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Capítulo 2

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A QUESTAO DA L1NGUA: REVISITANDO
ALENCAR, MACHADO DE ASSIS
E CERCANIAS'

o se abordar a questão da língua portuguesa no Brasil,


certamente um dos temas mais interessantes é esqua-
drinhar os complexoscaminhos que nos levaram a cons-
truir um fossoprofundoentre a norma culta e a norma-
padrão, ou seja, entre o que os letrados usam em sua
fala monitorada e o que se codificou como modelar
para a escrita. Há um século e meio, os letrados brasileiros vivem
uma situação de esquizofrenia lingüística, enredados por uma cul-
tura do erro que afeta pesadamente o nosso imaginário sobre a lín-
gua, as nossas relações sociais e o ensino do português.

Pagotto (1998) traz uma rica contribuição para o estudo des-


se tema. Comparando os textos constitucionais de 1824 e 1891, o
autor mostra que eles foram escritos em gramáticas diferentes e,
com isso, sustenta que a norma escrita mudou significativamente
no correr do século XIX. E mudou não na direção de um seu abrasi-
leiramento (isto é, de uma aproximação do padrão postulado para

IA primeira versão deste texto foi publicada na revista Línguas e instrumentos lingüísticos.
Campinas, Pontes, jan.1jun 2001, n. 7. p. 33.51. O objetivo do texto é, ao recuperar
aspectos das nossas relações históricas com a língua portuguesa no Brasil, tentar enten"
der os problemas que ainda nos assombram nessa área.
110 NORMA CULTA BRASilEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. Carlos Alberto Foroco

a escrita e a norma culta falada aqui), mas na direção contrária,


isto é, na busca de uma identificação com o padrão lusitano que
tinha se firmado com o romantismo.

Averiguar em detalhes como se deu esse processo é tarefa


que cumpre realizar: precisamos entender criticamente a origem
dos nossos tormentos lingüísticos como parte de uma reconstru-
ção do nosso imaginário sobre a língua.

Neste capítulo, revisitamos alguns textos do século XIX so-


bre a questão, coletados por Edith Pimentel Pinto (1978). Nosso
objetivo com isso é participar dessa não simples, mas ainda e cada
vez mais necessária tarefa.

Em uma primeira análise, a direção da mudança apontada


por Pagotto poderia ser avaliada como um paradoxo. Afinal, o país
se tornara politicamente independente e se poderia ímaginar que,
no processo de construção de sua identidade nacional, VIesse a
prívilegiar suas características diferenciadoras.

Contudo, Pagotto, seguindo o historiador Antonío Gil, desfaz o


aparente paradoxo, mostrando que a lusitanização progressiva da
norma escrita, num período de 65 a 70 anos, se encaixa perfeitamen-
te no projeto político da elite brasileira pós'independência de cons'
truir uma nação branca e europeizada, o que significava, entre ou-
tros muitos aspectos, distanciar-se e diferencíar-se do vulgo (para
usar uma expressão comum nos textos dos intelectuais do século
XIX), isto é, da população etnicamente mista e daquela de ascendên-
cia africana, que constituíam, sem dúvida, um estorvo grande àquele
projeto. Vale lembrar, neste ponto, que, não por acaso, a elite defen-
derá abertamente, mais tarde, a chamada "higienização da raça", que,
no fundo, significava um embranquecimento da população.

Para mostrar a força daquele projeto, é interessante lembrar


que, em 1854, o intelectual maranhense João Francisco Lisboa
(1812-1863), de bastante prestígio, conforme se depreende de sua
biografia (foi, por exemplo, incumbido pelo governo imperial de
coletar em Portugal documentos importantes para nossa histó-
A QUESTÃO DA LfNGUA: REVISITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 111

ria), ao comentar a obra de história do Brasil de Francisco Adolfo


de Varnhagen, elogia em especial o fato de aquele autor apontar o
caráter europeu do país. São suas as seguintes palavras (apud
Pinto, 1978:29-30):

Uma razão superior o ilumina. e as suas palavras tornam-se eloqüentes


quando trata de demonstrar que o elemento europeu é quem constitui,
principale essencialmente,a nossanacionalidadeatual. (".l Comocon-
seqüênciadesta grande verdade o autor estabeleceigualmente que é
comoelementoeuropeu,cristãoe civilizador,quedevemandar abraçadas
as antigas glóriasda pátria, e portantoa história nacional,cujasfontes
não podem remontar mais longe.

Em suma, cabia sim romper a dependência política com a


antiga metrópole, mas sem deixar de a ela se assemelhar. A dis-
cussão de João Francisco Lisboa é, nesse sentido, bastante escla-
recedora. Perguntava ele aos leitores se receavam o predomínio
dessa origem e só por isso julgavam-se ainda avassalados à antiga
metrópole. Na resposta, descarta esse receio com a metáfora de
que o Brasil é o filho emancipado que não continua sob o pátrio
poder "só porque assemelha o pai na índole e nas feições, tem os
mesmos hábitos, fala a mesma língua, professa a mesma religião,
e obedece às mesmas leis".

Esse texto é duplamente significativo. Primeiro, por revelar


que, três décadas depois da Independência, as semelhanças com
Portugal ainda podiam incomodar nosso senso de país indepen-
dente (que outra razão para a pergunta aos leitores?). E, segundo,
por deixar claro que é nessas semelhanças que estava o essencial
da "nossa nacionalidade atual",

Em outros termos, o que João Francisco Lisboa estava dizendo


é que éramos emancipados, mas que não deixáramos, por isso, de
ser europeus. Desse modo, era indispensável continuar cultuando
aquilo que na antiga metrópole representava aos olhos da elite de
cá uma superioridade cultural, um índice de civilização.

Essa opção, contudo, não era nada fácil de realizar em termos


de língua. Nessa esfera, a elite letrada vivia complexas contradi-
112 NORMA CULTA BRASilEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. CorlosAlbertoFaroco

ções. Duas realidades eram evidentes para todos: o português de


cá tinha diferenças em relação ao português de lá; e aqui dentro o
"nosso" português diferia do português do "vulgo". Na construção
do novo país, como resolver esse duplo eixo de diferenças?

o caminhar da carruagem vai constituindo, desde a Indepen-


dência, dois grupos distintos: um conservador, purista: e outro,
defensor da absorção, na escrita, de características próprias do
modo brasileiro culto de falar a língua.

Já nos primeiros anos da década de 1820 são vlslveis essas


duas posições. Em José Honório Rodrigues (1985), são apresenta-
dos exemplos de uma certa preocupação purista. Reproduz ele
trechos dos debates, na Assembléia Constituinte de 1823, sobre a
melhor localização da futura universidade do país.

o grande argumento para sediá-la no Rio de Janeiro foi exa-


tamente o da conservação da pureza da língua. Segundo um dos
constituintes, era na Corte que melhor se falava o português no
Brasil: "Nas províncias há dialetos, com seus particulares defei-
tos". E a crítica era explícita ao "dialeto de São Paulo", por sua
"pronúncia mui desagradável" e por ser "menos correto".

Um primeiro indício da posição contrária ao purismo pode ser


lído na "Advertência" (escrita em 1825 e reproduzida em Edith
Pimentel Pinto, p. 9) que José Bonifácio antepõe à sua tradução da
Ode Primeira das Olímpicas de Píndara. Nesse texto, o autor convo-
ca os "futuros engenhos brasileiros", "agora que se abre nova época
no vasto e nascente Império do Brasil à língua portuguesa" (grifo
nosso) para que ousem enriquecer a língua com muitos vocábulos
novos (em especial para atender às necessidades da tradução). Tem
ele certeza de que, "apesar de franzirem o beiço os puristas acanha-
dos, chegará o português, já belo e rico agora, a rivalizar em ardimento
e concisão com a língua latina, de que traz a origem" (grifo nosso).

Esse mesmo senso de nova época, de enriquecimento da lín-


gua no novo país e de crítica aos puristas acanhados retornará, no
futuro, na voz dos defensores do "dialeto brasileiro" ou do "estilo
brasileiro" a que se deveria dar legitimidade na escrita.
A QUESTÃO DA UNGUA: REVISITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 113

Para a elite mais conservadora, as contradições que envolvi-


am a questão da língua se resolviam pelo discurso da unidade: há
uma só língua e cumpre preservar sua pureza, que nos é dada
pelos portugueses, seus legítimos e únicos proprietários. Nesse
sentido, o português de cá deveria se aproximar do de lá, seguin-
do como modelo os escritores lusitanos.

Texto exemplar desse modo de dizer a questão da língua é o


discurso que Joaquim Nabuco veio a proferir na Academia Brasi-
leira de Letras, em 1897, do qual reproduzimos o seguinte trecho
(apud Pinto, 1978: 197-8):

A raça portuguesa, entretanto, como raça pura, tem maior resistência e


guarda assim melhoro seu idioma;para essa uniformidadede língua
escritadevemostender.Devemosoporum embaraçoà deformaçãoqueé
mais rápida entre nós; devemos reconhecer que eles são os donos das
fontes, que as nossas empobrecem mais depressa e que é preciso renová-
las indoa eles.Alíngua é um instrumento de idéias que podee deveter
uma fixidezrelativa. Nessepontotudo devemosempenhar para secun-
dar o esforço e acompanhar os trabalhos dos que se consagrarem em
Portugal à pureza do nosso idioma, a conservar as formas genuínas,
características, lapidá rias, da sua grande época ... Nesse sentido nunca
virá o dia em que Herculano ou Garrett e os seus sucessores deixem de
ter toda a vassalagem brasileira.

Lembrando do velho projeto da elite brasileira de construir


uma sociedade branca e europeizada, não é certamente gratuita a
referência de Nabuco à pureza da "raça portuguesa" para susten-
tar, já no fim do século XIX, seu argumento de serem os portugue-
ses os que melhor guardam o idioma, cabendo aos brasileiros a
eterna vassalagem.

Esse discurso conservador, tão claramente delineado no tex-


to de Nabuco, veio se construindo nas décadas anteriores. Nesse
processo, exerceram, sem dúvida, importante papel as várias acu-
sações de incorreção lingüística que intelectuais portugueses fi-
zeram, principalmente a partir dos fins da década de 1860, a es-
critores brasileiros. Contribuíram elas para reforçar a identifica-
ção da diferença com o "erro"; e para tornar correntes, seja a ma-
114 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. Carlos Alberto Faraco

triz discursiva que desmerece as relações dos brasileiros com a


língua (reportada criticamente já por Gonçalves Dias em 1857:
"Lembrou' me nessa mesma ocasião o que por lá e por cá se diz de
como menosprezamos a boa linguagem" - apud Pinto, 1978: 33);
seja a prática de rastrear e catalogar "erros".

Embora desnecessário, vale, neste ponto, destacar que tanto


aquela matriz discursiva, quanto esta prática continuam bem pre'
sentes e fortes entre nós. Basta ver o sucesso atual dos consultórios
gramaticais da imprensa, dignos sucessores da fúria condenatória
de Cândido de Figueiredo em sua coluna "O que se não deve dizer",
no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, no começodo século XX.

O discurso desses consultórios gramaticais se funda exatamen'


te na imagem, construída no século XIX e ainda hoje acriticamente
repetida por boa parte da população escolarizada, de que nós, bra-
sileiros, não sabemos português, cabendo ao "pai gramatical" a ta'
refa de denunciar impiedosa mente os nossos "erros" e corrigi'los,
tomando como referência um modelo gramatical anacrônico, artifi'
cial e arbitrário, igualmente fixado no século XIX.

Para o outro segmento da elite oitocentista, era importante


abrasileirar a língua escrita (para usar o termo de José de Alencar).
São os portadores de um discurso mais nacionalista, marcado por
certa euforia pela causa e pelas coisas nacionais. Thmavam em par'
ticular a diferença lexical como fator de enriquecimento da língua
(Alencar vai falar também nas diferenças de sintaxe) e defendiam
seu franco aproveitamento na literatura que aqui se produzia.

Justificavam esse abrasileiramento com dois grandes arguo


mentos. De um lado, destacavam as necessidades expressivas dos
artistas. Nesse sentido, dizia Gonçalves Dias: "... devemos admi.
tir tudo o de que precisamos para exprimir coisas ou novas ou
exclusivamente nossas" (apud Pinto, 1978: 38).

Na mesma direção, ia José de Alencar ao afirmar: "Sempre


direi que seria uma aberração de todas as leis morais que a pujan'
te civilização brasileira, com todos elementos de força e grande'
A QUESTÃO DA lINGUA: REVlSlTANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 115

za, não aperfeiçoasse o instrumento das idéias, a língua" (apud


Pinto, 1978: 76).

Como segundo argumento, tomavam a recepção da literatura


pelo povo. Dizia, então, José de Alencar: "Nós, os escritores nacio"
nais, se quisermos ser entendidos de nosso povo, havemos de falar"
lhe em sua língua, com os termos ou locuções que ele entende, e
que lhes traduz os usos e sentimentos" (apud Pinto, 1978: 123).

E coroavam esses argumentos com os princípios da


inevitabilidade da transformação das línguas. Nesse sentido, le"
mos em Gonçalves Dias a seguinte afirmação: "A minha opinião é
que ainda, sem o querer, havemos de modificar altamente o por-
tuguês" (apud Pinto, 1978: 38). E encontramos José de Alencar
asseverando: "A revolução é irreversível e fatal, como a que trans"
formou o persa em grego e céltico, o etrusco em latim, e o romano
em francês, italiano etc.; há de ser longa e profunda, como a imen"
sidade dos mares que separa os dous mundos a que pertencemos"
(apud Pinto, 1978: 75).

Ao mesmo tempo, davam ênfase ao uso comocritério legitimador


das formas da língua, conforme podemos ler em José de Alencar:
"Como, porém, os dous melhores mestres que eu conheço da arte de
falar são o bom senso e o uso.. ." (apud Pinto, 1978: 124).

É interessante observar que Alencar incluía esses dois últi"


mos princípios em seus arrazoados como argumentos de autori"
dade, isto é, apelando à voz dos especialistas (lingüistas), mos"
trando"se, portanto, conhecedor das atividades científicas que
vinham redesenhando, na Europa, o estudo das línguas. Começa"
va ali um processo de se atribuir à ciência da linguagem a tarefa
de arbitrar as divergências, atitude que voltará durante todo o
século XX, à medida que a filologia e, depois, a lingüística se esta"
belecem entre nós.

Contudo, essa argumentação típica dos defensores de um "es"


tilo brasileiro" ou de um "dialeto brasileiro" com foro de cidada"
nia não fluía sem ressalvas, porque, afinal, a questão não se esgo"
116 NORMA CULTA BRASilEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. CortosAlberto Foroco

tava na contraposição do português de lá com O de cá; havia que


se resolver a diferença interna entre o português da elite letrada
e as variedades do chamado português popular. O problema crucial
que se levantava para esses intelectuais era como admitir o uso
como critério de legitimação e a inevitabilidade da transforma-
ção das línguas e, ao mesmo tempo, manter o português popular
excluído de qualquer legitimação.

É certamente por isso que a argumentação fluía sempre com


certo arroubo, mas era logo nuançada por ressalvas. Assim é que
Gonçalves Dias, naquilo que poderia ser uma espécie de manifes-
to dessa matriz discursiva, depois de dizer "que ainda, sem o que-
rer, havemos de modificar altamente o português"; e "que deve-
mos admitir tudo o de que precisamos para exprimir coisas novas
ou exclusivamente nossas", vê-se na necessidade de ressalvar que
"uma só coisa fica e deve ser eternamente respeitada: a gramáti-
ca e o gênio da língua" (apud Pinto, 1978: 38).

É oportuno perguntar a quem era dirigida essa ressalva? Por


que, em meio ao discurso da mudança e do enriquecimento
lingüístico, era necessário asseverar, com força, que há na língua algo
que permanece, que fica e que deve ser "eternamente" respeitado?

A ressalva era, certamente, uma espécie de concessão à voz


purista; ou, talvez melhor, uma demarcação de convergência ('So-
mos também conservadores'); ou, ainda, uma resposta a um co-
mentário do tipo: "Ah, então, tudo vale?" (ainda hoje tão comum
nas discussões sobre a língua entre nós).

No fundo, o grande ausente-presente que o obrigava a asseverar


o "eterno" era, sem dúvida, as variedades do português popular. Se
era necessário deixar claro que abrasileirar não significava abando-
nar a leitura e o estudo dos clássicos (ressalva, aliás, que todos os
defensores do abrasileiramento faziam), mais necessário era deixar
claro que abrasileirar não implicava escancarar as porteiras.

Em outros termos, a ressalva indica que duas coisas estavam


claras para Gonçalves Dias: a estratificação sociolingüística do
português de cá (embora não o dissesse com todas as letras); e a
A QUESTÃO DA L[NGUA: REVLSITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 117

compatibilidade entre construir uma norma escrita abrasileirada


e recusar legitimidade ao português brasileiro popular.

A expressão "povo", portanto, tão corrente nos argumentos


futuros de Alencar e de outros, não remete ao conjunto da popula-
ção, mas apenas aos pares letrados, muito embora Gonçalves Dias
(e, depois, também Alencar - apud Pinto, 1978: 122) use critérios
quantitativos brutos como parte de sua argumentação, fazendo a
pergunta (retórica, para ele): "Os 8 ou 9 milhões de brasileiros
terão o direito de aumentar e enriquecer a língua portuguesa e
de acomodá-la às suas necessidades como os 4 milhões de habi-
tantes que povoam Portugal?" (apud Pinto, 1978: 33).

O raciocínio básico, por conseguinte, era: mudança e riqueza


sim, mas há limites. Somos defensores de um abrasileiramento
da língua escrita, mas não toleramos todo e qualquer fenômeno
lingüístico que aqui ocorre. Ora, esse raciocínio revela, grosso
modo, um entendimento claro do processo padronizador, que se
realiza exatamente selecionando e privilegiando e, ao mesmo tem-
po, excluindo formas.

Todos os que lidam com a ciência da linguagem sabem que o


processo histórico de construção de um padrão de língua envolve
uma complexidade não facilmente destrinçável, porque há aí não
só um entrelaçamento intrincado de fenómenos de língua, de
estratificação sociolingüística e de valorações socioculturais, mas
também um contínuo e inexorável processo de mudança de todos
esses elementos.

Resulta daí uma realidade em que conflitam permanentemen-


te o idealizado e o praticado; o relativamente estático e o perma-
nentemente móvel. E esse conflito se magnifica quando se acres-
centam ao quadro as diferenças entre as práticas orais e as escri-
tas, à medida que sobre estas o poder social de polícia lingüística
- que busca estancar as mudanças - é muito maior.

Diante desses conflitos, materializam-se diferentes atitudes


políticas, desde um conservadorismo radical (que, no fundo, tem
118 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. Carlos Alberto Foroco

a pretensão de parar o movimento e, em geral, não recobre ape-


nas questões lingüisticas como tais, já que elas estão sempre
imbricadas com outras questões políticas) até um conservadorismo
flexível (que busca compatibilizar o cultivo de um padrão e o reco-
nhecimento da inexorabilidade das mudanças, atitude também não
reduzida apenas a questões estritamente lingüísticas).
Ocioso dizer que traçar limites naquele complexo quadro
lingüístico (isto é, dizer onde começa e onde termina o padrão)
não é tarefa fáciL Talvez até pudéssemos dizer com mais proprie-
dade que essa tarefa é, na prática, impossível para uma língua
das dimensões geográficas, sociais e culturais do português, face
à imensa variabilidade de formas admissíveis no uso culto e à
mutabilidade permanente das estruturas lingüísticas.
A solução de Gonçalves Dias foi trazer à baila a figura mítica
do gênio da língua (que terá longa vida entre nós) como a grande
régua para se traçar os limites do admissível, como se a questão
fosse exclusivamente lingüística e como se a própria língua tives-
se em si os critérios da estabilidade no mar das mudanças; do
eterno no oceano do transitório.
O grande ausente-presente dos debates começará progressi-
vamente a aparecer nominado em textos posteriores ao de Gon-
çalves Dias, seja por meio de referências genéricas, como em
Alencar ("o grosseiro dialeto do vulgo" - apud Pinto, 1978: 76);
seja, mais para o fim do século, em referências mais específicas,
como no texto escrito em 1888 por Araripe Jr. em polêmica com
Carlos de Laet (apud Pinto, 1978: 234):
Asobservaçõesdofilólogoportuguês[AdolfoCoelho]estãoabaixoda crí-
tica, não porque não exista o dialeto brasileiro, mas porque naquelas
foram confundidos o falar atravessado dos africanos e outros fenômenos
desta ordem com o que se deve verdadeiramente considerar elemento
novo na linguagem portuguesa.

Temos aí nominado, finalmente, com todas as letras, o princi-


pal personagem a incomodar tanto os puristas, quanto os "brasi-
leiros": o português popular em geral ("outros fenômenos desta
ordem"), especialmente o "falar atravessado dos africanos".
A QUESTÃO DA LÍNGUA: REVISITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSISE CERCANIAS 119

Para os puristas, a luta tinha um único front: vencer todas as


diferenças, eliminar qualquer perspectiva de abrasileiramento da lín-
gua escrita, adotando para isso escritores portugueses como modelo.

Para os que reconheciam a legitimidade de certas diferenças


brasileiras, havia dois fronts: vencer os puristas ("o excesso de
lusitanismo", nas palavras de Gonçalves Dias - apud Pinto, 1978:
33); e traçar os limites do admissível (estabelecer a "barreira às
invasões descabidas da lingua popular", nas cristalinas palavras
de José VerÍssimo, escritas em 1888 - apud Pinto, 1978: 245).

Alencar já tratava dessa questão dos limites bem explicita-


mente na década de 1870. Em seu plano para um livro sobre a
literatura brasileira, diz: "Não se pretende que toda inovação seja
boa - defende-se a idéia do progresso da língua, não o abuso que
a acompanha" (apud Pinto, 1978: 148).

E, aqui, como apontamos antes, parece residir o calcanhar-de-


aquiles desse grupo: comodistinguir a boa da má inovação?Ou, a par-
tir de que critérios barrar "as invasões descabidas da língua popular"?

Seriam os gramáticos a solução? Alencar especificamente


descartava a possibilidade de se recorrer a eles para resolver as
dúvidas: era crítico contumaz de seus julgamentos arbitrários.

Por outro lado, em suas réplicas aos críticos de seus livros,


de seu "estilo frouxo e desleixado", Alencar se esmerava em de-
fender muitas das construções e vocabulário que utilizava, apon-
tando-lhes a 'nobreza clássica', isto é, sua presença em autores
consagrados da língua; ou a ocorrência de casos semelhantes já
em latim. Acatava, portanto, o argumento antigo de ser legítimo
aquilo que está nos escritores consagrados; ou ainda o argumento
da ancianidade (se já estava em latim é, ipso facto, legitimo)'.

Se, com esses movimentos argumentativos de remissão ao pas-


sado, Alencar legitimava seus usos e, ao mesmo tempo, procurava

2 Em De Marco (1986), há uma boa resenha dos embates de José de Alencar com seus
críticos.
120 NORMA CULTA BRASilEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. CarlosAlbertoForoco

desacreditar seus detratores, acusando-os de ignorantes da história


e dos clássicos da língua, não resolvia, contudo, a questão do que
poderia ser considerado ''boa inovação", "progresso e não abuso".

Para resolver esse impasse, Alencar apontou, naquele mesmo


plano para o livro sobre a literatura brasileira, o caminho que consi-
derava indispensável - um longo estudo empírico: "Para bem exa-
minar essa questão, e saber se o dialeto brasileiro é um progresso ou
uma decadência de língua, é preciso examinar o que é a língua por-
tuguesa - longo estudo, mas necessário. Nada de erudição: bom sen-
so, e o fruto de algumas observações"(apud Pinto, 1978: 148).

Pode-se dizer, a partir desse texto, que Alencar, de certa for-


ma, tinha consciência da relativa fragilidade de sua posição: em
linguagem de hoje, se diria que lhe faltavam dados para manter
sua argumentação em pé e era necessário buscá-los. Seria preci-
so, portanto, pesquisar "o que é a língua portuguesa". Respondida
essa questão por meio de longo estudo, estariam alcançadas as
bases para estabelecer com segurança os limites entre inovação
boa e má, entre progresso e decadência, entre o legitimo e o ilegí-
timo. Em outras palavras, estaria definido o tantas vezes mencio'
nado (mas obscuro) gênio da língua e se teria o instrumento pre-
ciso de corte entre o "nosso" português e o português do "vulgo".

No entanto, insistindo em reduzir a questão <Comoalguns fa-


zem ainda hoje) a um problema de pesquisa empírica, se perderia
o seu cerne, porque ela, de fato, não era (e continua não sendo)
lingüística no sentido estrito. Desde o início, trata-se de uma ques'
tão fundamentalmente política, imbricada com outros fenômenos
e valores que não apenas os lingüísticos.
o próprio Alencar não deixava de ter consciência dessa dimen'
são do problema: propunha como necessário o estudo empírico, mas
combinado com o "bom senso". Ora, o que é esse ''bom senso" senão
a entrada em cena de uma atitude política, o apelo a um certo en-
tendimento, a um certo compromisso, a um certo consenso?

É bom lembrar que o mesmo apelo à pesquisa empírica como


modo de nortear o estabelecimento de um padrão menos artifici-
A QUESTÃO DA ÚNGUA: REVISITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 121

ai será feito mais à frente por filólogos e lingüistas, sem que isso,
mesmo nos casos em que se deram passos concretos em tal dire-
ção - como no projeto Norma Lingüística Urbana Culta (NURC),
para a língua falada, e no projeto do Laboratório de Estudos
Lexicográficos da UNESP (Campus de Araraquara), para a língua
escrita - tenha produzido mudanças no discurso hegemônico que
diz a língua no Brasil - o que apenas reforça o caráter político da
questão desde seu início.

Ao contrário dessa direção de enfrentamento do problema,


os conservadores, tendo adotado o princípio da unidade da língua
e escritores portugueses como modelo de correção, passaram a
cultivar a prática de identificar os "erros" dos brasileiros. E, para
"corrigi-los", desenvolveram um febril esforço legiferante (em es-
pecial na década de 1880), buscando fixar, à base do mais puro
arbítrio, a norma válida para a escrita.

Se Alencar tinha o cuidado de defender a necessidade do es-


tudo empírico para deslindar a questão, os puristas simplesmen-
te decretaram o que era certo com base apenas em suas impres-
sões das diferenças. De nada adiantaram as sucessivas críticas ao
arbitrário do processo: o projeto de uma nação branca e europeizada
era muito mais forte do que qualquer dos argumentos levantados
pelos defensores do abrasileiramento da norma escrita. A rigidez
com que se fixou a norma escrita não foi, portanto, mero capricho
lingüístico. Os conservadores projetavam a questão da língua num
quadro mais amplo: tratava-se de inviabilizar qualquer situação
que aos seus olhos representasse ameaça de rompimento da or-
dem social por eles idealizada.

O relativo sucesso da lusitanização artificial do padrão escri-


to, por volta do fim do século XIX, conforme apontado por Pagotto
(1998), mostra que foram insuficientes quer os argumentos prag-
máticos da expressão artística e da recepção da literatura; quer o
apelo aos argumentos de autoridade dos especialistas, dos cien-
tistas da linguagem; quer as contundentes denúncias do caráter
arbitrário da fixação dos padrões de "bom uso"; quer os apelos ao
122 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS. Cor1osAlbertoFaraco

bom senso; quer ainda as ressalvas comuns nos intelectuais do


segundo grupo de que a defesa do abrasileiramento não significa.
va descuidar-se do estudo dos clássicos da língua.

A remissão aos clássicos, aliás, como argumento para comba-


ter o arbitrário das regras normativas, mostrando que os fenôme-
nos apontados como errados já ocorriam normalmente em seus
textos, teve o efeito contrário: tornou-se comum entre os conser-
vadores acusar os clássicos de terem errado, sempre que seus usos
desmentiam as regras agora inventadas (conforme comenta, por
exemplo, Silva Ramos, em carta endereçada a Mário Barreto em
1919 - aplld Pinto, 1978: 447).

o primeiro a chamar a atenção para o fato de que os clássicos


desmentiam as regras parece ter sido José Veríssimo. Comentan-
do, em texto de 1907, a polêmica em torno da redação do Código
Civil, diz ele (aplld Pinto, 1978: 254-255):

Não podendo muitas vezes contestar as razões e os testemunhos que em


contrárioa conceitosseus e doParecerlheopunham,o ilustre publicista
[RuiBarbosa]mostrou-lhescomlargoconhecimentodosfatose dosclás-
sicos, que tinha em seu favor razões e testemunhos numerosos e emi-
nentes. O que se podeconcluirdesta formade argumentaçãoabundante
no seu trabalho, é que nos clássicos há para tudo [grifonosso]. E ao
caboesta verdade ressaltou de toda a discussão do Parecer do Sr. Rui
Barbosae da sua Réplica.AcomeçarpeloprofessorCarneiro,da Bahia,
todos os seus críticos lhe mostraram com exemplos clássicos a sem ra-
zão de muitos de seus conceitos. Assim o fizeram não só aquele professor
e gramático de profissão, mas, além da comissão parlamentar que opi-
nou sobreo Parecer,oSr. ClóvisBeviláqua,primeiroredator doCódigo,
o professor Pereira da Fonseca, de Pernambuco, e outros.

Esse fato de que "nos clássicos há para tudo" não envolve ne-
nhum mistério. Primeiro, porque as regras - como vimos acima
- foram estabelecidas arbitrariamente, sem maiores estudos ou
investigações. E, segundo, porque qualquer norma real - face à
extrema diversidade de usos sociais da língua - é necessaria-
mente caracterizada por variabilidade e flexibilidade.
A QUESTÃO DA líNGUA: REVISITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 123

oclima ideológico da época, contudo, não permitia que se


reconhecesse esse fato elementar. O processo, estreitamente con-
cebido, resultou num conceito rígido e inflexível de norma-pa-
drão, uma verdadeira camisa-de-força. Só restava mesmo acu-
sar os clássicos de "erro".

O estreitamento da questão vai nos conduzir à situação para-


doxal em que nos encontramos ainda hoje. Se os puristas conside-
ravam que os clássicos não podiam ser referência segura; se se
descartava qualquer possibilidade de um certo uso brasileiro ser
legitimado na escrita (com base no "bom senso" e/ou no estudo
empírico), que referência sobrava para o padrão além do arbítrio
dos que se arrogavam o direito de ditar normas, respaldados pe-
los interesses políticos maiores da elite?

É certamente esse vício de origem a causa principal do desen-


volvímento da norma curta entre nós - essa coleção de preceitos
categóricos que se autojustificam, que recusam a norma real, que
desmerecem o trabalho dos escritores, dos bons dicionaristas e
gramáticos e que excluem qualquer diversificação de suas fontes.

Se essa é a origem e esse o processo que se consolidou, não é


de admirar a reverência acrítica e quase irracional (pois não ad-
mite contestação) que acompanha a circulação social desse dis-
curso gramatical rígído, estreito e arbitrário, eivado de dogmatis-
mo e obscurantismo.

Certamente o caso mais emblemático de todo esse processo


(mas não o único) foi a famigerada questão da colocação dos pro-
nomes. Mário de Alencar (apud Pinto, 1978: 457-468) escreveu,
em 1919, uma interessante retrospectiva dessa questão, que teria
começado a se formular ainda na década de 1870 (ver, por exem-
plo, a referência de Alencar ao assunto em seu Prefácio à segunda
edição de Iracema - apud Pinto, 1978: 79), mas que tomou corpo
a partir de 1880, quando Artur Barreiros publicou, na Revista
Brasileira, um artigo sobre o tema.

Segundo as palavras de Mário de Alencar, o assunto assumiu


o aspecto de fetichismo e "para não faltar em cousa alguma ao
124 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. Cor1osAlberto FOfOCO

feitio sectário, tornou"se fanatismo. Era a condição instintiva para


vencer e dominar. E o caso é que venceu e dominou".

Não é à toa, portanto, que a diferença na colocação dos prono'


mes entre o texto constitucional de 1824 e o de 1891 seja gritante,
conforme aponta Pagotto (1998). Diz ele em seu artigo (p. 52):

NocasodosclítiCÇlS,
foifeitoum pequenoestudo quantitativo sobretodos
os casos constantes nos dois textos. A diferença é gritante. A constituição
doimpériochegaa apresentar casosseveramente condenadospela atual
norma culta, comocomeçar a sentença peloclítico.

Assim, o texto constitucional de 1891 é marco significativo da


força social do discurso conservador que vai receber seu
coroamento com as volumosas criticas de Rui Barbosa à lingua"
gem do projeto do Código Civil, nos primeiros anos do século XX.

Embora tais críticas tenham merecido diversas contraposições,


José Veríssimo, comentando o assunto em 1907, destaca o grande
efeito dessa polêmica sobre a imagem que se tem da relação dos
brasileiros com a língua, imagem essa que é ainda tão forte entre
nós. Diz ele (apud Pinto, 1978: 254):

Passando o Sr. Rui Barbosa pela nossa maior competência no assun"


to, muito grande foi o efeito do seu Parecer. A verdade é que quais"
quer que fossem os defeitos e até desacertos, depois demonstrados, da
sua crítica e de seus reparos, a impressão geral deixada pelo exame
da redação do Código não pode ser senão que essa redação é má, e,
portanto, como eu disse então, que nós não sabemos a nossa língua. A
respostas que lhe deram e críticas que lhe fizeram, retrucou o Sr. Rui
Barbosa com a ainda mais famosa Réplíca, in-folio de 214 páginas,
em tipo miúdo, material para um grande e grosso volume. E, talvez,
hoje o mais copioso repertório sobre as questões e até questiúnculas
que dividem os gramáticos da língua.
A voz conservadora veio, desde a década de 1870, se deline"
ando com mais clareza e foi construindo seus instrumentos de
consolidação e difusão. Se acompanharmos, cronologicamente, os
textos coleta dos por Pinto (1978), podemos visualizar um cres"
cendo no antagonismo dos dois grupos antes mencionados.
A QUESTÃO DA UNGUA: REVISITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 125

Vamos encontrar referências genéricas ao purismo ou às pe-


culiaridades brasileiras até, digamos, os fins da década de 1860.
É a partir deste momento que vão começar a ocorrer as grandes
polêmicas em torno da correção da escrita dos escritores brasilei-
ros, notadamente envolvendo José de Alencar. Podemos dizer,
então, que essas polêmicas vão ser o grande divisor de águas: elas
alimentam a voz conservadora e desequilibram progressivamen-
te o debate a seu favor.

Da década de 1870, vale lembrar ainda a intervenção de Ma-


chado de Assis (cujo texto de 1873, comentaremos adiante) e o
fato de que o Colégio Pedro II cria, em 1871, a primeira cátedra
com o nome de Língua Portuguesa.

Certamente não é gratuito o gesto de se abandonar a denomi-


nação anterior das aulas de português ('Retórica Nacional') exa-
tamente nesse período. O Colégio Pedro II fora criado para ser a
instituição de referência de todo o sistema de educação média do
país. No caso de Língua Portuguesa, ele cumprirá essa tarefa por
diversos meios.

Em primeiro lugar, cabia-lhe definir os programas de portu-


guês, isto é, os tópicos que deveriam ser tratados no ensino e ava-
1iados nos exames. Tais programas se cristalizaram, em nossa tra-
dição escolar, como verdadeiras normas programáticas para o ensi-
no de português. Ainda hoje esses programas se repetem - se
não em documentos curriculares oficiais mais recentes (princi-
palmente a partir da década de 1980) - na ideología da escola e,
por conseqüência, na organização de boa parte dos livros didáti-
cos. E, claro, nos programas de ingresso em diferentes escolas
públicas e no ensino superior; e, desde a criação do DASP (Depar-
tamento de Administração do Serviço Público), na década de 1930,
nos programas de concursos para ingresso no serviço público. Aos
poucos, estabeleceu-se, nessa esfera, um forte círculo vicioso: os
concursos dão como justificativa de seus programas a programa-
ção escolar; e as escolas justificam sua programação pelos progra-
mas dos concursos.
126 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. Carlo$Alberto Faroco

Outro aspecto da ação institucional do Colégio Pedro II foi a


produção por seus catedráticos de Língua Portuguesa de gramáti-
cas escolares. Isso acabou por fazer escola na definição do que de-
veria ser considerado como "boa linguagem", modelo que até hoje
boa parte de nossas gramáticas escolares simplesmente repete.

Esse quadro todo contribuiu significativamente para a cons-


trução não só de diretrizes para o ensino, mas principalmente para
a disseminação e consolidação da atitude norma tivista (que ainda
nos atormenta), combinando o purismo com a cultura do erro.

A década de 1880 será o momento do mais significativoavanço da


lusitanização da norma escrita. Como destaca Guimarães (1996), é a
década em que se intensifica o processo de gramatização brasileira do
português com a multiplicação das gramáticas. E, particularmente, é
a década em que se faz um esforço de definição das "estruturas corre-
tas" da língua. E a década seguinte fecha o século XIX com a criação
da Academia Brasileira de Letras, outro instrumento importante da
voz conservadora, como vimos acima com o discurso de Joaquim
Nabuco, muito embora seu primeiro presidente fosse antes um con-
servador flexível,o que já se podia observar, por exemplo, em seu tex-
to de 1873, o famoso Notícia da atuai literatura brasileira - Instinto
de nacionalidade (Obra Completa-lI!, p. 801-809),em cuja parte final,
Machado de Assis trata especificamente da língua.

Nesses seus comentários, há movimentos argumenta tivos bas-


tante interessantes. O primeiro lance é a observação de que falta a
muitos de nossos livros a "pureza da linguagem", isto é, há neles,
seja por ignorância, preguiça, mas principalmente por exageração
de princípio, "os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a
que se junta o da excessiva influência da língua francesa" (p. 808).

Machado de Assis, ao referir-se, em seguida, às divergências


entre os escritores sobre essa questão, está, claramente, tomando
partido nas polêmicas sobre a língua (em franca efervescência
nesse início da década de 1870): mostra-se conservador e critica
aqueles que adotam os "solecismos da linguagem comum" como
princípio literário.
A QUESTÃO DA ÚNGUA: REVISITANDO AlENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 127

No lance seguinte, contudo, Machado de Assis mostra-se fle'


xÍvel, escrevendo um parágrafo em que reconhece que as línguas
mudam e "alteram com o tempo e as necessidades dos usos e cos-
tumes", criticando aqueles que querem que a "nossa pare no sécu-
lo de quinhentos" e não aceitam que a sua transplantação para a
América tenha-lhe inserido riquezas. Nesse processo de altera-
ção e enriquecimento, "a influência do povo é decisiva".

E seu terceiro lance argumentativo é levantar a tormentosa


questão dos limites ("A influência popular tem um limite"), já pre-
sente, como vimos acima, em Gonçalves Dias. E os tais limites
estariam dados pelas "leis da sintaxe e a essencial pureza do idi-
oma". Reitera-se aqui a crença de que a questão é inerentemente
lingüística, cabendo ao escritor exercer "também uma grande parte
de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e
aperfeiçoando-lhe a razão".

Pode-se dizer, então, que esse texto de Machado de Assis é o


momento de síntese do racioCÍnio conservador flexível que pode
ser resumido no lema "mudanças sim, mas com limites", sem que
se saiba concretamente como estabelecê-los, mas atribuindo aos
escritores a tarefa de fixar a norma por um processo de depura-
ção e aperfeiçoamento da linguagem do povo. A mesma perspecti-
va de Alencar que, em 1870, dizia que os escritores é que "talham
e pulem o grosseiro dialeto do vulgo"(apud Pinto, 1978: 74). Para
os dois, portanto, caberia, digamos assim, ao "bom senso" dos es-
critores estabelecer os limites entre a boa e a má inovação'.

3 Note-se de passagem que até hoje esse discurso é repetido entre nós sem, porém,
qualquer efeito prático sobre a aceitação efetiva de inovações. Sempre haverá um autor
da norma curta a condenar os escritores de "falta de correção". Caso exemplar é o uso do
verbo ter com sentido de existir. Ele substituiu na fala culta brasileira o verbo hnver. É
tão universal seu uso na fala culta brasileira que é impossível afirmar que se trata de um
"solecismo da linguagem comum" ou uma mera "invenção da moda", O mais plausível é
admitir que é um fato de língua que vem "das fontes legítimas", Ainda hoje, porém, a
norma curta condena esse uso, Não bastou, portanto, que nosso maior poeta moderno
lhe tenha dado estatuto literário (mal parodiando, podemos dizer que ainda tem uma
absurda pedra no meio do caminho), Não estaria ele sendo um exemplo do "moderno que
vivifica"? Não bastou o filólogo Cândido J ucá (filho) dizer, em seu Dicionário escolar das
dificuldades dn língua portugllesa (p. 616), que se trata de "uso perfeitamente legítimo",
abonando '0 com exemplos de Eça de Queirós. Castilho e Pinheiro Chagas. Estes autores
128 NORMA CULTA8RASll8RA: DESATANDO ALGUNS NOS. ConosAlberto Foroco

Vinte e cinco anos depois, em seu discurso de encerramento


das atividades de 1897 da Academia recém-fundada, delineando a
programação da entidade para o ano seguinte, Machado de Assis
aponta, como uma das metas, a necessidade de coligir "alguns ele-
mentos do vocabulário crítico dos brasileirismos entrados na lín-
gua portuguesa e das diferenças no modo de falar e escrever dos
dois povos, como nos obrigamos por um artigo do regimento in-
terno" (Obra Completa-III, p. 927).

De certa forma, volta à cena a tese de Alencar da necessidade


do estudo empírico, tarefa agora atribuída à Academia que, se-
gundo palavras de Machado de Assis, "trabalhando pelo conheci-
mento desses fenômenos buscará ser, com o tempo, a guarda da
nossa língua", defendendo-a "daquilo que não venha das fontes
legítimas - o povo e os escritores - não confundindo a moda,
que perece, com o moderno que vivifica"

Seria, portanto, o estudo empírico, feito com "diuturnidade


paciente", que permitiria à Academia traçar os sempre menciona-
dos limites, defendendo a língua do que "não venha das fontes
legitimas" (o povo e os escritores), mas não confundindo a moda e
o moderno; o que perece e o que vivifica. Observação semelhante
Machado de Assis já fizera em seu texto de 1873, ao isentar os
escritores de "receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho
e a moda inventam e fazem correr".

Sempre o mesmo esforço de conviver com as mudanças, mas


dentro de limites; ou, como ele dirá logo à frente no discurso de
1897, guardar "em águas tranqüilas e sadias" o que vier com a
marcha do tempo. E sempre a mesma indefinição sobre como tra-
çar os limites.

Interessante notar, por fim, que para Machado de Assis estava


claro nesse fim de século XIX que "guardar não é impor; nenhum

lodos não são "fontes legítimas"? Será que bastará sua dicionarização, sem qualquer
restrição, pelo Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciên"
cias de Lisboa? Nele se diz (p. 3545): "ter'
o ••III Em construções impessoais, significa o
mesmo que Iwver: Tem gente que nunca trabalholl. Tem leite no frigorífico",
A QUESTÃO DA ÚNGUA: REV1SITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS 129

de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas", Embora fa-


lasse, em 1873, em "pureza da linguagem" e em "essencial pureza
do idioma", Machado de Assis não se aliou aos norma tivistas, que
trabalhavam exatamente no sentido da imposição de um modelo
rígido de língua; e que, pelo final da década de 1890, falavam muito
em "proteger", "defender" a língua <Comose podia ver, por exem-
plo, nas falas de Olavo Bilac, que incluía a "defesa da língua" entre
as metas de sua Liga de Defesa Nacional).

Esse discurso, que vai se espraiar pelo século XX, está ainda
bem vivo entre nós, como mostra, por exemplo, a justificativa que
o deputado Aldo Rebelo ofereceu a seu projeto de lei n° 1.676/1999
que, exatamente, "dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e
o uso da língua portuguesa"'.

A todos aqueles "defensores" da língua, Machado de Assis lem-


bra que "para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde tam-
bém a si mesma"; e que o melhor dos processos para isso "é ainda a
composição e a conservação de obras clássicas" (p. 927-28).

Podemos dizer que Machado de Assis - por não estar direta-


mente envolvido com as polêmicas da década de 1870, por ser fi-
gura de especial destaque cultural no final do século XIX e, prin-
cipalmente, por praticar uma prosa moderna (conservadora, mas
não purista; sem os "excessos de lusitanismo" de que falara Gon-
çalves Dias) - é quem melhor sintetiza uma postura de compro-
misso nas guerras em torno da língua.

A ironia de tudo isso, porém, é que essa postura de compro-


misso, da qual Machado de Assis é um emblema, não conseguiu
vencer de todo, no plano ideológico, a perspectiva purista e
normativista. Essa postura de compromisso não conseguiu se es-

4 Em Faraco (org.) (2000, o leitor encontra uma extensa discussão desse infeliz projeto
(para o Qual o Senado Federal. numa tentativa de corrigir suas maiores aberrações,
aprovou, em 2001, por pressão dos lingüistas brasileiros, um texto substitutivo de autoria
do senador Amir Lando, materializado no PLC 50/2001, disponível na página do Senado
Federal na internet).
130 NORMA CULTA BRASilEIRA: DESATANDO ALGUNS NÓS. Carlos Alberto Foroco

tabelecer hegemonicamente no nosso modo de compreender e di-


zer a questão da língua portuguesa no BrasiL

Aparentemente, não há força, entre nós, que quebre a norma


curta como referência ideológica_ Não foram suficientes a critica
e a prática dos nossos escritores modernistas na década de 1920 e
dos que vieram depois. Não tem sido suficiente a pesquisa siste-
mática, pela lingüistica brasileira contemporânea, de nossa nor-
ma culta/comumlstandard falada e escrita. Não tem sido suficien-
te o trato mais arejado e flexivel que nossos melhores gramáticos
têm dado aos fatos da língua culta, reinterpretando preceitos da
nossa tradição gramaticaL Não tem sido suficiente a edição dos
nossos dois grandes dicionários modernos, o Aurélio e o Houaiss,
que deram razoável acolhida (mais este que aquele) aos fatos da
nossa norma culta/comumlstandard real (mesmo que algumas ve-
zes apenas timidamente).
Em conseqüência disso, até hoje continuamos sem saber como
administrar as significativas diferenças entre a norma culta e a
norma-padrão; sem encontrar caminhos para diminuir o fosso
entre o praticado e o imposto como ideal rigido; sem saber como
orientar o ensino da norma culta/comum/ standard. Até hoje con-
tinuamos a aceitar que pretensas autoridades gramaticais, fun-
dadas no puro arbitrio, digam a nós, brasileiros, como devemos
falar e escrever a língua que nos pertence.
EDITOR: Marcos Marcionilo

CAPA E PROJETO GMfICO: Andréia Custódio

FOTODA CAPA:Marcyn Krowczyk - stock.xchng<Rl

CONSELHO EDITORIAL: Ana Maria Stahl Zilles (Unisinos]


Carlos Alberto Faraco [UFPR)
Egon de Oliveira Rangel {PUCSP]
Gilvan Müller de Oliveira [UFSC, Ipol]
Henrique Monreogudo [Univ. de Santiago de Compostela]
Kanaviflil RojagopaJan (Unicamp]
Marcos Bagno (UnB]
Maria Morta Pereira 5cherre [UFRJ, UnB]
Rache! Gazolla de Andrade (PUC.SP]
Salma Tannus Muchaif {PUC -$P]
5rella Maris Bortoni.Ricardo (UnB]

ClP-BRASIL CATALOGAÇAO NA FONTE


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS. RJ

F225n
Faraco,Carlos Alberto
Norma culta brasileira: desatando alguns nós I Carlos Alberto Faraco.'
Sào Paulo, Parábola Editorial, 2008.
200p. - (Ungualgem] ; 25)

Inclui bibliografia
15BN 978-85-88456-82-2

1. 5ocioJingüistica. 2.lingua portuguesa - Aspectos sociais. Brasil.


I.Titulo. 11.Série.

08-2435 CDD: 469


COU: 811.134.3

Direitos reservados à
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ISBN: 978-85-88456-82-2

o do texto: Carlos Alberto Faraco, 2008

o desta edição: Parábola Editorial, São Paulo, junho de 2008


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