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#9 | 25/02 a 01/03 | 2019

TRANSCRIÇÃO DAS LIVES @italomarsili

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COMO USAR ESTA APOSTILA
Tem gente que adora um papel — para segurar, anotar, levar consigo aonde for.
Outros preferem o digital, seja em áudio, em vídeo, ou mesmo em texto.

O Guerrilha Way atende a todos os gostos.

Nesta apostila semanal, que você pode imprimir ou simplesmente salvar em PDF,
você vai encontrar:

1. uma visão geral dos assuntos abordados nas lives da semana


anterior;
2. um resumo de cada uma delas;
3. sua transcrição na íntegra, com uma bela diagramação.

Por isso, o booklet que você tem em mãos é uma pequena jóia que você pode
arquivar em um lugar especial da sua biblioteca e consultar sempre que necessário.

Você não precisa lê-lo de capa a capa. Consulte-o conforme a sua necessidade.

Faça bom proveito!

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ÍNDICE

A SEMANA NUMA TACADA SÓ - 4

RESUMO DA SEMANA - 5

JAMAIS ESCONDA A FONTE DAS SUAS INFLUÊNCIAS - 7


RESERVA DE MERCADO É COISA DE FRACOTE - 12

A VIDA PRECISA DE UM POUCO DE CONFUSÃO - 20

SABE POR QUE NINGUÉM TE AMA? - 28

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A SEMANA NUMA TACADA SÓ

Live #29 | 26/02/2019 - Instagram | Youtube


JAMAIS ESCONDA A FONTE
DAS SUAS INFLUÊNCIAS
Querer parecer brilhante e original, ocultando a fonte das nossas influ-
ências, só escancara a nossa pequenez e nos enfraquece.

Live #30 | 27/02/2019 - Instagram | Youtube


RESERVA DE MERCADO É COISA DE FRACOTE
Querer parecer brilhante e original, ocultando a fonte das nossas influ-
ências, só escancara a nossa pequenez e nos enfraquece.

Live #31 | 28/02/2019 - Instagram | Youtube


A VIDA PRECISA DE UM POUCO DE CONFUSÃO
O que aumenta a nossa produtividade não é ter uma agenda toda amar-
radinha, mas conhecer os processos.

Live #32 | 1º/03/2019 - Instagram | Youtube


SABE POR QUE NINGUÉM TE AMA?
Esqueça essa história de “amar-se primeiro”. Amar aos outros e interes-
sar-se pelo mundo exterior é o que tornará você amável.

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RESUMO DA SEMANA
Live #26 | 18/02/2019 - Instagram | Youtube
JAMAIS ESCONDA A FONTE DAS SUAS INFLUÊNCIAS

Existe na alma de todos nós um desejo de ocultar a origem daquilo que


nos influenciou ou, de algum modo, contribuiu para nossa formação, es-
pecialmente quando a fonte nos é próxima. No fundo desse movimento
reside um temor de que os olhos da nossa platéia se voltem para a fonte,
e não mais para nós.

Entretanto, a capacidade de prestar o devido culto às pessoas que nos


influenciam, inclusive citando-lhes o nome, faz muito bem ao espírito
humano, revelando um coração grande e destemido. O desejo de escamo-
tear nossas fontes nos torna piores, mais fracos e covardes.

Quando vivemos sem medo de perder prestígio, revelando com tranqui-


lidade de onde vêm nossas influências, nossas idéias, sem desejar passar
uma impressão de autossuficiência, a vida fica mais leve, ficamos mais
fortes e conseguimos caminhar com mais segurança, porque amparados
pela sinceridade de quem não faz pose.

Live #30 | 27/02/2019 - Instagram | Youtube


RESERVA DE MERCADO É COISA DE FRACOTE

Tem gente que leva bem a sério o negócio da “criança interior”. Tão a
sério que, tão logo uma ameaça desponta no horizonte, busca desespera-
damente a proteção paterna, agora sob a forma do Estado, dos conselhos
profissionais, dos comitês. O alarme que os profissionais de uma deter-
minada área fazem soar, sempre que se sentem ameaçados por outra ca-
tegoria profissional, escancara o despreparo daqueles que se julgam em
perigo.

Essa atitude revela uma incapacidade de lidar com a realidade do mundo


do trabalho, onde as competências têm de ser conquistadas e provadas
dia após dia. Em última análise, evidencia um problema de dependência
infantil — uma expectativa de que a interferência paternal alivie as ten-
sões que são próprias da vida de responsabilidades. É o velho sonho de
que exista um lugar seguro, um oásis onde a mera exibição de títulos seja
garantia de prestígio e clientela farta.

Para matar esse fetiche, o primeiro elemento é ter o domínio técnico da

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atividade que se exerce. Entretanto, o domínio técnico é somente o mí-
nimo indispensável. Para superar a sensação de insegurança e o terror
diante das “ameaças”, é preciso desenvolver uma série de outras habili-
dades, cujo domínio, então, conferirá a força necessária para enfrentar
a realidade do trabalho.

Live #31 | 28/02/2019 - Instagram | Youtube


A VIDA PRECISA DE UM POUCO DE CONFUSÃO

O problema da falta de organização, em geral, não se resolve com uma


agenda. Programar o dia com atividades e horários, quadricular a vida,
dificilmente vai funcionar, porque todos os dias temos de lidar com im-
previstos. A harmonia da vida humana não está na simetria, na organiza-
ção perfeita. É preciso um pouco de confusão para ser produtivo.

O segredo da ordem não está na agenda, mas em captar a ordem ontoló-


gica. Isso significa saber qual é o processo — significa, em cada área da
vida, saber o que é mais importante. O que aumenta a nossa produtivi-
dade não é a fidelidade aos horários, mas saber o que é mais importante
a se fazer num dado momento em concreto.

A partir do momento em que entendemos qual é o processo das nossas


relações afetivas (pessoas vem antes de coisas), do nosso trabalho (en-
contrar o equilíbrio entre coisas urgentes e coisas importantes), começa-
mos a encontrar a ordem, a produtividade e uma paz no dia a dia.

Live #32 | 1º/03/2019 - Instagram | Youtube


SABE POR QUE NINGUÉM TE AMA?

Acontece com o amor um fenômeno curioso: quanto mais amamos, mais


aumenta a nossa capacidade de amar. O amor não se divide; dilata-se o
coração.
Entretanto, quando o amor se volta para o próprio agente, essa capacida-
de de amar diminui drasticamente. O tal “amar-se primeiro para poder
amar os outros” não existe. É preciso amar aos outros, amar outras coi-
sas, para então tornar-se amável pelos outros.

O segredo para ser amado por alguém é amar os outros primeiro e inte-
ressar-se pelo mundo exterior. Ninguém se interessa por pessoas que só
falam de si ou daquilo que está diante dos próprios olhos. Quem deseja
ser interessante deve ser, antes, interessado pelo que está fora de si.

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Live #29 | 26/02/2019 (terça) - Instagram / Youtube

JAMAIS ESCONDA A FONTE


DAS SUAS INFLUÊNCIAS

Como diz o professor Olavo, tem gente que prefere matar a própria mãe do
que dizer que cometeu um deslize, que foi feito de trouxa. É muito difícil
lidar com esse tipo de pessoa. O cara está na boca do crime, fez uma bur-
rada, cometeu um deslize, foi pego de calça curta e prefere justificar com
1.001 motivos.

Isso acontece muito no Brasil. Uma coisa feia, um cacoete que temos de
matar é o de querer ocultar as fontes que nos fazem melhorar, como se
estivéssemos por cima de tudo sempre, como se tivéssemos descoberto a
pólvora. Não é assim que funciona, e sabemos disso.

Toda hora lembramos as nossas referências: Olavo, Julián Marías etc. Uma
das atitudes que mais fazem bem para o espírito humano é demonstrar
gratidão com o nome daquela pessoa pela qual somos gratos; e com o nome
verdadeiro – nome e sobrenome.

Alguns não entendem que eu não estou cobrando autoria de nada, pois eu
fui o primeiro a declarar que não sou o autor dessas frases que eu sempre
repito. Imagine se eu poderia ser o autor de frases como “Bom dia”. As pes-
soas falam “Bom dia” desde que o mundo é mundo. Imagine se o William
Bonner poderia ser o autor da frase “Boa noite”. Ele não é autor dessa frase.
É claro que eu não sou autor das frases “Faça coque”, “Dê esmola”, “Nin-
guém me deve nada”. Tais frases não têm dono.

Não se trata de colocar meu nome embaixo toda vez que vocês citarem essa
porcaria. Não é para fazer isso. Seria ridículo fazer isso, porque não sou au-
tor dessas frases. Ninguém é autor dessas frases, por exemplo, de frases cé-
lebres, como “Ser ou não ser, eis a questão”. Lógico que essa frase tem um
autor, é uma frase poética, uma frase que só apareceria na cabeça de um
poeta. E também, ao falar esse tipo de frase, não precisamos citar o autor.

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Por quê? Porque todo mundo com um mínimo de cultura sabe que “Ser ou
não ser, eis a questão” é uma frase de Shakespeare. Não precisa citar tam-
bém.

Mas o problema do brasileiro – algo que todos nós fizemos ou fazemos al-
guma vez na vida – é ocultar a fonte quando ela é muito próxima de nós. E
isso por dois motivos: não querer transmitir a audiência e a atenção para
aquele que falou. “Se eu falo quem disse isso, as pessoas vão parar de pres-
tar atenção em mim e vão começar a prestar atenção na outra pessoa, e eu
não quero.”

Mas o problema do brasileiro – algo que todos nós fizemos ou fazemos al-
guma vez na vida – é ocultar a fonte quando ela é muito próxima de nós. E
isso por dois motivos: não querer transmitir a audiência e a atenção para
aquele que falou. “Se eu falo quem disse isso, as pessoas vão parar de pres-
tar atenção em mim e vão começar a prestar atenção na outra pessoa, e eu
não quero.”

Nós fazemos muito isso no dia-a-dia. Por exemplo, você está conversando
com uma menina e copia uma fala de um amigo seu. Você não vai dar o cré-
dito para ele, senão a menina vai olhar para o seu amigo, e não para você.
Esse é um movimento da alma, todo mundo age assim. Porém, precisamos
tomar cuidado para isso não dominar o nosso coração, não endurecer o
nosso coração, para que não nos transformemos em pessoas mesquinhas.
Dar o crédito para a pessoa, apontar quem o está ajudando, é atitude de
quem tem o coração grande.

É muito bom falar de onde está vindo aquela nossa idéia, quem está nos in-
fluenciando. Com generosidade, a coisa só melhora para todo mundo. De-
vemos sempre revelar de onde está vindo a idéia, com tranqüilidade, sem
precisar fazer citação de rodapé a cada vírgula, pois isso é muito pedante
também.

Dá para citar todo mundo; esconder é muito ruim, mesquinho e faz com

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que o nosso coração fique pequeno. O que podemos fazer no nosso dia-a-
-dia é dar crédito para os outros, falar bem de todo mundo, parar com a
mania mesquinha de brasileiro de ficar falando mal de amigo. A primeira
coisa que você faz quando tem um amigo é falar mal dele numa rodinha:
“Eu o conheço por dentro e posso falar isso aqui; e posso falar porque ele é
meu amigo. Como ele é meu amigo, posso falar tranqüilamente que é um
filho da mãe...”. Não aja assim, isso não é uma posição de amigo.

Amigo não faz isso. Nunca faça isso nunca! Quando aparecer na sua cabeça
o movimento de “Vou falar mal de uma pessoa porque a conheço”, não faça
isso nunca, isso não é amizade, é inveja, é mesquinharia, é medo de ficar
por baixo.

Esse movimento está na alma de todos nós, e estamos revelando aqui esse
ocultar as fontes, esse não falar bem das outras pessoas, essa falta de gra-
tuidade nos relacionamentos. Tudo isso é muito ruim; não façam isso nun-
ca.

Quando fazemos esse elemento circular, esse elemento de caridade, de


amor, essas citações e referências, tudo floresce, tudo melhora; nossa ca-
beça vai ficando melhor.

Alguns me falam: “Italo, você fala grosso, xinga os outros… deve ter um
monte de hater”. Não existe nenhum hater, pois não estou falando de nada
que não esteja dentro do coração de vocês.

Já disse: quando estou batendo, não estou batendo em você, mas naquela
merda dentro da sua pessoa que faz com que você não seja você. É isso
que estamos fazendo. Eu não vou bater no núcleo que você construiu. Pelo
contrário, vamos bater e extirpar aquela porcaria que o está intoxicando,
aquela coisa que não é você, aquele conjunto de pensamentos da sua cabe-
ça que veio de fora e o abafa. É nisso que vamos bater.

Lógico, quando nos relacionamos assim com os outros, não sobra ódio,

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porque estamos limpando. Mesmo que a pessoa não queira, a estamos lim-
pando.

Vamos fazer com que nossa vida neste mundo seja mais ágil, porque nós já
temos muitos problemas e não podemos ficar nos apegando a mesquinha-
rias, pois temos um monte de coisa para resolver. Vamos agilizar as coisas.

Aqui está o ponto central: não podemos matar dentro de nós a origem da
nossa influência, não prestar culto – no bom sentido do termo –, não olhar
para uma pessoa que nos influenciou e falar “Valeu, obrigado”, e jogar o
olho das outras pessoas para ela.

Tudo o que podemos fazer na vida é pegar as pessoas que amamos e apon-
tar a cabeça delas para algo que vimos antes. Se quisermos pegar a cabeça
dessas pessoas e apontar para nós, daqui a pouquinho vai dar merda, por-
que nós não valemos nada. Vamos frustrar essas pessoas.

Este é o segredo da vida: matou a origem, ferrou. Não vai funcionar. Então,
você vai pegar a cabeça das pessoas e apontar para aquilo que você viu an-
tes — isso é tudo o que podemos fazer na vida. É tudo o que podemos fazer
na criação de filho, por exemplo.
Por exemplo, o pai que quer ser exemplo para o filho o tempo todo. Isso não
vai dar certo, porque você, pai, é exemplo de quê? Você vai pegar o seu filho
e apontar para coisas que são melhores que você; vai pegar os seus amigos e
apontar para aquele livro que você leu, para aquele filme que você viu. Não
precisa falar que a idéia é sua. Conte uma piada na roda e, depois que todo
mundo riu, diga: “Quem fala isso é Fulano”. Dê o crédito para o Fulano.

Algo que aprendi logo cedo: na vida, podemos fazer qualquer coisa, desde
que não queiramos ser reconhecidos pelo crédito dela. Quando queremos
ser reconhecidos pelo crédito, a coisa não anda, não funciona.

Então, nunca vou me cansar de falar do Olavo, quer vocês queiram, quer
não, porque é de lá que vem tudo. Se eu parar de lhe dar crédito, sabe o que

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acontece? Acaba tudo, porque é dentro da tradição dele que eu estou. Sim-
ples assim.

Quando comecei a crescer, muitos comentavam: “Italo, não fala do Olavo;


ele é muito controverso; muitas pessoas o odeiam”. Vá tomar naquele lu-
gar! É óbvio que vou falar. Vou falar para sempre. Ainda que vá todo mun-
do embora, vou continuar falando dele, assim como Julián Marías falava
do Ortega, ele morreu falando do Ortega. Com que devoção você acha que
Aristóteles falava de Platão, e Platão de Sócrates? Com que devoção os após-
tolos falavam do Cristo?

É isso, cara. Sempre devemos falar e ter uma devoção por aqueles que nos
ensinam, porque assim vamos ganhando força. Quando queremos ocultar,
perdemos a força imediatamente, ficamos nus.

No nosso dia-a-dia, acontece a mesma coisa: nunca querer ficar com a gló-
ria para si, nunca querer ser o mais engraçado. Conte para as pessoas, que
é melhor, porque essa é a verdade sobre você.

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Live #30 | 27/02/2019 (quarta) - Instagram / Youtube

RESERVA DE MERCADO
É COISA DE FRACOTE

Vamos lá. O pessoal gosta do Dr. Italo. Aliás, uns gostam, outros odeiam,
mas vocês sabem que há um monte de médicos (a maior parte deles, sobre-
tudo os que vão aos meus cursos) que me adora. Eles gostam das coisas que
eu falo, das coisas que eu faço, vêem uma consistência técnica... Dependen-
do do curso, eu abordo parte da bioquímica, da farmacológica, aí o pessoal
vê a consistência, a boa formação, e acaba por gostar de mim.

Pois bem. Hoje é o dia de os médicos ficarem bravos comigo, porque vou
usar como exemplo uma discussão que está em voga para falar de uma
coisa que acomete muitos adultos, muitos de nós, chamada dependência
infantil. É a pessoa que quer a todo instante ser amparada por alguém de
fora.

Qualquer pessoa que tenha Instagram eventualmente verá uma amiga


dentista ou um amigo dentista postando uma fotinha de uma pessoa de
perfil, com um nariz torto, e depois com um nariz retinho. Outra foto: a
pessoa de frente com um labiozinho fininho e depois com lábios fartos.
Todos verão, vocês estão ligados.

Acontece que ontem o Dr. Italo disse o seguinte nos Stories (era uma descri-
ção que eu estava fazendo): “Estamos diante do terceiro boom da odonto-
logia”. Houve um primeiro boom lá atrás, o dos aparelhos e da ortodontia,
depois houve o boom dos implantes, e agora estamos no boom da harmo-
nização facial.

E aí, caramba, vários médicos, dermatologistas, amigos e até mesmo pa-


cientes meus comentaram: “Italo, que absurdo! Você é um formador de
opinião, não diga isso, porque o médico e o dentista, blá blá blá blá…”. Olha,
pessoal, calma aí, devagar com o andor, que o santo é de barro. Vamos lá.

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Eu recebi várias mensagens com o seguinte teor: “Não, Italo, isso é absurdo,
há um monte de médicos aí disponíveis. Um dentistazinho recém e mal
formado já quer sair ganhando dinheiro, aí vai atrás de fazer esse negócio
de harmonização. É perigoso”. Eu respondi: “Ah, é, cara pálida? Então va-
mos lá. Você está comparando alhos com bugalhos”.

Essa situação é a mesma daquele pessoalzinho que fala assim: “O Ocidente


é muito tumultuado, bom mesmo é o Oriente”. Aí sabe o que eles fazem?
Comparam uma cidade badalada do caramba, como Chicago, Nova Iorque
ou São Paulo, tumultuada pra burro, com um mosteiro lá no Oriente, no
alto do Tibete. Ah, vá plantar banana! Quero ver você comparar Xangai,
Nova Déli, uma cidade oriental dessas cheias até o talo, com um mosteiro
inglês, com uma catedral gótica francesa. Caramba! Tem de comparar A
com A, B com B!

É para comparar A com B? Então vamos comparar um cirurgião-dentista,


um bucomaxilofacial, com mestrado, doutorado, anos de prática clínica,
um cara que faz cirurgia em base de crânio, um cirurgião de cabeça e pes-
coço, com um médico recém-formado em uma faculdade de quinta cate-
goria que fez uma pós em dermatologia, que “fez uma pós-zinha”.

Quem está mais habilitado? Quem você acha que domina mais toda a téc-
nica cirúrgica, domina mais anatomia, quem você acha que saberia resol-
ver as complicações? É o cirurgião-dentista bucomaxilofacial bem forma-
do ou o médico de quinta categoria que fez uma pós do avesso? Quem você
acha que dominará mais? Vocês comparam A com B, e não A com A! Que
absurdo!

Sabe o que é isso? Medo. Veja bem: uma dermatologista bem formada ou
um cirurgião-plástico bem formado não vai perder mercado nenhum. Que
história maluca de “perder mercado”! O pessoal fica falando “Não, mas tem
de ser médico para fazer isso”. Tem de ser médico por quê? Nariz torto é do-
ença? Olheira é doença? Sulco nasogeniano é doença? Essa porcaria nem
CID tem, que doença o quê! Quer pagar uma de médico? Vá tratar de pênfi-

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go só, pênfigo bolhoso, aí eu quero ver. Eu já vi dermatologistas entubando
gente porque o pênfigo fechou as vias aéreas do paciente. Quer brincar de
médico, vá fazer só isso. Cirurgião plástico quer brincar só de médico? En-
tão vá operar só lesão, carcinoma. Pronto, aí acabou, isso aí o dentista não
fará mesmo.

Já a estética é uma área de interseção! Esse alarde todo é medo. Bicho,


quem é bom não vai perder paciente. Fique calmo, cara. O que é isso, afi-
nal? É medo. É só medo. “Ah, não, o Conselho tem de resolver para mim um
problema. Eu não sou capaz de montar meu consultório e encher a minha
agenda, de fazer bem para o meu paciente, então o Conselho tem de deter-
minar que o outro amiguinho não pode ‘tratar’ uma coisa que nem doença
é.” Ah, faça-me o favor! Isso é um absurdo! Isso é medo, caia na real!

Essa é a hora de cair na real e falar: “Bicho, é, estou comparando A com


B, estou comparando realmente um dentista muito mal formado com um
médico muito bem formado. É isso o que estou fazendo”. Pois compare
um dentista bem formado com um médico bem formado, e compare um
médico mal formado com um dentista mal formado. Pronto, acabou, você
verá que dá na mesma, caramba. Dá na mesma porque estética é uma área
de interseção. Levantar nariz, preencher lábio, isso tudo está na interseção.
Fazer o quê? É simples.

Pare com esse negócio de “é um ato médico”, me poupe! Médico é uma raça
do cão! Essa porcaria de campanha “Quanto vale um médico?” é ridícula.
Ué, médico que não vale nada não vale nada. Um médico preguiçoso, que
não atende ninguém, não vale nada. Um médico que trabalha bem vale
muito, assim como um faxineiro que não trabalha bem não vale nada. Não
é porque o faxineiro é pobre que diremos “Ah, vale”. Não vale. Se trabalha
mal, não vale nada. Que coisa louca. E se o faxineiro trabalha muito bem,
não é porque é um emprego pouco qualificado que ele não valerá nada.
Vale muito, dentro da área dele. Que doidera! Qual o nome disso? É depen-
dência infantil. Não passa de reflexo, na verdade.

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Acabaram de dar aqui o exemplo do “Dr. Bumbum”. Caramba! Falou tudo.
Ora, o “Dr. Bumbum” era médico, por exemplo, com diploma. Nem conhe-
ço a história dele, não sei se o pegaram para Cristo ou não, não falarei dele
porque não acompanhei.

Caiam na real. Isso está dentro do grande campo da dependência infantil.


É aquela mesma pessoa que precisa ficar dando espaços na vida para o pa-
pai e para a mamãe. De tudo o que faz, precisa antes falar para os pais. Quer
fazer uma viagem, precisa falar para o papai e para a mamãe. Vai comprar
um carro, tem de falar para o papai e para a mamãe. Vai casar, tem de falar.
Isso é dependência infantil. Livre-se disso.

Isso serve para mim, para você, para todos. Todo mundo neste país tem
uma tentação a essa dependência infantil infernal. Tem de ficar justifican-
do um passo atrás do outro. Caramba, pare com isso! Vá tocar sua vida!
Quando você começa a fazer isso, você ganha uma força. Você começa a
ganhar uma força que o deixará destemido.
É igual à onda do “psicólogos com medo dos coaches”. Como assim, “medo
de coach”? Uma coisa trata uma coisa, outra coisa trata outra coisa. Do
mesmo jeito que há coach muito mal formado, há também psicólogos mal
formados. Existem psicólogos que não ajudam ninguém, assim como coa-
ches que não ajudam ninguém. Pronto, simples assim.

E outra coisa, meu amigo: se o seu trabalho de psicólogo tivesse sido bem
feito, se todo psicólogo trabalhasse muito bem, não ia haver espaço para
outra abordagem, para uma abordagem positiva. Não ia. Justamente, né?
Uma área em descrédito dará espaço para aparecer outros tipos de atua-
ção. É simples, caramba, muito simples. Sempre haverá maus profissionais
em uma área e maus profissionais na outra.

É questão de botar a mão na cabeça e pensar: “Isso aqui é só reflexo de uma


outra área minha, de outro domínio do meu espírito, chamado dependên-
cia infantil. Eu quero que todo mundo resolva tudo para mim”. Claro que
quer, somos massacrados desde que somos pequeninos, eles só enfiaram

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areia nos nossos projetos. Todo mundo é assim, todo mundo sofreu isso na
família, um ou outro que não. Com a maior parte das pessoas foi “Vou fa-
zer tal coisa”, aí veio a família e falou (e ainda fala) “Cuidado, não faça isso!
Não empreenda!”. Aí fica todo mundo aterrorizado, com um senhor medo,
só podendo fazer aquilo que papai e mamãe validam. Se os pais validaram,
aí pode fazer. Se não validaram, não vai fazer. Você fica buscando validação
externa o tempo todo. Pare com esse negócio.

O pessoal comenta: “Ah, eu conheço um caso de um dentista que necrosou


a cara do paciente”. É, mas eu conheço mil casos de médicos que fizeram
tal coisa e a cara do paciente necrosou. Sabe qual o nome disso? Ossos do
ofício. Risco. Acontece. Vai acontecer com médico, com dentista, depende
de o profissional ser bem formado ou não.

Aí reside o ponto, então não me venha com o papo (como alguns médicos
vieram) de “Italo, você, como formador de opinião, fale que isso não é cer-
to, você não pode dizer…”. Como assim, “como formador de opinião não
posso dizer”? É aí que eu vou falar mesmo. Se não tivessem mexido comi-
go, eu não falaria nada, mas provocaram…

É o inverso, na verdade. Deixe o dentista fazer harmonização, ué. Deixe o


coach aparecer. O mercado vai selecionar, há atividades que não possuem
muita regulamentação mesmo. Não tem mistério.

Volto a falar: trata-se de outro movimento, é um movimento de medo, de


insegurança que está enraizado no espírito nacional, de paternalismo. “Eu
não consigo lutar direto com meu concorrente por meio da boa prática, do
fairplay, então eu tenho sempre de apelar para alguém de cima, alguém de
cima vai tomar a decisão para mim.”

Dermatologistas e médicos estão com medo porque não estão entregando


o que de fato o público pede. E aí precisam de mais espaço para poder cres-
cer mesmo dentro dos seus erros, da sua inconstância… Isso acontece em
todas as áreas. Se o sujeito entrega, se ele é bom, ora, não haverá ninguém

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de cima precisando regular a atividade dele. Haverá uma regulaçãozinha
ou outra ali apenas. Não estou falando de regulação jurídica, estou falando
de aceitação do próprio público, do próprio chefe.

Vamos matar as dependências infantis, as expectativas adolescentes. Isso


ferra a nossa vida. Não vai funcionar para ninguém. Peguei os médicos
para Cristo porque foram vocês que ficaram provocando de modo muito
inconsistente. Veja o médico, o cirurgião plástico ou o dermatologista que
não estão entregando nada muito bom, não têm muito perfil de empre-
endedor, não ocuparam o espaço que tinham de ocupar e ainda, quando
aparece algum paciente, têm medo de fazer o procedimento. É claro que
não vão crescer, e aí vão botar a culpa em quem? “Ah, a culpa é do Conse-
lho que autorizou a entrada desses malvadões, desses dentistas malvados.”
Ah, cresce!

É você que não está trabalhando direito, que não entregou, que não tem
o drive do empreendimento, do bom atendimento ao público! Dane-se se
você é bom tecnicamente. Preste atenção: na maior parte dos trabalhos,
ser bom tecnicamente não é nem metade do problema.

Você tem de ser bom tecnicamente e ter mais um monte de outras habi-
lidades, meu filho. Você pode ser SUPER bom tecnicamente. Se você não
tem habilidades humanas para se relacionar com o público, com seus par-
ceiros, com seus colaboradores, se você não tem visão do empreendimento
para fazer o negócio crescer, se você não tem a humildade para receber fe-
edback dos outros, sabe o que acontecerá? Seu domínio técnico não valerá
de nada.

Você precisa de domínio técnico (isso é óbvio, ninguém pode trabalhar


em algo que não sabe fazer), mas precisa de várias outras habilidades. En-
tão não me venha com o papo de “Ah, o dentista não tem o mesmo domí-
nio técnico que eu”. Primeiro: isso é falso. Para esse tipo de atuação, óbvio
que ele tem ou pode ter mais domínio técnico. Segundo: ele pode ter mais
uma série de outras habilidades que você não tem! A idéia é simples, e isso

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vale para qualquer coisa na vida, até mesmo para relação entre irmãos.
Por exemplo: um irmão é bonzinho e tal, porém não fala direito, não se
interessa muito pela família, não leva presente para os pais, não liga para
a avó, mas também nunca errou, nunca pisou na bola. E aí ele fica louco
da vida porque o outro irmão, que é um pouquinho mais malandro, mas é
mais envolvente, gosta de conversar, liga para a avó, acaba também sendo
mais querido, é mais convidado para festas e não sei o quê. E o irmão bon-
zinho fica louco com isso.

Eu pergunto: fica louco por quê? Por que você está com raiva? Quem foi
que falou que não fazer idiotice era a única coisa que se valoriza na vida?
Cara, nós valorizamos sorrir diante dos outros, valorizamos ser amados,
receber uma ligação, até temos um pouquinho mais de benevolência com
a idiotice que o irmão malandro faz.

Imagine que você contratou uma faxineira para a sua casa que limpa mui-
to bem, mas ela chega em casa e não sorri, não lhe dá bom dia, está sem-
pre de cara fechada. O que vai acontecer com ela? Será mandada embora,
porque ninguém agüenta gente assim, diacho. Isso é dependência infantil.
É você achar que, só porque fez bem uma coisinha, todo mundo tem de
cobrir as suas falhas com a interferência paterna. Isso não funciona, ca-
ramba, não é assim que a vida funciona.

Nós precisamos recrutar uma série de habilidades dentro de nós. A primei-


ra atitude é matar o fetiche louco de que alguém de fora tem de resolver
nossos problemas. Nós é que temos. E fazemos isso tendo domínio técnico
da coisa (ou seja, olhando para a natureza da relação e tendo domínio da-
quilo), além de mais um monte de outras coisas! Aí está o ponto! Fica um
monte de médico louco, de cabelo em pé, porque não tem esse outro do-
mínio, como também haverá dentistas que não terão esse outro domínio!

Ninguém está preocupado com o paciente em si, porque, se estivessem,


a porrada ia para cima dos médicos e dentistas. De quais? Dos maus mé-
dicos e dentistas. Não me venha dizer “Agora dentista vai fazer harmoni-

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zação facial, isso é absurdo”. Absurda é a sua incompetência, o seu medo.
Pare com isso.

Alguém comentou aqui: é a interseção entre contadores e advogados. Exa-


tamente! Há uma área de interseção mesmo. Às vezes é muito melhor um
contador especializado que um advogado sem especialidade, que você
contrata só porque é advogado. Que obviedade.

Reserva de mercado é coisa de gente medrosa. Não embarque nessa. Sabe o


que vai acontecer se você começar a defender esse tipo de ladainha? Você
se enfraquecerá. Seja você o primeiro médico a dizer: “Olha, que venham
bons dentistas, melhor para os pacientes”. E seja o primeiro advogado a
dizer: “Que venham bons contadores para nos ajudar aqui em nosso es-
critório”. Isso lhe dá segurança, você não fica com medo, você corre atrás.
Você entregará o melhor resultado no médio prazo para os seus clientes ou
pacientes.

Preste atenção: o desejo por segurança sempre nos ferra. Não é segurança
que você tem de buscar na vida, é força. Quais forças? A força da técnica e
das outras habilidades que você precisa recrutar. Fique aí buscando defesa,
falando “Ah, não, tem de respeitar meu espaço, porque eu me formei como
doutor médico, como doutor advogado…”. Ninguém vai respeitar seu espa-
ço, meu filho. Se você não for bom, ninguém vai respeitar.

Imponha-se, e imponha-se por meio de boa técnica, do bom relacionamen-


to. A força sempre vence. O desejo de segurança vai enfraquecer você, não
é isso que você tem de buscar. Tem de buscar força. Enfie isto na cabeça,
independentemente do que você ache: seja forte.

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Live #31 | 28/02/2019 (quinta) - Instagram / Youtube
A VIDA PRECISA DE UM POUCO
DE CONFUSÃO

O assunto de hoje é o tema da ordem, da organização.

Eu vejo uma galera que fala assim: “Italo, eu queria começar a organizar
melhor a minha vida. Eu acho que eu já sei o que eu vou fazer; eu vou com-
prar uma agenda. Eu vou pegar a minha agendinha e vou colocar os ho-
rariozinhos, tudo que eu tenho para fazer”. Você já viu gente assim? Você
deve ter feito isso também. “Olha, Italo, eu já sei o que vou fazer. Eu vou
acordar às 7 horas da manhã. Às 7h30 vou tomar meus remédios. Às 8 vou
fazer meu ovo mexido com bacon, porque estou fazendo uma dietinha ba-
cana.” E a pessoa vai naquela história: “Às 7 da manhã faço uma coisa, às
7h30 faço outra, às 8 faço outra, às 9 faço outra”, e assim por diante. Isso
aqui o pessoal faz toda hora, e dá para perceber que não dá muito certo.

Costuma não funcionar muito. Aí está o ponto. Eu não tenho nada con-
tra agenda. Acho bom ter agenda. Um pouquinho de agenda é bom ter.
Mas eu vejo um pessoal com um baita de um fetiche com agenda que não
consegue se organizar, porque, em regra, o problema não está na agenda.
Em regra, o problema não está em você fazer agenda ou não. Nós meio
que sabemos. A sua produtividade não melhora, exatamente, quando você
tem uma agenda clara; você não se organiza melhor quando você tem uma
agenda na cara.

“Já fiz isso várias vezes, mas não funcionou. Eu não sei o que acontece, não
funciona.” Assim que nós começamos a querer melhorar, a querer ser um
pouco mais organizados, vem sempre alguém e fala assim: “O importante
é você ter uma agenda. Você tem de ter uma agenda. Você vai precisar ter
uma agenda, e ali você vai anotar o que você precisa fazer em cada hora”.
Sabe quando isso vai dar certo? Vai dar certo raramente, em pouquíssimos
casos.

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Não vai funcionar, cara. Compra uma agenda para ver se vai funcionar. Não
vai funcionar. As pessoas já tentaram fazer isso mais de mil vezes, e não
funciona.

O mais importante, e que no início vai parecer um pouco teórico, mas de-
pois nós vamos concretizando, é que o problema não está na agenda. O
problema não está em você saber o que tem de fazer a cada hora do seu dia.
Isso aí, no fim das contas, não importa muito. Sabe por quê? Porque há dias
em que você vai acordar com dor de cabeça, ou vai acordar atrasado, ou vai
ter uma demanda do seu primo, ou um paciente seu vai faltar, e por aí vai.
Então, o problema não está na agenda. Com a agenda você não vai conse-
guir quadricular a vida.

Trata-se de uma porcaria de um fetiche maluco querer quadricular a vida.


A vida não está aí para ser quadriculada. Nós não temos de quadricular a
nossa vida.

A nossa vida – preste atenção – precisa de um pouco (escuta o que eu vou


falar; o pessoal da organização vai ficar com os cabelos em pé agora) de
confusão. Como diriam os italianos: para esse tipo de coisa, é necessário
um pouco de confusão. Para você poder fazer uma vida boa, uma vida gos-
tosa, uma vida que você goste de estar ali dentro, é preciso de um pouco de
confusão. Não é nenhuma bagunça. É a mesma pessoa que quer que a casa
seja um showroom. Não pode tirar nada do lugar. Eu digo assim: “Cara, sua
vida é uma casa triste”. A casa tem de ser bonita, óbvio, a casa tem de ter
bom gosto, óbvio, a casa tem de estar bem decorada, óbvio; quanto mais,
melhor. Porém um pouco de confusãozinha é importante. Para quê? Por-
que você vê a vida da coisa.

Você não está entrando em um showroom. O showroom não demonstra


vida. Está lá para você ver. “Este aqui é o apartamento ideal.” Mas nós não
vivemos em uma vida ideal. A vida precisa de um pouco de confusão. Um
pouquinho de confusão é do caramba; a sua vida anda, você gera proble-
mas que você consegue se organizar ali dentro.

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É o mesmo pensamento: “Italo, por que você começa a live às 12h52?”. O
que é 12h50 na vida? O que tem simetria nesta vida? Você olha para a cara
do Tom Cruise, aquele sujeito lindo. A cara dele é toda assimétrica. Todo
mundo sabe disso. Um pouco de assimetria é importante. A própria ques-
tão da arquitetura, por exemplo. Você vai lá em uma catedral fantástica,
gótica, lá no interiorzinho da França. A fachada não é nada simétrica, re-
pare nisso, mas é absolutamente harmônica. O que está de um lado não é
o que está do outro, mas tudo se harmoniza.

A harmonia da vida humana não está na simetria. A harmonia da vida hu-


mana não está na coisa quadriculada. A coisa quadriculada, a coisa simétri-
ca é tara de engenheiro, é tara de gente que tem um fetiche nisso. Ninguém
consegue ser mais produtivo, ninguém consegue encontrar o sentido às
custas de quadricular a vida humana. A vida humana não se quadricula. É
preciso um pouco de confusão, um pouco de liberdade.

“Então, Italo, se o segredo da produtividade não está em eu colocar todas


as coisas em uma agenda, onde está?” Bem, o segredo não está na agenda.
O segredo está em você sacar qual o processo.

Preste atenção. Uma coisa é assim: “Às 7 horas eu faço isso, às 7h30 eu faço
aquilo, às 8 eu faço aquilo”. Trata-se de um tipo de ordem: uma ordem cro-
nológica. Todavia ordem cronológica não dá conta de aumentar a sua pro-
dutividade. O que dá conta de aumentar a sua produtividade é uma ordem
ontológica, por assim dizer. É você saber o que é mais importante.

O que é mais importante? Quando você saca o que é mais importante, você
está dentro de algo chamado processo. É o processo que importa. O que
importa é você sacar qual o processo da sua vida. Qual o processo das suas
relações afetivas? Qual o processo do seu trabalho? Qual o processo da sua
escolha? Aí você vai vendo.

Veja só: processo de relação afetiva. Pessoas são mais importantes do que

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coisas.

Vocês viram o filme Beleza americana? Lester, personagem de Kevin Space,


estava tentando, de algum modo, se reconciliar com a esposa, e eles come-
çam a se beijar; há ali uma musiquinha, o clima começa a esquentar, eles
estavam tomando um vinhozinho. Quando eles vão se beijar (lembram da
cena? É fantástica), ele está com o copo de vinho na mão, e a mulher trava;
ela não consegue mais ficar ali apreciando o beijo, o abraço, o carinho do
marido. Ela começa a olhar para o vinho que vai manchar o tapete, que vai
sujar o sofá. Pronto. Quebrou o processo, está entendendo? Claro que vai
haver uma alteração ali de qualidade na percepção.

O que aconteceu? Ela colocou a coisa, a limpeza de um carpete, na frente


da pessoa. Ela colocou uma coisa na frente da pessoa. Ela inverteu a ordem
do processo. Ora, pessoas são sempre mais importantes do que coisas.

Então, na hora de você tomar uma decisão - “O que eu preciso fazer agora?”
-, você pondera. Se for uma coisa de relacionamento afetivo, uma coisa de
convívio, é isso que importa. Então, você colocou na agenda que, em deter-
minado dia, às 19h30 vai lavar a louça ( já vi agenda de todo tipo, acredite).
Mas acontece que nesse dia específico o seu filho tem uma demanda con-
creta. Que se dane a louça, deixe a louça para amanhã. Deixe a louça para
lavar outro dia. Não lave a louça. Por quê? Porque há uma pessoa na sua
frente com uma demanda. Vá ficar com gente, que é muito melhor.

A primeira coisa sobre processos: pessoas vêm antes de coisas. Cara, isso dá
uma tranqüilidade na vida. Então, você já começa a falar assim: “É bom ter
uma agenda, mas, se eu tenho na minha cabeça esse critério de processo,
já facilita pra burro”. No trabalho acontece assim também. Você sabe o que
precisa fazer. O que é o processo de trabalho? Você tem de fazer a primeira
distinção assim: coisas importantes e coisas urgentes. É aquela coisa velha
de guerra. Não estou inventando moda. Todo mundo fala, todo mundo sabe
disso. Nós temos de resgatar certos conceitos fundamentais para colocar
nossa cabeça em ordem.

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Em relação a trabalho, um jeito é assim: “Às 9h30 eu vou ligar meu compu-
tador, às 10h30 eu vou responder relatórios, às 11h30 eu vou fazer tal coisa”.
Agora, o jeito mais importante é o seguinte: separe as suas tarefas e ativi-
dades em “importantes” e “urgentes”. Dentro do que é importante e do que
é urgente, você precisa encontrar o equilíbrio. Você vai ter um monte de
tarefa urgente que pode tomar a dianteira das importantes. Então, precisa
encontrar um equilíbrio. Você tem de separar um tempo para fazer coisas
urgentes e para fazer coisas importantes.

Então, você vai organizar. Você vai pensar no seu trabalho assim: “Caram-
ba, o trabalho só tem demanda urgente. Eu achei que fosse fazer uma coi-
sa, mas chegou tanta demanda de coisa nova, que eu não consegui fazer
o que eu tinha de fazer”. Opa, então temos um problema aqui. É sempre
assim? Então, você tem de arranjar alguém para ajudá-lo. É sempre assim?
Então, de repente, o seu trabalho só lida com coisas urgentes, e você não
pode ficar aflito com isso. Imagine um bombeiro, que apaga fogo, se quiser
organizar a agenda dele. Não dá. Ele sabe que a natureza do trabalho dele é
apagar fogo, que é sempre uma urgência.

Então, pronto. O que ele tem de fazer? Ficar tranqüilo dentro do processo.

Imagine só um sujeito de design. O nosso designer, por exemplo, da nossa


empresa aqui. É sempre urgente. Nós sempre pedimos algo urgente para
ele. Ele precisa ficar tranqüilo com isso. Tem de falar: “Beleza. É isso. Não
é que isso é urgente. O meu trabalho é assim”. Então, você se acalma, ali
dentro. O bloco é: coisas urgentes e coisas importantes. Você precisa ter
uma listinha das coisas importantes, que você deveria estar fazendo e não
está fazendo, e depois das coisas urgentes. Existe uma previsibilidade nas
coisas urgentes.

Por exemplo, meu trabalho. O que é urgente? Laudo é uma coisa urgente.
O pessoal vem aqui, e não tem como. Precisou do laudo porque o advogado
pediu, precisou do laudo porque o RH da empresa pediu. Isso é urgente. O

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que você faz? Você cria um processo para aquilo. É previsível. Veja bem, eu
não sei quem vai me pedir o laudo. Isso é imprevisível. Eu não sei se será a
Dona Angélica, ou a Dona Olga, ou o Seu Gabriel. Eu não sei quem vai me
pedir o laudo, mas eu sei que laudo é a urgência do meu trabalho. O que eu
faço? Eu crio um processo para aquilo. Então, pronto. Eu não tenho mais a
percepção de urgência da coisa. Quer dizer, aquilo não me dá uma deman-
da afetiva que me tire do eixo. Qual o processo? “Denise (minha secretária),
por favor, sempre que alguém te pedir um laudo, você vai pegar o nome
da pessoa, CPF dela, qual a demanda da pessoa. Você já me dá um negócio
mastigado para eu fazer isso rápido”. Pronto. Eu não tenho mais a percep-
ção de urgência.

Quando o pessoal me cobrava o laudo, era assim: “Que data eu coloco? De


quando a quando?”. Isso tem de vir no processo. Então, você cria um pro-
cesso. É isso que não bagunça a sua agenda. O que não bagunça a sua agen-
da? Quando você tem os processos para o seu trabalho. Então, quanto a
trabalho, o esquema é: importância e urgência. Você vai ver que existe uma
previsibilidade nas urgências; a coisa não muda muito. Em geral, o que te
demandam de modo urgente é sempre, mais ou menos, a mesma coisa. O
que você vai fazer? Você vai criar um processo para aquilo, para você aten-
der melhor. E o que é importante? Colocar na lista. Isso é muito mais útil
do que criar uma agenda.

Você sabe qual é a minha agenda? Eu não tenho. Eu só tenho hora para
acordar. O pessoal pergunta assim: “Caramba, Italo. Você é produtivo pra
caramba. Meu Deus do céu. Tão novo e já fez tudo isso. Tem cinco filhos,
está vindo um sexto filho aí. Você faz um monte de coisa. Eu queria saber
como é sua agenda”. Eu não tenho agenda. Você acha que eu tenho agenda?
Eu não tenho agenda, absolutamente. Agenda é coisa de maluco. E eu lá sei
o que eu vou fazer às 8 da manhã? Eu não sei. Mas eu sei o que é importan-
te, o que é urgente, eu tenho meus processos dominados, e sempre que eu
estou em uma situação entre pessoa e coisa, eu escolho pessoa. A sua pro-
dutividade vai para outro nível, a sua presença vai para outro nível, você
fica dentro do que você tem de fazer. Aí reside o segredo.

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Então, cara, mate essas agendas. Não precisa de agenda para coisa nenhu-
ma. Agenda só atrapalha. Não precisa de agenda. Agenda é um saco, é um
porre. Esqueça a agenda.

“Italo, você não tem uma agenda?” Óbvio que eu tenho uma agenda. Meus
pacientes estão ali, mais ou menos. Uma agendinha você tem de ter. Mas é
não ficar amarrado na agenda. E, sobretudo, não é a agenda que vai colocar
ordem na sua vida. O que coloca ordem na sua vida é a ordem de priori-
dades; não é ordem do horário. Porque, se você agendou, se você amarrou
a sua vida na agenda, o que você faz tal hora, quando vier algo, de fato,
prioritário, você vai ficar ou ansioso ou vai se sentir um derrotado. Não vai
funcionar. Não precisa de agenda. Do que você precisa? Alguns marcos no
dia você precisa ter; hora que vai acordar, hora que vai dormir. É uma coisa
ou outra. Agora, quanto ao resto, o que você vai fazer no meio daquele ne-
gócio, é preciso ter o processo na mão. É isso que funciona.

Então, processo: coisas importantes e coisas urgentes. Pessoas sempre vêm


antes de coisas, na ordem da prioridade, na ordem da atenção, na ordem
do que você tem de fazer. Pronto. A coisa começa a fluir melhor. Você co-
meça a encontrar uma presença.

“Eu comprei uma agenda, e o máximo que eu escrevi nela foi o meu nome.”
É claro. Não é isso que você tem de fazer. É muito melhor – preste atenção
– para você encontrar ordem, para você encontrar pontualidade, para você
conseguir encontrar produtividade no seu dia-a-dia, é mil vezes melhor
você dominar isso a que chamamos de processo. É o processo que vai lhe
dar ordem.

“Italo, o processo sempre me pareceu teórico demais. Eu vejo essas lives de


processo e não entendo muito bem o que o pessoal quer dizer com proces-
so.” Processo é: importância e urgência; depois, pessoa vem antes de coisa;
e, no meio disso, você escreve mais ou menos o que você deve fazer.

Isso vai lhe dar uma tranqüilidade, uma presença, uma instalação na sua

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realidade, vai lhe dar uma grande produtividade; com isso vêm um confor-
to, uma segurança, eu diria, que diminuem muito a ansiedade. A ansiedade
pode aparecer? Claro, a ansiedade como um transtorno deve ser tratada
como transtorno. Mas não estou falando da ansiedade de transtorno, estou
falando de outro tipo de ansiedade: a ansiedade fisiológica funcional. Ela
aparece por dois motivos: porque você não tem a mínima idéia do que vai
fazer, então você fica ansioso; ou porque você amarrou todo o seu dia e
você não consegue cumprir aquilo nunca, e fica ansioso.

Quando você não consegue cumprir aquilo nunca, você vai se sentindo des-
motivado pra caramba, muito desmotivado. Então, é isso. A agenda pode
ser útil para você organizar uma vida que já está organizada anteriormen-
te, quando você tem um princípio hierárquico na sua cabeça; quando você
tem o princípio de importância, o princípio de urgência, quando você tem
um princípio de que pessoas vêm antes de coisas, pode ser que a agenda
comece a fazer sentido para você. Para deixar claro: não comece tentando
organizar a sua vida pela agenda. A agenda vai amarrar a sua vida. É isso
que a agenda vai fazer. Ela não liberta; ela amarra.

Então, essa é a idéia da live de hoje. Vamos tentar esquematizar: coisas im-
portantes e coisas urgentes. Isso aqui é fundamental na nossa cabeça. E
como você faz? Quanto a trabalho, separe o que é importante e o que é
urgente; quanto a família, separe o que é importante e o que é urgente. Por
exemplo, educação de filhos. Coisas que são importantes: educá-los bem,
que eles tenham uma boa educação. O que é urgente? Levar o moleque
para vacinar, porque a vacina está atrasada já há três meses; cortar a unha
do moleque, ele está parecendo o Zé do Caixão, parece um largado; cortar
o cabelo.

Há coisa que é importante e há coisa que é urgente. Cortar unha é impor-


tante? Não. Cortar o cabelo é importante? Não. Mas é urgente, porque o
moleque está parecendo um mendigo. Dar vacina? Bom, é importante e
urgente. Então, você vai lá, organiza as tarefas, coloca em uma listinha. Aí
a listinha funciona. Colocar no papel esse tipo de coisa funciona, para dar
uma clareza da situação. Mas colocar coisa de agenda não adianta coisa
nenhuma.

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Live #32 | 1º/03/2019 (sexta) - Instagram / Youtube

SABE POR QUE NINGUÉM TE AMA?

Sextou. Hoje é sexta-feira, não há dia melhor para falar das coisas do cora-
ção. Todos os corações aflitos, todas as carnes trêmulas, tudo se ativa neste
dia maravilhoso da semana onde o amor pode acontecer. Hoje iremos falar
sobre o amor, mas não exatamente sobre o amor.

Falarei para as meninas queridas e para os meninos desencorajados. É para


vocês que eu falo hoje, meus amados. Vocês, que estão à procura de um chi-
nelo velho, de um abraço carinhoso, de alguém que possa afagá-los nesta
noite de sexta-feira, vocês, que estão sem um amor para chamar de seu. É
para vocês que eu dirijo toda a minha conversa hoje. “Italo, eu já tenho ho-
mem”, “Italo, mas já tenho mulher”, eu sei, mas sempre podemos melhorar,
então eu também falo para vocês no dia de hoje. Fiquem aí.

Apaixonem-se, é para isso que estamos aqui hoje, meus amados e amadas,
porque sei que vocês ficam por aí chorando pelos cantos. Vai entrar o Car-
naval e vocês vão se desfazer nos bloquinhos, vão colocar uma máscara
atrás da outra para que tudo vire cinzas na Quarta-feira de Cinzas e enfim
vocês chorem amargamente a solidão que invadirá seus corações naquele
dia. É isso o que acontecerá com vocês, criaturas amadas, se o coração dos
senhores não estiver preparado para receber as serpentinas e os confetes
da verdade do amor. Então não se iludam neste Carnaval, mas fiquem aqui
comigo e conversemos exatamente sobre este assunto dos pares românti-
cos.

Não quero que a vida de vocês vire cinzas naquela quarta-feira triste onde
acabam-se os blocos, onde as trombetas cessam, onde os pés sangram de-
pois de terem se desfeito naquelas avenidas do Carnaval. Fiquem aqui co-
migo que falaremos um pouco sobre o amor, pois sei que as senhoritas e
senhoritos estão aí à procura de alguém para chamar de seu. Acontece que
vocês, e eu, e todos nós, em algum momento da vida, andamos por este
mundo feito idiotas. Somos uns grandessíssimos idiotas e é por isso que

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temos dificuldade de encontrar alguém que se interesse por nós. Esse é o
ponto central da nossa conversa.

Eu vejo um monte de gente que vai para os meus cursos, que vem aqui me
procurar, são pessoas bonitas, interessantes, com doutorado, com “dipro-
ma”, mas estão sem ninguém, estão sem amor. Estão olhando para o seu
par romântico, que é a sua solidão, e não encontram uma fonte de inspira-
ção.

“Por que isso acontece, Italo?” Acontece pelo seguinte, veja só. Temos de
entender o mecanismo desta porcaria. Há pessoas que são muito bacanas,
legais, bonitas, interessantes até, mas não têm uma mulher, um homem,
um namorado, não param quietas com ninguém (e queriam parar). Todos
conhecem gente assim, talvez você seja uma pessoa dessas. Há pessoas que
não param porque não querem mesmo, mas há quem queira parar quieto
com alguém, há quem queira formar um casal, queira ter uma coisa mais
íntima, com uma estrutura, uma solidez, para de repente até casar. O sujei-
to ou a menina querem sossegar, querem arranjar uma pessoa, e às vezes
não conseguem, não encontram. Vê-se um monte de gente que está soltei-
ra há muito tempo. Por que isso acontece?

O nosso coração dilata, ou seja, nós conseguimos aumentar a nossa capa-


cidade de amar. Esse é um fenômeno que todo mundo conhece. Um pai
que tenha um filho, depois outro, e depois outro, não divide o amor, o amor
aumenta. Quando entra um filhinho, você começa a amar aquela porcaria-
zinha. Depois entra outro filhinho, e curiosamente, você consegue amar
mais os dois, o amor não divide. Não é como um prato de bife. Se eu tenho
um prato com um bife gostoso, com alho e um ovo estalado em cima, e se
eu quero dividir esse prato com alguém, eu vou comer meio bife, não dois.
As coisas materiais gostosas são divisíveis, nós a dividimos, são finitas. Se
eu quero compartilhar o pote de doce de leite com café que recebi em Belo
Horizonte com a minha irmã, e se cada um dá uma colherada, é claro que
eu vou comer só meio pote de doce de leite e ficarei sem a outra metade.

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O amor não é assim. Se eu entrego o meu amor, o meu conhecimento,
acontece um fenômeno misterioso: o amor e o conhecimento multipli-
cam-se por dois. Se eu recebo um filhinho na minha família, eu começo a
amar. Se eu recebo um segundo, eu não amo pela metade, eu amo o dobro.
É uma coisa muito curiosa que acontece. Com o conhecimento acontece a
mesma coisa. Se eu estudo e transmito conhecimento a vocês, eu fico mais
inteligente, é isso o que acontece. É curiosíssimo, é uma coisa maravilhosa.
Essa é a estrutura da vida.

Se ao passo em que o amor sai ele se multiplica, ou seja, se eu aumento a


minha capacidade de amar ao amar aos demais, há um outro fenômeno
muito grave que é o inverso deste. Imagine-se, faça esse exercício contigo
aí. Você. Se você dirige o seu amor a você mesmo, pronto, ferrou. Você não
tem mais como receber amor dos outros. Veja que coisa curiosa.

“Italo, isso é muito esquisito, porque é contra tudo o que temos ouvido fa-
lar. A gente ouve que você tem que se amar primeiro, para que outro te ame
depois”. Beleza. Vai nessa para ver o que acontece.
Se você se ama primeiro, se você disputa o seu amor consigo, ninguém mais
vai ter necessidade de te amar. Você não recebe mais amor nem atenção de
ninguém. Veja bem: o seu amor, a sua autoestima, o seu “autoamor”, como
o pessoal gosta de chamar, não tem de ser dirigido a você, não é assim que
você se torna uma pessoa mais amável, meu bem. Você se torna uma pes-
soa mais amável não quando se ama, não quando se serve, meu santinho,
mas quando ama mais aos outros. Este é o segredo desta porcaria.

Comece a se amar e a pensar “Agora eu me amo, só penso em mim”, e pron-


to, acabou, ninguém mais precisa pensar em você. Não cabe outro olhar
para dentro de você. É um fenômeno. Você pode ouvir o que quiser, pode
enfiar o que quiser na cabeça, mas infelizmente é assim que a coisa acon-
tece. Nós não somos causa suficiente para o nosso amor.

Se você está mortalmente interessado em si, em se amar, sabe o que acon-


tece? Você tapa um buraco. Ninguém mais te olha, ninguém mais te ama.

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É simples assim. Você quer começar a ser uma mulher interessante, dese-
jável, quer que os “boys” caiam todos aos seus pés, quer finalmente poder
gritar, ao chegar neste dia da semana, “Agora sextou, vou encontrar meu
amor”? Quer de fato que as pessoas gostem de você? Seja amável, seja in-
teressada.
Se você quer ser interessante, seja interessado, como já diria nosso psiquia-
tra Eduardo Mascarenhas. É isso o que você tem de fazer. “Italo, mas inte-
ressado em quê?” Nos outros, em tudo! Isso não é desleixo consigo mesmo.
Você vai cuidar de si em uma medida normal, vai cuidar do seu corpo, da
sua saúde, da sua alimentação, das coisas de que você tem mesmo que cui-
dar, e pronto, não se dê muito interesse.

O problema surge quando você fica olhando só para si, pensando “Mas será
que sou interessante? Será que sou uma pessoa linda e gostosa? Será que
sou inteligente? Agora tenho de olhar para mim, vou cuidar de mim”. É, vai
nessa para ver onde você vai cair! Vai cair na solidão, caramba, é por isso
que está sozinha aí, Pai amado!

Ame aos outros, aos demais, ame extrinsecamente, e aí você começará a


se tornar amável, desejável, você começará a se tornar o foco de atenção.
É simples assim. Você que está solteiro ou solteira há um tempo, ou então
você cujo casamento está uma porcaria, que fica dizendo “Nossa, Italo, per-
di a conexão com meu marido ou com a minha esposa, não temos mais
conexão”. Você está nesta situação porque está olhando só para si, só para
o seu prazer, só para os seus interesses, para si, para si e para si.

“Ah, ele não me ajuda a lavar a louça”, “Ela não me ajuda a trocar a lâmpa-
da”, “Ele não me ajuda cuidar de não sei o que…” Você está olhando para
você, você, você e você. Pronto, o outro não olha mais, não cabe. Não cabe
o seu olhar e mais um. Quando você se olha, não há necessidade de o outro
te olhar. É claro que a desconexão vai vir, é claro que qualquer qualidade de
relação fica uma porcaria. É assim que funciona sempre.

Você tem que cuidar de si, isso não é uma apologia ao desleixo pessoal. Eu

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sou o primeiro a dizer o contrário: você tem de ficar forte, ficar bonito, ma-
quiar-se, cuidar de si, vestir-se bem, procurar uma consultora de imagem
e estilo (siga a Paula Serman no @belezacura), buscar uma nutricionista,
uma educação física, cuidar da sua imagem. Tem de procurar essas coi-
sas. Óbvio, quanto mais bonito você ficar, melhor, é um elemento a mais.
O problema não é esse. O problema acontece quando você faz isso tudo
de um modo absolutamente egoísta. Tem de buscar essas coisas sem dar
importância para elas. Elas são absolutamente coexistentes, funcionam
como uma base, não são um fim em si, mas um meio para que você possa
operar. Esté o truque da vida.

Quando você está pensando só em si, não cabe outro olhar ali. Esse assunto
aí, de que “Ah, ninguém me ama, eu amo fulano mas ele não olha pra mim,
não corresponde ao olhar apaixonado que eu tenho”, é tudo uma bobeira.
Não corresponde porque você não é uma pessoa interessante, e não é inte-
ressante porque não é interessado. Não tem mistério. Quer que os outros se
interessem por você? Seja uma pessoa interessada, caramba, interessada
nos outros, no mundo exterior.

Quer receita para ser uma pessoa absolutamente desinteressante, um pé


no saco? Fale só de si e só das coisas que estão diante de seus olhos. Seja
uma mulher ou um cara que chega em um ambiente e só sabe falar de si
ou de coisas idiotas, de coisas que estão acontecendo ali fora. “Ah, o que
está acontecendo hoje?” “Hoje está chovendo, e o elevador está quebrado”.
É isso o que torna uma pessoa chata, desinteressante, é isso o que fará com
que você não consiga aprofundar nos relacionamentos, é isso o que fará
com que você não encontre alguém com quem de fato possa compartilhar
uma vida. É um saco.

Todos esses relacionamentos que aparecem a partir de um vínculo muito


frágil dão em término. Por exemplo: “Ah, a gente se interessou um pelo ou-
tro porque nós dois gostamos de comida elaborada, nós nos conhecemos
no circuito gastronômico da minha cidade”. Tá. É só isso? Esse é o único
ponto de interesse entre vocês? Saiba: o relacionamento vai acabar, porque

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comida é uma coisa que está na frente do olho. Uma hora um dos dois irá
enjoar, ou ficar diabético, ou vai perder o emprego e não vai mais poder
comer no mesmo restaurante. Pronto, o vínculo acaba, é claro que o rela-
cionamento também acabará.

Por outro lado, se o sujeito é uma pessoa que consegue falar de outras coi-
sas, de Arte, de filmes, se consegue fazer piadas, projetos, se consegue se
interessar verdadeiramente no outro, então a relação acontece. As pessoas
são interessantes quando são interessadas. Isso é o que você tem de parar
para pensar.

Se você está mortalmente interessado só em si, só nas suas coisas, beleza,


tudo bem, mas para que você quer o amor de mais alguém? Você já não
tem seu amor desmedido aí? Todo mundo sabe que o amor de si para si é
igual a comer algodão-doce: não sustenta a barriga, dá um gostinho bom
na hora, mas depois se desfaz em algo que não vira nada. Pode vir o guru
que for dizendo que “Isto é o que importa: você se amar”, mas o amor de
si para si não tem substância, é algodão doce, não nutre. O que nutre é o
amor nosso pelos outros. É isso o que dá substância para a nossa vida. Ex-
perimente. Você se torna mais forte, mais interessante.

Quando é que você nota que, ao final do dia, você diz “Caramba, hoje o dia
foi bom”? Quando? Quando você serve aos outros, quando você tem um
olhar atento de amor para os outros, raios, é aí que a coisa funciona. Pode
fazer do jeito que quiser. Faça de um jeito, faça do outro, depois experimen-
te a diferença entre uma coisa e outra e escolha o que é melhor para você.
Só estou abreviando o caminho e te dizendo: o melhor é isto, este é o que
fica, esta é a substância mesma da vida humana. Fuja disso para ver o que
acontece. Você vai ficar chata ou chato para caramba.

Pode ser que não fique solteiro e arranje alguém, mas aí será aquela rela-
çãozinha de lixo da qual você toda hora reclama para mim, aquela coisa
que não anda muito, não decola, te deixa sempre jogando uma asinha para
um vizinho, para um colega de trabalho, sempre disponível para os outros…

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É claro, você está olhando só para si, então o outro não consegue te olhar,
te amar direito. Aí você se sente vazio, já que o amor próprio, de si para si, é
algodão doce, dá um gostinho na boca mas não nutre e não sustenta. Acaba
que você terá que buscar alimento em outras freguesias, mas nunca estará
com a barriga saciada, com o coração saciado, ficará borboletando por aí
quando tudo o que quer é uma solidez e uma consistência na vida.

Não há truque, não há receita de bolo. Não é um pote de pirlimpimpim, não


é uma varinha de condão que eu toquei na sua cabeça e falei “Agora seja
um pessoa interessante”, “Agora você irá arranjar marido”. Não é aquela
coisa de “Trago a pessoa amada em três dias”. Até traz, meu filho, mas a
pessoa amada vai te amar? É isso o que importa. Pouco me lixei se o sujeito
trouxe a pessoa amada em três dias, a relação continuará sendo uma porca-
ria. Para quê você quer trazer a pessoa amada em três dias, caramba? Deixe
a pessoa amada em três dias para lá, porque você tem de ser uma pessoa
interessante antes. Quando você virar essa pessoa interessante, a pessoa
amada volta antes dos três dias, raios, e fica do seu lado não só por mais três
dias, mas criando uma vida substancial.

Pare com essa porcaria de querer truque, fantasia, mágica. Para quê você
quer uma pessoa amada em três dias se você continua sendo esse estorvo,
esse pé no saco que vem sendo há tanto tempo? Só há uma receita e um
truque aqui: seja interessante. Aprenda sobre Arte, aprenda a ver filmes,
aprenda a conversar sobre o outro. Não há nada mais sedutor que isso. O
pessoal fala “Inteligência é afrodisíaca”. É nada. Inteligência não tem nada
de afrodisíaco, pare com essa besteira. Sabe o que é “afrodisíaco”, como di-
zem por aí? É você de fato se interessar pelo outro, caramba, porque, quan-
do isso acontece, há ali a mobilidade afetiva, a mobilidade do amor. Quan-
do você é uma pessoa interessante, não existe esse negócio de amor não
correspondido, porque você está mesmo querendo saber do outro, e aí o
amor do outro verte sobre você.

Nós temos de ser benévolos, bons de verdade. Vai ficar querendo olhar só
para o seu umbigo para quê? Tem craca aí dentro, tem cutão no meio. Seu

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umbigo está sujo há anos, você não passa um cotonete nessa porcaria,
está gordo para caramba, há uma caverna de morcegos, uma plantação de
cogumelos aí dentro desse seu umbigo. Quer olhar para dentro dele para
quê, raios? Pare com essa porcaria de umbigo, umbigo, umbigo. Vá para o
quinto dos infernos com esse seu umbigo. Diabos, olhe para o mundo, para
fora! Seu umbigo só tem plantação de cogumelos, pare de olhar para ele!
Para quê você quer isso? Só se for para ficar frustrado, porque cogumelo
não nutre, desgraça, o que nutre é carne, é substância.

Vamos olhar para o outro, vamos verter o nosso amor ao outro. Só aí a gen-
te recebe o fluxo do amor, só aí a vida fica do caramba, viver fica bom. Só
aí você gostará de acordar, só aí você vai acordar e dizer “Minha nossa, por
que não acordei meia hora antes?” É o contrário. Todo mundo tem essa
sensação de “Ah, queria dormir só mais dez minutinhos”. Para quê, caram-
ba? Porque sua vida está um lixo, por isso você quer dormir mais dez minu-
tinhos, por isso você pensa “Para quê vou acordar?”

Mas não. Quando você acha mesmo bom viver, quando viver é um tesão,
quando você acorda e pensa “Tenho um serviço no mundo, vou servir, vou
me interessar pelos outros, vou entregar meu amor benévolo, ser útil para
os demais, não encher o saco e não reclamar”, aí você passa a querer acor-
dar na hora. Dormir mais para quê? Você quer é acordar para ver quem
ama, para servir no seu trabalho, para fazer a tal da atividade física para
ficar melhor e mais bem disposto. A vida fica boa, bicho.

Experimente, por um único dia na sua vida, servir mesmo aos demais e
não olhar para si um único minuto. Ontem eu estava batendo um papo
com a minha irmã aqui, estávamos falando das pessoas que dizem “Agora
vou ser bom, vou servir um cafezinho para o meu amigo de trabalho. Agora
eu entendi que é importante servir, então vou pegar um cafezinho lá fora
e vou dar para a pessoa que trabalha comigo” Aí a pessoa dá essa porcaria
desse café esperando algo em troca.

Que coisa maluca! Você está esperando o quê em troca da mixaria de um

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cafezinho, caramba? A pessoa não precisa do cafezinho! Você quer o quê
em troca? Ela não vai te dar nada em troca, porque isso não é minimamen-
te digno de ser objeto de troca! Quando você dá um cafezinho para a pessoa
para fazer uma boa ação e espera algo em troca, você age como um idiota!
O que a pessoa tem que te dar em troca de um cafezinho?! Nada! Ela não
precisa te dar nada, porque um cafezinho não é nada! Mas não é nada e é
tudo, porque você começa a servir.

É a mesma coisa de você estar lá na sua repartição pública, carimbar o


documento que precisa carimbar e falar “Nossa, mas que pessoa mal edu-
cada, nem me agradeceu”. Agradecer o quê?! É seu trabalho, desgraça! Você
quer o quê em troca? Pare com essa coisa maluca!

É também a mesma coisa dos pais que dizem “Nossa, eduquei tão bem
meus filhos, dei tudo para eles, dei escola, comida, roupa lavada, e agora
eles nem me amam”. Caramba, você quer o quê em troca? Era a sua obriga-
ção! É ruim para ELE não te amar, mas do seu lado, você não perde nada!
Era o que você tinha que ter feito mesmo! Tinha que ter amado aquela cria-
tura incondicionalmente, tinha que ter dado dinheiro incondicionalmen-
te, tinha que ter realmente pagado a escola dela! Você quer receber o quê
em troca? Não há troca. Há coisas que são de mão única. Aprenda isso na
vida.

A maior parte das coisas que importam é via de mão única, não via de mão
dupla. Aprenda isso e pare com essa expectativa maluca de que tudo tem
que ter uma troca. Não tem, meu amor, não tem. Aprenda isso que a coisa
ficará uma beleza, a vida ficará uma maravilha. Você começa a ter um co-
ração expandido, a amar mais. A vida fica uma beleza. Você se torna uma
pessoa interessante pra caramba e todo mundo começa a gostar de você.
Não era isso o que você queria? Não queria passar esta sexta-feira acompa-
nhado ou acompanhada de um amorzinho? Pronto, aí a coisa acontece.

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