Vous êtes sur la page 1sur 33

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras.

2008.
GUILHERME HOWES

Já no começo da apresentação do livro Comunidades Imaginadas, a Professora do


Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, Lilia Moritz Schwarcz,
aponta para as lembranças e os esquecimentos que marcam os eventos históricos. A
Professora alerta que “imaginar” é um exercício tanto difícil quanto necessário, “nações
são 'imaginadas', no sentido de que fazem sentido para a 'alma' e constituem objetos de
desejos e projeções.” (p.10). Assim, imaginar é necessário, pois faz e dá sentido
paraexistência das pessoas e dosgrupos, e difícil na medida em que “não se imagina no
vazio e com base em nada” (p. 10), ouseja, os modelos de ação e imaginação, via de
regra, estão ancorados em sistemas simbólicos que se afirmam no interior de lógicas
comunitárias, afetivas que mobilizam os indivíduos ou uma coletividade em torno de
um imaginário comum.

É dessa forma que a Professora apresenta a obra de Anderson: o tema do nacionalismo


sendo abordado como um produto cultural, e para compreendê-lo é necessário primeiro
entender suas origens históricas, de que forma seus símbolos e seus significados são
tratados e transformados ao longo do tempo, resultando em uma profunda legitimidade
emocional que resulta de um emaranhado complexo de diferentes forças históricas.
Dessa forma, a nação não é só uma questão histórica, mas antropológica, na medida em
que é “uma comunidade política imaginada; quase uma questão de parentesco ou
religião.” (p. 12). Benedict O'Gorman Anderson, descendente de britânicos, nasceu em
26 de agosto de 1936, em Kunming, na China, no entanto migrou ainda criança para a
Califórnia (EUA). Estudou e formou-se na Universidade de Cambridge, e
posteriormente registrou-se no programa de estudos sobre Indonésia na Universidade de
Cornell, desenvolvendo estudos em Jacarta, durante o golpe de Estado de 1965, e na
Tailândia. Atualmente é professor emérito do Centro de Estudos Internacionais da
Universidade de Cornell. Irmão mais velho de outro historiador, o inglês Perry
Anderson (1938 – ), Benedict possui uma trajetória acadêmica fora dos circuitos
tradicionais, os círculos eurocêntricos de abordagem dos fenômenos sociais. Anderson
publicou Comunidades Imaginadas, pela primeira vez, em 1983 simultaneamente em
Londres e Nova York sob o título Imagined Communities: Reflections on the Origin
and Spread of Nationalism, sendo reeditado várias vezes e posteriormente ganhando
mais dois capítulos. Foi editado no Brasil, pela primeia vez em 1989, e também no
Japão, na Alemanha, em Taipei, em Tel Aviv e no Cairo. Foi traduzido para o servo-
croata, coreano, espanhol turco, sueco, holandês, norueguês, francês, búlgaro, esloveno,
russo, romeno, lituano e catalão, o que permite afirmar que o interesse pela obra
transcende as fronteiras do mundo ocidental, atingindo os mais diferentes povos e
nacionalidades.
A obra.

O livro de pouco mais de trezentas páginas está estruturado em dez capítulos, além da
apresentação, prefácio, introdução, posfácio, referências bibliográficas e (o sempre útil)
índice remissivo. Antes de mais nada, convém ressaltar como o autor define nação:
“uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente
limitada e, ao mesmo tempo, soberana.” (p. 32). Explicando melhor, imaginada pois
seus membros jamais se conhecerão ou se encontrarão, limitada porque possui fronteiras
finitas e soberana por ser laica e independente de uma dinastia ou de uma ordem divina
(p. 32 – 34).
O capítulo I apresenta o que o autor denomina de raízes culturais de uma comunidade.
Uma comunidade política imaginária, a nação - e a nacionalidade - é um artefato criado
no final do século XVIII, a partir de concepções culturais fundamentais, como a da
língua sagrada e do livro, associadas ou desenvolvidas pela revolução de Galileu, o
encontro com o Novo Mundo, a revolução da imprensa, o desenvolvimento do
capitalismo mercantil. A imprensa vai desempenhar um papel determinante, pois a sua
difusão é geradora da simultaneidade, do conhecimento vivo, da reprodutibilidade e da
disseminação dos saberes (Anderson, capítulo I). Em outras palavras, as nacionalidades
modernas são coesas porque são imaginadas, fazem sentido para os que a imaginam,
porque é imaginada individualmente por cada um. Não possuem os antigos vínculos
coletivos que tradicionalmente ancoravam a sua coesão. Sem texto sagrado, diminuição
da importância da religião, perda da sacralização de um idioma. Fim dos poderes
dinásticos, do domínio divino de um rei. Nos novos vínculos imaginados que mantém
coesos os grupos, tudo co-existe, fatos (em locais diferentes) interligam pessoas,
criando consciência de um compartilhamento temporal.

No capítulo II, Anderson procura entender as origens de uma consciência nacional. O


autor aponta que essas origens ancoram-se em uma língua impressa. O que tornou
possível imaginar as novas comunidades, num sentido positivo, foi a interação mais ou
menos casual, porém explosiva, entre um modo de produção e de relações de produção
(o capitalismo), ema tecnologia de comunicação (a imprensa) e a fatalidade da
diversidade lingüística humana. (p. 78). Com isto, o autor vincula o advento da língua
impressa à noção de comunidade imaginada. O latim era falado por várias
nacionalidades, não sendo um fator comum, a língua falada possuía uma diversidade
incapaz de unificar, portanto o prelo criou um campo unificado “de intercâmbio e
comunicação abaixo do latim e acima dos vernáculos falados.” (p. 80). Em outras
palavras, “o capitalismo tipográfico conferiu uma nova fixidez à língua” (p. 80), a
comunidade se tornou coesa e imaginadamente unificada em torno do papel e da letra
impressa. Outro fator importante, foi que este capitalismo tipográfico instituiu línguas
oficiais diferentes dos vernáculos administrativos anteriores, criando, através da língua
impressa, uma nova mercadoria e remetendo ao sentimento de simultaneidade. Convém
ainda observar que essas raízes de uma consciência nacional, advém de “processos
inconscientes que resultaram da interação explosiva entre o capitalismo, a tecnologia e a
diversidade lingüística humana”. (p. 81). Entendo que o termo traduzido como
explosivo refere-se, na verdade, muito mais a um sentido de espontâneo, que resume
muito bem a maneira de como uma comunidade é imaginada, neste cenário das nações
modernas.

Pioneiros crioulos é como Anderson denomina os novos estados americanos no terceiro


capítulo. Pioneiros porque desenvolveram uma noção de nacionalismo antes da Europa
e Crioulo (do inglês Creole) porque é como o dicionário Houaiss denomina os
descendentes de europeus nascidos nos países hispano-americanos. “Eis, então, o
enigma:” diz Anderson na página 88, e prossegue, “por que foram precisamente as
comunidades crioulas que desenvolveram concepções tão precoces sobre sua condição
nacional [nationness]

– bem antes que a maior parte da Europa?” Por que e como se fragmentaram? Por que
vieram a falar o idioma da metrópole? O autor propõe então algumas respostas: estas
novas nações criavam movimentos de independência nacional, constituindo-se como
unidades administrativas desde o século XVI até o século XVIII. Outro fator
determinante se refere à “própria imensidão do Império Hispano-americano, a enorme
variedade de solos e climas e, sobretudo, a tremenda dificuldade de comunicação numa
época pré-industrial contribuíram para dar um caráter auto-suficiente a essas unidades.”
(p. 91). Além disso, a política comercial das metrópoles proporcionava uma
fragmentação das colônias em unidades administrativas o que as transformavam em
zonas econômicas distintas. Outro argumento utilizado por Anderson, no sentido de
criar uma comunidade imaginada nas novas colônias hispano-americanas, é a noção de
significado. Nestes novos lugares, co-habitavam pessoas e grupos advindos de
diferentes pontos do mundo: malaios, persas, indianos, berberes, turcos, entre outros.
Para todos, o novo lugar possuía um mesmo significado. Anderson utiliza a obra de
Turner (processo social, ritual de passagem e liminaridade) para demostrar que todos
haviam passado por um mesmo ritual de passagem, com objetivos comuns, dificuldades
comuns, temores comuns e habitando um mesmo lugar. Mas a grande questão para o
autor, no que se refere à sedimentação de uma noção de comunidade imaginada entre as
novas nações, é a imprensa. Mais do que isso, o jornal. Através deles desenvolveu-se
uma forte contraposição nós X eles. No século XVIII, as gazetas, até mesmo pelo seu
caráter popular, eram a forma mais viável, lucrativamente, pelos tipógrafos. Segundo
Anderson, “Um traço fecundo desses jornais era sempre o seu caráter local.” (p. 103).
Mesmo que os habitantes das cidades de Buenos Aires, Bogotá e Cidade do México não
lessem as gazetas uns dos outros, sabiam da existência delas, ou seja, tinham uma
consciência comum delas. O autor conclui o terceiro capítulo afirmando que o
liberalismo e o iluminismo, idéias correntes da época, e de impacto profundo para as
novas nações, por si sós, não eram capazes de conduzir à coesão de uma comunidade
política imaginada, “Para esta tarefa específica, o papel histórico decisivo foi
desempenhado por funcionários-peregrinos e impressores locais crioulos.” (p. 106).

O quarto capítulo, Velhas línguas, novos modelos o autor expõe como os novos
modelos de nacionalismos (1820 – 1920) lincavam-se ideologicamente e politicamente
a línguas impressas nacionais dos velhos estados europeus. A nação, afirma Anderson, é
uma invenção sem patente, assentada em cópias “piratas” (p. 107), dos novos estados
americanos, das línguas impressas do velho mundo. “Do tumulto americano brotaram
essas realidades imaginadas: estados nacionais, instituições republicanas, cidadania
universal, soberania popular, bandeiras e hinos nacionais etc.” (p. 124). Ou seja, as
“cópias”, transformaram-se em modelos legítimos e mobilizadores desses movimentos.

No Capítulo V, Imperialismo e nacionalismo oficial, Anderson explica o que entende


por nacionalismo oficial: “a fusão deliberada entre nação e o império dinástico” (p.
131). O autor lembra que foi em meados do século XIX, na Europa, que se formaram
esses nacionalismos oficiais. Eles eram historicamente impossíveis de ser pensados
separadamente de um nacionalismo lingüístico popular. São uma reação dos grupos
dinásticos e aristocráticos, detentores do poder, mas ameaçados de exclusão das
comunidades imaginadas populares. “Eis aí um bom exemplo de nacionalismo oficial –
uma estratégia de antecipação adotada por grupos dominantes ameaçados de
marginalização ou exclusão de uma nascente comunidade imaginada em termos
nacionais.” (p. 150).

No sexto capítulo, Anderson denomina de A última onda, uma série de movimentos


nacionalistas, principalmente localizados nas colônias da Ásia e África, como “uma
reação ao novo tipo de imperialismo mundial, possibilitado pelas realizações do
capitalismo industrial.” (p. 197). Em outras palavras, a modernização dos meios de
transporte e informação, possibilitados pelo capitalismo industrial, influenciaram
sensivelmente as relações entre Estados, entre nações, e entre comunidades e grupos. As
viagens, antes feitas por poucos, agora era realizada por multidões. Essa rapidez
crescente nas interações culturais adaptou e aprimorou o nacionalismo. Essas alterações
modificaram decisivamente os meios de comunicação física e intelectualmente, “as
camadas intelectuais descobriram formas alternativas à imprensa, difundindo a
comunidade imaginada não só para as massas iletradas, mas para massas letradas que
liam em outras línguas.” (p. 198).

No sétimo capítulo Patriotismo e racismo, Anderson tenta entender o apego, o vínculo


emocional das pessoas, o sentimento de pertença, pelas suas representações coletivas.
Retomando a ideia central do livro, qual seja, a de delinear os processos pelos quais a
nação veio a ser imaginada e, uma vez imaginada, modelada, adaptada e transformada.
(...) Mas é de se duvidar que a transformação social ou as consciências transformadas,
por si mesmas, consigam explicar o apego que os povos sentem pelas invenções de suas
imaginações – ou, (...), o porquê de as pessoas se disporem a morrer por tais invenções.
(p. 199). Anderson entende que haja uma “naturalização” de elementos que compõem
este pertencimento. Essa naturalização é garantida por qualidades “inatas” ou “puras”.
As qualidades inatas remetem a “laços naturais”, ao nascimento, não escolhidos
conscientemente. Ou noções de “pureza”, vinculadas a causas nobres ou heróicas
derivadas de sentimentos fundamentais ou “puros”. No entanto, o autor lembra que a
nação é concebida muito mais na língua do que no “sangue”. As pessoas podem entrar
voluntariamente ou ser convidadas a entrar na comunidade imaginada, “mesmo as
nações mais isoladas aceitam o princípio da naturalização (...) Vista como uma
fatalidade histórica e como uma comunidade imaginada através da língua, a nação
apresenta-se aberta e, ao mesmo tempo, fechada.” (p. 204). É impossível precisar a data
em que nasce uma língua. Via de regra, remontam a um passado imemorial. Anderson
afirma que o homo sapiens é, antes de tudo, homo dicens, comprovando que as línguas,
além de inerentes à própria civilização, mostram-se mais enraizadas nas sociedades
mais do que qualquer outro elemento. “Por meio dessa língua, que se conhece no colo
da mãe e que só se perde no túmulo, restauram-se passados, imaginam-se
companheirismos, sonham-se futuros.” (p. 215).

Em O anjo da história, nome do oitavo capítulo, Anderson inspira-se na metáfora de


Walter Benjamim, para destacar a importância do particular, do efêmero, do pequeno
pormenor desprezível, no contesto da história. Para esta história oficial, macro, só
interessam os grandes acontecimentos, no entanto, nada do que um dia aconteceu deve
ser desprezado. Ancorado na figura de Paul Klee Agelus Novus, o anjo da história
representa uma permanente catástrofe. A nona tese de Benjamin conta uma história
como uma catástrofe, um amontoado de ruínas e não uma cadeia de acontecimentos
rumo ao progresso. O anjo da história vê a barbárie mas não compactua com ela. Ele
gostaria de conversar com os mortos, juntar os fragmentos. Mas a tempestade, o
progresso, o empurra para a frente. Por fim, afirma Anderson: “o anjo é imortal, e os
nossos rostos estão voltados para a escuridão à nossa frente.” (p. 225). O anjo é o
próprio historiador.

No nono e penúltimo capítulo, Censo, mapa, museu o autor expõe como essas três
instituições de poder conseguem moldar os imaginários dentro da gramática política e
ideológica desde o século XIX. Mutuamente interligados iluminam o estilo do
pensamento do Estado colonial tardio em relação aos seus domínios. Essas três
instituições “juntas, (...) moldaram profundamente a maneira pela qual o Estado colonial
imaginava seu domínio – a natureza dos seres humanos por ele governados, a geografia
do seu território e a legitimidade do seu passado.” (p. 227).

No décimo e último capítulo Memória e esquecimento, Anderson menciona que “Todas


as mudanças profundas na consciência, pela sua própria natureza, trazem consigo
amnésias típicas.” (p. 278), ou seja, todo exercício de memória pressupõe também um
exercício de esquecimento. E é deles, que segundo o autor, decorrem as narrativas. E
Anderson cita Braudel, para quem as mortes que importam são aquelas miríades de
fatos anônimos, que, somados e tabulados em índices médios de mortalidade por século,
lhe permitem mapear as condições de vida (de lenta transformação) para milhões de
pessoas anônimas cuja nacionalidade seria a última coisa a ser perguntada. (p. 280).
Fichamento: Comunidades Imaginadas de Benedict Anderson.

Por que sentimos uma emoção quase religiosa diante do túmulo do Soldado
Desconhecido? Como é possível sentir-se mais vinculado a multidões anônimas de
compatriotas do que ao próprio circulo familiar de rostos conhecidos? E como foi
possível que, ao longo do século XX, tantos milhões de pessoas tenham se mostrado
prontos para matar e morrer em nome de nação? Estas são algumas das questões
tratadas por Benedict Anderson neste texto.

Atenção:

Inicialmente gostaria de dizer que Comunidades Imaginadas foi um grande


desafio e que com certeza figura entre os mais difíceis fichamentos que já fiz.
Não por sua linguagem, abordagem teórica ou tema, mas por ter que
praticamente mutilar esta grande obra de 280 páginas em apenas 20. Peço
desculpa, por alguns deslizes e juro que tentei de todas as formas, fazer este
fichamento o mais fiel possível ao livro. Contudo, peço que primeiro leiam o
livro e que só posteriormente utilizem este fichamento como uma forma de apoio
didático.

Boa Leitura!

Benedict Anderson.

Filhos de pais britânicos, Benedict O’Gorman Anderson nasceu em Kunming na


China, em 1936, e cresceu na Califórnia. Estudou em Cambridge e Cornel, onde
passou a lecionar; atualmente é professor emérito do Centro de Estudos
Internacionais dessa universidade. Além de ser irmão do historiador marxista
Perry Anderson. Autor de monografias sobre o Sudeste Asiático, Anderson
reuniu alguns de seus ensaios sobre política e cultura em The Spectre of
Comparisons (1998) e publicou um estudo de três figuras centrais da
independência filipina sob o título de Under Three Flags: Anarchism and the
Anti-Colonial Imagination.

Comunidades Imaginadas foi originalmente publicado em 1983, fazendo


rapidamente grande sucesso mundial. No Brasil, o livro aparece pela primeira
vez em 1989, mas com uma tiragem limitada. Até esta nova versão da
Companhia Das Letras, estudantes e pesquisadores brasileiros tinham
dificuldades em achar o velho título.

Comunidades Imaginadas.

Introdução.

(P.26) Benedict Anderson inicia sua obra buscando compreender o por que das
Guerras entre Vietnã, Camboja e China entre1978 e 1979. A primeira guerra
convencional em grande escala entre países socialistas e inegavelmente
revolucionários, que em tese compartilhavam da mesma ideologia.

(P.27) É interessante notar que desde a Segunda Guerra Mundial todas as


revoluções vitoriosas se definiram em termos nacionais – Republica Popular da
China, República Socialista do Vietnã, etc – e, com isso se afirmaram
solidamente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-
revolucionário.

(P.28) Hobsbawm afirma que os estados marxistas estão se tornando, nacionais e


nacionalistas. E essa tendência não se restringe apenas ao mundo socialista.
Todos os anos a ONU admite membros novos. E muitas “nações antigas”
consolidadas, veem-se desafiadas por “sub-nacionalismos” em seu próprio
território, que sonham em se tornarem nações.

(P.29) Este livro pretende oferecer, a título de ensaio, algumas ideias para uma
interpretação da anomalia do nacionalismo.

(P.30) O ponto de partida de Anderson é que tanto a nacionalidade (ou condição


nacional), quanto o nacionalismo são produtos culturais específicos.

(P.31) Conceitos e Definições

(P.32) Ele considera dentro de um espírito antropológico a seguinte definição de


nação: uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo
intrinsecamente limitada e ao mesmo tempo soberana.
Ela é imaginada por que mesmo os membros das mais minúsculas das nações
jamais conhecerão, encontraram ou nem sequer ouvirão falar de todos os seus
companheiros (compatriotas) embora todos tenham em mente a imagem viva da
comunhão entre eles. A única coisa que pode dizer que uma nação existe é
quando muitas pessoas se consideram uma nação.

(P.33) Na verdade, qualquer comunidade maior que uma aldeia primordial do


contato face a face é imaginada. Até mesmo ela.

Imagina-se a nação como limitada por que até mesmo a maior delas que agregue
um bilhão de habitantes, possui fronteiras finitas ainda que elásticas. Nenhuma
delas imagina ter a mesma extensão da humanidade. Nem os nacionalistas mais
messiânicos sonham com o dia em que todos os membros da espécie humana se
unirão à sua nação.

(P.34) Imagina-se a nação soberana por que o conceito nasceu na época em que
o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico
hierárquico da ordem divina. Amadurecendo em uma época em que mesmo os
adeptos mais fervorosos de qualquer religião se depararam com o pluralismo de
religiões no mundo. Notando então que a única maneira de serem livres é serem
soberanas sobre um pedaço determinado de terra.

E por último ela é imaginada como uma comunidade por que independente da
desigualdade e da exploração que possam existir dentro dela, a nação sempre é
concebida como uma profunda camaradagem horizontal. No fundo foi essa
fraternidade que tornou possível, nestes últimos dois séculos, que tantos milhões
de pessoas matassem e morressem por essas criações imaginárias e limitadas.

Essas mortes nos levam a pensar no problema central posto pelo nacionalismo: o
que faz com que parcas criações imaginativas de pouco mais de dois séculos
gerem sacrifícios tão descomunais? A resposta está nas raízes culturais do
nacionalismo.

(P.35) Cap. 1: Raízes Culturais.


Não existem símbolos mais impressionantes da cultura moderna do nacionalismo
do que os cenotáfios e o túmulo do soldado desconhecido. Contudo, estes
túmulos vazios estão carregados de imagens nacionais espectrais.

(P.36) Se o nacionalismo se importa tanto com a morte e a imortalidade, isso


sugere sua grande afinidade com os imaginários religiosos. Com isso vale a pena
começar a avaliar as raízes do nacionalismo pela morte, o último elemento de
uma série de fatalidades. A morte, assim como a herança genética pessoal, nosso
sexo, a época em que viemos, nossas capacidades físicas, língua-materna, etc são
fatores contingentes e inelutáveis.

(P.37) O grande mérito das religiões (fora seu papel na legitimação do sistema de
dominação e exploração) é a sua preocupação com o homem no universo. Ela
tenta explicar o por que. A religião se interessa pelos vínculos entre os mortos e
os ainda não nascidos.

(P.38) O século XVIII na Europa marca o amanhecer do nacionalismo e o


anoitecer do pensamento religioso. A religião declinou, mas o sofrimento que ela
ajudava a apaziguar não desapareceu.

Admite-se que os estados nacionais são “novos” e “históricos”, ao passo que as


nações ao qual elas dão expressão política sempre assomam de um passado
imemorável, seguindo a um futuro ilimitado. É a magia do nacionalismo que
transforma o acaso em destino.

(P.39) Anderson não está sugerindo que o nacionalismo tenha substituído a


religião. O que ele está fazendo é alinhando o nacionalismo não a ideologias
políticas conscientemente adotadas, mas a sistemas culturais. Religião e
nacionalismo foram estruturados de forma a serem incontestáveis.

(P.40) A Comunidade Religiosa.

Todas as comunidades clássicas se consideravam cosmicamente centrais, através


de uma língua sagrada ligada a uma ordem supra-terrena de poder. Essas
comunidades clássicas ligadas por línguas sagradas tinham o caráter diferente das
comunidades imaginadas das nações modernas: a confiança no sacramento único
de usas línguas e daí a aceitação de novos membros.

O árabe para os muçulmanos, o latim para os cristãos e o mandarim para os


budistas. Apesar destas serem línguas mortas para a maioria de seus seguidores,
elas funcionavam como símbolos para todos. Unindo fiéis de regiões diferentes
sob os signos do árabe, do mandarim e do latim. Uma vez aprendido os símbolos,
independente da região e da língua nativa, a pessoa era aceita naquela religião.

(P.47) O Reino Dinástico.

(P.48) Hoje em dia, talvez seja difícil sentir empatia com um mundo onde o reino
dinástico apareça como único sistema “político” viável. Pois a monarquia
contraria todas as concepções modernas da vida política. A realeza opera tudo de
um centro elevado, tem sua legitimidade por via divina e não da população, que é
composta por súditos e não por cidadãos.

Hoje o Estado opera sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente


demarcado. Mas antigamente os Estados eram definidos por centros, com
fronteiras porosas e indistintas. Daí o paradoxo da facilidade com que esses
reinos pré-modernos conseguiram manter seu domínio sobre populações
heterogêneas por longo tempo.

Deve-se lembrar que esses antigos Estados se expandiam não só pela guerra
como também por uma política sexual de casamentos entre dinastias.

(P.51) Percepções Temporais.

Contudo, é um erro pensar que comunidades imaginadas das nações teriam


simplesmente surgido a partir das comunidades religiosas e dos reinos dinásticos
substituindo-as.

(P.52) Por sob o declínio das comunidades, línguas e linhagens sagradas estava
ocorrendo uma transformação nos modos de compreender o mundo, que
possibilitou “pensar a nação”.

(P.56) A ideia de um organismo sociológico atravessando cronologicamente um


tempo vazio e homogêneo é a analogia de nação, que também é concebida como
uma comunidade sólida percorrendo constantemente a história, seja em sentido
ascendente ou descendente.

(P.57) Um americano nunca vai conhecer, e nem sequer saber o nome dos 240
milhões de compatriotas. Ele não têm ideia do que estão fazendo a cada
momento. Mas tem plena confiança na atividade constante, anônima e simultânea
deles.

(P.69) Recapitulando, Anderson sustenta que a própria possibilidade de imaginar


a nação só surgiu historicamente quando, e onde, três concepções culturais
fundamentais perderam o domínio sobre a mentalidade do homem.

A primeira é a ideia de que uma determinada língua escrita oferece acesso


privilegiado à verdade ontológica.

A segunda é a crença de que a sociedade se organiza naturalmente em torno e


abaixo de centros elevados (monarcas que governavam por graça divina).

O terceiro é uma concepção da temporalidade em que a cosmologia e a história


se confundem, e as origens do mundo dos homens são essencialmente as
mesmas.

O declínio lento e irregular dessas convicções mutualmente entrelaçadas,


primeiro na Europa Ocidental e depois em outros lugares, sob o impacto da
transformação econômica, das descobertas sociais e científicas e do
desenvolvimento de meios de comunicação cada vez mais velozes, levou a uma
brusca clivagem entre cosmologia e história.

(P.70) Desse modo, não admira que se iniciasse a busca de uma nova maneira de
unir significativamente a fraternidade, o poder e o tempo. O elemento que mais
catalisou e fez frutificar essa busca foi o capitalismo editorial, que permitiu que
as pessoas, em números sempre muito maiores, viessem a pensar sobre si
mesmas e a se relacionar com as demais de maneiras radicalmente novas.

(P.71) Cap.2: As Origens da Consciência Nacional.


A imprensa foi determinante para a criação de ideias inteiramente novas sobre a
simultaneidade. E a nação se tornou tão popular dentro deste tipo de comunidade
principalmente graças ao capitalismo.

(P.73) Pois, sendo a gráfica uma empresa capitalista ela buscava cada vez mais
mercado e imprimia mais e mais livros.

(P.75) Três foram os fatores vernaculizantes[1] do capitalismo: Primeiro, a


mudança do próprio latim. Segundo, o impacto da Reforma e dos atos de
Martinho Lutero. A aliança entre o protestantismo e o capitalismo editorial,
explorando edições populares baratas, logo criou novos e vastos públicos
leitores, entre eles comerciantes e mulheres que sabiam pouco ou quase nada de
latim. E o terceiro, foi a difusão lenta, geograficamente irregular de determinados
vernáculos como instrumento de centralização administrativa. (P.76) A
fragmentação da Europa pós fim do Império Romano significava que nenhum
soberano poderia monopolizar o latim (como os imperadores chineses faziam
com o mandarim) e converte-lo em sua língua oficial, já que o latim não era
centralizado.

(P.82) Podemos resumir que a convergência do capitalismo e da tecnologia da


imprensa sobre a fatal diversidade da linguagem humana criou a possibilidade de
uma nova forma de comunidade imaginada, a qual, em sua morfologia básica,
montou o cenário para a nação moderna.

(P.84) Cap. 3: Pioneiros Crioulos[2].

Em primeiro lugar, quer se pense no Brasil, nos EUA ou nos países hispânicos, a
língua não era um elemento que os diferenciasse das respectivas metrópoles
imperiais. Todos inclusive os EUA, eram estados crioulos, formados e liderados
por gente que tinha a mesma língua e a mesma ascendência do adversário a ser
combatido. (P.85) Na verdade, cabe dizer que a língua nunca se colocou como
questão nesses primeiras lutas de libertação nacional.

Em segundo lugar, boa parte do hemisfério ocidental não segue a tese de Nairn
de que o “nacionalismo moderno esteve ligado ao batismo político das classes
inferiores pela classe média descontente que tentava canalizar as energias
populares em favor de novos estados”. Pelo menos na América Central e do Sul,
a “classe média” ao estilo europeu era insignificante no século XVIII.

(P.86) Longe de tentar conduzir as “classes inferiores à vida política” a elite


tinha medo dela. Ainda era fresca a lembrança das revoltas de Tupac Amarú no
Perú e de Toussaint L’Ouverture no Haiti.

(P.87) O movimento Latino-Americano pela independência eram de “pouca


espessura social” e no entanto eram movimentos de independência social.

(P.88) Eis que surge o enigma: por que foram precisamente as comunidades
crioulas que desenvolveram concepções tão precoces sobre sua condição
nacional, bem antes que a maior parte da Europa? Por que essas colônias,
geralmente com grandes populações oprimidas e que não falavam o espanhol,
geraram crioulos que redefiniram conscientemente essas populações como
integrantes de uma mesma nacionalidade e a Espanha como inimigo estrangeiro?
Por que o império Hispano-americano que havia existido serenamente por quase
três séculos se fragmentou em dezoito Estados diferentes?

Os dois fatores geralmente apresentados são, o aumento do controle madrilenho e


a difusão das ideias do iluminismo.

(P.89) A vitória das 13 colônias (1770) e o inicio da Revolução Francesa (1789)


também exerceram vigorosa influência.

(P.90) Essas explicações, apesar de importantes, não explicam por que Chile,
Venezuela e México se mostraram emocionalmente plausíveis e politicamente
viáveis, e nem por que San Martín disse que certos aborígenes deviam ser
identificados como “peruanos”. Também não explica os sacrifícios feitos, pois
muitas pessoas perderam propriedades e até mesmo a vida nessa empreitada.

(P.91) A moldagem inicial das unidades administrativas americanas foi, em certa


medida arbitrária e fortuita. E a falta de comunicação entre elas possibilitou a
fragmentação.
Além disso, a política comercial de Madri fez com que as unidades
administrativas se transformassem em zonas econômicas distintas. Sendo ainda o
comércio entre elas proibido.

(P.92) Para entender como as unidades administrativas puderam, ao longo do


tempo, serem vistas como terras pátrias, não só nas américas, mas também em
outras partes do mundo, é preciso observar de que modo as organizações
administrativas criam significado.

(P.93) Durante o período das religiões, a amplitude geográfica de uma religião


era determinada pela peregrinação que estes fiéis faziam para Roma, Meca ou
Benares. Em Meca encontravam-se pessoas das mais distantes regiões da África,
Ásia e Europa o que dava a ideia do alcance do islamismo e a sua amplitude
geográfica.

(P.94) Com a ascensão das monarquias absolutistas e a tentativa deste reis de


unificar o reino que era fragmentado pela nobreza feudal, outro tipo de viagem
surgiu para demarcar o território. O mensageiro real, como funcionário publico
que viajava todo o território demarcando-o conforme o alcance de suas viagens.

(P.95) A intercambialidade dos documentos, que reforçava a intercambialidade


dos homens, foi alimentada pelo desenvolvimento de uma língua oficial
padronizada. Qualquer língua escrita em princípio, serviria para essa função,
como mostra a pomposa sucessão, entre os séculos XI e XIV, do anglo-saxão,
latim, normando e médio-inglês em Londres. Com a vernaculatização da língua
houve um aumento da centralização, impedindo que funcionários de Madri
intercambiassem com os de Paris por exemplo. Sendo a expansão ultramarina
europeia uma extensão fracassada deste modelo.

A tendência absolutista de promover os funcionário mais pelo mérito do que pelo


berço não foi efetiva nas colônias. Dos 170 vice-reis somente 4 eram crioulos.

(P.97) Além de barrarem suas peregrinações. Se um funcionário espanhol podia


andar todo o continente americano, o funcionário crioulo ficava restrito ao seu
território. Seu movimentos laterais eram restritos, assim como sua ascensão
vertical.

(P.100) Indiretamente, o Iluminismo também ajudou a cristalizar uma distinção


irreversível entre metropolitanos e crioulos. Os textos de Rousseau e Herder de
que o clima e a ecologia tinham um impacto decisivo sobre a formação da cultura
e do caráter, afastou ainda mais metropolitanos e crioulos que eram tidos como
selvagens e inadequados para cargos mais elevados.

(P.101) Até aqui, dedicamos nossa atenção aos mundos dos funcionários da
América, que apesar de importantes eram em dimensões muito reduzidas.

A peregrinação dos vice-reis não teria nenhuma consequência enquanto a


extensão territorial não pudesse ser imaginado como nação e isso só se deu com
o surgimento do capitalismo tipográfico.

(P.102) A imprensa chegou cedo a Nova Espanha, mas durante dois séculos
ficou sobre rígido controle da Coroa e da Igreja. Na América do Norte a
imprensa nem existia, mas no século XVIII houve uma revolução tipográfica nos
EUA.

Benjamim Franklin está intimamente ligado ao nacionalismo crioulo na América


do Norte. Contudo, deve-se entender que a imprensa só se desenvolveu nos EUA
quando os tipógrafos descobriram uma nova forma de renda – o jornal! Na
América Espanhola ocorreram processos semelhantes, contudo de modo mais
lento.

(P.103) No início estes jornais eram meramente informativos (datas de chegada e


partida de navios, preços vigentes, casamentos, decretos, etc). Foi só uma
questão de tempo até aparecerem elementos políticos.

(P.104) Um traço marcante desses jornais era o seu caráter local. E não existia a
ideia de simultaneidade entre as diversas regiões do império espanhol. Um
mexicano poderia receber informações sobre os fatos ocorridos em Buenos Aires,
e estes fatos lhe parecerem “semelhantes” mas não “partes” integrantes deles.
Nesse sentido, o “malogro” da experiência hispano-americana e, criar um
nacionalismo para toda região reflete o nível de desenvolvimento capitalista e
tecnológico do século XVIII e o atraso “local” do capitalismo e da tecnologia
espanhola na administração do império.

(P.105) Os crioulos norte-americanos estavam numa situação mais favorável


para concretizar a ideia de “América”. As 13 colônias eram relativamente
pequenas e seus centros estavam em dinâmica comunicação, além de haver
traços bastante fortes entre seus respectivos habitantes, tanto pela imprensa
quanto pelo comércio. Sem contar que o avanço para o oeste foi feito por pessoas
do leste.

(P.106) Benedict Anderson quis explicar neste capitulo que não foi o liberalismo
e o iluminismo os criadores da ideia de nação, mas sim os funcionário-peregrinos
e a imprensa.

(P.107) Cap. 4: Velhas línguas, novos modelos.

O final da era dos movimentos vitoriosos de libertação nacional nas Américas


coincidiu com o inicio da era do nacionalismo que entre 1820 e 1920, mudaram a
face do Velho Mundo, dois traços notáveis os diferenciam de seus predecessores.

1° Línguas impressas nacionais: Elas foram de fundamental importância


ideológica e política (enquanto o espanhol e o inglês nunca foram questões
relevantes na América revolucionária).

2° Todos eles funcionaram a partir de modelos deixados por seus


antecessores.

Foi assim que na Europa a “nação” se tornou objeto de aspiração consciente a ser
buscado, e não uma perspectiva de mundo que ganhou foco aos poucos. Assim
veremos que nação foi uma invenção sem patente copiada e reproduzida várias e
várias vezes.

Neste capítulo o objeto de análise será a língua impressa e sua “cópia” pirata.

(P.108) A ideia de língua como propriedade privada de uma nação teve enorme
influência na Europa oitocentista e na teorização do nacionalismo.
(P.109) Se durante a Idade Média o homem era incapaz de conceber a distância
temporal entre sua época (que ele acreditava ser o fim das eras, pois o Apocalipse
era algo iminente) e a Idade Antiga do Novo e do Velho Testamento. Neste
momento surgiu a “história comparada” que levou à concepção inédita de
“modernidade” que era contraposta à “antiguidade”.

Durante o século XVI, a “descoberta” europeias de civilizações grandiosas


(China, Japão, Índia) e do México Asteca e do Perú Incaico, mostrou um
irremediável pluralismo humano. De modo geral essas civilizações tinham se
desenvolvido autonomamente da Europa, da cristandade, da Antiguidade e até
mesmo do homem: pois suas genealogias não remetiam ao Éden. Apenas o
tempo vazio e homogêneo lhes ofereceu acomodação.

(P.110) Com efeito, os descobrimentos e as conquistas tornou possível pensar a


Europa como apenas uma entre muitas civilizações, além de provocar uma
revolução nas ideias europeias sobre as línguas.

(P.111) Com o estudo comparado das línguas, acabou-se com a ideia de que o
hebreu era a única língua antiga ou que possuía origem divina. A partir daí, as
antigas línguas sagradas (latim, grego e hebreu) foram obrigadas a se misturar em
pé de igualdade com a vastidão de línguas plebeias que agora eram rivais no
mercado editorial. Se todas as línguas eram mundanas todas mereciam estudo e
admiração. Mas de quem? Logicamente, de seus novos donos, os falantes e
leitores nativos de cada língua, pois agora nenhuma pertencia a Deus.

(P.112) Segundo Seton-Watson o século XIX na Europa, foi o século dos


linguistas – de todas as áreas. Estes intelectuais foram fundamentais para a
formação do nacionalismo europeu com a criação de seus dicionários
monolíngues que eram o tesouro de cada língua. Já os dicionários bilíngues
colocavam em pé de igualdade todas as línguas.

(P.117) É claro que todos esses lexicógrafos, filólogos, gramáticos, folcloristas,


jornalistas e compositores não desenvolviam suas atividades revolucionárias no
vazio. (P.118) Afinal produziam para o mercado editorial e assim para o publico
consumidor. Contudo o numero de letrados naquela época era pequeno.
Na metade do século XIX, a Europa aumentou seus gastos públicos. Em alguns
países em mais de 90%. A expansão burocrática criou mais vagas no Estado e
agregou classes sociais muito variadas. Criando uma grande classe média
burocrática em quase todos os países europeus.

(P.119) Já o surgimento de uma burguesia mercantil e industrial foi algo


extremamente irregular.

Benedict Anderson considera a burguesia como a primeira classe a construir uma


solidariedade a partir de uma base essencialmente imaginada. Diferente da
nobreza que necessitava se casar para estreitar laços com outros nobres, a
burguesia era ligada apenas por acordos. Os burgueses não precisavam se
conhecer, nem casar seus filhos. Mas enxergavam a existência de milhares e
milhares e outros parecidos com eles, através de uma língua impressa, já que uma
burguesia iletrada e quase impossível.

(P.123) Com o aumento da alfabetização, por toda parte ficou mais fácil granjear
apoio popular, as massas descobrindo uma nova glória na consagração das
línguas que elas sempre, humildemente haviam falado.

Até certo ponto a formulação de Nairn é correta: de que a “nova intelectualidade


de classe média do nacionalismo tinha de convidar as massas para a história; e o
convite deveria ser feito numa língua que eles entendessem”.

Mas por que o convite foi tão atraente e por que alianças tão diferentes puderam
enviá-los. Para responder veremos a questão da “cópia pirata”.

(P.127) Cap. 5: Imperialismo e Nacionalismo Oficial.

No decorrer do século XIX, a revolução filológica-lexicográfica e o surgimento


de movimentos nacionalistas na Europa, frutos não só do capitalismo mas da
elefantíase dos estados dinásticos criaram várias dificuldades culturais e políticas
para muitas dinastias dominantes que não tinham nacionalidade.

(P.128) Na Europa continental, parentes da mesma família dinásticas


governavam estados diferentes e até rivais. Que nacionalidade poderíamos
atribuir aos Bourbon na França e na Espanha, aos Hohenzollern na Prússia e na
Romênia, aos Wittelhach na Bavária e na Grécia?

Vimos também que estas dinastias escolheram como línguas vernaculares oficiais
as mais convenientes para elas.

Contudo na Europa existia a convicção de que as línguas eram propriedades


pessoais de grupos muito específicos e que esses grupos imaginados como
comunidades, tinham o direito de ocupar uma posição autônoma dentro de uma
confraria de iguais.

(P.131) A chave para situar o “nacionalismo oficial” – fusão deliberada entre a


nação e o império dinástico – é lembrar que ele se desenvolveu depois, e em
reação aos movimentos nacionais populares que proliferavam na Europa desde
1820. Se esses nacionalismos tinham se modelado pelas histórias americana e
francesa, agora se tornavam modulares. Bastava apenas um certo truque para que
o império se tornasse um travesti nacional atraente.

Anderson analisa três casos diferentes de “nacionalismo oficial”, o Russo, o


Inglês e o Japonês.

(P.160) Concluindo, sustentamos que, a partir do século XIX dentro da Europa


desenvolveram-se “nacionalismos oficiais”. Nacionalismos historicamente
“impossíveis” antes do surgimento de nacionalismos linguísticos populares, pois
no fundo, foram reações dos grupos de poder sobretudo dinásticos e
aristocráticos – ameaçados de exclusão ou marginalização nas comunidades
imaginadas populares.

(P.161) Tais nacionalismos oficiais eram políticas conservadoras, para não dizer
reacionárias, adaptadas do modelo dos nacionalismos populares, em larga medida
espontâneos, que os precederam.

Em nome do imperialismo, muitos políticas parecidas foram implantadas pelos


mesmos tipos de grupos nos vastos territórios asiáticos e africanos no decorrer do
século XIX.
Por fim, vimos que refratados em culturas e histórias não europeias, eles foram
adotados e imitados por grupos dirigentes nativos nas poucas áreas (Japão e Sião)
que escaparam da sujeição direta.

(P.163) Cap. 6: A Última Onda.

A Primeira Guerra Mundial trouxe ao fim a era das grandes dinastias. Em 1922,
os Habsburgos, os Hobenzollern, os Romanov e os Otomanos tinham acabado. A
partir daí, a nome internacional era o Estado Nacional, de modo que mesmo as
potências imperiais restantes compareciam à Liga das Nações em trajes nacionais
e não mais em uniformes imperiais como nas época do Congresso de Berlim.

Após a II Guerra a maré de Estados Nacionais atingiu seu auge. E em 1970 até o
império português havia se tornado coisa do passado.

Os novos estados do segundo pós-guerra têm sua próprias características, que


seriam incompreensíveis a não ser como sucessores dos modelos que abordamos
anteriormente.

(P.164) Os novos “nacionalismos coloniais” são semelhantes aos nacionalismos


coloniais de épocas anteriores pelo isomorfismo, entre a extensão territorial de
cada nacionalismo e a extensão territorial da unidade administrativa imperial
anterior.

A semelhança não é mera coincidência pois, está relacionada com a geografia das
peregrinações nacionais anteriores.

(P.165) Lembremos que no século XVII, a unidade administrativa imperial


adquiriu um significado nacional em parte por que ela circunscrevia a ascensão
dos funcionário públicos. O mesmo vale para o século XX.

Contudo, em fins do século XIX e sobretudo no XX, essas viagens já não eram
feitas apenas por alguns viajantes, e sim por enormes multidões graças a três
fatores:

(P.166) 1°: Desenvolvimento e aprimoramento dos transportes. 2°: A


“russificação” imperial tinha o seu lado prático, além do lado ideológico. O
enorme tamanho dos impérios europeus impossibilitava a contratação de
funcionários públicos apenas oriundos da metrópole. Sendo necessário contratar
entre os colonos. 3°: Houve uma difusão do ensino moderno, não só do Estado
Colonial, mas também particulares, religiosos e leigos. Essa expansão se deu
para completar os cargos públicos coloniais e pelo entendimento do colono de
que o conhecimento é importante.

(P.167) De modo geral, concorda-se que as camadas intelectuais foram


fundamentais para o surgimento do nacionalismo nos territórios coloniais. Uma
vez que era impedido aos nativos desempenha funções realmente rentáveis.

(P.170) Um traço interessante desta intelectualidade nacionalista da colônia era


sua juventude. Os intelectuais era compostos, sobretudo, da primeira geração
numericamente significativa a receber educação europeia.

(P.197) Revisando: a última onda do nacionalismo ocorreu em sua maioria nos


territórios colonizados da África e da Ásia e foi uma reação ao novo tipo de
imperialismo mundial, possibilitado pelas realizações do capitalismo industrial.

O nacionalismo oficial (solda entre o novo princípio nacional e o velho principio


dinástico) levou a russificação nas colônias extra-européias. Os impérios se
tornaram muito extensos para serem governados por nacionais então criaram
escolas para educar os nativos e formar quadros de subordinados especializados
para o Estado e para as empresas. Esses sistemas educacionais criaram novos
tipos de peregrinação (a estudantil) e o entrosamento entre os estudantes
peregrinos criou a base territorial para o surgimento de novas comunidades
imaginadas, onde os nativos puderam se imaginar como nacionais.

(P.199) Cap. 7: Patriotismo e Racismo.

Nos capitalismos anteriores Benedict Anderson tentou delinear os processos


pelos quais a nação veio a ser imaginada, modelada, adaptada e transformada.
Agora é a hora de explicar porquê das pessoas se disporem a morrer por tais
invenções.

Numa época em que é tão comum que intelectuais cosmopolitas e progressistas


insistam no caráter quase patológico do nacionalismo, nas suas raízes encravadas
no medo e no ódio do outro e nas afinidades com o racismo, cabe lembrar que as
nações inspiram amor, e em um amor de profundo autosacrifícios.

(P.200) Os frutos culturais do nacionalismo (poesia, monumentos, musicas)


mostram esse amor com clareza. Sendo muito difícil encontrar elementos de ódio
e de desprezo.

(P.202) A ideia de sacrifício supremo vem apenas como uma ideia de pureza,
através da fatalidade. Morrer pela pátria, assume uma grandeza moral que não se
pode comparar por morrer pelo Partido Trabalhista, ou pela Associação Médica
Americana, pois estão são entidades nas quais pode-se ingressar e sair a vontade.
A grandeza de morrer pela Revolução também deriva do grau de sentimento de
que ela é algo fundamentalmente puro.

(P.203) Aqui voltamos à língua.

1° Nota-se o caráter primordial da língua, mesmo as sabidamente modernas.


Ninguém é capaz de dizer a data em que nasce uma língua. Todas se avultam
imperceptivelmente de um passado sem horizonte. Assim, as línguas se mostram
mais enraizadas do que praticamente qualquer outra coisa e é ao mesmo tempo, o
que nos liga afetivamente ao mortos.

2° Existe um tipo específico de comunidade contemporânea que apenas a língua


é capaz de sugerir. Tomemos o exemplo dos hinos nacionais. Por mais banal que
seja a letra e medíocre a melodia, há nesse canto uma experiência de
simultaneidade. Precisamente neste momento, pessoas totalmente desconhecidas
entre si pronunciam os mesmo versos seguindo a mesma música.

(P.208) Nairn se enganou ao dizer que o racismo e o antissemitismo derivam do


nacionalismo.

O fato é que o nacionalismo pensa em termos de destinos históricos, ao passo que


o racismo sonha com contaminação eternas, transmitidas desde as origens dos
tempos por uma sequencia interminável de cópulas abomináveis: fora da história.
Os negros devido à nodoa invisível do sangue, serão sempre negros; os judeus
devidos ao sêmen de Abraão, serão sempre judeus.
(P.209) Os sonhos do racismo têm, na verdade, a sua origem nas ideologias de
classe, e não nas de nação: sobretudo nas pretensões de divindade entre os
dirigentes e nas pretensões de “linhagem” e de “sangue azul” ou “branco” entre
os aristocratas.

(P.210) Onde o racismo se desenvolveu fora da Europa no século XIX, sempre


esteve associado com a dominação europeia por duas razões. 1° Por causa do
nacionalismo oficial e do processo de russificação colonial. 2° O império
colonial, com seu aparato burocrático e suas políticas “russificantes” permitiu a
muitos burgueses se fazerem aristocratas fora da corte central.

(P.216) Cap. 8: O Anjo da História.

Começaremos este breve capitulo com as guerras entre as republicas socialistas


do Vietnã, Camboja e China.

(P.222) Como foi dito anteriormente e se encaixa perfeitamente neste caso os


revolucionários vietnamitas, cambojanos e chineses, assim que conquistam o
Estado, fazem uso de todas a estrutura já existente em seu favor assim como o
nacionalismo que já existia. A guerra entre eles foi uma guerra de chancelaria.

(P.226) Cap. 9: Censo, Mapa e Museu.

Na edição original deste livro, Anderson escreveu que “nas políticas de


construção da nação dos novos Estados vemos um grande entusiasmo
nacionalista popular através dos meios de comunicação, da educação, da
administração, e assim por diante”.

O que o autor supunha em sua visão limitada daquela época era que o
nacionalismo oficial dos mundos colonizados da África e da Ásia vinham
diretamente modelados sobre o nacionalismo oficial dos estados dinásticos
europeus do século XIX.

Contudo, ele percebeu que a genealogia próxima deveria ser buscada na criação
da imagem do Estado Colonial.

(P.227) Por isso, para entender melhor iremos estudas 3 instituições de poder: o
censo, o mapa e o museu. Que Anderson ressalta o fato de como elas moldaram a
forma como as potências coloniais viam e tentavam manter o controle sobre suas
colônias.

(P.222) O Censo.

A ideia fictícia do censo é que todos estão presentes nele, e que todos ocupam
um – e apenas um – lugar extremamente claro e sem frações. Essa é uma maneira
de criar imagens, adotada pelo Estado colonial tinha origens muito anteriores às
do censos dos anos 1870.

(P.236) O Mapa.

Aos poucos localidades como Cairo e Meca deixaram de ser vistas somente
como simples localidades numa geografia muçulmana e passaram a ser pontos
em folhas de papel que incluíam outros pontos como Caracas, Paris e Moscou. A
relação plana entre estes pontos não tinham relação com a importância real destes
lugares e sim determinadas matematicamente.

(P.246) O Museu.

O museu e a imaginação museológica são profundamente políticos. Tentando


criar uma imagem gloriosa junto à população do novo Estado.

(P.253) Assim, mutuamente interligados, censo, mapa e museu iluminam o estilo


do pensamento do Estado colonial tardio em relação a seus domínios. A
“urdidura” desse pensamento era uma grade classificatória totalizante que podia
ser aplicada com uma flexibilidade ilimitada a qualquer coisa sobre o controle
real ou apenas visual do Estado: povos, regiões, religiões, línguas, objetos
produzidos, monumentos, etc. O efeito dessa grade era sempre poder dizer que
tal coisa era isso e não aquilo, que fazia parte disso e não daquilo. Essa coisa
qualquer era delimitada, determinada e, portanto, enumerável.

(P.256) Cap. 10: Memória e Esquecimento.

Espaço: Novo e Velho.

New York, Nueva Leon, Nouvelle Orléans, Nova Lisboa, Nieuw Amsterdam. Já
no século XVI, os europeus tinham começado a adotar o estranho hábito de
denominar lugares remotos, primeiro nas Américas e na África, depois na Ásia,
Austrália e Oceania, como “novas” versões de “velhos” topônimos em suas terras
de origem. Além disso, eles mantiveram a tradição mesmo em lugares que
passaram para outros senhores imperiais, de modo que Nouvelle Orléans se
tornou New Orleans e Nieuw Zeeland para Nem Zeland.

(P.257) O que é interessante nos nomes americanos dos séculos XVI a XVIII
“novo” e “velho” eram entendidos sincronicamente, coexistindo dentro do tempo
vazio e homogêneo. Vizcaya ao lado de Nueva Vizcaya, New London ao lado de
London: o que mais indica rivalidade entre irmãos do que uma sucessão
hereditária.

Essa inédita novidade sincrônica só podia surgir historicamente quando houvesse


grupos consideráveis de pessoas em condições de se conceberem vivendo vidas
paralelas às de outros grupos consideráveis de gente. Entre 1500 e 1800, a
construção de navios e os avanços tecnológicos tornou possível a criação destas
imagens. Pois a pessoa poderia morar no planalto peruano, nos pampas
argentinos ou na Nova Inglaterra e mesmo assim sentir-se ligado a certas regiões
ou comunidades, a milhares de quilômetros de distância.

(P.258) Para que esse senso de paralelismo ou simultaneidade pudesse surgir e


também ter vastas consequências políticas era necessário que a distância entre os
grupos paralelos fosse grande, e que o mais novo deles tivesse um tamanho
considerável e fosse estabelecido de forma duradoura, além de estar solidamente
subordinado ao mais velho. Essas condições foram encontradas nas Américas,
como nunca ocorrera antes por três motivos.1°, a imensidão do oceano
impediram a gradual absorção dos povos dentro de unidades políticos-culturais
mais amplas como a que submergiu a Escócia dentro do Reino Unido. 2° a
migração europeia para a América foi gigantesca. (P.259) 3° a metrópole
imperial dispunha de formidáveis aparatos burocráticos e ideológicos que
permitiram subjugar os crioulos por vários séculos.

(P.261) Essas fatores ajudam a explicar por que o nacionalismo surgiu primeiro
no Novo Mundo. Além de elucidar duas características peculiares das guerras
revolucionárias que assolaram o Novo Mundo entre 1776 e 1825. Pois nenhum
revolucionário Crioulo sonhou em manter o império intacto apenas transferindo a
metrópole de uma sede europeia para uma sede americana. Ou seja, não
desejava-se que Nem London sucedesse Old London, mas sim salvaguardar o
paralelismo entre elas.

(P.262) Além disso, apesar das guerras serem extremamente sangrentas, os


crioulos não precisavam temer o extermínio físico nem a escravidão, ao contrário
do que ocorreu com tantos outros povos que estavam no caminho do
imperialismo europeu. Afinal, eles eram brancos, cristãos e falavam espanhol ou
inglês, além de serem os intermediários entre as colônias e o império. Eram
guerras entre parentes, o que garantiu que após um certo período de
ressentimento, fosse possível reatar laços culturais, as vezes políticos e
econômicos.

Tempo: Novo e Velho.

Para os crioulos do Novo Mundo, os estranhos topônimos discutidos acima


representam sua capacidade de se imaginarem como comunidades paralelas e
comparáveis às da Europa; contudo alguns acontecimentos súbitos em fins do
século XVIII, conferiram a essa novidade um significado inteiramente novo.

(P.263) O primeiro foi a Declaração de Independência das Treze Colônias em


1776, e a sua defesa militar republicana. Essa independência e o fato dela ter sido
republicana, foi visto como algo inteiramente inédito. Logo depois, em 1789,
houve a explosão no Velho Mundo com a Revolução Francesa.

Ambas, não criaram um sentimento de continuidade, mas sim uma sensação de


ruptura radical com o passado. Nada exemplifica melhor isso do que a abolição
do calendário cristão e a adoção do calendário secular.

(P.266) Na Europa, os novos nacionalismos começaram a se imaginar


“despertando de um sono”. Imagem totalmente diferente do que ocorreu na
América. Pois enquanto os nacionalistas das Américas olhavam para o futuro, os
nacionalistas europeus buscavam suas glórias no passado. Contudo, com o tempo
essa duplicidade desapareceu e os americanos começaram a buscar sua origem
aborígene.

(P.271) O Fratricídio Tranquilizador.

Enquanto Michelet, o historiador da Revolução Francesa, buscava resgatar as


pessoas que morreram durante Revolução Francesa do esquecimento, evitando
assim o seu desaparecimento nas correntezas da história, Renan surgiu com a
ideia da necessidade de esquecer certas coisas.

(P.273) Para Renan, “já ter esquecido” antigas tragédias é um dever cívico
contemporâneo de primeira importância.

O fratricídio tranquilizador é a forma do Estado criar uma capa sobre assuntos


desconcertantes para ele. Como massacres, guerras e crimes contra a
humanidade. Contudo, o ato deve ser distante temporalmente dos
contemporâneos. Um exemplo é a Guerra Civil Norte Americana, ensinada hoje
nas escolas como uma guerra entre irmãos, algo que seria representado de
maneira diferente caso o país estivesse dividido ao meio ainda hoje.

(P.278) A Biografia das Nações.

(P.279) Assim como com as pessoas modernas, as nações precisam gerar uma
narrativa de identidade. Entretanto, na história secular de uma pessoa, há um
começo e um fim, já as nações não possuem data de nascimento claramente
identificada, e sua morte (quando acontece) nunca é natural. Como não há um
criador original é praticamente impossível criar uma genealogia de gerações,
sendo a única maneira moldar a biografia das nações os “recuos no tempo” do
presente para o passado.

Fonte:
ANDERSON, Benedict: Comunidades Imaginadas. São Paulo. Cia das Letras,
2008.
Nação. Busca Incessante ou Comunidade Imaginada?

Benedict Anderson, em seu livro " Comunidades Imaginadas", tece uma crítica às
interpretações da questão da nação e do nacionalismo que os enxergam como produtos
da " invenção" de determinados atores sociais. Para ele, a "nação" é uma "comunidade
política imaginada" carregada de soberania e " intrinsecamente limitada". A
qualificando como a comunidade imaginada moderna, Anderson se propõe a uma
historização dos tipos de comunidades anteriores, que para ele são todas imaginadas e ,
que por isso, não se diferenciariam pelo contraponto " falsidade/autenticidade" como
nas interpretações da " invenção" . Seriam aquelas: a "comunidade religiosa" e o "reino
dinástico".
Estas comunidades extrapolavam as noções de territorialidade e temporalidade. No caso
das comunidades religiosas, os símbolos dariam sentido a uma linguagem sagrada e a
um "poder supraterreno", de forma que povos que utilizariam até mesmo idiomas
diferentes se veriam na mesma comunidade católica, muçulmana, judaica, etc.
Já o nacionalismo só é possível com o estabelecimento daquelas noções. Para ele, a
nação é " a idéia de um organismo sociológico atravessando cronologicamente um
tempo vazio e homogêneo" , ou seja, é um ente não-historicizado no discurso do
nacionalismo, e, que neste sentido pode construir a memória de uma nação ainda que
em tempos onde não houvesse identidade nacional.
Assim, a ascenção desta comunidade imaginada se dá com a queda do latim como
língua oficial e com o crescimento do mercado editorial, que foi responsável pela
massificação de publicações em línguas distintas. Estaria aí o embrião para um discurso
de memória nacional, que respaldado no estabelecimento dos novos idiomas oficiais
viria a os identificar com seus povos detentores. Esta análise, por mais que o autor
não adentre estas matas embrenhadas, confere ao nacionalismo europeu um caráter
burguês e capitalista.
Desta forma, é possível dizer que o discurso do nacionalismo e a construção dos
Estados Nacionais é, em Anderson, extremamente datado, por mais que ele permaneça
vigente até hoje. Assim, os discursos nacionalistas contemporâneos nada mais são que
um resgate deste período de estabelecimento da comunidade imaginada.
É importante colocar uma reflexão, no entanto. Por mais que se possa extrair isto do
livro, o autor não entra na questão de classe abertamente, que na minha visão é evidente
na construção de uma visão nacionalista. Talvez o faça deliberadamente para evitar a
idéia de "invenção", o fato é que a investigação ao qual me proponho e que em muito se
reproduz nos artigos deste blog, é a possibilidade da construção da nação em outro
prisma, um discurso nacionalista essencialmente anti-imperialista e que viabilize a
afirmação da cultura dos setores mais populares da sociedade. Será este o debate? Ou
deveríamos nos debruçar na busca de nova comunidade imaginada? Fica a questão para
a reflexão do leitor.

Comunidades Imaginadas: A América e O Imperialismo

O artigo "Nações. Busca Incessante ou Comunidade Imaginada?" publicado


anteriormente propunha um diálogo com o livro "Comunidades Imaginadas" de
Benedict Anderson, em especial com os capítulos "Raízes Culturais" e "Origens da
Consciência Nacional". Seguimos aqui esta série dissecando o autor e a interessante
perspectiva acerca do que chamamos de "Nação", agora com os capítulos "Pioneiros
Crioulos" e "Imperialismo e nacionalismo oficiais".
A fim de entender o discurso nacionalista feito pelos setores da esquerda e pelas classes
dominadas, o leitor poderia sair decepcionado destes capítulos. Apenas se não desse
atenção para um problema levantado pelo autor mas que ele mesmo não dedica muita
atenção.
Em "Pioneiros Crioulos", o autor entende o nacionalismo desenvolvido na América
como inovador, haja vista que este discurso ainda não havia se desenvolvido
plenamente no Velho Continente. Para ele, antes do surgimento dos "déspotas
esclarecidos" europeus. O caráter fragmentado da admnistração imperial espanhola teria
conduzido os crioulos (integrantes da elite colonial descendentes de espanhóis nascidos
na América) a desenvolver o discurso nacionalista antes mesmo do que houve na
Europa. Os privilégios dos legítimos espanhóis frente aos crioulos os levariam a
estimular a consciência nacional no continente.
Curiosamente, o Império Espanhol, apesar de admitir em todo o seu território apenas
um idioma, não haveria criado uma consciência nacional em todo o território. A
condição política fragmentada da colônia fez surgir diversos Estados Nacionais ,
movimento que teria ainda um caráter elitista, excluindo índios e escravos africanos.
Benedict Anderson afirma que este aspecto teria sido um impecilho ainda para Simon
Bolívar.
Claramente, Anderson se reaproxima da idéia de "invenção da nação" que ele combate
no início do livro ao caracterizar o surgimento da comunidade imaginada nação. Não
sendo o idioma um aspecto fundamental para a consolidação das identidades nacionais,
nem havendo uma comunidade religiosa que se amparasse num idioma sacralizado e
portanto, não havendo forte influência de um capitalismo editorial no discurso
nacionalista, o autor opta exclusivamente pelo aspecto político para entender as nações
americanas. Os Crioulos, fortalecidos enquanto ator político, construiram o discurso
nacionalista a fim de legitimar seu poder enquanto classe social. Assim, os aspectos
culturais americanos são postos de lado, e nem sequer há uma investigação da
possibilidade do discurso de Bolívar e a base social que este pensamento representava.
Esta análise nos deixa duas possibilidades: ou o fato de determinado território com
autoridade política estabelecida ser dominado por um Império em si estimula o discurso
nacionalista pelos dominados; ou o nacionalismo americano carrega o legado cultural
europeu. Vale destacar que Anderson nega esta perspectiva, apesar de esta ser a mais
possível. A primeira, no entanto, nos levaria a um determinismo histórico.
Mas voltando a vaca fria, ao narrar o fortalecimento dos Estados Nacionais no pós-
Revolução Francesa, Anderson faz uma diferenciação da nação como surgimento
espontâneo popular anterior com este que seria a "cópia pirata". Assim, ele mostra o
movimento feito pelos déspotas esclarecidos em reação ao clima instaurado na Europa
pela Revolução Francesa. A fim de manter seus Impérios, as aristocracias adotavam
medidas modernizantes, porém com a mesma estrutura de dominação. Seriam elas a
criação dos exércitos regulares, a oficialização dos idiomas em reinos que abrigavam
diversos idiomas e o discurso da expansão imperial. Assim o Japão, por exemplo,
destituiu o poder dos samurais e criou a identidade nacional com campanhas bélicas de
sucesso.
Nesta narrativa que aparece um detalhe para o qual o leitor deve ter atenção. Anderson
dá uma série de exemplos onde houve resistência a estes movimentos imperialistas, que
poderiam ser embriões de um nacionalismo de viés popular.
Ele caracteriza o levante de 1905 na Rússia como uma resistência a russificação do
reino Romanov. Para o autor, o levante dos operários e camponeses contra a aristocracia
tinha este embasamento. Narra também a greve de 1910 dos comerciantes chineses em
Bangcoc contra as autoridades do Sião. A esta ele qualifica como nascida de um
"republicanismo popular".
Na lógica de Anderson, esta análise assemelha-se a que ele faz da América. A
dominação imperial constrói a sua negação, que por mais que não se
DOI: 10.4025/actascilangcult.v31i1.5276

Ampliando e aprofundando o estudo do nacionalismo


ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do
nacionalismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 320 p.
ISBN: 978-85-35911-88-6.

Peonia Viana Guedes


Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rua São Francisco Xavier, 524, 11º andar, 20550-013, Maracanã, Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: peoniaguedes@terra.com.br

Publicado pela primeira vez em 1983, Imagined comunidade, desconhecidos uns dos outros em sua
Communities: Reflections on the Origin and Spread of maioria, sentem-se ligados entre si por símbolos,
Nationalism tornou-se leitura obrigatória para referências e experiências em comum.
estudiosos de diferentes áreas do conhecimento. A já Uma das grandes contribuições de Anderson ao
famosa definição de nação proposta por Benedict debate sobre nacionalismo é sua tentativa de
Anderson, “uma comunidade política imaginada – e “deseuropeizar” o estudo teórico do nacionalismo e
imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, sua tese de que as comunidades crioulas do Novo
ao mesmo tempo, soberana” –, correu o mundo em Mundo foram as primeiras comunidades a
várias línguas e o livro tornou-se, nas palavras desenvolver a ideia de identidade nacional como
surpresas e meio irônicas de seu autor, “um manual base para sua autodefinição política. Comunidades
de nível universitário”. Entre as primeiras versões Imaginadas é, também, particularmente inovador em
estrangeiras de Imagined Communities, encontra-se a sua análise da novidade da “vernacularização” das
tradução do livro para o português, uma publicação línguas e do papel do material impresso –
da Ática, feita em 1989. particularmente do jornal e dos romances de
Em 1991, foi publicada em inglês uma versão fundação – na construção coletiva de um passado
ampliada e revista do livro. Nessa segunda edição, que transformou a nação em uma “invenção sem
além de alterações factuais e conceituais, o autor patente”. Em Comunidades Imaginadas, o autor
acrescenta dois novos capítulos que, segundo ele, defende a tese de que a possibilidade de imaginar a
“têm basicamente caráter de apêndices”. A presente nação surgiu do lento declínio de três concepções
tradução, Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a culturais fundamentais que, no mundo moderno,
origem e a difusão do nacionalismo, de competente perderam seu “domínio axiomático sobre a
autoria de Denise Bottman, incorpora as alterações e mentalidade dos homens”: a ideia de que uma
acréscimos da 2ª edição em inglês, conta com uma determinada língua escrita pudesse oferecer acesso à
vigorosa apresentação de Lilia Moritz Schwarcz e verdade ontológica; a crença de que a sociedade se
traz interessante posfácio, no qual Anderson discorre organizava em torno de seres e grupos à parte dos
sobre os problemas, erros e acertos do processo demais seres humanos, como monarcas e
tradutório. autoridades religiosas; a concepção da temporalidade
O nacionalismo, conceito amplo e, ao mesmo em que a cosmologia e a história, as origens do
tempo, perigosamente escorregadio, tem sido, ao mundo e dos seres humanos são essencialmente as
longo dos anos, objeto de estudo de historiadores, mesmas. Com o declínio dessas três concepções
cientistas sociais e políticos e, ainda, de teóricos da culturais, Anderson argumenta que foi necessário
literatura. Como Comunidades Imaginadas contribui buscar uma nova maneira de “unir
para o debate interdisciplinar das questões ligadas ao significativamente a fraternidade, o poder e o
conceito e formas de expressão do nacionalismo? Ao tempo”, de, como diz, imaginar, adaptar e
usar o termo “comunidades imaginadas”, Anderson transformar a nação.
se opôs a modelos materialistas tradicionais de Na nova edição de Comunidades Imaginadas, é de
concepção de nacionalismo e mostrou considerá-lo particular interesse a inclusão de dois capítulos. Em
como comprovação do poder da percepção e da “Censo, mapa, museu”, Anderson ressalta a
imaginação humanas, tendo legitimidade emocional importância dessas três “instituições de poder” que
profunda. De acordo com o autor, membros de uma moldaram a maneira como as potências coloniais

Acta Scientiarum Language and Culture Maringá, v. 31, n. 1, p. 115-116, 2009


116 Guedes

viam e tentavam manter o controle sobre suas alguma, leitura obrigatória para os estudiosos do
colônias, ou seja, a natureza dos seus sujeitos, a nacionalismo.
geografia de seus territórios e a herança cultural de
seus povos. Em “Memória e esquecimento”, lida
com os processos de lembrança, seleção, recriação e Received on September 30, 2008.
apagamento que caracterizam a memória histórica. Accepted on October 30, 2008.
Nesse capítulo, Anderson ressalta a necessidade das
nações de estabelecerem uma identidade nacional
License information: This is an open-access article distributed under the terms of the
que tenha conexões com um passado remoto, Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution,
conexões que podem ser verdadeiras ou forjadas. and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.

Comunidades Imaginadas continua a ser, sem dúvida

Acta Scientiarum Language and Culture Maringá, v. 31, n. 1, p. 115-116, 2009