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DOI: 10.18468/estcien.2017v7n1.

p33-48 Artigo de revisão de literatura

Discurso, Análise do Discurso e Discurso Político:


ponderações conceituais

Tayson Ribeiro Teles1


1 Mestre em Letras - Linguagem e Identidade (Cultura e Sociedade) pela Universidade Federal do Acre. Possui Especializações nas
áreas de Tecnologia/Comunicação, Educação, Administração e Gestão de Políticas Públicas. Graduado em Gestão Financeira pela
UniSEB/Estácio-SP. Concluinte do Curso de Direito da Universidade Federal do Acre. Agente Público Federal, Técnico Administrati-
vo da Universidade Federal do Acre, Brasil. E-mail: taysonufac@gmail.com

RESUMO: O singelo ensaio acadêmico tem o desiderato de, em sede de revisão bibliográfica,
servir de plataforma dissipadora de reflexões sobre conceitos básicos relativos a discurso, aná-
lise do discurso (o método) e discurso político, especificamente o eleitoral. A metodologia,
portanto, é a prospecção bibliográfica, levada a efeito sob o plasma do método dedutivo. U-
samos pensamentos de Orlandi (2015), Foucault (2014), Maingueneau (2015), Charaudeau
(2015), entre outros. Os resultados demonstram ser premente firmar em nossas mentes que
tudo é motivado, bem como ideológico, e, por isso, nenhum ato discursivo humano tem signi-
ficação automática, sendo necessário sempre interpretarmos e analisarmos os signos que nos
chegam de forma percuciente. Tal comportamento pode nos livrar de existirmos em situação
de subsunção extrema aos discursos ocultos maléficos, provenientes dos poderosos ou dos
que querem ao poder chegar.
Palavras-chave: Discurso. Análise do Discurso. Discurso Político. Reflexões.

Speech, Discourse Analysis and Political Discourse: conceptual settings


ABSTRACT: The simple academic essay is the desideratum, in the seat of literature review, ser-
ve dissipative platform reflections on basic concepts of discourse, discourse analysis (the me-
thod) and political discourse, specifically the election. The methodology is therefore a literatu-
re survey, carried out under the set of the deductive method. We use thoughts Orlandi (2015),
Foucault (2014), Maingueneau (2015), Charaudeau (2015), among others. The results show be
pressing establish in our minds that everything is motivated, as well as ideological, and there-
fore, no human speech act has automatic significance, and must always interpret and analyze
the signs that come to us from insightful way. Such behavior can get rid of subsumption we e-
xist in extreme situation to the hidden evil speeches, from the powerful or those who want to
be able to reach.
Keywords: Speech. Speech analysis. Political speech. Reflections.

1 DISCURSO: UM CONCEITO FUNDAMEN- zem pensar ser um discurso apenas um ato


TAL de fala, de promanação de frases, orações,
palavras, interjeições etc., certo?
Quando ouvimos ou lemos o vocábulo Discurso é tudo isso sim (fala, palavras,
discurso o que imediatamente nos vem à sons, símbolos escritos etc.), mas é tam-
mente, caro leitor? Acho que concordare- bém, como nos dizem Orlandi (2015), Fou-
mos em dizer que abruptamente somos cault (2014), Maingueneau (2015), Charau-
atravessados por imagens, signos, sons, deau (2015) entre outros, uma espécie de
narrativas, perspectivas, devaneios e outras força/rede que nos une a todos nós, que
mais representações mentais que nos fa- participamos a todo o momento de um jogo

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de lutas ideológicas, onde alternamo-nos nado? Frustrado? Cremos que não! Não
entre a resistência e a concordância. Ou precisamos estar felizes todo o tempo, pois
impomos ou cedemos. Jamais somos neu- a melancolia, a angústia, o rancor etc. são
tros. sentimentos que existem e, portanto, de-
Nesse prisma, são exemplos de discur- vemos às vezes tê-los, é natural. Todavia,
sos: a indicação social de que homens de- não podemos negar que ser/estar feliz é
vem se relacionar amorosamente apenas algo bom. O que é maléfico é não interpre-
com mulheres e vice e versa; os dogmas de tarmos/analisarmos todos os discursos e
algumas religiões que normatizam que se vivermos reféns de alguns, notadamente os
deve casar virgem; uma placa de trânsito mais cruéis.
com a palavra/signo Pare afixada em uma E sendo o discurso palavra dita ou escri-
rua; a regra social de que não se deve andar ta, mas também uma força/rede invisível,
despido em meio a uma via pública. Enfim, por que plataforma ele ocorre/surge ou
várias são as exemplificações factíveis. aparece sempre? Pela linguagem! E, por
Veja, portanto, caro leitor, que essenci- isso, temos de:
almente discurso é isto: uma espécie de
força invisível que nos molda, nos oprime, Perceber que não podemos não estar sujei-
tos à linguagem, a seus equívocos, sua opaci-
nos coage, nos normatiza, nos enforma – dade. Saber que não há neutralidade nem
por meio de ideologias. Afinal, “[...] como mesmo no uso do mais aparente cotidiano de
diz M. Pêcheux (1975), não há discurso sem signos. A entrada do simbólico é irremediável
sujeito e não há sujeito sem ideologia: o e permanente: estamos comprometidos com
indivíduo é interpelado em sujeito pela ide- os sentidos e o político. Não temos como não
interpretar (ORLANDI, 2015, p. 7). (Grifos
ologia e é assim que a língua faz sentido”
nossos)
(ORLANDI, 2015, p. 15).
Nesse tonário, porém, surge outra ques- Sem a interpretação todos os discursos
tão: quem produz todos os discursos que ficam incompletos. Isso, porquanto toda
existem? Os próprios seres humanos, nota- mensagem propalada por um emissor tem
damente os que integram as elites econô- como alvo algum receptor ou vários. Nada é
micas, que forjam discursos que venham dito imotivadamente. Nessa perspectiva,
sempre lhes favorecer pecuniariamente, como comenta Orlandi (2015), a incomple-
como, por exemplo, a implantação na men- tude discursiva (a não interpretação) torna
te das adolescentes de uma informação do o discurso sem início e ponto final definiti-
tipo: a única sandália que presta, que é boa, vos, ou seja, quando não interpretados, al-
que está na moda é a sandália X, quem a guns discursos transformam-se, nas mãos
usa é bonita, atraente etc. dos poderosos, em regras a serem cumpri-
Pergunta-se, então: todo discurso é ru- das gramatical e literalmente. Ora, como o
im? Bem, esta pergunta é complexa, contu- povo não sabe o que significa um discurso Z
do, cremos ser prudente afirmar que nem e não quer ter o trabalho de pensar para
todo discurso é ruim. Por exemplo, o dis- interpretá-lo, finda por se sujeitar a ele – é
curso genérico do utilitarismo que nos diz mais fácil e cômodo, quando se tem as fer-
que devemos todos ser felizes, será em to- ramentas para tal é claro, pois há pessoas
tal ruim? É bom ser/estar infeliz? Decepcio-
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que, infelizmente, não tiveram educação e sa fala caminha em todas as direções. Fala-
ensinamentos para lidar com discursos. mos o que é tal coisa, ideia etc., sua impor-
Pode-se arrazoar, ainda, que discurso é, tância, quem inventou, em que contexto foi
então: erigida, enfim simplesmente destrinchamos
tudo sobre o que falamos. Isto nos parece
Movimento dos sentidos, errância dos sujei- ser mesmo o diferencial do ser humano
tos, lugares provisórios de conjunção e dis-
persão, de unidade e de diversidade, de indis-
frente aos outros animais: o exarcebamento
tinção, de incerteza, de trajetos, de ancora- e pormenorização da linguagem e seu uso.
gem e de vestígios: isto é discurso, isto é o ri- Nesse sentido, o discurso é “[...] palavra em
tual da palavra. Mesmo o das que não se di- movimento, prática de linguagem: com o
zem. De um lado, é na movência, na proviso- estudo do discurso observa-se o homem
riedade, que os sujeitos e sentidos se estabe-
falando” (ORLANDI, 2015, p. 13).
lecem, de outro, ele se estabilizam, se crista-
lizam, permanecem. Paralelamente, se, de Foucault (2014) trabalhou muito esta
um lado, há imprevisibilidade na relação do questão do discurso e nos disse que este é
sujeito com o sentido [...], toda formação so- um plexo de ordens que nos são impostas
cial, no entanto, tem formas de controle da sem que possamos delas nos defender na
interpretação, que são historicamente de- medida em que quando vamos contra ele
terminadas: há modos de se interpretar, não
é todo mundo que pode interpretar de acor-
somos tachados de loucos ou algo análogo.
do com sua vontade, há especialistas, há um Por exemplo, se andarmos nus pelas ruas,
corpo social a quem se delegam poderes de eu e você caro leitor, seremos considerados
interpretar (logo de “atribuir” sentidos), tais loucos pela primeira pessoa com a qual nos
como o juiz, o professor, o advogado, o pa- depararmos, pois tal pessoa possui incutida
dre etc. Os sentidos são sempre “administra-
em si um discurso que a informa ser proibi-
dos”, não estão soltos. Diante de qualquer fa-
to, de qualquer objeto simbólico somos ins- do, imoral, feio e errado andar nu em públi-
tados a interpretar, havendo uma injunção a co.
interpretar. Ao falar, interpretamos. Mas, ao Diz o referido filósofo francês que o ser
mesmo tempo, os sentidos parecem já estar humano passa a ser um tanto triste quando
sempre lá (ORLANDI, 2015, p. 8). (Grifos nos- descobre que vive imerso em uma ordem
sos)
discursiva (controlado por todos os lados).
Ademais, conforme Orlandi (2015), a pa- Esclarece que:
lavra discurso tem origem em dis-cursus do O desejo diz: “Eu não queria ter de entrar
latim que significa correr ao redor ou correr nesta ordem arriscada do discurso; não que-
para todos os lados. É claro que atualmente ria ter de me haver com o que tem de categó-
sabe-se ser um discurso, além da força/rede rico e decisivo; gostaria que fosse ao meu re-
à qual nos referimos, um ato de fala solene dor como uma transparência calma, profunda
[...] em que os outros respondessem à minha
por meio do qual um orador tece vocábulos
expectativa, e de onde as verdades se elevas-
sobre algum assunto, geralmente em públi- sem, uma a uma; eu não teria senão de me
co. Entretanto, nos parece que, além disso, deixar levar, nela e por ela, como um destro-
discurso é mesmo correr para todos os la- ço feliz”. E a instituição responde: “Você não
dos. tem por que temer começar, estamos todos
aqui para lhe mostrar que o discurso está na
Quando falamos de algo geralmente nos-
ordem das leis” (FOUCAULT, 2014, p. 7).

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Neste belo excerto divagacional, Fou- que será que houve? Não é preciso que
cault (2014) nos diz que seria bom não es- nossos chefes percebam nossa ausência –
tarmos todos incrustados na ordem discur- vigiamos uns aos outros. Enfim, vários são
siva que nos enquadra a todos a todo o os exemplos.
momento. Adu-lo que a vida seria mais Para Foucault (2014), o discurso/poder
calma, profunda, aberta, livre, bem como está em todos nós e em todas as esferas de
haveria verdade em tudo, os outros não nos nossa vida, por isso ele cunhou o termo mi-
decepcionariam nem nós a eles, pois sería- crofísica do poder, consignando que o po-
mos todos sempre sinceros; enfim, sería- der está capilarizado por todos os lugares,
mos felizes. Contudo, estamos dentro das em todas as pessoas. Assim, sendo a noção
normas, sujeitados a instituições (presídios, de discurso factível de várias interpreta-
hospitais psiquiátricos), horários para tudo, ções, como a de simples fala e esta de Fou-
regras de conduta social etc. cault (2014), temos que:
Mas, de onde provém este discurso invi-
sível que nos aprisiona? Já sabemos, como Tal polivalência permite que “discurso” fun-
cione, ao mesmo tempo, como referindo ob-
relatado antes, que é produzido pelo pró- jetos empíricos (“há discursos”) e como algo
prio homem, mas de onde vem? Foucault que transcende todo ato de comunicação
(2014) nos disse que vem de uma espécie particular (“o homem é submetido ao discur-
de controle mútuo/solidário que todos eri- so”). Isto favorece uma dupla apropriação da
gimos contra nós mesmos, um ao outro. noção: por teorias de ordem filosóficas e por
pesquisas empíricas sobre o funcionamento
Dizemos: para o célebre filósofo, se há al-
dos textos (MAINGUENEAU, 2015, p. 23).
gum poder “[...] é de nós, só de nós, que lhe
advém” (FOUCAULT, 2014, p. 7). Em outras palavras, expandindo a com-
O que nos quer dizer Foucault (2014) preensão sobre o conceito de discurso, Ma-
com isso? Basicamente, para Foucault ingueneau (2015) nos diz que este pode ser
(2014), o poder/dominação está impregna- entendido de várias formas, mas, basica-
do em todos nós, que controlamos e domi- mente, se estrutura como sendo a lingua-
namos um ao outro a todo o momento. Por gem além da palavra/frase. Para Maingue-
exemplo, em uma sala de aula, quem con- neau (2015), quando se fala de discurso
trola os alunos a fim de que eles fiquem surgem várias ideias/características sobre
quietos, sentados, calados e não vão embo- esse conceito. Maingueneau (2015) que, ao
ra não é a escola, o professor, as grades dos lado de Patrick Charaudeau (2015), é um
portões, são os próprios alunos que, repri- dos mais respeitáveis nomes da Análise do
midos por um(a) medo/coação social inter- Discurso (AD) contemporânea, enumera
no(a) que lhes obriga a ali ficar, vigiam-se oito dessas interessantes ideias/caracte-
uns aos outros. rísticas, as quais comentaremos um pouco a
Quando um aluno cola na prova é geral- partir de agora.
mente dedurado por outro aluno – que a- Para Maingueneau (2015), primeiramen-
cha injusto o ato de colar. Quando chega- te, o discurso é uma organização além da
mos atrasados ao trabalho ou nem vamos, frase, ou seja, é composto por unidades
são nossos colegas de laboro que verbali- transfrásticas que oportunizam ao discurso
zam piadinhas do tipo: fulano nem veio, o
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aparecer por meio de um além superior à dos primeiros a propor um dialogismo
organização frasal. Por exemplo, diz o estu- da/na linguagem.
dioso, a frase Proibido fumar não é apenas Em quarto plano, o discurso é contextua-
uma frase que significa uma ordem le- lizado. Isto é, o discurso intervém sempre
gal/estatal sobre ser proibido o fumo. Por em um contexto, não sendo factível, nem
trás desta oração há um plexo de outras aceitável caso alguém proponha, atribuir
coisas, uma verdadeira carga abstrata e axi- qualquer sentido a um enunciado que não
ológica. Existe aí a noção de que fumar faz seja contextualizado, ou seja, não se saiba
mal à saúde, bem como que fumar incomo- ou se tenha indícios de um porquê, um co-
da os não fumantes etc. mo, um quando, um (a)onde.
Em segundo lugar, o discurso é também Em quinto prisma, todo discurso é assu-
uma forma de ação, ou seja, por meio da mido por um sujeito, ou seja:
fala sempre exercemos atos sobre o outro,
sejam atos de domínio/influência ou de O discurso só é discurso se estiver relaciona-
do a um sujeito, a um EU, que se coloca ao
submissão. Afinal, “toda enunciação consti-
mesmo tempo como fonte de referências
tui um ato (prometer, sugerir, afirmar, per- pessoais, temporais, espaciais (EU-AQUI-
guntar [...]) que visa modificar uma situa- AGORA) e indica qual é a atitude que ele ado-
ção” (MAINGUENEAU, 2015, p. 25). ta em relação ao que diz a seu destinatário
Em terceiro lócus, para Maingueneau (MAINGUENEAU, 2015, p. 26).
(2015), o discurso é também interativo. Is-
so, pois: Aduz Maingueneau (2015) que o discurso
indica ainda quem é o responsável pelo que
A atividade verbal é, na realidade, uma inte- ele diz. Por exemplo, num enunciado sim-
ratividade que envolve dois ou mais parcei- ples, como na palavra chove, a confiabilida-
ros. A manifestação mais evidente dessa inte- de na/da informação depende do enuncia-
ratividade é a troca oral, onde os interlocuto-
dor que ao invés de afirmar que chove pode
res coordenam suas enunciações, enunciam
em função da atitude do outro e percebem dizer talvez possa chover, segundo fulano
imediatamente o efeito que suas palavras vai chover, acho que vai chover, ou outra
têm sobre ele. [Pois], qualquer enunciação coisa.
supõe a presença de outra instância de enun- Em sexto lugar, o discurso é regido por
ciação, em relação a quem constrói seu pró- normas. Isso, porquanto
prio discurso (MAINGUENEAU, 2015, p. 26).
Existem [...] normas (‘máximas conversacio-
Nesse pisar, bem lembra o autor que nais’, ‘leis do discurso’, ‘postulados conversa-
“um termo como ‘destinatário’ parece insa- cionais’ [...]) que regem as trocas verbais [...].
tisfatório, porque pode dar a impressão de Além disso, [...] os gêneros de discurso são
que a enunciação é apenas a expressão do conjuntos de normas que suscitam expectati-
vas nos sujeitos engajados na atividade verbal
pensamento de um locutor que se dirige a
(MAINGUENEAU, 2015, p. 27).
um destinatário passivo” (MAINGUENEAU,
2015, p. 26). Essa ideia hoje nos parece ób- Em sétima asserção, o discurso é assumi-
via, mas quando se passou a pensar assim do no bojo de um interdiscurso. Isso, visto
ocorrera verdadeira reviravolta no campo que:
da linguagem, tendo sido Bakhtin (2014) um
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Para interpretar o menor enunciado, é neces- para Maingueneau (2015) o termo discurso
sário relacioná-lo, conscientemente ou não, a tem realmente um duplo alcance. Permite
todos os tipos de outros enunciados sobre os
designar concomitantemente objetos, co-
quais ele se apoia de múltiplas maneiras. O
simples fato de organizar um texto em um mo, por exemplo, o discurso do médico e o
gênero (a conferência, o jornal televisivo [...]) discurso da imprensa, e mostrar que se a-
implica que o relacionemos com outros tex- dota um determinado ponto de vista sobre
tos do mesmo gênero [...] os discursos con- eles, ou seja, é possível dizer que um jornal
correntes, os discursos anteriores (MAIN-
tal ou uma clínica de médicos também são
GUENEAU, 2015, p. 28).
um discurso, pois são “mobilizadores de
Os que defendem essa corrente pregado- certas ideias-força” (MAINGUENEAU, 2015,
ra da existência de um interdiscurso inspi- p. 29).
ram-se notadamente em Bakhtin (2014)
para quem todo enunciado está sempre 2 O FUNCIONAMENTO DO DISCURSO
incrustado em um dialogismo, na medida
em que o texto não é fechado, mas aberto a Vimos, então, um pouco sobre o que seja
enunciados exteriores e anteriores, sendo a o discurso, agora perguntamos: como fun-
cadeia verbal de cada enunciação deveras ciona o discurso? Como apregoa Orlandi
interminável. Afinal, “a fala nunca é conce- (2015), o discurso é certo efeito de sentidos
bida como lugar em que a individualidade entre locutores e somente conseguimos
se põe soberanamente: cada locutor está apreender seu funcionamento “[...] se não
tomado pela sedimentação coletiva das sig- opomos o social e o histórico, o sistema e a
nificações inscritas na língua” (MAINGUE- realização, o subjetivo ao objetivo, o pro-
NEAU, 2015, p. 28), proveniente de outros cesso ao produto” (ORLANDI, 2015, p. 20),
sujeitos. ou seja, em escorço, para entender o fun-
Em oitava e última percepção, para Ma- cionamento do evento discurso é preciso
ingueneau (2015) o discurso constrói soci- compreender que o real (a realidade) é afe-
almente o sentido. Isso, porque: tada pela história, que é múltipla – nunca é
somente uma coisa. Logo, entender o fun-
[...] é continuamente construído e reconstru- cionamento do discurso requer circunspec-
ído no interior de práticas sociais determina- ção e análise profunda do próprio discurso
das. Essa construção de sentidos é, certa- e seu meio de difusão (a história).
mente, obra de indivíduos, mas de indivíduos
inseridos em configurações sociais de diver-
Certo, então o discurso funciona pelo
sos níveis [...]. A noção de discurso constitui, simbólico e na história? Sim! Mas, como
assim, uma espécie de invólucro comum para verdadeiramente isso funciona/ocorre? Em
posições às vezes fortemente divergentes. Es- que meio? Bem, “a língua é [...] condição de
tamos mais numa lógica do ‘clima familiar’ do possibilidade do discurso” (ORLANDI, 2015,
que na de um núcleo que seria comum a to-
p. 20). Mas, a língua que serve de meio para
dos os usos (ORLANDI, 2015, p. 29).
a propagação discursiva é apenas a língua
Por fim, retornando à ideia de que dis- crua da gramática, da sintaxe, as frases, os
curso pode ser fala, mas também uma força vocábulos?
invisível que nos domina por todos os lados, Com efeito, não! “Os sentidos não estão
só nas palavras, nos textos, mas na relação
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com a exterioridade, nas condições em que cio delas. Elas se realizam em nós [...] (OR-
eles são produzidos e que não dependem LANDI, 2015, p. 33-34). (Grifos nossos)
só das intenções dos sujeitos” (ORLANDI,
Estamos falando de sentidos e discursos,
2015, p. 28), mas também da história, das
mas qual a diferença/relação? Bem, em
ideologias.
nossa percepção, os sentidos são as orien-
Afinal, o discurso caminha:
tações ideológicas impregnadas no discur-
[...] no jogo da língua que se vai estoricizando so, meio que como se fossem, em literali-
aqui e ali, indiferentemente, mas marcada dade, o caminho para que apontam os dis-
pela ideologia e pelas posições relativas ao cursos. Mas, por que os sentidos são, então,
poder – traz em sua materialidade os efeitos múltiplos? Por que todos os seres humanos
que atigem [...] sujeitos apesar de suas von-
não rezam a mesma missa? Por que, por
tades. O dizer não é propriedade particular.
As palavras não são só nossas. Elas signifi- exemplo, acabar com o capital e estabele-
cam pela história e pela língua. O que é dito cer o comunismo ou o socialismo em todo o
em outro lugar também significa nas “nossas” mundo aparentemente não é possível?
palavras. O sujeito diz, pensa que sabe o que Justamente pela multiplicidade de sujei-
diz, mas não tem acesso ou controle sobre o
tos e, portanto, de discursos, os quais têm
modo pelo qual os sentidos se constituem
nele. Por isso é inútil, do ponto de vista dis- sentidos diversos. Afinal, “[...] se os senti-
cursivo, perguntar para o sujeito o que ele dos - e os sujeitos – não fossem múltiplos,
quis dizer quando disse “x” [...]. O que ele sa- não pudessem ser outros, não haveria ne-
be não é suficiente para compreendermos cessidade de dizer” (ORLANDI, 2015, p. 36),
que efeitos de sentido estão ali presentifica- pois tudo já estaria dado e seria compreen-
dos (ORLANDI, 2015, p. 30). (Grifos nossos)
dido - teria sentido.
Das palavras expendidas percebemos, Além disso, nunca é demais lembrar que:
sucintamente, que a autora quer nos dizer Todo dizer é ideologicamente marcado. É na
que o discurso não surge do nada e inde- língua que a ideologia se materializa. Nas pa-
pendentemente de nossas volições, mas lavras dos sujeitos. [...], o discurso é o lugar
que somos por ele atravessados de tal mo- do trabalho da língua e da ideologia. [...],
do que não conseguimos nem explica-lo, [bem como], não há discursos que não se re-
lacionem com outros. Em outras palavras, os
descrevê-lo, seja ele próprio ou o seu fun-
sentidos resultam das relações: um discurso
cionamento. aponta para outros que o sustentam, assim
Isso, porque: como para fazer futuros. Todo discurso é vis-
to como um estado de um processo discursi-
Na realidade, embora se realizem em nós, os vo mais amplo, contínuo. Não há, desse mo-
sentidos apenas se representam como origi- do, começo absoluto nem ponto final para o
nando-se em nós: eles [os sentidos] são de- discurso. Um dizer tem relação com outros
terminados pela maneira como nos inscre- dizeres realizados, imaginados ou possíveis
vemos na língua e na história e é por isto que (ORLANDI, 2015, p. 36-37). (Grifos nossos)
significam e não pela nossa vontade. Quando
nascemos os discursos já estão em processo
3 A ANÁLISE DO DISCURSO: HISTÓRIA DO
e nós é que entramos nesse processo. Eles se
originam em nós. Isso não significa que não MÉTODO, PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOS
haja singularidade na maneira como a língua
e a história nos afetam. Mas não somos o iní- No tema deste tópico, inicialmente, cum-
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pre denotar que: vinculadas às ciências humanas e sociais,


como psicologia, antropologia, filosofia,
A Análise do Discurso concebe a linguagem sociologia, história etc. Para este estudioso,
como mediação necessária entre homem e
a AD é um estudo das várias técnicas de
realidade natural e social. Essa mediação,
que é o discurso, torna possível tanto a per- processamento de signos, por meio do qual
manência e a continuidade quanto o deslo- se observa acuradamente o poder dos dis-
camento e a transformação do homem e da cursos, sejam os falados ou os escritos1.
realidade em que ele vive. O trabalho simbó- Maingueneau (2015) diz que após a
lico do discurso está na base da existência
chamada virada linguística se passou a es-
humana (ORLANDI, 2015, p. 13). (Grifos nos-
sos) tudar os tipos de textos e falas (os gêneros
textuais), a relação entre a língua e a socie-
Nessa toada, atualmente existe um cam- dade. O objetivo era compreender as rela-
po de estudo que se dedica à função de es- ções entre os textos e as situações históri-
tudar a mediação entre homem e lingua- co-sociais e sócio-históricas nas quais eles
gem, o qual é nominado Análise do Discur- eram produzidos. Maingueneau (2015) co-
so. Mas, por que devemos analisar discur- menta que as pesquisas começaram de um
sos? Eles não são claros quando são ditos, modo muito diversificado. Falava-se de vá-
enunciados, pronunciados, auscultados? rias coisas ao mesmo tempo e em vários
Bem, caro leitor, à evidência, os discur- lugares. Pairava no ar uma espécie de de-
sos não têm uma interpretação unívoca sorganização. Assim, quanto à origem da
quando (e porque sempre) chegam a vários AD, temos que:
receptores. Você já deve ter escutado a ve-
Trata-se de um espaço de pesquisa fervilhan-
lha expressão: cada um vê as coisas ao seu te e que não pode ser remetido a um lugar de
modo. É exatamente assim que funciona a emergência exato. Atribui-se frequentemente
vida: todo discurso é interpretado de uma um papel fundador a pensadores tais como E.
forma diferente por cada pessoa que o re- Goffman, L. Wittgenstein, M. Foucault ou M.
cebe. Qual a importância, então, da AD? Bakhtin; indubitavelmente, eles tiveram um
papel importante, mas a abordagem de cada
“Pois é justamente pensando que há muitas
um deles abrange apenas parte desse imenso
maneiras de significar que os estudiosos campo, e nenhum deles recortou, mesmo
começaram a se interessar pela linguagem com outro nome, um território que recobris-
de uma maneira particular que é a que deu se mais ou menos o da atual análise do dis-
origem à Análise do Discurso” (ORLANDI, curso. Só poderíamos construir uma história
2015, p. 13). Desse modo, é a AD o principal quase linear se nos restringíssemos a deter-
minadas correntes (MAINGUENEAU, 2015, p.
instrumento pelo qual interpretamos os
15).
discursos em todas as suas variações.
Mas, o que é materialmente a AD? Bem, Outrossim, em sede de definição da AD,
o francês Maingueneau (2015) assevera que válidos também são os dizeres de Potter e
a AD não é apenas uma extensão da linguís-
tica, sendo em verdade um campo de estu-
1
do transdisciplinar, pós-disciplinar, hetero- Escritos também, pois como “o universo do discurso [...]
é profundamente heterogêneo [...] não se pode unificá-
gêneo e que é atravessado por um plexo de lo em torno do modelo dominante da comunicação fa-
várias outras áreas de conhecimento/saber ce a face” (MAINGUENEAU, 2015, p. 11).

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Discurso, Análise do Discurso e Discurso Político: ponderações conceituais 41
Wetherell (1987, p. 6, apud Maingueneau, tempo e no espaço das práticas do homem,
2015, p. 29) que esclarecem: descentrando a noção de sujeito e relativi-
zando a autonomia do objeto da linguística
A análise do discurso é uma perspectiva radi- [...] refletindo sobre a maneira como a lin-
calmente nova que tem implicações sobre o guagem está materializada na ideologia e
conjunto das questões psicossociológicas [...] como a ideologia se manifesta na língua
os outros métodos se recusam a levar em (ORLANDI, 2015, p. 14-15). (Grifos nossos)
conta ou mascaram o caráter ativo, constru-
tor do uso da linguagem na vida cotidiana. Mas, claramente, o que diferencia, en-
tão, a AD dos outros estudos discursivos
Nessa direção, diz-nos Maingueneau (retórica, sociolinguística, análise da con-
(2015) que a AD congloba em si e em seus versação, psicologia discursiva, análise do
estudos três dimensões, quais sejam: língua conteúdo etc.)? Bem, nos diz Maingueneau
(mais amplamente, os recursos semióticos (2015) que a AD confere tratamento espe-
disponíveis em uma sociedade), a atividade cial aos aspectos da língua(gem) na medida
comunicacional e o conhecimento (os di- em que analisa sua função e estrutura na
versos tipos de saberes, individuais e coleti- comunicação verbal.
vos, mobilizados na construção do sentido A AD, diz Maingueneau (2015), é o único
dos enunciados). Para o referido autor, a campo que objetiva estudar a articulação
AD se distingue dos outros campos de estu- entre texto e situação de comunicação. Afi-
dos justamente porque agrupa essas três nal, “a Análise do Discurso despertou a von-
perspectivas em face de outras disciplinas tade de saber quais são as condições de
que privilegiam uma só. Por exemplo, os produção do discurso de um indivíduo? Por
sociólogos acentuam a atividade comunica- que ele produz determinados discursos?”
cional, os linguistas privilegiam as estrutu- (PAES, 2009, p. 32). Logo, a situação de
ras textuais, e os psicólogos enaltecem as produção de um discurso coaduna-se às
condições do conhecimento. suas condições de produção.
Entrementes, Maingueneau (2015) lem- Portanto, em outros vocábulos:
bra que não podemos confundir o campo
O interesse específico que rege a análise do
dos estudos de discurso com o da análise
discurso é relacionar a estruturação dos tex-
do discurso, pois esta é mais específi- tos aos lugares sociais que o tornam possíveis
ca/restrita do que aquele. A AD possui um e que eles tornam possíveis [...]. O objeto da
ponto de vista específico sobre o discurso, análise do discurso não é, então, nem os fun-
notadamente uma visão baseada em aspec- cionamentos textuais, nem a situação de co-
tos políticos, ideológicos, filosóficos e socio- municação, mas o que os amarra por meio de
um dispositivo de enunciação simultanea-
lógicos.
mente resultante do verbal e do institucional
Estudos de discurso são quaisquer pes- (MAINGUENEAU, 2015, p. 47).
quisas relacionadas genericamente a todos
os campos do discurso, o que também se Outro aspecto relevante que merece ser
relaciona à gramática, à sintaxe etc., ao trazido à baila é pensarmos que a AD não é
passo que a AD é um conjunto de estudos a mesma coisa que a análise de conteúdo.
discursivos que: Isso, pois:
Visam pensar o sentido dimensionado no

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42 Teles

A análise de conteúdo [...] procura extrair Aliás, em verdade, podemos analisar


sentidos dos textos, respondendo à questão: qualquer coisa, pois tudo é único nesta vi-
o que este texto quer dizer? Diferentemente
da. Assim:
da análise de conteúdo, a Análise de Discurso
considera que a linguagem não é transparen-
Uma análise dos grafites, das conversas, dos
te. Desse modo ela não procura atravessar o
romances pornográficos, dos panfletos publi-
texto para encontrar um sentido do outro la-
citários ou dos textos administrativos é tão
do. A questão que ela coloca é: como este
legítima quanto uma análise do discurso filo-
texto significa? (ORLANDI, 2015, p. 15-16).
sófico ou literário: quaisquer que sejam suas
(Grifos nossos)
diferenças de prestígio, pode-se distribuí-los
num mesmo espaço, apreendê-los por meio
Este, inclusive, é um dos pontos mais a- dos mesmos conceitos, pensar suas relações
traentes da AD: o fato de ela não “defender na unidade do interdiscurso (MAINGUENEAU,
a imanência do sentido, ou seja, um signifi- 2015, p. 60).
cado primeiro, original, imaculado e fixo
capaz de ser localizado no interior do signi- Ao lado disso, fato é que, como nos ensi-
ficante” (CARNEIRO, 2008, p. 37), fazendo na Maingueneau (2015), por exemplo, basi-
com que nos estudos da AD existam várias camente para analisarmos um discur-
visões sobre tudo sempre. so/texto é necessário:
Afinal, por certo:
[...] que o texto considerado seja singular, ex-
A Análise do Discurso acredita na multiplici- traordinário: por meio dele uma fonte trans-
dade de sentidos, para ela todo signo é polis- cendente nos envia uma mensagem; que esta
sêmico. Tanto é que um único significante mensagem trate de questões essenciais para
pode passar por inúmeros processos de signi- nós, que a lemos; que esta mensagem esteja
ficação. E, como afirma Barthes (1993, p. 136- necessariamente oculta; que seja necessária
141), o próprio signo pode transformar-se em uma exegese, uma ‘leitura’ não imediata do
simples significante de outro signo, em uma texto para decifrá-lo: o comum dos mortais
dada situação, e, igualmente, um mesmo sig- não tem acesso direto a ela (MAINGUENEAU,
nificado pode ser encontrado em vários signi- 2015, p. 57).
ficantes. Portanto, o sentido possui um cará-
ter movente (CARNEIRO, 2008, p. 37). Pois bem, já vimos o que é a AD, o que
ela analisa. Agora precisamos verificar co-
Então, mediante o exposto, temos que a mo são feitas análises mediante esse campo
AD é um método de analisar discursos? Cor- de estudo. Quais são os procedimen-
reto? Exato! Mas, quais são os discur- tos/princípios a seguirmos para analisarmos
sos/textos que podem ser analisados? Po- discursos? Podemos analisar da forma que
demos analisar tudo o que há no mundo? bem entendermos?
Bem, esta é outra questão complexa. Caso Bem, precisamos entender que na AD,
apreendamos as coisas objetivamente sem como nas outras áreas das ciências huma-
nunca subjetivar nada, não poderemos ana- nas e sociais, existem “[...] múltiplas ‘cor-
lisar quase nada com vieses da AD. A pari rentes’ (‘escolas’, ‘teorias’ [...]) [e] uma cor-
passu caso permitamos que os abstracio- rente associa certa concepção do discurso e
nismos nos cheguem poderemos analisar da finalidade de seu estudo a um aparato
muitas coisas que nos são dadas.

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Discurso, Análise do Discurso e Discurso Político: ponderações conceituais 43
conceitual e metodológico específico 2 ” é preciso aceitar ver a crítica voltar-se contra
(MAINGUENEAU, 2015, p. 49), assim, vários si mesmo (MAINGUENEAU, 2015, p. 57).
são os modos/procedimentos de analisar
discursos. Ademais, malgrado esta factibilidade de
Contudo, em nosso tempo tem se so- a AD ser vista também como um discurso,
bressaído um modo de analisar discursos contaminado pelos valores particulares de
chamado de análise crítica do discurso. Nes- seus instrumentalizadores, em essência, a
te campo da linguagem, o objetivo é “[...] leitura diferenciada proposta pela AD rela-
desvendar interesses que o discurso [...] ciona-se à entronação de uma perene busca
tentaria dissimular [...] desmontar proces- pelo sentido das coisas, dos significantes.
sos que abrem caminho à violência, à dis- Inconformação é a palavra do método AD.
criminação, à injustiça” (MAINGUENEAU, Exercer a AD é “buscar os significados do
2015, p. 53). Isso, pois analisando-se criti- signo, não necessariamente encontrá-los,
camente discursos, tem-se o escopo de “[...] mas buscá-los. [...] significados no plural,
mostrar como o discurso é posto a serviço porque os signos são sempre plurais (poli-
de interesses escusos, o mais das vezes in- valentes, dialógicos)” (TELES, 2016, p. 36).
conscientes” (MAINGUENEAU, 2015, p. 54). Nesse caminho é que a AD se distingue
Mas, esta análise discursiva que se no- da linguista nos seguintes termos:
meia crítica se baseia em que? É boa mes-
O analista do discurso [...] não tem o mesmo
mo? Bem, a AD crítica é baseada em uma objetivo do linguista da língua. Ele não estuda
tentativa de erigir “[...] leitura que vá além [por exemplo] o significado de “austeridade”
do sentido superficial do texto para decifrar ou de “diversidade”, mas elementos pré-
o interesse inconfessável que nele está dis- construídos no interdiscurso, associados ao
artigo definido: as fórmulas “a austeridade”
simulado” (MAINGUENEAU, 2015, p. 56).
ou “a diversidade”. O analista do discurso não
Todavia, “o problema é [...] que não exis- pode trabalhar, no entanto, sem levar em
te um ponto de vista sobranceiro e neutro. conta as restrições impostas pela língua. “Di-
A suspeita não tem fim. Todo empreendi- versidade”, por exemplo, é um substantivo
mento crítico deve conviver com o temor feminino derivado de um adjetivo por um su-
de ver-se acusado de ter sucumbido àquilo fixo de significado particular, -idade: é um
substantivo que nunca se emprega no plural
que pretendia desmontar” (MAINGUENE-
e porta um valor positivo. Em dado momen-
AU, 2015, p. 57). to, um processo neológico o fez passar de um
Mas isso é ruim? Bem, certamente: uso relativo (“a diversidade de X”) a um uso
absoluto (“é preciso promover a diversida-
[...] o analista crítico está constantemente de”), cujo referente é vago. Mas esse proces-
sob a ameaça da acusação de ser apenas um so é ininteligível se não estiver relacionado
pesquisador como os outros, de ser coopta- ao jogo de forças, aos interesses, às estraté-
do, ele também, pelos jogos de poder que gias que, num certo momento, tornaram ao
pretende denunciar [...] [porém], a partir do mesmo tempo necessário e problemático o
momento em que exerce uma função crítica, uso de tal fórmula (MAINGUENEAU, 2015, p.
97). (Grifos nossos)
2
Em síntese, podemos dizer, ainda, que “cada corrente
categoriza o campo de pesquisa de que participa em Portanto, a AD “não se contenta com es-
função de seus próprios interesses” (MAINGUENEAU,
2015, p. 51).
tudo dos textos: ela os relaciona ao funcio-

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44 Teles

namento das instituições que os produzem esclarece que há condições gerais de emer-
e os gerem” (MAINGUENEAU, 2015, p. 61). gência e estratégias-padrão que se ofere-
Além disso, a AD “não se interessa pelos cem a todo o ator político, sejam quais fo-
indivíduos enquanto tais, mas, sobretudo, rem as posições e ideias defendidas por ele.
pelo(s) estatuto(s) que eles ocupam em um Portanto, é plenamente possível que uma
domínio de atividade. [Ela] focaliza a imbri- mesma estratégia possa ser empregada em
cação de um lugar social e de um texto por lugares diferentes no tabuleiro do jogo polí-
meio de um dispositivo de enunciação” tico.
(MAINGUENEAU, 2015, p. 75). Conforme Charaudeau (2015), no seio
político é complexo definir o que seja o dis-
4 O DISCURSO POLÍTICO curso político, sendo possível apenas con-
ceber que neste campo social existe feroz
Para Patrick Charaudeau (2015), vivemos relação entre linguagem, ação, poder e ver-
um mundo de máscaras e como existem dade. Para Charaudeau (2015), segundo o
várias, diversas identidades são factíveis. princípio da alteridade, cada sujeito somen-
Nessa direção, o disfarce, que nem sempre te pode definir-se em função do outro. Se-
se refere a uma imagem falsa/enganosa, gundo o princípio da influência, o sujeito
mas a uma imagem/interpretação, é o que sempre quer trazer o outro para si para que
constitui a nossa presença e a nossa relação esse outro pense, diga ou aja segundo sua
com o outro. Sempre no que é dito, diz Cha- vontade. Além do que, se esse outro tam-
raudeau (2015), haverá o que não é dito, bém puder ter seu particular projeto de
que também é dito, mesmo sem ser perce- influência, conforme o princípio da regula-
bido. ção, os dois gerenciarão (influenciarão na)
Então, o discurso político é o lugar social sua relação.
dos jogos de máscaras. Diz Charaudeau O problema está justamente nessa regu-
(2015) que toda palavra dita neste campo lação, pois nem todos têm acesso a ela. To-
(na política) deve ser apreendida ao mesmo dos pensam, dizem e agem, mas nem todos
tempo pelo que ela não significa, não de- têm (acesso a) projetos de influência, os
vendo nunca ser tomada ao pé da letra, quais dependem de recursos diversos, infe-
numa transparência elevadamente ingênua, lizmente não disponíveis para todos. Assim,
mas como produto de uma estratégia cujo a força de alguns sempre vai se sobressair.
enunciador quase sempre não é soberano. Afinal, “todo ato de linguagem está ligado à
Consigna Charaudeau (2015) que o dis- ação mediante as relações de força que os
curso político, que é um gênero discursivo, sujeitos mantêm entre si, relações de força
comporta em si subgêneros, ou espécies que constroem simultaneamente o vínculo
mesmo de discursos, como o discurso de
direita, o de esquerda, o fascista, o totalitá- ca o pensamento político, que não está reservado ape-
rio, o democrático, o extremista etc. Entre- nas aos responsáveis pela governança nem aos solitá-
rios pensadores da coisa política” (CHARAUDEAU, 2015,
tanto, mesmo existindo várias tipologias de
p. 40), não está falando do discurso político de modo
enunciação política 3 , Charaudeau (2015) genérico como a ideia de Aristóteles de ser o homem
um animal político (tudo é política), mas sim somente
3
Por oportuno, ressaltamos que Charaudeau, malgrado do discurso político em âmbito parlamentar/legislat-
acredite que existem “diferentes lugares onde se fabri- ivo/eleitoral.

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Discurso, Análise do Discurso e Discurso Político: ponderações conceituais 45
social” (CHARAUDEAU, 2015, p. 17). Porém, espaço de discussão que determina os valo-
nem essas forças não são equivalentes e res responda um espaço de persuasão no
qual a instância política, jogando com argu-
sempre haverá sujeitos com mais força, seja
mentos da razão e da paixão, tenta fazer a
econômica, política, simbólica etc. instância cidadã aderir à sua ação. Todos os
Outrossim, obtempera Charaudeau grandes políticos disseram, ou deram a en-
(2015) que no plasma sócio-político da vida tender, que a arte política reside em uma boa
humana existem duas principais instâncias, gestão das paixões coletivas, isto é, um “sen-
tir com os outros” que, é preciso acrescentar,
a política e a cidadã. Esta se ligada à escolha
os torna cegos quanto às suas próprias opini-
dos representantes do povo no poder e a- ões e motivações pessoais (CHARAUDEAU,
quela à realização da ação política, também 2015, p. 19). (Grifos nossos)
no poder.
Nessa toada: Contudo, quanto a essa ação a qual a ins-
tância política quer sempre que o cidadão
A instância política, que é de decisão4, deve, adira, devemos lembrar que à instância po-
portanto, agir em função do possível, sendo
lítica não importa se os cidadãos singular-
que a instância cidadã a elegeu para realizar o
desejável. Nasce, assim, um exercício difícil mente vão aderir ou não. Para ela basta
do poder político, que consiste em ditar a lei apenas que seus ideais sejam partilhados
e sancioná-la, sempre se assegurando do por um número mínimo de pessoas, isso
consentimento da instância cidadã (CHA- para que se mantenha no poder sob uma
RAUDEAU, 2015, p. 19).
aparência de aprovação na medida em que
a discussão entre quem lhe apoia e quem
Mas, como a instância política consegue
lhe faz oposição já é um fundamento de
convencer legitimamente a instância cidadã
legitimação de per si (grosso modo: alguém
a seguir suas leis, bem como a aquiescer
me quer no poder!).
com suas criações? Isso se dá fora da lin-
Além disso, essa ação política é um tanto
guagem? Não! Como tudo o que é munda-
abstrata, porquanto em política o que vale
no ocorre no trilho do trem da linguagem, a
mais, às vezes, é a palavra. Por exemplo:
seara política usa da comunicação. Dessa
maneira, o poder comunicativo político: [...] quando se produzem ações de protesto
que fazem pressão sobre o governo, pode-se
[...] remete à busca pela dominação legítima perguntar o que tem maior influência: se os
– que, sem necessariamente justificar a vio- slogans e outras declarações da imprensa
lência, garante o acesso da instância política (palavra) ou se o número de manifestantes e
ao poder, ou sua manutenção nessa posição - os distúrbios causados na economia do país
, pois ela se encontra permanentemente a- pelas greves e barricadas (ação)? E quando o
meaçada por uma sanção física (golpe de Es- governo deve responder a essas reivindica-
tado), institucional (derrubada de governo) ções, o que é que pode acalmar o jogo: uma
ou simbólica (descrédito). Isso faz com que ao campanha de persuasão voltada às categorias
afetadas para convencê-las dos fundamentos
4
Cremos, igualmente a Charaudeau (2015), que a instân-
da situação em curso (palavra) ou medidas
cia cidadã não é de decisão, pois o povo não decide concretas para a redução efetiva das taxas de
quem quer no poder. Votamos em candidatos que já juros ou o aumento da renda (ação)? O go-
foram escolhidos. Só temos as opções que nos são da- verno da palavra não é tudo na política, mas
das, não podendo votar em qualquer pessoa. Não há, a política não pode agir sem a palavra: a pa-
portanto, decisão e sim escolha.

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46 Teles

lavra intervém no espaço de discussão para política é repleta de armadilhas e, enaltece


que sejam definidos o ideal dos fins e os mei- Charaudeau (2015), a instância política,
os da ação política; a palavra intervém no es-
mediante o jogo de máscaras, nunca pro-
paço de ação para que sejam organizadas e
coordenadas a distribuição das tarefas e a mete coisas muito mirabolantes (inuma-
promulgação das leis, regras e decisões de nas), pois age com certa ética de responsa-
todas as ordens; a palavra intervém no espa- bilidade, se debatendo entre uma verdade
ço de persuasão para que a instância política do/no dizer (ordem da razão) e uma verda-
possa convencer a instância cidadã dos fun-
de do/no fazer (ordem da paixão).
damentos de seu programa e das decisões
que ela toma ao gerir os conflitos de opinião Marques (2013) nos diz, por exemplo,
em seu proveito (CHARAUDEAU, 2015, p. 21). que o discurso político eleitoral é marcado
profundamente pela presença de enuncia-
Ainda quanto à palavra e à ação, para dores midiáticos, por uma espetaculariza-
Charaudeau (2015), o poder político é o ção e autolegitimação. Isso, porquanto uma
somatório dialético de dois componentes fala (ou discurso) com vieses eleitorais é
da atividade humana: o debate de ideias e o uma fala imersa no plasma de querelas par-
fazer político. Neste são tomadas decisões e tidárias, de busca por votos etc.
erigidos atos (administrativos ou legiferan- Neste tipo de discurso, diz esse autor ci-
tes) e naquele, que deve ocorrer no espaço tando outrem:
público, as opiniões são trocadas e influen-
ciam umas às outras. Fato é que, quanto a O sujeito político busca construir a imagem
de conhecedor percuciente de sua área e a-
estes componentes:
presenta-se detentor de dado saber cujo a-
tributo outorga-lhe credibilidade: “anunciar-
[...] os dois se definem segundo relações de
se como sendo aquele que sabe e pode pro-
força que exigem processos de regulação,
mover a elisão ou o abrandamento da insatis-
que se desenvolvem segundo um jogo de
fação que, de fato, lhe é estrutural e necessá-
dominação que lhe é próprio. Cada um o faz
ria, parece ser uma das características do dis-
misturando linguagem e ação: no primeiro é
curso do campo político” (PIOVEZANI, 2009,
a linguagem que domina; no segundo a ação.
p. 136). [...] O sujeito político [eleitoral] não
O primeiro é o lugar de uma luta discursiva na
pode pestanejar, precisa ter respostas de i-
qual muitos golpes são permitidos (manipula-
mediato como forma de fazer sobressair sua
ção, proselitismo, ameaças/promessas etc.),
competência. Essa autolegitimação implica o
estando em jogo a conquista de uma legiti-
apagamento de falhas e realce de acertos. Em
midade por meio da construção de opiniões;
contrapartida, em relação a sujeitos que ocu-
o segundo é o lugar onde se exerce o poder
pam posições antagônicas, evidenciar-se-á o
de agir entre uma instância política que se diz
contrário. Haverá o recrudescimento de erros
soberana e uma instância cidadã, sendo o de-
e debilidades, bem como o apagamento de
safio o exercício de uma autoridade mediante
acertos, conquistas ou vitórias desses adver-
uma dominação feita de regulamentação e de
sários. Nesse sentido, a necessidade de boa
sanção (CHARAUDEAU, 2015, p. 23).
persuasão, de argumentos convincentes se
faz presente. O político precisa ser um influ-
Assim, então, grosso vernáculo, existe enciador para que consiga interpelar os elei-
grande diferença entre o que os políticos, a tores e deles conquistar os votos. Isso pode
se eleger e os em mandato, prometem e o acarretar, muitas vezes, no desrespeito aos
limites e à perda do bom senso. Daí a ten-
que fazem efetivamente. Por isso, a palavra
dência em se pender para o espetáculo políti-

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Discurso, Análise do Discurso e Discurso Político: ponderações conceituais 47
co [...] se por um lado o sujeito afirma sua subjetividades: “a orquestração dos escânda-
própria capacidade, por outro tentará retirá- los encoraja o cinismo da opinião e preside o
la de seus oponentes (MARQUES, 2013, p. desenvolvimento de uma cultura da descon-
442). fiança em relação às pessoas públicas”
(COURTINE, 2006, p. 143). Essa desconfiança
Ademais, como estampa Duarte (2006), que reside o discurso político é ecoada em
os discursos eleitorais têm como caracterís- frases do cotidiano como “político é tudo [sic]
ladrão”, atestando o descrédito social latente
ticas básicas: a construção de uma imagem
em relação aos agentes políticos. Isso se a-
para os candidatos; discussões e debates grava com as constantes divulgações de cor-
sobre problemas sociais a serem resolvidos; rupção e falta de punição dos culpados. O re-
ataques a adversários; pedagogia do voto sultado é que “a noção de informação perde
(ensinamento ao eleitor de como o voto sua referencialidade e a realidade política se
enfraquece” (COURTINE, 2006, p. 142)
deve ser feito, quais os números, como le-
(MARQUES, 2013, p. 441).
var anotado etc.); a escolha de uma gramá-
tica sistêmico-funcional (escolha de léxicos, O que fazer, então? Como produzir dis-
palavras de efeito, expressões, slogans, mú- cursos melhores em nosso tempo? Falas
sicas etc.); processo relacional-verbal com o mais éticas? O maior aliado de discursos,
povo (falar a língua do povo); e processo diz Orlandi (1993), é a história. Cabe a ela
relacional-material (estar perto do povo). tentar promanar pelo tempo como real-
Quanto aos discursos parlamentares, es- mente os fatos ocorreram. Diz a autora que,
tes discursos não têm muitas diferenças dos por exemplo, o Grito da Independência do
discursos eleitorais, pois nestes e naqueles Brasil, que é interpretado pelo povo brasi-
os enunciadores podem usar de mentiras, leiro como um ato instaurador da soberania
de persuasão, de artimanhas e estratégias nacional, constituiu-se em verdade como
diversas. Estes discursos são a prova viva de uma declaração de guerra a Portugal que
que política não é apenas conquistar o po- objetivava garantir o direito à propriedade
der, mas também o exercer. Os parlamen- dos grandes donos de terras que aqui já
tares precisam, durante seus mandatos, a estavam radicados há muito tempo. Assim,
todo o momento propor projetos, fazer es- a dita Independência do Brasil foi um ato
clarecimentos sobre suas ações, enfim dia- isolado, motivado por causas econômicas,
logar com quem neles votou. O problema eliciado por uma classe isolada e não por
está no fato de que tal diálogo, que deveria todo o país, como certas narrativas detur-
ser espontâneo, geralmente visa a solidifi- padas nos dizem. É necessário buscar novos
car votos para (re) eleições ulteriores. paradigmas, aproximar-se mais da verdade,
Outro problema em nossa época é o fato da práxis da vida.
de que os discursos parlamentares, assim
como os eleitorais, não têm tido muito cré- 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
dito/confiança por parte do povo brasileiro.
Como noz diz Marques (2013) citando ou- Chegamos ao fim desse nosso modesto
tro: prosaico dissertativo de noções básicas so-
bre discurso, análise do discurso e discurso
O modo de produção do discurso político na
político. Esperamos ter contribuído para o
atualidade [...] [aponta] para a produção de

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48 Teles

engendro de reflexões no leitor, mormente MAINGUENEAU, D. Discurso e análise do


o leitor que desconhecia o tema. discurso. Tradução de Sírio Possenti. São
Em tempos de crise política, bem como Paulo: Parábola Editorial, 2015.
da premente necessidade de eleições dire- MARQUES, W. Discurso, Mídia e Política: da
tas no Brasil, fica a mensagem sobre ser Utopia ao Caos sob análise. Veredas Online
urgente firmar em nossas mentes que tudo – Atemática, Juiz de Fora, v. 17, n. 2, p. 437-
é motivado, bem como ideológico, e, por 452, 2013.
isso, nenhum ato discursivo humano tem ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princí-
significação automática, sendo imprescindí- pios e procedimentos. 12. ed. São Paulo:
vel sempre interpretarmos e analisarmos os Pontes Editores, 2015.
signos que nos chegam de forma acurada. ______. Discurso fundador: a formação do
Tal comportamento pode nos livrar de exis- país e a construção da identidade nacional.
tirmos em situação de subsunção extrema Campinas: Pontes, 1993.
aos discursos ocultos maléficos, provenien- PAES, K. N. G. M. O processo de autoria em
tes dos poderosos ou dos que querem ao textos escritos por alunos do curso de Di-
poder chegar. reito. Dissertação de Mestrado (Mestrado
em Letras – Linguagem e Identidade). Rio
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Vieira. São Paulo: Hucitec, 2014. gem e Identidade). Rio Branco: Universida-
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Acre: heroísmo e patriotismo no último o-
este. Dissertação de Mestrado (Mestrado
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em Letras – Linguagem e Identidade). Rio access article distributed under the terms of the Creative
Branco: Universidade Federal do Acre - U- Commons Attribution License, which permits unrestricted
FAC, 2008. use, distribution, and reproduction in any medium, provi-
ded the original work is properly cited.
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ção de Fabiana Komesu e Dilson Ferreira da
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DUARTE, R. D. O ‘fazer’ em discursos políti- Aceito em 26 de maio de 2017.
cos: uma abordagem funcional. 33º Inter. Publicado em 18 de agosto de 2017.
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da em 2 de dezembro de 1970. Tradução de conceituais. Estação Científica (UNIFAP),
Laura Fraga de Almeida Sampaio. 24. ed. Macapá, v. 7, n. 1, p. 33-48, jan./abr. 2017.
São Paulo: Loyola, 2014.
Estação Científica (UNIFAP) https://periodicos.unifap.br/index.php/estacao
ISSN 2179-1902 Macapá, v. 7, n. 1, p. 33-48, jan./abr. 2017