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Linguística II UNIDADE 01 AULA 03

Adriana Sales Barros


Joseli Maria da Silva
Neilson Alves de Medeiros

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Análise da Conversação

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Distinguir as diferentes contribuições teóricas que


resultaram na Análise da Conversação;
„„ Conhecer os pressupostos teóricos e metodológicos
da Análise da Conversação;
„„ Adquirir um novo olhar sobre as possibilidades
de estudo da conversa e da interação.
Análise da Conversação

2 Começando a história

A partir de agora, vamos conhecer um pouco mais da Análise da Conversação.


O nome dessa disciplina da Linguística talvez nos antecipe algumas questões.
Você já parou para refletir sobre os diversos modos que utilizamos quando
conversamos? Já percebeu que as conversas travadas com nossos familiares,
amigos, colegas de trabalho e desconhecidos na rua são, na verdade, textos?

Além disso, esses textos orais podem revelar muitas peculiaridades sobre
o modo como organizamos nossas interações. Apesar de ser comumente
associada à falta de organização, a conversa é, na verdade, uma construção
bastante complexa e ordenada. Atualmente, seu funcionamento desperta o
interesse pela Linguística, sobretudo pela disciplina denominada como Análise
da Conversação (doravante, AC).

3 Tecendo conhecimento

Na aula 6 de Linguística I, demos início a um debate sobre o que significa


interação. Conhecemos a concepção de linguagem como forma de interação,
que reconhece a linguagem como uma ação situada entre indivíduos, que
se influenciam mutuamente e agem sobre o mundo. Se observarmos bem,
perceberemos que a interação verbal ocorre por meio de gêneros textuais. Nós
não falamos ou escrevemos apenas. Adotamos determinado gênero textual:
contamos piadas, escrevemos relatórios, consultamos listas, participamos de
entrevistas, proferimos palestras, fazemos uma exposição oral em um seminário...
As possibilidades são muitas. No entanto, dentre tantos gêneros, destaca-se um
que muitas vezes não recebe a devida atenção. Trata-se da conversa. Quando
somos crianças, geralmente participamos de interações... Por meio de quê?
Basta examinar uma mãe dando banho em seu bebê que nem “fala” ainda, ou
testemunhar um jantar em família no qual há pessoas de todas as idades. A
conversa é o gênero textual primordial e não é de se estranhar que ela seja muito
mais elaborada do que pensamos. As trocas conversacionais merecem atenção,
pois organizam nossa vida social, apresentando-se em situações privadas e
institucionais, revelando papéis assumidos pelos usuários da língua. Assim, como
nos diz Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 8), importante estudiosa da AC,
o exercício da fala implica uma interação, ou seja, ao longo
do desenrolar-se de uma troca comunicativa qualquer,
os diferentes participantes, aos quais chamaremos

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“interactantes”, exercem uns sobre os outros uma rede de


influências mútuas – falar é trocar, e mudar na troca.

A fim de entendermos mais sobre essa importante rede que a conversa


comporta, começaremos pela origem dessa área, que possui raízes em campos
de conhecimento que se encontram fora da Linguística.

3.1 Análise da Conversação: um campo transdisciplinar

Podemos apontar a década de 1970 como o marco histórico do nascimento dos


estudos sobre a conversação. Contudo, como lembra Kerbrat-Orecchioni (2006,
p. 16), a conversa figurou como objeto de estudo em discussões que remontam
à Renascença. Seu tratamento, no entanto, não passava de questões normativas,
ou seja, abordava-se a conversa muito mais no sentido de determinar como
falar bem.

No quadro atual, a abordagem prescritiva cede lugar à descritiva: interessa muito


mais, na ótica das ciências, compreender, após levantamento objetivo de dados,
como se configuram as conversações, isto é, pretende-se chegar a uma descrição
das regras que orientam nossas trocas verbais cotidianas.

Desde a sua gênese, a AC articula-se com outras disciplinas, como a Psicologia


Social, a Microssociologia, a Sociologia da Linguagem, a Filosofia da Linguagem,
a Etnografia e a Antropologia, dentre outras.

Ainda segundo Kerbrat-Orecchioni (2006), é possível reunir quatro grandes


enfoques que retratam a história da constituição da AC:

a) um enfoque psicológico/psiquiátrico;
b) um conjunto de enfoques etnossociológicos: nesse grupo, figuram
a etnografia da comunicação, representada por Hymes, e a
etnometodologia, que tem Garfinkel como seu maior representante;
c) a abordagem linguística: nascida na década de 1980, essa abordagem
confirma a adesão um pouco tardia da Linguística em relação ao
estudo dos textos da fala (lembremo-nos de que perdurou por muito
tempo, na Linguística, o interesse quase exclusivo pela língua em sua
condição de sistema homogêneo. Desde Saussure, a fala, embora
reconhecida, estava fora da grande parte dos estudos linguísticos);
d) a abordagem filosófica: aqui se situam as contribuições advindas da
Pragmática, como a noção de ato de fala, de jogos de linguagem e
das máximas conversacionais.
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Análise da Conversação

Ressaltaremos, nesta aula, o papel de apenas algumas vertentes, a saber: a


Etnografia da Comunicação e a Etnometodologia.

Podemos considerar que a AC tem como objetivo explicitar as regras que


sustentam o funcionamento das trocas comunicativas de todos os gêneros,
desvendando os padrões que orientam o comportamento daqueles que se
encontram engajados na conversação (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 15). Já
Dionísio (2004, p. 70), apoiada em Eggins e Slade (1997), afirma que os linguistas
da AC preocupam-se com a seguinte questão: “como a linguagem é estruturada
para favorecer a conversação?”. A conversação, ainda seguindo o pensamento da
autora, pode nos dizer algo sobre como a língua se presta às ações da vida social.

3.1.1 Etnografia da Comunicação

Uma disciplina que desempenhou um papel importante para o desenvolvimento


da AC foi a Etnografia da Comunicação. Em um gesto de reação à noção de
competência linguística presente nos postulados de Chomsky, Hymes introduz o
conceito de competência comunicativa, que pode ser definida como “o conjunto
de capacidades que permitem ao sujeito falante comunicar de modo eficaz, em
situações culturalmente específicas” (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 19). Ao
comparar essas duas concepções, estamos diante de uma perspectiva que julga
apenas a capacidade de produção e reconhecimento de frases bem formadas
e de uma segunda orientação, que não se contenta com a simples tarefa de
organização de sentenças, mas que leva em conta os saberes socioculturais
que se encontram no uso da língua. Desse modo, a competência comunicativa
questiona o seguinte: de que adianta um falante que produz boas sentenças em
sua língua, se ele não é capaz de empregá-la de maneira adequada nas diversas
circunstâncias de interação?

Além disso, a Etnografia da Comunicação contribui com seu olhar sobre as


variações de códigos entre comunidades e dentro das próprias comunidades,
além de incentivar a adoção de um procedimento indutivo e naturalista.

Você já ouviu falar em método indutivo e investigação naturalista? Faça


uma pesquisa sobre esses termos. Pesquise em livros sobre metodologia
do trabalho científico, artigos na internet ou converse com professores e
amigos mais experientes. Compare suas respostas com aquelas encontradas
pelos seus colegas. Além disso, busque ajuda de seu tutor.

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3.1.2 A Etnometodologia

A Etnometodologia, por sua vez, objetiva a descrição dos métodos, ou seja, os


procedimentos, saberes e técnicas que são utilizados pelos membros de uma
sociedade para gerir a comunicação. Isso significa que as trocas comunicativas
apresentam certa rotina – ao interagirmos, baseamo-nos em normas implícitas
que regem nossas conversações.

O procedimento etnometodológico pode ser aplicado a várias áreas, conforme


aponta Kerbrat-Orecchioni (2006), sendo possível compreender os mais variados
contextos da vida social por meio dessa abordagem. Entretanto, dentre as várias
possibilidades, a análise da conversa começa a se consolidar, sob o empenho
de Sacks e Schegloff. Nesse caso, a conversa torna-se um lugar privilegiado de
análise das organizações sociais em seu conjunto (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006,
p. 22). Com isso, observa-se que, ao se depararem com diferentes tarefas, os
interactantes recorrem a técnicas institucionalizadas, a fim de manter seu turno,
garantir a troca de turnos, iniciar ou dar um desfecho a uma negociação etc.

Em relação à articulação entre a Etnometodologia e a AC, de modo mais preciso,


Gago (2008) relata que a década de 1960 marca o início dessas disciplinas, em
que a Sociologia, com os trabalhos de Garfinkel, influencia o tratamento dado
à conversação. Contrapondo-se às ideias sociológicas de natureza macro,
que alimentavam a crença de que o homem internaliza normas culturais e
simplesmente as reproduz, o método microssociológico visa descrever os fatos
sociais construídos localmente, com a interação face a face como seu lugar
privilegiado. Essa mudança proporciona uma atenção cada vez maior para a
fala, afastando-se, também, das abordagens do Estruturalismo e do Gerativismo.
Assim, testemunhamos um posicionamento funcionalista da língua, que toma
esse fenômeno como uma atividade empreendida por indivíduos engajados
em ações sociais.

Um nome importante para a AC é o de Harvey Sacks. Segundo Ostermann et al.


(2009), Sacks foi o primeiro a explorar as possibilidades analíticas presentes na
conversa. Tudo começou quando o sociólogo em questão passou a investigar
gravações de pessoas que recorriam a centros de apoio a suicidas em potencial.
Por meio de suas análises, Sacks obteve uma descrição dos métodos que as
pessoas utilizam para realizar ações no mundo através da fala.

A AC, também conhecida como Análise da Conversação Etnometodológica ou


Análise de Fala-em-interação, começava a ser delineada. A seguir, trataremos
dos métodos adotados nessa disciplina.
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Análise da Conversação

3.2 Metodologia da AC

Diante da complexidade que envolve a conversa, a AC parte de duas questões


importantes, em relação à obtenção e tratamento dos dados estudados:
primeiramente, as interações devem ser naturalísticas. Em segundo lugar, a
transcrição das conversas é um procedimento que merece atenção.

No que diz respeito às situações naturalísticas, adota-se o procedimento de coletar


os dados nas situações reais de sua produção, sem manipulação, experimentos
ou roteiros prévios. Assim, se um pesquisador optar por dados naturalísticos,
ele deve simplesmente registrar as situações sem interferir naquele contexto.

Imagine que você decide fazer um estudo sobre as maneiras como


o professor responde ao questionamento de alunos em sala de aula.
Uma forma de compreender essas interações pode ser o registro da
situação, com um gravador ou uma câmera filmadora. É claro que não
há como não interferir involuntariamente. Afinal de contas, uma pessoa
que registra as interações de um grupo não será ignorada pelos seus
membros. Entretanto, os analistas da conversação defendem que, após
certo tempo, os participantes das interações começam a se habituar à
presença do equipamento e do pesquisador em seu meio.

A propósito, você já fez alguma pesquisa em sala de aula ou algum outro


tipo de situação que envolva seres humanos? Você tem ideia dos outros
procedimentos que devem ser seguidos?

Em uma escola, por exemplo, como lidar com uma possível exposição de
crianças? De que maneira o pesquisador pode garantir sua integridade e
a integridade dos participantes?

Para entender mais sobre esse assunto, acesse o site do Comitê de Ética
em Pesquisa com Seres Humanos (Conep), órgão vinculado ao Ministério
da Saúde:

http://plataformabrasil.saude.gov.br/login.jsf.

Para a realização de uma pesquisa do tipo naturalística, o investigador pode


gravar as conversas em áudio ou em vídeo. Como a AC amplia seu domínio,
reconhecendo não apenas o material verbal, mas outras unidades não verbais,
tais como os gestos, os olhares, a distância e a postura, o registro em vídeo tem

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um maior alcance. Vale lembrar que as unidades de caráter paraverbal, como a


entoação e as pausas, também ganham visibilidade na AC.

A etapa de coleta dos dados é complementada pelo processo de transcrição


da conversa. Essa tarefa não equivale à transformação do texto oral em escrito.
Já que a organização da conversa não se esgota na sequência de palavras que
formam o material verbal, é preciso dar atenção a alguns aspectos: a pausa, a
sobreposição de falas (quando duas pessoas falam ao mesmo tempo), a entonação
(se é ascendente ou descendente), os truncamentos e até mesmo os trechos que
são incompreensíveis. Esses são apenas alguns dos aspectos que devem constar
nas transcrições da fala na AC.

Como representar todos esses elementos? Há uma série de convenções, ou seja,


símbolos que indicam a ocorrência dos aspectos que cercam a conversa. Essas
convenções sofrem algumas variações, mas geralmente há muitos símbolos
em comum. Para ilustrar, temos, a seguir, um quadro com algumas convenções
presentes em Dionísio (2004):

SINAIS OCORRÊNCIAS
: Prolongamento da sílaba
/ Trecho truncado
(.) Pausa prolongada
((?)) Trecho incompreensível
[ Falas sobrepostas
- Silabação
[[ Falas simultâneas
Letras maiúsculas Ênfase na palavra ou enunciado
() Comentários do transcritor
Números Demarcação dos turnos
Itálico Termo pronunciado de forma peculiar pela criança

Com base no quadro acima, se encontrarmos na transcrição a seguinte produção


– eu que:ro –, significa que o indivíduo prolongou a sílaba “que”.

A utilização dessas convenções para transcrição da conversa oferece a vantagem


de detalhar a produção dos interactantes da forma mais realística possível, além
de promover uma troca maior entre os pesquisadores, que podem ter acesso
ao material e desenvolver suas próprias análises.

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Análise da Conversação

Retomando as perguntas que lançamos sobre a postura ética na coleta de


dados, lembramos que os sujeitos participantes da pesquisa sempre devem
ter sua identidade mantida em sigilo. Assim, uma estratégia bem comum
é o uso de nomes fictícios ou de símbolos, como as letras do alfabeto, para
substituir os nomes reais dos participantes. Desse modo, ninguém passará
por constrangimentos nem terá sua vida exposta. Contudo, não é só isso. O
pesquisador deve estar munido de um documento, conhecido como Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Esse documento detalha os
objetivos da pesquisa pretendida e apresenta outros dados importantes,
como o contato do pesquisador e a garantia de que o participante pode
desistir da pesquisa a qualquer momento. Uma pesquisa séria deve se
submeter à apreciação de um Comitê de Ética. Geralmente, cada instituição
pública de ensino superior tem uma comissão que lida com essas questões.
Na sala de aula, o professor disponibilizará um modelo do TCLE. Quem
sabe você não precisará dele futuramente?

Ao lado dos procedimentos metodológicos, temos os pressupostos teóricos da


AC. Vejamos algumas questões relacionadas a isso.

3.3 Pressupostos da AC

Ainda na busca de firmar sua posição frente ao formalismo do Estruturalismo e


do Gerativismo, a AC, junto à Etnometodologia, reconhece a linguagem como
constitutiva da vida social. Para essas correntes, a linguagem de que tratam,
entretanto, não é aquela dos gramáticos e dos linguistas, mas aquela da vida de
todos os dias (GAGO, 2008). Nesse universo, encontramos as trocas verbais que
permeiam nossas atividades cotidianas, formais ou informais, como ir ao cinema,
participar de uma entrevista para emprego, conversar em família, negociar com
um comerciante, dentre tantas outras. Com isso, temos aqui três questões centrais:
ūū A linguagem constitui a vida social;
ūū A primazia que é dada à conversa cotidiana;
ūū Nossa vida desenrola-se em um mundo
praticamente conversacional.
Como já mencionamos, a conversa pode ser tomada como o gênero textual por
excelência, que permite que a criança ingresse nas práticas sociais e aprenda
outros gêneros. Apoiadas na conversa, as interações são reconstruídas a todo
o momento, o que significa assumir que a realidade e a ordem social não são
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estáticas, mas estão em contínua reelaboração. Podemos citar um exemplo


que bem retrata essa reelaboração: por mais que uma interação entre paciente
e médico se enquadre em uma espécie de rotina, as trocas entre esses dois
indivíduos são singulares. Nada impede que um paciente ocupe um lugar mais
proeminente na conversa com seu médico e enderece várias perguntas ao
profissional da saúde, sem dar-lhe muitas chances de cumprir sua tarefa normal.

Os atores sociais que se engajam nas atividades não são, portanto, meros
reprodutores de normas de comportamento. Como defende Gago (2008), esses
indivíduos atuam no mundo que os cerca, reconstruindo esses cenários a partir
de seus conhecimentos, de suas atitudes e crenças em relação às situações.

Retomando Heritage, Gago (2008) explica que a AC pode ser compreendida


sob três princípios:

a) A interação social é estruturalmente organizada: há padrões


organizados de ações, que podem ser verificados nas interações e
que orientam a participação dos indivíduos.
b) A ação verbal assenta-se na implicatividade sequencial: cada ação
corrente está vinculada ao contexto imediato de sua produção e,
ao mesmo tempo, ao contexto adjacente que segue. Isso significa
que aquilo que proferimos para o nosso interlocutor tem influência
sobre a próxima produção. Um pedido, geralmente, demanda a
aceitação ou a recusa.
c) Nenhum detalhe pode ser desconsiderado nos dados obtidos. Além
disso, a AC procura não elaborar teorias para “aplicar” ao mundo.
Recomenda-se ir até o mundo e, a partir dele, formular as teorias.
Nesse sentido, o pesquisador permite que os dados “falem”, evitando
impor modelos que limitem o material coletado.

Os postulados, junto à metodologia, permitem que o analista da conversação


chegue a padrões regulares de ação social, que resultam da observação sistemática
de interações observáveis.

Um dos preceitos da AC, sustentado por Sacks, é o de que há uma ordem na


conversação. Envolvidos com essa ordem, os falantes lançam mão de estratégias
que alicerçam o fluxo interacional. Vejamos algumas:

Organização geral da conversação

Alguns termos técnicos são usados para se referir à organização da conversa.


Vejamos alguns deles, com base em Koch (2012):

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a) Turno: consiste em cada intervenção de um dos participantes na


interação. O turno é, portanto, a vez de falar.
b) Tópico: refere-se àquilo sobre o que se fala. Ao longo do
desenvolvimento da interação, os falantes centram sua atenção
sobre um ou mais assuntos. Alguns tópicos são abandonados,
outros novos tópicos são inseridos, outros, ainda, são retomados.
A distribuição de tópicos constitui uma arquitetura mais complexa,
que envolve subtópicos e supertópicos.
c) Interações simétricas: são aquelas em que os participantes têm
o mesmo direito de uso da fala. As conversas do cotidiano que
travamos com amigos e familiares são um bom exemplo desse
tipo de interação.
d) Interações assimétricas: ao contrário das simétricas, nessas
interações há algum participante que detém maior poder sobre as
palavras. Exemplos desse tipo de interação seriam as entrevistas,
consultas médicas e alguns momentos da aula.
e) Espaços de transição: alguns elementos sinalizam quando há
uma possibilidade de tomar o turno. O silêncio, as pausas longas,
a entonação específica, os gestos ou expressões como “que acha?”
ou “de acordo”? ilustram os recursos que oportunizam a transição
de turnos.
f) Assalto ao turno: às vezes, quando conversamos, percebemos
que alguns participantes falam ao mesmo tempo que nós. Essa
estratégia de tomar a vez de falar do detentor da fala caracteriza
um assalto ao turno.
g) Sobreposição de vozes: essa é a estratégia que pode ser eficaz
ou não no assalto ao turno. Quando falamos e alguém interfere,
verbalizando junto conosco, essa pessoa pode ou não conseguir
tomar o turno para si.
h) Pares adjacentes: para que a conversa seja efetiva, é preciso que
haja uma cadeia de falas de, no mínimo, dois participantes. Essas
produções são pareadas, ou seja, o que um participante diz em
um turno – a vez de falar – limita aquilo que o seu interlocutor irá
proferir em seu turno. Geralmente, quando alguém faz um convite,
é bem provável que, na fala do próximo participante, ouçamos uma
aceitação ou uma recusa. Do mesmo modo, quando temos outros
tipos de pares adjacentes, como a clássica pergunta/resposta, a
saudação/resposta, a avaliação/concordância ou discordância. A
relação entre o primeiro e segundo membro do par adjacente
tem o nome de relevância condicional, em que a existência do
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segundo membro é importante para o êxito da interação. Pensemos


em alguém que faz um convite a outra pessoa. A inexistência da
resposta, aceitando ou recusando, pode trazer consequências ao
evento, como estranheza ou sanções sociais.
i) Reparo: nem sempre a comunicação flui sem problemas. Os falantes
têm que lidar com isso, efetuando, às vezes, uma “quebra” no fluxo
da conversa. Nesse momento, busca-se ajustar os mal-entendidos,
por meio do autorreparo ou do reparo proveniente do outro.

Pelos itens dispostos acima, podemos chegar à conclusão de que a AC dispõe


de um arsenal muito rico para descrever a fala-em-interação. Essas descrições
comprovam, por sua vez, que a fala tem uma gramática, um conjunto de regras
que lhe conferem consistência para o uso dinâmico da língua.

O campo de atuação da AC tem se tornado muito amplo. Uma vez que encontramos
a conversa em qualquer tipo de situação, temos uma infinidade de locus para
investigação: a sala de aula, a comunicação na área da saúde, nos contextos
policiais, nas empresas etc.

4 Aprofundando seu conhecimento

Nesta obra, Catherine Kerbrat-Orecchioni apresenta os principais Figura 1


pressupostos da Análise da Conversação, detalhando
a metodologia empregada nesta disciplina de
Linguística. Também há uma ótima exposição das
origens dessa área interdisciplinar. Temas como o
papel do contexto, o sistema de organização dos
turnos e a polidez são discutidos no livro e servem
como excelentes meios de aprofundamento na Análise
da Conversação.

Esta obra, considerada um clássico da Análise da Figura 2


Conversação no Brasil, traz um panorama bem
elaborado para a investigação sobre a conversação.
Dentre os temas centrais da AC que são apresentados
no livro, Marcuschi também explora os marcadores
conversacionais e uma interessante descrição de uma
conversa ao telefone.

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Análise da Conversação

Exercitando

1) Veja o trecho de uma transcrição de interações entre professora e crianças


de 4 anos de idade em uma sala da Educação Infantil:

Contexto: A Professora inicia uma discussão sobre os membros da família.

Crianças: Alan (4 anos e 9 meses); Diego (4 anos e 1 mês); Breno (4 anos e 5 meses);
Gabriel (4 anos); Eva (4 anos e 4 meses).

1) Profª: Alan, dá uma bundadinha pra trás, Alan. Como a gente tá


trabalhando a família, tia Patrícia vai perguntar mais uma vez, tá? O
que é família? (.) O que é família?
2) Diego: Animal.
3) Breno: Animal? (sorrindo).
4) Profª: Animais faz parte da família?
5) Diego: NÃO (sorrindo enquanto olha para Breno).
6) Profª: Os animais também têm uma família. Os animais também têm
os filhotinhos. Tem o pai, tem a mãe, não é? Tem a fêmea e o ma:cho.
Gabriel (chamando atenção do aluno com o bater de palmas).
7) Gabriel: (olha para a Professora).
8) Profª: Vamo prestar atenção.
9) Eva: ((?)) caiu um dente.
10) Profª: (presta atenção ao que diz Eva e volta o olhar para o grupo)
Quem é que faz parte da família? Quem são as pessoas que fazem
parte da família?
11) (Vários alunos levantam o dedo): Eu!
12) Profª: Quem mais?
13) Eva: Minha mãe, meu pai e eu.
Agora responda:

a) A interação em questão pode ser classificada como simétrica ou


assimétrica? Por quê?
b) Que tipo de par adjacente predomina nessa interação?
c) É possível apontar algum turno em que há uma ênfase na fala? O
que sinaliza isso?
d) Existem assaltos a turno nesse fragmento? Por que os alunos evitariam
essa estratégia em relação à professora?

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2) Registre a conversa entre dois colegas seus ou entre familiares. Com o


auxílio de um celular ou de um gravador, peça permissão para gravar
dois minutos de conversa. Após isso, tente fazer a transcrição dos dados,
observando as convenções. Após realizar a transcrição, identifique se há
pares adjacentes, de que tipo eles são, se há estratégia de reparo, assalto
ao turno ou algum outro mecanismo de organização da fala. Além disso,
observe os tópicos que são desenvolvidos, bem como os subtópicos que
aparecem. Lembre-se de que, para efetuar uma transcrição, mesmo que ela
seja sobre uma interação curta, é necessário ouvir a produção várias vezes.

5 Trocando em miúdos

Nesta aula, aprendemos um pouco sobre a Análise da Conversação. Em primeiro


lugar, vimos que essa disciplina se presta a descrever como se organiza a fala
em interação, partindo da ideia de que a conversa não é uma produção caótica,
mas que possui uma configuração peculiar. Também conhecemos um pouco
sobre a origem da AC e sua relação com outras ciências, como a Sociologia, a
Psicologia e a Antropologia. Por fim, aprofundamo-nos um pouco mais nos
aspectos teórico-metodológicos da AC, como os procedimentos de coleta de
dados, sua transcrição e algumas estratégias que regem o funcionamento da fala.

6 Autoavaliando

Ao conhecer o olhar da AC em relação à conversa e, consequentemente, aos textos


orais em geral, de que maneira você contemplaria a fala a partir de agora? Esses
novos conhecimentos podem te auxiliar na sala de aula? Que pistas presentes
na conversação sinalizam atitudes na interação entre professor e alunos? Reflita
sobre isso.

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Análise da Conversação

Referências

GAGO, P. Apresentando a Linguística Interacional: um estudo de relevância


da convergência em uma reunião de negociação na cultura portuguesa. In:
VASCONCELOS, Z.; AUGUSTO, M.; SHEPHERD, T. (Orgs.). Linguagem, teoria,
análise e aplicações. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2008.

KERBRAT-ORECCHIONI, C. Análise da Conversação: princípios e métodos. São


Paulo: Parábola, 2006.

KOCH, I. A inter-ação pela linguagem. 10. ed. São Paulo: Contexto, 2012.

SILVA, C.; ANDRADE, D.; OSTERMANN, A. C. Análise da Conversa: Uma Breve


Introdução. ReVEL, v. 7, n. 13, 2009.

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