maneira como olhamos a comunidade. Sair da análise do déficit e partir para uma análise dos pontos fortes. Quando só descrevemos os problemas e pensamos nos problemas e falamos nos problemas, nos sentimos sobrecarregados. Toda família, todo indivíduo, toda comunidade tem seus pontos fortes. Se nos focarmos nestes pontos fortes, teremos mais energia para dar o passo seguinte para termos uma visão melhor.

Também precisamos fazer uma mudança de sempre estarmos usando a nossa mente para incorporar nossos corações e nossos espíritos juntamente com a parte mental. As perguntas lógicas e intelectuais são importantes, mas não são as únicas formas de conhecimento. Há muitas coisas que sabemos como seres humanos. Existe muito sabedoria na nossa experiência de vida e não precisamos tirar isto de uma caixa ou de uma palestra. Nossos corações podem ser muito sábios. Precisamos de espaços em que possamos trazer nossos corações e nossos espíritos juntamente. Tenho percebido que os brasileiros são melhores nisto do que os americanos. Tenho visto muito coração neste país. Isto dá muita esperança.

Outra mudança importante é que temos visto a natureza humana como um problema e que talvez seja a solução. Costumamos falar sobre os grandes danos que a natureza humana é capaz de infringir sobre os outros, mas temos esquecido que cada ser humano nasce com um impulso de estar em bons relacionamentos uns com os outros. Os seres humanos evoluíram em comunidade e isto significa que os nossos genes carregam o desejo de estarem em bons relacionamentos uns com os outros. Fiz um exercício com valores com jovens que estavam presos. Os adultos que trabalham com eles achavam que eles não tinham estes valores porque não haviam sido ensinados estes valores e os jovens trouxeram valores que gostariam de demonstrar, quando eles estivessem no seu melhor comportamento, sua melhor atitude de vida. E a lista de valores que estes jovens trouxeram foi praticamente igual à lista que os adultos haviam trazido:

respeito, honestidade, cuidado. Os mesmos valores que surgiram em cada grupo com que eu trabalhei. Disse aos jovens: “esta lista é muito bonita, são estes valores com que vocês se mostram no mundo lá fora?” Eles disseram não, não estamos fingindo que é assim que nos apresentamos no mundo lá fora. Perguntei: “Se esses são os valores que vocês querem cultivar quando estão no seu melhor, porque vocês não demonstram estes valores?” Estávamos sentados em círculo e usamos o objeto da palavra (é um objeto que é passado de mão em mão, que só fala quando está com o objeto, cada um fala e passa adiante este objeto, você só pode falar quando estiver segurando este objeto da palavra) e fizemos a pergunta: “Se esta é a maneira que vocês gostariam de estar quando vocês estão no seu melhor, porque não colocam em prática este valor?” A resposta que nos deram de diferentes maneiras foi: “o mundo não é seguro para demonstrar estes valores”. Não se sentiam seguros demonstrando estes valores dentro das suas comunidades. Eles seriam ridicularizados, os outros tentariam tirar vantagens deles se demonstrassem seus valores. E estes jovens não criaram este mundo que dava esta sensação de insegurança tão grande para eles.

E a falta de segurança para eles acabou causando que eles deixassem esse ambiente ainda mais inseguro, fazendo o que fizeram, os danos que cometeram.

Enquanto não criarmos uma cultura de paz em cada vizinhança, em cada bairro, não teremos um mundo seguro. Temos nos focados nas capacidades negativas dos seres humanos, mas todos temos a capacidade de agir conforme os valores que estes jovens colocaram na sua lista. Ouvindo estes jovens, percebi que quando não estou no meu melhor são em lugares onde não me sinto segura. Existe uma sabedoria imensa nas suas reflexões. Quando as pessoas não se comportam bem, a causa pode ser por elas não estarem se sentido seguras. Podemos aumentar a sensação de segurança propiciando relacionamentos mais saudáveis nas nossas famílias, nos nossos locais de trabalho, nossos bairros, nossas comunidade de fé, em toda a parte em que os seres humanos se reúnem. Alguma vez, vamos estar em conflitos, é uma parte natural por sermos únicos. Quando estas diferenças surgem, quando os conflitos aparecem precisamos de processos que nos ajudem a trabalhar estas diferenças e que construam senso de comunidade, ao mesmo tempo, em que resolvem estas diferenças. Os processos restaurativos constroem relacionamentos, enquanto resolvem os conflitos e as parcerias entre todas as partes que compõem a comunidade é que vão nos ajudar a atingir isto.

6. PROCESSOS CIRCULARES PARA TRANSFORMAÇÃO DE CONFLITOS SEMINÁRIO INTERNACIONAL ASSOCIAÇÃO PALAS ATHENA 26 DE MAIO DE 2017 - SÃO PAULO

“Acredito que o círculo também é o caminho para curar traumas da sociedade. A vergonha e o medo de perder amor e respeito são barreiras enormes, quando se trata de encarar o mal que causamos”. (Kay Pranis)

Em primeiro lugar, quero pedir desculpas por não falar português e agradeço muito por terem paciência com o desafio que este fato cria. É uma grande honra estar aqui. Estou muito, muito feliz em estar aqui com vocês. Gostaria de agradecer a todos que organizaram este evento, em especial, aos que estão aqui porque se importam.

Ouvi dizer que tenho alguma influência no Brasil e aceito isso, mas não aceito o fato de ser especialista. Este novo modelo do qual estamos falando não é um modelo baseado em especialistas e, se vocês estão concordando, é porque vocês já sabem.

Tenho oportunidade de ajudar as pessoas a se lembrarem daquilo que elas já sabem, o que não é nenhuma especialidade. Assim como em 2010, fico impressionada com todo o calor e hospitalidade que recebo. Sempre fico com os olhos cheios de lágrimas por causa de todo o calor que as pessoas me dão aqui. Sou muito grata por todos os beijos e abraços que recebi. Vou sentir falta disso quando retornar. Estou profundamente tocada com todos os progressos que aconteceram aqui na área da Justiça Restaurativa desde minha última estada, em 2013. Estou impressionada com toda a compreensão, com a compaixão, com todos aqueles copraticantes que eu encontro aqui. Vejo isso se repetir em todas as cidades que visito. Sinto-me privilegiada de estar sendo parte deste trabalho no Brasil.

Este momento é um momento de grande dificuldade, tanto neste país como no meu. Não estava planejando falar exatamente o que vou falar agora, mas tenho ouvido sobre o que aconteceu na cidade de São Paulo, especialmente com a comunidade dos usuários de drogas, fato esse que me levou a pensar a usar palavras que usei em outra palestra que fiz. Foi algo que falei em Caxias do Sul, RS, para as pessoas que trabalham na polícia. Falei sobre a diferença entre a segurança baseada nos relacionamentos e a segurança baseada na dor. Naquela dor causada por cercas, celas, câmeras, este tipo de coisa. A segurança baseada na estrutura de prisões, que causa dor, leva a uma guerra que vai aumentando em sua escala. Ou teremos mais trancas e mais armas, ou não teremos mais segurança. Já a segurança baseada nas relações causa menos danos, cria menos medo e mais benefícios. A segurança baseada nas relações reforça o compromisso e a criação de relações saudáveis e aumenta nossa habilidade de transcender as diferenças que temos uns com os outros. Precisamos começar a pensar em segurança de uma maneira completamente diferente.

Pensei em falar sobre o papel que os círculos podem ter em construir a cultura de paz. Uma cultura de paz exige mudanças profundas nas nossas compreensões. O círculo é uma ferramenta prática que vai causar essa mudança e torná-la sustentável. A cultura de paz deve saciar as necessidades de pertença em cada membro de uma sociedade. Uma bióloga chamada Mary Clark afirma que significado e pertença são as necessidades humanas mais profundas que existem. Infelizmente vivemos em culturas que bloqueiam o significado e o sentido de pertença a muitos seres humanos. Em especial, as pessoas marginalizadas, as pessoas pobres ou aquelas que não têm ascendência europeia. Mas isso não acontece só com os marginalizados, nossa cultura tem um buraco no sentido de significado e sentido de pertença. Os seres humanos têm uma necessidade profunda de pertença.

Sabemos que a separação significa exclusão ou morte em uma sociedade. Na nossa história mais antiga como seres humanos, a morte era consequência de uma expulsão da comunidade. A nossa necessidade de pertencer a um grupo é tão grande que violamos outros valores para poder pertencer a algum grupo. Se não formos aceitos em uma comunidade positiva, vamos nos juntar a uma comunidade negativa para sermos aceitos e pertencentes a algum lugar. As gangs, por exemplo, são comunidades que aceitam pessoas que não são aceitas na sociedade principal. Em uma cultura de paz, todos devem sentir que têm pertença e são valorizados como são.

Os círculos de paz são concebidos para ouvir todas as vozes, aceitar todos os que são incluídos e estabelecer conexão entre essas pessoas. O círculo considera todo e cada participante importante para o bem-estar geral. O sentido de pertença é orgânico no círculo. Um processo circular nos dá uma ferramenta para passar de uma sociedade de exclusão para uma sociedade de pertença. Nas escolas, que são comunidades muito pequenas e muito intensivas, começamos a ver essa mudança. Vemos uma mudança para cultura de paz quando o círculo se torna parte do tecido daquela escola.

Falarei sobre a necessidade de significado da qual Mary Clark falou: que nos esforçamos por achar significados na nossa vida, porque estamos caminhando rápido demais e somos distraídos no mundo em que vivemos. Essas distrações externas, essas forças externas e materialistas nos conduzem, mas não conseguimos encontrar significado interior nelas.

Uma cultura de paz exige que experimentemos, em primeiro lugar, uma paz interior. Se não for assim, a nossa inquietude e as nossas preocupações internas virão à tona e irão causar conflitos com os outros. Os círculos de paz nos fazem desacelerar e criam espaço. Um espaço que nos permite ouvir a nossa própria voz interior e a voz daqueles que foram feridos. A velocidade, o ritmo e o tom do círculo nos encorajam a encontrar a nossa própria voz interior e a encontrar esse espaço dentro da nossa vida. Provar aqueles aspectos da nossa vida que mais importa para cada um de nós. Os círculos nos ajudam a nos conhecer melhor e, assim, a conseguir trabalhar no caos da nossa vida.

Uma cultura de paz deve ser construída sobre os alicerces de uma comunidade saudável. Uma cultura que se baseia no bem-estar de cada um dos membros dessa comunidade e no cuidado com cada um deles. Os relacionamentos saudáveis de uma comunidade exigem que todos sejam tratados com respeito. Exigem que todas as vozes tenham sua vez de serem ouvidas. Demandam processos que nos lembrem sobre a nossa interconexão e as nossas diferenças em relação aos outros. As relações saudáveis oferecem um paradoxo de saber que todos nós dividimos um solo comum e que temos esta pertença. O solo comum de nossa necessidade de sermos tratados com dignidade e com respeito e de ter significado na nossa vida. Essas necessidades humanas são universais e formam o solo comum da nossa comunidade. É um solo comum muito poderoso. Ao mesmo tempo, cada um de nós é único, ninguém é exatamente como outra pessoa. A estrutura do círculo de paz assegura a cada um de nós a oportunidade de que a sua voz seja ouvida. Isso cria possibilidades de que todas as necessidades individuais sejam colocadas no círculo. E nesse espaço conseguimos criar as relações saudáveis de que necessitamos na comunidade.

Uma cultura de paz também precisa de habilidade para acomodar as diferenças. Cada ser humano é único. É a benção e a maldição da nossa vida. Somos únicos, somos diferentes, vemos as coisas diferentemente e sentimos as coisas diferentemente. A diferença torna nossa vida interessante. É uma energia criativa. A diferença torna cada um de nós indispensáveis e necessários pelo que temos de único. Se eu e você somos exatamente iguais e pensamos exatamente da mesma forma, significa que um de nós é redundante, mas, ainda bem, que todos somos únicos e ninguém é redundante. Portanto, temos sim, diferenças. Mas para termos respeito a essas diferenças, precisamos encontrar um solo comum no qual iremos pisar.

Os círculos de paz nos engajam em um processo de encontrar os valores comuns que formam o solo em que vamos estar. Se conseguirmos ficar de pé solidamente nesse solo comum, veremos as diferenças como enriquecimento na nossa vida e não como uma ameaça. Podemos viver com curiosidade e interesse naquilo que é diferente em vez de temer essa diferença. Porque todos sabemos que temos a nossa parte a fazer na humanidade. A estrutura do círculo retorna constantemente àquele alicerce que são os valores comuns de uma comunidade.

Às vezes, as diferenças aparecem como conflito, mal entendidos, e a cultura de paz é necessária para conseguir equilibrar essas diferenças que se manifestam no conflito. Os círculos de paz sempre se colocam dentro de uma situação maior de conflito dentro daquela comunidade. Portanto, temos que envolver toda a comunidade para olhar para o conflito e nos sentirmos responsáveis por resolver o conflito juntos.

Entendo que uma cultura de paz não é possível se não entendermos alguns danos históricos que foram causados e as desigualdades que são frutos desses malfeitos históricos que aconteceram. Vejo que os processos circulares da Justiça Restaurativa são muito eficazes para trabalhar com os danos históricos que foram impetrados na sociedade. No mundo da Justiça

Restaurativa, passa-se muito tempo entendendo do que a vítima precisa. Isso tudo foi feito até agora, no nível dos malfeitos individuais, o que nos trouxe a sabedoria de perceber que isso também pode ser aplicado aos danos perpetrados entre povos. As vítimas precisam contar a sua história várias vezes e ser escutadas com profundidade. Precisam que reconheçam que aquilo que aconteceu com elas estava errado e não era culpa delas. Precisam de empatia pela dor e pelo trauma que resultaram daquilo que sofreram. Precisam de alguém que sente muitíssimo com aquilo que aconteceu com elas. Precisam de um tipo de reparação algumas vezes. É possível dar esses passos até mesmo no caso daqueles danos que foram causados no passado. É possível estarmos presentes para ouvirmos a história daqueles que foram historicamente prejudicados no passado. Reconhecer que aquilo que foi feito estava errado e ter empatia pela dor que sentem. Sinto-me confiante de que é possível nos prepararmos para essas conversas para, depois, acharmos uma reparação.

Como os círculos de paz são um processo de contação de histórias e se caracterizam por uma escuta profunda, são ferramentas muito poderosas para cura das iniquidades sociais. Tem alguma coisa pequena acontecendo nos EUA que nos dará uma ideia de como isso funciona. Um desses projetos que está acontecendo chama-se “vindo à mesa”. Nesse processo, alguns descentes de senhores de escravos e descendentes de escravos se juntam para conversar e entender o que houve durante o período da escravidão. No primeiro grupo que se formou, todos os descendentes de senhores e de escravos vinham da mesma propriedade. Em algumas ocasiões, todos eles tinham algum tipo de parentesco. Foram conversas extremamente poderosas. Dizer a verdade sobre o que aconteceu e reconhecer o dano. No Estado de Maine, houve um processo de verdade e restauração que aconteceu entre uma comunidade de indígenas americanos e o órgão de assistência social. Os serviços sociais retiraram as crianças de muitas das famílias indígenas e destruíram essas famílias. Tiveram um processo circular em que qualquer um que desejasse poderia chegar e contar a sua história. O resultado foi uma lista de recomendações de algumas mudanças para serem tomadas pelo Estado.

No Canadá, houve um grande processo de verdade e reconciliação em que o governo do país e grandes grupos religiosos reconheceram o dano que causaram em escolas. Essas escolas eram colégios internos que foram abertos em todo o país e para onde os indígenas eram levados ainda durante a infância e passavam lá sua vida. Nessas instituições, houve muita violência e, particularmente, violência sexual. Mas, provavelmente, a coisa mais danosa feita nesses internatos foi destruir a cultura nativa. Eles eram punidos por falar a própria língua, eram punidos por exercitar qualquer um dos seus hábitos culturais. Algumas dessas crianças nunca mais retornaram a sua tribo. E aqueles que retornaram não conseguiram se adaptar a sua tribo. Esse trauma foi transferido de geração em geração. Nesse processo de verdade e reconciliação em todo Canadá, houve círculos em que as pessoas podiam falar e contar a sua história, e a cultura dominante as escutava.

Durante esse período, estava fazendo um treinamento em uma comunidade indígena. Estava sentada com alguns desses indígenas que falavam sobre esse processo de verdade e reconciliação. Eram adultos, com idade variando entre trinta e sessenta anos, e muitos deles disseram: “agora consigo perdoar a meus pais”. Até o momento em que o processo de verdade e reconciliação aconteceu, eles não sabiam o que tinha ocorrido com os seus pais. Os pais nunca tinham falado com essas pessoas sobre suas experiências, então o trauma dos pais formatou a vida delas. A transmissão de uma criação saudável de filhos foi interrompida. Esses adultos não sabiam como amar seus filhos de forma saudável. Uma vez escutando as histórias desses traumas, as pessoas conseguiram perdoar a seus pais. É nesse momento que podemos interromper o círculo. Uma mulher contou que foi a uma exposição local sobre esses internatos e em uma das fotos viu sua avó quando criança. Quando visitou a mãe, comentou com ela que não sabia que a sua avó tinha ido para o internato e a mãe falou: o quê? A avó foi para internato? Ninguém falava sobre isso. Era tão horrível que ninguém falava. Isso vinha à tona na forma de alcoolismo, violência e depressão. Até que a verdade foi dita. Assim, a cura pode começar. E o círculo é o melhor lugar que eu conheço para contar histórias dolorosas, porque no círculo o que se faz é reconhecer totalmente a dor sem culpar aqueles que a causaram. É assim que podemos nos curar como sociedade. Não dá para sermos curados da dor provocando mais dor em alguém.

A Justiça Restaurativa e os Círculos de Construção de Paz servem para as pessoas falarem a verdade sobre o dano que foi feito sem culpar ou acusar aquele que causou o dano. Todos os tipos de danos, tanto os individuais como os coletivos, danos do passado e do presente, os danos que são suprimidos ou enterrados acabam formando uma ferida que machuca até ser aberta e vir à superfície.

Uma cultura de paz precisa de justiça. Creio que a questão da justiça está viva em todas as interações humanas. Experimentamos cada interação com outra pessoa como sendo justa ou não. Quando é justa, não pensamos em justiça, mas quando não é justa temos consciência muito aguçada do que é justiça. Acredito que essa filosofia sobre a justiça se aplica a qualquer momento da nossa vida, e não apenas quando estamos lidando com criminalidade. Toda interação ou é justa ou não é. E se não for justa, como acertamos isso? Nas nossas relações em família, no nosso local de trabalho, na nossa comunidade de bairro, local, em todos os lugares. Temos que fazer uma mudança nos nossos hábitos e normas e em um bocado de dimensões.

Precisamos da mudança de uma cultura que é baseada na especialidade individual para uma sabedoria coletiva. Esse foi um dos meus maiores aprendizados ao estarmos presente em círculos várias vezes. Temos uma sabedoria coletiva enorme quando nos sentamos em um lugar coletivo, respeitoso, reflexivo. Mas o nosso hábito natural de ir buscar especialização é muito forte. A especialização cria hierarquia e, assim, o poder fica desigual. Em um espaço desses, aqueles que têm menos poder não conseguem acessar suas melhores habilidades. Precisamos de espaços de igualdade para poder acessar nossas melhores habilidades intelectuais, porque se há

um poder exercido sobre as nossas dinâmicas, nós precisamos também exercer o poder para nos protegermos. Se não canalizarmos a nossa energia toda para proteção, teremos mais energia para ser usada na criatividade. A sabedoria está presente nas crianças, nas pessoas que não têm nenhuma educação formal, está presente em todos. Nós estamos perdendo essa sabedoria, porque não há espaços em que ela possa emergir.

Precisamos mudar de uma cultura focada na individualidade para uma cultura baseada na interconectividade. Cresci achando que tinha cuidar de mim, que nunca deveria dar trabalho para outros, nem ficar pedindo ajuda dos outros. Isso criou as dificuldades na minha vida. Meu trabalho com os círculos ajudou a reconhecer que nunca poderia fazer nada sozinha. Preciso de apoio, da sabedoria e da ajuda dos outros. A interdependência é o nosso estado natural, é um lugar saudável para estarmos. A natureza do universo é uma interconexão profunda. Uma ação minúscula pode, em ondas, afetar todo o universo. O lugar onde conseguimos ter uma compreensão mais profunda dessa ideia está, acredito eu, relacionado aos movimentos ambientais. Nos EUA, dizemos que 40 anos atrás pegávamos uma garrafa de plástico, jogávamos pela janela do carro achando que estávamos jogando “fora”. E o que os movimentos ambientais nos ensinaram é que não existe “fora”. Não importa onde jogamos a garrafa de plástico, ela vai afetar o nosso ambiente. Mas ainda não trouxemos esse conhecimento para dentro das nossas relações humanas. O mesmo vale para nossas relações: não existe lá “fora”. O mundo seria muito diferente se acreditássemos que o mal que causamos ao outro causamos a nós mesmos também. É impossível nos beneficiarmos a custo do outro, ter alguma vantagem à custa do mal do outro. A interconexão é a natureza do nosso mundo, é isso que aprendemos através da ciência.

Outra mudança que temos que fazer é passarmos de uma análise da deficiência para uma análise dos nossos bens, daquilo que temos. A cultura moderna gasta uma quantidade enorme de energia para descrever problemas. Problemas, problemas e problemas. E hoje em dia, sabemos que perdemos a perspectiva durante esse processo. Podemos ser mais eficazes se começarmos a identificar os nossos pontos fortes e saber aonde queremos ir, com clareza, a partir desses pontos. Isso é particularmente verdadeiro nas famílias com as quais trabalhamos dentro do âmbito da assistência social. Focamos tanto nos problemas e deficiências que essas famílias sentem que têm, que achamos que são só um bando de problemas, fazendo com que essas pessoas se sintam indignas e sem valor nenhum. Precisamos mudar o foco para as forças e para as qualidades que essas pessoas têm. Também precisamos mudar a perspectiva que foca apenas no conhecimento da mente para outras formas de conhecimentos que temos. Privilegiamos aquele conhecimento que chega através da educação formal, mas não damos valor àquele conhecimento que é acumulado através da experiência vivida. Ouvi falar de algumas pesquisas feitas demonstrando que as crianças não conseguem progredir a não ser que sejam amadas. Mas acho que ninguém de nós precisava de um grande pesquisador para nos dizer que nós precisamos amar os bebês. Tudo bem que os especialistas validem isso, mas eles não são a fonte da sabedoria. As coisas estão um pouquinho de cabeça para baixo na nossa cultura.

Se criarmos espaços reflexivos e respeitadores, conseguiremos confiar mais na nossa intuição, assim poderemos usar a nossa parte racional para testar as ideias que vierem através de nossa intuição. Precisamos de ambas, mas estamos muitíssimo desequilibrados. Não são as pesquisas e os estudos que irão nos ensinar como podemos viver bem juntos. Isso virá a nós através de conversas que acontecem em espaços seguros e respeitosos.

Precisamos fazer a transição das hierarquias para sistemas auto-organizativos. Há uma autora norte-americana, Margaret Wheatly, que fala sobre como as pesquisas e as descobertas da natureza irão impactar as empresas e as maneiras como nos organizamos. Usando pesquisas da biologia e da física modernas, ela escreve como podemos mudar a maneira de nos organizarmos como sociedade. Pensávamos que a hierarquia era muito eficiente, mas, na realidade, as hierarquias são muito ineficientes. A hierarquia exige que muito da energia seja utilizada para controlar. Também a hierarquia resulta em uma transmissão baixíssima de informação da base para o topo. O movimento de Justiça Restaurativa, nos EUA, é aquilo que considero modelo de organização autogestora. Significa que os governos estão bem pouco envolvidos com ela e, neste momento, isso é ótimo. Significa que não dependemos dele. Conceitualmente, gosto da ideia de que não há nenhuma instituição organizadora central no movimento. Então o movimento não é tão organizado, é bem caótico. E, apesar disso, é relativamente coerente. Não existe nenhuma instituição que defina ou que estabeleça padrões para o movimento. E tem problemas com isso. Mas, assim mesmo, o movimento está crescendo, está indo adiante e acredito que seja coerente em seus valores e princípios. A força central que organiza o movimento são esses princípios e esses valores, mas não uma estrutura. Estamos começando a tentar entender como vão ser essas estruturas que não têm uma espécie de núcleo central. Minha única certeza é de que não terão a aparência de uma hierarquia.

Outra mudança que devemos fazer é deixar de tentar gerir os comportamentos por meio de controles externos para passar para uma motivação interior que cause algum comportamento. Essa ideia é particularmente forte nas nossas estruturas coercitivas, tais como as escolas, o sistema jurídico e os sistemas de assistência. Muitas vezes, tentamos chegar ao comportamento que queremos da pessoa por ameaças ou, muitas vezes, também por recompensas externas. Mas, em ambos os casos, não a ajudamos a encontrar sua própria orientação interna. Essa foi uma das grandes ideias que aprendi de Marshall Rosenberg. Tanto as punições como as recompensas externalizam o nosso sentido de eu, de indivíduo. Mas precisamos encontrar o nosso próprio eu.

Outra mudança que precisamos fazer é de ter respostas à habilidade de não saber. Todas as práticas restaurativas vêm do princípio de que a solução virá dos participantes do processo. O facilitador não deve ter as respostas. A sabedoria coletiva é sempre maior do que a sabedoria de qualquer indivíduo, mas se algum indivíduo tenta guiar o processo para chegar a uma resposta que tenha a ver com sua própria sabedoria, ele pode não ver que a sabedoria coletiva existe. Isso

é muito claro não apenas para os facilitadores em processos restaurativos, mas também é válido em qualquer outro papel que desempenhamos profissionalmente.

A última mudança da qual quero falar é uma ideia que também tive por meio do trabalho da Margaret Wheatly: devemos mudar da visão da natureza humana como problema para a natureza humana como solução. Quando vemos a natureza humana como problema, vemos os seres humanos como necessitados de forças coercitivas para impedi-los de fazer certas coisas. Isso resulta em uma cultura baseada no medo e no poder. E o medo da punição é usado como motivação para que a pessoa tenha o comportamento apropriado. Precisamos mudar a maneira de ver a natureza humana, passando a enxergá-la como a solução. Os seres humanos têm uma necessidade profunda e muito poderosa de estabelecer boas relações com outros. Precisamos pertencer, pois evoluímos estando em comunidade. Os nossos genes não se esqueceram de que precisamos dos outros para sobreviver. Essa parte da natureza humana não é nutrida nas sociedades modernas. O que acontece, na verdade, é que a nossa cultura mina essa parte da nossa natureza humana. Somos ensinados a desconfiar, a não deixar que os outros cheguem muito perto; nos ensinam que seremos julgados e avaliados o tempo todo. Não somos ensinados a ouvir aquela voz interior que clama pelo amor, pela empatia e pela vulnerabilidade que temos dentro de nós. Somos capazes de fazer um grande mal e de fazer um grande bem. A questão é:

qual dessas duas características é alimentada pela nossa sociedade? E se quisermos alimentar o potencial positivo dos seres humanos, como é que vamos proceder? Há muitos movimentos no mundo todo que estão nos ajudando a maximizar o potencial humano. A contribuição dos movimentos de Justiça Restaurativa são processos muito concretos que nos ajudam a praticar isso.

6.1.

PERGUNTAS

a) De forma prática, como iniciar círculos restaurativos em escolas? Com os pais, com alunos, com professores? Poderia dar um exemplo de uma primeira proposta para iniciar um círculo? Sempre que possível, recomendo que comecem com círculo para professores e que o círculo seja de cuidado dos professores com eles mesmos. Para criar relacionamentos saudáveis nas escolas, precisamos ter relacionamentos saudáveis entre os adultos. Vimos, em algumas comunidades, como trabalhar em círculo nas escolas, apenas com os professores, que melhorou também o relacionamento entre os alunos. Comece onde você tenha uma abertura, uma oportunidade: se houver grupos de pais interessados, comece com eles; se houver grupos de alunos interessados, comece com alunos. E, como oportunista, comece com a oportunidade.

b) A maioria dos negros brasileiros perdeu seu elo de conexão ancestral por conta da escravidão. Muitas dores existem exatamente por não saber de qual lugar do continente africano vieram. Como reparar a falta de conexão e de pertencimento? A mesma coisa se

aplica à comunidade negra nos EUA. As pessoas descobriram novas maneiras de tentar

achar essa conexão por si mesmas, particularmente, através de cerimônias e celebrações.

A ideia do Quanza que é uma celebração que acontece mais ou menos no primeiro do ano,

tem a ver com isso. É uma filosofia que está baseada, não particularmente, em um lugar específico da geografia do continente africano, mas tentando achar algo em comum para todos. Não sei se isso se aplica no Brasil também, mas essa questão também é verdade aos descendentes europeus, pois muitos de nós não sabemos de onde viemos. O importante é começar a conversar sobre estas questões, se existe uma sensação de perda dentro disto tudo e tentar ver de onde que isto vem. É interessante este trabalho, pois os meus primeiros mestres nas técnicas circulares foram indígenas do Canadá e falavam muito dos ancestrais. Era uma constante na fala deles e trabalhavam muito com a ideia de que os ancestrais ainda estavam presentes. No início não consegui me conectar com essa ideia, porque não cresci com a ideia de ligação com os ancestrais. Sei alguma coisa sobre de onde veio minha família, mas não tinha esse mesmo sentimento, não nutrimos o sentimento de reverência para com os ancestrais. Comecei a pensar muito nisso e comecei a pensar muito mais nos ancestrais gerais, não nos meus ancestrais pessoais, mas nos ancestrais que pudesse honrar. Gradualmente, isto foi se tornando, para mim, como sentido dos meus ancestrais pessoais. Mas foi um processo.

c) Quais os passos mais importantes para se organizar um círculo eficiente? Não sei se isso foi um problema de tradução, mas, normalmente, não diríamos círculo eficiente. Não que a eficiência seja ruim, mas é necessário ter equilíbrio. Depende muito do tipo de círculo que vamos fazer. Se não for um círculo para pessoas que estão em conflito entre si, o processo

é bem mais simples. Para fazermos um círculo, é necessário que tenhamos bem claro qual

é o seu propósito e quem precisa estar presente. Se houver conflito entre os participantes,

é necessário fazer preparação (pré-círculo) junto às pessoas que estiveram em conflito,

antes de formar o círculo em si. O processo de preparação pode ajudar-nos a preparar o desenho certo para o círculo. Devemos pensar nas perguntas que são importantes para que esse grupo trabalhe sobre a questão. E devemos nos preparar também. Devemos ter bem claro qual o nosso papel no processo, que não é consertar nada, nem regatar ninguém. A nossa responsabilidade pelo grupo é criar e depois manter o espaço para que eles digam aquilo que é necessário dizer. O círculo tem um propósito muito deliberado de não ir direto para o problema. Os círculos sempre dedicam um tempo para falar sobre valores, estabelecermos juntos a maneira que iremos interagir e cada um contar a sua própria história antes de falar no problema. Se formos os facilitadores, é muito importante nos sentirmos centrados e com os pés no chão.

d) É possível fazer um círculo restaurativo somente com homens abusadores? Um círculo de abusadores e não de vítimas? Círculos restaurativos de homens acusados de abuso sexual? Em sua experiência, quais as feridas que os violentadores carregam? Como é o trabalho

com aqueles que causaram o dano? A maior parte dos abusadores foi abusada. Nos círculos tentamos abordar dois tipos de danos: os danos causados pela situação e os danos evidenciados pela situação. Os primeiros são os danos imediatos, que vieram daquela situação. Queremos que as pessoas que causaram o dano tenham empatia por aqueles que eles machucaram. Mas há algumas pré-condições para que consigamos ter empatia. Uma delas é que precisamos ter experimentado a empatia quando estávamos feridos. Muitas vezes, precisamos fazer um trabalho prévio em que aquele abusador irá sentir a empatia de alguém para quando eles se sentiram machucados. Eles precisam experimentar a empatia vindo de alguém para que, depois, eles possam ter a empatia por alguém que tenham machucado. Existem, relativamente, pouquíssimas pessoas nas prisões norte- americanas que não tenham tido algum trauma em sua vida. Isso não desculpa aquele dano que elas causaram. Precisamos ser pessoalmente responsáveis pelos lugares onde causamos o dano, mas precisamos também de lugares em que podemos falar quando sofremos danos. É necessário fazer as duas coisas, porque se os traumas prévios não forem curados, há uma tendência muito grande de que a pessoa vai causar traumas novamente. Não pedimos à vítima para ter empatia por isso. Esse é o papel da comunidade, ou seja, a comunidade deve se reconciliar com seus membros que causaram dano. As vítimas podem escolher em não se reconciliar com eles, mas a comunidade deve se reconciliar com seus próprios membros. Ou então, estará fazendo uma nova vítima. A Justiça Restaurativa envolve tanto a responsabilidade individual quanto a responsabilidade coletiva. E as crianças são os nossos melhores professores sobre isso. Alguém conhece o livro de círculo para crianças traduzido em português? O livro fala da história de um círculo em que um aluno do 4º ano ameaçou colocar fogo na escola. Então, muitos alunos da classe dessa criança ficaram com medo e fizeram um círculo para falar sobre o que esse aluno tinha feito. E no círculo os colegas falaram dos pesadelos que tinham tido e todo o mal-estar que sentiram pela ameaça do colega. Eles falaram também do fato de que se achavam, até certo ponto, responsáveis pelo comportamento daquele menino. Então fizeram acordo sobre algumas ações que iriam fazer para resolver a situação. Houve quatro coisas que o menino concordou em fazer de forma diferente. Ele concordou em dar uma saidinha e se acalmar se ficasse com raiva e concordou em buscar ajuda de um adulto se fosse muito difícil para ele. Ele concordou em escrever um pedido de desculpas para os colegas. Mas os seus colegas concordaram em mudar nove coisas no seu comportamento. Concordaram em escolhê-lo como parceiro na escola para as atividades. Em não falar coisas ruins para ele. Em brincar com ele no playground. As crianças não se esqueceram da responsabilidade coletiva. Nós, na nossa socialização como adultos, vamos nos distanciando disso. Mas aquelas crianças reconheceram que a responsabilidade delas não diminuiria a responsabilidade daquele menino. Ele tinha responsabilidade também. Nesse caso em particular, havia um contrato de comportamento que tinha sido feito anteriormente com aquele aluno, qual seja, de que ele não poderia brincar no pátio, mas os outros alunos que

não fizeram aquilo. Eles acharam que se todos seguissem o combinado, o menino iria conseguir brincar com eles no pátio de um jeito legal. Então, deram a ele outra chance e não houve mais nenhum problema no playground. As crianças podem ser sábias.

Sobre a outra questão da violência sexual e violência doméstica, temos, no estado de Minnesota, um trabalho feito com pessoas envolvidas com esse tipo de violência há 18 anos. Nessa situação, em particular, é problema de violência doméstica, sem abuso sexual.

É um programa pequeno, não é apropriado para todos os casos, mas tem sido bem

sucedido. Nesse processo, pode haver um encontro face a face, entre a vítima e o abusador. Há outras abordagens para violência doméstica em que também é possível fazer

o processo restaurativo ou circular. Há círculos de cura que são só para vítimas; também

círculo de homens que cometeram estes abusos e exploram quais eram os problemas que cercavam esta questão; também, em Ponta Grossa, estão fazendo círculos com homens que cometeram violência doméstica e usam, como objeto da palavra, um leque, com a finalidade de ajudá-los a pensar no processo de como é que eles construíram o seu conceito de masculinidade. Eles usam esse conceito quando o leque está dobrado, pois eles só veem uma peça estreita e dizem para os homens: esta é a sua opinião, mas eles abrem o leque e dizem têm todas as outras opiniões também. E com o passar do tempo, quando esses homens vão se sentindo mais confortáveis dentro do círculo, eles começam a usar o leque para se abanar. Esse é um objeto da palavra inteligentíssimo. Algumas outras

poucas oportunidades em que estão usando as práticas circulares para trabalhar com problemas de violência sexual, e esses processos, algumas vezes, são separados. Mas se existe um desejo de interação face a face e quando há uma preparação bem feita, às vezes, essas pessoas se encontram. Esses casos, em particular, demandam muita experiência, muita preparação e muito cuidado.