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Cursos Olavo de Carvalho

Princípios e métodos da auto-educação


Descrição

Tendo tido excelentes professores, como Stanislavs Ladusãns, s.j., em filosofia, Juan Alfredo César Müller
em psicologia, Martin Lings em religiões comparadas, não posso me gabar de ser propriamente um autodidata,
embora alguns de meus detratores mais enfezados usem essa palavra, em sentido pejorativo, para aludir ao fato de
que a maior parte do meu aprendizado se deu fora de qualquer programa oficial e sem onihil obstat dos semi-
analfabetos que os diplomaram.

Qualquer que seja o caso, fui adquirindo, ao longo de méio século de estudos, algumas técnicas, preceitos
e truques que aos poucos se organizaram, quase que espontaneamente, numa espécie de arte ou quase ciência. É o
homeschooling para adultos – a última saída que resta para os estudantes sérios num país onde 38 por cento dos
alunos das universidades não sabem ler nem escrever e ninguém vê nisso nada de escandaloso. Meio século atrás,
a educação brasileira já dava sinais do descalabro em que iria se transformar. Esse fenômeno acabou por me
atingir pessoalmente, quando o colégio em que estudava, instituição então muito respeitada, se fundiu com outra
escola, uma péssima escola, entrando rapidamente num estado de confusão degradante. Foi isso que me despertou
para o fato de que, se quisesse aprender alguma coisa, teria de fazê-lo por meu próprio esforço.

Por uma feliz coincidência, quando isso aconteceu eu já tinha um certo hábito de ler livros sobre educação,
no mínimo para poder aferir, mediante comparações, a profundidade da miséria pedagógica em que íamos
naufragando. Essas leituras impediram que eu caísse no erro número um do autodidata usual, que é o de mergulhar
em leituras desordenadas, na vã esperança de suprir, pela quantidade de informações, a ordenação intelectual
faltante (ordenação que, é claro, as universidades brasileiras também jamais lhe fornecem). Por volta dos dezessete
anos, eu já havia concebido um plano de estudos ao qual, malgrado inúmeras alterações e acréscimos posteriores,
me mantive regularmente fiel até hoje. Esse plano baseava-se nos exemplos de educadores bem sucedidos e em
programas de ensino vigentes nas melhores escolas secundárias – e algumas universitárias – desde o começo do
século XIX.

A realização do plano caminhou, ao longo dos anos, pari passucom a constituição e organização da minha
biblioteca pessoal, concebida desde aquela época segundo um plano bem definido, que hoje se encontra
praticamente realizado. Revendo minha experiência, acreditei que podia condensá-la num conjunto de preceitos e
sugestões para uso da multidão de estudantes famintos de conhecimento, que o sistema de ensino brasileiro deixa
no total desamparo. Anos atrás, cheguei a sugerir à Fundação Odebrecht, para a qual fazia alguns trabalhos na
ocasião, a publicação de um “manual do autodidata”, que seria, para a marginalizada e desprezada comunidade dos
estudantes sinceros no nosso país, algo como uma caixa de primeiros socorros intelectuais.

Este curso constitui-se, em parte, de idéias concebidas para aquele manual, que acabou jamais sendo
publicado. Acrescento-lhes, é claro, muita coisa que aprendi depois, sobretudo desde a minha mudança para os
EUA, país que é o paraíso do comprador de livros. Tenho a certeza de que o pacote de técnicas e sugestões que
vou lhes apresentar aqui dará um formidável impulso ao esforço de aprendizado dos que vierem a assistir a estas
aulas, constituindo mesmo para alguns – espero – a descoberta de um potencial intelectual muito maior do que
jamais imaginaram possuir.

Programa:

Aula 1 – Educação e auto-educação


Aula 2 – Pesquisa bibliográfica e auto-educação
Aula 3 – Leitura, assimilação e meditação
Aula 4 – Conhecimento e autoconsciência
Aula 5 – Plano de estudos e plano de vida
Aula 6 – A sobrevivência do estudante sério num ambiente intelectualmente hostil.
Filosofia da ciência
Descrição
Pela desenvoltura com que jornalistas e políticos usam da palavra “ciência” para revestir de autoridade
ameaçadora qualquer estupidez nova ou antiga que tencionem impingir ao público, bem como pela candura devota
com que este se curva ante a imponência mágica de todo “fato científico comprovado”, dir-se-ia que, entre tantas
incertezas, entre tantas questões controversas e abstrusas que atordoam a inteligência humana, a única certeza
tranqüila e improblemática, o único porto seguro, é o conceito de “ciência”. Sim, quando o foco de tantas
discussões é saber se tal ou qual idéia é ciência ou pseudociência, ciência ou crendice, ciência ou ideologia, ciência
ou mito, etc., o que está subentendido aí é que todos sabem o que seja ciência, só restando decidir se esse conceito
se aplica ou não a determinados conteúdos. A ciência paira acima da controvérsia, tal como a regra de um jogo,
uma vez iniciada a disputa, permanece intacta e soberana até o desenlace final da partida.

No entanto, quem quer que não se contente com o uso popular da palavra e busque entender seriamente —
ou, se quiserem, “cientificamente” — o que é ciência, percebe que poucos conceitos são tão encrencados,
nebulosos e controversos quanto esse. Sabe também que esclarecê-lo é uma das tarefas mais urgentes do nosso
tempo, dada a importância crescente e avassaladora do papel que desde há uns quatro séculos as atividades
científicas desempenham na indústria, nas finanças, na administração pública, na saúde, na educação, na alta
cultura e até na vida privada.

Não é intelectualmente saudável que uma força agente, à qual se atribui a autoria dos feitos mais
espetaculares e às vezes a responsabilidade dos crimes mais hediondos, permaneça sem rosto nem identidade,
ocultando-se por trás de uma variedade de máscaras provisórias que, se permitem assinalar onde ela está, não
ajudam nem um pouco a dizer o que ela é.

Este curso, se não tem a ambição de resolver o enigma integralmente, pretende ao menos indicar quais as
linhas de investigação que têm de ser seguidas para isso, bem como desbastar os erros e confusões mais habituais
que têm infectado de nebulosa irracionalidade um campo de discussões que, pela sua própria ambição de servir de
modelo ao julgamento de tudo o mais, deveria ser — em vez de apenas fingir que é –o mais claro e límpido de
todos.

O roteiro do curso é o seguinte:

Aula 1 – Colocação do problema. A ciência como agente político no quadro da Nova Ordem Mundial. O conceito
atual da ciência como fundamento de toda autoridade pública. A expansão concomitante da fraude científica em
escala planetária. Necessidade de uma discussão. Método histórico e método analítico (o enfoque analítico ficará
para o curso Filosofia da Ciência II).

Aula 2. A idéia pura de ciência em Platão. A montagem aristotélica do sistema das ciências.

Aula 3. Estrutura do sistema das ciências na Idade Média.

Aula 4. Surgimento da “ciência moderna” concomitantemente ao ressurgimento do ocultismo. Aspectos mágicos


da “matematização do mundo” em Newton e Descartes.

Aula 5. O Iluminismo. Trevas ocultistas na Idade das Luzes.

Aula 6. Marxismo, relativismo, desconstrucionismo. A crise de cientificidade das ciências segundo Edmund
Husserl. O estado atual da questão.
Conhecimento e moralidade
Descrição
O ideal do conhecimento científico, tal como se delineou desde os tempos de Platão até agora, porém com
mais clareza e determinação a partir do Renascimento, pode ser resumido nas seguintes palavras: objetividade,
exatidão, impessoalidade, verificabilidade. Mesmo as teorias mais recentes, que limitam a atividade do cientista à
busca de probabilidades ou mesmo de consensos provisórios, sem a expectativa de certezas finais, continuam
aceitando ao menos implicitamente esses quatro critérios como os marcos definidores do discurso científico, em
oposição às formas menos rigorosas de conhecimento.

É crença geral que esses traços distintivos aparecem com perfeição máxima nas chamadas “ciências duras”,
como a física ou a físico-química, ou seja, nas ciências que mais se distanciam do pensamento verbal e se
aproximam da pura universalidade impessoal do raciocínio matemático. Toda a autoridade de que as ciências da
natureza física desfrutam na sociedade de hoje fundamenta-se nessa impessoalidade, que imuniza e protege as
opiniões científicas contra o risco de serem afetadas por algum “viés subjetivo”. As demais ciências, que não
alcançam esse padrão de perfeição, procuram modelar-se por ele na medida do possível, na esperança de ombrear-
se um dia ao nível de credibilidade das “ciências duras”. Idealmente, e a despeito de todos os fracassos
encontrados até agora no caminho de uma “teoria unificada”, a verdade científica última deverá constituir-se,
espera-se, de um conjunto de equações que, para além de toda interferência humana, darão conta da totalidade do
real.

Nesse progressivo esforço de despersonalização, assume destaque especial a substituição sistemática da


percepção humana por equipamentos mecânicos, óticos e eletrônicos que supostamente fornecem ao cientista um
quadro mais exato e confiável da realidade. Aos equipamentos de observação e medição acrescenta-se a
matematização computadorizada dos dados colhidos, que permite alcançar os mais elevados níveis de generalidade
sem perda da exatidão. Aceita-se, de modo geral, que as ciências são tanto mais avançadas e perfeitas quanto mais
prescindem do testemunho e do julgamento humanos. No presente curso, investigaremos:

1. Quais são os pressupostos metafísicos, epistemológicos e antropológicos por trás dessas concepções?
2. Em que medida a supressão do testemunho humano é objetivamente possível, e em que medida é um mito
cultural apenas?
3. Em que medida esse mito cultural, quando não se reconhece como tal e portanto adquire uma autoridade
incontrolável, contribui para a dissolução de todo fundamento moral do conhecimento científico? Em que medida
isso tem algo a ver com a epidemia de fraudes científicas que vem assolando o mundo desde há algumas décadas?
4. Em que medida a credibilidade do testemunho humano, inacessível a quaisquer controles exteriores, é uma
condição sine qua non de todo conhecimento, científico ou não?
5. Quais são, em última instância, as bases morais do conhecimento e portanto os princípios de uma ética das
ciências?
Não é preciso enfatizar a importância vital dessas questões para uma compreensão da presente crise da civilização
Ocidental e, de modo geral, para o futuro da humanidade. Infelizmente, o tema não tem sido discutido com a
intensidade e a constância necessárias. Este curso pretende dar uma modesta contribuição ao esclarecimento do
assunto.

Programa:

Aula 1 – Objetividade e impessoalidade.


Aula 2 – O discurso lógico-matemático sem sujeito e o modelo do Logos divino
Aula 3 – O testemunho na vida diária, no Direito e na História. Testemunho e confissão.
Aula 4 – O testemunho nas ciências naturais
Aula 5 – A verdade computadorizada
Aula 6 – A autoridade da ciência e o perigo das fraudes científicas hoje em dia.
Sociologia da filosofia
Descrição
Qual é precisamente a relação entre uma filosofia e o meio histórico-social no qual ela emerge? Será que
“no qual” quer dizer sempre “do qual”? Em que medida o pensamento humano está “condicionado” por fatores
como ideologia de classe, mentalidades de época, inconsciente coletivo etc.? O chavão de que todo filósofo é
“homem do seu tempo” oculta hoje em dia todas as diferenças que vão entre um repetidor da ideologia dominante
e um pensador criativo cujas contribuições continuam alimentando descobertas e debates depois de milênios.

A confusão começa na teoria marxista da “ideologia de classe”. O pensamento de cada indivíduo reflete os
interesses da classe a que pertence? Pode o membro de uma classe defender os “interesses” de outra classe? E,
neste caso, existe mesmo uma ideologia de classe ou apenas modelos ideais construídos por pensadores
individuais que em seguida os vestem, como camisas-de-força, nesta ou naquela classe? A questão tornou-se ainda
mais complicada quando os historiadores da chamada École des Annales, na França, criaram uma historiografia
baseada inteiramente em documentos e registros oficiais, suprimindo os depoimentos diretos dos personagens, e
assim montaram uma narrativa na qual as forças anônimas parecem agir por si mesmas, sem intervenção
consciente dos seres humanos.

Essa brutal seletividade gerou o suporte factual sobre o qual se erigiram depois o estruturalismo e o
desconstrutivismo, nos quais até mesmo a existência de uma consciência individual nos agentes históricos é
eliminada ou colocada entre parênteses. Todas essas questões não podem ser resolvidas na mera esfera teórica. É
preciso voltar aos fatos e estudar caso por caso. As biografias dos filósofos contêm, em geral, dados suficientes
para esclarecer sua posição na sociedade e discernir em que medida seu pensamento a “refletia” ou a transcendia
formidavelmente. Neste curso, estudaremos apenas alguns exemplos, mas significativos o bastante para que a
questão do “condicionamento social” se torne objeto de conhecimento objetivo, em vez de incorporar-se ela
própria a algum discurso ideológico.

Programa:

1. Origem e evolução da doutrina do “condicionamento social” das idéias filosóficas;


2. Sócrates, Platão e Aristóteles;
3. Newton e a fundação da Royal Society;
4. Descartes e a ascensão da burguesia;
5. Karl Marx, o burguês revolucionário;
6. Algumas conclusões gerais.
Simbolismo e ordem cósmica – ontem e hoje
Descrição
W. R. Inge, no clássico “Christian Mysticism”(New York, 1956), afirma: “O misticismo é a tentativa de
realizar, no pensamento e no sentimento, a imanência do temporal no eterno, e do eterno no temporal… Mas, uma
vez que a nossa consciência do além é ela própria desprovida de forma, ela não pode ser trazida diretamente a uma
relação com as formas do nosso pensamento. Em decorrência disso, ela tem de se expressar por símbolos.”

Tudo isso está certo, mas deixa de fora o principal: Se os símbolos são apenas instrumentos da linguagem
humana, eles são criados pelo homem e nada mais expressam do que o pensamento humano mesmo. A famosa
“imanência do temporal no eterno e do eterno no temporal” não passa, aí, de um fenômeno interno da mente
humana, sendo inteiramente temporal e nada tendo de eterno exceto uma pretensão nominal que atesta a sua
própria impotência. Ou os símbolos são a linguagem do próprio eterno e o canal do seu ingresso na esfera
temporal, ou toda pretensão de falar do eterno só nos aprisiona mais e mais na esfera temporal.

Mais que o advento da física matematizada, mais que o surgimento das monarquias nacionais e de um
punhado de impérios em concorrências, mais que a arte de Michelangelo e Leonardo, essa questão marca a
passagem da civilização medieval à “Idade moderna”.

Desde a distinção galilaica entre “qualidades primárias” e “qualidades secundárias” dos objetos, tudo o que
pudesse indicar ou sugerir um simbolismo da natureza, uma intencionalidade cósmica, a unidade profunda da alma
humana com o cenário cósmico em torno, a existência de um “sentido” na presença humana no cosmos foi cada
vez mais expulso do mundo real e aprisionado no recinto fechado da subjetividade humana, da fantasia arbitrária,
da criatividade linguística, da “invenção cultural”. Quando não da superstição ou da loucura pura e simples.

O discurso religioso, nesse panorama, paira acima da experiência real, como duas substâncias separadas e
infungíveis, como a água e o óleo. Os símbolos cristãos perdem força vivida e se reduzem a figuras de linguagem.
A fé, em vez de ser a continuidade e o estágio superior da razão e da experiência, torna-se uma aposta voluntarista
em tradições veneradas e em esperanças etéreas. De que adianta o fiel repetir que “os céus cantam a glória de
Deus” se o único céu que ele conhece é o da ciência física moderna, o qual não apenas não canta, mas nem mesmo
fala?

O objetivo deste curso é mostrar a urgência e a possibilidade de recuperar o simbolismo natural sem o qual
o discurso religioso se reduz cada vez mais a uma retórica convencional e à expressão de um wishful
thinking impotente.

Programa:

Aula 01 - A imagem do homem e do universo na Idade Média e o advento da ciência moderna.

Aula 02 - Vocação e concentração. Remoção de obstáculos psicológicos.

Aula 03 - A sujeição do cristianismo à ciência moderna.

Aula 04 - Os principais códigos simbólicos: Estética, astrologia e alquimia.

Aula 05 - Relendo Sto. Tomás


Mário Ferreira dos Santos – Guia para o
estudo de sua obra
Descrição
Inúmeras e temíveis são as dificuldades de acesso ao pensamento filosófico de Mário Ferreira dos Santos.
A primeira, a mais óbvia e talvez a mais intransponível seja o estado catastrófico de desordem editorial em que ele
deixou seus escritos, quase todos eles constituídos de aulas e conferências transcritas às pressas por amadores bem
intencionados que mal compreendiam o que estavam transcrevendo.

A confusão disforme de cada texto em particular contrasta, no entanto, com a ordem majestosa e límpida
do conjunto da obra madura, especialmente com a Enciclopédia das Ciências Filosóficas, um edifício racional
planejado e construído, peça por peça, rigorosamente de acordo com o plano originário, praticamente inalterado ao
longo de cinquenta e seis volumes.

Contrasta, mais ainda, com o conteúdo intelectual da obra, o seu filosofema, que é talvez a tentativa mais
clara e nítida que já se fez, desde o tempo dos grandes escolásticos, para reduzir a filosofia a um sistema ordenado,
logicamente fundamentado em todos os seus passos. Também é certo que o apego do filósofo à demonstração
lógica ordenada não foi bem servido por um talento literário à altura, muitos sendo os trechos em que o autor perde
o fio da meada ou se embrenha em tiradas verbais de um mau gosto deprimente, mesmo nos raros escritos aos
quais ele teve a chance de dar ele próprio uma forma final.

Muito desse fenômeno deve ser atribuído ao fato de que ele produziu a coleção inteira da Enciclopédia em
apenas dezesseis anos de trabalho, à base de quatro livros por ano, consciente de que, após a sua morte, alguém
teria de impor alguma ordem à mixórdia. Afetado de grave doença cardíaca, o filósofo pressentia que tinha pouco
tempo para viver, e consumia os seus dias numa produção vulcânica, em ritmo vertiginoso, em geral não tendo
tempo nem de rever o que escrevia. A segunda dificuldade é o uso constante do vocabulário técnico escolástico,
totalmente estranho aos leitores de hoje.

Por fim, a própria grandeza e complexidade do projeto filosófico a que ele consagrou os seus dias. A unidade e a
coerência do sistema só se revelam ao fim da leitura de vários volumes da Enciclopédia, cada um com suas
dificuldades próprias, seu estilo rebarbativo e sua dose usual de frases truncadas.

Tendo atravessado essa leitura, pretendo mapear o conjunto e ajudar os leitores a orientar-se nessa selva selvaggia,
complementando a apresentação com um exame crítico-analítico do sistema, sem dúvida a mais notável criação do
pensamento filosófico no Brasil.

Aula I — O corpus ferreiriano.


Divisão cronológica da bibliografia
O estado atual dos textos
Dificuldades de leitura
Estrutura da Enciclopédia das Ciências Filosóficas

Aula II — Esboço de biografia intelectual. Crítica à filosofia moderna, A descoberta do pitagorismo

Aula III — As três fases da obra madura. — Mutações do método

Aula IV — Pitagorismo e tomismo

Aula V — A síntese final


Introdução à filosofia de Louis Lavelle
Descrição
A. D. Sertillanges chamou-o “o Platão dos nossos dias”. Jean-Louis Vieillard-Baron viu na sua Dialética
do Eterno Presente “uma obra espantosa, o maior sistema de metafísica do século XX”; Sebastian Robert, “uma
verdadeira catedral filosófica”; e Paul Ricoeur, “uma mina de ouro, que o mundo ainda vai descobrir”. Se a
descoberta demora, se esse tesouro ainda é a posse de uns poucos nos altos círculos intelectuais, é certamente
porque a cultura das últimas sete ou oito décadas continua privilegiando antes os divertimentos cerebrais, os
serviços prestados aos partidos políticos ou a partilha mafiosa dos postos acadêmicos do que a busca e expressão
da realidade da existência.

Louis Lavelle dedicou todos os seus minutos ao desvendamento do enigma essencial e nunca fez o menor
esforço para brilhar na mídia. Seu temperamento discreto e nobre, tão alheio aos debates de superfície quanto ao
oportunismo que fez de um Sartre, de um Heidegger, de um Merleau-Ponty ou de um Wittgenstein os queridinhos
da indústria de diversões públicas, manteve-o sempre voltado à “única coisa necessária” e persuadido de que as
palavras ditas só para ganhar a platéia não têm valor nenhum. Seu profundo cristianismo, sua concentração
espiritual quase obsessiva e talvez até própria superioridade física de homem “muito grande, muito forte”, como o
descreveu Jean Mesnard, defenderam-no de todas as tentações de uma época que fez da bajulação dos intelectuais
um substitutivo do amor ao conhecimento.

Católico sincero, ele não cedeu nem mesmo aos encantos de um neotomismo fácil, que abriu as portas da
respeitabilidade a tantos carreiristas cujas intenções secretas acabaram por se revelar no fiasco monumental do
Concílio Vaticano II. O caminho que ele seguiu não tem similar na filosofia do século XX, principalmente porque
o solo de onde brota é o da genuína intimidade espiritual, o da sinceridade interior mais exigente e mais pura. Por
essa mesma razão, seus escritos, malgrado sua clareza elegante e cristalina, podem ser de difícil absorção, porque
exigem do leitor, mais que a mera compreensão conceitual, um exercício de autoconhecimento ao mesmo tempo
psicológico e moral, que prepara a exposição dos grandes temas metafísicos e constitui, num segundo momento, a
meta final de todo esse empreendimento filosófico.

O método dialético de Lavelle, que articula a experiência interior ao raciocínio lógico com uma sutileza admirável,
não pode ser praticado sem a mais disciplinada atenção e a mais devotada sinceridade, donde resulta, para o leitor,
a verdadeira conversão espiritual, a vitória da concentração interior sobre as dispersões da vida mundana.
Lavelle restaura de modo eminente a vocação originária da filosofia como busca da sabedoria, e por isto o estudo
da sua obra é hoje mais necessário do que nunca.
Introdução à filosofia de Eric Voegelin
Descrição
No vídeo recém-publicado da rodada de conferências “Voegelin in Toronto”, o que mais me chama
atenção é a diferença entre pensadores acadêmicos de alto calibre, mas presos às formalidades do meio
universitário, e o estudioso que tira sua inspiração diretamente da vida mesma. Todo o conjunto de temas a que
Eric Voegelin dedicou seis décadas de estudo e meditação vieram da sua experiência pessoal ante a eclosão dos
movimentos ideológicos de massa no século XX. O grande objetivo da sua vida foi não apenas explicar as origens
intelectuais e espirituais desses fenômenos sangrentos, mas apreender a sua significação no quadro geral da
existência humana.

Para isso ele teve de desenvolver toda uma antropologia filosófica, partindo das fontes clássicas do
pensamento ocidental, especialmente o Banquete de Platão, onde o ser humano aparece como uma criatura
intermediária e hesitante, vivendo na fronteira entre dois mundos: o transcendente e o imanente, o infinito e o
finito. A esse espaço entre os mundos Platão dava o nome de metaxy, “entremeio”. É da experiência direta aí
colhida que surgem os símbolos com que o ser humano procura dar alguma inteligibilidade ao processo existencial
que ele não pode observar de fora e de cima, porque o processo o envolve em todos os instantes e sob todos os
aspectos.

Da universalidade da metaxy como condição permanente da vida, Voegelin conclui que os pólos da
existência são inseparáveis e nenhum deles pode ser concebido como objeto: Deus e o homem, o eu e o outro,
consciência e objeto, natureza e sociedade só existem como oposições internas dentro dametaxy. Não há um posto
de observação privilegiado desde o qual possamos captar a unidade do processo e constituir os seus elementos
como “objetos”. É o processo mesmo que, em nós, busca a expressão da sua inteligibilidade possível a cada
momento.

Isso não quer dizer que o conhecimento gire em círculos. Ele tem um certo sentido acumulativo e progressivo, na
medida em que as sucessivas simbolizações vão se esclarecendo umas às outras numa escala que vai do mais
compacto para o mais diferenciado. Os símbolos da existência formam sucessivas imagens da “ordem”, e a
sucessão das ordens no tempo é ela própria a “Ordem da História”. A eclosão dos movimentos ideológicos de
massa é uma etapa dessa sucessão e pode ser, até certo ponto, compreendida. A idéia do presente curso é
reconstituir a “ordem” sucessiva das descobertas de Voegelin pelo mesmo método que ele aplicou à investigação
da “Ordem da História”: a análise de uma biografia intelectual deve resultar no esclarecimento da unidade interna
e da “estrutura”, sempre móvel, mas reconhecível, do ensinamento de Voegelin.

Como exigência desse mesmo método, dedicaremos especial atenção às partes mais problemáticas da obra
de Voegelin, o que não significa necessariamente as mais frágeis, porém aquelas que deixam em aberto questões
que já não podem ser resolvidas pelo método voegliniano, exigindo antes a sua extensão e complementação. A
leitura preliminar das Reflexões Autobiográficas de Eric Voegelin é exigência indispensável para os interessados
no curso. A ordem das aulas será a seguinte:

1. Exame sintético do trajeto intelectual de Eric Voegelin segundo as Reflexões Autobiográficas e depoimentos de
discípulos e colegas do filósofo. Sugestões úteis podem ser extraidas daí para a formação intelectual dos alunos do
curso.
2. A metaxy e a estrutura geral da experiência humana.
3. A consciência como participação no processo de diferenciação dos símbolos.
4. Sucessão e simultaneidade das “ordens”. Gnosticismo e messianismo como origens dos movimentos ideológicos
de massa.
5. O caráter problemático da revelação cristã na filosofia de Eric Voegelin.
6. O processo efetivo da diferenciação dos símbolos.
Introdução ao método filosófico
Todos os grandes filósofos do passado praticaram esse conjunto de técnicas e muitos se referiram a elas em
suas obras, mas nenhum se ocupou em fazer delas uma exposição abrangente e sistemática. Fornecer um resumo
dessa exposição, abrindo para os estudos de filosofia uma porta antiqüíssima que a maioria dos professores de
filosofia ignora por completo, tal é o objetivo do presente encontro.

Descrição

A filosofia não é uma ciência, é uma técnica. Se uma ciência busca recortar um conjunto homogêneo de
fenômenos e reduzi-lo a uma clave explicativa comum que possa ser confirmada ou impugnada por todos os
pesquisadores interessados, o resultado dela é necessariamente uma série de sentenças articuladas entre si por
nexos lógicos e referida ao mundo da experiência por um sistema de procedimentos de verificação.

Uma técnica, ao contrário, reúne várias correntes causais autônomas e heterogêneas, irredutíveis a
princípios comuns e unificadas tão somente pelo resultado a obter. Nenhuma técnica, por mais simples que seja, se
reduz à aplicação de um princípio científico único. Nenhuma técnica, a rigor, se deixa explicar totalmente pela
ciência. A técnica tem sua racionalidade própria, interseccionada com a da ciência mas não redutível a ela.

O resultado do trabalho científico são afirmações abstratas válidas para um certo domínio previamente
recortado segundo uma homogeneidade hipotética, que a investigação científica, se bem sucedida, transfigurará
em homogeneidade tética, ou positiva, fundamentando na experiência, retroativamente, o recorte adotado de
início.

O resultado da obra técnica é um produto concreto (de con cresco, “crescer junto) obtido pela articulação
real, não ideal, de diferentes concreções parciais. A filosofia é uma técnica porque o resultado a que ela visa não é
um conjunto de afirmações abstratas sobre esta ou aquela parte da realidade, nem mesmo sobre a “realidade como
um todo”: é a capacitação do sujeito cognoscente humano individual para a apreensão concreta dos nexos entre
conhecimento e realidade, apreensão sem a qual nenhum conhecimento, cientifico ou não, pode estar seguro de
que faz sentido, nem de que seu objeto corresponde a algo no mundo real.

Diante de qualquer conhecimento, a filosofia busca esclarecer:


· Sua inteligibilidade
· Sua significação
· Sua realidade
· Sua posição na ordem geral conhecida
· Seu valor para a autoconsciência individual, para a cultura e para a civilização

Os componentes essenciais da técnica filosófica são:


1. A anamnese pela qual o filósofo rastreia a origem das suas idéias e assume a responsabilidade por elas.
2. A meditação pela qual ele busca transcender o círculo das suas idéias e permitir que a própria realidade lhe fale
numa experiência cognitiva originária.
3. O exame dialético pelo qual ele integra a sua experiência cognitiva na tradição filosófica, e esta naquela.
4. A pesquisa erudita pela qual ele se apossa da tradição.
5. A hermenêutica pela qual ele torna transparentes para o exame dialético as sentenças dos filósofos do passado
e todos os demais elementos da herança cultural que sejam necessários para a sua atividade filosófica.
6. O exame de consciência pelo qual ele integra na sua personalidade total as aquisições da sua investigação
filosófica.
7. A técnica expressiva pela qual ele torna a sua experiência cognitiva reprodutível por outras pessoas.
Todos os grandes filósofos do passado praticaram esse conjunto de técnicas e muitos se referiram a elas em suas
obras, mas nenhum se ocupou em fazer delas uma exposição abrangente e sistemática. Fornecer um resumo dessa
exposição, abrindo para os estudos de filosofia uma porta antiqüíssima que a maioria dos professores de filosofia
ignora por completo, tal é o objetivo do presente encontro.
Que é o Seminário de Filosofia?
Você, que está entrando agora no Seminário de Filosofia, deve tomar ciência das seguintes informações:

O Seminário é, em primeiro lugar, um curso de filosofia (o único que pode ajudar você a praticar a filosofia em
vez de apenas repetir o que outras pessoas, ilustres o quanto se queira, disseram a respeito dela).

Mas, pela sua própria natureza, a filosofia não é um saber especializado sobre uma determinada classe de
objetos: é uma atividade integral da inteligência que se volta sobre todos os campos do saber e da experiência em
busca de sua unidade, de seu fundamento e de sua significação última para a consciência humana.

Não há limites, portanto, para os conhecimentos especializados que possam se tornar necessários, como
subsídios auxiliares, ao aprendizado e exercício da filosofia: a formação filosófica é, também e inseparavelmente,
a abertura da inteligência à totalidade sistêmica dos conhecimentos humanos.

Por essa razão, o Seminário é também um sistema de educação integral , com abertura para os seguintes
campos de estudos, além da filosofia strictu sensu :

1. Religião comparada
2. Letras e artes
3. Ciências humanas
4. Ciências da natureza
5. Comunicação e expressão

Essa abrangência torna o Seminário uma espécie de Introdução geral aos estudos superiores em sua totalidade .

Mas isso não é tudo.

Como a filosofia consiste, sobretudo, em unidade do conhecimento na unidade da consciência, os vários


campos do saber abrangidos no Seminário não constituem uma somatória de elementos inconexos, e sim a visão
sintética da unidade orgânica do conhecimento humano.
Graças a esse enfoque, o Seminário torna-se ainda teoria e prática do conhecimento interdisciplinar .

No entanto, a filosofia nunca pode constituir mera atividade profissional e universitária, desligada da
intimidade pessoal daquele que a exerce. Ela é, por definição, exercício da autoconsciência , que busca
sistematicamente os nexos entre o saber, o ser e o agir, na unidade da consciência individual do filósofo.

A unidade do saber, do ser e do agir é a meta de toda filosofia: é a conquista da sabedoria .

Buscando constantemente o nexo entre conhecimento e autoconsciência, o filósofo (ou, o que é exatamente
o mesmo: o estudante) submete-se à disciplina da sinceridade , que se torna, de maneira lenta, gradual e segura,
um caminho de ascese espiritual: o desenvolvimento do senso pessoal da verdade .

Como, ademais, a inteligência humana não se desenvolve em mais ou em menos segundo as taxas fictícias
de algum Q.I. inato ou segundo tais ou quais determinações ambientais supostamente invencíveis, mas apenas
segundo a maior ou menor determinação de cada homem no sentido de buscar a verdade e integrá-la nas estruturas
de sua personalidade e nas linhas de seu modo de agir, o Seminário torna-se também um método de
desenvolvimento da inteligência pessoal .

Eis aí o que é o Seminário de Filosofia :

1. Um curso de filosofia
2. Um sistema de educação integral
3. Uma introdução geral aos estudos superiores
4. Uma teoria e prática da interdisciplina
5. Um caminho de ascese espiritual
6. Um método de desenvolvimento da inteligência pessoal

Caso esses seis objetivos lhe pareçam grandes demais para poderem ser atingidos todos de uma vez, o
próprio Seminário lhe mostrará que não é possível atingir nenhum deles separadamente: filosofia , educação
integral , ampliação do horizonte cognitivo , unidade do conhecimento , ascese espiritual fundada na
autoconsciência e desenvolvimento da inteligência humana são, apenas, seis nomes de uma só e mesma coisa.

O Seminário não promete dar a você nenhuma delas, porque nenhuma delas é coisa que se possa receber de
presente. Promete apenas mostrar-lhe o caminho para conquistá-las e torná-las suas para sempre.

De você ele só exigirá duas coisas: sinceridade e esforço tranqüilo.

Olavo de Carvalho