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AMÉDIS GERMANO DOS SANTOS

PODER E VIOLÊNCIA DO DISCURSO

Doutorado em Comunicação e Semiótica

PUC/SP

2005

AMÉDIS GERMANO DOS SANTOS

PODER E VIOLÊNCIA DO DISCURSO

Tese apresentada à Banca Examinadora da

Pontifícia Universidade Católica de São

Paulo, como exigência parcial para obtenção

do título de Doutor em Comunicação e

Semiótica

Área de concentração: Sistemas Semióticos

em Ambientes Midiáticos.

Orientador: do Prof. Doutor Eugênio Rondini

Trivinho.

PUC/SP

2005

BANCA EXAMINADORA

DEDICATÓRIA

Esta obra é dedicada àqueles que, em nossos objetivos, sempre somaram.

À Ânnÿ-Maria, Dönnerssön e Maria das Graças que se mantiveram pacientes

e compreensivos em todos os momentos de ausência.

In Memorian:

À Ana Maria, que mesmo partindo na chegada deixou seu registro no

percurso de nossa vida.

À Helda Barracco, pelos ensinamentos que moldaram o nosso pensamento.

A Renato Cohen, pelo carinho e apoio no momento mais crucial desta

caminhada.

Agradecimentos

Ao Dr. Eugênio Trivinho, pela confiança e segurança transmitidas, pelo crédito e a ousadia no aceite da condução do processo num momento de obscuridade total e pela sua sapiência e perseverança na orientação do melhor caminho para a realização dos nossos objetivos.

À Fundação Educacional de Caratinga, em especial aos professores Antônio

Fonseca e Celso Simões, que nos deram todo o apoio para a consecução deste

empreendimento.

Aos professores José Lacerda e Walter Zavatário pela inestimável assessoria nos domínios da gramática

Aos professores que comprometeram seu tempo substituindo-nos como navegantes.

Às bibliotecárias da UNEC, da PUC-SP e à Biblioteca Mário da Andrade pelo apoio às nossas demandas.

Aos funcionários da UNEC, em especial ao Sr. João Pena, a quem não demos um segundo de trégua monetária.

Aos funcionários do Museu Paulista, que compartilharam suas experiências no manuseio de documentos valiosos.

Aos professores do Programa de História da Ciência da PUC/SP, pela determinação que nos infundiu durante nossa convivência.

professores do Programa de Comunicação e Semiótica pelo irrestrito

apoio que nos deram ao longo da caminhada.

Às funcionárias Cida e Edna, do COS, sem as quais muito teria ficado a meio-caminho.

Aos colegas e cúmplices João Reis, Ivoni e Magalhães, que compartilharam viagens, angústias, decepções, mas também alegrias, emoções e realizações.

Aos

Ao Alberto C. de Braga, pelo incentivo constante.

A todos aqueles que foram olvidados pela emoção e memória.

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo compreender, à luz dos conceitos sóciopolíticos e

filosóficos contemporâneos, o projeto legislativo denominado “Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil”, elaborado por José Bonifácio de Andrada

e Silva, quando Deputado pela Província de São Paulo junto à Assembléia Geral Constituinte e

Legislativa do Império do Brasil. Esse documento, composto de 44 artigos, foi apresentado à Assembléia em 1º de junho de 1823, na tentativa de preencher o vazio legislativo a respeito do assunto. Não foi aprovado devido à dissolução e ao fechamento da Assembléia Geral em 12 de novembro do mesmo ano, por ordem de D. Pedro I.

José Bonifácio alicerça seu projeto na filosofia clássica para justificar os conceitos de guerra justa, degeneração, humanidade, perfectibilidade e civilização. Como membro da administração direta do governo português – Ministro do Império ou Deputado Constituinte – apresenta-se com o discurso do Estado absolutista, justificando os meios para legitimar o domínio do espaço sob controle indígena.

Para consumar a reflexão sobre esse objeto de estudo, em seu recorte histórico específico, optou-se pela Análise do Discurso, então aplicada de maneira flexível, desprovida das formalidades rígidas que lhe retirariam o brilho, e sem perda do necessário vigor.

A releitura do discurso e do pensamento de José Bonifácio é, nesse caminho,

constituída com base em prismas conceituais extraídos da filosofia contemporânea, representada por autores que se mostraram os mais apropriados e coerentes com esse empreendimento: Gilles Deleuze, Pierre Bordieu, Paul Virilio, Michel Maffesoli e Pierre Clastres.

São utilizados de Gilles Deleuze, os conceitos de espaço liso e estriado, máquina de guerra, ciência nômade e estatal e a idéia de sedentarismo, inspirada nesse autor, como forma de resistência ao avanço do Estado absoluto português; de Pierre Bourdieu as noções de poder e violência simbólicos, discurso dominante, arbítrio cultural e ação pedagógica como contraponto às propostas de apresamento, aldeamento e amansamento gradual dos índios; de

Paul Virilio, os conceitos de desterritorialização, dromologia, vagabundagem e máquina-de- guerra, para entender a exploração, o deslocamento dos índios para as aldeias, a domesticação

e a endocolonização em função da logística do Estado português; e de Michel Maffesoli e

Pierre Classtres, as categorias de nomadismo, errância, profetismo, território flutuante e terra sem mal, para questionar à idéia de José Bonifácio, segundo o qual os índios eram ladrões,

guerreiros e vagabundos.

A metodologia de Análise do Discurso e tais prismas teórico-epistemológicos

permitem compreender de maneira inovadora as idéias de José Bonifácio projetadas sobre os índios brasileiros. Além do poder e da violência simbólicos, do espírito cultural expressos em seu projeto, toda uma ciência do aparelho de Estado seria imposta às comunidades indígenas, por meio da educação, da saúde, da produção, do transporte, da defesa, do comércio e das finanças, fato que não se constituiria senão numa verdadeira desconstrução das culturas seculares então gestadas conforme as exigências das dinâmicas sedentárias.

ABSTRACT

This work has as its main objective to understand, in the context of the contemporary ideas about social politics and philosophy, the legislative project called “Notices to the civilization of the índios bravos of the empire of Brazil”, elaborated by José Bonifácio de Andrada e Silva, when deputy of São Paulo’s province, directed at the Constituency and Legislative General Assembly of Brazil’s empire. This document, compounded by 44 articles, was presented to the Assembly in June the first of 1823, in an attempt to fill the emptiness concerning the issue. The project wasn’t approved because of the breakup and termination of the General Assembly in November 12 th of the same year, ordered by Dom Pedro I.

José Bonifácio based his project on the classic philosophy to justify the concept of fair war, degeneration, humanity, perfectibility, and civilization. As a member of the Portuguese government – emperor minister or constituent deputy – bring in the absolute state speech, justifying the meanings to legitimate the control over the Indian Territory.

specific

historical age, the author decided for the speech’s analysis, applied in a

flexible way, destitute of rigid formalities, which could take away the brightness of the work but maintaining the necessary emphasis.

To

fulfill

the

reflection

over

this

object

of

study,

in

its

The new reading of José Bonifácio’s speech and ideas is, in this way, compounded and based on concepts extracted by the contemporary philosophy, represented by appropriated authors and coherent with this subject: Gilles Deleuze, Pierre Bourdieu, Paul Virilio, Michel Maffesoli and Pierre Clastres.

From Gilles Deleuze was applied the concepts of the flat and groove space, war machine, nomad and public politics science and the idea of sedentary, inspired in this actor, as a way of resistance towards the advance of the Portuguese absolute state; from Pierre Bourdieu, notions of power and symbolic violence, dominant speech, arbitrary culture and pedagogic action as a counterbalance by the seizure proposals, Indian settlement and gradual domestication of the Indians; from Paul Virilio, the thoughts about the steal of the territory, laziness and war machine, to understand the exploitation, the shifting towards the Indian settlement, the domestication and the colonization caused by the logistics of the Portuguese state; from Michel Maffesoli and Pierre Clastres, the categories of nomads, mistaken, prophetism, unstable territory and pacific land, to inquire José Bonifácio’s ideas, based on the facts that the Indians were considered thieves, warriors and vagabonds.

The methodology of this speech analysis and the theory epistemological subjects, allowed a new comprehension about the José Bonifácio’s ideas projected over the Brazilian Indians. Besides the power and symbolic violence, the cultural spirit expressed in his project, a complete science, which belongs to a state organization, could be imposed to the Indians community, by meanings of education, health, production, transport, defense, commerce and the finances, fact compounded in a decomposition of secular cultures led by the exigency of the sedentary dynamics.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO----------------------------------------------------------------------------------- 9

PRIMEIRA PARTE

JOSÉ BONIFÁCIO NO CONTEXTO HISTÓRICO: DA FORMAÇÃO

ACADÊMICA AO ADMINISTRADOR E LEGISLADOR ------------------------- 22

CAPÍTULO I Formação e Produção Científica – o Burocrata e Legislador de Estado---------- 23

CAPÍTULO II – Idéias Político-Filosóficas e Religiosas no Século XIX---------------- 40

CAPÍTULO III – Legislações Referentes às Relações entre Civilizados e Selvagens -----------------64

CAPÍTULO IV – Discurso de José Bonifácio sobre a Administração do Estado ------- 97

SEGUNDA PARTE

RELEITURA DE JOSÉ BONIFÁCIO: NOVOS PRISMAS TEÓRICOS E CONCEITUAIS ------------------------------------------------------------ 119

CAPÍTULO I – Máquina de guerra, territorialização e espaço -------------------------- 120

CAPÍTULO II – Poder, sistemas e violência simbólicos---------------------------------- 146

CAPÍTULO III – Desterritorialização, endocolonização e guerra justa ----------------- 168

CAPÍTULO IV – Nomadismo e território flutuante --------------------------------------- 191

CONCLUSÃO --------------------------------------------------------------------------------- 221

BIBLIOGRAFIA ------------------------------------------------------------------------------- 225

ANEXO I – Museu Paulista------------------------------------------------------------------ 251

ÍNDICE

INTRODUÇÃO ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------09

PRIMEIRA PARTE

José Bonifácio no Contexto Histórico: da Formação Acadêmica ao Administrador e Legislador --------------- 22

CAPÍTULO I Formação e Produção Científica - o Burocrata e o Legislador de Estado -------------------------------------------- 23

CAPÍTULO II Idéias Político-Filosóficas e Religiosas no Século XIX ---------------------------------------------------------------- 40

1. Guerra Justa---------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 46

2. Perfectibilidade e Degeneração ----------------------------------------------------------------------------------------- 52

3. Civilização ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 55

4. Humanidade---------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 60

CAPÍTULO III Legislações Referentes às Relações entre Civilizados e Selvagens--------------------------------------------------- 64

CAPÍTULO IV Discurso de José Bonifácio sobre a Administração do Estado --------------------------------------------------------- 97

SEGUNDA PARTE

Releitura de José Bonifácio: novos prismas teóricos e conceituais-------------------------------------------------119

CAPÍTULO I

1. Máquina de Guerra-------------------------------------------------------------------------------------------------------121

2. Territorialização e Desterritorialização--------------------------------------------------------------------------------123

3. Ciência---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------126

4. Religião e nomadismo ---------------------------------------------------------------------------------------------------134

5. Espaço liso e estriado----------------------------------------------------------------------------------------------------136

6. Organização numérica de homens -------------------------------------------------------------------------------------139

CAPÍTULO II

1. O poder simbólico--------------------------------------------------------------------------------------------------------147

2. Ação Pedagógica ---------------------------------------------------------------------------------------------------------149

3 Habitus --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------155

4. Sistemas Simbólicos -----------------------------------------------------------------------------------------------------161

5. Estigma dos dominados -------------------------------------------------------------------------------------------------162

6. A Comunicação ----------------------------------------------------------------------------------------------------------164

CAPÍTULO III

1.

Dromologia ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------169

2.

Desterritorialização ------------------------------------------------------------------------------------------------------171

3

Máquina-de-guerra -------------------------------------------------------------------------------------------------------173

4.

Endocolonização ---------------------------------------------------------------------------------------------------------174

5.

Povos esperançosos e desesperançosos -------------------------------------------------------------------------------177

6.

Domesticação-------------------------------------------------------------------------------------------------------------179

7.

Guerra justa ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------187

8.

Velocidade e tecnologia -------------------------------------------------------------------------------------------------188

CAPÍTULO IV

1

Nomadismo ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------193

2.

Errância--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------195

3.

Território flutuante-------------------------------------------------------------------------------------------------------212

4.

Profetismo ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------218

CONCLUSÃO--------------------------------------------------------------------------------------------------------------221

BIBLIOGRAFIA ----------------------------------------------------------------------------------------------------------225 ANEXO 1 – Museu Paulista ---------------------------------------------------------------------------------------------251 ANEXO 2 – Directorio----------------------------------------------------------------------------------------------------270

INTRODUÇÃO

10

A transformação do Brasil de colônia a sede do reino português colocou os

governantes em face de um problema que a distância havia tornado menor: a proporção

entre os europeus e seus descendentes nascidos no Brasil, os negros e os índios. A

violência exercida sobre os dois últimos grupos parecia ter sido solucionada, até então,

através de algumas ações governamentais que, em diferentes períodos, foram tornadas

públicas na forma de Portarias 1 , Leis, Alvarás, Cartas Régias, Regimentos, Provisão,

Diretório, etc., com o objetivo de legitimar os atos de dominação exercidos sempre pelo

Estado por meio de seus representantes legais e ilegais, os colonizadores.

Com a instalação da Corte no Rio de Janeiro em 1808 e a sua permanência nessas

terras mesmo depois que o perigo demonstrado pelas pretensões de Napoleão Bonaparte

1 Na concepção do padre João Daniel (1722-1776), cronista da Companhia de Jesus, que viveu de 1741 a 1757 na região amazônica, o termo Portaria designava “licenças não só para subir, passar as fortalezas, e navegar o Amazonas, mas também para tirar índios pelas aldeias”. Com este documento os índios eram requisitados junto aos Diretores das Aldeias e, após efetuado o devido pagamento, eram levados em expedições extrativistas, dentre outras.

11

havia passado, a composição étnica da população na colônia brasileira não podia deixar de

se constituir numa questão a ser pensada. Para se ter uma idéia de como estava composta a

população, no ano da Independência, o Brasil contava com aproximadamente cinco

milhões de almas que, conforme o estudioso Gondim da Fonseca 2 , estavam divididas em

2,8 milhões de homens livres, 1,3 milhões de escravos e 0,9 milhão de índios. Outro

estudioso da história brasileira, o médico Manoel Bomfim 3 , calculou que apenas 30% do

contingente populacional era de sangue português.

Tratava-se, por um lado, de buscar saídas que pudessem minimizar o temor que o

segmento

constituído

por

portugueses

e

“brasileiros” 4

sentia

junto

de

tão

grande

contingente de escravos e índios, descontentes com sua situação. Por outro lado, os

clamores europeus pelo fim da escravidão humana, gerados por diferentes interesses, já

não podiam ser ignorados, uma vez que se concretizavam em sanções aos países que ainda

comercializavam escravos. Também encontrava ecos nas discussões o Estado sempre

deplorável dos nativos nas colônias dos diferentes países europeus. Uma outra preocupação

dizia respeito ao resultado pouco positivo, em termos econômicos, da utilização do

trabalho escravo tendo como objeto os escravos da África, ou da “participação” forçada

nem sempre denominada ou oficialmente reconhecida como escravidão indígena.

A independência do Brasil criou de alguma forma, uma nova situação: a daqueles

homens livres que resolveram se colocar ao lado do então auto-proclamado Imperador, ao

escolherem a permanência na América. Isso significava, entre outras coisas, a convivência

2 G. da Fonseca, A revolução francesa e a vida de José Bonifácio, p. 126.

3 M. Bomfim, O Brasil na América, p. 115.

4 Devemos lembrar que “brasileiro” só passou a designar os nascidos no Brasil no início do século XIX. Conforme J.J. Chiavenato, Bandeirantismo: dominação e violência, p. 73, o termo foi usado, inicialmente, para especificar os comerciantes do pau-brasil. Mais tarde passou a indicar os filhos de mães brancas européias residentes no Brasil e, no fim do século XVIII, “indicava o português que retornava enriquecido do Brasil”. Neste trabalho o termo “brasileiro” será utilizado para designar todos aqueles nascidos no Brasil.

12

obrigatória com uma população segmentada em termos étnicos, de que advinham direitos e

obrigações diferenciados gerando descontentamentos de todos os tipos.

Nesse contexto, é perfeitamente compreensível que José Bonifácio de Andrada e

Silva

(1763-1838)

“brasileiro”,

cujo

nome

está

indissociavelmente

ligado

à

Independência do Brasil – tenha elaborado, como deputado pela Província de São Paulo,

um documento para apresentar à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império

do Brasil, sobre os índios. Vejamos o que ele nos diz a respeito:

Como cidadão livre e deputado da nação dois objetos me parecem ser, fora a Constituição, de maior interesse para a prosperidade futura deste império. O primeiro é um novo regulamento para promover a civilização geral dos índios do Brasil, que farão com o andar do tempo inúteis os escravos; cujo esboço já comuniquei a esta Assembléia. Segundo, uma nova lei sobre o comércio da escravatura, e tratamento dos miseráveis cativos 5 .

A

escravatura

tema

da

“Representação

à

Assembléia

Geral

Constituinte

e

Legislativa do Império do Brasil”, foi composta provavelmente em 1823, mas não

apresentada à Assembléia devido à sua dissolução em 12 de novembro do mesmo ano.

Quanto à questão da escravatura africana no Brasil, não faremos dela o centro de nossa

atenção, posto que este assunto foi tratado pela pesquisadora Ana Rosa Cloclet da Silva,

em Construção da nação e escravidão no pensamento de José Bonifácio.

O centro de

nosso estudo é outro segmento étnico que também padeceu nas mãos do escravizador: o

índio.

Este teve outra sorte, porque ele foi objeto do documento “Apontamentos para a

civilização dos índios bravos do Império do Brasil”, que foi apresentado à Assembléia no

dia 1º de junho de 1823, em que ele propunha o “modo de catequizar e aldear” esses índios.

5 J. B. de Andrada e Silva, “Representação à Assembléia Geral Constituinte Legislativa do Império do Brasil sobre a Escravatura”, in: M. Dolhnikoff, org. Projetos para o Brasil, pp. 45-86; citação à pp.45-6.

13

Parece que a idéia de que os índios eram capazes de civilização ocorreu a José Bonifácio

num período bem anterior à apresentação do projeto à Assembléia. Numa carta escrita ao

Conde de Funchal, datada de 30 de junho de 1812, quando manifesta o desejo de voltar ao

Brasil, ele diz que poderia “criar pescarias e salgações e experimentar o meu projeto de

civilizar a Cristão os índios” 6 . Numa outra carta ao mesmo conde ele expõe mais uma vez

a sua preocupação com o Brasil e a situação dos índios. Neste texto ele teme pelo

desaparecimento dos “pobres índios, assim gentios como domésticos” e diz ser “mais que

tempo que o governo pense nisso” 7 .

Contudo, ele reconhecia que o seu projeto seria de difícil execução devido a dois

obstáculos

principais:

por

um

lado,

a

“natureza

do

estado”

em

que

os

índios

se

encontravam até o momento, e que deveria ser modificado; por outro, o tratamento que

portugueses e brasileiros deviam aos índios, que deveria também mudar. No terceiro

capítulo da primeira parte estas dificuldades serão discutidas com mais detalhes. Em sua

proposta, José Bonifácio procurava dar solução aos problemas econômicos gerados pelo

modelo escravista do negro e do índio. Assim, ele se opunha ao tráfico de escravos

enquanto pensava a “integração” tanto do negro quanto do índio na sociedade brasileira,

almejando com isso o fim de uma população heterogênea que ele pretendia unificar.

As palavras de José Bonifácio, que podemos ler abaixo sobre o segmento de origem

africana, valem também para o elemento indígena. Ele considerava fundamental:

formar em poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca

seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes. É da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade física e civil; cuidemos pois

] [

6 J. B. de Andrada e Silva, “Apontamentos para a civilização dos índios bravos do império do Brasil”, in: E. de C. Falcão, org. Obras científicas, políticas e sociais de José Bonifácio, pp. 103-114.

7

E. de C. Falcão, org. Estudos vários sobre José Bonifácio de Andrada e Silva, p. 127. Neste trabalho ”

ao nos referir a esse documento. Na presente pesquisa fizemos uso de

uma reprodução facsimilar que se encontra no volume II da obra supracitada, como também da obra

organizada por Miriam Dolhnikoff.

usaremos o termo “Apontamentos

14

desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e em amalgamar tantos metais diversos, para que saia um todo homogêneo

e compacto, que se não esfarele ao pequeno toque de qualquer nova

convulsão política. Mas que ciência química, e que desteridade não são precisas aos operadores de tão grande e difícil manipulação? Sejamos pois sábios e prudentes, porém constantes sempre 8 .

Conhecedor da arte mineralógica e metalúrgica como poucos em sua época, José

Bonifácio encontrou a analogia perfeita para expressar suas idéias. Ele sabia que uma liga

metálica, além de seu aspecto homogêneo, é muito mais resistente – e, portanto, melhor

para os diversos usos – que os metais que a compõem. Seu texto combina as várias facetas

de sua formação e atuação como homem de ciência e administrador em sua “fase”

portuguesa, assim como político e legislador, no Brasil.

Como veremos José Bonifácio se contrapunha às idéias então vigentes sobre a

degeneração e decadência dos índios. Ele discordava de muitos pensadores influentes em sua

época, como Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich von Martius e Cornellius de Pauw que

consideravam a América e tudo aquilo que nela fora criado como defeituosos por natureza.

Dessa forma, a união do nativo com o europeu deveria originar um homem degenerado. Estas

idéias estão bem claras na impressão deixada por Louis Agassiz, ao referir-se ao índio brasileiro.

O mestiço de branco com índio, denominado mameluco no Brasil, é pálido e

efeminado, fraco, preguiçoso, embora obstinado. Parece que a influência do índio tem a força justamente precisa para anular os altos atributos do branco, sem comunicar ao produto nada da sua própria energia 9 .

8 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil. p. 48-9. 9 Jean Louis Rodolphe Agassiz. Viagem ao Brasil (1865-1866), 1938, p. 625. Agassiz (1807-1873), naturalista especialista em ictiologia, nasceu na Suíça, mas naturalizou-se americano. Foi professor de história em Nouchatel e posteriormente em Cambridge. Ele veio para o Brasil onde permaneceu de 1865 a 1867 chefiando a “Expedição Thayer”, e realizou estudos zoológicos e paleontológicos no norte e no nordeste brasileiro. Sobre ele, ver Visconde de Taunay, Amor ao Brasil: catálogo de estrangeiros ilustres e prestimosos (1800-1892), Sérgio Faraco, org. 1998. Ou Jean Gaudant, Louis Agassiz (1807-1873), fondateur de la paléoichthyologie, Revue d’Histoire des Sciences, 2 (Avr. 1980), Tome 33, pp. 151-162.

15

Os “Apontamentos

foram elaborados, como veremos no terceiro capítulo desta

primeira parte que trata das legislações indígenas, na tentativa de preencher um certo vazio

legislativo a respeito do assunto. Da primeira legislação a respeito do indígena, que

apareceu em nossas terras a partir de 1548, até o Diretório de 1757, extinto em 1798, várias

Portarias,

Leis,

Alvarás,

Cartas

Régias,

Regimentos,

Provisões,

etc.,

serviram

para

regulamentar as relações entre os colonos e os índios. Da extinção do Diretório até a

apresentação dos “Apontamentos

fizeram menção aos índios.

”,

apenas três Cartas Régias – as de 1806, 1808 e 1809 –

Dessa forma, tendo como preocupação principal à questão relativa à civilização dos

índios do Brasil do século XIX, nosso objetivo no presente trabalho é reinterpretar, à luz

dos conceitos sociopolíticos e filosóficos

Bourdieu,

Paul

Virilio,

Michel

Maffesoli

elaborados por José Bonifácio.

contemporâneos

de Gilles Deleuze, Pierre

e

Pierre

Clastres,

os

Apontamentos

Na análise do texto, importa-nos o discurso de José Bonifácio em relação à cultura

indígena, mas esclarecemos que

o sujeito do discurso não será físico, mas discursivo, ou

seja, sujeito de e sujeito a. Será sujeito de porque ocupou uma hierarquia na corte como

sujeito de Estado - quer na condição de membro do Executivo como Ministro representante

da monarquia, quer na condição de membro do Legislativo, como Deputado Constituinte

representante da Província de São Paulo - e será sujeito a na qualidade de subordinado à

monarquia representada por D. Pedro I. Esse assujeitamento discursivo a que ficou

subordinado é que explica as contradições do sujeito, posto que ele é livre, mas, ao mesmo

tempo, submisso. Assim, o sujeito é apenas um ideal de completude, no dizer de Orlandi 10 .

Para esta autora, não devemos procurar verdades escondidas por trás dos textos porque eles

10 E.P. Orlandi, Análise do discurso, p. 37 e seg.

16

ocultam apenas gestos de interpretação que precisam ser compreendidos. Tais gestos estão

organizados numa relação entre sujeito e sentido, que nos fornece novas leituras.

Segundo Helena Brandão, o sujeito é totalmente ideológico porque é marcado

temporal e espacialmente e sua fala é produzida a partir de um lugar, um espaço social

(status) e de um espaço-tempo (produtivo).

No que diz respeito aos sentidos, lembramos que nunca será apresentado como

verdadeiro. E por ser ideológico, o sentido do discurso

jamais será literal.

Assim, uma

mesma palavra, numa mesma língua, poderá apresentar diferentes significados, haja visto

ser ela dependente da posição do sujeito e da formação discursiva. A palavra terra, por

exemplo, terá diferentes sentidos se dita por um índio ou por um colonizador, por um

geógrafo ou por um geólogo, por um agricultor ou por um astrônomo, por um especulador

imobiliário ou por um navegador.

Segundo José Pinto 11 , a transparência na linguagem é um mito porque na emissão

do discurso, o sujeito é somente um representante das relações, identidades sociais e

condicionamentos (crenças, educação etc.) que moldaram a identidade do sujeito. Segundo

este autor, todo texto se constrói por

debate com outros textos. Assim, é no dialogismo

textual que sobressaem os conhecimentos históricos que determinam a produção do sujeito

enunciador. Daí a afirmação de Orlandi 12 , segundo a qual somente no imaginário existe o

texto original, porque ele é sempre constituído de múltiplos planos com diferentes visões e

formulações.

Desta forma, teremos como corpus o discurso de José Bonifácio, em especial os

“Apontamentos para a civilização dos índios bravos do império do Brasil”, - de natureza

descritiva, política e jurídica - e como mediação compreensiva os conceitos sociopolíticos

e filosófico da teoria social contemporânea francesa conforme antes assinalado.

11 M. J. Pinto, Comunicação e discurso, p. 40.

12 E. P. Orlandi, Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico, p. 14.

17

Como

forma

de

realçar

o

entendimento

do

trabalho,

fizemos

a

opção

pela

intercalação de textos de José Bonifácio com os autores que abordaram os conceitos

epistemológicos da teoria social contemporânea, tendo ainda como suporte histórico,

autores que trabalharam a problemática

dos índios nos séculos precedentes ao nosso

objeto.

Para

analisar

o

discurso

de

José

Bonifácio,

levamos

em

consideração

o

intradiscurso inscrito em sua memória como o já dito, o dizível ou, aquilo que não consta

na frase dita – suas experiências personificadas na convivência de sua formação coimbrã e

sua passagem pelos centros de estudos da Europa – e que estão presentes no enunciado dos

textos escritos por ele.

Este trabalho é composto de duas Partes, ambas divididas em quatro Capítulos. Na Primeira

Parte, faremos uma contextualização tendo como foco o período que abrange a formação básica de José

Bonifácio de Andrada e Silva na Província de São Paulo, a sua partida para Portugal em busca de sua

formação em Leis e Filosofia na Universidade de Coimbra, os cargos e funções que ele ocupou junto ao

governo português após as viagens filosóficas de especialização pela Europa e o breve período que

atuou como pesquisador no Brasil, de 1819 a 1822, antes de assumir importantes cargos na

administração da monarquia brasileira.

Ainda na Primeira Parte, trataremos dos conceitos que serviram de suporte a José Bonifácio na

elaboração dos documentos que foram enviados à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do

Império do Brasil, órgão no qual ele tinha assento como Deputado, além de Vice-Presidente da

Província natal. A guerra justa, a degeneração, a perfectibilidade, a humanidade e a civilização eram

conceitos comuns nos discursos proferidos em toda a Europa, principalmente após o advento da

Revolução Francesa, que acabou pondo em cheque tudo o que dizia respeito às relações entre os

homens. Além de terem contribuído para a formação de José Bonifácio, estes conceitos foram a base

das legislações que se propuseram regulamentar o quotidiano das diversas etnias que viviam no

18

território brasileiro. Finalizando esta parte, faremos uma análise da percepção e propostas de José

Bonifácio para a reestruturação do Estado brasileiro em função das reformas que vinham operando

no continente europeu.

Na

Segunda

Parte,

os

Apontamentos

de

José

Bonifácio

serão

sendo

revistos no Capítulo I sob a ótica dos conceitos de Gilles Deleuze para reinterpretar

os atos do aparelho de Estado. Como membro do governo imperial, na qualidade de

Deputado provincial ou Ministro de Estado, José Bonifácio teve todos os seus

trabalhos pautados pela legislação e administração dos interesses do Estado na

ocupação de uma área que Deleuze chamou de “espaço liso”, ou seja, um determinado

ambiente demarcado por todo um modus operandi estatal, incluindo aí a ciência do

Estado. O resultado disto é o confronto dos aparelhos estatais com a máquina de

guerra 13 nômade ora representada pelo sedentarismo e a errância dos índios e outros

que por muitas vezes lhes fizeram companhia.

No Capítulo II adotaremos os conceitos de Pierre Bourdieu para analisar o

discurso em função dos usos que se pretendia fazer dos “Apontamentos

”,

para

legalizar

uma

violência

que

vinha

sendo

praticada

contra

as

comunidades

indígenas.

Os “Apontamentos

”,

antes que um discurso dominante, agiria também

como um instrumento legitimador do arbítrio cultural

imposto pelos atos e ações das

autoridades

pedagógicas, acrescidas das autoridades civis e militares a que estariam

sujeitos os índios aldeados conforme planejava o legislador José Bonifácio.

13 Nesse trabalho o conceito de máquina de guerra será abordado, na Segunda Parte, sob o prisma epistemológico de dois autores: Gilles Deleuze e Paul Virilio. No Capítulo I, Deleuze concebe a máquina de guerra como malta, uma potência exterior e contra o aparelho de Estado. Ela é nomos e atua no espaço liso, territorializando-o e desterritorializando-o enquanto o Estado apenas codifica este espaço. No Capítulo III, Virilio concebe máquina-de-guerra como comunicação, vetoração, velocidade de expedição, organização de agrupamentos nomádicos especializados na arte da guerra. O fato dos termos estarem grafados diferentemente, é porque fomos fiel à forma que foi empregada por seus respectivos autores.

19

No

Capítulo

III,

veremos

como

Paul

Virilio

concebe

o

vetor

de

velocidade agindo para a sedução, o domínio, a exploração do outro, o de

fora, tudo isto em função da

logística do Estado. Os “Apontamentos

deveriam

cumprir

esta

função sedutora para com os índios, na tentativa

de deslocá-lo de seu espaço liso para aprisioná-lo no espaço estriado do

Estado.

Este

fenômeno

é

tratado

por

Virilio

como

um

processo

de

desterritorialização, isto é, um processo em que há um deslocamento de

corpos,

o

esfacelamento

da

máquina

de

guerra

nômade,

um

desenraizamento,

o

êxodo,

a

perda

da

identidade,

a

errância,

a

vagabundagem.

Na

tentativa

de

corrigir

estes

desvios

sociais

que

foram

vistos como distorções proféticas dos feiticeiros indígenas, José Bonifácio

propunha

os

aldeamentos,

as

fortificações,

e

as

instruções

educativas

e

religiosas,

de

conformidade

com

o

habitus

europeu,

num

processo

que

Virilio

denominou

endocolonização,

em

substituição

ao

processo

exocolonizador até então praticado pela ex-metrópole.

E

errância,

no

Capítulo

IV,

veremos

outros

conceitos,

como:

nomadismo,

território

flutuante

e

o

profetismo,

instrumentos

desenvolvidos

por Michel Maffesoli e Pierre Clastres, os quais serão utilizados na análise,

porque José Bonifácio achava que os índios eram “[

]

vagabundos, e dados

a contínuas guerras, e roubos” 14 . Com os conceitos teóricos de Maffesoli,

estaremos

em

condições

de

propor

uma

reinterpretação

para

a

eterna

discriminação

e

marginalização

a

que

foram

relegadas

as

culturas

indígenas, bem como entender a errância dos índios em busca da “Terra

sem Mal”.

14 J. B. de Andrada e Silva, “Apontamentos para a civilização dos índios bravos do império do Brasil”. in: E. de C. Falcão, org, Obras científicas, políticas e sociais de José Bonifácio, p. 103.

20

Como conclusão, pretendemos demonstrar que os discursos de José

Bonifácio, a despeito de suas pretensas boas intenções, não deixam de ser

importantes

como

filosófico-políticas

discurso,

mas

apresentavam

problemas

da

época

não

tinham

como

resolver,

que

as

como

teorias

ele

antecipava no seu projeto encaminhado à Assembléia “Vou tratar do modo

de cathequizar, e aldear os Índios bravos do Brasil: materia esta de summa

importância;

mas

ao

mesmo

tempo

de

grandes

difficuldades

na

sua

execução” 15 .

 

Os

atos

e

ações

das

autoridades

pedagógicas

que

deveriam

ser

desenvolvidos

pela

Congregação

São

Felipe

Neri 16

-

adicionados

aos

instrumentos do aparelho de Estado na forma de colonizadores, militares,

bandeirantes,

Apontamentos

mercadores

etc.

legitimados

que

fossem

pelos

- viriam apenas a oficializar a exterminação que estava

em andamento nas aldeias que ainda persistiam em permanecer nomádicas.

Na tentativa de atingir o seu fim, José Bonifácio propunha uma verdadeira

assepsia política, social e econômica através da educação, da religião, da

saúde, da produção, do transporte, da defesa, do comércio e finanças etc.,

que certamente iria corroborar na desconstrução das culturas que vinham

sendo desenvolvidas conforme as exigências das dinâmicas sedentárias.

As

notas

de

rodapé

têm

como

função

complementar

o

que

não

se

completa por ser traço de um outro sentido, pois os textos são formulados

em múltiplos planos, visões e memórias, conforme Orlandi 17 . Assim, nas

notas desse trabalho optamos pela metodologia em vigor na Pós-Graduação

15 J. B. de Andrada e Silva, “Apontamentos para a civilização dos índios bravos do império do Brasil”. in: E. de C. Falcão, org, Obras científicas, políticas e sociais de José Bonifácio, p. 103.

16 Congregação proposta por José Bonifácio para substituir aos missionários da Companhia de Jesus.

17 E.P. Orlandi, Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico, p. 13.

21

em História da Ciência da PUC/SP, desta Instituição, em função de sua

estabilidade, estética e praticidade. Supomos

que tal escolha possa melhor

orientar o deslocamento do leitor nas várias possibilidades de compreensão.

PRIMEIRA PARTE

JOSÉ BONIFÁCIO NO CONTEXTO HISTÓRICO:

DA FORMAÇÃO ACADÊMICA AO ADMINISTRADOR E LEGISLADOR

23

CAPÍTULO I

FORMAÇÃO E PRODUÇÃO CIENTÍFICA O BUROCRATA E O LEGISLADOR DE ESTADO

24

José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu em Santos, a 13 de junho de 1763, sendo

batizado com o nome de José Antônio de Andrada e Silva. Posteriormente, o nome

Antônio foi substituído por Bonifácio, conforme consta do recenseamento feito em Santos,

em 1776 1 .

O pai de José Bonifácio, Sr. Bonifácio José de Andrada - Capitão, Escrivão e Tesoureiro da Junta

da Fazenda da Província de São Paulo - considerado a segunda fortuna de Santos, enviou quatro de seus

nove filhos para estudar em São Paulo, no ano de 1779, na intenção de fazê-los clérigos, no que foi

correspondido apenas por um deles, Patrício Manoel de Andrada. Como não aceitou seguir a carreira

religiosa tal qual o irmão Patrício, José Bonifácio e também os seus irmãos Antônio Carlos e Martim

Francisco fizeram o

requerimento de “Habilitação de Gênere” 2 , que os permitiria viajar para Portugal e

1 E. de C. Falcão, org. Estudos vários sôbre José Bonifácio de Andrada e Silva, p. 62.

2 De acordo com Maria Luiza Tucci Carneiro a “Habilitação de Genere” era exigida “também por entidades laicas, através de minuciosas investigações sobre a vida da pessoa e seus ascendentes, que ela não possuía vestígios de mulato, negro, mouro, judeu ou cristão-novo. Só após essa comprovação é que o indivíduo

ou desfrutar de situações

poderia ocupar cargos públicos, freqüentar universidades ou colégios religiosos [

honoríficas”. Veja-se M.L.T. Carneiro, Preconceito racial: Portugal e Brasil-Colônia, 1988, p. 13. Conforme O. T. de Sousa, José Bonifácio, 1972, p.7. J. Bonifácio teve o seu requerimento datado de 22 de abril de 1779.

]

25

freqüentar a Universidade. Na cidade de São Paulo, José Bonifácio permaneceu dos 14 aos 17

anos, onde passou “a fazer seu curso de lógica, metafísica e ética e de retórica e língua

francêsa, nas escolas que o bispo Dom Frei Manuel da Ressurreição, nome caro às ciências,

erigira naquela capital”. 3

A formação de

José

Bonifácio com o seu preceptor, o franciscano Dom Manuel

(1718-1789) foi importantíssima haja vista o engajamento do bispo com a renovação

intelectual iluminista que estava ocorrendo na Europa. Além de o bispo ter sido Conselheiro de

Estado dos reis de Portugal, ele estava associado à reforma implementada pelo Marquês, pois

“formou resolutamente ao lado de Pombal, na reforma dos estudos” 4 da Universidade de

Coimbra.

Com uma boa formação José Bonifácio foi enviado para a cidade do Rio de Janeiro

em 1783, com destino a Portugal 5 . Em 30 de outubro deste mesmo ano, José

Bonifácio

fez sua matrícula no Curso Jurídico da Universidade de Coimbra 6 . Esta instituição sofreu

em 1772 uma reforma dirigida pelo Ministro de Dom José I, Sebastião José de Carvalho e

Melo (1669-1782), o Marquês de Pombal 7 .

3 B. F. do Amaral, José Bonifácio, p. 17.

4 Dom Manuel trouxe em sua bagagem para o Brasil 1.548 volumes contendo obras em Latim, Português, Francês e Espanhol, além de duas gramáticas estrangeiras: uma grega e outra hebraica. Destas obras constam autores como Verney, Lineu, Voltaire, Camões, Buffon e Pufendorf. Veja-se Amaral, op. cit., pp. 46.

5 A maioria dos autores que trabalharam com temas ligados a José Bonifácio informa que ele permaneceu no Rio de Janeiro por aproximadamente três anos. Contudo, encontramos na obra do pesquisador Amaral, op. cit., p. 17 e seg., informações de que ele teria estado em Santa Catarina para conhecer as indústrias baleeiras e também em Minas Gerais – Vila Rica e Serro Frio – para conhecer os trabalhos de extração de diamantes.

6 F. Morais, “Lista dos estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra”, Brasília, 1949, suplemento ao volume IV, pp. 326-7. As demais matrículas de José Bonifácio foram: Curso de Filosofia Natural em 12/10/1784, 20/10/1785 e 11/10/1786. Ainda em 11/10/1784 ele matriculou-se no Curso de Matemática e no Curso Jurídico. As demais matrículas de José Bonifácio na Universidade de Coimbra foram: em 1784, Curso Jurídico, Curso de Filosofia e Matemática; em 1785, Curso de Leis (Direito Civil) e de Filosofia; em 1786, Curso de Leis e de Filosofia; em 1787, último ano do Curso de Leis. Neste ano, ele adquire o grau de Bacharel em Leis em 3 de junho e Bacharel em Filosofia em 16 de julho. Veja-se F. Morais, op. cit., pp. 326-7. Importante ainda lembrar que os dois primeiros anos dos Cursos Jurídicos eram comuns; apenas no terceiro ano o aluno optava pelo Curso de Direito Canônico ou Direito Civil. Veja-se Estatutos da Universidade de Coimbra, Vol. II.

7 Pombal foi feito Conde de Oeiras em 15/07/1759 e Marquês em 16/10/1769. O seu primeiro trabalho referente ao Brasil foi a tarefa de extinguir as fraudes que eram cometidas na subtração do “quinto” do ouro da quota do Estado, proveniente do subsolo brasileiro. Como Ministro ele fundou a Companhia do Grão- Pará, decretou a liberdade dos índios promovendo com isso a ira dos Jesuítas da colônia. Mandou inventariar os bens da Companhia de Jesus – que em 1759 foram seqüestrados por sua ordem – e proibiu o comércio, a pregação e a confissão dos Jesuítas.

26

Os ideais reformistas do Marquês de Pombal tiveram sua gênese nos contatos

mantidos enquanto representante do governo português nas Embaixadas de Londres e

Viena. De volta a Portugal, ele foi nomeado Ministro dos Negócios do Rei e da Guerra, em

1750, adquirindo o grande poder político que exerceu até o seu afastamento do governo em

1779, com a morte de D. José I.

A reforma levada pelo Marquês atingiu vários aspectos da vida do Reino Português.

No que respeita à Universidade de Coimbra, as modificações tinham como objetivo alterar

“Os sextos estatutos de 1548” e a “Reforma de 1612”, considerados assaz ineficientes para

atender às necessidades da era da ilustração 8 . O Estatuto da reforma de 1772 provocou

uma reorganização nos Cursos Jurídicos (Leis e Cânones) e no Curso de Teologia, além de

realizar uma profunda modificação no Curso de Medicina e, ainda, fundar o Curso de

Matemática e o de Filosofia Natural.

Essa reforma contou com os conhecimentos de vários estudiosos, dos quais

destacaram-se o padre Luís António Verney (1713-1792) da Congregação dos Oratorianos,

autor de O verdadeiro método de estudar, e António Ribeiro Sanches (1699-1782), médico

da corte russa por dezesseis anos, autor da Carta para a educação da mocidade e dos

Métodos de como aprender a estudar a medicina. Esse último documento pode ser

considerado segundo muitos historiadores como base para a confecção da reforma

pombalina da Universidade, posto que as modificações 9 visavam, sobretudo, ao ensino

dessa área do conhecimento 10 . É quase certo que o matemático José Anastácio da Cunha

8 M. H. M. Ferraz, As ciências em Portugal e no Brasil (1772-1822): o texto conflituoso da química, p. 39.

9 As modificações propostas para a Universidade de Coimbra estão expressas nos Estatutos que foram publicados em 1772. Para este trabalho, foi utilizada a edição facsimilar, dada a público pela mesma Universidade em 1972, em três volumes.

10 M. H. M. Ferraz, op.cit., pp. 38-9.

27

(1744-1787) 11 , tenha sido, também, professor de José Bonifácio – a despeito de não termos

encontrado, ainda, referências explícitas quanto à presença de José Anastácio em seus

discursos.

As modificações feitas nos Cursos Jurídicos contemplaram as Faculdades de Leis e

Cânones. Neste trabalho centraremos nossa atenção na Faculdade de Leis, pois foi nela que

José Bonifácio se graduou. Segundo o Estatuto da Universidade, neste curso, os estudantes

deveriam adquirir conhecimentos de Direito Natural Público Universal e das Gentes,

História

Civil

dos

Povos,

Direito

Romano,

História

Civil

de

Portugal

e

das

Leis

Portuguesas. No Direito Civil constava também Jurisprudência Canônica, História da

Igreja e Direito Canônico.

A primeira disciplina: Direito Natural e das Gentes parece ser fundamental para

pensar a relação entre os vários grupos sociais. Segundo os Estatutos nessa disciplina se

deveria estudar:

A Colleção destas Leis, com que a Natureza regulou as acções dos Póvos livres; e o aggregado dos reciprocos Officios, com que ella os ligou para os seus interesses communs, e para o bem universal de toda a

11 O matemático José Anastácio da Cunha foi nomeado 1º Tenente do Regimento de Artilharia do Porto, onde teve contato com oficiais de várias culturas e aprendeu Latim, Grego, Francês, Inglês e Italiano. Em 1767, foi nomeado Tenente-Coronel. Em1769, apresentou um trabalho denominado “A teoria da pólvora em geral, e a determinação do melhor comprimento da peças em particular”. Em 1773, Pombal o fez Lente de Geometria da Universidade de Coimbra, cargo que exerceu até 1778. Em 1776, ele apresentou à

Congregação da Faculdade de Matemática o trabalho “Compendio de Ellementos praticos”, versando sobre geometria. Em 1778, foi denunciado à Inquisição e levado ao cárcere sob a acusação de “ter relacionado com camaradas militares protestantes ingleses, de ter lido Voltaire, Rousseau, Hobbes e outros autores que defendiam o deísmo, indeferentismo e tolerantismo e de ter emprestado a uma de sua disciplina livros que estavam impregnados de ´filosofismo`. Por tudo isso José Anastácio foi condenado e sentenciado a“concluir

reclusão por três anos [

seguidos de quatro anos de degredo para Évora e ficou ainda interdito de entrar

em Coimbra e Valença”. A sua obra maior foi “Princípios de Methematica”, publicada em 1790, três anos após sua morte, tendo causado um grande impacto nos meios acadêmicos por ter sido traduzida para o francês – obra considerada das mais importantes do gênero no século XVIII. Sobre este assunto, veja-se o site: www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminário/acunha/, 22 de dez. 2004.

]

28

Humanidade, constitue a quarta, e ultima parte do Direito Natural conhecida pelo nome de Direito das Gentes. Sendo o principio fundamental deste Direito das Gentes a perfeita igualdade; a omnimo da independencia dos Corpos das Nações: Devendo estes reputar-se como Pessoas Moraes: E competindo-lhes todas as faculdades, e Direitos, que em razão da mesma igualdade competem aos homens particulares do Estado natural: Claramente se conhece, que para se dirigirem, e regularem as causas, acções, e negocios dos Póvos livres, e dos Soberanos, que os representam, se podem muito bem applicar as mesmas Leis, que a razão estabeleceo para a regulação dos Officios dos homens no Estado natural, e que o Professor deverá ter já explicado nas Lições do Direito da natureza Social 12 .

O capítulo V do Livro II, na parte referente à disciplina Jurisprudencia Natural dos

Cursos Jurídicos, pode-se ver a importância que este curso deve ter tido para a formação

de José Bonifácio, principalmente para entendermos a sua preocupação para com o

indivíduo, a economia e a política do Brasil. O texto alerta que o estudante:

Geralmente procurará ampliar, e profundar o conhecimento de outras Disciplinas Filosoficas: Pondo cuidado muito particular na maior instrução da Politica, e da Economica, as quaes lhe hão de dar muitas luzes para a exploração, e demonstração dos Officios do Homem no Direito da Natureza Social; no Social Economico; no Social Politico, ou Público Universal; e no Direito das Gentes. E por causa do Direito das Gentes cuidará tambem a Estadistica, ou a Razão de Estado. Da mesma sorte cuidará em aperfeiçoar-se na Historia da Filosofia Antiga, e Moderna; na noticia das Vidas, e Opiniões dos Filósofos Antigos, e Modernos; dos seus differentes Systemas, Escritos, e Sentenças Moraes; principalmente dos Estoicos, que mais se avançáram na Filosofia Moral 13 .

12 UNIVERSIDADE DE COIMBRA. Estatutos da Universidade de Coimbra, pp. 322-3. Os Estatutos formam um conjunto de três volumes: o primeiro referente ao Curso de Teologia, o segundo aos Cursos Jurídicos e o terceiro os “Cursos das Ciências Naturais e Filosóficos”, que compreendiam: Curso de Medicina, Curso de Matemática e de Filosofia Natural. Sempre que fizermos referência aos Estatutos, usaremos EUC. 13 EUC, p. 332.

29

Os mesmos Estatutos consideravam Hugo Grotius (1583-1645) 14 e Samuel von

Pufendorf (1632-1694) 15 os restauradores da disciplina do Direito Natural apesar de

criticar algumas de suas idéias e recomendar que os professores não utilizem, em suas

aulas, os textos destes autores. Detenhamo-nos nos Estatutos:

Como Cidadão livre, do Império da Razão procurará o Professor a verdade, a ordem, a deducção, o methodo, e a demonstração, onde quer que a achar. Onde aquelles dous Doutores se tiverem desviado da Justiça Natural; onde tiverem claudicado; onde os seus Discipulos se lhes tiverem adiantado em qualquer das referidas circunstancias; onde tiverem passado com a perspicacia dos seus discursos além dos marcos, e balizas, que Elles fixáram; onde Elle mesmo com o seu proprio entendimento atinar melhor com a Razão; deixará de seguillos, e abraçará sempre o

melhor [

Daqui vem serem diversos os Fundamentos, e Principios do

Direito das Gentes; deverem ser procurados por outra parte, que não

sejam os puros, e simples fundamentos, e principios dos Officios do

Homem no Estado Natural [

He pois impreterivel o estudo desta parte

do Direito Natural. E com razão tanto mais forte, quanto mais consideraveis são os damnos, e mais funestas as consequencias da ignorancia della; pois que della póde resultar nada menos, que a perturbação do sosego, e a ruina, desolação das mesmas Nações 16 .

]

]

O que acabamos de expor aponta para a importância que os Estatutos conferiam ao

estudo da Filosofia por permitir:

14 Hugo Grotius é considerado o fundador do Direito Internacional, uma disciplina em que ele tentava buscar o equilíbrio do contexto internacional excessivamente belicoso em sua época. A sua obra De Iure Belli ac Pacis Libri Três (Direito da Guerra e da Paz) é considerada a matriz do Direito Internacional. Especificamente no que se refere ao caso brasileiro, Grotius é importante não só pelo seu profundo conhecimento das causas portuguesas como também pelo seu tratado sobre os povos da América (Dissertatio de Origine Gentium Americanarum). 15 Samuel von Pufendorf é considerado o mestre do Direito Natural das Gentes. Ele defendia a tese da existência de um contrato duplo entre a vontade individual e as obrigações dos governados para com os governantes.

16 EUC, pp. 328 e 323-4.

30

]conhecer [

de combinallas; em ser bem instruido no methodo de descubrir as verdades por meio da meditação; de communicallas com ordem, precisão, e clareza; e em adquirir hum bom criterio da verdade para saber discorrer com

bem a natureza das idéas simples, e compostas; em saber a arte

segurança, e certeza, e não se enganar na deducção das Leis Naturaes 17 .

Justamente por isso, os aspirantes ao Curso Jurídico deveriam ter o conhecimento

de Filosofia Racional e Moral. No caso de não terem estudado esta disciplina, antes de

chegar à Universidade, eram obrigados a fazer dois anos do Curso Filosófico.

Além destes estudos preparatórios, os estudantes do Curso Jurídico eram obrigados

a cursar um ano de geometria, junto ao Curso de Matemática 18 . Os Estatutos na parte

referente ao Curso Jurídico consideravam que a geometria era:

] [

Geometrico, que deve ter adquirido; para poder discorrer com a ordem, com a precisão, e com a certeza, que pede o Methodo Demonstrativo; de que o mesmo Professor deverá usar nos progressos das suas deducções, e das demonstrações, que fizer dos Officios do Homem 19 .

o melhor meio de se confirmar, e radicar no bom uso do espirito

Como vimos anteriormente, em 1784, José Bonifácio fez a sua matrícula no Curso

de Matemática, cumprindo certamente as disposições dos Estatutos. Ao contrário de

muitos de seus colegas, ele não foi obrigado a cursar as disciplinas do Curso Filosófico

antes de matricular-se no Curso Jurídico. Parece-nos que as aulas do Frei Dom Manuel da

Ressurreição teriam cumprido adequadamente o seu papel. 20

17 EUC, p. 331.

18 Ibid., p. 152.

19 Ibid., p. 333.

20 Uma análise da “Lista dos estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra”, realizada por F. Morais, nos mostra que muitos dos alunos se matricularam primeiramente no Curso Filosófico, para depois, no segundo ano da Universidade, matricular-se nos Cursos Jurídicos, cumprindo também um ano na Matemática. Outros, foram matriculados no primeiro ano do Curso Jurídico para depois seguir um no da Matemática.

31

De fato, em 1784, quando ele está cursando o 2º ano do Curso Jurídico, matriculou-

se também no Curso Filosófico, mas, como aluno “Ordinário” 21 , uma denominação usada

para aqueles que pretendiam obter pelo menos o Bacharelado em Filosofia Natural.

Vejamos alguns detalhes desse curso, que foi criado, como vimos, com a reforma da

Universidade de Coimbra.

Na Faculdade de Filosofia, José Bonifácio teve contato com disciplinas como

História Natural, Física Experimental e Química, introduzidos pela primeira vez na

Universidade de Coimbra.

As lições de História Natural, pormenorizadas nos Estatutos, deveriam dar aos

alunos:

Terminados

os

huma idéa da Natureza, e constituição do Mundo em Geral, e do

Globo terrestre em particular. E ainda que a História natural comprhende

todo o Universo; limitando-se com tudo aos objectos mais vizinhos ao Homem, e mais necessarios ao uso da vida; dividirá as suas Lições em três Partes, segundo a divisão dos tres Reinos da natureza, que são o Animal, o Vegetal e o Mineral 22 .

] [

estudos

da

História

Natural,

os

alunos

passariam

à

Física

Experimental onde “se incluem os factos conhecidos pela experiencia; que he uma

observação mais subtil, procurada por artificio para descubrir o véo da Natureza; e para lhe

perguntar os segredos mais reconditos das suas operações, quando ella por si mesma não

falla” 23 .

Também a química tinha o seu lugar como ciência no curso de Filosofia Natural,

que segundo o Estatuto acima referido:

21 EUC, pp 227 e 151.

22 Ibid., pp. 239-40.

23 EUC, p. 245.

32

] [

de hum Corpo; a examinar cada huma das partes; a indagar as propriedades, e analogias dellas; a comparallas, e combinallas com outras substancias; e a produzir mixturas differentemente combinadas novos compostos, de que na mesma Natureza se não acha modello, nem exemplo 24 .

ensina a separar as differentes substancias, que entram na Composição

Para as cadeiras das ciências naturais, foram contratados professores estrangeiros,

devido às dificuldades de encontrar estudiosos portugueses com a formação necessária.

Para a Física Experimental, foi nomeado Antonio Dalla Bella (1730 – 1823), que alguns

anos antes havia ensinado a disciplina no Colégio dos Nobres de Lisboa. Para a História

Natural e a Química foi nomeado Domingos Vandelli (1735-1816) 25 , professor também de

origem italiana como Dalla Bella 26 .

Em seus trabalhos, Vandelli insistia na importância de formar naturalistas que, recebendo

cargos do governo, realizariam viagens de reconhecimento do Reino Português e se incumbiriam de

outras atividades ligadas à indústria. Assim, poderemos entender a importância que Domingos Vandelli

depositava na

figura do naturalista em suas viagens filosóficas 27 . A complementação dos estudos

desses naturalistas deveria ser mediante viagens de estudos pelos principais centros da Europa.

24 Ibid., p. 250.

25 Foi sócio fundador da Academia de Ciências de Lisboa e mestre de José Bonifácio. 26 Giovanni Antonio Dalla Bella foi nomeado pelo Marquês de Pombal como professor de Física Experimental na Universidade de Coimbra – considerada a melhor da Europa em sua época – de 1773 a 1790, quando então elaborou um compêndio de Física Experimental intitulado Physics Elementa. Foi também um dos fundadores da Academia de Ciências de Lisboa. Veja-se mais sobre este assunto em Márcia Helena Mendes Ferraz, As ciências em Portugal e no Brasil (1772-1822): o texto conflituoso da química, p. 72 e seg.

27 Na obra citada de M. H. M. Ferraz, p. 153, encontramos os pontos idealizados e exigidos por Vandelli a um naturalista, extraído da sua obra: Memorias Economicas da Academia Real das Sciencias de Lisboa, para o

adiantamento da Agricultura, das Artes e da Indústria em Portugal e suas conquistas”. São eles:

.

análise das terras examinando seus principais constituintes para determinar a melhor conjugação planta-terreno;

.

atenção aos bosques e minas de carvão fóssil;

.

estudo dos metais e minerais pesando no estabelecimento de fábricas para substituir os materiais importados;

.

conhecimento das plantas alimentícias e medicinais; e

. análise das águas minerais para fins medicamentosos. Segundo Rômulo de Carvalho, o termo “viagens filosóficas” refere-se aos “espaços onde se buscavam

animais, vegetais e minerais [

de ser no motivo que levou a denominar Faculdade de Filosofia ao departamento universitário criado pela Reforma Pombalina, onde se estudava, em disciplinas separadas, embora obviamente não independentes, a Física, a Química e a História Natural”. Rômulo de Carvalho, A história em Portugal no século XVIII, p. 81.

A escolha de ‘filosóficas’ para qualificar as referidas viagens tem sua razão

]

33

Entretanto, cumpre-nos ressaltar que algumas viagens de estudo realizadas nos centros

europeus tinham outras finalidades que aquelas sugeridas por Vandelli. Essas viagens de

estudos foram supervisionadas pela Academia de Ciências de Lisboa, fundada em 1780 pelo

Duque de Lafões com a finalidade de incentivar as pesquisas científicas e utilizar suas

aplicações em prol da economia do reino. Por influência e amizade com o Duque (que admitia

um certo parentesco com os Andradas) 28 , os “brasileiros” José Bonifácio, Manuel Ferreira da

Câmara Bittencourt e Sá (1762-1835) e o português Joaquim Pedro Fragoso foram indicados

para a viagem de estudos pela Europa 29 . Às expensas da Coroa Portuguesa eles visitaram os

grandes centros europeus de conhecimento – todos amparados por uma Portaria datada de 1º

de março de 1790 30 .

Conforme instruções do Ministro dos Estrangeiros e da Guerra, Luiz Pinto de

Souza, expedidas em 31/5/1790, a viagem pela Europa constava de realização de cursos

em química e mineralogia e visitas aos laboratórios e minas. Eles estavam ainda

autorizados a:

] [

profissão, máquinas e modelos, que se devam adquirir e remeter para a Côrte de Lisboa, o chefe da expedição o representará ao Embaixador ou Ministério da Côrte onde se achar, para que mande satisfazer as despesas

necessárias de semelhantes aquisições 31 .

“quando houver necessidade de se fazerem compras de livros da

Eles partiram para a capital francesa em 18 de fevereiro de 1790, onde José

Bonifácio freqüentou o curso de Química na École de Mines, no tumultuado período de

1790 a 1791. Neste estabelecimento, ele foi aluno de Antoine François Fourcroy (1755-

28 Veja-se O. T. de Sousa, José Bonifácio: história dos fundadores do Império do Brasil, p. 21.

29 M. H. M. Ferraz, op cit., p.159.

30 Esta Portaria lhes concedia um ajuda de custo de 600$000 a 800$000 (seiscentos a oitocentos mil-réis) para despesas conforme circunstâncias. Veja-se O. T. de Sousa, op. cit., p. 22.

31 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 170.

34

1809) 32 e René Just Haüy (1743-1822) 33 . Pelos notáveis trabalhos que realizou José

Bonifácio acabou sendo eleito membro da Société Philomatique de Paris e da Société

d’Histoire Naturelle de Paris. Para esta última, ele escreveu um trabalho intitulado

“Mémoire sur les Diamants du Brésil” 34 .

O envolvimento de José Bonifácio com Fourcroy e J. Chaptal (1756-1832) foi de

suma importância para a sua formação, não somente profissional como também para a

filosofia política, uma vez que estes franceses estavam por demais envolvidos no

movimento revolucionário que estava então em plena efervescência 35 .

A partir de 1792, José Bonifácio segue para a Saxônia onde freqüentou a Escola de

Minas de Freiberg, aperfeiçoando-se em Minas, Metalurgia, Orictognosia e Geognosia 36 .

Nesta escola, ele foi aluno do conceituado estudioso Abraham Gottlob Werner (1750-1817) e

colega de estudos de Alexander von Humboldt (1769-1859). Ainda no final deste ano foi

conhecer as minas do Tirol (Áustria), indo a seguir para Pávia (Itália), tendo recebido lições de

Alessandro Volta (1745-1827) 37 . Como se vê, José Bonifácio teve contato com estudiosos

importantes de sua época.

32 Fourcroy foi professor de química do jardim do rei desde 1794. Ele foi um dos responsáveis pela nomenclatura química e pela reorganização do ensino público francês. Foi também membro da Academia de Ciências e da Sociedade de Medicina. Mais tarde foi-lhe concedido o título de Conde de Fourcroy. Segundo Paul Virilio, além de engenheiro ele foi ainda diretor de fortificações. Em 1782 ele publicou “Ensaio para uma tabela paleométrica ou divertimento de um apreciador de mapas sobre os tamanhos de algumas cidades com uma planta ou tabela oferecendo comparação dessas cidades por meio de uma mesma escala”.

33 Abade Haüy, mineralogista de renome na França, foi um dos grandes estudiosos da cristalografia.

34 Veja-se E. de C. Falcão, op. cit., pp. 50-6. Conforme G. da Fonseca , op. cit., p. 108, o trabalho de José Bonifácio sobre os diamantes consta da Ata da Société d’Histoire Naturelle por influência de Fourcroy.

35 Jean Chaptal, foi professor de química e, posteriormente, intitulado Conde de Chanteloup e Ministro do Interior de Napoleão Bonaparte. No ano II da Revolução (1794), Fourcroy trabalhava no aperfeiçoamento da metalurgia e manufatura de armamentos enquanto Chaptal e Vauquelin dirigiam a indústria do salitre. É importante lembrar que quando da invasão de Lisboa pelas tropas francesas, sob o comando do Gal. Junot, a partir de 30 de novembro de 1806, José Bonifácio aliou-se à resistência portuguesa “dedicando-se ao fabrico de munições de guerra”, conforme consta de G. da Fonseca, op. cit., p. 114.

36 Por Orictognosia entende-se o estudo dos corpos minerais fósseis; e Geognosia o estudo da estrutura e composição da camada sólida da terra.

37 O. T. de Sousa, op. cit., p. 26-7.

35

José Bonifácio vai ser encontrado na Suécia e Noruega a partir de 1796, onde

pesquisou as minas de Arendal, Sahla, Krageroe e Laugbansita 38 . Foi justamente neste período

que sua fama de mineralogista se fez pela descoberta de quatro novas espécies de minerais:

petalita, espodumênio, escapolita e criolita. Além destas, José Bonifácio descreveu mais oito

espécies já conhecidas: epídoto, ealita, cocolita, ictiftalmio, indicolita, agrigita, alocroíta e

wernerita, sendo que esta última foi assim denominada em homenagem ao seu mestre A . G.

Werner 39 .

José Bonifácio teve seu primeiro reconhecimento científico em Portugal ao ser

indicado em 1799, para membro da Academia Real de Ciências de Lisboa, quando ainda

estava em viagem de estudos pela Europa. A partir de então, tornou-se membro de várias

outras instituições acadêmicas importantes 40 .

Após dez anos e três meses de incursões de estudos pela Europa, José Bonifácio

retornou a Portugal e a partir de 1801 começou a assumir cargos importantes no governo

português, com destaque para:

a) Intendente Geral das Minas e Metais do Reino em 25/8/1801 e designado

Membro do Tribunal de Minas – tribunal encarregado de dirigir as Casas da Moeda, Minas

e Bosques de todos os domínios portugueses;

38 O. T. de Sousa. José Bonifácio: história dos fundadores do Império do Brasil, pp. 27 e seg. 39 Conforme o Dicionário de Mineralogia e Geologia, a Petalita é uma variedade de feldspato formada de silicato natural de alumínio e lítio (Li Na) (AlSi 4 O 10 ); o Espodumênio é um mineral de alumínio e lítio LiAl (Si 2 O 6 ); a Escapolita é um mineral intermediário entre meionita e marialita, contendo de 46% a 54% de sílica; e a Criolita é um fluoreto duplo natural de sódio e alumínio existente na Groêlandia. Posteriormente Werner retribuiu a homenagem a José Bonifácio com uma de suas descobertas, a Andradita , ou seja, uma variedade de granada ferro- calcária, formada de silicato natural de calcário e ferro Ca 3 Fe 2 (SiO 4 ) 3 , conforme o Dicionário supramencionado. Abraham Gottlob Werner (1749-1817) é considerado um dos fundadores da moderna mineralogia juntamente com o escocês James Hutton (1726-1797). Ele defendia a tese do netunismo, teoria que tentava explicar as formações geológicas a partir de um oceano em que as formações se davam por depósitos. Também foi mestre de José Bonifácio.

40 As outras academias para as quais José Bonifácio foi nomeado foram: Sociedade de História Natural de Paris 1791; Sociedade Filomática de Paris 1791; Sociedade dos Amigos das Ciências Naturais de Berlim 1797; Sociedade de Mineralogia de Iena 1798; Academia Real de Ciências de Estocolmo 1798; Academia Real de Ciências de Copenhague 1801; Academia Real de Ciências de Turim 1801; Sociedade Weneriana de Londres 1802; Sociedade das Ciências Físicas e Naturais de Gênova 1802; Sociedade das Ciências Filosóficas de Filadélfia 1802 e Sociedade de Ciências do Instituto de França 1819. E.C. Falcão, op. cit., fala também na Sociedade Marítima de Lisboa da qual José Bonifácio fez parte.

36

b) Diretoria do Real Laboratório da Casa da Moeda de Lisboa, em 12/11/1801;

c) Responsável pela cadeira de Metalurgia da Universidade de Coimbra, em 1801;

d) Desembargador da Relação e Casa do Porto, em 08/8/1806; e

e) Secretário Perpétuo da Academia Real das Ciências de Lisboa, em 1810 41 .

De todos os cargos que José Bonifácio assumiu, nem todos foram exercidos a

contento, devido, em parte, aos excessos das obrigações e a falta de material adequado para

realizar seu trabalho. Há, ainda, que se considerar os obstáculos impostos pela burocracia

portuguesa,

que,

aliada

à

“inveja” 42

e

aos

ressentimentos,

acabaram

por

tornar

desagradável a permanência dele em solo lusitano. Um único caso pode bem exemplificar

isso: ao ser nomeado para a cátedra de metalurgia na Universidade de Coimbra, José

Bonifácio recebeu o capelo doutoral na Faculdade de Filosofia em 20/6/1802, sendo

dispensado da defesa de tese 43 . Ele aceitou o cargo com a ressalva de que o faria ‘como

vassalo fiel, bem que não fôsse êste lugar de gôsto e vontade sua’ 44 . Em uma carta

endereçada ao Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra (1804-1808),

41 Além dos cargos mencionados a seguir, José Bonifácio assumiu também outros encargos tais como:

administrador das “Minas de carvão de Buarcos (mina de carvão e pedra) para restabelecer as fundições de Figueiró dos Vinhos e de Avelar” (fundição de ferro), em junho de 1801; Superintendente das Obras Públicas de Coimbra; Encarregado de ativar as sementeiras de pinhais de Couto de Lavos, tendo em vista a proteção do litoral Português, em 1802; Superintendente do Rio Mondego e Obras Públicas de Coimbra e Diretor das Obras de Encanamento e Serviços Hidráulicos e provedor de Finta de Maralhães em 1807. José Bonifácio criou, ainda, o Corpo Militar Acadêmico em Coimbra, tendo em vista a resistência às invasões das tropas francesas em Portugal, tendo sido promovido ao posto de Major e, posteriormente, Tenente Coronel e Coronel. Foi também Intendente da Polícia do Porto e Superintendente da Alfândega e da Marinha em 1809.

42 Segundo O. T. de Sousa, op. cit., p. 54., encontramos uma reclamação de José Bonifácio em relação a Portugal, “onde a inveja e a presunção suscitam a cada canto e a cada hora inimigos”. A inveja que ele se refere é certamente devida ao Conde de Figueiró - Luís de Vasconcelos e Souza (1742-1807) – 4º Vice-Rei do Brasil no Rio de Janeiro (1779-1790), que hostilizou José Bonifácio quando este foi Intendente Geral das Minas e Moedas do Reino.

43 Isto se deu pela Carta Régia de 15/4/1801, conforme O. T. de Sousa, op. cit., p. 36.

44 O. T. de Souza, op. cit., p. 38.

37

Antônio de Araújo Azevedo (Conde da Barca) 45 , ele dizia que na universidade “não há

coleção mineralógica que sirva e valha coisa alguma” 46 .

Ao que tudo indica, o desinteresse pela cátedra não era um atributo exclusivo de

José Bonifácio, haja vista que apenas seis estudantes estavam matriculados no segundo ano

de funcionamento do curso. Um texto de sua autoria denominado “Causas da não-

prosperidade

das

ciências

naturais

em

Portugal”,

enumera

20

prováveis

causas

responsáveis pelo atraso científico, dentre elas algumas ligadas às condições em que se

encontrava o sistema de ensino português nesse período, a saber:

o péssimo

estado das mesmas ciências naturais na universidade por falta de mestres

hábeis etc.;

a

carestia de imprensas, e a falta de gravadores hábeis para abrir estampas

[

[

]

a falta de museus, gabinetes de física, e laboratórios; [

]

a ignorância crassa do povo, e dos chamados sábios; [

]

47 .

]

]

falta de aulas de desenho [

As críticas de José Bonifácio não pouparam sequer seus colegas do corpo docente

da instituição, que foram classificados como “sátrapas da universidade atrevidos e

pedantes” 48 . Não bastassem todas essas dificuldades, José Bonifácio teve que suportar as

conseqüências de ter um inimigo no poder, o Ministro D. Luís de Vasconcelos, autoridade

máxima do Real Erário e substituto de D. Rodrigo de S. Coutinho. A este Ministro José

Bonifácio havia feito referência em discurso numa sessão da Academia de Ciências de

Lisboa, no qual o chamou de “ignorante”. A partir de então, a burocracia portuguesa se

45 O conde foi também ministro plenipotenciário na Rússia de 1801 a 1804. Foi nomeado Conselheiro de Estado em 1807 e Secretário dos negócios dos Estrangeiros e da Guerra. Em 1814, foi nomeado Ministro da marinha e recebeu o título de conde em 1815, sendo o responsável direto pela vinda da Missão Artística Francesa ao Brasil.

46 O. T. de Souza, op. cit., p. 38. É digno de nota que, o inventário e a classificação da coleção do Museu Real da Ajuda, foi obra de José Bonifácio, como também “arrolou pacientemente a maior parte das inscrições romanas que encontrou em velhas pedras e monumentos do país, transcrevendo-as e traduzindo-as” (conforme o mesmo autor, p. 54).

47 J. B. de Andrada e Silva, op. cit., p. 340-1.

48 O. T. de Sousa, op.cit., p. 54.

38

voltou contra as intenções de José Bonifácio, por um lado, impedindo a realização de seu

trabalho, por outro, não atendendo às suas solicitações, de tal forma que:

] [

suprimiram-se os recursos financeiros, interromperam-se os trabalhos; a

mina de carvão de Buarcos foi inundada e os depósitos se perderam; uma máquina de valor de 20.000 cruzados, chegada da Inglaterra, ficou abandonada no pôrto de desembarque 49 .

na Intendência-Geral das Minas nada mais funcionou direito,

José Bonifácio tentou por várias vezes retornar ao Brasil. Em 1809, ele havia

conseguido uma licença com o Ministro Conde de Aguiar válida por um período de 12

meses, mas na obrigação de retornar à Europa assim que fosse esgotado o prazo.

Entretanto, a sua viagem foi protelada para o ano seguinte 50 , e outra vez mais por mais um

ano, até que em 1811 ele desistiu.

Em 1818 ele voltou a pedir a referida licença quando

então foi vítima de mais um incidente com a burocracia portuguesa, o que dificultou a

realização de suas pretensões de retornar à terra natal. Após vencer uma série de

obstáculos, José Bonifácio conseguiu finalmente o visto de saída em seu passaporte com

data de 19 de agosto de 1819.

Ao chegar ao Brasil, ele encontrou o seu irmão Martim Francisco, Inspetor das

Minas de São Paulo, com o qual realizou uma viagem de pesquisa mineralógica pelo

interior desta província, entre 23 de março e 5 de maio de 1820, envolvendo-se, como em

Portugal, com os trabalhos em história natural, mineralogia e metalurgia 51 .

49 Idem., p. 43.

50 Em janeiro de 1810, José Bonifácio chegou a encaixotar seus pertences e pediu “três mil cruzados” emprestados de seu irmão Martim Francisco para viajar no mês de agosto. Veja-se O.T. de Sousa, op. cit., pp. 58-60 e 65.

51 Veja-se descrições completas desta viagem em E. de C. Falcão, op. cit., p. 477-500., ou ainda em David

Carneiro, A vida gloriosa de José Bonifácio de Andrada e Silva e sua atuação na Independência do Brasil,

1977, pp. 66 e seg. Silva, p. 117.

ou ainda em E. de C. Falcão, org, Estudos vários sôbre José Bonifácio de Andrada e

39

Algum tempo depois, José Bonifácio começa a exercer cargos que o tornariam

conhecido como político e que exigiram muito mais de seus conhecimentos em Direito,

distanciando-o, de certa forma, de seus interesses em Ciências Naturais. Assim, em janeiro

de 1822, José Bonifácio tornou-se Vice-Presidente da Junta Governativa da Província de

São Paulo, mas já estava nomeado Ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros, cargo

que, com a Independência, passaria a ser denominado de Ministro do Império e dos

Estrangeiros.

permaneceu

até

17

de

julho

de

1823,

quando

foi

demitido

por

divergências

com

D.

Pedro

I.

Retornou

assim

à

Assembléia

Geral

Constituinte

e

Legislativa para ocupar a cadeira de deputado conquistada pela província natal.

Na Assembléia, José Bonifácio iria permanecer até o dia 12 de novembro de 1823,

quando aquele órgão foi dissolvido pelo Imperador. Juntamente com seus dois irmãos,

acabou sendo preso e enviado para o exílio na França em 20 de novembro do mesmo ano,

passando a viver em Bordeaux.

Foi justamente como deputado que José Bonifácio apresentou o seu projeto

“Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil”, que será o

objeto central de nossa análise a partir da Segunda Parte do presente estudo.

No próximo capítulo, veremos como os discursos de José Bonifácio foram

permeados pelas idéias políticas e filosóficas que estavam em discussão na Europa do

século XIX.

CAPÍTULO

II

IDÉIAS POLÍTICO-FILOSÓFICAS E RELIGIOSAS NO SÉCULO XIX

41

A formação de naturalista de José Bonifácio na Universidade de Coimbra, bem

como suas viagens de exploração e conhecimento pelos melhores centros de ensino

europeu, lhe deram a oportunidade de estar em contato com o que havia de melhor em

termos de produção científica e filosófica da época. A sua formação deu-se num período de

efervescência política na Europa - de 1783, quando se matriculou na Universidade a 1800,

quando retornou de suas viagens. Conforme exposto no Capítulo anterior, as excursões

científicas que ele realizou proporcionaram-lhe conhecer vários centros de pesquisas e

cientistas de renome, como: Fourcroy, Werner, Volta, Priestley, Chaptal, Haüy, Vauquelin,

Duhamel, Jussieu, Le Sage, entre outros.

Além de ter conhecido vários laboratórios, ele teve a oportunidade de trabalhar com

o que havia de melhor em termos de conhecimentos e equipamentos. Por meio de seus

mestres ou por influência de amigos, ele teria sido introduzido no pensamento iluminista

pelas obras dos mais eminentes filósofos de seu tempo, como Rousseau, Montesquieu,

42

Voltaire,

Diderot,

D’Alembert,

Raynal,

Buffon,

Montaigne,

Locke,

Peine,

Pope,

Condorcet, Hume, Kant, Leibniz, Maquiavel, Newton, entre outros 1 .

Nesse Capítulo apresentamos alguns pensadores e suas idéias relativas ao homem

americano, os quais julgamos importantes, pois deixaram as suas marcas não só nas

propostas de José Bonifácio, mas também em muitos políticos e legisladores dos séculos

XVIII

e XIX: Raynal, Rousseau e Voltaire. Em seguida, apresentaremos e discutiremos

alguns

conceitos que têm lugar em muitos dos documentos sobre esse Capítulo. A seguir

passaremos a expor e comentar as legislações sobre os índios do Brasil, nos períodos que

abrangem da fase colonial ao reinado.

Somente conhecendo os conceitos de que se serviram os legisladores na formulação

de seus artigos, podemos compreender as idéias e propostas expressas nos discursos de

José Bonifácio encaminhados à Assembléia Legislativa. E, para conhecermos melhor o

pensamento do autor, não podemos esquecer que ele foi o produto de uma época em que os

novos conceitos não estavam restritos apenas às mentalidades de alguns iluminados, mas

também se concretizavam em todos aos setores que se relacionavam ao homem, à natureza,

ao trabalho, à religião, ao poder, à liberdade etc. Dessa forma, pode-se compreender

melhor

o

texto

de

José

Bonifácio

a

ser

objeto

principal

do

presente

estudo,

os

Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil2 .

Raynal, ou Abade Raynal, como é mais conhecido, foi membro da Companhia de

Jesus até 1748. Desiludido com a Companhia, começou a freqüentar os famosos salões

parisienses onde eram discutidas as propostas para uma nova sociedade. Neste ambiente, o

1 O. T. de Sousa, op. cit., p. 16 e seg. 2 Este último texto consta da obra organizada por Miriam Dolhnikoff, José Bonifácio: projetos para o Brasil, 1998, pp. 156-8. Considerando a extensão do título desse trabalho de José Bonifácio, sempre que nos

para diferenciá-lo de outro texto, também de José

referirmos a ele usaremos da expressão “Apontamentos Bonifácio, denominado apenas “Apontamentos”.

,

43

Abade Raynal conheceu as idéias de Claude Adrien Helvétius, Paul Henri Dietrich, barão

d’Holbach, Denis Diderot, Jean-Jacques Rousseau e outros.

Em 1770, Raynal publicou uma obra denominada Histoire philosophique et

politique des établissements et du commerce des européens dans des indes, na qual expõe

suas idéias permeadas “de obras contemporâneas, como fez com o Senso Comum de

Thomas Peine, Recherches philosophiques sur les Americains, de Cornelius Pauw, ou

Homme Mora,l de Levesque. E mescla Voltaire, Montesquieu, Helvétius, Holbach e

Rousseau, plagiando todos à mão solta” 3 . Para o que nos interessa, um dos livros de sua

Histoire Philosophique diz respeito especificamente à colônia portuguesa na América e

está intitulado: O estabelecimento dos portugueses no Brasil. 4

É importante o estudo das obras de Raynal, pois nela encontramos a idéia de se

trabalhar a heterogeneidade étnica brasileira, a indolência e a questão das terras indígenas.

Conhecedor da situação em que se encontravam os índios – através das informações

de “um dos homens mais esclarecidos que jamais viveu no Brasil”, Raynal critica a

formação das aldeias, onde um chefe branco regulava todas as ações. Inicialmente

favorável à liberdade dos índios, em detrimento da tutela defendida por José Bonifácio,

Raynal dizia que “os índios que permaneceram senhores de suas ações na colônia

portuguesa são muito superiores em inteligência e indústria aos que foram mantidos sob

tutela perpétua”.

Atento ao processo de miscigenação que estava ocorrendo no Brasil, nas Províncias

de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, observava ele:

] [

mudaram o caráter, porque não se trabalhou para esclarecê-los, não se

os brasileiros miscigenaram-se aos portugueses e aos negros, e não

3 L.R. de A. Figueiredo & O. M. Filho, “Prefácio”, in G-T. F. Raynal, A revolução na América, p. 3. 4 G. T-F. Raynal, Os estabelecimentos portugueses no Brasil, pp. 99-100.

44

tentou vencer sua indolência natural, não se lhes atribuíram terras e não se fizeram os avanços necessários que poderiam estimular sua emulação 5 .

Ou seja, Raynal deixou claro que seriam necessárias ações do governo para

incentivar a integração dos mestiços levando à formação de “um só povo” 6 . A estas

questões levantadas por Raynal - miscigenação, caráter e indolência foram objetos de José

Bonifácio que, em “Apontamentos

”,

imaginou poder homogeneizar as diferenças do

povo brasileiro. Entretanto, lembramos que Raynal foi produto do progressivismo de sua

época e, conseqüentemente, eurocêntrico, já que advogava a idéia clássica de um certo

evolucionismo linear que julgava terem os povos civilizados sido, um dia, também

selvagens. Esta idéia de homogeneização de Raynal será um dos objetos de José Bonifácio

em seu projeto de civilização dos índios do Brasil.

Rousseau é possivelmente o filósofo que mais teve acolhida nas leituras de José

Bonifácio. Em suas obras há sempre a idealização do selvagem americano nos modos de

vida dos seus personagens. Segundo Afonso Arinos, o pensador francês foi sempre bem

informado sobre o “Novo Mundo”, especialmente o que dizia respeito às descrições de

viagens 7 , quer de Charles Marie de La Comdamine, Daniel Defoe, Samuel von Pufendorf,

John Locke ou Michel Eyquem de Montaigne, sendo este último o mentor da idealização

de “o bom selvagem“, idéia tão cara a Rousseau 8 .

Em Rousseau vamos encontrar não somente a idealização do homem do Novo

Mundo, mas também o estilo de governo monárquico que ele imaginou em O Contrato

5 G. T-F. Raynal, Os estabelecimentos portugueses no Brasil, p. 99.

6 Ibid., p. 99. 7 Charles Marie de La Comdamine (1701-1774), naturalista francês, foi encarregado da chefia de uma expedição científica à América do Sul entre 1735-1745, patrocinada pela Academia de Ciências de Paris. Sobre este assunto vejam-se Victor W. von Hagen, A América do Sul os chama, [1956], pp. 9-98; Daniel Defoe (1660-1731), escreveu Robinson Crusoé em 1719; Barão Pufendorf (1632-1694), jurista alemão, foi autor de O direito natural dos povos; John Locke (1632-1704), autor de O segundo tratado do governo civil, e Montaigne (1531-1592), autor bastante influenciado pelos relatos dos viajantes André de Thevet e Jean de Léry.

8 A. A. de Melo Franco, Os índios e a Revolução Francesa, p. 183.

45

Social: “Vimos, através das relações gerais, que a monarquia só é conveniente aos vastos

Estados” 9 .

Voltaire foi um rico e impetuoso burguês que devotou boa parte de sua vida em

querelas filosóficas, despejando sua cólera contra a monarquia, em parte por causa de sua

briga com o rei da Prússia, Frederico II. Também não poupou rancores contra Rousseau

“cujo gênio ele, por ódio, nunca soube compreender” 10 .

Contrariando a corrente de Montaigne e Rousseau, os quais pintaram o selvagem

americano com certa dose de ingenuidade e pureza, Voltaire pintou o selvagem e o seu

mundo em cores obscuras através do filtro de Jean de Léry 11 e André de Thevet 12 . Senão

vejamos:

Il faut payer à nos voisins quatre millions d´un article, et cinq ou six d´un autre, pour mettre dans notre nez une poudre puante venue da l´Amérique; le café, le thé, le chocolat, la cochenille, l´indigo, les épiceries, nous coûtent plus de soixante millions par an 13 .

Na sua obra denominada Candide, Voltaire ridiculariza a tudo e a todos. Os seus

personagens fazem um périplo pelo mundo, e quando chegam à América são postos em

fuga do Paraguai para as terras brasileiras, quando então matam dois macacos que

9 J-J. Rousseau, O contrato social, p. 78.

10 A. A. de Melo Franco, op. cit., p. 163.

11 O calvinista francês Jean de Léry (1534- ? ), esteve no Rio de Janeiro de 1557 a 1558 como integrante da esquadra de Nicolas Durant de Villegaignon. Durante a sua permanência no Rio, conviveu com os índios Tupinambás, tendo a oportunidade de observar os seus costumes, o que resultou na obra “Histoire d´un voyage fait en la terre du Bresil autrement dite Amerique”, editada pela primeira vez em 1578. Ele achava que os índios sequer poderiam ser considerados gente pagã, já que estavam situados aquém daqueles povos que, ao menos, foram politeístas. Ele via os cerimoniais indígenas como obras demoníacas, e nos maracás, instrumentos de possessão.

12 O frei capuchinho André de Thevet (1502-1590), cosmógrafo do rei francês Henrique II, viajou com a esquadra comandada por Villegaignon, tendo permanecido no Rio de Janeiro entre 1555 e 1556. Também, como Jean de Léry, não reconhecia a religiosidade nos índios tupinambás, além de criticá-los por não conhecer os livros. Sobre o Brasil, ele publicou em 1557 “Lês singularitez de la France antartique”.

13 “É necessário pagar a nossos vizinhos quatro milhões por um artigo, e cinco ou seis por outro, para que coloquem em nosso nariz um pó mal-cheiroso vindo da América; o café, o chá, o chocolate, a cochonilha, o índigo, as especiarias, nos custam mais de sessenta milhões por ano”. Tradução nossa. Voltaire, “L´homme aux quarante écus”, in: L´ingénu., p. 81.

46

mordiam duas índias, descobrindo depois que os símios eram os amantes das jovens 14 .

Essas referências deixam claras as suas jocosas idéias sobre os índios.

Após tratar as idéias sobre o homem americano, presentes nos trabalhos de alguns

pensadores do período que estamos estudando, vamos discutir alguns conceitos que

merecem ser cuidadosamente aprofundados, pois, se mal interpretados, poderiam levar-nos

a uma incompreensão total ou parcial da obra de José Bonifácio. Tais conceitos são: guerra

justa, perfectibilidade e degeneração, civilização e, humanidade.

1. Guerra Justa

A “guerra justa” foi um pretexto para justificar legalmente a prática da escravidão e

era “aplicada aos povos que, não tendo o conhecimento prévio da fé, não podem ser

tratados como infiéis” 15 . Ela também poderia ser feita quando da recusa à conversão,

quando houvesse alguma hostilidade aos vassalos ou aliados da coroa ou, ainda, quando

houvesse a quebra de um pacto, o uso da antropofagia e também pela salvação da alma.

Nestes casos a “guerra justa” deveria ser declarada por autoridades competentes, como o

Rei ou a Igreja.

A expressão “guerra justa” encontra-se numa obra denominada Las justas causas

de la guerra, do espanhol Juan Ginés de Sepúlveda, impressa pela primeira vez em Roma

no ano de 1550. Sepúlveda escreveu esta obra no contexto da

pós-reforma luterana, no

14 Voltaire, Candide, 1994, p. 43 15 B. Perrone-Moisés, “Índios livres e índios escravos”, in: Manuela Carneiro da Cunha, org, História dos índios no Brasil, p. 123.

47

intento de justificar

as crueldades

levadas aos extremos

pelos espanhóis, durante as

conquistas das terras do “Novo” Mundo 16 . Sepúlveda enumerou quatro condições para que

uma guerra pudesse ser considerada justa: “Causa justa, autoridad legitima, recto animo e

recta maneira de hacerla” 17 , o que passamos a detalhar em seguida.

a - Como causa justa Sepúlveda entendia: a superioridade cultural, o castigo aos

malfeitores, a cobrança das coisas arrebatadas injustamente ou as do aliado e o emprego do

homem para a guerra contra os animais. No confronto entre os europeus e americanos,

quaisquer destes quatro entendimentos poderiam ser aplicados, uma vez que ele alegava

serem os naturais da terra inumanos, bárbaros e animais. Assim, nada mais justo, seguindo

esta interpretação, que o perfeito (neste caso seriam os europeus de um modo em geral)

imperasse sobre o imperfeito (os índios americanos).

b - Por autoridad legitima entendia como sendo o poder público, isto é, o Príncipe,

a Igreja e os seus delegados.

c - Por recto animo ele invocava Santo Agostinho para afirmar que o fazer a guerra

não seria um delito, mas seria um pecado se o fosse pelos bens materiais.

d - Ao tratar de recta manera de hacerla ele afirmava que a guerra não poderia ser

feita simplesmente por uma vingança pura e simples, mas sim pelo bem público, e que

“não se façam injúria aos inocentes, nem se maltratem os embaixadores, os estrangeiros e

os clérigos” 18 .

16 Sepúlveda entrou em atrito com o dominicano Frei Bartolomé de Las Casas (1474-1566), devido à publicação da obra do Frei, denominada Brevíssima Relación de la Destrución de las Indias Ocidentales, no

ano de 1552 – onde ele defendia a liberdade e os costumes dos índios. Esta obra relata a crueldade e a corrupção dos espanhóis, fazendo com que a sua imagem passasse à denominação de “Leyenda Negra” por toda a Europa. Veja-se mais sobre este assunto em Juan Ginés de Sepúlveda, Las justas causas de la guerra,

1996.

17 J. G. de Sepúlveda. Las justas causas de la guerra, p. 18.

18 Idem., p. 27. Tradução nossa.

48

Por fim, Sepúlveda justificava a conquista não como um direito, mas sim como um

dever de caridade. Isto deixa claro que as condições para a existência da guerra justa ou

não, atendiam muito mais aos interesses e caprichos dos colonos, bem como os da Igreja,

que propriamente ao cumprimento de um código de princípios, leis, mores ou normas por

parte dos colonizados. No que se refere às hostilidades aos vassalos e a quebra do pacto

fica mais patente ainda que ao indígena restava a sujeição ao jugo do homem branco, a

qualquer custo, uma vez que sua resistência forneceria subterfúgios para o início da guerra.

Quando do interesse dos colonos, em último recurso, a guerra era justificada pela

frieza, crueldade e barbaridade dos inimigos indígenas. Fica evidente, assim, que na visão

do colono a guerra era de puro e simples extermínio de um sujeito portador de instintos

animalescos. Este discurso nos faz crer que, para os nobres e comerciantes, a guerra era

apenas um meio de incorporar o índio à mão-de-obra barata, preferencialmente em forma

de escravidão, num gesto considerado por eles até mesmo humanitário.

Fazendo um transporte destes conceitos para as condições impostas pelo processo

colonial em terras brasileiras, veremos que elas foram aplicadas quase ipsis litteris. O

padre Antônio Vieira, discorrendo sobre os índios que se encontravam no Maranhão, dizia

que eles eram de três tipos 19 ; a saber: os escravos da cidade, que serviam aos colonos; os

escravos das aldeias de el-rei, que Vieira considerava livres, e ainda os que viviam nos

sertões, estes os mais visados pelas bandeiras, e “só poderiam ser tirados aqueles que já

estivessem cativos de tribos inimigas [

]

trazendo-os à cidade como escravos” 20 .

Não foi somente Jean de Léry quem pensava a inumanidade, barbaridade e

animalidade dos índios. O próprio Diretório afirmava estas características nos Art. 3º

dizendo que “

os

índios deste Estado se conservaram até agora na mesma barbaridade

19 Note-se que esta classificação é diferente daquela apresentada pela pesquisadora B. Perrone-Moisés, já comentada na contextualização da obra.

20 A .Bosi. Dialética da colonização, p. 139.

49

E no Art. 37º acrescenta que eles “[

]

pela sua rusticidade, e ignorância, não podem

compreender a verdade, e legítima reputação dos seus gêneros [

]”,

acusações estas

negadas competentemente pelo padre João Daniel.

Quando às operações de resgate, o historiador Luiz Felipe de Alencastro afirma que

os índios poderiam ser apropriados de três formas: resgates, cativeiros e descimentos. Em

princípio só eram resgatados os índios de corda 21 pois os cativos originários da “guerra

justa” tornar-se-iam escravos ad infinitum, o que concorria para o benefício da facilidade

de mão-de-obra para o sistema.

O ato de fazer escravos através da guerra - justa ou não - remonta à Grécia antiga.

Segundo Alencastro, o mesmo argumento clássico continuou sendo utilizado para justificar

a fonte escravista que perdurou até meados do século XIX. A guerra como benemérita da

escravidão pode ser encontrada em Xenofonte que, além de justificá-la, considerava a

escravidão um método didático-educativo próprio para os animais. Daí que ele

elogia os guerreiros e conquistadores benévolos, benfeitores, os quais, em vez de massacrar seus prisioneiros de guerra, reduziam-nos à escravatura, ´forçando-os a se tornar melhores, e levando-os assim a ter uma vida mais fácil`. Ou seja, a escravização se define como um ato de generosidade, reiterativo da natureza humana do prisioneiro, do cativo, na medida em que o resgata de uma morte certa para integrá-lo numa sociedade eventualmente mais avançada. O argumento será retomado por grandes e pequenos escritores ao longo dos séculos, a ponto de constituir o fundamento ideológico do substantivo que designa a aquisição de escravos africanos ou índios: resgate 22 .

21 - O termo que designava os índios prisioneiros de outros índios, à espera da morte, por meio de um ritual específico para tal fim. Os índios resgatados nessas condições deveriam permanecer cativos de seus novos donos por dez anos.

22 - L. F. de Alencastro, O trato dos vivente, p. 152.

50

Essa metodologia clássica de escravidão foi encontrada no Amazonas, quase dois

milênios após, pelo jesuíta padre João Daniel. Segundo ele, as tropas de resgate da coroa

“[

]

instituídas para livrar da matança os miseráveis índios encurralados com muita

piedade

pelos

Fidelíssimos

Reis

de

Portugal

[

]

com muito

aplauso

dos

mesmos

portugueses, que nos tapuias 23 resgatados tinham escravos e servos para os seus serviços