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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

LEANDRO DOS SANTOS

O ENCONTRO COM JESUS CRISTO: EXIGÊNCIA PARA O


DISCIPULADO

MESTRADO EM TEOLOGIA

SÃO PAULO
2014
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP

LEANDRO DOS SANTOS

O ENCONTRO COM JESUS CRISTO: EXIGÊNCIA PARA O


DISCIPULADO

MESTRADO EM TEOLOGIA

Dissertação apresentada à Banca


Examinadora da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção
do título de MESTRE em Teologia, sob
a orientação da Professora Dra. Maria
Freire da Silva.

SÃO PAULO
2014 
Banca Examinadora

___________________________________________

___________________________________________

___________________________________________
RESUMO

Este trabalho acadêmico, em nível de mestrado, tem como objetivo principal verificar a
temática do Encontro com Jesus Cristo como exigência para o discipulado. Isto se justifica
pelo interesse com que a Igreja tem tratado o assunto. Utilizando o método teológico, fazemos
uma análise da atual realidade procurando perceber a influência do presente tema para a vida
e a missão da Igreja. Procuramos desenvolver a temática auxiliados por teólogos, bem como
as recentes manifestações do Magistério da Igreja. A conclusão é que o tema do encontro com
Jesus Cristo pode contribuir significativamente como base para uma reflexão teológica
profunda e êxito pastoral.

Palavras-chave: teologia, Encontro com Jesus Cristo, Igreja, vida, homem.


ABSTRACT

This academic work, in the master’s degree level, It has as meaning objective check the
theme of the encounter with Jesus Christ as requirement to the discipleship. This is justified
by interest that the Church has treaty the subject. Using the theological method, doing an
investigation of present reality to perceive the influence of the present subject to the life and
the mission of Church. We want develop the theme oriented by theologian and the recent
manifestation of the teachership of Church. The conclusion is that the theme of the meeting
with Jesus Christ is able to contribute significantly as base to a deep theological refletion and
effect pastoral.

Keywords: Theological, Jesus Christ meeting, Church, Life, Human


SIGLAS

CEC – Catechisme de I’Église Catholique (Catecismo da Igreja Católica).

DA – Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência geral do episcopado


latino-americano e do Caribe.

CPMGJ – Comissão Pastoral e Missionária do Grande Jubileu

DV – Dei Verbum, Constituição Dogmática da Concílio Vaticano II sobre a Revelação


Divina.

EN – Evangelii Nuntiandi, Exortação Apostólica sobre a evangelização do mundo


contemporâneo de Paulo VI.

GS – Gaudium et Spes, Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II Sobre a Igreja no


mundo de hoje.

LG – Lumen Gentium, Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Igreja.

MR – Missal Romano

SD – Santo Domingo, Conclusões da IV Conferência do Episcopado Latino-Americano


SUMÁRIO
INTRODUÇÃO........................................................................................................................07
CAPÍTULO..I
DEUS VEM AO ENCONTRO DO HOMEM PARA SALVAR.............................................11
1.1 - A presença de Deus na criação.........................................................................................11
1.2 - O encontro do divino com o humano...............................................................................14
1.3 - O Pecado: ruptura do encontro com Deus........................................................................15
1.4 - A Aliança: reencontro e relacionamento com Deus.........................................................17
1.5 - O encontro com o Deus da vida e da libertação...............................................................19
1.6 O conhecimento de Deus como caminho para o seguimento...........................................22
CAPÍTULO..II
O ENCONTRO COM JESUS CRISTO: CAMINHO DE FORMAÇÃO INTEGRAL DO
DISCÍPULO MISSIONÁRIO...................................................................................................24
2.1 - Na encarnação, o Filho de Deus vem ao encontro de nossa humanidade........................25
2.2 - O Encontro com Jesus Cristo: caminho de conversão e comunhão.................................31
2.3 - O Encontro com Jesus Cristo sob o sólido fundamento da Trindade-Amor....................40
2.4 - O Espírito Santo: mestre e guia dos seguidores de Jesus Cristo.......................................45
2.5 - A Palavra de Deus como dom do Pai para o Encontro com Jesus Cristo.........................50
2.6 - O encontro pleno e definitivo com o Senhor....................................................................54
CAPÍTULO..III
IGREJA: COMUNIDADE QUE VIVE E PREGA O ENCONTRO COM JESUS CRISTO..61
3.1 - O encontro com a Igreja: Sacramento de Cristo...............................................................62
3.2 - Os sacramentos: lugar eficaz do Encontro com Jesus Cristo...........................................67
3.3 - Eucaristia: lugar privilegiado do Encontro com Jesus Cristo...........................................71
3.4 - O Encontro com Jesus Cristo nos pobres: missão da Igreja discípula missionária..........74
3.5 - Maria nos conduz ao encontro e ao seguimento de Cristo...............................................79
CONCLUSÃO..........................................................................................................................84
BIBLIOGRAFIA......................................................................................................................87
7

INTRODUÇÃO

A temática do encontro com Jesus Cristo é prioritária para afirmar a exigência do


discipulado. Cada pessoa que deseja seguir os passos de Jesus Cristo e vir em seu seguimento
deve estabelecer um encontro pessoal com Ele, um encontro que faça surgir um verdadeiro
cristão, que estabeleça vínculos. Encontro que não venha apenas de uma decisão ética ou de
uma grande ideia, mas que produza um acontecimento, um relacionamento pessoal, uma
orientação para a vida inteira. Esse encontro deve ser verdadeiramente um encontro de fé com
a pessoa de Jesus Cristo para que, fascinados pelo Mestre, desejemos permanecer com ele. É
também desse encontro que acontece a verdadeira conversão, pois, sem ela, não acontece o
discipulado, e a missão não cumpre a sua meta. “O seguimento do discípulo é ‘ir atrás’ de
Jesus com fidelidade e coerência na colocação em prática de sua mensagem”1.
A escolha desse tema é significativa e, ao mesmo tempo, profundamente teológica.
Quer ser um instrumento para todos aqueles que desejam conhecer Jesus Cristo e segui-lo
decididamente, pois, só se torna um cristão autêntico aquele que fez opção por Cristo, por
seus gestos, por suas atitudes e por suas palavras. Somente quem fez um encontro pessoal
com Ele pode assumir essa opção radical de conversão, comunhão e solidariedade.
Pastoralmente, também vemos que não há outra maneira de exercer e de buscar uma
verdadeira evangelização sem antes promover um encontro e passar por um processo de
experiência pessoal com Cristo e com seu evangelho, percebendo sua presença na história, na
vida do povo, para, assim, tornarmo-nos homens verdadeiramente novos e apóstolos dessa
mesma boa-nova redentora.
Nosso trabalho pretende estudar o presente tema a partir dos tratados dogmáticos da
fé católica a fim de que se obtenha com maior profundidade uma consciência madura e
coerente da missão evangelizadora. A temática do encontro com Jesus Cristo nos faz perceber
a urgente provocação da Igreja nos últimos tempos, em todos os seus âmbitos: é Ele nosso
ponto de partida e nossa meta a ser alcançada.
Estudaremos o tema em três partes principais, divididas em capítulos. Primeiramente,
refletiremos sobre a presença de Deus, que vem ao encontro do homem para salvá-lo. Ao
contemplar a criação, vemos a beleza e a presença de Deus. O homem, criado por Deus e para
Deus, é chamado a viver essa presença amorosa e, ao mesmo tempo, a reconhecer o divino,
1
BINGEMER, Maria Clara. Discípulos de Jesus hoje. In: SOTER e AMERINDIA (orgs) Caminhos da Igreja na
América Latina e no Caribe. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 361.
8

que vem ao encontro do humano a fim de torná-lo, à sua imagem e à sua semelhança,
participante da vida da graça e de chamá-lo a ser responsável pela criação, transmitindo vida e
utilizando-se dos bens criados para o seu bem e de todos os seres.
Ainda estudaremos nessa parte a temática do encontro entre Deus e o homem. A
partir da Revelação, o divino mostra-se ao humano e vem ao seu encontro.
Entretanto, nem sempre o homem responde positivamente a essa iniciativa de Deus,
que vem ao seu encontro: muitas vezes, pelo pecado, o homem apega-se às criaturas e destrói
as obras do criador, estabelecendo uma ruptura entre o humano e o divino.
Mesmo assim, Deus, em seu amor, continua a fazer-se presente na vida do homem e
deseja salvá-lo. Estabelece um reencontro por meio da Aliança, assim como fez com Abraão,
nosso pai na fé: constitui um relacionamento com o homem a fim de conduzi-lo à libertação,
através de Moisés, sendo presença constante e estabelecendo um encontro que gere um
verdadeiro conhecimento de seu amor e de sua ação libertadora por parte dos homens, a fim
de que assumam um verdadeiro caminho de seguimento.
No segundo capítulo, vamos desenvolver um estudo sistemático sobre o encontro
com Jesus Cristo, visto como caminho para uma formação integral daqueles que
verdadeiramente desejam segui-lo, ou seja, tornarem-se seus discípulos.

Se o Espírito de Jesus se manifesta no modo concreto como Ele viveu, só na


medida em que o seguimos, isto é, em que vivemos como ele viveu, em que
reproduzimos/atualizamos seu modo de vida (seguimento) somos seus
discípulos2.

A partir do encontro com Jesus Cristo, tomamos consciência da nossa fé, da alegria e
da coerência que ela nos proporciona, a fim de que sejamos conscientes de que somos
discípulos e missionários de Cristo, de que é Ele que nos envia ao mundo para anunciar e
testemunhar nossa fé e amor.
O Cristo, que se encarnou e se fez homem para que nós pudéssemos participar de sua
divindade, convida-nos a assumir essa realidade de amor e a viver um encontro pessoal com
Ele. Tal encontro não é ideológico, mas um encontro pessoal e edificante que nos leva a
compreender nossa vocação batismal como caminho de conversão e comunhão.

2
JÚNIOR, Francisco de Aquino. Viver segundo o espírito de Jesus Cristo: espiritualidade como seguimento.
São Paulo: Paulinas, 2014, p. 37.
9

A perspectiva fundamental do encontro é a Trindade, manifestação concreta de um


encontro que se estabelece na unidade e na comunhão inseparável. Deus Pai é quem nos atrai
por meio da entrega de seu Filho, e deles recebemos o Espírito Santo como guia e mestre de
nossa vida. Contudo, a Palavra de Deus, o Verbo Encarnado, será sempre o dom concedido do
Pai para o encontro com Jesus Cristo, sob a orientação do Espírito. Somente a partir do
encontro com o Cristo é que permaneceremos no compromisso consciente de que Nele é que
temos a luz, o amor, a esperança, e a vida eterna. Esta é a autêntica espiritualidade cristã
pregada pela Igreja a partir de Jesus Cristo.

Quando falamos de espiritualidade cristã, falamos da experiência do Espírito


de Jesus Cristo – do que Ele faz em nós e de nós e do que nós fazemos n’Ele
e com Ele no dia a dia de nossa vida. O mesmo Espírito que fez de Jesus de
Nazaré o Cristo (ungido, messias) é o que faz de nós cristãos (ungidos,
messias)3.

No terceiro capítulo, é importante considerar o tema da Igreja como comunidade que


vive a partir da pregação e do encontro com o Senhor, uma vez que a sua origem está
justamente ligada à experiência desse encontro pessoal das primeiras comunidades cristãs,
ressaltando-se os aspectos da conversão e do testemunho dessas comunidades, com o Cristo.
A partir desse encontro pessoal é que descobrimos a verdadeira Igreja cristã. “Sem o
Cristo não haveria Igreja cristã. Ela nasce e se constitui, precisamente, enquanto testemunha
de Jesus Cristo – sua vida, morte e ressurreição”4.
Manifestada ao mundo pela ação do Espírito, no dia de Pentecostes, a Igreja será
sacramento de salvação para aqueles que nela se encontram e que vivem a proposta do Reino.
Da Igreja, vamos aos sacramentos, que serão lugares eficazes para que esse encontro
com Jesus Cristo seja marcado em todas as etapas da vida. Sobretudo, na Eucaristia,
encontraremos o verdadeiro sentido de nossa relação com Deus e com o próximo.
Na nossa reflexão, estudaremos também o tema da opção preferencial pelos pobres
como lugar do encontro com Jesus Cristo. É no serviço que deve ser prestado, sobretudo para
com os mais necessitados, ou seja, os pobres, os preferidos do Senhor e do Reino, que
estabelecemos um verdadeiro encontro com Cristo e nos abrimos a uma profunda conversão.

3
JÚNIOR, Francisco de Aquino. Viver segundo o espírito de Jesus Cristo: espiritualidade como seguimento.
São Paulo: Paulinas, 2014, p. 40.
4
Ibidem, p. 86.
10

Não podemos nos esquecer que essa opção é de uma Igreja verdadeiramente discipular
e missionária. “A opção pelo pobre é um componente fundamental do seguimento a Jesus”5.
Finalmente, estudaremos sobre o tema Maria no encontro com Jesus Cristo. Maria
nos conduz a esse encontro de comunhão e de serviço. Ela é exemplo para os seguidores de
Jesus Cristo, e mostra que o verdadeiro encontro com Ele nos impulsiona para o serviço.
Desse modo, nossa intenção é constatar que a temática do encontro com Cristo
perpassa todos os âmbitos teológicos. Desenvolvendo este estudo de maneira sistemática e
programática, lançamo-nos quais peregrinos nessa estrada e assumimos o desejo dos gregos
que disseram a Filipe: “Queremos ver Jesus!” (Jo 12, 21). Tal são o objetivo do nosso
percurso e, como discípulos, reconhecemos a importância dessa exigência.

5
GUTIÉRREZ, Gustavo. A opção profética de uma Igreja. In: SOTER e AMERINDIA (orgs) Caminhos da
Igreja na América Latina e no Caribe. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 290.
11

CAPÍTULO I
DEUS VEM AO ENCONTRO DO HOMEM PARA SALVAR

Desde o princípio, o Deus Criador, amorosamente, fez-se presente na vida do seu


povo, Israel. Ao fazer memória da sua história, o povo entende que Deus é presente, que
sempre caminha à sua frente, guiando-o e protegendo-o. Essa presença dá-se através desse
divino encontro, em que muitos acolhem-no na fé e na esperança, e outros incompreendem-no
e, até mesmo, rejeitam-no.
Somos, desde o início, um povo peregrino e testemunhas da presença de Deus
sempre atuante em todo o nosso caminhar. Deus, por livre decisão, revela-se e doa-se ao
homem. Revelando-se, Deus manifesta a sua vontade e essa é a de que sejamos capazes de
conhecê-lo e amá-lo a partir de um encontro vivo com Ele.
Por isso, Deus fez-se presente na história humana e manifestou a todos os povos, de
todos os tempos e das mais variadas culturas, a sua presença amorosa. Sua vontade é que
sejamos salvos, ou seja, participemos de sua vida e sejamos conduzidos à sua plena presença
salvadora e eterna.

1.1 A presença de Deus na criação

O Deus que cria também se faz presente junto de suas criaturas. Como não
reconhecer essa presença? Como ignorar ou não perceber esse encontro de Deus com suas
criaturas?
É preciso considerar um elemento importante na obra da criação: Deus criador do
mundo e criador do homem. A criação do mundo dá-se pela grandeza pela beleza de Deus em
sua obra criada. Ao contemplar a natureza, ou seja, o céu, a terra, as plantas, as águas e tudo
mais, somos convidados a reconhecer a presença reveladora de Deus. Contemplando essa
presença, poderemos reconhecer a bondade e a plenitude da vida de Deus, como o salmista no
salmo 104: “Quão numerosas são tuas obras, Senhor, e todas fizeste com sabedoria! A terra
está repleta das tuas criaturas.” (sl 104,24)
12

“A variedade das coisas visíveis ao ser humano, acessíveis a seu entendimento, porém, é
ínfima em face do que permanece oculto e inescrutável à compreensão humana”6. É Deus que
move e sustenta toda a criação; por mais que os homens desejem conhecer todas as coisas,
jamais conseguirão compreender o infinito ato criador de Deus.

As coisas criadas distinguem-se do Criador e as coisas feitas daquele que


as fez. Ele não foi feito e não tem princípio nem fim, não precisa de
ninguém, basta a si mesmo e, mais que isso, confere a existência a todas as
outras coisas 7.

Porém, não podemos deixar de reconhecer o ato da criação do homem como imagem
e semelhança de Deus. “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, à imagem de Deus
Ele o criou, homem e mulher Ele os criou” (Gn 1, 27).
No encontro com Jesus Cristo, reconhecemos ainda mais o sentido de pertença ao
Criador, uma vez que o Filho sempre esteve presente desde o princípio da Criação. “Ora, ele
sempre existiu, se, como ele mesmo diz, está no Pai (Jo 14, 10s) e se Cristo é a Palavra, a
sabedoria e a força, que o Cristo seja isto, como sabeis, o dizem as divinas Escrituras (Jo 1,
14; 1Cor 1, 24); ora, essas são forças de Deus”8.
A plenitude da criação é a existência do homem. O ser criado à imagem e
semelhança de Deus é que confere ao homem a sua dignidade, a dignidade de pessoa, que o
torna um ser de relação e comunhão. Tudo foi criado para que o homem pudesse reconhecer a
Deus e a sua grandiosidade, bem como estabelecer sua vida de comunhão com seu Criador.
Por isso, nosso Deus é um Deus de comunhão desde o princípio; criando, Ele ama e, por
amor, Ele salva. O objetivo primeiro e último da criação é a manifestação da presença divina
junto às criaturas, e a criação é um louvor à grandeza de Deus.
Essa criação é manifestada por Deus para a nossa salvação, este é o seu desejo:
“Deus cria para salvar, ou Deus cria e salva”9. Assim, Ele estabeleceu a comunhão com as
criaturas e, ao criar todas as coisas por obra de suas mãos, manifestou a sua amorosa presença.

6
SATTLER, Dorothea; SCHNEIDER ,Theodor. “Doutrina da criação”. In Manual de Dogmática I. Petrópolis:
Vozes, 2000, p.146.
7
LIÃO, Ireneu de. São Paulo: Paulus, 1995, p.266.
8
DIONÍSIO. “Trindade e Encarnação”. In Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral,
São Paulo: Paulinas, 2007, p. 47.
9
DE LA PEÑA, Juan Luis. Criação, Graça e Salvação, São Paulo: Loyola, 1998, p. 10.
13

Não podemos reduzir a criação simplesmente a um acontecimento que ocorreu num


período da história, de uma única vez; o conceito de criação supõe que a ação de Deus é
constante e desenvolve-se a todo o momento. Deus continua a criar e a fazer-se presente,
estabelecendo a comunhão entre criador-criaturas. O amor de Deus comunica a vida do ser e
concretiza o nosso existir. É um encontro entre o criador e a criatura, um encontro de amor e
de plena comunhão, um encontro que nos permite estabelecer um relacionamento de amizade
com Deus; nesse relacionamento, somos criados e Deus vai criando-nos. “Ele nos criou livres
e nos fez sujeitos de direitos e deveres em meio à criação”10.
Tudo vem de Deus, dele depende; é Ele quem afirma a criação através de sua
presença criadora e salvífica. Concluímos assim que Deus quis estar presente no meio de nós
para que nós pudéssemos participar da sua vida, pois dele tudo precede, tudo convive e tudo
se plenifica.
Também não é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, Ele
que a todos dá vida, respiração e tudo o mais. De um só, Ele fez toda a raça humana para
habitar sobre toda a face da terra, fixando os tempos anteriormente determinados e os limites
do seu hábitat. Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas,
esforçassem-se por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós, pois nele
vivemos, nos movemos e existimos (At 17, 25-28a).
O criador comunica sua vida a nós, é o seu próprio ser que se faz presente na criação.
“Quanto mais presente o criador, tanto mais faz ser a criatura”11. Na criação, Deus nos
comunica o seu Ser; o ser de Deus comunica a vida e nos faz participar da sua vida, de modo
que, embora haja a diferença entre criador e criatura, há também a unidade do criado com o
criador. Isso pode chamar-se de encontro íntimo e transcendente, encontro que Deus
estabeleceu conosco em seu infinito amor.
A criação nos dá a certeza de que pertencemos a Deus, e essa pertença nos enche de
esperança. “Com a criação, Deus não abandona a sua criatura a ela mesma. Não somente lhe
dá o ser e a existência, mas também a sustenta a todo instante no ser, dá-lhe o dom de agir e a
conduz a seu termo”12.

10
CELAM. Documento de Aparecida. Texto Conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-
Americano e do Caribe. São Paulo: Paulus, 2007, p. 104. (A partir desta referência, nas próximas citações
usaremos sempre a citação simplificada: DA).
11
QUEIRUGA, Andres Torres. Recuperar a Criação. São Paulo: Paulus, 1999, p. 45.
12
CEC 301
14

Como vemos, o nosso destino é estar em Deus e sermos sua imagem e semelhança.
Na encarnação do Verbo Divino, isso se concretiza ainda mais, pois Deus humaniza-se para
que nós possamos ser divinizados. A presença de Deus no homem, por meio de Cristo, foi-nos
revelada para que todo ser humano, dotado de alma e espírito, seja sinal visível de seu criador.

1.2 O encontro do divino com o humano

Ao revelar-se a nós, Deus quis estabelecer um encontro de amor conosco, por meio
de uma aliança. Ao longo da história, a Sagrada Escritura vai mostrar-nos justamente, o
encontro de Deus com a humanidade. “Por isso, o Verbo de Deus veio ele próprio, a fim de
que, sendo a Imagem do Pai, possa re-criar o homem segundo a imagem”13.
Assim, compreendemos que “enquanto o homem experimenta em si mesmo, na
natureza ou na história, a Deus como chegando a ele, como se manifestando a ele, está tendo a
experiência radical da revelação”14. É o próprio Deus quem estabelece esse encontro com o
homem; como todo encontro, nesse caso, não é diferente: o homem também tem a liberdade
de acolher e propiciar a integração desse encontro.
Nesse sentido, “mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível, levado por Seu
grande amor, fala aos homens como a amigos, e com eles se entretém para convidá-los à
comunhão consigo e nela os receber”15. Portanto, o encontro de Deus conosco é um encontro
de amor, que estabelece relação, amizade, reciprocidade, comunhão, realização. “À medida
que Deus sai imediatamente ao encontro da liberdade humana, está iluminando e capacitando
o homem para que oriente na justa direção o processo do mundo, e assim alcance ele mesmo
sua autêntica realização”16.
É importante ressaltar que esse encontro de Deus, na sua revelação divina, dá-se com
todos os homens, e não somente com um povo específico. Deus está realmente presente em
todos os homens, e se revela a eles realmente, apesar de suas deformações; revela-se a eles,
sobretudo nas experiências mediadas por suas tradições religiosas17.
Portanto, o encontro de Deus com a humanidade acontece por uma experiência de fé
de uma religião. Há, porém, os limites desse encontro, limites que não vêm de Deus, mas
13
ATANÁSIO. “A Encarnação do Verbo, restauração humana”. In Compêndio dos símbolos, definições e
declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas, 2007, p.143.
14
QUEIRUGA, Andres Torres. A revelação de Deus na realização humana. São Paulo: Paulus, 1995, p. 149.
15
DV 2.
16
QUEIRUGA , Andres Torres. op. cit., 1995, p. 205.
17
Idem, p. 150-151.
15

próprios da criaturalidade humana. Porém, Deus quis se fazer presente a cada homem e,
mesmo na limitação humana, proporciona um encontro de amor que ultrapassa tal limitação.

O encontro com o Deus que se revela envolve intimamente, nessa total


entrega de si que o homem é chamado a viver, a inteligência e a vontade e se
realiza graças à moção do coração, à abertura da mente e à doçura do
consentimento, todos eles obra do consolador18.

No encontro com o Verbo encarnado, encontramo-nos a nós mesmos, pois mediante


as suas obras, Ele nos revela o rosto do verdadeiro homem e nos faz reconhecer o Pai e a sua
ação no mundo. “Assim, o Verbo, querendo devidamente socorrer os homens, devia residir,
na terra como homem, tomar corpo semelhante ao deles, e agir através das coisas terrenas,
isto é, por obras corporais. Dessa forma, os que não haviam querido reconhecê-lo por causa
de sua providência e seu domínio universal, reconheceriam pelas obras corporais o Verbo de
Deus encarnado, e por ele, o Pai”19.

1.3 O pecado: ruptura do encontro com Deus

O homem ignorou seu encontro com Deus, recusando viver a sua busca de plenitude
em Deus. “Levantou-se contra Deus desejando atingir seu fim fora dele” 20. Deus estabelece
um encontro de amor com o homem. Este, por sua vez, rompe sua aliança de comunhão com
Deus, afastando-se de sua presença.
Criado na liberdade, o homem afasta-se do Criador a partir do momento em que
adere totalmente às criaturas. Ao contemplar seu coração, o homem vê que tende a inclinar-se
para o mal. Percebendo tal possibilidade, ele rompe seu encontro de comunhão com Deus e
desestabiliza-se da sua relação consigo mesmo e com as demais criaturas. “O pecado é o
afastamento de Deus e apego às criaturas”21.
Agostinho parte da teoria do amor. Fomos criados por amor. A criação, mediante a
revelação, é um encontro de amor e nos impulsiona a amar. Essa busca de amor leva-nos a

18
FORTE, Bruno. Teologia da história: Ensaio sobre a revelação, o início e a consumação. São Paulo: Paulus,
1995, p. 185.
19
ATANÁSIO. “A Encarnação do Verbo, restauração humana”. In Compêndio dos símbolos, definições e
declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas, 2007, p.144.
20
DV 13.
21
MOSER, Antonio. O pecado. Petrópolis: Vozes, 1996, p. 180.
16

buscar os bens que nos façam amar e sentirmo-nos amados. Isso gera uma busca de felicidade
na vida do homem, levando-o a apegar-se às felicidades desta realidade terrena, obscurecendo
a sua visão acerca da plena felicidade constituída por Deus desde a criação e afastando-o de
seu convívio. “O pecado, porém diminuiu o próprio homem, impedindo-o de conseguir a
plenitude”22.
O homem pode, muitas vezes, querer se utilizar das criaturas em busca de sua
felicidade, esquecendo-se de que ele foi criado para seu Criador; não reconhecer essa verdade
pode levá-lo a pecar e a afastar-se da vida de comunhão com Deus. “Consiste, antes, em
preferir ficar com a obra e a arte, em vez, de através delas, chegar ao artista”23.
O pecado pode limitar o homem a contentar-se com a criação, impedindo-o de
chegar ao encontro com o seu Criador. Eis a tendência humana de apegar-se
desordenadamente aos bens passageiros e limitados, afastando-se do Bem eterno e do
encontro com a plenitude, sua realização.
Para Agostinho, o afastamento de Deus acontece quando o homem cede à tentação
de “ser como Deus”. Se isso acontece, a quem o homem desejará chegar? Qual será a sua
meta? Ele perderá seu destino, logo, seu sentido de ser. Acreditando se bastar em si mesmo,
voltando-se somente para si, negando sua condição de criatura e fazendo-se um “deus”.
Essa consciência deve nos levar, a saber, que “o bem e a graça de Deus, por seu
plano, chegam a nós também mediante os outros. A fidelidade pessoal a Deus não significa
apenas a realização da vocação pessoal, mas a cooperação no bem de todos”24.
Conforme sublinha Moser, “para São Gregório Nazianzeno, a origem da guerra, das
revoltas e da tirania encontra-se justamente, no fato de alguns se apoderarem do que estava
destinado a todos” 25. O pecado também trouxe para a humanidade a injustiça, dentro da qual
uns enriquecem e outros ficam cada vez mais pobres. O mal do pecado gera a desigualdade e,
na sociedade, produz a miséria de muitos em detrimento do excesso do luxo de poucos.
O homem apega-se às criaturas e busca desordenadamente enriquecer-se delas,
transgredindo a ordem da criação e violentando-se contra o próprio criador. O pecado leva-o a
afrontar-se acima dos valores da sua dignidade estabelecida por Deus e usando violentamente
as coisas criadas, até mesmo a vida humana. No curso da história, podemos constatar que
muitos homens e mulheres foram tratados como propriedades de outros. Ainda hoje,

22
DV 13.
23
MOSER, Antonio. op. cit, p. 184.
24
LADARIA, Luis F. Introdução à Antropologia Teológica. São Paulo: Loyola, 2002, p. 95.
25
MOSER, Antonio. op. cit., p. 187.
17

encontramos na sociedade a comercialização das pessoas, como o comércio ilegal das


adoções, a prostituição etc. O pecado gera a morte e a negação do amor, impedindo-nos de
encontrar Deus e rompendo nosso relacionamento com Ele.

1.4 A Aliança: reencontro e relacionamento com Deus

A aliança é um elemento teológico fundamental para que possamos compreender a


história de Israel, um povo que rompe sua relação com Deus, mas que depois caminha com
Ele e sente-se eleito e escolhido. O encontro que Deus realiza com o povo de Israel quer ser
um encontro de salvação: Deus toma a iniciativa de salvar.
A Salvação que Deus oferece a Israel exige uma resposta. Todo encontro exige uma
acolhida da parte de quem recebe o convite para se encontrar. Deus vem ao encontro do povo
para salvá-lo e esse, por sua vez, responde livremente com fidelidade, mediante seu
compromisso ético, religioso e cultural. A participação do homem é essencialmente
significativa, pois a infidelidade para com esse encontro, ou seja, para com a aliança, leva-o a
essa ruptura. Porém, constatamos que Deus aproxima-se novamente do homem: ele estabelece
um reencontro com o ser humano, oferecendo uma nova aliança. Israel é convidado a olhar
constantemente para as alianças feitas, no passado, para assim entender sua situação perante
Deus.
Desde o início da história do povo de Israel, vemos a presença de Deus atuante. Ele
quer salvar, porém, exige fidelidade. “Deus estabelece relacionamento pessoal com o homem.
26
O homem responde pessoalmente à proposta de Deus” . Portanto, inicia-se um reencontro
entre Deus e o homem, um reencontro que promove o relacionamento pessoal e existencial.
Esse relacionamento se concretiza por meio da Palavra; poderíamos assim chamá-lo
de tempo da Palavra. “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos pais pelos
profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu
herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos” (Hb 1,1-2). Deus falou-nos por meio
da Palavra dos profetas e por meio de seu Filho, Plenitude do tempo da Palavra. Tal é a
história profética, a da antiga aliança, na qual percebemos a linguagem de Deus que sempre
fala aos homens. “É através da palavra que se realizam todos os grandes inícios da história da

26
RUBIO, Alfonso Garcia. Unidade na pluralidade: O ser humano à luz da fé e da reflexão cristã. 3.ed.
Petrópolis: Vozes, 2001, p. 111.
18

salvação: assim foi com a vocação de Abraão: “Javé disse a Abraão [...]” (Gn 12,1), assim foi
com a de Moisés [...] ”27.
Deus falou com os profetas. Estabeleceu um relacionamento com eles a partir de um
encontro. Esse encontro gerou neles uma escuta atenta e sensível da Palavra de Deus, certos
de serem fiéis à sua vontade, respondendo com aceitação à sua proposta.
Assim foi com Abraão. A Palavra de Deus foi dirigida a ele numa visão e disse:
“Não temas, Abraão! Eu sou o teu escudo, tua recompensa será muito grande” (Gn 15, 1).
Deus estabelece com ele uma aliança e promete-lhe uma grande e constante recompensa.
Ainda mais, promete-lhe uma descendência. Abraão responde com fé. Sua confiança lhe
proporciona um encontro de relacionamento com Deus, encontro que é representado da
maneira do seu tempo à maneira mais comum usada no Antigo Oriente: “repartir o animal no
28
meio e caminhar entre as partes separadas ligava as partes em aliança” ·. O fogo que ali
termina a celebração da aliança é sinal da presença de Deus. “Quando o sol se pôs e
estenderam-se as trevas, eis que uma fogueira fumegante e uma tocha de fogo passaram entre
os animais divididos. Naquele dia, Iahweh estabeleceu uma aliança com Abraão...” (Gn 15,
17-18a).
A aliança realizada com Abraão expressa um Deus presente a atuante na vida do seu
povo. “Abraão e os seus percebem uma presença ativa que fica além das formas, sem se
identificar com elas”29. Deus vai estabelecendo um relacionamento na vida de Abraão,
mediante sua presença. O encontro dá-se de maneira gradativa, revelando-se pouco a pouco,
estabelecendo sua aliança. Isso significa que o povo de Israel também foi percebendo a
proximidade de Deus e de sua vontade ao longo da história.
Abraão recorda-nos de que Deus estabelece um reencontro com cada um de nós,
fazendo-se presente e confiando-nos uma promessa. Estabelecendo uma aliança conosco, ele
exige de nós uma resposta com fidelidade. “Bendizemos a Deus pelo dom da fé que nos
permite viver em aliança com Ele até o momento de compartilhar a vida eterna”30.

27
FORTE, Bruno. Teologia da História: Ensaio sobre a revelação, o início e a consumação. São Paulo: Paulus,
1995, p.126.
28
BERGANT, Dianne. KARRIS, Robert. Comentário Bíblico Volume I. São Paulo: Loyola, 1999, p. 71.
29
MESTERS, Carlos. Deus, onde estás?, Belo Horizonte: 5.ed. Vega, 1976, p. 21.
30
DA 104.
19

1.5 O encontro com o Deus da vida e da libertação

Há uma afirmação do livro do Êxodo que relata a proximidade de Deus com o


sofrimento humano e sua complacência por nós (Ex 3, 7-8).
No texto, nós constatamos que Israel estava sendo explorado pelos egípcios e foi
libertado por uma intervenção de Deus. Isso demonstra que Deus vem ao encontro do homem
para salvar e também para libertar. Deus vai revelando-se como salvador e libertador. O
êxodo desdobra-se em três acontecimentos fundamentais: “a libertação da escravidão no
Egito, a peregrinação pelo deserto, conduzido por Iahweh, e o compromisso assumido entre
este e o povo de Israel”31. Ambos os acontecimentos são para manifestar a imagem de Deus
para o povo: um Deus que deseja a vida do seu povo e quer torná-lo livre, para que tenha vida
em plenitude.
Podemos, então, considerar que: “a saída do Egito para Israel, dada a situação da
escravidão em que se encontra o povo, trata-se de uma verdadeira salvação”32. O povo de
Israel, mediante sua experiência de exílio e também de deserto, vai ao encontro de vida, ou
seja, de salvação e libertação. Essa foi a experiência do povo no monte Sinai. “Ali Javé se
manifesta e conclui um pacto com aqueles que tirou do Egito, constituindo uma verdadeira
comunidade, um povo novo”33.
Deus quer estabelecer um povo novo, restaurado, possuidor de uma terra cheia de
vida e libertação. No Sinai, Deus revela sua lei e estabelece a aliança com seu povo, tornando-
o povo de Deus. Esse encontro gera uma identidade e uma certeza de que Deus caminha com
seu povo e interessa-se por ele.
A experiência feita por Moisés junto de Deus nos ajuda a compreender a presença
deste Deus que quer a vida e a libertação. Essa última é manifestação da vida. Moisés, que se
dispõe a servir o Senhor e diante da presença de Deus, recebe uma missão especial: conduzir
o povo à libertação.
A história de Moisés e sua relação com Deus revelam como Deus trata seu povo.
“Então disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e fazer sair do Egito os israelitas?
Deus disse: Eu estarei contigo; e este será o sinal de que eu te enviei: quando fizerdes o povo

31
RUBIO, Alfonso Garcia. Unidade na pluralidade: O ser humano à luz da fé e da reflexão cristã. 3.ed.
Petrópolis: Vozes, 2001, p. 94.
32
BINGEMER , Maria Clara L.; FELLER, Vitor Galdino. Deus Trindade: A vida no coração do mundo. São
Paulo: Paulinas; Valência: Siquem, 2002, p. 43.
33
Idem, p. 44.
20

sair do Egito, vós servireis a Deus nesta montanha” (Ex 3, 11-12). No monte de Deus, Moisés
recebe a incumbência de ser sinal de libertação e de levar o povo a um ato de fé. “Nela Javé se
revela como libertador, através de um gesto que acompanha e dá sentido a todo o itinerário
que leva seu povo ao encontro com ele”34. A fé no Deus da libertação leva o povo a prestar-
lhe culto. “Por isso libertação e culto ao Senhor estão estreitamente ligados”35. Para que o
povo preste verdadeiro culto ao Senhor, é preciso que ele esteja livre. O verdadeiro culto a
Deus supõe o estado de liberdade.
Moisés é sinal de libertação e de vida concedidos por Deus ao seu povo. A presença
divina junto do povo é dada pela mediação humana de Moisés. Deus não age sozinho. Ele
conta com a participação do homem.
O encontro pessoal com o Deus da vida e da libertação leva-nos a gerar vida e a
promover a liberdade daqueles que hoje estão aprisionados e escravizados. Deus conta
conosco para salvar, porém não caminhamos sozinhos e este não é um poder próprio, mas Ele
sempre está presente.
Não podemos ignorar esta verdade: “A ação de Deus requer que se ponham em
prática seus mandamentos”36. Somente a vivência dos mandamentos pode gerar vida e contar
com a intervenção humana na salvação do homem. Deus salva amando, nós somos chamados
a participar desse plano de salvação vivendo, sobretudo o amor e a justiça. “Deus não impõe a
sua aliança; ela é um dom, e, portanto, exige uma opção. Uma opção pela vida” 37. Portanto,
“optar pela vida é escolher a Deus, apegar-se a Ele como uma criança com seus pais, fonte e
proteção de sua vida” 38.
A presença de Deus será sempre manifestação de vida e libertação, por isso a
revelação do nome de Deus confirmará ainda mais essa presença. “Moisés disse a Deus:
“Quando eu for aos israelitas e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e me
perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que direi?”Disse Deus a Moisés:“Eu sou aquele que é.”
(Ex 3, 13-14).
É importante salientar que “no mundo semítico, o nome de uma realidade é a própria
realidade, é o significado da presença e da ação de um ser”39. A revelação do nome de Deus
supõe a sua presença na vida de Moisés e de seu povo. O nome de Deus quer significar que

34
GUTIÉRREZ, Gustavo. O Deus da vida. 2aed. São Paulo: Loyola, 1992, p. 26.
35
Ibidem, p. 26.
36
Ibidem, p. 28.
37
Ibidem, p. 28.
38
Ibidem, p. 29.
39
RAVASI, Gianfranco. Êxodo. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 42.
21

Deus está conosco, caminha com o seu povo, está presente. Deus se faz presente na
humanidade para comunicar a vida e libertá-la de toda opressão. “O eterno faz-se presente no
temporal, o absoluto na história, sem ser, porém, apenas uma presença: é também comunhão,
dom”40. O nome de Deus manifesta o seu desígnio de libertação e vida.
A importância da vida e da libertação é uma necessidade indispensável para o
homem; é nesse encontro com Deus e diante da sua presença que nós encontramos não apenas
os bens materiais, como o alimento, mas também a nossa liberdade e a nossa dignidade como
pessoa. No encontro com o Deus da vida, “deixamos de ser estrangeiros e peregrinos para nos
tornarmos possuidores no pleno exercício de todos os seus direitos, os homens e as mulheres
poderão dirigir a Deus um culto em espírito e verdade” 41.
No encontro com o Deus da vida e da libertação, somos convidados a reconhecer a
sua grandeza; esse reconhecimento de nossa parte coloca-nos em relacionamento com ele. “A
proximidade de Deus das suas criaturas faz compreender melhor o sentido do seu poder”42.
Essa proximidade e essa presença foram experimentadas pelo povo durante sua
caminhada pelo deserto. Entre sair da escravidão e chegar à terra prometida, houve um tempo
de deserto, de espera. O deserto proporciona um encontro maior com Deus e consigo mesmo.
O povo faz experiência de suas necessidades e, ao mesmo tempo, a experiência de um Deus
providente. É a experiência da necessidade, mas também da maturidade; da tentação, mas
também da mão prodigiosa de Deus. Na terra sem vida do deserto, é o próprio Deus que
sustém, a cada dia, cada membro do seu povo (Ex 16,4). Pão (maná) e carne (as codornizes),
água (Ex 17,5), até calçados e roupas (Dt 29, 4), são tantos outros sinais da amorosa presença
de Deus que, como um pastor, guia seu rebanho pelo deserto (Sl 78, 52)43. O deserto é
símbolo da caminhada do povo de Deus. Nele, faz-se a experiência de Deus, o encontro com
Deus também se estabelece nesse caminho.
Esse encontro com o Deus da vida e da libertação gera a salvação, mas também
passará pela ausência. O povo sente a ausência de Deus e é tomado de ingratidão e revolta.
“Antes fôssemos mortos pela mão de Iahweh, na terra do Egito, quando estávamos sentados
junto à panela de carne e comíamos pão com fartura. Certamente nos trouxestes a este deserto
para fazer esta multidão morrer de fome” (Ex 16, 3). Ao deparar-se com essa experiência, o
povo revolta-se e blasfema contra Deus a ponto de buscar ídolos ou outros deuses. O deserto

40
GUTIÉRREZ , Gustavo. O Deus da vida. São Paulo: Loyola, 1992, p. 36.
41
Ibidem, p. 42.
42
Ibidem, p. 43.
43
RAVASI , Gianfranco. Êxodo. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 170.
22

remete-nos à Aliança. O povo vive a incredulidade e a ingratidão. Contudo, Deus, no seu


infinito amor, sempre vai ao encontro do homem, e o chama para proporcionar um novo
encontro diante da sua presença, a fim de salvá-lo e caminhar com ele.
Deus é sempre o protagonista do encontro com a humanidade, ele está sempre
presente, e sua presença é uma presença de amor e de justiça. Portanto, no encontro com o
Deus da vida e da libertação, somos chamados a uma adesão; esse encontro deve nos
influenciar, nos tornar cheios de vida para amar e nos tornar livres para exercer a justiça.

1.6 O conhecimento de Deus como caminho para o seguimento

Para se conhecer a Deus, é preciso um profundo encontro com Ele. Ele se deixa
encontrar, na vida e na história, no dia a dia do povo, nas lutas a nas esperanças, nas
tribulações e nas realizações da humanidade. Esse é o Deus da bíblia, da tradição da
comunidade.
Deus é um Deus pessoal e único que proporciona um encontro pessoal com o homem
mediante uma aliança de amor. Ele escolhe e converte o seu povo. E este o escolhe para servi-
lo e amá-lo. Há um caminho, uma pedagogia a ser traçada.
Nesse caminho é preciso considerar cada etapa a ser traçada: “Para identificar estas
etapas, poderíamos, recorrendo à tipologia do teólogo Juan Luis Segundo – chamá-las de: 1-
Deus terrível; 2-O Deus da aliança; 3-O Deus Transcendente e Criador; 4-O Deus justo para
além dos limites da vida e da morte” 44.
Não podemos nos esquecer que Deus está presente a todo o momento; pela graça, Ele
nos torna participantes da sua vida e, na graça, Ele nos proporciona esse encontro de
conhecimento de sua vontade e de seu amor.

Deus é conhecido pela história. Isso corresponde à experiência humana


concreta, como também a tiveram outros povos e também a temos nós ainda
hoje: encontramos a Deus antes de tudo não por meio da nossa própria
reflexão, mas pelo fato de que crescemos num ambiente caracterizado pela

44
Ibidem, p. 64.
23

religião, a qual sabe que foi fundada e é sustentada por Deus, colocando
também a mim em relação com Deus45.

A história é testemunha da presença de Deus no mundo, e nós somos continuadores


dessa certeza por meio de nosso testemunho e de nossa adesão à fé. Portanto, o nosso
conhecimento acerca de Deus é caminho para o seguimento, pois, conhecendo o testemunho e
testemunhando-o, eu me abro a ele. Essa abertura gera em mim o desejo de segui-lo e de
testemunhá-lo ao mundo para que outros também o reconheçam e o sigam.
A teologia do encontro não ignora o fato de que “Deus se torna conhecido por meio
de homens que o conhecem, põem-se à sua disposição, preparam-lhe um lugar no mundo”46.
O caminho para seguir a Deus não é duvidoso, não está longe de nós, não é algo irreal, mas
presente na vida humana.
O caminho para Deus, concretamente, sempre torna a passar pelo homem que já está
com Deus. “Não passa pela pura reflexão, mas pelo encontro, o qual, a verdade, se aprofunda
pelo pensamento, se torna mais autônomo e ao mesmo tempo, também comunicável de modo
novo” 47.
É no encontro que nós estabelecemos um relacionamento com Deus e nos adentramos
ao mistério de sua vontade e de sua vida de amor. Por isso, nossa adesão é essencial, nossa
participação na sua vida e na sua obra é condição necessária para segui-lo e preservar nossa
dignidade de pessoa humana. “O conhecimento de Deus é um caminho; ele se chama
seguimento. Não se revela a quem não participa, a um espectador que permanece neutro, mas
se abre quando nos pomos a caminho” 48.

45
RATZINGER, Joseph. Dogma e Anúncio. São Paulo: Loyola, 2007, p. 85.
46
Idem, p. 89.
47
Ibidem, p. 89.
48
Ibidem, p. 89.
24

CAPÍTULO II
O ENCONTRO COM JESUS CRISTO: CAMINHO DE FORMAÇÃO
INTEGRAL DO DISCÍPULO MISSIONÁRIO

No encontro com Jesus Cristo, vivo e ressuscitado, encontramo-nos com o


verdadeiro Deus feito homem e conosco mesmo. É Deus presente em nossa história, de forma
definitiva. É a maneira pela qual nos aproximamos do verdadeiro amor e da verdadeira
comunhão com Ele e com os irmãos.
Em Jesus Cristo, nós nos encontramos e encontramos o verdadeiro sentido de nossa
existência.

Em Cristo e por Cristo, Deus revelou-se plenamente à humanidade e


aproximou-se definitivamente dela; e, ao mesmo tempo, em Cristo e por
Cristo, o homem adquiriu plena consciência da sua dignidade, da sua
elevação, do valor transcendente da própria humanidade e do sentido da sua
existência49.

Do seio da Trindade, desvela-se o grande projeto de amor. Deus encarna-se, na


realidade humana, para se comunicar conosco e se manifestar a nós por meio de Cristo; nesse
sublime encontro, nós podemos nos encontrar e nos reconhecermos a nós mesmos. Ele
mesmo se comunica a nós, está presente no meio de nós, vivendo conosco e sentindo nossas
alegrias e nossas dores: “viveu em tudo a condição humana, menos o pecado”50.
Ao vir ao nosso encontro e assumindo a nossa carne, o Deus-encarnado a redime
definitivamente. Em Jesus Cristo, dá-se de modo definitivo e pleno o plano salvífico de Deus.
“Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, enviado como homem aos homens, profere as
palavras de Deus (Jo 3, 34) e consuma a obra salvífica que o Pai lhe confiou”51. Jesus Cristo é
o novo Adão e se faz presente no meio de nós para nos salvar e formar de maneira integrada
todo o nosso ser, se fez presente em meio aos seres humanos. Por isso, o verdadeiro discípulo-
missionário de Jesus Cristo deve reconhecer nele o verdadeiro Deus que habitou em nosso

49
JOÃO PAULO II. Redemptor Hominis. Carta Encíclica, 1979. São Paulo: Paulus, 1997, 11.
50
Missal Romano, Oração eucarística IV.
51
DV 4.
25

meio e o verdadeiro homem que nos mostra a maneira mais eficaz de viver a nossa verdadeira
humanidade.

2.1 Na encarnação, o Filho de Deus vem ao encontro de nossa humanidade

Deus vem ao encontro de nossa humanidade para recriá-la, para mostrar o mistério
do homem e para restituir a sua verdadeira dignidade. A fé da Igreja, na Encarnação do
Verbo, é o grande sinal da fé cristã. Deus visitou o seu povo. A visita de Deus é definitiva. Ele
está conosco (Emanuel) e vai fazer de nós filhos de Deus, partícipes da natureza divina.
O Pai é o princípio desse encontro. Ele enviou o Filho e o Espírito para nos conceder
o dom da redenção, da adoção e da santificação, segundo o hino cristológico da Carta aos
Efésios. A ação do Pai é sempre iniciativa de revelação e salvação, pois sabemos que “o Deus
altíssimo que criou todas as coisas com sua palavra, fez aliança com os patriarcas, elegeu
Israel como um filho, derramou o Espírito sobre os profetas e ofereceu seu favor às nações”52.
Portanto, o Pai é a origem da vida eterna e fonte primeira de toda a bênção. “É o Pai
quem envia o Filho e, com o poder de sua paternidade, envia também o Espírito”53. O Pai é
quem abre os nossos corações para que possamos acolher Aquele que vem, ou seja, o Seu
Filho único, Fonte da vida plena para a humanidade. “É Deus Pai quem nos atrai por meio da
entrega eucarística de seu Filho (cf. Jo 6, 44), dom de amor com o qual saiu ao encontro de
seus filhos, para que, renovados pela força do Espírito, possamos chamá-lo de Pai”54.
É o amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo que nos renova e nos conduz à vida de
comunhão e de novas criaturas. Essa vida de comunhão é o conceito mais próprio para se
entender o mistério da salvação. Comunhão é o encontro da vida divina com a vida humana.
Esse encontro nos eleva à comunhão com o Pai e nos proporciona o anseio de nos
aproximarmos cada vez mais da vida da Graça Divina. “Na história do amor trinitário, Jesus
de Nazaré, homem como nós e Deus conosco, morto e ressuscitado, nos é dado como
caminho, Verdade e Vida”55. Em Jesus, nós temos o sentido, o meio e a razão para viver. Ele
é quem nos conduz ao Pai e nos comunica o Pai.

52
Marcial MAÇANEIRO, Deus Pai e seu amor salvífico em alguns documentos de Paulo VI e João Paulo II,
Roma, 2001, p. 18.
53
Ibidem, p. 18.
54
DA 241.
55
DA 242.
26

No encontro de fé com o inaudito realismo de sua Encarnação, podemos


ouvir, ver com nossos olhos, contemplar e tocar com nossas mãos a Palavra
de Vida (cf. 1 Jo 1,1) experimentamos que o próprio Deus vai atrás da
ovelha pedida, a humanidade extraviada56.

O Filho de Deus assumiu a nossa natureza humana para realizar nela a salvação. Ele
se fez homem para que nós pudéssemos ser inseridos na sua divindade e, assim, participar da
salvação. “E por nós homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo
Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem”57.
Essa foi a sua prova de amor por nós e a prova de que nós pertencemos a Ele
eternamente, pois estamos inseridos Nele, uma vez que Ele nos assumiu. Jesus é plenamente
humano, sem perder a sua divindade. Entretanto, na plenitude de sua humanidade, é ícone da
criação, pois revela a verdadeira face do homem. Seus gestos, palavras, seu modo de viver, ao
mesmo tempo em que revela a presença de Deus, que aqui é nosso locus teologicus, revela
também a face do humano.
É no mistério da encarnação que descobrimos a grandeza da humanidade. Essa
grandeza foi estabelecida pelo próprio Deus por meio de Jesus Cristo.

Com efeito, pela Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo
homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana,
agiu com vontade humana, amou com coração humano. Nascido da Virgem
Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo,
exceto no pecado58.

Na Encarnação do Verbo, nós nos tornamos participantes da natureza divina,


entramos em comunhão com o criador, mas também somos plenamente humanos, revelando,
em nossa carne, a existência e a essência de Deus e do homem que se encontrou com Deus e
consigo mesmo.
Por isso, a cada missa que o sacerdote realiza ele faz memória desse ato salvífico,
inclusive mediante um gesto simbólico desse fato. Na preparação do cálice, ao colocar o
vinho e mergulhar nele uma gota d’água, ele reza a seguinte oração: “Pelo mistério desta água

56
DA 242.
57
CEC 456.
58
GS 22.
27

e deste vinho possamos participar da divindade do vosso Filho que se dignou assumir a nossa
humanidade”59. A gota d’água dilui-se no vinho. A água não se transforma em vinho, mas é
assumida por ele, participa da sua substância de vinho. O mesmo acontece conosco. Cristo
assume a nossa humanidade de forma que Ele é verdadeiramente homem, mas nós não somos
deuses. Porém, ao sermos assumidos por Ele, sem deixar nossa natureza humana,
participamos de sua divindade, experimentamos os frutos da sua vida, a salvação. “Essa prova
definitiva de amor tem o caráter de um esvaziamento radical (Kénosis), porque Cristo “se
humilhou a si mesmo fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz (Fl 2,8)”60.
Essa é a fé da Igreja que nós professamos, na certeza de que Deus nos visitou e fez
sua morada entre nós, uma morada eterna. O evangelho de João nos quer relatar justamente
esse caráter do encontro do Senhor com a humanidade. Do Senhor que estava junto da
humanidade desde o princípio. “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o
Verbo era Deus” (Jo 1, 1). O Deus que se revela na Palavra é Vida “e a vida era a luz dos
homens” (cf. Jo 1,4). “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1, 14). O encontro com
Jesus Cristo é vida e luz para a humanidade e nos impulsiona a partir deste encontro a mudar
nossa maneira de viver o seguimento de Jesus. “Tudo o que significa dar vida, e de diversas
maneiras, é próprio do seguidor do Senhor”61.
O mistério da encarnação nos insere numa realidade ímpar, sem igual. Neste mistério
vemos claramente a ação de Deus no homem. “No mistério da Encarnação, a natureza
62
humana foi assumida, não aniquilada” . Portanto, a encarnação nos dá a graça de
pertencermos a Deus e nos tornarmos plenamente humanos, realizando em nós a existência e
a essência desse encontro, que é vida e comunhão. O Senhor assumiu a nossa humanidade
para que pudéssemos nos tornar homens novos, recriados pelo seu infinito amor. “Deve-se
professar que ele, Sabedoria, Verbo Filho de Deus, assumiu o corpo humano, alma, sentir, isto
é, o Adão inteiro, e, para dizê-lo ainda mais expressamente, todo o nosso homem velho, sem o
pecado”63. Em Jesus Cristo, realiza-se e atualiza-se o mistério do homem.

Jesus é o Filho de Deus, a Palavra feita carne (cf. Jo 1, 14), verdadeiro Deus
e verdadeiro homem, prova de amor de Deus aos homens. Sua vida é uma

59
Missal Romano, Preparação das Oferendas.
60
DA 242.
61
GUTIÉRREZ, Gustavo. O Deus da Vida, São Paulo: Loyola, 1992, p. 113.
62
CEC 470.
63
DÂMASO I. “Per filium meum”. In Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São
Paulo: Paulinas, 2007, p.65.
28

entrega radical de si mesmo a favor de todas as pessoas, consumada


definitivamente em sua morte e ressurreição64.

O verdadeiro discípulo de Jesus Cristo deve reconhecê-lo como único Deus e


totalmente homem. Ao assumir toda a humanidade, menos o pecado, Ele assumiu até mesmo
a morte. Tudo o que Ele assumiu, Ele redimiu. Portanto, reconhecemos Nele a Nova Vida que
Ele nos deu com a entrega da sua própria vida. É um mistério, que não significa apenas uma
aproximação, mas comunhão.

Quando, pois, o Logos se faz homem, essa sua humanidade não é algo que
preexista, mas o que se torna e surge em sua essência e existência, se e à
medida que o Logos se exterioriza. Este homem é precisamente enquanto
homem a auto-expressão de Deus como a expressão de si para fora de si,
pois Deus expressa-se a si precisamente quando se exterioriza, dá-se a
conhecer a si mesmo como o Amor, quando esconde a majestade deste Amor
e se mostra na ordinariedade do homem65.

O Verbo de Deus, ao se fazer carne e vir habitar no meio de nós, assumiu a


ordinariedade humana para revelar o majestoso amor de Deus nas realidades humanas:
“continua sendo verdade que o Logos se fez homem, que a história do devir desta realidade
humana tornou-se a sua própria história, nosso tempo tornou-se o tempo do Eterno, a nossa
morte tornou-se a morte do próprio Deus imortal”66. Portanto, o encontro do Filho de Deus
com a nossa humanidade é de modo pleno. Porém, no encontro com o Logos encarnado, Ele
não apenas nos fala de Deus, pois se assim o fosse, a encarnação seria limitada em si, mas na
encarnação é o próprio Deus a se comunicar conosco. “É preciso que o homem Jesus em si
mesmo, e não só mediante suas palavras, seja a auto-revelação de Deus, e propriamente não o
pode ser, se precisamente essa sua humanidade não for a expressão de Deus”67.
A encarnação não é uma ideologia, um símbolo, uma parábola, mas “Cristo é o
homem em sua máxima radicalidade, e sua humanidade é a mais autônoma e a mais livre, não

64
DA 101.
65
RAHNER, Karl. Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulus, 1989, p.267.
66
Ibidem, p.263.
67
Ibidem, p.267.
29

apesar, mas porque é a humanidade que foi estabelecida ao ser assumida, foi estabelecida
como a auto-expressão de Deus”68.
O homem se conhece e se reconhece a partir do momento em que ele busca ir ao
encontro de Jesus Cristo e a aprender dele o sentido de ser verdadeiramente homem criado à
imagem de Deus: só posso entender-me a partir e no horizonte do Verbo Encarnado, Jesus
Cristo. Ele se uniu à minha humanidade. Resgatou-me e deu-me uma dignidade sublime e
uma altíssima vocação. Essa dignidade é aquela dignidade de pessoa humana, livre e
inteligente. Uma dignidade pela qual partilho necessariamente minha existência com outros
seres humanos, responsável por meus atos e minhas omissões, por minha vida e destino, e
corresponsável pela vida e pelo destino dos outros. A vocação é a de ser filho de Deus, irmão
dos outros seres humanos, e um dia ressuscitado dos mortos, herdeiro do céu.
Podemos ter presente que “na realidade, tão só o mistério do Verbo encarnado
explica verdadeiramente o mistério do homem. Cristo, na própria revelação do mistério do Pai
e de seu amor, manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre sua altíssima
vocação”69.
Nisso, podemos concluir que experimentamos nossa humanidade quando nos
transcendemos, quando nos encontramos com Deus, quando buscamos a nossa divinização.
Esse desejo de divinizar-se já está inscrito em nosso coração. Segundo Leonardo Boff, a
natureza humana só é de fato humana quando buscamos a natureza divina e a participação na
mesma articula a essência mais secreta do homem.

Pela Encarnação, não é somente Deus que vai ao encontro do homem; o


homem também vai e sempre esteve em busca de Deus. Jesus de Nazaré,
Deus humano, representa o encontro dos dois movimentos, o abraço de dois
que, desde sempre, se buscavam... a busca humana de Deus é efeito da busca
divina do homem70.

Portanto, já está inscrito, no coração humano, a busca pela divinização. A nossa


participação, na natureza divina, insere-nos ainda mais na nossa essência humana. A natureza
divina plenifica ainda mais a nossa humanidade.

68
Ibidem, p. 270.
69
GS 22.
70
BOFF, Leonardo. Graça e experiência humana. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 288.
30

A encarnação é a participação na vida de Deus, uma vez que Ele desejou participar
da nossa vida humana. “Participar de Deus para o homem é poder ter aquilo que em Deus é
ser: é amar radicalmente, autodoar-se permanentemente... Viver em comunhão, dimensionar-
se para os outros... é divinizar-se e permitir que Deus se humanize”71. Podemos também
afirmar que Deus participa da natureza do homem, “vive-se o estar do homem em Deus
experimenta-se o estar de Deus no homem”72. Deus é presença na nossa vida, e nós nos
tornamos presentes na vida de Deus, quando estamos unidos, pela graça, a Jesus Cristo, Deus
e homem. Esse mistério é iniciativa da graça de Deus, mas que conta com a colaboração
humana.
Cristo é a imagem perfeita do mistério da Encarnação. A perfeita comunhão da vida
divina e humana, pois tudo o que Ele viveu não foi somente para si que ele viveu, mas para
todos nós seres humanos.

Confessamos, portanto, nosso Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus,


perfeito Deus e perfeito homem, composto de alma racional e de corpo,
antes dos séculos gerado do Pai segundo a divindade, no fim dos tempos
nascido, por causa de nós e de nossa salvação, da virgem Maria, segundo a
humanidade, consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a
nós segundo a humanidade. Aconteceu de fato, a união das duas naturezas, e
por isto nós confessamos um só Cristo, um só Filho, um só Senhor73.

É no viver em Cristo que nos realizamos em nosso viver. Tornando nossa vida
semelhante à Dele, podemos modificar toda a nossa vida. Esse seria o verdadeiro caminho
integral de conversão do homem e o paradigma de uma perfeita comunhão.

Seu viver, de dentro mesmo de nossa finitude e de nossa impotência, uma


vida de plena abertura a Deus e ao ser humano, uma vida fraternal para além
do ódio e do egoísmo, uma vida absolutamente baseada no amor e cheia de
sentido apesar de tudo... seu viver... tudo isso vai simultaneamente tornando
possível que o homem finito e impotente seja capaz de vivê-lo74.

71
Ibidem, p. 289.
72
Ibidem, p. 290.
73
SISTO III “Carta a Dionísio, bispo de Alexandria”. In Compêndio dos símbolos, definições e declarações de
fé e moral. São Paulo: Paulinas, 2007, p.103.
74
Andres Torres QUEIRUGA, Recuperar a salvação, São Paulo, 1999, p. 174.
31

Por isso, Cristo assume e realiza todas as realidades humanas. Nós, ao


estabelecermos o nosso encontro pessoal com Ele, temos a possibilidade de nos realizarmos
plenamente. “Se Cristo deixasse de viver alguma das determinações fundamentais da
existência humana, não seria cabalmente humano, e nós não estaríamos redimidos por
inteiro”75. Portanto, Cristo é a imagem do homem novo, que participa da natureza divina
enquanto se humaniza plenamente.
No encontro com Jesus Cristo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem,
somos impulsionados a viver o caminho da conversão e da comunhão com Ele. Somos
chamados a pertencer a ele e a ter as mesmas atitudes que o mestre. Isso nos impulsiona a
viver o seguimento e a missão do Senhor.

2.2 O Encontro com Jesus Cristo: caminho de conversão e comunhão

A partir do encontro pessoal com Cristo, com a sua pessoa, sua humanidade e sua
divindade, podemos estabelecer com Ele uma aliança, uma vida de comunhão. Essa vida em
Cristo nos leva a percorrer um caminho de conversão e de comunhão. A conversão se dá em
Cristo, esta é a grande novidade do discipulado. Para o discípulo já não conta tanto as
aptidões humanas nem mesmo morais, mas o encontro com a pessoa de Jesus Cristo. O nosso
modo de viver e de agir modifica-se a partir do encontro com Cristo.
No encontro com Cristo, descobrimos a boa-nova da esperança plena para nós e para
o mundo. “Participar de Deus para o homem é poder ter aquilo que em Deus é ser: é amar
radicalmente, autodoar-se permanentemente... Viver em comunhão, dimensionar-se para os
outros... é divinizar-se e permitir que Deus se humanize”76.
Na Sagrada Escritura, a expressão “o tempo se cumpriu” refere-se ao termo grego
Kairós, que quer significar o tempo em que o Senhor se faz presente, se manifesta. Por isso,
ao dizer que o tempo se cumpriu, o evangelista quer nos mostrar que há uma revelação
especial de Deus com a qual Jesus se comprometeu, e nós podemos participar. Esse tempo nos
insere no caminho da conversão e é pressuposto para estabelecer uma vida de comunhão com
Ele.

75
Ibidem, p. 175.
76
Ibidem, p. 289.
32

Não se trata de uma realidade puramente interior que acontece no fundo de


nossas almas. É um projeto de Deus que ocorre, no coração de uma história,
na qual os seres humanos vivem e morrem, acolhem e rejeitam a graça que
os transforma a partir do interior77.

Portanto, a graça de ser inserido no caminho da conversão e da comunhão em Cristo,


exige de nós a vontade e a radical adesão ao seu projeto. Ao irmos ao encontro de Cristo,
somos convidados a percorrer o caminho da vida. O caminho da vida é marcado pela sua
presença entre nós, bem como pela nossa participação na sua vida. Em Jesus Cristo, realiza-se
o mistério da redenção, que nos humaniza e nos diviniza.
Deus quer de nós uma conversão profunda e pessoal em vista de uma verdadeira
transformação. “É um fato que, na história da salvação, após o pecado original, cada vez que
Deus vai ao encontro do homem para com ele dialogar, fa-lo para provocar, no mesmo ser
humano, a conversão do coração”78. Ao estabelecer um encontro com Cristo, nós nos
sentimos motivados e impulsionados a modelar o nosso coração ao Dele, pois acreditamos
que, ao nos relacionarmos com Cristo, nos identificamos com Ele, somos levados a nos
assemelhar cada vez mais a Ele, e essa tarefa nos realiza e nos humaniza sempre mais.
É em Cristo que nós nos tornamos verdadeiros discípulos. Não há outro caminho
para o discipulado senão esse. “Não se começa a ser cristão, por uma decisão ética ou uma
grande ideia, mas através do encontro com um acontecimento, com uma pessoa, que dá um
novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”79.
A partir do relacionamento de comunhão que nós estabelecemos com o Mestre, é que
vamos experimentando a verdadeira conversão, a gratuidade e a satisfação na alma, pois esse
relacionamento parte do coração e da reciprocidade entre o homem e Deus. Quanto mais o
homem voltar-se para Deus, mais lhe será revelada a sua grandeza humana. Essa vida de
comunhão exige voltar-nos para nossa condição de batizados. Para isso, é preciso uma maior
conscientização das nossas comunidades: “Uma via fecunda para avançar para a comunhão é
recuperar em nossas comunidades o sentido do compromisso do Batismo”80.
Essa compreensão nos torna mais conscientes da necessidade de uma eclesiologia de
comunhão presente no diálogo ecumênico, a relação com os nossos irmãos e irmãs batizados.
77
GUTIÉRREZ, Gustavo. O Deus da Vida. São Paulo: Loyola, 1992, p. 136.
78
SÍNODO DOS BISPOS, Assembléia Especial para a América: Instrumentum Laboris. São Paulo: Paulinas,
1997, p. 36.
79
DA 243.
80
DA 228.
33

Eles, juntamente conosco, formam essa realidade de conversão para Cristo e de vida de
comunhão com Ele. “Portanto, a unidade das Igrejas, que atende à oração de Jesus, que é uma
ordem para os cristãos, tem como finalidade a coerência com o Evangelho e a relevância para
com a humanidade”81.
Como podemos perceber, é fundamental, para um verdadeiro encontro com Jesus
Cristo, uma conversão pessoal, não individualista, pois já é claro para nós que a conversão em
Jesus Cristo exige a inserção na sua vida, no seu corpo, e esta é vivida na comunhão com Ele
e com os seus seguidores. Assim nasce a Igreja e a sua identidade é confirmada sempre mais.
Somos um corpo, o corpo de Cristo, por isso, devemos viver segundo os membros desse
corpo.
Para aqueles que querem seguir o mestre, é preciso abraçar a sua causa e aderir a Ele.
Permanecer com Ele todos os dias, não nos esquecendo que Ele se faz presente na história e
nos acontecimentos e nos convida sempre a perceber os sinais do seu reino presente, na nossa
vida, na vida de nossa sociedade. “Os sinais da vitória de Cristo Ressuscitado nos estimulam
enquanto suplicamos a graça da conversão e mantemos viva a esperança que não engana”82.
Esses sinais são sobretudo a vitória sobre o pecado e sobre a morte. Logo, toda a realidade de
morte e de pecado é transformada diante dessa certeza de ressurreição.
Uma verdadeira conversão edifica o homem e o humaniza cada vez mais. Ela
possibilita ao homem buscar o Reino e colaborar na construção desse Reino. O Espírito nos
inseriu no Reino para que pudéssemos crescer, na graça da conversão permanente. “A
conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo ao serviço da instauração do Reino
da vida”83. É preciso que estejamos atentos a essa proposta de formação integral para todos
nós que desejamos viver a vocação do discipulado-missionário.
O desejo de se inserir no Reino anunciado por Cristo passa pela conversão e se
consuma no próprio Cristo. “Ao Reino anunciado por Cristo só se pode chegar mediante a
metanoia, ou seja, a íntima e total transformação e renovação do homem todo, de todo o seu
sentir, do seu julgar e do seu agir”84. A metanoia nos configura a Jesus Cristo, fazendo-nos
aderir de forma radical e concreta à edificação do seu Reino. Sem essa transformação radical,

81
AMERINDIA. V Conferência de Aparecida: Renascer de uma esperança. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 136.
82
DA 14.
83
DA 366
84
SÍNODO DOS BISPOS, Assembléia Especial para a América: Instrumentum Laboris. São Paulo: Paulinas,
1997, p. 36.
34

a partir de um encontro pessoal com Cristo, fica debilitada toda e qualquer iniciativa pastoral
e missionária na Igreja.
A conversão é elemento essencial para que a Igreja cresça e cumpra sua missão. Por
isso, é preciso que cada fiel tome consciência de que, a partir das exigências do discipulado, a
conversão pessoal é elemento indispensável para se cumprir essas exigências. “A conversão
pessoal desperta a capacidade de submeter tudo ao serviço da instauração do Reino da vida”85.
As primeiras comunidades cristãs primitivas procuravam seguir os passos de seu
mestre a partir da sua maneira de viver. Essa opção de vida pela construção do reino gerava
em cada um o verdadeiro espírito de seguidores e, como testemunhas, procuravam difundir a
pregação do batismo e da conversão para o perdão dos pecados (cf. At 2, 37-38). É do contato
com o mestre, sobretudo pelo aprendizado adquirido com o Mestre, que os discípulos foram
se transformando em outros mestres, segundo o desígnio de Deus. “A conversão é um
conceito complexo, que significa uma profunda mudança de coração sob o influxo da Palavra
de Deus. Essa transformação interior exprime-se nas obras e, por conseguinte, na vida inteira
do cristão”86.
Além da conversão pessoal, adquirida mediante um caminho de realização plena, na
vida da Igreja e dos sacramentos, bem como, na vivência dos valores e na consciência reta
para com a Palavra de Deus, é necessária uma conversão social, que leve cada pessoa, em
comunhão com Deus e com o próximo, a buscar fazer a vontade do Senhor, para que “todos
tenham vida plena”. Aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a
quem não vê (1Jo 4, 20). Para isso, é preciso olhar para os aspectos da vida social da
humanidade. “São realidades complexas que, sendo fruto das ações humanas, nem sempre de
acordo com a vontade divina, precisam ser iluminadas pelo Evangelho para servir ao homem
e à sua salvação pessoal”87. Como vemos, somente a partir de um encontro pessoal com Cristo
é que podemos chegar à conversão e ao seguimento na vida de comunhão da comunidade
eclesial.
A Igreja está inserida no mundo e na história de um povo. Por isso, ela deve estar
sempre atenta aos sinais do Reino presentes na atual sociedade, para poder perceber qual é a

85
DA 366.
86
JOÃO PAULO II. Reconciliatio et paenitentia. Exortação Apostólica. Petrópolis: Vozes, 1984, 12.
87
SÍNODO DOS BISPOS, Assembléia Especial para a América: Instrumentum Laboris. São Paulo: Paulinas,
1997, p. 37.
35

vontade de Deus e poder assim cumpri-la. “As transformações sociais e culturais representam
naturalmente novos desafios para a Igreja em sua missão de construir o Reino de Deus”88.
A construção do Reino enquanto missão específica da Igreja, confiada por Cristo, é
justamente perceber, sentir e anunciar a presença transformadora de Cristo Ressuscitado. “A
própria natureza do cristianismo consiste, portanto, em reconhecer a presença de Jesus Cristo
e segui-lo”89. Somente no encontro e no relacionamento pessoal com o Mestre, mediante o
seguimento, é que experimentamos e vivemos uma verdadeira conversão.
O anúncio de Jesus e a prática do seu seguimento sempre nos levam a percorrer um
caminho de transformação. Ao seguir Jesus, nós sentimos a necessidade de mudança, pois os
verdadeiros discípulos devem se configurar ao Mestre. Portanto, quem segue Jesus Cristo já
não consegue ser o mesmo, não pode continuar a viver no pecado.

Em nossa Igreja, devemos oferecer a todos os nossos fiéis um encontro


pessoal com Jesus Cristo, uma experiência religiosa profunda e intensa, um
anúncio querigmático e o testemunho pessoal dos evangelizadores, que leve
a uma conversão pessoal e a uma mudança integral de vida90.

A conversão será tanto mais frutuosa quanto maior for a nossa adesão e a nossa
consciência de que ela nos aproxima dos ideais cristãos, ou seja, de que ela nos leva a seguir o
Cristo e a imitar suas atitudes, sua obra e sua missão. O discípulo-missionário de Jesus Cristo
deve buscar a conversão, assumindo como seu próprio ideal a salvação de todos. O próprio
Cristo nos advertiu: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e
siga-me” (Mc 8, 34).
O encontro com Cristo torna-se para o discípulo uma condição indispensável para a
conversão. É um processo que nos leva à comunhão, pois na comunhão, experimentamos a
vida de Cristo, e, com ela, as suas exigências.

A conversão é a resposta inicial de quem escutou o Senhor com admiração,


crê n’Ele pela ação do Espírito e decide ser seu amigo e ir após Ele,

88
DA 367.
89
DA 244.
90
DA 226.
36

mudando sua forma de pensar e de viver, aceitando a cruz de Cristo,


consciente de que morrer para o pecado é alcançar a vida91.

Seguir o Cristo e permanecer com Ele é a atitude de cada discípulo-missionário de


abraçar para perseverar na vida Cristã e poder enfrentar os desafios do tempo presente. A
conversão deve ser pessoal para levar também a uma conversão social e ainda estrutural. A
conversão deve chegar a todos, especialmente às estruturas pastorais e seus pastores, ou seja,
toda a Igreja, enquanto comunidade constituída, deve buscar a vida em Cristo mediante a
graça da conversão.

Não é a Igreja enquanto instituição divina, assistida pelo Espírito Santo e,


por tanto, infalível na transmissão da Revelação, que deve se converter e sim
a Igreja enquanto comunidade constituída por homens pecadores que
precisam se converter constantemente em seus membros e nas suas
estruturas pastorais, para dar autêntico testemunho da proximidade do reino
dos Céus92.

Como vemos, a conversão parte de uma atitude concreta de amor e de


relacionamento com o Mestre. Assim, vivenciaram os primeiros discípulos e outros que, no
percurso do caminho, tiveram um encontro pessoal com Ele.
A conversão dos primeiros discípulos partiu da pregação, ou seja, do exterior para o
interior do homem (cf. Mc 1, 4-15; 6,12; Mt 12,41; Lc15,32; 24, 47; At2, 38; 3, 19; 17,30;
20,21; 26,20). A conversão é graça do Espírito Santo, manifestada pelo amor misericordioso
de Deus para com o pecador. “Desprezas a riqueza da sua bondade, paciência e
longanimidade, desconhecendo que a benignidade de Deus te convida à conversão?” (Rm 2,
4).
Esses encontros, Jesus estabeleceu com muitos que se lhe aproximaram. À mulher
pecadora93, que com lágrimas se aproxima do Mestre e lhe cai aos pés implorando
misericórdia, Jesus oferece o perdão e a conversão, pois ela demonstrou reconhecê-lo
verdadeiramente a partir do encontro estabelecido no amor. “Há, pois, nessa conversão, dois

91
DA 276.
92
SD 30.
93
A pecadora desse episódio, segundo os exegetas não deve ser identificada nem com Maria de Betânia, irmã de
Marta, nem tampouco com Maria Madalena. Aqui quer se ressaltar uma pecadora anônima, crente, que ama e é
perdoada.
37

encontros de misericórdia com o Cristo: um primeiro encontro pela fé viva no Cristo-


Salvador; um segundo, inspirado pelo reconhecimento do perdão obtido que estimula a um
crescimento de amor”94.
Assim também foi Zaqueu, o publicano (cf. Lc 19, 1-10), que foi agraciado por um
encontro de salvação por iniciativa do próprio Cristo. Fez a experiência da graça da conversão
oferecida pela presença do Mestre em sua casa. “Jesus não se recusa aos que o procuram,
ainda que o façam por uma simples curiosidade bem intencionada”95. Zaqueu assume uma
atitude de desprendimento dos bens materiais e de caridade para com os indigentes, que o leva
a dar aos pobres a metade das suas posses
Como não relembrar o encontro de Jesus com a Samaritana (Jo 4, 5-43) e que
culmina no cego de nascença (Jo 9, 1-38). João nos mostra, a partir de uma experiência de
encontro com o Messias, que a conversão à fé, mesmo que, a princípio, hesitante, gera um
progresso sensível e marcante na vida daquela mulher e daquele cego. A conversão leva-nos a
professar a verdadeira fé em Cristo: “Creio Senhor! E prostrou-se diante dele.” (Jo 9, 38). O
cego curado torna-se anunciador do Messias, pois foi por Ele iluminado. Por isso, não é aceito
entre os judeus. Porém, Jesus abre a porta do novo redil, não será o cego a ovelha desgarrada,
pois faz parte do novo povo de Deus, inaugurado por Jesus.

Neste contexto concreto, o discurso de Jesus sobre a porta e o pastor adquire


significado precioso e ilustra a nova situação criada na história da salvação
com a vinda do Messias que dá a vida ao povo de Deus dos últimos tempos,
ao rebanho escatológico do Senhor, caracterizado pela fé no Verbo
Encarnado, Messias que é a porta do rebanho de Deus e pastor da Igreja96.

A autêntica conversão e a verdadeira vida de comunhão é que nos conduz a Cristo. A


conversão nos insere na vida de comunhão com Cristo e com seu corpo, ou seja, com a
comunidade nele formada.
O verdadeiro encontro com Jesus Cristo é, para o discípulo missionário, caminho
para a comunhão. “Neste encontro nasce uma forte adesão da pessoa a Cristo, a ponto de ela,

94
DILLENSCHNEIDER, Clement. O Dinamismo de nossa fé. São Paulo: Paulinas, 1970, p. 74.
95
Ibidem, p. 75.
96
BOSETI, Elena; PANIMOLLE, Salvatore. Deus-Pastor na bíblia: solidariedade de Deus com seu povo. São
Paulo: Paulinas, 1986, p. 61.
38

daqui para frente, crer em Cristo e investir tudo nele e no Reino que ele anuncia. Nasce assim
o discípulo de Jesus”97.
Todo o fiel batizado deve acolher a proposta desse caminho oferecido pela ação do
Espírito Santo, que nos impulsiona a confessar a nossa fé em Jesus como Filho de Deus e a
chamar a Deus de Pai.
Portanto, é na comunhão de amor da Trindade que nós somos motivados a percorrer
e a abraçar esse caminho de comunhão de vida, tendo nela o modelo perfeito para vivermos
uma verdadeira vida de comunidade no amor. A Trindade será a nossa motivação para a
comunhão eclesial e pessoal com Jesus Cristo.

É necessário proclamar que esta comunhão é o esplêndido projeto de Deus


[Pai]; que Jesus Cristo, feito homem, é o centro desta mesma comunhão, e
que o Espírito Santo age constantemente para criar a comunhão e reconstituí-
la quando se rompe98.

Somos chamados a viver em comunhão. É na vida de comunhão que nós nos


conhecemos mais plenamente. O próprio Jesus quis estabelecer comunhão conosco, a fim de
que pudéssemos conhecê-lo cada vez mais como Deus e cada vez mais como homem.
A comunhão passa pela conversão, que gera a fé. Essa fé é constitutiva para procurar
perceber a ação de Deus e sua exigência para se permanecer nessa vida de comunhão.

Por assim dizer, Deus Pai sai de si para nos chamar a participar de sua vida e
de sua glória. Mediante Israel, povo que fez seu, Deus revela seu projeto de
vida. Cada vez que Israel procurou e necessitou de seu Deus, sobretudo nas
desgraças nacionais, teve singular experiência de comunhão com Ele, que o
fazia partícipe de sua verdade, sua vida e sua santidade99.

Jesus, ao chamar os doze apóstolos, quis também estabelecer com eles esse mesmo
vínculo de amor, o vínculo da comunhão. Chamou-os para permanecerem com ele. Essa é a
característica mais especial de uma vida de comunhão com Deus. Poder participar da sua vida

97
HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana. São
Paulo: Paulus, 2002, p. 16.
98
JOÃO PAULO II. Ecclesia in America. Exortação Apostólica pós-sinodal, 1999. São Paulo: Paulus, 1999,
33.
99
DA 129.
39

e de sua missão. Poder estar com ele e ir ao encontro da santidade de Deus. Jesus chamou-os
para viver em comunhão com Ele (Mc 3, 14). Jesus quis favorecer a comunhão com os
apóstolos para poder instruí-los melhor, para que eles não só adquirissem conhecimento a
respeito de sua missão, mas participassem dela verdadeiramente. Por isso, estar em comunhão
com Jesus é participar da sua missão.
O discipulado se dá no encontro íntimo com Jesus, que toca até o interior mais
profundo do homem a fim de transformá-lo totalmente. “Ao que parece, o encontro a sós
indica que Jesus quer falar-lhes ao coração (Os 2,14). Também hoje o encontro dos discípulos
com Jesus, na intimidade, é indispensável para alimentar a vida comunitária e a atividade
missionária”100.
Somos chamados a estabelecer a comunhão com Cristo e com os irmãos. Esse deve
ser o nosso desejo. Membros do povo de Deus, da sua Igreja, devem ser sinal de comunhão,
porque os seus membros, como os ramos, participam da mesma vida de Cristo, a verdadeira
videira (cf. Jo 15, 5). “Com efeito, mediante a comunhão com Cristo, Cabeça do Corpo
místico, entramos em viva comunhão com todos os crentes”101.
Não podemos esquecer que estar com Ele, assumir a sua missão é assumir também as
consequências das suas atitudes de vida. O verdadeiro discípulo de Jesus Cristo é aquele que
abraça a fé em suas palavras e obras, que assume sua cruz e, se não o faz, não pode ficar com
Ele (Mt 10, 38). “O chamado ao discipulado inclui o chamado à provação, porque se trata da
comunhão com ele, que é rejeitado e que vai à paixão e à morte”102. Toda a comunhão dos
fiéis discípulos de Jesus sustenta-se na comunhão trinitária. Somos chamados a viver em
comunhão com o Pai, com seu Filho Jesus Cristo, morto e ressuscitado, e com o Espírito
Santo.
O discipulado exige uma adesão à vida de comunhão com o Mestre. “A vocação ao
discipulado missionário é convocação à comunhão em sua Igreja. Não há discipulado sem
comunhão”103. A Igreja deve ser sempre essa casa e escola de comunhão, e, juntamente com
seus pastores, estabelecer uma comunhão filial e fraterna. Por isso, a Igreja deve
constantemente ser promotora de comunhão. “Portanto, a comunhão na Igreja não é uma
simples experiência de participação democrática, mas, para além dela, é a própria realidade da

100
DA 154.
101
JOÃO PAULO II. Ecclesia in America. Exortação Apostólica pós-sinodal, 1999. São Paulo: Paulus, 1999,
33.
102
ALDANA, Hugo Orlando Martinez. O discipulado no evangelho de Marcos. São Paulo: Paulus, 2005, p. 87.
103
DA 156.
40

vida cristã que brota da relação de íntima comunhão do Pai com o Filho, na unidade que
fortalece e cria laços profundos, pois se dá pelo amor do Espírito Santo “que foi derramado
em nossos corações” (cf. Rm 5,5)”104.
A vida de comunhão autêntica produz o compromisso com a sociedade. Leva a
estabelecer relacionamentos e a se colocar a serviço dos irmãos, sobretudo dos que mais
necessitam e sentem-se excluídos dessa comunhão. Por isso, “a condição para que a
fecundidade do discipulado seja um fato é uma só: permanecer com Jesus. E permanecer com
Ele é permanecer em seu amor”105. Assim como Jesus foi impelido pelo amor do Pai, Ele
também nos impele por seu amor, e é na experiência desse amor com Jesus que o discípulo
também se torna capaz de amar. Essa certeza de ser amado deve nos impulsionar a amar.
Assim se concretiza o Reino e acontece o verdadeiro discipulado.

2.3 O Encontro com Jesus Cristo sob o sólido fundamento da Trindade-Amor

Para o discípulo que vai ao encontro de Jesus Cristo, é revelado Deus como Pai e
Amor. O Abba, paizinho. Jesus mostra-nos que essa expressão sinaliza sua expressão filial.
Os evangelhos nos mostram claramente a intimidade de Jesus com o Pai e a presença do Pai
na missão. “Os discípulos, vendo como rezava, como agia e como falava, foram descobrindo
a realidade da filiação de Jesus, e assim a presença da segunda Pessoa da Santíssima
Trindade”106. Jesus revela-se como o enviado do Pai. “Vós me conheceis e sabeis de onde eu
sou; no entanto, não vim por própria vontade, mas é verdadeiro aquele que me enviou e que
não conheceis. Eu, porém, o conheço, porque venho de junto dele, e foi ele quem me enviou”
(Jo 7, 28-29).O evangelho nos apresenta Jesus como quem procede do Pai. Ele veio de junto
de Deus Pai para habitar no meio de nós.
Temos diante desta realidade o paradigma de que “por meio do Filho que está no Pai
e que tem em si o Pai, manifestou-se o Deus que é o Pai dando testemunho ao Filho e o Filho
anunciando o Pai”107.
Por isso, a comunhão do Pai e do Filho, no Espírito Santo, dá-se numa perfeita
harmonia de modo que um anuncia e manifesta o outro em si mesmo.

104
COSTA, Pe. José de Anchieta Lima. A vocação à santidade à luz do Documento de Aparecida. In Revista
Eclesiástica Brasileira 273. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 59.
105
BINGEMER, Maria Clara. Caminhos da Igreja na América Latina e no Caribe, São Paulo: Paulinas, 2006,
p.363.
106
BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. Petrópolis: Vozes, 1988, p.51.
107
LIÃO, Ireneu de. In Coleção Patrística. V. 4. São Paulo: Paulus, 1995, p.259.
41

A Trindade é de uma só força, de uma só majestade, de uma só divindade, de


uma só ousia, de modo que afirmamos que há um poder inseparável, porém
em três pessoas, que não retornam em si ou diminuem,... mas permanecem
sempre; e afirmamos também que não há níveis de poder e tempos de
proveniência distintos; ambos se manifestam em perfeita comunhão e
integralmente, pois ambos estão unidos na divindade, no operar e no amor108.

O evangelho também nos mostra a relação que Jesus estabelece entre a sua missão e
o Espírito, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. “O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a
libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos
oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc, 4, 18-19). Jesus é o ungido do
Pai e está intimamente unido ao Pai no Espírito Santo. É a perfeita comunidade presente na
vida do mundo a fim de salvá-lo e encorajá-lo na vivência comunitária. “O Pai e o Filho e o
Espírito Santo são indivisos sem confusão, sempiternos sem tempo, iguais sem diferença, já
que não a unicidade da pessoa, mas da essência realiza a unidade na Trindade”109.
O evangelista nos relata que Jesus é o ungido do Pai, o Espírito é a sua unção, e Ele é
o ungido, o enviado. No mistério pascal, Jesus também se apresenta como aquele que envia
como o Pai. “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20, 21). A comunidade
recebe a missão de Jesus como ele a recebeu do Pai, e assim como o Pai lhe concedeu o
Espírito, Ele também concede à comunidade o Espírito como unção, dom e força para a vida e
a missão. “Dizendo isso, soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).
O sopro de Jesus é o Espírito, a vida que ele nos dá. O sopro que nos recria, ou seja,
nos incorpora cada vez mais a Ele e nos faz receber a graça concedida desde a criação. Esse
sopro é o mesmo que fez com que o Verbo Encarnado realizasse a obra salvífica de Deus.
A Trindade se manifesta no batismo de Jesus. Nele, Jesus assume definitivamente a
missão, recebendo a confirmação da paz, “Este é meu filho muito amado, em quem me
comprazo” (Mc 1, 11). Ao mesmo tempo, segundo Marcos, Jesus viu o Espírito como uma
pomba descer até ele: “E, logo ao subir da água, ele viu os céus se rasgando e o Espírito,

108
DÂMASO I. Fragmentos de cartas aos bispos orientais. In Compêndio dos símbolos, definições e
declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas, 2007, p.63.
109
LEÃO I. Carta Ut nobis gratulationem. In Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral.
São Paulo: Paulinas, 2007, p.106.
42

como uma pomba, descer até ele” (Mc 1, 10). A Trindade em Jesus realiza a salvação e se faz
presente entre os homens.

O amor de Deus Pai, dom, graça, infinita e princípio de vida, tornou-se


visível em Cristo e, na sua humanidade, tornou-se ‘parte’ do universo do
gênero humano e da história. Essa manifestação da graça, na história
humana, mediante Jesus Cristo, realizou-se por obra do Espírito Santo, que é
princípio de toda ação salvífica de Deus no mundo110.

Jesus é a manifestação da graça, do Espírito, e é o princípio da ação salvífica de Deus no


mundo. Por Cristo, no Espírito, o Pai realiza a sua doação plena e definitiva de amor aos
homens. “Entre Jesus e o Pai, a relação é de pertença recíproca, de recíproca imanência de
profunda comunhão e de unidade perfeita”111. Por Cristo, no Espírito, o Pai realiza a sua
doação plena e definitiva de amor por nós. Santo Ireneu faz a seguinte analogia: “O Filho e o
Espírito são as duas mãos do Pai, com as quais Ele cria o universo, modela o ser humano e
regenera todas as coisas”112. A intimidade de Jesus com o Pai revelou-nos quem é o Pai:
amor, bondade e misericórdia.
Lembremo-nos do pedido de Filipe, um dos doze apóstolos, a Jesus: “Senhor,
mostra-nos o Pai e isso nos basta! Diz-lhe Jesus: Há tanto tempo estou convosco e tu não me
conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 8-9). Ou seja, Jesus é a imagem perfeita de
Deus, a visibilidade do Deus eterno e invisível.
É preciso entender que ao fazer o encontro com o Filho nós não ignoramos o Pai nem
muito menos o Espírito Santo. No Filho, nós reconhecemos o poder e a onipotência de Deus;
de um só Deus que se manifestou a nós, nas três pessoas, com igual perfeição e poder.

Em Deus, pois, quando o Filho que é igual se une ao Pai que lhe é igual, ou o
Espírito Santo, que é também igual ao Pai e ao Filho, Deus não se torna
maior do que cada uma das pessoas, pois essa perfeição não lhe é
acrescentada. Perfeito é o Pai, perfeito é o Filho, perfeito é o Espírito Santo;

110
Marcial MAÇANEIRO, Deus Pai e seu amor salvífico em alguns documentos de Paulo VI e João Paulo II,
Roma, 2001, p. 33.
111
FORTE, Bruno. A Trindade como história: Ensaio sobre o a revelação, o início e a consumação. São Paulo:
Paulus, 1987, p.92.
112
IRENEU DE LYON: Adversus haereses IV, 20, Sources Chrétiennes 140, París, 1965, p. 627.
43

perfeito é Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Concluindo, Deus é Trindade,


mas não tríplice, isto é, não são três deuses113.

Os evangelhos ainda nos mostram que Jesus, o ungido, estava cheio da presença do
Espírito durante toda a sua vida.

Por isso, era o novo homem totalmente livre e libertado das amarras
históricas. Na força do Espírito, lança seu programa messiânico de total
libertação. O Espírito e Cristo sempre estarão juntos para reconduzir a
criação ao seio da Santíssima Trindade114.

Jesus recebe do Pai a missão de transmitir o Espírito, para que a sua ação realize, na
comunidade, a mesma força, a mesma alegria e a mesma sensibilidade que realizou em Jesus.
O Espírito é revelado, pois, como o sopro de Deus que anima e revitaliza, encoraja, esclarece
o sentido da missão salvífica de Deus na história humana.
A terceira pessoa da Trindade está intimamente ligada a Jesus. Ele age em toda a vida
e obra de Jesus, desde a concepção virginal de Maria; depois no batismo, nos acontecimentos
messiânicos, até a ressurreição.

Jesus viveu como ungido do Espírito Santo. Foi concebido no seio de Maria
por obra do Espírito Santo (Lc 1, 35). Batizado no Espírito Santo (Lc 3,22)
venceu as tentações na força do Espírito (Lc 4, 1). Sabia-se possuído pelo
Espírito para evangelizar os pobres (Lc 4,18) e expulsar os demônios (Mt
12,28). Alegrou-se no Espírito pela evangelização dos pequenos (Lc 10,21).
Ressuscitado pela força do Espírito Santo (Rm 1,4), enviou o Espírito como
continuador de sua obra, memorizador de sua mensagem, defensor de sua
causa, consolador e advogado de seus discípulos (Lc 24,49; Jo 14,16-17.26;
16, 5-15)115.

Por isso, podemos dizer que o encontro com Jesus Cristo se dá sob o sólido
fundamento da Trindade que é comunhão de amor e assim podemos adentrar a esse mistério e

113
AGOSTINHO. A Trindade. São Paulo: Paulus, 1994. p.227.
114
BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 54-55.
115
CPMGJ, p. 26-27.
44

fazer a experiência desse Deus. Esse encontro foi eficaz desde a Igreja primitiva. Os primeiros
discípulos missionários já puderam experimentar e vivenciar essa comunhão trinitária.

Na vida e na obra de Jesus de Nazaré, as primeiras testemunhas puderam


intuir e constatar progressivamente, embora às vezes difícil e
fragmentariamente, a presença e a pulsação da vida trinitária. E registraram
isso nas páginas do Novo Testamento116.

O encontro com Jesus Cristo é para cada discípulo missionário um caminho de


amadurecimento e de revelação do mistério salvífico. Por isso, “o cristianismo é um caminho
novo e só se desvela completamente, na experiência de ouvir a Palavra e receber a revelação
do mistério do amor trinitário, ou seja, do amor de Deus, em Jesus Cristo e no seu Espírito
derramado sobre a Igreja e a história”117.
Deus se revelou como Santíssima Trindade e nós participamos da sua vida desde o
dia do nosso batismo, pois fomos assim batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito
Santo. “A vida nova em Cristo é participação na vida de amor do Deus Uno e Trino” 118.
O discípulo que estabelece um encontro pessoal com Jesus Cristo participa da missão
trinitária, pois, conduzido pelo Espírito Santo, é seguidor do Mestre e testemunha de sua
ressurreição. “Diante da Santíssima Trindade, sejamos também discípulos que ouvem a
Palavra de Jesus, o qual nos revela o mistério de Deus Uno e Trino”119.
O discípulo de Jesus Cristo vive a vida de comunhão trinitária em busca de uma
realização plena, que leve à integração da pessoa e à sua pertença ao Reino. Essa integração
nos impulsiona para a missão, serviço aos irmãos e realização pessoal. Esse serviço deve ser
estabelecido à luz da Trindade, pois, ela nos conduz ao verdadeiro serviço de amor, de entrega
e de total participação na vida de comunidade. Nós, chamados a sermos discípulos
missionários de Jesus Cristo, devemos aprender dele a viver uma vida de comunhão solidária
e de entrega total a todos.
Uma autêntica proposta de encontro com Jesus Cristo deve estabelecer-se sobre o
sólido fundamento da Trindade-Amor. “A experiência de um Deus uno e trino, que é unidade
116
BINGEMER, Maria Clara L.; FELLER, Vitor Galdino. Deus Trindade: A vida no coração do mundo. São
Paulo: Paulinas, 2002, p.80.
117
BINGEMER, Maria Clara L.; FELLER, Vitor Galdino. Deus-amor: A graça que habita em nós. São Paulo:
Paulinas, 2003, p.133.
118
DA 357.
119
HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana.
São Paulo: Paulus, 2002, p. 32.
45

e comunhão inseparável, permite-nos superar o egoísmo para nos encontrarmos plenamente


no serviço para com o outro120.
Esse serviço mútuo pode-se exercê-lo quando estamos reunidos como Igreja em
nome da Trindade. Somente, no encontro pessoal com Jesus Cristo, podemos fazer a
experiência de Deus, de um Deus-comunhão, de um Deus-trinitário, ou seja, que se manifesta
a nós trinitariamente sem perder sua distinção, mas fortalecendo a vida de cada pessoa na vida
de uma comunidade eclesial. “O Deus único e verdadeiro não é somente o Pai, mas o Pai, o
Filho e o Espírito Santo”121.
Nesse contexto de fé trinitária, somos impulsionados a viver o verdadeiro
seguimento de Jesus Cristo, sendo sinais de comunhão, da unidade em diversidade e da
gratuidade com responsabilidade. “No Deus Trindade, a diversidade de Pessoas não gera
violência e conflito; ao contrário, é a fonte mesma do amor e da vida”122. É nessa realidade
que o discípulo é inserido e a exigência do discipulado se torna clara: não se pode tornar-se
discípulo senão estiver unido ao corpo todo, logo, a unidade na diversidade é a meta da
comunidade dos discípulos de Jesus Cristo. É no encontro pessoal com Jesus Cristo que
tomamos consciência desta verdade transformadora.

2.4 O Espírito Santo: mestre e guia dos seguidores de Jesus Cristo.

O dia de Pentecostes foi para os discípulos o dia do anúncio e da comunicação do


mistério de Cristo realizado no poder do Espírito Santo. O Espírito manifestou neles a sua
força para sustentá-los e animá-los a evangelizar. O verdadeiro discípulo de Jesus Cristo é
aquele que se deixa guiar pelo Espírito e vive sob a sua luz. O discípulo missionário de Jesus
Cristo é ungido pelo Espírito para continuar a obra missionária do Redentor.
O Pai que enviou Jesus Cristo para a nossa salvação envia também o Espírito para
confirmar toda a obra redentora de Cristo, por meio da Igreja, manifestada na ação do mesmo
Espírito.

120
DA 240.
121
AGOSTINHO. A Trindade. São Paulo: Paulus, 1994, p. 227.
122
DA 543.
46

O Espírito permeia toda a vida da Igreja. “A unidade dos discípulos missionários


pressupõe pluralidade. Sua unidade é unidade e comunhão no Espírito Santo (2Cor 13,13), no
plural dos dons, das vocações e dos significados históricos”123.
É o Espírito Santo que se manifesta em toda a vida da Igreja, que se deixa conhecer
nesta mesma Igreja. “A Igreja, comunhão viva na fé dos apóstolos, que ela transmite, é o
lugar do nosso conhecimento do Espírito Santo. Aquele que o Pai enviou aos nossos corações,
o Espírito do seu Filho, é realmente Deus”124. É na Igreja que nós professamos a mesma fé
apostólica e nos inserimos nesta realidade e nos tornamos autênticos discípulos, testemunhas
de Jesus Cristo.

Mantemos em tudo inviolável a fé do Concílio de Nicéia, sem simulação de


palavras ou sentido torto, e cremos na Trindade de uma única e coeterna
essência, não separamos em nada o Espírito Santo, mas o veneramos
juntamente com o Pai e o Filho, perfeito em tudo quanto à força, a honra, a
majestade, a divindade... 125.

Para o discípulo que se deixou formar pelo mestre é clara a consciência de que o
Espírito Santo é o protagonista da missão e o sustento do discipulado.

É o Espírito Santo que deu firmeza aos corações e às mentes dos discípulos,
que os iniciou nos mistérios evangélicos, que os iluminou nas coisas divinas;
por ele revigorados, não temeram as prisões nem as correntes pelo nome do
Senhor; antes, subjugaram as próprias potências e tormentos do mundo, já
armados e reforçados por seu intermédio, dotados que foram com os seus
dons que este mesmo Espírito reparte e envia como jóias à Igreja, Esposa de
Cristo. De fato, é ele que na Igreja suscita os profetas, instrui os mestres,
guia as línguas, realiza prodígios e curas, produz obras admiráveis, concede
o discernimento dos espíritos, confere os encargos de governo, sugere os
conselhos, reparte e harmoniza todo e qualquer outro dom carismático,

123
AMERINDIA. V Conferência de Aparecida: Renascer de uma esperança. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 257.
124
CEC 688-189.
125
DÂMASO I. Fragmentos de cartas aos bispos orientais. In Compêndio dos símbolos, definições e
declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas, 2007, p.64.
47

tornando, assim, por toda parte e em tudo plenamente perfeita a Igreja do


Senhor126.

Os discípulos de Jesus estavam dissolvidos no medo e na incerteza. Procuravam


encontrar o verdadeiro sentido de tudo o que Jesus lhes havia ensinado para poder
testemunhar aos outros as obras que o Mestre havia feito. Foi preciso esperar e confiar que
Jesus lhes enviaria aquele que explicaria todas as coisas.
É o Espírito Santo que vem à Igreja e a cada um pessoalmente para orientar como
mestre; iluminando a consciência e o coração. Ele faz compreender o que se tinha ouvido do
Mestre e a praticar cada ensinamento.
Caminhamos para a verdade e acreditamos que ela nos liberta e nos torna verdadeiros
seguidores de Jesus Cristo e de seu evangelho. Contudo, o Espírito é também o mestre e guia
daqueles que desejam segui-lo decididamente enviando-nos para a escuta atenta da Palavra
por ele suscitada. Ele é o pedagogo, o educador, ensina a verdade, a verdadeira doutrina.

A Igreja, no silêncio, na escuta e na acolhida da Palavra de Deus, deixa-se


ensinar, educar e desafiar pelo Espírito, que fala por intermédio das
Escrituras. Assim, enquanto ela acolhe a Palavra e faz desta o seu alimento,
se deixa conformar a Cristo seu Senhor e cresce na comunhão e na unidade
do único Espírito. É a Igreja, discípula de Cristo, que o Espírito conduz à
plenitude da verdade127.

Todo o batizado deve redescobrir a graça do Espírito Santo em sua vida e em suas
atividades. Na presença do Espírito, nós reconhecemos o Senhor e o verdadeiro sentido da sua
missão confiada a nós. É o mesmo Espírito que nos configura a Cristo e à sua obra redentora.
“O Espírito suscita nos fiéis o sentimento de uma comunhão e virtude da qual, pela fé e pelo
amor, eles estão em Deus e Deus neles (1 Jo 4, 13): Nisto reconhecemos que permanecemos
nele e ele em nós, ele nos deu o seu Espírito”128.
No evangelho de João, é o Espírito da verdade quem dá testemunho de Jesus Cristo,
juntamente com os seus apóstolos (Jo 15, 26). Ao fazer um encontro pessoal com Cristo o
discípulo missionário deve abraçar a mesma fé suscitada pelo Espírito aos apóstolos para que

126
CPMGJ, p. 26.
127
CPMGJ, p. 27.
128
CONGAR, Ives. Revelação e experiência do Espírito. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 84.
48

a sua obra, seu desejo e sua missão se concretizem na vida daqueles que ainda não fizeram
seu encontro pessoal com Cristo.

Enquanto acompanhavam, viam e ouviam Jesus, os discípulos misturavam a


fé com a falta de fé, sobretudo a falta de entendimento. O Espírito fará com
que a lembrança deles volte aos ensinamentos de Jesus e amadurecerá neles
um testemunho que não será simplesmente repetição dos fatos em sua
materialidade, mas entendimento e comunicação do sentido dos mesmos129.

Aos discípulos, é concedida a graça de fazer a experiência com o Cristo ressuscitado.


É a partir do sopro do Espírito que eles fazem a experiência desse encontro pessoal com o
Senhor. O sentido dos gestos e dos ensinamentos de Jesus é, após a vinda do Espírito Santo,
esclarecido e como que revelado aos olhos dos discípulos (Jo 2, 22; 12,16; 14 26).
Nesta certeza, não podemos nos esquecer que o “Espírito Santo procede eternamente
do Pai e do Filho, não, porém, como de dois princípios, mas como de um só; não por duas
inspirações, mas por uma só”130. No encontro com Jesus Cristo, nós recebemos o Espírito
Santo e participamos da vida da graça que vem de Deus.
O discípulo de Jesus Cristo que deseja segui-lo, ou seja, permanecer com Ele e
aprender dele, deve deixar-se guiar pela unção do Espírito Santo que lhe esclarece tudo (1 Jo
2, 20. 27). O discípulo missionário de Jesus Cristo vive a unidade que o Espírito Santo
derramou sobre si e é impulsionado a viver essa mesma unidade na Igreja. “Às vezes nos
esquecemos que a unidade é, antes de tudo, um dom do Espírito Santo, e oramos pouco por
esta intenção”131.
O Espírito Santo é aquele que suscita na vida da comunidade a complementaridade
dos dons e carismas de cada um, a fim de que todos formem um só corpo, o Corpo de Cristo,
entregue para a vida do mundo. É na comunidade reunida que o Espírito Santo foi derramado
e essa mesma comunidade iniciou sua missão a partir da fé doada pelo mesmo Espírito.
Somente, no Espírito, é que a comunidade encontrou o verdadeiro sentido de viver em
unidade os mesmos sentimentos e as mesmas atitudes.

129
Ibidem, p. 85.
130
GREGÓRIO X. II Concílio de Lião. In Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e
moral. São Paulo: Paulinas, 2007, p.300.
131
DA 230.
49

Quem deseja ser discípulo de Jesus Cristo não pode ignorar o protagonismo do
Espírito Santo neste encontro, pois “no encontro com Cristo, graças à ação invisível do
Espírito Santo, realiza-se na fé recebida e vivida na Igreja”132.
O nosso desejo deve ser o mesmo dos primeiros discípulos e a nossa abertura à ação
do Espírito Santo deve nos ensinar e nos encorajar a ir ao encontro daqueles que querem
dedicar a sua vida como os primeiros discípulos.

Não temos outra felicidade nem outra prioridade senão a de sermos


instrumentos do Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja
encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado a todos133

A conversão permanente é proposta do Espírito que nos impulsiona a assemelhar-


mos ao mestre cada vez mais. Ele semeou em nós o germe do Reino para que pudéssemos
continuar a obra que o Cristo instaurou no meio de nós. Os verdadeiros discípulos, seguidores
de Jesus Cristo devem deixar-se guiar por Ele (Gl 5,25). É preciso viver para Ele e deixarmo-
nos guiar por Ele, para assim colaborarmos na edificação da Igreja de Jesus Cristo.

O Espírito Santo guiará a Igreja na verdade e para toda a verdade. Dará


coragem aos cristãos para darem testemunho de Jesus Cristo até o martírio.
Impulsionará a Igreja para as missões até os confins do mundo, tornando-se
o agente principal da atividade missionária e evangelizadora da Igreja, como
ele o é ainda hoje e sempre. Através dos tempos, santificará e renovará
constantemente a sua Igreja134.

A nossa adesão ao Espírito Santo conduz para uma verdadeira renovação eclesial que
implica reformas espirituais, pastorais e também institucionais. Essas reformas são muitas
vezes urgentes e necessita de nossa coragem e decisão consciente.
O Espírito Santo que encorajou os primeiros discípulos de Jesus Cristo é derramado
sobre nós também, para que possamos ajudar a construir um mundo melhor, uma sociedade
mais justa, uma Igreja mais comunitária e escola de comunhão e participação.

132
DA 246.
133
DA 14.
134
HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana.
São Paulo: Paulus, 2002, p. 57.
50

A Igreja prega um novo Pentecostes, que traga ânimo, coragem, e entusiasmo para
testemunhar Jesus Cristo e sua obra de salvação na alegria e na esperança. O Espírito Santo é
quem nos garante, na fé, e nos nomeia como verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, a fim
de que permaneçamos para sempre com Ele e vivamos esta alegria plenamente (Jo. 14 16.
26).

2.5 A Palavra de Deus como dom do Pai para o Encontro com Jesus Cristo

No encontro com Jesus Cristo se dá a transformação integral do ser humano. Por


isso, esse encontro gera um relacionamento estável, definitivo. O nosso sentimento de
discípulo que encontrou o mestre e estabeleceu um relacionamento com Ele é de pertença e
seguimento. “A própria natureza do cristianismo consiste, portanto, em reconhecer a presença
de Jesus Cristo e segui-lo”135.
Essa experiência os primeiros discípulos de Jesus Cristo também a fizeram,
maravilhando-se com as suas palavras e suas atitudes de vida. Por isso, a Sagrada Escritura,
“Palavra de Deus escrita por inspiração do espírito Santo”136, é dom inestimável do Pai para
que possamos conhecê-lo, mediante seu filho Jesus Cristo. É, na Palavra de Deus, que nós
estabelecemos esse encontro profundo e vivencial da pessoa de Jesus Cristo em comunhão
com o próprio Deus. “Através de todas as palavras da Sagrada Escritura, Deus pronuncia uma
só Palavra, seu Verbo único, no qual se expressa por inteiro”137.
A Sagrada Escritura é Palavra de Deus, pois é revelada a nós pela fé transmitida a
nós como graça divina. O cristão não pode ignorar essa verdade e essa manifestação de Deus
na história da humanidade.

Então, sem mais, compreende-se que a Escritura pode considerar-se como


Palavra de Deus, enquanto distinta de uma palavra sobre Deus, somente se
vem a ser considerada em unidade com o que chamamos de graça,
autocomunicação divina, Espírito, revelação transcendental pela graça, fé138.

135
DA 244.
136
DV 9.
137
CEC 102.
138
RAHNER, Karl. Curso Fundamental da fé. São Paulo: Paulus, 1989, p.259.
51

Na Palavra de Deus, está a vida que nos garante a imortalidade. Todos os que vivem
Dele e de suas palavras têm a vida eterna. Por isso, “o Deus que se revela, na Palavra, é
fundamentalmente vida”139. A vida que Deus quer para nós é uma vida plena, ou seja, a
salvação. Por isso, a sua palavra quer ser para nós a meta a ser alcançada na nossa vida em
busca de uma realização plena e perfeita em Deus. “Os livros da Escritura ensinam com
certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse
consignada nas Sagradas letras”140.

Com efeito, Ele enviou Seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os
homens, para que habitasse entre os homens e lhes expusesse os segredos de
Deus (cf. Jo 1, 1-18). Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, enviado
como “homem aos homens”, “profere as palavras de Deus” (Jo 3, 34) e
consuma a obra salvífica que o Pai lhe confiou141.

O Verbo feito carne habitou no meio de nós para que pudéssemos participar da vida
de Deus. E cada vez que nos colocamos à disposição de sua Palavra nós participamos da sua
vida e comungamos Dele. Cristo é Palavra eterna de Deus vivo. Pelo Espírito Santo, ele nos
guia, nos orienta e nos conduz a uma vida perene.
O próprio Cristo é a vida da Palavra que nos transforma. “O cristianismo é a religião
da Palavra de Deus, não de um verbo escrito e mudo, mas de um Verbo encarnado e vivo”142.
A Palavra de Deus nos leva ao encontro da justiça, da prática das boas obras. Ela só
pode dar bom fruto se for semeada num coração disposto a acolhê-la e testemunhá-la
radicalmente com uma autêntica coerência de vida. “Por isso toda Escritura divinamente
inspirada é também útil para ensinar, para argüir, para corrigir, para instruir na justiça: a fim
de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda obra boa”143.
Em Cristo, nós conhecemos a Deus e podemos participar da obra de Deus no mundo
mediante os gestos, palavras, obras e sinais que o Senhor ensinou aos seus discípulos. O
Documento de Aparecida nos recorda da importância da Palavra de Deus, lugar do encontro

139
GUTIÉRREZ, Gustavo. O Deus da Vida. São Paulo: Loyola, 1992, p. 113.
140
DV 11.
141
DV 164.
142
CEC 108.
143
DV 179.
52

com Jesus Cristo: “Desconhecer a Escritura é desconhecer Jesus Cristo e renunciar a anunciá-
lo”144.
É preciso que cada cristão, fiel discípulo missionário do Senhor, obtenha um
profundo conhecimento da Palavra de Deus e uma vida segundo a Palavra. Por isso, somos
chamados a anunciá-la e a fazer a experiência concreta daquilo que lemos e proclamamos
para que assim as palavras do Senhor sejam verdadeiramente para nós “Espírito e vida” (Jo 6,
63).
Cristo está presente na Palavra revelada, e nosso encontro com Ele não é um
encontro de ausência, mas de ativa presença tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como o


próprio Corpo do Senhor, já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem
cessar toma da mesa tanto da palavra de Deus quanto do Corpo do Cristo o
pão da vida, e o distribui aos fiéis”145.

A presença de Cristo, nas Escrituras, é uma presença real e ativa. Não é uma
presença ilustrativa.

Para penetrar até o âmago das Escrituras e aí reconhecer a pessoa do Cristo,


nem a pesquisa histórica, nem o estudo racional da linguagem bíblica, nem a
magia de seus ritmos ou de suas imagens abrem as últimas vias de acesso.
Pois o Senhor é Espírito (2 Cor 3,17) e a presença de Jesus Cristo nas
Escrituras é a do Espírito146.

A nossa salvação, ou o mistério de Cristo Salvador, foi anunciada pelos profetas no


Espírito de Cristo preexistente, e hoje se realiza e se revela a nós pregado no Espírito de
Cristo ressuscitado. Contudo, Cristo é a boa nova, a novidade suprema. É na certeza de que
Ele é o Messias que se desenvolvem os dois testamentos.

É nesta certeza que tudo se centraliza e unifica. Tudo se reveste de sua


significação definitiva. Nela, opera-se, com toda clareza, a passagem de um

144
DA 247.
145
DV 192.
146
DILLENSCHNEIDER, Clement. O Dinamismo de nossa fé: encontro pessoal do fiel com o Cristo e sua
Igreja. São Paulo: Paulinas, 1970, p.110.
53

Testamento a outro... Toda a dialética dos dois testamentos se restringe; o


Novo, todo inteiro, é dado à luz pelo Antigo e, ao mesmo tempo, o Antigo,
todo inteiro, encontra-se interpretado pelo Novo...147.

Cristo é a Palavra encarnada, dom do Pai para a humanidade. Tudo o que foi dito
desde o princípio até hoje é revelação do Verbo de Deus. A fé do verdadeiro discípulo de
Jesus Cristo não é uma fé do passado, antiga, mas uma fé atual, no Cristo Ressuscitado, que
continua agindo pela força do Espírito em nós.
É na Palavra de Deus que os discípulos fortaleceram os vínculos que os unem a Jesus
Cristo.

Contudo, ao percorrermos a Bíblia, percebemos que ela não se resume a dar-


nos conhecimentos sobre Deus e sobre a moral, mas apresenta-nos a ação de
Deus na história e na vida das pessoas e dos povos. Esta entrada de Deus em
nossa história cria fatos e é marcada de encontros de Deus com os seres
humanos, seja individual seja comunitariamente148.
É neste encontro que nos relacionamos com Jesus Cristo pessoalmente, que
estabelecemos uma aliança de comunhão com Ele. “Tal experiência ou encontro com Deus,
com Jesus Cristo, é muito mais do que um mero conhecimento sobre Jesus Cristo e sua
doutrina”149.
Podemos perceber claramente que a Palavra de Deus é dom do Pai concedido a todo
aquele que deseja encontrar-se com Cristo. Assim fizeram os primeiros discípulos; da mesma
forma nós também somos convidados a fazer.

Os discípulos de Jesus desejam alimentar-se com o Pão da Palavra: querem


chegar à interpretação adequada dos textos bíblicos, empregá-los como
mediação de diálogo com Jesus Cristo, e a que sejam alma da própria
evangelização e do anúncio de Jesus a todos150.

147
Ibidem, p.115.
148
HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana.
São Paulo: Paulus, 2002, p. 15.
149
Ibidem, p. 15.
150
DA 248.
54

É preciso que todos os que são chamados a serem discípulos missionários de Jesus
Cristo procurem aprofundar, no conhecimento da Palavra de Deus, e também se aproximem
com espiritual desejo de ouvir o mestre.

Isso exige, da parte dos bispos, presbíteros, diáconos e ministros leigos da


Palavra, uma aproximação à Sagrada Escritura que não seja só intelectual e
instrumental, mas com coração “faminto de ouvir a Palavra do Senhor” (Am
8, 11)151.

Para que esse encontro com Cristo presente, na Palavra, dom do Pai para o discípulo
missionário, seja uma aproximação concreta e frutuosa, na vida do discípulo missionário de
Jesus Cristo: recomenda-se, vivamente, a leitura orante da Palavra de Deus, ou seja, a Lectio
divina. “Essa leitura orante, bem praticada, conduz ao encontro com Jesus-Mestre, ao
conhecimento do mistério de Jesus-Messias, à comunhão com Jesus-Filho de Deus e ao
testemunho de Jesus-Senhor do universo”152.
A leitura orante da Palavra favorece esse encontro pessoal com Cristo e nos coloca,
na mesma atitude daqueles que viveram o seu encontro pessoal com o Senhor, como
Nicodemos, a Samaritana, o cego de nascença, Zaqueu, Marta e Maria e tantos outros que lhe
foram ao encontro.
O Evangelho narrado pelos primeiros discípulos a partir de suas experiências com
Jesus Cristo nos insere no compromisso e no desejo de sermos amigos de Jesus e nos
tornarmos testemunhas de sua vida e anunciadores do seu Reino.

2.6 O encontro pleno e definitivo com o Senhor

O encontro com Jesus Cristo é vivido pelos seus seguidores, no tempo presente, mas
também carrega a esperança escatológica da plenitude que não se dará aqui, mas será no dia
final. Em Cristo, nós contemplaremos face a face a felicidade e a realização plena, prometida
por Ele.

151
DA 248.
152
DA 249.
55

Na Encarnação Deus, veio ao nosso encontro e se fez próximo a nós de maneira real,
a fim de que todos vivessem na sua presença. E, na experiência de estar, na presença de Deus,
podemos, no dia em que chegar a nossa morte, estar, na sua presença sem os obscurecimentos
da finitude desta vida, sem o pecado, que nos afasta de sua presença.
Podermos estar na presença do criador e vê-lo como Ele é. Nós ansiamos por essa
presença. Desejamos, pois, repousar em Deus e sentir o céu junto de nós. A nossa experiência
de fé suscita, em nosso coração humano, o desejo e a felicidade do encontro com Deus.
A liturgia da Igreja celebra essa esperança e antecipa, na vida da graça, a vida eterna
que virá, mas é a celebração do mistério; nem se compara com o dia da plenificação e da
eterna presença de Deus na nossa vida. Essa presença já não será sacramental, mas real e
eterna, será a total e plena realização.
A teologia vai chamar este dia de parusia. Na linguagem bíblica, é a segunda vinda
do Senhor, que se dará, na ressurreição, na hora de nossa morte, ou seja, do nosso encontro
pleno e definitivo com o Senhor. Porém, essa parusia vai penetrando a nossa história. Na
peregrinação da vida, vamos experimentando já e ainda não esse fim glorioso.
No fim, o Senhor virá ao nosso encontro e viveremos plenamente com Ele. Esse
conhecimento é libertador, pois aquele que foi ao encontro do Senhor, e a partir do seu
relacionamento pessoal, viveu a prática da justiça, este permanecerá com Deus (cf. Sl 73, 18).
“Ainda não se existe a ideia de como Deus agirá, apenas a confiança de que “no fim” ele
estará presente e que, enquanto os malfeitores perecem, os justos podem estar com ele”153.
Contudo, não podemos esquecer que, Cristo faz-se presente em toda a nossa vida, até
nos sofrimentos. Pois o próprio Senhor passou pelo sofrimento da cruz. Esse encontro é
solidário. Cristo se solidarizou com todos, principalmente com os pobres e oprimidos. Por
isso, aceitou estar presente em todas as situações da vida humana, até na morte. O passar pela
morte é consequência natural da vida de Jesus, uma vez que ele se encarnou, pois “a morte é
um fato maior que configura decisivamente toda a existência e confere forma definitiva a todo
projeto humano”154. Portanto, a morte é condição de todo ser humano e o próprio Jesus
assumiu sobre si a nossa condição.
Mas a morte de cruz, certamente, Deus não a queria para seu Filho ou o próprio Jesus
não a desejou para si. “a Cruz é um produto terrível do pecado... se a encararmos na
perspectiva humana, é manifestação do amor levado até as últimas consequências, se a

153
NOCKE, Franz-Josef. Escatologia. In Manual de Dogmática II. Petrópolis: Vozes, 2000, p.379.
154
QUEIRUGA, Andres Torres. Recuperar a Salvação. São Paulo: Paulus, 1999, p. 180.
56

olharmos na perspectiva de Cristo”155. Esse é o duplo sentido da cruz. Primeiro Jesus morre,
na cruz, porque não aceita a situação do pobre e do oprimido. E, por segundo, o opressor quer
calar a voz de Jesus que não se cansa. “Jesus morreu porque se colocou do lado dos
oprimidos, sem retroceder diante das consequências; porque foi fiel à sua missão, doando-se
sem reservas”156.
Jesus morre na cruz por amor à humanidade e também por afirmar ser o Filho de
Deus. A afirmação da sua identidade é comprometida até as últimas conseqüências. Ir ao
encontro de Jesus Cristo é assumir a sua missão e o seu destino doando inteiramente a vida
em favor de todos, principalmente dos pobres e oprimidos.
O discípulo de Jesus Cristo não pode ignorar a realidade da cruz. A cruz nos
identifica com a vida e a missão de Cristo. É no encontro com Jesus Cristo que se torna
evidente o sentido da cruz.
Ao participarmos desse fim, experimentamos a definitiva presença do Senhor e o
sentido de nosso encontro definitivo com Aquele que, por amor, veio até nós para nos salvar,
ou seja, nos garantir vida plena.

Este fim está próximo de cada homem. Pois o Senhor está sempre vindo. E
cada vinda do Senhor, enquanto última e escatológica presença de Deus
coloca cada um diante da opção radical em torno da qual todas as demais
decisões tomam sentido e se organizam. Essa parusia do Senhor em cada dia
de nossa existência adquire na morte o esplendor da transparência. Aquilo
que já éramos pelo definitivo de tantos encontros com o Senhor, na oração,
nas celebrações, na caridade fraterna, é assumida pela glória da aparição do
Senhor da Glória157.

Esse encontro é para todos e não há privilégios de uns e de outros. Todos serão
chamados ao encontro pleno e definitivo com o Senhor. Ninguém está excluído dessa
esperança. São Paulo nos ajuda a compreender melhor esta definição: “Quando o Senhor, ao
sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em
Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida nós, os vivos que estivermos lá, seremos
arrebatados com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor” (1 Ts 4, 13-18).

155
Ibidem, p. 180.
156
Ibidem, p. 181.
157
João Batista LIBÂNIO; Maria Clara L. BINGEMER, Escatologia cristã, Petrópolis, 1985, p. 215.
57

Entre Cristo e nós, estabelece-se o sentido do encontro com o ressuscitado. A partir


da ressurreição o Senhor acolhe todo o nosso corpo no seu corpo.

A expressão paulina é um “corpo espiritual”. Corpo para indicar que não


renuncia a sua humanidade, mas continua o de sempre, um de nós, Jesus de
Nazaré; mas espiritual, porque já passou pela porta e rompeu o limite: seu
corpo está totalmente transpassado pela divindade, é pura transparência
espiritual, liberdade absoluta, presença ilimitada 158.

No encontro com o Ressuscitado, compreendemos o nosso encontro definitivo. A


experiência da vida nova em Cristo já pode ser vivenciada por todos aqueles que desejam
estar com o Mestre e permanecerem com Ele.

Nas narrativas sempre está presente a iniciativa do Ressuscitado, o processo


de reconhecimento por parte dos discípulos e a missão que faz deles as
testemunhas daquilo que “ouviram e viram com os próprios olhos e
contemplaram e tocaram com as próprias mãos (cf. 1Jo 1,1)159.

O encontro com o Ressuscitado transforma os medrosos e fugitivos discípulos em


corajosas testemunhas de Jesus. Depois desse encontro com o Cristo Ressuscitado, os
discípulos anunciam corajosamente que “Deus o ressuscitou da morte, e disto nós somos
testemunhas” (At 3, 15).
Ao comunicar seu Espírito, o Senhor estabelece conosco um encontro de vida plena,
ressuscitando-nos e tornando-nos plenos e definitivamente íntegros, sem condição mortal,
mas eternamente vivificados Nele.

O Espírito de Deus é o poder vivificador, no ser humano mortal. Sujeito da


ação, o que ressuscita, é claramente o próprio Deus. Deus, porém, não fica
no plano exterior em seu agir, mas age por meio de seu Espírito, que habita
em vós. O ressuscitamento por meio de Deus acontece como vivificação a
partir de dentro160.

158
QUEIRUGA, Andres Torres. Recuperar a Salvação. São Paulo: Paulus, 1999, p. 194.
159
FORTE, Bruno. Exercícios Espirituais no Vaticano. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 90.
160
NOCKE, Franz-Josef. Escatologia. In Manual de Dogmática II. Petrópolis: Vozes, 2000, p.385.
58

O nosso encontro com Cristo deve ser permanente, integral, decisivo e definitivo. É
esse encontro que nos dá a verdadeira vida. O limite da morte física se torna relativo quando
fazemos nossa opção por Cristo e estabelecemos, a partir do encontro pessoal com Ele,
vínculos de verdadeiro amor. “porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se
morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos,
pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 8).
Para João, a vida eterna já é agora, ou seja, Aquele que crê tem a vida eterna. Para
crer, é preciso fazer um encontro pessoal de fé com o Senhor. “Em verdade, em verdade, vos
digo: quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a
julgamento, mas passou da morte à vida” (Jo 5, 24).
Jesus é a glorificação de Deus. Quem ouve suas palavras e faz um encontro
definitivo com Ele tem a vida em plenitude. “Em Jesus a salvação está presente. Por isso o
encontro com ele significa o momento decisivo: rejeitá-lo (descrença) significa morte, aceitá-
lo (crer nele) significa vida eterna”161.
É no encontro de fé, no Senhor, que já alcançamos a salvação, porém a negação para
estabelecer esse encontro é que nos introduz ao juízo. “Quem nele crê não é julgado; quem
não crê, já está julgado” (Jo 3, 18). Na morte o nosso encontro com Cristo será o encontro de
nós verdadeiramente como somos diante do verdadeiro amor. “Sendo assim, o ser humano
encontra na morte aquele que durante sua vida na terra nunca condenou ninguém; pelo
contrário, chamava a si próprio de bom pastor. Aquele que segue suas ovelhas quando elas se
desgarram”162.
O encontro do homem com Deus é pleno e definitivo quando se está diante da morte,
pois o homem se vê a si mesmo, com suas mazelas e suas esperanças.

Diante da morte o cristão tem uma atitude essencialmente de confiança em


Deus, seu Pai. É ele que o chamará no final da vida. Ir ao Pai e entrar
finalmente, na sua paz, para experimentar plenamente seu amor, só pode nos
fazer esperar aquele dia com serenidade163.

161
Ibidem, p.386.
162
BLANK, Renold J. Escatologia da Pessoa. São Paulo: Paulus, 2000, p. 169.
163
HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana.
São Paulo: Paulus, 2002, p. 147.
59

No encontro com Jesus Cristo, nós já experimentamos a serenidade de suas palavras,


a expressão da sua vontade e a harmonia desse relacionamento pessoal com o Mestre. Esse
encontro também se dá no juízo; quando “todos os homens com seus corpos comparecerão
“diante do tribunal de Cristo” para prestar contas de suas ações, para que cada um receba o
que lhe toca segundo o que fez quando estava no corpo, seja de bem ou de mal (2 Cor 5,
10)”164.
Na vida, há sempre um recomeçar, um corrigir, uma meta a alcançar. Jesus quando
chama os discípulos, pede que estes deixem tudo e o sigam, porém diante das limitações
humanas do caminho é preciso parar, rever a atitude equivocada e prosseguir a caminhada. O
Senhor nos concede essa oportunidade, assim como concedeu a Pedro, Tomé e tantos outros.
Porém, “na morte o homem será aquilo que fez de si mesmo, e não há mais nenhuma
possibilidade de refazer algo. O homem se torna definitivo e também tudo aquilo que ele fez
se torna definitivo”165.
A realidade da morte causa um questionamento: o que acontece conosco quando
entramos na realidade da morte, na eternidade? Vamos ao encontro da presença de Deus. Mas
para que essa presença seja plena é preciso estar totalmente purificado, limpo de toda a culpa.
Por isso, precisamos de uma purificação que nos leve à santidade. O homem necessita dessa
santidade para poder estar plenamente com Deus. No encontro com Jesus Cristo, é preciso
que haja o arrependimento, mas também o desejo e o ato sincero de que a santidade irá ser
uma constante na nossa vida. A teologia vai chamar essa purificação em vista da santidade,
como critério para a vida eterna e feliz, de purgatório.

O purgatório é esse processo doloroso, como todos os processos de ascensão


e educação, no qual o homem, na morte, atualiza todas as suas
possibilidades, se purifica de todas as pragas com que a alienação
pecaminosa foi estigmatizando a vida, pela história do pecado e suas
conseqüências...166.

O purgatório é um estado de purificação que nos prepara para o encontro definitivo


com Deus, para que a sua presença não seja obscurecida por nenhuma sombra de pecado.

164
BENTO XII. Benedictos Deus. In Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral.
São Paulo: Paulinas, 2007, p.323.
165
BLANK, Renold J. Nossa vida tem futuro. São Paulo: Paulus, 1991, p. 117.
166
BOFF, Leonardo. Vida para além da morte. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 56.
60

Esse encontro com o Senhor permite-nos fazer a experiência de estar na presença de


Deus. Esse encontro é livre e decisivo, por isso, cada um de nós, na sua liberdade, pode
escolher romper esse encontro e se fechar a essa graça, concedida mediante o encontro com o
Senhor. Nesse caso, a morte o conduzirá àquilo que chamamos inferno. Esse estado infernal é
escolha do homem que não quis estabelecer um encontro pleno e definitivo de amor com
Deus e se fechou em si mesmo e no seu egoísmo. Rompeu todo e qualquer relacionamento
com Deus e negou-se definitivamente a abrir-se para Ele.
O inferno é o total desencontro, a total infelicidade e ausência de bem. É uma
realidade qual a qual temo a certeza de que “quando o homem se petrifica no seu mal e assim
morre, entra num estado definitivo de absoluta frustração de sua existência”167.
Contudo, para o discípulo fiel e prudente que souber reconhecer no seu Mestre o seu
verdadeiro rosto, ou seja, o rosto misericordioso do Pai, para este, a porta se abrirá. O
discípulo missionário de Jesus Cristo é aquele que deseja estar com o Mestre em qualquer
situação da realidade. É no encontro com Jesus Cristo que nós no sentimos inseridos no seu
corpo, portanto, fazemos parte dele e nos configuramos cada vez mais a ele. A porta aberta
será uma consequência de nosso seguimento.

A morte é a porta que, finalmente, se abrirá e do outro lado dela


encontraremos o Pai, que nos receberá com um grande abraço de amor e
misericórdia, o abraço da imortalidade. Enfim, estaremos com o Pai face a
face e ele nos amará além de toda medida168.

O nosso encontro com Deus é eterno, definitivo, pleno. Sua presença nos impulsiona
a viver o seu verdadeiro amor. Um amor sem medida. Essa abertura e essa disposição nos
conduzem ao encontro de sua presença eterna, que denominamos céu. Esse encontro, pleno e
definitivo com o Senhor, constitui a verdadeira vocação do homem e seu mistério mais
profundo. Seremos de tal forma inseridos no mistério do próprio Deus. E nossa história será
uma articulação da própria história divina.

167
Ibidem, p. 89.
168
HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana.
São Paulo: Paulus, 2002, p. 147.
61

CAPÍTULO III
IGREJA: COMUNIDADE QUE VIVE E PREGA O ENCONTRO COM
JESUS CRISTO

A missão de Cristo não se finda com a sua volta para o Pai. Ele permanece junto
daqueles que, tendo feito um encontro pessoal com Ele, vão dar continuidade à sua obra a
partir da experiência de sua ressurreição. Assim, nasce a Igreja, a comunidade daqueles que
fizeram seu encontro pessoal com o Senhor mediante a sua ressurreição e agora serão
testemunhas vivas da ressurreição no mundo.
No encontro com Jesus Cristo e após a sua ressurreição é que os apóstolos vão
tornar-se testemunhas vivas do seu mestre, mediante o seguimento, o ardor missionário, a
pregação incisiva e até o testemunho do martírio. Isso faz com que os seguidores de Jesus de
Nazaré sejam os sinais da sua presença salvífica e libertadora e levem outros a fazer também
seu encontro pessoal com Cristo, a partir desse mesmo anúncio.
Jesus Cristo esteve em nosso meio fazendo o bem, pregando e anunciando a Palavra
de vida e salvação. Agora, por meio da Igreja, fazem-se presente pelos sacramentos, pela
Palavra, pelo testemunho dos discípulos, membros do novo povo de Deus por Ele fundado.

Para cumprir a vontade do Pai, Cristo inaugurou, na terra, o Reino dos Céus,
revelou-nos seu mistério e por sua obediência realizou a redenção. A Igreja,
ou seja o Reino de Cristo já presente em mistério, pelo poder de Deus cresce
visivelmente no mundo169.

A Igreja nasce do desejo de Cristo de inaugurar, neste mundo, o Reino de Deus,


mesmo que a plenitude desse Reino ultrapasse os limites da história. A Igreja é o sinal visível
desse Reino. Deus fez-se presente, neste mundo, através da história dos homens e, em Jesus
Cristo e em seu Espírito, torna-se presente de modo pleno e definitivo.
Cristo quis estabelecer conosco um relacionamento de amor pessoal e comunitário.
Na encarnação, ele fez-se homem justamente para que nós, homens, pudéssemos participar
desse relacionamento com ele.

169
LG 3.
62

A Igreja começou a se construir quando alguns pescadores da Galileia


encontraram Jesus, e se deixaram conquistar por seu olhar, sua voz e por um
convite caloroso e forte: “Vinde comigo e farei de vós pescadores de
homens” (Mc 1, 17; Mt 4, 19)170.

3.1 O encontro com a Igreja: Sacramento de Cristo

Há uma afirmação do Concílio que muito nos ajuda a compreender a realidade da


Igreja como sacramento universal de salvação em dois âmbitos: cristológico-eclesiológico e
escatológico: “Cristo, levantando da terra, atraiu todos a si. Ressurgindo dos mortos, enviou
aos discípulos o seu vivificante Espírito, e por Ele, constituiu seu corpo, que é a Igreja, como
sacramento universal de salvação”171. Dentro destes dois âmbitos vemos que: O primeiro,
porque Cristo é o autor da salvação, o princípio da unidade e da paz. O segundo, porque é o
sacramento dessa unidade salvífica. “A Igreja, é em Cristo, o sacramento, quer dizer, sinal e
instrumento da união com Deus e da unidade do gênero humano”172.
Cristo age, na Igreja, e assim o faz pela ação do Espírito que age da mesma forma
que o Verbo encarnado por meio da natureza humana. Cristo é o sacramento do Pai e a Igreja
é o sacramento de Cristo. Ao estabelecermos um encontro com a Igreja, nós o estabelecemos
com o próprio Cristo que vive na sua Igreja, e que nela faz-se presente a todo o momento. A
Igreja é sacramento de Cristo também numa perspectiva escatológica:

“Com efeito, o Reino de Deus se manifesta, nas palavras, nas obras, e


sobretudo na presença pessoal de Cristo. É por isso que a Igreja sendo o
“Reino de Cristo já presente em mistério” (LG 3), representa o germe e o
início deste Reino na terra” (LG 5), e é “este povo messiânico que, embora
não abranja todos os homens e por vezes apareça como pequeno rebanho, é
para todo o gênero humano germe firmíssimo de unidade, esperança e
salvação” (LG 9)”173.

A Igreja é sacramento de salvação porque ela é a mediação visível da graça salvífica


invisível de Deus. Nela, torna-se visível a salvação em Cristo para toda a humanidade. Onde
170
KLOPPENBURG, Boaventura. Mistagogias de Bento XVI sobre a Igreja. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 25.
171
LG 48.
172
LG 1.
173
PIÉ-NOT, Salvador. Introdução à Eclesiologia. São Paulo: Loyola, 2002, p. 29.
63

está a Igreja, está também a salvação, que constitui a comunhão entre Deus e os homens,
conduzindo-os à libertação total, estabelecendo um encontro de salvação, um encontro perene
de santificação.

Como o Pai pelo Filho vem ao ser humano, no Espírito, assim o ser humano,
no Espírito, pelo Filho, pode agora ter acesso ao Pai: o movimento de
descida consente um movimento de subida, num circuito de unidade, cuja
face eterna é a Trindade, cuja face temporal é a Igreja174.

A Igreja é sacramento de salvação porque faz os homens perceberem o plano divino


de salvação e do amor por meio da pregação, do testemunho e dos sacramentos. Ela é a
expressão da comunhão trinitária, pois nela subsiste a presença de Cristo e de seu amor, sua
vontade e sua missão. Nela, se expressa a radicalidade do amor de Deus, vivido, na
diversidade das pessoas, numa única e plena comunhão de vida. Por isso, a Igreja é expressão
do amor trinitário.

Tudo na Igreja vem do amor do Deus três vezes Santo: o coração pulsante da
Igreja é o ‘agape’, o amor que vem do alto e tende a voltar para o alto. O
‘agape’ é a regra de vida dos discípulos de Jesus, que por força de sua
revelação acreditam no amor infinito do Pai. A Igreja vive do dinamismo
fundamental de deixar-se amar pelo Pai, por Cristo, no Espírito, a fim de
amar o Pai, por Cristo e no mesmo Espírito175.

A Igreja é expressão do amor de comunhão de Cristo com a humanidade. No


encontro com a Igreja, nós conhecemos o amor. Os discípulos de Jesus Cristo só podem
permanecer, no amor, se estiverem edificados sobre o fundamento essencial da vida Igreja: a
comunhão com Cristo-cabeça e todo o seu corpo. “A Igreja, como “comunidade de amor”, é
chamada a refletir a glória do amor de Deus, que é comunhão, e assim atrair as pessoas e os
povos para Cristo “176.
A Igreja nos atrai para Cristo, enquanto manifestação do seu corpo místico, edificada
e sustentada pelos apóstolos que seguiram o Senhor e se deixaram conduzir por Ele.

174
ALMEIDA, Antônio José de. Sois um em Cristo Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 37.
175
FORTE, Bruno. Exercícios Espirituais no Vaticano: Seguindo a ti, Luz da Vida. Petrópolis: Vozes, 2005, p.
120.
176
DA 159.
64

A Igreja é sacramento porque ela realiza de forma pública e oficial o plano


de comunhão que Deus quer para toda a humanidade... É mistério na medida
em que nela se celebram os mistérios de nossa salvação que se realizam
litúrgica e sacramentalmente na vida dos fiéis. É mistério pela união que nela
se verifica entre o histórico-social e o espiritual divino177.

A sacramentalidade da Igreja se expressa em sua realidade complexa constituída, ao


mesmo tempo, pelo elemento divino e humano, visível e invisível. A Igreja, pela sua
dimensão histórica e atuante no mundo e pela sua dimensão transcendente e divina, torna-se
sinal da presença de Cristo Salvador. Portanto, todos os que buscam esse encontro permanente
com a Igreja estão em união com Cristo. “Como sacramento, a Igreja é instrumento de Cristo,
pelo qual Cristo manifesta e atualiza o amor de Deus pelos homens”178.
Tal sacramentalidade realiza-se enquanto a Igreja é comunhão, Povo de Deus, Corpo
Místico de Cristo e Templo do Espírito Santo. A Igreja é comunhão porque realiza a
comunhão da humanidade com Cristo e realiza a comunhão entre os fiéis. “A Igreja ‘atrai’
quando vive em comunhão, pois os discípulos de Jesus serão reconhecidos se amarem uns aos
outros como Ele nos amou (cf. Rm 12, 4-13; Jo 13,34)”179. Esta é a Igreja de Jesus Cristo,
uma comunidade reunida no amor. É por isso que no discipulado se torna cada vez mais
exigente o encontro com a pessoa de Jesus Cristo que forma a comunidade de seguidores a
amar verdadeiramente. “A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a
comunhão reveste essencialmente a forma de comunhão missionária”180.
A Igreja é ícone da Trindade, por isso ela tem como exemplo a vida de comunhão
trinitária. Na Igreja, deve reinar o amor a comunhão profunda e sincera. Nela deve habitar a
comunhão e todos devem aprender a partir dela a viver essa comunhão. A Igreja é ‘casa e
escola de comunhão’, onde os discípulos compartilham a mesma fé, esperança e amor a
serviço da missão evangelizadora”181.
A Igreja é também Povo de Deus, pois foi destinada por Deus desde o Antigo
Testamento como povo escolhido a fim de ser luz das nações. A Igreja foi escolhida por Deus
e ela também escolheu Deus para ser o fundamento de sua caminhada na Terra.

177
BOFF, Leonardo. E a Igreja se fez povo. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 31.
178
CEC 776.
179
DA 159.
180
FRANCISCO. Evangelii Gaudium. Exortação Apostólica, 2013. São Paulo: Paulinas, 2013, 23.
181
DA 158
65

Este povo, feito de muitos povos, permanecerá eternamente porque habitará


com Deus no novo céu e na nova terra. Esse povo é o portador de todos os
mistérios divinos, construindo-se ele mesmo num grande mistério-
sacramento no meio dos povos, quer dizer, um sinal e uma interrogação para
todos acerca do destino transcendente da caminhada humana rumo ao futuro
que é Deus e seu Reino182.

Na Igreja, nós encontramos Jesus, somos por ele atraídos e recebemos dele a graça
para nossa caminhada até a plenitude. Somos povo que Deus escolheu e abençoou.
Sacramento de salvação, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo. A imagem do corpo é
para mostrar a realidade da diversidade dos membros e das funções, e da unidade de todos em
vista do bem comum. “Com efeito, o corpo é um e, não obstante tenha muitos membros, todos
os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo. Assim também acontece
com Cristo. Pois fomos todos batizados num só Espírito para sermos um só corpo...” (1 Cor
13, 12-13).
A imagem do Corpo mostra-nos a Igreja como unidade na diversidade. Cristo é o que
dá origem à unidade, Ele é a cabeça da Igreja. Por isso, no encontro com Jesus Cristo,
encontramos a Igreja e, na Igreja, encontramos Jesus e do seu corpo participamos como
membros vivos e atuantes. Por isso, “a Igreja cresce, não por proselitismo, mas por atração:
como Cristo ‘atrai tudo para si’ com a força do seu amor” 183.

É Cristo, mediante o Espírito, quem sustenta a Igreja concedendo os dons e


os carismas para todo o corpo, ou seja, para todos os seus membros.
Ademais, o Ressuscitado está presente de forma real, embora misteriosa, na
massa humana, na história que caminha na direção do Eschaton (fim bom da
criação) e, de forma toda particular, naquela porção da humanidade que o
acolhe em sua vida, chamada Igreja. Nesse sentido, a Igreja pode,
figurativamente, ser chamada de Corpo de Cristo184.

A Igreja será cada vez mais imagem deste Corpo de Cristo, na medida em que viver a
cada dia este encontro pessoal com Ele sentir-se atraída por Ele e ser sinal da presença do
182
BOFF, Leonardo. E a Igreja se fez povo. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 33.
183
DA 159.
184
BOFF, Leonardo. op. cit, Petrópolis, 1991, p. 33.
66

Mestre no mundo. “A Igreja atrai quando vive em comunhão, pois os discípulos de Jesus
serão reconhecidos se amarem-se uns aos outros como Ele nos amou (Rm 12, 4-13; Jo 13,
34)”185.
Podemos afirmar que a Igreja é sacramento de salvação quando concretiza entre os
homens o plano libertador de Deus. Diante das injustiças da nossa sociedade desigual onde
milhares de pessoas morrem de fome, de falta de atenção para com suas doenças e de tantas
situações de total aberração contra o ser humano, a Igreja é sinal da presença salvífica de
Deus, exercendo a sua função profética de denunciar tantas injustiças.
A Igreja é sinal de Deus quando, na atitude concreta de cada cristão, faz a sua parte,
promovendo a partilha e a solidariedade. “Na prática, a vivência cristã é, eminentemente, uma
vivência de Igreja. É, na Igreja, que nós nos tornamos cristão e resolvemos seguir a Jesus”186.
O verdadeiro cristão é aquele que está inserido em Cristo, fez um encontro pessoal
com Ele e vive a prática do amor e da justiça para com todos. Essa prática concretiza-se, na
verdadeira evangelização, que é a expressão visível da presença da Igreja no mundo. “Existe,
portanto, uma ligação profunda entre Cristo, a Igreja e a evangelização. Durante este “tempo
da Igreja” é ela que tem a tarefa de evangelizar. E essa tarefa não se realiza sem ela e, menos
ainda, contra ela”187.
É o Espírito quem dá vida, alma, ou seja, ânimo, sustento para todo o Corpo de
Cristo. O encontro com a Igreja leva-nos ao encontro com Jesus Cristo, no Espírito Santo,
para nosso sustento e ardor. “O que é o nosso espírito, isto é, a nossa alma em relação a
nossos membros, assim é o Espírito Santo em relação aos membros de Cristo, ao Corpo de
Cristo que é a Igreja”188.
Contudo, Cristo nos envia o Espírito Santo de junto do Pai e concretiza a unidade de
cada Igreja local com todas as outras na única Igreja Católica. “O povo de Deus se constrói
como comunhão de Igrejas particulares, e através delas como intercâmbio entre as
culturas”189.
É a comunhão universal das Igrejas geradas pela mesma Palavra, pelo mesmo Pão e
pelo mesmo Espírito. Por isso, cada Igreja particular se reconhece a si mesma em cada uma

185
DA 160.
186
GALILEA, Segundo. Discípulos de Cristo. São Paulo: Paulus, 1996, p. 91.
187
EN 16.
188
CEC 797.
189
DA 182.
67

das outras Igrejas, ao redor da Eucaristia presidida pelo bispo, participando assim da unidade
no Corpo de Cristo a fim de reconciliar o mundo.

3.2 Os sacramentos: lugar eficaz do Encontro com Jesus Cristo

A presença de Cristo na nossa vida pode ser percebida e sentida a partir da realidade
sacramental da Igreja. A Igreja nasce dos sacramentos e é edificada por eles. Desde o início
do Cristianismo, a Igreja já se fortalecia nos sacramentos. A imagem da água e do sangue que
jorraram do lado aberto de Jesus foi interpretada pela Tradição como o Batismo e a Eucaristia;
mediante estes sacramentos, nasceu a Igreja.

Os sacramentos pertencem a esse mistério (de Cristo e da Igreja) e eles


próprios constituem a atualização e transmissão, feita a todo homem que crê,
do mistério pascal único realizado por Cristo e difundido no espaço e no
tempo pela Igreja, seu corpo e plenitude190.

Em Jesus, a nossa humanidade pode encontrar-se com Deus, pois, ao assumir nossa
carne mortal, Ele deu-nos a possibilidade de experimentar a divindade. Porque Jesus é o Filho
de Deus, o encontro com Ele é o encontro sacramental com o próprio Deus. “Cristo é o
Sacramento fundamental do encontro com o Deus invisível na humanidade visível”191.
Os sacramentos são atos de Cristo e da Igreja. A Igreja age na pessoa de Cristo,
santificando o mundo através da ação sacramental. Nos sacramentos, encontramos a Cristo
glorificado, sua ação e presença atuante. Por meio dos sacramentos, “os discípulos de Cristo
penetram mais, nos mistérios do Reino e expressam de modo sacramental sua vocação de
discípulos e missionários”192.
Os sacramentos são inseparáveis da Igreja e sua ação. Por isso, tornam-se expressão
de uma realidade invisível, ou seja, os frutos da salvação concedida por Cristo. Os
sacramentos realizam a ação de Cristo, no mundo, por meio da Igreja e sustentam a comunhão
da comunidade eclesial.
A incorporação a Cristo e à Igreja desde os primórdios dá-se pelo batismo. O fator de
comunhão eclesial, para a Igreja primitiva, era a admissão e participação na comunhão
190
ROCCHETTA, Carlo. Os sacramentos da fé. São Paulo: Paulinas, 1991, p. 166.
191
Ibidem, p. 168.
192
DA 117.
68

eucarística, de modo que tal incorporação se plenificasse na Eucaristia. Esses dois


sacramentos estão intimamente ligados, pois realizam a comunhão entre Deus e o homem e
entre Deus e a Igreja. Ambos são lugares eficazes de encontro com Cristo e com a Igreja. Esse
encontro gera a incorporação no corpo de Cristo e, logo, a unidade.

Os fiéis pelo batismo foram incorporados a Cristo, constituídos no povo de


Deus e a seu modo feitos partícipes do múnus sacerdotal, profético e régio
de Cristo, pelo que exercem sua parte na missão de todo o povo cristão na
Igreja e no mundo193.

Portanto, ao estabelecer um encontro com Cristo pelo batismo, o cristão é chamado a


participar também de sua missão. É incorporado à Igreja e participa da sua missão de ser
presença de salvação na história do homem e do mundo. O discípulo missionário do Senhor
encontra Cristo, no sacramento, e vive a sua missão com um novo ânimo.
Nos sacramentos da Igreja, instituídos por Cristo, demonstra-se a bondade de Deus,
que não abandona seu povo, mas realiza na vida de todos, em determinado momento e
situações, transformações de vida e salvação. Os sacramentos são inseridos na vida humana
desde o nascer até a morte, manifestando-se nos momentos decisivos da vida.
Deus é presença constante na nossa vida, e nós podemos nos encontrar cada vez mais
Nele se deixarmos a sua presença agir em nós, plenificando-nos, salvando-nos, restaurando-
nos, e conduzindo-nos à comunhão perfeita que nos introduz na vida eterna.
O primeiro momento importante da nossa vida é quando somos gerados. Ao receber
o dom da vida como gratuidade de Deus, nascemos dependentes de tudo e, por que não dizer,
de Deus, de sua presença salvadora e de sua bondade, bem como das pessoas que estão ao
nosso redor? O sacramento do batismo nos insere na vida de Cristo; é o primeiro encontro de
vida e plenitude em Deus. “Desdobra esta dependência como dependência de Deus e a
sublima como participação na vida de Cristo”194.
Com o batismo, nascemos para a vida em Cristo. Nascemos para a vida e para o
mundo, para Deus e para a Igreja. No batismo inicia-se, sacramentalmente, nosso encontro
com Cristo. Um encontro que marcará nossa história e que nos impulsionará a buscá-lo cada
vez mais na sua eficácia.

193
LG 31.
194
BOFF, Leonardo. Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 56.
69

Momento importante da vida é quando começamos nosso amadurecimento; nossas


decisões começam a serem tomadas, nossa liberdade passa a ser desenvolvida e nossas opções
começam a ser feitas. Com a adolescência, começamos a obter todas essas atitudes e vamos
estabelecendo novos rumos para a vida e nos inserindo na sociedade. Nesse momento, é
necessário que o sacramento enriqueça e amadureça uma consciência reta e saudável. “O
sacramento da Confirmação é o sacramento da madureza cristã. Explica a dimensão de Deus
presente neste eixo existencial”195.
Deus está presente, nos momentos de decisão de opção, de discernimento e de
crescimento. Isso também, na realidade cristã, pois o cristão, ao assumir sua postura diante da
sociedade, assume ser sal e luz, na vida da Igreja, testemunhando o evangelho de Cristo. O
sacramento da Crisma plenifica a graça do Espírito Santo, que capacita, encoraja e conduz o
cristão à missão, vinculando o batizado ao compromisso e à responsabilidade frente à missão
da Igreja. É lugar eficaz do encontro com Cristo, pois concretiza sua missão e é assumido o
compromisso de ser sinal sacramental de sua presença no mundo.
O homem faz seu encontro com Cristo e com o outro também na refeição. A refeição
é momento propício de encontro e de conhecimento do outro. Por isso, “a Eucaristia desdobra
o sentido latente do comer como partição da própria vida divina”196.
O matrimônio é também lugar eficaz do encontro com Cristo que é amor e que amou
como um esposo sua Igreja. O matrimônio é o encontro entre o homem e a mulher que
desejam se realizar numa vida de entrega e de amor. É momento de constituir uma nova
família, um relacionamento aberto ao amor e à gratuidade. Mas os laços que unem o homem e
a mulher são frágeis. É necessário que juntos eles encontrem a Cristo mediante a força do seu
sacramento que se realiza, na comunhão, e garante a presença de Deus, na vida daqueles que
se unem no amor. “Como outrora Deus tomou a iniciativa do pacto de amor e fidelidade com
seu povo, assim agora o salvador e esposo da Igreja vem ao encontro dos cônjuges cristãos
pelo sacramento do matrimônio”197.
Porém, alguns homens renunciam ao matrimônio em vista de uma entrega radical ao
serviço do evangelho. Decidem-se consagrar-se definitivamente à missão, tornando discípulos
próximos de Jesus Cristo e pastores da Igreja por encargo do próprio Cristo. Outros, ainda,

195
Ibidem, p. 57.
196
Ibidem, p. 57.
197
GS 48.
70

consagram-se, na vida religiosa, de modo que sua vocação batismal seja o grande referencial
para alcançar a santidade, vivendo os conselhos evangélicos de maneira radical.
O sacramento da ordem realiza essa consagração unindo o fiel a Cristo e à Igreja,
tornando-se aquele que serve em nome de Cristo e da Igreja. O ministro ordenado age na
pessoa de Cristo e da Igreja. É o encontro com Cristo e sua consagração. “O sacerdócio
ministerial se insere em continuidade como mistério de Cristo, em continuidade com o
mistério de sua encarnação, e é em si mesmo, inseparavelmente, relação com Cristo e relação
com a Igreja, corpo de Cristo”198.
Existe, porém, na vida de todo ser humano a fragilidade, a doença, a ameaça à vida
humana, a dependência. É necessário que, nessas ocasiões, sintamos a presença de Deus e o
encontro de Cristo com nossas dores. “O sacramento da Unção dos Enfermos expressa o
poder salvífico de Deus”199. Deus vem ao encontro do homem também na dor e no
sofrimento. Ele fortalece, consola, restaura, cura e nos prepara para o encontro pleno e
definitivo com Cristo. O sofrimento nos redime e nos une à paixão redentora de Cristo.
“Desse modo, o sacramento é a preparação para a vitória definitiva sobre o mal e a morte, que
completará a assimilação a Cristo iniciada com o batismo”200.
A experiência do pecado gera a morte e a ruptura com Deus. Ao negar a Deus, o
homem se perde e, sem sentido, busca compensações desordenadas e até mesmo a morte
eterna. Mas sempre há a possibilidade do retorno. Por isso, no Sacramento da Reconciliação,
o homem encontra com Jesus Cristo e com sua misericórdia que é sem limites. O sacramento
expressa a experiência do perdão e da reconciliação com Deus, com a Igreja, com os irmãos e
consigo mesmo.

A Igreja é o sacramento fundamental desta palavra indulgente de Deus. Essa


palavra única do perdão que é a Igreja e que nela permanece como presença
viva cheia de poder e eficácia, articula-se de várias maneiras em
correspondência à natureza do homem201.

Portanto, a oportunidade do encontro com Jesus Cristo se dá durante toda a vida, de


diversas formas e diferentes maneiras. Encontramos Jesus Cristo nos sacramentos,

198
ROCCHETTA, Carlo. op. cit., São Paulo: Paulinas, 1991, p. 397.
199
BOFF, Leonardo. Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 57.
200
ROCCHETTA, Carlo. op. cit., São Paulo: Paulinas, 1991, p. 373.
201
RAHNER, Karl. op.cit., São Paulo: Paulus, 1989, p. 488.
71

encontramos na Igreja que administra esses sinais sensíveis da graça de Cristo. “Os
sacramentos são inseparavelmente palavra e evento: indicam o que realizam e realizam o que
indicam”202.

3.3 Eucaristia: lugar privilegiado do Encontro com Jesus Cristo

Jesus faz-se presente, na vida humana de diversas formas e maneiras. Como vimos
em capítulos anteriores, Ele vem ao nosso encontro e nós estabelecemos um encontro com Ele
de diversas maneiras no decorrer da vida e da história.
Não há dúvidas de que a realidade central do sacramento é o batismo. Mas sabemos
da importância que se têm para a comunidade dos discípulos de Jesus a sólida vida de
comunhão com o Mestre na Eucaristia. “A Eucaristia é o lugar privilegiado do encontro do
discípulo com Jesus Cristo. Com esse sacramento, Jesus nos atrai para si e nos faz entrar em
dinamismo em relação a Deus e ao próximo”203.
Todos os sacramentos são lugares de encontro com Jesus Cristo. Neles,
experimentamos a presença do Senhor e sua ação salvífica. Entre eles, a Eucaristia é o
sacramento por excelência, O meio excelente da presença de Cristo na vida da Igreja. “A
Santíssima Eucaristia contém todo o Bem Espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa
Páscoa”204.
Desde a Igreja primitiva, reconhece-se a presença do Senhor na fração do pão da
comunidade (At 2, 42). É uma presença velada, que, porém, suscita na vida da comunidade o
desejo da vinda do Senhor (Maranatha), pois traz a promessa da plenitude. A fórmula da
consagração, palavras do próprio Cristo, demonstra o caráter pessoal da presença do Cristo
ressuscitado: Isto é o meu corpo. O corpo, na linguagem semita, exprime presença, pois é
idêntico à pessoa. Jesus está presente no sacramento da Eucaristia, culminando assim o seu
grande desejo de permanecer com os seus até a consumação dos séculos (cf. Mt 28, 20).
A presença de Jesus, na Eucaristia, é sacrifical, ou seja, é presença e sacrifício, pois é
o sacramento que realiza o memorial do sacrifício redentor de Cristo, atualizando-o e

202
ROCCHETTA, Carlo. Os sacramentos da fé, São Paulo: Paulinas, 1991, p. 189.
203
DA 251.
204
CEC 1324.
72

tornando-o presente. “A última ceia de Jesus apresenta-se de modo evidente como


antecipação misteriosa, mas real do drama de sua morte sacrifical na cruz”205.
A Eucaristia é também banquete. “Este aspecto exprime bem a relação de comunhão
que Deus quis estabelecer conosco e que nós mesmos devemos desenvolver
mutuamente”206.Cristo quis estabelecer uma convivência fraterna com cada um de nós e
desejou que participássemos da sua vida como verdadeiros irmãos, membros de uma única
família
A presença de Cristo na Igreja dá-se mediante o mistério pascal, o sacrifício único de
Cristo que, em sua memória, sacramentalmente, é feito na Igreja e pela Igreja. Portanto, na
Eucaristia, Cristo doa-se inteiramente em vista da nossa salvação, a fim de restaurar a
comunhão entre Deus e os homens que se deixaram guiar pelo pecado. O sacrifício de Cristo é
a maior prova de seu amor para conosco. Na Eucaristia, celebra-se o sacramento pascal que
nos garante a presença de Cristo que se entrega por nós em vista da salvação.
A Eucaristia é o sacramento da presença de Cristo, pois não é somente o mistério
pascal que se faz presente, mas a própria fonte de salvação: Jesus Cristo. “Quando a Igreja
celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, esse acontecimento
central da salvação torna-se realmente presente e realiza-se também a obra da nossa
redenção”207.
Na Eucaristia, Cristo está por inteiro, nas substâncias do pão e do vinho. É a pessoa
inteira de Jesus totalmente presente. A doutrina distingue o plano litúrgico do sinal do plano
dogmático ontológico. No plano litúrgico do sinal, Cristo está presente de forma separada, no
pão e no vinho consagrados, que fazem memória da sua paixão, morte e ressurreição. No
plano dogmático ontológico, “o Senhor é sempre o ressuscitado e vivo e sempre está presente
na plenitude de seu ser pessoal”208. No corpo do Senhor, está o Cristo vivo e ressuscitado. O
corpo e o sangue do Senhor estão inseridos, na nossa história, na nossa vida. Portanto, no
encontro com a Eucaristia, encontramos Jesus e nos alimentamos Dele.
Por isso, o sacramento da Eucaristia é celebrado enquanto ceia do Senhor. O corpo e
o sangue do Senhor tornam-se comida e bebida. “Pois, minha carne é verdadeiramente comida
e o meu sangue é verdadeiramente bebida” (Jo 6, 55). No encontro com a Eucaristia, nós
somos inseridos numa ceia, ou seja, no comer e no beber, na comunhão plena com o Senhor

205
ROCCHETTA, Carlo. op. cit. São Paulo: Paulinas, 1991, p. 297.
206
JOÃO PAULO II. Mane nobiscum domine. Carta Apostólica, 2004. São Paulo: Paulinas, 2004, 15.
207
JOÃO PAULO II. Ecclesia de Eucharistia. Carta Encíclica, 2003. São Paulo: Paulinas, 2003, 11.
208
ZILLES, Urbano. Os sacramentos da Igreja Católica. Porto Alegre: Edipucrus, 2001, p. 258.
73

ressuscitado e passamos a permanecer com ele num relacionamento pessoal de vida e destino.
“Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56). A
presença sacramental do Senhor é permanente e constante na vida de quem o recebe. A
comunhão é plena. O fiel que a recebe torna-se cristificado, divinizado. É inserido na vida do
Senhor que o envia a ser no mundo sinal da presença do Cristo, da salvação no mundo inteiro.

A Eucaristia, como o sacramento da presença mais radical e mais real do seu


Senhor nesta celebração sob a figura do banquete festivo, é também a
realização suprema da natureza da própria Igreja, porque esta não é nem quer
ser senão a presença de Cristo no espaço e no tempo209.

A Eucaristia é o alimento do discípulo missionário de Jesus Cristo. Somente ela é


capaz de saciar a fome de vida e de felicidade. Ela fomenta a vida de comunhão com o Senhor
e com o próximo. Ela é sustento da caminhada pastoral dos discípulos missionários de hoje.
“Todas as comunidades e grupos eclesiais darão fruto na medida em que a Eucaristia for o
centro de sua vida”210.
A Eucaristia torna-nos membros do único Corpo de Cristo, do qual nós
comungamos, participamos (1 Cor 10, 17). Nela, experimentamos a vida eterna, a alegria
duradoura, a presença constante do Senhor. Nosso dia a dia torna-se uma missa prolongada,
ou seja, a ação do Senhor manifesta-se, nos nossos comportamentos, nas ações, nas atitudes.
Ela é o alimento do caminho daqueles que fizeram seu encontro e desejam permanecer com
Ele, experimentar sua presença, ouvir seus ensinamentos e viver sua forma de vida. O
discípulo segue o Mestre e passa a ser testemunha viva daquele que o chamou. “Nesse
sentido, quem introduz, nos mistérios, é primeiramente a testemunha; depois, esse encontro
aprofunda-se, sem dúvida, na catequese e encontra sua fonte e ápice na celebração da
Eucaristia”211.
Para o discípulo de Jesus era certo de que suas palavras permaneceriam em seus
corações vivamente e assim a missão seria cumprida e assumida. Porém, Cristo desejo
permanecer não só na convicção, mas também na comunidade dos discípulos. Sua presença
seria constante e eficaz, por isso instituiu a Eucaristia. É no sacramento do seu corpo e do seu

209
RAHNER, Karl. op. cit. São Paulo: Paulus, 1989, p. 493.
210
DA 180.
211
BENTO XVI. Sacramentum Caritatis. Exortação Apostólica pós-sinodal. 2007. São Paulo: Paulinas, 2007,
64.
74

sangue que ele estabelece uma aliança nova e definitiva com seus discípulos e com a
humanidade inteira.
É altamente conveniente que Cristo tenha querido ficar presente à sua Igreja
desta maneira singular. Visto que estava para deixar os seus na sua forma
visível, Cristo quis dar-nos a sua presença sacramental; já que ia oferecer-se
na cruz para nos salvar, queria que tivéssemos o memorial do amor com o
qual nos amou até o fim (Jo 13,1), até ao dom da sua vida212.

O encontro com Jesus Cristo, na Eucaristia, invade o coração humano do desejo de


viver a vida divina e transbordá-la para o mundo inteiro. Na Eucaristia, encontramos Jesus, a
Igreja e a salvação. “Assim, a Eucaristia não se separa da vida. Toda a vida humana, toda a
história, inclusive a cósmica, fica assim incorporada ao sacrifício pascal de Cristo”213.

3.4 O Encontro com Jesus Cristo nos pobres: missão da Igreja discípula missionária

Jesus é o sinal libertador de Deus. Enviado pelo Pai e ungido pelo Espírito, ele vem
instaurar o Reino de Deus, reino de amor e de vida. Esse reino é pregado por Jesus por meio
de suas palavras e atos. A vida de Cristo é um referencial do Reino.
A partir dos evangelhos, vemos claramente a opção de Jesus pelos pobres e
pecadores. O Jesus histórico não é imparcial. Ele assume a causa dos oprimidos para
devolver-lhes a esperança da luta e da conquista que o Reino veio trazer. Com sua opção,
Jesus mostra radicalmente que a verdadeira prática da religião não é o culto, a lei ou o
sacrifício, mas a prática da justiça e da solidariedade para com aquele que mais necessita.
Jesus fez-se pobre, assumindo nossa pobreza e nossa pequenez, a fim de que
pudéssemos participar da sua vida e assim restituir nossa dignidade (Fl 2, 7).
É certo que “Jesus Cristo, existindo na condição divina, não ficou esperando que o
ser humano dele se aproximasse; ele tomou a iniciativa de vir ao nosso encontro, tornando-se
um dos nossos, um homem entre os homens e um homem servidor”214.
O Senhor veio ao nosso encontro e fez-se pobre por causa de nós, a fim de que
fôssemos enriquecidos mediante sua pobreza (cf. 2 Cor 8,9). Por isso, podemos afirmar que,

212
CEC 1380.
213
ALDAZÁBAL, José. A Eucaristia. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 375.
214
RUBIO, Alfonso Garcia. O Encontro com Jesus Cristo Vivo: Um ensaio de cristologia para nossos dias. São
Paulo: Vozes, 2007, p. 181.
75

na pobreza, nós encontramos o Senhor, e que, no pobre, reconhecemos a nossa verdadeira


missão.
Essa atitude de Jesus também deve ser a atitude de todos aqueles que decidem segui-
lo, ou seja, a permanecer com Ele. A atitude de Jesus é a atitude do serviço e esse serviço de
amor ele ofereceu aos seus discípulos (Mc 10,35-45; Jo 13, 12-17) e oferece a cada um de nós
que queremos estabelecer um encontro vivo e permanente com Ele. “Claro está que, se Jesus
assumisse um messianismo de dominação, estaria traindo a revelação desse Deus”215. Pois, se
Deus se revelou aos pobres que estavam desiludidos e sem mais esperança de encontrarem
uma terra para se viver. Mas Deus lhes dá uma terra, um sustento.
Portanto, Jesus Cristo ensinou-nos que o desprendimento, o sair de si próprio para ir
ao encontro do outro que necessita, a fim de ajudá-lo, é a maior expressão de amor e de
doação. Nisso, podemos ter a certeza de que o amor de Deus e o amor ao próximo não são
dissociados, mas constituem um único mandamento. No encontro com Jesus Cristo, é que
descobrimos esse verdadeiro amor. “No desenrolar desse encontro, revela-se, com clareza,
que o amor não é um sentimento apenas. Os sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser
uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor”216.
Portanto, o verdadeiro amor deixado por Cristo é aquele que está encarnado na vida
da humanidade e que nos integra verdadeiramente como homens de bem e comprometidos
com o outro.
O próprio Jesus quis identificar-se com os pobres. Ele assumiu o rosto sofrido e
excluído da humanidade. “Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um
desses mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25, 45). Jesus concretamente
ensina por meio de sua palavra e de sua vida a forma de amar concretamente os pobres deste
mundo.

Jesus nasce pobre entre os pobres, num estábulo de animais, e as primeiras


testemunhas do evento são gente simples do povo, isto é, pastores. Era um
primeiro sinal da missão e da mensagem futura de Jesus. Ele seria uma boa
notícia primeiro para os pobres, os pequenos, os fracos, os que não tinham
honra nem força na sociedade humana217.

215
Ibidem,p. 182.
216
BENTO XVI. Deus caritas est. Carta Encíclica, 2005. São Paulo: Paulinas, 2005, 17.
217
HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana.
São Paulo: Paulus, 2002, p. 167.
76

Vemos claramente que a opção de Jesus é pobres. Ele ama-os e dedica-se de modo
particular a eles, curando suas enfermidades, defendendo-os dos poderosos prepotentes,
devolvendo-lhes a dignidade e pregando o anúncio de que todos se sentarão à mesa eterna que
o Pai preparou.
A pregação de Jesus acerca do Reino mostra claramente qual é a opção de Deus para
com a humanidade e, conseqüentemente, qual deve ser a opção de todos que desejam segui-lo.
“Os preferidos de Deus, os que definitivamente se sentam à sua mesa, para alegrar-se com ele,
no Reino, são todos os pobres e marginalizados de Israel, apesar de serem pecadores”218. Em
todas as parábolas contadas por Jesus, ele mostra que o pobre e o pecador são reconduzidos à
libertação, são chamados filhos de Deus, são incluídos, na sociedade, recebem uma dignidade,
são recompensados. O Reino foi instaurado no meio de nós, logo, de todos; porém os
excluídos são os preferidos de Deus que quer devolver a cada um a dignidade deformada pela
opressão.
Em muitas passagens da Escritura, percebemos, nitidamente, que Jesus tem uma
atitude frente ao povo sofrido que vem ao seu encontro. A multiplicação dos pães (Mc 6, 30-
44; 8, 1-9) é sinal da presença de Deus entre os famintos, os que morrem porque não têm o
que comer. A parábola do rico epulão e o pobre Lázaro (Lc 16, 19-30) o rico vai para o
inferno e o pobre, à comunhão no seio de Abraão. Vemos também, no encontro com o jovem
rico (Mt 19, 21-26), uma proposta de amor que o Senhor faz para ele segui-lo e abraçar a
verdadeira riqueza e partilhar com o outro o que lhe pertence. As curas realizadas visam
devolver, a cada doente, a dignidade perdida pela enfermidade, pelo peso ideológico do
pecado, pela pobreza e pela miséria. Jesus vai ao encontro de todos e os toca devolvendo a
oportunidade de se viver em sociedade e comunitariamente. E, ainda, concedendo a dignidade
de pessoa humana, amada e querida por Deus. Ele restitui essas pessoas a fim de que elas
participem novamente da vida da comunidade.
Portanto, a missão da Igreja é ir ao encontro do Senhor, sobretudo presente nos
pobres e excluídos, e permanecer com ele seguindo seus ensinamentos.

Se essa opção está implícita na fé cristológica, os cristãos, como discípulos e


missionários, são chamados a contemplar, nos rostos sofredores de nossos

218
SEGUNDO, Juan Luis. A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré. São Paulo: Paulus, 1997, p. 195.
77

irmãos, o rosto de Cristo que nos chama a servi-lo neles: Os rostos


sofredores dos pobres são rostos sofredores de Cristo219.

A nossa fé e nossa adesão a Jesus Cristo nasce de nosso encontro com ele, da
sensibilidade para com as realidades do mundo onde Ele está presente. A concretude desse
encontro acontece, nas opções que fazemos e dos gestos que assumimos que devem ser os
mesmos gestos e as mesmas atitudes daquele a quem seguimos: Jesus Cristo.
Dessa forma, ao estabelecermos um encontro com Jesus Cristo, somos chamados a
ter os meus sentimentos do Mestre, ou seja, defender a vida sobremaneira, desde seu início até
seu declínio natural, promover e defender os direitos dos mais vulneráveis e excluídos. A
Igreja de Jesus Cristo que fez um encontro com Ele e optou por segui-lo não pode deixar de
concretizar, na sociedade, muitas vezes, desigual e injusta, os valores do Reino que são a
justiça, a igualdade, o sustento e a promoção da vida. “A Igreja está convocada a ser advogada
da justiça e defensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas,
que clamam ao céu”220.
Deus quer estabelecer um encontro pleno de vida com cada um de nós. Esse encontro
é real e concreto. Nele, somos inseridos na eterna comunhão de amor com Deus e com os
irmãos. A preferência pelos pobres se dá precisamente porque se encontram em uma situação
injusta, contrária ao amor e à vontade de vida de Deus.

A pessoa que não encontrou ainda Cristo no testemunho histórico explícito e


em sua transmissão pode, contudo, encontrá-lo no seu irmão e no seu amor
para com ele, no qual Jesus se faz encontrar como que anonimamente, pois
ele mesmo vive sua vida nos pobres, nos famintos, nos encarcerados e nos
moribundos221.

Jesus compadece-se dos menos favorecidos, dos pobres, excluídos, daqueles que
perderam sua dignidade e esperam pelo Reino da Justiça e do amor. No encontro com Jesus
Cristo, a Igreja deve ser sinal dessa libertação, desse Reino que foi inserido no mundo. O
Reino já está entre nós, porém é missão da Igreja, como discípula e missionária, fazer chegar
a todos, principalmente aos mais pobres, os valores desse Reino.

219
DA 393.
220
DA 395.
221
RAHNER, Karl. op. cit. São Paulo: Paulus, 1989, p. 366.
78

Jesus anuncia que os pobres terão o Reino, os famintos serão saciados, os


que choram, consolados. A sua compaixão é como que a força que lhe dá
energia para empreender a grande caminhada, que também é uma grande
luta pela libertação do seu povo de todas as suas misérias. Não considera a
miséria como inevitável, sem remédio, a não ser por milagres individuais.
Ele vem trazer a libertação de todos os males222.

Faz-se necessário assumir a santidade da pobreza, ou seja, optar por anunciar Jesus
Cristo a todos aqueles que ainda não entenderam o significado da partilha e de buscar os
verdadeiros tesouros e, ao mesmo tempo, ser sinal de esperança e de justiça para aqueles que
sofrem a exploração de sua cultura, sua dignidade: os pobres.
Jesus optou pela pobreza e simplicidade a fim de que todos pudessem participar de
sua missão. O fato de se fazer pobre não excluiu aqueles que possuíam bens materiais, mas
manifestou claramente sua opção pelos pobres, exigindo de seus seguidores o total desapego
dos bens e a partilha como condição essencial para segui-lo. Essa é a verdadeira caridade de
Cristo e daqueles que fizeram um encontro pessoal com Ele.

A caridade supera a justiça, porque amar e dar, oferecer ao outro do que é


meu... nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é dele, o
que lhe pertence sem razão do seu ser e do seu agir. Não posso dar ao outro
do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça223.

Somente quando tomarmos a consciência de que o mundo não é de alguns, mas de


todos, onde todos têm os mesmos direitos e as mesmas obrigações e que a prática da justiça e
da dignidade humana é de direito universal, independente de cultura, raça ou religião, seremos
felizes e o Reino de Deus vai acontecer no meio de nós.

Os pobres são lugar de conversão, porque questionam o nosso modo de ser e


de viver, e lugar de evangelização, porque testemunham os valores
evangélicos do amor, da alegria e da esperança. Por serem os preferidos de

222
COMBLIN, José. O Caminho: ensaio sobre o seguimento de Jesus. São Paulo: Paulus, 2004, p. 166.
223
BENTO XVI. Caritas in veritate. Carta Encíclica, 2009. São Paulo: Paulinas, 2009, 6.
79

Deus, os pobres são lugar da experiência espiritual, eles nos levam ao


encontro profundo com o Senhor224.

O fruto da santidade da pobreza nos leva a assumirmos a nossa missão e, a exemplo


de Jesus, assumir a causa do pobre e a entregarmos a vida se for preciso em favor da justiça.
Essa é a expressão mais concreta da santidade do amor.
A exigência do discipulado em Jesus Cristo implica sobretudo nas suas atitudes,
gestos, palavras, opções. Para Jesus a situação de dominação e opressão era a causa de
destruição do Povo de Deus e de sua vocação.

Aqueles que oprimem os pobres e tiram o que lhes pertence por direito são
destruidores do Povo de Deus, os destruidores do plano de Deus para a
humanidade. Cabe, pois, ao Povo de Deus começar a criação de uma nova
humanidade sem dominação, onde todos seriam irmãos225.

A opção pelo pobre se situa no espaço da fé. Na verdade é pela fé que os discípulos
também corresponderam ao chamado de Jesus e fizeram uma opção por Ele e por sua obra. A
opção pelo pobre é um componente fundamental do seguimento a Jesus. Aquele que fez uma
opção por Cristo para se tornar seu discípulo não pode ignorar esta verdade.

3.5 Maria nos conduz ao encontro e ao seguimento de Cristo

Maria é modelo da Igreja que, no encontro com o Senhor, decide radicalmente segui-
lo e tornar-se modelo de serviço-doação. A Igreja é sacramento de Cristo enquanto traz a sua
presença, no mundo, enquanto é sinal de salvação, enquanto é o Reino de Deus inaugurado na
terra e que peregrina rumo ao Reino definitivo.

Em virtude da graça da divina maternidade e da missão pela qual ela está


unida com o seu Filho Redentor, e em virtude de suas singulares graças e

224
BOMBONATTO, Vera Ivanise. Seguimento de Jesus: Uma abordagem segundo a cristologia de Jon
Sobrino. São Paulo: Paulinas, 2002, p.387.
225
GUTIÉRREZ, Gustavo. A opção profética de uma Igreja. In: SOTER e AMERINDIA (orgs) Caminhos da
Igreja na América Latina e no Caribe. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 289.
80

funções, a Bem-aventurada Virgem está também intimamente relacionada


com a Igreja226.

Maria é exemplo de Virgem e Mãe, pois acreditou e aceitou o plano divino a seu
respeito e procurou fazer em tudo a vontade daquele que a consagrou. Por isso, ela é figura do
encontro pessoal com Cristo e é exemplo de seguimento total à vida. “Por certo a Igreja,
contemplando-lhe a arcana santidade, imitando-lhe a caridade e cumprindo fielmente a
vontade do Pai, mediante a palavra de Deus recebida, na fé, torna-se também ela mãe”227. Por
isso, a Igreja é mãe e é imaculada, pois, a exemplo de Maria, pela ação do Espírito Santo,
conserva uma fé inquebrantável, uma esperança sólida no Senhor e uma caridade constante. A
Igreja, como Maria, é mãe.
A exemplo de Maria, a Igreja continua a gerar Cristo para o mundo e a gestar, no
seio da humanidade, a salvação e a presença de Deus. Essa é a missão de Maria, essa é a
missão da Igreja, essa é a nossa missão.
Pela doação de Maria, nós fomos repletos da presença salvífica de Deus. Mediante a
sua materna aceitação, Deus fez-se presente em nossa vida de modo definitivo e pleno. Por
isso, pelo “sim” de Maria, nós temos a presença do Senhor e podemos estabelecer um
relacionamento com ele, podemos ir ao seu encontro e segui-lo. Maria nos conduz ao
encontro de Cristo e nos ensina como segui-lo verdadeiramente na doação e no serviço.
Maria é exemplo para todo aquele que deseja fazer um encontro pessoal com Jesus
Cristo e segui-lo.

Ela concebeu, gerou, nutriu a Cristo, apresentou-o ao Pai, no templo,


compadeceu-se com seu Filho que morria na cruz. Assim, de modo
inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, ela
cooperou, na obra do salvador, para a restauração da vida sobrenatural das
almas228.

Maria torna-se mãe da humanidade porque gera para o mundo o autor da salvação
que vem para libertar o homem de toda a opressão.

226
LG 63.
227
LG 64.
228
LG 61.
81

Maria mostra-nos que todos nós podemos estabelecer um encontro com Jesus Cristo,
pois ao encarnar-se, Ele se fez homem para que pudéssemos nos relacionar com ele como
pessoas.
Em Cristo, foi-nos dada a graça de participarmos da sua vida, da sua obra, da sua
missão, do seu projeto. Maria também aderiu a este projeto e convida-nos a fazermos o
mesmo, fazendo tudo o que ele nos disser (cf. Jo 2, 5).
“Maria é a grande missionária, continuadora da missão de seu Filho e formadora de
missionários”229. Ela se fez discípula e por isso se tornou tornou também missionária, pois o
seu desejo não foi outro senão o de testemunhar Jesus Cristo.

Na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e dependente d’Ele: foi


em vista d’Ele que Deus Pai, desde toda a eternidade, a escolheu Mãe toda
santa e a plenificou com dons do Espírito a ninguém mais concedidos230.

Por isso, ela é protótipo de uma Igreja verdadeiramente missionária, servidora,


continuadora da missão do Cristo, seu fundamento. “Maria serviu como ninguém à obra do
Filho. Portanto, ela não é só Senhora, mas é também Serva; e só é Senhora porque serve.
Maria é absolutamente cristocentrada: está toda voltada para Cristo e seu Reino”231.
A Igreja é sacramento de salvação e tem em Maria um exemplo sublime de
corresponder à vocação confiada por Deus. A Igreja também é chamada a ser serva da
humanidade assim como Maria. “Ela deixou-Se conduzir pelo Espírito, através de um
itinerário de fé, rumo a uma destinação feita de serviço e fecundidade”232.
A graça da encarnação acontece por obra do Espírito Santo em Maria. “O Espírito
Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com sua sombra” (Lc 1, 35). A obra da
redenção acontece em Maria, por obra do Espírito Santo, Maria torna-se templo do Espírito,
morada de Deus, sacrário vivo do Senhor. “O Espírito a desposou e este aspecto esponsal de
Maria levou muitos Padres da Igreja a chamá-la de Santuário do Espírito Santo, Habitação
permanente do Espírito de Deus”233.

229
DA 269.
230
PAULO VI. Marialis Cultus. Exortação Apostólica, 1974. São Paulo: Paulus, 1997, 25.
231
BOFF, Clodovis. Introdução à Mariologia. 3a. Ed. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 21.
232
FRANCISCO. Evangelii Gaudium. Exortação Apostólica, 2013. São Paulo: Paulinas, 2013, 287.
233
BOFF, Lina. Mariologia: interpretações para a vida e para a fé. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 123-124.
82

Por issso, “Maria é modelo, sobretudo, daquele culto que consiste em fazer da
própria vida uma oferenda a Deus: doutrina antiga e perene, essa, que cada um de nós pode
ouvir repetir, se prestar atenção aos ensinamentos da Igreja”234.
No encontro com Jesus Cristo, nós decidimos permanecer com ele. Essa permanência
consiste, sobretudo em fazer a sua vontade, ou seja, em oferecer a nossa vida em oferta a Ele e
à sua missão. Essa oferta nós celebramos em Maria e em nossa vida de verdadeiros discípulos
missionários.
Toda a vida de Maria foi uma oferta: na maternidade virginal, aceita ser a Mãe do
Deus encarnado, na Pessoa de Jesus Cristo; sua Imaculada Conceição a isentou do pecado
original, tornando-a toda santa a fim de que o Senhor pudesse habitar, no seu ventre e
santificar toda a humanidade; agraciada, foi assunta a céu em corpo e alma depois de sua
caminhada terrena a fim de que nela todos os homens e mulheres que, indo ao encontro com
Jesus Cristo, pudessem tornar-se parecidos com Ele.
Maria cantou o Magnificat como resposta a Isabel diante do reconhecimento do fruto
do seu ventre, diante do reconhecimento de Cristo e de seu amor. Nesse canto, Maria expressa
seu sentimento diante do encontro com o Filho de Deus e resplandece nele o mistério desse
Deus que entrou, na história, e que estabeleceu um encontro com o homem de uma vez por
todas. Ela professa a sua fé no Deus da Aliança, que cumpre sua promessa e sua misericórdia.

É plausível imaginar, pois, que o cântico de Maria celebra o que aconteceu e


foi vivido, naquela casa, nas montanhas de Judá: as maravilhas que o Eterno
iniciou, no seio da Mãe do Messias. Nesse silêncio, exprime-se o primado do
ser sobre o fazer, da verdade sobre a aparência. É o primado do amor de
quem, crendo no dom pascal do Deus trinitário, deixa-se esconder com
Cristo no coração de Deus235.

A Igreja, a exemplo de Maria, também canta o seu Magnificat, indo ao encontro de


todos aqueles que necessitam da presença de Deus e ainda não fizeram um encontro pessoal
com Jesus Cristo e não se colocaram em seu seguimento.
No Magnificat, Maria reconhece a opção do Senhor pelos pobres: “... Enche de bens
os famintos e despede os ricos de mãos vazias” (Lc 1, 53). A Igreja, que procura cantar o

234
PAULO VI. Marialis Cultus. Exortação Apostólica, 1974. São Paulo: Paulus, 1997, 21.
235
FORTE, Bruno. Exercícios Espirituais no Vaticano: Seguindo a Ti, Luz da Vida. Petrópolis: Vozes, 2005, p.
117.
83

mesmo canto que Maria cantou, não pode deixar de buscar viver a verdade sobre Deus, por
isso, deve fazer sua opção segundo a do seu Mestre e Senhor, optar pelos mais excluídos,
procurando ser fermento de libertação junto aos mais necessitados deste mundo. Maria
mostra-nos a integridade e o sentido da missão da Igreja no mundo.

Maria é aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de Jesus,


com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Ela é serva humilde
do Pai, que transborda de alegria no louvor.236

Em comunhão com seu Filho, Maria expressa o reconhecimento de Deus pelos


pobres e oprimidos. “O canto do Magnificat mostra Maria como mulher capaz de se
comprometer com sua realidade e diante dela ter voz profética”237.
É Maria que nos conduz ao encontro com Jesus Cristo e nos mostra que este encontro
não é meramente teórico, imaginário, ideológico, mas é encarnado, na realidade humana,
muitas vezes excluída e desfigurada.

236
FRANCISCO. Evangelii Gaudium. Exortação Apostólica, 2013. São Paulo: Paulinas, 2013, 286.
237
DA 451.
84

CONCLUSÃO

Vinde e vede! Jesus nos convida ao encontro pessoal com ele. Vinde! Ir a seu
seguimento, assumir o discipulado e a missão a partir de uma experiência concreta de vida
com ele. Vede! Contemplar a suavidade do Senhor, mas, ao mesmo tempo, assumir sua opção
e a causa do evangelho, muitas vezes com perseguições e desafios. Ele está conosco! Não nos
abandonou; pelo contrário, permanece conosco para sempre (cf. Jo 14, 16).
Neste trabalho, procuramos trabalhar a temática do encontro com Jesus Cristo e
observamos como esse encontro foi sendo construído no desenvolvimento da própria história
da salvação do povo de Deus.

A própria natureza do cristianismo consiste, portanto, em reconhecer a


presença de Jesus Cristo e segui-lo. Essa foi a maravilhosa experiência
daqueles primeiros discípulos que, encontrando Jesus, ficaram fascinados e
cheios de assombro frente à excepcionalidade de quem lhes falava, diante da
maneira como os tratava, coincidindo com a fome e sede de vida que havia
em seus corações238.

Deus veio ao encontro do seu povo desde o princípio e concedeu ao homem a graça
de estar sempre com Ele; O encontro entre o humano e o divino.
Nesse encontro, Deus sempre se revelou, manifestou-se de diversas formas e,
definitivamente, na Encarnação do Verbo Divino, Jesus Cristo. Ao longo da história, nós
podemos vivenciar esse encontro com o Senhor, pois ele fez-se homem e elevou-a a mais alta
dignidade. Assim, Ele se fez Senhor do tempo e da história.
Nesse trabalho, procuramos observar, estudar, refletir, discernir, sentir e reconhecer
as exigências e características do encontro vivo e pessoal com Jesus Cristo, que nos insere, no
verdadeiro discipulado, no caminho da realização plena, na vivência dos verdadeiros valores.
Fomos criados para esse encontro de amor e de vida, de estar constantemente na
presença de Deus e sermos verdadeiramente transformados e revigorados.

238
DA 244.
85

Jesus é a videira verdadeira, da qual o povo era um símbolo, uma imagem. É


Jesus quem produz, finalmente, os frutos que Deus esteve esperando durante
muitos séculos. Os frutos do discipulado, então, somente serão possíveis
graças à comunhão com Jesus. Eles constituirão o critério último da
veracidade do discipulado239.

Segundo o Papa Emérito Bento XVI, do encontro da fé, é que nascem a cultura cristã
e as diversas tradições religiosas que, embora, na diversidade de culturas e línguas, procuram
estar unidas, na mesma história e no mesmo credo. Contudo, na atualidade, essa fé enfrenta
desafios que colocam em desarmonia a identidade católica dos nossos povos. Por isso, a partir
do encontro com Jesus Cristo conscientizamo-nos acerca da nossa fé e da alegria e coerência
que ela nos proporciona.
O verdadeiro encontro com Jesus Cristo nos leva à ação, ao seu seguimento. Faz-nos
caminharmos conscientes de que Deus está presente, na história do seu povo, muitas vezes,
perseguido, sofrido, marginalizado. Nós, que fizemos esse encontro com Ele e decidimos
segui-Lo, precisamos aderir à verdade do seu evangelho, sendo capazes de denunciar as
injustiças e pregar a verdadeira justiça.
O Encontro com Jesus Cristo torna o cristão um homem autêntico, capaz de
sensibilizar-se com os sofredores e viver a integridade do evangelho. Ele gera seguimento,
opção por Ele e por sua missão, e não proselitismo e relativismo que isenta de todas as
responsabilidades e esforços, que busca formas interesseiras para atrair simplesmente a
adesão de pessoas em quantidade, descomprometendo-se com suas vidas e sua verdadeira
realização.
Cristo, ao assumir a nossa humanidade, assumiu uma família, um povo, não se
fechando a esses, mas concedendo a graça a quem desejar estabelecer um encontro de
salvação com ele. O encontro com Jesus Cristo é pessoal, mas não individual. Ele veio ao
encontro de todos.
Buscamos o mesmo Senhor, que se entrega por todos. Por isso, a Igreja é constituída
como o novo Povo de Deus, para ser sacramento de salvação, sinal eficaz do encontro com
Cristo. Na Igreja, nós encontramos Jesus e, por meio dela, podemos aderir à sua missão e
viver o seu seguimento.

239
BINGEMER, Maria Clara. Discípulos de Jesus hoje. In: SOTER e AMERINDIA (orgs) Caminhos da Igreja
na América Latina e no Caribe. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 360.
86

O seguimento de Cristo é um chamado para todos e cada uma das pessoas, feito à nós
em plena liberdade. Ninguém vai para um encontro sem desejar estar com a pessoa que nos
convidou para tal. Assim é o encontro que Cristo estabelece conosco: somos livres para
responder e aderir.
Jesus jamais pregou o medo e o castigo, ele não veio para aprisionar, mas para dar
cumprimento à nossa livre escolha. O encontro com Jesus Cristo é sempre um encontro de
vida e libertação. Também a Igreja, fiel discípula do Senhor deve, no seu ministério, ser
sacramento que conduz a Cristo que proporciona o encontro com ele, na vivência concreta do
amor e da liberdade, não promovendo a teologia do medo e do castigo, mas, em sua missão
ser sinal do amor de Deus.
A natureza do Cristianismo consiste em reconhecer a presença de Jesus Cristo e
segui-lo. Essa foi a experiência dos primeiros discípulos que, encontrando Jesus, ficaram
fascinados e cheios de temor frente a suas palavras e sua maneira de proceder. Hoje, nós
também somos convidados a fazer a mesma experiência, a fim de sermos impulsionados para
o discipulado e para a missão. “A vida do discípulo de Jesus será regida por uma nova
hierarquia de valores, em que o amor de Jesus iluminará tudo e porá cada coisa em seu devido
lugar e grau de importância”240.
De fato, o verdadeiro encontro com Jesus Cristo acontecerá quando encontrarmos o
amor, a justiça, a liberdade e a dignidade humana. As situações de morte, miséria, injustiças,
opressões, ódio convidam-nos a buscar uma profunda conversão e a vivência concreta do
amor. Somente no encontro com Jesus Cristo é que poderemos superar essa situação. Vinde e
Vede! Permanecei Nele e Ele permanecerá em vós.
O encontro com Jesus Cristo é, para o verdadeiro cristão, dom e tarefa. Dom
porque ele se oferece gratuitamente; é um fato, ele veio ao nosso encontro. Tarefa porque
exige a participação afetiva e efetiva do homem, que deve desejar e buscar a Cristo.
No encontro com Jesus Cristo o homem reconhecerá a sua verdadeira realização;
uma vivência autêntica e radical do amor salvador. Nada substitui o encontro pessoal, pois
Cristo não é uma idéia. Ele é uma pessoa que vai ao encontro de outra pessoa.
É preciso ir ao encontro e desejar ser encontrado pelo Senhor. Somente com esse
desejo puro e sincero poderemos superar o individualismo e o imediatismo. Renunciando a
cultura do superficial e do provisório.

240
BINGEMER, Maria Clara. Discípulos de Jesus hoje. In: SOTER e AMERINDIA (orgs) Caminhos da Igreja
na América Latina e no Caribe. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 368.
87

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