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BALEIAS E BALEEIROS

PATRIMÔNIO CULTURAL
E CONSERVAÇÃO AMBIENTAL

FABIANA COMERLATO
ORG

DANIEL QUIROZ
.
BALEIAS E BALEEIROS
patrimônio cultural e conservação ambiental
(Página Intencionalmente deixada em branco)
Fabiana Comerlato
Daniel Quiroz
Organizadores

BALEIAS E BALEEIROS
PATRIMÔNIO CULTURAL E
CONSERVAÇÃO AMBIENTAL

1ª Edição

Pelotas
BasiBooks
2019
Copyright © 2019, BasiBooks, Pelotas, Rio Grande do Sul, para esta edição.
.
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 5988 de 14/12/73. Nenhuma parte deste
livro, sem autorização previa por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida
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quaisquer outros.

Editoração, design e diagramação: BasiBooks

Imagem da Capa: Metodo de pescar as Baléas, le as conduzir para terra e delas extrahir azeite.
1820. Litogravura. Fonte: MACHADO, Osni; GERLACH, Gilberto (orgs.). São José da terra firme.
São José (SC): Floriprint, 2007, p. 332.
Direito de publicação em Língua Portuguesa, Brasil:

2019, Editora BasiBooks


Pelotas, Rio Grande do Sul, CEP 96020-000. CNPJ: 04.244.276/0001-76
E-mail: basibookscontato@gmail.com
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ISBN 978-85-54082-05-5

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

C7327 COMERLATO, Fabiana

Baleias e baleeiros [livro eletrônico]: patrimônio


cultural e conservação ambiental / Fabiana Comerlato;
Daniel Quiroz (Organizadores). 1. ed.– Pelotas:
BasiBooks, 2019.87 p.

PDF – EBOOK

Inclui Bibliografia.

ISBN: 978-85-54082-05-5

1. Antropologia Cultural 2. História das Américas

CDU 39
CDD 970

Observação: Os textos contidos neste dossiê são de responsabilidade exclusiva de seus


respectivos autores, incluindo a adequação técnica e linguística.
SUMÁRIO
PREFÁCIO...........................................................................................................................2

IMPORTÂNCIA DE EXEMPLARES ÓSSEOS NA CONSERVAÇÃO DA ESPÉCIE


Clara Resende Pires; Victor Melo Souza e Marcos Roberto Rossi-Santos.............................3

O DESENHO DE BALEIAS NOS DIÁRIOS DE BORDO DE NAVIOS BALEEIROS


NORTE AMERICANOS DO SÉCULO XIX
Fabiana Comerlato...............................................................................................................10

AS MEMÓRIAS DA BALEAÇÃO: história oral e práticas do património nos Açores


Francisco Henriques............................................................................................................27

HISTÓRIAS QUE UMA BALEIA PODE CONTAR: da caça à proteção da natureza em


Abrolhos/BA
Janaina Zito Losada.............................................................................................................37

DA CAÇA À CONSERVAÇÃO DE BALEIAS NO BRASIL


Luena Fernandes. Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti.................................................48

PLANTANDO A HISTÓRIA BALEEIRA PARA COLHER CONSERVAÇÃO DA


BIODIVERSIDADE: a importância do resgate sobre as interações entre humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi-Santos e Renata Martinho Zambonim........................................................58

ATÉ ONDE O TURISMO DE OBSERVAÇÃO PODE INTERFERIR NO


COMPORTAMENTO DOS CETÁCEOS?
Ruanna Chaves-Santos, Giovanna Simões dos Santos Bastos, Drielle Sâmela Costa da Cruz
e Marcos Roberto Rossi-Santos............................................................................................69

O USO DO VELEIRO COMO FERRAMENTA DE CONSERVAÇÃO MARINHA E


RESGATE HISTÓRICOCULTURAL DA RELAÇÃO ENTRE O HOMEM E OS
CETÁCEOS
Tais Bemfica Araujo, Carlos Eduardo Copatti, Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos
Santos Lewis.........................................................................................................................76

SOBRE OS AUTORES........................................................................................................85
BALEIAS E BALEEIROS: patrimônio cultural e conservação ambiental
Prefácio

Caro(a) leitor(a),

Este livro reúne um conjunto de pesquisas relativas aos cetáceos, em especial, as


baleias. Grande parte de seu conteúdo foi apresentado do II Simpósio Internacional de
História e Antropologia da Indústria Baleeira nos Mares da América do Sul, no eixo
temático Memória, patrimônio e identidades baleeiras sul-americanas.

O simpósio foi realizado no Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB,


cidade de Cachoeira, Estado da Bahia, em maio de 2017, quando buscou dar continuidade
as discussões acerca do tema a fim de estreitar as relações entre pesquisadores do campo
da Antropologia, História e áreas afins. Como uma ação da Red de Culturas Balleneras
de Sudamerica, teve como meta debater as teorias e os métodos empregados nos estudos
que vêm sendo desenvolvidos por investigadores de vários países da América do Sul
sobre a caça da baleia e o beneficiamento dos seus derivados para fins comerciais ao
longo dos séculos.

Particularmente, neste evento pudemos ampliar as abordagens, propiciando ao


público informações científicas sobre a conservação ambiental, os estudos de
comportamentos de cetáceos, com as contribuições do Projeto Baleia Jubarte e do
Laboratório de Ecologia Acústica e Comportamento Ambiental da Universidade Federal
do Recôncavo da Bahia.

Portanto, o livro aqui apresentado, oferece ao leitor artigos voltados tanto aos
aspectos biológicos quanto aos culturais. Em especial, o debate da memória e do
patrimônio baleeiro tornam-se importantes para as construções das heranças culturais
regionais, como ocorre no Chile e nos Açores.

Grande parte das pesquisas com as baleias jubartes apresentadas nesta coletânea
foram possíveis graças ao trabalho, contínuo e interrupto, de conservação ambiental no
Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, extremo sul da Bahia. Séculos atrás, baleeiros
passavam por Abrolhos e aumentavam seus stocks de óleo quando cada baleia era
derretida em caldeirões dentro dos próprios navios. Por pouco, as novas gerações não
teriam conhecido esses grandes seres marinhos. Cabe a elas a missão de preservar os
oceanos e sua biodiversidade, para que novas histórias de interação entre a humanidade e
as baleias possam ser contadas no futuro.

Saudações baleeiras,
Fabiana Comerlato e Daniel Quiroz

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Importância de exemplares ósseos na conservação da espécie
Clara Resende Pires; Victor Melo Souza; Marco Roberto Rossi-Santos

IMPORTÂNCIA DE EXEMPLARES ÓSSEOS NA


CONSERVAÇÃO DA ESPÉCIE
Clara Resende Pires
Victor Melo Souza
Marcos Roberto Rossi-Santos

INTRODUÇÃO
A diversidade biológica, ou biodiversidade, é representada por todas as espécies de seres vivos
existentes no planeta. O termo bio vem do grego bios, que significa vida, portanto, biodiversidade é
a diversidade da natureza viva, é a variedade de vida no planeta Terra. Este termo coincidiu com o
aumento da preocupação com a extinção de espécies observada nas últimas décadas do século XX.
A ameaça à diversidade biológica é fato recente, e os cientistas podem conhecer como os sistemas
vivos são influenciados pelas mudanças da diversidade. Como está ocorrendo uma rápida
transformação da paisagem e da vida selvagem, há uma certa urgência em se obterem tais
informações. O conhecimento sobre a biodiversidade é também muito importante para avaliar o
impacto das mudanças globais no clima (BARBIERI, 2010).
O conceito atual de biodiversidade e o consenso entre cientistas e ativistas sobre a urgência em
evitar que a biodiversidade continuasse a ser destruída pelos excessos da espécie humana conduziram
a um deslocamento na maneira de enfocar a questão da conservação da natureza (FRANCO, 2013).
O grande valor dessa biodiversidade justifica investimentos visando sua conservação, sobretudo em
razão do seu potencial para a biotecnologia atual, portanto, também traz benefícios econômicos, que
representa mais um incentivo para sua conservação (BARBIERE, 2010).
O meio ambiente é uma das maiores preocupações das nações, despertando, atualmente, grande
interesse em todos os países. As consequências dos danos ambientais não se confinam mais aos
limites territoriais, mas ultrapassam fronteiras e, costumeiramente, atingem regiões distantes
(MONTE BLANCO; LINK, 2001), a partir dessas preocupações os fundamentos do processo de
Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) foram estabelecidos nos Estados Unidos no ano de 1969,
quando o Congresso aprovou a “National Environmental Policy of Act”, também conhecida pela sigla
NEPA, (DIAS, 2001). No processo de Avaliação de Impactos Ambientais, são caracterizadas todas
as atividades impactantes e os fatores ambientais que podem sofrer impactos dessas atividades, os
quais podem ser agrupados nos meios físico, biótico e antrópico, variando com as características e a
fase do projeto (SILVA, 1994).

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Importância de exemplares ósseos na conservação da espécie
Clara Resende Pires; Victor Melo Souza; Marco Roberto Rossi-Santos

Conservar a diversidade de vida do planeta, significa proteger a multiplicidade de formas de


vida que se manifestam entre a crosta terrestre e a fina camada de gases que a reveste, a chamada
biosfera (WILSON, 1997), e se dá através do conjunto de práticas destinadas à proteção da
diversidade biológica, visando a manutenção da diversidade genética, dos processos ecológicos e dos
sistemas vitais essenciais (UICN, 1984).
Atualmente, a biodiversidade constitui o objeto de estudo de pesquisadores em todo o mundo e
tem nas coleções científicas sua documentação básica. Essas coleções têm como principal objetivo
armazenar, preservar e ordenar o acervo de espécimes representando a diversidade biológica de uma
determinada área. Os estudos na área da biodiversidade e, consequentemente, o estudo visando sua
conservação, necessitam de ferramentas e inúmeras informações que podem ser adquiridas por meio
das coleções osteológicas, as quais são de grande importância científica tanto em museus como nas
universidades (SILVEIRA, 2008).
A exposição, de coleções osteológicas, ou seja, de peças ósseas, em museus e/ou eventos, é um
recurso para se explicar aspectos evolutivos das espécies e, ao se fazer a análise comparativa das
formas dos animais, acredita-se que as pessoas, independentemente do nível sociocultural, são
capazes de entender a relação de proximidade entre as espécies. A partir disso, é possível despertar
atitudes éticas e preservacionistas que, se consolidando, estimulam a consciência para a conservação
da biodiversidade (FERREIRA et al., 1999).
A análise da “forma e função”, destacando-se a analogia de construção entre as espécies
animais, serve como método de conscientização e alerta da necessidade de preservar a natureza
animal para a continuidade da biodiversidade. A metodologia das exposições se baseia no fato de
que, se o indivíduo viu e fez, não se esquecerá; assim, se concretizará o chamamento ético para cada
indivíduo que vivenciou tal experiência com sentimento de mudança, em prol da conservação das
espécies animais (RESENDE et al., 2002).

METODOLOGIA

A coleção osteológica, pertencente ao Laboratório de Ecologia Acústica e Comportamental


(LEAC), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), foi obtida através da parceria
com o Instituto Baleia Jubarte (IBJ), com sede em Caravelas-BA, que doa seus exemplares ósseos
para a Instituição, os quais provêm de animais encontrados em encalhes em praias que pertence à
faixa litorânea coberta pelo IBJ. Os cadáveres passam por processos para total remoção da pele, carne,
músculos e nervos (elementos não-ósseos), na própria sede do Instituto. Os ossos foram limpos

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Importância de exemplares ósseos na conservação da espécie
Clara Resende Pires; Victor Melo Souza; Marco Roberto Rossi-Santos

durante a dissecação e o tecido mole restante foi removido através de maceração em água e / ou
lavagem e secagem (GROCH et al., 2012).
Este preparo deve seguir algumas etapas e, inicialmente, deve-se evitar o uso de ossos de
animais que tenham tido como causa da morte enfermidades ósseas, pois as mesmas podem
descaracterizar as estruturas morfológicas originais, o próximo passo é o descarnamento, o qual
consiste na retirada da tela subcutânea e músculos, evitando danificar as superfícies ósseas. A última
etapa refere-se à maceração propriamente dita, ou seja, manter as estruturas anatômicas em
substâncias específicas com capacidade para dissolver elementos não-ósseos (SILVEIRA et al.,
2008).
Depois da limpeza, são identificados e catalogados, por meio de numerações e, assim, são
guardados ou utilizados para exposições, ou doados para outras instituições, como museus e
Universidades.
Para o LEAC, foram doadas algumas peças ósseas desarticuladas, como um esqueleto axial de
Balaenoptera acutorostrata, baleia Minke-Anã, 2 vértebras e 2 costelas de Megaptera novaeangliae,
baleia Jubarte e 3 esqueletos completos (axial e apendicular) de golfinhos, 2 da espécie Sotalia
guianensis, boto-cinza e 1 da espécie Tursiops truncatus, golfinho nariz-de-garrafa (Fig. 1).

Fig. 1: Golfinho nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus). Foto: Clara Pires

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Importância de exemplares ósseos na conservação da espécie
Clara Resende Pires; Victor Melo Souza; Marco Roberto Rossi-Santos

Para a montagem dos esqueletos dos golfinhos, foram seguidas as normas do manual
“Articulations of a porpoise skeleton” (POST, 2003). Para este processo, foram utilizados materiais
práticos, como vergalhão de construção para dar sustentabilidade ao esqueleto axial (Fig. 2), dando a
possibilidade de moldar a posição representando os movimentos anatômicos reais. Já o esqueleto
apendicular é preso com arame, obedecendo à anatomia do animal e ambos os esqueletos são furados
com o auxílio de uma furadeira em locais identificados no guia para a passagem do vergalhão e do
arame, com a assistência de cola quente para fixar uma parte óssea em outra deixando o produto final
mais rígido, melhorando assim a manutenção da peça.

Fig. 2: Montagem do esqueleto golfinho nariz de garrafa (Tursiops truncatus). Foto: Victor Souza

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A exposição (Fig. 3) realizada durante os dias 24,25,26 de maio de 2017, aberta em períodos
matutino e vespertino, contemplou um público de aproximadamente 553 pessoas numa faixa etária
abrangente, em média, dos 18 até 50 anos de idade. Além dos participantes do evento, a exposição
envolveu estudantes da UFRB do campus de Cachoeira (CAHL), moradores e estudantes de escolas
(Fig. 4) da região.

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Importância de exemplares ósseos na conservação da espécie
Clara Resende Pires; Victor Melo Souza; Marco Roberto Rossi-Santos

Fig. 3: Resultado da exposição montada. Foto: Ruanna Chaves

Fig. 4: Alunos de uma escola da região em visita a exposição. Foto: Victor Souza

Alguns colaboradores foram importantes para o bom funcionamento da exposição, como o


Laboratório de documentação e arqueologia (LADA), onde o trabalho em parceria começou no
planejamento até a montagem e o Instituto Baleia Jubarte (IBJ), que contribuiu emprestando peças
visuais, aumentando a variedade de matérias expostos.
As coleções osteológicas têm grande importância em instituições de pesquisa como museus e
universidades servindo de referência para a identificação de espécimes principalmente quando se trata

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Importância de exemplares ósseos na conservação da espécie
Clara Resende Pires; Victor Melo Souza; Marco Roberto Rossi-Santos

de levantamento faunístico para estudos de impacto ambiental e/ou relatórios de impactos em meio
ambiente, em ambos os casos não é incomum a necessidade de se identificar partes isoladas do
esqueleto o que torna-se impossível sem a aplicação dos princípios da anatomia comparada
certamente auxiliada pelo material de uma bem estruturada coleção osteológica de referência
(NUNES, 2003).
As coleções didáticas destinam-se ao ensino por meio de exposições, demonstrações em aula
ou treinamento de pessoal. Podem conter exemplares sem dados, pois servem apenas para mostrar
semelhanças e diferenças entre grupos de indivíduos, ou também para a prática de atividades como a
identificação. Uma coleção osteológica pode receber visitações diárias, atuando como plataforma de
divulgação cientifica para o público em geral. O uso de esqueletos auxilia nas atividades científicas
e didáticas, pois fornecem informações seguras sobre as adaptações específicas dos vertebrados,
como por exemplo, sustentação, postura e modo de locomoção e há grande importância no uso dos
esqueletos como ferramentas fundamentais tanto para pesquisa científica, na identificação de
caracteres para análises anatômicas e filogenéticas (SILVEIRA, 2008).

CONCLUSÃO

A utilização de uma osteoteca é de suma importância, uma vez que caracteriza-se como um
acervo a mais na obtenção de informações a respeito das espécies animais, como o entendimento de
sua anatomia, fisiologia, adaptação, aspectos evolutivos, pois conhecer tais características, que
determinam uma espécie animal específica, é o passo básico para formulação de planos de
conservação, atua também aproximando a sociedade com as espécies presentes na coleção, por meio
de exposições, onde as pessoas terão um maior acesso a informações sobre a espécie, em comparação
a alguns outros meios didáticos, como fotos ou vídeos, aumento o olhar crítico sobre os impactos
sofrido pelas espécies representadas, tornando a criação, manutenção, manuseio e exposição de
coleções osteológicas uma ferramenta importante para a conservação da fauna.

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Importância de exemplares ósseos na conservação da espécie
Clara Resende Pires; Victor Melo Souza; Marco Roberto Rossi-Santos

REFERÊNCIAS
DIAS, E.G.C.S. Avaliação de Impacto Ambiental de projetos de mineração no Estado de São Paulo: a etapa de
acompanhamento. Tese (Doutorado em Engenharia Mineral) – Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São
Paulo, 2001.
FERREIRA, J. R.; LUIZ, C. R.; MATA, J. R.; MIRANDA, D. F.; CARNEIRO, L. B. O papel educativo do museu
didático. Arq. Ciências e Saúde Unipar, v. 3, n. 2, maio-agosto de 1999.
GROCH, K. R.; MARCONDES, M. C. C.; COLOSIO, A. C.; CATÃO-DIAS, J. L. Skeletal abnormalities in
humpback whales Megaptera novaeangliae stranded in the Brazilian breeding ground. Diseases of Aquatic
Organisms, v. 101, 2012.
MONTE BLANCO, S. A. M. & LINK, D. Uma análise comparativa das legislações fitossanitárias dos países do
Mercosul. CREA/RS, Porto Alegre, 2001.
NUNES, P.V.; PERÔNCIO, C. Implantação e proposta de informatização da coleção osteológica de referência do
laboratório de zoologia e anatomia comparada do Unileste, MG. 2003.
POST, L. Articulations of a porpoise skeleton: a step by step guide to assembling small whale skeletons. Bone building
books, v.1, 2003.
RESENDE, A. L.; FERREIRA, J. R.; KLOSS, D. F. M.; NOGUEIRA, J. D.; ASSIS, J. B. Coleção de animais
silvestres, fauna do cerrado no sudoeste goiano, o impacto em educação ambiental. Arq. Apadec, v. 6, n. 1, janeiro –
junho de 2002.
SILVA, E. Avaliação qualitativa de impactos ambientais do reflorestamento no Brasil. Tese (Doutorado em Ciência
Florestal) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 1994 b.
SILVEIRA, M. J.; TEIXEIRA, G. M.; OLIVEIRA, E. F. Análise de processos alternativos na preparação de esqueletos
para uso didático. Acta Scientiarum. Biological Sciences, Maringá, v. 30, n. 4, 2008.
SILVEIRA, M. J; OLIVEIRA, E. F. A importância das coleções osteológicas para o estudo da biodiversidade. Rev.
Saúde e Biologia, v. 3, n. 1, julho-dezembro de 2008.
UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Estratégia Mundial para a Conservação: a conservação
dos recursos vivos para um desenvolvimento sustentável. São Paulo: CESP. 1984.
WILSON, Edward O. A situação atual da diversidade biológica. In: WILSON, Edward Osbourne; PETER,
Frances M (editores). Biodiversidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

O DESENHO DE BALEIAS NOS DIÁRIOS DE BORDO DE


NAVIOS BALEEIROS NORTE AMERICANOS DO SÉCULO
XIX

Fabiana Comerlato

INTRODUÇÃO

A caça das baleias pode ser considerada como um fenômeno global: não há oceano
que não tenha sido tingido de sangue. Ao longo da história da humanidade, vários povos
experimentaram esta atividade, criando territórios e culturas voltadas à baleação. O recorte
temporal que pretendemos analisar corresponde à caça pelágica norte-americana, que se trata
da caça de baleias em alto mar por volta da metade do século XIX até os anos 20 do século
XX, sob bandeira americana (REEVES et. al, 2003, p. 9).

Nos Estados Unidos predominou a indústria baleeira do século XIX, contudo não
estavam sozinhos além-mar. A atividade baleeira de ingleses, franceses e espanhóis não deve
ser ignorada, pois fazia dos oceanos um cenário de disputas e estratagemas para melhoria da
pesca: melhor conhecimento dos padrões de rota migratória dos espécimes de baleias,
melhorias náuticas, planejamento adequado das viagens, estudos sobre a qualidade do óleo.
As operações baleeiras nas zonas pelágicas foram redefinidas entre 1775 e 1800
(RICHARDS, 1993, p. 1).

Os portos americanos consagraram-se pela quantidade de empresas baleeiras e


número de embarcações rumo ao Índico, Pacífico e Atlântico Sul (especialmente nos “Bancos
do Brasil, vide Fig. 1). Em 1833, existiam muitos portos de armamento baleeiros nos Estados
Unidos: New Bedford, Fairhaven, Nantucket, New London, Bristol, Warren, Edgardtown,
Falmouth, Hudson, Newport, Plymouth, Salem, Fall River, Rochester e vários pequenos
ancoradouros (AFONSO, 1998, p. 24). Para exemplificar a grandiosidade dessa indústria, em
1857, New Bedford contava com 329 embarcações baleeiras e 10.000 homens dispostos a ir à
faina pelos mares (CAZEILS, 2000, p. 89). O registro americano de galeras, barcas, briques e
outras embarcações baleeiras gira em torno de 15.000 viagens (SMITH et. al., 2010, p. 87).

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

Fig. 1. Recorte da Carta C de Townsend, referente aos registros da baleia franca, com indicação do “Brazil
Banks”. Fonte: TOWNSEND, 1935.

O alvo principal da caça americana era o cachalote, Physeter macrocephalus, que


rendia muito mais óleo que outras espécies e provinha o espermacete e âmbar gris. Esta
espécie de baleia ficou mundialmente conhecida em razão da novela de Herman Melville. O
gênero literário marítimo foi muito popular nos Estados Unidos no século XIX, quando se
destacam as obras: Narrative of the most extraordinary and Distressing Shipwreck of the
Whale-ship Essex (1821) de Owen Chase; The Pilot: a Tale of the Sea (1823) de James
Fenimore Cooper; Two Years Before the Mast (1840) de Richard Henry Dana Júnior; e mais
famosa, Moby Dick (1851) de Henry Melville.
Podemos dizer, que a literatura marítima torna-se uma moda também na Europa com
diários de bordo sendo publicados, trazendo ao leitor as (des)aventuras e peripécias nos mares
longínguos. O marinheiro e cientista francês Pierre Marie François de Pàges publica o
segundo volume de Voyage autour du monde (1782), no qual revela detalhes da baleação e da
biologia da baleia durante viagem em um baleeiro holândes (TROELSTRA, 2016, p. 329). No

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

início do século XIX, a obra do oficial da Marinha Achille Saint-Aulaire, Campagne d’un
baleinier autour du monde: croquis et notes d’un officier du bord, contou com edições em
francês e inglês, ricamente ilustrada com litografias (COHAT, 1992, p. 162).
Esta literatura era em parte ficcional e em parte autobiográfica, já que estes autores em
sua juventude navegaram e trabalharam em navios baleeiros , antecipa o trabalho dos
naturalistas marítimos na integração entre ciência e narrativa (PATTERSON et. al., 2008, p.
175). Em 1838, o capitão Henry Acton escreve suas experiências pessoais e memórias
emblemáticas da baleação para o seu filho William, aconselhando-o de forma didática sobre o
que mais era importante na atividade baleeira. Henry relata um incidente que ocorreu em uma
embarcação do Capitão Scoresby na primavera de 1811, além de outros acidentes e episódios
(ACTON, 2008, p. 58).
No século XIX, eram conhecidas diversas espécies de baleias sendo grande parte deste
conhecimento atribuído à atividade baleeira através dos dados empíricos da tripulação e pelos
estudos de naturalistas que embarcavam nessas viagens. A enciclopédia de biografias de
escritores naturalistas americanos reconhece a importância das seguintes obras e autores:
Observations on the Whale-Fishery (1788) de Thomas Jefferson; An Account of the Artic
Regions, with a History and Description of the Northern Whale-Fishery (1820) de William
Scoresby; American Whale Fishery (1828) de John Davidson Godman e The Marine
Mammals of the North-western Coast of North American (1874) do Capitão Charles Melville
Scammon (PATTERSON et. al., 2008). Os naturalistas franceses Bernand Germain e
Frederick Cuvier foram importantes referências no século XIX para os estudos de cetáceos
(MELVILLE, 2012, p. 153).

A caça de baleias se dava em alto mar podendo durar alguns meses ou até cinco anos,
agrupando homens de várias origens étnicas (DREW et. al. 2016, p. 8181). Durante o tempo
que singravam os oceanos em busca de baleias, os baleeiros e os marinheiros se dedicavam à
faina nos barcos, à caça e beneficiamento de baleias, e às mais variadas formas de arte e
artesanato denominadas de scrimshaw1. O trabalho era monótono no início da viagem
sobrando mais tempo para o fumo, os jogos, as músicas e para a criação dos scrimshaw (Fig.
2). De acordo com Paul Gilje, o tema da arte baleeira não trata somente do mundo náutico,
mas é uma interação entre o mundano e as culturas marítimas (GILJE, 2016, p. 246).

1
“SCRIMSHAW (skrim’shô – substantivo, 1851 (origem obscura. Náut). Nome genérico dado por marinheiros
à manufactura de passatempos durante as viagens de baleação ou outras e aos produtos resultantes como as
gravações sobre osso, marfim, conchas e quejando material” (AFONSO, 1998, p. 141).

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

Fig. 2. Exemplo de scrimshaw em dente de cachalote. Acervo: Museu dos Baleeiros, Lajes, Açores. Foto:
Fabiana Comerlato, 2009.

O registro dessas viagens foi documentado em diários de bordo oficiais – os


logbooks, em jornais e em diários de bordo pessoais de membros da tripulação ou passageiros,
a exemplo de marinheiros, médicos e algumas esposas (COSTA, 2012, p. 141). Os diários de
bordo eram os registros oficiais mantidos a bordo e escritos por oficiais de primeira linha.
Cabe uma ressalva, em relação a grande similaridade na estrutura e conteúdo desses
documentos, o que pode acarretar em dificuldades em sua correta classificação (GILJE, 2016,
p. 66). Os diários dos viajantes misturam autobiografia, relatos de viagem e literatura trágico
marítima; já os logbooks são registros sistemáticos feitos geralmente à noite quando eram
anotadas dia a dia as principais informações da viagem (GILJE, 2016, p. 66-67).

Nos logbooks eram registradas todas as atividades que aconteciam na embarcação, o


cruzeiro, a distância, vento, clima, as coordenadas geográficas (latitude e longitude), os
marcos geográficos, informações sobre áreas portuárias, embarcações de outras bandeiras, as

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

mortes e os acidentes2, a quantidade de animais caçados e de barris de óleo, carne e ossos


produzidos e armazenados (GILJE, 2016, p. 67). Nestes diários de bordo também podemos
encontrar representações visuais que reforçam os eventos mais importantes das viagens
baleeiras: o avistamento de baleias, a caça, as embarcações, as referências geográficas
relevantes e a presença de outros animais marinhos.

Como explica Ricardo Manuel Madruga da Costa, em sua obra sobre a presença
americana na Ilha do Faial, Açores:

Detalhes da navegação e progresso da rota, da “pesca” e da produção de óleo,


situação sobre o desempenho do pessoal e da disciplina de bordo; escalas e
operações de abastecimento de víveres; consumo de provisões embarcadas,
desembarque de óleo em portos da rota para baldeação para os Estados Unidos –
tudo o que havia de relevante se registrava no diário de bordo, documento por
vezes ilustrado com esboços e desenhos alusivos, tanto aos locais de passagem,
como à ilustração de outros navios encontrados (COSTA, 2012, p. 146).

Aquele que era proprietário de um logbook era dono de objeto caro, que ao mesmo
tempo, era um registro legal testemunho de sua atuação na embarcação e um registro de
cunho pessoal de valor afetivo (GILJE, 2016, p. 76-77). Um mesmo logbook poderia conter
várias viagens até de embarcações diferentes (GILJE, 2016, p. 76). Os diários poderiam
conter elementos inusitados como poemas, orações, anotações, colagens de notícias de
jornais, cartas de amor e até serenatas em código, tornando, assim, cada exemplar único.

Os diários de bordo de navios baleeiros, conhecidos na literatura internacional como


whaling logbooks, são fontes documentais importantíssimas para a biologia, a geografia, a
história marítima, econômica e social. Para os estudos ambientais, os logbooks tem propiciado
a elaboração de séries históricas sobre a variação climática e distribuição de espécies de
baleias, por conter informações de navegação de forma contínua (OGDEN, 2016, p. 620).

Nos Estados Unidos existem instituições museológicas com coleções de logbooks: o


Whaling Museum em New York, o Mystic Seaport Museum em Mystic, Rogers Memorial
Library, a Biblioteca Pública de Providence, o Martha's Vineyard Museum em Massachusetts,
dentre muitas outras coleções públicas e particulares. A principal coleção de logbooks
americanos está no New Bedford Whaling Museum – maior museu sobre a temática no
mundo – com 2.300 exemplares; aproximadamente 100 deles foram digitalizados e estão

2
Alpheus Hyatt Verril relata vários acidentes com embarcações baleeiras no capítulo True stories of whaling do
livro The real story of the whale, como esta: Em março de 1796, no navio Harmony de Rochester, o capitão
George Blankenship afundou o navio durante uma perseguição na costa do Brasil; o navio e a carga foram
perdidos, contudo, a tripulação conseguiu se salvar nos botes (VERRIL, 1916, p. 127).

14
O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

disponíveis na internet para visualização. Para esta pesquisa selecionamos logbooks e


journals, principalmente da Nicholson Whaling Collection da Providence Public Library, em
especial, aqueles documentos que relatam viagens ao Atlântico Sul, todos esses estão
disponíveis pela internet para consulta e download.

OS DESENHOS NOS DIÁRIOS DE BORDO

Os logbooks eram cadernos de formas e tamanhos variados. Os primeiros eram com


capa em tela e costurado com cordas; no século XIX as capas eram de couro e as páginas com
linhas pautadas delineando os locais para inserção de cada informação do dia (GILJE, 2016,
p. 70). Nos diários de bordo pesquisados, encontramos livros pautados com o selo de lojas de
artigos náuticos de New Bedford: Charles R. Sherman & Co.; John Kehew e William C.
Taber & Son. Geralmente são compostos de: capa; contracapa com informações do barco,
porto de origem, autor, data; registros diários da viagem ilustrados ou não; e ao final,
poderiam ter listas de baleias caçadas semelhante à demonstração do resultado do exercício.

Os diários de bordo dos navios baleeiros eram escritos à mão em letra cursiva,
combinando caracteres numéricos, informações textuais e registro visuais, a exemplo de
desenhos a mão livre e de figuras carimbadas. A qualidade da grafia dependia muito de cada
autor, geralmente aqueles que têm uma boa caligrafia e organização textual são os que
apresentam os melhores desenhos. Os livros eram escritos em tinta nanquim ou a lápis
(grafite). A maioria dos desenhos e carimbos acompanham o relato do dia e ficam na margem
esquerda da folha. Os desenhos de embarcações e cenas de caça também podiam ocupar uma
folha inteira.

Os carimbos eram talhados em madeira com desenhos de embarcações, espécies de


baleias, caixões, dentre outros. No caso de alguns carimbos de baleias no meio do desenho
havia um entalhe, que ao imprimir o carimbo ficava um espaço vazio para que se pudesse
escrever a quantidade de óleo depurado daquela baleia. Existem diários de bordo que foram
ilustrados somente com carimbos, aqueles que misturam carimbos com desenhos à mão livre
e aqueles somente desenhados a nanquim e/ou aquarela (Fig. 3).

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

Fig. 3. Exemplo de registro em um diário de bordo. Acervo: Whaling Museum, New Bedford, USA. Fonte: Yves
Cohat, 1992.

A temática dos desenhos gira em torno de alguns temas principais nos diários de
bordo: baleias de diversas espécies e tamanhos (inteiras e nadadeiras caudais); embarcações,
ilhas, paisagens e acidentes geográficos; animais da fauna marinha; cenas de caça; figuras
patrióticas, povos nativos e outros desenhos com temas variados (casas, flores, figuras
humanas em cenas ou rostos, instrumentos náuticos) (GILJE, 2016, p. 246-255).

O desenho das embarcações geralmente é uma visão de perfil, feitas com carimbos
ou a mão livre, aparecem de duas maneiras: 1) esboços de embarcações avistadas nas margens
das folhas em pequenas dimensões e; 2) a própria embarcação da viagem ocupando uma
página inteira, geralmente nas páginas iniciais dos diários de bordo (Figs. 4 e 5). Raramente, a
depender da habilidade do autor, o diário de bordo era ilustrado com embarcações vistas de
frente, detrás ou de algum outro ângulo (GILJE, 2016, p. 247-248; compare as imagens da
Fig. 4). Esses desenhos que preenchiam uma página toda, geralmente, contêm detalhes das
velas, cabos, bandeiras, casco, provavelmente feitos através da observação nos portos de

16
O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

origem. A imagem 4 da Figura 5, utiliza os cabos das velas como linhas de um caderno para
escrever um poema de cunho amoroso.

Richard Henry Dana Júnior, autor de Two Years Before the Mast, elenca algumas
embarcações da frota baleeira americana: navio (ship), barca (bark), brique com dois mastros
(full-rigged brig), bergantim (hiermaphrodite brig), escuna de gávea (topsail schooner),
escuna de vela pequena (fore-and-aft schooner) e corveta (sloop) (DANA JÚNIOR, 1851, p.
22). Além dessas embarcações, os botes baleeiros, conhecidos na literatura brasileira como
baleeira, ficavam à disposição no convés dessas embarcações preparadas para a caça pelágica.
As embarcações foram também esculpidas nos scrimshaws, como forma de comemorar a
viagem (GILJE, 2016, p. 255; vide Fig. 2).

Fig. 4. Carimbos de embarcações: 1, 2, 4, 6) brique; 3) barca; 5, 11) navio; 7) bergantim; 8, 12) escuna; 9)
escuna de gávea; 10) embarcação com chaminé representada. Acervo: Nicholson Whaling Collection da
Providence Public Library. Fonte: PETTY, 1860.

17
O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

Fig. 5. Desenho de embarcações baleeiras: 1) Sam & Thomas; 2) Kate Cory; 3) Alexander Cofin e 4) Barca
China. Acervo: 1) Whaling Museum, New Bedford; 2, 3, 4) Nicholson Whaling Collection da Providence Public
Library. Fonte: 1) Logbook Chili; 2) PETTY, 1858-1860; 3) MAYHEW, 1849-1850 e 4) GIFFORD, 1872-1876.

Na imensidão dos oceanos, quando se avistava um pedaço de terra na linha do mar


era mencionado e desenhado. Ilhas, acidentes geográficos, praias, portos e faróis eram
desenhados de duas formas: desenhos de silhueta, apenas com o contorno, ou desenhos que
retratavam a paisagem de forma mais cenográfica (Fig. 6). As ilhas geralmente tinham seu
relevo desenhado, portos e praias contavam com desenhos mais elaborados. Apesar da
existência de mapas, nem todos os navios mercantes tinham estes documentos, assim
desenhar localidades, marcos na paisagem e, até mesmo, mapas fazia parte do registro visual
de um diário de bordo (GILJE, 2016, p. 253).

Fig. 6. Desenho do por do sol no Cabo de São Roque, Brasil. Acervo: Nicholson Whaling Collection da
Providence Public Library. Fonte: ROBBINS, 1862-1863.

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

A fauna marinha é representada pelos desenhos de distintas espécies de baleias


comercializáveis, além de desenhos de tubarões, tartarugas, peixes sol, golfinhos, orcas,
toninhas, pássaros e pinguins (Fig. 7). Nos diários de bordo consultados é comum encontrar
referência da captura desses animais para consumo alimentar3. As iniciais do pescador, nome
do animal e quantidade podiam acompanhar os desenhos (vide desenhos 6 e 8 da Figura 7).
As aves eram importantes para os navegantes já que indicavam a proximidade com a terra,
como o albatroz e a pomba-do-cabo (vide desenho 3 da Figura 7) (GILJE, 2016, p. 250).

Fig. 7. Quadro com desenhos da fauna marinha em diários de bordo: 1) carimbo de tartaruga; 2) peixe-lua; 3)
pomba-do-cabo; 4) golfinho; 5) tubarão; 6) golfinho; 7) orca; 8) golfinhos. Acervo: Nicholson Whaling
Collection da Providence Public Library. Fonte: 1) GRINNELL, 1845-1858; 2, 3 e 4) MAYHEN, 1849-1850; 5)
ROBBINS, 1862-1863; 6, 7 e 8) ALLEN, 1869-1872.

Quando aportavam em praias aproveitavam para o abastecimento de água e víveres e


iam caçar pinguins, leões marinhos e focas. O capitão Henry em seu livro de 1838, nos
fornece uma litografia da caça de pinguins no Ártico, quando a tripulação de um baleeiro
abate os animais por meio de golpes de maças. As focas também eram alvo dos baleeiros, sua
pele era requisitada como matéria prima para jaquetas de automobilismo, criando uma
vestimenta leve e impermeável (CAZEILS, 2000, p. 87).

3
O fígado e os músculos magros do golfinho eram temperados e empanados, era um prato conhecido como
porpoise balls (BURNETT, 2007, p. 127).

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
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AS BALEIAS NOS DESENHOS DOS DIÁRIOS DE BORDO

Os desenhos de baleias eram feitos de duas formas: com carimbos e a mão livre (Fig.
8), feitos a lápis, a bico de pena e em aquarela. As formas de representar as baleias variam, a
maneira mais expedita de desenhar era traçando a silhueta do animal de forma rápida e ligeira,
outros desenhos são mais detalhados utilizando técnicas com o sombreamento e o pontilhado.
Os desenhos lineares basicamente se restringiam ao contorno do animal em perfil. Já os
desenhos sombreados e pontilhados indicavam a morfologia, comportamento, padrões de
cores e texturas (SMITH et. al., 2013, p. 42).

Nos diários de bordo, existiam algumas convenções que indicavam situações


específicas da caça de baleias. O desenho ou carimbo da cauda da baleia para cima indicava
que uma baleia foi arpoada, mas não se obteve êxito tendo a mesma se soltado do arpão ou
afundado (Fig. 8). O desenho ou carimbo de uma baleia indicava a sua captura, às vezes, junto
à mesma eram anotadas a quantidade de barris de óleo obtidos e as inicias do arpoador
(GILJE, 2016, p. 249).

Fig. 8. Imagem de cauda de baleias a partir de carimbo, a primeira baleia morta e perdida pelo navio Lafaette.
Acervo: Nicholson Whaling Collection da Providence Public Library. Fonte: LAFAETTE, 1844-1847.

Como aponta, Manuel Barbero, a imagem dos animais é reduzida a referência físicas
de suas espécies, a elementos básicos que atuam como estímulo que afeta o comportamento:
“Estos elementos básicos constituirán aquella parte de un animal o de un objeto lo
suficientemente característicos como para poder ser reconocidos exclusivamente a partir de
ella” (BARBERO, 2011, p. 518). Esta capacidade de reconhecer as formas pela experiência
dos baleeiros gerava desenhos de tipos de baleias, distintos entre si por suas características
físicas e comportamentais mais relevantes.

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

A partir de estudos seriados em diários de bordo se pode identificar as espécies


conhecidas à época:

O homem baleeiro americano focou nas sete espécies de baleias em cinco


gêneros: a baleia cachalote (Physeter macrocephalus), a baleia-da- Groenlândia
(Balaena mysticetus), a baleia jubarte (Megaptera novaeangliae), a baleia-
cinzenta (Eschrichtius robustus), a baleia-franca-austral (Eubalaena australis), a
baleia-franca-do-atlântico-norte (Eubalaena glacialis) e baleia-franca-do-
pacífico (Eubalaena japonica). O homem baleeiro distiguia as quatro primeiras
espécies, usando uma variedade de nomes reconhecíveis. O homem baleeiro não
distinguia entre as três espécies de baleia franca nos seus diários de bordo, se
referindo a todos os membros do gênero Eubalaena como simplesmente baleias
francas, mas as espécies envolvidas devem ser inferidas geograficamente como
espacialmente separadas (SMITH et. al., 2012, p. 1; tradução nossa)4

Os baleeiros mostram a preocupação de distinguir cada espécie, como o caso dos


cachalotes5 e das baleias franca6 (SMITH et. al., 2013, p. 55). Nos desenhos de cachalotes
eram acentuadas algumas características próprias da espécie: o formato retangular da cabeça,
a posição do espiráculo, a expiração ou esguicho projetado em ângulo entre 45 a 60 graus7, os
dentes na mandíbula inferior, a crista dorsal (desenhos 1, 2 e 4 da Fig. 9). Nos desenhos das
baleias francas são destacadas as mandíbulas com as barbas, a posição do espiráculo e as
protuberâncias na cabeça (desenho 3 da Fig. 9).

Em alto mar, o avistamento das baleias era uma atividade fundamental para o
sucesso da viagem. O reconhecimento da baleia se dava através de: observação da superfície
do mar, a espuma e as ondulações; da superfície do animal durante o seu período respiratório;
e ainda, a partir do padrão do esguicho, sons emitidos e aparição da crista dorsal e nadadeira

4
American whalemen focused on seven species of whales in five genera: the sperm whale (Physeter
macrocephalus), the bowhead whale (Balaena mysticetus), the humpback whale (Megaptera novaeangliae), the
gray whale (Eschrichtius robustus), the southern right whale (Eubalaena australis), the North Atlantic right whale
(Eubalaena glacialis), and the North Pacific right whale (Eubalaena japonica). The whalemen distinguished the
first four species, using a variety of recognizable names. The whalemen did not distinguish among the three right
whale species in their logbooks, referring to all members of the genus Eubalaena simply as right whales, but the
species involved can be inferred geographically as they are spatially disjunct.
5
O cachalote (Physeter macrocephalus) é a maior espécie da sub-ordem Odontoceti, com machos medindo até
18,3 m e fêmeas 12,5 m de comprimento total (TOLEDO, 2009, p. 42). É característico seu corpo robusto de
coloração uniforme, variando de cinza ao marrom e sua cabeça grande e triangular, correspondendo
aproximadamente a 1/3 do comprimento total do animal (TOLEDO, 2009, p. 42). No Brasil, os cachalotes foram
pescados em regiões bem específicas, no sul da Bahia e a leste de Cabo Frio, se limitando aos meses de
dezembro a fevereiro (RICHARDS, 1993, p. 77).
6
A baleia franca também é chamada de baleia-verdadeira, pode pesar 40 toneladas, possui pele com colorações
preta e eventualmente manchas brancas ventrais e protuberâncias amareladas no alto da cabeça (PALAZZO et.
al., 1989, p. 30). Esta espécie é considerada dócil e lenta, atingindo a velocidade máxima de 10-15 km/h
(PALAZZO et. al., 1988, p. 26).
7
“A coluna expiratória, o bufo, espirro, “espato” ou “esparto” de nossos baleeiros (do “spout” dos anglo-
americanos), tem a forma de uma espessa coluna cilíndrico-cónica, turbulenta em cima, e que se desfaz na parte
superior por uma dilatação nebulosa de contornos indefinidos, coluna que é contínua e potente no caso dos
machos adultos, como que sacudida nos bulos e interrompida ou hesitante nas fêmeas.”(FIGUEIREDO, 1996, p.
58).

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
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caudal (BURNETT, 2007, p. 126-127). Scoresby relata que a baleia poderia sacodir sua
nadadeira caudal no ar e o estrondo ressoar a uma distância de três a quatro milhas
(MELVILLE, 2012, p. 11).

Fig. 9. Desenhos de baleias do Logbook Chili (bark), 1856-1860. KWM#49. Acervo: New Bedford Whaling
Museum. Fonte: Fotos de Daniel Quiroz.

Nos diários de bordo, os desenhos de baleias aparecem representando as nadadeiras


caudais na posição de mergulho, o esguicho, o local do arpoamento, e detalhes da cabeça. Os
desenhos mais detalhados eram cenas das etapas de caça: perseguição, arpoamento,
rebocamento e eventuais acidentes com as baleeiras.

O melhor lugar para conhecer a anatomia de uma baleia era em uma viagem de pesca
à baleia. Neste ponto, os americanos tinham larga experiência, sendo este conhecimento
empírico valorado entre os baleeiros. Henry Melville estabelece dura crítica aos desenhos
científicos e conclui que a experiência da pesca era o modo mais eficaz e, também perigoso,
de se conhecer o ‘aspecto real de uma baleia’:

A baleia viva, em toda a sua majestade e importância, somente pode ser vista nas
incomensuráveis águas do mar, e quando ela nada seu vasto corpo se mantém tão
invisível quanto o porão de um navio de guerra. Fora de seu elemento, é
absolutamente impossível um mortal levantá-la no ar para preservar todas as suas
poderosas ondulações e intumescências. Sem falar a altamente presumível
diferença de contorno entre uma jovem baleia recém-nascida e um leviatã
totalmente desenvolvido. Porém, nem mesmo no caso desses filhotes de baleias
serem içadas para o convés de um navio, tão estranha, escorregadia, extravagante

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

e mutável é sua forma que nem mesmo o diabo poderia reproduzir sua aparência
exata (MELVILLE, 2012, p. 153).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da revisão bibliográfica e da análise de logbooks e journals da Coleção


Nicholson Whaling da Biblioteca Pública de Providence, podemos concluir que: os autores
dos logbooks e journals usavam várias técnicas gráficas para a elaboração dos desenhos;
havia a preocupação em distinguir a espécie ou o tipo de baleia, e; os desenhos de baleias nos
diários de bordo (logbooks e journals) são precurssores dos desenhos científicos.

Os desenhos nos diários de bordo fazem parte da cultura marítima e da arte baleeira,
tornando-se importante registro visuais da caça pelágica do século XIX. Os desenhos eram
realizados por meio de carimbos e traçados a bico de pena e, alguns, em aquarela. A
combinação de carimbos e bico de pena, imprimia as baleias detalhes de sua anatomia nos
quais os baleeiros queriam ressaltar. Os temas dos desenhos nos diários de bordo combinavam
imagens do cotidiano com imagens do universo marítimo, como a fauna marinha e as
embarcações.

Os desenhos de baleia refletiam o conhecimento do homem baleeiro, no tocante as


espécies conhecidas à época. As diferenças anatômicas, as características únicas de cada
espécie eram reproduzidas, indicando a especialização que esta indústria foi adquirindo ao
longo do século XIX em busca de áreas de reprodução e alimentação de cetáceos.

Por fim, verificamos uma relação intrínseca entre os desenhos dos baleeiros e dos
cientistas, já que muitos cientistas embarcaram em navios baleeiros e tiveram contato com a
cultura baleeira durante suas pesquisas. A análise de Félix Lüttge sobre como as baleias são
representadas pictoricamente conclui que as imagens dos diários de bordo são uma antítese
das imagens dos cientistas naturais. Ambas produzem conhecimento sobre as espécies, porém
com objetivos distintos: os baleeiros buscavam meios de melhor caçar um recurso que parecia
infindável e, em contraponto, a ciência buscava um conhecimento sobre os organismos vivos
(LÜTTGE, 2016).

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O desenho de baleias nos diários de bordo de navios baleeiros norte americanos do século XIX
Fabiana Comerlato

REFERÊNCIAS

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GIFFORD, Frank E. Journal. June 5, 1872 – Jan. 23, 1876. 96 p. Illus. 41 cm.

GRINNELL, John. Journal. Oct. 14, 1845-1858. 135 p. Illus. 35 cm.

LAFAYETTE (Ship) New Bedford. Logbook. Sep. 7, 1844 – Aug. 19, 1847. 162 p. Illus. 35 cm.

MAYHEW, A. B. Journal. Aug. 12, 1849 – Jan. 7. 1850. 43 p. Illus. 35 cm.

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ROBBINS, Charles T. Journal. Dec. 1, 1862 – Mar. 8, 1863. 102 p. Illus. 33 cm.

Documentos do New Whaling Museum

Logbook Chili (bark), 1856-1860. KWM#49.

Artigos e livros

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DANA JÚNIOR, Richard Henry. The Seaman’s Friend: containing a treatise on practical seamanship, with
plates; a dictionary of sea terms; custos and usages of the merchant service; laws relating to the practical duties
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Sites consultados

Collections & Research - https://research.mysticseaport.org/

Logbooks and Journals | New Bedford Whaling Museum -


https://www.whalingmuseum.org/explore/library/logbooks-journals

Providence Public Library - Nicholson Whaling Collection: About. -


http://rj5site.net/rj5_nicholson/html/rj5_nicholson_logbooks.html

AGRADECIMENTOS

Aos professores Antônio Wilson Silva de Souza e Daniel Quiróz, e a tradução de Fernanda Comerlato.

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As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

AS MEMÓRIAS DA BALEAÇÃO: HISTÓRIA ORAL E


PRÁTICAS DO PATRIMÓNIO NOS AÇORES

Francisco Henriques

BALEAÇÃO COSTEIRA, AÇORIANIDADE E BALEEIROS


Entre a segunda metade do século XIX e 1984, a baleação (captura de cachalote) com
métodos artesanais teve uma profunda expressão social e económica nos Açores. Desde a
segunda metade do século XVIII, os navios norte-americanos frequentavam as ilhas como
escala de navegação, área de recrutamento e zona de baleação. O desenvolvimento da
indústria baleeira insular esteve condicionado pelo monopólio régio das baleações atribuído à
costa do Brasil até 1808. Após algumas tentativas de armar navios baleeiros na primeira
metade de Oitocentos, a baleação no arquipélago seria iniciada, no último quartel do século,
com a adaptação das canoas baleeiras norte-americanas às bases costeiras e a instalação de
postos de vigia em terra.

A baleação costeira tem sido vista como uma expressão de açorianidade. O seu sucesso
dependeria não só de contingências históricas como a disponibilidade de mão de obra
especializada, os baixos custos de produção e a substituição de negócios exportadores (vinho
e laranja), mas também de um certo determinismo geográfico caracterizado pela abundância
de recursos marinhos, pelo recorte vulcânico das ilhas e dos portos, habitat a que as
populações estariam enraizadas numa “embriaguez de isolamento” 1
. Este carácter
essencialista, quase imutável, ajudaria a compreender como é que os baleeiros açorianos
conservaram praticamente sem alterações as técnicas e utensílios da baleação clássica norte-
americana, mantendo-se alheios à influência da indústria baleeira norueguesa do século XX.
A “indústria-relíquia” açoriana, ao explorar com baixa intensidade os recursos marinhos junto
à costa, teria permitido a sua continuidade ao longo de décadas, ao contrário daquilo que
sucedeu noutros espaços do Atlântico Norte onde os navios a vapor com arpões mecanizados
provocaram a escassez das populações de grandes cetáceos.

No entanto, esta imagem de permanência insular merece ser desconstruída. A baleação


açoriana foi, desde o início, um negócio de transformação e exportação dos produtos do

1
Apesar do seu conteúdo polissémico, referimo-nos aqui à expressão utilizada por Vitorino Nemésio no artigo
“Açorianidade”, Insula, nº 7-8, julho-agosto, 1932. Nesse texto, uma das ideias centrais defendidas pelo autor é
que a sociedade açoriana, pela sua especificidade, deve as suas transformações tanto à História como à
Geografia, isto é, tanto à acção dos homens como ao meio natural que a circunda.

27
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

cachalote, não podendo ser confundida com qualquer prática de baleação aborígene ou de
subsistência. A actividade esteve muito exposta às alterações nos mercados internacionais dos
óleos de baleia e sofreu transformações significativas a partir dos anos 30 com a construção
de fábricas modernas de processamento do cachalote. O estudo da baleação merece, por isso,
que se preste atenção à acção empresarial dos industriais, bem como à intervenção do Estado
Novo no processo de industrialização. Por outro lado, há que considerar também a agência
dos baleeiros enquanto sujeitos da História. A adaptação e reinvenção das técnicas, os
sistemas de transmissão do conhecimento empírico e o impacto da baleação na comunidade
revelam mudanças que influenciaram o desenvolvimento da indústria.

Com a excepção de algumas memórias publicadas em livro, os baleeiros não produziram


informação escrita sobre as suas experiências quotidianas. Todavia, por intermédio de
terceiros, a representação social do “baleeiro” teve pelo menos três manifestações. Uma
primeira, talvez inaugurada por Melville e prosseguida por autores portugueses, equivale a
figura de “baleeiro” ao emigrante, precursor da saída para o continente norte-americano a
bordo dos navios baleeiros – sendo também comum a acepção de pescador-marinheiro – e
que regressa às ilhas, mais tarde, para novamente se fixar no território insular. Uma segunda
manifestação, veiculada pela imprensa ilustrada e o crescimento do turismo insular, revela
uma imagem folclorista do “baleeiro”, síntese de representação dos habitantes locais.
Arrojados, representam a continuidade das actividades dos seus antepassados, enquadrados
em vilas pitorescas e lugares “que a natureza formou” 2. Esta imagem foi corroborada por
viajantes estrangeiros que projectavam nestes locais um ideal de paraíso perdido. Mas foram
também as visões externas que denunciaram a crueza da baleação – e o documentário Les
Hommes de la Baleine (1956), de Mário Ruspoli e Chris Marker, é disso prova –, em terra e
no mar, como um espectáculo sem público e sem glória, apontando o contraste entre a
pobreza dos baleeiros e os produtos de luxo produzidos com óleo de cachalote e consumidos
pelas elites das cidades europeias.

Uma terceira manifestação aponta para o “baleeiro” sofrido, enquanto sujeito - ou classe
– oprimida pela desigualdade social e a injustiça na distribuição da riqueza. Dias de Melo,
escritor da ilha do Pico que denunciou as difíceis condições humanas através da ficção
literária, apresenta uma obra plural e complexa que inclui um registo etnográfico pioneiro. Na
obra Na Memória das Gentes (1985-1991), a transcrição das entrevistas na ilha do Pico

2 Veja-se, por exemplo, a representação da baleação na ilha do Pico na revista Ilustração Portuguesa,
21.03.1910.

28
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

desvela, na primeira pessoa, os acidentes mortais, a penúria das condições materiais, mas
também as migrações de baleeiros entre ilhas, as relações familiares e a forte
interdependência entre o trabalho na terra e no mar. Por vezes, a fragilidade da condição
humana – ou o limite a que esta é imposta no confronto com o cachalote – foi explorada
através da noção do absurdo: em A Mulher de Porto Pim (1983), o escritor italiano António
Tabucchi transcreveu excertos do Regulamento da Pesca de Cetáceos de 1954, ainda em vigor
nos anos oitenta, terminando a sua obra com o epílogo “Uma baleia vê os homens”, no qual
formula um julgamento ético sobre a captura dos grandes cetáceos.

O PATRIMÓNIO BALEEIRO EM DEBATE

Volvidos mais de trinta anos desde o final da baleação, as práticas e percepções


humanas sobre os grandes cetáceos mudaram radicalmente. O processo de patrimonialização3
tem-se focado nos últimos anos na preservação simbólica de espaços industriais e na
reconstrução das tradicionais canoas baleeiras. Em 1998 foi estabelecido o quadro legal para
a protecção do designado “património baleeiro”, mas este foi – e ainda é – apenas aplicável a
bens tangíveis 4 . O governo regional fez importantes investimentos públicos, prestando
atenção ao conteúdo épico e dramático da experiência da baleação, mas também ao facto de
ter sido das poucas actividades económicas presente em todas as ilhas do arquipélago. Na
inauguração do novo museu da Fábrica da Baleia do Boqueirão, na ilha das Flores, o
presidente do governo regional referia-se ao novo museu como mais uma oportunidade para
reforçar a “coesão regional” do território insular5.

Neste sentido, o património baleeiro será uma das mais importantes tradições
inventadas da autonomia regional fundada em 1976, após a revolução democrática de 25 de
Abril de 1974. Por tradição inventada entende-se, segundo Hobsbawm, “um conjunto de
práticas [...] de natureza ritual ou simbólica, [que] visam inculcar certos valores e normas de

3 De acordo com Graça Filipe, a patrimonialização seria um “processo pelo qual certos bens ou elementos são
apreendidos pelos membros de uma comunidade ao ponto de decidirem salvaguardá-los ou preservá-los,
assegurando-lhes continuidade, passando ou não a integrá-los num museu e a atribuir-lhes um estatuto particular
como património – o de objecto museológico.” Ainda que esta definição conceptual seja válida, está pouco
explícita a participação dos governos nesse processo de apreensão, enquanto instituições políticas que
representam a comunidade - facto que consideramos relevante no caso em apreço. Cf. “História da indústria e
construção da memória da Fábrica: patrimonializar o espaço e a paisagem”, in AA. VV. Património Baleeiro dos
Açores, Herança e Modernidade, Museu do Pico, 2011, pp. 100-103.
4 Cf. Decreto Legislativo Regional 13/98/A de 4 de Agosto de 1998 (bem como as alterações introduzidas pelo
DLR nº 13/2014/A).
5 http://www.azores.gov.pt/GaCS/Noticias/2015/Julho/Novo+Museu+da+Fábrica+da+Baleia+do+Boqueirão+ser
ve+objetivo+da+coesão+regional+afirma+Presidente+do.htm .

29
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em


relação ao passado” 6 . Para a construção de uma memória colectiva sobre a baleação
colaboram vários tipos de discursos, monumentos e instituições, com destaque para a
celebração de regatas de canoas baleeiras nas ilhas do Faial e Pico. Essa actividade
performativa não só pretende reproduzir o passado, mas também transmitir e conservar uma
“memória social” a partir de cerimónias comemorativas7, unindo os indivíduos numa mesma
visão do passado. A baleação, por sua vez, revelava uma capacidade de transformação e
adaptação quotidiana, associada à captura e morte do cachalote, cuja preservação não seria
consensual.

De acordo com Arne Kalland, as mudanças globais na percepção pública sobre os


grandes cetáceos criaram nos últimos anos a “Superbaleia”, criatura mítica e simbólica
difundida pela cultura popular – em livros infantis, parques temáticos, publicidade e outros –
que “humaniza” as baleias e nos obriga a reconsiderar a ética da baleação 8. Nos Açores, a
propagação da “Superbaleia” como símbolo de conservacionismo ecológico está relacionada
com a rápida mudança de uma actividade depredadora para outra de não consumo - o whale-
watching. Como mencionou Luís Silva, a observação de cetáceos induz práticas
conservacionistas, permite a investigação científica e é incompatível com a baleação, criando
uma alternativa económica. Contudo, o impacto do whale-watching na comunidade também
demonstra que este pode falhar as promessas de sustentabilidade económica e sociocultural,
criando novos espaços de competição entre agentes privados que afectam a coesão social9 .

Mas nos Açores o mito da “Superbaleia” não parece ser incompatível com um outro
mito, o do “Superbaleeiro”. Enquanto figura identitária, o baleeiro representa hoje os ideais de
bravura e heroicidade, mesmo que no passado tenha sido associado a rituais de pobreza e
miséria. Em suma, a tradição (baleação) e a modernidade (ecoturismo e património baleeiro)
aliam-se na construção social da identidade regional, procurando criar uma relação
harmoniosa entre o passado, presente e futuro. Com a mobilização de apoios públicos e uma
crescente actividade turística – o Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico, é o mais visitado da

6 Cf. Eric Hobsbawm e Terence Roger (eds.), A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984, p. 9.
7 Para um desenvolvimento do conceito de “memória social” a partir da obra de Maurice Halbwachs, cf. Paul
Connerton, Como as sociedades recordam. Oeiras, Celta Editora, 1993, pp. 43-48.
8 Arne Kalland. “Superwhale: the use of Myths and Symbols in Environmentalism”. In 11 Essays on Whale and
Men, p. 5-11.
9 Cf. Luís Silva, 2013, “How ecotourism works at the community-level: the case of whale-watching in the
Azores”, in Current Issues in Tourism [online], E-ISSN 1747-7603, DOI: 10.1080/13683500.2013.786027.

30
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

região - a baleação adquire uma “segunda vida”, tornando-se um destino para os visitantes
que procuram viver a experiência da observação de cetáceos10.

A HISTÓRIA ORAL: desafios e possibilidades de investigação

A História Oral, por oposição, ajuda a desconstruir a ideia de “Superbaleeiro”,


revelando as experiências quotidianas e os impactos da baleação na família e na comunidade.
Embora a figura do baleeiro continue a ser dignificada, aquilo que se pretende é explorar as
suas memórias como uma fonte preciosa de conhecimento histórico. A história oral tem
servido uma perspectiva “desde abaixo” para escutar os grupos sem voz, por oposição a
líderes e elites que expressaram as suas ideias em livros, jornais e outros suportes11. O maior
potencial da história oral não está em conhecer novos factos, mas entender como esses factos
foram percebidos e são recordados por quem os viveu12. Os testemunhos orais oferecem um
complemento ao campo já existente da investigação historiográfica que parte da selecção e
crítica hermenêutica dos documentos escritos.

Para dar um exemplo da nossa pesquisa, a documentação das companhias baleeiras


revela muito pouca informação sobre o trabalho e as ocupações que envolviam os baleeiros13.
A documentação pode descrever-nos os salários, as hierarquias profissionais e a organização
empresarial das armações, mas a fonte oral introduz uma dimensão inteiramente nova sobre
os processos de recrutamento, as migrações entre ilhas, as práticas de transmissão de
conhecimento e a forma como os baleeiros combinaram a actividade com outras ocupações.

Por outro lado, a análise sobre as histórias e estratégias de pescadores observadas por
antropólogos marítimos – saliente-se o trabalho de campo de Luís Martins na Póvoa de
Varzim 14 - demonstram a existência nestas comunidades de um “corpo de técnicas”: os
pescadores (tal como os baleeiros) apreenderam as suas técnicas a partir da observação
empírica e a experimentação, transmitindo-as para outras gerações, melhorando
constantemente a utilização de artes tradicionais para aumentar a produtividade nas suas

10 Sobre o conceito de “segunda vida” atribuído ao património, v. Barbara Kirshenblatt-Gimblett, Destination


Culture: tourism, museums and heritage. Berkeley, University of California, 1998; p. 130-149.
11 Veja-se como referência a obra de Paul Thompson, The Voice of the Past: Oral History. Oxford [England],
New York: Oxford University Press, 2000.
12 Cf. A introdução de Miguel Cardina à obra de Alessandro Portelli, A morte de Luís Trastulli e outros ensaios
(Miguel Cardina e Bruno Cordovil, orgs.). Lisboa: Unipop, 2013, p. 8-12.
13 Discutimos este assunto em A Baleação e o Estado Novo. Industrialização e organização corporativa.
Secretaria Regional da Educação e Cultura dos Açores, 2016, p. 18-20.
14 Luís Martins, Mares Poveiros. Câmara Municipal da Póvoa de Varzim e Academia de Marinha, 2007.

31
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

capturas. Este conhecimento empírico que se acumula nos corpos dos agentes históricos só
pode ser retido a partir do testemunho oral.

As entrevistas do Arquivo de Memórias da Baleação tiveram um único grupo alvo:


todos os baleeiros ainda vivos nas nove ilhas, que têm uma idade muito avançada – 60%
nasceram no período anterior a 1940. A forma utilizada foi a entrevista individual com um
inquérito sobre temas comuns que irá permitir uma interpretação colectiva: a rotina de
trabalho, a utilização das embarcações, as técnicas de baleação e as artes de navegação; a vida
familiar e o impacto económico da baleação na comunidade 15.

O processo de entrevista levantou vários desafios. A fiabilidade do testemunho oral é


apenas um deles. As palavras faladas estão sujeitas a um jogo vivo de entoações e
velocidades, enredadas em histórias que os baleeiros nos querem ensinar 16 . A oralidade e
narratividade da fonte oral contêm importantes silêncios sobre assuntos delicados de que
preferem não falar. Ainda assim, estas fontes orais irão depender muito da relação mantida
com os entrevistadores. As fontes orais constroem-se no preciso momento da recolha. Isso
implica conhecer bem o terreno e o grupo que está a ser entrevistado. Não se pode ignorar que
a baleação terminou há cerca de três décadas e os baleeiros assistiram ao processo de extinção
e reconversão patrimonial 17.

Os últimos baleeiros possuem uma “memória individual” no presente que se relaciona


com a sua experiência no passado. Contudo, esta memória poderá opor-se a uma “memória
social” que, legitimando a ordem social do presente, pouco recorda as visões do passado que
pertencem aos baleeiros 18 . A título de exemplo, esta tensão foi perceptível durante as
entrevistas em que vários baleeiros referiram que as gerações familiares mais novas não
acreditavam nas suas histórias. Existem, na realidade, uma série de obstáculos à compreensão:
já não se capturam cachalotes, a maioria das embarcações estão motorizadas, as condições
meteorológicas podem ser consultadas de forma quase instantânea e os níveis de vida
melhoraram. Mas o problema de comunicação entre gerações advém também do facto de a

15 Para um exemplo semelhante de inquérito às memórias sociais e profissionais, cf. Fred Calabretta (ed.)
Fishing Out of Stonington. Voices of the fishing families of Stonington, Connecticut. Mystic Seaport Museum,
2004.
16 Sobre o problema da narratividade das fontes orais e os seus “custos psicológicos”, cf. Alessandro Portelli, A
morte de Luís Trastulli e outros ensaios (Miguel Cardina e Bruno Cordovil, orgs.). Lisboa: Unipop, 2013, p. 25-
28.
17 Para um estudo de caso sobre o desaparecimento das memórias de pesca e a consequente construção social do
património, cf. Jo Byrne, “After the trawl: Memory and after life in the wake of Hull’s distant-water fishing
industry” in International Journal of maritime History, November 2015, vol. 27 no.4 816-822.
18 Sobre os conceitos de “memória individual” e “memória social”, cf. P. Connerton, Como as sociedades
recordam..., p. 2-5.

32
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

“memória social” da baleação não estar a reconhecer o profundo conhecimento empírico dos
baleeiros relacionado com a experiência de captura no mar e processamento do cachalote em
terra.

A INTERPRETAÇÃO DAS MEMÓRIAS: resultados preliminares e hipóteses de


investigação

Ainda que a interpretação de memórias se encontre numa fase preliminar, é possível


adiantar alguns exemplos relacionados com as migrações, as contas de baleia e o
conhecimento empírico sobre o cachalote.

Durante a fase de maior expansão da indústria baleeira (1937-1958), as migrações


sazonais ou permanentes de baleeiros entre ilhas foram bastante frequentes. As empresas
(companhias) recrutavam homens especializados – o arpoador ou trancador e o mestre ou
oficial da canoa baleeira – nos portos onde a baleação mais se havia desenvolvido nas décadas
anteriores: sul e norte do Pico (Lajes, São Roque, Ribeiras, Calheta de Nesquim e São
Mateus), São Miguel (Capelas) e Faial (Angústias, Horta). Já em 1980, Dias de Melo
recolheu testemunhos sobre essas deslocações. Por vezes, essa mudança era acompanhada
pela transmissão de conhecimentos sobre as condições meteorológicas e as características dos
portos e navegação19.

As entrevistas do Arquivo de Memórias da Baleação permitem não só corroborar o


vigor destes movimentos migratórios – em todas as ilhas se regista a presença de baleeiros de
outras ilhas – mas também perceber as causas familiares que levaram à migração. Essa
informação foi-nos transmitida por uma segunda geração, os filhos dos baleeiros
especializados. Na Terceira e na Graciosa, a chegada de baleeiros do Pico e de São Miguel
está directamente ligada à formação de uma nova armação baleeira, tal como em Santa

19 O mestre João Lelé contava que, antes de sair das Lajes do Pico para a ilha das Flores, pediu a um baleeiro
mais velho que já baleara nessa ilha para lhe dar uma “amostração do tempo” que lhe viria, mais tarde, a salvar
de uma tempestade no mar:
“Diziam que o Manuel Costa das Ribeiras qu’ia mais o pai à pescaria pràs Flores. Levava o barquinho no vapor,
tavam lá e traziam o barquinho outra vez pra cá. […]
Diz ele [Manuel Costa]:
- Salta pra dentro do barco – E ê saltei. Bate-me co a mão em cima das cadeiras e diz ele: - Ê gosto dum homem
descreto. Queres ir pra um lugar que nunca tiveste, gostas de…Ê vou-te contar. Vou-te contar o que mê pai
também me dizia. Olha, quando o mar tá benancinha, de remos, e tiver a luzir de benança e tomar um chuveiro
pra cima do cabeço mais alto das Flores e tomar pra cima do Corvo lã de ovelha, é mau tempo que vem. (Na
Memória das Gentes, 1985, Livro I, vol. I, p. 27/28).”

33
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

Maria20. Os mestres e arpoadores tinham casa, luz e uma remuneração mensal fixa assegurada
pela companhia, enquanto os restantes tripulantes recebiam uma remuneração variável
(soldada). Enquanto na sua freguesia baleavam de forma esporádica, nos novos territórios
seriam considerados profissionais durante alguns meses ou mesmo o ano inteiro. As
migrações também tiveram consequências afectivas nos agregados familiares. Joaquim
Ferreira, natural das Lajes do Pico, contava que com três anos viu o seu pai pela primeira vez,
depois deste regressar da baleação na região de Setúbal, nos anos posteriores à Segunda
Guerra Mundial.

Depois de capturado e processado o cachalote, os óleos extraídos da gordura animal


eram exportados para os países europeus, onde tinham os mais diversos usos industriais. Na
narrativa ficcional de Dias de Melo – em Pedras Negras (1964) e Mar pela Proa (1976) – as
famigeradas contas da baleia são denunciadas como um instrumento de dominação e
desigualdade social21.

As entrevistas individuais do Arquivo de Memórias da Baleação revelam, por sua vez,


que a grande maioria dos entrevistados desconhecia os destinos de exportação e as utilizações
do óleo de cachalote nos países estrangeiros, bem como as cotações nos mercados
internacionais, que foram muito flutuantes 22 . Se, por um lado, o desconhecimento da
actividade comercial pode corroborar uma maior desigualdade social, as entrevistas permitem,
contudo, aprofundar a importância relativa da soldada adquirida com a venda dos óleos. Em
todas as ilhas, o dinheiro da baleação serviu, em primeiro lugar, para actividades de
subsistência, como a compra de cereais e gado; em alguns casos, para a construção de casas
ou aquisição de terrenos; e ainda como investimento da educação de filhos e familiares. A
diversidade de histórias individuais permite alargar as noções de impacto da baleação na
economia regional do arquipélago.

Mais recentemente, a História Oral tem sido entendida como um método relevante
para a gestão dos recursos marinhos. Esta valorização parte da premissa que as informações
estatísticas não são suficientes para compreender a amplitude dos factores tecnológicos,

20 Destacam-se, sobre este assunto, as entrevistas a Francisco Vieira Bagaço (Pico) e António Grota (Santa
Maria).
21
“ Dois contos quatrocentos e dois escudos e cinco centavos (“merda de cinco centavos”): prometidos pelo
levantamento do azeite, dois anos antes, três contos e duzentos.
A cólera velha dos baleeiros, longamente amordaçada, longamente atravessada na garganta, osso que não se
pode engolir e é arriscado vomitar, - explodiu, naquela noite.
E naquela noite, pela estrada comprida e sem luar, os baleeiros correram à Vila, a clamar a sua cólera velha,
cheia de revoltas e sequidões de justiça. (Mar pela Proa, 2ª ed., 1986, p. 40)”.
22 Cf. A Baleação e o Estado Novo, p. 55-76.

34
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

sociais e culturais que provocaram alterações nos ambientes marinhos. O conhecimento


tradicional auxilia o conhecimento científico a entender a complexidade dos ambientes
marinhos, sendo necessário que este tipo de conhecimento empírico seja reconhecido pelas
entidades que regulam o acesso aos recursos marinhos.23

Em 2003, Nun’Álvares de Mendonça recordava, com oitenta anos, o momento em que


viu uma cria de cachalote a confrontar-se com a sua canoa depois de os baleeiros terem
arpoado a fêmea mãe24. A descrição é um bom exemplo de como a experiência quotidiana
revelava comportamentos ecológicos dos grandes cetáceos. Mas antes de mais, estamos
perante uma memória literária com um propósito abertamente didáctico. O próprio autor
revela que contou o episódio com cautela para não cair no exagero das descrições e evitar
qualquer má interpretação. A distância temporal da recordação e a representação do passado
compõem uma carga subjectiva essencial na memória individual a ponto de, por exemplo, o
baleeiro “humanizar” e demonstrar a compaixão pelo animal falecido 25. Em todo o caso, a
descrição reproduz um acontecimento que não poderá mais ser recriado. O conhecimento
empírico dos baleeiros no arquipélago dos Açores tem uma especial acuidade, na medida em
que a preservação dos métodos artesanais de captura exigiu uma constante proximidade e
observação atenta do comportamento do cachalote26.

CONCLUSÃO
O Arquivo de Memórias da Baleação resulta da elaboração de uma pesquisa de
História Oral que desafia as percepções sobre o passado da indústria baleeira. Apesar dos seus
resultados preliminares, é possível concluir que as memórias individuais revelam

23 Para uma introdução, cf. Ruth H. Thurstan, Sarah M. Buckley, and John M. Pandolfi, "Oral Histories:
Informing Natural Resource Management Using Perceptions of the Past", in Perspectives on Oceans Past,
Springer, 2016, p. 155-158.
24
“Lembro-me como se fosse hoje ( e já passaram 66 anos) [...]
Vi partir a primeira lança e também via o “cafre”, pelo lado de fora da mãe. A baleia continuava com pouco
andamento. O homem do baó facilmente mantinha o bote à distância desejada e as lançadas começaram a surgir
a um bom ritmo. A baleia já bufava água e sangue e o seu andamento ainda diminuiu mais. É então que vejo que
o “cafre” surge agora do outro lado entre o bote e a mãe, e logo começámos a sentir o bater da cauda do “cafre”
no bote e o António grita para trás [...]. (Nun’Álvares de Mendonça, Memórias de um baleeiro. Caça à Baleia
nos Açores – Anos 1930 a 1945., 3º ed., 2003, p. 173/174 [1ª ed. 1985]).” As expressões “cafre” (calve) e “baó”
(bow) são corruptelas do Inglês. Os baleeiros açorianos conservaram – como relíquias – as expressões utilizadas
na baleação norte-americana nos séculos XIX e XX.
25 “Atingida mortalmente, a Baleia rolou sobre si própria e, sem mais um bufo, sem mais um ai, quedou-se
sobre um lado, olhando com o seu olho agora baço o céu infinito”, ob. Cit, p. 182. Cf. também o excelente
prefácio de Victor Rui Dores à 3ª edição, “Nun’Álvares de Mendonça e as suas memórias baleeiras”, pp. 7-10.
26 Os trabalhos pioneiros de Robert Clarke partiram da observação no terreno e os relatos orais dos baleeiros
transmitidos em 1949. Cf. Baleação em botes de boca aberta nos mares dos Açores: história e métodos actuais
de uma indústria- relíquia. [s.l.], Ed. do Autor e Tradutor, 2001.

35
As memórias da baleação: história oral e práticas do património nos Açores
Francisco Henriques

conhecimentos históricos novos que não estariam acessíveis a partir dos documentos escritos.
Ao mesmo tempo, a experiência quotidiana dos baleeiros difere das práticas do património
baleeiro, revelando comportamentos, atitudes e conhecimentos empíricos que não têm sido
salvaguardados pelas instituições públicas.

36
Histórias que uma baleia pode contar: da caça à proteção da natureza em Abrolhos/BA
Janaina Zito Losada

HISTÓRIAS QUE UMA BALEIA PODE CONTAR: DA


CAÇA À PROTEÇÃO DA NATUREZA EM
ABROLHOS/BA1
Janaina Zito Losada

INTRODUÇÃO

Escolhi tomar as baleias jubarte (megaptera novaeangliae) como objeto da


reflexão deste texto, entrecruzando campos de pensamento que tem constituído meus
interesses de pesquisa, entre eles a História ambiental2 e os Estudos Humano animais3.
Fazer uma história das baleias ou uma história das ideias e representações a respeito das
baleias esconderia as reflexões que uma leitura interdisciplinar ou mesmo que uma
ecologia profunda4 poderia trazer. As baleias, como os morcegos (NAGEL, 2005) ou
outros animais não humanos, em sua existência como indivíduos e espécies se relacionam
com o espaço e com os seus outros de maneira que nós homo sapiens sapiens jamais
poderemos compreender ou experimentar. A história de sua vida, a migração através dos
mares profundos e costas continentais, a sua procriação, os cuidados parentais, as farturas
alimentares nos mares do Sul, os assassinatos vistos e vividos no passado nas costas
brasileiras. Podemos através de marcações e satélites identificar seus trajetos e caminhos,
podemos por meio de sonares identificar os timbres de seu canto, podemos estudar seus
hábitos e comportamentos sociais e reconhecer a fluidez de suas relações sociais
(ANDRIOLO, 2014, p.106) e o seu gregarismo; podemos mesmo ponderar que tenham
uma linguagem e que se comuniquem no interior da sua espécie.
Mas quais as histórias que uma baleia poderia contar? Que elementos elas
destacariam? As cores dos mares, seus sons, sua percepção? Será que dariam o
testemunho da destruição que uma espécie de seres terrestres tem provocado ao longo da

1
Pesquisa com registro SISBIO/ICMBIO/MMA no. 54834-1, desenvolvida junto ao Grupo de Pesquisas
Avançadas em Materialidades, Ambiências e Tecnologias/UFSB. Agradeço ao professor Dr. José Augusto
Drummond, o convite para o tema e a ele dedico este escrito. Agradeço aos professores Dr. Márcio Lima e
Dr. Guilherme Fóscolo as indicações de leituras sobre a Ontologia Orientada à Objetos e aos organizadores
do II Seminário de Antropologia e História da Industria Baleeira nos Mares Sul-Americanos, professores
Dra. Fabiana Comerlato e Dr. Wellington Castellucci Jr. pela oportunidade de debater estas reflexões. Aos
meus alunos que muito ouviram estas histórias.
2
Sobre o tema: WORSTER, 1991; BRITO, 2006; FRANCO & DRUMMOND, 2009 e 2012; PÁDUA,
2010; BRITO & SOUSA, 2011.
3
Sobre o tema: RITVO, 2002; KALOF, 2007; WOLFE, 2009; KALOF & MONTGOMERY, 2011;
SOLURI, 2013; FEW & TORTORICI, 2013.
4
LOVATTO; ALTEMBURG; CASALINHO & LOBO, 2011; STEIL & CARVALHO, 2014.

37
Histórias que uma baleia pode contar: da caça à proteção da natureza em Abrolhos/BA
Janaina Zito Losada

história? Será que contariam sobre como as águas oceânicas tem ficado mais quentes,
mais sujas ou mais ácidas? Ou sobre os ensurdecedores ruídos das construções náuticas
de plataformas, navios ou das bombas que tem sido despejadas nos mares?

Destas histórias, por este viés, nunca teremos notícia. As baleias podem,
entretanto, nos contar histórias, não de suas experiências, mas de suas existências na
relação com as sociedades humanas. Seus imensos corpos, os significados e medos dados
a eles, os valores econômicos a eles atribuídos no intenso comércio das sociedades
humanas intercontinentais ao longo dos últimos 400 anos, as técnicas para caçá-las,
desmancha-las e torná-las matérias primas e bens sobre os quais os homens forjaram suas
cidades, vilas e sociedades. Se pode, por meio dos corpos das baleias e suas carcaças,
contar as histórias de uma indústria dita sem “muita técnica e sem muito capital” (ELLIS,
1969, p. 173) que atingiu seu apogeu nos séculos XVIII e que, segundo Shozo Motoyama,
declinou irremediavelmente ao longo do século XIX (2004, p. 107), aparecendo ainda
que sob protestos no século XX (DUARTE FILHO; AGUIAR, 2012). Uma indústria que
contou com a caça de inúmeras espécies de cetáceos e com inumeráveis indivíduos destas
espécies que literalmente iluminaram a modernidade nas terras brasileiras, latino
americanas e europeias.

Se retomarmos a leitura de Jean Baudrillard teremos que “os animais, como os


mortos, e como tantos outros, seguiram este processo ininterrupto de anexação por
exterminação, que consiste em liquidar e depois em fazer falar as espécies desaparecidas,
em fazê-las confessar o seu desaparecimento.”(1991, p. 167) O filósofo afirma que os
animais são para os humanos uma nostalgia de nosso inconsciente destituído de território;
silenciosos estes “outros” apontam as violências de nossa civilização, que a um só tempo
extingue massivamente espécies e busca desesperadamente protegê-las, encontrando na
produção da cultura, quer na ficção literária ou fílmica (WOLFE, 2009, p. 569)5, quer na
escrita da história, uma forma de redenção.

Etienne Benson afirma que o historiador que pretenda estudar os animais não
humanos deve “criar uma relação (real, genuína, autêntica, ética) com os traços
corporificados da vida animal” (2011, p. 211) nos passados, tendo como premissa que
“tudo o que fazemos, inclusive escrever, foi moldado pela longa história evolucionária de

5
Cary Wolfe aponta a necessidade de enfrentar a questão dos Estudos Animais em dois níveis, 1. o animal
como tema e objeto do conhecimento e 2, teórico e metodológico, ou seja como os estudos animais estudam
os animais?. (2009: 568)

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Histórias que uma baleia pode contar: da caça à proteção da natureza em Abrolhos/BA
Janaina Zito Losada

inter-relações com os outros animais” (2011, p. 248) e que a vida humana no presente é
completamente interdependente da vida dos animais não humanos.

Por ora, nas águas tropicais do Atlântico o silêncio das jubarte é rompido pelo seu
canto e por seus saltos acrobáticos, à flor da água nas costas brasileiras elas já podem
respirar um pouco mais aliviadas, sua população cresce novamente e vai repovoando aos
poucos os mares. Seus corpos não falam mais como carcaças, pipas de óleo ou piteiras,
agora a temporada já não é mais a da caçada e sim de observação. 6 Aqui contaremos a
história de uma relação demasiadamente humana, dos processos humanos de
sensibilização em relação à esta espécie e das formas encontradas no Brasil para proteger
a sua vida.7

AS BALEIAS COMO MATÉRIA PRIMA

O viajante Charles Hartt que esteve na região de Abrolhos em 1870 apontou que
a caça às baleias que se promovia a partir da cidade de Caravelas constituía-se em um
espetáculo assombroso que teria deixado expostas na praia as ossadas de pelo menos 500
baleias (1870, p. 213). Em sua sensibilidade europeia o mau cheiro das carcaças ainda
não bem limpas e do cozimento da gordura era nauseante, a quantidade de ossos
impressionava, ainda que coubesse ao seu espírito ilustrado, destacar que, ao ano, a
quantidade de indivíduos retalhados na Ponta da Baleia não ultrapassava a casa dos 90.
Caberia perguntar as motivações que levaram está “indústria” a não utilizar os ossos dos
cetáceos, tendo em vista que era possível e desejável à época que todos os elementos
constitutivos da baleia se transformassem em matéria prima. No caso das ossadas
poderiam ser desenvolvidas pequenas peças de decoração e uso pessoal, como caixas para
tabaco, piteiras, pentes, bengalas, ou mesmo reduzidas à elementos para a fabricação de
adubo.
Em 1847 Caravelas contava com 6 armações que produziam milhares de galões
de óleo de baleias (EDMUNDSON; HART, 2014 p. 58). A distância entre o arquipélago

6
O banco de Abrolhos é considerado a maior área para a reprodução da baleia jubarte no Atlântico sul
(LEAO, 1999), tornando a observação das baleias/whalewhatching uma prática para pesquisadores,
visitantes e turistas, já popular no Brasil (EDMUNDSON & HART, 2014:226). O site do Projeto Baleia
Franca aponta que está prática movimenta, em escala mundial, ao redor de 1 bilhão de dólares por ano.
(http://www.baleiafranca.org.br/turismo/turismo.htm)
7
Sobre este tema ver também LOSADA & DRUMMOND, 2016.

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Janaina Zito Losada

e a costa de 60/70 km era uma das motivações que levaram o viajante oitocentista a propor
que Abrolhos se transformasse na “sede de uma grande companhia de pesca” (HARTT,
1870, p. 214), facilitando a secagem dos peixes e o desaparecimento e transformação das
baleias. Quando as condições do vento não eram favoráveis ao retorno para o continente
eram improvisadas caldeiras na Ilha de Santa Barbara para o derretimento das baleias
(IBAMA, 1991, p. 40). Será que com tal proposta o viajante desejava tornar a atividade
mais lucrativa reduzindo perdas e dificuldades ou também desejava retirar das vistas
continentais e citadinas este violento, triste e longo espetáculo de caça e cozimento? A
descrição da carnificina atlântica também foi sugerida pela inglesa Maria Graham em
1821 e por Charles Darwin em 1832 (LOSADA; CORNILS; FRANCO; DRUMMOND
& BRAZ, 2016).

O paraíso romântico das paisagens imensas e o pontilhado dos planetas na noite


profunda, bem como as pequenas ilhas do Arquipélago que surgiam no horizonte faziam
Maria Graham recordar da obra do setecentista inglês John Milton, Paraíso Perdido e das
telas pintadas pelo renascentista italiano Michelangelo. Os caminhos profundos seguidos
entre os corais submersos requeriam total atenção, ouve-se no relato a tensão no interior
da nau. Abrolhos é um ponto de respiro anterior a chegada ao Rio de Janeiro ou a Bahia.
Mas também é uma zona perigosa, que raramente era visitada pelos grandes caçadores de
baleia estrangeiros ainda que Hartt colete o relato do avistamento de uma embarcação
americana que nove anos antes de sua viagem fora vista na região levando consigo 20
baleias (HARTT, 1870, p. 213).

Em Caravelas, a pesca da baleia dava trabalho durante a temporada de caça à umas


300 pessoas embarcadas nas 17 chalupas que tinham a foz do Rio Caravelas como seu
quartel general. É difícil hoje imaginar aquelas embarcações à vela rebocando baleias na
entrada da foz deste rio. Hartt, ao longo de sua breve descrição, compara a sua observação
realizada nas terras e mares do sul da Bahia as descrições de Francis de Castelneau, que,
em 1850, descreveu o processo de caça e transformação das baleias em óleo na capital da
província, apontando que aí com melhor indústria o sucesso comercial também seria
maior.

As baleias rebocadas entre Abrolhos e Caravelas chegavam às armações em


condições bastante precárias, tendo em vista a distância marítima, a existência de tubarões
que vinham seguindo as embarcações e se fartando com a carne da caça alheia e à

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Histórias que uma baleia pode contar: da caça à proteção da natureza em Abrolhos/BA
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exposição a ondas enquanto os grandes corpos aguardavam sua retalhação. A carne de


baleia, era consumida pelas classes mais pobres, sendo que a pequena elite local e os
estrangeiros que testemunharam e relataram esta história acreditavam que esta carne não
era saudável para o consumo, acreditava-se que seu consumo poderia “produzir
morfeia”.8

Ao longo do que chama de cruzeiro, Hartt descreve ter visto muitas megapteras,
tendo ele mesmo coletado um exemplar para análise científica. Aponta a dificuldade em
coletar informações sobre as espécies dos cetáceos existentes na região em suas
diligencias e consultas aos pescadores locais. Também debate a temporada do
aparecimento das baleias, afirmando que na região dos Abrolhos elas aparecem depois de
aparecerem na Bahia (capital da província), o que lhe intriga, pois, os relatos de
pescadores davam conta que elas viriam das regiões frias dos mares do sul. De qualquer
forma, ele registra que entre maio e outubro surgiam na região as fêmeas e seus filhotes
em busca da proteção dos recifes de corais e das águas mais quentes.

Segundo a historiadora portuguesa Cristina Brito, as baleias jubarte já haviam sido


descritas por Gabriel Soares de Souza, na sua “Descrição verdadeira da costa daquele
Estado que pertence à Coroa do Reino de Portugal, sítio da Baía de Todos-os-Santos”
apontando os perigos e medos que elas causavam às embarcações com seus “urros” e seus
saltos que chegavam a matar as gentes ao derrubá-las no grande mar (2006, p. 93). As
baleias eram neste imaginário moderno dos séculos XVI e XVII as versões dos monstros
marinhos que atormentavam o imaginário europeu desde o medievo (BRITO; SOUSA,
2011).

Parece haver uma certa concordância da historiografia brasileira dos séculos XIX
e XX quanto ao caráter frágil e incipiente da indústria baleeira ao longo dos séculos da
colônia e mesmo do Império (ELLIS, 1969). Capistrano de Abreu em seu Capítulos de
História Colonial (1998, p. 213), já apontava a existência miserável que experimentavam
os pobres pescadores do sul da Bahia tendo em vista o caráter temporário e localizado
dos trabalhos nas armações baleeiras. Faltavam investimentos e faltavam homens. Estudo
mais recentes apontam, entretanto, que pesca à baleia foi, como afirma Wellington
Castellucci Jr., “parte integrante de um conjunto complexo e diversificado de atividades

8
Esclerodermia localizada: espessamento e endurecimento da pele pelo excesso de deposição de fibras
colágenas.

41
Histórias que uma baleia pode contar: da caça à proteção da natureza em Abrolhos/BA
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produtivas” (2005, p. 139). Para Luís Geraldo Silva em sua etnografia das gentes do mar,
as atividades pesqueiras, associavam em uma hierarquia bem marcada de trabalho, tanto
de homens escravos, como homens livres (2011, p. 182).

Com a exploração excessiva desta bem organizada e intensa atividade comercial


chegaram mesmo a faltar baleias. O desaparecimento das baleias nas costas brasileiras foi
gradual e foi relatado desde o final do século XIX e ao longo do século XX até o momento
em que parte da sociedade internacional e a sociedade brasileira não suportaram mais
conviver com a prática da caça encontrando formas de proteger e preservar as espécies,
reconstruindo a história de sua relação com as baleias.

A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE E AS FORMAS DE PROTEÇÃO DAS


BALEIAS

Das ilhas afortunadas e dos monstros marinhos do imaginário dos séculos


anteriores o mundo contemporâneo herdou o assombro e o desejo em conhecer as
profundidades dos oceanos. Já na década de 1950, a bióloga marinha Rachel Carson
apontava que “a vida de todas as partes do mar é conectada a águas superficiais por
relações sutilmente ajustadas” sendo os recifes de corais o “exemplo perfeito da
interdependência da temperatura e habitabilidade no ambiente marinho” (1950, p. 45).
As preocupações naquele momento já traziam o alerta sobre a imensa produção de lixo,
inclusive tóxico que iria parar no fundo dos oceanos, alterando de forma drástica as
condições da vida deste universo ainda desconhecido. A autora nos conta a história dos
encontros com os mundos abissais que desde o século XIX movimentaram zoólogos, que
nem sempre estavam preparados para as formas de vida que encontrariam nas
profundidades escuras abaixo dos 2300 metros. As baleias, entretanto, mergulhando até
os 300 metros (LOPES, 2013) já conheciam os movimentos da wilderness submersa há
milhões de anos. Antônio Salatino, nas notas de tradução da obra de Carson, aponta que
os estudos paleontológicos contemporâneos “sugerem que as baleias são parentes dos
animais artiodáctilos, como a vaca e a cabra” sendo que seu mais próximo parente
terrestre existente contemporaneamente é o hipopótamo (CARSON, 1950, p. 67.).
As pesquisas contemporâneas da biologia da conservação têm destacado a sexta
maior extinção de espécies experimentada no atual século XXI em que grande parte das
formas de vida existentes no planeta sequer serão conhecidas antes de seu completo

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Histórias que uma baleia pode contar: da caça à proteção da natureza em Abrolhos/BA
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desaparecimento. Por outro lado, o movimento econômico do turismo tem levado os seres
humanos a experimentar uma aproximação pontual e por vezes anedótica com a natureza
e, em particular, com a fauna selvagem ao propor, por exemplo, que turistas mergulhem
com tubarões, baleias ou nadem com golfinhos. A relação entre humanos e animais passa
necessariamente pela alteração das sensibilidades e pelo conhecimento das dinâmicas
ecológicas, do comportamento e interdependência e inter-relações entre as espécies e dos
ciclos de vida no planeta.

As baleias jubarte, outrora animais monstruosos ou imensas fornecedoras de óleo


são descritas contemporaneamente pelo ornamento dos seus saltos ou por suas
identidades caudais. O desejo de sua proteção no Brasil é relativamente recente, em que
pese que os cientistas oitocentistas descreviam a violência e os espetáculos assombrosos
das caçadas, apenas em meados do século XX é que os cientistas identificaram a
necessidade de sua proteção para evitar o processo de extinção da espécie já adiantado à
época.

Em janeiro de 1934 o Código de Caça e Pesca já previa a conservação dos


cetáceos, quando em seu artigo 93 proibia a captura ou a morte de filhotes ou “cetáceos
novos não desmamados” ou de fêmeas acompanhadas de filhotes. O sentido dos atos de
proteção das belezas e monumentos nacionais possuía a perspectiva de conservar o
recurso natural para futuras explorações, no interior de um projeto nacionalista e
cientificista (FRANCO & DRUMMOND, 2009; 2012). Este foi também o ano da
Primeira Conferência Brasileira de Proteção à Natureza, realizada no Rio de Janeiro e
que, segundo Franco e Drummond, fez coexistir os argumentos de ordem estética com os
argumentos utilitaristas “vinculando a natureza à construção da nacionalidade” (Ibid.,
2009: 346). Mas Abrolhos parecia passar muito distante destas preocupações, sua
importância dava-se mais como ponto estratégico para as forças armadas que, durante a
II Guerra Mundial, enviou praças da Marinha brasileira para vigilância do território,
instalando em 1948 uma edificação na Ilha de Santa Bárbara.

No final da década de 1960, entretanto, os olhares científicos se viraram à


Abrolhos e sua importância para a conservação da vida marinha. Um estudo dos
professores Aylthon Brandão Joly, Eurico Cabral Oliveira e Walter Narchi publicado nos
Anais da Academia Brasileira de Ciências em 1969 destacava a unicidade das
características da região e atestava que somente a criação de um parque nacional com

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Histórias que uma baleia pode contar: da caça à proteção da natureza em Abrolhos/BA
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legislação “disciplinadora e protetora da exploração recursos naturais” (JOLY,


OLIVEIRA FILHO & NARCHI, 1969) permitiria a sobrevivência daquele patrimônio
biológico. Documento fundamental para o debate da política pública que naquele
momento passava também pela criação do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento
Florestal (1967). Do ponto de vista do estado, mais uma vez, a proteção de fronteiras ou
áreas estratégicas para a garantia do território nacional fomentou a política de criação de
parques e reservas e, particularmente, a intervenção na região de instalação do Parque
Nacional Marinho de Abrolhos.

Mas nada saiu do papel até o início da década de 1980, quando uma equipe do
Departamento Nacional de Parques e Reservas Equivalentes do IBDF esteve na região
para avaliar a viabilidade do projeto apresentado ao estado pelos professores do Instituto
de Biociências da Universidade de São Paulo e a potencialidade da área para proteção.
Walter Narchi, um dos autores da primeira proposta, descreve em 1987, em um
Informativo da Sociedade Brasileira de Malacologia, as dificuldades em garantir a
proteção dos recifes de corais e a proteção da vida na região do Parque, afirmando que
mesmo depois da oficialização do Parque em 1983, com um desenho diferente da
proposta originária, a natureza continuava sofrendo ataques que ameaçavam e
desfiguravam a fauna e a flora trazendo “consequências danosas para a sobrevivência das
espécies” (NARCHI, 1987, p. 12).

Por aqueles anos, a baleia jubarte, esteve na lista oficial de espécies ameaçadas de
extinção, sendo considerada rara (IBAMA, 1991, p. 30). É apenas em 2014 que o
Ministério do Meio Ambiente depois de um extenso levantamento e inventário da fauna
brasileira retira a baleia jubarte desta lista, reclassificando a sua situação para quase
ameaçada, devido ao aumento de sua população ao longo dos anos finais do século XX.
A imprensa brasileira deu ampla cobertura ao fato, sendo que reportagens podem ser
encontradas em periódicos do dia 22 de maio, como O Globo, Correio, O Estado de São
Paulo (CARVALHO, 2014; ESCOBAR, 2014).

O retorno das baleias jubarte à costa brasileira ao longo destes últimos 40 anos é
resultado de um intenso trabalho de conservação e educação ambiental que envolveu
agentes públicos, mas também privados como a organização não governamental, Instituto
Baleia Jubarte fundado em 1996 (EDMUNDSON & HART, 2014, p. 222), além dos
inúmeros esforços científicos desenvolvidos em universidade e instituições de pesquisa

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dentro e fora do Brasil. Neste sentido, cabe destacar o papel da Convenção Baleeira
Internacional, fundada em 1946, que proíbe a caça da jubarte no Hemisfério Sul e das
convenções internacionais no sentido da proibição e regulamentação da caça9, a proteção
global à espécie data de 1966, mas apenas em 1985 é que o Brasil proíbe a caça.

No longo e árduo esforço conservacionista os estudos de Arthur Andriolo e


Alexandre Zerbini (2011) demonstram que os níveis da população dos tempos pré-
exploratórios deste cetáceo apenas serão reconstituídos em 2040, caso os impactos sobre
a espécie não aumentem. Quase extinta nos anos 50 a baleia jubarte pode hoje viver um
pouco mais aliviada, há cerca de dez anos sua população chegou à 6.800 indivíduos. No
Atlântico Sul, a proteção no Parque Nacional Marinho de Abrolhos tem um papel
decisivo, é naquelas águas que as baleias podem se reproduzir e passar os primeiros meses
com seus filhotes protegidas da violência e demanda humanas, preparando as novas
gerações.

Novas gerações humanas também são forjadas em torno do Parque, por meio dos
processos de educação ambiental promovidos nas comunidades da região e com os
turistas e visitantes do parque, na sensibilização necessária à apreciação dos valores
intrínsecos da natureza10, no reconhecimento desta espécie e da importância da
conservação deste refúgio do pleistoceno (LEÃO, 1999).

Ainda assim, uma baleia nascida este ano em Abrolhos deverá conviver ao longo
de seus quarenta ou cinquenta anos de vida com os perigos da antropização dos ambientes
naturais. No curso de sua migração pelos mares atlânticos rumo às Ilhas Sandwich do Sul
e Geórgia do Sul em busca de alimento e em seu retorno no próximo inverno irá atravessar
áreas de exploração petrolífera, irá cruzar zonas de intensa movimentação de navegação
marítima pesada e será objeto da curiosidade de inúmeros barcos e seres humanos. Se
sobreviver à pressão dos predadores naturais, sobretudo durante a sua juventude e às
pressões ambientais e a poluição que ainda os humanos faremos no planeta talvez
possamos marcar um encontro para 2057, quando esperamos que esta pequena jubarte, já
no final da vida, possa, ao contrário das histórias que nos deixaram as suas imensas
antepassadas, nos contar uma história de vida selvagem plena e protegida.

9
Convenção Internacional para a Regulamentação da Pesca da Baleia, Washington, 1946. Protocolo
Adicional à Convenção Internacional para a Regulamentação da Pesca da Baleia, Washington, 1953.
10
Sobre o tema ver: THOMAS, 1996; LEOPOLD, 2007.

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Janaina Zito Losada

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

DA CAÇA À CONSERVAÇÃO DE BALEIAS NO BRASIL


Luena Fernandes

Márcia Helena Engel

Sérgio Cipolotti

A CAÇA: principal causa de declínio da população mundial de baleias-jubarte

No Brasil, a caça de baleias foi introduzida em 1602, na Bahia, por caçadores


Biscainhos, que revelaram seus métodos aos colonos (ELLIS, 1969). O principal objetivo
da caça era fornecer óleo de baleia para o Recôncavo baiano e o excedente era exportado
para Portugal. O óleo era utilizado para iluminação residencial e pública, nos engenhos,
nos estaleiros, para calafetagem de barcos, e na construção, como ingrediente da
argamassa.
Durante o século XVIII a caça expandiu-se pelo litoral brasileiro, com a
implantação de armações no Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. A caça continuou
durante o século XIX, porém crescentemente afetada pela diminuição dos estoques de
baleias, pelo abandono das armações, pela dependência do trabalho dos escravos, a
concorrência dos baleeiros americanos e britânicos a partir de 1775 e a descoberta do
petróleo e seus derivados a partir de 1859 (EDMUNDSON; HART, 2014). A caça
moderna de baleias, com o uso de navios a vapor ou a diesel e canhão-arpão, chegou ao
Brasil no início do século XX e atraiu investimentos de baleeiros ingleses, noruegueses,
holandeses, soviéticos, brasileiros e japoneses.
Estima-se que somente no hemisfério sul mais de 200 mil baleias-jubarte
(Megaptera novaeangliae) foram mortas durante o século XX (FINDLAY, 2001;
ROCHA; CLAPHAM; IVASHCHENKO, 2014). Somente na região do Mar da Escócia
e Ilhas Geórgias do Sul entre 175.250 (MOORE et al., 1999) e 184.311 baleias-jubarte
(Sirovic et al. 2006) foram capturadas. A baleia-jubarte é uma espécie migratória, que
passa parte do ano em regiões tropicais para reprodução e cria dos filhotes. Passado o
período reprodutivo, que no hemisfério sul é entre os meses de julho e novembro, as
baleias que visitam a costa brasileira retornam para sua área e alimentação em águas
subantárticas, próximas às ilhas Geórgias do Sul e Sanduiche do Sul, onde foram alvo de
intensa caça comercial. Como consequência, essa população de baleias-jubarte do
Atlântico Sul Ocidental, classificada como estoque reprodutivo A (IWC, 2005), foi

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

reduzida de cerca de 28.000 indivíduos a menos de 4% do seu tamanho original


(ZERBINI et al., 2011). A estimativa populacional global disponível atualmente para a
espécie é de cerca de 110.000 indivíduos (THOMAS; REEVES; BROWNELL, 2015).
Em 1946, a Comissão Internacional da Baleia (CIB, em inglês IWC) foi criada
através da Convenção Internacional para a Regulamentação da Pesca da Baleia (IWC,
1946). Em 1966 a CIB proibiu a caça de baleias-jubarte a nível mundial. Mesmo assim,
o Brasil ainda caçou esta espécie no sul da Bahia, em Caravelas, até 1924 e no litoral da
Paraíba, de Pernambuco e do Rio de Janeiro até 1967.
Em 1986 a CIB estabeleceu uma moratória mundial à caça comercial de baleias e
em 1987, após uma excepcional campanha de mobilização da opinião pública, foi
aprovada a lei que proibiu definitivamente a caça à baleia no Brasil. A esta altura, as
baleias-jubarte eram consideradas extintas em águas brasileiras, como resultado direto de
décadas de caça comercial ao longo da costa brasileira e no Atlântico Sul.

CONSERVAÇÃO DE CETÁCEOS NO BRASIL


A primeira legislação especialmente direcionada à proteção dos cetáceos foi a
portaria SUDEPE N° N-11, aprovada em 21 de fevereiro de 1986, para proibir, nas águas
sob jurisdição nacional, a perseguição, caça, pesca ou captura de pequenos cetáceos
(golfinhos e toninhas), pinípedes (focas e leões marinhos) e sirênios (peixes-boi). Em 18
de dezembro de 1987, essa legislação foi estendida, através da lei federal Nº 7.643, para
todas as espécies de cetáceos, garantindo, dessa forma, o fim da caça comercial de baleias
no Brasil, o último país da América do Sul a abandonar essa prática. A partir da década
de 90, o Brasil passou de país baleeiro a conservacionista. A criação do Grupo de
Trabalho Especial de Mamíferos Aquáticos (GTEMA) em 1994, sob a coordenação do
Almirante Ibsen de Gusmão Câmara, através da portaria IBAMA N° 2.097, foi um marco
importante para a conservação de cetáceos no país. O GTEMA contou com a participação
de especialistas de várias instituições brasileiras e atuou como órgão consultivo oficial do
IBAMA para assuntos relacionados aos mamíferos aquáticos até 2009. Desde então, o
Brasil vem aperfeiçoando sua política de conservação dos cetáceos por meio,
principalmente, da geração de conhecimento científico através de pesquisas, as quais
tiveram um papel decisivo na criação de algumas legislações específicas. Existem
atualmente cerca de 19 normatizações legais especialmente criadas para a proteção dos

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

cetáceos que ocorrem em águas brasileiras, incluindo o decreto N° 6.698, de 17 de


dezembro de 2008, que declara as águas jurisdicionais marinhas brasileiras Santuários de
Baleias e Golfinhos do Brasil.
O Brasil vem se destacando também no cenário internacional e, atualmente,
integra o grupo de países latinos do Grupo de Buenos Aires, que votam em bloco na CIB
pela defesa dos temas de conservação dos cetáceos. Juntamente com Argentina, Uruguai,
África do Sul e Gabão, tem proposto a criação do Santuário de Baleias do Atlântico Sul,
que, quando aprovado, constituirá ferramenta importante de proteção destes mamíferos e
cooperação internacional. Esse Santuário reafirma o interesse nacional no campo da
preservação e proteção de cetáceos e promove o uso não-letal das suas espécies. Junto
com os Santuários dos oceanos Índico e Antártico, permitirá que todo o hemisfério sul
fique livre da captura e matança de baleias e golfinhos.

O PROJETO BALEIA JUBARTE

Em 1987, durante os trabalhos de implantação do Parque Nacional Marinho dos


Abrolhos, extremo sul da Bahia, foi redescoberta a presença de uma pequena população
remanescente de baleias-jubarte (IBAMA/NEMA, 1990) e sugeriu-se a importância de
Abrolhos como principal “berçário” da espécie no Oceano Atlântico Sul Ocidental (Engel
1996; Martins et al. 2001; Andriolo et al. 2006; Andriolo et al. 2010). Assim nasceu em
1988 o Projeto Baleia Jubarte (PBJ), com a finalidade de promover a proteção e pesquisa
destes mamíferos no Brasil. Caravelas passou, então, de importante porto baleeiro no
Brasil colônia a sede da primeira base de um projeto de conservação de jubartes no país.
O Projeto deu origem, em 1996, ao Instituto Baleia Jubarte (IBJ), organização
não-governamental que possui como missão “conservar as baleias-jubarte e outros
cetáceos do Brasil, contribuindo para harmonizar a atividade humana com a preservação
do patrimônio natural”, e que em 2008 obteve título de Organização da Sociedade Civil
de Interesse Público (OSCIP). O Projeto Baleia Jubarte integrou o GTEMA desde sua
criação até o final. A pesquisa desenvolvida pelo Projeto Baleia Jubarte tem
proporcionado subsídios técnico-científicos para a tomada de decisões na política de
conservação de cetáceos tanto em nível nacional como internacional.

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

Graças aos trabalhos de conservação, e a exemplo do que vem ocorrendo em


outros países, a população brasileira de baleias-jubarte tem aumentado
significativamente. Desde a proibição da caça esta população vem se recuperando a uma
taxa anual estimada entre 7,4 e 15,2% (WARD et al., 2011; WEDEKIN, 2011; ZERBINI
et al., 2011). Em maio de 2014 a baleia-jubarte foi retirada da Lista de Espécies da Fauna
Brasileira Ameaçadas de Extinção, o mesmo ocorrendo com várias de suas populações
ao redor do mundo (ICMBIO, 2014). O último censo aéreo do Projeto Baleia Jubarte
revelou, em 2015, cerca de 12.000 indivíduos, distribuídos entre o Rio Grande do Norte
e o Rio de Janeiro (PAVANATO et al., 2017).
A criação da segunda base do IBJ na Praia do Forte, litoral norte da Bahia, ocorreu
em 2001, a partir da necessidade de monitorar os cada vez mais frequentes registros da
espécie na região, como consequência da reocupação desta antiga área de ocorrência
histórica da espécie (Más-Rosa et al. 2002; Pacheco de Godoy et al. 2005; Baracho et al.
2006; Rossi-Santos et al. 2008).

O TURISMO DE OBSERVAÇÃO DE BALEIAS

O turismo de observação de baleias, ou whale-watching em inglês, é definido


como “qualquer atividade comercial que permita ao público observar cetáceos (baleias,
golfinhos e toninhas) em seu ambiente natural” (HIGHAM; BEJDER; LUSSEAU, 2009;
IWC, 1994). Teve seu início na década de 1950, na costa da Califórnia, Estados Unidos
(HOYT, 1995), e vem crescendo de forma acelerada em demanda e números de visitantes
desde os anos 1980 (HOYT, 1995, 2001, 2007). De acordo com as estatísticas mundiais
mais recentes, a atividade de observação de baleias rende cerca de US$2,1 bilhões por
ano, envolve 13 milhões de turistas, ou observadores de baleias, anualmente e gera cerca
de 13.000 empregos (O’CONNOR et al., 2009).
Na escala global, esta atividade vem crescendo em média 3,7% ao ano, pouco
abaixo do crescimento global do turismo (4,2% ao ano); mas na escala regional, por
exemplo, na América do Sul, este crescimento tem sido bem superior ao do turismo em
geral, com cerca de 10% ao ano (O’CONNOR et al., 2009). Quase todos os países deste
continente desenvolvem a observação de baleias e o Brasil é um dos principais destinos,
recebendo cerca de 200.000 observadores de baleias por ano (O’CONNOR et al., 2009).

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

Atualmente o whale-watching é a principal ferramenta de conservação de diversas


espécies de cetáceos no mundo, agregando valor econômico diretamente à sua proteção.
Além dos seus benefícios econômicos, o whale-watching representa o uso não-letal dos
cetáceos, oferece plataformas de oportunidade para a pesquisa científica, representa uma
alternativa ao cativeiro e à caça e promove a sensibilização e educação ambiental (Figura
1).

Fig. 1. O turismo de observação de baleias na Praia do Forte, Bahia, incentivado pelo IBJ em parceria
com operadores locais, é uma importante ferramenta de sensibilização e educação ambiental para a
comunidade (A), turistas (C) e através da mídia (B), uma vez que as baleias são animais carismáticos,
capazes de inspirar as pessoas a cuidarem dos oceanos (D).Fonte: Enrico Marcovaldi/Instituto Baleia
Jubarte.
No Brasil, o turismo de observação de baleias começou no arquipélago dos
Abrolhos, extremo sul da Bahia, nos anos 1990, onde operadoras de mergulho que
levavam turistas para o arquipélago começaram a explorar a presença das baleias-jubarte
durante o inverno (MORETE et al., 2000) (Figura 2). Na mesma época, no estado de
Santa Catarina, em especial no litoral sul do estado, a atividade se desenvolveu através
da observação por terra (com binóculos) de baleias-franca-do-sul, Eubalaena australis,
espécie mais frequente na região (MOREIRA et al., 2011). Em 1999, surgiu a primeira
operadora especializada em observação embarcada de baleias, licenciada pelo Ibama para

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

esta atividade e reconhecida pela Embratur (GROCH, 2001; PALAZZO JR.; GROCH,
2007).

Fig. 2. A observação de baleias-jubarte começou na região dos Abrolhos, o principal berçário da espécie
no oceano Atlântico Sul Ocidental.Fonte: Enrico Marcovaldi/Instituto Baleia Jubarte.

A primeira legislação criada especificamente para proibir qualquer forma de


molestamento intencional a toda espécie de cetáceo em águas brasileiras foi a portaria
IBAMA N° 2.306, de 22 de novembro de 1990, que estabeleceu as primeiras regras para
a observação de cetáceos. Em 1996, a portaria N° 2.306 foi reformulada, através da
portaria IBAMA N° 117, de 26 de dezembro de 1996. Em 2002, a portaria IBAMA N°24,
de 8 de fevereiro, alterou a portaria N°117, trazendo novas diretrizes para a observação

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

de baleias-jubarte e limitando o número de embarcações que podem observar um


indivíduo ou grupo de baleias simultaneamente.
O Projeto Baleia Jubarte, a partir de suas bases em Caravelas e Praia do Forte
(Figura 3), trabalha lado a lado com operadores turísticos e outros parceiros ao longo do
litoral baiano para promover, orientar e monitorar essa atividade de maneira responsável,
beneficiando as comunidades locais e as baleias, e criando incentivos cada vez maiores
para a preservação da espécie em seu ambiente natural.

Fig. 3. A Praia do Forte é um excelente destino para a observação de baleias-jubarte, que podem ser
avistadas bem próximo à costa devido a um estreitamento da plataforma continental na região e à
preferência destas baleias por águas mais rasas.Fonte: Luena Fernandes/Instituto Baleia Jubarte.

O trabalho de sensibilização e educação ambiental realizado pelo PBJ, em parceria


com as operadoras locais, garante o acesso de turistas, guias, tripulação das embarcações
e comunidade local a informações sobre a biologia e características das baleias-jubarte e
outros cetáceos, normas de avistagem, bem como das ações de conservação e pesquisa
promovidas pelo PBJ e outras instituições nacionais e internacionais. Ao embarcar nas
embarcações de turismo, os técnicos do PBJ atuam também como guias e pesquisadores,
coletando dados científicos durante o passeio, importantes para o monitoramento da
atividade (Figura 4).

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

Fig. 4. O Projeto Baleia Jubarte promove capacitação específica para os operadores (A), interpretação
A dados científicos a bordo das embarcações de turismo de
ambiental para os turistas, monitora e coleta
observação de baleias (B).Fonte: Enrico Marcovaldi/Instituto Baleia Jubarte.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Brasil passou, em menos de uma geração, de país baleeiro a defensor das


baleias. Em apenas três décadas aperfeiçoou sua legislação de proteção aos cetáceos e
está na vanguarda dos países que compartilham os mesmos valores, buscando maior
proteção internacional para estes animais e seus habitats.
O turismo de observação de baleias representa uma alternativa à caça e um ‘uso’
das baleias mais sustentável, ambientalmente correto e economicamente benéfico para o
século XXI. O Projeto Baleia Jubarte incentiva e monitora esta atividade, pois acredita
que esta modalidade de ecoturismo, realizada de forma responsável, traz benefícios para
a conservação destes animais através da sensibilização das pessoas para a causa.

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Da caça à conservação de baleias no Brasil
Luena Fernandes; Márcia Helena Engel e Sérgio Cipolotti

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Plantando a história baleeira para colher conservação da biodiversidade: a importância do resgate sobre as interações entre
humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

PLANTANDO A HISTÓRIA BALEEIRA PARA COLHER


CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE: A IMPORTÂNCIA
DO RESGATE SOBRE AS INTERAÇÕES ENTRE HUMANOS
E CETÁCEOS
Marcos R. Rossi-Santos

Renata Martinho Zambonim

INTRODUÇÃO

Os cetáceos exercem um grande fascínio nas comunidades humanas há milhares de


anos. São inúmeros os exemplos ao longo da história e antropologia que indicam a admiração
por estes animais, expressa em arte, em lendas e em rituais. O período colonial no Brasil traz
parte desta história, quando as baleias eram tidas como fonte de grande recurso econômico,
fornecendo óleo que era usado na iluminação das ruas e na construção civil, além de artefatos
rígidos com suas barbatanas e ossos. O grande uso de recursos advindos desses cetáceos, que
acabou trazendo a associação do nome das baleias ao “peixe real” português, quase levou
muitas espécies ao limiar da extinção.

A Biologia da Conservação constitui-se em um ramo das Ciências Biológicas que tem


base nas ciências naturais e sociais e na gestão de recursos naturais. Em abordagens mais
integrativas, o estudo dos conhecimentos e práticas de comunidades ditas tradicionais tem papel
fundamental na contribuição da pesquisa do uso e gestão de recursos naturais (PRIMACK;
RODRIGUES, 2001). Dentro deste contexto os cetáceos podem ser classificados como
“animais-bandeira”, onde a sua conservação implica na conservação de todo o ecossistema que
habita, no caso os oceanos.

Diversas são as frentes de pesquisa das Etnociências que contribuem para o estudo do
conhecimento tradicional e desse conhecimento associado à biodiversidade. Muitos desses
estudos consideram a forte interdependência entre os povos e o ambiente natural, primeiramente
devido à sua forma de ser, estar e usar os elementos naturais do ambiente circunvizinhante
(POSEY, 1987). Ainda sobre parte desses estudos, há consideração de que esses povos tinham
grande conhecimento no uso e manejo de recursos, como a tradicional relação que existe na
região amazônica entre homem e natureza (figura 1). Se esse conhecimento possibilitou a
construção ou não de práticas e tecnologias para sustentabilidade, não podemos aqui trazer rasas

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Plantando a história baleeira para colher conservação da biodiversidade: a importância do resgate sobre as interações entre
humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

afirmações. Há diferentes povos com diferentes práxis, e em diferentes tempos o grupo pode
ter tido práticas sob diferentes paradigmas. Não queremos considerar a hegemonia de
pressupostos apenas vinculados à preservação romântica da natureza intocada ou à conservação
da biodiversidade para responder ao modelo vigente de consumo de recursos. Dessa forma, este
artigo se propõe lembrar algumas histórias de alguns povos em sua relação mais próxima aos
cetáceos, que inclui sim a sua caça, mas infere sobre outra gama de interface com esses animais,
como a simbólica espiritual e ou religiosa. Essa forma de se entender na e com a natureza destes
povos é ainda anterior ao processo de formação histórica moderno contemporâneo baseada na
dominação e separação natureza e cultura, sociedade e natureza.

Fig. 1: A próxima relação entre o homem e a natureza na região amazônica pode ser exemplificada nas
lendas sobre o boto (Inia geoffrensis Blainvillei, 1817), descrito como ser encantado com poderes sobrenaturais.
(Foto: Marcos Rossi-Santos)

ETIMOLOGIA E DEFINIÇÕES

Ao longo dos séculos, os cetáceos vêm exercendo um grande fascínio na humanidade,


fascínio este registrado em diversos povos, culturas e épocas. O próprio nome dado a este grupo
de mamíferos, que apresentam adaptações completamente voltadas ao ambiente aquático,
reflete o esplendor desta admiração: Cetus, em Latim, ou Ketos, em grego, significa “monstro
marinho”. Por sua vez, a palavra whale, baleia em inglês, deriva do germânico wal, relacionado

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Plantando a história baleeira para colher conservação da biodiversidade: a importância do resgate sobre as interações entre
humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

ao nórdico antigo hvalr, que representa tradicionalmente as grandes baleias, mas também
alguns golfinhos, que levam o termo em seus nomes ingleses, como, por exemplo, algumas
espécies maiores conhecidas como a orca (Orcinus orca) (LINNAEUS, 1758), chamada “killer-
whale”, a falsa-orca (Pseudorca crassidens) (OWEN, 1846), ou “false killer-whale” e a baleia-
piloto (Globicephala sp.) (LESSON, 1828), conhecida como “pilot-whale”.

Os cetáceos constituem um grupo zoológico único entre os mamíferos, cuja origem


evolutiva se deu há cerca de 50 milhões de anos atrás, a partir de ancestrais terrestres chamados
ungulados, possuidores de quatro patas e cascos, e passaram para a adaptação completa ao
mundo aquático (MILINKOVITCH; THEWISSAN, 1997). Na cadeia ecológica marinha os
cetáceos são geralmente predadores de topo e, dessa forma, controlam naturalmente o equilíbrio
biológico. Também são importantes controladores de ciclos macro-oceânicos, como a
circulação de nutrientes e fixação de carbono (ROMAN et al., 2014). A intrincada relação
ecológica entre a função dos cetáceos no ecossistema oceânico e sua relação com a histórica
caça exploratória foi aprofundada por um grupo interdisciplinar de pesquisadores em Estes et
al., 2006.

INTERAÇÕES COM OS HUMANOS

O mar, habitado por monstros e almas de marinheiros condenados, ocorre não somente
na trajetória de Ulisses, na Odisseia, como também na lembrança de marinheiros portugueses e
espanhóis que lançavam relíquias ao mar para apaziguar as tempestades. Até o século XVIII,
na Europa, o mar não representava um lugar tranquilo, mas sim as forças selvagens da natureza
(DIEGUES, 1995). Esta atração está radicada nas lembranças do mar como meio primordial da
vida, a semelhança do útero materno e seus líquidos para qual o ser humano gostaria de voltar,
refletida na sua própria composição, em sais minerais do sangue humano e da água do mar
(CARSON, 1957 apud DIEGUES, 1995). Sob esta ótica, os oceanos não eram apenas regidos
por fenômenos físicos, químicos e biológicos, mas eram povoados por seres humanos e não-
humanos, por monstros e divindades, e esta concepção ainda subsiste entre as populações
marítimas que mantem um estreito contato com o mar (DIEGUES, 1995).

Os povos greco romanos são tidos como os precursores da ciência de observação dos
fenômenos naturais. O filósofo Aristóteles (384-322 A.C) é considerado “pai da Zoologia” com
seu trabalho Historia Animalum, no qual desenvolve a ótica filosófica sobre o mundo natural.

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Plantando a história baleeira para colher conservação da biodiversidade: a importância do resgate sobre as interações entre
humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

Aqui, a reflexão sobre “Quem sou eu? Que lugar ocupo no mundo?” é acompanhada do
questionamento “Quem são os outros seres?” e, para isso, a investigação e estudo do meio
natural. A concepção dessa investigação tinha caráter de “Divinização da Natureza”. Mitos e
símbolos traziam o aspecto fenomenológico e arquetípico dos seres.

A característica arquetípica dos cetáceos como os maiores animais do mar, e do planeta


Terra, e o fato de passarem 90% de sua vida abaixo da água, em um dos ambientes mais
inacessíveis ao ser humano até hoje, ajuda na composição da imagem de um oceano habitado
por monstros gigantescos (Figura 2). A baleia azul (Balaenoptera musculus Linnaeus, 1758),
com seu corpo longo e esguio, e dorso em diferentes tons azuis acinzentados, pode ter até 33
metros de comprimento e pesar 180 toneladas sendo o maior animal que já existiu. O cachalote
(Physeter macrocephalus Linnaeus, 1758) é o maior dos cetáceos com dentes (Odontoceti) e o
maior carnívoro do planeta. Com seus 18 metros, o cachalote também atinge o mergulho de
maior profundidade entre todos os mamíferos, podendo chegar até 2000 metros. A observação
desses fenômenos extraordinários reflete na concepção simbólica dos povos frente aos cetáceos.

Fig. 2: A baleia jubarte (Megaptera novaeangliae Borowski, 1781) apresenta comportamentos bastante
ativos e enérgicos como saltos e batidas de cauda na superfície, o que no passado ajudou na concepção dos
cetáceos como animais monstruosos em um ambiente inóspito como o oceano. (Foto: Marcos Rossi-Santos).

A ideia de natureza pela concepção moderna natureza objeto, exterior ao homem, tem
bases no século XVII, com a emergência da Ciência Moderna. Inaugura-se ali uma maneira de
investigar e de se obter conhecimento sobre o meio natural fundamentado na separação homem

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humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

natureza e na possibilidade de se exercer poder de subordinação das espécies ao desígnio


humano. No entanto, aqui trazemos histórias que se referem a homens de épocas anteriores, que
se consideravam parte integral do ambiente natural.

BALEIAS NA MITOLOGIA

Histórias que trazem baleias destruindo embarcações e engolindo humanos podem ser
ouvidas em diferentes relatos tradicionais. Outros contos trazem cetáceos como Deuses,
entidades sobrenaturais e espíritos divinos, que trazem paz, sorte e harmonia para os clãs e para
o mundo. Assim, na mitologia, os cetáceos podem ser referenciados como Deuses ou temidos
como demônios, dependendo dos mitos que se espalharam pelo mundo. Estes contos
envolvendo cetáceos comumente trazem uma lição moral, geralmente associada com o respeito
ao mundo natural.

Os povos indígenas do lado Oeste da América do Norte possuem uma forte conexão
com a orca (Orcinus orca), indicada em constantes expressões artísticas, em relatos históricos,
e sobre espiritualidade e religião. O povo Haida reverencia as orcas como o animal mais
poderoso do oceano, e sua mitologia conta que estes cetáceos viviam em casas e cidades do
fundo do mar. De acordo com estes mitos, eles tinham a forma humana enquanto submersos e
os humanos que se afogavam iam viver entre eles (BROWN, 1985). Para os Kwakwaka’wakw,
as orcas eram consideradas os reis e governantes do mundo submarino, tendo os golfinhos como
seus guerreiros. Também acreditavam que estes animais poderiam personificar as almas de
chefes ancestrais (BOAS, 2010; JONAITIS, 1998).

Os Nórdicos, povo que criou as palavras baleia e rorqual (whale), como mencionado
acima, possuíam um profundo conhecimento sobre o mar e navegações, o que lhes
proporcionou explorar locais tão distantes na Idade Média como a Groelândia e América do
Norte, no Atlântico, e a região da atual Turquia, outrora Constantinopla, por canais de rios
desde o mar Báltico. Dentre o conhecimento ecológico dos nórdicos, eram reconhecidas mais
de vinte espécies, sendo uma delas, o narval (Monodon monóceros, LINNAEUS, 1758), outro
nome de cetáceo criado por eles, foi explorado pelos mercadores vikings na Groelândia, pelo
seu “marfim”, vendido com muito lucro para a nobreza europeia como o mitológico chifre de
unicórnio, fontes de poderes mágicos na época.

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humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

Na cultura nórdica haviam algumas baleias que se podiam caçar e outras não, pois estas
atraiam cardumes para perto da costa, facilitando a vida de pescadores. Hoje sabe-se que as
baleias atuam desta forma, como atratores naturais de fauna oceânica. As baleias sei
(Balaenoptera borealis, LESSON, 1828), fin (Balaenoptera physalus, LINNAEUS, 1828) e
bryde (Balaenoptera edeni, ANDERSON, 1879) são exemplos nessa questão, uma vez que
quebram a homogeneidade do ambiente oceânico ao passar e só por isso chamam atenção,
podendo atrair outros animais marinhos. Também podem servir de hospedeiros para peixes
parasitas, que servirão de presa para outros peixes e, com isso, cria-se um ecossistema local ao
redor da baleia. Outras vezes, esses cetáceos dirigem os cardumes de pequenos peixes para
ambientes costeiros para se alimentarem, como ocorre na Baia de Saint Lawrence, no Canada.

Em uma lenda da Islândia, país fundado por exploradores nórdicos, um homem atirou
uma pedra em uma baleia fin (B. physalus) (Figura 3) e atingiu seu orifício respiratório, fazendo
com ela explodisse. Como punição, o homem foi proibido de ir ao mar por vinte anos, mas no
décimo nono ano ele não aguentou e saiu para pescar. No meio do oceano ele fisgou uma grande
baleia que o levou ao fundo e jamais retornou.

Fig. 3: A baleia fin (Balaenoptera physalus Linnaeus, 1758) possui como característica distintiva o proeminente
orifício respiratório e a presença de uma quilha central ao longo da cabeça, como este individuo fotografado nas
Ilhas Georgia do Sul. (Foto: Marcos Rossi-Santos).

As baleias também estão entre a maioria de formas encontradas na arte rupestre de


diversas civilizações costeiras, como os nórdicos, com algumas datando da idade da pedra.

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humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

Inscrições rupestres de 7.000 a 3.500 anos em Bangudae, Coreia do Sul, apresentam 300 formas
de animais, sendo um terço destes apenas baleias, algumas mostrando detalhes muito
particulares, como as pregas ventrais, típicas dos rorquais, ou baleias da família
Balaenopteridae (NELSON, 1993). Os povos das ilhas do Pacifico e aborígenes australianos
viam as baleias como provedores de felicidade e bondade (ASBJORN, 2014). Menções sobre
as baleias também ocorrem em textos sagrados, como a Bíblia. Ela ocorre em algumas
passagens, com destaque ao Genesis 1:21 “e Deus criou os mares e as grandes baleias”, assim
a comum referência ao “Leviatã” descrito em Jo 41:1-34. A história de Jonas, que foi engolido
por um grande animal marinho aparece tanto na Bíblia, no livro de Jonas do velho testamento
e no novo testamento, contado por Jesus, em Mateus 12:40, como no Alcorão, no Surah 68:48.

HISTÓRICO DA CAÇA

A caça aos cetáceos ocorre desde a Idade da Pedra, provavelmente remonta aos
primeiros encontros do homem com carcaças de baleias encontradas ao acaso no litoral. A
atividade de caça com embarcação está registrada em inscrições rupestres na Ásia e Norte da
Europa desde cerca de 9 mil anos atrás (REEVES; SMITH, 2006). Os baleeiros desta época
utilizavam arpões com veneno para que a baleia diminuísse sua intensidade de movimentos e
fosse mais facilmente rebocada ou direcionada para a costa.

As baleias eram caçadas por sua carne e gordura, e até hoje alguns grupos aborígenes,
como os Inuit, do Ártico, ainda caçam alguns animais sob autorização internacional. Estes
grupos consideram a baleia um animal sagrado, que traz prosperidade, e aproveitam o máximo
que podem dos animais caçados, devido ao grande aporte de energia que acrescentam
sazonalmente a sua dieta. As barbatanas também são aproveitadas para fazer cestas, artesanatos
e cobrir telhados, enquanto os ossos oferecem alguns tipos de ferramentas tradicionais e
mascaras rituais (LOWENSTEIN, 1994).

Os Bascos são tidos como os precursores da caça comercial de baleias, iniciada no golfo
de Biscaia no século XI e expandida a regiões tão distantes como a Terra Nova, na costa
Atlântica canadense. Um dos empreendimentos do povo basco foi implantar a caça no Brasil,
em 1603, mais precisamente na Bahia. A pesquisadora Miriam Ellis, passou parte de sua vida
investigando e descrevendo as atividades de pesca da baleia no Brasil colonial, resultando em
um livro (ELLIS, 1968) como fonte inestimável de informações sobre a importância deste

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Plantando a história baleeira para colher conservação da biodiversidade: a importância do resgate sobre as interações entre
humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

animal na formação da sociedade brasileira. Como parte dos temas históricos e sociais sobre a
caça no Brasil que se seguiram, destacamos alguns estudos como a inserção de escravos
alforriados e sua ascensão social na Ilha de Itaparica, primeiro expoente da cultura baleeira no
pais (CASTELLUCCI, 2005) e a importância da baleia como recurso enérgico no Brasil
colônia, através de uma análise das armações nos estados da Bahia e de Santa Catarina
(COMERLATO, 2010).

Entre os séculos XVIII e XIX, as baleias eram caçadas principalmente pelo seu óleo,
que era utilizado na iluminação geral, como combustível para lâmpadas, além de lubrificante,
enquanto as barbatanas rígidas eram usadas na confecção de guarda-chuvas, saias armadas e
outros acessórios femininos. Outro produto valorizado era o ambergris, derivado do processo
digestivo no estômago dos cachalotes e, também por isso, esta espécie foi muito visada nesta
época, gerando o período da exploração sul americana do Oceano Atlântico e Pacífico (Figura
4), rendendo milhões em lucro para nações como Inglaterra, Franca, Espanha, Holanda,
Dinamarca, Alemanha, Estados Unidos, Japão e um decréscimo populacional de cerca de 90%
para as grandes baleias no globo (ESTES et al., 2006).

Fig. 4: Ruínas de armação baleeira na Ilha Georgia do Sul, considerado o maior centro mundial da atividade na
primeira metade do século XX. (Foto: Marcos Rossi-Santos)

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Plantando a história baleeira para colher conservação da biodiversidade: a importância do resgate sobre as interações entre
humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

A escala da retirada de baleias do ambiente marinho somente diminuiu quando a


Comissão Internacional da Caça a Baleia (International Whaling Commission) criou uma
moratória de proibição da captura destes animais em 1982, regulamentando quotas para grupos
aborígenes, como os Inuit, desde 2004. Atuais nações baleeiras incluem a Noruega, a Islândia
e o Japão, que formam um bloco a favor do retorno da caça comercial, enquanto muitos países
como Brasil, Argentina, África do Sul e Austrália formam o grupo a favor do não-retorno da
caça comercial e do uso não-letal dos cetáceos como recursos naturais e ecológicos, através de
sua importância na regulação de processos naturais no oceano e, no aspecto sócio-economico,
através do segmento de ecoturismo, o chamado “turismo de observação de cetáceos” ou “whale-
whatching”.

Ainda hoje, os cetáceos continuam presentes na arte e literatura moderna, como, por
exemplo, o clássico de Herman Melville, Moby Dick, onde um grande cachalote branco faz o
principal personagem antagônico ao capitão Ahab, em sua incessante busca de vingança. O
romance foi baseado em acontecimentos reais adaptados da época das grandes explorações por
cachalotes, nos séculos XVIII e XIX, como a ocorrência de animais brancos (albinos) e o
naufrágio do baleeiro Essex, após captura de um grande e violento cachalote macho
(FILBRICK, 2001). Vale também citar o interessante trabalho do compositor e ambientalista
Jim Nolmann, que há vinte e cinco anos desenvolve estudos sobre comunicação entre animais
e humanos, através das artes, como a música (NOLMANN, 2002).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

- Cetáceos estão intimamente associados aos humanos, refletidos amplamente na história,


antropologia, biologia, ecologia e essa visão interdisciplinar abrangente soma na variedade do
conhecimento necessário para a conservação da natureza no mundo do século XXI.

- A cultura de proximidade com o oceano e cetáceos, desenvolvida pelos povos tradicionais,


pode servir de reflexão para a sociedade moderna. Há uma necessidade de ressignificação do
elemento natural para sair do paradigma de uso e submissão dos recursos naturais.

- O caminho atual, da valorização dos cetáceos como patrimônio natural da humanidade, através
de atividades como a observação de espécies em ambiente natural (whale-watching) tem se
demonstrado uma atividade de conscientização para a busca harmoniosa de uma longa
convivência histórica.

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Plantando a história baleeira para colher conservação da biodiversidade: a importância do resgate sobre as interações entre
humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

- A complementaridade de abordagens cientificas para a conservação da natureza, idealmente,


poderia contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade futura que se mantenha conectada
de forma integral com o mundo que habita, de forma a conhecer suas ações no passado no
momento presente e planejar um futuro com a base do próprio “auto” conhecimento ao nível
de espécie, o Homo sapiens, que conheci a si mesmo.

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Plantando a história baleeira para colher conservação da biodiversidade: a importância do resgate sobre as interações entre
humanos e cetáceos
Marcos R. Rossi Santos e Renata Martinho Zambonim

REFERÊNCIAS
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New Zealand. Australian folklore, v. 29, 2014.

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BOAS, F. The mind of the primitive man. The Macmilliam Company, Nova York, 2010.

CASTELLUCCI, W. Pescadores e baleeiros:
a atividade da pesca da baleia nas últimas décadas dos oitocentos
Itaparica: 1860-1888. Afro-Ásia, v. 33, 2005.

CIRLOT, J.C. Dicionário de Símbolos, Editora Morais, Sao Paulo, 1990.

COMERLATO, F. A baleia como recurso energético no Brasil. Anais do Simpósio Internacional de Historia
Ambiental e Migrações. UFSC, Florianópolis, 2010.

DIEGUES, A.C.S. Povos e Mares: Leituras em Sócio-Antropologia marítima. NUPAUB-USP, São Paulo, 1995.

ELLIS, M. A baleia no Brasil colonial, São Paulo, Edusp, 1968.

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FILBRICK, N. In the Heart of the Sea: The Tragedy of the Whaleship Essex. Penguin Books, Nova York, 2001.

JONAITIS, A. From the Land of the Totem Poles. University of Washington Press, Washington, 1998.

LOWENSTEIN, T. Ancient Land, Sacred Whale: The Inuit Hunt and Its Rituals. Reed Business Information, Londres,
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MILINKOVITCH, M., THEWISSAN, J. Even-toed fingerprints on whale ancestry. Nature, v. 388, 1997.

NELSON, S.M. The Archaeology of Korea. Cambridge University Press, Cambridge, 1993.

NOLMANN, J. The man who talks to whales: The art of interspecies communication. Sentient Publications, Bolder,
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PRIMACK, R.B., RODRIGUES, E. Biologia da conservação. Editora Vida, Londrina, 2001.

POSEY, D. Etnobiologia: teoria e prática. In: RIBEIRO, B. Suma Etnológica Brasileira: Etnobiologia. Vozes/FINEP,
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REEVES, R.R., SMITH, T.D. A Taxonomy of world whaling. In: ESTES, J.A., DEMASTER, D.P., DOAK, D.F.,
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PERSHING, A., SMETACEK, V. Whales as marine ecosystem engineers. Frontiers in Ecology and the Environment,
v. 12, 2014.

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Até onde o turismo de observação pode interferir no comportamento dos cetáceos?
Ruanna Chaves-Santos, Giovanna Simões dos Santos Bastos, Drielle Sâmela Costa da Cruz e Marcos Roberto Rossi-Santos

ATÉ ONDE O TURISMO DE OBSERVAÇÃO PODE


INTERFERIR NO COMPORTAMENTO DOS CETÁCEOS?
Ruanna Chaves-Santos

Giovanna Simões dos Santos Bastos

Drielle Sâmela Costa da Cruz

Marcos Roberto Rossi-Santos

Os cetáceos são mamíferos aquáticos pertencentes à Ordem Cetacea, e inclui neste


grupo baleias, golfinhos e botos (POUGH et al, 2008). Estes possuem especializações únicas
que o auxiliam na sua vida aquática, como um sistema auditivo bastante desenvolvido que emite
sons de baixa frequência, possibilitando a comunicação entre os grupos, ainda que distantes
espacialmente, como exemplo pode ser citado a ecolocalização que é caracterizado por ser a
emissão de sons em comprimento de ondas curtas, que serve como um sonar biológico
(JACOBINA, 2000).
Historicamente, a relação entre cetáceos e embarcações foi delicada e até trágica para
estes animais. Baleias e golfinhos, durante anos, foram alvos de intensas caças de navios
baleeiros ao redor do mundo, dizimando assim populações inteiras de cetáceos
(CARWARDINE et al, 1998; MORAIS et al, 2016).
Durante séculos, os cetáceos foram explorados como recurso pelos humanos
(FERREIRA, 2007), as baleias jubarte, por exemplo, foram exploradas de forma violenta,
comercialmente em quase toda sua área de ocorrência, na maioria das vezes para obtenção de
óleo e carne para consumo, inclusive na costa brasileira, onde cerca de 350 baleias foram
capturadas no Nordeste brasileiro no ano de 1913 (WILLIAMSON, 1975 apud SIMÕES et al,
2005).
Porém, com o início da moratória sobre a caça das baleias, este quadro foi revertido
ao decorrer dos anos. A maioria dos cetáceos passaram a ser consideradas espécies-bandeiras,
ou seja, são símbolos para conservação não só da espécie em si, como também de seu habitat e
consequentemente de outros seres vivos que estejam inseridos neste mesmo local (PRIMACK
& RODRIGUES, 2001).
Agora como espécies-bandeiras, a apreciação dos cetáceos foi direcionada então, para
o ecoturismo, mais precisamente, o turismo de observação de baleias, o qual contribui com a
educação ambiental, ajudando a sociedade a entender a importância da conservação marinha e
por conseguinte o seu habitat, através da aproximação do turista com o animal. Em 1996, o

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Até onde o turismo de observação pode interferir no comportamento dos cetáceos?
Ruanna Chaves-Santos, Giovanna Simões dos Santos Bastos, Drielle Sâmela Costa da Cruz e Marcos Roberto Rossi-Santos

turismo de observação, criou um cenário favorável para que baleias e golfinhos fossem
protegidos (SIMÕES et al, 2005).
O Turismo de Observação, conhecido internacionalmente como, whale watching, é
conceituado por HOYT (2001), como passeios de barco, ar ou de terra, formal ou informal, com
pelo menos algum aspecto comercial, para visualizar ou nadar com qualquer uma das 83
espécies de baleias, golfinhos e botos. Considerado por alguns autores como ecoturismo, a
indústria do turismo de observação de cetáceos surgiu em resposta à redução de populações de
baleias em todo o mundo (SIMÕES et al, 2005).
Essa observação gera uma maior sensibilização na população e através da educação
ambiental estabelecida juntamente ao whale waching, pode-se perceber que houve e continua
havendo, um aumento significativo na população de cetáceos, como por exemplo, a população
de baleias jubarte que vem para a área de reprodução no sul da Bahia (PAVANATO et al, 2017;
WEDEKIN et al, 2017), este crescimento foi significativo para retirada da espécie da lista dos
animais ameaçados de extinção do IBAMA.
O ecoturismo e turismo de observação da vida selvagem são promovidos
freqüentemente como atividade que podem contribuir com a conservação dos recursos naturais
(BALLANTYNE, PACKER, & FALK, 2011 apud JACOBS & HARMS, 2013), auxílio na
renda local, gerando mais empregos para a comunidade costeira, além de contribuir para
pesquisas científicas (FERREIRA, 2007). Como descrito por HIGHAM et al (2016), o turismo
marinho se tornou uma das novas formas de geração de renda, ficando à frente da aquicultura
e da pesca.
Em 1993, a observação de cetáceos foi reconhecida pela International Whaling
Comission (IWC), como uma atividade turística legítima, que contribui para a economia,
educação e principalmente para o conhecimento científico proporcionando a conservação da
espécie. A IWC estabeleceu também que os países-membro da comissão deveriam identificar
os possíveis efeitos das embarcações de observação de cetáceos nos mesmos, estimulando os
estudos científicos nas áreas em que é exercida tal atividade.
No Brasil, o turismo de observação teve início no começo de 1980, no Arquipélago de
Fernando de Noronha. Inicialmente, com espécies de água doce, no Amazonas, em meados dos
anos 80 e no final de 1990 para as baleias na Bahia e em Santa Catarina (BUELONI, 2009).
Atualmente, o whale watching no Brasil tende a crescer significativamente a cada ano
(SIMÕES et al, 2005).
O turismo de observação, geralmente ocorre em áreas cruciais da história natural destes
animais, como em rotas migratórias ou áreas de alimentação e reprodução, e exatamente por

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Até onde o turismo de observação pode interferir no comportamento dos cetáceos?
Ruanna Chaves-Santos, Giovanna Simões dos Santos Bastos, Drielle Sâmela Costa da Cruz e Marcos Roberto Rossi-Santos

serem em áreas de grande importância para a biologia e comportamento dos animais, podem
ser extremamente prejudiciais, interferindo na sobrevivência das espécies (ROE et al, 1997
apud SIMOES et al, 2005), como em Abrolhos, por exemplo, que é o maior berço reprodutivo
do Atlântico Sul (ZERBINI et al, 2006), mas, não excluindo a ocorrência delas em regiões
como Praia do Forte, Morro de São Paulo, durante seu período de reprodução e cria nas águas
da costa brasileira.
Estudos de impactos antropogênicos em cetáceos vêm sendo desenvolvidos em vários
lugares do mundo (GROCH & PALLAZO, 2007), e a presença desses animais próximos a costa
intensificam estas interações, principalmente no que se diz respeito ao turismo de observação,
ao contato dos cetáceos frente às embarcações turísticas.
A observação de cetáceos, além de ser uma atividade comercial, de cunho
socioeconômico, pode contribuir a nível educacional, ambiental e científico. Além disso, a
pressão do uso turístico dos mesmos pode desencadear programas de conservação tanto do
ambiente, quanto dos indivíduos e também levar a conscientização da necessidade dessa ação,
para a população (SCHLINDWEIN et al, 2011), e aumento da pesquisa cientifica sobre a
história natural e comportamento dos animais em seu habitat (BRUMATI,2008), além de
estimular o entendimento da importância da conservação marinha nos turistas e apreciadores
de tal atividade (HOYT, 2001).
Entretanto, o uso turístico dos cetáceos pode também ser visto como uma forma de
exploração prejudicial para as espécies (ORAMS, 2000), já que são praticamente escassos, os
conhecimentos sobre os efeitos do turismo, a curto e longo prazo no comportamento dos
cetáceos.
Ainda que seja uma iniciativa interessante, pois pode sensibilizar os turistas em relação
à conservação da espécie, o turismo de observação se não for corretamente aplicado, pode
causar inúmeros efeitos nos comportamentos dos animais, como o aumento na velocidade de
natação, aumento no intervalo de mergulho, ou seja, ficando mais tempo embaixo d’água;
mudança nas taxas de ocorrências dos comportamentos, alteração na distribuição geográfica,
comportamento agressivo, e até variações na vocalização e reprodução (MORETE et al, 2007;
SOUSA-LIMA & CLARK , 2008; OLIVEIRA, 2005).
Estes efeitos podem ser extremamente prejudiciais, sendo de longo a prévio prazo. Uma
vez que essas observações turísticas são realizadas geralmente, em áreas costeiras, que podem
ser locais de residência, reprodução e alimentação, como é o caso boto-cinza (Sotalia
guianensis) no Brasil, que se distribui pela costa do Atlântico tropical e subtropical da América

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Até onde o turismo de observação pode interferir no comportamento dos cetáceos?
Ruanna Chaves-Santos, Giovanna Simões dos Santos Bastos, Drielle Sâmela Costa da Cruz e Marcos Roberto Rossi-Santos

do Sul e Central, desde Honduras até Santa Catarina no Sul do Brasil (FLORES & DA SILVA,
2009).
Ainda não existe uma legislação a nível mundial que regulamente o turismo de
observação, isso se dá devido à diferença na ocorrência de espécies de um país para o outro,
tornando inviável uma regulamentação universal, porém os países podem estabelecer tal
regulamentação à luz dos códigos de conduta desenvolvidos pela IWC juntamente com outras
organizações (OLIVEIRA, 2005). Apesar disso, alguns países onde ocorre o whale whatching,
não há legislação específica que regule a atividade e limite seus impactos (REEVES et al., 2003
apud ROMAGNOLI, 2011) sujeitando assim os organismos a qualquer tipo de molestamento,
seja ele aproximação indevida da embarcação ou alta emissão de sons antropológicos.
Porém, como resultado do rápido crescimento do turismo de observação dos cetáceos,
muitos países vêm adotando normas para a execução dessa atividade, restringindo,
principalmente, o número de embarcações e a distância mínima entre estas e o grupo de animais
(SIMÕES et al, 2005).
No Brasil, foram criadas normas de avistagem pelo IBAMA - Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, que visam prevenir e acabar com o
molestamento intencional de cetáceos em águas jurisdicionais brasileiras, estabelecendo, por
exemplo, quantos metros de distância as embarcações devem estar dos cetáceos. Porém,
sabemos que a criação de leis, não exclui a possibilidade de transgressão das mesmas.
Sendo assim, o IBAMA criou a Portaria Nº 117, que deixa explícito como esta atividade
deve ser realizada, por exemplo, permite-se que a embarcação se aproxime do cetáceo, até 100m
de distância, deixando o motor obrigatoriamente no neutro, para que os ruídos das embarcações
não prejudiquem os golfinhos e baleias, ou também sons de música, percussão ou algo do tipo
(IBAMA, 1996; 2002), e dessa forma, poder conservar não apenas as espécies em foco, mas
toda a biodiversidade da área utilizada.
Na Austrália, por exemplo, o Queensland Department of Environment and Heritage
(1997), órgão que regulamenta as normas de avistagem no estado de Queensland, permite, para
áreas de especial interesse, uma proximidade máxima de 300m entre a embarcação e o grupo
de baleias (SIMÕES, 2005), trazendo ainda mais segurança para os turistas e para os cetáceos.
É importante enfatizar que os sons em ambiente aquático se dissipam com maior
facilidade e é através deste mecanismo que as baleias e golfinhos utilizam para a comunicação
entre grupos através dos assobios, localização espacial e localização da presa, através da
emissão de cliques de ecolocalização. Portanto, a alta taxa de emissão de ruídos no ambiente
aquático, seja ele oriundo do motor da embarcação ou oriundo de músicas ou qualquer outro

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Até onde o turismo de observação pode interferir no comportamento dos cetáceos?
Ruanna Chaves-Santos, Giovanna Simões dos Santos Bastos, Drielle Sâmela Costa da Cruz e Marcos Roberto Rossi-Santos

tipo de sons produzidos durante o turismo, pode ter efeitos cruciais na biologia dos animais,
como por exemplo, aumento da frequência dos assobios e deficiência nos órgãos auditivos
(NOWACECK et al, 2007).
Alguns países, associado ao turismo em embarcações, promove natação e mergulhos
com os cetáceos (HOYT, 2001), porém, cabe lembrar que a natação com os mesmos é um
procedimento que apresenta riscos, não só para o animal como também para o ser humano e
que não é recomendada em muitos países, como na Austrália, Argentina e Chile
(ROMAGNOLI, 2011).
Os impactos negativos que o turismo pode desencadear nos cetáceos são notórios, porém
não se pode deixar de lado a grande contribuição, no que diz respeito à conservação do meio
ambiente como um todo que o mesmo pode promover, além da geração de renda para as
comunidades que desempenham esta atividade (SILVA-JR, 2017). Dessa forma, para que ele
continue gerando bons frutos para a população humana, e principalmente que os animais alvos
do turismo não sejam prejudicados, é importante que a execução desta ação seja de forma
responsável e sempre monitorada.
As normas e leis estabelecidas auxiliam na segurança de ambos os lados, não só do
turista, como também dos cetáceos. Além disso, a orientação dos turistas no momento da
realização da atividade minimiza os impactos que o turismo pode ter, como fazer com que os
turistas entendam que se aproximar deles é diferente de ser aproximado por eles (PROJETO
BALEIA JUBARTE, 2016; SILVA-JR, 2017).
Por isso, não basta apenas criar e instituir leis, as mesmas devem ser monitoradas,
punindo os infratores e fiscalizando constantemente os responsáveis pelos turismos de
observação de cetáceos ao redor do mundo, garantindo assim uma gestão sustentável dessa
atividade, que pode sim, de fato ser benéfica para todos os envolvidos, principalmente, as
baleias, botos e golfinhos.

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Até onde o turismo de observação pode interferir no comportamento dos cetáceos?
Ruanna Chaves-Santos, Giovanna Simões dos Santos Bastos, Drielle Sâmela Costa da Cruz e Marcos Roberto Rossi-Santos

REFERÊNCIAS
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75
O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

O USO DO VELEIRO COMO FERRAMENTA DE


CONSERVAÇÃO MARINHA E RESGATE HISTÓRICO-
CULTURAL DA RELAÇÃO ENTRE O HOMEM E OS
CETÁCEOS
Tais Bemfica Araujo

Carlos Eduardo Copatti

Marcos Roberto Rossi-Santos

Daniel dos Santos Lewis

INTRODUÇÃO
Historicamente a utilização do barco a vela tornou possível o contato entre civilizações,
o deslocamento de pessoas e mercadorias por distâncias cada vez maiores e a exploração de
espécies marinhas (BRAGA, 2013). Entre 8000 e 6000 anos atrás, o veleiro foi uma invenção
essencial para tornar possível a existência das primeiras cidades (DAVIS, 2012). Civilizações
de navegadores da antiguidade, como chineses, vikings, fenícios, egípcios e polinésios,
desenvolveram evoluções na construção de embarcações e suas velas permitindo ampliar sua
utilização (SAAD, 2012).
Embora o barco a vela tenha perdido espaço para embarcações a motor, estudos prévios
têm demonstrado que o veleiro continua a ser usado com fins de transporte (MASCARENHAS;
PEIXOTO, 2009), lazer, esporte (GRAEL, 2001), apoio a pesquisa científica (GANNIER,
2011; CUCKNELL et al., 2013) e educação (GAWEL; GREENGROVE, 2005).
O uso do veleiro contribui com a conservação marinha na medida em que: permite a
coleta de dados científicos sem interferência de motor; contribui para a sensibilização ambiental
proporcionando maior aproximação dos participantes ao ambiente marinho, resgata aspectos da
história e da cultura das populações locais; e permite a prática do ecoturismo. A produção de
conhecimento científico a bordo de uma embarcação a vela servirá de base para o manejo
adequado de espécies e recursos no ambiente marinho.
A capacidade do veleiro de atracar em diversos portos facilita o intercâmbio de
informações. Isso permite estudar a interação histórico-cultural das pessoas com os cetáceos. O
barco a vela pode ser centro de pesquisa, veículo de alcance, sala de aula flutuante e embaixador
global para a conservação marinha com baixo custo de operação e baixo impacto, permitindo
que um maior número de pessoas tenha acesso ao ambiente marinho. A principal característica
de uma ferramenta de conservação marinha bem-sucedida é a incorporação das partes
interessadas em todas as fases do processo (LUNDQUIST; GRANEK, 2001).

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O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

O melhor entendimento da importância do barco à vela para a conservação marinha


pode ser compreendido com auxílio de entrevistas. A entrevista como técnica de pesquisa
qualitativa tem sido usada na investigação científica, principalmente como fonte de coleta de
dados (GODIN; FRASER, 2004), buscando propositalmente os indivíduos que vivenciam o
problema em foco e/ou têm conhecimento sobre ele (TURATO, 2005). Dessa forma, este estudo
se propôs a avaliar por meio de entrevistas semiestruturadas o uso de embarcação a vela como
ferramenta de conservação marinha.

CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO


O estudo foi realizado no Estado da Bahia-Brasil entre Praia do Forte, Salvador, ilha de
Itaparica, Itacaré, Caravelas e Abrolhos durante as atividades de pesquisa, educação e
ecoturismo da embarcação a vela Lucky Lady (Figura 1).

Fig. 1: Veleiro Lucky Lady ancorado em Abrolhos, agosto, 2016.

COLETA DE DADOS
Para o levantamento de dados foram realizadas entrevistas qualitativas semiestruturadas
com o tema “O uso da embarcação a vela como ferramenta de conservação marinha” durante o
período de 17 de agosto de 2016 a 17 de junho de 2017, com as seguintes perguntas:
1. Você já velejou? Qual a sua experiência a bordo de uma embarcação a vela?
2. Você acha que o uso da embarcação a vela pode contribuir com a conservação marinha? Por
quê? Como? Qual a importância do uso do barco a vela para a conservação marinha?

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O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

Os participantes (Anexo I) foram selecionados devido ao seu envolvimento direto com


a conservação marinha, a exemplo de gestores ambientais, mestres de embarcação, turistas,
estudantes, esportistas, velejadores e ecólogos.
A coleta dos depoimentos foi realizada individualmente. Os depoimentos foram
gravados por meio do celular modelo Iphone 5S através do aplicativo “voice memos”. Uma
claquete com dia, hora, local, nome, função do entrevistado e uma breve introdução sobre a
pesquisa foi gravada pelo pesquisador antecedendo os depoimentos (Figura 2).

Os áudios foram transcritos e salvos em forma de texto. Os depoimentos foram


analisados a partir da metodologia “Análise de Discurso”, a fim de investigar a percepção do
participante e identificar diferentes abordagens e concepções. Este método permite
comparações e análises qualitativas aprofundadas sobre o tema investigado.

Fig. 2: Roberto Fortes, biólogo e velejador, entrevistado a bordo do veleiro Lucky Lady no Parque
Nacional Marinho dos Abrolhos no dia 25.08.2016. Foto: Marcos Rossi

RESULTADO E DISCUSSÃO
A partir do que foi proposto, foram entrevistadas 26 pessoas entre brasileiros e
estrangeiros com envolvimento direto com a conservação marinha. O uso de uma abordagem
narrativa para cada participante permitiu uma análise dos dados da perspectiva do próprio

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O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

indivíduo explorando como as respostas relacionavam-se com as teorias inerentes à pesquisa


(CRESWELL, 2009).
Os depoimentos dos participantes foram agrupados em 4 categorias: educação, pesquisa
científica, ecoeficiência e logística (Fig. 3). A definição dos temas ocorreu a partir do
agrupamento dos discursos mais explorados pelos entrevistados. Apesar de individualizados e
separados em categorias, os temas dos discursos citados pelos entrevistados se relacionam entre
si.
De acordo com as informações obtidas, os depoimentos trouxeram diferentes
justificativas sobre a importância do veleiro para conservação marinha, o que pode ter sido
influenciado por circunstâncias pessoais, acadêmicas ou desejos individuais.
Todos os entrevistados relataram que o uso do veleiro contribui com a conservação
marinha. Na maioria das vezes, os discursos foram enquadrados em mais de uma categoria,
devido à quantidade de informações obtidas a partir dos depoimentos.

Fig, 3: Avaliação qualitativa das entrevistas.

O USO DO VELEIRO COMO FERRAMENTA DE CONSERVAÇÃO MARINHA


ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO

A categoria EDUCAÇÃO se refere a “Sala de aula flutuante”; “Vivência pessoal”;


“Trabalho em equipe”; “Sensibilização no ambiente natural”, “Pessoas incorporam outros
valores e percepções” e “Turismo de observação de cetáceos”.

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O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

A vivência no mar a bordo de uma embarcação a vela é uma oportunidade para a


sensibilização e aprendizado (MCCULLOCH, 2007). (Fig 4).

Fig. 4: Jovens do Programa de Educação Ambiental e Comunicação Social do Bahia


Marina visitam o veleiro para conhecer como as expedições científicas são realizadas.
Outubro de 2016.

O acesso a vivências de campo e envolvimento em projetos de pesquisa enriquece a


aprendizagem (CAPURSOA; BORSCIB, 2013). A aprendizagem experimental a bordo de uma
embarcação a vela é o meio mais eficaz de educar e reter os estudantes no ramo da ciência
(GAWEL; GREENGROVE, 2005).
A pesquisa realizada com jovens em treinamento de vela oceânica na Europa, América
do Norte e Austrália demonstrou que o participante adquire autoconfiança, compromisso e
desenvolve outras habilidades (MCCULLOCH et al., 2010). Treinamento em embarcação à
vela requer que os participantes enfrentem desafios, tanto físicos, quanto emocionais, incluindo
instrução em todos os aspectos (HENSTOCK, 2013).
O valor real do ecoturismo está na possibilidade de enriquecer a experiência humana e
aumentar o conhecimento (PRIMACK; RODRIGUES, 2001), através de um aspecto
educacional, promovendo melhor compreensão das espécies-alvo e de seu habitat (WILSON;
GARROD, 2003). O ecoturismo apresenta uma alternativa de recreação baseada no consumo
para um turismo dentro do ambiente natural através do conhecimento da biodiversidade e
cultura local sem remover ou destruir animais ou habitats (HALL 1994; DIAMANTIS 1999).

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O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

O USO DO VELEIRO COMO FERRAMENTA DE CONSERVAÇÃO MARINHA NA


LOGÍSTICA

A categoria LOGÍSTICA se refere a “Baixo custo”; “Transporte de pesquisadores” e


“Fiscalização de áreas marinhas protegidas”. Foi a categoria menos explorada pelos
entrevistados, provavelmente devido a quantidade de pessoas entrevistadas com esta expertise.
O barco a vela utilizado como meio de transporte de pesquisadores e/ou na fiscalização
de áreas marinhas protegidas é útil devido à sua sustentabilidade, baixo consumo de
combustível e baixo custo.

O USO DO VELEIRO DEVIDO A SUA ECOFICIÊNCIA

A categoria ECOFICIÊNCIA se refere a “Autonomia” e “Baixo impacto ambiental”. A


ecoeficiência, processo de otimização operacional que beneficia o ambiente (HUPPES;
ISHIKAWA, 2005), pode ser atribuída ao veleiro por sua capacidade de deslocamento a
grandes distâncias com menor custo, ruídos, emissão de poluentes e impacto ambiental do que
embarcações a motor.
O veleiro com as velas bem ajustadas pode navegar facilmente a uma velocidade de 6
nós. Esta é a velocidade normalmente utilizada pelas embarcações a motor que realizam turismo
de observação de baleias e/ou transporte de pessoas. Porém, as embarcações a motor gastam
muito mais combustível, emitem muito mais gases poluentes para a atmosfera, são mais
onerosas, além do grande ruído emitido.

O USO DO VELEIRO NO APOIO A PESQUISA CIENTÍFICA


A categoria PESQUISA CIENTÍFICA se refere a “Plataforma de pesquisa”; “Estudo
do meio ambiente” e “Estudo das espécies”. A pesquisa realizada a bordo de embarcação a vela
está provando ser uma das mais eficazes e não invasiva plataforma de pesquisa de baleias no
mundo (CUCKNELL et al., 2013).
O uso da embarcação a vela como ferramenta de conservação marinha através do apoio
à pesquisa científica é um tema recente no Brasil. Porém, já existem iniciativas que utilizam
veleiros nas suas atividades, gerando contribuições importantes para o conhecimento, a
exemplo da embarcação Lucky Lady que realiza monitoramento da população do boto cinza,
Sotalia guianensis, na baía de Todos os Santos e mapeamento acústico da baleia jubarte,
Megaptera novaeangliae, na costa dada Bahia (Fig 5 e 6).

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O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

Fig. 5: Pesquisadores observando cetáceos a bordo do veleiro Lucky Lady. Agosto


de 2016. Foto: Tais Bemfica

Fig. 6: Baleia jubarte registrada em Abrolhos a bordo do veleiro Lucky Lady. Foto:
Daniel Lewis

CONCLUSÃO
O uso de embarcação a vela em seus diversos usos (educação, logística, ecoeficiência e
apoio a pesquisa científica) é, portanto, uma excelente ferramenta de conservação marinha e
uma solução alternativa concreta para o desafio energético e mudança climática devido a sua
baixa emissão de dióxido de carbono na atmosfera, redução do consumo de combustíveis
fósseis e baixo ruído nos oceanos.

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O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

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O uso do veleiro como ferramenta de conservação marinha e resgate histórico-cultural da relação entre o homem e os cetáceos
Tais Bemfica Araujo; Carlos Eduardo Copatti; Marcos Roberto Rossi-Santos e Daniel dos Santos Lewis

ANEXO I - ENTREVISTADOS E RESPECTIVAS CATEGORIAS DE INCLUSÃO

PARTICIPANTE EDUCAÇÃO PESQUISA CIENTÍFICA LOGÍSTICA ECOEFICIÊNCIA

Amyr Klink ✓ ✓ ✓ ✓

Aline do Carmo X ✓ ✓ ✓

Bernardo Cerqueira ✓ X ✓ ✓

Carlos Felipe ✓ ✓ ✓ ✓

Clarencio Baracho ✓ ✓ ✓ ✓

Danielle Moscou ✓ ✓ X ✓

Daniel Venturini ✓ ✓ X ✓
Domingos Maguila X ✓ X ✓

Enrico Marcovaldi X ✓ X ✓

Erley Cruz ✓ X X ✓

Frank Heyninck X X ✓ ✓

Guy Marcovaldi X ✓ ✓ ✓

Heloísa Schurmann ✓ ✓ X ✓

Jyl Chrystena X ✓ X ✓

José Truda Palazzo ✓ ✓ ✓ ✓

Laura Ifill ✓ ✓ X ✓

Luena Fernandes ✓ ✓ ✓ ✓

Marcia Engel ✓ ✓ X ✓

Mateus Lewis X X X ✓

Milton Marcondes ✓ ✓ X ✓

Neca Marcovaldi ✓ ✓ ✓ ✓

Priscila Steffen X X ✓ ✓

Rafaela Souza ✓ ✓ X ✓

Roberto Fortes ✓ ✓ X ✓

Teco Padaratz ✓ X X ✓

Tom Curren ✓ ✓ ✓ ✓

Total 18 20 12 26

84
SOBRE OS AUTORES
ORGANIZADORES
Fabiana Comerlato
Possui graduação em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1995), mestrado em História
(concentração em Arqueologia) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1998) e
doutorado em História (concentração em Arqueologia) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul (2005). Pós-doutorado em Ciências Sociais pela UFBA (2006) e pós-doutorado em Desenho, Cultura
e Interatividade da UEFS (2018). Professora (Associada I) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia,
é professora permanente do Programa de Mestrado Profissional em História da África, da Diáspora e dos
Povos Indígenas e do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia e Patrimônio Cultural. Tem experiência
na área de Arqueologia, atuando principalmente nos seguintes temas: patrimônio arqueológico, arqueologia
histórica, baleação, estudos cemiteriais, educação patrimonial e arte rupestre.

Daniel Quiroz
Antropólogo formado pela Universidade do Chile (1978). Licenciado em Antropologia Social (1978),
mestre em Arqueologia (2002) e doutor em História (2015), títulos obtidos pela Universidade do Chile.
Atualmente, atua como pesquisador na Subdireção de Pesquisa do Serviço Nacional do Patrimônio Cultural
do Chile; também é professor do Departamento de Antropologia da Universidade do Chile. Suas principais
áreas de interesse são: a história da caça de mamíferos marinhos; as adaptações marinhas costeiras e
insulares; a etnografia histórica das máquinas e instalações industriais. Pesquisador responsável pelo
Projeto Fondecyt 1170318 Narrativas etnográficas y operaciones balleneras en las costas sudamericanas
entre los siglos XVII y XX: patrones, transformaciones y continuidades, financiado pelo Conselho Nacional
de Ciência e Tecnologia (CONICYT) do Chile. Publicou o livro Balleneros en la Niebla. Etnografía
Histórica de la caza de ballenas en Valdivia (2013) e organizou a coletânea Balleneros del Sur,
Antropología e Historia de la industria ballenera en las costas sudamericanas (2014).

AUTORES

Carlos Eduardo Copatti


Graduação em Ciências Biológicas (URI- 2002), Mestrado em Ciências Biológicas (UFSM - 2005),
Doutorado em Zootecnia (UFSM - 2008) e Pós Doutorado em Aquicultura pela Universidade Federal do
Rio Grande-FURG (2017). Trabalha com fisiologia de peixes teleósteos e macroinvertebrados bentônicos
dulcículas. É professor adjunto 4 do Instituto de Biologia da Ufba-Salvador/BA e coordenador do Leffa
(Laboratório de Estudo e Fisiologia de Fauna Aquática). Orienta nos Programas de Pós-Graduação da Ufba:
Diversidade Animal e; Zootecnia. Foi Vice-Coordenador (2013-2015) e Coordenador (2015-2016) do PPG
em Diversidade Animal.

Clara Resende Pires


Graduanda em bacharelado na área de Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Recôncavo da
Bahia. Pesquisa na área de Ecologia Comportamental de mamíferos junto ao Laboratório de Ecologia
Acústica e Comportamento Animal da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Daniel dos Santos Lewis


Possui graduação em Ciência Biológicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1996)
e mestrado em Biociências (Zoologia) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002).
Tenho experiência na área docente e de pesquisa, com ênfase em Ecologia Aplicada, atuando
principalmente nos seguintes temas: conservação marinha, dinâmica populacional, monitoramento de fauna
marinha e observador de biota marinha (cetáceos, tartarugas e aves marinhas).

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Drielle Sâmela Costa da Cruz.
Graduanda em bacharelado na área de Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Recôncavo da
Bahia.

Francisco Henriques
Doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e investigador colaborador do
Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Tem desenvolvido investigação
sobre a história social e económica do Estado Novo português, história oral e história da indústria baleeira
no arquipélago dos Açores.

Giovanna Simões dos Santos Bastos


Graduanda em bacharelado na área de Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Recôncavo da
Bahia. Atuação na área de comportamento e bioacústica de cetáceos, juntamente com o Laboratório de
Ecologia Acústica e Comportamento Animal da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Janaina Zito Losada


Docente da Universidade Federal do Sul da Bahia onde atua no Programa de Pós-Graduação em Estado e
Sociedade do Centro de Formação em Ciências Humanas e Sociais e no Instituto de Humanidades, Artes e
Ciências Jorge Amado. É Doutora em História pela Universidade Federal do Paraná, tendo realizado seu
pós-doutoramento em Meio Ambiente e Desenvolvimento no Centro de Desenvolvimento Sustentável na
Universidade de Brasília. Pesquisa a relação entre as sociedades e os animais não humanos na história do
Brasil. A história do Parque Nacional Marinho de Abrolhos e dos cetáceos figuram entre seus interesses
contemporâneos. Atualmente é Pró-reitora de Gestão Acadêmica da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Luena Fernandes
Mestre em Ecologia Aplicada à Gestão Ambiental pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Possui
Graduação em Zoologia e Pós-Graduação em Agricultura Orgânica pela Universidade do País de Gales -
Aberystwyth (UWA). Atuou como Educadora Ambiental no Instituto Baleia Jubarte entre 2005 e 2011 e
como Executora de Atendimento no Projeto Tamar, Praia do Forte/BA, entre 2012 e 2015. Desde 2016 é
Assessora da Presidência no Instituto Baleia Jubarte. Tem experiência na área de pesquisa e monitoramento
com cetáceos e tartarugas marinhas e em educação ambiental, com ênfase na conservação dos ambientes
marinho-costeiros e turismo sustentável.

Márcia Helena Engel


Possui graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (1991) e mestrado em Biociências (Zoologia) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (2003), onde caracterizou a variabilidade genética e comprovou a área de alimentação das
baleias-jubartes brasileiras através da análise do DNA mitocondrial. Atualmente é Diretora Presidente do
Instituto Baleia Jubarte. Atua principalmente em gestão e políticas públicas. Foi membro da delegação
brasileira na Comissão Baleeira Internacional (CIB) de 2000 a 2009.

Marcos Roberto Rossi-Santos


Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (1997), mestrado em Zoologia
pela Universidade Federal do Paraná (2006) e doutorado em Psicobiologia/Comportamento Animal pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (2012). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia,
coordenando o Laboratório de Ecologia Acústica e Comportamento Animal, e professor colaborador do Programa de
Pós-Graduação em Ecologia e Biomonitoramento, da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, Estado da Bahia. Tem
experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia Comportamental de Animais Vertebrados, atuando
principalmente nos seguintes temas: Ecologia de Cetáceos, Comportamento Animal, Bioacústica, impactos
antropogênicos, Conservação, boto-cinza Sotalia guianensis, baleia-jubarte, Megaptera novaeangliae, Costa do Brasil.

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Renata Martinho Zambonim
Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Catarina(1995) e mestrado
em Recursos Genéticos Vegetais pela Universidade Federal de Santa Catarina(2001). Tem experiência na
área de Botânica, com ênfase em Botânica Aplicada. Atuando principalmente nos seguintes
temas:Restauração; Conservação; Banco Dados; PEST.
Ruanna Chaves-Santos
Graduanda no curso de Bacharelado em Biologia, pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
(UFRB) e estagiária do Laboratório de Ecologia Acústica e Comportamento Animal (LEAC). Durante sua
formação, participou do Programa de Educação Tutorial, por meio do PET MATA ATLÂNTICA:
Conservação e Desenvolvimento, realizando atividades e pesquisas de acordo com a tríade ensino, pesquisa
e extensão e estagiou no Instituto Baleia Jubarte, desenvolvendo o estudo comportamental das Baleias-
Jubarte a partir do Ponto Fixo no Arquipélago de Abrolhos. Tem experiência na área de Zoologia e
comportamento animal, atuando nos seguintes temas: Ponto Fixo, estudo comportamental, boto cinza,
baleia jubarte, conservação.

Sérgio Cipolotti
Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP (1995),
concluindo sua especialização na Universidade UNIJORGE em Ecologia e Intervenções Ambientais;
(2011), e mestre em Ecologia pela Universidade Santa Cruz (UESC) 2013. Atualmente é coordenador de
equipe e atividades de campo pelo Instituto Baleia Jubarte em Praia do Forte durante a temporada
reprodutiva (julho a outubro) a bordo das embarcações de turismo e pesquisa para coleta de dados
científicos. Atuando como MMO no Projeto de Monitoramento de Cetáceos na Bacia de Santos (PMC-BS).
Tem experiência na área de conservação marinha e coordenação de equipe.

Tais Bemfica
Bióloga e mestranda em ecologia na Universidade Federal da Bahia, foi estagiária do Instituto Baleia
Jubarte (2003), tripulante do capitão Paul Watson da ONG Sea Shepeard (2004) em expedição na costa
brasileira, trabalhou como assistente voluntária da bióloga australiana Megan Kessler que avaliou o impacto
do turismo de observação de baleias em Sydney e em Tonga (2007-2009), foi tripulante do veleiro escola
Fraternidade em expedição de volta ao mundo com o capitão Aleixo Belov (2010 – 2011) e tripulante
pesquisadora do veleiro inglês Song of the Whale na travessia do Atlântico de Salvador a Portugal (Abril
– Maio 2018). Atualmente trabalha com turismo de observação de baleias na Praia do Forte e conservação
marinha.

Victor Melo Souza


Graduando em Bacharelado em Biologia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), com
interesse na área de zoologia e conservação, atuando como estagiário no Laboratório Ecologia Acústica e
Comportamento Animal (LEAC).

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